![]() ![]() ![]() |
|||
|
¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV
Email
janercr@terra.com.br
Tiragem
Janer Cristaldo escreve no Página Não-Oficial de Janer Cristaldo Arquivos 10/01/2003 - 11/01/2003 12/01/2003 - 01/01/2004 01/01/2004 - 02/01/2004 02/01/2004 - 03/01/2004 03/01/2004 - 04/01/2004 04/01/2004 - 05/01/2004 05/01/2004 - 06/01/2004 06/01/2004 - 07/01/2004 07/01/2004 - 08/01/2004 08/01/2004 - 09/01/2004 09/01/2004 - 10/01/2004 10/01/2004 - 11/01/2004 11/01/2004 - 12/01/2004 12/01/2004 - 01/01/2005 01/01/2005 - 02/01/2005 02/01/2005 - 03/01/2005 03/01/2005 - 04/01/2005 04/01/2005 - 05/01/2005 05/01/2005 - 06/01/2005 06/01/2005 - 07/01/2005 07/01/2005 - 08/01/2005 08/01/2005 - 09/01/2005 09/01/2005 - 10/01/2005 10/01/2005 - 11/01/2005 11/01/2005 - 12/01/2005 12/01/2005 - 01/01/2006 01/01/2006 - 02/01/2006 02/01/2006 - 03/01/2006 03/01/2006 - 04/01/2006 04/01/2006 - 05/01/2006 05/01/2006 - 06/01/2006 06/01/2006 - 07/01/2006 07/01/2006 - 08/01/2006 08/01/2006 - 09/01/2006 09/01/2006 - 10/01/2006 10/01/2006 - 11/01/2006 11/01/2006 - 12/01/2006 12/01/2006 - 01/01/2007 01/01/2007 - 02/01/2007 02/01/2007 - 03/01/2007 03/01/2007 - 04/01/2007 04/01/2007 - 05/01/2007 05/01/2007 - 06/01/2007 06/01/2007 - 07/01/2007 07/01/2007 - 08/01/2007 08/01/2007 - 09/01/2007 09/01/2007 - 10/01/2007 10/01/2007 - 11/01/2007 11/01/2007 - 12/01/2007 12/01/2007 - 01/01/2008 01/01/2008 - 02/01/2008 02/01/2008 - 03/01/2008 03/01/2008 - 04/01/2008 04/01/2008 - 05/01/2008 05/01/2008 - 06/01/2008 06/01/2008 - 07/01/2008 07/01/2008 - 08/01/2008 08/01/2008 - 09/01/2008 09/01/2008 - 10/01/2008 10/01/2008 - 11/01/2008 11/01/2008 - 12/01/2008 12/01/2008 - 01/01/2009 01/01/2009 - 02/01/2009 02/01/2009 - 03/01/2009 03/01/2009 - 04/01/2009 04/01/2009 - 05/01/2009 05/01/2009 - 06/01/2009 06/01/2009 - 07/01/2009 07/01/2009 - 08/01/2009 08/01/2009 - 09/01/2009 09/01/2009 - 10/01/2009 10/01/2009 - 11/01/2009 11/01/2009 - 12/01/2009 12/01/2009 - 01/01/2010 01/01/2010 - 02/01/2010 |
Sábado, Junho 30, 2007
MAIS UMA VEZ, BRASIL INOVA ENTRE AS NAÇÕES A situação nos aeroportos piora; atrasos atingem 45,2% dos vôos - diz o noticiário on line de hoje, sábado. Segundo balanço da Infraero, os atrasos atingem 45,2% (639) dos 1.411 vôos registrados a partir das 0h de hoje. Foram registrados 178 cancelamentos (12,6% do total) em toda rede administrada pela estatal. O levantamento corresponde a atividade nos terminais da 0h às 19h30 deste sábado. O boletim aponta ainda que 84 vôos permaneciam com atrasos por volta das 19h30. Em Congonhas, os passageiros fizeram até passeata pelos corredores do aeroporto em protesto contra caos aéreo que há quase um ano perturba o país. Na edição da Folha de São Paulo de amanhã, domingo, o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, arrota autoridade: - Tenho convicção de que não haverá apagão aéreo nas férias, porque estamos com todos os nossos controladores de vôo trabalhando com dedicação e profissionalismo. Além disso, providenciamos reforços, até para aliviar a carga deles, e tomamos medidas em termos de tráfego aéreo que estão dando bons resultados. O povo brasileiro pode tirar suas férias e viajar de avião, tranqüilamente, sem susto. Hoje mesmo, a situação é de absoluta normalidade. As férias do tal de povo brasileiro, começaram hoje, sábado. A entrevista do brigadeiro sairá amanhã na Folha, mas foi concedida hoje. Chamar de "absoluta normalidade" o atraso de 45,2% dos vôos é um acinte aos leitores e ao público em geral. Para fingir que não está ocorrendo um motim, as autoridades militares atribuem os atrasos ao mau tempo. Ora, os atrasos estão ocorrendo nos treze principais aeroportos do país e não é concebível que em treze aeroportos deste país esteja fazendo mau tempo. Não só o Congresso nacional está desmoralizado, mas também as Forças Armadas. Que se podia esperar? Se as Forças Armadas aceitaram passivamente a promoção de um desertor a general – promoção decretada por civis – por que não aceitariam inocentes motins que só atrapalham a vida desses milhões de passageiros que precisam viajar? Num futuro não muito distante, quem sabe os sargentos amotinados não receberão uma gorda indenização por suas heróicas atitudes? Chez nous, nunca se sabe. Mais uma vez o Brasil inova ante o concerto das nações. É o único país do mundo onde insubordinação militar faz parte da rotina nacional.
Sexta-feira, Junho 29, 2007
CONTRABANDO? SÓ PARA GENTE FINA O governo publicou nesta sexta-feira, no Diário Oficial da União, a Medida Provisória 380, que institui um imposto único e um limite de importação anual para os sacoleiros brasileiros que compram produtos no Paraguai. Além disso, a MP traz uma outra novidade: esse tributo será debitado diretamente da conta-corrente do sacoleiro. Ou seja, a partir de hoje só podem entrar no país com produtos importados, sem pagar impostos, os já privilegiados viajantes que vêm do Exterior por via áerea. Ou seja, aqueles que passam pelas freeshopps de entrada. Em quase todos os países do mundo, as freeshops existem na saída, para que o viajante não entre no país com produto não tributado. Entre nós, como sempre, é diferente. Quando aos sacoleiros, que atravessam fronteiras para mitigar o desemprego, estes terão de pagar imposto.
Quinta-feira, Junho 28, 2007
O ÓDIO NÃO PODE MORRER Nem sempre os jornais trazem notícias ruins. Hoje, temos duas boas. No Egito, conforme despacho da BBC, foi anunciada a proibição completa da ablação do clitóris. E nos Estados Unidos, a Suprema Corte considerou nesta quinta-feira que as escolas públicas não podem utilizar os chamados programas de ação afirmativa para garantir a mistura racial nos estabelecimentos. Jornalismo vive de desgraças. Não é todos os dias que os jornalistas podem nos oferecer notícias como estas. No Egito, uma menina morreu durante a ablação do clitóris, o que provocou uma série de protestos populares. Um porta-voz do Ministério da Saúde disse que nenhum médico está permitido a executar a operação em estabelecimentos públicos ou privados. Ainda segundo a agência britânica, os que infringirem a lei serão punidos. Estudos recentes estimam que cerca de 90% das mulheres egípcias já tiveram o clitóris extirpado. A notícia é boa, mas nela não podemos depositar muita fé. Quando os machos egípcios castram 90% de suas mulheres, não será uma determinação de ministério que acabará, do dia para a noite, com a prática abominável. A cirurgiã que conduziu o processo em que a garota faleceu foi presa. Já é um avanço. Neste dias em que os defensores de cotas para negros nas universidades brasileiras estão tomando posturas agressivas, a notícia vinda dos States nos toca mais de perto. "A procura de um objetivo pelas escolas (a integração racial) não quer dizer que elas sejam livres para empreender uma discriminação com base na raça para atingi-lo", disse o presidente da Corte, John Roberts, na decisão tomada por cinco votos a quatro. O racismo negro estava tomando proporções caricaturais nos Estados Unidos. Em Seattle a raça foi o critério que impediu 300 adolescentes (200 brancos e cem negros, latinos ou asiáticos) de ingressarem nas escolas de sua preferência, que tinham mais candidatos do que vagas. Em Louisville, um menino não pôde entrar no maternal mais próximo de sua casa, onde restavam vagas, porque no estabelecimento já havia brancos demais. A decisão da Suprema Corte americana terá alguma influência na política de cotas no Brasil? Duvido. Do Primeiro Mundo, só importamos o pior. Do melhor, nem queremos ouvir falar. É a velha vocação comunista da América Latina. O Brasil continuará estimulando o racismo pelas próximas décadas, até transformar este país numa espécie de Estados Unidos de início do século passado. Se a luta de classes morreu, alguma outra luta precisa ser estimulada. Há brancos e negros no Brasil? Maravilha - dirão os eternos apparatchiks. Vamos fazê-los lutar entre si. O ódio não pode morrer.
Quarta-feira, Junho 27, 2007
SOBRE KALOCAINA Guilherme Roesler escreve em seu blog (http://acao-humana.blogspot.com) sobre um dos mais belos romances que traduzi do sueco, nos anos 70: O romance, por mais fantasioso que possa parecer, sempre está ligado à realidade. Não existe ficção que seja mera imaginação de situações desligadas do tempo, de um momento definido ou que assim poderá o ser. Talvez, por isso, que a literatura ficcional de nosso tempo perdeu a importância que tinha antigamente. Se os contemporâneos de Zola lessem seu Germinal, acreditariam estar em contato com a verdade. O escritor seria o elo entre a idéia e a realidade, seja esta futura ou presente. Entretanto, as ideologias sufocaram os escritores que imaginavam uma nova sociedade. Não estou me referindo ao aspecto do escritor estar filiado a esta ou aquela corrente de idéias e a ela se entregar de corpo e alma, como o fez Jorge Amado. Refiro-me que as ações práticas e concretas das ideologias, embriagando novos profetas e reformadores sociais, ultrapassaram em muito o que poderia ser imaginado por um ficcionista. Se qualquer escritor, no inicio do século XIX dissesse que, dali alguns anos morreriam 100 milhões de pessoas sob as mãos de um Estado opressor, ou que um Chefe de Estado, antes de dormir, assinasse diariamente listas daqueles que seriam deportados e daqueles que seriam condenados à morte, este escritor seria chamado de louco, irrealista. Entretanto, a ficção ficou superada pelos acontecimentos. Realmente, nosso século sepultou a literatura. Se Adorno disse que não haveria mais poesia depois de Auschwitz, o disse mentirosamente reforçando a crença que tanto mal causou ao século passado e ao século que vivemos. A literatura não é poesia, mas um meio desta existir. A prosa e a poesia são meios de realização de um objetivo. Se este objetivo é alertar a um futuro próximo bom ou ruim, depende do talento de cada escritor. Mas cada um, dentro do gênero que for sua especialidade, deverá estar calcado em algum ideal, alguma realidade ou mesmo fantasia. A realidade do século XX superou em muito a imaginação de centenas de escritores, poetas e intelectuais. Hoje, vivemos o sepultamento de um defunto. Entretanto, vários escritores pensaram um presente que fosse não o ideal de todos nos, mas pensaram um futuro sombrio, opressor. Entre os grandes que o fizeram, ninguém melhor que o conhecido George Orwell e a também não tão conhecida escritora sueca Karin Boye. Ambos os escritores imaginaram uma sociedade onde não houvesse liberdade individual, onde não houvesse o Eu, mas apenas o Ele, neste caso representado pelo Estado. Orwell todos nós conhecemos pelo seu clássico 1984, mas Karin Boye não. Seu mais conhecido livro pelo público brasileiro é o seu Kalocaína, que foi traduzido pelo jornalista Janer Cristaldo. O livro de Karin Boye retrata um distopia. Segundo Janer, uma distopia "é a utopia às avessas, o mundo real projetado não para um futuro desejável, e sim para um futuro abominável e - o que é pior - cada vez mais próximo e inevitável". Um dos meus ensaios preferido do Janer Cristaldo é justamente este: Kalocaína, uma provável fonte de 1984, em que o jornalista faz uma analise de ambas as obras. Uma leitura rara. Segundo Janer, as semelhanças entre as idéias de Orwell e Boye são: i. a vigilância contínua dos cidadãos pelo Estado ii. a ausência de arte; iii. a constância dos duplos; iv. uma fraternidade, clandestina e paralela ao Estado; v. a existência de um mundo selvagem, não organizado, e por isso mesmo desejável; vi. a desconfiança entre os homens como fundamento do Estado; Só por estas linhas já dá para ter uma noção deste impressionante ensaio. Leia o Kalocaína, uma provável fonte de 1984 clicando aqui: http://textos-ah.blogspot.com/2007/06/kalocana-uma-provvel-fonte-de-1984.html
Terça-feira, Junho 26, 2007
EMPRESÁRIO REIVINDICA NOVAS INSTÂNCIAS NA JUSTIÇA O Brasil tem justiça para todos os gostos. Ministros, senadores e deputados têm foro privilegiado. Índios podem matar, estuprar, seqüestrar e continuam livres como passarinhos na selva. Sem-terra pode invadir, depredar, manter pessoas em cárcere privado e ainda recebe em média 31 mil reais em compensação aos crimes cometidos. O microempresário Ludovico Ramalho Bruno, pai de um dos pobres meninos ricos que espancaram barbaramente uma empregada doméstica no Rio, quer instituir uma nova instância na Justiça, para julgar os universitários. Em defesa de seu pimpolho, diz Ludovico: "Eles não são bandidos. Tem que criar outras instâncias para puni-los. Queria dizer à sociedade que nós, pais, não temos culpa nisso. Eles cometeram erro? Cometeram. Mas não vai ser justo manter crianças que estão na faculdade, estão estudando, trabalham, presos. É desnecessário, vai marginalizar lá dentro. Foi uma coisa feia que eles fizeram? Foi. Não justifica o que fizeram. Mas prender, botar preso, juntar eles com outros bandidos... Essas pessoas que têm estudo, que têm caráter, junto com uns caras desses?" De fato. Se indíos e sem-terra não podem ir para a cadeia, porque iria um universitário? Desde há muito está em curso um movimento para isentar universitários de qualquer responsabilidade penal. Até bem pouco, universitários eram os únicos brasileiros que podiam drogar-se, na paz dos campi, com a leniência de reitores e demais autoridades. Com a recente invasão da Reitoria da USP, ficamos sabendo que também podem invadir prédios administrativos, ocupá-los pelo tempo que bem entenderem e depredá-los, sem temer qualquer punição. Ludovico Ramalho Bruno acha pouco. Quer mais liberdade de ação para a juventude universitária. Onde se viu universitários não poderem espancar uma reles empregadinha doméstica? Os futuros líderes da nação precisam de mais liberdade para suas inocentes brincadeirinhas de fim de balada. Além do mais, boa parte da culpa é da moça agredida. "Sirley é mais frágil por ser mulher e por isso fica roxa com apenas uma encostada", disse Ludovico.
ESCRITORA CEGUINHA "Não existe a literatura on-line como gênero", escreve Cecília Giannetti, escritora e jornalista que foi uma das agraciadas naquela corrupção entre amigos, que mandou escrevinhadores a diversas cidades do mundo às custas do contribuinte. Ou pelo menos pretendia mandar, já que o projeto inicial previa captações através da lei Rouanet. A moça é ceguinha ou não entende o que seja a palavra on-line. E esses milhões de obras literárias que estão sendo digitadas e colocadas na rede, à disposição dos leitores de qualquer quadrante do mundo? Isso não é literatura on-line? Bem entendido, não se trata de um gênero novo. É o bom e antigo livro, romance, ensaio ou poesia, só que não é em papel. Nem está preso nas estantes de livrarias ou bibiotecas, mas solto no espaço, ao alcance da mão de quem quiser apanhá-lo.
HENK, A MALA DOS POBRES DE ESPÍRITO Sem dúvida alguma, ser rico é muito bom. Dinheiro é beleza, saúde, requinte, felicidade. Pelo menos para quem sabe usá-lo. O que nem sempre acontece. Para uma minoria de ricos inteligentes, existe uma grande massa de milionários com cérebro de camarão. Estes senhores - ou senhoras - grossos por fora e ocos por dentro, na hora de apresentar-se como são, identificam-se com o único valor que possuem. Falei semana passada de minha maleta de viagens, na qual levo seis quilos de roupa. Coincidentemente, a Veja desta semana traz uma reportagem sobre malas. Viajantes experientes são unânimes ao afirmar que uma boa mala de mão é item de primeira necessidade numa viagem, particularmente nestes dias de caos nos aeroportos brasileiros. E como! A bagagem que você leva na mão não corre o risco de partir sem você. A mala ideal apontada pela reportagem, a mais leve, é exatamente a que comprei em minha penúltima viagem. Estava em Barcelona, no carrer Ferran, em pleno Barrio gótico, precisava de uma mala para voltar e justo em frente a meu hotel havia uma loja do ramo. Achei uma do tamanho que gosto, forte, leve e não muito grande, e a comprei. Não olhei a grife e se olhasse de nada me adiantaria, pois desconheço grifes. Só mais tarde fui saber que havia comprado o supra-sumo das malas, a Kipling. Foi mera coincidência. Ela tem rodinhas e pesa 3,2 quilos, o que aumentou minha bagagem para algo entre nove e dez quilos. Nada demais para quem gosta de viajar sem peso. Preço no Brasil, 640 reais. Lá, comprei pela metade disto. A reportagem apresenta uma série de malas, todas elas relativamente pequenas e muito práticas, umas baratas e outras nem tanto. Uma página adiante, temos notícias de uma mala Henk, considerada pela revista Forbes a mais cara do mundo. Foi projetada para não pesar mais de 25 gramas ao ser puxada, o que não deixa de ser interessante. Vem nas opções ébano de Madagascar, folha de madeira nobre e couro italiano e com rodinhas de titânio, que não trepidam nem mesmo em terrenos irregulares. Preço? De 40 mil a 80 mil reais. É preciso ser muito rico para comprar tais objetos. Rico e besta. Se você optasse por tal mala - supondo-se que pudesse por ela optar - melhor sair de casa com segurança armada. 40 mil reais é o custo de seis semanas na Europa para duas pessoas, passagens incluídas, comendo em bons restaurantes e parando em hotéis confortáveis. 80 mil seria o custo de três meses. Passando bem, insisto. Se você aceitar menor conforto, pode fazer estas viagens pela metade destes preços. Só a mala, considerado seu menor preço, sai vinte vezes o custo da passagem. Caso você se interesse, esta maletinha pode ser comprada em www.henk.com. Na mesma edição da revista, uma outra reportagem fala de bolsas (femininas, é claro), ao preço de 37 mil reais. Ou de uma outra modelo Vuitton, de 42 mil dólares, o equivalente aos 80 mil reais da mala Henk. Diz uma gerente da loja Daslu: "A nossa cliente paga caro pela exclusividade, pela segurança de ter uma bolsa única em qualquer lugar do mundo". De novo a estupidez de novo rico. Que mais não seja, a bolsa só será única enquanto um chinês não a clonar. Mas a reportagem não fica nestes patamares. Acaba com uma bolsa Birkin de couro de crocodilo cravejado de diamantes, da Hermès. Preço: 148 mil dólares. Ou seja, 285 mil reais. Esta até que entendo. Não é mais bolsa, é jóia. Preço de jóia não tem teto. Há canetas bem mais caras. Se entendo a bolsa Hermès, não entendo a mala Henk. Pode uma mala valer de 40 a 80 mil reais? Os marqueteiros que me desculpem, mas não pode. A Henk não passa de uma armadilha para esses pobres diabos, ricos de posses e pobres de espírito, que só têm uma coisa para ostentar como valor: dinheiro. Embora nada entenda da arquitetura destes sofisticados objetos do desejo, vejo nesta mala um erro de concepção. Para que rodinhas, ainda que de titânio? Quem paga tais preços por uma mala, não arrasta malas em aeroportos.
Segunda-feira, Junho 25, 2007
MAIL DO QUAGLIO Recebo do leitor Humberto Quaglio: Prezado Janer, Saudações, Mais uma vez escrevo para parabenizá-lo por mais um excelente texto, "Os Ateus estão chegando", em seu blog. Além de ser seu leitor, sou ateu, e, mesmo já tendo lido suas críticas aos "ateus militantes", vejo em você alguém que contribui bastante para a causa do ateísmo, mais até do que aqueles ateus engajados em propagar suas convicções. Bem, nem sei se ateísmo pode ser chamado de "causa". Para os militantes, certamente é. Não quero parecer um leitor chato, mas há um detalhe no texto que chamou minha atenção, e que merece correção: você mencionou Nietzsche, Voltaire e Bertrand Russell como os escassos autores ateus aos quais teve acesso. Voltaire não era ateu. Outros célebres pensadores de sua geração, como Diderot e d'Holbach, eram ateus, mas Arouet não. Voltaire é uma das personagens da história da humanidade que eu mais admiro. É para mim um daqueles que alguns costumam chamar de "heróis intelectuais", uma mente livre, independente, e é para mim o exemplo maior de pessoa que teve a coragem de ser anticlerical em uma época em que a Infame, como ele chamava a Igreja de Roma, ainda tinha poder suficiente para arruinar ou mesmo tirar a vida de seus opositores. No entanto, Voltaire era teísta, e inclusive expõe sua opinião sobre os ateus em seu Dicionário Filosófico. Infelizmente, estou escrevendo este e-mal no escritório, e meus exemplares do Dicionário (tenho três edições diferentes) estão em casa. Mas, se não me falha a memória, no verbete sobre os ateus, Voltaire expõe a prática do clero, muito comum em seu tempo, de acusar seus inimigos de serem ateus, mesmo quando estes apenas divergiam quanto a detalhes insignificantes em questões teológicas. Voltaire, se não me engano, reconhece a coragem deles, mas defende a idéia de que estão em erro ao pensar que não existe uma divindade. Sou ateu, e pode parecer uma contradição o que vou afirmar, mas admiro Voltaire pelo seu teísmo. Entre os religiosos (principalmente pelos católicos e especialmente pelos jesuítas), Voltaire era visto como um inimigo terrível, principalmente depois do caso Calas. No entanto, entre os ateus como d'Holbach e Diderot, seu teísmo provavelmente também era criticado. Para mim isto demonstra independência e destemor intelectual. Gostei da menção às crises de histerismo causadas por Dawkins entre os teístas. Logo lembrei-me dos artigos do Olavo de Carvalho atacando o biólogo. Obrigado pela dica sobre o novo livro do Dennett. Não sabia que estava sendo publicado no Brasil. Se você não leu, recomendo A perigosa Idéia de Darwin. É excelente. Acho que o próprio Voltaire se tornaria ateu se tivesse nascido em nosso tempo, e se tivesse lido Dennett e Dawkins. Um grande abraço. Gratíssimo, meu caro Quaglio. De fato, meus dedos pairaram um segundo sobre o teclado ao incluir Voltaire como ateu. Sim, eu sabia de seu teísmo. Seja como for, não é de todo errado situá-lo como ateu, já que sua crença em algum deus não implicava nenhum culto ou reverência. Além do mais, foi um dos escritores que com mais bravura se opuseram à Infame.
