![]() ![]() ![]() |
|||
|
¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV
Email
janercr@terra.com.br
Tiragem
Janer Cristaldo escreve no Página Não-Oficial de Janer Cristaldo Arquivos 10/01/2003 - 11/01/2003 12/01/2003 - 01/01/2004 01/01/2004 - 02/01/2004 02/01/2004 - 03/01/2004 03/01/2004 - 04/01/2004 04/01/2004 - 05/01/2004 05/01/2004 - 06/01/2004 06/01/2004 - 07/01/2004 07/01/2004 - 08/01/2004 08/01/2004 - 09/01/2004 09/01/2004 - 10/01/2004 10/01/2004 - 11/01/2004 11/01/2004 - 12/01/2004 12/01/2004 - 01/01/2005 01/01/2005 - 02/01/2005 02/01/2005 - 03/01/2005 03/01/2005 - 04/01/2005 04/01/2005 - 05/01/2005 05/01/2005 - 06/01/2005 06/01/2005 - 07/01/2005 07/01/2005 - 08/01/2005 08/01/2005 - 09/01/2005 09/01/2005 - 10/01/2005 10/01/2005 - 11/01/2005 11/01/2005 - 12/01/2005 12/01/2005 - 01/01/2006 01/01/2006 - 02/01/2006 02/01/2006 - 03/01/2006 03/01/2006 - 04/01/2006 04/01/2006 - 05/01/2006 05/01/2006 - 06/01/2006 06/01/2006 - 07/01/2006 07/01/2006 - 08/01/2006 08/01/2006 - 09/01/2006 09/01/2006 - 10/01/2006 10/01/2006 - 11/01/2006 11/01/2006 - 12/01/2006 12/01/2006 - 01/01/2007 01/01/2007 - 02/01/2007 02/01/2007 - 03/01/2007 03/01/2007 - 04/01/2007 04/01/2007 - 05/01/2007 05/01/2007 - 06/01/2007 06/01/2007 - 07/01/2007 07/01/2007 - 08/01/2007 08/01/2007 - 09/01/2007 09/01/2007 - 10/01/2007 10/01/2007 - 11/01/2007 11/01/2007 - 12/01/2007 12/01/2007 - 01/01/2008 01/01/2008 - 02/01/2008 02/01/2008 - 03/01/2008 03/01/2008 - 04/01/2008 04/01/2008 - 05/01/2008 05/01/2008 - 06/01/2008 06/01/2008 - 07/01/2008 07/01/2008 - 08/01/2008 08/01/2008 - 09/01/2008 09/01/2008 - 10/01/2008 10/01/2008 - 11/01/2008 11/01/2008 - 12/01/2008 12/01/2008 - 01/01/2009 01/01/2009 - 02/01/2009 02/01/2009 - 03/01/2009 03/01/2009 - 04/01/2009 04/01/2009 - 05/01/2009 05/01/2009 - 06/01/2009 06/01/2009 - 07/01/2009 07/01/2009 - 08/01/2009 08/01/2009 - 09/01/2009 09/01/2009 - 10/01/2009 10/01/2009 - 11/01/2009 11/01/2009 - 12/01/2009 12/01/2009 - 01/01/2010 01/01/2010 - 02/01/2010 |
Quarta-feira, Outubro 31, 2007
ESTADO-CANALHA Se há algo neste país que me causa espanto, é a inadimplência do Estado no que diz respeito ao pagamento de precatórios. Mesmo julgados em última instância, sem possibilidade nenhuma de recurso por parte da União, do Estado, ou dos munícipios, já em fase de execução, não são pagos e estamos conversados. O Estado caloteia olimpicamente seus cidadãos e ainda acha que estes são obrigados a pagar impostos. Por muito menos que isso, os Estados Unidos declararam sua independência. Nós, bugres, aceitamos passivamente o calote oficial. Furungando na Internet, encontrei hoje na revista jurídica Última Instância (http://ultimainstancia.uol.com.br/noticia/44038.shtml) este excelente artigo, que resume com competência tudo que tenho escrito sobre os precatórios. Me sinto obrigado a reproduzi-lo. PRECATÓRIOS IGNORADOS: O APOGEU DO ESTADO-CANALHA Jarbas Andrade Machioni A propósito de uma reportagem do Jornal Hoje denominada "À Espera de Precatórios": Três em cada dez brasileiros, que esperam receber direitos outorgados pela Justiça, irão morrer sem os receber. Isso ocorre porque o Estado - seja federal, estadual ou municipal - não respeita a decisão judicial definitiva obrigando-o a pagar créditos, apurados no processo judiciário, em favor dos particulares; na prática, paga-os conforme, quando e se quiser. Permitam-me explicar aos leigos o sistema em linhas gerais. No direito brasileiro, como os bens públicos (isto é, os do Estado) são impenhoráveis e não podem ser levados a leilão, quando alguém tem um crédito contra o Poder Público reconhecido por sentença judicial transitada em julgado, o juiz expede um oficio ao Estado requisitando o pagamento para que o credor receba o valor a que tenha direito. Esse ofício é chamado de "precatório". Pela lei, o poder executivo ao receber o precatório, deveria simplesmente incluí-lo no orçamento do ano seguinte à requisição, e pagá-lo ao longo do ano. Infelizmente o Estado demora uma década, ou várias décadas, após o litígio (que também demora uma década ou mais) para pagar. E às vezes simplesmente não os paga. Não obedece ao procedimento legal, com - infelizmente - a complacência de tribunais. Há pessoas que esperam mais de trinta anos para receber o que é seu direito, há pessoas que nunca receberam. Existe o Estado-empresário, existe o Estado-social, o Estado-mínimo, o Estado-liberal, e algumas outras "modalidades"; todos são qualificativos sacados ao sabor da ideologia que se emprega. No Brasil, aproximamo-nos da suprema qualificação odiosa: o Estado-canalha! O Estado brasileiro não ministra educação, não dá saúde, nem segurança, cumpre minimamente seus deveres, mas com a cínica vilania que só os canalhas têm, chega ao desplante de afirmar que está dando prioridade a outras carências sociais, e por isso não pagaria precatórios. Essa desculpa remete a uma passagem bíblica, que já condenava esse tipo de cinismo. Mas se o Estado não paga o que deve, como ele pode ter a pretensão de cobrar tributos? Juridicamente sabemos inexistir sinalagma entre o dever de pagar tributo e o dever de o Estado pagar precatórios, mas ouso dizer, que o cidadão que não recebe seu crédito, está autorizado pelos preceitos de Direito Natural e pelos mais altos princípios constitucionais, que embasam a verdadeira cidadania, a revoltar-se e suspender o pagamento dos tributos que deva. Como diria Robespierre: "A mesma autoridade divina que ordena aos reis serem justos, proíbe aos povos serem escravos". Esse direito, ora postulado, é inalienável ao cidadão-credor e é direito da melhor espécie, é aquele em que se assenta as bases da união originária das colônias norte-americanas; que foi arrancado à João Sem-Terra no século XIII através da Magna Carta; direito que foi invocado pelo advogado Thuriot perante os canhões que guardavam Bastilha, ao tomá-la. Os governantes que não acatam, sem subterfúgios, decisão judicial definitiva não mereciam permanecer no cargo. Estamos num momento decisivo da história brasileira, as condições, nacionais e internacionais, são-nos favoráveis a uma virada histórica para consolidação da democracia. Esperamos que o Supremo Tribunal Federal, nas águas de algumas corajosas e inovadoras decisões que vem tomando, comece a exigir o cumprimento total desse dever legal básico do Estado.
SOBRE FICÇÕES JURÍDICAS Em crônica intitulada "A Síndrome de Garzón", publicada em 4/2/2000, escrevi: Quando o procurador espanhol Baltasar Garzón pediu a detenção do general Augusto Pinochet na Inglaterra, para que respondesse na Espanha por crimes cometidos no Chile, ninguém imaginaria que, naquele momento, estava sendo criado um grande quebra-cabeça para os teóricos desta ficção que se chama Direito Internacional. Ficção porque Direito Internacional não existe. O que continua existindo é o antigo e brutal direito do mais forte. Se o Paraguai, sem ir mais longe, pedisse a detenção no Brasil de Bill Clinton por crimes cometidos na Iugoslávia, uma grande gargalhada reboaria nas redações dos jornais do mundo todo. O governo de Tony Blair, que retém há quinze meses Pinochet, acusado de violação dos direitos humanos, é o mesmo que, sob a sombra protetora dos Estados Unidos, despeja bombas a granel em cidades e aldeias do que restou da ex-Iugoslávia. Blair retém o ditador chileno a pedido do promotor espanhol, que jamais denunciou alguém na Espanha por crimes do franquismo. Exigir o julgamento de ditadores na ex-colônia é bom, digno e justo. Exigir o julgamento dos colaboradores da ditadura dentro da qual Garzón nasceu e fez carreira... melhor esquecer, pode reabrir muitas feridas. Nos idos da Guerra Fria, a Áustria permaneceu cercada pelos países satélites da finada União Soviética. Encrave europeu que avança rumo ao Leste, já deu ao Ocidente Sissi e Schwartzenegger, Mozart e Schickelgruber. Para quem não sabe, Schickelgruber é o cabo aquele de bigodinho, que virou chanceler da Alemanha e é mais conhecido como Hitler. Recebi não poucos emails na época, todos insistindo que Direito Internacional existia, sim senhor, que não era de forma alguma uma ficção. Todos esses emails provinham, ou de professores ou de alunos de Direito Internacional, ou de profissionais envolvidos com o ramo. Há coisa de uma semana, recebo correspondência de um leitor que ousou citar minha visão sobre o tema... em uma prova de Direito Internacional. Levou zero. Segue a questão e a resposta do aluno. O zero decorreu da parte grifada. - Comente sobre o direito costumeiro como fonte do Direito International Privado. - O direito costumeiro é fonte primordial do Direito Internacional (tanto público quanto privado), justamente porque o direito internacional não é coativo : por ser limitado pelas soberanias nacionais, o próprio direito internacional é uma "ficção jurídica". Nesse sentido , o costume emerge como fundamental fonte do direito internacional, pois empresta-lhe legitimidade e serve como dirimidor de conflitos formalmente insolúveis, porque sujeitos a soberanias que podem ser ao mesmo tempo absolutas e conflitantes. Assim, os costumes servem de luz na formação do direito, não só por emprestar-lhe legitimidade, mas também por conta da própria natureza das operações internacionais, sobretudo as mercantis, que se beneficiam da estabilidade de regras - ou dela até dependem - para prosperar. Ora, o costume implica necessariamente em estabilidade, até porque sem esta, por definição, o costume inexiste. Ora, é claro que existem tratados internacionais que pretendem regulamentar as relações e obrigações entre as nações. Ocorre que quando uma nação poderosa e beligerante rompe com tais tratados, até pode estar sujeita a sanções. Mas quem ousará - ou poderá - aplicar uma sanção? Estado algum. Então, se não existe sanção, o tal de Direito Internacional é ficção. Só se exerce – quando se exerce – sobre Estados mais fracos. Volto à questão que aventei há sete anos: que aconteceria se o Paraguai pedisse a detenção de Clinton no Brasil por crimes cometidos na antiga Iugoslávia? Ou a prisão de Putin por crimes cometidos na Chechênia? Quem aplicará sanções aos Estados Unidos por ter invadido o Iraque, alegando uma mentira óbvia, a existência de armas de extermínio em massa? Ninguém. Estado nenhum. Por mais eivado de boas intenções que esteja o Direito Internacional, nas relações internacionais o que vige é a lei do mais forte. E se o que vige é a lei do mais forte, Direito Internacional é conto de fadas. Moral da história: pense duas vezes antes de afirmar a um professor de Direito Internacional que Direito Internacional é piada. Você está menosprezando o ganha-pão dele. É o mesmo que afirmar a um professor católico que direito natural não existe. Ou a um professor marxista que o marxismo morreu. Eles se ofendem.
Crônicas da Guerra Fria (23) O DRAMA DAS VIÚVAS Florianópolis - Todo homem que nada espera após a morte - e entre estes me incluo - gostaria de ver, antes do último suspiro, algo surpreendente na História. Viagem à lua não vale, isto os ficcionistas já nos haviam antecipado. Ir a Marte seria um grande feito, mas como o bicho-homem já pôs esta idéia na cabeça, chegar lá é apenas uma questão de verbas e tempo. Uma nave espacial começa a sair do sistema solar? O fato é insólito, jamais o homem conseguiu lançar um objeto tão longe. Mas parece que vai levar alguns milhões de anos antes de aproximar-se da estrela mais próxima. Minha curiosidade revela-se inútil. Fora a face atormentada de Tritão, pouco nos disse a Voyager que pudesse surpreender-nos. "Deus morreu, Marx agoniza e eu estou com gripe. Quel siècle!", escrevi outro dia, citando um colega francês. A frase surgiu no final dos anos 70, num daqueles lacônicos editoriais assinados, na primeira página do Monde. Se Deus morreu, seu cadáver continua insepulto. Se Marx agoniza, seus devotos o mantêm entubado e vegetando. Do século, só nos resta a gripe. Mas algo de novo parece estar germinando nas nações que um dia pretenderam escorar-se nas teorias do economista alemão. O marxismo - disse alguém algum dia, talvez eu mesmo - antes do final de século não passará de um verbete numa enciclopédia. Pois destes dias, ao que tudo indica, estamos nos aproximando mais aceleradamente do que se poderia imaginar. As economias socialistas estão se esboroando por onde quer que existam. Bastou a Hungria pôr abaixo o muro que a separava da Áustria e lá estão 40 mil alemães orientais esperando visto para o Ocidente. Na RDA, as empresas já não sabem de quantos funcionários dispõem, pois quem saiu de férias provavelmente não voltará mais. Isso que a Alemanha Oriental é considerada uma das economias mais sólidas do bloco socialista. "Eles têm mais para comer do que os poloneses, mais dinheiro do que os húngaros, vivem incomparavelmente melhor do que os russos, os ucranianos, os usbeques" - diz Monika Maron, escritora da RDA e refugiada na Alemanha Ocidental, em artigo para a Der Spiegel. "Mesmo assim, eles despencam nas cidades do lado de cá, fugindo em balões construídos do outro lado em fundos de quintal, atravessam a nado o gelado rio Elba, arriscam a travessia da fronteira austríaca, ocupam as embaixadas da Alemanha Ocidental. O famoso senso alemão de ordem deixa de ter validade quando cidadãos da Alemanha Oriental se empurram mutuamente diante dos poucos e pequenos buracos existentes no muro". Nas fronteiras da Hungria com a Áustria, amontoam-se os carros abandonados pelos alemães orientais. Se considerarmos que quem tem carro em país socialista pode considerar-se um privilegiado, podemos ter uma idéia de como vivem os demais, que não pertencem à Nomenklatura. Isto que, para ter acesso a um carro, um cidadão da RDA precisa esperar 18 anos. Se tiver a lembrança de candidatar-se à compra de um aos 18 anos, tudo dando certo - o que nem sempre acontece - poderá recebê-lo aos 36. Monika Maron nos relata a perplexidade de um operário que teve permissão para visitar Colônia. Após retornar à sua casa, sentado em meio a seus familiares, perguntava-se, balançando a cabeça: "Mas o que foi que nós fizemos? Por que estamos sendo castigados desta maneira? Afinal de contas, não foram todos os alemães que perderam a guerra?" Quando até os privilegiados decidem votar com os pés, podemos imaginar o que sofre quem está sob as botas da Nomenklatura. Poloneses e húngaros já não querem nem ouvir a palavrinha mística, comunismo. Lituânia, Letônia e Estônia denunciam o pacto secreto que as entregou ao jugo de Stalin e reivindicam sua integração ao bloco ocidental. A Moldova recupera sua língua e as repúblicas muçulmanas ameaçam rachar pelo meio o império moscovita. Gorbachov, com suas tímidas iniciativas, tem hoje diante de si uma esfinge de duas cabeças: balcanização ou uma solução à la Pequim. Por qual delas optará, isto se não for antes limogé do Kremlin? Este desfecho, creio, será dado a mim e aos de minha geração assistir. Marx morreu. Que a terra lhe seja leve. E, por favor, viúvas: não me venham falar de Trotsky. Remember Kronstadt. Comecei este comentário baseado em informações de véspera. Os jornais de hoje me informam que os fugitivos da Alemanha Oriental já são sessenta mil. Abandonaram tudo o que haviam conseguido amealhar em vida: casa, apartamento, móveis, carro. A televisão nos mostra os rostos vibrantes do que já conseguiram atravessar a fronteira austro-húngara, portando apenas a roupa do corpo. A pergunta mais corrente, nestes dias, quando dois alemães se encontram em Berlim Oriental é: "ainda aqui?" Gorbachov tem em mãos uma oportunidade raramente concedida a um estadista em um século: acelerar a desunião soviética, declarar a bancarrota do império, permitir que os povos respirem*. Ingleses, espanhóis e portugueses tiveram de renunciar ao colonialismo. Por que constituiriam os russos exceção? Balcanização, urgente! Antes que a Nomenklatura reaja e o mande para a Sibéria. Antes que a Europa do leste seja submetida à tétrica paz da Praça da Paz Celestial. Estamos vivendo, sem dúvida alguma, um crucial momento histórico. A Europa testemunha hoje o estertor de suas mais desvairadas utopias. Lástima não mais estarem entre nós homens como Camus, Gide, Orwell, Koestler, Raymond Aron. Foram caluniados, julgados e condenados em vida, pelo crime então imperdoável de denunciar as tiranias travestidas de humanismo. Pena não estarem vivos Sartre, Simone, Aragón, Neruda. Para pelo menos assistirem a débâcle da ideologia que norteou suas vidas. O problema é que muitos outros continuam vivos, particularmente na América Latina, onde mesmo na era das comunicações os epitáfios costumam chegar com pelo menos uma década de atraso. Aconteça o que acontecer no império moscovita, nossa intelligentsia precisará ainda de mais algumas décadas para descontaminar-se. Entre os muitos livros que deveriam ser traduzidos no Brasil - mas não o foram, dada a censura onipresente dos ditos intelectuais de esquerda - está Le Dieu des Ténebres, antologia que reúne depoimentos de escritores que um dia militaram nas fileiras de Moscou, para logo abandoná-las, ao intuir a essência totalitária do marxismo. O livro foi publicado em 1950, em Paris. Entre os vários depoimentos, transcrevo estes trechos do escritor italiano Ignazio Silone: "A verdade é que minha saída do Partido Comunista constituiu para mim uma data muito triste, um grave luto, o luto de minha juventude. E eu venho de um país onde se porta luto por mais tempo que alhures. Não nos libertamos facilmente de uma experiência assim intensa como a vivida na organização comunista. Dela sempre subsiste qualquer coisa que marca o caráter pelo resto da vida. Vejam, aliás, como são facilmente reconhecíveis os ex-comunistas. Eles constituem uma categoria à parte, como os padres apóstatas e os ex-oficiais de carreira. Hoje, o número de ex-comunistas é legião". Silone assinava tais declarações há quatro décadas. Como estamos na América Latina, e longa é a jornada de um fanático até o entendimento, passo de novo a palavra ao italiano: "A luta final terá lugar um dia entre os comunistas e os ex-comunistas, disse certa vez a Togliatti. Esta afirmação deu lugar a diversas interpretações. No entanto, o sentido que eu lhe atribuía era simples. Será a experiência do comunismo, pretendia eu dizer, que matará o comunismo. Assim sendo, não excluo que o golpe de misericórdia lhe venha da Rússia. Que acontecerá quando os milhões de pessoas de retorno dos campos de trabalho forçado na Sibéria possam livremente falar?" Silone enganou-se, ao que tudo indica, quanto aos milhões que voltariam dos gulags: raros foram os que de lá voltaram. Mas milhões são os que hoje querem fugir do imenso gulag comunista ou, pelo menos, transformá-lo em um mundo habitável. Marx morreu, caríssimos. E luto está completamente fora de moda. * A União Soviética morreu dois anos depois, aos 26 de dezembro de 1991. (Porto Alegre, RS, 01.10.89)
Terça-feira, Outubro 30, 2007
AIATOLÁ DE ROMA CONCLAMA FARMACÊUTICOS À REBELIÃO CIVIL Com a nonchalance de um aiatolá, Bento XVI pretende definir o que se pode ou não vender nas farmácias do mundo todo. Em pronunciamento feito ontem, em uma conferência internacional, o papa afirmou que os farmacêuticos deveriam ter o direito de exercer uma objeção de consciência no caso de o medicamento a ser vendido interromper a gravidez, provocar aborto ou contribuir para a eutanásia. Ou seja, você chega em uma farmácia com uma prescrição médica e arrisca ouvir do farmacêutico: "isso eu não vendo porque não concordo com a venda disso". Ocorre que, na Itália pelo menos, os farmacêuticos são obrigados por lei a vender os remédios prescritos por um médico. Não sei se alguém alertou o Bento. Mas Sua Santidade está conclamando os farmacêuticos a uma rebelião civil. Livia Turco, ministra da Saúde italiana, afirmou que apesar de Bento XVI ter o direito de conclamar os jovens a serem responsáveis quanto à vida sexual deles, não poderia determinar a profissionais como os farmacêuticos o que fazer. "Não acredito que esse alerta para que os farmacêuticos sejam críticos conscientes da pílula do dia seguinte deva ser levado a sério", afirmou a ministra ao jornal Corriere della Sera. "Não podemos fazer uma objeção de consciência se a lei não for alterada", afirmou Franco Caprini, chefe do grupo de farmacêuticos Federfarma. Bento XVI é useiro e vezeiro em intrometer-se em questões de Estado. Isolado na torre de marfim do Vaticano, cercado de cardeais misóginos, parece não ter ainda percebido que o país que cerca seu território esquizofrênico é um país laico e não se rege por dogmas ou crenças religiosas. Como também laicos são todos os demais países da Europa. Do alto de sua curul, o papa tem se comportado como um aiatolá à testa de uma teocracia muçulmana. Que proíba a venda da pílula do dia seguinte nalguma farmácia do Vaticano, entende-se. Pretender proibir sua venda nas demais farmácias do mundo é paranóia. Em sua arrogância pontifical, parece esquecer que vive no Ocidente, em uma Europa onde praticamente todos os países aceitam o aborto, a pílula do dia seguinte e os contraceptivos. Vários papas já passaram no transcurso de minha vida. Confesso jamais ter visto um só, tão ditatorial e intolerante como este. Quisesse exercer sua ditadura sobre seu rebanho, nada teríamos a ver com isso. Ocorre que Bento XVI, em seu fanatismo, sente-se autorizado a ditar regras urbi et orbi.
