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¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV
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Tiragem
Janer Cristaldo escreve no Página Não-Oficial de Janer Cristaldo Arquivos 10/01/2003 - 11/01/2003 12/01/2003 - 01/01/2004 01/01/2004 - 02/01/2004 02/01/2004 - 03/01/2004 03/01/2004 - 04/01/2004 04/01/2004 - 05/01/2004 05/01/2004 - 06/01/2004 06/01/2004 - 07/01/2004 07/01/2004 - 08/01/2004 08/01/2004 - 09/01/2004 09/01/2004 - 10/01/2004 10/01/2004 - 11/01/2004 11/01/2004 - 12/01/2004 12/01/2004 - 01/01/2005 01/01/2005 - 02/01/2005 02/01/2005 - 03/01/2005 03/01/2005 - 04/01/2005 04/01/2005 - 05/01/2005 05/01/2005 - 06/01/2005 06/01/2005 - 07/01/2005 07/01/2005 - 08/01/2005 08/01/2005 - 09/01/2005 09/01/2005 - 10/01/2005 10/01/2005 - 11/01/2005 11/01/2005 - 12/01/2005 12/01/2005 - 01/01/2006 01/01/2006 - 02/01/2006 02/01/2006 - 03/01/2006 03/01/2006 - 04/01/2006 04/01/2006 - 05/01/2006 05/01/2006 - 06/01/2006 06/01/2006 - 07/01/2006 07/01/2006 - 08/01/2006 08/01/2006 - 09/01/2006 09/01/2006 - 10/01/2006 10/01/2006 - 11/01/2006 11/01/2006 - 12/01/2006 12/01/2006 - 01/01/2007 01/01/2007 - 02/01/2007 02/01/2007 - 03/01/2007 03/01/2007 - 04/01/2007 04/01/2007 - 05/01/2007 05/01/2007 - 06/01/2007 06/01/2007 - 07/01/2007 07/01/2007 - 08/01/2007 08/01/2007 - 09/01/2007 09/01/2007 - 10/01/2007 10/01/2007 - 11/01/2007 11/01/2007 - 12/01/2007 12/01/2007 - 01/01/2008 01/01/2008 - 02/01/2008 02/01/2008 - 03/01/2008 03/01/2008 - 04/01/2008 04/01/2008 - 05/01/2008 05/01/2008 - 06/01/2008 06/01/2008 - 07/01/2008 07/01/2008 - 08/01/2008 08/01/2008 - 09/01/2008 09/01/2008 - 10/01/2008 10/01/2008 - 11/01/2008 11/01/2008 - 12/01/2008 12/01/2008 - 01/01/2009 01/01/2009 - 02/01/2009 02/01/2009 - 03/01/2009 03/01/2009 - 04/01/2009 04/01/2009 - 05/01/2009 05/01/2009 - 06/01/2009 06/01/2009 - 07/01/2009 07/01/2009 - 08/01/2009 08/01/2009 - 09/01/2009 09/01/2009 - 10/01/2009 10/01/2009 - 11/01/2009 11/01/2009 - 12/01/2009 12/01/2009 - 01/01/2010 01/01/2010 - 02/01/2010 |
Domingo, Setembro 30, 2007
VOLTA AO CATECISMO, REINALDO! A vida tem me ensinado que o mundo está cheio de pessoas que se dizem adeptas do marxismo, catolicismo, espiritismo e outros ismos, mas sequer sabem do que estão falando. Dizem-se marxistas, católicas ou espíritas, porque acham que em algo devem crer. Suas vagas noções destas doutrinas decorrem de toscos catecismos. Ora, catecismos são escritos para catecúmenos, aqueles que se preparam para receber o batismo. Catecismos não podem embasar uma fé adulta. Há católicos que jamais leram a Bíblia e tampouco conhecem a história ou o magistério da Igreja, há marxistas que jamais leram Marx e espíritas que jamais leram Allan Kardec. O pior é constatar a existência de supostos intelectuais, que se pretendem católicos e não assimilaram sequer o catecismo. É o caso do cronista tucanopapista Reinaldo de Azevedo. Que escreve hoje em seu blog: "Se você conhece mesmo Santo Tomás, sabe que ele jamais chamaria de ciência a concepção imaculada. Volte aos livros. O que é matéria de fé está fora do escrutínio científico. Mesmo as provas da existência de Deus, na Suma Teológica, são exercícios lógicos. Assim, em termos estritamente tomistas, Maria ter concebido virgem não pode jamais ser um 'absurdo' porque há uma condição anterior a qualquer verificação da experiência: 'é preciso crer'." Eu já havia recortado a crônica do cronista tucanopapista para um comentário posterior, quando um leitor me alertou sobre a incongruência. Vamos então comentar logo. Volta ao livros, Reinaldo! Ou melhor, volta ao catecismo. O aquinata jamais escreveria uma bobagem destas. A Imaculada Concepção nada tem a ver com virgindade. Se não conheces nem o catecismo, duvido que tenhas lido a Suma. Imaculada Concepção significa apenas que Maria foi preservada do pecado original desde o primeiro instante de sua existência. Se era mãe do Cristo, que nascera sem a mancha do pecado original, ela também não poderia ter esta mancha. O dogma foi definido a 08 de dezembro de 1854, por Pio IX, na bula Ineffabilis Deus: "Em honra da santa e indivisa Trindade, para decoro e ornamento da Virgem Mãe de Deus, para exaltação da fé católica, e para incremento da religião cristã, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, e com a nossa, declaramos, pronunciamos e definimos a doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante de sua conceição, por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha de pecado original, essa doutrina foi revelada por Deus e, portanto, deve ser sólida e constantemente crida por todos os fiéis". Quanto à virgindade da Maria, é dogma bem mais antigo. Proclamada Theotokos - Mãe de Deus, em grego - pelo Concílio de Éfeso (431), no Concílio de Latrão (1649) Maria ganhou novos atributos. Disse o papa Martinho I: "Se alguém não confessa de acordo com os santos Padres, propriamente e segundo a verdade, como Mãe de Deus, a santa, sempre virgem e imaculada Maria, por haver concebido, nos últimos tempos, do Espírito Santo e sem concurso viril gerado incorruptivelmente o mesmo Verbo de Deus, especial e verdadeiramente, permanecendo indestruída, ainda depois do parto, sua virgindade, seja condenado". Ou seja, não bastou declarar a Theotokos virgem apenas antes do parto. Foi sempre virgem, isto é, antes do parto, no parto e depois do parto. Lendo sobre mitologia grega, na Encyclopédie des Religions, de Gerhard J. Bellinger, vejo que Héstia, primeira filha de Kronos e Rhéia, obtém de Zeus a graça de preservar eternamente sua virgindade. Nada se cria, tudo se copia. Mas não era disto que pretendia falar. Em verdade, pretendia apenas alertar o cronista tucanopapista que ele precisa voltar urgentemente às aulas de catecismo, nas quais se explica muito bem o que é imaculada concepção de Maria e virgindade de Maria. Volta às aulas, Reinaldo! Ateu, já começa a cansar-me dar lições de teologia a crentes.
ELZA PODE No dia 24 de abril do ano passado, o professor de ciências políticas da Universidade de Brasília Paulo Kramer referiu-se a negros americanos como "crioulada". O episódio ocorreu durante uma aula de Teoria Política Moderna, ao explicar as políticas assistenciais implementadas nos Estados Unidos na década de 60: "Não adianta dar dinheiro para essa crioulada". Sete estudantes dos cerca de 20 que fazem parte da turma de TPM pediram o afastamento de Kramer ou a abertura de uma nova turma. Acusado de racismo, o professor Kramer acabou sendo condenado pela direção a trinta dias de suspensão, pena convertida em multa de R$ 1.750. Nesta semana, dizia a cantora Elza Soares, na Folha de São Paulo: "Eu olho e não vejo minha família. Cadê a negrada? Ligo a TV e saltam uns olhos azuis em cima de mim". Imagine um branco falando em negrada em entrevista a um grande jornal. Dia seguinte, o Correio dos Leitores estará repleto de cartas de protestos. Sem falar em um eventual processo por racismo. Estamos chegando a um absurdo momento em que uma palavra, se dita por um branco é racismo, se dita por um negro não provoca reação alguma. Eu, pessoalmente, já não falo em negrada. Prefiro afrodescendentada.
CARNE DE CRISTO MAIS CARA NA FRANÇA Leio no noticiário on-line que o aumento dos preços do trigo e das matérias-primas atingiu a Igreja Católica na França, que está pagando mais pelas hóstias que distribui em suas missas. Hóstias, para quem não lembra, é aquele pãozinho àzimo servido aos católicos durante o sacramento da comunhão. Uma vez consagrado pelo sacerdote, torna-se o corpo de Cristo, segundo doutrina límpida e inconteste do Concílio de Trento. Segundo a edição de hoje do jornal Le Parisien, as carmelitas do departamento de Cher, no centro da França, que estão entre os maiores fornecedores de hóstias do país, elevaram em aproximadamente 25% o preço de um dos símbolos da comunhão com Cristo. Segundo uma das freiras, a congregação começou a fabricar hóstias em 1617 e que, atualmente, a produção encontra-se a cargo de uma comunidade de portadores de deficiência. "Nos demos conta de que, ultimamente, as revendíamos para a diocese a um preço abaixo daquele que pagávamos", disse a religiosa. A partir de agora, a hóstia reservada ao padre que celebra as missas será vendida às paróquias por 0,80 euro a unidade. Já o cento de hóstias pequenas subiu para 1,75 euro, enquanto o cento de hóstias destinadas a cerimônias excepcionais agora vai ser comercializado por 6,50 euros. O dogma da transubstanciação, se foi aventado no concílio de Latrão (1215), só toma corpo no concílio de Trento (1551). Na encíclica Ecclesia de Eucharistia, no capítulo 1 § 15, lemos: "Pela consagração do pão e do vinho se opera a transformação de toda substância do pão na substância do corpo do Cristo nosso Senhor e de toda a substância do vinho na substância de seu sangue; esta transformação, a Igreja católica a chamou justa e exatamente de transubstanciação". Donc, o aumento do trigo será obviamente repassado à carne do Cristo. Mais o valor agregado da consagração pelas mãos mágicas do sacerdotes da ordem de Melquisedec. A partir de amanhã, cada antropófago católico na França estará teoricamente pagando mais caro pelo produto. Mas não se preocupe. A Igreja fornece carne de Cristo gratuitamente ao consumidor final. O ônus é das paróquias. Quanto ao sangue, também não se preocupe em onerar as paróquias. Se você pertence a esta seita de hematófagos profissionais, continue bebendo sangue à vontade. O vinho não aumentou de preço.
Sábado, Setembro 29, 2007
ASSASSINO ENGANA SÉCULO Na manhã do dia 09 de outubro de 1967, eu caminhava pela Rua da Praia em Porto Alegre, quando um advogado um tanto alucinado me abordou: - É ele. Não há dúvidas. Viste os olhos? Sem me dar tempo de falar, o amalucado seguiu em frente. Eu não havia visto olhos alguns, aliás não havia visto nada. Só entendi o que o angustiado rábula dizia quando vi as manchetes dos jornais. Che Guevara havia sido morto no dia anterior. De lá para cá, foram décadas de culto. A foto feita por Korda, que o assimilava a Cristo, foi certamente o ícone mais cultuado nestas últimas décadas. Em um passe de mágica, por obra de um fotógrafo, o celerado virou santo. E não falo por metáforas. Morto em odor de santidade, o guerrilheiro foi cultuado na Bolívia, como San Ernesto de la Higuera. Em 18/06/99, escrevi: "Se este foi o século do comunismo, pelas mesmas razões foi o século do culto aos fracassados. Particularmente nesta América Latina, onde a figura do herói coincide com a dos derrotados pela História. Você quer um manual do fracasso? Leia qualquer uma das dezenas de biografias de Che Guevara. Fracassou em todos os países onde lutou. Só venceu uma batalha: a da instauração em Cuba da mais longa ditadura do continente e do mundo contemporâneo. Teve sorte: morreu em odor de santidade. E até hoje sua efígie - xerox contemporâneo de um Cristo armado - permanece como bandeira e cartilha do subdesenvolvimento". Leio na edição desta semana de Veja: "exceto na revolução cubana, sua vida foi uma seqüência de fracassos. Como guerrilheiro, foi derrotado no Congo e na Bolívia". Foi necessário transcorrer quatro décadas após a morte de Che, para que um órgão da grande imprensa brasileira titulasse em sua capa: CHE, A FARSA DO HERÓI Melhor que nada. Há dez anos, jornal algum no Brasil ousaria assim tratar o santo. Guevara era o mártir da libertação da América Latina e de todos os oprimidos do mundo. No fundo, não passava de um assassino de gatilho fácil. Que iludiu inclusive críticos ferrenhos do marxismo. Entre eles, Ernesto Sábato. Em novembro de 1967, em discurso proferido na Universidade de Paris, Sábato via no guerrilheiro o homem que encontrou a morte combatendo não somente pela elevação do nível de vida dos povos miseráveis, mas também por um ideal mais valioso, pelo ideal de um Homem Novo: "Assim acabou a vida do comandante Guevara. Indefeso, após sofrer horas intermináveis com muitas balas em seu corpo enfermo, sem médico, com a asma que agravava de modo insuportável sua dor. Houve um latino-americano suficientemente covarde para aproximar-se daquele corpo dorido, com a suficiente coragem para sacar o revólver diante de seus olhos, dirigi-lo ao coração e disparar esse balaço miseravelmente histórico. Jamais saberemos o que disse Ernesto Guevara nesses momentos, mas podemos imaginar que seu olhar foi muito triste. Não por sua esperada morte, mas pelo fato de ter-lhe sido dada de tal forma e por um boliviano. Não por um ranger dos Estados Unidos, mas por alguém que de certa forma era seu próprio irmão". Mais tarde, em Abadón, o Exterminador, o escritor argentino faz a hagiologia de seu conterrâneo, desenvolvendo a saga do Che, através do personagem Palito, suposto companheiro de armas do guerrilheiro. Sábato mescla história e ficção. Boa parte de seu relato está baseado no diário de campanha de Inti Peredo. Em carta de despedida a Fidel, diz Guevara: "Outras terras do mundo reclamam o concurso de meus modestos esforços. Posso fazer o que te está negado por tua responsabilidade à frente de Cuba e chegou a hora de separarmo-nos. Deixo aqui o mais puro de minhas esperanças de construtor e o mais querido entre meus seres queridos. Libero Cuba de qualquer responsabilidade, salvo a que emana de seu exemplo. Se a hora definitiva me chegar sob outros céus, meu último pensamento será para ti, Fidel". Comovente. Pelo menos para quem desconhece História. Abadon traz ainda a transcrição de um outro trecho de carta, esta endereçada a seus pais, que evidencia o caráter romântico e quixotesco do empreendimento do guerrilheiro: "Queridos velhos: sinto outra vez sob meus talões o costilhar do Rocinante, volto à estrada com minha adarga no braço. Há coisa de dez anos, escrevi-lhes outra carta de despedida. Segundo recordo, lamentava-me de não ser melhor soldado e melhor médico. O segundo já não interessa, médico não sou dos piores... Pode ser que esta seja a definitiva. Não a busco, mas está dentro do cálculo lógico. Se é assim, vai um último abraço. Sempre os quis muito, só que não soube expressar meu carinho. Sou extremamente rígido em minhas ações e creio que às vezes não me entenderam. Por outro lado, não era fácil entender-me. Creiam-me, pelo menos hoje". A evocação de Palito, no romance de Sábato, mostra um homem que acredita mais no moral e na disciplina que no poder das armas. Um guerrilheiro deve manter a decisão de combater seus ideais até a morte. Esta disciplina não é a dos quartéis, mas a de "homens que sabem pelo que lutam e que sabem que isso é grande e justo". À noite, segundo o relato de Palito, Che dava um curso de francês: "Não é uma questão de dar tiros, dizia, só de dar tiros. Algum dia vocês terão de ser dirigentes, se triunfarmos nesta guerrilha. O dirigente, dizia, tem de ter não só coragem, tem que se desenvolver ideologicamente, tem de ser capaz de análises rápidas e de decisões justas, tem de ser capaz de fidelidade e disciplina. Mas, principalmente, dizia, tem de constituir o exemplo de homem que queremos em uma sociedade justa". Palito confessa não compreender muito bem o que Che queria dizer "homem novo". Deduzia que deveria ser mais ou menos como o Che: "com espírito de sacrifício pelos outros, com coragem e ao mesmo com compaixão e..." O companheiro de armas de Guevara hesita. Mas acaba fazendo uma descrição quase evangélica do Che: "Dizia que não se podia lutar por um mundo melhor sem isso, sem amor pelo homem e que isso era uma causa sagrada, não uma simples questão de palavras, que a cada dia, a cada hora, tinha-se de prová-lo. Muitas vezes o vimos tratar sem rancor soldados que pouco antes haviam atirado para matar, como curava suas feridas, mesmo gastando os medicamentos que para nós eram escassos". Em suma, um santo. Hoje, sabemos que era um assassino frio. Sábato, ex-comunista que denunciou com vigor o comunismo e o stalinismo, tinha profunda admiração pelo assassino... comunista. Chegou inclusive a trocar afável correspondência com Guevara. Em entrevista que me concedeu em sua casa em Santos Lugares, disse Sábato: - Devo esclarecer, no entanto, algo que para mim é importante: sempre respeitei os comunistas que, por sua candidez ou sólida fé acreditaram no regime soviético, os que sofreram prisão e torturas, os que lutaram com boa fé por seus ideais. Por isso - fato que enalteci em dois de meus livros - admiro e continuo admirando Che Guevara, que foi acima de tudo e de seu marxismo, um grande idealista, um personagem quixotesco que, como diria Rilke, teve sua morte pessoal na selva boliviana, após ter abandonado a burocracia cubana. Um herói, e sempre temos de nos erguermos ante um herói que morre por ideais. Esta imagem difundida por Sábato difere um pouco do guerrilheiro que, em janeiro de 1957, escrevia à sua mulher: "Estou na selva cubana, vivo e sedento de sangue". Também difere do homem que, em 11 de dezembro de 1964, disse na assembléia-geral da ONU: "Fuzilamos e seguiremos fuzilando enquanto for necessário. Nossa luta é uma luta até a morte". Em maior de 1967, na revista cubana Tricontinental, Che escrevia: "O ódio intransigente ao inimigo converte o combatente em uma efetiva, seletiva e fria máquina de matar. Nossos soldados têm de ser assim". Se o celerado argentino conseguiu enganar um escritor lúcido, não é de espantar que tenha enganado gerações e gerações de basbaques durante décadas. E ainda continuará enganando. O frio assassino não enganou apenas Sábato, mas o século todo. Foi preciso que o Muro fosse derrubado, que a União Soviética desmoronasse, que o socialismo fosse desmoralizado internacionalmente como regime, foi preciso que ainda decorressem quase duas décadas mais para que jornalistas e escritores ruminassem a idéia do fracasso rotundo do marxismo, para que Veja produzisse a capa desta semana. Antes tarde do que nunca. A impressão que fica é que, quarenta anos após sua morte, Che acaba de morrer de novo. Pelo menos para os desavisados. Segue a correspondência, cheia de nobres propósitos, trocada entre Che e Sábato.
RESPOSTA DE CHE A SÁBATO La Habana, 12 de abril de 1960. Ano da Reforma Agrária Sr. Ernesto Sábato Santos Lugares – Argentina Estimado compatriota: Faz já uns quinze anos, quando conheci um filho seu, que já deve estar próximo dos vinte, e sua mulher, naquele lugar creio que chamado de Cabalango, em Carlos Paz, e depois, quando li seu livro Uno y el Universo, que me fascinou, não pensava que seria você - possuidor do que para mim era o mais sagrado no mundo, o título de escritor - quem me pediria com o andar do tempo uma definição, uma tarefa de reencontro, como você diz, baseada em uma autoridade abonada por alguns fatos e muitos fenômenos subjetivos. Fixava estes relatos preliminares apenas para recordar-lhe que pertenço, apesar de tudo, à terra onde nasci e que ainda sou capaz de sentir profundamente todas suas alegrias, todas suas esperanças e também suas decepções. Seria difícil explicar-lhe porque "isto' não é Revolução Libertadora: teria talvez de dizer-lhe que nela vi as aspas nas palavras que você denuncia nos dias em que se iniciava e eu identifiquei aquela palavra com o que havia acontecido em uma Guatemala que acabava de abandonar, vencido e quase decepcionado. Como eu, estávamos todos os que tivemos uma primeira participação nessa aventura estranha e os que fomos aprofundando nosso sentimento revolucionário no contato com as massas camponesas, em uma profunda interrelação, durante dois anos de lutas cruéis e trabalhos realmente grandes. Não podíamos ser "libertadora" pois não fazíamos parte de um exército plutocrático mas sim um novo exército popular, levantado em armas para destruir o velho; e não podíamos ser "libertadora" porque nossa bandeira de combate não era uma vaca mas, em todo caso, um aramado de cerca latifundiária destroçado por um trator, como é hoje a insígnia de nosso INRA. Não podíamos ser "libertadora" porque nossas empregadinhas choraram de alegria no dia em que Batista se foi e entramos em La Habana. Hoje elas continuam dando testemunho de todas as manifestações e de todas as ingênuas conspirações da gente do Country Club, que é a mesma gente que você conheceu lá e que foram às vezes seus companheiros de ódio contra o peronismo. Aqui, a forma de submissão da intelectualidade tomou um aspecto muito menos sutil do que na Argentina. Aqui, a intelectualidade era escrava mesmo, não disfarçada de indiferente, como lá, e muito menos disfarçada de inteligente. Era uma escravidão simples, posta ao serviço de uma causa de opróbrio, sem complicações; vociferavam, simplesmente. Mas tudo isto não é mais que literatura. Remetê-lo, como você fez comigo, a um livro sobre a ideologia cubana, é remetê-lo um ano a frente. Hoje posso apenas mostrar, talvez com um intento sério, mas sumamente prático, como são nossas coisas de empíricos inveterados, este livro sobre a Guerra de Guerrilhas. É quase como uma demonstração pueril de que sei colocar uma palavra atrás da outra. Não tem a pretensão de explicar as grandes coisas que lhe inquietam e talvez nem mesmo pudesse explicá-las esse segundo livro que penso publicar, se as circunstâncias nacionais e internacionais não me obrigarem novamente a empunhar um fuzil (tarefa que desdenho como governante mas que me entusiasma como homem amante de aventura). Antecipando-lhe aquilo que pode vir ou não (no livro), posso dizer-lhe, tentando sintetizar, que esta Revolução é genuína criação da improvisação. Em Sierra Maestra, um dirigente comunista que nos visitara, admirado com tanta improvisação e de como se ajustavam todas as peças que faziam funcionar por sua conta uma organização central, dizia que era o caos mais perfeitamente organizado do universo. Esta Revolução é assim porque caminhou muito mais rápido que sua ideologia anterior. Ao fim e ao cabo, Fidel Castro era um aspirante a deputado por um partido burguês, tão burguês e tão respeitável como podia ser o Partido Radical na Argentina. Que seguia os rastros de um líder desaparecido, Eduardo Chibás, com características que poderíamos julgar parecidas às do próprio Yrigoyen. Nós, que o seguíamos, éramos um grupo de homens com pouca preparação política, apenas uma carga de boa vontade e uma ingênua honradez. Assim chegamos gritando: "Em 56, seremos heróis ou mártires". Um pouco antes havíamos gritado, ou melhor, Fidel havia gritado: "Vergonha contra dinheiro". Sintetizávamos em frases simples nossas atitudes também simples. A guerra nos revolucionou. Não há experiência mais profunda para um revolucionário que o ato da guerra; não o fato isolado de matar, nem o de portar o fuzil ou estabelecer este ou aquele tipo de luta. É a totalidade do fato guerreiro, o saber que um homem armado vale como uma unidade combatente, vale tanto quanto qualquer homem armado e já pode não mais temer outros homens armados. Ir explicando, nós, os dirigentes, aos camponeses indefesos, como podiam apanhar um fuzil e demonstrar àqueles soldados que um camponês armado valia tanto quanto o melhor dentre eles. Ir também aprendendo como a força de um só não vale nada se não está rodeada da força de todos. Ir aprendendo, assim mesmo, como as diretrizes revolucionárias têm de responder a palpitantes anseios do povo. Ir aprendendo a conhecer o povo, seus anseios mais profundos, e convertê-los em bandeira de agitação política. Nós todos fizemos isso e compreendemos que a ânsia do camponês pela terra era o mais forte estímulo de luta que se podia encontrar em Cuba. Fidel entendeu muitas coisas mais; desenvolveu-se como o extraordinário condutor de homens que é hoje e como o gigantesco poder aglutinante de nosso povo. Pois Fidel, sobre todas as coisas, é o aglutinante por excelência, o condutor indiscutido que suprime todas as divergências e destrói com sua desaprovação. Utilizado muitas vezes, desafiado outras, por dinheiro ou ambição, é sempre temido pelos seus adversários. Assim nasceu esta Revolução, assim foram sendo criadas suas diretrizes e assim foi-se teorizando sobre fatos, pouco a pouco, para criar uma ideologia que vinha atrás dos acontecimentos. Quando lançamos nossa Lei de Reforma Agrária em Sierra Maestra, há tempos haviam sido feitas repartições de terras no mesmo lugar. Após compreender na prática uma série de fatores, expusemos nossa primeira tímida lei, que não se aventurava no mais fundamental, a supressão dos latifundiários. Não fomos demasiado maus para a imprensa continental por duas causas. Primeiro, porque Fidel Castro é um político extraordinário que nunca mostrou suas intenções além de certos limites e soube conquistar para si a admiração de certos repórteres de grandes empresas que simpatizavam com ele e utilizavam o caminho fácil na crônica de tipo sensacionalista. Segundo, simplesmente porque os norte-americanos, que são os grandes construtores de testes e padrões para medir tudo, eliminaram sua pontuação e o catalogaram. Segundo seus documentos oficiais, onde dizia nacionalizaremos os serviços públicos, devia-se ler: evitaremos que isto aconteça se recebermos um razoável apoio. Onde dizia liquidaremos o latifúndio, devia-se ler utilizaremos o latifúndio como boa base para tirar dinheiro para nossa campanha política ou para nosso bolso, e assim sucessivamente. Jamais passou-lhes pela cabeça que o que Fidel Castro e nosso movimento disseram tão ingênua e drasticamente fosse a verdade do que pensávamos fazer. Constituímos assim o grande engodo deste meio século: dissemos a verdade parecendo tergiversá-la. Eisenhower diz que traímos nossos próprios princípios. É parte de sua verdade: traímos a imagem que eles fizeram de nós, como no conto do pastorzinho mentiroso, mas ao revés, e mesmo assim ele não acreditou em nós. Assim estamos agora, falando uma linguagem que também é nova, porque seguimos caminhando muito mais rápido do que podemos pensar e estruturar nosso pensamento, estamos em um movimento contínuo e a teoria vai caminhando muito lentamente, tão lentamente que, após escrever este manual que lhe envio, nos pouquíssimos momentos de que disponho, achei que praticamente não serve para Cuba. Para nosso país, no entanto, pode servir: basta usá-lo com inteligência, sem precipitações nem artifícios. Enquanto vão-se agudizando as situações externas e a tensão internacional aumenta, nossa Revolução, por necessidade de subsistência, deve se aguçar e, cada vez que a Revolução se aguça, aumenta a tensão e esta deve aguçar-se uma vez mais, em um círculo vicioso que parece ir se estreitando cada vez mais até romper-se; veremos então como sairemos do atoleiro. O que posso lhe assegurar é que este povo é forte, pois lutou e venceu e sabe o valor da vitória. Conhece o sabor das balas e bombas e também o sabor da opressão. Saberá lutar com uma inteireza exemplar. Ao mesmo tempo, asseguro-lhe que, naquele momento, embora eu agora faça uma tímida tentativa em tal sentido, teremos teorizado muito pouco e deveremos resolver os acontecimentos com a agilidade que a vida guerrilheira nos deu. Sei que nesse dia sua arma de intelectual honrado disparará contra o inimigo, nosso inimigo. e que poderemos tê-lo presente e lutando conosco. Esta carta foi um pouco longa e não está isenta dessa parte de pose que gente simples como nós se impõe, ao tratar de demonstrar ante um pensador que somos também isso que não somos: pensadores. De qualquer forma, estou a sua disposição. Ernesto Che Guevara
CARTA DE SÁBATO AO CHE 1º de fevereiro de 1960 Comandante Ernesto Guevara La Habana - Cuba Admirado Guevara: Em sua viagem a Buenos Aires, o jornalista R. Walsh nos explicou minuciosamente e com entusiasmo a façanha que vocês levaram a cabo. Durante mais de cinco horas, em minha casa de Santos Lugares, onde eu havia reunido um grupo de amigos, dissipou uma quantidade de mal-entendidos que confundem a opinião pública deste país. É precisamente este fato o que me induz a escrever-lhe esta carta para que você, como um dos chefes da revolução cubana e em sua condição de argentino possa ajudar a uma melhor compreensão do problema que mutuamente nos atinge e para que o movimento cubano alcance em nossa pátria a repercussão popular que deveria ter. Esquematicamente, o problema tem os seguintes aspectos que requerem uma análise (Para um exame mais circunstanciado, me permito remeter-lhe El otro Rostro del Peronismo, que publiquei em 1957): 1. A revolução cubana foi saudada como alvoroço pela totalidade da oligarquia argentina, que nela via a continuação ou o equivalente da revolução de 1955 contra o peronismo. O uso abstrato e equívoco de palavras como "liberdade" e "tirania" deu este resultado paradoxal. A mesma causa que levou tantos intelectuais argentinos a situar-se contra o autêntico povo argentino. 2. Como conseqüência inevitável do fato anterior, a imensa maioria do povo trabalhador tomou posição contra vocês. Pode-se ler nos bairros operários da grande Buenos Aires enormes cartazes que dizem: "Viva Perón, morra Fidel Castro". 3. Com o desenvolvimento dos acontecimentos cubanos, sobretudo com a aplicação de medidas sociais e "comunistas", as senhoras de nossa oligarquia e os pró-homens de nossa democracia temem cada vez mais ter-se equivocado e já se pode ouvir muitos deles dizer que Castro continua sendo, por antonomásia, um libertador do mesmo gênero que o almirante Rojas. Vinculado a este fenômeno de definição, é fundamental o que ocorre com um personagem como Jules Dubois, que já cantou em Cuba ou para Cuba a mesma hipócrita cantilena sobre a "liberdade de imprensa". Como foi possível chegar-se a uma situação tão equívoca e inclusive paradoxal? A análise nos levaria muito longe e não vale a pena ser feita aqui, sobretudo porque, embora sumariamente, já a fiz no folheto que lhe envio por este mesmo correio. Embora mantenha nesse ensaio algumas posições que superei ou retifiquei posteriormente, permanecem válidas em essência as reflexões que faço sobre o sentido de palavras-chave como liberdade, esquerda, democracia e revolução. A história é desgraçadamente impura e amiúde nos valemos de vocábulos que foram superados e até mesmo invertidos pelo processo histórico. Mas a força das palavras é tão grande (quase diria tão mágica) que prevalecem muitas vezes sobre os próprios e evidentes fatos. Quando, na época de nossa famosa Unión Democratica, tantos intelectuais de "esquerda" marchávamos ao lado de conservadores como Santamaria e senhoras da sociedade, deveríamos ter suspeitado de que algo estava funcionando mal. Quando, nos momentos em que produzia a revolução de 1955, vi modestas empregadinhas chorando em silêncio, pensei (por fim) que as árvores nos haviam impedido de ver o bosque e que os afamados textos em que havíamos lido sobre revoluções quimicamente puras nos haviam impedido de ver com nossos próprios olhos uma revolução suja (como sempre são os movimentos históricos reais) que se desenvolvia tumultuosamente e ante nós mesmos. Não creia, pois, Guevara, que estou lhe pedindo um exame ou reexame de nosso problema argentino: peço-lhe algo que muitos de nós estamos fazendo aqui com toda humildade. Você, como eu, foi um dos estudantes ou intelectuais de esquerda que rejeitaram a personalidade equívoca e demagógica de Perón. Com a diferença de que você logo se manteve longe de nossa realidade e nós, em troca, vivemos todo o processo, inclusive o revelador processo da "revolução libertadora" (neste país tudo começa com maiúsculas, passa logo a minúsculas e finalmente termina entre aspas). Quando os coronéis de extração nazista se encarregaram do governo em 1945, muitos de nós, antifascistas, repudiamos aquele golpe e, no que a mim diz respeito, devo dizer que fui expulso de minha cátedra e condenado à prisão por desacato. Este fato inicial talvez explique meu distanciamento sistemático de um processo que foi se tornando cada vez mais popular, até converter-se no processo social mais profundo que nossa pátria jamais experimentou. Posso dizer em meu favor, no entanto, que nunca fui um antiperonista do mesmo gênero que poderia sê-lo. digamos, Victoria Ocampo. Recordo ter discutido com ela (a quem respeito como pessoa e como escritora), em pleno regime peronista, em presença do arqueólogo inglês Lawrence, sobre a essência do peronismo, mantendo naquela áspera discussão as linhas fundamentais que agora lhe explico. Deve-se a isso o fato de não ter tomado contra o peronismo a posição de nossa oligarquia e da imensa maioria de nossos escritores e intelectuais. Sempre defendi ser mister distinguir entre a personalidade do líder e o movimento que objetivamente ocorreu à sua volta. Os fatos posteriores (relaxamento do regime, corrupção, perseguições iníquas, torturas) que culminaram finalmente com a ignóbil fuga de Perón, que não foi capaz de assumir ante seu povo o posto de chefe autêntico e valoroso, confirmaram uma idéia que era essencialmente correta. Seja como for, o certo é que muitos como eu estivemos contra o peronismo, isto é, contra o povo trabalhador, apesar de pertencermos, por nosso "esquerdismo", a uma posição teoricamente populista. Agora, esclarecido pelo tempo todo aquele complexo fenômeno, muitos escritores começamos um processo de reajuste que, esquematicamente, consiste no seguinte: o movimento peronista teve aspectos negativos e mesmo nefastos do ponto de vista da dignidade humana (servilismo, corrupção, perseguição, torturas). A personalidade do general Perón continua sendo para nós tortuosa e corruptora. Mas o povo chamado peronista é o povo trabalhador e como ele devemos levar até suas últimas conseqüências o processo que nos dará a definitiva liberação econômica e política, assim como há de lançar as bases para a unidade do continente latino-americano, tal como Bolívar e San Martín o imaginaram e tal como as grandes potências o impediram até hoje. Em tal perspectiva, é fácil notar a enorme transcendência que teria um reexame do movimento cubano em relação ao movimento popular na Argentina. Quem seria capaz de parar um processo combinado de tal envergadura? Você, Guevara, por sua decisão, por sua valentia, pela clareza de idéias que todos elogiam, pode ser um dos fatores decisivos deste reencontro. Receba, junto à expressão de minha admiração mais profunda, minha fraternal saudação. Ernesto Sábato Santos Lugares, Argentina
JERICO RIDES AGAIN Comentei o outro dia a absurda proposta de Nelson Jobim para resolver o problema de segurança aérea no país. O ministro, só porque é gordo e tem traseiro proporcional à grandeza do cargo que ocupa, teve uma idéia de jerico: aumentar o espaço entre os assentos. Pois bem, o jerico ataca de novo. Leio nos jornais que o Tribunal Regional Federal da 3ª Região determinou novas restrições para as operações no aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo, que incluem a limitação de 130 passageiros nas aeronaves em pousos e decolagens. Ora, as principais companhias aéreas do país utilizam modelos com capacidade superior a essa. O Airbus-A320 da TAM, por exemplo, tem 174 assentos. Cada avião decolará agora com 44 assentos vazios. Talvez seja difícil de calcular, mas não é difícil imaginar o gasto extra de combustível que um avião consome para levantar vôo com esse lastro inútil, 44 assentos mais o espaço necessário para sua instalação. Você já imaginou chegar num aeroporto e não conseguir embarcar em um avião que vai voar com 44 assentos vazios? Se os aviões foram concebidos para decolar com 174 assentos, é porque podem decolar com 174 passageiros, ora bolas. A restrição do TRF não tem sentido. A menos que a EMBRAER esteja cogitando de colocar no mercado uma aeronave com exatamente 130 assentos e queira forçar sua venda. Mas esse não é o caso. É idéia de jerico mesmo.