ALVÍSSARAS! Guilherme Diniz me envia uma boa nova. O livro de Minois já está traduzido em português. De Portugal, mas português. Você pode encomendá-lo em http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=757592 Recomendo vivamente. Boa leitura a todos!
Domingo, Junho 24, 2007
OS ATEUS ESTÃO CHEGANDO "Como fazer a história de uma atitude negativa?" - pergunta-se George Minois, em Histoire de l’athéisme -. "A história dos que se opõem à... é seguidamente empunhada pelo campo adverso, e tratada com todos os preconceitos de hábito. (...) A dificuldade não é menor na época contemporânea: exceção feita dos movimentos ateus militantes, muito minoritários, como retraçar a história de uma atitude que não parece ter conteúdo positivo? Sonharia alguém, por exemplo, retraçar a história dos que não acreditam nos Ovnis?" Mesmo assim, Minois desenvolve por quase 700 páginas a história dos que se opõem à... Tornei-me ateu lá pelos quinze ou dezesseis anos. Não foi lendo literatura atéia, que praticamente não existia na época. Foi lendo a Bíblia. Não há fé que resista a uma leitura atenta da Bíblia. Pelo menos se o leitor for honesto consigo mesmo. Os escassos autores ateus aos quais tive acesso, fui ler um pouco mais tarde: Nietzsche, Voltaire, Bertrand Russel. Deste último, o excelente livrinho Porque não sou cristão, consolidou de vez o que eu já vinha suspeitando. Ateu sendo, na época nunca fui questionado por esta atitude. Era ateu como outros eram católicos, evangélicos, espíritas ou o que quer que fossem. É curioso notar que só hoje, uns bons quarenta anos depois daqueles dias de adolescente, tenho provocado escândalo ao declarar-me ateu. A meu ver, isto só pode ser explicado por um avanço crescente dos teístas fundamentalistas e fanáticos. Seja como for, este fenômeno me diverte muito. Religião é mala sem alça. Ante a razão, não há como segurá-la. Leio com prazer, na Veja desta semana, que a mais recente literatura sobre ateísmo está finalmente chegando ao Brasil. A Martins Fontes publicou o Tratado de Ateologia, de Michel Onfray, que comprei na França quando havia saído do forno. Interessante, mas não se compara ao livro de Minois. Onfray tem uma produção irregular. Talvez um pouco embriagado pelo sucesso, investiu em uma "contra-história da filosofia", obra projetada para seis volumes, dos quais já tenho o primeiro, Les sagesses antiques. Pensei que iria descobrir novidades na área e só encontrei os pré-socráticos que um dia estudei em meu curso de Filosofia. O autor promete mais do que fornece. Ainda nesta área, ano passado tivemos Jesus e Javé - os nomes divinos, de Harold Bloom, pela Objetiva, um dos melhores estudos literários que já li sobre a Bíblia. Bloom, crítico literário, judeu e ateu, vê Deus como mais um personagem da literatura universal, assim como o Quixote ou Hamlet, e nisto reside o vigor de seu ensaio. Surgiu também Quebrando o encanto, de Daniel Dennett, pela Globo. Em agosto deve sair, pela Companhia das Letras, Deus, um delírio, de Richard Dawkins, autor que vem provocando crises de histerismo nos teístas. E a Ediouro nos promete para outubro, Deus não é grande, de Christopher Hitchens, que já nos deu o excelente The Missionary Position - Mother Teresa in Theory and Practice, um libelo arrasador e definitivo contra Agnes Gonxha Bojaxhiu, essa vigarista albanesa de alto bordo mais conhecida como Madre Teresa de Calcutá. Este livro não foi - e suponho que tão cedo não será - traduzido no Brasil. Mais do que santa, como pretendeu João Paulo II, a escroque internacional é um dos ícones da mídia contemporânea. Em meio a isso, tenho afirmado, por influência de Bloom, que hoje o Ocidente cristão é politeísta e cultua nada menos que quatro deuses: Jeová, Cristo, o Paráclito e Maria, que assumiu o status de deusa. Esta percepção parece estar sendo mais difundida nos dias atuais, quando se vê com mais nitidez o que está por trás da hagiologia católica. Dawkins, em Deus, um delírio, escreve: "A Santíssima Trindade é acompanhada pela Virgem Maria, uma deusa de fato, embora não seja chamada assim. O panteão católico é inflado ainda pelos santos, que, se não são semideuses, têm poderes de intercessão em áreas especializadas que incluem dores abdominais, anorexia, desordens intestinais. O que me impressiona na mitologia católica é não só sua qualidade kitsch, mas também a falta de vergonha com que essa gente fabrica as coisas no andar da carruagem. É tudo despudoramente inventado". Ateus, temos leituras divinas pela frente. Mas está faltando ainda a tradução do mais importante deste livros, o de George Minois. Falta também L'Esprit de l'athéisme, de André Comte-Sponville, lançado ano passado em Paris pela Albin Michel.
Sábado, Junho 23, 2007
MÔNICA NÃO CONVENCE Ontem, todo-poderoso presidente do Senado, terceiro sucessor presidencial, em caso de impedimento ou vacância do cargo de presidente da República. Hoje, um pobre diabo emendando uma mentira na outra para preservar seu status. Nada de surpreendente em um país onde quem não mente não se elege. Até aí, estamos dentro da normalidade. Se alguém conhece um deputado ou senador que conseguiu eleger-se sem mentir, favor comunicar-me. Eu não conheço. Embora o que esteja em jogo sejam as relações escusas com um lobista, o pivô de toda a história é uma infidelidade conjugal. Para manter um relação equilibrada entre Perpétua e a Outra, o todo-poderoso presidente do Senado, ao que tudo indica, pediu socorro a uma empreiteira para pagar os custos da Outra. Tudo isto na surdina, até o dia em que a pensão minguou e a Outra resolveu botar a boca no trombone. Palavra puxa palavra, mentira puxa mentira, e o senador se revelou como mais um dos tantos corruptos que fazem fortuna na política. A Veja desta semana mostra, em um gráfico arrasador, a evolução do patrimônio do senador. Em 1978, quando deputado federal, era de 26 mil reais e um Wolkswagen. Em 2002, senador reeleito, tem 1,6 milhão de reais, uma casa e um flat em Brasília, um apartamento em Maceió, uma caminhonete Toyota e outra Mitsubishi. No ano seguinte, como líder do PMDB no Senado, seu patrimônio evolui misteriosamente para 6,3 milhões de reais. De repente, não mais que de repente, surgem em suas posses 1278 cabeças de gado. Em 2005, como presidente do Senado, seus bens alcançam a cifra de 9,5 milhões de reais. Em 2006, 9,8 milhões. No espaço de cinco anos, o senador multiplica por seis suas posses. Em 2007, para justificar a pensão paga à Outra, o senador apresenta uma contabilidade fajuta que só o enreda cada vez mais. É espantoso constatar que a Receita Federal, que intima contribuintes para justificar o recebimento até mesmo de duas ou três mil merrecas não justificadas nas declarações de IR, não tenha observado nada de anormal na evolução miraculosa do patrimônio do senador. Se Renan Calheiros chegou até seus 9,8 milhões impunemente, é porque contava com a cumplicidade do fisco. Mas isto é o de menos. Vamos à Outra. A tendência da imprensa é ver Mônica Veloso como uma jornalista ingênua que caiu nas manhas de um político ardiloso. Ora, não é bem assim. Jornalista que aceita dinheiro pago por fora como pensão deve pelo menos suspeitar que esse dinheiro é sujo. Mais ainda quando aceita um pacote de cem mil reais em dinheiro vivo. Em entrevista à Folha de São Paulo deste domingo, diz Mônica: "quando você tem um relacionamento com um homem e vocês têm um filho, você não vai ficar questionando se o pagamento de sua pensão é ou não em espécie". Ora, jornalista que recebe cem mil reais em espécie, ou sabe que está recebendo dinheiro ilícito ou não é jornalista. Jornalista pode ser tudo, menos ingênuo. Pode ser até corrupto. Mas ingenuidade não é coisa de quem lida com informação. Mônica diz ainda que a "sociedade, em geral, tende a recriminar" mulheres com casos extraconjugais. Não é verdade. Isto faz parte dos costumes contemporâneos. Se alguém merece a reprovação pública é a panaca da Perpétua, que aceita passivamente a condição de mulher secundária. Mônica afirma que amou o peemedebista, "amei, amei muito". E aqui já cabe uma primeira pergunta: pode alguém amar um peemedebista? Se ama, é porque ama a mentira. Diz a moça que os dois nunca procuraram se esconder e que, no início, Renan dizia que estava separado. Ora, bastava que a jornalista fosse às fontes competentes - como se faz em sua profissão - para saber que o senador mentia. Bastaria um telefonema à sua casa. Ou terá achado normal relacionar-se com alguém durante três anos com a condição de jamais chamá-lo em sua própria casa? "Soit belle et tais-toi", dizem os franceses. Seja bela e cale a boca. É o que melhor teria feito Mônica. Em vez disso, preferiu abrir a boca. Revelou-se como um personagem à altura do pequeno Renan Calheiros. Interrogada sobre sua religião, disse: "Evangélica, batista, da Vale do Amanhecer". Ora, jornalista que dá crédito àquele caldo místico que borbulha na geografia fétida de Brasília não merece crédito algum. E é óbvio que nenhuma crença evangélica vai abençoar relações com senhores casados. Mônica não convence. Se aceitou o assédio de um homenzinho vulgar e mentiroso é porque o merece. Pergunta a quem interessar possa: quem recebe dinheiro sujo não deveria devolvê-lo?
Sexta-feira, Junho 22, 2007
DIAS LOPES, CRONISTA DA BONA-XIRA O mundo está cheio de comensais que comem sem jamais pretender entender o que comem. Há também os que gostam de saber o que estão comendo. Me situo entre estes últimos e entre minhas leituras prediletas estão os autores que tratam de história da comida. O primeiro livro que li nesta área foi Food in Civilization – How History Has Been Affected by Human Tastes, de Carson I. A. Ritchie. O livro tem uma origem curiosa. Carson havia convidado alguns amigos a jantar em um bom restaurante. Comeram bem e fartamente. Na hora de pagar, Carson pegou a carteira ... e viu que não tinha dinheiro suficiente. Seus amigos o salvaram. "Mas uma vez passado o mau momento, pensei que a história da alimentação em algo se parece a esta anedota: quando chega o momento de pagar o banquete, podemos descobrir que o que desfrutamos custa mais do que estávamos dispostos a pagar quando nos sentamos à mesa". Decidiu então escrever este estudo para que o leitor descubra uma nova interpretação de sua própria história e de suas atitudes frente ao que come. No ano que vivi em Madri, meu guru era Enrique Sordo, jornalista que escreveu España, entre trago y bocado, minha bíblia naqueles dias. Viajando de região em região do país, o autor vai mostrando suas características físicas e geográficas, a estética de sua paisagem, a psicologia de seus habitantes... e as cozinhas regionais. Não é um guia para jogar-se entre outros mapas de turismo, mas um estudo antropológico e sociológico sobre o modo e estilo de comer de cada povo. Mais recentemente, li o excelente A Invenção do Restaurante, de Rebecca L. Spang, que estuda o fenômeno em suas origens, ou seja, em Paris. Considero os restaurantes um dos mais esplêndidos achados da história humana e atualmente viajo quase só para visitá-los. Foi neste livro de Rebecca que descobri que os restaurantes evoluíram das maisons de santé até o que hoje conhecemos por restaurante. A palavra decorre de uma paráfrase de um versículo de Mateus (11:28) "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei". Lá pelos estertores do século XVIII, um dos primeiros restaurateurs da época pôs na entrada de sua casa esta frase um tanto blasfema: "Accurite ad me omnes qui stomacho laboratis et ego vos restaurabo". Ou seja, corram a mim todos vós cujos estômagos padecem, e eu vos restabelecerei. Fascinado por este tipo de literatura, não poderia deixar de ir ontem até a Livraria Cultura, onde José Antonio Dias Lopes - pedritense de cepa, veterano jornalista da Abril, ex-correspondente de Veja na Itália e editor da revista Gula - autografava seu último livro, A Rainha que virou pizza. Viajor e cultor da bona-xira, Dias Lopes nos guia em uma viagem no tempo e na geografia, percorrendo cortes e mosteiros da Europa, desvelando as ceias de reis, rainhas, papas e cardeais e nos esclarecendo sobre a origem de coisas de nosso dia a dia - como a toalha de mesa, o guardanapo, a colher, a faca, o garfo - tão banais que nem imaginamos que um dia não tenham existido. Quando empunhamos um cardápio em um restaurante, ou comemos um croissant num café, não temos nem idéia de como e onde surgiram. Detentor de uma cultura histórica considerável, Dias Lopes nos conduz desde os primórdios da culinária - o banquete fúnebre do rei Midas, a mesa requintada da Magna Grécia, Cleópatra e os festins egípcios - até os pratos prediletos da máfia ou do Vaticano. Comer e viajar são prazeres espirituais complementares. Falei em crônica passada da pergunta que fiz a um amigo, emérito gourmet, sobre porque os homens viajavam. "Os homens viajam para comer", respondeu-me. O livro de Dias Lopes é a demonstração cabal deste postulado. Só quem viaja consegue falar de cátedra de culinária. Ainda não li o livro, mas sei que tenho muitas horas de prazer intelectual pela frente. Melhor que comer e beber bem, só comer e entender a história do que se come e bebe. Seguidamente, os leitores me pedem recomendações de leitura. Les voilà. Para quem é chegado a lidar com fogões, o autor oferece ao final de cada crônica uma receita relacionada ao assunto tratado. Last but not least, Dias Lopes foi quem me introduziu pela primeira vez em um restaurante na Paulicéia. Eram os anos 70, e o restaurante era a Osteria do Piero. O autor pode ser encontrado todas as quintas-feiras no suplemento "Paladar", do Estadão.
LULA E LUSTROG Em As Viagens de Gulliver, Swift nos fala da guerra deflagrada entre os dois grandes impérios de Lilipute e de Blefuscu. "Estas duas poderosas potências têm, como ia dizendo, andado empenhadas, durante trinta e seis luas, numa guerra muitíssimo acesa, e motivada pelo seguinte: toda gente concorda em que a maneira primitiva de partir os ovos antes de serem comidos, é bater com eles no rebordo de qualquer prato ou copo; mas o avô de Sua Majestade imperial, em criança, estando para comer um ovo, teve a infelicidade de cortar um dedo, o que deu motivo a que o imperador, seu pai, lavrasse um decreto, em que ordenava aos seus súditos, sob graves penas, que partissem os ovos pela extremidade mais delgada. Este decreto irritou tanto o povo, que consoante narram os nossos cronistas, houve por essa época seis revoltas, em uma das quais um imperador perdeu a coroa". As guerras entre os dois impérios continuaram a fazer mais e mais vítimas. Os imperadores de Blefuscu, em defesa de suas posições, empunhavam o quinquagésimo quarto capítulo do Blundecral (que era o Corão lá deles) onde o grande profeta Lustrog afirmava que todos os fiéis quebrarão os ovos pela ponta mais conveniente. Impossível não evocar Swift quando Lula diz ao comandante da FAB, brigadeiro Juniti Saito, que "a Aeronáutica deve tomar todas as medidas que considerar adequadas para estabelecer o fluxo e a normalidade do tráfego aéreo". O Supremo Apedeuta já está dominando com virtuosismo a linguagem dos profetas.
Quinta-feira, Junho 21, 2007
SOBRE MALAS E VIAGENS Sabrina, amiga de Orkut, ficou intrigada com minha maletinha de viagem. "Como assim, Janer, maletinha de seis quilos? Me ensina como levar pouca bagagem?" Mistério algum, Sabrina. O que é necessário para uma viagem de trinta dias? A meu ver, dois pares de calças, um no corpo, outro na mala. Cinco camisas, digamos. (Em verdade, sempre sobra uma ou duas que acabo não usando). Quando sujam, se manda lavar no hotel. Uma boa idéia é levar blusas que não precisem ser passadas, a gente mesmo lava no quarto. Meias, cuecas, creme dental, escova. Sapatos, levo sempre um par só, nos pés. Se for inverno, uma parca ou sobretudo, já no corpo. E nada mais. Para mulheres, considerados os shampoos e cremes da vida, até que concedo um quilo a mais. A propósito: jamais viaje com sapatos recém-comprados. Podem estragar sua viagem. Sapatos, além de serem leves, devem ser sovados. Os melhores sapatos para viajar são aqueles recomendados para diabéticos. Houve uma época em que só havia uma linha destes sapatos no país, o Opananken. Agora há muitas opções. Há mulheres que, por uma questão de vaidade - questão das mais legítimas! - não gostam de ser vistas com a mesma roupa todos os dias. Ora, numa viagem, exceto os funcionários do hotel em que você se hospeda, dificilmente alguém a verá duas vezes com a mesma roupa. Raramente revemos alguém em uma viagem. Não tema: suas roupas sempre serão únicas para quem a vê. Pois você não vai ser vista de novo. Quando viajamos, não viajamos para desfilar guarda-roupas. Claro que em hotéis de luxo extremo seria conveniente um guarda-roupa mais incrementado. Mas estes hotéis nunca estiveram em meu roteiro. Não vejo por que gastar uma fortuna só para dormir. Com minha Baixinha, nunca tive conflitos com malas. Ela geralmente levava dez quilos, o que me parece permissível. Outras vantagens da mala pequena: você pode levar no interior do avião, sair com ela na mão e ganhar pelo menos uma hora no aeroporto, sem ter de esperar a descarga de bagagens. Como todos os aeroportos da Europa têm trem, ônibus ou metrô até a cidade, pode-se economizar o preço de um táxi. Carregar malas imensas em corredores de metrô ou nas ruas não é programa recomendável a quem viaja por lazer. Isso sem falar que, se você quiser curtir os trens da Europa, verá o quanto dói uma mala grande. Se você gosta de comprar em viagens, é simples. Compre mais uma mala para voltar. Dispensável dizer que sempre é bom deixar as compras para a última escala da viagem. Meu único conflito são as óperas. Claro que você não será barrado se entrar de jeans num teatro. Já fiz isso. Mas me sinto desconfortável em meio aos pingüins de black tie. Seja como for, não admito sobrecarregar minha mala com mais três ou quatro quilos de um terno. Compro então os DVDs e curto as óperas chez moi. Neste sentido, adorei Nova York. Nada de pompa nos teatros de ópera. Sem minha Baixinha adorada, tenho tido conflitos com minhas atuais companheiras de viagem. Não lhes passa pela cabeça viajar com menos de vinte quilos. Em fevereiro passado, viajei com duas amigas gaúchas. Uma delas, antes de partir, deixou sete quilos aqui em São Paulo. Mesmo assim levava uma mala absurda. Três casacos pesados, dois pares de botas, sei lá quantos de sapatos. Para que três casacos ou dois pares de botas em uma viagem, meu Deus? Outro detalhe que o marujo de primeira viagem desconhece é que o inverno europeu é menos frio que o brasileiro. Todos os ambientes têm calefação. Não invente de levar grossas blusas de lã, você vai viver em uma eterna sauna. A temperatura interna dos hotéis, cafés e restaurantes está sempre acima dos 22, 23 graus. Ônibus ou metrô, idem. Cá no Brasil, basta o termômetro cair um pouco e tiritamos de frio nos bares, que não estão preparados para o inverno. Outro detalhe: quando lá fora faz zero ou menos graus, a primeira providência ao entrar em um bar é tirar logo o casacão. Se não tirá-lo, você vai bater dentes ao enfrentar de novo a rua. Uma das coisas que adoro na Europa é tomar uma cerveja gelada em um café, enquanto do outro lado da vitrine a neve cai com gosto. Só em um clima assim os cafés assumem sua condição de útero quentinho, de abrigo e proteção a quem foge da intempérie. Mal se atravessa uma porta, o frio se transforma em apenas paisagem. Em matéria de proteção contra o inverno, a cidade que mais me surpreendeu foi Montreal. Tem 25 quilômetros de ruas subterrâneas, com todos os serviços de uma cidade: bares, restaurantes, bancos, escolas, hotéis, comércio, etc. Lá em cima, pode fazer –30°, como não é raro acontecer. Nos subterrâneos, vive-se em clima de eterno verão. Em suma, quando viajar para o inverno no Primeiro Mundo, não se preocupe em levar roupas internas quentes. Camisas leves bastam. O que deve ser quente é o casaco. Claro que estou falando em invernos civilizados, urbanos e humanos. Se você for para a Sibéria ou para os pólos, esqueça tudo o que eu disse. Para o Sahara também. O deserto é um país frio que aquece durante o dia. Quinze graus negativos é uma temperatura normal na noite sahariana. Bom mesmo é rumar às ilhas gregas. Neste caso, deixo no último hotel todo meu "excesso" de bagagem. Para o Egeu a fórmula é uma só: mochila, dois pares de bermudas, duas ou três camisetas e um par de tênis. Com menos de três quilos está resolvida a questão bagagem. Não suporto a idéia de viajar só. Não tem graça alguma percorrer ruas e arquiteturas, fazer uma bela refeição e tomar um bom vinho, sem ter com quem compartilhar estes bons momentos da vida. Como companheiros de viagem, excluo de cara boa metade da humanidade, a metade masculina. Viajar há de ser com mulher. Fazer e receber cafuné torna mais alegre qualquer viagem. É bom que ela conheça pelo menos duas ou três línguas além da própria, ou perderá muito da viagem. O que já reduz mais um pouco minhas eventuais companheiras. Melhor que não fume, pois o Primeiro Mundo é hoje tremendamente hostil ao fumante. Depois da partida de minha Baixinha, a cada ano busco alguém com quem partir. O nó górdio são as malas. Pois de nada me adianta viajar com seis ou oito quilos, se minha parceira viaja com vinte. Terei de enfrentar a espera das bagagens no aeroporto, eventuais revistas em aduanas, corredores de metrô. A outra mala, a dela, me atrapalha. Neste sentido, toda honra e toda glória a uma de minhas sobrinhas diletas, com quem viajei há dois anos. Conseguiu partir com apenas oito quilos. Minha filha já está conseguindo quinze, dezesseis. Precisa ainda sofrer mais um pouco para chegar ao entendimento.
