¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, agosto 20, 2014
 
AZALÉIAS DE AGOSTO *


Era agosto. Elas se abriam em meu jardim com essa obscenidade com que sempre se abrem as flores, cumprindo sua missão natural de flores. Quanto mais floresciam, mais fenecias. Todos as manhãs eu atravessava aquele festival orgíaco de vermelho, rosa, branco e roxo, rumo ao amarelo ictérico que começava a envelopar tua pele, essa pele que por tantas décadas acarinhei.

"Onde estiver, vou sentir tua falta" - me disseste, com voz que jamais senti tão grave. Querendo afagar-me, suspeitando que pela última vez, te enganavas. Não estarás em parte alguma. Partiste para o grande nada, onde nada existe e ninguém sente falta de ninguém.

Quem vai sentir tua falta, todos os dias até o último deles, é este que fica e que em algum lugar sempre estará. Pelo menos até o dia em que não mais estiver. Quem parte descansa. Sofre quem fica. O que até me consola um pouco. Quem está sofrendo, pelo menos não és tu.

De novo é agosto e elas retomaram seu ritual exibicionista. Paranóicas, escondem-se nas primaveras e agora torturam meus invernos. Não apenas os meus, mas os de tantos outros cujos seres amados escolheram agosto para partir. Certa noite de setembro, eu conversava com jovens já contaminados pela resfeber, enfermidade nórdica que significa febre de viagens. Sedentos de vida, perguntaram a este ser tantas vezes acometido pela doença: qual é a mulher mais linda do mundo? Em que geografias pode ser encontrada?

Caí em prantos. A mulher mais linda do mundo, eu a conheci. E a tive. E agora não mais a tinha. Não a encontrara em distantes longitudes nem em países exóticos. Encontrei-a a meu lado, neste prosaico país, e nunca mais a abandonei. Quis a vida - ou talvez tenha quisto eu - que tivesse centenas de mulheres, algumas muitas queridas, outras nem tanto mas também desejadas, mais uma multidão de rostos mais ou menos anônimos, corpos sempre lembrados. Mentira da vida, mentira minha. Em verdade, tive só uma. Tu, que partiste no auge das azaléias.

"Eu não tenho medo da morte" - me disseste ainda, um pouco antes da passagem rumo ao nada. Mesmo desbotada pelo palor da vida que foge, estavas linda como nunca estiveste. Em tuas quase seis décadas, conservavas ainda aquele eterno rostinho de criança, que a passagem dos anos jamais conseguiu te roubar.

Sedada, já no torpor da morte, chamaste tuas últimas energias, te ergueste no leito. Levantando o dedinho, didática qual professora falando a seus pupilos, sussurraste com o que te restava de voz: "E se fizéssemos assim: eu assino um documento: eu, TKM, em pleno uso de minhas faculdades mentais, declaro que quero ter meus restos cremados no cemitério da Vila Alpina". Reuni minhas forças e consegui balbuciar: não te preocupa, Baixinha adorada, isto há muito está combinado, verme algum sentirá o gosto de tuas carnes. Tuas cinzas, vou jogá-las de alguma ponte em Paris, uma daquelas pontes que tanto amaste, para que saias navegando mares afora.

Passada a mensagem, te reclinaste em paz. Mas descumpri o trato. Não as joguei em Paris. Ficarias muito longe de mim, navegarias talvez por mares gelados e hostis, encalharias em geleiras e te perderias em fiordes, longe de meu calor. Com carinho, te plantei entre os rododendros e todas as manhãs passo entre ti e murmuro: adorada. É bom te cumprimentar. Mas como dói.

A vida nos foi pródiga, e isso é talvez o que mais machuque. Nestes últimos meses, tenho sentido uma secreta inveja de homens que casam com megeras horrendas. Quando elas partem, começa a felicidade. Se morrer feliz é o almejo de todo homem, esta graça não mais está reservada a quem um dia foi feliz. É duro conjugar certos verbos no passado. Dizia Pessoa:

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...


Bobagens de poeta, que tanto influenciaram meus dias de jovem. Verdade que sem ti correrá tudo sem ti. Mas isto vale para as azaléias - seres insensíveis que sequer perceberam a ausência de quem as adorava tanto - e para o resto da humanidade. Para quem perdeu o ser mais lindo da vida, é mero jogo de palavras.

As azaléias em breve irão perdendo seu sorriso orgíaco, suas cores fenecerão e agosto que vem estarão de novo florescendo, despudoradas. Tuas cores feneceram agosto passado e pelo resto de meus agostos não mais te verei florir.

* in memoriam 20 de agosto de 2003

terça-feira, agosto 19, 2014
 
CADÊ A PAPISA JOANA? *


Isso sem falar na crônica sexual dos papas. Comentei a história há quatro anos. A cortesã mais famosa do Vaticano foi certamente Lucrécia Bórgia, amante do pai, o papa Alexandre VI, e também de seu irmão, o cardeal César Bórgia. Rodrigo de Bórgia, como se chamava o pontífice eleito em 1492, graças à compra dos votos dos cardeais, foi quem patrocinou o famoso baile das castanhas, em que sessenta prostitutas nuas dançaram para os cardeais no Vaticano. Foram jogadas castanhas ao chão, e as bailarinas tinham de apanhá-las. Mas não com as mãos, diga-se de passagem. Foram concedidos prêmios aos homens que copulassem com mais mulheres naquela noite memorável.

Se o leitor quiser uma abordagem ficcional sobre Alexandre VI, pode procurar nas locadoras o belíssimo filme Contos Imorais, de 1974, do cineasta polonês Walerian Borowczyk. Enquanto Savonarola queima na fogueira, por ter denunciado os hábitos libertinos do Vaticano, uma Lucrécia nua (interpretada pela radiante Florence Bellamy), espichada sobre um corrimão do Vaticano, atende ao mesmo tempo o papa e o cardeal, estes devidamente paramentados com as vestes eclesiásticas. Tudo muito sacro e solene.

Isso sem falar no papado de Sérgio III, que inaugurou o período chamado pelos historiadores de pornocracia, como também de "reinado das prostitutas". Mas o melhor da crônica é a história da papisa Joana. Segundo cronistas, no século IX uma mulher teria assumido a curul pontifícia, como sucessora do papa Leão IV, com o nome de João VIII. Originária da Alemanha, vestiu-se de homem e assumiu o nome de João da Inglaterra. Ficou na história como a papisa Joana. Em uma procissão da basílica de São Pedro até Latrão, acometido das dores do parto, o papa caiu do cavalo e fraturou o crânio, tendo morte imediata.

A partir daí, as eleições papais exigiram a verificação do sexo do candidato. Antes da sagração, o eleito era instalado numa cadeira furada, o estercorário. O camerlengo passava então a mão pelo buraco, para examinar os documentos. Em caso positivo, proferia as palavras rituais: habemus papam. Para a Igreja, tanto a papisa quanto o estercorário não passam de lenda, logo esta Igreja que considera como fato a virgindade de Maria e sua assunção aos céus. Si non è vero è ben trovato. Lenda ou fato, vale a imagem.

Falar nisso, está faltando um filme nas telas do Brasil. Ano passado, o cineasta alemão Sönke Wortmann filmou o romance histórico Die Papstin (A Papisa Joana), de Donna Woolfolk Cross, publicado em 1996. O filme foi concluído em julho passado e entrou nas telas alemãs em outubro. Cá neste país, sempre apressado em lançar abacaxis politicamente corretos tipo Avatar, sequer se ouve falar do filme de Wortmann.

Para os leitores que quiserem mais informações, avanço alguns títulos. Devo ter mais em minha biblioteca, mas estes já dão uma boa idéia do assunto:

Histoire de l'inquisition au Moyen Âge, de Henry Charles Lea, Paris, Robert Lafont, 2004 - um clássico, o precursor de toda a literatura sobre a Inquisição. 1458 páginas. Recomendo vivamente.
Enciclopedia de los herejes y las herejías, de Leonard George, Barcelona, Ediciones Robinbook, 1998.
La véritable histoire des papes, Jean Mathieux-Rosay, Paris, Jacques Grancher, 1991.
La chair, le diable et le confesseur, de Guy Bechtel, Paris, Librairie Plon, 1994.
The Female Pope, por Rosemary & Darroll Pardoe, Wellingorough, Crucible, 1988. Tradução ao espanhol: El Papa mujer - El misterio de la Papisa Juana, Barcelona, Ediciones Martinez Roca, 1990.
La Papisa Juana, de Emmanuel Royidis, Buenos Aires, Editorial Sudamericana, 1973.

* 19/03/2010

domingo, agosto 17, 2014
 
A MORTE DE AÉCIO NEVES

Com a morte de Eduardo Campos, morre também a candidatura de Aécio Neves. Imagine um segundo turno com Aécio e Dilma. O eleitorado de Marina vai votar no PT e Dilma será reeleita.

Imagine o outro cenário, Dilma e Marina no segundo turno. O PSDB não vai votar em Dilma. Vence Marina. Se não vencer, teremos Lula e Marina em 2018.

A eleição será entre o barro e a lama. O panorama é estarrecedor, como diria a presidente.

sábado, agosto 16, 2014
 
DRA. RUBRA VULVA E
AS CANÇÕES LADINAS *



(Nestes últimos meses, os jornais têm publicado notícias sobre a insolvência da USP. Nada de espantar. Republico crônica escrita há três anos).

Há horas venho afirmando que as universidades brasileiras são as agências de turismo mais em conta para jovens com pouca grana e muita sede de conhecer o mundo. Em meus dias de Santa Catarina, a melhor agência era, sem dúvida alguma, a UFSCTUR. Quatro ou cinco anos às margens do Sena, com todas as mordomias, para estudar o teatro do nordestino Nelson Rodrigues ou os dialetos do Veneto... no meio-oeste catarinense. Muitas vezes, o doutorando voltava de mãos abanando, mas que se vai fazer? Nem todos conseguem terminar uma tese.

Já tive notícias de uma professora de literatura comparada gaúcha, que atravessou o planeta, de Porto Alegre a Tóquio, para apresentar um vital comunicado, de vinte minutos... sobre literatura comparada. Conheci outra que foi de Brasília a Paris, para apresentar um textículo de poucas páginas sobre Guimarães Rosa em um colóquio na Sorbonne. Isso sem falar de acadêmicos que vão estudar Clarice Lispector em Londres ou Berlim. Tudo isto, às custas do contribuinte.

A USPTUR também tem se revelado muito conveniente para voltas ao mundo. Leio nos jornais que, a fim de identificar as características culturais da alimentação mundial, pesquisadores do Laboratório de Ecologia Isotópica do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP viajaram o mundo para analisar o Big Mac, principal e mais conhecido produto da rede de fast-food McDonald's, que está presente em mais de 100 países. "O lanche, considerado o carro-chefe do McDonald's, funciona como um poderoso traçador do sistema de produção de carne dos países. O hambúrguer fornece diversas e variadas informações", informa o pesquisador Luiz Antonio Martinelli, responsável pela pesquisa divulgada pela USP.

Os pesquisadores uspianos se muniram de alta tecnologia. Para descobrir onde e como é produzido o principal produto do Big Mac, o hambúrguer, a pesquisa rastreou a cadeia alimentar do gado. Martinelli chegou à conclusão que, apesar de o Big Mac ser uma comida global, seu sabor é local, pois o hambúrguer é originário do rebanho de cada país. "Mas isso não ocorre no mundo todo. Os isótopos estáveis do carbono e do nitrogênio da carne contida em cada um dos Big Macs estudados mostraram, por exemplo, que o lanche consumido no Japão é proveniente da Austrália, com gado alimentado com gramíneas do tipo fotossintético C4".

Esta conclusão foi baseada no fato que as carnes dos lanches japoneses tinham uma razão isotópica do carbono-13/carbono-12 mais elevada do que os esperados num país baseado em uma agricultura de ciclo C3. O fato comprova que o Japão importa carne da Austrália, onde prevalece o modo fotossintético C4 da lavoura, ou seja, das plantas que suportam altas luminosidades, fato que não ocorre no país nipônico.

Ou seja, para concluir que o Japão importa carne da Austrália, os bravos pesquisadores precisaram deslocar-se às antípodas. Não seria mais fácil – e bem mais econômico - enviar uma consulta às câmaras de comércio de ambos os países? Ou às franquias do McDonald’s? A pesquisa permitiu chegar a três conclusões. "A primeira é que com um simples hambúrguer é possível rastrear o que o gado come pelo mundo todo. A segunda nos confere a possibilidade de estabelecer como carnes produzidas em diferentes países viajam pelo mundo. E a terceira é que, por uma questão de mercado, o igual não é tão semelhante assim", relata Martinelli, que empregou o conceito "glocal" (global + local) para caracterizar o Big Mac.