Crônicas da Guerra Fria (22) BEIJINHO BEIJINHO TCHAU TCHAU Meu beijinho doce foi ele quem trouxe de longe pra mim. Abraço apertado suspiro dobrado de amor sem fim Florianópolis - O beijo, este gesto aparentemente pagão, em verdade é bíblico. Pais e filhos beijavam-se ao se darem as boas-vindas e ao se despedirem, lemos no Gênesis, I Reis e Lucas. O mesmo faziam os parentes próximos, diz-nos o Êxodo e o livro de Rute. No I e II Samuel, o hábito já se estende aos bons amigos. O beijo, como gesto erótico, só vamos encontrá-lo no Cântico dos Cânticos, quando Sulamita, morena e formosa, pede a Salomão: "que me beije com os beijos de sua boca!" Responde o rei: "Minha amada, eu te comparo à égua atrelada ao carro de Faraó!". Nestes dias que correm, tal dito provocaria um insuportável alarido nas alas feministas mas, enfim, Salomão, além de sábio, era soberano e usava as metáforas que bem entendia. Mas não era disto que pretendia falar. No I Reis, temos uma interessante acepção do beijo. Na conferência de cúpula em Horeb, Deus ordena a Elias ungir Hazael como rei de Hazam, Jeú como rei de Israel e Eliseu como profeta em seu lugar. "Quem escapar à espada de Hazael, Jeú o matará. Mas pouparei em Israel sete mil homens, todos os joelhos que não se dobraram diante de Baal e as bocas que não o beijaram". Em termos contemporâneos, chamaríamos tal massacre de genocídio. Mas que fazer, se Javé não gostava que seus servos beijassem touros? Beijar, na época, nem sempre era salutar. Oséias não perdoa: "Homens beijam bezerros. Por isso serão como a nuvem da manhã, como o orvalho que cedo desaparece, como a palha que voa fora da eira e como a fumaça que sai pela janela". Mas o beijo mais trágico da Bíblia está, não no evangelho de Mateus, como se poderia pensar, e sim no II Samuel. Joab, chefe de exército do excelso rei Davi, após ter assassinado traiçoeiramente Abner e mandado matar Absalão, tendo por isso decaído da graça de Davi, foi substituído por Amasa. Se Abner era primo de Saul, Absalão era filho de Davi. Absalão, para vingar sua irmã Tamar, assassinara seu meio-irmão Amon e, como se isto não bastasse, proclamou-se rei em Hebron. Ao entrar em Jerusalém, Absalão tomou posse do harém do pai. Não era fácil a vida em família naqueles dias. Mas falava de beijos. Ao encontrar seu substituto em Gabaon, Joab o saúda: "Vai bem, meu irmão?' Com a mão direita, Joab segura a barba de Amasa para beijá-lo. "Amasa não percebeu a espada que Joab tinha na mão, e este lha cravou no abdômen, derramando-se-lhe as entranhas no chão". Beijar é perigoso. Menos para o rei Davi. Muitos beijos terá trocado com Jônatas, mas sobre estes o hagiógrafo mantém discreto silêncio. Quem bota a boca no mundo é o rei Saul, que já oferece a Davi duas de suas filhas, primeiro Merob e depois Micol. Mas o ingrato Davi queria mesmo era Jônatas, coincidentemente filho de Saul. O que quase lhe valeu a vida. Estava um dia Davi dedilhando sua cítara quando Saul, tomado por um mau espírito da parte de Javé, quase o crava contra a parede com uma lança. Não fosse lesto Davi, Cristo não teria nascido ou, pelo menos, os historiadores teriam de buscar-lhe outra ascendência. Resumamos a história. Com a morte de Jônatas no monte Gelboé, Davi, transido de dor, rasga suas roupas, decreta luto oficial e chora a morte do amado: "Tu me eras imensamente querido, a tua amizade me era cara mais cara que o amor das mulheres". Mas como não há mal que não se acabe, nem amor que sempre dure, o rei Davi toma por favorito Meribaal, filho de Jônatas. Por sorte, Saul morrera junto com seu filho, ou teria ainda a deplorar a sedução do neto. Coisas da Bíblia. Mas voltemos aos beijos. Gorbachov, em sua última visita à Alemanha Oriental, beijou com ênfase Erich Honecker, o todo-poderoso dirigente comunista que hoje está em cárcere privado, acusado de corrupções de fazer inveja a qualquer modesto marajá de nosso Nordeste. Beijo de Judas, clamaram os comunossauros tupiniquins, com isto querendo dizer que Honecker foi traído por Gorbachov. Beijo de Judas tornou-se, para os leitores apressados da Bíblia, expressão assimilada ao beijo da Máfia, quando um capo beija aquele que deve morrer. Tudo isto porque nos acostumamos a ver em Judas um traidor, quando em verdade foi traído. Que mais não fosse, sem seu beijo não seriam realizados os desígnios de Javé. Se Judas foi, afinal de contas, instrumento da vontade divina, não vejo porque jogá-lo na lata de lixo do cristianismo. Judas, traidor ou traído?, de Danilo Nunes, é um desses raros e belos ensaios que uma vez por década - e olhe lá! - honram o ensaísmo nacional. Neste livro o autor acompanha os dias da Paixão. A ruptura de Judas com Cristo, iniciada quando este se retira subrepticiamente do templo, para onde fora conduzido pelo povo aos gritos de Hosana! (liberta-nos!) se consuma quando Jesus, ante a pergunta dos escribas do Sinédrio, cede: "Dai pois a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Ora, os escribas queriam saber se era lícito pagar impostos a Roma, questão vital para uma nação que lutava para libertar-se do jugo de César. Cristo vacila e sai pela tangente, com uma resposta que muito nos lembra Lula, quando interrogado sobre a existência de Deus: "Se eu creio em Deus, só ele sabe". Mas Judas não era tão besta quanto os entrevistadores de Lula, que parecem ter engolido, sem tugir nem mugir, a saída safada. Judas, nacionalista ferrenho, vê seu companheiro de lutas aceitando passivamente a dominação romana. Era, pois, um colaboracionista. Melhor entregá-lo à morte, para não atrasar o processo de libertação de Israel. Para Judas, Jesus não passa de um traidor que percorrera a Palestina arregimentando o povo para um levante, para depois desertar, deixando seus seguidores mergulhados na frustração. Sob esta luz, o beijo de Gorbachov adquire novo sentido. Honecker está atrapalhando a revolução? Beijinho nele. Claro que Gorbachov deve estar pensando na revolução comunista, pois se a perestroika começa a liberar-se do entulho stalinista, que me conste Lênin e Marx continuam na condição de intocáveis, pelo menos para a cúpula moscovita. Por falar nisso, por onde andará aquele osculador compulsivo, que tanto atrapalhou os serviços de segurança tentando beijar personalidades no Brasil? Aposto que qualquer dirigente comunista bem que preferiria trançar os bigodes com aquele mitômano do que receber um terno beijinho do Gorba. Em meio a isso, tivemos eleições livres no Chile e Pinochet está passando a seu sucessor um país com uma inflação de 12% ao ano, sem que ninguém precise beijá-lo. Nos últimos comícios, ex-exilados clamavam pelo fim da ditadura, o que é no mínimo paradoxal. Que ditadura permite - e mais, protege - a sua contestação, tanto nos comícios de rua como nas colunas de jornais? Tais liberalidades não existiam sequer nas democracias ditas populares do Leste europeu, pelo menos antes dos beijinhos trocados entre Honecker e Gorbachov. Falar nisso, quando teremos eleições em Cuba? Lembro que Gorbachov andou por lá e, russo sendo, certamente trocou bicotas com Fidel. Sei lá se pela espessura das barbas do caudilho, ou quem sabe por uma dessas famosas vacinas cubanas, que previnem deste meningite a perestroika, o fato é que o folclórico animador da Disneylândia das esquerdas continua invicto em suas três décadas de ditadura. A propósito, comentando as eleições do Chile, há pouco um jornal mancheteava: Cai o último ditador da América do Sul. Ou seja, melhor não falar em América Latina. Pois se assim falarmos, está faltando um. Quando nos dará Gorba o prazer de mais um beijinho em Castro? Não precisa ser no estilo de Joab beijando Amasa, nem de Davi beijando Jônatas. Basta um beijinho doce, um abraço apertado, um suspiro dobrado e o horror terá fim. (Joinville, A Notícia. 17.12.89. Porto Alegre, RS, 23.12.89)
Segunda-feira, Outubro 29, 2007
AINDA A GUERRA CIVIL ESPANHOLA Confesso ter feito uma pesquisa rápida, tentando achar o texto original da notícia da France Presse sobre as vítimas da Guerra Civil. Não achei nada. Charles Pilger, pesquisador mais minucioso, achou. Cá está: 498 "MARTYRS" DE LA GUERRE CIVILE ESPAGNOLE BÉATIFIÉS lundi 29 octobre 2007 Une messe de béatification de 498 "martyrs" des "persécutions religieuses" de la guerre civile espagnole a eu lieu dimanche place Saint-Pierre, à Rome. Un évènement qui suscite la polémique. Par AFP Quelque 30.000 fidèles assistaient dimanche matin au Vatican, place Saint-Pierre, à la messe de béatification de 498 "martyrs" des "persécutions religieuses" de la guerre civile espagnole célébrée en espagnol par le représentant du pape, le cardinal José Saraiva Martins. La célébration a commencé par la lecture de la longue liste des noms des "martyrs", qui comprend deux évêques, 24 prêtres, 462 religieux, trois diacres ou séminaristes et sept laïcs. Ces catholiques ont été tués dans diverses circonstances en 1934, 1936 ou 1937, pour la plupart au début des affrontements qui déchirèrent l'Espagne après le soulèvement des "nationalistes' du général Francisco Franco contre le gouvernement de Front populaire. La quasi-totalité des évêques espagnols ont fait le voyage de Rome pour participer à la messe de béatification, mais l'assistance était beaucoup moins importante que celle qui avait été initialement annoncée: l'Eglise d'Espagne avait avancé début octobre le chiffre d'un million de personnes. Cette béatification de masse, la plus importante de l'histoire de l'Eglise catholique, a provoqué une polémique dans les médias de gauche alors que le gouvernement de Madrid s'apprète à faire adopter par le parlement une loi réhabilitant la mémoire des victimes du franquisme. Le rapporteur du projet de loi, le socialiste Jose Torres Mora, assistait à la messe de béatification et le gouvernement était représenté par le ministre des Affaires étrangères Miguel Angel Moratinos. Plusieurs milliers de religieux et religieuses espagnols, selon les historiens, ont été tués par des sympathisants républicains, où le courant anticlérical était puissant, avant et pendant la guerre civile (1936-1939) qui fit plus de 500.000 morts dans les deux camps. Après leur défaite, 50.000 Républicains ont été exécutés par les forces nationalistes et des dizaines de milliers d'autres ont été incarcérés. L'Eglise catholique a été un des piliers du régime franquiste jusqu'à sa disparition en 1975. Le pontificat de Jean Paul II, décédé en avril 2005, a déjà connu onze séries de béatifications de "martyrs" de la guerre civile espagnole, pour un total de 471 victimes. Pilger observa que "a matéria da Folha não diz que os padres assassinados foram vítimas de Franco. Pode ser que a Folha queria que quem lesse de forma rápida assim o pensasse, mas o caso é que tá lá: As presenças de Moratinos e de um dos autores da Lei de Memória Histórica na cerimônia no Vaticano foram consideradas "um gesto amistoso após fortes atritos" com a Igreja, segundo o jornal espanhol El País, e deverá servir para pôr fim a qualquer polêmica com o governo socialista. O governo de José Luis Rodríguez Zapatero apresentou uma lei para reabilitar as vítimas do regime do general Francisco Franco". Sim, está lá. Mas a última frase, somada à omissão da responsabilidade pelas mortes, dá a entender ao leitor desavisado que todas as vítimas devem ser creditadas a Franco. A manipulação da Folha online se evidencia na omissão deste trecho fundamental do texto original da France Presse: "Vários milhares de religiosas e religiosas espanhóis, segundo os historiadores, foram mortos por simpatizantes republicanos, onde a corrente anticlerical era poderosa, antes e durante a guerra civil (1936-1939) que fez mais de 500 mil mortos nos dois campos". Grato, Pilger. É óbvio que houve manipulação do redator da Folha.
CHE, SESSÃO NOSTALGIA Ler jornais antigos é lazer que me fascina. Na Folha de São Paulo de 19 de outubro de 1997, quando Che Guevara ainda era visto como herói, encontro artigo intitulado "O Che morto e o Che vivo", de autoria do lúcido sociólogo francês Alain Touraine, diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris. Nenhuma alusão a seus frios assassinatos, nem à ditadura que ajudou a instalar em Cuba. Seguem alguns excertos: Por que o elogio do herói revolucionário, se a idéia de democracia penetra, enfim, no continente latino-americano, e se as guerrilhas desapareceram em quase todos os países, salvo na Colômbia, onde Che condenara as suas formas de implantação e de luta? (...) Pode-se dizer, a princípio, que o herói, à medida que a sua figura se esfuma, transforma-se em mito, e que o ministro da Indústria ou o militante são recobertos pela figura do guerrilheiro assassinado, que lembra Cristo. É o Che morto, mais que o Guevara vivo, que sobe ao paraíso dos heróis sacrificados. (...) Assim, seria por causa da queda do Muro de Berlim, por causa da ausência de regime revolucionário, por causa do domínio avassalador das redes financeiras e econômicas capitalistas que a figura de Che surge como um protesto silencioso, diante do qual ergue-se a América Latina e o mundo inteiro, assim como Hamlet erguia-se diante do fantasma de seu pai assassinado. Essa explicação é talvez a melhor; ela corresponde aos sentimentos, à nostalgia de todos os que viveram, como a melhor parte de si mesmos, as suas idéias revolucionárias, e que muitas vezes não se orgulham do que se tornaram, dos compromissos ou das renúncias que tiveram de aceitar: são estes que reencontram, no rosto do Che assassinado, os seus próprios ideais burlados. (...) Nessa noite e nesse silêncio, a luz que ilumina o rosto de Che é o indício de um caminho; não daquele seguido por Che, mas ainda assim de um caminho, de uma possibilidade de ação, de uma esperança de ação contra a miséria e a injustiça. (...) Estamos ainda muito longe deste momento em que se recomporá um campo propriamente político, em que se enfrentarão idéias tanto inovadoras quanto realistas. Daí por que, no silêncio político atual, a imagem do Che combatente e vítima é um primeiro ponto de referência. (...) A figura de Che não é só um mito, não é só um ideal que se separa das formas adotadas por este ideal na história; ela é um sinal na noite - um sinal de esperança e, também, de solidão. Ninguém mais pensa que voltará o tempo das guerrilhas, e muitos gostariam de ouvir novamente as vozes que reclamam a Justiça e que denunciam as desigualdades escandalosas. (...) A celebração do 30º aniversário da morte de Che não é apenas um adeus ao passado há muito desaparecido; é um sinal rumo ao futuro, um desejo ainda imóvel de andar, a necessidade de um ideal capaz de transformar as sociedades tão pouco ciosas da Justiça. O guevarismo desapareceu - e com ele os regimes pós-revolucionários a que fazia referência, mas o exemplo do combatente sem esperança persiste e anima os que ainda não possuem novas esperanças, embora sofram a sua ausência.
A CONTA DE CHEGAR DE SÃO LANCELLOTI Em suas primeiras declarações à imprensa, o padre Júlio Lancellotti disse ter sido extorquido em 50 mil reais por seu pupilo dileto. Dois dias depois, já falava em 80 mil. Hoje, sua defesa já admite 150 mil reais. Quem dá mais? O defensor do pupilo dileto de São Lancellotti aventa algo entre 600 e 700 mil. Mais dia menos dia, chegaremos lá.
Crônicas da Guerra Fria (21) NO OVO, A SERPENTE Florianópolis - Mani Hayyá, ou Mani, o Vivente, nasceu no ano de 216, na Babilônia, e morreu flagelado em 277, acusado de socavar as bases da religião oficial masdeísta. Em uma vida intenso apostolado, que o levou à Índia, criou a religião que passou a levar seu nome e teve enorme influência tanto no Oriente como no Ocidente. Santo Agostinho foi um de seus adeptos mais fervorosos. Segundo Mani, no começo havia duas substâncias ou princípios: a luz, equiparada ao Bem e às vezes a Deus, e a Escuridão, equiparada ao Mal e às vezes à matéria. As duas substâncias são eternas e igualmente poderosas. Nada têm em comum e residem em distintas regiões. A Luz, ao Norte. A Escuridão, ao Sul. Cada uma das duas substâncias tem à sua cabeça um rei. A Luz, o Pai da Grandeza. A escuridão, o Reino das Trevas. Segundo alguns estudiosos, os cátaros teriam sido os últimos remanescentes do maniqueísmo no Ocidente. Tais estudiosos desconheciam, é claro, o PT e os petistas. Mani, nós o encontramos hoje em qualquer salão paroquial, bar ou repartição pública. Em sua versão moderna, mas não muito, divide o universo em patrões e operários, ricos e pobres. Os patrões constituem o princípio do Mal, o Reino das Trevas. Os operários, por sua vez, são Luz e Salvação. O rico será sempre maldito, mesmo que sua riqueza tenha sido conquistada honestamente. E o pobre será sempre abençoado, já que a pobreza passou a ser sinônimo de virtude. No fundo, a interpretação romana dos Evangelhos que, ao considerar o lucro um pecado, dividiu o Ocidente, do ponto de vista econômico, em Norte e Sul. Ao Norte, os países ricos e protestantes, pois para estes, ser rico é prova de ser benquisto por Deus. Ao Sul, os países pobres e católicos, pois para estes, dos pobres é o Reino dos Céus. A equação acaba fechando: o bem-estar dos países protestantes do Norte, para os quais Deus gosta mesmo é dos ricos, é financiado pela indigência dos países católicos do sul, para os quais Deus gosta mesmo é dos pobres. Tivéssemos uma ministro da Economia com tanto carisma como Jeová, estaria resolvido o problema das greves no Brasil. Para quem leu os romances baseados no realismo socialista, deste stalinista impenitente, Jorge Amado, nada de novo. Os ricos são podres e devassos. Os pobres são nobres e castos. Pena que a teimosia dos fatos não confirma tão lindas teorias. Pois é a luta pela sobrevivência em condições adversas o que mais corrompe as classes menos favorecidas. Para um homem sem maiores problemas materiais, não é difícil ser nobre. Já para um pobre, não é fácil fugir à condição de pobre. A Igreja Católica, apesar de seus dois milênios de manipulação do poder, não parece ter entendido este paradoxo que de paradoxal nada tem: sendo rico, posso dar-me ao luxo da generosidade. Sendo pobre, mesquinharia é meu alimento cotidiano. Em nada me espanta, pois, que os teólogos ditos da libertação apoiem o PT, última flor, inculta e feia, do maniqueísmo. Quem me vê assim falar, já deve estar pensando: o cronista é milionário. Equívoco do leitor. Sou bilionário. Ao chegar a Florianópolis, meu patrimônio era dois bi. Ou seja, uma bicicleta e uma biblioteca. Dada a histeria estival da ilha, desfiz-me da bicicleta e hoje estou reduzido à minha biblioteca. Nem por isso acho que ser rico seja necessariamente sinônimo de ser crápula, e pobre sinônimo de ser santo. O universo é por demais caótico para ser reduzido a uma linguagem binária. Todo empresário é um canalha, dizia-me certa noite uma dessas meninas que vivem em uma cobertura e esperam na fila para pagar três mil dólares pelo sublime direito de passar fome e treinar guerrilha na Nicarágua. Dyonelio Machado, saudoso e injustiçado escritor gaúcho, disse-me um dia: "a data é inerente ao texto". Parodiando Dyonelio, eu diria que besteiras são inerentes à idade. E falo de cátedra: quando jovem, idiota e maniqueísta, eu também pensava assim. Mas o grave em minha interlocutora é que já estava entrando em sua quarta década de vida. Em minha adolescência, intoxiquei-me de leituras, primeiramente cristãs, depois marxistas e finalmente anarquistas. Ou seja, dose tripla de maniqueísmo. Vivia em uma pequena comunidade do interior gaúcho, não tinha de lutar pelo meu pão de cada dia e considerava todo comerciante, empresário ou fazendeiro, um criminoso. Com o tempo, abandonei Cristo, Marx, Kropotkins, Bakunins e Trotskis da vida. Como cachorro que sacode o corpo para secar-se, sacudi-me e joguei para bem longe de mim aqueles conceitos que, se em teoria são lindos, nas prática jamais funcionaram. Para o cachorro, o problema é simples, boa parte da água vai embora e o que sobra evapora. Ideologia é bem mais grave, adere como lepra à pele e por mais que a gente se sacuda sempre permanece alguma caspa. Por muito tempo transportei comigo este preconceito em relação ao capital e, por extensão, a seus detentores. Não fosse ter um dia saído de minha pequena cidade, conhecido outras culturas e gentes, faria coro com a jovem petista: todo empresário é um canalha. Viajei por países onde o comércio é crime e lá vi miséria, escassez de toda e qualquer coisa, corrupção, desrespeito aos direitos mínimos dos cidadãos, ausência total de liberdade de expressão e de imprensa. (Que mais não seja, estão aí os jornais para confirmar o que há muito se sabia). Como também vivi em sociedades de consumo compulsivo. Embalado desde a adolescência pelos discípulos de Mani, sempre abominei as sociedades de consumo. Após ter vivido em algumas delas, a caspa começou a cair. Sociedades capitalistas como Suécia, Alemanha ou França dão ao trabalhador condições mil vezes melhores que as ditas - e agonizantes, espero - ditaduras do proletariado. Pois as sociedades de consumo criam necessidades, em boa parte supérfluas, é verdade. Mas o supérfluo gera mercado e o mercado gera trabalho. Queremos construir uma sociedade de classe média, declarava o Dr. Lula no domingo passado. Sem falar que a definição de classe média só tem sentido enquanto existir uma classe alta e outra baixa - ou então não seria média - o candidato do PT lembra-me anedota que corre na Europa sobre as diferentes visões de mundo de americanos e franceses. O americano, ao ver um cidadão dirigindo um Mercedes ou BMW, logo exclama: "Que maravilha, vamos construir uma sociedade onde todos tenham acesso a um carro destes". Já o francês pensa por outros rumos: "Que canalha! Vamos construir uma sociedade onde esse filho-da-mãe ande a pé como todo mundo". A classe média brasileira tem vivido mais de susto do que de rendas e o candidato petista apresenta ao país este brilhante programa, transformar o Brasil todo numa imensa classe média. Todo empresário é um canalha, dizia a moça petista. E logo eu, que de berço não simpatizava com estes senhores, senti-me obrigado a defendê-los. Pois nesta república papeleira, onde investir no dólar, over ou ações é lucro certo e trabalho nenhum, penso que ao empresário devia ser erguido um monumento: é homem que nestes dias de lucro fácil e desonesto tenta investir em produção, quando poderia muito bem estar enchendo os bolsos apostando nas ficções decorrentes da inflação. Se há um herói nestes tempos de paz, neste Brasil de papel já em fase de hiperinflação, este herói é quem investe seu capital tentando produzir riqueza. Vamos estabelecer a luta entre o capital e o trabalho - declarava Lula, há poucas semanas, aos jornais. Verdade que agora já fala em debate entre capital e trabalho, afinal votos valem mais do que coerência. Mas isto é o de menos. O trágico nestas primeiras eleições presidenciais, após três décadas de jejum cívico, é que o PT alimente sua campanha com a tosca doutrina de um persa de dezessete séculos atrás. O capital é o Reino das Trevas. O trabalho, o Mundo da Luz. Não é por acaso que Dr. Lula tem formação católica e tem recebido o apoio descarado desta instituição fundamentalmente maniqueísta, a Igreja Católica. Ganhe ou não o partido dito dos trabalhadores estas eleições, o mal já está feito. As ruas estão tomadas por uma juventude fanatizada empunhando bandeiras e conceitos obsoletos. "A revolução, nos a faremos com os jovens" - dizia o ideólogo dos terroristas em Os Sete Loucos, de Roberto Arlt - "pois os jovens são estúpidos e entusiastas". O que nos evoca, tragicamente, os primeiros jovens que um dia empunharam na Alemanha, com a fé dos crentes, a bandeira com a cruz gamada. (Joinville, A Notícia, 10.12.89)
Domingo, Outubro 28, 2007
TRIBUTAÇÃO SEGUNDO SWIFT Nestes dias em que se discute a CPMF e reforma tributária, sempre é bom evocar Swift e seu relato sobre a Academia de Lagado, em Balnibarbi: Vi dois acadêmicos a discutir com calor o meio de criar impostos sem que os povos murmurassem. Um, sustentava que o melhor método seria impor uma taxa sobre os vícios e as paixões dos homens, e que cada um seria coletado segundo o juízo e a estima dos seus vizinhos. O outro acadêmico era de um sentimento inteiramente oposto e pretendia, pelo contrário, que era preciso coletar as belas qualidades de corpo e de espírito de que cada um se orgulhava, e coletá-lo mais ou menos segundo os seus graus, de maneira que seriam os seus próprios juízes e fariam a sua declaração. A maior taxa seria imposta sobre os cultores de Vênus, os favoritos do belo sexo, proporcionalmente aos favores que tivessem recebido, e devia reportar-se ainda, sobre este assunto, à sua própria declaração. Era preciso também coletar fortemente o espírito e o valor, segundo a confissão que cada um fizesse das suas qualidades; mas com respeito à honra, probidade, saber, modéstia, isentavam-se essas qualidades de qualquer taxa, visto que, sendo muito raras, não dariam lucro algum; que não se encontraria ninguém que não quisesse confessar que as encontrava no seu próximo e que quase ninguém teria o arrojo de as atribuir a si próprio. Do mesmo modo se deviam coletar as senhoras em proporção da sua beleza, dos seus atrativos e das suas graças, conforme ao seu próprio juízo, como o que se fazia com relação aos homens; mas pela fidelidade, sinceridade, bom senso e bondade natural das mulheres, visto que disso não se ufanam, nada deviam pagar, pois tudo o que pudesse receber-se daí não bastaria para cobrir as despesas do governo.