Sexta-feira, Setembro 28, 2007
AINDA O MARXISMO NA EDUCAÇÃO Caro Janer, Não é de agora que a educação brasileira - não só na área das chamadas ciências sociais - é pautada pelo marxismo. Isso é coisa antiga. O que tivemos, mais recentemente (últimos trinta anos), foi um predomínio do marxismo e a exclusão das demais "teorias". Mas isso não representou uma ruptura metodológica, pois a construção imaginária central, a idéia que o Brasil tem de si mesmo, já vinha de muito tempo e foi mantida - "agora sob nova direção". O marxismo apenas "modernizou" um discurso velho. Não é um acidente o fascínio que a intelligentsia brasileira sente pelo marxismo. Muito antes de se tornar marxista, o Brasil sempre foi anticapitalista, na medida em que o capitalismo só prospera, de fato, onde encontra uma certa ética do trabalho e onde a liberdade individual é um valor respeitado. O Brasil ama o Estado e abomina a livre-concorrência. Controlar, vigiar, traçar limites (sempre tendo o outro como objeto) são paixões que nos acompanham desde a Descoberta. A riqueza "exagerada" constitui para nós uma afronta - e só pode ser fruto do roubo, da pirataria. Os pobres são pobres porque foram pilhados pelos ricos. Muito antes que o marxismo desembarcasse em terras brasileiras, o catolicismo e, mais tarde, o positivismo já haviam lavrado profundamente nossa alma e nos haviam convencido das vantagens do anti-individualismo e do planejamento de toda a vida social. Estávamos preparados para desconfiar dos que pretendem se diferenciar do rebanho e para desejar que nossa vida fosse objeto da mais completa regulamentação, de modo a impedir que o acaso, a imprevidência, a sorte, etc., pudessem de algum modo interferir no planejamento estatal, pois só o Estado Racional e Benfeitor poderia assegurar a felicidade para todos. O marxismo completou essa obra imemorial emprestando-lhe "profundidade filosófica" e fornecendo-lhe um discurso "moderno" que satisfazia nosso fascínio pela última moda. Na verdade, porém, "praticar" o marxismo e filosofar em alemão foi apenas a maneira "bacana" que encontramos de preservar tradições ancestrais. Para se instalar entre nós, o marxismo teve que se curvar às exigências da "alma brasileira". Abriu mão de qualquer rigor teórico, perdeu o gume "radical" e deixou-se absorver numa pasta informe de estatismo, anti-individualismo, populismo, teologia da libertação, terceiromundismo, etc. Assim como o getulismo não era fascismo, também o petismo não é marxismo. É só um destilado daquelas influências. A rigor, é isso - petismo, lulismo, terceiromundismo - que se ensina hoje nas escolas. Um pasta ideológica de quinta categoria. Mas com séculos de tradição... Abraço. Odilon Toledo
O AVIÃO DO APEDEUTA Sempre que falo no Aerolula - avião que o Supremo Apedeuta comprou por vaidade pessoal, como se fosse um sultão do Brunei Darussalam - não falta petista que me conteste, dizendo que estou usando de malícia, afinal o avião é nação brasileira. Parece que não é bem assim. Ouço notícia no Bandnews, sobre a inauguração feita por Lula de uma nova pista no aeroporto internacional de Cabo Brio. A manchete é: Avião presidencial só pousa em aeroporto seguro Não foi bem isso o que o Apedeuta disse. Vai ver que o redator quis ser gentil. O que ele disse, com todas as letras, foi: “O pessoal que cuida do meu avião só pousa em aeroporto seguro. É por isso que estou pousando aqui.” Ou seja, os petistas podem achar que o avião pertence à nação. A ótica de Lula é outra. O avião pertence a ele. “O meu avião”, disse. Disto já sabíamos. O problema é outro: o avião presidencial só pousa em aeroporto seguro. Quanto aos demais, tanto faz como tanto fez se pousarem em aeroportos inseguros. Passageiros da TAM, penhorados, agradecem.
CALIL DÁ DUAS DICAS Caríssimo Janer, Escrevo para congratular-te pelo teu último post no blog, a respeito do restaurante Salommão. Não conhecia, mas já o incluí na lista de restaurantes em São Paulo a visitar. E antecipaste um pedido meu que estava na minha cabeça há dias: falar sobre lugares agradáveis em São Paulo. Claro que nossos cafés e restaurantes não possuem o mesmo charme milenar de suas contrapartes européias, mas também temos coisa boa por aqui. A rua Avanhandava, que abriga os famosos Gigetto e Famiglia Mancini, passou por reforma relativamente recente e transformou-se num exuberante boulevard. Vale a visita - se é que já não estiveste por lá. Deixo também duas dicas que podem te agradar: Espaço Santa Terra (http://www.minharua.com/esantaterra.html) Fica em Perdizes e quem passa na rua não o vê, pois ele fica ao fundo de uma entrada estreita, um corredor de lojas. Antes de chegar ao restaurante, passa-se inclusive por uma loja de vinhos - ótima idéia. Lá dentro é fantástico e sua descrição do Salommão remeteu-me ao Santa Terra, pois no fundo há um belo jardim onde as mesas ficam dispostas. Almoça-se ao vento, sob as árvores e sequer nota-se o barulho da rua. Publiquei a sugestão em meu blog e moradores de Perdizes me enviaram e-mail agradecendo a dica, pois nem eles conheciam o lugar. Villa da Mooca (http://www.villadamooca.com.br/) Fica no meu bairro - que por sinal adoro -, a Mooca. É uma antiga vila de casas que foi transformada em restaurante (no site pode-se ver as fotos). Cada "casa" foi transformada em uma cozinha diferente, então pode-se provar de tudo, mas o forte mesmo são pizzas à noite. Ao fundo, no bar, há uma constante exposição de carros antigos. O dono, que também viaja bastante, é colecionador de carros. Emílio Calil Dois ou três comentários sobre as dicas do Calil: A Avanhandava ficou realmente aprazível após a reforma do Mancini. É um oásis em um centro bastante deteriorado. O Famiglia Mancini é muito agradável, mas tem dois problemas, as filas e a fartura dos pratos. Sábados e domingos, conforme a hora em que você chega, espera-se uma ou duas horas na fila. Parece que os paulistanos adoram isso. Eu não. Em todo caso, há solução: chegue lá pelas quatro da tarde. Aí já não há filas e você já nem precisa jantar. Segundo problema, a fartura dos pratos. Um prato serve fartamente três pessoas, e mesmo quatro, se os comensais não são de muito comer. Se for ao Mancini, leve reforços. É o restaurante onde costumo levar amigos que chegam de outras cidades. Quanto ao Gigetto, nas duas últimas vezes que estive lá, saí frustrado. A cozinha está decadente, as carnes estão assadas demais. O cotechino - ou codeguim, como se diz por aqui -, que era um dos bons momentos do restaurante, saiu do cardápio. Há um certo ar de aviso prévio no restaurante. É uma pena, era um dos bons endereços gastronômicos de São Paulo. Quanto ao Santa Terra e ao Villa da Moca, qualquer dia vou conferir. Mas já vejo dois senões. Primeiro, o buffet do Santa Terra. Não sou muito chegado a buffets. Considero que o melhor da refeição é o vinho e o ambiente de buffets não é muito propício ao lento degustar deste filho do sol e da terra. Os buffets são hoje vistos como um achado contemporâneo. Em verdade, são um retrocesso aos primórdios da restauração, no século XVIII, quando as estalagens ofereciam uma table d'hôte, isto é, uma mesa com as comidas dispostas em cima, onde os hóspedes se serviam à vontade. O restaurante, como hoje o concebemos, surgiu como uma sofisticação da table d'hôte. Escreve Rebecca L. Spang, em The Invention of the restaurant (já traduzido no Brasil): No restaurante, o cliente, homem ou mulher, desfrutava de um novo tipo de atendimento personalizado, que raramente (ou nunca) teria encontrado antes, de forma que, mesmo quando os restaurantes começaram a servir refeições completas, eles não se assemelhavam em praticamente nada a uma estalagem, taberna ou casa de pasto. Pelo contrário, o restaurante deu novo significado às emoções, expressões e ações individuais e elaborou toda uma nova lógica de sociabilidade e convivência". Sem falar que gosto muito de ser servido. Mas acho que vale uma visita pelas árvores. Se a carta de vinhos for estimulante, dá pra enfrentar. É curioso: durante uns quatro anos, nadei em uma academia nas proximidades da Turiassu, e nunca notei o Santa Terra. Em segundo lugar, os eventos do Villa da Moca. Não suporto eventos. O infâme que um dia bolou a idéia de eventos deveria ter seu nome divulgado para eterna execração dos homens de bom gosto. Os eventos perturbam a tranqüilidade que deveria caracterizar as boas casas de Kakfa. De qualquer forma, a conferir, Calil. Grato.
Quinta-feira, Setembro 27, 2007
CHEZ SALOMMÃO Terei um dia feliz, escrevi em minha última postagem. E o tive. Quem me acompanha sabe de meu apreço por cafés e restaurantes. Neles vivi boa parte de minha vida. Nos últimos quinze ou vinte anos, tenho viajado fundamentalmente para revisitar meus cafés e restaurantes na Europa. São um dos grandes achados da humanidade. Se você quer reunir amigos e sua casa é pequena ou por demais modesta, você os convida para essas salas de visita sempre abertas e que, conforme o local escolhido, podem ser belíssimas. Você está viajando por países longínquos, não conhece ninguém e quer comer e beber, ver gente e confraternizar? É simples, basta escolher um café. Lá está uma equipe de profissionais, cozinheiros e garçons, esperando-o desde sempre, para recebê-lo como se fosse alguém da família. Desde que o país tenha cafés, é claro, pois os há que não têm. Estes, meus pés jamais pisarão. Kafka, em algum lugar de sua obra, falava de uma casa onde as pessoas podem entrar sem ser convidadas, ficar quanto tempo quiserem e sair quando bem entenderem. Respeitado os horários de fechamento, estas casas não são coisas do universo kafkeano. Estão aí, ao alcance de nossos passos. Tudo isto para dizer que tive hoje um almoço magnífico em uma dessas casas de Kafka que surgiu em meu bairro, em março passado. É o Salommão, na Angélica, próximo à Paulista. A instalação é um achado. É um casarão de fins do século XIX, projetado e construído por um marceneiro artesão que chegou a São Paulo em 1890. Na entrada tem um comprido e aprazível misto de jardim e pomar, onde você pode comer ou beber sob as árvores, junto ao ruído cristalino de uma fonte e com passarinhos cantando sobre sua cabeça. As salas, de um pé direito mais que confortável, transpiram antiguidade. Quando entrei lá pela primeira vez, pensei com meus botões: quem concebeu este ambiente é gente que viaja. Só quem viaja é capaz de criar algo assim. Em outra ocasião, a noite estava fria e sobre cada cadeira havia um cobertor. Aí concluí definitivamente que os proprietários tinham dado várias voltas ao mundo. Brasileiro sedentário não concebe isso. Cobertores nas cadeiras, eu os vi pela primeira vez em Estocolmo. Com um detalhe: era verão. Almocei lá hoje, dizia. Música de fundo, a belíssima Khaterine Jenkins. Como sempre chego um pouco fora de horas nos bares, acabei ficando sozinho com aquele jardim todo meu, a passarada cantando e la Jenkins embalando minhas leituras. Conversei rapidamente com os proprietários, a Vera, a Telma e o Daniel. De fato, eram pessoas que viajavam. Os cobertores, Telma os vira em Helsinki. Vera os vira no Texas. Para quem quiser ter uma idéia de onde almocei hoje: http://www.guiadasemana.com.br/detail.asp?/Salommao_Bar/NOITE/SAO_PAULO/&a= 1&ID=8&cd_place=25295&cd_city=1 E para quem quiser ouvir uma mostragem da diva que embalou meu almoço: http://www.youtube.com/watch?v=5AaA2QR8tD8 http://www.youtube.com/watch?v=KHh8isGtB6w&NR=1
A MADALENA DE HARVARD E A SECRETARIA DOS CEM DIAS Alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo. A medida provisória que determinava a nomeação de Roberto Mangabeira Unger, para a Secretaria de Planejamento de Longo Prazo, foi rejeitada pelo plenário do Senado por 46 votos a 22. Outros 626 cargos em órgãos públicos que também constavam do texto da MP também foram extintos. Mangabeira, o catedrático de Harvard que desancou Lula e mal recebeu convite para uma prebenda veio, qual cachorrinho abanando o rabo, lamber os pés do Apedeuta, tomou posse no cargo em 19 de junho. Ficou exatamente cem dias no cargo. No Planalto, há quem fale da Secretaria de Planejamento de Curto Prazo. Nem tudo é notícia ruim na imprensa. Deus não joga, mas fiscaliza. Só de imaginar a cara de pânico do catedrático venal e vira-casaca e dos seiscentos aspones que perdem suas mordomias, terei um dia feliz.
Quarta-feira, Setembro 26, 2007
MARXISMO NA EDUCAÇÃO De um leitor que prefere manter-se anônimo, recebi: Já havia percebido há algum tempo as técnicas marxistas que os professores de história* tanto usam, mas, apesar das bobagens que escuto diariamente na sala de aula, entre as muitas das quais já reclamei estar cansado, a famigerada "a culpa é do capitalismo', sei que, ao menos nas escolas particulares, os alunos são altamente capitalistas - mesmo afirmando desejarem uma sociedade socialista. E é fácil apontar o porquê: são poucos os que prestam atenção nas aulas. Ao menos isso é o que eu sou levado a pensar tendo em vista que, mesmo tendo um professor de estória obviamente bolchevique, nenhum de meus colegas - nem os mais inteligentes - haviam atentado para a doutrinação ideológica das aulas. E não é coisa difícil perceber os sinais de ideologização: O professor aponta o liberalismo como uma "ideologia" por meio da qual os ricos só querem explorar os pobres, e se esquece de falar que nenhuma outra ideologia foi capaz de assegurar bem-estar e liberdade a tantas pessoas no mundo. Críticas gratuitas aos EUA, reclamações sobre a maneira que estamos perdendo nossas características culturais (graças à tal da globalização, aquele demônio), aulas de "economia" etc. Discursos sobre a maldade da zelite, sobre como a zelite domina a política de nosso país, sobre como o Cansei é um movimento golpista que só quer beneficiar o interesse da zelite, zelite, zelite ad infinitum. Em uma das primeiras aulas do segundo ano o estoriador-revolucionário-dialético tratou de indicar dois livros. Quais? Não lembro muito bem os títulos, no entanto é óbvio que um era do conhecido grupo sertanejo Marx & Engels, e o outro era sobre globalização. No entanto, a gota d'água foi na última aula (que ocorreu hoje). O ideólogo do proletariado, ao início de todas as aulas, tratava de fazer um breve comentário sobre os noticiários da semana - aplicando o materialismo dialético, é claro - mas hoje ele se omitiu. Talvez seja porque em suas mãos estava uma Época - porque Veja é elitista e capitalista - na qual saiu uma matéria falando justamente acerca da influência marxista de nossos colégios. Será que ele se esqueceu, ou teve medo de instigar o debate? A única coisa que me deixa realmente triste a respeito da situação não é o fato de crer que doutrinação esteja surtindo muito efeito entre a maioria, mas entre os alunos mais atenciosos, mais inteligentes e analíticos, que certamente mereciam coisa melhor que uma utopia furada que só serviu para gerar mortes e entravar o progresso no mundo. *E para ser justo, não só os professores de história; português, redação e, veja só!, biologia também estão claramente contaminados pela ladainha esquerdista. Cada qual atacando com o que tem: subjetividade, debates ou ecochatice.
BAITA MACHO O novo diretor da Polícia Federal Luiz Fernando Corrêa, que tomou posse no dia 03 deste mês, declarou em entrevista à Veja: - No governo do presidente Fernando Henrique Cardoso eu era o número 2 da superintendência do Distrito Federal. Na operação de desocupação da fazenda dele, quem deu a ordem de prisão dos sem-terra fui eu. Eu estava a serviço do FH? Não. Havia uma propriedade invadida e eu era o delegado da circunscrição. Nestes dias em que só com ordem judicial se consegue expulsar os invasores de uma propriedade, causa espanto que a ordem de prisão dos invasores tenha sido dada por um delegado. Em um primeiro momento, há uma imprecisão nas declarações de Corrêa. A fazenda era dos filhos de Fernando Henrique, e não do próprio. Se pertencia à superintendência do Distrito Federal e a fazenda, em Minas, estava em sua circunscrição, esta deveria ser muito abrangente. Terá o delegado mandado prender todos os sem-terra das demais invasões de sua circunscrição? Não tenho notícias. Agora, Corrêa é diretor da Polícia Federal. Quantas invasões de sem-terra ocorreram depois do dia 03 de setembro para cá? Não tenho idéia. Mas dia 20 passado, os sem-terra estavam invadindo a sede do Incra em Belém. O diretor da Polícia Federal mandou prender alguém? Não tenho notícias. Mandará prender invasores durante sua gestão na Polícia Federal? Duvido. O repórter perdeu uma bela oportunidade de fazer esta pergunta.
NUNCA É TARDE PARA SER CHAPA-BRANCA Antes mesmo de a nova TV Pública ser criada, seu presidente já foi anunciado. Será a colunista de política do jornal O Globo, Teresa Cruvinel. A indicação, que estava sendo negociada entre Teresa e o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Franklin Martins, foi confirmada na noite de hoje pela própria jornalista. É no mínimo curiosa esta boa relação entre jornalistas do Globo e seqüestradores de embaixadores. Jornalista, não desista. Nunca é tarde para ser chapa-branca.
Terça-feira, Setembro 25, 2007
SOBRE GUERNICA Que Guernica é uma farsa, basta olhar o quadro para deduzir. Quando estudava em Madri, tive pelo menos duas horas de aula no Casón del Prado - onde estava então a tela - ministradas por uma professora que tentava em vão me convencer que o quadro se referia ao bombardeio. Ora, o quadro tem cavalo, tem touro, tem um homem de braços ao alto, cenas que podem evocar uma lídia, jamais um bombardeio. Tem também uma mulher segurando um quinqué, coisa que nada tem a ver com ataques aéreos. Isso me basta para denunciar o título como fraude. Comentei rapidamente a farsa em crônica passada. Sempre que a comento o assunto, leitores me pedem mais dados sobre o assunto. Vamos lá! Já não lembro quando li as primeiras denúncias sobre o golpe magistral de Picasso. Talvez tenha sido em um artigo do jornalista italiano Vittorio Messori, em artigo publicado em 1995, que adianta vigarices outras. Segundo Messori, Hugh Thomas, em seu La Guerra Civil Española, fala em 1654 mortos em Guernica. Na segunda edição do livro, teria reduzido a 200 este número. Tenho comigo a primeira edição, mas não a segunda. Não posso conferir. No entanto, confio na informação de Messori. Jornalista algum arriscaria seu nome fazendo uma afirmação cuja falsidade seria facilmente comprovável. O historiador inglês David Irving, em sua obra Hermann Goering, a Biography (MacMillan, NY, 1989, p. 178), afirmou seis anos antes que Guernica já estava pintado muito tempo antes da explosão da cidade de mesmo nome, idealizado como tema de uma corrida de touros. Foi rebatizado após 26 de abril de 1937, para adaptar-se às exigências político-ideológicas de seus amigos marxistas da imprensa internacional. A partir daí, o quadro iniciou sua carreira para chegar até nossos dias como "a maior obra de arte do Século XX". Tem mais. (Estas informações me foram enviadas por um leitor). Segundo o historiador judeu-americano Raymond Proctor, em sua obra Hitler's Luftwaffe in the Spanish Civil War (Greenwood Publishers, NY, 1991), "afirma-se sempre que os aviões nacionalistas (Legião Condor, da força aérea alemã, juntamente com formações de caças Fiat CR-37 enviados por Mussolini) teriam bombardeado a cidade, mas o que realmente aconteceu é que esta foi vítima das explosões e do fogo provocados pelos vermelhos ('Reds', em inglês - comunistas das Brigadas Internacionais, os chamados Republicanos) sendo reduzida como que a uma montanha de escombros". As investigações do Proctor, a partir das próprias fontes republicanas e de entrevistas com sobreviventes da destruição, revelam que Guenica estava sendo utilizada pelos comunistas como depósito de armamento e munições. Com a rápida aproximação das forças terrestres nacionalistas do General Franco, os comunistas, sem condições de manter suas posições na cidade, incendiaram-na e fizeram ir pelos ares os depósitos de munições, sem a mínima consideração com a população civil daquela cidade basca. Centenas de civis, homens, mulheres e crianças, fugiram espavoridos em todas as direções e muitos foram violentamente atingidos pelas detonações. Através dos serviços telegráficos, o comissário marxista de Guernica enviou para a United Press International fotografias de numerosos cadáveres como prova documental de "horrendas atrocidades fascistas" exercidas contra inocentes populações indefesas. Reproduzo abaixo o artigo de Vittorio Messori.