Será preciso ir a Tóquio ou Camberra para saber o que o gado come no mundo todo? Além disso, para que serve ao conhecimento nacional saber o que os bois comem nas diferentes latitudes? Gastar milhões de reais para saber que o igual não é tão semelhante assim?

Turismo disfarçado de pesquisa e nada mais do que isso. O que me lembra o caso da Dra. Rubra Vulva, da Universidade Federal de Santa Catarina. Se a dita cuja era rubra, não sei. Ocorre que ela escreveu um poema onde falava de “minha rubra vulva”. Pediu, levou. A doutora elaborou um projeto de pesquisa comparativa do cancioneiro ladino. Ou seja, turismo garantido por onde quer que houvesse sefarditas: Espanha, Portugal, Israel e países do norte da África. Não fiquei sabendo quantos países visitou. Mas Dra. Rubra Vulva tinha especial consideração pelas verbas públicas que recebia. Segundo minhas fontes na Receita Federal, tentou abater de seu imposto de renda até mesmo os cafezinhos que tomava em aeroportos.

Há muitas teses lindas de defender, e de vital interesse para a humanidade. Generoso como sou, sugiro algumas:

O comportamento sexual das adolescentes nórdicas nas ilhas gregas. Creta, Mykonos, Santorini, Lesbos, Paros, Antiparos, etc.

A tributação da banana nas ilhas canárias. Tenerife, Gran Canária, Lanzarote, Fuerte Ventura, El Hierro, La Palma, Gomera.

As variantes regionais da pizza na Sicília, Calábria, Costa Amalfitana e Emilia Romagna. Palermo, Siracusa, Agrigento, Taormina, Tropea, Amalfi, Positano, Ravello, Bolonha, Rimini, Modena, Parma, Ravenna.

As concepções sueca e dinamarquesa do smörgåsbord. Passeios pelos canais de Estocolmo e Copenhague, Millesgården, Gamla Stan, Tivoli.

As traduções de Machado em Berlim, Londres, Roma e Paris. Spree, Kurfürstendamm, Tâmisa, Convent Garden, Tibre, Trastevere, Coliseu, Capitólio, Sena, Champs Elysées, Quartier Latin, torre Eiffel, Notre Dame, Louvre, etc.

A incidência de luz solar nos fjordes noruegueses durante o verão e inverno boreais. Bergen, Trondheim, Bodø, Lofoten, Tromsø.

Gadus morhua e o conceito de bacalhau nas ilhas Lofoten. De preferência com sol da meia-noite.

A influência de Jean Genet na dramaturgia rodrigueana. Dias tranqüilos às margens do Sena.

O Alienista, de Machado, e Nau dos Insensatos, de Sebastian Brant. Alsace-Lorraine, Strasbourg, Nancy, Meuse, Moselle.

As sutis nuanças das safras de Rioja no País Basco. San Sebastián, Navarra, Pamplona.

A cuisine du terroir em Provence. Marselha, Aix-em-Provence, Avignon, Arles.

Traços de Simone de Beauvoir na obra de Raquel de Queiroz. Mais dias tranqüilos em Paris.

As distintas arquiteturas dos castelos do Val de Loire. Um roteiro romântico pelos castelos medievais da França.

A geografia humana do Quartier Latin. Mais dias tranqüilos às margens do Sena.

A consistência das massas nos restaurantes do Trastevere. E o melhor da culinária de Roma.

Os fluxos migratórios em Kreutzberg. Turismo em um dos bairros mais típicos de Berlim.

Vasto é o mundo e vastos são os campos do conhecimento humano. Se você é acadêmico e tem pistolão junto à Capes ou CNPq, não se peje. Vá em frente que o contribuinte paga.

* 13/07/2011

quinta-feira, agosto 14, 2014
 
DO NEPOTISMO À SANTIDADE...


...em 24 horas. Ontem, acusado de nepotismo. Hoje, santo. A santidade respingou até em seu avô, Miguel Arraes, um dos celerados banidos do Brasil por querer transformá-lo em republiqueta soviética.

Tio de Campos continua em diretoria de estatal federal

Folha de São Paulo – 07/08/21014
Ranier Bragon

Tio do candidato de oposição à Presidência da República Eduardo Campos (PSB), Marcos Arraes de Alencar continua ocupando um cargo de direção na estatal federal Hemobras, apesar de há seis meses o governo de Pernambuco, então comandado pelo sobrinho, ter informado que ele havia pedido demissão. Alçado ao cargo em 2011 por indicação da gestão de Campos em Pernambuco –o governo estadual tem participação minoritária na estatal–, Marcos Arraes disse nesta quarta-feira (6) que nunca pediu para sair, embora tenha avaliado a hipótese.

Ele afirma que conversou com Campos sobre sua permanência. "Consultei [Campos], claro. (...) Ele me disse: 'Se você pedir demissão, vou ter que indicar outro, então dá no mesmo'", afirmou o tio do presidenciável.

Em setembro de 2013, Campos liderou o rompimento do PSB com Dilma Rousseff, primeiro passo para se lançar ao Palácio do Planalto, e hoje é um dos principais críticos da administração petista. Na ocasião, anunciou a entrega dos cargos e ministérios que a sigla tinha no governo.

Cerca de cinco meses depois, a Folha mostrou que indicados pelo PSB ainda continuavam em órgãos federais. Na ocasião, a Secretaria de Imprensa do governo de Pernambuco informou que o tio de Campos havia pedido demissão e que aguardava apenas a indicação do substituto para deixar o posto. Filho do ex-governador Miguel Arraes (1916-2005), Marcos Arraes cumpre mandato de quatro anos como diretor de Administração e Finanças da Hemobras (Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia), com salário mensal de R$ 26,4 mil.

Com participação minoritária do governo de Pernambuco, a estatal federal é vinculada ao Ministério da Saúde. O tio de Campos diz não ver constrangimento em sua permanência na função. "Veja só, se eu pedir demissão, o meu cargo é do governo do Estado. Então me disseram, 'não peça não', já que é do governo do Estado, vai vir outro indicado pelo governo do Estado", afirmou.

Campos diz não ver nada de errado em ter feito campanha para sua mãe no TCU

Estadão – 12/08/2014
Ana Fernandes

Candidato do PSB defende Ana Arraes e afirma que ministra do Tribunal de Contas da União tem feito trabalho digno e com méritos

O candidato a presidente Eduardo Campos (PSB) disse não ver problema em ter feito campanha para sua mãe, Ana Arraes, ser eleita ministra do Tribunal de Contas da União (TCU). "Ela disputou a eleição com vários deputados, foi a única mulher que ganhou no voto e tem feito um trabalho que todos reconhecem como digno e com méritos", disse há pouco em entrevista ao Jornal Nacional.

Questionado se teria dado um bom exemplo, usando seu empenho enquanto governador de Pernambuco para eleger a mãe a um cargo público e vitalício, Campos disse não ver "nada de errado" em sua postura. "Se fosse outra pessoa (do meu partido) eu também teria apoiado", argumentou.

Campos foi perguntado ainda sobre os primos de sua esposa Renata Campos, Marcos Loreto e João Campos, que foram indicados para o Tribunal de Contas do Estado (TCE), órgão responsável por fiscalizar as contas de seu governo em Pernambuco. O candidato argumentou não ser um caso de nepotismo pois essas indicações são feitas pela Assembleia Legislativa e não pelo Executivo. Afirmou também ter sido o primeiro governador a aprovar uma lei antinepotismo.

Eduardo Campos

Editorial Folha de São Paulo – 14/08/2104

Morte do candidato do PSB retira da campanha presidencial um dos maiores fatores de renovação do cenário eleitoral brasileiro

Na violência cega de um acidente aéreo, perdeu-se uma das personalidades mais promissoras da vida política nacional. Aos 49 anos, Eduardo Campos vinha de uma bem avaliada gestão no governo de Pernambuco para representar, na disputa à Presidência da República, o difícil e estimulante papel de alternativa à tradicional polarização entre petistas e tucanos no plano federal.

Seu perfil o habilitava de forma singular para esse desafio, embora a própria campanha --tragicamente interrompida-- tivesse ainda de desenhá-lo com mais nitidez.

Neto, por parte de mãe, do mitológico líder esquerdista Miguel Arraes, de quem foi secretário da Fazenda nos anos 1990, Campos tinha, pelo lado paterno, ligações com os setores mais conservadores da política local.

O lastro de herdeiro de Arraes não o impediu de procurar caminhos próprios na cena pernambucana --do mesmo modo que, ex-ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo Lula, percebeu que suas perspectivas seriam limitadas caso seu partido, o PSB, se mantivesse por mais tempo à sombra do situacionismo petista.

Escorado nos altos índices de crescimento econômico obtidos em seu período como governador, bem como numa visão administrativa sem ranços ideológicos, Campos procurou aproximar-se do empresariado, adiantando-se em relação ao mineiro Aécio Neves (PSDB) na disputa pelo campo de oposição à presidente Dilma Rousseff (PT).

terça-feira, agosto 12, 2014
 
RUMO A UM MUNDO
SEM GRAÇA ALGUMA



Lá pelos anos 90, quando o Brasil importou, via esquerdas ianques, a moda do políticamente correto – eufemismo para stalinismo na linguagem – entrou em vias de extinção um gênero muito nosso, a piada. Venho denunciando este crime cultural há uns bons quinze anos. No que não sou nada original. Não passa dia sem que a imprensa o denuncie.

Mas com uma curiosa contradição: enquanto denunciam a nova moda através de seus articulistas, os jornais se comportam como politicamente corretos em seus artigos. Conforme o contexto, já não se fala mais em negros, mas em afrodescendentes. (Outro dia li esta pérola, indivíduo não branco). Homossexuais está virando palavra de dicionário antigo. Agora o correto é homoafetivos. Bicha virou crime. A palavra sexo está sendo substituída por gênero.

O politicamente correto está inclusive falseando filmes. Revi outro dia M.A.S.H. – filme que muito me fez rir nos dias de minhas universidades – na televisão, em uma maldita versão dublada, mas com legendas. Em um jogo de futebol americano, há um momento em que a torcida adversária chama um jogador negro de macaco. Assim ficou na legenda, ao que tudo indica, antiga. Na dublagem, o macaco foi corretamente trocado por rato. Ou seja, não mais se respeita sequer uma obra de arte.

O zelo das esquerdas chegou a tal ponto que o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem foi substituído pela expressão neutra frase neutra em termos de género, Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. (A palavra gênero, na frase, não é minha. É da Wikipedia, em verbete que discute o politicamente correto).

Apesar da veemente condenação dos jornalistas, a nova tirania linguística só tem crescido a cada ano que passa. Piada de negro, hoje nem negro pode contar. O ano de 2011 foi um marco na escalada do politicamente correto. A interdição de piadas estendeu-se aos portugueses. Uma propaganda da rede de lanchonetes Habib's para promover seu bolinho de bacalhau não foi bem recebida pela comunidade portuguesa, que acionou órgãos de defesa do consumidor.

A campanha dizia que o preço do produto era uma piada e fazia brincadeiras jocosas: "Como se chama um homem inteligente em Portugal? Turista". Uma das piadas no papel das bandejas era: "Qual é o único português que serve para alguma coisa? O Manuel de instruções". O Instituto Brasileiro de Estudo e Defesa das Relações de Consumo disse ter recebido ao menos dez denúncias. "Trata-se de discriminação contra o consumidor", declarou na ocasião seu presidente, José Geraldo Tardin. A portuguesa Maria Teresa Ferreira Nunes, há 29 anos no Brasil, diz que se sentiu humilhada e constrangida. "Não tinha nada de propaganda, era só piada de português."

Ou seja, não se pode mais contar piadas de português. Ora, piada, de modo geral, sempre fazemos sobre o habitante do país vizinho. Isso quando o país tem algum prestígio. País sem prestígio não vale. Não ouvimos piadas sobre paraguaios ou uruguaios no Brasil. As piadas sempre se referem aos argentinos, e não são nada gentis.

Portugal pode estar geograficamente distante, mas está historicamente perto. Perfeitamente normal que entre nós existam piadas sobre portugueses. Da mesma forma, na França há muitas piadas sobre belgas. Os belgas são os portugueses dos franceses. E há muitas piadas de alemães sobre franceses. E de franceses sobre alemães. Os suecos fazem piadas em cima dos daneses. E os daneses fazem piadas de sueco de volta. Humor faz parte da vida.