COMO MANIPULAR FATOS João Paulo II foi o papa que mais santos fez em dois mil anos de história da Igreja. Pelos dados que disponho, até o final do século passado, canonizou nada menos que 447 beatos. Todos os outros 263 papas anteriores, somados, fizeram 302 canonizações. De uma leva só, no começo de outubro de 2000, João Paulo II canonizou 120 cristãos martirizados na China entre 1648 e 1930. Além disso, promoveu outras 1052 pessoas à condição de beatas, o penúltimo estágio antes da santidade. Bento XVI está se revelando sério candidato a desbancar seu predecessor como fabricante de santos em série. De uma tacada só, acaba de beatificar 498 espanhóis mortos durante a guerra civil. A lista dos novos candidatos à canonização compreende dois bispos, 24 padres, 462 religiosos, três seminaristas e sete leigos. Vejamos como a France Presse noticia o fato, pelo menos segundo a transcrição da Folha Online. PAPA BEATIFICA 498 MÁRTIRES DA GUERRA CIVIL ESPANHOLA Cerca de 30.000 pessoas assistiram neste domingo (28) na Praça São Pedro à cerimônia de beatificação de 498 "mártires" das "perseguições religiosas" da Guerra Civil espanhola (1936-1939). Ao término da cerimônia, o papa Bento 16 exortou os espanhóis a trabalharem pela "reconciliação e pela convivência pacífica". "Com suas palavras e gestos de perdão para com seus perseguidores,(os novos beatos) nos estimulam a trabalhar incansavelmente pela misericórdia, pela reconciliação e pela convivência pacífica", disse o papa ao término do Angelus, pronunciado da janela do Palácio Apostólico no Vaticano. Bento 16 não presidiu a cerimônia de beatificação celebrada na Praça São Pedro, embora tenha assistido ao rito do Palácio Apostólico de onde dirigiu a mensagem para os cerca de 30.000 peregrinos presentes. A cerimônia, realizada em espanhol, ficou a cargo do cardeal português José Saraiva Martins, prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, representante oficial do papa. Nas primeiras filas estavam importantes representantes do governo, entre eles o ministro das Relações Exteriores, Miguel Angel Moratinos. As presenças de Moratinos e de um dos autores da Lei de Memória Histórica na cerimônia no Vaticano foram consideradas "um gesto amistoso após fortes atritos" com a Igreja, segundo o jornal espanhol El País, e deverá servir para pôr fim a qualquer polêmica com o governo socialista. O governo de José Luis Rodríguez Zapatero apresentou uma lei para reabilitar as vítimas do regime do general Francisco Franco. Que deduzir da notícia assim reproduzida? A frase final deixa claro que os 498 espanhóis foram vítimas das forças de Francisco Franco. O que está longe de ser verdade. Entre 1931, quando a República Espanhola foi proclamada, e 1939, quando a Guerra Civil terminou, cerca de sete mil religiosos católicos foram assassinados... pelos republicanos. Isto é, pelos comunistas. Segundo o historiador Ricardo de la Cierva, em Historia Total de España, "nos quatro meses que precederam a guerra civil houve 160 igrejas incendiadas. Entre os milhares de civis mortos pelos comunistas, anarquistas e socialistas, estão pelo menos 6 mil padres, freiras e monges, além de 12 bispos. Muitos foram queimados vivos e outros foram enterrados ainda com vida". Bento XVI não está beatificando as vítimas de Francisco Franco. Está beatificando as vítimas dos comunistas espanhóis. Houve manipulação na notícia publicada na Folha Online. Manipulação da France Presse ou da Folha Online? Conhecendo os bois com que lavro, eu diria que da France Presse não foi.
Crônicas da Guerra Fria (20) CEAUCESCU TEM MEDO Florianópolis - Perambulava eu outro dia pelo Parque Farroupilha, em Porto Alegre, quando deparei-me com um daqueles flagrantes da realidade que nos exigem alguns segundos de reflexão para serem entendidos. Era domingo. Em um bar, do lado do brique, meia dúzia de filhinhos de papai, bem nutridos e empunhando uma cerveja depois da outra, empunhavam bandeiras vermelhas com a foice e o martelo e cantavam: Ai, quem diria? Ai, quem diria? O proletário derrotando a burguesia. Todos pertenciam, é claro, ao dito Partido dos Trabalhadores, mas de trabalhadores não tinham a cara. Aliás, neste primeiro turno de eleições presidenciais, o PT foi vitorioso entre os eleitores residentes em Londres, Paris e Roma. Tais votos serão oriundos, certamente, dos operários brasileiros que labutam às margens do Tâmisa, do Sena e do Tibre. Volto a Florianópolis. No domingo seguinte, estive no bar do Arante, em Pântano do Sul, baluarte estival das esquerdas ilhoas, onde a mesa é farta e cerveja sempre gelada é o que não falta, ao contrário de Moscou, onde apesar da perestroika, segundo amiga recém-chegada de lá, cerveja não há nem pra remédio e papel higiênico, mesmo nos hotéis de luxo, só com requerimento no qual deve ser especificada a metragem necessária. Curioso cálculo. Pois não é que naquele pântano, atulhado de carros pra burguês nenhum botar defeito - quase todos com a insígnia do PT, é claro - onde não faltava nem cerveja, nem comida, nem papel higiênico, dúzias de filhinhos de papai, todos gordos e bem nutridos, balançavam-se ao som de uma canção estúpida? O cantor, que está de partida e já vai tarde, berrava: A burguesia fede fede fede É o que dá os petistas só irem de carro a Pântano do Sul. Tivessem de enfrentar um ônibus proletário superlotado de gente humilde, talvez percebessem que se há alguma classe que cheira mal cá na ilha, esta classe é o proletariado. Mas petista não gosta de ônibus, coisa de lumpenproletariat. Gostam mesmo é de xingar a classe à qual pertencem, os pais que lhes facilitam moradia, carro e cerveja. Não quero bancar o freudiano primário, mas em todos os petistas com os quais tive ocasião de cruzar, observei um sentimento de ódio ao pai e autofagia. A burguesia fede, fede, fede. Ó Arante, salta aí uma geladinha! - O gênio da nação deve ser reeleito - disse Nico, diante dos delegados participantes do 14º Congresso do Partido Comunista Romeno, em Bucareste -. O brilhante relatório do camarada Ceauscescu faz uma análise brilhante do caminho luminoso que conduz a um futuro magnificente. Nico é o filho de Nicolae Ceaucescu, vice-decano dos ditadores contemporâneos. (Mais antigo, só Fidel Castro). É, pelo menos, filho agradecido. Nestes dias em que começam a esboroar-se as ditaduras comunistas do Leste europeu, Nico apóia a "reeleição" por mais cinco anos de seu papá. O que me lembra áspera discussão que tive em Berlim Ocidental. Uma amiga que há muitos anos lá reside, detentora de 12% de ações de uma sólida empresa brasileira, me confidenciava seu ódio ao capitalismo e amor ao socialismo e apontava para o outro lado do Muro - antes da queda do Muro, é claro - afirmando: "Lá no Leste, a família é mais unida". É verdade. O Muro está caindo, para perplexidade dos alemães orientais, para os quais a Berlim livre era uma realidade mais distante do que a Austrália ou Nova Zelândia. Por alvissareira que seja a notícia - sem dúvida alguma, a mais grata que os jornais me trouxeram em toda minha existência - isto não significa que os cidadãos do Leste europeu estejam libertos do tacão stalinista. Gorbachov mas não molha, escrevia eu em crônica passada, pouco esperançoso com a lentidão da perestroika. Mas os acontecimentos tomaram um ritmo acelerado no lado de lá. Longa vida a Gorbachov. E se conseguir fazer com que os russos tirem as patas de suas colônias, Nobel da Paz ao Mikahil**. Na Romênia, lá onde o proletariado derrotou a burguesia, cada cidadão tem direito a meio quilo de carne e dez ovos por mês. É o que dizem os jornais e me pergunto se não pecam por otimismo. Nos dias em que andei por lá, vi gente brigando à tapa mal chegou uma paleta bovina em um daqueles supermercados sinistros de longas gôndolas vazias. Cerveja, só da China, morna e de péssima qualidade, isso quando ocorria o milagre de encontrar-se um bar que tivesse cerveja, onde clientes cheios de medo falavam baixinho e se empapuçavam com aquele xarope sem graça. Mas não sejamos injustos, há bons vinhos na Romênia. Eu os degustei, pois era estrangeiro e pagava com divisas fortes. Os romenos, que plantam a vide, colhem a uva e elaboram o vinho, estes ficam chupando o dedo. Nunca é demais repetir que nos paraísos socialistas, onde o proletariado derrotou a burguesia, existem as berioskas ou dollarbutiques, onde se pode encontrar os mais sofisticados bens de consumo que o Ocidente malvado e capitalista produz. Mas a esses requintes só tem acesso o turista provido de dólares, marcos ou francos. Foi na Romênia, creio, que senti pela primeira vez o absurdo e a desumanidade de uma fronteira intransponível. Estava em Mangália, cidade balneária às margens do rio Negro, a sete quilômetros da fronteira com a Bulgária. Hospedei-me em hotel de luxo, onde como cardápio só havia duas opções, carne de frango onde porco. Se você pedia porco, tudo bem. Mas se pedisse frango, só vinha porco mesmo, afinal frango era apenas uma abstração do cardápio. Se em hotel de luxo, pagando em dólares, assim era tratado o turista, fiquei imaginando o que comeriam os romenos. Mas não era disto que pretendia falar. E sim de um garçom, meu interlocutor em Mangália. Com ele eu trocava meus dólares por lei (plural de leu, a moeda lá deles). Ao saber que eu iria a Varna, na Bulgária, devolveu-me meus dólares e outros mais. Queria que eu lhe comprasse "o que fosse possível" nas berioskas búlgaras, mais baratas que as romenas. Era um homem de meia idade e ocorreu-me perguntar se não tinha alguma vez atravessado aquela fronteira, a sete quilômetros do hotel. Não, jamais a atravessara. A polícia lhe exigiria razões muito graves para ultrapassar aquela linha, sem falar que, tal pedido, já o colocaria na lista dos suspeitos de conspirar contra o Estado. O garçom teria uns quarenta anos e jamais lhe fora permitido dar uma espiadela no país ao lado. Nas praias, observei mais um daqueles fatos que nos exigem algum tempo de reflexão para serem entendidos. Turistas estrangeiros e internos tiravam fotos ao lado de maquetes de veleiros. Veleiro mesmo, que é bom, nem pra remédio. Muito menos barcos. Fui consultar meu interlocutor. - É simples, disse o garçom -. A Turquia fica a apenas dois dias de navegação. Seria tentador demais para quem sabe velejar ou remar. Senti-me então como um viajante privilegiado, em rápido turismo por um gulag. Fiquei duas semanas na Romênia. Duas, porque não havia vôo de volta ao mundo livre logo após a primeira. Ofereceram-me mais uma terceira semana no país, nesta não pagaria nada por hotel ou refeições. Sei que para muitos jornalistas não constitui nenhuma falta de ética receber mordomias para fazer o elogio de ditaduras, há inclusive quem se orgulhe de prêmios literários concedidos pela ilha particular de Castro, da mesma forma que Jorge Amado orgulhou-se um dia de receber o prêmio Stalin de Literatura. Devo ser antiquado, pois recusei a hospitalidade romena. O que queria mesmo era sair, o mais rápido possível, daquele universo sufocante. As ditaduras do proletariado, inspiradas, diga-se de passagem, no pensamento burguês, estão ruindo em ritmo vertiginoso. As estátuas de Stalin vieram abaixo após 1956, agora é Lênin e a estrela vermelha que começam a ser derrubadas. E Marx que se cuide. No Leste, a Romênia e a Albânia candidatam-se seriamente ao título de museus vivos do obscurantismo. Como também a Cuba de Castro. Ceaucescu tem medo e alerta seus prisioneiros para não traírem os ideais do socialismo. Enquanto as nações centro-européias começam a libertar-se dolorosamente de meio século de escravidão, ainda resta no Brasil uma juventude analfabeta que empunha bandeiras com foice e martelo e prega a luta de classes. Stalin morre no Velho Mundo e ressuscita, triunfante, na sofrida América latina. Aqui-del-rey, Gorby! * No Natal de 1989, 13 dias após a publicação desta crônica, Nicolae Ceaucescu e sua mulher, Elena, foram julgados e executados em Târgovişte, Romênia, com mais de cem tiros. ** Dois anos depois, mais precisamente em 26 de dezembro de 1991, era decretado o fim da União Soviética. (Porto Alegre, RS, 09.12.89)
Sábado, Outubro 27, 2007
SÓ COIMBRA NÃO VIU Amigos me enviam artigo intitulado "As Vejas que eu vi", do jornalista David Coimbra, de Zero Hora, de Porto Alegre: Eis aí duas capas da Revista Veja sobre o mesmo assunto: Che Guevara. Há 10 anos entre elas. A primeira, publicada em 1997, foi feita a partir de uma matéria escrita por Dorrit Harazim, talvez a repórter de maior prestígio no Brasil. Dorrit viajou à Bolívia, onde foi assassinado o Che, e voltou com um texto descritivo, sustentado por cartapácios de documentos e pelo menos uma dezena de entrevistas. O título: "O Triunfo final de Che". Dorrit não faz uma apologia do guerrilheiro. Limita-se a investigar as ocorrências de seus últimos dias e tenta explicar como ele se transformou em mito. "Che Guevara tinha tudo para se tornar imortal", escreveu. "Era bonito, destemido e morreu jovem, defendendo conceitos igualmente jovens, como a solidariedade e a justiça social". O texto de 2007 tem como título "Che: Há 40 anos morria o homem e nascia a farsa". Não é uma reportagem; é um grande artigo. Os autores não saíram para fazer a matéria e retornaram com a convicção de que Che foi um monstro. Não. Eles partiram da convicção de que Che foi um monstro para escrever a matéria. O texto se propõe a convencer o leitor da tese da revista. A Veja de hoje descreveu o Che desta forma: "Com suas fraquezas, sua maníaca necessidade de matar pessoas, sua crença inabalável na violência política e a busca incessante da morte gloriosa, foi um ser desprezível". O jornalista parece não entender muito de jornalismo. Ninguém sai para fazer matéria quatro décadas após um fato ter ocorrido. A matéria já foi feita e refeita centenas de vezes. Os jornalistas de Veja saíram em busca dos fatos que vieram à tona nestes últimos quarenta anos e mostraram a verdadeira face do Che - a partir inclusive de seus próprios depoimentos - a face de um assassino de gatilho fácil. Coimbra parece esquecer que a imprensa brasileira viveu décadas dominada pelo pensamento de esquerda e foi este pensamento que construiu a imagem angelical do Che. Dorrit Harazim não escreveria de outra forma: era comunista. Para os comunistas, matar sempre foi legítimo, sempre que em nome da Causa. Se a Causa dá com os burros n'água e leva Estados à miséria e à ditadura, os comunistas se escusam com um vago dar-de-ombros: "foi um desvio da doutrina. Vamos tentar de novo". Longa é a jornada das massas até o entendimento. Quem ousaria afirmar, nos anos 40, que Stalin era um assassino frio e havia matado milhões? Só ousaram afirmar isto alguns raros gatos pingados, como Orwell, Koestler, Kravchenko, Gide, Sábato e mais alguns, que foram condenados imediatamente como agentes do imperialismo. Mesmo quando Kruschov denunciou os crimes do stalinismo, no XX Congresso do PCUS, em 56, o clima era de incredulidade. Conheci velhos comunistas de Porto Alegre que choraram indignados e diziam ser tudo intriga dos serviços de informação ianques. Hoje, só o Niemeyer e o Suassuna são capazes de louvar Stalin. Foram necessárias décadas para desmitificar o tirano. Uma vez desmitificado, as esquerdas apoiaram-se em Lênin. O stalinismo era um desvio da doutrina do santo Vladimir Illitch Ulianov. Hoje se sabe que Lênin era também um assassino e que o terror começou sob sua tirania. Pergunta-se Coimbra: E agora? Em qual Veja devo acreditar? Sei a resposta: na de há 10 anos. Não porque a atual desmoraliza Che Guevara. Pouco me importa Che Guevara. Importa-me a Veja. Criei-me lendo essa revista, leio-a desde o tempo em que ela balizava o jornalismo brasileiro. Acontecia algo grave durante a semana, como, sei lá, a crise do Senado, e eu ia entender na Veja. Mas, por algum motivo, a Veja mudou. Não falo de Diogo Mainardi e outros colunistas. Esses estão emitindo opinião, e fazem-no com competência e graça. Posso até não concordar com o que escrevem, mas não preciso concordar com um colunista para gostar dele. Falo do jornalismo da Veja, da carne da revista. Sim, a Veja mudou. E mudou para melhor. Apparatchiks como Dorrit Harazim nela não têm mais espaço. Mudou não só a Veja mas mudou também o mundo. Se até os anos 90 o Muro de Berlim era um bastião de defesa da "fortaleza assediada" do socialismo, hoje ninguém consegue mais sustentar esta potoca. Ocorre que estes fatos demoram a chegar a este nosso "continente puñetero", como dizia Augusto Roa Bastos. As universidades ainda estão cheias de múmias que construíram suas carreiras montadas no marxismo, e múmia não se dobra. Se esfarela. Professor algum, caquético e em fim de vida, ousaria admitir: minha vida toda foi um erro e minha obra não vale nada. Precisaremos mais duas ou três gerações para se estabeleça a convicção de que o marxismo foi a pior das pestes que infestou o século passado. De ponta a ponta. O mundo mudou. O muro caiu. Só David Coimbra não viu.
O CALDO ENGROSSA PARA SÃO LANCELLOTTI Poucas coisas me alegram tanto quanto ver esses monumentos públicos à virtude e à moral de calças na mão. Não é sadismo, não. É a satisfação de ver pelo menos alguém desmascarado neste grande baile de máscaras que a mídia nos mostra. Ontem, autoridades intocáveis, impolutas, acima do bem e do mal. De repente, o tropeço. E a máscara cai. Do dia para a noite, o monumento vira sucata. Aconteceu com o rabino Henry Sobel, aconteceu com Renan Calheiros e agora acontece com o padre Júlio Lancellotti. Que hoje deve estar se arrancando os últimos fios de cabelo com a prisão de seus supostos extorsionistas. Hermano Freitas, da Folha Online, nos traz novas e nada surpreendentes revelações sobre a obra pia de São Lancellotti. Segundo o repórter, Nelson Bernardo da Costa, o advogado de defesa de Anderson Marcos Batista, o mentor da suposta extorsão - suposta porque ao que tudo indica não houve extorsão alguma - recebeu em 2001 seis mil reais em honorários do padre para a defesa de seu pupilo, condenado por homicídio. O que poderá ser facilmente comprovado, pois os pagamentos dos honorários foram realizados por depósito bancário, em seis parcelas de mil reais. Ou seja, São Lancellotti financiava seu "extorsionista" desde há seis anos, e não três como declarou. O advogado negou que seu cliente tenha praticado extorsão e afirma que o dinheiro e os presentes foram dados pelo padre a título de "gratificação". Mais ainda: que o valor dos bens recebidos por seu cliente foi de "quase 700 mil reais" e que o relacionamento entre o padre e ex-detento acabou após Batista ter se casado, em outubro de 2006. Ainda de acordo com ele, o sacerdote mantinha relações sexuais com outros meninos. "Eles chegaram a ter relações sexuais dentro da igreja", disse o advogado de Batista. O caso entre o padre e o moço teria iniciado quando este foi internado na Febem por roubo, aos 16 anos. Ora, Batista hoje tem 25 anos e teve cinco carros de luxo. Nove anos e muita grana rolaram desde então. Batista se revelou mais caro que amante argentina. Até a Mônica custou menos ao senador Renan Calheiros. O delegado André Luis Pimentel, do Setor de Investigações Gerais, pedirá a quebra do sigilo bancário do padre para apurar o valor total da extorsão. A platéia, em suspense, espera as novas revelações.