Quarta-feira, Junho 20, 2007
COVARDIA SE REPETE Já comentei várias vezes a covardia do Ocidente ante a affaire Rushdie. Vou comentar de novo. Tudo começou em 1989, quando o indiano Salman Rushdie publicou Versículos Satânicos. Neste livro, Rushdie reproduziu os versículos Gharanigh, não aceitos pelos canonistas do Corão. Mutatis mutandis, foi como se no Ocidente fossem publicados os evangelhos apócrifos ou gnósticos, não aceitos pela Igreja Católica, que aliás são publicados em várias línguas do Ocidente. Embora fosse indiano com nacionalidade britânica, Rushdie foi condenado à morte por uma fatwa do aiatolá Khomeini, então todo-poderoso da "revolução" no Irã. A Europa aceitou tranqüilamente a sentença do aiatolá. Em vez de isolar o Irã, o Reino Unido passou a dar proteção a Rushdie. Os demais países da comunidade se mantiveram em silêncio obsequioso. Sem atinar que não se tratava apenas de proteger um escritor perseguido. Mas de repudiar a pretensão megalômana de um padre persa, que pretendeu legislar inclusive no estrangeiro. A apostasia, ou crime, segundo os muçulmanos, havia ocorrido em Londres, com a publicação do livro. Do alto dos minaretes de Teerã, Khomeiny ordenou não só a condenação à morte - como também a execução da sentença - de Rushdie, assim como todos os implicados na publicação do livro… em território europeu ou onde quer que estes "criminosos" estivessem. Em 1991, o tradutor do livro para o japonês foi assassinado e em 1993 o editor de Rushdie na Noruega foi atacado quando saía de casa. Na semana passada, a rainha Elizabeth II houve por bem conceder o título de "sir" a Rushdie, ao nomeá-lo cavaleiro da Coroa britânica. Protestos histéricos no Irã e Paquistão. O ministério das Relações Exteriores do Irã considerou a decisão da rainha um ato de provocação. Em Islamabad, manifestantes queimaram fotos do escritor e da rainha e o ministro dos Assuntos Religiosos do Paquistão, Mohammad Ejaz uh-Haq, ressuscitou a já esquecida fatwa, ao declarar que "se alguém comete um atentado suicida para proteger a honra do profeta Maomé, seu ato é justificado". A covardia se repete. Leio hoje nos jornais que a ministra britânica das Relações Exteriores, Margaret Beckett, declarou que Grã-Bretanha lamenta a ofensa causada pela concessão do título ao escritor Salman Rushdie, o que se deveu a seus méritos literários. No fundo, a Coroa está pedindo desculpas a uma súcia de fanáticos terroristas, por ter reconhecido o valor literário de um de seus súditos.
Terça-feira, Junho 19, 2007
BOA BISCA Quem dá explicação, já perdeu a discussão - diz a vox populi. Quanto mais o senador se explica, mais se enreda. Mentir não é bom, me dizia o Mário Quintana. Para cobrir uma mentira é preciso inventar outra e a coisa não acaba mais. O que era uma simples affaire conjugal, perfeitamente tolerável pelos costumes - como direi? - republicanos, está se transformando num imbróglio que talvez custe a cabeça do impoluto presidente do Senado. Se até agora não há algo que prove que o senador Renan Calheiros recebia dinheiro de uma empreiteira, o que já está mais que provado é que sonegava imposto. Pois se não tinha como justificar uma pensão alimentícia de 12 mil reais e no entanto a pagava, é porque dinheiro havia. Para justificar que podia pagar a pensão - o que nem de longe prova que a pagasse do próprio bolso - o senador apresenta recibos fajutos de venda de gado. Para começar, o número de reses de sua fazenda é contestado pelo funcionário por elas responsáveis. Continuando, dos recibos constam preços não praticados no mercado. Ou seja, o senador está encaminhando sua defesa a rumos cada vez mais perigosos. Se nem o gado explica o dinheiro que diz dispor, resta a pergunta: de onde veio então esse dinheiro? Pergunta mais que pertinente. Afinal, segundo suas declarações de bens, em 24 meses, a partir de maio de 2003, o senador ergueu um patrimônio agropecuário formado por três fazendas e mais de mil cabeças de gado. Não é tarefa para qualquer mortal. Para situar-se como vítima, o senador insiste na affaire afetiva, alegando estar sendo chantageado. Ora, neste Brasil de hoje, a ninguém interessa as eventuais infidelidades, seja de um senador, seja de um Zé Ninguém. Há uns trinta anos ou quarenta anos, a simples suspeita de uma amante derrubaria até mesmo o presidente da República. Os tempos mudaram. O cerne da questão, que o senador que a todo custo desviar, é de onde vinha o dinheiro recebido por sua teúda e manteúda. Falar nisso... O primeiro livro assinado por Machado de Assis, publicado em 1861, tinha como título A Queda que as mulheres têm para os tolos. Em verdade, segundo os machadianos, não seria de sua lavra, pois seu nome consta como tradutor. Embora não o tenha lido, o título sempre me fez pensar. Particularmente nestes dias de Mônica Veloso. Que faz uma jornalista bonita, inteligente e independente entregar-se a um pedaço de gente, incapaz até mesmo de ser honesto com a mãe de seus filhos? A fortaleza destes senhores empertigados nos altos cargos do poder no fundo não passa de verniz. Mal são flagrados em uma pulada de cerca, tecem atabalhoadamente um rosário de mentiras tentando provar o que nunca foram. Quando uma mulher bonita dorme com um canalha, eu, justo, me sinto roubado. Diga-se de passagem, não precisa nem dormir. Quem tem qualquer tipo de apreço por um corrupto, certamente acha normal, senão louvável, digna e justa, a corrupção. Não me refiro apenas às relações entre homem e mulher. Penso que uma pessoa honesta não pode ter intimidade alguma com corruptos. Se tiver, demonstra que aceita o crime com naturalidade. Claro que as facilidades que só o dinheiro e o poder oferecem sempre constituem uma tentação. O que me pergunto é se vale a pena dormir com pessoa vil em troca de tais facilidades. Ainda mais em um país onde uma mulher bonita, inteligente e independente tem todas as portas abertas para uma ascensão profissional. Longe de mim pretender jogar na jornalista a culpa toda desta história sórdida. Mas mulher que dorme com senadores, boa bisca deve ser.
Segunda-feira, Junho 18, 2007
A MODÉSTIA DO SUPREMO Com a volta de Sua Santidade Bento XVI a Roma, o Supremo Apedeuta retomou a liderança no festival nacional de besteiras. O Brasil vive o seu melhor momento econômico desde que a República foi proclamada, disse hoje Luiz Inácio Lula da Silva, em seu programa de rádio "Café com o Presidente". Modesto, o Supremo. Em verdade poderia ter sido mais abrangente. Segundo sua ótica, o Brasil vive seu melhor momento econômico desde a criação do universo. "Todo mundo está percebendo que nós conseguimos combinar crescimento com controle da inflação. E mais importante, todo mundo conseguiu perceber que nós estamos fazendo o crescimento das exportações e o crescimento das importações e o crescimento do mercado interno", destacou. Duas observações se impõem. Em primeiro lugar, Lula assume o controle da inflação como sendo obra de seu governo. Ora, a inflação foi controlada por Fernando Henrique Cardoso e sua equipe, com o Plano Real. Plano que aliás o PT tanto combateu, até concluir que não era boa política combater algo que libertava o país da corrosão provocada pela inflação. Em segundo lugar, sua afirmativa em nada difere daquela corrente durante o governo Médici: a economia vai bem, o povo vai mal. "Eu posso hoje dizer ao povo brasileiro, com muita tranqüilidade, que mesmo aqueles que são pessimistas ou mesmo aqueles que querem torcer contra o governo - porque a verdade é que tem gente que gosta que as coisas não dêem certo para eles poderem dizer que têm razão - é que o Brasil vive o seu melhor momento desde que a República foi proclamada. Eu não tenho dúvida de dizer isso". Poderia acrescentar que nunca antes neste país - conforme seu bordão - a corrupção viveu momento melhor, comprando deputados, senadores, policiais e juízes das cortes supremas. Soube-se na semana passada que 91% dos policiais em São Paulo recebem propina da máfia do jogo. Que farão as autoridades? Expulsarão e punirão estes 91%, deixando a função policial a cargo dos 9% que ainda não se corromperam? A corrupção se tornou tão banal, que já não há memória humana que consiga lembrar dos detalhes do penúltimo escândalo. Os relatórios investigativos já são medidos por gigabytes. Poderia ainda dizer que neste governo republicano - como gosta de sublinhar o ministro comunista da Justiça - as favelas vivem o auge de seu poder, expulsando à bala os policiais que nela tentam entrar para cumprimento da lei. Já há países dentro deste país onde o poder de polícia não mais se exerce. Caberia também destacar que o PT promoveu farta distribuição de renda, através de malas e cuecas recheadas de dinheiro vivo. Que o Estado está financiando, com o dinheiro do contribuinte, uma vasta quadrilha de celerados, que invadem fazendas e próprios do Estado, seqüestram pessoas e depredam centros de pesquisa, sem que a polícia possa intervir. Que o país produziu fato jamais visto no concerto das nações, promovendo um oficial assassino e desertor a general. Pareceu-me tímido o pronunciamento do presidente. Seu governo é responsável por mais insólitos e portentosos feitos. Lula, modesto, parece ter preferido omiti-los.
Domingo, Junho 17, 2007
MINHA GEOGRAFIA PREDILETA Comentei outro dia meu absoluto desinteresse em viajar pelo Brasil. Recebi não poucos mails, cuja tônica era uma só: se as autoridades de Turismo contam comigo para viajar pelo Brasil, podem esperar sentadas. No que a mim diz respeito, também. Sem falar que não há, neste país, consideração alguma à vontade do consumidor. Estou perto de Campos de Jordão. Pensei um dia ir até lá, que mais não fosse questão de ver como era. Queria passar uma noite na cidade. Telefonei para vários hotéis e nada feito. O pacote era de duas noites. Era pegar ou largar. Mais ainda: incluía refeições no hotel. Ora, não suporto comer em hotel. Na época, planejava uma viagem maior. Telefonei para Budapeste. Consegui hotel na hora, sem que me impusessem tempo de estada ou refeições que eu não desejava. Ou seja, é mais fácil reservar um hotel na Hungria do que em Campos. Assim sendo, até hoje não conheço Campos, a poucas horas de São Paulo. Nem pretendo conhecer. Recebi também outro tipo de mensagem. Que preciso explorar melhor meu país, como também a culinária local. Ora, buchada de bode à parte, acho que já degustei tudo o que se cozinha no Brasil. Em meus dias de Paris, eu tinha um amigo gaúcho, médico cheio da grana e comunista, que seguidamente passava por lá. Convidava-me para restaurantes caros nos quais, na condição de estudante, eu não tinha muito como ir. Que não me inquietasse, ele pagava tudo. Assim, foi graças a um defensor incondicional do proletariado que conheci a mais sofisticada cozinha francesa. A meu ver, como bom militante devotado à causa, ele pesquisava qual seria a cozinha ideal à qual um dia os affamés de la terre teriam acesso. Certo vez, perguntei-lhe: - Porque os homens viajam, Walter? - Os homens viajam para comer - respondeu-me. A resposta me supreendeu. Eu julgava que os homens viajavam em busca de sexo. Mais tarde e mais adulto, entendi que sexo é mais ou menos a mesma coisa em todas as partes do mundo. Quanto à cozinha, difere a cada azimute. Não tenho respeito intelectual algum por quem me fala em cozinha internacional. Isto não existe. A não ser que seja aquela gororoba que nos oferecem nos aviões, a dez mil metros de altitude, entre um país e outro. Um amigo me pergunta o que penso dos Estados Unidos e Oriente, como meta de uma viagem. Bom, pelo grande irmão do Norte, admiração e respeito. Mas não me adapto aos modus vivendi deles. Lá por 95, estive em Nova York. Só para confirmar o que já pensava. Os bares não me agradaram, não me agradou a culinária, não admito beber em copos de plástico e acho sumamente detestável aquela mania de apresentar a conta mal a gente pede uma cerveja. "É só?" - perguntam as garçonetes, e já vêm pra cima do cliente de caneta em punho. Ora, sei lá se é só! Preciso examinar o bar, ver se me agrada, se o ambiente me apraz, tampouco sei lá qual é o tamanho de minha sede. Não suporto a idéia de pagar a conta a cada chope que peço. Naqueles momentos, eu me lembrava dos cafés de Madri. Ficava duas horas lendo e bebendo e ao sair o garçom me perguntava: "Já?" O que eu gostei em Nova York foi o fácil acesso a óperas. A escolha é farta, dá pra comprar ingresso no dia e se pode ir de jeans e tênis. Não me sinto bem naqueles ambientes black tie das óperas na Europa. Para começar, quando viajo, minha mala fica em seis, no máximo oito quilos. Se pusesse um terno - para usar apenas uma noite ou duas - o peso da mala já ficaria fora de meus projetos. Lá pelos anos 70, em uma visita a Erico Verissimo, recebi uma orientação que jamais esqueci. "Para uma viagem confortável, sapatos leves e mala pequena". Uma pequena frase que escondia uma larga experiência de viagens. Não uso terno e gravata desde março de 1981. Foi o dia em que defendi minha tese no vetusto prédio da Sorbonne. Já estive em algumas óperas na Europa, mas em manga de camisa. Mesmo que você vá de parca ou sobretudo, na chapelaria você é despido. Manga de camisa não é proibido, mas a gente se sente um tanto mal em meio aos pingüins engravatados. Ópera, na Europa, não é exatamente um evento musical. Mas um acontecimento social, onde as pessoas vão exibir status. Neste sentido, adorei as óperas de Nova York. Os Estados Unidos oferecem, é claro, muita paisagem, arquitetura, cultura e atrativos ao turista. Não me basta. No dia em que eles se civilizarem e passarem a beber em copos de vidro, pensarei em voltar. Sem falar que não admito a idéia de ter de tirar os sapatos para entrar em um país. Assim sendo, é geografia excluída no que me resta de vida. Não gosto do jeitão deles. Naquela viagem de 95, rumei então ao Canadá. Não me senti muito bem no Canadá anglófono. Mal cheguei a Montreal e Québec, voltei a me sentir em casa. Quanto ao universo oriental, agradeço e passo. Claro que deve existir coisas interessantes a se ver por lá. Mas certamente lá não existem os bares que me aprazem, nem os jornais com que gosto de tomar minhas cervejas. Que mais não seja, como disse Buñuel, que vou fazer às três da tarde em Calcutá? Um outro amigo acha que eu me daria bem no Japão. "Tem bar pra tudo que é gosto, tem até containers de navio transformados em bar. Existem edifícios com vários bares por andar e olha que devia ter uns dez andares". Ora, não é bem a profusão de bares que busco. Mas a qualidade, o charme. Não consigo entender bares em andares. Creio que nunca entrei num bar que ficasse num andar. Me sentiria encaixotado. Aliás, lembro que entrei em um, em Paris. Era uma torre, o bar devia ficar lá pelo trigésimo andar. Interessante, tinha uma visão magnífica de Paris. Mas não era bar para o dia a dia. A propósito, todas as cadeiras eram viradas para o exterior, não havia como ficar face a face. Tenho predileção por cafés centenários, no bom rés-de-chaussée. De preferência com terrasse, onde eu possa curtir um sol de inverno. Quanto aos interiores, hão de ser com muita madeira e muito mármore. Com lustres pesados caindo do teto. Meu café predileto na Europa é o Metropole, de Bruxelas. Quem o conhece, entende o que estou falando. Fui conhecer a Áustria recentemente, há uns seis ou sete anos. Depois disso, voltei lá mais duas vezes. Eu imaginava que os mais belos cafés da Europa estavam em Paris, Madri ou Berlim. Ledo e crasso engano. É que não conhecia Viena. É certamente a mais alta concentração de cafés requintados da Europa. Nessas três viagens não deu para ver todos, e falo apenas dos melhores. Tenho certeza de que no Japão eu não encontraria isso. Outro detalhe: em Viena, os cafés oferecem dezenas de jornais do mundo todo (menos do Brasil, é claro), aos clientes. Conheci um que oferecia 300 jornais. Os interiores são verdadeiras salas de leitura. Lembro que um deles mais parecia uma biblioteca, tinha lâmpadas especiais para leitura em cada mesa. Acho que nos últimos quinze anos de viagens, talvez vinte, só tenho viajado em busca de bares. Faço longas caminhadas, curtindo a arquitetura de becos e vielas, com pausas em um bar e outro. Gosto de cidades velhas. Arquitetura modernosa não me atrai. Gosto de viajar pelos séculos XVIII, XIX, no máximo em princípios do XX. Aliás, esta é uma boa pergunta: em que século você vive? No que a mim diz respeito, apesar dos computadores e Internet, penso que vivo melhor no XIX. Não suporto garçons me apresentando a conta mal peço uma bebida. Minha concepção de bar é a mesma de Buñuel: são lugares de recolhimento. Tampouco suporto televisão ou rádio em um bar. Muito menos mesas de plástico ou fórmica. A mesa há de ser de madeira. Ou mármore. Se for para comer, com toalhas. Os copos hão de ser no mínimo de vidro. Neste sentido, gosto do francês. Copo é verre. Isto é, a palavra já determina o material do copo. Não se concebe um verre en plastique. Por estas e outras, a Europa é minha geografia predileta. Tenho tentado dela fugir, mas não é fácil. Vasto é o mundo e curta a vida. É preciso priorizar. Há cidades encantadoras na Europa que ainda não conheço. Atualmente, tenho vivido um impasse. Quero sair do eixo Roma-Paris-Madri e não consigo. Há horas penso ir ao México. Na hora de fazer a mala, minha maletinha de seis quilos, acabo rumando ao velho eixo. E por que não? Lá estão os botecos onde me sinto feliz, é lá que me sinto em casa.
Sábado, Junho 16, 2007
POLÍTICA DE AVESTRUZ Vivo em um país que, bem ou mal, funciona. Difícil é entender como funciona. Neste sábado, leio no Estadão que a lista de propina da máfia do jogo inclui, só na cidade de São Paulo, as oito delegacias seccionais e 84 dos 93 distritos policiais. A mesada era semanal, na base de 30 a 40 reais por máquina. Pergunta que se impõe: serão afastados os policiais dessas oito delegacias e 84 DPs? Claro que não. Não existiria mais polícia na cidade. No Estadão de domingo, uma resposta ao de sábado. A polícia anunciou o afastamento de pelo menos 20 investigadores-chefes dos DPs da capital. Muito pouco. Chegamos a um ponto em que o crime está tão disseminado que a melhor política é a do avestruz, fazer de conta que não se viu nada. Sabe-se também que 55% dos parlamentares receberam dinheiro de empreiteiras. Que fazer? Fechar o Congresso? Não dá. O Congresso não vai gostar da idéia.
Sexta-feira, Junho 15, 2007
GENERAL LAMARCA, HERÓI E MÁRTIR Mais uma vez as nações se curvam ante o Brasil. Um oficial comunista, que roubou armamento do Exército, desertou e matou friamente a coronhadas um companheiro de armas indefeso, foi postumamente promovido a general. Sua viúva terá pensão de R$ 12.152,61 mensais, o equivalente a vencimento de general-de-brigada, além de indenização de R$ 300 mil, a ser dividida por três familiares. Diga-se de passagem, ela já recebia pensão de acordo com a patente de coronel, cargo ao qual seu marido já havia sido promovido por decisão do Superior Tribunal de Justiça. Para o ministro da Justiça, Tarso Genro, também comunista, o benefício foi "juridicamente correto e politicamente adequado". Terrorista, assassino, assaltante de bancos, seqüestrador, ladrão de armas e desertor, Carlos Lamarca não está na lista dos prisioneiros mortos sob tortura ou custódia do Estado, o que justificaria uma indenização a seus familiares. Tendo optado pela luta armada, morreu em combate contra seus ex-companheiros de caserna nos sertões da Bahia, doente e abandonado pelo tal de povo que pretendia redimir. A decisão de indenizar Lamarca foi tomada pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. De uma penada, um colegiado de civis humilha as Forças Armadas e reduz a cacos sua hierarquia. Os generais estão chiando. Ontem, no Rio, disse o general Luiz Cesário da Silveira Filho: "Tudo o que é falta grave que pode ser cometida esse assassino cometeu. E está sendo premiado aí! É lamentável, lamentável! Espero que não vá até o final esse processo. Pode dizer: os generais de Exército, os generais da ativa do Alto Comando do Exército estão indignados. Causou profunda indignação na Força". Leônidas Pires Gonçalves , ex-ministro do Exército, declarou: 'Não me sinto bem tendo como conviva, mesmo morto, um desertor, traidor, ladrão e assassino frio do tenente Mendes, que se ofereceu para defender seus soldados". Ele se referia a Alberto Mendes Júnior, o tenente que participou do cerco a Lamarca e foi morto a coronhadas, indefeso, em 1970. Tarde piaram os generais. Podem chiar à vontade. O que foi feito é a manifestação de uma vendeta administrativa das esquerdas e não tem mais volta. Talvez um dia nossos lúcidos generais ainda descubram que quem venceu o confronto de 64 não foram os militares, mas as esquerdas. Enquanto os militares foram relegados ao papel de vilões até mesmo pelos livros didáticos do ensino nacional, os velhos comunistas estão posando de heróis, ocupando ministérios e cargos chaves da administração nacional, com obscenas aposentadorias das quais nem mesmo o Imposto de Renda é descontado. Tudo isto neste mesmo país em que aposentados - que nunca mataram ninguém a coronhadas, que nunca roubaram bancos, que nunca seqüestraram embaixadores - morrem sem ver a cor de seus precatórios alimentícios, já transitados em julgado, em fase de execução e sem possibilidade alguma de mais recursos. Para quando o monumento? Tais heróis da pátria não podem ser renegados ao olvido. Precisamos erigir urgentemente estátuas a Carlos Lamarca, dar seu nome a ruas e escolas, cantar sua biografia em prosa, verso e filmes e tornar obrigatória nas escolas primárias, secundárias e universidades a leitura e o estudo de seus feitos. O capitão escolheu o caminho mais difícil para a glória: desertou, roubou, seqüestrou e matou. Mas a nação, penhorada, soube fazer-lhe justiça. Mas que se pode esperar de um país que tem um comunista no ministério da Defesa e outro no da Justiça? Os generais podem bater pezinhos indignados. O general Lamarca, para exemplo e preito das gerações futuras, repousa no panteão dos heróis que a pátria incensa.