Ou fazia. Com a emergência do tal de politicamente correto, fazer piada virou crime. Hoje, se você faz piada de negro, está arriscando prisão por racismo. Sem fiança. Mais um pouco, e será proibido fazer piada de judeu. Brasileiros, passamos a vida inteira fazendo piada de portugueses. E vice-versa. Nunca ninguém se ofendeu com isso. Agora, de repente, surgiram pessoas que se ofendem.

Ora, piada é piada. Tanto que não as levamos a sério. Quando faço piada de judeus, negros ou portugueses, não estou chamando ninguém de canalha ou coisa parecida. Estou fazendo humor, amigavelmente, com judeus, negros ou portugueses. Da mesma forma, não me incomodo se alguém fizer humor a meu respeito, seja pela condição de branco, brasileiro ou gaúcho. Só o que faltava, não podermos rir de nossos semelhantes. Só o que faltava proibir alguém de rir de mim.

Saudades dos 60, quando piada não era crime. Saudades do Colégio Santa Maria, dos maristas, em Santa Maria. Tive como colega de científico um anão, famoso na cidade, que era o pára-raios de todas as piadas. Nosso professor de Física, irmão Daniel, o chamava de massa zero: não afetava a lei da gravidade. Já para o irmão Leão, professor de Química, ele era o Baixinho das idéias fedorentas: tinha o ânus muito perto da cabeça. Quem mais se divertia com essas piadas todas era o próprio Trindade, o anão.

Trindade foi lenda na cidade. Fez vestibular para Medicina, onde escolheu ser pediatra. Já no desfile dos bichos, disse ao que vinha. Em um carro alegórico, foi montada uma sala de parto. A “parturiente” era o Norval, o gorducho da turma. De pernas abertas em uma mesa ginecológica, chegou às vascas da agonia ao passar pelo palanque da comissão julgadora. De seu ventre, puxado pelos pés e com um calção cor de pele, veio à luz o Trindade, esperneando e berrando com sua voz rouca. O umbigo era corda, que foi cortada com um machado sobre um cepo. Era o Dia das Mães e a brincadeira valeu alguns regougos da diocese. Mas nada além disso.

Glorioso como entrou na faculdade, da mesma forma dela saiu. Consta da lenda que, em sua formatura, foi com a turma para um bordel. Claro que todos queriam ver como se consumavam os fatos e postaram-se em torno à cama. O anão foi marinhando mulher acima, quando ela disse:
- Meu bem, tu passaste...
- Quero te beijar. Depois eu volto.

Lenda ou não, coroa uma trajetória. Tempos da escola risonha e franca, tempos que não volta mais. A praga está contaminando tudo, e mais rápido que o ebola. Leio na Folha de São Paulo que a reação de alguns alunos de um cursinho fez professores pararem com piadas. Os estudantes consideraram as brincadeiras machistas e homofóbicas e os pais cobraram explicações. Já os professores dizem que são mal interpretados e que as aulas perdem a descontração.

"O movimento feminista mais importante na história é o movimento dos quadris." "Mulher é como filme: só se revela no escuro." Piadas típicas de cursinho pré-vestibular como essas correm risco de extinção. As direções de instituições preparatórias frequentadas pela classe média alta paulistana têm orientado os professores a suspender comentários jocosos no intuito de evitar ameaças judiciais.

Alunos e especialmente alunas têm reclamado do que consideram machismo, homofobia e racismo aos pais, que cobram explicações.

Em sala, estudantes gritam, choram, cobrem seus rostos com a apostila, retiram-se e até despem-se - segundo relatos de professores à Folha, uma menina ficou de sutiã em protesto duas vezes no ano passado no Intergraus de Pinheiros. Nos corredores, afirmam que "o mundo é sofrido demais para tais brincadeiras".


É de menino que se torce o pepino. Claro que tais reações não surgem espontaneamente em jovens. É fruto de muita doutrinação de adultos. Daqueles adultos que, morta a luta de classes, de alguma luta precisam para sobreviver. Então jogam preto contra branco, homem contra mulher, portugueses contra brasileiros e até mesmo latinos contra europeus. No circuito politicamente correto, gostar da Europa já ganhou um pejorativo, eurocêntrico.

A regra básica é simples: só ria de quem está por cima. Piadas que tenham como alvo homens (exceção feita dos homossexuais), ricos e poderosos, pode. O que não pode é rir das mulheres, dos pobres e desvalidos. Ora, esta é a forma mas sofisticada de humor.

Estamos rumando a um mundo sem graça alguma.

segunda-feira, agosto 11, 2014
 
BÍBLICO TELHADO DE VIDRO


Ainda há pouco, um leitor espantava-se de que os judeus se consideravam “o povo eleito” de Deus. Como não considerar-se, se o Deus era deles e de mais ninguém? Jeová só tinha compromissos com os judeus. Os demais que buscassem socorro com os seus deuses.

Não falta quem ache que na Bíblia há um só deus. Ora, basta lê-la com atenção, para ver que os deuses são muitos. Diz Labão a Jacó: “Mas ainda que quiseste ir embora, porquanto tinhas saudades da casa de teu pai, por que furtaste os meus deuses?”

Diz Jacó à sua família: “Lançai fora os deuses estranhos que há no meio de vós, e purificai-vos e mudai as vossas vestes”.

Diz Jeová aos hebreus: “Porque naquela noite passarei pela terra do Egito, e ferirei todos os primogênitos na terra do Egito, tanto dos homens como dos animais; e sobre todos os deuses do Egito executarei juízos; eu sou o Senhor”.

Canta Moisés este cântico a Jeová: “Quem entre os deuses é como tu, ó Senhor? a quem é como tu poderoso em santidade, admirável em louvores, operando maravilhas?” Disse Jetro, o sogro de Moisés: “Agora sei que o Senhor é maior que todos os deuses; até naquilo em que se houveram arrogantemente contra o povo”.

Só no Pentateuco encontramos vários rivais de Jeová: Astarote, Baal, Dagom e por aí vai. Em momento algum Moisés afirma ser Jeová o único deus. Aliás, até o próprio Jeová reconhece a existência de seus pares, quando determina: “Não terás outros deuses diante de mim”. Os deuses eram muitos na época do Pentateuco. Jeová é apenas um entre eles, o deus de uma tribo, a de Israel. Em La Loi de Moïse, escreve Jean Soler: “Ora, nem Moisés nem seu povo durante cerca de um milênio depois dele – os autores da Torá incluídos – não acreditavam em Deus, o Único. Nem no Diabo”. Normal que cada deus proteja os seus.

Denis Lerrer Rosenfield é um dos bons articulistas do Estadão. Mas hoje parece ter esquecido o que consta da Torá. Que um católico ou protestante, desses que andam com a Bíblia no sovaco, ignore os textos sagrados, entende-se. Mas não um professor de Filosofia, ainda por cima judeu. Escreve Rosenfield:

Quando Deus veio a Jonas, instando-o a dirigir-se a Nínive para clamar "contra ela, porque sua maldade subiu à (Sua) presença", a maldade referida era a dos pecados cometidos por seus habitantes. Na tradição profética a missão do mensageiro de Deus consistia em produzir o arrependimento que seria seguido do perdão divino.

O que hoje está acontecendo nessa mesma região remete a outro tipo de maldade, a de terroristas islâmicos, abrigados num autointitulado Estado Islâmico do Iraque e do Levante, Isil na sigla em inglês, que procura impor a ferro e fogo sua cruel interpretação da Sharia. Para eles, outras religiões constituem algo por si mesmo imperdoável. Esse grupo se apoia no seguinte tripé da intolerância a outras religiões: abandono de casas e bens, conversão ou execução, com preliminares violentas como a matança de homens e o estupro de mulheres. Qualquer culto que se oponha a seus desígnios se torna imediatamente objeto dessa forma de terror.


Nada de novo sob o sol. Não foi isto que o bom Jeová determinou que seu povo fizesse com os antigos habitantes da Terra Prometida? Que fim levaram os amorreus, heteus, heveus, jebuzeus, cananeus e perizeus, amonitas e oabitas? Massacrados e empurrados a ferro e fogo pelo judeus dos territórios que Jeová lhes prometera, deles não temos mais notícias. Afinal, que escreve a História é o vencedor. E o vencedor foi Israel.

Êxodo 23:23 - Porque o meu anjo irá adiante de ti, e te introduzirá na terra dos amorreus, dos heteus, dos perizeus, dos cananeus, dos heveus e dos jebuseus; e eu os aniquilarei. (...) Enviarei o meu terror adiante de ti, pondo em confusão todo povo em cujas terras entrares, e farei que todos os teus inimigos te voltem as costas. Também enviarei na tua frente vespas, que expulsarão de diante de ti os heveus, os cananeus e os heteus.

Levítico, 26:29 - E comereis a carne de vossos filhos e a carne de vossas filhas. Destruirei os vossos altos lugares, derrubarei as vossas imagens do sol, e lançarei os vossos cadáveres sobre os destroços dos vossos ídolos; e a minha alma vos abominará. Reduzirei as vossas cidades a deserto, e assolarei os vossos santuários, e não cheirarei o vosso cheiro suave. Assolarei a terra, e sobre ela pasmarão os vossos inimigos que nela habitam. Espalhar-vos-ei por entre as nações e, desembainhando a espada, vos perseguirei; a vossa terra será assolada, e as vossas cidades se tornarão em deserto.

Números 31:7 - E pelejaram contra Midiã, como o senhor ordenara a Moisés; e mataram a todos os homens. Com eles mataram também os reis de Midiã, a saber, Evi, Requem, Zur, Hur e Reba, cinco reis de Midiã; igualmente mataram à espada a Balaão, filho de Beor. Também os filhos de Israel levaram presas as mulheres dos midianitas e os seus pequeninos; e despojaram-nos de todo o seu gado, e de todos os seus rebanhos, enfim, de todos os seus bens; queimaram a fogo todas as cidades em que eles habitavam e todos os seus acampamentos; tomaram todo o despojo e toda a presa, tanto de homens como de animais; e trouxeram os cativos e a presa e o despojo a Moisés, a Eleazar, o sacerdote, e à congregação dos filhos de Israel, ao arraial, nas planícies de Moabe, que estão junto do Jordão, na altura de Jericó. Saíram, pois, Moisés e Eleazar, o sacerdote, e todos os príncipes da congregação, ao encontro deles fora do arraial. E indignou-se Moisés contra os oficiais do exército, chefes dos milhares e chefes das centenas, que vinham do serviço da guerra, e lhes disse: Deixastes viver todas as mulheres? Eis que estas foram as que, por conselho de Balaão, fizeram que os filhos de Israel pecassem contra o Senhor no caso de Peor, pelo que houve a praga entre a congregação do Senhor. Agora, pois, matai todos os meninos entre as crianças, e todas as mulheres que conheceram homem, deitando-se com ele. Mas todas as meninas, que não conheceram homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós.

Números 31:25 - Disse mais o Senhor a Moisés: Faze a soma da presa que foi tomada, tanto de homens como de animais, tu e Eleazar, o sacerdote, e os cabeças das casas paternas da congregação; e divide-a em duas partes iguais, entre os que, hábeis na guerra, saíram à peleja, e toda a congregação. E tomarás para o Senhor um tributo dos homens de guerra, que saíram à peleja; um em quinhentos, assim dos homens, como dos bois, dos jumentos e dos rebanhos; da sua metade o tomareis, e o dareis a Eleazar, o sacerdote, para a oferta alçada do Senhor. Mas da metade que pertence aos filhos de Israel tomarás um de cada cinqüenta, tanto dos homens, como dos bois, dos jumentos, dos rebanhos, enfim, de todos os animais, e os darás aos levitas, que estão encarregados do serviço do tabernáculo do Senhor. Fizeram, pois, Moisés e Eleazar, o sacerdote, como o Senhor ordenara a Moisés. Ora, a presa, o restante do despojo que os homens de guerra tomaram, foi de seiscentas e setenta e cinco mil ovelhas, setenta e dois mil bois,e sessenta e um mil jumentos;e trinta e duas mil pessoas, ao todo, do sexo feminino, que ainda se conservavam virgens.