GUERNICA di Vittorio Messori Da buon spagnolo, Pablo Ruiz Biasco y Picasso amava le corride. Fu, dunque, sconvolto dalla tragica morte di un suo beniamino, il famoso torero Joselito. Per celebrarne la memoria, mise in cantiere un'enorme tela dì 8 metri per 3 e mezzo, che gremì di figure tragicamente atteggiate, a colori luttuosi. Finita che l'ebbe, la chiamò La muerte del torero Joselito. Correva però il 1937, in Spagna infuriava la guerra civile e il governo anarco-socialcomunista si rivolse a Picasso per avere da lui un quadro per il padiglione repubblicano all'Esposizione Universale in programma a Parigi per l'anno dopo. Il Picasso (che diventerà, non a caso, uno degli artisti più ricchi della storia) ebbe una pensata geniale: fece qualche modifica alla tela per il torero, la ribattezzò Guernica (dal nome della città basca bombardata dall'aviazione tedesca e italiana) e la vendette al governo "popolare" per la non modica cifra di 300.000 pesetas dell'epoca. Qualcosa come qualche miliardo - pare due o tre - di lire di oggi, che furono versati da Stalin attraverso il Comintern. Contento Picasso, ovviamente; contenti anche i socialcomunisti, che di quel quadro di tori e toreri fecero un simbolo che è giunto sino a noi ed è continuamente riprodotto, con emozione, come simbolo della protesta dell'umanità civile contro la barbarie nazi-fascista. Stando a molti critici d'arte, Guernica è il più celebre quadro del secolo. E, ciò, grazie proprio alla "sponsorizzazione" da parte delle sinistre, a cominciare dai liberals occidentali: la tela picassiana ebbe una sala tutta per sé al Metropolitan Museum di New York e vide milioni di "pellegrini" sfilare in religioso silenzio. Si arriva al grottesco di interpretazioni come quella - un esempio a caso tra mille -della pur pregevole enciclopedia Rizzoli-Larousse che alla tela dedica oltre venti, fitte righe, nelle quali si dice, tra l'altro: "Motivo centrale, l'angoscia della testa del cavallo che sovrasta il duro lastricato dei cadaveri: in alto, a sinistra, l'antico simbolo della violenza, il Minotauro". Ora, il presunto Minotauro altre non è che il toro che uccise Joselito; e il cavallo è quello del picadòr, sventrato nell'arena dallo stesso animale. Una storia, dunque, di tauromachia. dove la "protesta civile", la "passione politica" non c'entrano nulla, se non, forse, in qualche particolare aggiunto per rifilare il quadro, a suon di miliardi, alle generose izquierdas iberiche. Perché occuparsi di Guernica? Ma perché, in epoca di riletture della storia dopo il crollo delle menzogne ideologiche, è ora di andare a vedere che ci sia davvero dietro tante storie edificanti sulle quali comunisti e simpatizzanti avevano costruito un mito sul quale era terroristicamente proibito indagare. Se il quadro di Picasso è una sorta di truffa, non si può certo dire che la verità trionfi nella realtà che gli ha dato il nome. Da un controllo, anche su libri di storia "cattolici", risulta che ciò che è accettato da tutti è quanto segue: "Guernica era una cittadina sacra ai baschi, perché sotto un suo albero i re di Spagna giuravano di rispettare le libertà della regione. Durante la guerra civile, malgrado fosse indifesa e non rappresentante un obiettivo militare, il 26 aprile 1937 fu distrutta da un selvaggio bombardamento dell'aviazione tedesca che voleva sperimentare nuove tecniche e nuovi velivoli. Per sadismo, fu scelto il lunedì, giorno di mercato: ci furono, così, ben 1654 morti e 889 feriti, tutti vecchi, bambini, donne, perché gli uomini erano a combattere contro Franco". Una "verità" codificata una volta per sempre anche nella Storia della guerra civile spagnola (stampata, in Italia, da Einaudi) di Hugh Thomas. È significativo che questo storico, nella edizione "rivista" della sua Storia, abbia poi ridotto a 200 il numero dei morti: 1454 in meno da una ristampa all'altra. E senza dare spiegazioni. La realtà è del tutto diversa, come hanno stabilito anche commissioni internazionali di inchiesta. Come andò davvero lo si sa da decenni, ma la forza della propaganda sembra ancora invincibile. Guernica costituiva un normale obiettivo militare, come ben sapeva anche il governo rosso che vi aveva installato pezzi contraerei e scavato sette rifugi collettivi. In effetti, la città era sede di due importanti fabbriche, d'armi leggere e di bombe d'aviazione. Inoltre era nodo stradale e ferroviario per i repubblicani che combattevano a una dozzina di chilometri dalla città, che rigurgitava di soldati e di mezzi militari. Non si dimentichi che l'importanza strategica di Guernica veniva anche dalle fortificazioni che i baschi vi avevano costruito (la "cintura di ferro", come la chiamavano) per marcare l'indipendenza della loro regione nei confronti delle altre etnie spagnole. Non era affatto, dunque, il "bucolico, sacro villaggio dove mercanti e villici portavano pacificamente le loro povere cose", per dirla con Thomas. Alcuni bombardieri (di vecchio tipo) inviati dalla Germania e 18 aerei, tra pesanti e leggeri, del Corpo di spedizione italiano, nel pomeriggio di quel 26 aprile 1937 fecero alcuni passaggi per distruggere il ponte di Renteria, sul fiume Oca e ostacolare così i movimenti dei repubblicani. La maggioranza dell'esplosivo italo-tedesco cadde sul nodo stradale attorno al ponte e solo alcune bombe sulla città: su 39 crateri individuati dalla ricognizione aerea, solo 7 risultano nell'abitato. I morti accertati - anche da accurati controlli all'anagrafe - furono 93, cui è forse da aggiungere qualcun altro tra soldati isolati. Quasi la metà di quei 93 morì per il crollo di un rifugio appena costruito ma evidentemente inadeguato: Forse, gli appalti truccati esistevano anche tra i baschi "rossi". In ogni caso, non si supera il centinaio, com'è provato da ripetute indagini sull'anagrafe della città, che contava 5.000 abitanti in tutto: bilancio tragico ma, purtroppo, di routine nella più sanguinosa guerra civile della storia che, alla fine, contò quasi un milione di morti. In ogni caso, si è abissalmente lontani dai 1654 caduti (e 889 feriti) che sono entrati nella leggenda sempre ripetuta. E si è ben lontani anche dalle migliaia di cadaveri che furono il tragico prezzo da pagare -in quella lotta spietata - per la conquista di tanti altri obiettivi militari, É vero che documenti fotografici e cinematografici mostrano la città semidiroccata. Ma questo perché (come dimostrò una commissione internazionale; e come fu appurato persino dal tribunale di Norimberga che giudicò i generali nazisti) prima di ritirarsi i socialcomunisti e gli anarchici cosparsero di benzina tutto ciò che poterono e vi diedero fuoco Non un solo cratere di bomba fu trovato tra le rovine bruciate del centro storico. Fu provato, inoltre, che i minatori anarchici delle Asturie. Fuggendo, fecero saltare con la dinamite, di cui disponevano in abbondanza, molti edifici per creare ostacoli alle truppe franchiste. Ma come nacque la leggenda giunta sino a noi, malgrado le risultanze delle inchieste internazionali e il lavoro - inascoltato, per lo più - di qualche storico con il rispetto della sua professione? All'inizio della manipolazione della verità c'è un corrispondente di guerra inglese, George L. Steer, il quale, pur non essendo sul posto quel giorno, spedì da Bilbao (dopo essersi accordato con tre colleghi e connazionali per non smentirsi a vicenda) una cronaca fantasiosa al suo giornale di Londra. Da soldati baschi, Steer (che secondo molti apparteneva allo spionaggio inglese) aveva appreso che il lunedì, a Guernica, si teneva un affollato mercato; e poiché quel 26 aprile era, appunto, un lunedì, lavorò di fantasia immaginando le inermi massaie e i vecchi contadini spappolati dalle bombe tedesche (tra l'altro, visto che il miro esige "cattivi" che lo siano davvero, da allora, parlando di Guernica, si disse solo dei tedeschi, tacendo degli italiani che furono invece presenti in forze sul ponte con tre moderni bombardieri S79 e con 15 caccia CR32). Per tornare al corrispondente inglese e ai colleghi che gli tenevano bordone: non sapevano che il mercato quel lunedì non si era svolto, poiché il Delegato militare del governo basco lo aveva vietato, temendo appunto azioni di guerra. In ogni caso, non avrebbe potuto essere colpito, visto che il mercato terminava sul mezzogiorno e l'azione italo-tedesca si svolse a partire dalle 16.15. Della corrispondenza fantasiosa di Steer e dei colleghi si impadronirono subito due propagande: quella anarco-comunista, naturalmente; ma anche quella britannica, poiché il nuovo governo di Chamberlain doveva convincere l'opinione pubblica della necessità di affrontare grandi spese per il riarmo, vista la barbarie tedesca e la potenza delle sue armi (da qui, l'invenzione che Guernica fosse stata colpita da modernissimi velivoli). Il lucroso falso di Picasso completò la leggenda che tutti, sino a qui, hanno preso per storia vera. © Le cose della vita, San Paolo, Milano 1995, p. 240.
Segunda-feira, Setembro 24, 2007
DOUTOR PELA UNIVERSIDADE DE NAVARRA CALUNIA NIETZSCHE Há determinadas bobagens recorrentes na imprensa e mesmos em livros que, por mais que sejam desmentidas, voltam a ser publicadas. Uma delas é aquela sobre Guernica, o quadro de Picasso. Não há nenhum elemento na pintura que sequer de longe lembre um bombardeio, mas o quadro é tido como uma referência ao bombardeio da cidade basca de Guernica. Outra bobagem, mil vezes repetidas, é situar Miguel de Unamuno como antifranquista no episódio do dia 12 de outubro de 1936, na Universidade de Salamanca. Ora, naquela data - Día de la Raza - Unamuno representava Franco no paraninfo da Universidade. Outra que também se repete muito é responsabilizar Nietzsche pelo surgimento do nazismo. No Estadão de hoje, escreve Carlos Alberto di Franco: "A 2ª Guerra Mundial não foi acionada por gatilhos religiosos. O holocausto do povo judeu, fruto direto da insanidade de Hitler, teve alguns de seus pré-requisitos na filosofia da morte de Deus. Nietzsche, o orgulhoso idealizador do super-homem, está na raiz imediata dos campos de concentração e de extermínio programado". Di Franco se assina como diretor do Master em Jornalismo, professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra. É espantoso que um senhor com tais títulos profira semelhante sandice. O que talvez a explique é que Di Franco tem outras titulações, que pelo jeito prefere omitir. É membro da Opus Dei, organização católica espanhola que além de pregar a castidade absoluta, recomenda a seus acólitos o uso do cilício. Como bom católico fundamentalista, o doutor por Navarra quer ver no ateísmo de Nietzsche a origem do nazismo. É curioso ver o jornalista católico de braços dados com os comunistas, que sempre viram no pensador alemão o inspirador de Hitler. Responsabilizar Nietzsche pelo nazismo é desconhecer sua obra. Aqui vão algumas opiniões de Nietzsche sobre os alemães: "Os alemães são incapazes de conceber a grandeza: seja Schumann o informante". "Feito como sou, instintivamente estranho a tudo o que é alemão (a ponto de me bastar a aproximação de um deles para retardar-me a digestão)..." "Por onde quer que passe, a Alemanha destrói a cultura". "Primeiro, dois séculos de disciplina psicológica e artística, caros senhores alemães... Mas estas coisas não se alcançam facilmente". "Nunca admitirei que um alemão possa saber o que seja a música!" "Em Viena, em Copenhague, em Paris, em Nova York, por toda a parte estou descoberto: não o estou somente no país mais ordinário da Europa - a Alemanha". E por aí vai. Verdade que na edição póstuma de Vontade de Potência pode-se encontrar momentos que possam justificar o nazismo. Mas não se pode responsabilizar um autor por uma obra que foi deturpada por terceiros, no caso a irmã do filósofo, Elisabeth Forster-Nietzsche. Elisabeth - que acabou morrendo no Paraguai em 1935 - quis acomodar o livro inacabado do irmão aos interesses do nazismo. Como dizia Nietzsche, é impossível cercar uma boa doutrina: os porcos criam asas. Há uns 20 anos, dois professores italianos reestabeleceram o texto original de Vontade de Potência. Parece que o douto membro da Opus Dei nunca ouviu falar disto. Mesmo assim, pouco se pode afirmar sobre uma obra inacabada e não revista. Não bastasse caluniar Nietzsche, Di Franco quer inocentar o catolicismo de quaisquer massacres: "E não foi a religião que desencadeou o Arquipélago Gulag do stalinismo. Feitas as contas, com isenção e honestidade intelectual, é preciso reconhecer que o sonho racionalista projetou poucas luzes e muitas sombras". Di Franco omite - pois não acredito que desconheça - o fato de que Stalin foi seminarista e que a Rússia dos gulags era um país fundamentalmente católico. Que mais não fosse, mesmo que se admita que não foi a religião que desencadeou o Arquipélago Gulag, foi a religião - e mais precisamente a Igreja em que Di Franco crê - quem desencadeou os massacres, torturas e fogueiras da Inquisição. Escrevi, em crônica passada, que um jornalista não pode ser católico. Di Franco é a prova definitiva de porque não pode.
STALIN VIVE Já que falei em Katyn... Estou lendo a edição da revista francesa L’Express desta semana, que tem Joseph Vissarionovitch Djugatchivili como chamada de capa. Ocorre que a Rússia de Putin está ressuscitando Stalin, como era mais conhecido o ex-seminarista. Entendo que alguns velhotes caquéticos como Niemeyer e Ariano Suassuna ainda cultuem no Brasil o Paizinho dos Povos. São homens que fizeram suas carreiras montados no stalinismo e não podemos esperar que tais pessoas, ao final da vida, reneguem suas próprias biografias. Entende-se também que uma juventude desinformada - que nada conhece de História e é bombardeada por bibliografias marxistas - possa ter algum apreço pelo grande assassino. Afinal os gulags de Stalin não afetaram brasileiros, nem vivemos sob o tacão de suas botas. Mais difícil é entender que os russos voltem a cultuar o tirano. O Livro Negro do Comunismo, de Stéphane Courtois et allia, credita a Stalin a morte de 20 milhões de pessoas, e a maioria destas vítimas eram russos. Só Mao conseguiu matar mais que Stalin: 65 milhões, segundo os autores. Os dois maiores matadores de comunistas da História foram... os líderes comunistas Mao e Stalin. Nem Hitler conseguiu matar tantos. Vamos aos relatos de L’Express. Por encomenda do Kremlin, isto é, de Vladimir Putin, foi publicada em Moscou uma História Contemporânea da Rússia, 1945-2006, onde se pode ler afirmações das mais significativas. Diz o breviário que a União Soviética era "não uma democracia, mas um exemplo de sociedade justa". Que Stalin foi o dirigente soviético cuja obra foi "a mais bem-sucedida", por ter transformado a URSS em uma potência industrial e tê-la conduzido à vitória de 1945. Quanto à repressão política que fez milhares de vítimas, ela teria sido utilizada com o único objetivo de "mobilizar não só somente a base, mas a elite dirigente". Ano passado, um museu Stalin, financiado por um homem de negócios, abriu suas portas em meio ao complexo oficial que comemora a batalha de Stalingrado. Sem que o Kremlin dissesse qualquer coisa contra. Tampouco disse nada contra a reaparição de bustos e estátuas de Stalin em diversas regiões do país. A rede televisão NTV difundiu este ano uma série em 40 episódios, intitulada Stalin Live, mostrando o tirano em vias de arrepender-se nos últimos meses de sua vida. "Há uma demanda que vem de baixo, endereçada ao poder em favor de uma revisão da História" - diz Alexandr Daniel, filho do antigo dissidente Youli Daniel -. "O poder responde na medida em que isto serve seus próprios propósitos. Não sei onde isto vai parar". Nessa altura dos acontecimentos, já há ensaístas que se sentem à vontade para negar o que não pode mais ser negado. Um certo Youri Moukhine, por exemplo, afirma que o massacre de Katyn foi cometido pelos nazistas, e não pela União Soviética. Apesar de Boris Yeltsin ter confirmado, em 1992, ao presidente polonês Lech Walesa, que a ordem viera de Stalin. L’Express entrevista o escritor e ex-diplomata Vladimir Fédorovski, autor de Le Fantôme de Staline. Fédorovski dá um novo enfoque às denúncias do stalinismo feitas por Kruschev em 1956: - O objetivo do XX Congresso do PCUS, apresentado como o que desestalinou a União Soviética, em 1956, não era uma verdadeira desestalinização. Seus instigadores visavam desculpar Lênin e fazer perdurar o sistema, culpabilizando Stalin e sua sua alma danada, Beria. A astúcia de Kruschev consistiu em organizar um branqueamento do sistema, a instituir um novo culto, uma religião pagã onde os papéis eram distribuídos por antecipação. Lênin se tornava um deus eterno, Stalin o deus decaído, mas tudo permanecia no lugar: o KGB representava a Inquisição, o Partido era a ordem religiosa portadora das espadas, às quais se ajuntavam os ícones, as peregrinações ao mausoléu, etc. Interrogado sobre o porquê da reabilitação de Stalin, diz Fédorovski: - O personagem de Stalin é a chave do funcionamento da Rússia atual. Mais de 30 museus lhe foram consagrados, na Rússia, nos últimos três anos. Vladimir Putin o cita em seus discursos e mesmo os jovens são atraídos por sua imagem. Putin toma emprestado de Stalin o tema da Rússia, "citadela sitiada", o governo pelo medo, a nomenklatura renovada e sobretudo o recurso a um passado inventado. A diferença entre eles é que Stalin evocava um personagem de Shakespeare, enquanto que Putin faz faz pensar no Spectre, dos filmes de James Bond. Regozijem-se as esquerdas brasileiras, os PTs e PSOLs da vida, os Zés Dirceus e Tarsos Genros, os Niemeyers e Suassunas. Nem tudo está perdido. O Mestre ressuscita de entre os mortos. Hosanas a Putin, o anunciador da Boa Nova. Voltem-se os olhos dos crentes à Nova Jerusalém. O Paizinho dos Povos vive. Aleluia! Aleluia! Aleluia!
Domingo, Setembro 23, 2007
WAJDA FILMA KATYN Em abril de 1940, na floresta de Katyn, perto de Smolensk, 22.500 oficiais poloneses foram executados pela NKVD russa, por ordem de Beria - avalizada por Stalin - com uma bala na nuca, e enterrados em vala comum. A carnificina foi descoberta pelas tropas alemãs, por ocasião de sua incursão em território russo, após a ruptura do pacto Stalin-Von Ribbentrop, em 1941. Durante quarenta anos, o massacre de Katyn foi atribuído pela propaganda comunista às tropas alemãs. O Ocidente conhecia muito bem a autoria do massacre, mas se manteve silente para não envenenar suas relações com a União Soviética. Foi preciso esperar abril de 1990, meio ano após a queda do muro de Berlim, para que o presidente Mikhaïl Gorbatchev reconhecesse a responsabilidade da URSS. Mesmo assim, até hoje a Rússia não aceita esta responsabilidade. Em 2004, após 14 anos de investigações, os tribunais militares russos arquivaram o dossiê de Katyn, alegando que se tratava de um crime comum, e portanto prescrito. Temos dezenas de filmes sobre os campos de concentração nazistas, sobre as matanças de Hitler. Não tenho lembrança de filme algum sobre os gulags soviéticos ou demais massacres stanilistas. Isso que roteiro é o que não falta. Já está inclusive escrito, é o Arquipélago Gulag, de Soljenítsin. De 1940 para cá, nenhum Spielberg da vida pensou, por exemplo, em narrar o massacre de Katyn. Esta missão coube ao cineasta polonês Andrzej Wajda, que já nos deu filmes como Cinzas e Diamantes e O Homem de Ferro, et pour cause: seu pai era capitão do Exército polonês e foi assassinado na mesma época pelos soviéticos, na floresta de Miednoïé, crime que foi associado ao massacre de Katyn. É o que leio no Libération. O filme foi exibido em pré-estréia na segunda-feira passada na Ópera de Varsóvia. Curiosamente, o filme não deixa de trazer embutida uma acusação ao próprio Wajda. Segundo o jornal francês, adivinha-se o jovem Wajda no personagem do jovem resistente que, no final da Guerra, vem a Cracóvia para estudar Belas Artes. Como o pai de Wajda, o pai do jovem resistente foi morto em Katyn. Mas ele recusa-se a renegá-lo em seu currículo, como muitos outros fizeram para evitar aborrecimentos sob a ocupação soviética. O jovem morre. Na estréia do filme, um espectador perguntou ao cineasta: - Com Katyn, você deixa entender que se você não tivesse mentido sobre a morte de seu pai, você não teria podido cursar Belas Artes nem o curso de cinema e que a escola polonesa de cinema não teria surgido. Wajda, que tem 82 anos, se defende: - Eu confessarei meus próprios pecados diante de um outro auditório e certamente muito em breve. Cada um milita à sua maneira. Os críticos brasileiros, que acorrem céleres aos Estados Unidos para promover abacaxis americanos, pelo jeito até agora não tomaram conhecimento do filme de Wajda.
BRUTOS GINECÓFOBOS MUÇULMANOS INSISTEM EM CASTRAR MULHERES Em minhas discussões com leitores, tenho recebido muitas críticas quando falo da mutilação genital das meninas no mundo muçulmano. Nunca falta quem argumente que tal prática nada tem a ver com o Islã, que o Corão nada diz sobre o assunto, que o costume é ancestral e africano, mas não árabe. Isso sem falar nos que hoje chamam de circuncisão o que é, na verdade, uma mutilação. Sei, o Corão nada diz sobre o assunto, a prática pode ser antiga, mas hoje é típica de países muçulmanos e das comunidades muçulmanas na Europa, Estados Unidos e Canadá. Apanho ao azar um antigo recorte do Corriere della Sera: INFIBULAZIONE, 50 MILA VITTIME IN ITALIA Esqueci de datar meu recorte. Mas deve ter mais de cinco anos. Hoje as vítimas serão mais. Quando 50 mil crianças são infibuladas em um país ocidental que foi berço do catolicismo, isto significa que a peste já contamina o Ocidente. Notícia do New York Times nos remete a fato que já relatei neste blog. Uma menina de 13 anos, em uma comunidade rural do Egito, foi levada a um consultório médico para ser submetida à excisão do clitóris. Acabou morrendo. Mas isto não irritou ninguém. O que irritou foi o fechamento da clínica pelo governo. "Eles não vão nos impedir!", gritou o dono de uma casa de chá na rua principal da cidade. Segundo o jornal, há séculos as meninas egípcias, geralmente entre os 7 e 13 anos de idade, vêm sendo submetidas ao procedimento. Em 2005, uma pesquisa mostrou que 96% das milhares de mulheres casadas, divorciadas e viúvas entrevistadas disseram ter passado pela excisão. E ainda há quem ache que infibulação e ablação do clitóris nada tem a ver com o Islã. O Egito, numa iniciativa surpreendente no mundo muçulmano, está lançando uma campanha contra estas práticas bárbaras. Proibidas em 1996, restaram no entanto brechas legais tão amplas que tornaram a proibição inútil. O atual ministro da Saúde lançou um decreto proibindo trabalhadores do setor da saúde - ou qualquer outra pessoa - de realizar o procedimento. O Ministério dos Assuntos Religiosos, por sua vez, lançou um folheto explicando por que o Islã não exige a prática. Mas não adianta. Os brutos ginecófobos não abrem mão de castrar suas mulheres.
Sábado, Setembro 22, 2007
ABAIXO OS BRANCOS PERVERSOS! "A CPMF é assunto de branco que não quer pagar imposto, para que o povo perca o Bolsa Família. Se acabar a CPMF, acaba o Bolsa Família", disse ontem um dos personagens mais repulsivos da política nacional, o deputado federal e ex-ministro Ciro Gomes. Como se não gostar de pagar impostos dependesse da cor da pele. Imagine se alguém dissesse que IPTU é assunto de negro que não quer pagar imposto. Seria imediatamente incurso em crime de racismo. Gomes esquece que as favelas são habitadas majoritariamente por negros, para os quais sequer passa pela cabeça a idéia de pagar IPTU ou taxas de água e luz. Pelo jeito, todos os males do país têm sua origem nos brancos. Quem não lembra das declarações do ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, sobre a violência no Estado? Disse Lembo que o problema só seria resolvido quando a "minoria branca" mudasse sua mentalidade. "Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa", afirmou. Sobre o movimento Cansei, nascido em protesto contra a crise no setor aéreo, a violência e a corrupção, declarou que era movimento de "um pequeno segmento da elite branca' nascido em Campos do Jordão. Se a moda pega, em breve teremos faixas e muros pintados propondo, como solução dos problemas nacionais, a morte dos brancos.
CIDADES O jornal sueco Aftonbladet mancheteava, ufanisticamente, em sua edição de ontem: STOCKHOLM ÄR BÄST I VÄRLDEN Ou seja, Estocolmo é a melhor do mundo. Me lembrou uma antiga canção sueca: Oh, jag är så glad, för jag är svensk. (Eu sou tão feliz porque eu sou sueco). Segundo uma enquête da Readers Digest, quem vive em busca do melhor lugar para viver devia morar na Escandinávia, pela ordem: Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia. No que se refere ao ambiente das grandes cidades, Estocolmo está em primeiro lugar, seguida de Oslo, Munique e Paris. A afirmação é altamente discutível. A começar pelos países. Em qualquer destes quatro, se vive em alto padrão de vida. Mas padrão de vida não é tudo. O custo de vida influi muito no índice per capita de felicidade e nas relações pessoais. Todos os quatro são países onde se paga muito caro para habitar, comer e beber. O mais caro de todos é a Islândia. Além do mais, Reykajvik é uma cidade de cem mil habitantes. Ora, pagar caríssimo para viver em uma aldeia de cem mil habitantes não me parece ser idéia de pessoa inteligente. A vida certamente será pacata por lá, mas vida pacata não quer dizer vida melhor. De minha experiência de cidades, considero que cidade com menos de um milhão de habitantes não está com nada. Estocolmo, de fato, é uma das mais lindas cidades do mundo. Sentada sobre quatorze ilhas e parte do continente, verdejante e florida, cambiante conforme as estações, é uma festa para os olhos. Sobrevoar o arquipélago de balão é uma das grandes venturas que pode viver um mortal. Navegar por entre suas ilhas, vagar pela noite em Gamla Stan, a cidade velha, freqüentar seus parques e jardins são coisas que fazem bem a quem gosta de viver bem. Há 35 anos, vivi um dia magnífico em Estocolmo. Eu estudava sueco num prédio em frente ao Kungsträdgården, praça que em língua de gente quer dizer Jardim do Rei. O dia era 22 de março, mas correspondia ao de hoje, ou seja, um dia após a entrada da primavera. Ao aproximar-me do parque, levei um choque. Estava repleto de flores. Mas no dia anterior, eu tinha certeza, não havia flor nenhuma. E eu não havia bebido. Aos poucos, entendi a coisa. Era como se o rei, ou alguma outra autoridade, tivesse ordenado: “hoje é primavera. Tirem as flores das estufas e joguem-nas na cidade”. Era uma primavera instantânea, brotada de repente. Mas... mas... mas... viver em Paris ou Roma é também muito bom, e quem conhece estas três cidades sabe que a escolha é muito complicada. Colocar Oslo em segundo lugar me parece temerário. É interessante, diria, e nada mais. Muito cara e pacata demais para meu gosto. Munique? Ça va! É linda, alegre, esfuziante. Mas Munique antes de Paris? Jamais. Só por cima de meu cadáver. E Roma, onde fica? Na relação da Readers Digest está em um humilhante 39° lugar. Não admito. Berlim está no 32º e Viena no 38º. A belíssima Amsterdã mereceu um desonroso 35º lugar. Bolonha, a vermelha, ocupa um insultuoso 47º lugar. A charmosa Copenhague está em 10º. A meu ver, algum favoritismo em favor dos nórdicos houve nessa seleção. Mas parece que a Dinamarca foi excluída da Escandinávia. Antes de Copenhague, estão Frankfurt, Stuttgart e Düsseldorf, na Alemanha, e Lyon, na França. São cidades encantadoras. Mas não consigo colocá-las antes de Copenhague. E a fascinante Madri, que enfeitiça quem quer que passe alguns dias por lá? Nem consta do ror das cinqüenta cidades mais lindas do mundo. O Aftonbladet não nos fornece os critérios da seleção da Readers Digest. Mas não consigo admitir que Madri fique fora de uma lista de dez. Madri não é fisicamente linda como Paris ou Estocolmo. Nem como Praga, que na lista ocupa um injusto 41° lugar. É linda por outras razões. Pelos madrilenhos, por sua vida noturna ensandecida, por seus cafés, restaurantes e tablaos. Curiosamente, Barcelona ocupa um 14º lugar. Pelos meus critérios, eu a colocaria um pouco antes, entre as dez primeiras. Seja como for, incluir Barcelona e excluir Madri significa não conhecer Madri. E não foi dada menção alguma à simpaticíssima Lisboa. O Aftonbladet fala ora em melhor cidade, ora em cidade mais linda. São conceitos diferentes e ambos são de definição complicada. Se falamos de belezas naturais, pode-se até aceitar Estocolmo como a mais linda. Se pensarmos em belezas construídas pela mão do homem, coloco Paris em primeiro lugar. Praga, em segundo. Quanto à melhor cidade, entendo que se pretenda definir a melhor cidade para se viver. Neste sentido, excluo as cidades da Escandinávia. Muito caras. Não se vive bem em cidades muito caras. Boa cidade, em meu entender, é aquela em que a maior parte dos cidadãos tem acesso às coisas boas da vida. Estou pensando no sul da Europa. No sul, mas nem tanto. A Itália é hoje um dos países mais caros do continente. Ficaram fora da lista cidades pequenas que excelem por sua beleza, como Veneza, Dubrovnik, Strasbourg, Toledo, Ávila, Cuenca, Orvieto, Positano, Amalfi, Taormina e tantas outras onde ainda não pus os pés. Certo, não são cidades para se viver. Mas se o critério é ser linda, não podem ficar fora de nenhuma lista. Tais listas são sempre subjetivas e é claro que jamais agradarão a todos. Seguidamente me perguntam qual a cidade mais linda que conheço. É uma pergunta. Outra pergunta é a melhor cidade para se viver. São perguntas distintas e não sei como responder a nenhuma delas. À primeira, como disse, eu talvez até aceitasse a idéia de que Estocolmo é a mais bela. Mas... e Paris? E Praga? Difícil decidir. Melhor cidade para se viver? De meu ponto de vista, não hesito: Madri. Mas não vou condenar quem disser Paris, Roma ou Berlim. Para conferir, a lista das cinqüenta. Aceito opiniões divergentes. 1. Stockholm 2. Oslo 3. München 4. Paris 5. Frankfurt 6. Stuttgart 7. Lyon, France 8. Düsseldorf 9. Nantes 10. Köpenhamn 11. Geneve 12. Zürich 13. Glasgow 14. Barcelona 15. New York 16. Brüssel 17. Hamburg 18. Hong Kong 19. Newcastle 20. Tokyo 21. Helsingfors 22. Washington, D.C. 23. Chicago 24. Vancouver 25. Dortmund 26. San Francisco 27. London 28. Perth 29. Melbourne 30. Manchester 31. Graz 32. Berlin 33. Ottawa 34. Wellington 35. Amsterdam 36. Atlanta 37. Marseille 38. Wien 39. Rom 40. Sydney 41. Prag 42. Brisbane 43. Denver 44. Bern 45. Singapore 46. Houston 47. Bologna 48. Montreal 49. Kuala Lumpur 50. Toronto
Sexta-feira, Setembro 21, 2007
UNIVERSIDADE EGÍPCIA REJEITA UMA FATWA INTERESSANTE Adoro os arabescos colaterais que os religiosos criam para burlar as prescrições de suas fés. No Irã, por exemplo, as relações fora do matrimônio são proibidas. Você só pode ter relações com a mulher com a qual é legitimamente casado. Mas e se você quer uma relação rápida e sem maiores compromissos? É simples. Para isto há o sigheh, o casamento temporário permitido pelo ramo xiita do Islã, que pode durar alguns minutos ou 99 anos, especialmente recomendado para viúvas que precisam de suporte financeiro. Reza a tradição que o próprio Maomé o teria aconselhado para seus companheiros e soldados. O casamento é feito mediante a recitação de um versículo do Alcorão. O contrato oral não precisa ser registrado, e o versículo pode ser lido por qualquer um. As mulheres são pagas pelo contrato. Esta prática foi aprovada após a "revolução" liderada pelo aiatolá Khomeiny, que derrubou o regime ocidentalizante do xá Reza Palhevi, como forma de canalizar o desejo dos jovens sob a segregação sexual estrita da república islâmica. Num passe de mágica, a prostituição deixa de existir. O que há são relações normais entre duas pessoas casadas. Os judeus têm o eruv. O eruv - contava-me uma amiga da Finlândia - "é uma cerca, real ou simbólica, que cria uma área dentro da qual são permitidas certas atividades que as leis judaicas proíbem. O eruv pode envolver uma casa, um jardim, ou até um bairro inteiro. Foi o jeito que inventaram de aplacar os rabinos ortodoxos e aliviar as restrições do shabat ao mesmo tempo. Um amigo judeu americano (judeu reformista - tão diferente dos ortodoxos como eu e você) contou que, outro dia, o eruv de sua cidade, Sharon, em Massachusetts, rompeu-se. Os fanáticos estavam em polvorosa. Outro amigo reformista diz que o preço dos imóveis dentro dos eruvin de Nova York é astronômico. Parece aquela história dos muçulmanos segundo a qual beber álcool dentro de casa, com as cortinas fechadas, não faz mal, porque Alá não está vendo". Em Londres, em 2002, foi instalado um eruv, limitado por 84 postes ligados por fios de náilon. A área cobre um perímetro de 17 km. Existem hoje eruvin não só em Israel, como também Austrália, Bélgica, França, Itália, África do Sul, Estados Unidos e até mesmo em Gibraltar. O de Estrasburgo abrange o Parlamento Europeu e o Tribunal de Direitos Humanos. O de Washington, a Casa Branca. Já contei isto tudo em crônicas passadas. Estou voltando ao assunto, em função de notícia que me chega do Cairo, através do Daily News. Uma das mesquitas mais solenes do mundo árabe é a Al-Azhar. Além de mesquita é universidade e centro dA vida intelectual do Egito, sendo a instituição mais prestigiada do Islamismo sunita. Uma característica que as distingue das demais é ter um minarete duplo.(Estive lá certa vez e acabei decidindo não entrar. Já estava de pés no chão, com meus sapatos na sacola, quando dois brutamontes embuçados me atacaram. Queriam ficar com meus sapatos. Olhei para a cara dos dois e senti que não veria meus sapatos de volta, a menos que pagasse alguma bakshisha. Dei meia volta e perdi de conhecer um dos grandes monumentos da cultura árabe). Pois bem, a Al-Azhar acaba de destituir um xeque que emitiu uma fatwa das mais simpáticas. A tradição islâmica proíbe que uma mulher esteja sozinha com um homem com quem possa contrair matrimônio, por isso só pode ficar a sós com seu pai, filho, sobrinho, irmão ou algum outro membro de sua família. Ora, isto impede que homens e mulheres dividam o mesmo ambiente de trabalho. Legitimamente preocupado com o problema, o mulá Izzat Attiyah baixou fatwa autorizando as mulheres a amamentaram seus colegas de sexo masculino. Pois se uma mulher amamenta um homem cinco vezes, torna-se sua ama de leite e assim os dois adultos podem trabalhar juntos. A fatwa não foi vista com bons olhos pela universidade de Al-Azhar - da qual Attiyah fazia parte - e decidiu, na terça-feira passada, destituir o bem-intencionado clérigo. Decididamente, não há solo fértil para boas idéias no universo do Islã.