Quinta-feira, Junho 14, 2007
DOIS LUMINARES DA MACKENZIE Dois luminares das ciências jurídicas tupiniquins, os advogados Ives Gandra da Silva Martins - advogado tributarista, professor emérito da Universidade Mackenzie, da UniFMU, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra - e Antonio Carlos Rodrigues do Amaral - mestre em direito pela Universidade Harvard (EUA) e mestre em educação pela USP, professor de direitos e garantias fundamentais da Universidade Mackenzie e presidente da Comissão de Direito Constitucional da OAB-SP - reuniram hoje suas sapiências e títulos para proferir bobagens em espaço nobre da Folha de São Paulo. O besteirol se evidencia já no título: ESTADO LAICO NÃO É ESTADO ATEU E PAGÃO Os notabilíssimos jurisconsultos, apesar de já avançados em idade, demonstram ainda não ter entendido o que seja ateísmo e paganismo, a ponto de os tomarem como sinônimos. Se esta sinonímia não fica bem clara no título, os autores a reforçam no corpo do artigo: "Essa percepção da importância de Deus como fundamento de uma sociedade fraterna radica na indissociável conexão entre a história, a cultura e o próprio Criador, o que é imprescindível à elaboração de políticas públicas que não colidam com a liberdade religiosa nem desrespeitem a profunda religiosidade dos brasileiros. Daí a enorme distância entre o pluralismo religioso do Estado laico e um Estado ateu ou pagão, que nega a existência de Deus ou prega a divinização do ocupante do poder". Com a arrogância de um Torquemada, os titulados professores estendem a todo universo a jurisdição de uma crença que está longe de ser universal. Deus existe para aqueles que nele crêem, e não para o mundo todo. Por outro lado, se o século passado viu Estados que fizeram do ateísmo profissão de fé, nunca tivemos notícias de um Estado pagão. Sem falar que o paganismo nunca negou a existência de deus algum. Pelo contrário, os pagãos tinham muitos deuses. Deuses que nunca interferiram na vida do Estado e - o que é mais importante - nunca se imiscuíram na vida dos mortais. Exceto quando alguma mortal mais atraente lhes provocava a libido. Desciam então de sua morada para folgar com as terráqueas. Mas em momento algum ditaram leis ou pregaram moral. Isso de meter-se nos assuntos cá da terra é coisa do deus tosco e bruto do Antigo Testamento. A seguir, demonstrando uma miopia histórica de grau avançado, os eméritos juristas tomam as árvores pela floresta e consideram que a falência do socialismo é decorrente da ausência de Deus: "Aqui está precisamente o grande erro das tendências dominantes no último século, erro destrutivo, como demonstram os resultados dos sistemas marxistas e dos capitalistas. Falsificam o conceito de realidade com a amputação da realidade fundante, e por isso decisiva, que é Deus. Quem exclui Deus de seu horizonte falsifica o conceito de realidade e, em conseqüência, só pode terminar em caminhos equivocados e com receitas destrutivas. A primeira afirmação fundamental é, pois, a seguinte: só quem reconhece Deus conhece a realidade e pode responder a ela de modo adequado e realmente humano. A verdade dessa tese é evidente ante o fracasso de todos os sistemas que colocam Deus entre parênteses". Em suma, os sapientes articulistas insultam a inteligência de quem quer que não creia em Deus. Segundo este raciocínio, nós, ateus, desconhecemos a realidade e a ela não podemos responder de modo adequado e humano. Seremos monstros morais? Estes senhores, travestidos de humanistas, em verdade demonstram uma intolerância digna de fazer inveja aos inquisidores da Santa Madre Igreja Católica. Por outro lado, os acontecimentos do final do século passado deixaram bem claro que o comunismo afundou não em virtude da ausência de Deus, mas em decorrência da falta de liberdade econômica e de expressão. Os Estados comunistas pretenderam revogar por decreto as leis do mercado e só poderiam acabar como acabaram, falidos. Deus não faz falta alguma a economias prósperas, o Ocidente capitalista que o diga. Só um fanático poderia afirmar que é a idéia de Deus que sustenta o bem-estar dos Estados Unidos, Canadá ou Europa. Não por acaso, estes dois senhores lecionam na universidade presbiteriana Mackenzie, da qual tenho algumas informações. Ao longo de toda sua vida, minha mulher trabalhou com legislação. Uma vez aposentada, passou a dar consultoria, sem ter diploma de Direito. Considerou que seria melhor obtê-lo, para poder assinar petições. E decidiu fazer o curso de Direito da Mackenzie. Eu a adverti que ela não o suportaria três meses. Ela elaborava pareceres em um Conselho Fiscal em Brasília, pareceres que geravam legislação, e não iria agüentar o beabá do Direito. Ela insistiu, fez vestibular e decidiu-se a freqüentar o curso. Pois bem: não esquentou banco por mais de três dias. Eu havia superestimado sua capacidade de tolerar a mediocridade. Na primeira aula de Direito Constitucional, um decrépito professor perguntava a seus alunos: - O direito é uma emanação da so.. da so...? Ninguém conseguia terminar a frase. - Da socie... da socie...? Os alunos, demonstrando invulgar inteligência, responderam em coro: - Da sociedade!!! - Muito bem - disse o professor, com um sorriso beatífico. - Ao direito dos costumes, costumamos chamar de Direito con... Direito con...? Silêncio total. - Direito consue...? Consue...? Silêncio ainda mais espesso. - Consuetu...? Consuetu...? Nada feito. - Consuetudi...? Consuetudi...? Muito menos. O brilhante professor exclamou então com um sorriso sapiente na face, sorriso de quem detém o saber: - Consuetudináááááário!!! Foi o terceiro e último dia de curso de minha mulher. Preferiu continuar dando consultoria sem diploma algum. Que Ives Gandra da Silva Martins e Antonio Carlos Rodrigues do Amaral exponham suas estultícies a um alunado assim analfabeto, entende-se. Talvez até passem por doutos e eruditos. Daí a explanar tais bobagens em página nobre de um jornal como a Folha, só depõe contra o jornal e demonstra intolerância e indigência intelectual.
UM MINISTRO SEM PAPAS NA LÍNGUA Em meio a um governo eivado de corrupção, minado pelo fisiologismo e dotado de um discurso demagógico, é muito bom ouvir um ministro falando claro e sem temor de desagradar os papistas. Me refiro ao ministro da Saúde José Gomes Temporão. Interrogado pelo portal BBCBrasil.com sobre as critícas à distribuição de anticoncepcionais, disse claro e bem: - Só a Igreja que é contra. A Igreja não tem nada a ver com isso. A Igreja tem que prescrever seus dogmas aos que militam. O Estado não está obrigando ninguém a consumir pílula nem nada. Estamos informando para que os casais e as mulheres possam optar conscientemente pelo método que se adapta mais à sua visão de mundo e à sua peculiaridade. Os casais que seguem os dogmas da Igreja vão usar o método natural, com todos os riscos que este método implica. Agora, a Igreja católica querer prescrever ao conjunto da sociedade sua visão não me parece razoável. O Estado brasileiro é um Estado laico, não tem nada a ver com a Igreja. A Igreja transmita aos seus fiéis os seus princípios, o Estado tem que cuidar da saúde pública. Não estou nem um pouco preocupado com isto. Isto pra mim não tem a menor importância. Eu diria mais: 90% dos brasileiros aprovam o uso de camisinha, a Igreja é contra. O que eu percebo aí é um grande conflito entre a visão da Igreja e a visão da sociedade. Um conflito total, uma ruptura. A Igreja que transmita aos seus fiéis os seus princípios, o Estado tem que cuidar da saúde pública. Não estou nem um pouco preocupado com isto. Isto pra mim não tem a menor importância. Aplausos ao ministro. Está na hora de a Igreja entender qual é seu lugar.
Quarta-feira, Junho 13, 2007
POR QUE NÃO CONHEÇO MEU PAÍS Conheço bastante bem a Europa. O único país desta Europa de cá que não conheço é a Islândia. Não que não me atraia. Mas fica muito longe, é muito caro e muito fora de mão. Também não visitei aqueles paraísos fiscais disfarçados em principados. É turismo para milionários, e este não é meu caso. Fiz também algumas incursões ao mundo socialista e muçulmano. Foram viagens desconfortáveis, mas pedagógicas. A pior viagem que fiz foi a mais importante. Foi quando fui à Romênia, na época dos Ceaucescu, e vi de perto a miséria do socialismo. Gostei de Praga, Budapeste e Skopje, na Macedônia. Apesar de libertos do jugo do socialismo, eles ainda estão longe do capitalismo ocidental. Na Rússia, estive em São Petersburgo. Valeu a viagem, mas irrita. Depois de dez anos da queda do Muro, eles ainda não haviam conseguido libertar-se da burocracia comunista. Com isto quero dizer que o bom deus dos ateus foi generoso comigo. O que pouco ou nada conheço é o Brasil. Das capitais, só conheço até o Rio de Janeiro. Enfim, um dia fui a Brasília. Sempre detestei aquela cidade, antes mesmo de conhecê-la. Acho que fui só para comprovar minha ojeriza. Desconheço cidade concebida mais erradamente no mundo. Sua arquitetura e urbanismo só podia ter surgido da cabeça de comunistas. Não conheço nada do Norte nem Nordeste. Todos os amigos que tentam puxar-me para lá fracassaram redondamente. Amigos tentaram me fazer ir até as cidades históricas de Minas. Para ver aquelas igrejinhas? Não, muito obrigado. Já vi maiores e melhores. Quando estes amigos urdiam uma sub-reptícia campanha para me conduzir até lá, encontrei uma alma providencial em um bar que me disse: “Você já foi às cidades históricas de Minas? Não? Então não vá. É só incomodação”. Quase o beijei em pleno bar. Era tudo que queria ouvir. Ainda há pouco, amigos quase me levaram manu militari para um tour fluvial entre Belém e Manaus. Dei uma olhadela nas temperaturas locais e já desisti. Não consigo viver em temperaturas próximas a 40 graus. Nem mesmo em Madri, que adoro. Na Internet, dei uma olhadela no barco em que viajariam. Me pareceu muito precário. E de um barco não se pode desembarcar em meio à viagem. Eles foram, eu fiquei. De torna-viagem, soube que no barco não havia vinho. Só que o faltava navegar sem vinho. Além disso, quando quero ver águas, eu as quero azuis, de preferência de um azul mediterrâneo. Ou egeu. Não vejo encanto em águas turvas. Mas não é exatamente isto que me afasta do resto do Brasil. O fato é que, se viajo por meu país, não sinto estar viajando. Todo mundo falando português, discutindo futebol ou a novela das oito. Na melhor das hipóteses, a crônica das corrupções. Viajar, em meu entender, é sair de onde se está. É não mais ouvir o que se fala. Não mais comer o que se come. Só me sinto viajando quando ouço em torno a mim outras línguas, de preferência desconhecidas. Viajar é ir rumo ao anecúmeno. O ecúmeno não tem graça alguma. Esta minha opção tem me gerado não poucos desafetos. Nunca faltam os afonsos celsos da vida para alegar que "não há no mundo país mais belo do que o Brasil. Quantos o visitam atestam e proclamam essa incomparável beleza. Dentro do enorme perímetro brasileiro, encontra-se tudo o que de pitoresco e grandioso oferece a terra. Ainda mais: encontra-se, em matéria de panorama, tudo o que ardente imaginação possa fantasiar. E os espetáculos são tão variados quanto magníficos". Que sejam. Em minha primeira viagem à Europa, eu conversava com uma parisiense no salão Opala do já desarmado Eugênio C. Ela voltava da Amazônia, fascinada com o que vira por lá. "C´est fantastique". Eu rumava a Paris, fascinado com o que ainda não vira e não via nada de fantástico na Amazônia. Não a entendia. Na Amazônia só tem índios, árvores e bichos, objetei. Era justo o que a fascinava. Para mim, não dizia nada. Estava muito perto de mim. O ser humano busca sempre o que está longe. Em Madri, conheci uma montevideana que tinha uma avó galega em Santiago de Compostela, com uns bons 80 anos. Seguidamente convidava a vó para visitá-la. - Y si fuéramos a Madrid, abuelita? Nada feito: - Muy lejos, hijita! Estou muy vieja. Certo dia, convidou para visitar o Uruguai. - Y si fuéramos a Montevideo, abuelita? Montevidéu. Os olhinhos da vóvó brilharam: - Bueno… Sem falar que, quando comecei a viajar, ir de Porto Alegre a alguma capital do Nordeste era mais caro do que ir a Madri ou Paris. Em Paris, a Varig oferecia vôos mais baratos para o Brasil do que se eu partisse do Sul. Por estas e por outras razões pouco conheço o Brasil. Viver é optar. Na hora de optar, opto sempre pelo distante e desconhecido. Nem mesmo a cidade onde fiz minhas universidades, nem mesmo a cidade onde me criei, hoje me interessam. Se as revisito, é para rever amigos que por lá deixei. A única coisa que hoje me atrai em alguma cidade brasileira são meus afetos. "É preciso provocar os brasileiros a conhecerem o Brasil" - afirmou hoje o Supremo Apedeuta, no lançamento do Plano Nacional de Turismo 2007-2010. O Supremo que me desculpe. Conhecemos muito bem o Brasil sem precisar por ele viajar. Até entendo que um francês ou americano, em busca de exotismo, queira visitar favelas no Rio ou hotéis de luxo na Amazônia. Para mim, favelas ou hotéis de luxo nada dizem. Gosto de ouvir gentes falando outras línguas, gosto de comer o que sabe diferente a meu palato, gosto de cidades milenares, de restaurantes centenários. Viajar pelo Brasil é coisa de turista medroso, com medo de enfrentar o estrangeiro. Vou morrer sem viajar pelo resto do país, disto estou certo. Meus parcos euros, não penso gastá-los viajando pelo déjà-vu. Propor turismo interno é algo que ofende a inteligência de quem gosta de viajar.
Terça-feira, Junho 12, 2007
POR QUE NÃO MAIS LEIO FICÇÕES "A mesquinhez, a estreiteza imaginativa são os vícios definidores da nossa época. Somos incapazes de escrever, ou de querer escrever, ou de saber ler sem escrever, epopéias. Em compensação, escrevemos romances. O romance é o conto de fadas de quem não tem imaginação" - escreveu Pessoa -. "A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta. Talhar a obra literária sobre as próprias formas do que não basta é ser impotente para substituir a vida". Há quanto tempo não leio ficções? Não saberia dizer. Certamente há uns vinte anos. A última ficção que li foi provavelmente a última que traduzi. No caso, A Família de Pascual Duarte, de Camilo José Cela, em 1986. Se assim foi, encerrei meu ciclo de ficções com uma novela soberba. Ou seja, faz 21 anos que não ponho os olhos nesses contos de fadas para adultos, como dizia Nabokov. No entanto, deles já fui leitor fervoroso. Lembro de um dia distante, em Buenos Aires. Um amigo me havia encomendado O Túnel, de Ernesto Sábato. Comprei o livrinho e mergulhei em suas páginas, enquanto degustava um trago largo na Suipacha. A neurose de Juan Pablo Castel me fascinou de tal modo que li o livro de um sorvo só. Quem havia escrito aquele livro não poderia ter escrito coisa que não prestasse. De um impulso, comprei toda a obra de Ernesto Sábato, tanto suas ficções como seus ensaios. Mergulhei então em Sobre Heróis e Tumbas. Na nota preliminar do romance, o autor nos põe em contato com uma tragédia que teria abalado Buenos Aires: "Segundo as primeiras informações, o antigo Mirador que servia de dormitório a Alejandra foi chaveado por dentro pela própria Alejandra. Logo após matou seu pai com quatro tiros de um revólver 32. Por fim, espalhou gasolina e prendeu fogo". Estas parcas linhas me prenderam de tal modo, que desisti de ver a cidade e passei todo o tempo lendo. Só fui largar o livro, de mais de 500 páginas, quando cheguei à última. Mergulhei nos subterrâneos da cidade guiado pelo intrigante Fernando Vidal Olmos. A narrativa toda apontava para um enigmático "Informe sobre Cegos", a terceira parte do livro, e eu avançava com pressa as páginas para chegar lá. O Informe é um relato paranóico de um louco obcecado pelos cegos, e nele me pareceu ver uma Buenos Aires misteriosa e oculta ao turista. Fascinado pela loucura de Olmos, pensei ter então entendido a cidade. Suprema bobagem. Os delírios de Olmos nada tinham a ver com a Buenos Aires dos homens de carne e osso. Eu fora contaminado pela magia da pena de Sábato e pensava ter visto o que nunca existiu. Em todo caso, este encontro foi profícuo. Acabei entrando em contato com o autor e traduzi praticamente toda sua obra no Brasil. Em função daquelas leituras, acabei morando quatro anos em Paris e defendi tese sobre a obra de Sábato. Em minha tese, defendi com entusiasmo a ficção, a busca de um outro caminho, quando o escritor põe no mundo personagens que parecem ser de carne e osso, "mas que pertencem ao universo dos fantasmas. Entes que realizam por nós, e de certa forma em nós, destinos que a própria vida nos vedou", como diz Sábato. O romance é então uma forma de fugir à imanência, "forma quase tão precária como o sonho, mas pelo menos mais voluntariosa". Para o escritor de Santos Lugares, nisto reside uma das raízes metafísicas da ficção. A outra seria "essa ânsia de eternidade que tem a criatura humana, outra ânsia incompatível com sua finitude. A busca do tempo perdido, o resgate de alguma infância ou alguma paixão, a petrificação de um êxtase". Pode ser. Minha tese, eu a defendi em 81. De lá para cá, mudou minha visão destas fugas à imanência. Tendo escrito dois romances, Ponche Verde e Laputa, concluí que o escritor perde muito tempo criando climas e personagens, quando poderia ser mais conciso e direto no que se propõe. Um dicionário francês definiu o gênero como "história fingida, escrita em prosa". Ora, o real tem se mostrado muito mais surpreendente do que a ficção. Algum ficcionista imaginou que um dia o Muro de Berlim seria derrubado? Que o mundo soviético desmoronaria? Não. Então fico com Pessoa. O romance, de fato, é o conto de fadas de quem não tem imaginação. Substitui minha leitura de romances pela leitura dos jornais. O que não é muito diferente. Nos jornais, acompanho ao mesmo tempo vários enredos. Em priscas eras, acompanhei a guerra do Vietnã, as façanhas de Pol Pot no Camboja, as matanças de Mao Tse Tung na China - em proporções que nenhum escritor jamais ousaria imaginar. Acompanhei a Guerra dos Seis Dias, a "revolução" iraniana, os desastres de Khomeiny em Teerã, a primeira e a segunda guerras do Golfo, a queda do Muro, a balcanização da antiga Iugoslávia, o fim da URSS, as aventuras de Clinton no Salão Oval. Os romances são muitos na leitura diária dos jornais e satisfazem a todos os paladares. O fascinante é que o desfecho é imprevisível e suas possibilidades são cambiantes. Nem sempre o final é feliz e muitas vezes são obras inacabadas. Pode-se também acompanhar romances locais e neste caso o Brasil tem sido pródigo em ingredientes: poder, sexo, corrupção, assassinatos, escutas telefônicas, juízes comprados, políticos venais e por aí vai. Um universo variegado que nem a pena fértil de um Dostoievski ou Balzac conceberia. Jornalismo é a história presente, escrita com muitos erros de ortografia e sintaxe, é verdade. Mas fascinante. Além desta história presente, me dedico à leitura da outra, a antiga. Estudei Filosofia. Ao longo de quatro anos, descobri que a Filosofia pouco nos faz entender do mundo. São teorias que, ao tentarem entender o mundo, derrubam-se umas às outras. Neste sentido, tenho de admitir, a ficção leva alguma vantagem. Enquanto os sistemas filosóficos se tornam obsoletos com o transcurso do tempo, a ficção - pelo menos a grande ficção - preserva seu frescor ao longo das décadas e séculos. Se hoje leio um Aristóteles torcendo o nariz, sempre retornarei com entusiasmo às páginas do Quixote. Em suma, se deixei de ler ficção, me tornei um entusiasta das leituras de História. Deve fazer uns vinte anos que só tenho lido ensaios históricos. Sou um freguês de livreta de autores como Renan, Toynbee, Mircea Eliade, Délumeau, Le Goff, entre outros. Tenho especial apreço pelos medievalistas franceses e os invejo. A aisance com que ordenam os quebra-cabeças propostos por milhares de textos antigos é espantosa e não está ao alcance de qualquer mortal. Trocando os queixos de bolso: tudo isto para dizer que hoje fui até o centro da cidade, este centro feio e abominável que tanto evito. Ocorre que lá há um restaurante singelo, simpático, barato e de cardápio generoso. É o Da Giovanni, na Basílio da Gama. Os garçons sempre me recebem com carinho. Tirante a arquitetura interior, me lembra o popular Le Chartier, de Paris. Minha única queixa é que o restaurante não é mais perto de onde habito. E a duas ou três quadras do Da Giovanni, está minha perdição, a Livraria Francesa, uma das instituições que honram São Paulo. É livraria onde entro com certo medo, pois sei que dela não sairei impune. Da penúltima vez que lá estive, levei L’Empire Gréco-romain, de Paul Veyne, um soberbo ensaio de 876 páginas sobre nossas origens culturais. Recomendo vivamente. De Paris, do mesmo autor, minha filha acaba de me trazer Quand notre monde est devenu chrétien, um estudo menos alentado da época de Constantino. Hoje, marchei com uma antologia de cerca de 1400 páginas, Un Autre Moyen Âge, onde Jacques le Goff reúne pelo menos sete de seus ensaios. Mergulhei em La Naissance de Purgatoire e tão cedo não vou largá-lo. Qual ficcionista seria capaz de criar essas geografias e legislações do Além? Nenhum. Isto é tarefa para teólogos. As ficções, particularmente as contemporâneas, andam muito chatas. Sugiro História. Voltarei ao assunto.
Segunda-feira, Junho 11, 2007
MUSTAFÁ POURMOHAMMADI DEFENDE FÓRMULA AO GOSTO DOS MACHOS IRANIANOS Se há algo que não entendo, é o que os religiosos têm contra o livre exercício da sexualidade. As religiões, de modo geral, só aceitam o sexo doméstico, dentro do matrimônio e olhe lá. Práticas mais heterodoxas são sempre vistas com maus olhos, quando não cabalmente condenados. Por outro lado, se há algo que me diverte, é ver os arabescos colaterais que padres, mulás e aiatolás empunham para driblar o conflito entre o dogma e a imperiosidade do desejo. Já comentei várias vezes essa singular instituição iraniana, o sigheh, casamento temporário que pode durar minutos, horas, semanas ou 99 anos. Como a tradição religiosa muçulmana exige que as mulheres permaneçam virgens até o matrimônio, alguma fórmula há de se encontrar para saciar a luxúria dos jovens machos iranianos. A boa trouvaille foi o sigheh: o macho casa, copula e logo descasa, sempre preservando rigorosamente a tradição. Não houve sexo fora do matrimônio. Sexo só ocorre dentro do matrimônio, ainda que este dure apenas o tempo da trepada. Para praticar o sigheh, basta recitar um versículo do Corão. O contrato oral não é registrado e o versículo pode ser lido por qualquer um. Uma contraprestação em dinheiro às mulheres casadas segundo este ritual é bem-vinda. Leio no Guardian que o ministro do Interior do Irã, Mustafá Pourmohammadi, declarou na cidade sagrada de Qom que o sigheh deve ser promovido para contrabalançar a tendência de casamento tardio, que ele disse estar privando a juventude da satisfação sexual. Segundo Pourmohammadi, a prática é norma de Deus, e serve como alternativa aceitável ao sexo pré-conjugal, proibido pela lei islâmica. "Será possível que o islamismo seja indiferente a um jovem de 15 anos no qual Deus incutiu apetite sexual? Temos de encontrar uma solução para atender o desejo sexual dos jovens que não têm possibilidade de casamento. O islamismo é uma religião abrangente e completa e tem solução para todos os comportamentos e necessidades, e o casamento provisório é uma das soluções para as necessidades dos jovens". Em 1990, quando presidente do Irã, Hashemi Rafsanjani já havia dito que o casamento temporário era preferível à promiscuidade dos ocidentais. Quanto às jovens, que se lixem. Ao que tudo indica, Deus não incutiu desejo sexual nas mulheres. As mulheres "casadas" pelo sigheh certamente constituirão uma categoria à parte no universo persa. É óbvio que um honesto macho iraniano jamais casaria definitivamente com uma mulher que tenha tido vários casamentos provisórios. Em todo caso, a instituição é um expediente eficaz para impedir a infidelidade conjugal. Seria interessante que fosse levado em consideração pelo Congresso Nacional. Fossem Renan Calheiros e Mônica Veloso unidos pelos sagrados - ainda que precários - laços do sigheh, não teriam sido expostos à sanha da mídia, afinal tudo teria ocorrido dentro do matrimônio. O sigheh também é santo remédio contra a prostituição, afinal não constitui prostituição relacionar-se com a própria mulher. O Islã é abrangente e generoso e tem solução para todos os conflitos humanos. Nada a ver com este Ocidente cristão e promíscuo. Alá-u-akbar!