Deuteronômio 32:19 - Vendo isto, o Senhor os desprezou, por causa da provocação que lhe fizeram seus filhos e suas filhas;(...) Males amontoarei sobre eles, esgotarei contra eles as minhas setas. Consumidos serão de fome, devorados de raios e de amarga destruição; e contra eles enviarei dentes de feras, juntamente com o veneno dos que se arrastam no pó. Por fora devastará a espada, e por dentro o pavor, tanto ao mancebo como à virgem, assim à criança de peito como ao homem encanecido.

Josué 6:20 - Gritou, pois, o povo, e os sacerdotes tocaram as trombetas; ouvindo o povo o sonido da trombeta, deu um grande brado, e o muro caiu rente com o chão, e o povo subiu à cidade, cada qual para o lugar que lhe ficava defronte, e tomaram a cidade. E destruíram totalmente, ao fio da espada, tudo quanto havia na cidade, homem e mulher, menino e velho, bois, ovelhas e jumentos.

Chega! Poderia ir bem mais longe se quisesse. Acusar os radicais islâmicos de massacres é tarefa infausta para um judeu. A sorte de Israel é que na época não existia ONU, tribunal de Haia, União Européia, muito menos imprensa livre.

Continua Rosenfield:

Quando o Mausoléu de Jonas foi destruído, há poucas semanas, observávamos o prenúncio do que viria a ser a perseguição sistemática de cristãos, yazidis e muçulmanos xiitas. Note-se que essa população cristã é uma das mais antigas do mundo, sendo constituída por poucas centenas de milhares de pessoas. Seu êxodo é já superior a 100 mil crentes, fugindo da morte e da violência. Não é melhor o destino da comunidade yazidi, cuja religião de tipo monoteísta é formada por um sincretismo entre zoroastrismo, islamismo, cristianismo e judaísmo. Não importa, pois eles caem sob a rubrica dos "infiéis", dos que devem ser extintos. Sua população fugiu para as montanhas e dezenas de crianças já foram mortas, enquanto 40 mil adultos estão, sem água e comida, à beira da morte.

Note-se que o Mausoléu de Jonas foi objeto de profanação precisamente por exprimir o reconhecimento de um profeta venerado por judeus, cristãos e muçulmanos. Na Bíblia, Deus lá aparece como magnânimo e benevolente, o que confere a esse livro uma significação particularmente ecumênica. Isso é intolerável para o terror islâmico. Quem não segue seus preceitos se torna um infiel. Infiéis são cristãos, judeus, yazidis e muçulmanos de outras orientações.

Nada muito diferente do que foi visto no Afeganistão quando o Taleban também destruiu belas esculturas budistas, consideradas como heréticas. Nada tampouco diferente do Estatuto do Hamas quando prega a exterminação dos judeus da face da Terra e a perseguição dos cristãos. O tronco é o mesmo, a diferença reside nos ramos que se desenvolveram segundo as peculiaridades de cada região. Al-Qaeda, Taleban, Irmandade Muçulmana, Isil e Hamas são apenas ramificações de uma mesma doutrina, baseada no culto da morte e da violência.


Nada que os judeus já não tenham feito:

Ezequiel 6:4 - E serão assolados os vossos altares, e quebrados os vossos altares de incenso; e arrojarei os vossos mortos diante dos vossos ídolos. E porei os cadáveres dos filhos de Israel diante dos seus ídolos, e espalharei os vossos ossos em redor dos vossos altares. (...) Em todos os vossos lugares habitáveis as cidades serão destruídas, e os altos assolados; para que os vossos altares sejam destruídos e assolados, e os vossos ídolos se quebrem e sejam destruídos, e os altares de incenso sejam cortados, e desfeitas as vossas obras.

Ezequiel 6:13 - Então sabereis que eu sou o Senhor, quando os seus mortos estiverem estendidos no meio dos seus ídolos, em redor dos seus altares, em todo outeiro alto, em todos os cumes dos montes, e debaixo de toda árvore verde, e debaixo de todo carvalho frondoso, lugares onde ofereciam suave cheiro a todos os seus ídolos. E estenderei a minha mão sobre eles, e farei a terra desolada e erma, em todas as suas habitações; desde o deserto até Dibla; e saberão que eu sou o Senhor.

Bárbarie? Claro que sim. Mas não exclusiva dos povos que sobreviveram aos genocídios (falo no plural) cometidos sob ordens do deus de Israel.

domingo, agosto 10, 2014
 
CANÁRIO


Não me esperaste, Canário! E como eu tinha causos pra te contar depois desta última campereada. Andei por plagas onde a geada era grossa de mais de palmo e o pasto cresce só de teimoso. Montei nuns matungo de duas corcova, de trote mais feio que potro redomão. Dancei com uma indiada de semblante maleva, cara embuçada, que reboleava os mosquete por cima da cabeça e terminava cada marca com um tiroteio. Ouvi uns gringo falando uma língua que não era língua, mais parecia doença da garganta. Vi uns maula tomando café com sal e comendo peixe podre, mais sastifeito que guri roendo rapadura. Tirei até uns retrato desses causo mais difícil de dar crédito. No meu peito sentia uma vontade de sentar contigo no oitão da Casa e ir proseando entre um mate e outro. Não me esperaste.

Levei muito tombo nestes rodeios da vida, só depois fui te entender. Um dia abandonei teu rancho, fui pro povoado, me tornei letrado e não te entendia. Acordavas antes dos galos e ias buscar as vacas naquelas manhãs brancas de geada. As vacas já na mangueira, me acordavas para o mate no galpão. Enquanto eu chorava com a fumaça da madeira verde, me contavas as peleias de Martín Fierro, histórias de contrabando, brigas de baile, intrigas de chinas. Eu só ouvia, era guri sem mundo. E agora que eu tinha uns causos pra te contar, não me esperaste.

Não te entendia. Eu, o letrado, o doutor, não entendia tuas lidas. Inverno e verão levantando cedo, apojando as vacas, tomando mate, rasgando a terra com o arado, largando a semente e cortando a aveia, colhendo o milho e fazendo a parva. Rasgaste tuas mãos alambrando, derrubaste cercas do Uruguai e Brasil fugindo de peleias que não eram tuas. Me ensinavas a encilhar um cavalo, clavar na volta-e-meia, manguear perdiz pro mundéu, tirar lonca e trançar laço. E tudo isto me parecia inútil. Eu não entendia teu lugar no universo. Um dia te entendi. Não me esperaste.

Te lembro já de noitinha, descendo o Cerro da Tala, voltando de um trago no bolicho do Jacinto. A cachorrada te saudava, eu corria até a sanga e voltava na garupa. (Onde andarão meus cachorros?). Voz já meio enrolada, um hálito de cachaça, apeavas contando as novas lá das Três Vendas. Eu desencilhava teu baio e voltava ligeirito para me acocorar na roda de chimarrão e ouvir as histórias que tu tinhas ouvido. A lua ia nascendo lá no Uruguai, do outro lado da Linha, e quem vai a bolicho não volta sem uma botellita debaixo do braço. E me falavas de causos de assombração que me gelavam o espinhaço e perturbavam meu sono. E agora eu tinha causos pra te contar. Não me esperaste.

A última vez que fui te ver... Sentias que era a última vez, eu não sentia. Vou pras Oropas e depois volto, pensei, pra mais um chimarrão. Tu sabias que aquele mate era o último. E quando juntei meus trapos pra voltar a Porto Alegre, choraste. Como não entrava em minha cabeça dura ver aquele gaúcho chorando, virei as costas e me vim. Ah, Canário! Nesta vida nada é mais sem volta que a morte. Mas esta lição sempre vem tarde.

Hoje te entendo em teu mundo, cumpriste teu ciclo no tempo e no espaço que te foi dado. E a dor que tua memória me traz, é dor que me revigora. Me dá até vontade de crer noutra vida depois desta, pra tomar mais uns mates e te contar aqueles causos que queria te contar.

Hasta luego, Canário!

sexta-feira, agosto 08, 2014
 
PARA QUANDO A CANONIZAÇÃO?


A igreja de Roma elegeu seus doutores por sua sapiência, crença em Deus e piedade. Com os tempos, jogou suas doutrinas ao lixo. É o caso do aborto. Admitido por São Tomás e Santo Agostinho, é punido com excomunhão pela Santa Madre.

Mas não só o aborto. Para Agostinho, inversamente, o suícidio é um crime. A vida é um dom sagrado de Deus e só ele dela pode dispor. Sua doutrina, em A Cidade de Deus, é enfática:

“Nós dizemos, declaramos e confirmamos de qualquer forma que ninguém tem o direito de espontaneamente se entregar à morte sob pretexto de escapar aos tormentos passageiros, sob pena de mergulhar nos tormentos eternos; ninguém tem o direito de se matar pelo pecado de outrem; isso seria cometer um pecado mais grave, porque a falta de um outro não seria aliviada; ninguém tem o direito de se matar por faltas passadas, porque são sobretudo os que pecaram que mais necessidade têm da vida para nela fazerem a sua penitência e curar-se; ninguém tem o direito de se matar na esperança de uma vida melhor imaginada depois da morte, porque os que se mostram culpados da sua própria morte não terão acesso a essa vida melhor”.

Deste crime, não eximiu sequer a casta Lucrécia, da antiga Roma. Violentada pelo filho de Tarquínio, revelou o fato a seu marido e a um parente, exigindo deles vingança. Mesmo assim, decidiu matar-se. O bispo de Hipona não perdoa. Na mesma obra, afirma que a casta Lucrécia foi assassinada:

“Que castigo vossa severa justiça reserva então para o assassino? Mas esse assassino é Lucrécia, essa tão enaltecida Lucrécia; foi ela que derramou o sangue inocente da virtuosa e casta Lucrécia”.

São Tomás não deixa por menos. O cristianismo condena o suicídio como violação ao quinto mandamento, não matarás. Para o aquinata, três são as justificativas para condenar o suicídio:

O suicídio é contrário à inclinação natural da pessoa de amar a si mesma; é um atentado à comunidade à qual a pessoa pertence e, seguindo Agostinho: a vida é um bem dado ao homem por Deus e quem a tira viola o direito divino de determinar sua duração na Terra.

Na Bíblia, onde encontramos seis suicidas – Abimeleque, Saul, Samuel, o escudeiro de Saul, Aitofel, Zinri e Judas – o suicídio é visto como assassinato. Há quem considere o gesto de Sansão como suicida, mas vá lá: seu objetivo era matar os filisteus e não a si mesmo. Só a Deus cabe decidir quando e como uma pessoa deva morrer. Agostinho admite não só a decisão de Sansão, como a de Santa Pelágia, que se matou para defender sua virgindade. Estes se distinguem da morte de Judas, considerada como uma morte ruim, a morte da traição, constituindo crime e pecado.

A Igreja Católica sempre negou assistência religiosa aos suicidas, como missa e enterro. Mas pra teólogos modernosos, a Igreja não lhes atribui a condenação eterna. “Somente Deus sabe o que se dá no foro interno da alma, quais as suas últimas disposições depois de desferir o golpe mortal; um suicida que se tenha sinceramente arrependido, embora não haja podido manifestar-se como tal, recebe de Deus o pleno perdão”.

Como não se sabe o que se passa na cabeça de um homem que se joga de um penhasco ou edifício no momento da queda, fica o dito pelo não dito. Seja como for, o suicídio sempre foi condenado pela Bíblia, pela Igreja e por seus doutores. Exceto, nestes dias que correm, quando o santo é de esquerda.

Manchete de hoje no Estadão:

Mártir da ditadura será relembrado com missas, palestras e testemunhos de historiadores teólogos que conviveram com ele no período da ditadura

O mártir da ditadura é Frei Tito de Alencar Lima, preso por ligações com a Ação Libertadora Nacional (ALN), da qual participaram Marighella, Dilma Roussef... e Aloyso Nunes, vice de Aécio Neves. Estes dois últimos tiveram melhor sorte. Preso e torturado no Brasil em 69 e 70, Frei Tito foi deportado para o Chile em janeiro de 71 e de lá fugiu para Roma, onde não encontrou apoio da Igreja Católica. Foi então para Paris e acabou se suicidando em Évreux, onde residia no convento Sainte-Marie de la Tourrete, em 10 de agosto de 1974.

Enterrado no cemitério do convento, seu corpo foi trasladado em 83 para Fortaleza. Antes passou por São Paulo, onde foi realizada uma celebração litúrgica de corpo presente em sua memória. O oficiante foi Dom Paulo Evaristo Arns, aquele cardeal que escrevia ternas missivas ao ditador Fidel Castro. A missa foi celebrada em trajes vermelhos, usados em celebrações dos mártires. Afinal, embora seja comum o número de estudantes suicidas nas capitais européias (inclusive eu tive um amigo que se enforcou em Berlim), considerou-se óbvio que a culpa da morte de frei Tito era da ditadura militar.