Quinta-feira, Setembro 20, 2007
LABORATÓRIOS DE UTOPIAS ASSASSINAS Desde que comecei a escrever - e já lá vão mais de 40 anos - tenho denunciado a praga que infestou o século passado, o marxismo. Toneladas de estudos "científicos" inspirados em Marx e seguidores contaminaram as universidades do mundo todo e geraram outras toneladas de pensamento rumo ao inútil, quando não ao totalitarismo. Durante décadas, tese da área humanística que não citasse Marx ou profetas menores sequer chegava a uma banca. Marxismo virou gênero literário e partiu-se em subgêneros, soviético, chinês, cubano, albanês, com direito inclusive a estandes exclusivos nas livrarias. O Estadão e a Folha de São Paulo publicaram hoje editoriais indignados a partir da denúncia feita por Ali Kamel no jornal O Globo. Em artigo intitulado "A Lata de lixo da História", diz a Folha: "A coleção de disparates vai de uma condenação ao capitalismo por objetivar lucro a um elogio da Revolução Cultural chinesa. À vulgaridade pensativa, o livro agrega falsidade histórica, omitindo os assassinatos - eles sim incontáveis - cometidos em nome da dita revolução. Apesar disso, o governo federal adquiriu de 2005 a 2007 quase 1 milhão de exemplares da obra, campeã de distribuição gratuita. Só em 2007 gastou com ela R$ 944 mil". Em outro artigo, "O MEC acorda tarde", escreve o Estadão: "Diante de tanta desonestidade intelectual, custa crer que o MEC só tenha se manifestado sobre o problema após a publicação de artigo do jornalista Ali Kamel". A denúncia é grave, mas nada tem de novo. Em 1992, o professor Gladstone Chaves de Mello denunciava que cem por cento - nada menos que isso - dos livros de História distribuídos pelo Ministério da Educação no Brasil eram ostensivamente e estruturalmente marxistas. Isto três anos após a queda do Muro de Berlim, um ano após o esfacelamento da União Soviética e em meio ao descrédito internacional em relação a qualquer regime de conotação comunista. Hoje, há um escândalo generalizado na imprensa com o livro de Mário Schmidt. As denúncias do professor Chaves de Mello, feitas há quinze anos - bem mais graves porque não falavam de um livro, mas de cem por cento dos livros de História - passou em brancas nuvens. Este gênero literário, a literatura marxista, gerou grandes lucros e generosas mordomias em Moscou, Pequim, Berlim Oriental, Havana. A partir dos anos 90, as editoras especializadas no ramo já não tinham mais espaço físico para estocar os livros devolvidos pelos distribuidores. "Foi cair o muro de Berlim e minha editora começou a afundar", declarou um deles. Este editor, na época, só conseguia vender parte de seu encalhe para a Amazônia, o que não deixa de ser significativo: missionários e antropólogos precisam de suporte teórico para seus projetos teocráticos na América Latina. Mais ou menos desacreditada no mercado livre, esta literatura mudou-se com armas e bagagens para o mercado do livro obrigatório. Em 93, por exemplo, o Ministério da Educação distribuiu 80 milhões de livros. Pode-se então ter uma idéia do desalento dos editores que parasitaram os cofres públicos vendendo ideologias assassinas oriundas do século XIX. O Brasil não é pioneiro nesta indústria da mistificação. Em 1928, em Siete Ensayos de Interpretación de la Realidad Peruana, o escritor peruano José Carlos Mariátegui via a universidade como uma máquina de demolição da sociedade burguesa, uma instituição destinada a formar ativistas e militantes. Os princípios expressos neste panfleto, com mais de quase um século de idade, ainda constituem uma espécie de carta de princípios dos sedizentes cursos de Ciências Humanas da universidade brasileira, que funcionam como laboratórios de utopias assassinas. Não tenho em mãos o livro de Mário Schmidt. Pelos trechos citados por Ali Kamel, em momento algum o autor fala em ideologia marxista. Aposto que não desenvolve nada sobre o marxismo no livro todo. É uma forma eficaz de difundir marxismo. Como a doutrina foi desmoralizada pelo século e a filosofia está gasta, melhor expor seus princípios sem dizer a que doutrina pertencem. É por estas razões que vemos gerações inteiras pensando como pensam os marxistas sem jamais terem lido Marx ou qualquer estudo sobre o marxismo. Todos os cursos da área humanística estão contaminados de marxismo e praticamente todos os professores oriundos destes cursos são apóstolos da nova religião. Letras, Ciências Sociais, Pedagogia, Literatura, Comunicações e até mesmo Teologia. Quanto ao curso de História, é a pedra de toque dos comunistas. Em 1984 - obra que considero a mais importante e desmitificadora do século passado - George Orwell atribuía ao Partido um lema: Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado. Todo marxista sabe disso. Controlando os cursos de História e suas bibliografias, podem reescrever a História a seu bel prazer. Podem fazer de Marx um visionário, de Lênin um sábio, de Stalin um benfeitor, de Mao um santo. Mas não creio que esse tipo de embuste seja muito eficaz. Como professor, sei que aquilo que os alunos ouvem em aula ou lêem em livros entra por um ouvido e sai pelo outro. Seja como for, esta atitude dos professores serve para ocultar a realidade dos fatos. A denúncia de Kamel mostra apenas a ponta do iceberg. A denúncia do professor Chaves de Mello mostrou o iceberg todo. Isso há uns bons quinze anos. Enfim, cá no Brasil há pessoas - e até mesmo jornalistas - que se espantam quando encontram um deputado ou senador corrupto. Puxa-se o fio da meada e se descobre que a corrupção é generalizada. Leio cartas de leitores espantados com o fato de que mais de 50 mil professores escolheram o livro de Schimdt. Mas se escolhessem outro daria no mesmo. O espantoso é que só agora um pai tenha denunciado a endoutrinação à imprensa, depois de uma década de utilização do livro. Pelo jeito, os pais não estão em nada preocupados com o que é ensinado aos filhos nas escolas. Mais um pouco de pesquisa e os jornalistas descobrirão espantados que não só o livro em questão é marxista, mas todos os demais livros didáticos da área.
O QUE ENSINAM A NOSSAS CRIANÇAS Ali Kamel (O Ali Kamel que me desculpe. Mas não resisto a reproduzir seu artigo publicado na terça-feira passada no Globo). Não vou importunar o leitor com teorias sobre Gramsci, hegemonia, nada disso. Ao fim da leitura, tenho certeza de que todos vão entender o que se está fazendo com as nossas crianças e com que objetivo. O psicanalista Francisco Daudt me fez chegar às mãos o livro didático Nova História Crítica, 8ª série distribuído gratuitamente pelo MEC a 750 mil alunos da rede pública. O que ele leu ali é de dar medo. Apenas uma tentativa de fazer nossas crianças acreditarem que o capitalismo é mau e que a solução de todos os problemas é o socialismo, que só fracassou até aqui por culpa de burocratas autoritários. Impossível contar tudo o que há no livro. Por isso, cito apenas alguns trechos. Sobre o que é hoje o capitalismo: "Terras, minas e empresas são propriedade privada. As decisões econômicas são tomadas pela burguesia, que busca o lucro pessoal. Para ampliar as vendas no mercado consumidor, há um esforço em fazer produtos modernos. Grandes diferenças sociais: a burguesia recebe muito mais do que o proletariado. O capitalismo funciona tanto com liberdades como em regimes autoritários". Sobre o ideal marxista: "Terras, minas e empresas pertencem à coletividade. As decisões econômicas são tomadas democraticamente pelo povo trabalhador, visando o (sic) bem-estar social. Os produtores são os próprios consumidores, por isso tudo é feito com honestidade para agradar à (sic) toda a população. Não há mais ricos, e as diferenças sociais são pequenas. Amplas liberdades democráticas para os trabalhadores". Sobre Mao Tse-tung: "Foi um grande estadista e comandante militar. Escreveu livros sobre política, filosofia e economia. Praticou esportes até a velhice. Amou inúmeras mulheres e por elas foi correspondido. Para muitos chineses, Mao é ainda um grande herói. Mas para os chineses anticomunistas, não passou de um ditador". Sobre a Revolução Cultural Chinesa: "Foi uma experiência socialista muito original. As novas propostas eram discutidas animadamente. Grandes cartazes murais, os dazibaos, abriam espaço para o povo manifestar seus pensamentos e suas críticas. Velhos administradores foram substituídos por rapazes cheios de idéias novas. Em todos os cantos, se falava da luta contra os quatro velhos: velhos hábitos, velhas culturas, velhas idéias, velhos costumes. (...) No início, o presidente Mao Tse-tung foi o grande incentivador da mobilização da juventude a favor da Revolução Cultural. (...) Milhões de jovens formavam a Guarda Vermelha, militantes totalmente dedicados à luta pelas mudanças. (...) Seus militantes invadiam fábricas, prefeituras e sedes do PC para prender dirigentes politicamente esclerosados. (...) A Guarda Vermelha obrigou os burocratas a desfilar pelas ruas das cidades com cartazes pregados nas costas com dizeres do tipo: "Fui um burocrata mais preocupado com o meu cargo do que com o bem-estar do povo." As pessoas riam, jogavam objetos e até cuspiam. A Revolução Cultural entusiasmava e assustava ao mesmo tempo". Sobre a Revolução Cubana e o paredão: "A reforma agrária, o confisco dos bens de empresas norte-americanas e o fuzilamento de torturadores do exército de Fulgêncio Batista tiveram inegável apoio popular". Sobre as primeiras medidas de Fidel: "O governo decretou que os aluguéis deveriam ser reduzidos em 50%, os livros escolares e os remédios, em 25%. Essas medidas eram justificadas assim: Ninguém possui o direito de enriquecer com as necessidades vitais do povo de ter moradia, educação e saúde". Sobre o futuro de Cuba, após as dificuldades enfrentadas, segundo o livro, pela oposição implacável dos EUA e o fim da ajuda da URSS: "Uma parte significativa da população cubana guarda a esperança de que se Fidel Castro sair do governo e o país voltar a ser capitalista, haverá muitos investimentos dos EUA. (...) Mas existe (sic) também as possibilidades de Cuba voltar a ter favelas e crianças abandonadas, como no tempo de Fulgêncio Batista. Quem pode saber?" Sobre os motivos da derrocada da URSS: "É claro que a população soviética não estava passando fome. O desenvolvimento econômico e a boa distribuição de renda garantiam o lar e o jantar para cada cidadão. Não existia inflação nem desemprego. Todo ensino era gratuito e muitos filhos de operários e camponeses conseguiam cursar as melhores faculdades. (...) Medicina gratuita, aluguel que custava o preço de três maços de cigarro, grandes cidades sem crianças abandonadas nem favelas... Para nós, do Terceiro Mundo, quase um sonho não é verdade? Acontecia que o povo da segunda potência mundial não queria só melhores bens de consumo. Principalmente a intelligentsia (os profissionais com curso superior) tinham (sic) inveja da classe média dos países desenvolvidos (...) Queriam ter dois ou três carros importados na garagem de um casarão, freqüentar bons restaurantes, comprar aparelhagens eletrônicas sofisticadas, roupas de marcas famosas, jóias. (...) Karl Marx não pensava que o socialismo pudesse se desenvolver num único país, menos ainda numa nação atrasada e pobre como a Rússia tzarista. (...) Fica então uma velha pergunta: e se a revolução tivesse estourado num país desenvolvido como os EUA e a Alemanha? Teria fracassado também?" Esses são apenas alguns poucos exemplos. Há muito mais. De que forma nossas crianças poderão saber que Mao foi um assassino frio de multidões? Que a Revolução Cultural foi uma das maiores insanidades que o mundo presenciou, levando à morte de milhões? Que Cuba é responsável pelos seus fracassos e que o paredão levou à morte, em julgamentos sumários, não torturadores, mas milhares de oponentes do novo regime? E que a URSS não desabou por sentimentos de inveja, mas porque o socialismo real, uma ditadura que esmaga o indivíduo, provou-se não um sonho, mas apenas um pesadelo? Nossas crianças estão sendo enganadas, a cabeça delas vem sendo trabalhada, e o efeito disso será sentido em poucos anos. É isso o que deseja o MEC? Se não for, algo precisa ser feito, pelo ministério, pelo congresso, por alguém. (O Globo, 18/09/2007)
Quarta-feira, Setembro 19, 2007
EM LISBOA, COMO OS LISBOETAS Menos de um mês após aquela tarde hilariante, eu voltava a Lisboa para rir mais um pouco. Sou testemunha de algo no qual raras pessoas acreditam. Quando conto isto a portugueses, eles acham que estou fazendo piada da raça. Numa das estações do metrô, lembro que próxima ao Rossio, o trem era maior que a estação. Um cartaz alertava: Senhor utente: se for descer na paragem tal, dirija-se aos carros à frente do comboio Juro que vi. Continuei rindo, para espanto dos utentes. Mas justiça faça-se aos lusos. Após a entrada na Comunidade Européia, Lisboa desenvolveu novas linhas de metrô, capazes de fazer inveja aos sistemas de Paris ou Berlim. A linha que vai até a estação Oriente, por exemplo, é dotada de estações que são obras monumentais de arquitetura. Primeiro problema, fazer-me entender pelos garçons. Na Pastelaria Suíça, no Rossio, pedi um café. - Com leite ou sem leite? - perguntou-me o garçom, com seu sotaque luso. - Com leite - respondi no mesmo sotaque. Claro que não podia dar certo. O luso trouxe-me um café, com mais uma xícara de leite. - Mas eu pedi sem leite. - Ora, cavalheiro, basta que o deixe de lado. Esta lógica eu a conferi em outra viagem, no excelente restaurante Polícia, perto da Fundação Gulbenkian. Estava com um casal de jornalistas de Porto Alegre, que trabalhavam no Sempre Fixe, e pedimos um javali. Meu amigo frisou: - Sem batatinhas. O garçom perguntou: - Sem batatinhas? Meu amigo confirmou: - Sem batatinhas. Claro que não podia dar certo. O javali veio recheado de batatinhas. - Mas eu não pedi sem batatinhas? - Ora, cavalheiro, basta que as deixe de lado. Quando voltava de Estocolmo para o Brasil, esperei em Lisboa vinte dias pelo Eugenio C. Gostei de um restaurante na Avenida da Liberdade, que hoje não mais existe, o Palladium, e jantei várias vezes por lá. Certo dia, resolvi pedir o Prato Especial. - Não o peça, cavalheiro. O prato especial de especial nada tem. Ok, você venceu. A lógica lusa nada tem a ver com a nossa. Nas estações de trens, não há uma seção de Achados e Perdidos. Mas sim uma de Perdidos e Achados. É lógico. Se algo foi achado e perdido, perdido está. Já perdidos e achados faz sentido. Ainda numa estação de trens, passei por outra. Não encontrava as toiletes e perguntei a um gajo: - Onde ficam os banheiros? A resposta foi fulminante: - O senhor quer banhar-se? Em Lisboa, deve-se perguntar pelo mingitório. Uma amiga me contou outra. Fora comprar algo em uma loja numa sexta-feira. Como não pretendia levar a mercadoria na hora, perguntou: - Vocês fecham amanhã? - Não fechamos. - Ótimo. Então volto amanhã. - Não volte. Nós não fechamos porque não abrimos. É esta lógica que torna Lisboa encantadora. Outro aspecto que me tocou fundo é o estilo de beber dos lisboetas. Em Porto Alegre, participava de minha mesa de bar um recepcionista do hotel Plaza, um português de cabelos grisalhos, mas relativamente jovem, o Mário. De repente, o Mário sumiu. Constava que voltara à terrinha. Em algum ano dos 70, eu vagava pelo Rossio, tentando descobrir onde a gente boa se reunia. Velho habitué de botecos, tenho um faro especial para isso. Ao lado do Nicola, encontrei um café mais aberto, o Pic-Nic. Só pode ser aqui, disse a meus botões. Era. Mal levei a bica aos lábios, o Mário me abordou: "como vai?" Antes que me esqueça, bica é o nosso café expresso, em alusão à bica da máquina, por oposição ao café de saco, coado. Nos abraçamos longamente e Mário convidou-me para fazer a noite lisboeta. Começamos por uma ginja. São pequenos cubículos com um balcão minúsculo, onde se serve basicamente ginjinha, um licor feito da cereja de mesmo nome. É bebida bastante doce, não aconselhável para começar um giro pela noite. Vem num cálice pequeno. Pode ser tomada "com elas" ou "sem elas". Com elas é com as ginjinhas, é claro. Sem, é sem elas. Um bebedor experiente já nem pede ginjinha. Vai logo dizendo com ou sem. Imaginei que conversaríamos algum tempo enquanto bebíamos. Olhei para a rua. Quando voltei o olhar ao bar, meu parceiro já havia empinado a sua. Em Lisboa, como os lisboetas. Empinei também a minha. É quando me lembro daquele palíndromo latino: in girum imus nocte et consumimur igni. En círculos andamos na noite e somos consumimos pelo fogo. Não sei o que os romanos da época entendiam por fogo, mais foi o que aconteceu comigo, na acepção hodierna e brasileira de fogo. Os botequinhos foram se sucedendo, os licores também, o pirata, o perna-de-pau, entremeados de alguma bagaceira, uma grapa portuguesa de alto teor alcóolico. Tudo bebido de um gole só. Sou bom bebedor, mas já começava a entregar os pontos. Foi quando o Mário convidou-me: - Agora vamos sentar e beber um pouco. Em Lisboa, como os lisboetas. Vamos lá!
175 BOEINGS POR ANO É espantoso o impacto de um acidente aéreo. Basta morrerem duas centenas de pessoas e o acidente toma um perfil de tragédia. São 35 mil as pessoas que morrem nas rodovias no Brasil, por ano. Ou seja, 175 Boeings com duzentas pessoas. 96 cadáveres por dia. Praticamente meio Boeing a cada 24 horas. Ninguém pede investigações detalhadas, indenizações, cabeças de responsáveis. A matança lenta, pausada, gota a gota, parece ser perfeitamente assimilável pela opinião pública. O que não se admite é morrerem muitos de uma só tacada.
Terça-feira, Setembro 18, 2007
CABRAL ÀS AVESSAS Um amigo me pergunta porque falo tanto de Paris e Madri e não falo de Lisboa. Bom, em Paris e Madri eu morei. Em Madri, um ano. Em Paris, quatro. São cidades que conheço melhor que São Paulo, onde vivo há 17 anos. Conheço melhor porque lá há mais coisas que merecem ser conhecidas. De São Paulo, não conheço quase nada. Conheço meu bairro, Higienópolis e o trajeto que vai até Jardins, Pinheiros e Vila Madalena. Mais um pouco de Perdizes. E só. Há muitos outros bairros interessantes em São Paulo. Mas ficam muito longe. Se é para ir longe, pego um táxi até Cumbica e vou mais adiante. Conheço Lisboa muito pouco. Só posso falar de impressões. Estive lá umas seis ou sete vezes, numa delas fiquei vinte dias esperando um navio. Mas tenho imenso carinho pela cidade. Já falei que só me sinto no estrangeiro quando estou ouvindo outras línguas. Pois lá me sinto ouvindo outra língua, embora seja a mesma minha. Adoro não só o sotaque como a lógica peculiar dos lusos. Em Lisboa, chego a rir até sozinho. Foi a primeira cidade européia em que pus os pés. Felizmente cheguei de navio, no Eugenio C, desarmado já há mais de década. Há uma diferença muito grande em chegar de avião e de barco ou trem em uma cidade. Na primeira hipótese, a cidade nos chega de chofre. De trem, ela vai chegando aos poucos, revelando sua arquitetura com aquele vagar inerente à sensualidade. De navio, ela chega muito - mas muito mesmo - lentamente. Quando avistei aquela ponta do continente, acho que fui tomado de sensação semelhante a de Cabral ao chegar ao Brasil. O marujo tinha suas dúvidas quanto a existência ou não do Brasil e eu, apesar de todas as evidências, tinha algumas em relação à existência da Europa. Que existia, eu sabia. Mas não tinha muitas esperanças de que um dia chegaria lá. O Eugenio se aproximava da terra e eu não conseguia acreditar que dentro de algumas horas estaria pisando em solo europeu. Só acreditaria quando pusesse os pés no chão. Aos poucos, foi surgindo a ponte sobre o Tejo e o navio começou a balançar na desembocadura do rio. Viajava no mesmo barco um escritor gaúcho, o Josué Guimarães. Na entrada da foz, o Josué estava na popa, a bombordo. Eu, a estibordo. Assim, a primeira impressão que tive ao chegar a Lisboa foi o Josué subindo uns quinze metros para cima de mim e depois voltando uns quinze metros para baixo. Meu destino não era Lisboa, mas Barcelona. Tinha seis horas para visitar a cidade. No navio, eu fizera relações com um francês que vivia há alguns anos na Bahia. Já que era francês, falávamos francês. No porto, fretamos um táxi para visitar a cidade, com mais um outro companheiro alemão, que também vivia no Brasil. Minha chegada a Lisboa foi inesquecível. Devo ter passado umas cinco horas sem parar de rir, a ponto de me doerem os músculos da barriga. Começou com as primeiras palavras do taxista. Eu jamais havia ouvido um português falando com aquele delicioso sotaque luso. Sentei na frente e já na entrada comecei a rir. O francês respondeu no mesmo sotaque. Imaginei que ele estivesse gozando com a cara do taxista. Nada disso. Ele aprendera português em Lisboa. O taxista começou então a explicar a cidade. - Cá em Lisboa, temos um porto com capacidade para navios de um milhão de toneladas. Claro que tais navios ainda não existem. Mas o porto nós já temos. Precaução muito racional, sob todos os pontos de vista. Visão administrativa. Mas traduza isto para o sotaque luso e terá uma idéia de como eu rolava de rir. Eram os dias de Salazar. Passamos pela Avenida da Liberdade. "Que de liberdade só tem o nome" - explicou-nos nosso guia. Nela existe a Estufa Fria. Isso mesmo, uma estufa fria. Você pode não acreditar, mas está lá é um belíssimo jardim tropical. Contando a história assim por escrito, talvez não tenha muita graça. Se quiser entender minha crise de hilaridade, traduza tudo para o português. Mais adiante, o taxista levou-nos a um morro onde estavam as antenas de televisão. Muito didático, explicou-nos: "Cá em Lisboa temos dois canais de televisão. Um dá uma série de programas e o segundo os repete todos". Ele falava sério. Eu chorava e já estava vendo a hora em que ele me expulsaria do táxi. Isto foi em 71. Hoje, no Brasil, uma mesma emissora fornece um noticiário e logo depois o repete todo. Precursores, os lusos. O passeio se aproximava do fim e o francês, intrigado, fez uma pergunta. Como é que ele conseguia entender o que eu, brasileiro, dizia, mas nem sempre entendia o que o taxista falava. O luso terminou a tarde com chave de ouro: "Nós, portugueses, falamos muito rápido. Além disso, ocorre que eu não tenho dentes". E escancarou a boca para mostrar um solitário canino. Se sobrevivi àquele dia, é porque hilaridade não mata. Estávamos na mesma mesa, no navio. Durante o jantar, bastava olharmos um para o outro e caíamos na gargalhada. Os garçons não entendiam muito bem, pois começávamos a rir sem ter contado piada alguma. Assim foi meu primeiro contato com Lisboa. Amanhã, conto mais.
A ÉTICA FAJUTA DO OMBUDSMAN DA FOLHA Neste domingo passado, o ombudsman da Folha de São Paulo informa que o jornal alterou o verbete "ética" do Manual da Redação. Impôs novas regras de conduta aos jornalistas. O objetivo, de acordo com circular assinada pela editora-executiva Eleonora de Lucena, é ampliar a transparência da Folha em relação a seus leitores. Segundo o manual, jornalistas que cobrem saúde não devem ter ações de planos de saúde, quem cobre o mercado imobiliário não deve manter ações de construtoras. O ombudsman reclama que a emenda ao manual elimina ou atenua na Folha a "absurda ausência de auto-regulamentação sobre conflito de interesses: não deveria investir na Bolsa jornalista que apura, edita ou comenta o mercado financeiro". E fala de outras novidades: "É proibido ao jornalista pedir ingresso para eventos culturais, como shows e peças de teatro. Sempre que possível, a Folha pagará pelo ingresso dos profissionais que forem cobrir tais eventos". Maravilha! Claro que isto não impede os críticos de cinema de receberem viagens e hospedagens em hotéis de luxo nos Estados Unidos para promover filmes estúpidos da indústria ianque de bestsellers. Muito menos impede os redatores de turismo de aceitar viagens, hospedagens e cruzeiros pagos, para promover roteiros idiotas a quem quer viajar. Claro que o ombudsman jamais exigirá do jornal que o emprega que pague viagens e hospedagens de jornalistas que cobrem cinema e turismo.