Crônicas da Guerra Fria (19) DE ONDE NASCEM AS FLORES Florianópolis - Os animais são comoventes, não é verdade? Outro dia, a televisão nos mostrava cenas brutais de um massacre de elefantes, espécie cuja extinção preocupa organismos do mundo todo. Consta que há dez anos atrás um milhão de elefantes pastava pelas florestas africanas e destes só restam hoje 620 mil. Pululam ainda, nos países do Primeiro Mundo, entidades que lutam pela preservação de hienas e focas. O que não parecem ter percebido estes ativistas - ou talvez já comecem a percebê-lo - é que, se elefantes, focas e baleias estão ameaçados de extinção, isto se deve ao fato dos cidadãos do Primeiro Mundo adorarem defesas de marfim esculpidas, casacos de pele e cãezinhos bem nutridos. Mais que amor aos animais, parece predominar uma certa mauvaise conscience nestas manifestações ecológicas. Já os seres humanos, estes não parecem comover tanto. Em três anos, de 75 a 78, Pol Pot reduziu a população do Camboja de sete para cinco milhões de habitantes e o Ocidente reagiu com um silêncio constrangido. Há quem fale em um milhão mais de cadáveres. Verdade que a imprensa americana e européia indignou-se, mas isto quando nada mais podia ser feito. Pol Pot, educado em Paris, seguia a doutrina de Mao, e Mao era intocável. Hoje, começa-se a suspeitar que Mao matou mais que Stalin e Hitler juntos. Mas, enfim, é tão desagradável contar cadáveres, ainda mais quando são milhões, que melhor mesmo é não tocar no assunto. Um elefante incomoda muita gente. Quatrocentos mil incomodam muito mais. Três, quatro, cinco, vinte, cem milhões de pessoas parecem não perturbar o sono de ninguém. Eles, que são amarelos, que se entendam. Que mais não seja, o bicho-homem é desprovido daquele olhar melancólico de espécime em extinção. Hitler à parte, estes formidáveis assassinos que marcaram o século sempre contaram com o apoio incondicional, não só das esquerdas, como também dos melhores cérebros das esquerdas. Listar os que os louvaram em suas obras exige um esforço enciclopédico. Mais fácil arrolar os que denunciaram genocídios, que para isto bastariam os dedos das mãos de três ou quatro pessoas. A propósito, outro dia Paulo Francis se penitenciava de ter apoiado o Khmer Vermelho em sua entrada triunfal em Phnon Penh. Alvíssaras, pelo menos fez um mea culpa. Se não me falha a memória, também havia apoiado Khomeiny, medíocre condutor de povos, afinal só produziu um milhão de cadáveres. Enquanto ecologistas do mundo todo preocupam-se com elefantes, baleias e focas, Pol Pot está em vias de voltar ao Camboja, como parte de um governo de coalizão, com o aval das nações ocidentais. Se um elefante continua a incomodar muita gente, Pol Pot parece já não incomodar ninguém mais. Enfim, quem morre descansa. Pior mesmo, só a morte em vida dos seres que vivem sob o tacão das ditaduras socialistas. Para o Janer - reclamava outro dia um leitor - o socialismo é um inferno. Jamais me ocorrera formular a frase, assim tão precisa e redonda. Mas assino embaixo. O leitor intuíra, com síntese, o que penso de tais regimes. Pois não é que leio, nas últimas reportagens internacionais, esta mesma frase, sem tirar nem pôr: “o socialismo é um inferno”? Só que desta vez era dita por um cidadão que fugia da Alemanha Oriental, o país de mais sólida economia do bloco socialista. O homem não é apenas corpo e alma - escreveu Stefan Zweig - mas corpo, alma e passaporte. Tendo vivido em uma Europa convulsionada pela guerra, Zweig tinha uma idéia bastante precisa do valor deste terceiro elemento inerente ao ser humano. Passada a guerra, passaporte é documento que em menos de uma hora se retira na polícia. Para os europeus ocidentais, bem entendido. Para os que ficaram no brete forjado por Stalin, passaporte é milagre caído dos céus, símbolo e possibilidade de vida nova, adeus a um regime de morte em vida. Se algum leitor mais céptico acha que o cronista está exagerando, que dê uma olhadela nos jornais e revistas das últimas semanas. Neles verá jovens chorando e rindo, exibindo um passaporte, quase sem acreditar que o tem em mãos. Verá também trens atulhados de trânsfugas do paraíso, trens diminuindo a velocidade junto às estações para que os que ficaram possam entrar pelas portas e janelas lacradas para que da utopia ninguém mais fuja. Enquanto escrevo estas linhas, já eram 45 mil os que abandonavam apartamentos, carros, bens, parentes e passado, em busca de ares mais respiráveis. Fogem do menos pobre - ou do mais rico, se quisermos - dos países socialistas. Várias vezes estive em Berlim Ocidental, tanto a trabalho como pelo simples prazer de visitar uma das mais vivas e agitadas capitais culturais da Europa. Todas as vezes que por lá passei, entreguei-me ao masoquístico prazer de atravessar o muro, viagem que deveria fazer todo cidadão que habita em países livres, que mais não seja para valorizar na volta o que jamais lhe fez falta, a liberdade. Sem exagero algum, a diferença é do dia para a noite, do céu para o inferno. Se você vai de metrô, na hora de atravessar o muro um policial de má catadura olha por sessenta longos segundos a foto do passaporte e, por mais outros sessenta, o seu rosto. Você é obrigado a trocar moeda forte por moeda-lixo e, nestes trâmites burocráticos, para atravessar vinte metros, você leva meia hora. Isto se não houver tensões entre Leste e Oeste. O Muro funciona como um tambor de grande ressonância e se por acaso a Nomenklatura russa não gostou das declarações de um líder ocidental, a travessia daqueles vinte metros pode custar-lhe quatro ou mais horas. Isso se não for proibida. Minhas incursões a Berlim Oriental foram rápidas, mas suficientes para auscultar o medo, a tristeza e a ausência de futuro estampadas nos rostos que vi. Só uma historinha, para ilustrar. Ao atravessar o muro, notei que vários turcos faziam a mesma travessia. Que jornalistas e turistas fizessem tal peregrinação, era perfeitamente compreensível, uma questão de curiosidade, necessidade de comparação. Mas que buscariam no lado de lá operários imigrantes que fugiam de seus próprios países? Curiosidade não era. Buscavam mulheres, explicou-me um amigo berlinense. Muitas jovens de Berlim Oriental entregavam-se a quem quer que fosse, na esperança de que os visitantes com elas casassem, o que lhes daria direito a um passaporte para o Ocidente. Empenhavam corpo e alma para conseguir aquele terceiro elemento constitutivo do ser humano, do qual nos falava Zweig. O comunismo está morrendo, clamam os jornais. Não é verdade. Morreu há muito tempo, o necrológio é que foi publicado com atraso. A pessoa alguma bem informada é lícito alegar desconhecimento do que ocorria nas ditaduras do Leste. Os gulags datam de 1918. As purgas e assassinatos, de 1936. Em 49, Kravchenko desvelava ao Ocidente a tirania stalinista. Em 56, Kruschov passa a admiti-la. No mesmo ano, foi invadida a Hungria. O muro de Berlim data de 61. De lá para cá, contam-se aos milhares os que, arriscando a própria vida - e muitas vezes perdendo a aposta - ousaram tentar a travessia rumo à liberdade. Isto, só não viu quem não quis. Gorbachov vem sendo aclamado, tanto no bloco socialista como neste universo capitalista - tão odiado pelos que aqui vivem e adoram o socialismo e tão invejado pelos que sofrem o socialismo - como a esperança de transformação das ditaduras do Leste. Alguns sinais são promissores. Polônia e Hungria não mais querem ouvir falar de comunismo, optam por uma economia de mercado e Moscou, pelo menos por enquanto, não enviou seus soldados a fazer turismo blindado em Varsóvia ou Budapeste. Letônia, Estônia e Lituânia pedem autonomia e, pelo menos por enquanto, os tanques russos por lá ainda não exibiram suas lagartas. No quadragésimo aniversário desta república de papel, a RDA, seus cidadãos votam com os pés e fogem para o Ocidente e, pelo menos por enquanto, Honecker não conseguiu ousar uma solução à la Pequim. Estamos em compasso de espera. Verdade que a imprensa continua amordaçada nos países socialistas e xerox é instrumento de subversão, portanto proibido. De fronteiras abertas, nem falar. Quando houver um buraco na Cortina, que dele desfrutem os mais audazes. O que me espanta em tudo isto, é que stalinistas impenitentes venham a exibir a Perestroika como fruta sadia, decorrência do socialismo. Algo assim como se um piloto, encharcado de coca, errasse de rota e virasse herói, por ter matado apenas uma dúzia de passageiros em plena floresta. Órfãos de Deus e encharcados de ideologia, os intelectuais deste século incentivaram e defenderam uma tremenda cagada histórica. Ao contemplar a florzinha que emerge do maelström de merda, batem palminhas: - Que linda! (Joinville, A Notícia, 22.10.89)
Sexta-feira, Outubro 26, 2007
MELHOR NAPALM As esquerdas são divertidas. Sempre defenderam a bandidagem, alegando que a criminalidade é decorrência da miséria. Quando o governador Sérgio Cabral Filho, do Rio de Janeiro, defende o aborto como método de redução da violência no Estado e diz que a favela da Rocinha, na zona sul, é uma "fábrica de produzir marginal", é um deus-nos-acuda. Cabral apoiou-se no livro Freakonomics, dos americanos Steven Levitt e Stephen J. Dubner, que relacionam a legalização do aborto nos Estados Unidos à queda da criminalidade em áreas pobres, embora ressaltem que essa associação suscita um debate ético. Segundo o Estado de São Paulo, entidades não-governamentais e moradores de favelas acusaram o governador de criminalizar a miséria e de distorcer o discurso do movimento pró-aborto, que defende a interrupção da gravidez como direito da mulher de ter autonomia sobre seu corpo, não como forma de combate à violência. "Com essas declarações o governo escancara que defende a criminalização da pobreza. Como o Estado não tem política para incorporar o pobre, melhor que nem nasça. A política é de extermínio", disse Camilla Ribeiro, da ONG Justiça Global. "Para os mais ricos, o Estado se faz protetor; para os mais pobres, predador. Para se justificar, faz uma representação do favelado como o outro, de onde emana todo o mal", afirmou o professor Rodrigo Torquato da Silva, morador da Rocinha há 36 anos. Segundo Adriana Gragnani, do núcleo de Estudos da Mulher e Relações de Gênero da Universidade de São Paulo, Cabral baseou-se em idéias ultrapassadas, dos anos 60. "Essa tese de diminuir o número de pobres para combater a violência, seja por aborto ou contraceptivos, é antiga. Na verdade você diminui a pobreza elevando o nível de vida da população". Ora, vamos aos fatos. Nem de longe me ocorre defender a visão das esquerdas, de que a criminalidade é fator decorrente exclusivamente da miséria. Criminosos, os temos em todas as classes sociais, da mesma forma que pessoas honestas às quais jamais ocorreu cometer crimes para levar vida melhor. Mas é óbvio que as favelas são fábricas de marginais. Fabricam marginais a tal ponto que nem a polícia consegue entrar nos morros, a não ser com muitos homens e armamento pesado. Desde há muito as favelas brasileiras são verdadeiros bantustões, onde estão confinadas populações majoritariamente negras, de modo geral a serviço do tráfico, ou pelo menos como muralha de proteção ao tráfico. Os bantustões foram pseudo-estados criados pelo regime do apartheid na África do Sul, de forma a manter os negros fora dos bairros e terras brancas, mas suficientemente perto delas para servirem de fontes de mão-de-obra barata. No Brasil, esta mão-de-obra inativa foi açambarcada pelo tráfego. São as classes altas as maiores responsáveis pelo consumo de drogas? Sem dúvida. Mas quem as fornece é a favela. Também é óbvio que a miséria e a prolificidade desvairada favorece a criminalidade. Se uma família pode sustentar uma criança e tem no entanto sete ou oito, é óbvio que a maioria, senão todos, irão para a escola das ruas. Nesta escola não se aprende exatamente etiqueta e bons modos. Aí surge a televisão como elemento catalisador da violência. A telinha está ao alcance de qualquer marginal e analfabeto e exibe, sem pudor algum, um mundo de sonho, maravilhas tecnológicas, ambientes luxuosos e mulheres sensuais. Que resta ao pobre diabo que perambula pelas ruas senão o ressentimento? O tráfico é uma saída ao alcance de sua mão. Paga melhor do que recebem muitos profissionais liberais e não exige maiores qualificações. É claro que a favela é uma fábrica de delinqüentes. Desde há muito defendo a idéia de que o luxo e ostentação exibidos pela televisão constitui uma das principais causas da violência no país. A telinha promete o paraíso e o pobre diabo habita no inferno. "Eu também quero", dirá o pobre diabo. Ocorre que ele não tem como comprar. Então mata e rouba. Que fazer? Censurar a televisão? Nada disso. O que urge - e que a meu ver jamais acontecerá no Brasil - é eliminar a miséria do país. Não digo a pobreza, mas a miséria. Não sou adepto da igualdade social. Os revolucionários de 89 não me consultaram - e nem mesmo consultaram os franceses - quando empunharam como bandeira Liberté, Egalité, Fraternité. Liberdade e fraternidade, tudo bem. Já igualdade são outros quinhentos. Pobres e ricos sempre existirão em todos os países do mundo. O que não pode existir é homens e mulheres, velhos e crianças, jogados à intempérie das ruas, morando em condições mais do que precárias e comendo mal e sem satisfazer o estômago. Gente que se refugia no sono e mesmo com o ruído do tráfego faz força para não acordar. Porque acordar é ter de enfrentar a realidade. Há um setor da opinião pública que não gosta de ouvir verdades. Um dia antes das declarações de Sérgio Cabral, o secretário da Segurança, José Beltrame, disse que "um tiro em Copacabana é uma coisa e na favela da Coréia é outra". Foi outro deus-nos-acuda. Mas é óbvio que um tiro em Copacabana é uma coisa e na favela é outra. Da mesma forma que o massacre de dez mil pessoas em Darfur é uma coisa e a morte de um soldado em Israel é outra. Como um acidente de metrô com dois ou três feridos em Berlim ou Paris é uma coisa e uma tragédia com ônibus ou trens que mate uma centena de pessoas na Índia ou no Paquistão é outra. Ao Ocidente, tanto faz como tanto fez que centenas ou milhares de pessoas morram na África ou no Oriente. Já a morte de um soldado em Israel ou um pequeno acidente de metrô na Europa, isto nos toca mais. Nenhum leitor tem dificuldade em admitir estas duas últimas proposições. Difícil é aceitar a primeira. Está muito próxima de nós e deixa transparecer a idéia de que não há tratamento igual para quem vive na favela e para quem vive em Copacabana. Ora, é claro que não há. Que mais não seja, nas esquinas de Copacabana não há - pelo menos por enquanto - traficantes entrincheirados com armamento bélico de alto calibre à espreita dos policiais. No dia em que houver, e este dia talvez não esteja longe, um tiro em Copacabana será tão banal quanto um tiro na favela. As balas perdidas já estão preparando o clima para os dias futuros. De fato, o aborto não é a solução. Aborto é meia-sola. Solução seria o planejamento familiar, a contenção da miséria. Mas também é difícil admitir que famílias de classes privilegiadas tenham acesso a aborto seguro, enquanto os pobres estão expostos à sanha de carniceiros. Os católicos são cegos e surdos à esta disparidade, preferem ver mulheres morrendo ou na cadeia em vez de terem direito a um aborto tranqüilo e obviamente se escandalizam quando surge alguém empunhando o óbvio em público. Enquanto isto, a violência e a miséria são nosso quinhão. A diminuição da natalidade pode até diminuir o tráfico. Mas jamais acabará com o tráfico. O traficante circula no morro como peixe dentro d'água. Se algum governador quiser acabar definitivamente com o tráfico nas favelas, a meu ver só há uma solução: napalm.
CHINCHÓN E CINCHONA Um leitor quer saber o que é chinchón, bebida com a qual eu começava minhas leituras no Café de Oriente, em Madri. Vamos lá! É um aguardente elaborado a partir de grãos macerados do anis que se chama Matalahúga, uma fruta seca de forma ovalada e cor esverdeada, misturados com álcoois de origem agrícola. Lembra um pouco o ouzo de Kalamata grego (Ούζο Καλαμάτας). É produzido em Chinchón, província de Madri. Existe em quatro versões, o doce, o seco, o extra-seco e o seco especial. As duas primeiras estão lá pelos 40º e poucos. Quanto ao extra-seco ou seco especial, longe de mim estes cálices. Podem chegar aos 79º. Falar nisso, fiz outro dia uma descoberta curiosa. Comprei um xampu à base de quinina, que descobri então ter como nome científico Cinchona pubescens. Lembrei-me do chinchón e deitei-me a pesquisar. Curiosos são os percursos das palavras. Corria o ano de 1633 e a mulher do vice-rei do Peru, Ana de Osorio, condessa de Chinchón, sofria de uma febre tropical contra a qual os médicos espanhóis do vice-reinado confessavam não poder fazer nada. O vice-rei, desesperado ante a hipótese de perder sua amada, chamou um curandeiro indígena, que lhe aplicou a quinina. Embora o vice-rei não esperasse nenhum milagro, a mulher melhorou, a febre cedeu em poucas horas e no dia seguinte estava curada. O milagre fora obra da quinina, medicamento que os europeus desconheciam devido ao desprezo pelo que julgavam ser superstições dos índios. O vice-rei ordenou a seu médico que levasse para a Europa a planta da qual se extraía o milagroso remédio, uma substância branca, amorfa, sem cheiro, amarga e pouco solúvel, que se emprega em forma de sais para combater principalmente a febre causada pelas várias formas de malária. No Velho Continente, a planta da quina foi chamada Chinchona em homenagem à condessa, que não teve nenhum outro mérito a não ser o de curar-se com ela. Um século mais tarde, o botânico Carl von Linneus, por erro, batizou a planta como Cinchona, nome científico que leva até hoje. Erudição inútil e canja de galinha não fazem mal a ninguém. Fonte: La página del idioma español (http://www.elcastellano.org)
Crônicas da Guerra Fria (18) SOBRE SENHORES E SERVOS Florianópolis - Para observar o mundo, bastam alguns metros de altura. Como observatório, escolhi o Polly’s, restaurante que fica em um primeiro andar e cuja sacada dá para a Praça XV. O mundo, gosto de observá-lo no dia em que Deus descansa, assim sua divina presença não interfere em meus juízos. Sábado é ainda o dia preferido pelos pastores que, Bíblia sob o sovaco, vociferam contra o pecado e vícios, como também pelos mercadores que abastecem de maconha a juventude ilhoa. O que às vezes resulta em conflito. Em um sábado destes, um pastor verberava sem piedade os vícios desta Ilha de Santa Catarina e teve a infeliz lembrança de incluir, entre eles, a canabis. Foi uma vaia geral, que reboou pela Felipe Schmidt afora e talvez tenha até acordado Deus de seu merecido repouso. Surpreendeu-me o conhecimento bíblico dos artesãos que infestam a praça. De fato, em momento algum o hagiógrafo condena um baseado. O pastor mudou de assunto. Falar em Bíblia, seguidamente sou procurado por pais que querem saber onde situar este ou aquele milagre de Jesus. Não que estejam preocupados com o assunto. Acontece que a escola, sempre dançando sob o cetro de Roma, inculca nas crianças precisamente os episódios da Bíblia que pertencem ao território das lendas. De um livro escrito com ódio e sangue, extraem um Cristo edulcorado que nada tem a ver com o Cristo histórico. O dramático processo revolucionário vivido por Jesus e Judas, em uma Palestina ocupada pelo invasor romano, vira historieta de fadas, da qual Judas é escanteado. Em mãos de professoras analfabetas, o estudo deste livro fascinante, que embasa a cultura ocidental, vira conto de Chapeuzinho Vermelho. No que em pouco diferem dos pastores da Praça XV, que acham que Cristo veio ao mundo para condenar mascadores de alfafa. Entrou em vigor, no mês passado, o novo regimento interno da Câmara dos Deputados, em Brasília. Entre outras novidades, o artigo 79, parágrafo 1º, exige que uma Bíblia permaneça sobre a mesa da Presidência, à disposição de quem dela quiser fazer uso. O que já nos leva a uma interrogação: qual Bíblia? A "princeps" não há de ser, já que se contam nos dedos os homens que hoje podem ler a Bíblia no original. Considerando-se que o livro mais lido do mundo só é lido em traduções, resta a pergunta: qual tradução estará á disposição dos deputados? A Vulgata? A King James? Ou a Bíblia de Jerusalém? Pois cada igreja puxa brasa para seu assado ao traduzir a Bíblia. Sem ir mais longe, na Vulgata Cristo tem primos. Já na King James, sem compromisso algum com o dogma romano da virgindade de Maria, Cristo tem irmãos. Enfim, parlamentar lendo a Bíblia já constitui milagre e o cronista ainda reclama dos tradutores. Deixemos de rabugices e imaginemos os senhores deputados buscando no Livro inspiração para definir a conduta do trabalhador brasileiro. O Êxodo nos traz sugestões interessantes: "Quando comprares um escravo hebreu, seis anos ele servirá; mas no sétimo sairá livre, sem nada pagar. Se veio só, sozinho sairá; se era casado, com ele sairá a esposa. Se o seu senhor lhe der mulher, e esta der à luz filhos e filhas, a mulher e seus filhos serão do senhor, e ele sairá sozinho. Mas se o escravo disser: 'eu amo a meu senhor, minha mulher e meus filhos, não quero ficar livre', o seu senhor falo-á aproximar-se de Deus, e o fará encostar-se à porta e às ombreiras e lhe furará a orelha com uma sovela: e ele ficará seu escravo para sempre". O que só demonstra o caráter revolucionário da Bíblia. Enquanto os professores universitários no Brasil só agora conseguiram o direito ao ano sabático, os escravos de Israel dele já desfrutavam. A Bíblia que consulto, diga-se de passagem, é a de Jerusalém. Com imprimatur de Paulo Evaristo, cardeal Arns, pra leitor algum botar defeito. As relações entre patrão e empregado também mereceram um comentário do hagiógrafo: "Se alguém ferir o seu escravo ou a sua serva com uma vara, e o ferido morrer debaixo de sua mão, será punido. Mas, se sobreviver um ou dois, não será punido, porque é dinheiro seu". Como as metrópoles brasileiras estão sendo invadidas por migrantes de toda a América Hispânica, seria oportuno ver como é tratada esta mão-de-obra no Levítico: "Os servos e servas que tiverdes deverão vir das nações que vos circundam; delas podereis adquirir servos e servas. Também podeis adquiri-los dentre os filhos dos hóspedes que habitam entre vós, bem como das suas famílias que vivem conosco e que nasceram na vossa terra: serão vossa propriedade e deixá-los-eis como herança a vossos filhos depois de vós, para que os possuam como propriedade perpétua. Tê-los-eis como escravos; mas sobre os vossos irmãos, os filhos de Israel, pessoa alguma exercerá poder de domínio". Caso algum petista pretenda regulamentar a condição dos bóia-frias, melhor dar antes uma olhadela no primeiro livro dos Reis: "O rei Salomão recrutou em todo o Israel mão-de-obra para a corvéia; conseguiu reunir trinta mil operários. Mandou-os para o Líbano, dez mil cada mês, alternadamente; eles passaram um mês no Líbano e dois meses em casa. Salomão tinha ainda setenta mil carregadores e oitenta mil cortadores na montanha, sem contar os chefes dos prefeitos, em número de três mil e trezentos, que dirigiam os trabalhos e comandavam a multidão empenhada nas obras". Para que tanta corvéia? O leitor pode estar imaginando estradas, hospitais, escolas. Nada disso. O sábio rei Salomão mandava essa gente toda cortar pedras no deserto para a construção do Templo. E não falta padre de esquerda que julgue faraônico o presentinho de Sarney aos empresários amigos, a rodovia Norte-Sul. Nestes dias em que se discute o xenófobo projeto de um pedágio para entrar na Ilha de Santa Catarina, nada melhor que buscarmos inspiração no extraordinário senso de hospitalidade vigente em Sodoma. Quando Ló recebe os dois anjos, os sodomitas (falo no gentílico, sem trocadilhos) cercaram sua casa e o intimaram: "Onde estão os homens que vieram para tua casa esta noite? Traze-os para deles abusemos. "Ló saiu à porta e, fechando-a atrás de si, disse-lhes: 'Suplico-vos, meus irmãos, não façais o mal! Ouvi: tenho duas filhas que ainda são virgens; eu vô-las trarei: fazei-lhes o que bem vos parecer, mas a estes homens nada façais, porque entraram sob a sombra de meu teto'". Ló, deve estar o leitor lembrado, foi o único homem justo que Abraão encontrou para recomendar ao Senhor. Verdade que era primo de Abraão - o que nos mostra que nepotismo não é achado moderno - e mais tarde gerou, com sua filhas, Moab e Ben-Ami. Hospitalidade é isso aí. Tal gesto, nós o vemos novamente em Juizes. Em Gabaá, o levita de Efraim é hospedado por um ancião. Traz consigo sua concubina e seu servo. Os viajantes se reanimavam, eis que surgem alguns vagabundos da cidade, fazendo tumulto ao redor da casa e, batendo na porta com golpes seguidos, diziam ao velho, dono da casa: 'faze sair o homem que está contigo, para que o conheçamos'. Então o dono da casa saiu e lhes disse: 'Não, irmãos meus, rogo-vos, não pratiqueis um crime. Uma vez que esse homem entrou em minha casa, não pratiqueis tal infâmia. Aqui está minha filha, que é virgem. Eu a entrego a vós. Abusai dela e fazei o que vos aprouver, mas não pratiqueis para com este homem uma tal infâmia'. Não quiseram ouvi-lo. Então o homem tomou sua concubina e a levou para fora. Eles a conheceram e abusaram dela toda a noite até de manhã e, ao raiar da aurora, deixaram-na". Ao voltar para casa, o levita de Efraim pega um cutelo, corta sua concubina em doze pedaços e os remete a todo território de Israel. Mas isto já é outro assunto, fica para quando comentarmos a condição feminina na Bíblia. Enfim, já que o Livro está agora à disposição de nossos representantes, façamos votos para que nenhum sacerdote invente de lê-lo, ou acabará solicitando sua proibição por atentado à moral e aos bons costumes. Enquanto isso, por sugestão do cineasta Luís Buñuel, releio o Livro da Sabedoria: "Breve e triste é nossa vida, o remédio não está no fim do homem, não se conhece quem tenha voltado do Hades. Nós nascemos do acaso e logo passaremos como quem não existiu; fumo é o sopro de nosso nariz, e o pensamento, centelha do coração que bate. Extinta ela, o corpo se tornará cinza e o espírito se dispersará como o ar inconsistente. Com o tempo, nosso nome cairá no esquecimento e ninguém se lembrará de nossas obras; nossa vida passará como uma nuvem - sem traços -, se dissipará como a neblina expulsa pelos raios do sol e, por seu calor, abatida. Nossa vida é a passagem de uma sombra, e nosso fim, irreversível; o selo lhe é aposto, não há retorno. Vinde, pois, desfrutar dos bens presentes e gozar das criaturas com ânsia juvenil. Inebriemo-nos com o melhor vinho e com perfumes, não deixemos passar a flor da primavera, coroemo-nos com botões de rosas, antes que feneçam; nenhum prado ficará sem provar de nossa orgia, deixemos em toda parte sinais de alegria pois esta é nossa parte e nossa sorte". Amém! (Joinville, A Notícia, 15.10.89. Porto Alegre, RS, 21.10.89)
Quinta-feira, Outubro 25, 2007
CRENDICE SE ACADEMIZA Tão jovem e já com teologia. A umbanda surgiu no Brasil em inícios do século passado e - segundo o Knaurs Grosser Religions Fürher, de Gerhard J. Bellinger - já tem mais de seis milhões de adeptos, dispersos entre cerca de 100 mil centros comunitários e ocupa o quarto lugar no ranking das religiões tupiniquins, superada apenas pelo catolicismo, o protestantismo e o espiritismo. As informações de Bellinger devem ser vistas com cautela, já que sua enciclopédia é datada de 1986 e certamente não leva em conta o crescimento acelerado, de lá para cá, das seitas evangélicas. De qualquer forma, se compararmos os umbandistas com os gatos pingados do cristianismo em seu primeiro século de existência, a disseminação da nova religião foi extremamente rápida. A verdade é que as religiões crescem como cogumelos após a chuva no Brasil. A Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, criada há exatamente trinta anos, já tem 9.660 pastores, 4.750 templos e está disseminada em 172 países. Segundo o IBGE, já teria dois milhões de fiéis. Segundo seus pastores, oito milhões. Templo é dinheiro. Umbanda é o seguinte: apanhe um punhado de macumba, ajunte uma generosa porção de espiritismo, mais outra de catolicismo, respingue essa massa básica com pitadas de feitiçaria e práticas mágicas, mais um pouco de crenças indígenas, tudo isso refogado em um denso molho de animismo africano. Ponha a cozinhar em fogo lento e voilà, temos a umbanda. Se você acha que coquetel de crendices é um nome pouco delicado para a nova religião, pode chamá-la de sincretismo. Em março de 2004, escrevi: Não bastasse esta proliferação de crendices no varejo, foi autorizada no ano passado, pelo Ministério da Educação, a Faculdade de Teologia Umbandista (FTU). Ora, direis, se os cristãos têm sua teologia, por que não teriam uma os cultos animistas africanos? A pergunta procede, mas tem seus percalços. O Deus cristão, além de ser um só, tem como biografia um livro dos mais antigos. Os africanos, além de serem muitos, precisam de biografias mais evidentes e bibliografia de apoio. Será necessário cavoucar muito texto do nada, para bem definir Ogun, Oxóssi, Iemanjá, Exu, pretos velhos, índios, caboclos, ciganos. Na grade curricular constam Botânica Umbandista, Fundamentos de Psicologia Geral e Umbandista, Biologia Geral e Espiritual. Donde se conclui que deve também existir uma botânica católica, outra judia, outra luterana e assim por diante. As botânicas florescerão com o mesmo viço das profissões de fé. Idem no que diz respeito à psicologia. Mais um pouco e voltamos a 68, quando se falava em uma matemática burguesa e uma matemática revolucionária. Quanto à tal de biologia espiritual, será muito divertido ver biólogos mesurando, com seus instrumentos físicos, fenômenos inefáveis, que não podem ser medidos por instrumento algum. Sem falar que, com a nova faculdade, o sacrifício cruento de animais adquire dignidade acadêmica. Que ousados executivos do Além queiram dourar seus ofícios com diploma de nível superior entende-se. Claro que em breve teremos doutores em Teologia Umbandista e, por que não, faculdades de Teologia do Candomblé. O que pasma é ver o MEC endossando tais excrescências. Verdade que a coisa começou há muitos séculos. Quando, na Idade Média, surgiram os primeiros cursos universitários de Teologia, as portas estavam abertas para toda e qualquer especulação. Teologia é a ciência do conhecimento de Deus. Isto é, do conhecimento do que não existe. Se os europeus têm uma ciência do que não existe, porque os africanos não a teriam? O embuste passa a ter foros de conhecimento científico. Ai dos pobres de espírito, a clientela preferencial dos mercadores do Além. Se ainda não temos doutores em Teologia Umbandista, já temos bacharéis. A Faculdade de Teologia Umbandista de São Paulo terá, no final deste ano, seus 35 primeiros graduados. É o que leio no Estado de São Paulo. Segundo o jornal, eles cursaram sociologia, psicologia, filosofia, ciências políticas, matemática, artes e lógica. Também estudaram anatomia, botânica, administração templária e sistemas filo-religiosos. O que o jornal esquece é que a botânica é umbandista, a psicologia idem, e a biologia é espiritual. É de supor-se que também a matemática e a lógica sejam umbandistas. No que à lógica diz respeito, será divertido observar como os novos teólogos conseguirão compatibilizar o velho catolicismo europeu com kardecismo, animismo africano, feitiçaria e crenças indígenas tupiniquins. O coordenador do curso, Roger Soares, médico especializado em didática de ensino, afirma que "estudamos a teologia da umbanda com um enfoque multidisciplinar, passando pela ciência e pela religião e resgatando a cultura popular. O umbandista é o mestiço brasileiro e a faculdade é a valorização dessa cultura”. Falou muito e pouco disse. A única conclusão que se depreende deste palavreado, é que os umbandistas querem se investir de dignidade acadêmica. As conversas com espíritos migrarão do campo da doxa para o da episteme e o banho de descarrego passará a ter uma auréola de ciência. Os pais e mães-de-santo já não serão mais pretos e pretas velhas imbuídas de malandragem, mas bacharéis. Muito em breve, teremos doutores pais-de-santo e doutoras mães-de-santo. E médium acabará sendo profissão regulamentada por lei. Quem será pai ou mãe-de-santo? Só quem tiver diploma da FTU.