Os amigos e parentes de Frei Tito de Alencar Lima lembram, neste fim de semana, em São Paulo,os 40 anos de seu martírio, com missa, palestras e testemunhos de historiadores e teólogos que conviveram com ele no período da ditadura. A missa será celebrada, às 19 horas de sexta-feira, por d. Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau (SC), na Igreja de São Domingos, na rua Caiubi, 164, anexa ao Convento das Perdizes, onde Frei Tito e outros frades foram presos, em 1969, na véspera da morte de Carlos Marighella.

No sábado, a programação começará às 9h30, no Colégio Rainha da Paz, na rua Dona Elisa de Moraes Mendes, 39, Alto de Pinheiros. O professor de literatura Alfredo Bosi, da Universidade de São Paulo (USP), falará na abertura sobre a importância de se recordar Frei Tito hoje. Em seguida, o economista João Pedro Stédile, da direção do MST e da Via Campesina, dividirá com o padre e teólogo José Oscar Beozzo o tema Sentido Histórico da Ditadura civil-militar no Brasil e o papel da Igreja na Resistência Armada.


Santo de esquerda pode suicidar-se à vontade, sempre terá as homenagens das esquerdas católicas, com participação especial de um invasor de terras. Diz-me quem por ti chora e dir-te-ei quem és.

O Brasil precisa de santos. Para quando a canonização?

quinta-feira, agosto 07, 2014
 
CÂMARA DOS DEPUTADOS REDUZ
ADVOGADOS A DESPACHANTES



Tenho, entre outros diplomas inúteis, o de advogado. Estudei filosofia. Mas primum vivere, deinde philosophari, como diziam os romanos. Primeiro viver, depois filosofar. Acreditava que do Direito poderia tirar meu sustento. Já no segundo ano do curso, descobri que jamais advogaria. As razões não eram poucas. Não me concebia usando terno e gravata, anel no dedo e chamando juiz de Meritíssimo. Além do mais, a fúria legiferante do pais me assustava. Advogado, ou se atualiza todos os dias, ou morre profissionalmente. Na época em que terminei o curso,1969, não havia exame da OAB. Era só pegar o diploma e sair advogando.

Preferi jornalismo, que na época não exigia curso, como ocorre hoje em todos os países, menos no Brasil. Mas se considero meu diploma inútil, o mesmo não digo da profissão. Há momentos em que é mais importante que a de médico. Quanto ao exame da OAB, é mais um subterfúgio da guilda para anular o diploma de Direito, que passa a não servir para coisa alguma. Diria que é o único diploma no Brasil que só tem valor decorativo. Bom pra pendurar na parede e mostrar para as visitas.

Há muita gente no país advogando sem diploma algum. Já contei, há uns sete anos, as peripécias de minha mulher. Ao longo de toda sua vida, trabalhou com legislação. Uma vez aposentada, passou a dar consultoria, sem ter diploma de Direito. Considerou que seria melhor obtê-lo, para poder assinar petições. E decidiu fazer o curso de Direito da Mackenzie. Eu a adverti que não o suportaria três meses. Ela elaborava pareceres em um Conselho Fiscal em Brasília, pareceres que geravam legislação, e não iria agüentar o beabá do Direito. Ela insistiu, fez vestibular e decidiu-se a freqüentar o curso. Pois bem: não esquentou banco por mais de três dias. Eu havia superestimado sua capacidade de tolerar a mediocridade.

Na primeira aula de Direito Constitucional, um decrépito professor perguntava a seus alunos:

- O direito é uma emanação da so.. da so...?
Ninguém conseguia terminar a frase.
- Da socie... da socie...?
Os alunos, demonstrando invulgar inteligência, responderam em coro:
- Da sociedade!!!
- Muito bem - disse o professor, com um sorriso beatífico. - Ao direito dos costumes, costumamos chamar de Direito con... Direito con...?
Silêncio total.
- Direito consue...? Consue...?
Silêncio ainda mais espesso.
- Consuetu...? Consuetu...?
Nada feito.
- Consuetudi...? Consuetudi...?
Muito menos. O brilhante professor exclamou então com um sorriso sapiente na face, sorriso de quem detém o saber:
- Consuetudináááááário!!!

Foi o terceiro e último dia de curso de minha mulher. Preferiu continuar dando consultoria sem diploma algum.

Não bastasse o atual baixo nível dos cursos de giz e quadro negro, a Câmara dos deputados acaba impor uma caput diminutio à a profissão de advogado, ao aprovar projeto permitindo que bacharéis sem OAB atuem em funções jurídicas. Os milhões, de postulantes ao papelucho da guilda, que não passaram no exame, poderã0 consolar-se com uma profissão que não escolheram. Chamado de paralegal, o cargo serviria para auxiliar advogados em escritórios, o que os reduz a despachantes. Mas ainda precisa passar pelo Senado. Vamos à notícia:

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, nesta quarta-feira (ontem), um projeto de lei que cria a figura jurídica de assistente do advogado, o chamado paralegal. Se não houver recurso, o projeto segue para a apreciação dos senadores.

A idéia é possibilitar aos 5 milhões de bacharéis em Direito no Brasil a chance de atuar com registro nos escritórios de advocacia, mas com funções limitadas e que não ultrapassem a prerrogativa do advogado.

Inspirado no modelo norte-americano, o paralegal não pode assinar sozinho petições, tampouco defender um cliente ou um réu nos tribunais. Ele atuará, de acordo com a proposta, executando funções burocráticas e jurídicas, como ajudar na preparação de documentos e estratégia de defesa.

Cinco anos de estudo universitário para exercer uma profissão que não exige nem curso superior, como a de psicanalista. Será necessário que o candidato se inscreva na Ordem e, passados os três anos, se o profissional não conseguir ser aprovado no Exame, ele voltará à condição de bacharel. A diferença em relação ao estagiário de Direito é que o estudante só pode atuar por dois anos. Com muita pompa, está ressuscitada a antiga condição de solicitador, que podia ser exercida a partir do quarto ano de Direito.

O autor do infeliz projeto de lei, deputado Sérgio Zveiter (PSD-RJ), diz que seu objetivo não é acabar com o Exame da Ordem, mas tirar o bacharel do "limbo profissional" onde não pode "exercer legitimamente a atividade" para a qual se preparou. Se querem tirar o bacharel do limbo, eliminem o exame da OAB, ora bolas!

Fica a pergunta: já que o diploma de Direito não vale nada, porque não conceder plenos direitos ao exercício da profissão ao candidato que, sem ter curso de Direito, passasse no exame da OAB?

terça-feira, agosto 05, 2014
 
SOBRE AMIZADE,
AMOR E DOENÇA *



Sábado passado, escrevi sobre o frívolo conceito de amizade que está se tornando usual em função das redes sociais. Se, durante séculos, amigo era um ser muito especial, hoje amigo é qualquer um. Nestes dias em que se fala de um milhão de amigos, a discussão merece mais algumas considerações.

Há uns bons dez anos, comentei L’Amicizia secondo i filosofi, de Massimo Baldini (Città Nuova, 1998), uma antologia de textos filosóficos sobre a amizade, com um ensaio do antólogo à guisa de prefácio. Trata da amizade em seu sentido mais nobre, e não da amizade irresponsável proposta por alguém que jamais vimos. Os filósofos, no caso, são aqueles que a história consagrou como tais, e não professores que os papagueiam e se julgam pensadores. A reflexão é oportuna, nestes dias em que a amizade muitas vezes passa a depender de uma visão de mundo uniforme.

Quem hoje tem 60 anos, sabe disso. Terá perdido amigos por escaramuças no Camboja ou Vietnã, por determinações de Moscou, Pequim ou Cuba, em suma, por eventos distantes que nada têm a ver com uma relação entre duas pessoas. O teórico desta perversão foi Sartre que, por questões de ideologia, rompeu laços com Camus. “A amizade, ela também, tende a ser totalitária” — disse um dia o agitador da Rive Gauche ao futuro prêmio Nobel — “urge o acordo em tudo ou a ruptura, e os sem-partido eles próprios se comportam como militantes de partidos imaginários”. É a versão xiita da amizade: ou você aceita minha ideologia, ou não podemos ser amigos.

Assim, com satisfação vejo que Aristóteles, na longínqua Atenas, distante no tempo e no espaço, desde há mais de dois mil anos concorda comigo. No livro oitavo da Ética a Nicômaco, afirma não ser possível ser amigo de muitos com perfeita amizade, como não é possível estar enamorado ao mesmo tempo de muitos. “Aqueles que têm muitos amigos e que tratam todos familiarmente, não parecem ser amigos de ninguém”. Para o estagirita, um milhão de amigos nem pensar.

Cícero, ciente das responsabilidades da amizade, recomenda atenção para que não comecemos a gostar de alguém que algum dia poderemos odiar. Amizade não é coisa para jovens, mas deve ser decidida quando o caráter está formado e a idade já é madura. Seneca, como bom estóico, acha que o sábio deve bastar-se a si mesmo. O que não impede que ele aceite com prazer um amigo que lhe seja vizinho. Para o pensador de Cordova, o sábio é impelido à amizade não “pelo interesse, mas por impulso natural”. Amizade que se funda no interesse é um “vilissimo affare”. A distância não tem o poder de prejudicar a amizade. É possível manter relações com amigos ausentes, por quanto tempo se quiser. Em verdade, a proximidade torna a amizade complicada. A amizade é sempre útil, enquanto o amor é muitas vezes absolutamente nocivo.

Abelardo acentua o caráter seletivo da amizade. “Ninguém será pobre se possuir tal tesouro, tão mais precioso quanto mais raro. Os irmãos são muitos, mas entre eles é raro um amigo; aqueles a natureza cria, mas estes só o afeto te concede”. Voltaire, em seu Dicionário Filosófico, define: “é um contrato tácito entre duas pessoas sensíveis e virtuosas. No que vão duas restrições. Os amigos devem ser sensíveis, porque um monge, um solitário podem não ser maus e no entanto viver sem conhecer a amizade. E virtuosos, porque os maus têm apenas cúmplices. Em suma, só os homens virtuosos têm amigos. O que Abelardo está dizendo, no fundo, é que um mau-caráter não pode ser amigo de ninguém.

Uma distinção mais lúcida vamos encontrar em Kierkegaard, para quem o cristianismo aboliu a amizade. Segundo o pensador dinamarquês, o amor humano e o valor da amizade pertencem ao paganismo. Pois o cristianismo celebra o amor ao próximo, o que é distinto. Para esta religião, só o amor a Deus e ao próximo são verdadeiros. O cristão deve aprender a desconfiar do amor profano e da amizade, pois a predileção da paixão é no fundo um ato de egoísmo. Entre o amigo e o próximo há diferenças incomensuráveis. A morte não pode extirpar o próximo. Se a morte leva um, a vida subitamente fornece um outro. A morte pode tomar de você um amigo, porque ao amar o amigo no fundo você a ele se une. Mas ao amar o próximo você se une com Deus, por isso a morte não pode tomar-lhe um próximo.

Para Nietzsche, a mulher é incapaz de amizade, conhece apenas o amor. Mas seus contemporâneos homens não percorreriam mais os sendeiros da amizade. Por dois motivos. Primeiro, porque o amor entre os sexos prevaleceu sobre a amizade. Segundo, porque o cristianismo substituiu o amigo pelo próximo. Para seu profeta, Zaratustra, “vosso amor ao próximo é vosso amor por vós mesmos. Fugis rumo ao próximo fugindo de vós mesmos. Não vos ensino o próximo, mas o amigo. Não aconselho o amor ao próximo. Aconselho o amor ao remoto”.

Sou avesso a isso que chamam de amor. Ou talvez avesso à palavrinha. Os filmes de Hollywood, que sempre terminavam com um indefectível “I love you”, vulgarizaram o tal de amor. Sem falar que, no fundo, é um sentimento que leva facilmente ao assassinato. Se você, leitora, um dia sentir que outro alguém a considera a única pessoa de sua vida, melhor sair de perto. De preferência, correndo. Há algumas décadas, surgiu uma novela na televisão brasileira intitulada “Quem ama não mata”. Solene besteira. Só mata quem ama. Ao sentir que perde o que julga ser único, o bruto raciocina: se não és minha, não serás de mais ninguém”. Daí a matar é um passo.