Segunda-feira, Setembro 17, 2007
QUEM PARIU QUE A EMBALE Escreve Diogo Mainardi em sua coluna da Veja desta semana: "O banho de descarrego em Renan Calheiros deu certo. Ele saiu purificado do Congresso Nacional. E nem precisou pagar o dízimo. Nós é que pagaremos em seu lugar. O dízimo cobrado pelos bispos petistas tem um nome: CPMF. Que continuará sendo pago por crentes e descrentes, sacramentado por todos os partidos". Ora, o dízimo cobrado pelos bispos petistas foi criado pelo PSDB. O pai da CPMF chama-se Fernando Henrique Cardoso. Passou a vigorar em 23 de janeiro de 1997, baseado na edição da Lei nº 9.311/96. Foi extinta em 23 de janeiro de 1999 e ressuscitada em 17 de junho do mesmo ano. Na época, Lula e o PT eram contra a CPMF. Lula e o PT chegaram ao poder e hoje a defendem com unhas e dentes. Fernando Henrique e o PSDB, os criadores do achaque, agora são contra. Mainardi é suficientemente grandinho para conhecer estes fatos. Se a CPMF hoje é o dízimo cobrado pelos bispos petistas, ontem foí dízimo cobrado pelos cardeais pessedebistas. Isto é o que desmoraliza os críticos sistemáticos do PT: jamais reconhecem as mazelas do PSDB. Disparate semelhante escreveu o cronista tucanopapista Reinaldo Azevedo: "Esta CPMF que está sendo proposta não tem mais nada a ver com o governo tucano. Agora, é obra dos petistas. E eles devem assumi-la integralmente. Tanto é assim que não se trata de uma PRORROGAÇÃO da contribuição, mas de uma RECRIAÇÃO, por meio de emenda constitucional". Como não tem nada a ver? Fernando Henrique chegou a buscar um nome que gozava de respeito público para ministro da Saúde, o cardiologista Adib Jatene, para melhor vender seu peixe. Como a tal de contribuição provisória seria destinada à Saúde, e como Jatene gozava de prestígio junto à opinião pública, o imposto acabou passando. Dezoito dias depois da instituição da CPMF, Jatene pediu demissão, porque o governo reduziu o orçamento da Saúde depois que o Congresso a aprovou a CPMF. "Puxaram o meu tapete", disse o cardiologista na ocasião. Uma vez usado, Jatene foi mandado de volta para o quirófano. Quem pariu a CPMF que a embale.
MENSAGEM DO QUAGLIO Prezado Janer, Seu último texto sobre o Machado de Assis, e sua menção à imposição de suas obras no ensino brasileiro, me fizeram lembrar de uma conversa que tive no início deste ano com um italiano. Eu e minha esposa conhecemos este amigo italiano quando ele veio ao Brasil em janeiro. Quando esteve em nossa casa e viu nossa biblioteca, ele nos disse que não gostava de ler. Nós deixamos de lado a idéia ingênua de que todo europeu adora livros. Mesmo assim, ele perguntou a mim e a minha esposa se nós tínhamos algum livro em língua italiana. Imediatamente mostramos a ele nossos livros em italiano: Ariosto, De Amicis, Dante, Manzoni... Quando ele viu a Divina Comedia e I Promessi Sposi, disse que odiava Dante e Manzoni, e que eles são, provavelmente, os escritores mais odiados da Itália. Eu e minha mulher achamos aquilo estranho, mas ele disse que muitos italianos não têm coragem de admitir, mas odeiam Dante e Manzoni porque são obrigados a ler suas obras na escola. Acho que o mesmo acontece com o Machado aqui no Brasil. Muita gente deve odiar mas tem medo de admitir porque quase ninguém tem a sua coragem de ser o menino que constata que o rei está nu. Quanto a mim, faço minha sua opinião sobre a ABL. Uma instituição que pretende elevar José Sarney e Paulo Coelho à imortalidade por méritos literários é digna de ser alvo de chacota. No entanto, gosto das obras do Machado, e, apesar de considerá-lo de menor estatura que Eça, Manzoni, ou Dostoievski, acho que ele pode ser chamado de grande escritor, e seus livros podem ser considerados grandes obras. Acho que é porque eu já havia lido alguns dos livros dele, como Memórias Póstumas ou Quincas Borba, antes que a escola exigisse. Um abraço, Humberto Quaglio
Domingo, Setembro 16, 2007
PEDE-SE TESTE DE DNA DA CAPITU Se há um autor nacional que não consigo engolir é Machado de Assis. Salvo alguns raros contos, não vejo nada demais em sua obra. Com o decorrer do tempo, descobri que alguém afirmar que não gosta de Machado, neste Brasil, é tão ou mais grave do que dizer-se ateu nos Estados Unidos ou homossexual na Arábia Saudita. Ainda há pouco, uma amiga me questionava: "Mas se Machado não é um grande escritor, que grande escritor temos no Brasil?" Nenhum, eu diria. Um país pode existir sem que por isso tenha grandes escritores. Sempre vi o culto de Machado como uma espécie de chauvinismo. Se temos uma nação, temos de ter uma literatura nacional. Mutatis mutandis, é como se os catarinenses dissessem, como aliás dizem: se Santa Catarina existe, existe também uma literatura catarinense. Vou adiante. Em uma publicação que especificava os cursos da universidade, encontrei uma ementa insólita: História da Filosofia Catarinense. Eu nem sabia que existia uma filosofia catarinense e já tínhamos uma história da filosofia catarinense. Independentemente da literatura de Machado, dois fatos me fazem abominá-lo. Primeiro, criou essa excrescência que se chama Academia de Letras que, salvo alguma honrosa exceção, só abriga medíocres bajuladores do poder. Segundo, é leitura obrigatória no colegial, vestibulares, universidade. No dia em que Machado não for leitura obrigatória, duvido que algum editor ouse editá-lo. A sobrevida de Machado se deve às imposições do ensino oficial. Mas se há algo que particularmente não suporto, é essa mania dos críticos de situar como o grande drama da literatura nacional a hipótese de Capitu ter traído ou não ter traído Bentinho. Depois de Swift ter escarnecido da humanidade toda, depois de Nietzsche ter decretado a morte de deus, depois de Dostoievski ter mergulhado nos desvãos mais escuros da alma humana, surge no Rio o Machadinho propondo o drama crucial... de uma hipótetica infidelidade conjugal. Me parece muito pobre ter esta esta questiúncula como o cerne da literatura nacional. Pelo menos um outro brasileiro pensa como eu. Leio no Estadão de sábado entrevista com Millôr Fernandes, onde o "filósofo de Ipanema" declara: "Desde a escola, somos condicionados a acreditar que se trata de um grande escritor. Assim, todo mundo repete isso, mesmo sem ter lido uma linha. Eu nunca disse que não gostava de Machado de Assis, mas o considero um escritor de segunda - afinal, na época dele tínhamos o Proust. Machado era um burocrata. Não entendo, por exemplo, por que tanta discussão sobre a possível traição em Dom Casmurro - só faltam encomendar agora o teste de DNA da criança para tirar a dúvida. Afinal, a se julgar pelas cartas que escreveu para o Escobar, o Bentinho era uma bicha louca, que só não saiu do armário porque não era comum na época". Já li há algum tempo estas considerações do Millôr. Quanto ao Bentinho ser homossexual, é bastante provável, pena que o Machado não levou a história adiante. Ocorre que autor algum que assuma a defesa de uma postura homossexual será leitura obrigatória no ensino oficial. Machado queria "a glória que fica, eleva, honra e consola". Não podia ferir o Zeitgeist. Guimarães Rosa intuiu esta censura. Poderia ter escrito o grande romance homossexual brasileiro, mas recuou na última hora. Diadorim era mulher, para felicidade geral da nação. Foi mais ou menos a atitude de Mozart, ao jogar Don Giovanni nos infernos ao final de sua ópera. Não era fácil, na Viena de sua época, dar um final feliz a um libertino que passou toda sua vida correndo atrás de saias. Mas a beleza de Don Giovanni - falo da ópera - redime Mozart. A listina de Leporello destrói qualquer moral cristã. Só na Espanha, mille e tre. Fora as outras. Jogar Don Giovanni nos infernos não convence muito, pois o que encanta o grande público é sua vida devassa. O Machadinho, coitado, está preocupado com uma única e mísera e hipotética infidelidadezinha.
NÃO VERÁS! Desde há muito, nas capitais e grandes cidades brasileiras, a função de polícia foi delegada ao cidadão. O habitante das metrópoles que se proteja, pois a polícia nem está aí para protegê-lo. Vivemos entre grades, protegidos por seguranças nas ruas e nos prédios, por câmeras, cercas eletrificadas, algumas com arame farpado e, conforme o bolso de cada um, carros e portas blindadas. Não poucos apartamentos em São Paulo possuem bunkers internos, com provisões de água e alimentos, para o caso de o residente ser assaltado dentro de sua própria casa. Estas precauções aumentam consideravelmente o preço que se paga para morar. A polícia, que é paga com seus impostos, só surge depois de o crime ser cometido. Há alguns anos, falei da visita que recebi de uma amiga sabra. Sabra, para quem não sabe, são os judeus que nasceram em Israel. Ao sair de casa, ela começou a fotografar freneticamente as cercas eletrificadas de minha rua. Perguntei-lhe que graça ela achava naquelas fotos. Explicou-me que estava chocada, que nunca havia visto algo assim, nem mesmo em Israel que vivia em permanente estado de guerra. Em meio à esta ausência total de força policial, surgem cá e lá idéias de jerico. A última partiu dos restauradores dos Jardins, bairro nobre de São Paulo, onde estão os restaurantes e lojas mais caras da cidade. Os proprietários de restaurantes estranham que uma clientela endinheirada do interior freqüentem as lojas do bairro, voltem para casa com sacolas Dior e Armani, mas dêem de ombros para restaurantes. Et pour cause. Em alguns desses restaurantes, alguns gramas de trufas brancas custam 300 reais e um vinho pode custar, como é o caso do Fasano, mais de 39 mil reais. A propósito, quem gosta de freqüentar tais ambientes é o José Dirceu - aquele mesmo, o chefe da quadrilha - que ano passado foi visto pagando 16 mil reais por uma garrafa de vinho. Nada mau para quem está, supostamente, alijado do poder. Tentando reverter a situação, alguns restaurantes do pedaço bolaram uma idéia brilhante, oferecer um tour gastronômico. Você come a entrada em um restaurante, o prato principal em um segundo e a sobremesa no terceiro. Não é preciso ser intelectualmente muito dotado para imaginar o que vai acontecer. Você encontra mesa no primeiro restaurante. Come a entrada e vai ao segundo, que está lotado. Aí você faz um trou normand - pausa que os franceses fazem entre uma refeição e outra na Normandia, para poder continuar comendo - de uma ou duas horas para comer o prato principal. E talvez mais um outro trou para a sobremesa. Mas não é ainda aqui que reside a idéia de jerico. O melhor vem agora. Para proteger os clientes de assaltos, será oferecida segurança privada para acompanhá-los no percurso entre um restaurante e outro. Minha amiga sabra adoraria fotografar essa gente toda, acompanhada cada um com seu segurança, para poder entrar em um restaurante e comer. Em Madri, cidade que pouco dorme à noite, há uma prática que muito me apraz. Os madrilenhos vão de bar em bar, empinando umas copitas cá e lá, entremeadas de pinchos ou tapas, que no fim é a mesma coisa. Esta via-sacra, eu a cumpri também em Lisboa. Mas é diferente. Depois das copas y pinchos - que são uma ocasião de curtir diferentes ambientes, novos rostos - procura-se um restaurante para, definitivamente, jantar. Seja como for, jamais ocorreria a um madrilenho ou lisboeta aceitar a escolta de um gorila para ir de um lugar a outro. Os restauradores dos Jardins parecem ter ouvido o galo cantar, só que não sabem onde. Se você se surpreendeu com a idéia do vinho de 39 mil reais, deixo aqui minha sugestão. Junte essa grana e convide um parceiro ou parceira para um giro de uns trinta dias entre Paris, Amsterdã, Roma e Madri. Freqüente os melhores restaurantes destas cidades, deguste pratos soberbos, beba grandes vinhos, curta aquelas arquiteturas milenares e obras de arte que a Europa lhe oferece. E ainda vai sobrar troco. Esses restaurantes tipo Fasano ou Massimo, em São Paulo, são o que chamo de restaurantes para pessoas jurídicas. Quem vai lá, são novos ricos que nunca pagam do próprio bolso sua conta. Não por acaso são muito freqüentados por pessoas de elevada estatura moral, como Zé Dirceu, Sarney, Delfim Netto, ACM quando vivo. O consumo entra nas famigeradas verbas de representação. Quem paga é você. Consegue algum leitor citar-me um país no mundo onde se precise de segurança privada para ir de um restaurante a outro? Muitas vezes recorri a Bilac para entender este meu país e agora vou ter de recorrer de novo: "Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste! Criança! Não verás nenhum país como este!"
SOBRE OS TAP Contei, há algum tempo, episódio ocorrido em Lisboa. Eu procurava uma agência da TAP, e interpelei um luso na rua. Onde fica a TAP? - TAP? - me respondeu o luso perplexo -. Não percebo. - A TAP, ora. O senhor é lisboeta? - Sou. Mas não estou a perceber. - A TAP. Transportes Aéreos Portugueses. - Ah! Os TAP. Pois bem... A resposta do lisboeta pareceu-me coerente. Os Transportes Aéreos Portugueses. No entanto, recebo mail de Nuno Santos Silva: É mesmo "a" TAP e não "os" TAP. Ninguém diz "os TAP". Você deve ter encontrado alguém com muito mau humor!!! Grato, Nuno. Mas podia também ser um purista. Saudades de Lisboa. Do Polícia, do Berlenga, do Vá-e-Volte. Saudades também do saboroso sotaque luso.
Sábado, Setembro 15, 2007
O QUE ME ESCANDALIZA Escrevi outro dia que os escândalos políticos não me chocam. Política, pelo menos neste Brasil, sempre foi atividade mais ou menos suja. O que há de novo é que, nestes dias de PT, assumiu um grau de extrema imundície. Nada mais previsível, quando os herdeiros do velho comunismo chegam ao poder. O que me escandaliza, isto sim, é o calote dos precatórios. A União deve estar me devendo hoje, por baixo, um milhão de reais. Eram os precatórios devidos desde 1988 à minha mulher, que morreu em 2003 - 15 anos depois - sem ver a cor daquilo a que tinha direito. Herdei esses precatórios e tampouco vi cor de dinheiro algum. Estou certo de que morrerei sem vê-la. O crédito será herdado por minha filha e não tenho esperança alguma de que ela os receba. São precatórios alimentares já transitados em julgado, aos quais não cabem mais recursos, e que estão em fase de execução. Mas a União não paga e fim de papo. Não é porque a União esteja endividada comigo que me escandalizo. Fosse só eu a ser caloteado pela União, atribuiria isso a alguma brincadeira do Estado ou dos deuses, que deviam estar aborrecidos comigo. As razões de meu escândalo são outras. Leio em editorial do Estadão de hoje que o volume de dívidas judiciais estaduais e municipais é superior a R$ 62 bilhões. (Até aí, o jornal não fala dos precatórios da União). Os maiores devedores são o Estado de São Paulo, com um débito de R$ 12,9 bilhões, e a prefeitura de São Paulo, com um débito de R$ 10,8 bilhões. Estão na fila de credores desses dois entes governamentais mais de 485 mil pessoas, das quais 85% têm direito a valores inferiores a R$ 15 mil. Não é o Renan, o Zé, o Juca, o Pedro que caloteiam. É a União, os Estados e os municípios. São entes de direito que deveriam ser os garantes da lei. Na hora de arrecadar, União, Estados e municípios são implacáveis. Você não precisa nem sonegar. Basta cometer um lapso em sua declaração e cai irremediavelmente na malha fina. Pior ainda. Digamos que você, em um gesto de desobediência civil, queira deliberadamente sonegar, pois considera que o Estado não lhe dá nada de volta em retribuição ao que lhe toma. Se for assalariado, você não tem nem chance de sonegar. Antes de receber seu salário, a parte do Estado já foi retida. A nota do Estadão nos fala de um universo de 485 mil pessoas, e isso apenas no que se refere a dívidas de Estados e prefeituras. Na maior parte gente humilde, para as quais dez ou quinze mil reais seriam uma mão na roda. Mas que certamente morrerão ser ter essa mão na roda. Calheiros, o calhorda, andou apresentando um projeto de leilão de precatórios. Ou seja, você vende o seu por uns dez ou vinte por cento do valor total. Muita gente já avançada em idade ou em situação de desespero toparia a proposta. Melhor dez ou vinte por cento do que nada. E assim fica legalizado o calote. Que autoridade moral tem o Estado para reclamar de inadimplência dos contribuintes, de trabalho informal, contrabando ou pirataria? Como pode um Estado que caloteia - e caloteia com convicção - exigir honestidade de seus cidadãos? Como pode alguém acreditar que o Brasil seja um dia um país decente, quando a própria União é descaradamente indecente? Entendo ser roubado por um assaltante, por um vigarista. Difícil de entender é ser roubado por meu próprio país. Imagine se você propuser fazer um leilão de seus impostos não pagos. Diga a União que você se dispõe a pagar, prazerosamente, uns vinte por cento do que lhe deve. O Leão vai morrer de rir.
Sexta-feira, Setembro 14, 2007
NÓS, QORPO E A REFORMA O qe doe, o qe eizaspera, o qe qonfrange ainda a vontade a mais forte – é ter lutado inseçantemente qontra os autores de tantos qrimes: qonseguido auciliado de tantos outros qe igualmente padcião – derribar este poder qorruto: essas autoridades immoraes qe o eizersião: haverem subido ou occupado seus distintos lugares de tão grande número daqeles qe os qombaterão; q os derribarão; e ainda assim – estarem sendo protelados nossos direitos por alguns de taes qriminosos há mais de trez, há mais de quatro anos. (Novembro 8 de 1868) Que assim escrevia, há praticamente dois séculos atrás, era José Joaquim Campos Leão Qorpo Santo (1829-1883). Gaúcho de Triunfo, interior do Rio Grande do Sul, Qorpo Santo foi vereador, delegado de polícia, professor, jornalista, dramaturgo. Em 1861, começou a escrever sua Ensiqlopédia ou seis mezes de huma enfermidade, de onde extraí o texto supra. Suas peças nunca foram encenadas durante sua vida. Foi tido como louco e não era para menos. Consta que trancou a porta de sua casa e entrava pela janela. Sabe-se também que andou arrastando sua mulher pelos cabelos pela Rua da Praia. Não via objeção alguma em mulheres no serviço militar. Enquanto os homens lutavam, as mulheres deitavam-se e pariam novos soldados. Seu teatro só foi descoberto, um século depois, pelos esforços de Aníbal Damasceno Ferreira, hoje professor de cinema na PUC de Porto Alegre. Há toda uma intriga sórdida em sua ressurreição. Um professor de literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Guilhermino César da Silva, que escreveu uma História da Literatura do Rio Grande do Sul, na qual ignorou solenemente a existência de Qorpo Santo, pretendeu roubar a descoberta de Aníbal Damasceno, quando o dramaturgo se tornou nome nacional. Mas não era disto que pretendia falar, e sim da reforma ortográfica proposta por Qorpo ao escrever. Em seus textos, ela é apresentada de forma incoerente, nem sempre mantendo uma unidade. Em suma, o som de cá do C passa a ser assumido pela letra Q. O C assume o som de S sibilante, embora o S também permaneça com a mesma função. Qorpo também admite o Ç como sibilante. Vê-se que o maluco da Rua da Praia intuiu a necessidade de uma reforma ortográfica, já no final do século XIX, mas não chegou a sistematizá-la. No entanto, sem nem sonhar com Internet, Qorpo Santo antecipou, há dois séculos, o uso do Q no internetês. Nos anos 60, em Dom Pedrito, sem nunca termos ouvido falar de Qorpo Santo - que naquela época permanecia envolto pelo pó de algumas raras bibliotecas - três ou quatro estudantes de 15 e poucos anos, elaboraram um novo sistema ortográfico nacional. Eu era um deles, mas não o autor da reforma. Este mérito é de Danilo Morales, meu colega de ginásio, científico e mais tarde Filosofia. Eliminamos algumas letras inúteis do sistema ortográfico. O C tinha sempre o som de K, o S de sibilante, e nunca assumia o som de Z, quando entre vogais. O Z assumia seu próprio som, como em rezar, e também o de X, como em exame. O X ficava apenas com o som de CH, como em xadrez, e substituía definitivamente o CH em qualquer palavra. Eliminávamos o SS, o CH, o K, o Ç, o Q e o QU e o trema. K, Y e W - nomes próprios à parte - também não tinham lugar em nossa ortografia. Como a de Qorpo Santo, era uma ortografia antietimológica. Os étimos eram ignorados em nossa reforma. Nosso critério era, como no alemão, o fonético. Batizamos nosso achado como o Novo Sistema Ortográfico Eclético-nacionalista. Claro que ninguém levou a sério nossa proposta. Nem nossas mães, que não gostavam de nos ver reunidos, tentando reformar o homem, a língua e o mundo. Expulsos de casa, nos refugiávamos nos raros bares de Dom Pedrito. Mas os bares fechavam cedo. Expulsos dos bares, nos refugiávamos nos bordéis, únicos lugares que admitiam tertúlias madrugadas adentro. Nossas tertúlias não tiveram futuro. Sempre preocupados com os homens e o mundo, pouco nos interessava fazer o que se faz num bordel. Por um lado, não tínhamos dinheiro. Por outro, mulher era coisa que nos assustava um pouco. Com o tempo, as profissionais colocaram uma atalaia na janela. Quando apareciam os “filósofos” na esquina, as mulheres fechavam a casa. De nós, saía no máximo a grana da cerveja. Mas isto é outra história. Assim se perdeu no oblívio, como o de Qorpo Santo, um excelente projeto de reforma ortográfica. A meu ver, bem mais radical e eficaz que o agora proposto.
Quinta-feira, Setembro 13, 2007
OMERTÀ DOMINOU CONCLAVE EM BRASÍLIA Ao que tudo indica, a decisão do STF de indiciar 40 quadrilheiros ligados ao PT andou insuflando esperanças em certos setores ingênuos do país, que acharam que agora sim era chegada a hora de moralizar o Brasil. Ora, a decisão do STF é inócua. Apenas indicia. Os insignes magistrados fizeram pose de machos, sabendo muito bem que todos os indiciados serão absolvidos. Alguns por prescrição dos crimes, outros por manobras protelatórias de direito adjetivo. Talvez recebam penas mínimas alguns bagrinhos, tipo gerentes de bancos, que poderão ser cumpridas com o pagamento de cestas básicas ou coisa parecida. Ninguém acredita, em sã consciência, que o mentor da quadrilha toda, José Dirceu, vá ver um dia o sol quadrado. Muito menos il capo di tutti capi. Com a absolvição do presidente do Congresso Nacional, Renan Calheiros, houve um surto de mensagens na Web, falando da vergonha de ser brasileiro. Ora, tinha alguém alguma esperança na condenação do calhorda Calheiros? Se fosse condenado, o efeito seria pior: o Senado posaria de virtuoso enquanto continuaria abrigando uma outra boa metade de calhordas. Em meio a esse desalento de certas almas virtuosas, me sinto contente com o resultado do conclave. Sim, pois foi um conclave, no melhor estilo vaticano, com todo o sigilo e intrigas típicas das velhas raposas romanas. Só faltou a fumacinha branca. Me sinto contente porque assim o Senado mostra ao que vem. Não passa de uma máfia de corruptos, sempre disposta a absolver o capo flagrado com a boca na botija. O que vigeu, nesta votação, foi a lei da omertà, típica da Máfia, da 'Ndrangheta e da Camorra. Em outras palavras, nunca colaborar com a lei, o voto de silêncio entre mafiosos. Caso a omertà seja violada, a punição, em geral, é a morte. No caso, a morte política. Renan fez ameaças explícitas às vestais Pedro Simon, Jefferson Peres e Heloísa Helena, tidas como de oposição. Suas ameaças não serão desprovidas de fundamentos e explicam em parte o veredito do Congresso. A outra parte deve ser atribuída aos covardes senadores do PT, que mesmo com voto secreto se abstiveram de votar, como se esta abstenção os redimisse da conivência com a corrupção. Vergonha de ser brasileiro, não tenho e nunca tive. Brasil não é só esse bordel chamado Congresso Nacional. Deixei de votar há mais de vinte anos e não posso dizer que me sinto traído por meus representantes porque desde há muito não os tenho. Mas também não tenho orgulho algum de ser brasileiro. Não vejo maiores razões para orgulhar-me deste país. Assim sendo, não estou em nada decepcionado pela absolvição de Calheiros. Era bastante previsível. É curioso observar que esta gente que hoje diz ter vergonha de ser brasileira, nunca manifestou sentir vergonha quando elegeu – e reelegeu – um analfabeto conivente com a corrupção para a Presidência do país. Agora é tarde! Nas próximas semanas, será votada a prorrogação da CPMF. Se a absolvição do calhorda Calheiros tivesse o efeito de extinguir esta extorsão, bem-vinda seria. Mas não terá. As ditas oposições votarão de novo bonitinho com o governo. José Serra e Aécio Neves, potenciais candidatos da oposição ao governo, já se manifestaram a favor do imposto infame. Também, pudera! Quem criou a CPMF foi o PSDB. Resumindo: não há mais oposição no Brasil. Apenas escroques defendendo seus privilégios. PSDB e PT, mesmo combate. Você ainda tem esperanças com o Brasil? Eu as perdi desde há muito e há muito não me escandalizo. Remember Dante: lasciate ogni speranza, voi che entrate!
ESCRITOR TEM FÓRMULA PARA PRODUZIR MOZARTS A Bienal Internacional do Livro, do Rio de Janeiro, tem-se caracterizado cada vez mais pela participação de medíocres escritores estrangeiros. Como são estrangeiros, os medíocres logo ganham espaço nos jornais. Falo de David Toscana, anunciado pelo Estadão como "a voz rebelde do México". E por que rebelde? Porque xinga os Estados Unidos. "O muro que agora levantam os gringos causa indignação", diz Toscana, denunciando assim sua filiação ideológica. O muro entre México e Estados Unidos passou a ser o argumento empunhado pelas esquerdas, que não tinham como justificar o horror do Muro de Berlim, muitos menos as fronteiras fechadas da finada União Soviética. "Ah, mas os EUA também construíram um muro", costumava-se dizer. Toscana viveu em Berlim. Seu cacoete deve vir de lá. As esquerdas adoravam viver na ilha paradisíaca da Berlim ocidental e capitalista, enquanto defendiam o socialismo. Com a unificação da Alemanha, viver no paraíso se tornou mais caro. O argumento, além de obsoleto, não tem sentido. Os países comunistas proibiam a seus cidadãos o sagrado direito de ir e vir, sair, viajar. Porque quem saía não voltava mais. Quando adolescente, sem maiores informações sobre o mundo soviético, este era meu argumento contra os comunistas: mas se os regimes comunistas são paradisíacos, por que deles não se pode sair? Quando se sai do paraíso, a gente fica morrendo de saudade e pressa de voltar. Não era o caso. Ninguém voltava ao paraíso. Preferiam o inferno capitalista. Nenhum comunista soube responder-me a esta questão óbvia. O muro americano proíbe a entrada no paraíso. Paraíso não para mim, bem entendido, mas para os milhões de migrantes que vêem nos EUA a realização de seus sonhos de bem-estar, consumo e realização pessoal. Da mesma forma que milhares de pessoas arriscam a vida no Mediterrâneo ou Adriático para chegar à Espanha ou Itália, outros tantos milhares arriscam-se a morrer no deserto para chegar à utopia. Uma coisa é muro que proíbe de sair: existe para tolher a liberdade de sair. Outra coisa é um muro que proíbe entrar. Não existe direito de entrar. Ou as nações estabelecem regras para aceitar imigrantes, ou boa parte da África se muda para a Europa e boa parte da América Latina se muda para os Estados Unidos. Não é proibido entrar na Europa ou Estados Unidos. Mas os candidatos a lá entrar têm de se submeter a certas exigências. Mas essa não é a bobagem maior de Toscana. Sua indigência mental se revela quando afirma: "Cada vez mais diminui o número de mentes brilhantes porque há menos diversidade; os sistemas pelo qual nos educamos tendem à uniformidade, a matar a individualidade. Assim, é impossível ter outro Mozart". Quer então o brilhante escritor dizer que basta haver diversidade e sistemas educativos que não tendam à uniformidade para que os Mozarts brotem da terra como cogumelos após a chuva? Que se houvesse diversidade e sistemas educativos ideais em Uganda ou no Paraguai, ou mesmo no México ou Brasil, no dia seguinte estaríamos produzindo Mozarts em série? Que se o sistema educacional fosse bom as Flautas Mágicas e os Dons Giovannis saltariam como pipocas numa panela? Confesso nada ter lido de Toscana. Nem vou ler. Quem afirma tamanho despautério não pode escrever nada inteligente. São afirmações que contaminam biografia e obra de um escritor. Nem mesmo a Áustria de Mozart conseguiu produzir outro Mozart. E o escritorzinho lá dos cafundós do México pretende ter a fórmula para produzir Mozarts em massa. Enfim, o que me espanta é ver um jornalista ouvir impassível tal disparate, sem ao menos denunciar sua incongruência. Pior ainda, o situa como "filho literário de Cervantes". O manco de Lepanto deve estar se revirando em sua tumba. Todo escritor tem o sagrado direito de proferir bobagens. Não é crime. Mas jornalistas não precisam endossar bobagens.