CANONIZAÇÃO JÁ! Apoio da Igreja é o que não falta ao padre Júlio Lancellotti, desde ontem acusado formalmente da prática de atos libidinosos com menores. O bispo Pedro Luiz Stringhini, da região episcopal de Belém, zona leste, disse confiar no religioso, que conhece há mais de 30 anos. Para ele, Lancellotti é uma pessoa "pobre" que se viu vítima de um esquema de extorsão. "Ele anda de ônibus e metrô; foi enganado e teve de dar dinheiro sem querer". É o que nos informa a edição de hoje do Estado de São Paulo. O que o solícito prelado parece não ter entendido é que, com sua declaração, enreda ainda mais o defensor incondicional dos meninos de rua e "casinhas" (nova denominação para os antigos febens). Como pode uma pessoa pobre financiar uma Pajero a um pobre excluído, cujo único pecado foi aspirar a possuir o que os incluídos possuem? Sem falar que padre Júlio não foi tão mesquinho como diziam as primeiras notícias, que falavam de 50 mil reais. Em verdade, padre Júlio foi mais generoso, na esperança de trazer ao redil a ovelha perdida. Foram 80 mil reais, conforme desmentido do próprio padre. A desastrada defesa do bispo só serve para colocar sob suspeita o santo e desprendido homem. Já avancei o nome do padre Júlio para eventual canonização. Recente revelação de uma ex-funcionária da Casa Vida 2 só confirma a boa fundamentação de minha proposta. A entidade abriga crianças e jovens portadores de vírus da Aids com idades entre 8 e 14 anos. A ex-funcionária diz ter visto padre Júlio tocando o adolescente. Ora, lemos no evangelho de Mateus que quando Jesus desceu do monte, grandes multidões o seguiram. "E eis que veio um leproso e o adorava, dizendo: Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo. Jesus, pois, estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero; sê limpo. No mesmo instante ficou purificado da sua lepra". São Francisco de Assis não beijou um leproso? Transcrevo o relato de Gianmaria Polidoro: Francisco "cavalgava distraído quando uma figura desagradável o fez voltar a si. Diante dele, em seus andrajos e com o rosto entumecido, estava um leproso. Francisco sentiu um amargo na boca e não deu conta do que estava fazendo: puxava as rédeas do cavalo para voltar e fugir. Um gesto instintivo, pois os leprosos o impressionavam muito. "Voltou a si; um momento de indecisão, e girou o leme da própria vida. "Desceu do cavalo, trêmulo diante da decisão violenta e doce que lhe brotara no interior; procurou dinheiro nos bolsos e o ofereceu ao pobre, boquiaberto por tanta coragem e generosidade; depois forçou-se ainda mais. Tomou a mão do miserável a aproximou dos lábios. Deu-lhe um beijo feito medo e de paixão e, portanto, de impulso, e montou no cavalo mastigando o heroísmo que se havia imposto". Se Cristo não hesitou em tocar um leproso, se São Francisco não pensou duas vezes para beijar um leproso, como podemos condenar padre Júlio por acariciar um aidético? Canonização urgente para o santo homem. Ao abrir inquérito para apurar denúncia de corrupção de menores pelo padre Júlio, a polícia está laborando em inequívoco erro. Está confundindo gestos da mais lídima píedade cristã, digno de hagiografias, com atos libidinosos.
Crônicas da Guerra Fria (17) ODE AO OCIDENTE Florianópolis - Atirando-se no reservatório de água de uma aldeia das montanhas do sul da China, seis jovens camponesas se suicidaram pelo fato de não poderem descer ao vale, porta de um mundo exterior, maravilhoso e inacessível. É o que nos informa o jornal A Tarde, de Cantão. O fato, que não mereceu destaque algum na imprensa ocidental, nos faz pensar. Em Paris, partilhei meus dias com amigas fugitivas do Leste europeu. Não que fossem ativistas políticas, nada disso. Fugiam, isto sim, de uma vida cinzenta que mais se assemelhava a uma morte em vida. Sair de tal inferno para cair no paraíso consumista parisiense não deixa de ser traumático. E era com um misto de humor e lástima que eu as via trocar desengonçadas calcinhas de pano vagabundo e sem cor, por excitante lingerie em seda vermelha ou preta. Mais divertido era observá-las perplexas, em um supermercado, sem entender como um povo podia permitir-se o luxo de escolher papel higiênico em função da cor. Mais perturbador ainda - ó, utopia! - era saber que poderiam escolhê-lo pelo perfume. Habituadas às ásperas páginas da Pravda - dura é a verdade e tem grande tiragem - as bravas camaradas tinham, no entanto, uma espantosa capacidade de adaptação. Com poucos meses de Ocidente, as sofridas eslavas despiam-se do casulo socialista e se transformavam em libélulas de fazer inveja a muita parisiense. Mas não era esta traumática metamorfose o que nelas mais me comovia. E sim seus transportes, infantis e quase histéricos, frente a uma agência de turismo. As duas primeiras vítimas, diz o jornal de Cantão, amarraram-se juntas pelas mãos, antes de atirar-se nas águas em Huilan. Falava das eslavas. Mas antes melhor explicar o que é uma agência de viagens na Europa. Cá no Brasil, se você não tem informações anteriores sobre o país para onde quer ir, terá de ser vidente para saber o que vai encontrar, já que os agentes de viagem são mais avaros com papel impresso do que os regimes comunistas com papel higiênico. Em Paris, as coisas são um pouquinho diferentes. Você entra em qualquer agência e apanha quilos de prospectos, luxuosamente impressos, que lhe oferecem o planetinha todo, do Saara à Lapônia, de Machu Picchu ao Katmandu, no inverno ou no verão, a preços baixos ou altos, de avião ou de trem, em lombo de dromedários ou em trenós puxados por cães. E por esse cardápio de povos e paisagens você paga... absolutamente nada. É chegar e pegar e, se quiser, depois voltar e partir. Mas por que não ficaste por lá? - é o que me perguntam quando me ponho a xingar o Brasil. Não fiquei por uma simples razão: daqui sempre posso sair e um dia chegar lá. O mesmo não ocorria com minhas Olgas e Úrsulas. Voltassem a seus países, de lá jamais poderiam voltar a sair. Mas o que nelas mais me comovia, não era o fascínio ante lingeries sofisticadas ou ante as diversas opções de papel higiênico, isso sem falar na oferta alucinante do mercado parisiense. O que me dava vontade de chorar era vê-las abraçadas a quilos de sonhos. Ou seja, de prospectos de viagem, que ofereciam o planeta todo a preços módicos. Ou nem tanto. Para a Índia, pode-se tanto voar em primeira classe rumo a hotéis cinco estrelas como tomar um ônibus Paris/Benares, coisa de uns trinta dias, isto conforme a evolução das guerras ou guerrilhas pelos países por onde se passa. Carnaval no Rio, mariachis no México, lamas no Tibete, gurus na Índia, glaciares na Patagônia, fiordes na Noruega, dunas e oásis no Saara, todas estas promessas de viagens elas portavam sob os braços. Para meu espanto. As coitadas mal conseguiam pagar suas cervejinhas no Quartier Latin e desejavam o mundo. Para que tantos prospectos? - perguntei a uma amiga polonesa, que fugira da Polônia, junto com todos os demais poloneses, quando seu ônibus fez uma pipipausa na Áustria - afinal mal tens alguns centavos para o metrô. "Ah - me respondeu Úrsula - aqui pelo menos se pode sonhar. Lá, até sonhar é proibido". Das outras quatro chinesas desaparecidas quinze dias depois em Huilan, só foram encontrados seus sapatos junto ao reservatório de água. Donde concluímos: xerox é como liberdade, só percebemos sua importância quando a perdemos. Por que xerox? Porque sempre o utilizei sem sequer imaginar o que significava em termos de liberdade. Pois na União Soviética, mesmo nestes dias de Gorbachov, possuir uma máquina de xerox é crime de lesa-socialismo. E o pesquisador que quiser uma cópia de um documento qualquer, terá antes disso de rastejar para obter pelo menos umas dez assinaturas da Nomenklatura, antes de obter sua cópia, única e irreproduzível. Ou viajar. Imaginou o leitor ter de pedir permissão ao Estado para ir de Florianópolis a Porto Alegre? Ou de Porto Alegre a Dom Pedrito? Parece-nos absurda tal hipótese e espero que assim pareça, pelos séculos dos séculos, amém. Para minhas amigas russas, era rotina. Se quisessem afastar-se cinqüenta quilômetros de Moscou, teriam de explicar muito detalhadamente as razões pelas quais queriam varar os cinqüenta quilômetros. O jornal de Cantão informou que as razões dos suicídios das seis chinesas são simples: as moças, analfabetas, tinham visto alguns filmes e escutaram os relatos deslumbrados de alguns aldeões que visitaram a cidade. Ocidentais, degustamos quase com tédio nossos privilégios cotidianos, direitos que são negados a pelo menos dois terços dos habitantes do planeta. Quando jovem, eu adorava falar na "sifilização ocidental e cristã". Hoje, apesar do cristianismo, aceito o Ocidente e seus valores e contradições. Pois aqui ainda se pode respirar. Convencidas de que estavam condenadas a vegetar em suas montanhas, as seis moças de Huilan preferiram a morte. Jamais ocorreu talvez ao leitor avaliar o tremendo privilégio que desfruta ao passar um dia na praia, nestes estertores do século XX. Para começar, pode ir à praia que quiser, sem dar satisfação à autoridade alguma, o que já não ocorre no universo chinês ou soviético. Você pode beber o que quiser, inclusive uísque ou cerveja. E cerveja gelada, bem entendido. Em países muçulmanos ou comunistas, não encontraria álcool nem pra remédio. Nos primeiros, porque Alá não gosta. Nos segundos, porque a livre iniciativa é pecado. Mas deixemos de lado estas sociedades ainda mergulhadas nas trevas da Idade Média. Na esplendorosa e cosmopolita Estocolmo, recentemente indicada como a melhor cidade do mundo para se viver, uma cervejinha na praia dá cadeia. Pois beber ao ar livre - beber álcool, bem entendido - é crime. Mais ainda: é proibido beber em bares*. Mas para que então bares? Ora, nos bares pode-se tomar chá, chocolate, sucos de laranja, pepsi e xaropes do gênero. Mas onde se pode beber no paraíso nórdico? - já estará se perguntando o sedento leitor. Nos restaurantes, desde que se peça almoço ou janta. Mas atenção: só a partir das doze horas em ponto até as 24. Nem um minuto a mais ou a menos. E a preços de tornar sóbrio qualquer cristão ou Cristaldo. Sem falar nas mulheres que nos presenteiam, com uma generosidade quase lúbrica, com o festival de suas curvas. Exato! Nossas praias têm mulheres. O cronista hoje ensandeceu, dirá o leitor. O pior é que não. Apenas acometeu-me uma crise de lucidez. Pois bem mais da metade do planeta está proibida de contemplar a nudez do sexo oposto. Já nem falo do mundo islâmico, que de mulher Alá também não gosta. Desloquemo-nos para um país laico e materialista. Bulgária, por exemplo. Em Varna, principal porto do Mar Negro, ainda hoje, neste ano da graça de 1989, há praias para homens e praias para mulheres. Cerveja, não sei se tem. Pois quando soube que em minha praia não podia contemplar estes seres sem os quais as praias não têm sentido, dei meia volta e amaldiçoei Varna, Bulgária e Marx e prometi a mim mesmo jamais voltar lá. E nossas mulheres têm clitóris. Exato! Nossas mulheres têm clitóris. Grande coisa, dirá o leitor. Grande mesmo, insisto. Pois ainda hoje, neste finzinho de século XX, 50 milhões de mulheres foram submetidas, na infância, à ablação do clitóris e à infibulação da vagina. Pois de clitóris Alá também não gosta. Certa vez, na Grécia, uma brasileira confidenciou-me o desejo de conhecer o Egito**. Vais voltar sem a grande coisa, brinquei. Consegui empanar, no olhar da conterrânea, o fascínio pelo Egito: "Não vão levar. Morro dando e não entrego". Prevalecera o bom senso ocidental. Vivemos dias duros, é verdade. Faz bem olhar, de vez em quando, o universo circundante. Enquanto tivermos praias, cervejas e clitóris, o Ocidente está salvo. Tim-tim, leitora! * Hoje já se pode beber álcool nos bares na Suécia. ** Desde 2003, há uma mobilização no Egito contra as mutilações genitais. (Porto Alegre, RS, 09.10.89)
Quarta-feira, Outubro 24, 2007
A PERGUNTA QUE SE IMPÕE Vendo pelo que comprei. Contou-me uma amiga que Hebe Camargo, ao entrevistar Mônica Veloso, perguntou-lhe: - Você que é bonita, você que é inteligente, como conseguiu beijar um homem feio como Renan Calheiros? É a pergunta que há muito deveria ter sido feita à moça. Se bem que eu modificaria um pouco os termos da questão. Como é que Mônica conseguiu dormir com homem moralmente tão vil como Renan Calheiros? É preciso ser muito vagabunda para dormir com espécimes desta laia. Aliás, do jeito em que vão as coisas, tendo a afirmar que uma mulher precisa ser muito vagabunda para dormir com um senador. Ou deputado.
DEPUTADA PANACA E SENADOR VIRA-LATA: MESMO COMBATE O Senado brasileiro, tão preocupado com sua imagem em virtude dos Renans Calheiros da vida e quejandos, parece não ter preocupação nenhuma quando se trata de louvar o banditismo ideológico. Em sessão especial para lembrar os 40 anos da morte de Che Guevara, deputados e senadores criticaram a revista Veja, único órgão da imprensa brasileira a ter a coragem de colocar, nos últimos quarenta anos, o guerrilheiro argentino no lugar que lhe cabe na História, o de assassino frio e fanático. Para o senador José Nery, do PSOL a sessão serviu para "honrar a memória do comandante no momento em que setores reacionários da imprensa fizeram ataques contra sua história". Para outro deputado do PSOL, Ivan Valente, "muitos falaram sobre essa famigerada reportagem da revista Veja, que é de uma atrocidade à inteligência e que não foi nem levada em conta. Situo como mais um tiro no pé que a imprensa dá". Tiro no pé foi, sem dúvida alguma. Mas no pé das esquerdas jurássicas, que até hoje se recusam a aceitar a queda do Muro, a miséria de Cuba e o fracasso rotundo do comunismo. Mais uma pérola do PSOL. Segundo o deputado Chico Alencar, "a revista Veja fez uma matéria meio mal cheirosa", destacando que aproveitaram da sua beleza física para torná-lo um ícone. "Será que, para ser de esquerda, tem de ser feio, degenerado?" Feio, eu diria que não. Mas degenerado, certamente. Ocorre que o mito Guevara foi construída a partir daquela foto em que o terrorista é transformado em um Cristo guerrilheiro. Antes de ser exposto ao público, seu cadáver foi maquiado pelos militares bolivianos. Santa ingenuidade dos milicos. Se o expusessem como foi capturado, sujo e maltrapilho, San Ernesto de la Higuera não se prestaria ao culto. Para o senador João Pedro, do PT, "é de uma estupidez o que a revista Veja fez. É um desrespeito porque é uma tentativa de desconstituir e desqualificar a luta da esquerda na América Latina e no Brasil. Não podemos concordar e temos que repudiar a postura da revista". Sim, Veja desqualificou a brilhante luta da esquerda na América Latina e no Brasil, que gerou o gulag tropical de Cuba e ditadores grotescos como Evo Morales e Hugo Chávez. Só o que faltava, um jornal que se preze louvar regimes ditatoriais. Além de corruptos, os ínclitos senadores estão se revelando cúmplices dos grandes assassinos do século. A deputada Manuela D´Ávila, do PCdoB, disse por sua vez que a revista tentou esvaziar a imagem de Che. "Ele não é um ícone esvaziado. Nossa juventude reconhece em Guevara a rebeldia com causa, a luta por uma sociedade com justiça social. Haveria sentido em esvaziar alguém vazio de conteúdo? É evidente que não". O senador Pedro Simon, do PMDB, disse não ter gostado da reportagem sobre Che. "Não acho que o Che Guevara é um mito; acho que ele é uma grande figura. Parece piada, mas no Brasil, o PT chegou lá, o PMDB chegou lá, o PSDB chegou lá, mas nenhum dos três quando chegou no poder teve uma figura do Che, que largasse o governo e ficasse fiel a suas idéias" - destacou o senador. Pedro Simon, considerado gaúcho pela imprensa nacional, nunca foi considerado gaúcho no Rio Grande do Sul. Lá, era chamado de o Turquinho Simão. Em crônica dos anos 70, em virtude de sua total falta de ética quando se tratava de disputas políticas, chamei-o de "cachorro vira-lata em busca do osso do poder". Não mudou de lá para cá. Árvore velha não dobra e o uso do cachimbo entorta a boca. Senil, nada aprendeu com os fatos da História. No apogeu da revolução, lembra Simon, Che largou tudo para continuar a caminhada, "um argentino de bicicleta andou por aí, ajudou numa luta que no início parecia impossível". Sem ser comunista de carteirinha, o senador vira-lata usa os mesmos recursos dos comunistas, ao embaralhar a história. Quando Che andava de motocicleta - e não de bicicleta - sequer imaginava que um dia seria responsável pela miséria e ditadura futuras de Cuba. Este é resultado final da luta que no início parecia impossível para o senador. Que uma jovem deputada panaca profira tais despautérios, entende-se. Ser panaca é próprio de jovens. Mais difícil é entender tais despautérios em um senador senil, ainda que vira-lata.