Prefiro a amizade, mesmo na relação com mulheres. Em algum momento do Quarteto da Alexandria, Lawrence Durrel dizia ser a amizade preferível ao amor porque mais duradoura. Verdade que amigos também perdemos, mas a ninguém ocorre matar alguém porque perdeu sua amizade. Amor é doença antiga, já diagnosticada pelos gregos. Assim narra Plutarco o caso de um jovem enfermo:

- Erasístrato percebeu que a presença de outras mulheres não produzia efeito algum nele. Mas quando Estratonice aparecia, só ou em companhia de Seleuco, para vê-lo, Erasístrato observava no jovem todos os sintomas famosos de Safo: sua voz mal se articulava. Seu rosto se ruborizava. Um suor súbito irrompia através de sua pele. Os batimentos do coração se faziam irregulares e violentos. Incapaz de tolerar o excesso de sua própria paixão, ele tombava em estado de desmaio, de prostração, de palidez.

Quando Antíoco – pois assim se chamava o enfermo – recebeu Estratonice como presente de Seleuco, seu pai, desapareceram os sintomas da doença. Que talvez tenha contagiado Seleuco, pois afinal era o marido de Estratonice. Mas isto já é outra história.

Eram bons observadores, os gregos. O tal de amor é gostoso quando o experimentamos. Mas ridículo quando visto com certa distância. Amor, diria, é coisa para jovens. Jovem tendo sido, é claro que fui acometido pelo mal. (O pior é que às vezes tem recidiva). Uma vez adulto, optei pela amizade.

* 21/02/12

domingo, agosto 03, 2014
 
TUCANO AVALIZA BISPO BILIONÁRIO
E IMPRENSA CALA E LOUVA TEMPLO



A presença do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, foi o escudo que protegeu Dona Dilma da artilharia da imprensa contra o PT. Não havia como condenar a presidente por prestigiar um vigarista notório quando um grão-tucano sentava a seu lado, dando com sua presença o aval ao suntuoso templo construído com a exploração da fé dos simples. Ou alguém alguém acha que um pregador de rua constrói em menos de 40 anos um patrimônio de quase dois bilhões de dólares vendendo vento?

Leiamos o que indômito recórter de Veja, Reinaldo Azevedo, escrevia em 07 de maior de 2012 sobre o bispo Macedo:

Quem frauda a Bíblia frauda os fatos

Caso se reconstitua a trajetória de Macedo e se tente entender como amealhou recursos para se tornar empresário de comunicação, vai-se concluir o óbvio: o dinheiro, originalmente, saiu da igreja, da doção feita pelos fiéis. Problema: trata-se de uma atividade não-tributada constituindo fundos para organizar uma empresa privada. Ainda hoje, boa parte da receita da emissora sai dos cofres da Universal. Como a simples transferência de recursos é proibida, usa-se um artifício: a Igreja “compra” tempo na Record e paga por ele um preço que ninguém mais pagaria.

Macedo impõe ao jornalismo o mesmo padrão e rigor teórico com que leva adiante em sua teologia. Este é aquele senhor que recorre a uma passagem do Eclesiastes para justificar o aborto, por exemplo. Também é aquele líder religioso que aparece num vídeo, com um chicote na mão, para expulsar o demônio do corpo de um homossexual. Se faz isso com a religião, por que faria diferente no jornalismo? “Ah, o Reinaldo está recorrendo a coisas que não têm nada a ver com o caso…” Ah, tem, sim! Quando se evoca o Eclesiastes para justificar o aborto, estamos diante de uma fraude teológica! Quando se recorre ao chicote contra um homossexual para que ele mude sua orientação, estamos diante de uma fraude em qualquer sentido que se queira: psicológica, religiosa, ética. Quando se leva ao ar aquela montagem asquerosa tentando incriminar o jornalista da VEJA — que só fazia o seu trabalho —, estamos diante de uma fraude jornalística. Porque a tudo isso preside o mesmo padrão moral.

Tudo seria mais simples se Alckmin se abstivesse de puxar o saco do bispo. Agora, com a presença de seu guru tucano ao lado de Dilma e de Edir Macedo, o campeão da imprensa livre não profere nem sequer uma palavrinha desabonatória contra o bispo ou a presidente que, além de aplaudi-lo, teve de suportar arengas de quase três horas contra as drogas e a favor do neojudaismo inaugurado pelo Sumo Sacerdote da IURD. Votos têm seu preço.

Mas vá lá. O silêncio do recórter tucanopapista era mais que previsível. Engoliu bonitinho o apoio de Alckmin ao empresário fraudulento do mundo das comunicacões, ao falsificador da Bíblia, ao defensor do aborto que expulsa demônios a chicotaços. Caluda! O homem de Deus rende votos não só à Dilma, mas também ao governador tucano.

O que espanta mesmo é ver um colunista da Folha de São Paulo, Elio Gaspari, se desmanchando em loas à culminação de uma monumental vigarice:

A Igreja Universal do Reino de Deus inaugurou em São Paulo seu Templo de Salomão. É uma construção monumental, capaz de receber 10 mil pessoas, o dobro da lotação da Basílica de Aparecida. Sua fachada tem 56 metros de altura, 13 metros mais que a de São Pedro, em Roma. Custou zero à Viúva e foi erguida com dinheiro da fé do povo.

O Templo de Salomão haverá de se tornar um símbolo da cidade e da fé dos brasileiros. Esse aspecto supera as tramoias administrativas praticadas na sua construção. (O templo foi erguido como se fosse apenas a reforma de uma edificação demolida.) A fé dos evangélicos costuma ser depreciada, como se fosse produto da ingenuidade do andar de baixo.

É pura demofobia.

As denominações evangélicas expandiram-se associando fé religiosa e autoestima a um sentido de comunidade. Há bispos evangélicos vigaristas, sem dúvida, mas até hoje o papa Francisco batalha para limpar a Cúria vaticana.

O padre Marcial Maciel, um pedófilo promíscuo, quindim da plutocracia mexicana e figura influente no pontificado de João Paulo 2º, não pode ser usado para discutir a espiritualidade dos seus fiéis. O bronze das magníficas colunas do baldaquim de São Pedro foram tiradas do Pantheon romano. A catedral da Cidade do México foi construída com as pedras coletadas na destruição do templo azteca de Tenochtitlán.

Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. O Templo de Salomão, como a Basílica de São Pedro e a Catedral do México, são símbolos da fé dos povos. Quem não consegue entender a fé alheia pode se habilitar a um pacote turístico de três dias em Gaza.


Que os baldaquins da basílica foram feitos com bronzes do Pantheon e que a Igreja Romana tem seu esplendor graças a pilhagens e falcatruas feitas através dos séculos, isto não é novidade. Gaspari só esqueceu de dizer que o território do Vaticano foi concessão de Benito Mussolini, através do Tratado de Latrão, que formalizou a existência de um Estado soberano, neutro e inviolável, sob a autoridade do papa. Ninguém gosta de lembrar hoje que o catoliciismo deve sua suntuosa sede ao fascismo.

Tampouco é verdade que tenha custado “zero à Viúva e foi erguida com dinheiro da fé do povo”. Os templos têm isenção de impostos, sem falar que o bispo bilionário economizou alguns trocados – uma micharia de 34 milhões de reais – fraudando alvarás. Sem falar que o templo não foi erguido exatamente com “dinheiro da fé do povo”, mas com dinheiro extorquido do povo, mediante a exp0loração da crendice popular.

Daí a história escabrosa do Vaticano justificar o fruto da laboriosa trajetória do bispo vai uma longa distância. É como ver petistas defendendo o caixa 2 – eufemismo para mensalão: se todos fazem... Espanta também observar que o jornalista só tenha assestado suas baterias contra a Igreja Católica quando quem está na berlinda é a igreja do bispo.

Só falta agora achar que é demofobia falar nos anos de cadeia cumpridos nos Estados Unidos pelo “apóstolo” Estevam Hernandes e pela “bispa” Sonia por entrarem nos Estados Unidos com uma bíblia recheada de dólares. Se há bispos vigaristas no Vaticano, nada obsta que haja em outras igrejas. Quanto a lei? Ora... a lei... – como dizia Getúlio Vargas.

Ou será que ainda ninguém mais lembra daquela vídeo que teve ampla circulação nas redes sociais, mostrando o Sumo Sacerdote ensinando como se tira dinheiro dos fiéis? Até a Globo parece ter esquecido. Seria oportuno apresentá-lo logo após a reunião de Edir com seus novos e ilustres acólitos.

sábado, agosto 02, 2014
 
A ARMADILHA DOS DOUTORADOS *


Em 2005, a Capes previa investir R$ 3,26 bilhões para aumentar o número de doutores por ano no Brasil. O Plano Nacional de Pós-Graduação apresentado ao então ministro da Educação, Tarso Genro, propunha a aplicação nos seis anos seguintes de R$ 1,66 bilhão a mais em bolsas e fomento de pós-graduação, o que permitiria passar dos 8.000 doutores titulados por ano para 16 mil em 2010. O plano “será acolhido integralmente", disse Genro na ocasião.

Se foi acolhido integralmente, não sei. Na época, aqui no Baguete, falei da desmoralização do título de Doutor que, entre nós, se deve à universidade brasileira, ao distribuir doutorados a torto e a direito, como quem joga milho aos porcos. Não faltou quem protestasse. Que quem jogava milho aos porcos era a universidade francesa, com seus diversos doutorados, o Dr. Ingénieur, o Doctorat d’Université, o Doctorat de IIIe Cycle e o famigerado Doctorat d’État. Pode ser.

O missivista considerava que o único doutorado francês válido seria o Doctorat d’État. “Um doutorado na França é conhecido por doctorat d’Estat (sic!) e esse sim é equivalente o doutorado no Brasil. Lá existem vários tipos de doutorado, a maioria pode ser realizada em no máximo dois anos, à exceção do doctorat d’Estat (resic!), cuja duração é equivalente aos dos outros países – uns cinco anos. Quase todos os nossos intelectuais de esquerda fizeram um curso Troisiéme Cycle na França e se dizem doutores".

O ilustre especialista em doutorados – que escreveu sob pseudônimo – sequer sabia redigir corretamente a designação do título. Também ignorava que o Doctorat de IIIe Cycle se faz em quatro – eventualmente cinco – anos e que o famigerado doctorat d’Estat, como ele grafava , era feito em dez ou mais anos. O Doctorat de IIIe Cycle sempre foi reconhecido como doutorado em todos os países europeus. O d’État era tido como mais uma bizarrice dos galos.

Distorção da universidade francesa, servia como placebo ao desemprego, ao mesmo tempo que mantinha o doutorando afastado por uma boa década do mercado de trabalho. O candidato ao título desenvolvia teses monumentais, às vezes de quatro ou cinco volumes, que nem mesmo a banca julgadora lia na totalidade. Tais calhamaços ficavam entregues às traças e à poeira nas bibliotecas e a universidade francesa sequer percebia que delas poderia tirar algum lucro. Exportando para a Holanda, por exemplo, para fazer diques. O governo Mitterrand tomou consciência desta perversão acadêmica e a extinguiu. Agora existe apenas Doctorat, tout court.

Há horas venho afirmando que os doutorados são uma solene inutilidade. Ou melhor, uma armadilha acadêmica. Você faz um curso universitário e desemboca no desemprego. Para capear a adversidade, você se inscreve em mestrado. Mais quatro anos afastado do mercado de trabalho. Conclui o mestrado e de novo vê o breu pela frente. Seu professor, que precisa de doutorandos para cumprir sua carga horária enquanto folga em casa ou no Exterior, o convida para um doutorado. Você aceita, afinal está desempregado e a bolsa não é de se jogar fora. Mais quatro ou cinco anos fora do mercado.

Quando você vai ver, tem mais de trinta anos e nunca teve carteira de trabalho assinada. Em um país onde se tende a considerar que uma pessoa com 35 anos já é idosa, ou você tem pistolão na guilda e entra no magistério – para que a poleia sem fim dos doutorados continue rodando – ou vai talvez dirigir um táxi ou ser corretor de imóveis. Afinal, comer é preciso.

Isso sem falar no que chamei de mestrandos carecas. Entre as muitas anomalias da universidade brasileira estão os mestrandos quarentões. Aquela iniciação à pesquisa, pela qual o candidato deveria optar tão logo terminasse o curso superior, é adiada para uma idade em que do acadêmico já se espera obra consolidada. Pior mesmo, só os doutorados de terceira idade. Marmanjos de cinqüenta e mais anos, em idade de aposentar-se, postulando um título que só vai servir para pendurar junto com as chuteiras.