Domingo, Junho 10, 2007
HONRA E GLÓRIA A AUNTY MAIDUGURI Não sei se o leitor já leu livros como OS Kama Sutra, O Jardim das Delícias, ou As Mil e Uma Noites. Foram livros que embalaram minha juventude. Os Kama Sutra têm dezoito séculos e são uma compilação da artes amatórias, feita por um obscuro estudante hindu de religião, o jovem Vatsyayana, que disserta sobre as diferentes posições e técnicas sexuais. O Jardim das Delícias é sua versão árabe, escrita pelo xeique Nefzaui, entre os anos de 1349 e 1433. São obras de um erotismo elegante e bem-humorado, nada a ver com a pornografia vulgar dos dias que correm. Já As Mil e Uma Noites, destas todos ouvimos falar. Obra universalmente conhecida, são mil uma histórias imbricadas umas nas outras, narradas em árabe por Sherazade, a persa, ao rei Schahriar. O fio que conduz as narrativas é singular. O rei Schahriar descobre que sua mulher o havia traído, e que tal fato também ocorrera com seu irmão Shahzamán. Para que isto nunca mais se repita, dispõe que dali para a frente passará todas as noites com uma virgem, filha de algum de seus súditos, e a mandará matar na manhã seguinte. Este tributo é interrompido por Sherazade, que sabe despertar o interesse do rei contando uma história. O rei, para escutar o final, remete a execução para o dia seguinte. Mas na noite seguinte Sherazade insere uma outra história inacabada, e assim se passam mil e uma noites, ao final dos quais a persa já tem três filhos com o rei Schahriar. E um livro cheio de erotismo e violência, onde a mulher não é exatamente a árabe submissa de nossos dias, mas também guerreira e combatente de valor. Antes de ir adiante, atenção: minha edição em espanhol das Mil e Uma Noites está publicada em três volumes de mais de 1.400 páginas cada um. Não é livro para comprar por impulso, nem para ser lido linearmente. Quando quero mergulhar naquele universo, leio ao azar um ou mais contos. Claro que ainda não li todos os relatos. É espantoso ver como estas civilizações, tanto a árabe como a hindu, que cantaram desbragadamente os prazeres do sexo, se transformaram com o correr do séculos em sociedades repressivas, onde determinadas práticas constituem crime e podem ser punidas inclusive com a morte. O homossexualismo, por exemplo. Custa acreditar que em pleno século XXI dezenas de países punam com rigor as práticas homossexuais. Leio nos jornais que na outrora sensual Índia, as relações homossexuais são até hoje consideradas crime e podem ser punidas com até dez anos de prisão. A lei não acompanha os costumes. Mas algo está mudando. No primeiro domingo deste mês, ocorreu o primeiro festival gay do país, que reuniu três mil pessoas. Um punhado de gatos pingados, se compararmos com a Parada Gay que hoje percorreu as ruas de São Paulo, com três milhões de participantes, segundo seus organizadores. A polícia fala em um milhão. De qualquer forma, uma mostragem significativa. Segundo um dos organizadores do evento na Índia, "este festival seria inimaginável há cinco anos. As coisas mudaram muito". Em maio passado, mais de 300 mil transexuais se reuniram na região de Tamil Nadu, no sul do país para o Festival de Koovagam. No caso, os "aravanis" (como são chamados no país) vão todos os anos ao único templo a eles dedicado na Índia e aproveitam para prestar homenagem a seu deus protetor, Koothandavar, que se casou com Vishnu depois de adotar a forma de mulher. Mesmo os países socialistas, antes tão pudicos em matéria de sexualidade, estão se tornando mais tolerantes. Também em maio passado, os gays tentaram organizar seu festival em Moscou, na Praça Vermelha, sob protestos dos católicos ortodoxos e bastonadas da polícia. Homossexuais desfilando no coração do comunismo, na Nova Jerusalém socialista! A múmia de Lenin deve ter ruborizado em sua tumba. Mais de 70 pessoas foram presas. O prefeito de Moscou, Yuri Luzhkov proibiu a marcha porque o homossexualismo "não é algo natural e causaria ultraje na sociedade", posição compartilhada por grupos cristãos e muçulmanos. E disse que não permitirá um evento do gênero enquanto estiver no cargo. A bem da verdade, a homossexualidade foi descriminalizada há 13 anos na Rússia. A austera Cuba de Castro também parece marchar no mesmo sentido. Se um dia Cuba puniu os homossexuais com confinamento em campos de trabalho, hoje aceita os travestis como as demais pessoas. Curiosamente, a grande defensora dos homossexuais na ilha é Mariela Castro, 44 anos, filha de Raul Castro. Os travestis estão recebendo treinamento como conselheiros de Aids no Centro Nacional de Educação Sexual, que é dirigido por Castro. Embora o homossexualismo ainda seja proibido nas Forças Armadas, os camaradas travestis abordaram os relacionamentos que alguns deles mantinham com soldados. "Talvez aconselhamento nos quartéis seja necessário", disseram. A ortodoxia cede. Mas a melhor e mais insólita notícia que os jornais me trazem veio da islâmica Nigéria. Em abril passado, um grupo de cinco lésbicas fugiu do país depois que uma delas se casou com as outras quatro, contrariando os preceitos da Sharia, a lei islâmica. Aunty Maiduguri e suas quatro esposas teriam fugido para um lugar desconhecido no dia seguinte ao casamento. O grupo Hisbah, de voluntários que fiscalizam o cumprimento da Sharia, disse que o casamento foi inaceitável. Para que o exemplo não vingue, o teatro onde a cerimônia ocorreu, na cidade de Kano, foi demolido por ordem das autoridades. Aunty, além de coragem, deve ter senso de humor. Afinal, o Islã aceita que um homem se case com até quatro mulheres, desde que tenha condições de sustentá-las. Por analogia, Aunty concluiu que tinha o mesmo direito. Seu gesto, no infame universo islâmico, me soa mais ou menos como as palavras de Lúcifer: non serviam. Toda honra e toda glória a Aunty Maiduguri.
Sábado, Junho 09, 2007
SOBRE MEU APREÇO PELAS PROSTITUTAS Não bastassem os cineastas e pessoal de teatro viverem às custas do contribuinte no Brasil, uma outra classe artística está demonstrando uma irrefreável vocação para o parasitismo estatal. A imprensa denunciou, há alguns meses, aqueles meninos da Vila Madalena que, entre uma cerveja e outra, tiveram a brilhante idéia de ter seus turismos na Europa e no mundo financiados pela renúncia fiscal. Tão jovens e tão corruptos. A grita foi geral e parece que desistiram dos benefícios da malsinada lei Rouanet, que se um dia pretendeu subsidiar a cultura, hoje está bancando até festivais de cerveja. Digo parece, pois neste país nada transparente, é difícil saber quando alguém está vivendo do próprio trabalho ou mamando nas generosas tetas do Estado. De qualquer forma, os escritores parecem ter gostado da idéia. Leio manchete no Estadão de hoje: ESCRITORES COBRAM INCENTIVO DO MINC Na linha fina: Movimento Literatura Urgente entrega a José Castilho série de propostas para democratizar o acesso ao livro Por democratizar o acesso ao livro, os escritores entendem financiamento estatal para seus delírios literários. Entre as propostas que embasam esta nobre e altruística intenção, está a criação do Fundo Nacional da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas e a destinação de 30% dele para ações de fomento à criação. A estimativa é de que o fundo chegue ao montante de R$ 45 milhões por ano. Para os 30% que reivindicam, os escritores propõem caravanas que levariam autores a universidades e escolas, além de bolsas, incentivo à publicação do primeiro livro, apoio a jornadas literárias e ainda um programa de compra direta de livros. O autor novo é um problema eterno. Não bastasse os autores novos pretenderem financiamento do primeiro livro, querem também turismo, boa restauração e venda forçada de seus livros. Pois bolsas e jornadas literárias não passam de turismo subvencionado. Quando há um encontro literário no mundo, quem mais ganha não é a literatura, mas hotéis e restaurantes. É claro que o escritor não vai pagar isto de seu bolso. Exige ser pago para exibir, ante uma platéia de basbaques, suas masturbações intelectuais. As notícias de que o muro de Berlim caiu e o socialismo desmoronou não parecem ter chegado ao Brasil. Isso de o Estado subvencionar escritores é coisa de comunista. Subvenciona e ao mesmo tempo controla. É óbvio que um escritor que conteste o poder vigente ou a mentalidade de sua época jamais será convidado para publicar um primeiro livro, participar de encontros literários e muito menos terá sua obra incluída nas leituras obrigatórias dos currículos escolares e universitários. Os novos candidatos a escritores, antes mesmo de entrar no ofício, já põem suas almas em leilão. Nem se preocupam em que sua literatura venda. O que importa é que o Estado os pague. Tenho mais apreço pelas prostitutas. Se vendem o corpo, pelo menos preservam a alma.
Sexta-feira, Junho 08, 2007
SANTA MADRE MAL DAS PERNAS A Igreja Apostólica Renascer em Cristo foi fundada em 1986, pelo casal Sônia Haddad Moraes Hernandes e Estevam Hernandes Filho, a partir de um grupo de orações instalado na própria casa. Começou como igreja de fundo de quintal. A bispa Sonia, como hoje se intitula, era nutricionista e dona de butique. O hoje apóstolo Hernandes foi ex-gerente de marketing da Xerox e teve também cargo no Itautec. Com o crescimento do grupo, a futura igreja começou a funcionar no piso superior de uma pizzaria. Em pouco tempo, o casal se instalou em um prédio da Avenida Lins de Vasconcelos, em São Paulo, atual sede Internacional da igreja, que hoje conta com mais de 1500 templos no país. Ontem, na Marcha para Jesus, que marcou a festa religiosa de Corpus Christi, a Renascer reuniu três milhões de crentes nas ruas de São Paulo. Com direito a pregação televisiva via satélite do apóstolo Estevam Hernandes e da bispa Sonia. Que estão presos em Boca Ratón, Flórida, acusados de lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e estelionato. Foram flagrados na Alfândega, quando levavam, discretamente, no interior de uma Bíblia e nas próprias bagagens, 56 mil dólares, quando haviam declarado apenas dez mil. Crente bom taí. São tungados em milhares de dólares e continuam prestando culto ao ladrão. De 1986 para cá, não só a Igreja como também o casal prosperou. Têm hoje uma fortuna estimada em 19 milhões de reais, uma casa na Flórida, fazendas e um haras na região de Atibaia (SP). Templo é dinheiro. Hoje, os dois escroques se confessaram culpados ante a justiça americana, para evitar o risco de enfrentar um júri e serem condenados a dez anos de prisão. "Sim senhor, sou culpada", admitiu a bela bispa, entre lágrimas. O mesmo disse o apóstolo. Culpa admitida, podem reduzir a sentença para cinco anos de prisão ou liberdade condicional. Diga-se de passagem, ando com saudades das pregações televisivas da bispa Sonia. Tesão de bispa. "Deus é uma coisa quentinha, gente". Bem mais instigante que os gerontes da Igreja Católica. O Corpus Christi é uma festa originariamente católica, instituída pelo Papa Urbano IV em 1264, que celebra aquele ato de canibalismo que os católicos cometem em cada missa, a eucaristia. Ou seja, a ingestão literal do corpo e do sangue de Cristo. Crentes de estômago mais delicado acham que tudo é símbolo. O pão e o vinho não se transformariam em corpo e sangue, mas seriam apenas símbolos destes. Não sei se estes senhores sabem, mas, segundo a Igreja Católica, estão cometendo heresia. Já a Marcha para Jesus é mais recente. A primeira ocorreu em 1987 em Londres, organizada pelo pastor Roger Forster e pelo cantor e compositor Graham Kendrick. O casal Hernandes gostou do modelito e o importou para o Brasil em 1993. Hoje a Marcha para Jesus só perde para a Parada Gay, que entupirá as avenidas de São Paulo no próximo domingo, com mais de três milhões de álacres entusiastas. Se gays e evangélicos conseguem reunir três milhões de seguidores em seus eventos, Sua Santidade Bento XVI, neste Brasil que se jacta de ser a maior nação católica do mundo, foi um fracasso. Apesar de a Igreja de Roma girar bolsinha há quase dois mil anos pelas avenidas da História, o papa teve apenas 800 mil fiéis em sua recente visita a São Paulo. Ontem, na festa de Corpus Christi em Roma, conseguiu reunir ao longo da via Merulana apenas alguns milhares de católicos, multidão distante das pingues cifras dos evangélicos. Vai mal das pernas a Santa Madre.
MÔNICA E O QUINTO PODER Se há algo que me diverte nos escândalos nacionais são as transcrições de telefonemas grampeados e diálogos gravados às escondidas. Sou fanzoca de carteirinha deste gênero literário. O português dos interlocutores é de doer no estômago. Principalmente o português dos deputados e senadores. O que só demonstra a pobreza intelectual de nossas elites. Ao conversar informalmente as pessoas não se policiam e o que vemos é de fazer vergonha a qualquer cidadão minimamente culto. Leio na última Istoé (http://www.terra.com.br/istoe) trechos das degravações de diálogos entre a jornalista Mônica Veloso, o senador Renan Calheiros e o lobista Cláudio Gontijo. As gravações demonstram que a moça, desde antes do nascimento do rebento, já pensava grande. Trata-se de um estilo coloquial, é verdade, mas nem por isso os personagens precisavam maltratar tanto o vernáculo, a ponto de às vezes o sentido das frases ter de ser adivinhado. Que um senador fale mal o português, entende-se. Políticos de modo geral são escroques, cuja última preocupação é ter um domínio culto da língua. Que um lobista estupre o idioma, também é inteligível. Lobistas são vigaristas cuja procupação única é fazer dinheiro, para si e para as empresas que representam. Neste Brasil de novos ricos, encontrar pessoa culta nessas esferas de corrupção é algo muito raro. O que me chocou foram as falas da Mônica. Certo, eram conversas informais, não se tratava de uma palestra numa academia. Mas a sintaxe da jornalista é de tal forma estropiada que custa a crer que a moça tenha sido um dia jornalista. Jornalistas, por uma questão de ofício, normalmente têm um discurso preciso e claro, mesmo em conversas informais. O discurso da Mônica é repleto, não digo de anacolutos, mas de frases truncadas e ininteligíveis. O leitor só as entende porque tem conhecimento do que está em jogo. Mônica, fisicamente, tem um perfil imponente. Já intelectualmente... Mas Brasília é isso mesmo. No Planalto impera, absoluto, um quinto poder, o poder dos glúteos. O que importa não é a forma. Mas as formas. Nisto, ela excele. O arguto senador, hábil manobrista de intrigas políticas, caiu como um patinho na lábia guenza da moça.
Quinta-feira, Junho 07, 2007
UM BOM DIA PARA LER Mais um feriadão. Nunca falta uma alma desavisada que me pergunte para onde vou no feriadão. Não vou a parte alguma. Em feriadão não saio daqui nem amarrado. São os melhores períodos para curtir São Paulo. Calcula-se que neste sairão 1.300.000 carros. O que deve dar, por baixo, três milhões de pessoas. Um silêncio divino cai sobre a cidade e as ruas internas dos bairros adquirem um ar de Dom Pedrito aos domingos. Verdade que hoje três milhões de fanáticos evangélicos tomarão conta de parte da cidade, numa Marcha para Jesus, que compete em números com a Parada Gay. Mas se eles vão o norte, vou para o sul. A cidade é grande e comporta tanto Cristo como Cristaldo. No que a mim diz respeito, não ocupo muito espaço. É o bom momento de visitar aqueles restaurantes onde sempre há filas de mais de hora, pôr em dia a agenda cinematográfica e mesmo caminhar pela cidade. Sempre é bom lembrar, é claro, que ficam na cidade uns sete milhões de paulistanos. Pode ocorrer que boa parte deles tenha a mesma idéia que eu, a de visitar aqueles restaurantes onde sempre há filas. Acontece. A cidade se torna muito confortável nos feriadões. O desconforto segue junto com os paulistanos, para Campos ou para o litoral. Pelas mesmas razões, jamais me ocorreria ir para o litoral nesses períodos. De qualquer forma, se a cidade se torna habitável quando saem 1.300.000 carros, é óbvio que esta cidade tem 1.300.000 carros a mais do que deveria ter. São 11h45min. Ainda não decidi onde vou curtir o que de melhor a cidade oferece, gastronomia. Penso começar com umas ostras de Cananéia em meu boteco usual e depois partir para a exploração da geografia etílico-culinária da cidade. Minha filha, recém chegada nestas plagas, acaba de ser acolhida generosamente pela Paulicéia. Assinou contrato na Veja e começa a trabalhar na segunda-feira. Boa ocasião para brindar seu feito com um bom vinho. Sem falar que sua vida mansa acabará no domingo. Melhor curtir estes últimos dias de alforria antes que acabem. Cheguei em São Paulo há 17 anos. Cheguei irritado, de mal com a cidade. No pé de minhas crônicas, assinava: "Janer Cristaldo é jornalista e sofre São Paulo". Até que um dia um leitor me alertou: "pelo que conheço de teu perfil, São Paulo é a melhor cidade no Brasil para ti". Tive de convir que era. E retirei meu mau humor do final de minhas crônicas. Verdade que, em seu conjunto, a cidade é feia e caótica. Tive de recorrer a um expediente mental para aceitá-la. Passei a considerar que não vivo em São Paulo. Mas em Higienópolis, meu bairro. Não é nenhum Quartier Latin mas tampouco os Quartieri Spagnoli de Nápoles. Dá pra se viver sem maiores irritações. Daqui só saio para alguma incursão aos restaurantes de Pinheiros, Jardins, Vila Madalena. Descobri ser possível viver em uma pequena cidade vivendo em São Paulo. Ir a Moema, Itaim-Bibi, Anália Franco, bairros também nobres, me soa como ir ao Exterior. Ora, se é para ir ao Exterior, melhor começar por Cumbica. São 11h51min. Hoje é um bom dia para ler. Para ler cardápios. Tim tim, leitor!
Quarta-feira, Junho 06, 2007
TANTO A RAPOSA VAI AO NINHO... Durante muitas semanas, o assunto do dia nas rodas de São Paulo foi o furto de gravatas, cometido pelo rabino Henry Sobel na Flórida. Cá com meus botões, pensei: isso deve vir de longe. Um homem com 63 anos não decide do dia para a noite roubar gravatas. No salão de meu barbeiro, que é um dos mais eficientes centros de comunicação desta metrópole, a opinião era a mesma. Um delegado, da Delegacia de Seqüestros, homem que por ofício deve entender destas coisas, não tinha dúvidas. Sob o fio da navalha, declarou: é óbvio que ele vinha roubando há mais tempo. Conversando com pessoas de Higienópolis, o bairro judeu por excelência de São Paulo, esta opinião era sempre a mesma. Consideravam as gentes que, em virtude de sua condição de rabino, ninguém apresentava queixa. Você pode ver o bom rabino em ação em http://www.youtube.com/watch?v=F9fqEdkVies. A voz do povo, ao que tudo indica, não se engana. Leio no Terra on-line: "Novas queixas de furto contra o rabino Henry Sobel foram divulgadas na noite desta quarta-feira. Segundo a Polícia da Flórida, em 1995, ele teria furtado um cachecol, mas não houve abertura de processo. Já em 2003, ele teria pago por uma camisa furtada do hotel onde estava hospedado. Sobel disse desconhecer outras ocorrências de furto envolvendo seu nome. A informação é do Jornal da Record". Como dizia meu velho pai, lá nos campos de Ponche Verde: tanto a raposa vai ao ninho, que um dia deixa o focinho.
KAKÁ CAI NO CONTO DO VIGÁRIO O futebolista brasileiro Kaká, 25 anos, do Milan, declarou hoje à edição italiana da Vanity Fair que leva uma vida regrada dentro dos preceitos da Bíblia e que por isso chegou virgem ao casamento. Melhor falasse de futebol. Futebolista falando de Bíblia é algo como o Lula falando de gramática. "Sou um jovem normal com valores fortes. Sou religioso, seguindo a confissão evangélica, e tento viver seguindo os preceitos da Bíblia" - declarou na entrevista. Falando de sua mulher, Caroline, disse que ambos decidiram casar virgens e que não tiveram relações sexuais desde o início de seu noivado em 2002 até a noite de núpcias, em dezembro de 2005. "Optamos por chegar castos ao casamento. A Bíblia ensina que o amor verdadeiro é alcançado apenas com o casamento, um laço de sangue no qual a mulher perde a virgindade. Para nós, a primeira noite foi magnífica". Ora, a Bíblia é um livro escrito por machos do deserto, que nunca tiveram maiores considerações por mulheres. Na Bíblia, a mulher deve ser virgem. Se não for, pode ser apedrejada até a morte. Não há momento algum no Livro que prescreva a virgindade para o varão. Senão vejamos: Levítico: O Sumo Sacerdote (...) tomará por esposa uma mulher na sua virgindade. Viúva, ou repudiada, ou desonrada, ou prostituta, destas não tomará; mas virgem do seu povo tomará por mulher. Deuteronômio: Se um homem tomar uma mulher por esposa, e, tendo coabitado com ela, vier a desprezá-la, e lhe atribuir coisas escandalosas, e contra ela divulgar má fama, dizendo: Tomei esta mulher e, quando me cheguei a ela, não achei nela os sinais da virgindade; então o pai e a mãe da moça tomarão os sinais da virgindade da moça, e os levarão aos anciãos da cidade, à porta; e o pai da moça dirá aos anciãos: Eu dei minha filha por mulher a este homem, e agora ele a despreza, e eis que lhe atribuiu coisas escandalosas, dizendo: Não achei na tua filha os sinais da virgindade; porém eis aqui os sinais da virgindade de minha filha. E eles estenderão a roupa diante dos anciãos da cidade. Então os anciãos daquela cidade, tomando o homem, o castigarão, e, multando-o em cem siclos de prata, os darão ao pai da moça, porquanto divulgou má fama sobre uma virgem de Israel. Ela ficará sendo sua mulher, e ele por todos os seus dias não poderá repudiá-la. Se, porém, esta acusação for confirmada, não se achando na moça os sinais da virgindade, levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão até que morra. Juízes: Disse mais a seu pai: Concede-me somente isto: deixa-me por dois meses para que eu vá, e desça pelos montes, chorando a minha virgindade com as minhas companheiras. Disse ele: Vai. E deixou-a ir por dois meses; então ela se foi com as suas companheiras, e chorou a sua virgindade pelos montes. E sucedeu que, ao fim dos dois meses, tornou ela para seu pai, o qual cumpriu nela o voto que tinha feito; e ela não tinha conhecido varão. Lucas, no Novo Testamento: Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era já avançada em idade, tendo vivido com o marido sete anos desde a sua virgindade. Se Kaká acha que a Bíblia lhe exige virgindade, caiu no conto do vigário e perdeu os melhores anos de sua juventude. Além disso, se fosse seguir estritamente as prescrições bíblicas, caso Caroline não fosse virgem, teria de entregá-la aos milaneses para que a apedrejassem.