Crônicas da Guerra Fria (16) CARTA AOS CORNÚPETOS Florianópolis - Mitsuko Nakanishi chorou de felicidade quando ouviu, na televisão, Susuke Uno renunciar a seu cargo de primeiro-ministro do Japão. Mitsuko é a gueixa que, durante quatro meses lhe prestou serviços de cama e mesa, recebendo por tais préstimos 21 mil dólares. Ou seja, US$ 5.250 por mês. Arredondando em moeda do país nosso, 20 mil cruzados novos, salarinho pra marajá algum botar defeito. Susuke caiu porque Mitsuko trouxe a público a natureza de sua relação e Mitsuko ri porque Susuke caiu. Haja ingratidão nesta terra. Mitsuko nega qualquer sentimento de vingança pessoal, alegando que agiu em defesa da mulher japonesa, que "sempre foram espancadas pelos homens e suportaram o sofrimento em silêncio". Ilhas em muito se parecem. Pois cá nas antípodas, há mulheres apanhando por salário mínimo e sequer chiam. Não que recebam salário para apanhar. Com os trocados que recebem por faxinas e lavados, sustentam o animal inútil que as espanca. Se falam em divórcio são ameaçadas de morte e, eventualmente, mortas mesmo. À primeira vista, o fenômeno parece ser inerente à pobreza. Acontece que não é. Tenho não poucos relatos de burguesas senhoras da Beira-Mar Norte, capazes de fazer inveja a um ficcionista, na hora de explicar um olho roxo. Com uma diferença: neste nível de renda, as tensões se resolvem com mais finesse. A nobre dama faz um giro pela Europa e volta em forma, pronta para outra. Mas falava de Mitsuko. Confesso até hoje não ter entendido por que razões uma coletividade exige de seus líderes uma vida sexual monótona, sejam estes líderes homens ou mulheres. Se há muito sexo deixou de ser pecado, não há estadista ou candidato a estadista que resista a um bom escândalo. As gueixas são uma instituição milenar no Japão, cortesia sempre oferecida a visitantes oficiais, repouso do industrial dinâmico, mãos que relaxam o executivo tenso. E vemos um ministro cair simplesmente por fazer o que todo mundo faz. O inconsciente coletivo parece pretender punir o homem bem sucedido: já que alcançaste o poder, condenamos teu corpo à tristeza. Da mesma forma, jamais consegui entender relações baseadas na violência. Ilhas em muito se parecem, dizia. Mentira minha, mera provocação. O problema é universal e ocorre em países que não podemos chamar de incivilizados. Na França, existe inclusive uma Association des Femmes Battues. E sócias é o que não falta. Em Paris, certa madrugada, um macho estrangulava uma mulher debaixo de minha janela. Como não teria tempo de descer antes que o animal consumasse seu gesto, tentei impedi-lo a gritos: Arretez, imbécile! Para seu pasmo: Mais c’est ma femme!!! Como em briga de marido e mulher melhor é não se meter, perguntei à moça se ela queria auxílio. Disse que não. Fechei então a janela e voltei a dormir, não sem antes pedir que se estrangulassem em silêncio. Ou Joinville, para não ir mais longe. Leio nos jornais que a polícia atente, em média, três casos por dia de maridos que espancam, ameaçam ou abusam sexualmente de suas companheiras. Neste ano, que ainda não dobrou a esquina, três mulheres foram assassinadas, e onze espancadas, sem falar, bem entendido, nas inúmeras outras que preferem ocultar o fato, com medo da próxima surra. E mais de quinhentos maridos foram levados para os distritos policiais. Os responsáveis pelos três crimes e demais violências passeiam livres como passarinhos. Ou seja, o macho está falido. Violência é a reação da incompetência. Com a entrada no mercado de trabalho e a liberalização dos costumes, a mulher deu um passo à frente. O macho, encerrado em seus medos, não conseguiu acompanhá-la. E reage batendo ou matando. Dos anos 70 para cá, estamos assistindo à emersão de uma mulher nova. Em falta de tacape, os maridos reagem à bala. Falava de Mitsuko, a adorável gueixa que comeu milho na mão e depois virou o cocho. Sinal de que o Japão se ocidentaliza, importando nossa hipocrisia. Dirigente de uma potência econômica, samurai das finanças internacionais, Uno cai por uma questiúncula de cama. Dependerão a economia das nações das tesões cotidianas de seus ministros? Se assim for, seria talvez mais prudente formar um ministério de castrati. Afastaria candidatos, é verdade. Mas daria um belo coral. Quando tudo seria mais simples, não estivesse o Ocidente contaminado por esse doentia sentimento chamado amor. Em meus dias de universidade, minhas alunas de Letras convidavam-me, às vezes, para seus casamentos. Sempre recusei polidamente tais convites, considerando que minhas pupilas de literatura nada haviam entendido, ou de casamento teriam ainda muito a entender. Pois uma coisa exclui a outra ou nem uma nem outra foi entendida. Se a arte é a ruptura com o instituído, só me restavam duas hipóteses. Ou elas nada queriam com Letras. Ou eu fora um fracasso como professor. Na história da literatura, vibramos com as transgressões à moralidade vigente, seja na vida dos autores como dos personagens. Pois escrever é opor-se ao que vige. Na hora do casamento, minhas diletas discípulas entregavam-se, quais vacas rumo ao matadouro, ao jugo de um troglodita. Casem, meninas, casem o mais rápido possível - era o meu conselho - para que logo se divorciem e possam mergulhar na vida ainda jovens. Fui visto como um louco, quando apenas estava sendo lúcido. Desde há muito constatei que o macho contemporâneo é menor que o próprio pênis e foge, como o diabo da cruz, de uma mulher independente. Mas nada melhor que um dia depois do outro. Pois não passa sem que eu reencontre algumas de minhas pupilas: "Tenho boas notícias, professor. Agora, me divorciei". Meu magistério não fora vão. Falava do amor. Esta ficção ocidental surge pela primeira vez na história nos textos de Safo, poetisa de Lesbos. Enquanto grego, a amor era alegre e não excluía nenhum sexo. Mas nenhuma mudança de idioma permanece impune. Transplantado para Roma, o Eros grego deixa contaminar-se pelo cristianismo e temos esse leito de Procusto insuportável - um homem, uma mulher - que tanto derruba ministros no Japão como mata mulheres em Joinville. Quando, na escola ou na família, uma criança lê fábulas onde uma princesa é destinada a um príncipe encantado, naquele preciso momento está sendo forjado o futuro assassino. "Quem ama não mata" - intitulava-se uma ingênua noveleta televisiva, transmitida há alguns anos. Nelson Rodrigues devia estar se revolvendo na tumba, louco pra dar uma saidela e batucar uma crônica na redação mais próxima do cemitério. Pois só mata quem ama. Pelo menos enquanto amor for concebido com essa relação eterna, exclusiva e empobrecedora entre dois condenados. (Joinville, A Notícia, 06.08.89. Porto Alegre, RS, 02.09.89)
Terça-feira, Outubro 23, 2007
RÉPLICA DO PIAIA Estou curioso, como alguém pode responder o que não foi perguntado? Roberto, Severino, Joaquim, que diferença faz? Li as mensagens mais obtusas, fossem de quem fosse, não foi de um só Joaquim. Eram vários. Porém, esse Severino em particular sentiu-se atingido diretamente. Grita para Janer dar-lhe direito de resposta como gritam os deputados: "Fui citado, senhor presidente". Mas tudo bem, espelhando-me no Grão-Mestre, tentarei ter alguma paciência. Para alguém que diz usar de ironia, o senhor Roberto (espero que não tenha se ofendido pela confusão com os nomes) parece desconhecer profundamente a mesma. Incorre em contradições a cada parágrafo. Na sua ânsia por responder, corre em círculos, feito cachorro desorientado, sem chegar a ponto algum, até tombar exausto no mesmo lugar. Num momento diz que caio na armadilha de revistas femininas : “Piaia parece cair ainda na armadilha convencional das revistinhas femininas acreditando que as benesses do mundo tecnológico relativamente recente, que permitem que a diferença de força física entre homens e mulheres seja relegada a segundo ou terceiro plano, tenha existido em outras eras da humanidade. (Afirmação, no mínimo, confusa. O que uma revista feminista ganharia dizendo isso? É o mesmo que um líder negro populista aparecer amanhã e afirmar que em determinadas épocas da história do Brasil senhores de engenho brancos passavam quase tantas necessidades quanto seus escravos)." Para depois pretender dar-me aula de história, sobre exatamente o que afirmei. Se alguém diz que: "Para começar, discordo totalmente do historicismo feminista traçado por Piaia. Ele afirma que "Ora, mulheres nunca foram livres, nunca tiveram território próprio para se desenvolver. Negras, brancas, amarelas, sempre foram subjugadas por seus machos." ,espera-se, no mínimo, que tal pessoa não use as próximas linhas exclusivamente para descrever a incapacidade da mulher, fisicamente, de competir com o homem no passado. Ou seja, dizer o mesmo que o interlocutor involuntário, do qual ele diz discordar, disse... "Mulheres morriam freqüentemente de parto, vale lembrar. Um mundo sexualmente simétrico seria possível?" Pois é. Por isso, de acordo com Roberto, eu estava errado quando disse que negras, brancas e amarelas sempre foram subjugadas por seus machos. Enquanto escrevia essa linha, dei uma passada pela página de recados do Janer de novo - sem as devidas autorizações da dona da conta, a propósito - só para descobrir que Severino na verdade é Superman. Então vamos lá. Mais uma citação: "Piaia lê e critica o que imagina, não o que de fato escrevi. Não fiz tal paralelo." Paralelo entre opressão dos negros e mulheres, ele quer dizer. Ora, é até divertido, alguém que, na primeira linha da mensagem em que diz não ter feito comparação alguma, pergunta, no orkut: "Você tem amigos negros, Janer?" Se não fez, estava implícito. Ingenuidade ou hipocrisia tremenda é afirmar o contrário. Ou, quem sabe, Clark só estava interessado em saber sobre a história de amizades do Janer. A segunda parte da mensagem, sobre as mulheres, era outro assunto. Maldade minha pensar o contrário. O que significa nunca para Raphael Piaia? O que ele quer dizer com isso? Vamos dissecar esse nunca. Vamos despi-lo. Vamos fazer sexo com esse tal nunca. Pois, o complexo nunca, para Roberto, é uma incógnita. Nunca, no contexto colocado em minha mensagem, era nunca, oras. Igualmente simples. Nunca, considerando o passado. Óbvio, que nesse nunca, não estão inclusas as ultimas décadas da sociedade ocidental. Erro meu, admito, ter confiado que todos os leitores do Janer teriam bom-senso. Teriam capacidade interpretativa para entender o que é evidente. Ficou claro que sempre há exceções. Por fim, e dessa vez não vou me parafrasear, Roberto não chega perto de cometer o mesmo erro de Watson. Watson disse o que pensa, porém para a pessoa errada. Já Roberto, disse bastante, porém sem pensar. O que, hoje em dia, é praxe. Raphael Piaia
GERALDINE E O TEMPO QUE PASSA Ela era minha companheira constante em meus domingos de Madri, há precisamente vinte anos. Lá pelas 11hs da manhã, eu comprava El País e Le Monde e me dirigia ao Café de Oriente, um dos meus diletos na Europa, senão o mais dileto entre os diletos. Fica em frente ao Palácio Real, que está a ocidente. Daí o nome de Oriente. Mesas e colunas de mármore rosa, muita madeira, cortinas de veludo, candelabros soberbos caindo do teto, uma luz macia propícia à leitura e, nos dias em que vivi por lá, um gorrioncillo que se divertia em vôos rasantes de ponta a ponta no café. Como profissional de bares, tenho minhas locações prediletas. Minha mesa ficava em frente a uma janela que dava para o Palácio Real, janela pequena mas que iluminava melhor minhas leituras. Invariavelmente, ela sentava na mesa a meu lado, pedia um vinho branco acompanhado de algumas tapas. Quanto a mim, começava com um chinchón, para depois pensar nos frutos da terra e do sol. Nunca lhe dirigi a palavra, defendo a idéia de que as estrelas não devem ser perturbadas em seus lazeres públicos. Tampouco teria algo a dizer-lhe. Era magérrima, suas coxas deveriam ser apenas um pouco mais grossas que um copo de cerveja. Apesar de ostentar uma semicalvície que lhe avançava pelo crânio, de seu rosto emanava charme e inteligência. Sentia-me bem ao lado dela. Tínhamos algo em comum, nosso amor pelo Oriente. A revejo hoje, na contracapa de El País. Sorriso grande, alegre, de peruca e rosto já devastado pelas rugas. Está em sua mesa predileta no Oriente, empunhando uma taça de vinho branco e degustando batatas fritas e canapés de camarões. Logo, a foto deve ser de domingo passado. "Quando me vêem na rua e lhes dizem: 'olhem, aí vai a filha de Charlot', as crianças me olham, em meus anos, e não conseguem acreditar. Assim, esclareço que não sou a filha, mas a mãe de Charlot, e isto lhes parece muito mais lógico". Milagres do cinema. O pai continua jovem. Geraldine Chaplin envelheceu. O tempo não perdoa.
BOA NOTÍCIA PARA LEITORES EXIGENTES A propósito, considero El País um dos melhores jornais da Europa. Pena que até agora sua leitura eletrônica deve ser paga. Pelo menos em parte, já que alguns artigos estão abertos para qualquer leitor. Ora, nestes dias de Internet, me parece um insulto pretender que se pague pela leitura de um jornal. Aqui em São Paulo, o El País, impresso em Buenos Aires, chega no mesmo dia. Mas cada exemplar custa oito reais. O custo mensal é um tanto salgado. Na edição de hoje, rendendo-se à época, o jornal anuncia a boa nova. A partir do dia 15 de novembro, qualquer leitor terá acesso não só a todos os artigos de sua edição impressa, como também poderá consultar os arquivos de sua hemeroteca. Antes tarde do que nunca.
RESPOSTA A PIAIA Prezado Janer, Um leitor seu, de nome Raphael Piaia, afirmou ter lido em sua página de recados no Orkut "besteiras e mais besteiras" sobre as afirmações de conteúdo racial emitidas pelo eminente Dr. Watson, prêmio Nobel em 1962 pela descoberta da estrutura helicoidal do DNA. Na verdade, Piaia critica em especial as minhas mensagens quando afirma que houve "quem fizesse paralelos entre a opressão contra os negros e a opressão contra as mulheres". Piaia lê e critica o que imagina, não o que de fato escrevi. Não fiz tal paralelo. Sequer mencionei a opressão histórica de negros. E quando mencionei a opressão de mulheres, referi-me única e exclusivamente às sociedades islâmicas: em evidente tom de ironia e provocação mostrei que, comparadas de maneira ABSOLUTA inteligências de homens e mulheres tal e qual fez Watson levianamente com brancos e negros, chegaríamos a conclusões temerosas - das quais os contendores do "debate orkutiano" preferiram não se aproximar, por sinal. Para começar, discordo totalmente do historicismo feminista traçado por Piaia. Ele afirma que "Ora, mulheres nunca foram livres, nunca tiveram território próprio para se desenvolver. Negras, brancas, amarelas, sempre foram subjugadas por seus machos." "As mulheres foram oprimidas por serem fisicamente mais fracas, simples assim." Ora, o que ele quer dizer com "nunca foram livres"? O que significa "nunca" para Raphael Piaia? Esse "nunca" abrange TODO o planeta nos últimos 50 anos? Inclui o ano de 2007? Piaia parece cair ainda na armadilha convencional das revistinhas femininas acreditando que as benesses do mundo tecnológico relativamente recente, que permitem que a diferença de força física entre homens e mulheres seja relegada a segundo ou terceiro plano, tenha existido em outras eras da humanidade. Atualmente, uma mulher pode utilizar um computador, um microscópio de tunelamento eletrônico ou mesmo bisturi com a mesma eficiência de um homem. Pode até mesmo trabalhar na construção civil. Faça um esforço, Raphael, para imaginar mulheres erguendo castelos há 700 anos, ou mesmo pirâmides de pedras há mais de 2000 anos. Era esforço tão escruciante que os homens morriam como moscas em tais empreitadas. Digo isso para não falar das épocas nas quais a principal atividade econômica advinha das guerras (boa parte da história da humanidade). Mulheres morriam freqüentemente de parto, vale lembrar. Um mundo sexualmente simétrico seria possível? Raphael confessa ainda que ficou "um pouco assustado" ao visitar a página de recados de Janer. Assusta-se por pouco meu caro, pois todas as discussões prezaram pelo respeito e civilidade. Nenhum participante foi acusado de racismo, não houve adjetivação de pessoas. E é fazer jogo de cena afimar que "Watson cometeu um erro... ele disse o que pensa. Crime grave nesses dias." Comovido, fiquei. Todo mundo tem o direito de dizer o que quiser, Raphael. Watson fez mal uso desse direito. Mas fez, ponto. Desde quando calei aquele homem? Ele é delicado demais para receber críticas? Ou você acha que devo me calar quando leio uma monstruosidade dessas: "Pessoas que já lidaram com empregados negros não acreditam que isso [a igualdade de inteligência] seja verdade". Agora, você acha uma coisa dessas perfeitamente normal de ser dita - pelo menos isso não o assusta tanto quanto minhas críticas. Coisa curiosa essa. Prefere rotular-me (o coitadinho aqui!) como censor do Nobel Watson. Ula-lá! Por fim e parafraseando-o, acho que você cometeu o mesmo erro de Watson: disse o que pensa. Espero mais uma vez que você não confunda crítica com censura. Roberto Venegeroles
Segunda-feira, Outubro 22, 2007
Crônicas da Guerra Fria (15) FÉ É FOGO Volto à vaca fria. Quando seis sacerdotes de Joinville enviaram abaixo-assinado a este jornal tentando abafar-me a voz, imaginei que tal reação fosse oriunda de curas de campanha, nutridos com a fé dos simples, assustados ao deparar-se com um senso de religiosidade mais profundo. Lendo O Estado de São Paulo, vejo que me equivoco. Pois la crème de la crème da teologia dita da libertação, reunida em um congresso na cidade de Domingos Martins, Espírito Santo, recusou-se a dar entrevista coletiva só porque dela participava um jornalista do Estado. "A decisão foi unânime" -- disse um porta-voz dos 125 teólogos em congresso - "detestamos a linha editorial do Estado". Temos então 125 marmanjos metidos a entender de Deus, borrando-se nas sotainas - se é que ainda as usam - com medo de um jornalista. Quando Boff diz bobagens e João Polaco o censura, os libertários teólogos protestam contra o autoritarismo papal. Assino embaixo. Acho que todo e qualquer Boff, seja o Leonardo, seja o Clodovis, tem o sagrado direito de dizer besteiras. Não tivessem os padres o direito de dizer besteiras, o mundo seria, é verdade, mais silencioso. Mas menos divertido, pois teríamos menos motivos para rir. Sempre fui contra o autoritarismo de Roma. Que falem os Boff! Acontece que nossos teólogos, em vez de seguir Jesus, parece que estão seguindo o Joseph. Falo do Joseph Vissarionovitch Djugatchivili, Stalin para os íntimos. Pois um dos coordenadores do encontro, um certo padre Silva (sei lá por que, lembrei-me agora das madressilvas de minha infância), afirmou que há mais de ano não lê o Estadão, "pois ali são publicadas opiniões contrárias às minhas". Assim é a teologia da libertação. Imaginemos esses aiatolás no poder. Khomeiny vai virar déspota esclarecido. Em minha biblioteca, tenho a biografia definitiva do Joseph, escrita originalmente em francês, por Boris Souvarine. Consta que há uma tradução em russo, editada em um só exemplar, para uso do Joseph. O tradutor foi fuzilado. Stalin era ex-seminarista. Tudo fecha. Falar em fé, alguns leitores me contestavam, outro dia, alguns aspectos por mim revelados do mundo soviético contemporâneo. Que eu estava sendo macartista, que o stalinismo era coisa dos anos 50, etc. e tal. Pode ser que Stalin esteja morto. Mas sua múmia continua exalando um odor fétido. Foi embalsamado no Kremlin, mas temos de continuar tapando os narizes, mesmo aqui na América Latina. Nietzsche já nos havia prevenido sobre como fede o cadáver de um Deus morto. Falava do deus de Israel, sem talvez imaginar que as viúvas de Adonai construiriam, no século que nasceu com sua morte, um deus vivo e mais sanguinolento que o deus de Abraão. Para os que julgam o cronista por demais macartista, lembro recentes declarações de Anatoli Ribakov, autor de Os Filhos da Rua Arbat, livro que permaneceu por mais de vinte anos censurado. Mesmo reconhecendo as recentes e tímidas transformações da União Soviética, diz Ribakov: "o stalinismo ainda está vivo, é forte e faz sentir seu peso". E como está vivo. Na mesma semana em que Ribakov atestava a saúde do stalinismo, um jornal de Porto Alegre publicava entusiasmado relato de um viajante apressado que voltava da Nova Jerusalém. Lá em Moscou tudo é lindo, divino e maravilhoso. Claro que nada diz sobre passaportes internos, proibição de viajar de uma cidade a outra sem pedir permissão à polícia para viajar, algo assim como caso me desse na telha ir de Florianópolis a Joinville, eu tivesse de explicar a um comissário do povo quais são os meus motivos para ir a Joinville. Mas o melhor de tudo é o fecho da entrevista com o jovem crente: - Lá, o governo realmente leva a sério a questão do meio ambiente. Quase todas as cidades têm muito verde, e os rios são limpos. E o que é mais incrível: o governo tem feito reformas ortográficas, na forma de escrever o idioma russo, para diminuir os textos, gastar menos papel e com isso não precisar abater tantas árvores para fazer celulose. E viva a ecologia. Será certamente para preservar a taiga que o PC soviético proíbe editar Kuprin, Pasternak, Nietzsche, Kafka, Soljenitsin. Sem falar no jovem Marx, copidescado por razões certamente ecológicas, quando são expurgados de suas obras completas os textos onde afirma que a Rússia não estava preparada para o comunismo. Quando penso na hipótese de um Roberto Freire como presidente do Brasil, só fico imaginando os temores da Fundação Catarinense de Cultura, FUCACU para os íntimos. Em nome da araucária, não vai sobrar nada da literatura barriga-verde. Como ficam então os escritores que, tendo quatro ou cinco empregos, militam no Partidão? Sei lá. Nem quero saber. Afinal, falava do Joseph. Foi frei Betto, ou talvez frei Boff, já não lembro mais, que voltou um dia da União Soviética dizendo não saber se existia censura na imprensa, afinal não falava o russo. Mas para afirmar que estavam no paraíso, não precisaram conhecer russo. Se o conhecessem, certamente teriam eliminado de seus nomes as inúteis consoantes duplas, em nome da ecologia soviética. Mas ortografia é o de menos. Betto ou Boff, ambos pertencem à longa linhagem de gigolôs da História, que apostam em tiranias para passar bem. E esta aposta tem suas vantagens. Pablo Neruda, Jean-Paul Sartre e Garcia Márquez foram galardoados com o Nobel. Se Sartre recusou as capitalistas coroas suecas, Neruda e Garcia Márquez as embolsaram, con mucho gusto y placer. Neruda morreu como stalinista ferrenho, mas sempre curtindo as melhores coisas deste capitalismo podre ocidental. Mal embolsou as coroas, importou da Alemanha um Mercedes. Ao ser descarregado no porto de Valparaíso, aconteceu o insólito. Ao saber a quem se destinava o carro, os estivadores foram erguendo-o cada vez mais alto no guindaste, tac-tac-tac, e uma vez no ponto mais alto possível, largaram-no no cimento do cais. Ploft! Mingau de Mercedes. Perdão, leitor, desviei o assunto. Já o Garcia Márquez, este continua roçando-se no maior narcotraficante do Caribe, o ditador Fidel Castro, que gere sua ilha particular com a nonchalance de um senhor feudal. Garcia Márquez dirige inclusive uma escola de cinema na Disneylândia das Esquerdas, muito freqüentada por rapazes cá da ilha que, sempre louvando a ditadura cubana, vivem implorando verbas à capitalistíssima FUCACU. Coisas da ilha. Ou seja, Jorge Amado está no bom caminho. Cultuou Stalin a vida toda, dedicou-lhe inclusive uma litania asquerosa, O Mundo da Paz. Prestado o preito ao Paizinho dos Povos, foi publicado em toda a União Soviética, devastando boa parte da taiga com seu realismo socialista laudatório e vagabundo. Hoje, sempre faminto de poder e glória, Amado é imortal da academia que apedrejou quando jovem e dá apoio ao presidente mais pusilânime e ridículo que teve o Brasil. Mas Amado está em bom caminho. Esfrega-se em Castro e Sarney, ganha de um lado a simpatia do obscurantismo de esquerda e, ao mesmo tempo, não abre mão das benesses do poder, tanto que sua filha Paloma (assim batizada em homenagem à "pomba da paz", daquele outro stalinista impenitente, o Pablo Picasso) voou nesta semana para Paris, no obsceno Boeing da alegria, onde a corte brasiliense dança seu último baile da Ilha Fiscal. Com as embaixadas a seu serviço, mais dia menos dia pinta Nobel. Apoiar a tirania e a corrupção sempre rendeu dividendos e Dona Flor jamais se arrependeu de cultivar dois maridos, não é verdade, putamado? Como em bom caminho também está o aiatolá de Forquilhinha, Dom Paulo Evaristo Arns. Mal manifestou seu apoio, em carinhosa missiva, ao narcotraficante máximo das Antilhas, espoucaram por todas as partes campanhas indicando seu nome para Nobel da Paz. Há nisto tudo, toda uma lógica. Como dizia Jean Rostand, quem mata um é assassino, quem mata milhões é conquistador, quem mata todos é Deus. Já menos compreensível é saber que no Sindicato de Jornalistas de Santa Catarina há uma lista de adesões à candidatura do cardeal. Jornalista dando apoio a príncipes que pregam apoio a ditaduras, esta, sinceramente, não entendo. Ou falta vergonha na cara de meus colegas ou, vai ver, também estão querendo o Nobel. (Joinville, A Notícia, 16.07.89)