Mestrado não é para carecas. Já um doutorando, este deveria defender sua tese no máximo aos trinta e poucos, para que sua experiência em pesquisa possa ser útil ao ensino e à sociedade. Que mais não seja, é patético ver um homem já maduro humilhando-se, ao tentar iniciar-se em metodologias que devia desde jovem dominar. Isso sem falar em métodos que não passam de masturbação acadêmica, como ocorre na área das ditas Humanas. Na universidade brasileira, o doutorado nem sempre é visto como início de uma carreira, mas como louro a coroar a calva do acadêmico quando este está prestes a usar pijamas. Quem paga tais vaidades senis? Como sempre, o contribuinte.

Pelo jeito, os acadêmicos começam a se dar conta desta catástrofe. Acabo de receber artigo de Mark C. Taylor, presidente do departamento de religião da Universidade de Columbia em Nova York e autor de Crise no Campus: um plano arrojado para reforma das nossas Faculdades e Universidades (Knopf, 2010). Em seu ensaio, o professor considera que o sistema de doutorado nos Estados Unidos e em muitos outros países é insustentável e precisa de ser remodelado. Em muitos campos, ele cria apenas uma fantasia cruel de um futuro emprego, que promove o auto-interesse dos membros do corpo docente, em detrimento dos estudantes. A realidade é que existem poucos empregos para as pessoas que gastaram até doze anos em sua formação.

“A maioria dos programas de educação-doutoramento está em conformidade com um modelo definido nas universidades européias durante a Idade Média, em que a educação era um processo de clonagem, que treinava os estudantes para fazer o que os seus mentores faziam. Os clones já ultrapassam o número de seus mentores. O mercado de trabalho acadêmico entrou em colapso em 1970 e as universidades ainda não se ajustaram as suas políticas de admissão, porque precisam de estudantes de pós-graduação para trabalhar nos laboratórios e como assistentes de ensino. Mas uma vez que os alunos terminam o ensino, não existem trabalhos acadêmicos para eles.

Para o professor Taylor, só há duas saídas: reformar radicalmente os programas de doutoramento ou fechá-los. “A especialização levou a áreas de investigação tão estreitas que são de interesse apenas para outras pessoas que trabalham nos mesmos domínios, subcampos ou sub-subcampos. Muitos pesquisadores lutam para conversar com colegas do mesmo departamento, e comunicação entre departamentos e disciplinas podem ser impossíveis".

A bicicleta precisa continuar rodando. Milhões de teses no mundo todo, que já não cabem nas bibliotecas oficiais, precisam de anexos para serem guardadas. Guardadas para quê? Para juntar pó. Uma tese é algo que sai caro ao Estado. É preciso subsidiar os graduandos e os professores que os orientam. Deveria ter retorno aos contribuintes que, no fundo, são quem as financiam. Você já viu alguma tese publicada? Às vezes encontramos alguma, mas precisamos pagar por ela. O doutor recebe para redigi-la e depois cobra de novo para que seja lida.

Se o Brasil eliminasse hoje seus cursos de doutorado, não me parece que perderíamos grande coisa. (Vou mais longe: cursos de Letras, Filosofia ou Sociologia não fazem falta alguma). Os professores americanos parecem estar despertando para o problema. Como o Brasil adora importar modas ianques, seria salutar que esta postura chegasse até nós.

Mas não vai chegar. O Brasil prefere importar rock, blockbusters e outras mediocridades do Primeiro Mundo. Do melhor que acontece lá, Pindorama só quer distância.

* 11/05/2011

quinta-feira, julho 31, 2014
 
FALTA DE VERGONHA
NÃO TEM PARTIDO



O bispo Edir Macedo é um personagem no mínimo admirável. Filho de católicos praticantes, começou sua carreira em 63, aos 18 anos, como um funcionário público na Loteria do Estado do Rio de Janeiro, a Loterj e trabalhou no IBGE como pesquisador no censo econômico de 1970. Aos 19 anos, abandonou a igreja de Roma e tornou-se cristão evangélico, ingressando na Igreja de Nova Vida. Próximo a completar 16 anos de carreira como funcionário público, deixou o cargo para se dedicar à obra de Deus, o que na época foi considerado uma loucura.

Que Deus? Há dois anos, perambulando por Lisboa e com vontade de ler algo divertido, comprei o primeiro volume de sua biografia, Nada a Perder, na época liderando a lista dos mais vendidos em Portugal. Em mais de 200 páginas, não especifica de qual deus se trata. É mais ou menos aquele do Antigo Testamento, mas Macedo não o define com precisão. É mais um deus à la carte, uma espécie de máximo divisor comum, para agradar gregos e troianos, evangélicos e romanos.

Começou sua carreira de homem de deus como começa todo camelô, pregando ao ar livre, em um coreto em uma praça do Méier, no Rio. Em 1977, decidiu fundar sua própria igreja, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), cuja primeira sede funcionava no prédio de uma antiga funerária, na Zona Norte do Rio.

Hoje, 37 anos depois de sua arrancada evangélica, tem mais de seis mil templos e 1,8 milhão de fiéis no Brasil, segundo o IBGE, e quase 10 mil pastores. Está presente em mais de 200 países, sendo mais disseminada nas nações de língua portuguesa. É a quinta maior instituição no Brasil, sendo a quarta maior igreja protestante e a 29ª maior denominação religiosa no mundo, com seis milhões de pessoas. A loucura vingou.

No século XI a. C., o rei Salomão construíu o primeiro templo de Jerusalém, para a adoração de Javé, deus de Israel, onde se ofereciam os sacrifícios conhecidos como kornabot, para agradar o Eterno. A julgar-se pela natureza dos sacrifícios, o templo deveria cheirar como um açougue.

Destruído por Nabucodonosor II da Babilônia, em 586 a. C., após dois anos de cerco a Jerusalém. Em 516 a. C., após o regresso de mais de 40.000 judeus do Cativeiro Babilônico foi iniciada a construção no mesmo local do Segundo Templo, que foi destruído pelo general romano Tito em 70 d.C. Não tendo mais local físico para cultuar Javé, os judeus se refugiaram na Tanak, a bíblia hebraica, que tornou-se, de certa forma, um lar para os judeus dispersos pelo mundo todo.

Neste ano da graça de 2014 d. C. – quase dois milênios após a destruição de Tito – o templo de Salomão ressurge triunfante nesta São Paulo, o maior semental de religiões do país. Mas com nova direção, a do bispo Edir Macedo.

O bispo judaizou sua religião particular. Passou a usar quipá e barba de patriarca veterotestamentário, e distribuiu menorás pelas colunas do novo templo. Não faltou nem mesmo a Arca da Aliança e o hino de Israel. As vestes talares têm as cores da bandeira israelita. O custo estimado da obra é de mais de 680 milhões de reais. Sua capacidade é de mais de dez mil pessoas sentadas na nave principal, o que o torna o maior templo do País, deixando atrás a Basílica de Aparecida. O altar e a fachada do templo foram feitos com pedras nativas de Israel. Para Macedo completar sua obra, só estão lhe faltando as 700 esposas e 300 concubinas do sábio rei Salomão.

Como todo homem de Deus, Edir Macedo teve seus percalços com a justiça do homens. Em 1992, foi preso sob acusações de charlatanismo e curandeirismo. Inocentado das acusações, foi liberado após onze dias. Apontado pela revista Forbes como o pastor mais rico do Brasil, teve seu patrimônio avaliado, em janeiro do ano passado, em quase 2 bilhões de reais. Nada mal para quem na juventude foi um modesto funcionário público. Templo é dinheiro.

Em 2006, foi denunciado pelo Ministério Público por importação fraudulenta de equipamentos e uso de documento público falso e um processo foi aberto pela Justiça Federal. Em 1998 a Receita Federal concluiu procedimento de fiscalização em um lote de equipamentos para TV e rádio importados pela Record e apreendeu uma carga de 1,7 toneladas de aparelhos para radiodifusão cujas notas não foram devidamente comprovadas.

Com base nos documentos enviados pela Receita, o procurador da República André Libonati ofereceu em 2000 denúncia contra Macedo e mais seis diretores da Record. Segundo o Ministério Público, Macedo alega que não tem participação direta no dia-a-dia da Record e que não tinha conhecimento da importação dos equipamentos.

Em 2009, em ação criminal aberta pelo juiz Gláucio de Araujo, da 9ª vara criminal de São Paulo, o bispo e mais nove pessoas ligadas a ele foram acusados pelos crimes de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Segundo a denúncia da promotoria, Macedo e os outros acusados teriam feito desvio de dinheiro de doações de fiéis, também se aproveitando da isenção de impostos oferecida a igrejas de qualquer culto.

Para esconder a origem do dinheiro, o bispo e os outros acusados teriam usado um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo empresas de fachada, no Brasil e no exterior. Os recursos então, voltavam ao Brasil, na forma de empréstimos feitos pelos laranjas de Edir Macedo, sendo usados para comprar empresas. Em alguns casos, Macedo teria fraudado procurações assinadas por estes laranjas para, posteriormente, transferir as ações das emissoras para seu próprio nome ou de pessoas acusadas de participar da quadrilha. Macedo seria o chefe de uma quadrilha que usava empresas de fachada para desviar recursos provenientes de doações dos fiéis da Universal e praticar uma série de fraudes.

Estas denúncias, divulgadas por todos os grandes jornais do país, foram também veiculadas pela Rede Globo e consideradas pela Rede Record, de Edir Macedo, como "desespero da concorrência".

Mais sujo que pau de galinheiro, Edir Macedo inaugurou hoje, impertérrito, seu templo salomônico. Segundo filme exibido, a história bíblica começa com Abraão, Moisés, Davi, Salomão, Cristo e culmina, em 1977, dois milênios depois, com Edir Macedo. A construção do templo está repleta de irregularidades. Segundo editorial do Estadão, o Ministério Público Estadual (MPE) constatou que o templo foi construído com base num alvará de reforma expedido em 2008.

Reforma adicional de 64.519 m², em terreno que tinha área construída de 2.687,32 m², parece inconcebível. Não é preciso ser técnico para perceber o absurdo de considerar o Templo de Salomão uma simples reforma, pois isso desafia o mais elementar bom senso.

Mesmo assim, a Igreja Universal conseguiu na Secretaria Municipal de Habitação o tal alvará, emitido pelo setor responsável, à época dirigido por Hussain Aref Saab, demitido em 2012 por suspeita de enriquecimento ilícito. O certo, para construções de mais de 5 mil m² e 499 vagas de estacionamento, como era o caso - o templo tem dimensões muito maiores e 1,2 mil vagas -, é alvará de obra nova, conforme determina a lei dos polos geradores de tráfego, de 2010. Com isso, a Igreja Universal se livrou do pagamento de 5% do valor da obra - R$ 34 milhões - em contrapartidas e melhorias para o sistema viário no entorno do templo.

Coniventes com o escroque contumaz e com o flagrante desrespeito às leis, comparecem à cerimônia altas autoridades do Judiciário (do STF, inclusive), do Congresso e dos governos federal, estadual e municipal. Com toda pompa e circunstância, hoje foi sacramentada a desimportância da lei.

Se templo é dinheiro, também é votos. Para remediar a situação e inaugurar o templo, o prefeito Fernando Haddad, do PT, emitiu um exótico alvará de evento. Ao qual não faltaram a presidente Dilma Rousseff, o vice Michel Temer (PMDB) e o governador Geraldo Alckmin, do PSDB. As mais altas autoridades da República não hesitaram um segundo em prestigiar o escroque. Mas constrangido mesmo deve ter ficado Fernando Haddad. Enquanto financia o consumo do crack na Cracolândia, teve de ouvir uma longa e mentirosa arenga de um pastor contra a droga.

Edir Macedo rende votos e falta de vergonha não tem partido.

quarta-feira, julho 30, 2014
 
SININHO QUER ASILO


Estão surgindo na imprensa, como se fossem novidade, personagens obsoletos e anacrônicos, que se pretendem inovadores e contestadores do... Do que mesmo? Da ditadura não há de ser, porque ditadura não existe no país. Do governo muito menos, pois são recebidos e defendidos por altas autoridades do PT. Da oposição tampouco, afinal são opositores. No fundo, são os abomináveis rebeldes sem causa, que só são rebeldes porque julgam que ser rebelde tem charme.