Quarta-feira, Setembro 12, 2007
A VIÚVA E A VIRGEM Em um ano qualquer do fim do século passado, já não lembro qual, a Espanha levantou-se em pé de guerra contra uma reforma ortográfica. Por razões informáticas, pretendeu-se eliminar o ñ (pronuncia-se enhe). Os processadores de texto não previam o til sobre o n e houve quem achasse mais prático eliminar de vez a letra. Quase deu guerra civil. Para começar, seria preciso mexer no próprio nome do país, España. E também no nome da língua, español. A discussão durou pouco. A proposta foi tida como fútil e abandonada. Não demorou muito, os processadores de texto conseguiram fazer o ñ. No Brasil, passamos por problema semelhante com o trema. Os processadores de texto tinham acentos, mas faltava o trema e o til. Para serem feitos, exigiam o uso de várias teclas, o que rouba preciosos segundos em um fechamento de jornal. A Folha de São Paulo resolveu o problema com pragmatismo. O til não dava para eliminar. Já o trema, não fazia muita diferença. E durante muito tempo a Folha circulou sem o sinalzinho, sem que isso pusesse maiores problemas aos leitores. Houve até mesmo quem achasse que o jornal pretendia desconstruir o idioma. Nada disso. Era apenas uma questão de soft. Com o avanço dos processadores de texto, a Folha voltou a usar o trema. Creio que boa parte de seus leitores sequer notou isto. Fala-se agora de um novo acordo que propõe uma reforma ortográfica, numa tentativa de unificar a grafia da língua portuguesa nos sete países em que é falada. O trema deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados, e o alfabeto incorporará mais três letras: k, w e y. Até aí morreu o Neves. O trema não faz grande falta mesmo, tanto que mal se notou quando a Folha o suprimiu, e muito menos quando voltou a usá-lo. Quanto às novas três letras, de novas nada têm. Há muito fazem parte do idioma. Elas sempre me intrigaram ao designar tribos indígenas. Se os indígenas nunca conseguiram montar um alfabeto, por que os nomes de suas etnias têm tanto k, w e y? A resposta é simples. É que as tribos foram batizadas por antropólogos e missionários americanos. Pelas novas regras ortográficas, os portugueses terão de grafar algumas de suas palavras como no Brasil. Acção passará a ser ação. Terão também de retirar o h inicial de outras, como herva e húmido. Os acentos diferenciais serão eliminados, como em pára, do verbo parar. Idéia vai virar ideia. Haverá também mudanças no uso do hífen. No fundo, uma reforma tímida, que aparentemente só irá em benefício dos semi-analfabetos, que vivem às turras com hífens, acentos e tremas. Tímida, mas caríssima. Só de imaginar o quanto custará a reedição de toda a literatura circulante - livros didáticos e demais literatura - nos sete países que compõem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe), os editores devem estar esfregando as mãos de contentes. Sem falar em quantas florestas terão de ser derrubadas para satisfazer ao fútil capricho das autoridades do idioma. O novo acordo de novo nada tem. Em verdade, foi assinado em 1990 pela CPLP. Como seria de esperar, os prazos de implantação das novas regras nunca foram cumpridos. A CPLP determinou então em 2004 determinou que bastaria a ratificação de três membros para que o acordo entrasse em vigor. Ano passado, Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, voltaram a falar no assunto. A verdade é que não serão apenas estes países que conseguirão unificar o idioma, ainda mais quando o país onde a língua nasceu nem está se preocupando com o assunto. Alguém ainda lembra de Nestor de Hollanda, autor de A Ignorância ao Alcance de Todos? Hollanda achava que no acento diferencial não se deve mexer. Sem ele, não há como diferenciar a viúva da virgem. A virgem diz "ai".
MELHOR ASSIM Não transcorreu uma hora e já há vestais deplorando a absolvição de Renan Calheiros em suas colunas. Vejamos outra possibilidade. Digamos que Renan fosse cassado por quarenta e poucos votos. Teoricamente, o Senado se redimiria de sua reputação de abrigo de canalhas, enquanto continuaria abrigando uma boa metade de canalhas. Melhor assim! Absolvendo Renan, o Senado mostra o que é.
Terça-feira, Setembro 11, 2007
DECISÃO JUDICIAL AMEAÇA SEITAS Quando a Justiça brasileira toma uma decisão sensata, OAB é o que não falta para contestá-la. A Quarta Câmara de Direito Privado julgou procedente o pedido de Luciano Spadacio, ex-fiel da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), e determinou que a Igreja pagasse de volta R$ 2 mil, valor que, corrigido pela inflação, chega hoje a R$ 3.680. Em janeiro de 1999, Spadacio foi abordado por um pastor da Igreja Universal que lhe prometeu uma vida melhor caso ele doasse seu único bem, um veículo Del Rey, que foi vendido por R$ 2,6 mil. Ele deu dois cheques para a Igreja, um de R$ 2 mil e um de R$ 600, que foi sustado posteriormente. Tendo virado vítima de zombarias na sua cidade, resolveu processar a IURD. Em primeira instância,o pedido foi julgado improcedente. No recurso ao Tribunal, Spadacio levou a melhor. A Igreja Universal vai recorrer da decisão. Por uma razão muito simples. Tal decisão ameaça suas fontes de renda. De fato, não há um contrato entre crentes e pastores, tipo “se eu invisto tanto vou receber tanto de volta”. Nem a Bolsa pratica tais operações. A IURD é mais sutil. Mas não muito. A igreja opera milagres em todos os que freqüentam seus cultos. E mostra a todos que Deus lhes reserva vida mansa, apartamentos duplex, casas em condomínios privados, carros importados (carro nacional, nem se fala desse lixo), mansões de luxo, iates e por aí vai. Como panaca é o que não falta neste nosso mundinho, Edir Macedo construiu um império imenso que hoje vai de Nova York a Paris, passando pela Costa do Marfim e África do Sul, onde recentemente construiu um templo de fazer inveja ao Vaticano. Bastou a Justiça fazer justiça a um pobre diabo, a Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da Ordem dos Advogados do Brasil considerou que o pagamento de restituição de dízimo a um fiel da Igreja Universal do Reino de Deus pode abrir um "precedente temerário" para as instituições religiosas de todo o País. Se a decisão for confirmada em última instância, pode haver uma enxurrada de processos. Que haja. Conversando há pouco com uma amiga, ela me afirmava que a lei não pode proibir que pessoas colaborem espontaneamente com a vigarice. Que no Brasil existe liberdade de expressão e liberdade de culto. "Ninguém pôs um revólver na testa deles", dizia. É verdade. Da mesma forma, na Idade Média, ninguém pôs um revólver na cabeça dos católicos que se sentiam obrigados a pagar indulgências para resgatar seus próximos das penas do purgatório. Que mais não fosse, porque na época não existiam revólveres. De qualquer forma, a opressão era tamanha que católico algum ousaria eximir-se de pagar a taxa devida à Igreja de Roma. Foi preciso que Lutero afixasse, em 31 de outubro de 1517, suas 95 teses na Abadia de Wittenberg "Contra o Comércio das Indulgências", para a que a Igreja Católica tivesse de admitir que estava praticando um colossal conto do vigário. Este mesmo conto está sendo aplicado no Brasil todos os dias pelos pastores televisivos. As novas igrejas evangélicas de igrejas nada têm. Não são instituições religiosas, como pretende a comissão da Ordem dos Advogados do Brasil. Mas franquias coordenadas por vigaristas para obtenção rápida de muita grana. "É uma questão de ética" - dizia a amiga que defendia os pastores evangélicos. Até pode ser. Isto significa que está faltando criar a lei que proíba explorar a credulidade dos ignaros e extorqui-los de seus últimos vinténs. Triste é ver que a entidade máxima dos advogados brasileiros se pronuncia em favor da exploração dos pobres de espírito.
SE AINDA VIVO, PIROU DE VEZ Fidel Castro acusou hoje os Estados Unidos de enganar o planeta e ocultar informações sobre os atentados do 11 de setembro, no artigo O Império e a Mentira. "Hoje, após seis longos anos do doloroso episódio, sabemos que houve desinformação deliberada e possivelmente jamais saberemos o que verdadeiramente ocorreu", disse. E disse mais: "Fomos enganados, do mesmo modo que os habitantes do resto do planeta. Os cálculos sobre estruturas de aço, impactos de avião, caixas pretas encontradas e o que eles revelam não se ajustam aos critérios de matemáticos, sismólogos, especialistas em informação e especialistas em demolição. Que enorme diferença entre a conduta do governo de Cuba e a conduta do governo dos Estados Unidos. A revolução se baseia na verdade e o Império é baseado na mentira". Castro, em sua esquizofrenia, consegue negar fatos amplamente divulgados e filmados. O pior que é ainda há, neste Brasil petista, malucos que conseguem acreditar neste enfermo mental.
Segunda-feira, Setembro 10, 2007
HUYHNHNMS E YAHOOS Um casal de mexicanos que se conheceu por meio da internet batizou seu filho com o nome de Yahoo, apesar dos funcionários do cartório terem lhes advertido sobre os danos psicológicos que poderiam ocasionar à criança. É o que leio em um despacho da Efe. O caso, revelado pelo jornal La Crónica, da cidade de Mexicali, México, ocorreu em março de 2005. É claro que o casal mexicano não tinha a mínima idéia do sentido absolutamente pejorativo da palavra. Muito menos os funcionários do cartório. Quando surgiu na Internet o buscador Yahoo, me perguntei como poderia alguém ser tão inculto para assim batizar um site. Segundo o jornal, o termo Yahoo significa animal, e foi inventado por Jonathan Swift, no livro As Viagens de Gulliver. No mesmo despacho, leio que segundo os fundadores do site de buscas Yahoo, Jerry Yang e David Filo, este nome foi escolhido porque eles mesmos se consideravam "animais da informática". Ou seja, tanto os redatores do La Crónica como Yang ou Filo jamais leram a obra de Swift, a quem devemos a palavra. Os yahoos não são apenas animais, mas animais vis e repelentes. Surgem quando Gulliver chega ao país dos Huyhnhnms, ou dos Cavalos, seres nobres que jamais mentiam e portanto sequer possuíam em sua língua vocábulos para exprimir a verdade ou a mentira. Quando precisavam referir-se ao que chamamos de mentira, diziam "a coisa que não era". "Ora - diz um huyhnhnm - , quando o senhor faz o que se chama mentir, dá-me a compreender o que não se pensa: em vez de me dizer o que é, não fala, só abre a boca para articular sons vãos, não me tira da ignorância, aumenta-a". Os yahoos são seres em tudo semelhantes aos humanos e capazes das maiores vilezas, entre elas a mentira. Gulliver, ao chegar no país dos Huyhnhnms, é tido como um yahoo e os cavalos não conseguiam compreender que houvesse terras de além-mar e que um vil rebanho de yahoos pudesse fazer flutuar sobre esse elemento uma grande construção de madeira e conduzi-la à sua vontade. "Ninguém, salvo um huyhnhnm, poderia fazer semelhante coisa. Confiar o governo de uma construção dessas a um yahoo, é obra de insensatos". Escreve Swift, pela voz de Gulliver: "Esta palavra huyhnhnm, na sua língua, significava cavalo, e quer dizer, conforme a sua etimologia, a perfeição da natureza. Respondi a meu amo que me faltavam as expressões, mas, dentro de algum tempo, ficaria em estado de lhe referir coisas, que, decerto, o surpreenderiam. Exortou a senhora égua sua mulher, os senhores seus filhos, o potro e a potranca, e todos os seus criados, a concorrer com zelo a aperfeiçoarem-me na língua, e ele próprio, todos os dias, consagrava para esse fim duas a três horas. "Acrescentei que, se algum dia o céu permitisse que voltasse ao meu país e publicasse a relação das minhas viagens, e em especial a minha permanência entre os huyhnhnms, toda a gente acreditaria que eu diria uma coisa que não era, e que seria uma história fabulosa e impertinente que eu tinha inventado; em suma, apesar de todo o respeito que ele me merecia, e toda a sua honrada família, e todos os seus amigos, ousava afirmar-lhe que no meu país ninguém acreditaria que um huyhnhnm fosse um animal racional e que um Yahu fosse um animal irracional". Um huyhnhnm é colocado ao lado de um yahoo, para que Gulliver possa fazer a comparação: “Não posso descrever a minha surpresa e o meu horror, quando, tendo examinado de perto esse animal, notei nele todas as feições e toda a configuração de um homem, com a diferença de que tinha uma cara larga e chata, o nariz esborrachado, os lábios grossos e a boca muito grande; isto, porém, é vulgar a todas as nações selvagens, porque as mães parem os filhos com o rosto voltado para o chão, levam-nos às costas e eles batem-lhes com o nariz nas espáduas. Este yahoo tinha as patas dianteiras parecidas com as minhas mãos, embora fossem munidas de unhas muito grandes e a pele fosse trigueira, rude e coberta de pêlo. As pernas também se pareciam com as minhas, com algumas diferenças. No entanto, as minhas meias e os meus sapatos tinham feito acreditar aos senhores cavalos que a diferença era muito maior. Com respeito ao resto do corpo, era de fato a mesma coisa, exceto com relação à cor e ao pêlo". Quando o capitão Gulliver conta a seus anfitriões que os yahoos eram, em seu país, os animais senhores e dominadores, seu interlocutor quer saber se lá haviam huyhnhnms e qual era o seu estado e emprego. "Respondi-lhe que tínhamos grande quantidade; que, no verão, pastavam nas campinas e que, durante o inverno, ficavam em suas casas, onde tinham yahoos para os servir, para lhes pentear a crina, para lhes escovar e esfregar a pele, para lhes lavar os pés, para lhes dar de comer. "- Compreendo, - retorquiu ele - isto é, que, embora os yahoos se gabem de possuir algum raciocínio, os huyhnhnms são sempre os amos, como aqui. Prouvesse aos céus apenas que os nossos yahoos fossem tão submissos e tão bons criados como os do seu país!" Gulliver esclarece que os huyhnhnms não possuem na sua língua termo para exprimir o que é mau, e servem-se de metáforas tiradas das disformidades e das más qualidades dos yahoos. Quando queriam exprimir a falta de jeito de um criado, a culpa de algum dos filhos, uma topada, um tempo chuvoso e outras coisas semelhantes, dizem o nome da coisa a que se querem referir, acrescentando-lhe apenas o epíteto de yahoo. ”Por exemplo: para manifestar estas coisas, dirão: hhhm-yahu; whnaholm-yahu; inbhmnawhhma-yahu; e para significar uma casa mal construída dirão: unholmh-umrohlnw-yahu". A história dos yahoos é longa e remeto o leitor às Viagens, título obrigatório em qualquer seleção de dez livros que você queira levar para uma ilha deserta. Só para concluir, a ojeriza que Lemuel Gulliver, ao voltar à sua ilha natal, desenvolveu em relação aos yahoos, isto é, a nós, seres humanos: "Minha mulher e toda a família, ao tornar a ver-me, testemunharam a sua surpresa e a sua alegria; como me haviam julgado morto, entregaram-se a transportes que não posso exprimir. Beijei e abracei todos friamente, em virtude da idéia do yahoo, que não me saíra ainda do espírito, e por esse motivo não quis a princípio dormir com minha mulher. O primeiro dinheiro que tive empreguei-o em comprar dois cavalos novos, para os quais mandei construir magnífica estrebaria, que entreguei aos cuidados de um palafreneiro de primeira ordem, a quem fiz meu confidente e favorito. O cheiro de estrebaria encantava-me e passava aí quatro horas por dia a conversar com os meus cavalos, o que me fazia recordar os virtuosos huyhnhnms". Que Gulliver, após a viagem ao país dos Huyhnhnms, prefira o convívio com os cavalos ao convívio com sua família, entende-se. Que um casal de yahoos mexicanos batize o filho como Yahoo, também é inteligível. Mais difícil é entender a opção de Jerry Yang e David Filo. Fica claro que jamais leram Swift e conhecem sua obra de ouvir falar. Vai ver que também são yahoos e ainda não sabem disto.
Domingo, Setembro 09, 2007
BENTO XVI SE PRETENDE SENHOR DOS DOMINGOS Quem me acompanha já terá ouvido falar de Celso, o nobre romano autor de A Verdadeira Natureza, obra que foi queimada pela Igreja e cujos fragmentos só chegaram até nós graças à contestação de Orígenes, em Contra Celso. Era costume, na época, ao se contestar uma obra, retomar os argumentos do autor. Não fosse o zelo de Orígenes, nada nos teria restado do primeiro adversário pagão do cristianismo. Uma entre as muitas coisas que os romanos da época não conseguiram entender no cristianismo é que o novo deus não pertencia a nenhum Estado. Roma tinha seus deuses, Atenas também. Israel tinha Jeová. Mas a que Estado pertencia o Cristo? Aparentemente, a nenhum. Não bastasse isso, queria impor-se a todos os demais deuses. Esta arrogância do Cristo parece ter contaminado todos os papas. Quando falam, não se dirigem apenas a seus seguidores. Falam urbi et orbi, isto é, à cidade (Roma) e ao mundo. Este é o tom da homilia proferida hoje em Viena por Bento XVI, na qual o papa condena a sociedade ocidental por ter transformado o domingo, o dia do Senhor, em fim de semana. Segundo o pontífice, embora o tempo livre seja necessário, "se não tiver um centro, que é o encontro com Deus, acaba sendo um tempo perdido". Claro que Bento fala de seu deus, o velho Jeová, que faz um só com o Cristo e o Paráclito. Isolado na torre de marfim do Vaticano, cercado por seus áulicos, Ratzinger parece ignorar - ou finge ignorar, pois certamente não ignora - que na Áustria existem milhares de judeus, que têm o sábado como dia santo. Mais milhares de muçulmanos, que celebram seu deus na sexta-feira. Isso sem falar em milhões de pessoas, que podem até crer vagamente em um deus, mas que não abrem mão do ócio aos domingos. Ao assim pronunciar-se, Ratzinger desrespeita uma sociedade laica, que faz do domingo o que bem entender. O domingo como dia de repouso foi instituído no ano 321 por Constantino. Imperador pagão, teria se convertido ao cristianismo - segundo Paul Veyne - porque a um grande imperador era necessário uma grande religião. “Ora, face aos deuses pagãos, o cristianismo, embora seita minoritária, era a religião de vanguarda que não se parecia a nada conhecido”. Ao instituir o domingo como dia de repouso, conseguiu agradar os cristãos sem irritar os pagãos. A doutrina astrológica da época ensinava que cada dia estava sob o signo de um planeta. Como havia sete planetas (entre estes, o sol) chegou-se a um ritmo de sete dias. Domingo era o dies solis, dia do sol. Por outro lado, sempre segundo Veyne - estou citando Quand notre monde est devenu chrétien - uma antiga instituição romana era o justitium: se, em determinado ano, ocorria qualquer acontecimento (declaração de guerra, morte de um membro da família imperial, funerais públicos de um notável), os poderes públicos decretavam um justitium, uma jornada durante a qual toda atividade estatal ou judiciária era suspendida. Constantino decidiu então que dali para a frente haveria um justitium perpétuo no dies solis, cujo nome era conhecido de todos, pagãos e cristãos. Em função deste decreto imperial do século IV, até hoje há restrições ao trabalho nos domingos nos países de predominância católica. Em Viena, boa parte das lojas não têm permissão para funcionar no domingo. Os grupos de negócios que lutam por esse direito são combatidos pelos católicos. Como Cristo havia ressuscitado no sétimo dia do calendário judaico e os cristãos faziam suas assembléias no último dia da semana para celebrar a Eucaristia, o dia do sol se tornou então, para os cristãos, o dia do Senhor. Com o tempo, os domingos se tornaram tediosos. Para que a multidão fosse escutar os sermões, as corridas de carro e os espetáculos teatrais foram proibidos nos domingos. As sociedades ocidentais, segundo o papa, transformaram o domingo em dia de atividades de lazer e ofuscaram o significado católico tradicional do dia, devotar tempo a Deus. Bento esquece - ou melhor, omite - que o dia do Sol foi roubado aos pagãos e transformado em dia do Senhor. A Igreja sempre foi useira e vezeira em cobrir festas pagãs com seus rituais. Será certamente decorrência de viver numa torre de marfim o que leva o papa a dizer isto logo em Viena, cidade em que os católicos estão abandonando as igrejas, e quando as freqüentam vão mais para assistir a seus magníficos corais do que para prestar culto a deus. Bento se pretende o senhor dos domingos. Ora, vivemos em sociedades laicas, onde fazemos dos domingos o que bem entendemos. Se alguns os dedicam a louvar um deus, a maioria os consagra à bonaxira, ao ócio, ao teatro e cinema, ao vinho, cerveja ou futebol. Que o papa fale a seu rebanho, entende-se. O que é insuportável no vice-deus é sua mania de achar que a humanidade toda deve render homenagens ao deus católico.
Sábado, Setembro 08, 2007
FORA DA LEITURA NÃO HÁ SALVAÇÃO "As melhores coisas da vida me aconteceram lendo", diz Mario Vargas Llosa, ao receber o título de doutor Honoris Causa pela Universidad de la Rioja, Espanha. "A leitura é o que te permite fazer-te dono de uma linguagem. Uma pessoa que não lê tem necessariamente um vocabulário pobre e se expressa mal. E isso não significa somente que seu conhecimento da linguagem é limitado, mas também que pensa mal, porque se pensa na medida em que se fala e vice-versa". À primeira vista, parece que Llosa quer se referir a nosso presidente. Mas não era o caso. Assino embaixo. Em meus dias de magistério, uma aluna me perguntava perplexa: "quer dizer que a leitura pode transformar uma pessoa?" Ora, muitos fatos na vida transformam uma pessoa, entre outros a guerra ou a perspectiva de morte iminente - mas nada transforma tanto quanto a leitura. Foi lendo que me libertei da prisão intelectual do cristianismo, foi lendo que escapei à tentação marxista. E lendo foi que descobri que a vida não precisava ser como era, mas podia ser bem outra. Comecei minha vida em cidade onde as opções de leitura eram escassas. Mas vivia perto do Uruguai. Não sei como, mas nos chegavam títulos em espanhol. Lembro que, lá em minha adolescência, encomendei por uma freira, com a qual convivia em boa paz, um livrinho de José Ingenieros, pensador argentino, intitulado Hacia una Moral sin Dogmas. Irmã Helena me trouxe o livro, mas não ousava entregá-lo. "Esse livro me queima nas mãos. Não posso te dar". Ora, irmã - considerei - agora mesmo é que quero esse livro. Se você não me entregar, de alguma forma vou encontrá-lo. Melhor então me entregar e continuamos mantendo boas relações. A irmã foi sensata e acabou me entregando o livro. Não lembro muito hoje do que tratava. Mas foi fundamental para minha libertação do cristianismo. Depois foram chegando outras leituras. Voltaire, Montesquieu, Diderot, Pascal, Bertrand Russel, Dostoievski, Nietzsche. A crença estúpida que me fora enfiada a machado na cabeça se fez em pedaços. Se sou o que hoje sou, devo tudo à leitura. "Nada enriquece tanto os sentidos, a sensibilidade, os desejos humanos, como a leitura" -– continua Vargas Llosa -. "Estou completamente convencido de que uma pessoa que lê, e que lê bem, goza muito melhor a vida, embora também seja uma pessoa que tem mais problemas frente ao mundo. Há uma problemática que se desenvolve com a curiosidade, com as incertezas que os bons livros fazem nascer em ti, indubitavelmente. O que não exclui que seja uma maneira de viver melhor. (...) Somos muito mais livres quanto mais e melhor lemos". Não por acaso, a primeira coisa que os ditadores proíbem são as leituras. A primeira providência que a Igreja tomou, para preservar seu poder, foi proibir leituras. Só que proibir leituras é o mesmo que incitar a ler. O Index Prohibitorum do Vaticano sempre foi um catálogo de excelentes leituras. Tanto o regime nazista como os regimes comunistas se caracterizaram pela proibição e queima de livros. Não há tiranete que não saiba que a leitura liberta. "Por isso a leitura é imprescindível se se quer ter uma sociedade democrática, com cidadãos ativos, que participam, que intervêm não só no debate público, mas na marcha do que se chama civilização" - continua Llosa -. "E é a razão pela qual a leitura não é um mero prazer ou entretenimento, mas o instrumento básico na formação de um cidadão livre, moderno, participante. A literatura é uma expressão de tudo isso". Romancista, quando fala de literatura, Llosa quer dizer ficção. Aqui começo a discordar de sua louvação da leitura. Costumamos esquecer que ficção, por definição, é mentira. Sei, a literatura está repleta destas mentiras salutares, que nos levam a pensar em outros mundos, outra maneiras de ser e viver. Mas continua sendo mentira. Devo confessar que fui formado por essas grandes mentiras, a começar pelo Quixote. O personagem de Cervantes é inverossímil, mas nos toca no âmago por seus sonhos. As grandes ficções são sempre grandes mentiras, mas têm um fundo inevitável de verdade. Quando leio o Martín Fierro, sei que aquele gaúcho é fruto da mente de Hernández. Nem por isso ele deixa de me comover. Este é o milagre da poesia, e talvez seja sua função primeira. E certamente foi por isto que Platão expulsou os poetas de sua República. Tudo isto para dizer que, alguns clássicos à parte, há muito abandonei a leitura de ficção. Isso após ter traduzido, e com entusiasmo, uma boa dezena de livros de ficção. Gostei de ler as ficções de Llosa, particularmente Pantaleão e as Visitadoras, um dos altos momentos de humor da narrativa latino-americana. Mas, se quero romance, hoje leio jornais. Cada jornal me traz, dia a dia, enredos fabulosos. Desde a queda do Muro até o atentado do 11 de Setembro, coisas que jamais um ficcionista ousou um dia sonhar. Se quisermos "literatura nacional", aí estão o mensalão, a formação de quadrilha do PT, o caos aéreo, a affaire Renan Calheiros, novelas sempre cheias de suspense, cujo desenlace é sempre uma incógnita. "O romance é o conto de fadas de quem não tem imaginação" - escreveu Pessoa -. "A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta. Talhar a obra literária sobre as próprias formas do que não basta é ser impotente para substituir a vida". A história humana é bem mais surpreendente que a imaginação dos escritores. É por isso que, nos últimos vinte ou talvez mais anos, não consigo mais ler contos ou romances. Mas mergulho com gosto nos relatos históricos. Estou lendo atualmente L’Empire gréco-romaine, de Paul Veyne, com um entusiasmo que hoje ficção alguma me produz. Porque Veyne me conduz a um mundo distante no tempo e no espaço, a um mundo de outras crenças que não as do mundo contemporâneo, e este tipo de viagem é para mim tão fascinante quanto ir a Paris ou Roma. Em meu descaso pela ficção, abro uma exceção, a teologia. Há quem imagine que, ao ler tratados teológicos, estou tentando resgatar uma fé perdida. Nada disso. Teologia é gênero que me diverte imensamente. Pois tem pretensões de convencimento. Ninguém empunharia o Quixote para arrastar alguém a esta ou àquela crença. Mas as grandes ficções teológicas querem dominar as mentes, e por isto são significativas. Embora simpatize com as afirmações de Llosa, eu não afirmaria que as melhores coisas da vida me aconteceram lendo. As melhores mesmo, diria, me aconteceram vivendo. Mas leitura é fundamental. Fora da leitura não há salvação. A propósito, a irmã Helena acabou largando o hábito.