A QUINTA INTERNACIONAL Santa ingenuidade a minha! Imaginava que a maior ameaça à humanidade era o Foro de São Paulo. Eu ignorava a poderosa e sinistra seita gnóstica dos homossexuais: "Uma pista para a compreensão efetiva do fenômeno são os grupos de intelectuais, políticos e artistas homossexuais, tremendamente poderosos e influentes, que marcaram a história política e cultural do século XX com o culto da supremacia gay. Três deles são particularmente importantes: o círculo de Stefan George na Alemanha, o de André Gide na França e, na Inglaterra, a confraria dos "Apóstolos" de Cambridge. Em cada um dos três casos, a militância pública - sempre do lado errado, nazista ou comunista - encobria uma dimensão mais profunda e mais sinistra, de seita gnóstica empenhada em subjugar a humanidade comum a uma elite homossexual imbuída de um senso de superioridade quase divina". (http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=5837&language=pt). Ao situar Gide como nazista ou comunista, Olavo de Carvalho demonstra estar delirando em sua obsessão homoerótica. André Gide foi execrado pelos comunistas por ter escrito Retour de l'URSS, uma das primeiras denúncias da tirania socialista. L'Humanité, o jornal do PC francês, foi generoso por ocasião de sua morte. Manchete de primeira página: UN CADAVRE EST MORT A menos que, para Olavo, todo anticomunista seja, ipso facto, nazista.
Terça-feira, Junho 05, 2007
NOSSO ENSINO: PORTUGAL INVADE BRASIL Recebi de Paulo Eduardo: Janer, Li uma série de artigos sobre movimento negro em sua página. Chamou a minha atenção a parte em que o menino negro é afetado em sua auto-estima pela verdade sobre o continente africano. Isso me lembrou um fato ocorrido em 2004 quando estava numa roda e havia uma criança de uns 10 anos. Uma senhora portuguesa (casada com um brasileiro) falava bastante e a pequena percebeu o sotaque diferente, perguntou ela: - Por que a senhora fala diferente? - Porque eu sou portuguesa. Imediatamente a pequena levantou com seu dedo apontado e disse bem alto: - Seu país invadiu o meu país! Rimos quando deveríamos nos preocupar. Os historiadores hoje ensinam como se o Brasil ter sido invadido fosse algo ruim e danoso. Pior seria se continuássemos durante mais tempo sendo ocupados por povos que viviam no Neolítico. Enquanto a mim, largo esse lugar tão logo me forme.
WOLFGANG BECKER DEVE ESTAR FELIZ A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida, dizia Oscar Wilde. Ao filmar Adeus, Lênin, Wolfgang Becker certamente jamais imaginou que sua personagem - a militante comunista alemã que entra em coma antes da queda do Muro e só volta à consciência depois de 1989 - teria uma contrapartida na vida real. Leio no Monde que Jan Grzebski, 65 anos, um ferroviário da Polônia comunista do general Jaruzelski, permaneceu em estado de coma durante dezenove anos. Ao acordar, ele descobre que o seu país é hoje membro da União Européia e da Otan. "O mundo é mais agradável agora - diz Jan -. Quando eu fiquei em estado de coma, não se achava mais nada no comércio, a não ser chá e vinagre; a carne estava racionada e havia filas de espera intermináveis nos postos de gasolina. Agora, vejo pessoas nas ruas com telefones celulares e tantas mercadorias nas lojas que isso me dá vertigem". Jan me faz lembrar as meninas do Leste europeu que conheci em Paris nos anos 70. Recém-saídas do universo da escassez socialista, chegavam no Ocidente com calcinhas de pelúcia. Olhar para uma vitrine de lingerie era uma antevisão do paraíso. Lembro de Ursula, uma terna amiga da pátria de Jan. Abandonara a Polônia para não mais voltar. Em uma excursão para a Iugoslávia, ao passar em uma nesga da Áustria, na primeira parada para uma pipipausa, abandonou ônibus, pátria, família, amigos. Não só ela, mas toda a excursão. No ônibus ficou só o motorista. Na época, isto significava abandonar seu passado para sempre. Certo dia, chegou em meu studio feliz, com os braços cheios de prospectos turísticos. Que vais fazer com isso? - perguntei. Mal tens dinheiro para o metrô. "Aqui eu posso sonhar, meu urso tropical. Lá na Polônia, nem sonhar eu podia". Em 79, fui a Berlim fazer a cobertura do Festival de Cinema. Convidei Ursula. Entrou em pânico. Entre a Alemanha Ocidental e Berlim havia o território da Alemanha Oriental. Ela iria, mas não de trem. Tinha medo de ser recambiada à Polônia. Foi de avião e me pediu que rezasse, para que nenhum acidente a obrigasse a pousar em território da Alemanha Oriental. Preferia morrer a voltar à Polônia. Em Berlim, convidei-a a ir até o Checkpoint Charlie, um dos pontos fronteiriços entre as duas Alemanhas. "Nem morta. Dessa fronteira só quero distância". De certa forma, a experiência de Jan é invejável. Claro que não deve ser nada aprazível passar dezenove anos em coma. Jan tinha um tumor no cérebro e não conseguia movimentar pernas nem mãos, nem levantar a cabeça. Mas não é dado a qualquer mortal adormecer no inferno e acordar no paraíso. Quando acordamos de um pesadelo, nossa sensação é de alegria ao tomar consciência de que o pesadelo era sonho. No caso de Jan Grzebski, o pesadelo era a realidade. Wolfgang Becker deve estar feliz.
Segunda-feira, Junho 04, 2007
ARMADILHA PARA NEGROS (março de 2003) Ainda há pouco, os movimentos negros brasileiros reivindicavam a eliminação do item cor nos documentos de identidade. Com a malsinada lei de cotas que hoje assola o ensino superior, os negros insistem em declarar a cor na inscrição no vestibular. Estes mesmos movimentos negros sempre consideraram que qualquer critério supostamente científico para determinar a cor de alguém é racista. Quem então é negro para efeitos legais? No caso da lei estadual no Rio e do projeto de lei federal, o critério é o da auto-declaração. Pardo ou negro é quem se considera pardo ou negro, mesmo que branco seja. Ora, neste país em que impera a chamada lei de Gérson, não poucos brancos se declararam negros no último vestibular da UERJ, a primeira universidade pública brasileira a estabelecer o sistema de cotas. Grita dos líderes negros: vamos determinar cientificamente quem é branco e quem é negro e processar os brancos que se declaram negros. Ou seja, as palavras de ordem da afrodescendentada são mais cambiantes que as nuvens. Mas mudam num só sentido, na direção de obter vantagens para os negros, não só dispensando méritos como também passando por cima dos eventuais méritos de quem se declara branco. O atual presidente da República está longe de ser o primeiro apedeuta a assumir o poder neste país. Câmara e Senado estão repletos de analfabetos jurídicos, que nada entendem da confecção de leis nem sabem sequer distinguir lei maior de lei menor. Embalados por palavras de ordem estúpidas, em geral oriundas dos Estados Unidos, criam leis irresponsáveis, com a tranqüilidade de quem não precisa prestar contas a ninguém. É o caso da lei de cotas. Só agora, após o vestibular da UERJ e de uma enxurrada de ações judiciais, argutos analistas descobriram que a famigerada lei fere o artigo 5º da Constituição: "todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza". Não bastasse esta tremenda mancada jurídica, que daqui para frente só servirá para entupir ainda mais os já entupidos tribunais - gerando grandes lucros aos advogados, os reais beneficiados pela lei de cotas - o presidente da República, mal assumiu o poder, sancionou lei que obriga a inclusão da temática História e Cultura Afro-brasileira no currículo oficial da rede de ensino Fundamental e Médio. As aulas abordarão desde a história da África e dos africanos até a luta dos negros no Brasil. A medida é de um racismo evidente. E por que não a História de Portugal e a luta dos portugueses no Brasil? Ou a história da Itália e as lutas dos italianos? Ou a história do Japão e a luta dos japoneses? O Brasil é um cadinho de culturas e a contribuição africana a seu desenvolvimento está longe de ser a única ou a mais importante. O estudo da história afro-brasileira tem no entanto suas complicações. Para os próceres do movimento negro, não basta historiar a cultura afro-brasileira. É preciso embelezá-la. É o que se deduz da proibição do livro Banzo, Tronco e Senzala, de Elzi Nascimento e Elzita Melo Quinta, na rede pública do Distrito Federal por ordem do governador Joaquim Roriz, em acatamento ao pedido do senador petista Paulo Paim. Um garoto teria ficado impressionado com as informações contidas no livro dizendo que os "negros perdiam a condição humana assim que eram aprisionados na África para se tornarem simples mercadoria à disposição dos brancos" e que aprisionar os negros não era difícil. "Principalmente, depois que os traficantes passaram a contar com o auxílio de negros traidores que prendiam elementos de sua própria raça em troca de fumo, cachaça, pólvora e armas". "Qual é a auto-estima de uma criança negra quando recebe um livro que diz que, se seu povo um dia foi escravo, os culpados foram os negros, e não os europeus da época, mercadores de escravos?" - pergunta Paim. O deputado parece ignorar - ou propositadamente omite - o fato de que a escravidão não é invenção dos europeus. Ela já está na Bíblia e em momento algum é condenada pelos profetas ou patriarcas. Nem mesmo Paulo, reformador do Livro Antigo, a condena. Foi norma na Grécia antes de a Europa existir. Séculos antes de o primeiro navio negreiro europeu aportar no continente africano, ela lá já existia, sem a interferência do Ocidente. O presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, que o diga. Comentando as reivindicações dos movimentos negros, identificou-se como descendente de uma rica família de senhores de escravos e perguntou se alguém iria pedir-lhe indenização. Ainda bem que não o fez em jornais do Distrito Federal, ou seria censurado pelo governador Joaquim Roriz. Que os chefes tribais negros facilitavam a tarefa dos negreiros, vendendo escravos de outras tribos, isto tampouco é ignorado. Vendiam e continuam vendendo até hoje, em pleno século XXI. Na Mauritânia, Sudão e Gana, no Benin, Burkina Fasso, Mali e Niger, a escravidão ainda persiste como nos tempos dos navios negreiros. Ano passado, a GNT mostrava brancos europeus comprando escravos no Sudão. Não que fossem negreiros. Eram representantes de Ongs européias, que compravam negros para libertá-los. O propósito pode ser nobre. Mas toda procura gera oferta e os dólares dos ongueiros só serviram para estimular o tráfico de escravos. Esta é a história da África. E se algum autor relega a escravidão para tempos passados, o livro está desatualizado. A nova lei assinada pelo presidente da República acrescenta ao calendário escolar o dia da morte de Zumbi (20 de novembro) como o Dia Nacional da Consciência Negra. Esta ambição patrioteira de ter heróis, típica de países subdesenvolvidos, levou políticos negros a elegeram Zumbi como herói da raça. Ora, o herói negro também era proprietário de escravos. Como é que ficamos? Irão as autoridades censurar qualquer livro que ateste esta condição de escravagista de Zumbi? Ao defender os sistemas de cotas na universidade, os negros caíram em uma tosca armadilha. Podem hoje ter facilidades na obtenção de um diploma. Mas quem, amanhã, irá contratar os serviços de profissional que entrou na universidade pela porta dos fundos? Ao exigir a inclusão da história africana nos currículos, caíram em armadilha mais sofisticada. A história da África é a história das guerras tribais e da escravidão, da lapidação por adultério, da mutilação física como punição e da mutilação sexual como costume. Democracia, direitos humanos, liberdade de imprensa, emancipação da mulher, são instituições desconhecidas no continente. Seis mil meninas têm o clitóris extirpado, diariamente, em vinte países do Oriente Médio e da África. Por barbeiros locais ou parteiras, com instrumentos não esterilizados. A África, até hoje, está mais para Idi Amin Dada do que para Mozart. Mais para Bokassa que para Einstein. Estudar sua história, seja a passada, seja a presente, não leva criança alguma a nenhuma auto-estima. Sobre Idi Amin Dada e Mozart Em crônica passada, comentei o sistema de cotas para negros na universidade e o estudo obrigatório da História africana nas escolas brasileiras. O artigo rendeu uma saraivada de mensagens, em geral iradas, nas quais invariavelmente sou acusado de racista. "A doença do racismo é uma invenção européia" - escreve um dos leitores - "Você não pode infetar uma pessoa com a doença sem esperar ficar doente. Seu artigo mostra a doença que você ainda tem". Tantas foram as objeções, que responder a todas é impossível. Atenho-me então a comentar os pontos mais recorrentes, como racismo, sistema de cotas, escravidão e história da África. Deixo de lado minha surpresa ao tomar conhecimento de que os hutus e tutsis que se cortam aos pedaços em Ruanda estão contaminados por uma invenção européia. Comecemos por meu suposto racismo. Nasci no Rio Grande do Sul, Estado que, por sua forte colonização européia, tem a fama de ser o Estado mais racista do Brasil. Apesar de ser constituído por uma expressiva maioria branca, foi o primeiro Estado do país a eleger um governador negro, Alceu Collares. Ora, nem a Bahia, Estado majoritariamente negro, teve um governador negro. Collares não só foi governador, como também prefeito de Porto Alegre, capital também majoritariamente branca. Antes de ser prefeito da capital gaúcha, foi prefeito de Bagé, cidade da fronteira oeste do Rio Grande do Sul, onde os brancos constituem maioria esmagadora. Desde minha infância, de meus estudos primários aos universitários, convivi afavelmente com negros. Em meus anos de Porto Alegre, por noites a fio participei da mesa de Lupicínio Rodrigues, no bar da Adelaide, e por ele sempre nutri admiração. Lupicínio - que compôs os mais belas letras de samba do Brasil - era universalmente querido pelos gaúchos. Hoje, noto que tive entre os negros bons amigos. E por que hoje? Porque na época nem notava que eram negros. Com o acirramento recente da luta racial, passamos a conviver com pessoas que insistem em se definir como negras, quando nem cogitávamos de que o fossem. Entre os mails recebidos, sou acusado de defender a tese de que no Brasil não existe racismo. De certa forma, a defendo. Algum racismo existe entre nós, ou humanos não seríamos. Mas jamais ao nível dos EUA ou países europeus. O negro, quando rico ou bem-sucedido, é estimado e mesmo invejado no Brasil. Milhões de brancos brasileiros se sentiriam sumamente honrados sendo fotografados junto a um Pelé. O rechaço existe em relação ao negro pobre ou miserável. Neste caso, o fator de distanciamento não é a negritude do negro, mas sua miséria. Exceto padres católicos e assistentes sociais, ninguém gosta de miséria. Nem negro gosta de negro pobre. Nunca tivemos, no Brasil, leis proibindo a negros qualquer direito. As chamadas leis Jim Crow, declaradas inconstitucionais pela Suprema Corte americana em 1954, constituíram a partir de 1880 a base legal da discriminação contra negros nos Estados do Sul, proibindo até mesmo um estudante passar um livro escolar a outro que não fosse da mesma raça. No Alabama, nenhum hospital podia contratar uma enfermeira branca se nele estivesse sendo tratado um negro. As estações de ônibus tinham de ter salas de espera e guichês de bilhetes separados para cada raça. Os ônibus tinham assentos também separados. E os restaurantes deveriam providenciar separações de pelo menos sete pés de altura para negros e brancos. No Arizona, eram nulos casamento de qualquer pessoa de sangue caucasiano com outras de sangue negro, mongol, malaio ou hindu. Na Florida, proibia-se o casamento de brancos com negros, mesmo descendentes de quarta geração. Neste mesmo Estado, quando um negro compartilhasse por uma noite o mesmo quarto que uma mulher branca, ambos seriam punidos com prisão que não deveria exceder 12 meses e multa até 500 dólares. Na Geórgia, cerveja ou vinho tinham de ser vendidos exclusivamente a brancos ou a negros, mas jamais às duas raças no mesmo local. No Mississipi, mesmo as prisões tinham refeitórios e dormitórios separados para prisioneiros de cada raça. No Texas, cabia ao Estado providenciar escolas para crianças brancas e para negras. As leis Jim Crow explicam a mauvaise conscience ianque, que se traduziu na ação afirmativa. Brasileiros, desconhecemos este racismo institucionalizado. Negros e brancos casam-se com brancas e negras, bebem e comem nos mesmos restaurantes, estudam e confraternizam nos mesmos bancos escolares. Se há menos negros que brancos na universidade, isto se deve a fatores econômicos, mas jamais legais. O branco pobre - e eles são legião - tem a mesma dificuldade de acesso aos bancos universitários que o negro pobre. O negro rico - e eles também existem - tem a mesma facilidade de acesso que o branco rico. É inteligível o ódio que um negro americano possa sentir por um branco americano. Não há no entanto razão alguma para que este ódio seja exportado ao Brasil. Neste país, do ponto de vista legal, o negro nunca foi discriminado. O Brasil costuma importar as piores práticas do Primeiro Mundo, costumo afirmar. No censo de 2.000, quase sete milhões de norte-americanos, pela primeira vez, foram autorizados a identificar-se como integrantes de mais de uma raça. As categorias inter-raciais mais comuns citadas foram branco e negro, branco e asiático, branco e indígena americano ou nativo do Alasca e branco e "alguma outra raça". Os Estados Unidos deixam de lado a one drope rule, pela qual um cidadão é considerado negro mesmo que tenha uma única gota de sangue negro em sua ascendência, e descobrem o mestiço. Enquanto os Estados Unidos reconhecem a multi-racialidade, alguns movimentos negros no Brasil pretenderam que até os mulatos se declarassem negros no último censo. O propósito é óbvio, exercer pressão legislativa. A população negra do Brasil, em 99, era de apenas 5,4%. Com o acréscimo de 39,9% do contingente de mulatos, o Brasil estaria perto de ser definido como um país majoritariamente negro, como aliás é hoje considerado por muitos americanos e europeus. O presidente José Inácio Lula da Silva, em sua já proverbial incultura, caiu nesta armadilha, ao afirmar que o Brasil é a segunda nação negra do mundo. Não é. Negro é minoria ínfima no Brasil. A menos que, como fizeram os EUA, se pretenda negar este espécime híbrido, o mulato. Quando os americanos descobrem o mestiço, os ativistas negros brasileiros querem eliminá-lo do panorama nacional. Em uma imitação servil da imprensa ianque, os jornais tupiniquins passam a usar o termo afrodescendente para definir a população que o IBGE classifica como negra ou parda. Mas se um negro é obviamente afrodescendente, o pardo é tanto afro como eurodescendente. A adotar-se a nova nomenclatura, sou forçado a declarar-me eurodescendente. E não vejo nisso nenhum desdouro. A palavra racismo, pouco freqüente na imprensa brasileira em décadas passadas, passou a inundar as páginas dos jornais a partir da queda do Muro de Berlim. Apparatchiks saudosos da Guerra Fria, vendo desmoralizadas suas bandeiras de luta de classes, proletariado versus burguesia, trabalho versus capital, trataram logo de encontrar uma nova dicotomia, para lançar irmãos contra irmãos. Existem negros e brancos no Brasil? Maravilha. Vamos então lançá-los em luta fratricida. Criaram-se leis absurdas que, a pretexto de combater o racismo, só servem para estimulá-lo. Hoje, no Brasil, se você insultar um negro, incorre em crime hediondo, com prisão firme e sem direito à fiança. Mas se matar um negro, a lei é mais leniente. Se você for primário, pode responder ao processo em liberdade. Ou seja: se você, em um momento de ira, insultou um negro e quer escapar de uma prisão imediata, só lhe resta uma saída: mate-o. Segundo a lei absurda, assassinato é menos grave que ofensa verbal. Vamos às cotas. Em virtude deste hábito nosso de importar do Primeiro Mundo seus piores achados, acabamos instituindo as cotas raciais na universidade. Mais uma dessas tantas leis que fabricam racismo. Como pode um jovem pobre e branco encarar sem animosidade um negro que lhe tomou a vaga na universidade, só porque é negro? Quando o juiz federal Bernard Friedman determinou o fim da política de ação afirmativa da faculdade de Direito da Universidade de Michigan, os americanos começaram a perceber que a política de cotas era uma péssima idéia. Em 1977, a estudante branca Barbara Grutter abriu processo depois de não ter sido aceita pela faculdade de Direito. Para Friedman, levar em consideração a raça dos estudantes como fator para decidir se os aceita ou não é inconstitucional. Segundo o juiz, a política de ação afirmativa da faculdade assemelha-se ao sistema de cotas, que determina que uma certa porcentagem de estudantes pertença a grupos minoritários. Ao ordenar que a faculdade deixe de praticar essa política, escreveu: "Aproximadamente 10% das vagas em cada turma são reservadas para membros de uma raça específica, e essas vagas são retiradas da competição". Ano passado, o programa 60 Minutes entrevistou um professor que mostrava a injustiça do sistema. De 51 estudantes brancos candidatos a um programa da faculdade, apenas um foi aceito. Entre dez candidatos negros, foram aceitos os dez. A universidade adota uma espécie de lei Jim Crow às avessas, aceitando qualquer candidato negro e recusando brancos. Quando os americanos descobrem que a política de afirmação positiva não constituiu uma idéia boa ou justa, autoridades brasileiras aderem a esta política infame. Já existe projeto, aprovado Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara Federal, segundo o qual deverão ser escalados 25% de atores negros ou mulatos em peças de teatro, filmes e programas de televisão. Só no teatro, o leitor já pode imaginar as peripécias de um diretor. Se pensa em encenar Ibsen ou Tchekhov, como inserir negros em contextos eslavos ou nórdicos? E se a peça tiver um só personagem? Pelo menos um quarto do monólogo terá de ser feito por um negro? Só mesmo no bestunto de um analfabeto poderia ocorrer esta pérola do politicamente correto. Quando os EUA passam a abandonar o sistema de cotas, deputados brasileiros querem adotá-lo até mesmo no universo do lazer. Quando afirmei que negros capturavam negros na África, para vendê-los como escravos aos brancos europeus, não faltou interlocutor que alegasse que, se escravidão existia, é porque na Europa havia uma procura de escravos. Vários leitores jogaram sobre a Europa a pecha da escravidão. Tal atitude intelectual denota falta de leituras históricas. A escravidão é muito anterior à Europa. Ela já existe na Grécia socrática, quando Europa era apenas o nome de uma virgem raptada por Zeus, travestido em touro. Que mais não seja, a escravidão é vista como algo perfeitamente normal na Bíblia, livro que embasa o Ocidente. Um leitor cita o Eclesiastes, quando Salomão fala de um homem que domina outro homem para arruiná-lo. Considera que esta declaração é universal, não se aplicando a uma raça, mas a todas as raças. E considera ser intelectualmente irresponsável invocar a Bíblia sem realçar este fato. O leitor esqueceu de ler o Êxodo: "Quando comprares um escravo hebreu, seis anos ele servirá; mas no sétimo sairá livre, sem nada pagar. Se veio só, sozinho sairá; se era casado, com ele sairá a esposa. Se o seu senhor lhe der mulher, e esta der à luz filhos e filhas, a mulher e seus filhos serão do senhor, e ele sairá sozinho. Mas se o escravo disser: 'eu amo a meu senhor, minha mulher e meus filhos, não quero ficar livre', o seu