Comentei há pouco os pronunciamentos do líder do MTST, Guilherme Boulos, que de sem-teto nada tem. Aventureiro oriundo da Fefelech - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – que se diz professor de psicanálise. Mas a meta de Boulos não é exatamente teto para os sem-teto. E sim a revolução socialista. Qual revolução socialista?

De artigo escrito na Folha de São Paulo, deduzimos que é aquela de 1917, que de início se chamou comunista, e que estertorou em 1989, com a queda do Muro. Escreve o jovem stalinista, a propósito da morte de Plínio Arruda Sampaio:

“Figurou nessa lista ao lado de gente como Luiz Carlos Prestes, Francisco Julião (dirigente das Ligas Camponesas) e do próprio Jango, dentre outros grandes nomes que defenderam os interesses populares contra o golpe militar”.

Ou seja, o marxismo de Boulos não é apenas pré-64. É pré-35. Data do auge do stalinismo, quando o Paizinho dos Povos queria pôr uma pata na América Latina. Só mesmo no Brasil para um espécime como este ganhar coluna na grande imprensa.

Agora está tendo seus 15 minutos de fama uma gaúcha desocupada, Elisa Quadros – mais conhecida como Sininho - que se diz cineasta e produtora cultural e tem liderado as últimas badernas no Rio de Janeiro. A moça, munida de três galões de gasolina, queria nada menos que tocar fogo na Câmara de Vereadores. Presa com outros baderneiros - todos soltos por habeas corpus de um desembargador que não vê mal nenhum em pretender incendiar a Câmara - Sininho se diz perseguida política. Que país é este onde um cidadão não tem mais direito a incendiar uma câmara de vereadores?

Indagada pelo Estadão sobre a acusação de ser uma das líderes da FIP (Frente Independente Popular), Sininho afirmou: “Historicamente, o Estado, o poder, precisa criar um líder para matar e criminalizar o movimento. É isso o que estão fazendo. E vão fazer com todos. Vão destruir as identidades por meio da mídia, para depois justificar prisão, tortura e assassinato. Eles precisam disso. Mas o movimento é espontâneo, não aceita esse tipo de coisa. Não adianta tentar criar o que não existe”.

Ela classificou de “abobrinha e história surrealista” o conteúdo do processo de 15 volumes contra os 23 acusados. “Somos perseguidos políticos”, diz ela. “Vão fazer 5 mil, 20 mil páginas de abobrinhas, de história surrealista. Porque não existe, são 23 pessoas que mal se conhecem”, afirma. “Nunca falei com a maioria dessas pessoas. Que líder é esse que não fala com os seus? Não existe liderança.”

Na noite do 25 de julho passado, no salão do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, Sininho e outros militantes de esquerda presos por envolvimento em manifestações violentas cantaram que são “comunistas até morrer”, além de trechos como “se eu mrro é no combate”, “comunista hei de morrer”, “sou comunista por toda a vida”, “a foice e o martelo avançando”, “tropa de choque da revolução”. A reunião teve adaptações de Bella Ciao, antiga canção de operários italianos, do fim do século XIX, adotada por comunistas e anarquistas do mundo todo.

Lavoro infame, per pochi soldi, o bella ciao bella ciao
Bella ciao ciao ciao, lavoro infame per pochi soldi
E la tua vita a consumar!
Ma verrà il giorno che tutte quante o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao ciao, ma verrà il giorno che tutte quante
Lavoreremo in libertà!

As canções podem ser eternas. Mas o mundo muda e a revolucionária não viu. Ao final dos propósitos revolucionários, os bravos militantes erguem os punhos ao ar, repetindo o gesto dos heróis do PT, hoje na bancada da Papuda, ao serem presos. Para ver o circo, clique aqui: http://www.folhapolitica.org/2014/07/sininho-e-outros-ativistas-presos-fazem.html

No Estadão, lemos que Sininho tinha projetos vem definidos e bastante ambiciosos. Queria internacionalizar seu protesto, tentando um asilo político na Inglaterra. Segundo escutas telefônicas feitas com autorização da Justiça na Operação Firewall, numa conversa em 24 de junho com um outro ativista, identificado como Igor, Sininho demonstra medo de ser presa ou assassinada por policiais e fala da ideia de ir para a Inglaterra. Ela ressalta o impacto político positivo da iniciativa:

"Estou pensando em ir para a Inglaterra com o Mohamed para fazer as denúncias sobre o que está acontecendo aqui. Ia ser um processo de caos agora, eu me exilar depois da Copa e antes das eleições. Mas os advogados de São Paulo e daqui (de Porto Alegre) não estão concordando com isso".

Igor demonstra não concordar com a ideia, mas Sininho insiste:

"Exílio, querendo ou não, tem um poder político muito forte. Imagina a pessoa ser exilada agora, seria um poder político forte se eu fizesse isso, se tivesse uma boa campanha internacional. Porque essa perseguição que eu estou vivendo não vai acabar. ... O que quer esse inquérito? Ele vai até onde? Minha vida está virando um inferno, não estou conseguindo trabalhar... É ameaça em cima de ameaça: ameaça de milícia, ameaça de polícia... Se eu não for assassinada por um policial, eu vou ser presa, e aí?"

Trabalhar em quê? Pelo que se saiba, a libertária – como se define – não tem emprego algum. Ameaçada como? Fora sua prisão, não se tem notícia de ameaça alguma. A incendiária posa de vítima pela volúpia de ser vítima.

Sininho reivindica o sagrado direito de incendiar o prédio de vereadores, eleitos pelo voto popular, sem correr o risco de ser presa. Como prêmio a seu nobre propósito, quer as mordomias de um asilo bem remunerado no exterior. Comunista até morrer, mas asilo no paraíso comunista do Caribe... ni pensar. Sininho quer asilo em Londres, uma das metrópoles mais capitalistas do Ocidente. Com direito a coletivas para a imprensa internacional, nada menos.

Nisto segue a trilha dos exilados de 64 e 69. Em vez de buscar abrigo na comunista Moscou – que aliás os financiava – foram voando para as mais esplendorosas capitais européias, Londres, Paris, Estocolmo e Berlim.

Comunista hei de morrer. Mas não sem antes ter degustado as delícias do capitalismo. Sou comunista por toda vida, desde que usufruindo das mordomias deste podre mundo capitalista. A foice e o martelo avançando, mas por favor longe de mim.

Neste Brasil incrível, sempre na rabeira da História, ainda há viúvas do Kremlin, cultuando um defunto como se vivo estivesse.

domingo, julho 27, 2014
 
QUANDO FILA DÁ STATUS

Entre as coisas que evito na vida, estão as filas, e já perdi muita coisa boa por causa disso. Durante meus anos de Paris, jamais subi na torre Eiffel. Por duas razões. Primeiro, considerava ser um lugar comum, típico de turista deslumbrado. Segundo, pelas filas. Quando superei o primeiro obstáculo, restou o segundo. Em uma das últimas tentativas, ainda com a Baixinha, havia filas de quatro ou cinco horas. Em uma das patas da torre, a fila era menor, previa-se duas horas. Era aquela pata por onde se sobe a pé.

Merci bien! Verdade que, anos depois, acabei subindo. Passava por lá, e sei lá por que estranho fenômeno, havia filas de 15 minutos. Então tá. Cá entre nós: a visão do alto do Arco do Triunfo, que é bem mais baixo, é mais esplendorosa.

Há, é claro, as filas das quais jamais escapamos. Na era pré-internet, as de banco eram uma delas. Antes do real, naqueles dias em que uma mercadoria tinha o preço aumentado três vezes por dia, a fila era um inferno inevitável. No dia seguinte à vigência da nova moeda, sumiram como que por encanto.

Sempre vi fila como estigma de país pobre e subdesenvolvido. Ou praga de país socialista. Na época do comunismo, os países soviéticos eram os campeões do triste esporte. Se um russo via um fila, nela entrava sem pensar. Porque na outra ponta certamente havia algo que faltava a todos. Mas existem também as filas do supérfluo. Uma das raras filas que vi em Paris foi na Champs Elysées. Eram centenas de turistas, na maioria japonesas, numa loja de bolsas Vuiton. Todos os dias.

Em Nomade, a escritora somali se defronta com misteriosas instituição do Ocidente, o tíquete para filas.

“Eu estava cativada pela engenhosidade do sistema. As pessoas não tinham de fazer a fila como éramos obrigados na África; eles não tinham que se enfiar, empurrar os outros ou se comportar de maneira agressiva para defender seu lugar na fila de espera. Podia-se sentar, e durante este tempo seu tíquete de alguma maneira fazia a fila por você”.

É observação de quem vive em um mundo que depende de filas. Fila é perda de tempo, ou seja de vida. Quando tenho de enfrentar alguma da qual não posso escapar, me refugio na leitura. Em suma, fila não é coisa de se gostar. Exceto talvez em São Paulo.

Desde que cheguei aqui, há 23 anos, notei um certo apreço, quase orgulho, em curtir uma boa fila, seja em exposições, shows ou restaurantes. Sem falar no trànsito. É quase com um sentimento de heroísmo que um paulistano se gaba de ir até Santos em três ou quatro horas, distância que normalmente tomaria menos de hora. Um estrangeiro se horroriza com 100 ou mais quilômetros de engarrafamento. Para o paulistano, faz parte da vida.

Minha primeira constatação desta sensação de bem-estar em uma fila ocorreu no Famiglia Mancini, restaurante na rua Avanhandava, no centro da cidade. Nos almoços de fins de semana, espera-se no mínimo duas horas para entrar. Ninguém faz cara feia. A fila é uma oportunidade de conversar, confraternizar, fazer novos amigos. Lembro de um Dia das Mães, em que 400 delas esperavam para comer, sem pressa alguma, sob um sol de rachar. Confesso ter entrado em uma dessas filas, não exatamente por vontade própria, mas para mostrar a um amigo francês nossas instituições.

Chegamos a um ponto tal de apreço pelas filas, que as pessoas as buscam como sinal de status. Leio no Estadão de hoje, em reportagem de Mônica Reolom:

Em SP, filas já são evento cultural

Segundo a repórter, a concorrência por atrações não só faz com que paulistanos incorporem a espera como parte do passeio, como também buscam filas para postar foto na internet.

Embora fosse o meio da tarde de uma sexta-feira fria e nublada, Alexandra Sene, química de 41 anos, e o filho Mateus, de 10, já estavam há duas horas e meia em pé na calçada, esperando para ingressar no Instituto Tomie Ohtake, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. "Viemos de Cotia", disse ela, ansiosa para finalmente entrar na mostra Obsessão Infinita (conhecida por exibir milhares de bolinhas), da artista Yayoi Kusama. "Só peguei uma fila parecida com essa quando Ayrton Senna morreu", lembrou Mara Marques, dentista de 42 anos que também estava com o filho, de 10.

Alexandra, Mara e as duas crianças, no entanto, já haviam feito amizade na fila e comprado pipoca e refrigerante das barraquinhas ao redor. Além disso, viraram atração: quem passava de carro ou a pé tirava foto da aglomeração que virava o quarteirão. A nutricionista Thaís Furlani, de 24 anos, brincava: "Vim para tirar foto e postar no Instagram".

Na Barra Funda, o casal Bruno Novaes, de 24 anos, e Aline Alves, de 26, atribuía às redes sociais um dos motivos por estarem há mais de 40 minutos na fila da exposição da dupla osgemeos, na Galeria Fortes Villaça. "Os amigos postam e estimulam que a gente venha. Nós também pretendemos tirar foto lá dentro", disse ele.


Por coincidência - ou talvez nem tanto - a Vejinha São Paulo de hoje tem como reportagem de capa "as filas que valem a pena. A revista dedica nada menos que sete páginas às melhores filas da cidade.

Para o paulistano, pouco importa o espetáculo ou evento. O que interessa é o “eu vi, eu estive lá”. O filme pode ser um solene abacaxi. Mas é preciso vê-lo. Principalmente se for um blockbuster. Como participar de uma conversa com pessoas que já o viram sem tê-lo visto? O que mede a procura de um espetáculo já não é a qualidade do espetáculo em si, mas o tamanho da fila dos assistentes.

Sempre vi São Paulo como uma metrópole um tanto provinciana, e este apreço pelas filas confirma minha opinião. Enquanto fila é maldição em todos os países do mundo, Brasil inclusive, em São Paulo a carneirada vibra com boas horas de espera. O evento já nem é o evento, mas a fila para o evento.

Mais um pouco, e as filas serão anunciadas como atrativo turístico da cidade. Venha entrar nas maiores filas do mundo. Que tem na outra ponta? Não interessa. O que importa é curtir a fila em si.