Sexta-feira, Setembro 07, 2007
TERAPIAS ALTERNATIVAS A propósito do artigo sobre transtorno bipolar, da Suécia, Déia me fala de outra praga, o DDA, e de uma terapia alternativa: Querido, é Distúrbio de Déficit de Atencão!!! Meu filho me perguntou se este fosse o caso dele uns três anos atrás, tentando justificar notas baixas no colégio, respondi que não se preocupasse porque eu usaria a terapia VIP: Várias e Intensivas Punições. Ficou curado na hora! Não sei mais o que podem inventar... Beijocas. Escreve Vanderlei Vaselesk: Meu caro, aqui o Vanderlei. Essa agora é boa. Uma amiga minha professora do Colégio Militar aqui do Rio me contou a seguinte pérola: "Fui informada pela diretora de uma outra escola onde eu trabalhava, que um aluninho tinha transtorno bipolar e quando estava transtornado batia em quem estivesse próximo. Expliquei então que se ele me batesse eu bateria de volta". Não sei te explicar porque mas jamais o pequerrucho encostou a mão em minha amiga Patrícia. Abraço Diz Paulo Barreto: Olá, Enfim um post para lavar a alma de todos que (no mínimo) desconfiavam da cruzada contra os "riscos do coração", essa pauta eterna dos semanários. Há seis dias entrei numa clínica com minhas próprias pernas e só saí de lá quase 24 horas depois, quando minha mulher e minha sogra pediram meu habeas corpus (digo, assinaram minha alta à revelia), sem que os ilustres doutores tivessem descoberto coisa alguma que justificasse aquela interminável sessão de torturas que atende pelo nome de CTI. Se dependesse dos médicos, eu estaria lá até agora. E, é claro, o controle de glicose virou religião. Já entrei no CTI com o nível de glicose excelente até para os implacáveis limites contemporâneos. Mas naquelas nem tantas horas perdi as contas de quantas vezes espetaram meu dedo para reconfirmar o óbvio. Como esperavam que, preso a uma cama, amarrado a aparelhos, eu apresentaria uma explosão glicêmica? Contrabandeando um pote de doce de leite La Salamandra? Quero comprar ações da fábrica daquela maquininha que faz teste de glicose. Diz Árlen Andrade: Bom dia, Janer Ótimos teus textos (como sempre) e, concordo em tudo sobre a indústria farmacêutica. Eu vivo comentando com as pessoas que antigamente tínhamos uma ou duas farmácias na cidade e, hoje em dia temos mais de vinte. Falo também que, quando eu era pequeno a gente tomava remédios só quando perdíamos uma perna ou estávamos de cama. Hoje em dia, tudo que é mal-estar as pessoas vão as farmácias e deixam lá tudo que resta do salário. Eu gasto muito com farmácia porque sou casado com uma amante dos remédios e tenho um nenê pequeno, mas discordo completamente de tudo isto. Tem médicos inclusive que falam mal dos genéricos e escolhem os laboratórios para você comprar seu remedinho salvador e, claro, o escolhido é sempre o mais caro. Sobre a psicologia, nem tem o que dizer mais (mesmo assim eu digo), concordo em tudo. Já me consultei com psicóloga e ela me ajudou muito conversando comigo, pois eu disse pra ela que não tomaria remédio algum. O psiquiatra disse que eu não me curaria sem os remédios e me considerei curado. Nunca mais me senti da forma que estava na época de minhas consultas com a psicóloga mas, o que ela fez na real foi conversar comigo, apenas isto. Hoje em dia as pessoas preferem tomar os remédios, os ditos antidepressivos, porém estas pessoas "se curam" e, dois ou três anos depois, estão "doentes" novamente. Grande abraço
EXÉRCITO DEPÕE ARMAS E CRISE SE TORNA CRÔNICA O dia foi esplêndido hoje em São Paulo. Claro, ensolarado, sem nuvens, sem névoa, nada de chuva. Segundo a Infraero, o aeroporto de Congonhas registrou 82 vôos cancelados, o que representa 34,7% dos 236 vôos programados. No país, do total de 1.649 vôos previstos, 329 vôos foram cancelados. Os atrasos superiores a uma hora atingiram 181 vôos, o equivalente a 11% das viagens. Tudo como dantes no quartel de Abrantes. Ou seja, praticamente um ano depois do início do caos aéreo no país, a sabotagem dos controladores de tráfego áereo continua nos mesmos níveis, apesar das bravatas de Nelson Jobim, ministro da Defesa. Quando alguém chega a um aeroporto no Brasil, não tem a mínima idéia de quando poderá decolar. Não se vê nenhuma esperança pela frente de que um passageiro possa saber a hora certa da partida. Internacionalmente, o Brasil está se tornando conhecido como o país de onde nunca se sabe quando se parte. O governo faz que nem vê. Nesta mesma sexta-feira, a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) divulgou uma nota na qual afirma que a crise aérea "foi superada". Em meio à crise aérea, uma crise bem maior está passando despercebida no país. A Secretaria Nacional de Direitos Humanos acaba de lançar um livro, Direito à Memória e à Verdade, no qual dá a versão da comissão especial do Ministério da Justiça para os mortos e desaparecidos do regime militar. Neste livro, o grande réu é o Exército, os terroristas que um dia quiseram fazer do Brasil uma republiqueta soviética são louvados como heróis e nenhuma menção é feita aos que foram assassinados por estes terroristas. Mal se esboçou uma reação dos militares, Nelson Jobim ameaçou demitir o comandante do Exército, Enzo Peri, e todos os generais do Alto Comando que se juntassem em um ato de contestação de sua autoridade. Ou seja, o ministro da Defesa proíbe ao Exército fazer sua defesa. Na cerimônia militar deste 7 de setembro, os dois lados desconversaram. Ao chegar ao palanque, Jobim se dirigiu ao general Enzo e brincou com ele, fazendo alusão à matéria, de que estava querendo cortar sua cabeça. O general Enzo, respondeu, também brincando, demonstrando que estava tudo bem e que não havia novos problemas a serem resolvidos. O generalato se rendeu aos terroristas de 64 e esboçou um sorriso amarelo para esconder sua covardia. O Exército brasileiro se humilhou ante a arrogância de um mandalete que presta serviços a qualquer governo que o chame e que não consegue sequer pôr ordem nos aeroportos do país. Nada que espante. Quando um Exército aceita calado a promoção de um desertor como Lamarca a general, não temos mais Exército, mas apenas milicos acovardados ante o poder civil.
Quinta-feira, Setembro 06, 2007
AINDA O TRANSTORNO BIPOLAR Falava dos modismos na medicina e do transtorno bipolar. Declara hoje, no Estadão, o psiquiatra pediátrico Francisco Assumpção, da Universidade de São Paulo (USP): - Quadros psiquiátricos entram na moda e pessoas sem formação adequada os diagnosticam. Provavelmente vamos ver acontecer com o transtorno bipolar o mesmo que se passou com o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. De repente, começamos a ter crianças que eram apenas malcriadas sendo tratadas como doentes e tomando uma série de remédios sem necessidade.
APOSTA NA REEDUCAÇÃO Um adolescente de 16 anos que esquartejou um amigo na cidade de Blumenau, Santa Catarina, vai cumprir pena sócio-educativa pelo período de três anos. Foi o que decidiu ontem o juiz Álvaro Pereira de Andrade, da Vara da Infância e Juventude. Gabriel Kuhn, 12 anos, foi esquartejado ainda vivo pelo amigo na manhã do dia 23 de julho. Ele teve as duas pernas arrancadas com uma serra e morreu devido à hemorragia. Espera-se que nesses três anos o adolescente descubra que não se deve serrar as pernas dos amigos, especialmente quando estão vivos.
SOB A DITADURA DO COLESTEROL A medicina tem modismos. Entre os de minha geração, devo ser um dos raros a ainda preservar o apêndice e as amigdalas. Por uma simples razão: em minha infância, eu vivia no campo, longe de cirurgiões. Quem vivia na cidade, à menor dor de barriga era submetido a uma apendicectomia. Bastava uma inflamaçãozinha na garganta e extirpava-se as amigdalas. Esta cirurgia não deixava de ter seus atrativos para a meninada. Fazia parte da recuperação tomar sorvetes. Cirurgião é um perigo. Nas vezes em que tive contato com algum, senti que ele me olhava como um açougueiro olha um boi. Onde é que eu corto? No acém, na picanha, no lagarto? Não tenho mais notícias que hoje submetam crianças a estas cirurgias precoces. Foi um momento da medicina, que hoje pertence ao passado. Mas outros pertencem ao presente. Uma das pragas urbanas contemporâneas é o colesterol. Verdade que só têm colesterol as pessoas que fazem exame de colesterol. De qualquer forma, em qualquer grupo de quarentões pra cima, colesterol é tema obrigatório de conversação. Há no entanto quem pense existir uma indústria do colesterol. Entre eles, o cardiologista francês Michel de Lorgeril, pesquisador no departamento de ciências da vida do Centro Nacional de Pesquisa Científica francês (CNRS) e conhecido por seus trabalhos sobre a dieta mediterrânea. Em entrevista de Sandrine Blanchar publicada no Monde, em junho passado, Lorgeril falava de seu último livro, Dites à Votre Médecin que le Cholestérol Est Innocent, Il Vous Soignera sans Médicament. Ou seja: Diga a seu médico que o colesterol é inocente, e ele o tratará sem medicamento. - A "teoria do colesterol" em sua forma atual não passa de um castelo de cartas - diz Lorgeril. - Quando utilizamos o senso crítico e analisamos cientificamente os dados da biologia experimental, da epidemiologia e de ensaios sobre casos clínicos, tudo desmorona. O colesterol não entope as artérias; o risco de morrer de infarto não é proporcional ao nível do colesterol no sangue e fazê-lo baixar não reduz o risco de morrer de parada cardíaca. Não sou o único a dizer isso. Pesquisadores principalmente dos EUA e da Escandinávia são contrários a essa corrida louca de uma medicina preventiva focalizada numa guerra inútil contra o colesterol. Mas essa opinião é confiscada, e a indústria surfa nessa onda sem nenhuma contestação. Anos atrás, quando fiz meus primeiros exames de colesterol, viajei para a França com recomendação expressa de meu médico: moderação nos vinhos, cuidados com os queijos e patês e principalmente com o foie gras. (Já comentei isto, mas cabe repetir). Como creio não ser boa estratégia enganar médicos, me ative à sua prescrição. Ocorre que viajei em mês de meu aniversário, e meus amigos em Paris me esperavam com muito vinho, camemberts, rocqueforts e foie gras. Sem falar em boudins e andouilletes. Eu, anacoreta malgré moi, beliscava timidamente aquele banquete todo. Me mantive estóico. Resisti bravamente às tentações da bonaxira. Ao voltar, como literatura de bordo, comprei um Nouvel Observateur. Que tinha, como chamada de capa, "Le paradoxe du Périgord". É um paradoxo até hoje não explicado pela literatura médica. No Périgord, uma das regiões da França onde mais se bebe vinho, onde mais se consome patês e queijos, seus habitantes têm uma saúde cardiovascular invejável. Voltei a meu médico de Nouvel Obs em punho. "Conhece o paradoxo do Périgord, Dr?" Não conhecia. Alegou que não lia francês. "Tudo bem, eu traduzo". E fui traduzindo. Depoimentos médicos asseguravam não haver nada demais em meia garrafa de vinho às refeições. Ou em duas doses de uísque por dia. E recomendavam, inclusive, misturar um pouco de boudin no leite das crianças. Segundo Lorgeril, a teoria do colesterol "beneficia todo mundo: a indústria farmacêutica e o agronegócio, os laboratórios de análises, os fabricantes de kits de medição mas também os médicos, que podem encontrar uma vantagem nessa medicina automatizada e remuneradora; e finalmente os pacientes, que são levados a acreditar que ficarão protegidos sem fazer esforços. Não somente o colesterol é um falso inimigo como é um mau prenúncio do infarto. Pode-se ter colesterol considerado alto e viver muito tempo sem infarto, e pode-se morrer jovem de infarto tendo colesterol normal. São igualmente absurdos os conceitos de bom e mau colesterol". Para o pesquisador do CNRS, é preciso agir sobre os megafatores de risco, que são o tabaco, a falta de exercício físico e os hábitos alimentares. O repórter do Monde considera que cerca de seis milhões de franceses tomam estatinas. Qual deveria ser um bom número? - É impossível dar uma resposta precisa - diz Lorgeril - mas creio que se deveria dividir esse número pelo menos por 20. Estamos terrivelmente desprovidos, principalmente na França, de dados epidemiológicos e clínicas independentes. Os testes recentes de estatinas são gravemente tendenciosos, e os resultados publicados são fragmentados, às vezes incoerentes, e não permitem uma análise lúcida de seus efeitos reais. As estatinas deveriam ser reservadas a casos particulares, mas não há estudos que permitam identificar os pacientes que se beneficiariam delas. Por outro lado, os objetivos não-declarados foram induzir o maior número de prescrições possível. Chegamos a um ponto de caricatura sem equivalente na história da medicina. Longe de mim emitir opiniões definitivas em matéria de medicina. Sou leigo, paciente e cliente da área. Mas penso que estas considerações, partindo de um cardiologista pesquisador do CNRS, não podem deixar de ser levadas em consideração. Pelo jeito, assim como um dia vivemos sob a ditadura da apendicectomia e da extirpação de amigdalas, hoje estamos vivendo sob a ditadura do colesterol. Mas não era disto que pretendia falar. E sim de algo que tem me obcecado nos últimos anos. A indústria da bipolaridade.
A INDÚSTRIA DA BIPOLARIDADE Um dos sonhos de quem viaja para longe é o teletransporte. Aquela fórmula mágica que vemos em filmes de ficção científica, tipo Viagem às Estrelas. O viajante de desmaterializa num lugar e se rematerializa no outro. Maravilha! A meu modo, encontrei meu teletransporte. É o Dormonid. Quando tenho de atravessar um oceano, tomo um pilulinha, me apago e acordo em Paris. Tem seus riscos. Ano passado, indo de ônibus de Dom Pedrito para Porto Alegre, tomei um e acordei na garagem da empresa. Pode acontecer. Mas não era disto que pretendia falar. De alguns anos para cá, uma palavra foi entrando aos poucos em minha correspondência: transtorno bipolar. Ora, tenho seis décadas de existência, e durante pelo menos cinco destas décadas jamais havia ouvido falar disso. Terá a sociedade contemporânea produzido uma nova doença? Ou será fabricação da indústria farmacêutica? Até pouco tempo, um nível de glicemia entre 70 e 120 era permissível. Acima dos 120 considerava-se que o paciente era diabético. De repente, lá nos States alguém decretou que o nível máximo de glicemia é 110. Automaticamente, aumentou o número de diabéticos... e o consumo de medicamentos para diabéticos. United States dixit. Dia seguinte, o limite para diabetes no Brasil era 110. Há médicos que querem 90. Alguns raros, menos ianquizados, aceitam 120. Mais um pouco, e todo mundo é diabético. Para alegria da indústria farmacêutica. Não, o transtorno bipolar não seria doença nova. Seria a antiga psicose maníaco-depressiva. Até aí, inteligível. Uma mudança na nomenclatura. Fosse apenas isso, tudo bem. Ocorre que comecei a receber mails perturbados e perturbadores, de pessoas com boa renda e posses, que aparentemente nada tinham para queixar-se da vida, mas alegavam ter sido acometidas pelo tal de transtorno bipolar. A palavrinha começou a chegar-me a partir de correspondência vinda dos States. E passou a invadir o vocabulário nacional. Não gosto de citar cifras, mas reportagem publicada ontem na Folha de São Paulo mostra que o número de crianças e adolescentes diagnosticados com transtorno bipolar aumentou quase 40 vezes nos EUA de 1994 a 2003. Entre 1994 e 1995, eram 25 em cada 100 mil os pacientes de até 19 anos que, ao se consultarem com um psiquiatra, recebiam esse diagnóstico. O número pulou para 1.003 a cada 100 mil entre 2002 e 2003, de acordo com o estudo. No caso dos maiores de 20 anos, a elevação foi muito menor no mesmo período: 46%, passando de 905 diagnósticos para 1.679 em cada 100 mil pessoas que procuraram um médico. Se em 94 eram 25 em cada cem mil e em 2002 são 1003, ou a saúde mental dos americanos está em baixa acelerada ou, o que é mais provável, a indústria farmacêutica está alargando a faixa de doença. Se o transtorno bipolar aumentou nos Estados Unidos, é claro que aumentaria no Brasil. O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil. Segundo a reportagem da Folha, especialistas afirmam que houve um aumento no número de diagnósticos de transtorno bipolar entre crianças e adolescentes no Brasil nos últimos anos. Hoje, 135 crianças com bipolaridade são atendidas no Hospital de Clínicas de São Paulo. Em 1995, eram 22. Segundo Lee Fui, médica-supervisora do Serviço de Psiquiatria da Infância e da Adolescência da Faculdade de Medicina da USP, "nossa quantidade de diagnósticos aumentou umas dez vezes em relação àquela época". Mas Lee Fui deixa escapar um certo ceticismo: "há quem ache agora que tudo é transtorno bipolar". Nos Estados Unidos, estudos apontam que a 90,6% dos jovens diagnosticados como bipolares foi prescrito algum tipo de medicação, como estabilizadores de humor e antidepressivos, o que, para muitos especialistas, sinaliza um problema grave: as crianças acabam recebendo remédios errados ou desnecessários. Medicamentos como Prozac, Verotina, Eufor, Tryptanol, Zyban, Cipramil, Cymbalta, Lexapro se tornaram tão normais como ter um psicanalista. Há uma espécie de ser humano que não consegue viver sem antidepressivos ou, na falta destes, um psicanalista. Prozac é o mais prestigioso. Você perdeu uma pessoa que amava? Tome Prozac. Está deprimido porque não passou no vestibular? Prozac. Sentiu-se traído pelo parceiro ou parceira? Prozac e a vida volta à sua normalidade. O homem contemporâneo parece não ser mais capaz de enfrentar de cara os problemas que a vida apresenta e recorre à calma química. Ou aos vigaristas discípulos de Freud. De minha parte, só não dispenso o Dormonid. Para encurtar travessias de oceanos, e nada mais que isso. A indústria farmacêutica, que há muito já conquistou o mercado adulto, está investindo agora na infância. As crianças estão engolindo, goela abaixo, forçadas por pais e médicos, a indústria da bipolaridade.
Quarta-feira, Setembro 05, 2007
DOIS BODES CONTRA O CAOS Emílio Calil me envia notícia do Kathmandu que pode ser uma interessante sugestão para resolver o caos aéreo brasileiro. A Nepal Air Lines, que tem dois Boeing 757, teve uma pane em um deles, o que levou a empresa a suspender alguns de seus serviços nas últimas semanas. Para resolver o problema, dois bodes foram sacrificados para acalmar Akash Bharaib, o deus hindu dos céus. Bem que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, poderia tentar o mesmo. Deve ser recurso mais eficiente que aumentar o espaço entre os assentos.
DONA MARIA THEREZA TAMBÉM QUER BOLSA Dona Maria Thereza e seus dois filhos, João Vicente e Denise, pelo jeito andam mal de grana. Entraram com processo contra os Estados Unidos, pedindo indenização por danos, patrimoniais e à imagem. Alegam que o país teria contribuído decisivamente para a ocorrência do golpe militar de 1964, financiando candidatos congressistas opositores a Goulart e disponibilizando apoio militar e logístico para viabilizar o golpe. Dona Maria Thereza é a viúva de Jango Goulart. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) deve julgar, amanhã, se os Estados Unidos podem ou não responder à Justiça brasileira pela intervenção a favor do golpe militar de 1964, que depôs o então presidente João Goulart. Se o golpe colar, regozijem-se os bandoleiros e vagabundos hoje regiamente aposentados por seus desserviços ao país. Nova rodada de negociações estará aberta. À bolsa-ditadura, some-se a bolsa-intervenção do império. Dependendo da criatividade do STJ, vai sobrar até mesmo para vietnamitas, chilenos, afegãos e iraquianos.
Terça-feira, Setembro 04, 2007
A INDÚSTRIA TEXTIL (Um de meus interlocutores quer saber se algum dia estive nas Jornadas Nacionais de Literatura, em Passo Fundo, e se ainda as acompanho. Atualmente, não tenho acompanhado. Fui convidado para a 7ª Jornada, em setembro de 1997. Abaixo, minha comunicação. Os leitores intuirão porque nunca mais fui convidado) Homens deste final de século, costumamos olhar para nomes como Cervantes, Swift, Voltaire com uma admiração desmesurada. Considerados as expressões máximas da literatura satírica universal, a posteridade conferiu-lhes - por unanimidade - a condição de gênios. O mesmo já não diriam seus contemporâneos. Cervantes, por exemplo, escreveu o Quixote na prisão. Sua prisão nada teve a ver com literatura. Mas na frase inicial de seu grande poema, notamos um certo ressentimento: "En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivía un hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor". Hoje sabemos que este lugar é Argamasilla de Alba. Em função de certas cobranças de impostos em Argamasilla, Cervantes foi preso. Na solidão do cárcere, concebeu as andanças do Quixote. Antes disso, fora prisioneiro durante cinco anos e meio em Argel e perdera a mão esquerda na batalha de Lepanto. No prólogo a Novelas Ejemplares, Cervantes faz seu auto-retrato. Nesta confissão de um homem machucado pela vida, lamenta seus dentes, "ni menudos ni crecidos, porque no tiene sino seis y son mal acondicionados y peor puestos, porque no tienen correspondencia los unos con los otros". Também glorifica a mão perdida em Lepanto, "herida que, aunque parece fea, él la tiene por hermosa, por haberla cobrado en la más memorable y alta ocasión que vieron los pasados siglos ni esperan ver los venideros". Ali está o homem, mutilado pela vida, mas inteiro e orgulhoso de seus feitos. Mais tarde, ciente da grandeza de sua obra, Cervantes dirá de Cervantes: "tú, que en la naval dura palestra perdiste el movimiento de la mano izquierda, para gloria de la diestra!" Swift, que curiosamente é mais conhecido no Brasil como um autor de histórinhas infantis, não foi exatamente um homem benquisto pelos seus contemporâneos. Deão de Saint Patrick, em Dublin, Irlanda, escreveu anonimamente a maior parte de suas obras. Diz a lenda que sua obra maior, As Viagens de Gulliver, teria sido jogada de uma carruagem pela janela adentro do editor. Mas seu estilo era inconfundível. Para que se tenha uma idéia do humor do deão e de seu conflito com a própria época, bastaria citar esta reflexão sua: "Quando um verdadeiro gênio aparece no mundo, podeis conhecê-lo por este sinal: todos os cretinos se aliam contra ele". As Viagens de Gulliver é certamente a mais virulenta denúncia do gênero humano jamais feita por um escritor. Sua atualidade é espantosa: nos anos 70, publiquei em Porto Alegre uma sátira de Swift aos advogados, que encontramos na viagem ao País dos Houynhnhms. Minha crônica, na qual eu citava devidamente o autor, foi republicada sem minha permissão em um jornal de Peruíbe, São Paulo, em 1983. Algum tempo depois, os editores do jornal andavam à minha procura, me implorando que escrevesse uma carta ao juiz local, dizendo ser a crônica de minha autoria, sem nenhuma alusão a personagens vivos ou mortos de Peruíbe. Ocorreu que três advogados de Peruíbe se sentiram difamados com o texto e julgaram que Janer Cristaldo fosse um pseudônimo do editor da Tribuna de Peruíbe. Um juiz, demonstrando nada dever em matéria de cultura aos três advogados, aceitou a denúncia e processou o diretor do jornal. Que também jamais havia ouvido falar de Swift. Imagino que, naqueles dias, o deão deve ter dado boas gargalhadas em sua tumba na catedral de Saint Patrick. Swift escreveu As Viagens em 1726. Dois séculos e meio mais tarde, foi processado por calúnia em Peruíbe. Entrincheirado em sua catedral, isolado do mundo e distante até mesmo de suas duas amadas, Stella e Vanessa, o deão passou seus dez últimos anos mergulhado na loucura. Certa vez, ao ver uma árvore cuja copa fenecia, disse: "morrerei como aquela árvore". Assim feneceu. Voltaire, outro expoente maior da literatura satírica, esteve por duas vezes preso na Bastilha e teve de desterrar-se na Inglaterra, onde aliás conheceu Swift. Refugiado em Ferney, o "monastério filosófico do século", passou os últimos anos de sua vida defendendo os direitos da razão, sempre polemizando contra "l’infâme", ou seja, a Igreja Católica, segundo ele a fonte dos piores abusos e superstições. Voltaire morreu em 1778. O arcebispo de Paris e o clérigo de Saint Sulpice lhe negaram sepultura. Quase dois séculos mais tarde, tínhamos de ler A Revolta dos Anjos às escondidas, pois sua leitura era proibida aqui no Rio Grande do Sul, no ginásio de Dom Pedrito, dirigido por padres oblatos europeus. Enfim, me atenho a estes três rápidos exemplos para demonstrar que a grande literatura satírica sempre foi de denúncia, sempre foi incômoda, e sempre expôs seus cultores à execração de seus contemporâneos. Foram homens que lutaram contra a própria época. É bom lembrar que o Quixote foi escrito sob a Inquisição. Se Espanha, Inglaterra e França, berços de artistas, santos e hereges, produziram estes livres pensadores, o mesmo já não ocorre nesta nossa pátria nascida sob o signo do cartorialismo. Machado de Assis, tido como o humorista por excelência das letras tupiniquins, parece não ter entendido a mensagem desses mestres. Ao tecer sua carreira, seu primeiro passo foi criar um cartório particular, a Academia Brasileira de Letras, para que suas obras permanecessem esclerosadas pela eternidade. Antes que os pósteros o elegessem como clássico, Machado fundou seu clubinho e se auto-intitulou imortal. A GRANDE PROSTITUTA Até mesmo um crítico feroz da Academia, como Jorge Amado - que chegou a apedrejá-la em seus dias de juventude - acabou por vestir o fardão. O que não é de surpreender: Amado vestiu não só o fardão, mas todas as camisetas do poder, antecipando a imperiosa compulsão dos escritores contemporâneos pelas mordomias estatais. Quando jovem, aproveitando a ascensão de Hitler, foi colaborador do jornal nazista Meio Dia, e disto nos dá testemunho Oswald de Andrade, em entrevista republicada em Os Dentes do Dragão: "Diante de tantos erros e mistificações, retirei a minha inscrição do partido. Numa reunião da comissão de escritores, diante de quinze pessoas do PC, apelei para que o sr. Jorge Amado se retirasse de São Paulo e denunciei-o como espião barato do nazismo, antigo redator qualificado do Meio Dia. Contei então, sem que Jorge ousasse defender-se, pois tudo é rigorosamente verdadeiro, que em 1940 Jorge convidou-me no Rio para almoçar na Brahma com um alemão altamente situado na embaixada e na agência Transocean, para que esse alemão me oferecesse escrever um livro em defesa da Alemanha. Jorge, depois me informou que esse livro iria render-me 30 contos. Recusei, e Jorge ficou surpreendido, pois aceitara várias encomendas do mesmo alemão". Já maduro, e intuindo que Hitler não tinha futuro, Amado foi militante stalinista tão devotado a ponto de receber o Prêmio Stalin da Paz. Reproduzimos apenas um trecho de seu longo hagiológio ao Paizinho dos Povos, extraído de O Mundo da Paz: "Vós sabeis, amigos, o ódio que eles têm - os homens de dinheiro, os donos da vida, os opressores dos povos, os exploradores do trabalho humano - a Stalin. Esse nome os faz tremer, esse nome os inquieta, enche de fantasmas suas noites, impede-lhes o sono e transforma seus sonhos em pesadelos. Sobre esse nome as mais vis calúnias, as infâmias maiores, as mais sórdidas mentiras. ‘O Tzar Vermelho’, leio na manchete de um jornal. E sorrio porque penso que, no Kremlin, ele trabalha incansavelmente para seu povo soviético e para todos nós, paras toda a humanidade, pela felicidade de todos os povos. Mestre, guia e pai, o maior cientista do mundo de hoje, o maior estadista, o maior general, aquilo que de melhor a humanidade produziu. Sim, eles caluniam, insultam e rangem os dentes. Mas até Stalin se eleva o amor de milhões, de dezenas e centenas de milhões de seres humanos. Não há muito ele completou 70 anos. Foi uma festa mundial, seu nome foi saudado na China e no Líbano, na Rumânia e no Equador, em Nicarágua e na África do Sul. Para o rumo do leste se voltaram nesse dia de dezembro os olhos e as esperanças de centenas de milhões de homens. E os operários brasileiros escreveram sobre a montanha o seu nome luminoso". Não bastasse militar em jornal nazista e louvar o maior assassino do século, depois de velho Amado assumiu o papel de roteirista predileto de Roberto Marinho ao vender suas noveletas "ao gosto popular" para a Rede Globo e foi ainda o primeiro escritor de renome a saudar Fernando Collor de Mello por sua eleição. Não bastasse toda esta trajetória sinuosa - mas de rumo sempre certo, o poder - candidatou-se a uma cadeira na Casa de Machado, a mesma casa que insultara quando nela não estava. Claro que lhe foi conferida, por demais cúmplices, a glória da "imortalidade". Escorados intelectualmente no exemplo de Machado, o assim chamado "pai da literatura brasileira", grande parte dos escritores tupiniquins seguiram sua estratégia: escrever para agradar o grande público e, de preferência, o poder. Temos hoje, em plena vigência de um Estado democrático, três excrescências que poluem o mundo literário. A primeira é o livro estatal. A segunda são as mordomias recebidas por escritores amigos do rei. E a terceira é a neocensura stalinista exercida pelos amigos do rei a quem quer que tente criticá-los. Estas três excrescências são o subproduto do que chamo de indústria textil. Textil assim mesmo, sem acento circunflexo. Nada a ver com a indústria têxtil, esta honesta e necessária. O LIVRO ESTATAL O suporte da indústria do livro, hoje, é a universidade. Se um dia o livro foi um instrumento sem o qual a universidade não podia existir, hoje a universidade é um instrumento sem o qual a indústria do livro perde seu vigor. O que era fim, a aquisição de saber através da universidade, se tornou meio para sustentação de um comércio. E o que era meio, o livro como instrumento de deleite espiritual ou comunicação do saber, tornou-se fim, uma mercadoria como qualquer outra, para alegria de editores e massagens no ego de escritores com boas relações junto ao MEC e crítica acadêmica. Quanto à boa literatura, aquela que nos foi legada por poetas como Cervantes, Hernández ou Pessoa, criadores como Swift ou Nietzsche, esta deve andar escondida nalguma tasca qualquer. Se é que já não se suicidou de nojo do século. Leiamos esta manchete da Folha de São Paulo: MACHADO