MENSAGEM DO PIAIA Janer, não tenho orkut. No entanto, costumo entrar pela conta de uma amiga da minha namorada de vez em quando e aproveito para passar pela sua comunidade. Seu último artigo, por sinal corajoso e polêmico como sempre, despertou-me a curiosidade de dar uma olhada por lá e ver as reações (apaixonadas, já imaginava eu, a julgar pelo modo como foi recebido quando o divulguei). Confesso que, visitando sua página de recados, fiquei um pouco assustado. Mas vamos lá. Li besteiras e mais besteiras. Inclusive de quem fizesse paralelos entre a opressão contra os negros e a opressão contra as mulheres. Ora, mulheres nunca foram livres, nunca tiveram território próprio para se desenvolver. Negras, brancas, amarelas, sempre foram subjugadas por seus machos. Já os negros, enquanto povo, tiveram território e tempo para se desenvolverem antes de serem escravizados - não só por brancos - porem, ainda assim, pouco fizeram, pouco construíram. Como você diz, poucos sãos seus Mozarts e Cervantes, a não ser, claro, que você leve em consideração as teorias estapafúrdias de Egitos e Grécias negras... Enfim, negros, enquanto povo, não tinham preocupações européias. Não precisavam se preocupar com invernos, com a responsabilidade exigida para armazenar alimentos, ter algum critério para construir suas casas em locais que não desabassem na primeira nevasca e por ai vai... As mulheres foram oprimidas por serem fisicamente mais fracas, simples assim. Negros foram conquistados por acabarem superados cultural e intelectualmente, como atestam as invenções brancas européias que propiciaram tais conquistas. Os temas são diferentes e é estúpido comparar. Negros existem há tanto tempo quanto brancos, não? A não ser que eu tenha perdido alguma coisa, África e Europa também. Em determinado momento, algum dos grupos teve de superar o outro em matéria de desenvolvimento para poder conquistar o "adversário". Porém, o que costuma parecer é que o negro simplesmente surgiu no planeta, há uns quinhentos anos, ou quem sabe até menos, nu, lança em mãos, já se deparando com cultura, ferrovias e rifles brancos, que tiveram séculos para se desenvolver e, portanto, com vantagem desleal. Quais foram as outras bobagens? Li, se bem me lembro, que é preciso saber se uma opinião fará do mundo um lugar melhor antes de a emitir ou endossar. Ora, excelente idéia. Afinal, por que se preocupar com liberdade de opinião, não? A liberdade exige muita vigilância... e isso é cansativo demais. Podemos voltar alegremente aos tempos em que idéias precisavam de aprovação geral para serem emitidas. Se bem que, já ia me esquecendo, o Brasil já é mais ou menos assim. Também li que cultura não precisa necessariamente só de inteligência. Alguns mulçumanos vão ficar felizes em ouvir isso. Eles costumam ser um pouco inseguros. Pessoalmente, em conversas, também ouvi que "e se africano fosse mais inteligente" não seria tão grave porque africano sofreu mais. Mesmo que, evidente e aparentemente ignorado, poucos ou nenhum negro hoje possa reivindicar ter sido escravo. No entanto, temos essa mentalidade cristã precária de culpar os descendentes pelos supostos crimes dos ancestrais. Provavelmente ainda pagamos pelos pecados de Adão e Eva, quero dizer, O... De qualquer forma, voltando ao tema, parece que é preferível continuar com o sistema onde milhares se recusem a assumir responsabilidade por seus atos. É difícil entender. Não se decidem. Querem liberdade, mas também querem cuidados especiais. Watson cometeu um erro... ele disse o que pensa. Crime grave nesses dias. Você deve gostar do que faz, Janer, Grão-Mestre Racista, pois acho que eu não teria essa paciência. Abraço, Raphael Piaia
AINDA WATSON Outra pergunta é se o branco, tout court, é mais inteligente que o negro. Watson não expõe dados que comprovem isto e, em artigo posterior, desautorizou qualquer interpretação genética de suas afirmações. Veio em seu socorro Bruce Lahn, estudioso da relação entre genes e inteligência. Segundo o geneticista da Universidade de Chicago, "não há dúvida" de que genes podem ser ligados à inteligência. Lahn ainda afirma que há estudos mostrando em grupos africanos um desempenho inferior em testes cognitivos como o QI. "É possível que cor de pele e inteligência estejam ligados, mas de maneira indireta e não-causal", disse. Em 2005, publicou artigos no periódico Science defendendo que africanos e leste-asiáticos têm incidência mais baixa de dois genes relacionados à inteligência, o ASPM e o MCPH1. Em entrevista à Folha, comentando as declarações de Watson, disse: - Não sei o quanto ele estudou esse assunto. Contudo, a questão sobre se há diferenças biológicas inatas (incluindo as cognitivas) entre grupos raciais e quão grandes elas são tem sido um tópico de estudo legítimo (apesar de sensível) por muitos anos. Há de fato muitos estudos mostrando desempenho inferior de certos grupos (incluindo pessoas de origem africana subsaariana) em relação a outros grupos em testes cognitivos, como o QI. A causa disso está sendo debatida, e algumas pessoas argumentam que há uma base genética nisso, em certa medida. Não estou muito atualizado com a literatura sobre isso, então não quero tomar uma posição sobre o assunto, sobretudo em razão da delicadeza do tema. Em meus dias de Suécia, observei um caso interessante. Em Lidingö, ilha chique de Estocolmo, conheci dois negrinhos brasileiros, que haviam feito uma ponta em Orfeu Negro, filme de 1959, de Marcel Camus. Eram o que hoje chamaríamos de meninos de rua e o cineasta, sem querer, salvou-os da miséria e da violência. Um casal sueco viu o filme, se comoveu com os meninos e os adotou. Encontrei-os em 71, já com mais de 20 anos, cosmopolitas e poliglotas, falando sueco, inglês e português com aisance, jogando tênis e esquiando. Lembro que um deles cursava economia. O outro, vim reencontrar mais tarde, como alto funcionário da SAS no Rio de Janeiro. Ou seja, tivessem ficado atirados nas ruas, é óbvio que teríamos prováveis trombadinhas, soldados do tráfico, futuros assassinos. Uma vez acolhidos por uma sociedade que lhes deu educação, oportunidades de trabalho e um futuro, diferiam dos suecos apenas na altura e cor da pele. Resgatados do ambiente miserável, demonstravam a mesma inteligência e cultura dos hiperbóreos Sveas. Pessoalmente, penso que um Mozart até pode ser negro. O que não pode é ser africano.
Domingo, Outubro 21, 2007
Crônicas da Guerra Fria (14) GORBACHOV MAS NÃO MOLHA Florianópolis - Maxim Gorki, o luxuoso transatlântico soviético, chocou-se com um iceberg a 300 quilômetros a oeste do arquipélago norueguês de Spitzbergen, no mar de Barents, é o que informam, para meu desconforto, as agências internacionais. Para meu desconforto porque há pouco escrevi crônica sobre a penúria endêmica - Nomenklatura à parte - do regime soviético. As manchetes da imprensa internacional constituíam um cabal desmentido às minhas calúnias imperialistas, particularmente nesta era gorbachoviana. Mergulhei com avidez na notícia, vai ver que só os membros da Nomenklatura faziam turismo pelo Ártico, com o que minha reputação estaria salva. Acontece que na insensata nau não navegavam nem mesmo as elites soviéticas. Noves fora a tripulação, no Maxim Gorki viajavam nada menos que 551 alemães, em sua maioria idosos, e 16 passageiros de outras nacionalidades. Alemães ocidentais, bem entendido, já que os orientais, se a este luxo quisessem dar-se, teriam primeiro de vencer um muro protegido por cães, soldados com metralhadoras, arame farpado e terrenos minados. Sem falar, é claro, que o orgulho da marinha soviética jamais levaria a bordo cidadãos munidos de marcos da RDA, tão ou mais desmoralizados que nosso cruzado-louvado-seja-Machado. Falar nisso, outro dia uma pesquisa feita em Porto Alegre escandalizava literatos, pois jovens diziam achar Machado um chato. Escândalo que constitui um duplo equívoco. Em primeiro lugar, Machado não é leitura para adolescentes. Em segundo, é um chato mesmo e a única coisa que me alegra em nossa inflação galopante é que, dentro em breve, sua efígie de medalhão deixará definitivamente de passar por minhas mãos. Mas falava do muro. Ou melhor, do Maxim Gorki, orgulho da frota soviética. Depois volto a Berlim. Coisas da perestroika. Gorbachov mas não molha. Em uma ditadura socialista que proíbe seus cidadãos de dela sair, seus dirigentes põem a menina dos olhos de sua marinha a serviço de macróbios capitalistas. Marx deve estar se revirando na cova. Mas o que mais me surpreendeu no fato, é que Fernão de Magalhães, cinco séculos atrás, sem radar algum e com um grumete sonolento medindo a velocidade com uma ampulheta, havia atravessado o perigoso estreito que hoje leva seu nome, sem trombar com icebergs. Titanic, vá lá! Mas em pleno século XX, atropelar um iceberg distraído, é dose. A tripulação deve estar bêbada, pensei com minhas pedrinhas de gelo. Dia seguinte, nos jornais, não deu outra: 70 por cento da tripulação estava mais para lá do que pra cá. Enquanto esta moderna versão proletária do bateau ivre rimbaudiano continua encalhada nas neves do Ártico, volto com meus macróbios a Berlim. Nasci em Santana do Livramento e não é por acaso que, em Ponche Verde, tenho um personagem santanense que perambula pelas ruas de Berlim. Em Livramento, pode-se almoçar em um país e tomar a sobremesa em outro, bastando para isso atravessar a rua. Poucos gaúchos - já nem falo de brasileiros - terão se dado conta da importância simbólica desta fronteira sempre aberta. Se um dia não for possível almoçar em Rivera e tomar o cafezinho em Livramento, ou vice-versa, algo de muito grave e triste terá ocorrido na América Latina. O muro de Berlim pode chocar qualquer homem livre, nascido em país onde seus cidadãos são livres. Mas choca ainda mais um santanense. Escrevia, em crônica passada, que toda e qualquer discussão sobre as utopias deveria ser antecedida, entre outras coisas, pela derrubada do muro. Gorbachov, sensível a este anseio de todo homem livre, afirma na mesma semana: "O muro não é eterno". Assim não fosse. Pois o muro, mais do que triste símbolo da barbárie contemporânea, é a sustentação armada das tiranias do Leste europeu. Jamais existiram duas Alemanhas. Jamais existiu uma Alemanha Oriental. Como escrevia há pouco Gilles Lapouge, "há uma Hungria eterna, há uma Polônia eterna. Mas não há uma Alemanha Oriental eterna. Privada do alicerce comunista, ela afundaria". A derrubada do Muro seria a morte da Alemanha Oriental e a emergência de uma nova potência na Europa, que reduziria França e Inglaterra a economias de segunda linha. De onde decorre que, ao lado das ditaduras de Cuba e da Romênia, a RDA é hostil a todo e qualquer aceno liberalizante de Gorbachov. A propósito, na semana passada, o presidente da Alemanha Oriental apoiava publicamente o massacre da Praça da Paz Celestial. Entschuldigung Sie, bitte, perestroitchiski tovaritch Gorbachov, mas não será tão cedo, infelizmente, que os berlinenses gozarão da singela liberdade dos santanenses e riverenses*, aos quais basta atravessar uma rua para abraçar um amigo ou tomar um café em outro país. Mas falava do bêbado barco soviético abalroando inocentes icebergs em Spitzbergen. Tais cruzeiros, hoje em dia, são geralmente comprados por clientes em fim de vida, detentores de fortuna e ócio suficiente para tais luxos. Outro dia, ancorou cá na ilha, ao largo de Jurerê, o Ocean Princess, que fazia cruzeiro semelhante. Em um botequim de praia, encontrei uma jovem alemã que, ao descer do barco, fez com que a média de idade dos passageiros subisse mais que o dólar na Argentina nestes dias de Menem. É possível que no imaginário de algum cronista social, tais cruzeiros evoquem volúpias de palácios orientais. Mas bem outra é a realidade. Tais naus mais parecem um asilo flutuante repleto de argentários caquéticos. E não seria eu a negar-lhes razão. Por que não morrer no mar? Em todo o caso, o Ocean Princess era um barco coerente. Içava bandeira capitalista e transportava autênticos milionários oriundos dos States. Já o Maxim Gorki, a meu ver, naufragou em suas dialéticas contradições, só solúveis no álcool. Tais navios carregam em seus porões um certo número de caixões, correspondentes, em geral, a um quinto do total de passageiros. Caixões de defunto, bem entendido, pois presume-se que vinte por cento dos turistas voltem ao lar de pés juntos, isso se seus cadáveres não forem jogados ao mar. Na Inglaterra, tive a ocasião de assistir a uma cena tétrica. O Eugenio Costa atracara em Southampton, para apanhar quatrocentos membros do clube Saga. Até aí, nada demais. Acontece que o tal de clube só aceitava sócios com mais 65 anos. Como eu estava na ponte mais alta do barco, tive o privilégio - ou talvez o horror - de ver as quatrocentas velhinhas, ao som de uma banda, entrando pela proa, ao mesmo tempo que oitenta esquifes eram embarcados pela popa. Ocorreu-me então a atroz imagem de um café da manhã no decorrer do cruzeiro, os comensais olhando em torno e contando as baixas, tentando descobrir quem ou quantos haviam morrido na noite, reformulando mesas e fazendo novas amizades, mas... enfim, por que não confraternizar no naufrágio? Mas, ao que tudo indica, não era chegada a hora dos turistas terminais do Gorki. Após tiritar algumas horas em meio às neves, foram recambiados ao aconchego de Berlim ocidental onde, pela primeira vez, desde que o muro é muro, um dirigente soviético ousou afirmar: o muro não é eterno. Mal Gorbachov acena com uma tênue esperança, um pouco mais ao sul, Nicolau Ceaucescu, o ditador romeno, começa a erguer uma cerca de arame farpado, ao longo dos 400 quilômetros de fronteira com a Hungria. Mesmo pertencendo ao bloco socialista - não por vontade própria, é claro - a Hungria, por ter aderido a uma economia de mercado, é hoje certamente o país menos pobre do Leste europeu. Como na Romênia, há mais de década, a população vive com fome, os camponeses da Transilvânia começaram a dar no pé rumo à casa do primo rico. A pauperização crescente dos países socialistas, decorrente dos dogmas econômicos do marxismo, começa a gerar novos muros entre países irmãos, como diria o Joãozinho. Ou talvez nem se chamasse Joãozinho. A piada, eu a ouvi na Iugoslávia. Em meio a uma aula, a professora pergunta ao Joãozinho lá deles quais são os países amigos da Iugoslávia. Joãozinho vai citando os que conhece, Romênia, Bulgária, Hungria... A professora quer o nome de outros países amigos. Joãozinho puxa pela memória: Polônia, Checoslováquia... Mais um, meu filho, pede a professora. Joãozinho consegue lembrar: a República Democrática Alemã. Mas não é ainda o que a professora quer ouvir. - E a União Soviética, Joãozinho, não é um país amigo? - De jeito nenhum, professora. A União Soviética é um país irmão. - E qual é a diferença, Joãozinho? - É que amigo a gente escolhe. Irmão é uma fatalidade. (Joinville, A Notícia, 02.07.89) * PS - Quatro meses depois de publicada esta crônica, caía o Muro de Berlim.
Sábado, Outubro 20, 2007
Crônicas da Guerra Fria (13) DE COMO PASSEI FOME NA ARGENTINA Florianópolis - Uma foto vale mil palavras, não é verdade? Talvez sim, talvez não. Ousaria arriscar que uma foto pode até mesmo não valer nada. Por exemplo, aquela foto famosa dos anos 70, a de um oficial vietnamita estourando os miolos de um vietcong. "Disparei ao mesmo tempo que o militar", disse certa vez o fotógrafo. Muita tinta rolou sobre o fato, eu mesmo dediquei-lhe não poucas linhas, denunciando a barbárie da guerra. Há coisa de alguns anos, li entrevista com o autor da foto, onde este declarava ignorar o que acontecia no momento e só bem mais tarde soube que o vietcong executado havia assassinado barbaramente, minutos antes, seis ou sete pessoas. Confessava-se arrependido de ter posto a foto em circulação. Mas o trabalho da mídia já fora feito. No mundo só faltou pedir-se a canonização do terrorista justiçado. Pois outra foto semelhante está ganhando espaço na imprensa internacional, foto feita pouco antes do sangrento massacre na praça da Paz Celestial, em Pequim. A propósito, pena que Che Guevara não esteja vivo nestes dias, bem que gostaria de vê-lo opinar sobre o fato, já que considerava o regime comunista chinês seu modelo de sociedade ideal. Sem falar no cinismo dos porta-vozes do Partido. Quando todas as estimativas da imprensa internacional eram de três mil mortos, os dirigentes chineses falaram em apenas trezentos. Diminuíram mais tarde esse número para duzentos e, outro dia, na televisão, juro que vi, uma fonte oficial afirmando que não havia morrido ninguém. Do jeito em que vão as coisas, como observou um jornalista, vai ver que nasceram pessoas na praça Tienamen e os chineses talvez tenham sido presos por violar a lei que proíbe a todo casal mais de um filho. E por qual fator se multiplicarão estes três mil mortos? Na chamada Revolução Cultural, falou-se inicialmente em milhares de mortos. Hoje, os analistas menos pessimistas aventam a cifra de vinte milhões. Acontece que quando os cadáveres atingem a casa dos milhões, contá-los se torna inviável. Enfim, em um país de um bilhão de habitantes, não serão minorias de agitadores, ainda que sejam meros milhões, que perturbarão a paz celestial da democracia chinesa, tão ao gosto de nosso asmático guerrilheiro argentino. Mas falava de fotos. Invadiu nestes dias a primeira página dos jornais do mundo todo a foto idiota, digo, dramática, de um solitário jovem chinês interceptando com seu corpo uma coluna de tanques. Em um ímpeto datilográfico, eu já ia escrevendo foto idiota. Acontece que as fotos não são idiotas, são apenas fotos. Idiota é a interpretação. Sem falar que a foto, antes de ser foto, era filme. As televisões do mundo todo - exceto a chinesa, é claro - mostraram o rapaz subindo à torre do tanque e dela descendo e, depois, o tanque tentando desviá-lo. Cá no Brasil, já começaram a espoucar as primeiras crônicas louvando o gesto heróico do anônimo resistente. Quanto a mim, bem que gostaria de louvar sua coragem. Mas não consigo entender heroísmo como sinônimo de estupidez. Tudo o que o homem faz tem sentido, e isto não parece ter percebido o novo e anônimo mito da década que vem. Penso não exagerar em falar em mito, tenho certeza de que a foto e o filme se repetirão ad nauseam na imprensa futura. Tanques não foram concebidos apenas para desfiles. Assim fosse, uma escola de samba sairia bem mais barato e daria mais prazer aos olhos. Tanques só podem ser enfrentados por tanques, bazucas ou bombardeios. Coquetel Molotoff pode até ter certa eficácia, mas no fundo não passa de saudosismo de anarquista ingênuo. Opor jovens a tanques foi o que tentaram certos senhores no Brasil, eu inclusive fui convidado a participar da loucura. Em 64, estudávamos as melhores fórmulas de como deter um tanque. Como me parecia ser gesto suicida lutar de bodoque contra mastodontes, recusei-me ao suicídio. O mesmo não aconteceu com muitos companheiros de geração. Os sobreviventes, hoje instalados em altos marajanatos da "Nova República", ostentam com orgulho em seus currículos o delírio que causou a morte e a tortura de centenas de jovens mais ingênuos e entusiastas. Quantos estudantes terão tentado imitar o "heróico" gesto do anônimo "herói" da praça da Paz Celestial? Quantos, jamais saberemos. Só sabemos que foram soterrados sob as lagartas dos tanques e tiveram seus corpos incinerados em meio ao lixo. Tienamen faz jus a seu nome. Hoje, nela impera, a paz dos cemitérios. Mas falava de fotos. Fomos bombardeados, nas últimas semanas, por dezenas de fotos e filmes, vindos da Argentina, mostrando filas de gente com fome, supermercados saqueados e vitrines em estilhaços. Tais fotos e filmes, somadas à queda brutal do austral e a uma inflação projetada de 24 mil por cento ao ano, dão-nos a idéia de um país falido. O telespectador tupiniquim, ante tal quadro, é até capaz de sorrir com seus botões: cá no Brasil, só estão faltando leite, filé e azeite. Acontece que, entre fatos e fotos, há mais distância do que sonha nossa vã fotografia. Entrei na Argentina no dia 14 de maio, data das eleições que levaram ao poder, sem necessidade de segundo turno, o peronista Carlos Menem. Diga-se de passagem, lá tive de enfrentar minha única restrição aos regimes democráticos: a cada cinco ou seis anos, a gente fica um dia sem beber. Estava em Bariloche e, para beber, o melhor que havia era água. Macaco velho, conhecedor dessas esporádicas falhas da democracia, no Chile eu me muniria de uma botellita de bom vinho. Às oito da noite, os peronistas com seus bumbos tomaram as ruas celebrando a vitória e pedindo a renúncia de Alfonsín. Dia seguinte, acelerava-se a queda do austral. Nos supermercados, os argentinos olhavam os novos preços com desalento. Dia 19 de maio, guiado por um portenho apaixonado por sua cidade, percorri a noite buenairense. "Quero mostrar-te as diferentes faces da crise", disse-me. Jantamos na Costanera, onde os restaurantes se sucedem, um ao lado do outro. A fome ali era uma realidade palpável: apesar dos salões imensos com duzentas ou mais mesas, os argentinos se amontoavam em filas esperando uma mesa vaga. Giramos depois pelos cafés de Belgrano, Palermo e La Recoleta. Passava de meia-noite e Buenos Aires nada ficava a dever a Madri numa noite de verão. Publiquem os jornais as fotos que quiserem, mas ninguém me convence - como parecem pretender certos correspondentes - que a Argentina empobreceu do dia 19 do mês passado para cá. Em Paris ou Nova York, todos os dias, milhares de pessoas entram em filas para receber comida de graça. Jamais vi fotos dessas filas, e isso que leio dois ou três jornais por dia. E mesmo que as visse, jamais me ocorreria pensar que a França ou os Estados Unidos passaram a integrar, do dia para a noite, o time do Terceiro Mundo. Da Argentina também nos chegaram fotos de saques em supermercados. Impossível negar a evidência de tais saques, se bem que me soa estranho ver pessoas famintas levando terminais de computadores para comer em casa. Alfonsín decide então renunciar, passar o cargo a Menem antes da data prevista constitucionalmente. Não vemos mais nos jornais as filas de famintos nem as fotos de saques. De ontem para cá, a Argentina parece ter sido readmitida no clube dos países ricos. Por favor, me contem outra. Essa eu já conheço. Pouco antes do carnaval de 87, um jornal madrilenho publicava, em duas páginas centrais, uma reportagem sobre São Paulo, "a capital da Aids". Em foto de cinco colunas, um travesti soberbo exibia seus dotes. Lida a reportagem, o eventual candidato a turista tinha a impressão de que, mal aterrissasse em Cumbica, ou trancava a respiração ou estaria irremediavelmente contaminado. Em julho do mesmo ano, a imprensa européia exibia em primeira página, depredação de trens no Rio e saques a supermercados no Nordeste. As manchetes eram mais ou menos unânimes: CAOS NO BRASIL, ou algo do gênero, como se Central do Brasil, no Rio, ou um supermercado em Recife, resumissem o clima do país todo. Uma amiga parisiense, que há horas tento arrastar ao Brasil, já andou pela Índia e pela China, mas tem arrepios ante a idéia de visitar-nos. Não acredita que possa caminhar pelas ruas de qualquer cidade, mesmo de dia, sem ser assaltada, violada ou contaminada pela peste. Uma foto, efetivamente, vale mais do que mil palavras. Mas que a fome é uma realidade na Argentina, isto é fato incontestável e disso sou testemunha. A fome, eu a vivi, eu a sentia corroer-me as entranhas, enquanto esperava mesa para enfrentar aqueles filés imensos, concebidos para alimentar uma família, mas servidos para um só estômago. Não só passei fome como também sede, pois sede é o que nos resta após degustar um vinho seco sabendo à terra. Nossos vizinhos vivem, efetivamente, um momento de crise. O padrão de vida do argentino - grandes fortunas à parte - baixou. "Vocês, no Brasil, estão vivendo muito melhor" - diziam-me, invariavelmente, taxistas, garçons, livreiros. E como convencer meu interlocutor de que se um dia, nós brasileiros, atingíssemos o atual nível de "pauperismo" da Argentina, poderíamos até mesmo andar de cabeça erguida? (Joinville, A Notícia, 25.06.89)