senhor falo-á aproximar-se de Deus, e o fará encostar-se à porta e às ombreiras e lhe furará a orelha com uma sovela: e ele ficará seu escravo para sempre". À semelhança de ativistas negros que não gostam de ouvir que chefes tribais africanos vendiam escravos aos brancos europeus, muitos católicos não gostam de ouvir que a Bíblia endossa a escravidão. Mas que se vai fazer? No Livro está escrito: "Se alguém ferir o seu escravo ou a sua serva com uma vara, e o ferido morrer debaixo de sua mão, será punido. Mas, se sobreviver um ou dois, não será punido, porque é dinheiro seu". O Levítico legitima a aquisição de escravos estrangeiros: "Os servos e servas que tiverdes deverão vir das nações que vos circundam; delas podereis adquirir servos e servas. Também podeis adquiri-los dentre os filhos dos hóspedes que habitam entre vós, bem como das suas famílias que vivem conosco e que nasceram na vossa terra: serão vossa propriedade e deixá-los-eis como herança a vossos filhos depois de vós, para que os possuam como propriedade perpétua. Tê-los-eis como escravos; mas sobre os vossos irmãos, os filhos de Israel, pessoa alguma exercerá poder de domínio". Ou seja, não há originalidade alguma no fato de a Europa ter sido escravista. Estava apenas seguindo os ditames do livro que a embasa. A escravidão percorre o Livro de ponta a ponta, só não vê quem não quer ver. Portugal, país bom cristão, não deixaria de dar continuidade à tradição bíblica. Negros brasileiros exigem hoje indenizações milionárias da República, em nome da escravidão passada. Ocorre que o Brasil república não conheceu a instituição da escravatura. A Lei Áurea é de 1888 - coincidentemente da mesma época em que nos EUA vigiam as hediondas leis Jim Crow. A república foi proclamada em 1889. Se os negros querem indenização, a conta deve ser enviada a Portugal. Existe hoje trabalho escravo no Brasil? Sim, existe. Mas nenhuma lei o legitima, pelo contrário. É crime e como tal é punido. Seria insensato de nossa parte negar a existência de nossas mazelas, em nome de um enjolivement da história pátria. E aqui entramos no ponto que mais protestos provocou em meu artigo, a afirmação de que a história da África é a história das guerras tribais e da escravidão, da lapidação por adultério, da mutilação física como punição e da mutilação sexual como costume. Choveram e-mails citando feitos passados, antigas culturas e houve quem empunhasse o Egito como um dos expoentes da cultura negra. Não bastasse a tese furada de que Atenas era negra, vemos agora o Egito inserido no debate afro. De Dakar, um leitor me envia referências sobre Cheikh Anta Diop, estudioso senegalês que parte da idéia de que o antigo Egito faz parte da África negra. Pode ser. Mas tal tese está longe de constituir unanimidade entre historiadores. Mesmo que assim fosse, de nada vale o argumento. Se um dia um hipotético Egito negro teve uma trajetória gloriosa, hoje não mais a tem. Essa trajetória foi em algum momento interrompida, e hoje o Egito vive a hora nada gloriosa do Islã. Que mais não seja, o antigo Egito era escravagista - os hebreus que o digam! - e isto tampouco depõe a favor da África. Não faltou quem me acusasse de ser filho ingrato, afinal nossos ancestrais todos teriam surgido em solo africano. O argumento é contraproducente. Se todos de lá descendemos, foi preciso abandonar Mãe África para que o homem evoluísse. Que mais não seja, apegar-se a passados gloriosos de um país para alimentar auto-estima é doença de nacionalistas tacanhos. Pior ainda quando o apego é ao passado de uma etnia: estamos entrando na estreita fímbria que separa orgulho étnico de racismo. Antes de pertencermos a uma ou outra nação, a esta ou aquela etnia, pertencemos à raça humana. Afirmei que estudar a história africana, seja a passada, seja a presente, não leva criança alguma a nenhuma auto-estima. Vejo que magoei muitos leitores. Inúmeros destes, munidos de um computador, enviaram suas mensagens por modem, em velocidade quase instantânea, via Internet. São pessoas alfabetizadas, o que neste nosso mundo já constitui privilégio. Em geral com curso superior, pelo que entendi. Usufruem das atuais facilidades de comunicação e da liberdade de expressão de pensamento nos países onde vivem. São nutridas por informação via satélite e podem acompanhar quase em tempo real os conflitos no planetinha, confortavelmente sentadas frente a um televisor. Certamente são usuárias de jatos e automóveis em seus deslocamentos, comem em bons restaurantes e foram formados em boas universidades. Ou seja, gozam do melhor do Ocidente. Isto, caríssimos, não é herança africana. Que a África seja uma terna lembrança de um passado imemorial, vá lá. Hoje, não tem lição nenhuma a dar ao Ocidente. Quando na África existir eleições livres e democracia, noções de direitos humanos, imprensa e liberdade de imprensa, mulheres com os mesmos direitos que os homens, quando na África clitóris não mais sejam mutilados nem mulheres lapidadas, voltamos a conversar. A África trouxe contribuições à humanidade? Viva a África. O que não se pode, sob pena de falsificar a história, é ignorar suas mazelas presentes. Por enquanto, repito, a África está mais para Idi Amin Dada que para Mozart. Quando alguém me fala da excelência de certas culturas primitivas, costumo lembrar de A Vida de Brian, dos Monty Python. Reunidos os conspiradores judeus, o líder pergunta: que nos trouxeram os romanos? Estradas, responde alguém. Certo. Mas além das estradas, que nos deram? Hospitais, responde outro. É! Mas que mais além das estradas e hospitais? Aquedutos, sugere um terceiro. E assim continua a discussão, até que sai um manifesto: apesar de nos terem trazido estradas, hospitais, aquedutos, escolas, esgotos, romanos go Rome! Entendo o estudo da história como o estudo do acontecido. Não pode um historiador subtrair fatos só porque tais fatos são desonrosos à história de um povo. Durante todo um século - o passado - os comunistas construíram uma história fictícia para mostrar como paraíso o que em verdade era um inferno aqui na Terra mesmo. Não queiram os ativistas negros repetir esta infâmia. A do século passado ainda nos pesa e está longe de ser extirpada de nossa memória. Luta de classes morta, luta racial posta Em reposta a artigos que publiquei nesta revista, leio uma prolixa contestação de um acadêmico da Universidade de Michigan. Por apreço à síntese e ao leitor, tentarei ser breve. Não vou entrar na discussão de DNA ou fenótipos. Seria cair na armadilha da discussão sobre raça, conceito que até hoje não se conseguiu definir. Minha proposição inicial foi discutir racismo e leis que estimulam o racismo, o que é muito diferente. Se raça é algo impossível de determinar, racismo é algo muito palpável, e contamina tanto brancos como negros. Por um lado, a idéia de fenótipos é o caminho mais curto até sistemas como o nazista. Por outro, em nada me interessa que fenótipos portam as pessoas que me rodeiam. Tampouco vou responder, ponto a ponto, todas as objeções. Doze mil palavras é formato que não condiz com meu estilo. Vou me ater, nesta réplica, a alguns itens sobre este país em que nasci e vivo. Mark Wells, militante da nova ideologia afrobrazilianista ianque, começa citando o doutor e sociológo Raimundo Nina Rodrigues: "the black race of Brazil... will always constitute one of the factors of our inferiority as a people". Para começar, o tenho por etnológo e não sociólogo, mas isto é o de menos. Tal afirmação não corresponde ao que um brasileiro pensa sobre as populações negras no Brasil. Não tendo nunca os negros empunhado o poder político e administrativo da nação, jamais poderiam ter sido responsáveis por qualquer suposta inferioridade do país. Esta tese é de um racismo insólito, só concebível no bestunto de um acadêmico isolado em torre de marfim. O homem do povo, que vive e trabalha ombro a ombro com negros e mulatos, não pensa assim. Se inferioridade há, esta deve ser debitada aos brancos, que sempre tiveram o poder em mãos. Há quem afirme, isto sim, que nossas mazelas decorrem de termos sido colonizados por portugueses, e não por holandeses ou franceses. É possível. Mas história alternativa é disciplina espúria, que nada tem de rigor. Prefiro outra tese: nossas desgraças decorrem de termos sido colonizados por católicos. País protestante ou luterano, de modo geral, é sempre rico. Cabe lembrar que Nina Rodrigues foi influenciado pelas idéias do conde de Gobineau, um dos precursores do racismo nazista, que esteve no Brasil entre 1869 e 1870. Este nobre francês aventou a exótica idéia de que a mistura de raças acabaria levando à pura e simples extinção da população brasileira. O médico baiano deixou-se deslumbrar pelo discurso da aristocracia gálica e considerou que toda e qualquer miscigenação resultaria inevitavelmente em desequilíbrio mental e degenerescência. Nina Rodrigues foi incumbido de analisar o crânio de Antônio Conselheiro. Considerou que, em se tratando de um mestiço, o morto era muito suspeito de ser degenerado. Você não pode, de forma alguma, Mr. Wells, interpretar a realidade brasileira a partir de considerações de um pensador racista influenciado por um precursor do nazismo. Seria como pedir a Hitler um parecer sobre a questão judia. Mr. Wells afirma, citando pesquisa da Fapesp, que "the term pardo was developed as a way for the Brazilian government to hide the fact that it had such a high proportion of African descent people". A afirmação é vaga. Qual governo? Em que época? Quais documentos baseiam tal afirmação? O autor da pesquisa citada não fornece nenhuma base documental à sua tese. É uma afirmação apoiada no vazio, o que depõe contra as qualificações acadêmicas exibidas pelo articulista. Pardo ou mulato quer dizer a mesma coisa e mulato é palavra antiga. Se você apanhar um Larousse, lá está: Mulâtre, mulâtresse: homme ou femme de couleur, nés d'un d'un Noir et d'une Blanche. A palavra vem do espanhol e data de 1544. Vamos ao dicionário de Maria Moliner: se aplica al mestizo hijo de blanco y negro. A distinção entre negro e mestiço não foi criada por governo brasileiro algum. Ela já existia há séculos em outras culturas. Machado de Assis, o patrono da literatura brasileira, sempre foi considerado mulato. Estamos no século XIX. Os historiadores da literatura não o situam como negro, por uma simples razão: não era negro. É salutar que esta distinção seja feita, pois a fenômenos diferentes cabem denominações diferentes. Mesmo mulato, Machado conquistou a admiração da intelectualidade branca e universitária, como também um outro seu coetâneo, Lima Barreto. Estranho país racista este nosso, onde o vulto maior da Letras nacionais é um mulato. Mr. Wells tem razão ao citar pesquisa do Censo mostrando que "the state of Bahia is approximately 25 percent white, 20 percent black and 55 percent mulato". Folgo em saber que, pelo menos para efeito de argumentação, você aceita as definições do censo. Penintencio-me por ter afirmado "a definite black majority". Seria mais preciso se dissesse "uma maioria de pretos e mulatos". Mas isto não muda em nada o mérito da questão. O que afirmei é que o Estado da Bahia jamais fez um governador negro. Mesmo com o mais alto percentual de negros do país, com o mais alto contingente de negros e mulatos somados e com uma minoria de 25% de brancos. Ou seja, o eleitorado baiano é composto por três quartos de eleitores de cor. Porque só elege brancos? Para ativistas que tudo vêem sob a ótica do racismo, a resposta é constrangedora. Teriam pretos e mulatos preconceitos contra candidatos pretos e mulatos? Aliás, esta parece ser a característica fundamental dos negros que fizeram sucesso no futebol brasileiro. Tão logo se tornam ricos, escolhem loiras como suas mulheres. Já no Rio Grande do Sul, Estado majoritariamente branco, tivemos o negro Alceu Collares eleito governador, em 1990. Você afirma: "It's also funny that you should mention Alceu Collares being elected governor. In 1993, in Vitória, state of Espírito Santo, a 19-year old black female college student named Ana Flávia Peçanha de Azeredo was assaulted and punched in the face by a 40-year old white woman and her 18-year old son over the use of an elevator in an apartment complex". Ora, você não pode comparar um fait divers da crônica policial com a vontade de um eleitorado de nove milhões de habitantes (na época). Pesquisando melhor, é possível que você encontre mais casos semelhantes. Digamos que encontre dez, ou mesmo vinte. Não podem ser comparados à vontade de uma população de nove milhões, que tinha de escolher entre um candidato negro e dois outros brancos, e escolheu o negro. Collares, diga-se de passagem, tão logo tornou-se governador, teve a mesma atitude dos atletas negros. Trocou a fiel e negra Antônia que o acompanhara nos anos de vacas magras por uma loiríssima secretária. "In Brazil, still today, maids must use the back service elevator while residents use public elevators". Sua afirmação parece provir de quem conhece extensivamente o país todo, e não a de um pesquisador que esteve onze semanas na Bahia. Tivesse saído do gueto, veria por exemplo, que em todos os elevadores de São Paulo está afixada a transcrição de uma lei: "É vedado, sob pena de multa, qualquer discriminação em virtude de raça, sexo, cor, origem, condição social, porte ou presença de deficiência física e doença não contagiosa por contato social no acesso aos elevadores". Você não encontrou este aviso na Bahia? Se não encontrou, é porque a Bahia, com seus 75 % de negros e mulatos, está ainda muito atrasada em matérias de leis contra a discriminação. "With this in mind, let us also remember this when we walk the streets of Bahia (a 75 percent black state) and never see a black face on the cover of a magazine (except for Raça Brasil) or rarely see a black face on Brazilian television (except as criminals, maids, pagodeiros, futebol players)". Com esta afirmação, você confirma minha antiga suspeita que a Bahia é um Estado onde o negro é racista em relação ao negro. Venha a São Paulo, onde a proporção negra é bem menor, e verá negros e negras como âncoras de televisão, animadores de programas, repórteres, redatores e colunistas em jornais. São Paulo, com seus mais de dez milhões de habitantes, é, ao lado do México, uma das maiores metrópoles latino-americanas. Ainda recentemente, teve como prefeito Celso Pitta, cidadão negro eleito em concorrência a candidatos brancos. (Saiu do governo com a pecha de corrupto, mas isto é outra história). Mais recentemente, tivemos uma governadora negra no Rio, hoje ministra em Brasília. Você não pode afirmar, de forma alguma, que a televisão brasileira só mostra faces pretas quando se trata de "criminals, maids, pagodeiros, futebol players". Ano passado, eu participava de uma festa em um condomínio de luxo (essas cidadelas fortificadas onde ricos - sejam brancos, sejam negros - se protegem da violência que toma conta do país) e, em dado momento, vi os participantes todos da festa, brancos e negros, se apertando para sair na foto junto a um negro. Como quase não assisto a televisão nacional, não imaginava de quem se tratasse. Soube mais tarde que era Nettinho, um dos mais famosos apresentadores do país. Mas você ainda afirma: "It is truly a shame that in the year 2003 people continue to use Brazilian entertainers and athletes such as Pelé to try and down play the effects of racism in society. Many people use this same logic in the US. Just because you allow a black person to entertain you doesn't necessarily mean you would like for a person who looks like them to be your neighbor, marry your daughter or be president of your country". Pode ser que assim seja nos Estados Unidos. Aqui, não. Os negros estão representados na Câmara de Deputados e no Senado, nas Câmaras de Vereadores e nos Ministérios, na magistratura, na universidade e na imprensa. Constituem minoria? É porque não contam sequer com o voto do grande contingente negro e mulato do país, pois neste país as eleições são livres e negros e mulatos votam. E até é bom que assim seja. A maior desgraça com que poderíamos ser brindados seria ter partidos baseados em raça. A idéia de que negro só vota em negro já roçou as mentes tupiniquins. Por enquanto, pelo menos, esta semente de nazismo foi esconjurada. E os negros são nossos vizinhos e casam com nossas filhas, sim senhor! Ou não teríamos um população de quase 40% de mestiços. Há famílias que têm restrições a casamentos interraciais? E por que não? Alguma lei proíbe que uma família tenha preferências em relação a seus filhos? De qualquer forma, não vivemos em um país feudal, onde a vontade soberana do pater familias determina o destino dos filhos. Quanto a ser presidente da República, nada impede um negro de candidatar-se à suprema magistratura e tenho a firme convicção de que, mais dia menos dia, teremos um presidente negro. A este operário branco de extrema incultura que o país hoje elegeu, eu me sentiria muito melhor servido por um presidente negro que tivesse maiores luzes e experiência administrativa. A cor do presidente não me interessa. Interessa-me sua competência. Você cita a participação de João Batista de Lacerda, em 1911, no I Congresso Universal das Raças, em Londres. Segundo o médico brasileiro, em um século de miscigenação, "black people would ultimately disappear from Brazilian society". Sabemos que Lacerda ilustrou sua tese com o quadro A redenção de Can, de Modesto Brocos y Gomes, que pretendia registrar esse branqueamento mostrando como o cruzamento dos negros e seus mestiços com brancos diluía o sangue africano, gerando descendentes claros. Pela denominação do Congresso, você já pode deduzir que se vivia uma época em que o conceito de raça gozava de estatuto científico, o que hoje não mais se admite. No quadro de Brocos y Gomes, havia uma negra velha em gesto de preito, ao lado de uma mulata clara, mais um homem de traços ibéricos e uma criança, supostamente filha do casal, de pele clara, mostrando a progressão do negro ao branco. Ora, a obra de um pintor não pode ser fundamentação para quem pretende demonstrar uma tese na área de genética. Citar Lacerda é o mesmo que citar o protonazista Nina Rodrigues. Se Gobineau - o guru de Nina Rodrigues - afirmava que a mistura de raças acabaria levando à pura e simples extinção da população brasileira, Lacerda é mais modesto: será extinta apenas a população negra. Não podemos hoje, em pleno século XXI, dar ouvidos a teorias desvairadas do século XIX, que aliás se revelaram em contramão da realidade. Ao afirmar que "Brazil's leaders chose to try and mix the African blood right out of the country" você está aceitando teorias conspiratórias que jamais existiram, exceto talvez na cabeça de algum racista - e estes sim existem. Mas nada, em sã consciência, autoriza alguém a afirmar que sejam os líderes brasileiros os responsáveis por esta teoria. Quem são esses líderes responsáveis por tão maquiavélica estratégia? Eu os desconheço. Quem defendeu quase histericamente a miscigenação, nos últimos anos, foi Darcy Ribeiro. Mas em defesa da negritude e não como instrumento de extinção do negro. Em O Presidente Negro (1926), Monteiro Lobato, ciente das teses de Nina Rodrigues e Batista Lacerda, satiriza uma cientista americana, Miss Jane, que afirma ser o ódio a mais profunda das profilaxias. Impede que uma raça se desnature, descristalize a outra e conserva ambas em um estado de relativa pureza. "O amor matou no Brasil a possibilidade de uma suprema expressão biológica. O ódio criou na América a glória do eugenismo humano". Não por acaso, o autor coloca na boca de uma norte-americana esta tese estapafúrdia. Brasileiros, dispensamos este ódio purificador. Mr. Wells diz ter visto uma única vez uma mulher negra ser coroada Miss Brasil, Deise Nunes de Souza, em 1986. Ocorre que o Brasil não existe a partir de 1986. Em 1964, a carioca Vera Lúcia Couto dos Santos foi a primeira negra a ser eleita Miss Brasil. Verdade que foi bombardeada com telefonemas anônimos, alegando que uma preta não poderia ser Miss Brasil. Isso no Rio de Janeiro, Estado também de predominância negra e mulata. Mas foi eleita e eleita permaneceu. Cabe lembrar que Deise Nunes é gaúcha, pertence àquele mesmo Estado de maioria branca que elegeu Alceu Collares. E cabe ainda lembrar um episódio de flagrante racismo de parte da comunidade negra de Porto Alegre, ocorrido nos anos 80. Porto Alegre elegeu uma rainha do carnaval ... branca, para sua infelicidade. Os movimentos negros protestaram, alegando que o carnaval era uma festa negra e a rainha, portanto, tinha de ser negra. As pressões, que incluíram inclusive apedrejamento à casa da moça, foram tantas, que ela teve de renunciar ao cetro. Curiosamente, ninguém lembrou na época que o carnaval, em suas origens, nada tem a ver com negros ou África. É uma festa branca e romana. "In several books about Brazil, it has been reported that Afro-Brazilians were barred from entering prestigious social clubs even when they had the money for the special membership fees". A afirmativa merece algumas observações. Existiram clubes no Brasil, exclusivamente de negros ou brancos. Se nos clubes de brancos negro não entrava, a recíproca era verdadeira: no de negros, branco não entra. Desses clubes, o que hoje mais se destaca, é o bloco Ilê Aiyê, na Bahia, fundado em 1974, e que até hoje não admite brancos entre seus membros. Que mais não seja, clubes são entidades privadas, onde pessoas se reúnem com as pessoas que gostam de reunir-se. Se britânicos gostam de reunir-se entre britânicos, se homossexuais gostam de reunir-se entre homossexuais, não vamos condená-los por isso. Condenável seria, isto sim, barrar pessoas em lugares públicos por uma questão de cor. A propósito, você afirma: "In the Frances Twine book, we find that black people were often times not allowed to walk on certain sides of the street!" Ora, Twine viveu apenas onze meses em uma pequena comunidade fluminense. (Melhor que onze semanas, é verdade, mesmo assim pouco concludente). Extrair conclusões genéricas a partir de tão curto período em uma comunidade isolada é confundir o universo com o círculo-de-dois-metros-de-diâmetro-em-torno-ao-próprio-nariz. Se por ventura em alguma época isso existiu naquela comunidade, não pode ser estendido ao Brasil, onde negros e brancos andam por onde bem entendem. Nada nem ninguém obriga, hoje, um negro a andar por este ou aquele lado da calçada. Não podemos julgar o Brasil contemporâneo a partir de hipotéticos fatos isolados de comunidades perdidas na geografia. Certos grupos, no Rio de Janeiro, costumam aplaudir o pôr-do-sol. Nem por isso vamos afirmar que no Brasil costuma-se aplaudir o pôr-do-sol. O que existe hoje são territórios inteiros onde nem negro nem branco pode entrar. São as reservas indígenas. Os afrobrazilianistas têm produzido não poucos ensaios, onde o não-branco é automaticamente identificado com o negro. Na recente enxurrada de estudos acadêmicos sobre o Brasil, publicados nos Estados Unidos, talvez o historiador Jeffrey Lesser seja o único a ter uma visão abrangente e não racista da questão. Em Negotiating National Identity: Immigrants, Minorities and the Struggle for Ethnicity in Brazil, Lesser procura mostrar como outros grupos imigrantes não-brancos, em especial japoneses e árabes, participaram da construção de uma identidade brasileira. Segundo o viés racista dos afrobrazilianistas, o universo parece ter apenas duas cores, branco e preto. Não procedem as afirmações de Mr. Wells de