É ELEITO AUTOR IMPRESCINDÍVEL Comissão vai formar lista de 300 títulos nacionais: livro pouco conhecido do autor modernista foi indicado Na reportagem que anunciou a lista dos trezentos títulos, os editores esfregaram as mãos de ganância. O aumento das verbas do MEC com obras não-didáticas, segundo a Folha de São Paulo, era uma antiga reivindicação das editoras e a decisão do governo "deve chacoalhar o mercado". "Vamos comprar milhares de volumes de cada obra", disse na ocasião José Antônio Carletti, presidente do Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação. Cada autor selecionado tem uma edição mínima de 20 mil exemplares, tiragem de sonho mesmo em países de Primeiro Mundo. Multiplique-se esta cota mínima de 20 mil por trezentos, e já se tem uma pálida idéia do montante da mutreta: seis milhões de exemplares financiados com dinheiro do contribuinte. Mas que obras? Para começar Machado de Assis - mortal que se autoelegeu imortal ainda em vida -, seguido por uma caterva de autores da preferência de uma comissão de "notáveis, filósofos, sociólogos, escritores e educadores". Neste país incrível, onde notável virou profissão, onde qualquer diplomado em filosofia é chamado de filósofo, esta comissão determina a seu bel prazer qual é o cânon tupiniquim. A única escritora a participar desta comissão foi Lygia Fagundes Telles. Naturalmente, teve um livro seu, Ciranda de Pedra, classificado na lista dos trezentos. Do dia para a noite, sua cotação subiu nesta suspeita bolsa de valores. Segundo a revista Veja, seu passe foi comprado pela editora Rocco, para a publicação de doze livros, por 500 mil reais. Quem, aqui no Rio Grande do Sul, ouviu falar de Eduardo Portela, ou conhece alguma obra sua? É até mesmo possível que seu nome seja conhecido por alguns gaúchos, afinal foi aquele ex-ministrinho obscuro, de obra desconhecida, que barrou este poeta maior, o gaúcho Mário Quintana, em sua candidatura à Academia de Letras. Por um livro que ninguém conhece, A Literatura e a Realidade Nacional, Portela recebeu 30 mil reais. Por esta rápida mostragem já se vê que ser imortal ainda em vida é investimento dos mais lucrativos. Em meio a estes trezentos - ou fora deles - estão os livros obrigatórios em vestibulares. Uma indicação para vestibular em São Paulo, por exemplo, significa tiragens milionárias, a tal ponto que inclusive os principais jornais do país entraram nesta guerra, oferecendo uma vez por semana títulos a preço de picolé. O que poderia ser muito bom para a literatura. Não fossem estes títulos obras insípidas, obsoletas, obscuras e muitas vezes ininteligíveis, que jamais levam o leitor àquela função maior da literatura, a contestação da própria época. Quando um autor entra nas listas oficiais de vestibular, é porque já envelheceu. Me atenho a um único exemplo, Clarice Lispector, cujas obras também estão sendo negociadas por uma soma que os editores preferem não divulgar. Durante meus anos de magistério, coagido pelas ementas do currículo, tentei em vão fazer com que meus alunos lessem Lispector. Era uma tentativa absurda, já que nem mesmo eu suportava lê-la. Clarice é uma imposição curricular que vem de insondáveis instâncias do poder e só serve para afastar um aluno da literatura. Em 95, falei deste impasse em uma palestra sobre Camilo José Cela, na PUC de Porto Alegre. Ao final da palestra, uma professora me procurou e confessou aliviada: "Fiquei confortada, professor. Eu também não suporto Clarice, meus alunos não suportam Clarice e somos obrigados a ler Clarice". Os exemplos destas leituras indigestas e obrigatórias são centenas. Fico nestas, já que temos outros problemas a abordar nestes escassos vinte minutos. OS AMIGOS DO REI Em junho passado, um quarteto de escritores brasileiros - Rubem Fonseca, Patrícia Mello, João Gilberto Noll e Chico Buarque - desembarcaram em Londres, onde fizeram leituras públicas de suas obras e lançaram livros não só na capital britânica, como também na Escócia e no País de Gales. Em um primeiro momento, poderíamos pensar: "que maravilha, o Reino Unido se interessa por nossa literatura". Nada disso: é o Ministério da Cultura brasileiro que promove tais turismos e financia as traduções dos autores brasileiros. Vejamos estas manchetes, todas da Folha de São Paulo: BRASILEIROS LANÇAM LIVROS NA GRÃ-BRETANHA Autores promovem suas obras dentro de projeto patrocinado pelo Ministério da Cultura RUBEM FONSECA LÊ CONTO EM LONDRES Segundo Eric Nepomuceno, secretário de Intercâmbio e Projetos Especiais do Ministério da Cultura, "a essa ação do Reino Unido devem ser somadas outras, já em andamento, que compõem o programa de apoio à difusão de nossa literatura no exterior, elaborado pelo Ministério da Cultura. Este programa já tem comprometido o lançamento de pelo menos 42 títulos de literatura contemporânea até 1998 em cinco países, além do programa do escritor-residente em cinco universidades norte-americanas e mesas-redondas em vários países. Acho que é justo solicitar menção a essas iniciativas. Afinal, tudo isto está sendo pago por fundos públicos, geridos por este ministério, e creio que é nosso dever informar devidamente o uso dado a esses recursos". Ou seja: quem paga o turismo destes escritores, todos amigos do poder, sejam vivos ou mortos, é o contribuinte. Nesta brincadeira, apenas para a tradução dos livros, foram gastos US$ 35 mil, financiados pelo Ministério da Cultura. O governo brasileiro, isto é, o contribuinte brasileiro, também contribui com parte dos custos de viagem. Ou seja, este país cheio de mendigos atirados nas ruas de suas capitais se dá ao luxo de usar dinheiro público para que alguns amigos do rei - ou, dizendo melhor, amigos de Francisco Weffort, o atual ministro da Cultura - editem suas obras na Europa. Mas será que este contribuinte foi consultado na hora de financiar edições e mordomias a estes escritores que nem conhece? A propósito, quem é Patrícia Mello? Alguém conhece quais títulos de vulto esta senhora escreveu para julgar-se capaz de representar a literatura brasileira na Europa? A NEOCENSURA STALINISTA Falar de sátira é falar de crítica. Antes de concluir esta comunicação, quero denunciar três casos de uma neocensura que se instalou depois de 64, tão ou mais eficaz que a antiga. Caso 1: em 1994, em São Paulo, o poeta Bruno Tolentino criticou uma tradução de um poema de Hart Crane, feita por Augusto de Campos. Recebeu como resposta um abaixo-assinado de uma centena de escritores, poetas e estrelas do showbusiness, exigindo sua cabeça. No abaixo-assinado, em momento algum se discutia o mérito da tradução ou o mérito da crítica à tradução. Os abaixo-assinantes apenas demonstravam sua indignação ante a crítica de Tolentino ao PhDeus uspiano Augusto de Campos. Entre esta centena de neocensores estão nomes que sempre se manifestaram pela liberdade de expressão e pensamento, como João Alexandre Barbosa, Roberto Romano, Júlio Bressane, João Cabral de Melo Neto, Miriam Chnaiderman, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Lúcia Santaella, Marilena Chauí, Gal Costa. Da centena de assinantes do manifesto, talvez quatro ou cinco conheçam os poemas de Hart Crane e certamente nenhum entende pivicas de tradução. Mas todos assumiram, com unanimidade albanesa, a defesa de Augusto Campos. Entrincheirado no Olimpo uspiano, Campos está acima de qualquer crítica. E seus sequazes apedrejam quem quer que o critique. Caso 2: em 1996, em Porto Alegre, o jornalista Juremir Machado da Silva, escritor e doutor em Sociologia pela Universidade de Paris V, fez uma ligeira crítica a seu colega de jornalismo na Zero Hora, o cronista Luiz Fernando Verissimo este outro senhor que se julga acima de qualquer crítica. Reunido com Juremir, Verissimo impôs uma condição: "ou o Juremir se retrata, ou eu saio do jornal". Pois Verissimo não aceita críticas. O Sindicato dos Jornalistas apoiou Verissimo e, pela primeira vez na história do jornalismo brasileiro, vimos um sindicato apoiando a decapitação de um colega. Verissimo, o humorista gaúcho de renome nacional, adora rir e fazer rir seus leitores. Desde que não lhe teçam a mínima crítica. Com sua atitude stalinista, teve uma vitória de Pirro: do alto de sua prepotência de ginasiano, jogou no ostracismo um jovem doutor pela Universidade de Paris V. Caso 3: No mês passado, entre outras obras, foi apreendido na Feira do Livro do Rio Janeiro, A História Secreta do Brasil, de um imortal morto, Gustavo Barroso, membro da Academia Brasileira de Letras. Não ouvi um só chiado de nenhum imortal vivo, ou mesmo moribundo, contra este gesto hitlerista de um juiz carioca. Concluindo: houve época em que sátira significava prisão, exílio, repúdio dos contemporâneos. Neste país tropical, abençoado por Deus, o gênero adquiriu novos significados: imortalidade avant la lettre, mordomias estatais, tiragens divinas, turismo financiado pelo erário, saque ao bolso do contribuinte e mais: censura, ostracismo e desemprego a quem ousar denunciar esta corrupção. Está inaugurada, neste Brasil, a indústria textil. (Passo Fundo, 05.09.97)
SOBRE PASTORES E PROXENETAS A Justiça acaba de aceitar uma ação civil em que o Ministério Público do Estado de São Paulo acusa os líderes da igreja evangélica de utilizar o canal Rede Gospel para obter dinheiro dos fiéis e ordenou uma intervenção na entidade que é dona do canal de TV, a Fundação Evangélica Trindade. Por meio de uma liminar, o juiz Marco Aurélio Costa, da 2ª Vara da Família de São Paulo, determinou a saída de Estevam Hernandes - atualmente preso nos EUA - da presidência da Fundação Trindade. Para seu lugar, indicou um interventor. De acordo com a ação aceita pelo juiz, a fundação ligada à Igreja Renascer utiliza o canal de TV como "grande motor propulsor de arrecadação de dinheiro de fiéis. Isso vai contra as disposições com as quais a fundação foi criada. Portanto, é ilegal". É o que diz o noticiário on line. Por que Hernandes? - é o que me pergunto. A televisão brasileira está cheia de pastores extorquindo escancaradamente dinheiro dos fiéis, em emissões na madrugada. Os templos, imensos, estão sempre repletos de vítimas a serem depenadas. A estratégia é simples. Por um lado, ameaças com o poder do demônio e exorcismos. Por outro, promessas de uma vida paradisíaca aqui na terra. Carros importados, relógios de ouro, apartamentos duplex, casas em Alphaville, carro com motorista, conta corrente gorda, iates e mansões. Você quer ter acesso a tudo isto que o bom Deus quer para você? Basta ir à Assembléia dos 318 pastores e as bençãos do Senhor cairão sobre sua cabeça. Você tem dor de dente, dor no pescoço, dores na coluna, dores no braço, lumbago, catarata, diabetes, hipertensão, Aids? Basta freqüentar a Igreja e você será curado. Os milagres são feitos em tempo real, à base de 20 ou 30 por sessão. Louvado seja o Senhor. Você foi escolhido por Deus como patrocinador. E se Deus o escolheu como patrocinador, você não pode recusar essa graça. O irmão vai passar o boleto bancário. Se você não sabe preencher, o irmão preenche. Se você não tem caneta, o irmão empresta. Tudo isto em plena tela, para quem quiser ouvir. Extorsão pública e ostensiva, que não teme ser denunciada nem punida. Exploração da credulidade popular. Exercício ilegal da medicina. E agora um juiz aceita a denúncia da Renascer como "grande motor propulsor de arrecadação de dinheiro de fiéis"? Na liminar, o juiz lembra que Estevam Hernandes e sua mulher, Sonia, foram presos e condenados no mês passado ano nos EUA por terem tentado entrar no país com dólares não declarados. É o que deve ter enchido o meritíssimo de coragem. Porque Hernandes passou sua vida toda extorquindo dízimos de seus seguidores e só agora o juiz foi constatar o fato. Enfim, antes tarde do que nunca. Mas... e as demais igrejas evangélicas continuarão arrecadando dinheiro dos fiéis impunemente? O caso lembra o episódio da prisão de Oscar Maroni, empresário que opera no ramo da prostituição. Foi preciso que um avião da TAM caísse em Congonhas, matando 200 pessoas, para que a polícia descobrisse que Maroni tinha um bordel ao lado do aeroporto. Maroni está preso. Deve estar perplexo. Pois continuam livres como passarinhos os donos de mais 4.400 pontos de prostituição em Paulo. Em verdade, seu crime não foi explorar a prostituição. Isto todo mundo faz impunemente. Seu crime foi ter declarado à televisão, em alto e bom som: "deixemos de hipocrisia, isto é prostituição de luxo". Foi uma ofensa à Justiça. Onde se viu alguém admitir publicamente que existe prostituição de luxo no Brasil?
Segunda-feira, Setembro 03, 2007
FÁCIL NÃO TER QUANDO SE TEM Papa encoraja jovens a seguirem contra a corrente e preferir o ser ao ter – é o que dizem os jornais. Bento XVI rezou missa ontem, no santuário mariano de Loreto (leste da Itália), para quase 500 mil jovens. Fez a eles um pedido: que sigam contra a corrente e se afastem dos modelos de vida marcados pelo ter e o sucesso a todo custo e em vez disso escolham o caminho da humildade e do ser. Pareceu-me inclusive que a homilia de Sua Santidade era dirigida a este humilde escriba, pelo menos em sua primeira peroração. Desde jovem sempre nadei contra a corrente. Sei que de pouco adianta, mas continuo nadando contra a corrente. Particularmente contra essa corrente que quer impor ao ser humano crenças em deuses inexistentes e em dogmas absurdos, infensos à razão. Quanto à opção entre ser e ter, lembro já ter ouvido isto de João Paulo II. Os papas são sacerdotes que um dia fizeram, entre outros, o voto de pobreza e a Igreja Católica sempre viu o cristianismo como uma defesa incondicional dos pobres. Claro que não é difícil defendê-los vivendo em um palácio magnífico, ornado com obras de arte monumentais, tendo um séquito de servidores a seu dispor, dispondo de cozinha especial e de uma biblioteca de sonho. Mas é claro que tudo isto não pertence a Ratzinger. São apenas regalias do cargo de vice-Deus. Há algo que invejo nos papas. Não só neles, como nos grandes do mundo. Aposto como estes senhores vivem boa parte de suas vidas sem um vintém no bolso. Jamais puxam a carteira nem o cartão de crédito. Suas mãos jamais tocam cédulas sujas. Eles simplesmente são, nada têm. Como não sou papa, nem presidente da República nem sultão do Brunei Darussalam, não posso me dar ao luxo de apenas ser e nada ter. Os papas não estão dizendo nada de original ao fazer esta oposição entre ter e ser. A discussão marcou os anos 50 e 60, em função de uma obra do escritor, dramaturgo e músico católico Gabriel Marcel, intitulada Être et avoir, publicada em Paris, em 1935. Esse livro caiu-me nas mãos em minhas universidades e constituiu motivo de muitos seminários entre os movimentos da Ação Católica. Como a memória me falha, chamo o professor Rubem Queiroz Cobra, estudioso da obra de Marcel, para resumir as relações entre o ter e o ser: "Ter implica um dualismo composto de um indivíduo que possui e uma coisa que é possuída, exterior ao possuidor. Ser, ao contrário, não admite qualquer dualismo. Então o homem não tem o seu corpo, ele é o seu corpo. Pela posse, o homem ganha o poder de reter, conservar, proteger e usar de um objeto (objetivação). Marcel viu que a aproximação dupla de abstração e posse está na raiz dos problemas sociais. Enquanto ambos - abstração e posse - são parte da vida, elas podem crescer excessivamente e dominar e ao fim destruir o ser do homem". De uma só penada, Marcel faz um aceno a uma Igreja que se pretende pobre, aos marxistas que dizem abominar o capital e a todos os demais inimigos da riqueza e progresso aportados ao Ocidente pelo capitalismo. É, sem dúvida, um autor ecumênico. Pena que na prática a teoria é outra. É muito fácil optar pelo ser, quando se é papa. Um papa, a rigor, não tem nada. Ele só é. Sem ter nada, no entanto tem tudo. Quando transportado ao universo dos pobres mortais, este nobilíssimo ideal muda de cariz. Ninguém vive bem sem ter posses mínimas que garantam um mínimo de conforto. Ora, direis, os selvagens nada possuem e vivem felizes nas selvas. Felizes, em termos. O universo indígena está cheio de pessoas desnutridas, crianças morrendo de fome, isso quando não são mortas pelos próprios pais. Índio, quando adoece, não vai procurar o pajé, mas quer hospital e medicina de ponta. De qualquer forma, Bento XI não estava falando aos selvagens, mas a seus contemporâneos na Itália. Digamos que você despreze os valores do ter e tenha escolhido o caminho da humildade e do ser, vivendo feliz sua vidinha de operário remunerado, não digo com um, mas com dois ou três ou mesmo quatro salários mínimos. Você vai habitar mal, vai comer mal, não conseguirá pagar seguro-saúde e talvez nem consiga pagar um jornal por dia. Terá de fazer das tripas coração para colocar um filho na universidade. Viagens, que constituem as melhores aventuras do espírito, nem pensar. Vinhos ou gastronomia, só em sonhos. Em verdade, seguindo o ideal franciscano proposto por Bento XVI, você não está vivendo. Está vegetando. Nasci em família pobre e a questão do ter em princípio não me preocupava. Por uma razão simples: eu nada tinha. Durante minha vida universitária, eu gabava-me de fazer minha mudança de táxi. Cheguei inclusive a escrever essa bobagem em algum jornal. Jovem algum que escreva escapa de escrever bobagens. Na época, li em um livro de Bernard Shaw: "Dinheiro é saúde, beleza, cultura, sabedoria, requinte". Talvez a frase não seja bem essa, estou citando de memória. Mas o sentido era esse. A frase golpeou-me como uma bofetada, era a antítese de tudo que eu pensava. Hoje, dou plena e total razão a Shaw. Não falo de bilhões, nem mesmo de milhões, mas um mísero milhãozinho sempre vem bem. Até menos. Algo que nos permita educar os filhos, construir uma biblioteca, comprar boa música, dar um pulinho de vez em quando a Paris ou Roma, degustar vinhos decentes, comer não para saciar o estômago, mas para saciar o palato. Como João, Bento está clamando no deserto. Suas frases entrarão por quinhentos mil ouvidos e sairão pelos outros quinhentos mil ouvidos. Os jovens sempre gostam de participar desses encontros com o papa. É uma excelente ocasião para paquerar, beber, fumar, cheirar e transar.
MISÉRIA MENTAL DO SUPREMO TRIBUNAL Comentei sábado passado a estranha lógica do novo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Alberto Direito. O novo ministro é católico e afirmou que a fé "nunca interferiu nos meus julgamentos. Pelo contrário, ela sempre os iluminou". Ou seja, não interfere interferindo. Direito afirma algo e na frase seguinte o nega. O que me lembra o paradoxo do gato de Schrödinger, que existe e não existe ao mesmo tempo. Do voto desde senhor, dependerão decisões vitais para o corpo jurídico da nação. Brasileiros, estamos bem arranjados. Um outro ministro, o Eros Grau, além de autor de livros eróticos, é comunista. Sua obra erótica, pelo que sei de oitiva, gira em torno de uma "vagina flatulenta". Sua elegância pessoal, ao que tudo indica, se reflete na elegância de sua literatura. Recentemente, sem que ninguém nada lhe perguntasse, manifestou-se a favor da invasão da Faculdade de Direito da USP por alunos e apparatchiks do MST. É um ministro barato. Antes de tomar posse no STF, Grau emitiu parecer para uma associação de professores, cobrando 35 mil reais para pronunciar-se contra a contribuição dos inativos. Uma vez ministro, votou a favor. Segundo o jornalista Jânio de Freitas, o ministro passou a receber, quando empossado, a metade de seu preço de parecerista. "Eros Grau ficou, de fato, muito mais barato", disse Freitas na ocasião. Mas o melhor ainda está por vir. Em entrevista para a Folha de São Paulo, declarou hoje um outro ministro, Carlos Ayres Brito: "Faço meditação oriental há 13 anos e aprendi com os místicos mais acatados, como Buda, Cristo, são Francisco de Assis e, mais recentemente, Krishnamurti e Osho". A mente do ministro está mais para salada de frutas que para um cérebro que tem, entre outras funções, a de guardar a Constituição. Para começar, o Cristo e o Francisco nada têm a ver com Buda. São como azeite e água. Cristo se dizia Deus, Francisco acredita que Cristo era Deus e o Buda é ateu. Até aí se entende. Vivemos em uma época em que as pessoas constroem deuses à la carte para consumo próprio e fazem uma fezinha em cada crença, afinal seguro morreu de velho. Até escritores de talento cultivam estes coquetéis místicos. Nikos Kazantzakis, por exemplo, cultuava três homens santos: Cristo, Buda e Lênin. O que me choca é ver um ministro da Suprema Corte citar Osho como um de seus mestres. Osho foi um vigarista hindu que se chamava Rajneesh Chandra Mohan Jain. Com o nome mais sujo que pau de galinheiro, passou a chamar-se Osho. Dizia-se Deus, fez fortuna enganando jovens e provocou um escândalo internacional com suas cerimônias tântricas, em verdade alegres orgias sexuais. Possuía terrenos, hotéis, uma rede de casa de massagens na Europa - isto é, prostituição - e uma frota de 91 Rolls-Royces. Acusado de perversão, realização de lavagem cerebral e sonegação de impostos, foi deportado dos Estados Unidos para a Índia, onde morreu de Aids. Os fanatizados que ainda o seguem, apesar de sua trajetória criminosa, não aceitam esta versão. Dizem que foi assassinado pela CIA. Nos EUA, respondeu por 35 acusações e foi condenado a dez anos de prisão com sursis. Foi expulso também da Grécia, foi rechaçado da Alemanha e da Espanha, só conseguiu entrar na Irlanda porque seu piloto alegou ter um doente a bordo. Sua secretária Sheela Birustiel-Silvermann (Ma Anad Sheela) foi extraditada da Alemanha, onde estava no cárcere em Bühl, e foi condenada pelo tribunal federal de Portland (Oregon), em 86, a quatro anos e meio de prisão, por fraude e envenenamento alimentar. A investigação revelou que centenas de jovens mulheres foram constrangidas a aceitar uma operação de esterilização. Rajneesh não tem biografia, mas folha corrida. Este é um dos mestres espirituais do insígne ministro Carlos Ayres Brito. Marcadores: Ayres Brito, Eros, Osho, STF
Domingo, Setembro 02, 2007
GUERRILHA CATÓLICA-MARXISTA TEM CURSO SUPERIOR EXCLUSIVO Alguém ainda lembra da chamada Lei do Boi? Provavelmente não. Foi um dispositivo legal criado há 39 anos - lei 5.486/68 - que instituía reserva de 50% das vagas nos cursos de graduação de Agricultura e Veterinária "para candidatos agricultores ou filhos destes, proprietários ou não de terras, que residam com suas famílias na zona rural e 30% a agricultores ou filhos destes, proprietários ou não de terras, que residam em cidades ou vilas que não possuam estabelecimentos de ensino médio". A lei, que esteve em vigor até 1985, acabou favorecendo os terratenentes e por isso foi apelidada de Lei do Boi. Era considerada uma ignomínia porque favorecia apenas um setor dos candidatos a vestibular. De lá para cá, novas versões da Lei do Boi surgiram no universo jurídico brasileiro, como a lei das cotas para negros e para alunos de universidades públicas. Desde há muito, a universidade brasileira deixou de ser uma instituição onde os candidatos entravam por mérito, para tornar-se uma espécie de asilo onde uma das condições para albergar-se é a cor da pele ou a condição social. As leis de cotas não são consideradas ignomínias, mas instrumentos de resgate social. O Estado de São Paulo de hoje nos informa sobre as mais recentes versões da famigerada lei. A Universidade Federal de Goiás (UFG) criou um curso de direito agrário exclusivo para alunos oriundos de assentamentos da reforma agrária e da pequena agricultura, que começou a ser ministrado no dia 22. Isto é, um curso exclusivo para os militantes da guerrilha católica-marxista, o MST. Para se inscrever no vestibular, pretendentes têm de apresentar atestado emitido pelo Incra. Coube ao ministro comunista Eros Grau, do Supremo Tribunal Federal (STF), dar a primeira aula para a turma. Não é um percentual de vagas seja reservada aos ditos sem-terra. No caso, eles têm direito a 100% das vagas. O curso foi aberto a pedido do MST e do Incra. As bibliografias recomendadas você já pode imaginar: Marx, Mao, Lênin, Brecht, Gramsci, Darcy Ribeiro, Fernando Morais, Leonardo Boff, Frei Betto et caterva. Segundo Lênin, a burguesia forneceria a corda com a qual iria ser enforcada. O governo brasileiro, ao conceder gordas verbas à guerrilha católica-marxista - isso sem falar na vista grossa que faz às invasões de terra e próprios da União - está fornecendo todos os elementos para a tentativa desesperada das viúvas da União Soviética de estabelecer um regime comunista no país. A grande ameaça à democracia, hoje, não é o mítico Forum de São Paulo, como pretende um astrólogo deslumbrado, e sim o MST, que está formando gerações e gerações de apparatchiks, ao melhor estilo das Juventudes Comunistas da finada União Soviética. Pessoalmente, não creio que as viúvas consigam ressuscitar uma utopia sangrenta do século XIX. Exceto os utopistas desvairados, ninguém quer ver um Brasil mais pobre do que já é. Fala-se agora em socialismo do Século XXI, grife criada pelo tiranete da Venezuela, Hugo Chávez. Mas os propósitos continuam no século XIX. Não bastasse o curso exclusivo para a guerrilha católica-marxista, a UFG criou um outro, o de Licenciatura cultural indígena, que começou a ser ministrado no início deste ano. De seu vestibular só podem participar índios. Se você, branco, negro ou pardo, tiver alguma curiosidade pela cultura indígena, vá estudá-la em Paris, Berlim ou Harvard. Aqui não. A exclusividade para os indígenas serve ainda para mantê-los saudavelmente isolados da nefasta cultura branca, que os sustenta e financia. Claro que se uma universidade oferecer um curso só para alunos brancos, será imediatamente processada por crime de racismo.
Sábado, Setembro 01, 2007
HEMATÓFAGO PROFISSIONAL ASSUME VAGA NO STF Que o Supremo Apedeuta tenha afirmado hoje, em discurso no 3º Congresso do PT, em São Paulo, que o PT é o mais ético de todos os partidos e que a legenda deve aprofundar o debate sobre uma candidatura própria em 2010, se entende. Mentiu toda sua vida, foi eleito em função de suas mentiras. Como em todo militante de esquerda, nele a mentira se tornou uma segunda natureza, e esta segunda natureza o reelegeu. "Ninguém tem mais ética e moral do que o PT", declarou com dedo em riste, sendo aplaudido pelos militantes. Se mentiu a vida toda e sempre deu certo, por que não continuar mentindo? De repente, rende até mesmo um terceiro mandato. O Supremo Apedeuta falou também que houve "erros". O PT jamais comete crimes, apenas erros. Para Tarso Genro, atual ministro da Justiça, os marxistas não cometeram crimes, mas apenas desvios. "É verdade que podemos ter cometido erros" - disse o Apedeuta-Mór, mesmo após o STF ter aceito todas as denúncias por crimes de três de seus ministros, da cúpula do PT e de mais outros tantos bagrinhos - "e os erros cometidos estão sendo apurados como precisam ser apurados, mas ninguém nesse país tem mais autoridade moral, ética e política que o nosso partido". Que um analfabeto que mente diga isto é perfeitamente previsível. Imprevisível é ver um letrado dizendo bobagens, só admissíveis em um Lula. Falo do celebrado novo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Alberto Direito. Em entrevista que sairá na Folha de São Paulo amanhã, o novel ministro, que se define como católico, é interrogado sobre a utilização de células-tronco de embriões humanos em pesquisas e a interrupção da gravidez nos casos de anencefalia. "Talvez não exista lei específica sobre esta matéria" - disse Direito -. "Então se está trabalhando com interpretações. Teria eu o direito de ter vergonha ou de pedir desculpas pela minha fé católica? Será que um país como o nosso, tão bonito, com gente tão alegre, será que eu não tenho o direito de ter a minha fé católica?" Em primeiro lugar, um ministro do STF não pode dizer "talvez não exista lei específica sobre esta matéria". Ou ele sabe se tem lei específica, ou não sabe e não tem condições de ser ministro de uma suprema Corte. Em segundo lugar, "um país como o nosso, tão bonito, com gente tão alegre" não tem nada a ver com o direito de ser ou não ser católico. O país poderia ser feio e triste e o ministro continuaria a ter o sagrado direito de ser católico. A falácia capenga de Direito é uma ofensa a quem quer que entenda - já não digo lógica - mas pelo menos bom português. "Sou uma pessoa que tem muita fé" - diz Direito -. "Agora, nunca a minha interferiu nos meus julgamentos. Pelo contrário, ela sempre os iluminou, alguns extremamente inovadores, do ponto de vista humano". O ministro está competindo entusiasticamente com Lula na arte de dizer uma coisa e desdizê-la na frase seguinte. Se a fé iluminou seus julgamentos é porque neles interferiu, ora bolas. Não sei se o ministro sabe, e se não souber não me espanta, porque não passa dia em que eu não encontre católicos que nada entendem de sua fé. Mas se o ministro é católico, terá de crer que um homem nasceu de uma virgem, que não só era virgem quando o concebeu, como continuou sendo virgem após o parto. Fenômeno que, pelo que me consta, costuma ocorrer em certos pulgões da lavoura. Não bastasse isso, ao final de sua vida, subiu aos céus em carne e osso e por lá ainda hoje estará, em lugar incerto e não sabido. Terá também de crer que o tal de deus é três em um. Isto é, existe o Pai, o Filho e o Paráclito, mas tanto o Pai como o Filho como o Paráclito são deus ao mesmo tempo. Terá de crer que o Filho, como a mãe, também subiu aos céus, deixando apenas o prepúcio na Terra, já que era judeu. Terá também de crer que, quando comunga, não come o pão como um símbolo do corpo do Filho. Mas come literalmente a carne do Filho. E que quando o sacerdote bebe o vinho consagrado, não está bebendo um símbolo do sangue de Cristo, mas o próprio sangue do Cristo. Ou o ministro admite que é um hematófago profissional, ou não é católico. No que a mim diz respeito, me inquieta a idéia de termos um hematófago profissional, que crê em mães virgens e em três deuses em um só, na suprema Corte do país. Se esta é a fé que ilumina seus julgamentos, protegei-nos, Senhor, das sentenças do ministro!
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