que ninguém tenha sido punido por racismo no Brasil. "How many white Brazilians do you know (and can prove) have been actually thrown in jail for racist practices? Most likely NONE! And as far as murder, I can relay several stories I have been told in which a black Brazilian was killed and absolutely NOTHING was done about it!" Você não pode citar um, ou três ou quatro casos como regra geral. Para começar, aqui em São Paulo (falo apenas da cidade de São Paulo), a cada fim-de-semana, são assassinadas entre 50 e 60 pessoas, entre brancos e negros, e assassino algum é punido. Há hoje, só no Estado de São Paulo, nada menos que 127 mil mandados de prisão a cumprir. Que não são cumpridos porque não há vagas nas penitenciárias. Ou seja, há 127 mil condenados - ou pelo menos indiciados - livres como passarinhos. Neste número não estão incluídos as dezenas de milhares de autores de crimes não elucidados. Impunidade não é característica de assassinos de negros, mas prática amplamente disseminada no Brasil. Quanto a delitos raciais, uma rápida pesquisa nos jornais nos mostra casos interessantes. O Tribunal de Alçada de Minas Gerais, por exemplo, condenou uma senhora a indenizar seu vizinho em R$ 5.000,00, a titulo de danos morais. A referida senhora havia chamado seu vizinho, publicamente, de "macaco", "nego fedorento" e "urubu", ferindo a moral do ofendido. No Rio de Janeiro, o juiz da 7a. Vara Criminal condenou a dois anos de detenção, com sursis, uma empresária que teria se referido a uma candidata a emprego como "negrinha maltrapilha e sem modos". O juiz da Infância e Adolescência de Florianópolis condenou menor que, em um jogo de futebol na escola, chamou o colega de "negro feio". O menor foi condenado a seis meses de liberdade assistida. São punições pesadas para uma ofensa verbal, que jamais seria punida se dirigida a um branco. Enquanto isso, um cantor popular fez sucesso nacional no rádio e televisão com uma música intitulada "Lôra Burra". Nenhum processo, nenhuma acusação de racismo, nenhuma condenação. Imagine, Mr. Wells, se alguém intitulasse alguma canção de "Nega Burra". Seria imediatamente processado. Foi o que aconteceu com o cantor Tiririca, acusado de crime de racismo por causa da música "Veja os Cabelos Dela", que contém os versos "Essa nega fede / Fede de lascar". Sobre o assunto, escreveu Henrique Cunha Júnior, professor titular da Universidade do Ceará: 'se não bastassem os insultos e outros vexames impostos, temos ainda um boçal cantando no rádio que a nega fede, e nenhum dizer social de justiça ou de dignidade humana que proíba e puna este racismo". O detalhe caricatural em tudo isto é que a música era dedicada à própria mulher do cantor, que nela não via intenção alguma de insulto, mas sim uma referência bem humorada. O que venho afirmando, desde meu primeiro artigo, é que diplomas legais estão criando lutas raciais no Brasil. A lei nº 7.716, de 1989, que define os crimes resultantes de preconceitos de raça ou de cor, está sendo brandida a torto e a direito não para dirimir, mas para acirrar conflitos. Há cinco anos, numa prova de língua portuguesa no vestibular da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), ocorreu um caso caricatural deste novo tipo de racismo. As frases "ela é bonita, mas é negra" e "embora negra, ela é bonita" provocaram indignação de entidades ligadas aos direitos dos negros no Estado. O Instituto e Casa de Cultura Afro-Brasileira (Icab) ingressou com representação criminal junto ao Ministério Público Federal e registrou queixa na Secretaria da Segurança Pública, pedindo que fosse apurada denúncia de crime de racismo por parte da UFMS. O grupo Trabalhos e Estudo Zumbi (Tez) pediu a anulação da questão e uma retratação pública da UFMS. Para Aparício Xavier, presidente do Icab, a questão era uma aberração, feita para a época medieval. "Se eu estivesse fazendo a prova, a rasgaria e botaria fogo". A partir de duas frases, o candidato deveria indicar as respostas corretas. Uma das respostas considerada certa afirmava que na frase "a" ("Ela é bonita, mas é negra") a cor da moça era argumento desfavorável à sua beleza. Outra resposta considerada correta, na frase "b" ("Embora negra, ela é bonita"), dizia que a cor da moça era uma restrição superável pela beleza. Para o presidente da Comissão Permanente de Vestibular, responsável pela elaboração da prova, Odonias Silva, a questão foi "uma escorregada infeliz". O presidente do Icab pediu ao chefe do Departamento de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, Ivair Augusto dos Santos, que oficializasse a indignação dos negros junto ao Grupo Interministerial da Presidência da República pela Valorização da População Negra, criado pelo presidente Fernando Henrique. Tanto o Icab como o Grupo Tez pediram uma indenização por danos morais. A nenhum representante de entidades ou professor ou reitor ocorreu lembrar que, se alguém quisesse queimar e rasgar a provas em razão da frase, teria de começar rasgando e queimando a Bíblia. Pois lá está, na abertura de seu mais belo livro, o Cântico dos Cânticos: "Eu sou negra, mas formosa, ó filhas de Jerusalém, como as tendas de Quedar, como as cortinas de Salomão". Vamos à Vulgata Latina, tradução da qual deriva a maior parte das traduções atuais. Lá está: nigra sum, sed formosa. A Vulgata, por sua vez, deriva da tradução dos Septuaginta - feita a partir do original hebraico - onde está, em grego: Melaina eimi kai kale. Durante o governo passado, a Associação Brasileira de Negros Progressistas ingressou com uma representação ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a abertura de processo contra o ministro da Saúde, José Serra, por racismo. Questionava-se a escolha de uma atriz negra para a campanha de prevenção à Aids no carnaval, na qual a moça pede que seu último parceiro faça o teste de HIV. Para a entidade, a mulher negra foi ofendida ao ser exposta no anúncio como prostituta. O Ministério da Saúde reage: a atriz foi escolhida entre trinta candidatas, grupo que incluía louras, morenas e negras. Só teria ocorrido racismo se a melhor candidata não pudesse estrelar a campanha pelo fato de ser negra. Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come. Não fosse a modelo negra a escolhida no concurso, este poderia ser contestado por dar preferência a brancas. Curiosamente, não ocorreu aos sedizentes negros progressistas perguntar o que achava do assunto a principal interessada, a atriz Carla Leite. Que de modo algum se sentiu inferiorizada. "Pelo contrário, tenho orgulho de ter passado uma mensagem importante, por mais que haja polêmica", disse Carla. Ao que tudo indica, não existe prostituta negra no Brasil. O diretor de Comunicação da Associação Brasileira de Negros Progressistas, Aguinaldo Triumpho Avellar, alega que os negros deveriam ser consultados sobre o teor do comercial. Assim, cada atriz negra que quiser trabalhar, terá de pedir prévia licença aos negros progressistas para saber se pode ou não candidatar-se a determinado papel. Ainda em Florianópolis, aquela mesma cidade onde um menor foi condenado por chamar um colega de negro feio, ocorreu caso que bem demonstra o absurdo das leis anti-racismo. Uma trintena de funcionários foi demitida de uma empresa para-estatal. Um deles era negro. Entrou com ação por racismo. Foi reintegrado ao cargo e recebeu gorda indenização. Os demais funcionários, pela desgraça de serem brancos, ficaram a ver navios. Mas o caso mais caricatural desta histeria ocorreu em Brasília. Onde um negro já foi para a cadeia por ter chamado outro negro... de negro. Como os conflitos raciais no Brasil jamais foram tão intensos como nos Estados Unidos, os sedizentes negros progressistas tupiniquins estão fazendo o que podem para que possamos atingir os invejáveis níveis de ódio racial de um país de Primeiro Mundo. Para isto, contam com o valioso apoio desta nova geração de ativistas formados nas universidades americanas nas últimas décadas. Em vez dos apparatchiks soviéticos, temos agora uma fábrica acadêmica de racismo, os centros de black studies. Com arrogância típica de cidadãos do império, os afrobrazilianistas ianques pretendem entender melhor o Brasil do que os próprios brasileiros. O país está deslizando em um declive perigoso, criando leis diferentes para diferentes pessoas. Índios já gozam de um estatuto especial. Podem matar à vontade, como Raoni. Ou estuprar com gosto, como Paiakan. Não podem ir para a cadeia, são índios. Negro pode entrar na universidade passando na frente de brancos com melhor habilitação no vestibular. Podem também insultar brancos, isto não é crime. Crime é insultar negro. Luta de classes morta, luta racial posta. Parafraseando os marxistas: o ódio é o fórceps da História.
ENTRE MENNAS E GUJJARS Na Índia, a política de cotas já está produzindo resultados interessantes. É o que nos conta a Associated Press. Ontem, a polícia impediu que cerca de 50 mil integrantes da casta Meena, armados de facas e espadas, fizessem uma passeata em Peepal Khera, cerca de 120 km a leste de Jaipur, capital do Rajastão. Protestavam contra benefícios concedidos pelo governo à casta Gujjar. Embora o sistema de castas já tenha sido oficialmente abolido, os grupos que sempre estiverem por baixo da pirâmide social, embaixo continuam. Tentando corrigir estas distorções, o governo estabeleceu o malsinado sistema de cotas, para estender benefícios às comunidades menos favorecidas. Como os gujjars estão no extremo mais baixo da escala social, tiveram direito a maiores cotas de empregos no setor público e mais vagas nas universidades. Os meenas não gostaram: "Nenhuma cota para gujjars". Na semana passada, confrontos entre meenas e gujjars deixaram pelo menos 25 mortos.
Domingo, Junho 03, 2007
VEJA SE RENDE A IDEOLOGIAS EM MODA Existe ou não existe raça? Até bem pouco tempo, as raças existiam, sem que ninguém negasse sua existência. À medida em que o politicamente correto foi-se impondo como ideologia dominante, falar em raça passou a ser uma manifestação óbvia de racismo. Existem seres humanos, não raças humanas. Exceto quando for conveniente, é claro. No Brasil, por exemplo, os movimentos negros haviam abandonado a idéia de raça. Ocorre que, com a instituição da política de cotas raciais, ser negro passou a ser vantajoso. Tivemos então um senador da República que apresentou um projeto para oficializar a segregação racial no país, ao pretender instituir a carteira de identidade negra. Algo assim como o que os nazistas faziam com os judeus. Só que não é mais conveniente lembrar disto. Quando as universidades brasileiras começaram a copiar a política ianque de afirmação positiva - da qual os americanos já se arrependem amargamente - neste país miscigenado, onde nem sempre é fácil determinar a origem racial de cada cidadão, não faltou branco se declarando negro para obter vantagens nos concursos de seleção universitários. Para impedir fraudes, a universidade de Brasília instituiu a figura de uma espécie de "olheiros", que verificariam a que raça pertence o candidato. Deus não joga mas fiscaliza. Ocorreu no início do mês passado que dois gêmeos univitelinos se candidataram às cotas, em diferentes cursos da UnB. Um foi considerado negro e o outro não. Os irmãos entraram com recurso, que está sendo analisado e será divulgado na próxima quarta-feira. A enrascada é das boas. Será mais fácil para o senador Renan Calheiros explicar suas relações com a Mendes Ribeiro do que para os olheiros da UnB explicarem seus critérios de avaliação racial. A Veja desta semana deu capa à affaire, com uma chamada dogmática e contundente: Gêmeos idênticos, Alex e Alan foram considerados pelo sistema de cotas como BRANCO E NEGRO. É mais uma prova de que RAÇA NÃO EXISTE É surpreendente ver uma revista como Veja caindo na armadilha ideológica dos movimentos negros. Se raça não existe, vamos então parar de falar em dálmatas, buldogs, bassets, beagles, dobermanns, filas, chihuahuas, chowchows, cockers, malteses, pequineses, pitbulls, poodles, yorkshires, São Bernardos, rottweilers. Nem nas mais de 400 raças caninas. Tampouco se fale mais, quando se trata de cavalos, em raças árabe, crioula, Holsteiner, mangalarga, puros sangues ingleses, espanhóis e lusitanos, lipizzaners, appaloosa e quartos de milha, percherons, paint horses, campolinas, favacho, JB, Bela Cruz. Nem nas mais de 100 outras raças conhecidas. Abominável racismo falar em bois zebu, Aberdeen-Angus, Nelore, Hereford, Limousine, Brahman, Gir, Guzerá, holandês, charolês. Ou em ovinos merino, Texel, Île-de-France, Suffolk, Hampshire Down, Poli Dorset, Corriedale, Ideal, Laucane, Bordaleira. Tenha também respeito pelos galináceos. Elimine de seu vocabulário palavras como Legorne, D’Angola, Conchinchina, Hamburguesa, Brahma e Plymouth. Ou alguém pretende que raça só exista no reino animal? Quando surge o Homo sapiens, este ser excelso, tocado pela graça divina, raça deixa de existir? A capa de Veja constitui uma deplorável subserviência a ideologias em moda.
Sábado, Junho 02, 2007
UM BOM DIA PARA QUÊ? Uma das coisas boas da vida é manter uma relação afável com as pessoas que nos servem no dia-a-dia. Em meu bairro, sou amigo de todos os garçons, garçonetes, taxistas, donos de banca de jornal. O salão de meu barbeiro é um precioso centro de informações. Freqüentado por delegados, bicheiros e jornalistas, tomo conhecimento de qualquer seqüestro muito antes de a informação vir a público. É uma sala escondida, sem placa nenhuma que a indique. Só vai lá quem sabe das coisas. Na academia onde exercito a carcaça, sou sempre recebido por uma menina de uma doçura inefável, que me envolve com um beijo e um abraço mal chego ao salão. Pequenos detalhes da vida, mas que a tornam mais alegre. Hoje chove em São Paulo. As ruas de meu bairro estão infestadas de judeus rumo às sinagogas, protegidos por capas de plástico. É shabbat e não podem segurar guarda-chuvas. É um tanto estranho ver senhores bem vestidos e engravatados, portando essas capinhas que os quiosques vendem a cinco reais. Enfim, ortodoxia oblige... Quando vou comprar meus jornais, a moça da banca me saúda: "oi, meu amor!" Não é mau começar o dia assim. Antes, me explico. Compro jornais por vício incontrolável. Tenho todos os jornais do mundo em minha telinha. Mas não consegui libertar-me ainda do papel. Poderia também assinar os jornais. Eu o faço em parte. Assino um e compro o outro. Se assinasse os dois, não teria o prazer de ouvir todos os dias a moça da banca. Chove e faz frio em São Paulo. Nesta manhã, ao comprar a Veja para informar-me das últimas corrupções do Planalto, a moça me perguntou: "hoje é um dia bom mesmo para quê?" Confesso que pensei em muitas coisas, inclusive naquelas eternas e sempre deleitáveis. Mas a pergunta dela era apenas retórica. Antes que eu dissesse alguma inconveniência, ajuntou: "hoje é um dia bom para ler". Estranha concepção de leitura. Discordei da moça. "Minha querida, eu leio o dia todo todos os dias, faça chuva ou faça sol. Hoje o dia me parece mais propício para um bom vinho entre amigos". Daqui a pouco estarão chegando. São amigos e amigas de antigas navegações. Quando nos reunimos, é para viajar, discutir sobre cidades longínquas, restaurantes e pratos. Ou teologia, quem sabe. É tema que sempre provoca boas gargalhadas. Planejaremos novas viagens, até mesmo as impossíveis, que para sonhar não se paga imposto. Pessoalmente, estou tentando libertar-me de outro velho vício, o eixo Paris-Roma-Madri. Faz cinco anos que tento escapar deste triângulo e não consigo. Estou com vontade de México neste ano. Mas não sei se vai dar, não. Paris, Roma e Madri continuam a chamar-me, imperiosamente. Minhas propostas de pauta hoje são duas: um Marqués de Cáceres espanhol e um Casillero del Diablo chileno, carmenère. Começaremos devagar os trabalhos. Nestas reuniões, em geral acabamos discutindo a deriva dos continentes. É quando a mesa começa a girar. Santé, leitor!
MINISTRO DO STF DECRETA FIM DO ESTADO DE DIREITO Não é preciso fazer um curso de Direito para tanto. Qualquer leigo sabe que tudo que não estiver expressamente proibido por lei permitido está. Pelo menos do ponto de vista legal. Pode até ser proibido pela moral vigente, mas proibições morais não implicam sanções legais. O que define o que é crime é a lei. Se uma ação qualquer de um cidadão não está definida como crime, criminosa não é. O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Marco Aurélio de Mello, parece estar querendo revogar princípios universais do Direito. Declarou ontem que o funcionamento das casas de bingo e demais jogos de azar é totalmente ilegal e que cabe à polícia fechá-las. "O caminho é o fechamento pela autoridade policial... Não há legislação federal disciplinando a atividade. A inexistência de lei federal torna o funcionamento dessas casas totalmente ilegal". O ministro rejeitou o argumento defendido pelos bingos, de que o fato de inexistir uma lei da União autorizando os jogos de azar não significa que eles estejam proibidos. Estaria o ministro em pleno uso de suas faculdades mentais quando afirmou tal despautério? Estaria pelo menos sóbrio? Teria o repórter ouvido bem o ministro? Em falta de lei que defina a atividade dos bingos como crime, os bingos não só não estão proibidos, como estão em situação perfeitamente legal. A opinião do ministro reflete uma mentalidade totalitarista extremada: qualquer coisa que estejamos fazendo pode ser crime, já que a inexistência de uma lei que permita tal atitude a torna ipso facto ilegal. Segundo esta filosofia, seria necessário um outro sistema penal, que definisse um a um todos os milhares - senão milhões - de atos que um cidadão pode cometer sem ser considerado criminoso. Nenhum luminar das letras jurídicas pátrias vai comentar este despautério? Pretenderá o ministro instaurar onde um regime onde quem define o que pode ou não ser feito é o comissário do povo da esquina? A douta e insólita opinião do ínclito ministro do Supremo significa o fim de todo Estado de direito.
Sexta-feira, Junho 01, 2007
IGREJA ROUBA VIDA DE GOLIARDO Triste ver um homem chegar ao entendimento só depois de velho. Em verdade, nem falo de entendimento. Ele chegou apenas a algumas descobertas básicas, que seriam muito úteis para a vida em um adolescente de 15 ou 16 anos. Quando se descobre isto já sessentão, a descoberta se torna trágica. Falo de Leonardo Boff. Em entrevista publicada hoje no jornal espanhol La Vanguardia, define-se como um cigano teológico. Em verdade, sempre foi um goliardo. Por goliardos entende-se aqueles monges medievais, um tanto refratários à Santa Madre, que buscavam os prazeres do século sem renunciar às vantagens conferidas pela infra-estrutura da Santa Madre. Valiam-se de sua condição erudita para compor, clandestinamente, canções satíricas, amorosas e mesmo chansons grivoises, isto é, canções licenciosas. Quem quiser conhecê-los melhor, pode escutar a cantata Carmina Burana, de Carl Orff. Como isto não garante o sustento de ninguém, os goliardos esmolavam em troca de sua arte. Se alguém um dia viu uma tuna cantando pelas noites de Madri ou Barcelona, tem uma idéia do que sejam os goliardos. Com a diferença de que os tuneros não são religiosos. O goliardo Boff, em vez de chansons grivoises, compôs odes marxisto-teológicas. É considerado um dos teóricos da sedizente teologia da libertação, que em nada agradou o Vaticano. Condenado a não mais lecionar e a manter um silêncio obsequioso, Boff até hoje se lamuria do procedimento inquisitorial da Santa Sé. Em entrevista dada à revista comuno-anarquista Caros Amigos, quando o papa era ainda Wojtyla, disse da Igreja: "Ela mente, é corrupta, é cruel e sem piedade. Ela pega alguém e vai até o fim". Voltemos à entrevista dada ao jornal espanhol. Diz Boff: "O Vaticano afirma que sem a Igreja não há salvação, e isso é uma arrogância medieval: o espírito de Deus está em todas as partes e Deus, olhando a humanidade, vê todos os seus filhos; não olha só para o Vaticano. Roma tem medo do presente, da diversidade: tem medo da modernidade e do futuro. E se aceitasse que a centralidade não é a Igreja, mas a humanidade inteira, poderia realmente salvar o mundo. (...) Teríamos de aceitar que nenhuma igreja é portadora da única verdade; só assim poderíamos chegar à paz duradoura". O teólogo goliardo demonstra nada entender de história das religiões. Ou fez gazeta nas aulas sobre judaísmo. Esse Deus universal que olha a humanidade, na concepção de Boff, nasceu em verdade como um Deus nacional, ligado a um Estado. Era apenas um entre os muitos deuses que os judeus cultuavam. Como levou Israel à vitória, tornou-se o deus preferencial do povo judeu. Pouco a pouco, foi-se julgando - ou sendo julgado - ser o único. Ainda assim, continuava sendo o Deus do Estado de Israel. Ele só se universaliza após o império de Constantino. A Igreja Católica apropriou-se indebitamente do deus judaico e passou a considerar-se portadora da única verdade. No dia em que assim não for, o mundo se tornaria certamente mais tolerante, mas a Igreja Católica deixaria de ser a Igreja Católica. Se a Igreja mente, é corrupta, cruel e sem piedade, isso não ocorreu ontem. Diga-se de passagem, a Igreja mentiu muito mais, foi muito mais corrupta e cruel naqueles idos em que reis se humilhavam para contar com o beneplácito dos papas. É espantoso que frei Boff ignorasse isto. Em suas entrevistas, costuma apostrofar Ratzinger, que cortou suas asinhas quando ainda era cardeal. Gosta de gabar-se de ter estado em Roma, sentado na mesma sala onde estiveram Galileu Galilei e Giordano Bruno, e sendo interrogado pelo futuro papa. Ora, foi interrogado porque quis. Se a Igreja mente, é corrupta, cruel e sem piedade, Boff devia tê-la abandonado há muito tempo. O frei há muito deixou de ser um católico. O problema destes senhores é que largam a batina, mas não a fé. O teólogo defensor da libertação dos povos, até hoje defende o deus brutal de Israel, que massacrou povos em defesa do Estado de Israel. Se Boff ainda xinga a Igreja, é porque tem saudades dos tempos em que usufruía das mordomias vaticanas ou decorrentes de sua condição de religioso: viagens, cursos, públicos cativos, editoras à mão. Tenho profunda lástima destas pessoas que só começam a entender o mundo recém no fim da vida. Relacionei-me com muitos sacerdotes em minha juventude, afinal fui congregado mariano (e presidente de Congregação Mariana) e militei na JEC e na JUC. Nesta, minha militância foi curta, afinal minha fé estava se esboroando. Mas conservei contato com alguns daqueles padres, padres que admirei por seu idealismo, e que, tendo tomado contato com jovens, largaram a batina. Certa vez, conversando com um deles, 60 anos, ele deitou a cabeça sobre minha mão e começou a chorar: "eles roubaram minha vida". Que podia eu dizer àquele homem de 60 anos, que só descobrira o engodo já na última etapa da vida? Quantas milhares de horas teria perdido de gozo sexual, de carinhos de uma mulher? Quantas vezes teria tido de renunciar à razão porque os dogmas assim o exigiam? Quantas vezes teria dobrado a cerviz ao poder imperial de uma instituição medieval e obsoleta? Àquele defroqué, eu nada tinha a dizer. Só a escutar. A Igreja roubou a vida de Boff. O teólogo goliardo, mesmo depois de velho, parece não ter percebido isto. E continua crendo no velho deus castrado do Antigo Testamento. Largou a batina mas preservou o pior, a fé.
FAÇANHAS DO DEUS CRISTÃO http://www.youtube.com/watch?v=vBd0O0bqYjk&eurl=http%3A%2F%2Fdtdnews%2Eblogspot%2Ecom%2F
|
||