Sexta-feira, Outubro 19, 2007
Crônicas da Guerra Fria (12) GIN DISSE ASSIM Florianópolis - Voltando da Patagônia, tive a grata surpresa de ler uma saraivada de artigos xingando singela crônica que publiquei neste Anexo, tendo "Lá!" como título, pois para lá eu mandava os arautos do totalitarismo. Sem falar que soube que seis sacerdotes da região de Joinville, em vez de contestar-me nas páginas sempre abertas deste jornal, queriam, através de um abaixo-assinado, nada mais nada menos do que privar-me de voz. Lástima que faltou a assinatura do bispo. A estes senhores, meus agradecimentos, pois a mim me agrada lançar idéias que confundem, já que de certezas estamos fartos. Adoro irritar aiatolás, sem falar que sei que tenho, daqui pela frente, seis fiéis leitores a mais destas mal-traçadas. Mas o que mais me surpreendeu não foi a previsível reação do obscurantismo. Foi, isto sim, o ulular das esquerdas. Só porque, em "Lá!", manifestei minha ojeriza a regimes ditatoriais. Meu pecado parece ter sido falar mal do mundo socialista e, particularmente, da Disneylândia das Esquerdas, o gulag tropical instalado por Castro no Caribe, Cuba, a intocável. Entrecruzaram-se artigos louvando o bem-estar cubano e as mazelas nossas, automaticamente atribuídas ao capitalismo. Para responder a meus oponentes, teria de escrever três ou quatro ensaios, tantas são as objeções destes senhores que, vivendo em um país onde uma cervejinha gelada não é privilégio da Nomenklatura, louvam sistemas pelos quais talvez passaram mas onde certamente jamais viveriam, tanto que cá estão. Tal atitude traz-me à lembrança discussão que tive na Hauptbahnhof de Berlim Ocidental, com duas amigas que lá moravam, sempre louvando o regime do outro lado do Muro. Detentoras de ações de sólidas empresas brasileiras, insistiam em louvar o regime do lado de lá. Mas por que vocês não vão então morar lá? - quis saber. A fronteira estava ali, a poucos minutos de distância, bastava tomar um trem para entrar no paraíso, eu jamais vira duas crentes tão perto do céu. "Ah! Mas acontece que morar lá não é fácil", resmungaram as duas, meio sem jeito. Em suma, paraíso onde ninguém quer viver e, de onde, os que lá vivem, não podem sair, não me convence. Raros, para não dizer raríssimos, foram os exilados que se refugiaram em Havana ou Moscou. A maioria preferiu as delícias capitalistas de Paris, Berlim ou Estocolmo. Em meus dias de Europa, assisti palestras de exilados que afirmavam só voltar ao Brasil de metralhadora em punho. Mal saiu a anistia, voltaram sem metralhadora alguma, e chorando. Diga-se o que quiser do Brasil, não é fácil conter as lágrimas, após uma prolongada estada no Exterior, quando avistamos o Corcovado, apesar daquele Cristo horrendo estaqueado lá em cima. Digam o que quiserem os defensores de novas Jerusaléns: a qualquer pessoa de bom senso não convence a imagem de sociedades tão perfeitas que proíbem seus cidadãos de delas sair. Não vou mergulhar no mar de depoimentos e bibliografias de pessoas que de lá saíram, sem falar nos crentes que para lá foram e de lá voltaram sem fé, sem falar no noticiário dos "jornais" - se é que press-release é jornalismo - que desses países nos chegam. Entrar nesta discussão é repetir meio século de testemunhos. Prefiro um atalho: derrubem o Muro de Berlim*, concedam a cada cidadão destes países o direito a passaporte e a possibilidade de usá-lo quando bem entendam. Os brasileiros estão fazendo turismo em massa em Cuba, não é verdade? Não só em Cuba, como pelos Estados Unidos e Europa. Turismo é comércio de ida-e-volta, não é verdade? Quando veremos, então, cidadãos cubanos circulando livremente pelo Brasil e pelo mundo? Quando veremos o Jornal do Brasil, O Estado de São Paulo, Le Monde, El País, distribuídos nas ruas de Havana? Mais ainda: quando veremos o Granma distribuído no Brasil? Não há restrição alguma no atual Brasil à imprensa cubana, e se o Granma aqui não está, será por certo por pudor dos guardiães do gulag caribenho, que não ousam exibir como jornalismo um diário oficial. Não quero repetir argumentos que repito há mais de décadas. Mais ainda: não quero repetir as denúncias de Panaïti Istrati, Camus, Gide, os precursores. Cansa-me falar da affaire Kravchenko, de 1949. Cansa-me repetir as denúncias de Kruschov no XX Congresso. Se meus contestadores tivessem lido com atenção John W. F. Dulles - copiosamente documentado, como diz Gilson Pereira - lembrariam que Stalin enviou, para comunizar o Brasil, três devotos, a saber: Luís Carlos Prestes, de cognome Garoto; o argentino Rodolfo Ghioldi, o Índio, e o alemão Artur Ernst Ewert, o Negro. Os membros do Partido passaram a designá-los por seus codinomes e, quando a eles se referiam, diziam: "GIN disse isso, GIN pensa assim". Sem falar em Olga Benário, cidadã berlinense e oficial do Exército Vermelho, que desembarcou com Prestes - consta que após tê-lo desvirginado, aos 37 anos - aqui na praia do Campeche. As esquerdas até hoje condenam Vargas por tê-la deportado para a Alemanha. Acontece que mais tarde Prestes apoiou o homem que enviou sua mulher à morte, sem falar que condenou à morte Elza Fernandes. Por favor, que Gorbachov abra os arquivos de Moscou, só depois começarei a pensar em transparência. Se GIN continua pensando assim, há muito deixei de ser fanático. É triste, mas ao mesmo tempo compreensível, ver que, se a Europa já renegou o stalinismo, os latino-americanos ainda o adotam como conduta. E os tempos são propícios. A múmia de Joseph Vissarionovitch Djugatchivili deve estar se remoendo de inveja com os funerais sangrentos do aiatolá Khomeiny. Cansei, disse, não quero voltar a esta discussão já exaurida na Europa. Só quero, em meio à saraivada das carpideiras, salientar dois itens. Primeiro, meu artigo nada tem a ver com o macartismo dos anos 50, para começar nessa época eu vivia em Dom Pedrito, longe de qualquer debate do gênero. Todos os testemunhos que constituem o corpo de "Lá!" partem, ou de minha experiência pessoal em alguns países comunistas, ou de depoimentos que recebi de jovens que fogem daquele mundo, e os últimos depoimentos são de dois meses atrás. Bem que gostaria, não apenas de revelar minhas fontes, como também de entrevistá-las. Mas como entrevistar alguém que deixa reféns no país do qual foge? Muito me alegraria saber que tudo que escrevi naquela crônica são águas passadas, coisas dos anos 50. Acontece que não são. A meus interlocutores, que tanto defendem a utopia comunista, sugiro que para lá viagem. Mas, por favor, não em excursões. Que viajem sozinhos, como se viaja em qualquer país da Europa de cá, podendo escolher hotel, restaurantes, itinerários, anfitriões, amigos, interlocutores. Digo mais: que tentem viver dois ou três anos em tais regimes e, se o conseguirem, depois me contem se ao descer neste mundo podre ocidental, não lhes acomete a vontade de curvar-se e beijar a terra, como faz o João Polaco por onde anda. Segundo: se alguém denuncia o totalitarismo nos países comunistas, não falta quem evoque a miséria do lado de cá, no caso, a do Brasil. Certo, miséria existe em meu país, urge erradicá-la e, o que é pior, dentro das atuais propostas políticas, não vejo como erradicá-la. Mas há uma diferença: se um cidadão qualquer, habitante de qualquer favela, quiser instalar sua carrocinha de cachorro-quente, jamais será considerado um inimigo da sociedade perfeita. E se, com o lucro de sua carrocinha, quiser viajar, seja a Rivera ou Assunção, seja a Buenos Aires ou Paris, autoridade alguma lhe barrará a saída. Não estou falando de utopias: quem gere uma carrocinha de cachorro-quente hoje, neste Brasil, pode ganhar bem mais que um jornalista ou professor universitário. Diga-se o que quiser deste Brasil e seus problemas. Mas dele não é proibido sair. Xingar o presidente é rotina, denunciar a corrupção não leva à Sibéria. Verdade que tais denúncias geralmente têm caído no vazio, mas o problema já não é mais da alçada da imprensa. Este debate nesta página seria inconcebível em qualquer das sociedades defendidas por meus contestadores. Viajem, meninos, viajem. Viajem e comparem. Mas, por favor, repito, jamais em excursões organizadas. Viajem sem mordomias e sem preconceitos. Viajar a um país só não vale. Um nordestino, por exemplo, que acha que chinelo de dedo é sapato, certamente se deslumbrará com as botas dos moscovitas. O paraíso é lá, onde todo mundo anda calçado. Acontece que em um inverno lá deles, andar descalço é suicídio. No Nordeste, passa por conforto. Aos que defendem regimes que não conhecem, ou que, se os conhecem, conhecem-nos como turistas, sugiro conhecer outros países e sistemas. O homem só valora comparando. Tenho um amigo que bordejou os países socialistas, sem jamais neles penetrar, com medo de ver feita em cacos sua utopia de juventude. Em Berlim Ocidental, olhou de binóculos o paraíso. Mas não ousou atravessar o Muro. Hoje, tenho assistido o fenômeno inverso. Os peregrinos que rumam a Cuba ou Nicarágua, em geral recusam-se a visitar o Chile ou Argentina, bem mais próximos e baratos e livres, temendo ter de renunciar a seus dogmas. Pertencem a uma geração de jovens envelhecidos antes da idade normal do fenômeno, como diria Machado. "O socialismo, para Cristaldo, é um inferno". Este tipo de socialismo para mim é, de fato, um inferno. Verdade que lá as pessoas riem e choram, cantam e dançam, bebem e trabalham, como sói acontecer em todo e qualquer país, por pobre que seja. Mas a opressão paira no ar, podemos respirá-la mal se atravessa a fronteira. Isto não li na imprensa "burguesa e comprometida". Isto respirei nos países por onde andei. E se o leitor quiser ter uma pálida idéia do que o espera por lá, que passe em uma agência qualquer de turismo e peça a seu agente: olha, preciso estar em Roma dentro de 24 horas. Se houver vaga em avião, pode chegar lá até mesmo antes. Mas digamos que o leitor mudou de idéia, precisa estar em Moscou na semana que vem. E depois, por favor, me conte o que o agente lhe disse. Totalitarismo, mesmo de longe, fede. Viajem, velhotes. Viajem e comparem e depois me falem. Quanto ao resto, perguntou-me um dia minha filha o que era o infinito. Em seus seis anos, claro que não falava da noção matemática de infinito. Seu cérebro já começava a ser invadido pelo obscurantismo papista, pois toda escola, mesmo a leiga, está por ele contaminado. Enfim, a pergunta havia sido feita e uma resposta era esperada. Tentei uma ao alcance de sua compreensão, algo que fosse tangível, palpável: - Infinito, minha filha, é a burrice das esquerdas. (Joinville, A Notícia, 18.06.89) *PS - Seis meses depois da publicação desta crônica, caía o Muro de Berlim.
Quinta-feira, Outubro 18, 2007
E SE AFRICANO FOSSE MAIS INTELIGENTE? Leio manchete na Folha de São Paulo de hoje: AFRICANO É MENOS INTELIGENTE, DIZ NOBEL Na linha fina, o redator já tom suas precauções e emite opinião antecipada sobre a notícia, como se o leitor fosse incapaz de julgá-la por si só: Americano James Watson, co-descobridor da estrutura do DNA, dá declaração de cunho racista a jornal Vamos à notícia: Uma entrevista do biólogo James Watson, 79, com declarações racistas anteontem a um jornal britânico atraiu uma enxurrada de críticas de cientistas, sociólogos, políticos e ativistas de direitos humanos. Watson, ganhador do Prêmio Nobel por ter descoberto a estrutura do DNA juntamente com Francis Crick, em 1953, afirmou ao jornal britânico The Sunday Times que africanos são menos inteligentes do que ocidentais e, em razão disso, se declarou pessimista em relação ao futuro da África. "Todas as nossas políticas sociais são baseadas no fato de que a inteligência deles [dos negros] é igual à nossa, apesar de todos os testes dizerem que não", afirmou o cientista. "Pessoas que já lidaram com empregados negros não acreditam que isso [a igualdade de inteligência] seja verdade". A declaração verbal foi apenas um jeito um pouco menos delicado de expor o que ele já havia escrito em seu recém-lançado livro Avoid Boring People (Evite Pessoas Chatas): "Não há razão firme para crer que as capacidades intelectuais de pessoas geograficamente separadas evoluam de maneira idêntica. Nosso desejo de considerar poderes iguais de raciocínio como uma herança universal da humanidade não vai se prestar a isso". Tivesse feito esta declaração no Brasil, Watson já estaria processado por crime de racismo. No entanto... olhe para os países africanos... e olhe para os países europeus. Olhe para as cidades esplendorosas do Velho Continente... e para as cidades miseráveis do continente negro. Você jamais encontrará um Mozart ou um Cervantes nas culturas africanas. Mas encontrará às pampas os Idi Amin Dadas e Mobutus Sessos da vida. Na Europa há Estados constituídos. Na África há arremedos de Estado e tribos e guerras tribais. Democracia é flor que viceja na Europa. Não há democracia em países africanos. A África - e particularmente a África muçulmana - vive ainda na era das teocracias, lapidações e ablação de clitóris. No Ocidente, há muito chegou-se à noção de direitos humanos. Teocracia é obsolescência do passado, lapidação não é admissível como pena e ablação do clitóris é crime. Compare a cultura e a tecnologia produzidas pela Europa, e a cultura e tecnologia produzidas pela África. O óbvio salta aos olhos. É claro que o branco europeu é mais inteligente que o negro africano. Não vemos europeus arriscando suas vidas na travessia do Mediterrâneo, em busca das excelências da cultura negra. Par contre, há centenas de milhares de negros arriscando suas peles, em precárias pateras, para chegar ao continente cuja cultura foi construída pelos brancos. Imigrante não se engana. Os africanos sabem o que é bem bom. Mas o óbvio constitui crime para os adeptos do politicamente correto. A título de raciocínio, invertamos a afirmação de Watson. Suponhamos que ele tivesse afirmado, contra todas as evidências: AFRICANO É MAIS INTELIGENTE É claro que ninguém o acusaria de racismo, nem instituições e universidades estariam cancelando suas palestras. Nem a Folha estaria preocupada em alertar o leitor para o teor da notícia. Talvez lhe propusessem até mesmo um segundo prêmio Nobel.
Crônicas da Guerra Fria (11) NA CORDA BAMBA Florianópolis - Comer todos os dias às margens do Atlântico cansa, não é verdade? Sem falar no eterno peixe-frito-com-pirão que nesta Ilha de Santa catarina passa por culinária, mais que a vontade de mudar de geografia nos impelem as ganas de degustar algo menos prosaico, tentar outros pratos às margens do Pacífico, por que não? Só que para isso é preciso voar e terrível é meu medo de voar. Para afastá-lo, me agarro em qualquer coisa, livro, garrafa ou mulher. Mal o avião decolou, aterrissei no primeiro volume das memórias de Arthur Koestler, La Corde Raide. Ao sabor do acaso, caí em suas lembranças da Viena dos anos 20, na época da inflação austríaca, quando ninguém sobrevivia senão às custas de expedientes, quando respeitáveis donas de casa tinham de prostituir-se para equilibrar o orçamento familiar, onde, naquele sabá de feiticeiras, foi destruída a classe média da Europa Central e de onde emergiram ideologias totalitárias: "era o começo do fim da vida civilizada ao longo do Danúbio e ao leste do Reno". Koestler nos fala de uma pendenga judicial envolvendo seu pai, causa perdida em função da corrupção dos juizes, já que na época o salário mensal de um magistrado alcançava o preço de uma libra de manteiga, ou quase isso. Os juizes, escreve Koestler, "eram apenas um pouco mais difíceis de serem comprados que suas mulheres ou filhas nos bares da Kärntnerstrasse". Considerando que eu saía de um Brasil com uma inflação - escamoteada, diga-se de passagem - de uns dez por cento ao mês, e teria como final de viagem a Argentina, onde a inflação já alcançava dois por cento ao dia, minha mania de refugiar-me em um livro resultava mais inquietante que o próprio vôo. Antes de continuar esta viagem, melhor pôr-lhe uma data. Eu viajava nos primeiros dias de maio. Hoje, estima-se a nossa inflação em dezesseis por cento ao mês, e a de nuestros hermanos ninguém sabe a quantas anda. Angustiado com o panorama traçado por Koestler, preferi enfrentar o vôo e tentar comunicar-me com o universo circunjacente. O avião estava assim de gaúchos e paulistas, gaúchos de Porto Alegre e paulistas da capital, é bom salientar. E que acontece quando porto-alegrenses e paulistanos se encontram a dez mil metros de altura? O assunto é um só, as desgraças do PT, tema que rendeu muita charla a viagem toda. Descendo, mais tarde, rumo à Patagônia, não havia quem não se dobrasse junto à janela, tentando situar o vulcão mais adequado onde jogar a Erundina, quem sabe o Osorno, talvez o Chalbuco. Ou mesmo o Puntiagudo. Proposições mais eivadas de humanismo sugeriam exilá-la na ilha de Chiloé, "os nordestinos não agüentam o frio". Eu, que nada tinha a ver com os dramas dos paulistanos, sei por que lembrei Euclides da Cunha: - O nordestino é, antes de tudo, um forte. Sou mais Punta Arenas. O diálogo transcorria assim ameno, todo mundo buscando soluções mais amenas para Erundina, a tal ponto que acabei descontraindo. A meu lado havia uma chilena. Fechei Koestler e tentei fechar meus ouvidos ao debate tupiniquim, afinal enfrentava meu medo de voar justo para afastar-me de meu país e, para afastar meu medo, que mais não fosse, puxei conversa: - E Pinochet? Mal ouviu nominar o tirano, os olhos da chilena se encheram de justa cólera. E de medo, afinal voltava ao Chile. Ao saber-me brasileiro, ousou confiar: - No Chile, nós odiamos Pinochet. O Boeing continuava adejando rumo ao Oeste, ao longe já se divisava as neves da Cordilheira, atrás de mim alguém comentou que o dólar na Argentina, de 83 austrais passara a 104, assim de um dia para o outro. Com aquela sensação de que, uma vez metade da viagem feita, metade do perigo havia passado, fui relaxando e passei a perscrutar meu meio ambiente. Não poucos turistas era jovens bancários do Banco do Brasil em greve e, como acho que vou acabar voltando ao assunto, passo a abreviá-los por JBBBG. "Não é que a gente seja a favor da greve" - dizia um JBBBG catarinense - "mas a pressão dos petistas é tal que temos de cair fora". Maravilha de queda, pensei com meus botões, nada mau trocar de oceano para fugir a pressões sindicais. Entendi então parte do charme petista: seus militantes, com sua agressividade, forçam zelosos funcionários a apoiar a greve do outro lado dos Andes. Esta temática contaminou a viagem toda, o assunto dominante nos bares e boates de Bariloche - permita-me o leitor antecipar escalas - era, entre mesas repletas de trutas, veados e javalis, o problema da greve no Banco do Brasil. Terá terminado ou não? Foram ou não foram atendidas nossas reivindicações? Reivindicações, a meu ver, fundamentalmente justas: que horror um JBBBG, sem sequer ter curso superior, ganhar apenas o suficiente para curtir sua greve na Patagônia! Salário justo seria o que lhe permitisse curti-la nos Alpes ou Pirineus, em Roma ou Paris. Já mais relaxado, consciente de causas maiores que meu medo de voar estavam em jogo, fui contaminado pelo desprazer de viajar quando meu país vivia uma crise constitucional, sendo incerto o resultado das justas reivindicações sindicais. Uma eterna angústia perpassava os olhos dos jovens bancários, não só durante o sobrevôo da cordilheira, como também ao navegar pela paisagem de sonho dos lagos de Todos los Santos e Nahuel Huapi, sob a presença imponente do Osorno: será que a greve acabou? Em Florianópolis, contou-me um desses reacionários sem cura que um caixa do BB, mal tendo curso secundário, ganhava o dobro de um professor titular na universidade, com doutorado e vinte ou mais anos de carreira. Tentando negar as calúnias do direitista abominável, perguntei a um de meus parceiros de vôo qual era seu salário. - Estás invadindo minha privacidade - reagiu o bancário. Isso só a mim diz respeito. No máximo, à Receita Federal. Enfiei a viola no saco e voltei-me para a chilena. Além de seu perfil contra a escotilha, crescia, imponente, a Cordilheira. - Pinochet? Um canalha. Empobreceu as elites do país, com essa piada populista de tributar violentamente as grandes fortunas. Por isso teve 44% de votos no plebiscito, coisa que nem Mitterrand fez no primeiro turno. Com o dinheiro da gente, deu casas aos vagabundos das favelas de Santiago e Valparaíso. Coisa de comunista, isso de tributar os ricos e dar aos pobres, logo aos que nada produzem. O clima era de absoluta insatisfação naquele Boeing que transportava injustiçados turistas de um oceano a outro, revolta que nem mesmo as generosas doses de Chivas ou Ballantines conseguiam atenuar. Meu medo de voar reduzia-se cada vez mais a suas verdadeiras dimensões, preocupação egoísta com a própria vida, quando no avião as preocupações eram antes de tudo sociais. Que percentual de aumento a classe levará na greve? Verdade que por setecentos dólares se pode comprar peles chiquérrimas em Buenos Aires? E o austral, será que vai continuar caindo? Angústias, a meu ver, perfeitamente compreensíveis no Terceiro Mundo, pois se estou viajando sem saber qual é meu atual salário, rumo a outro país de moeda que se esfarela de hora em hora, como posso saber quanto realmente paguei por um vison ou chinchila? O austral, efetivamente, caiu ainda mais, nos dias seguintes o dólar estava cotado a 170, 200 e mesmo 250 austrais, o que permitia uma refeição no requintado Clarks, de Buenos Aires, por cinco dólares por cabeça, o que mal paga uma sola de sapato de codinome filé, sem vinho algum, nos restaurantes da Santa e Bela Catarina. A inflação acabaria chegando a 4% ao dia, o que daria, segundo os especialistas, um índice de 24.000% ao ano. Nesta altura do vôo, sei lá o que mais me fazia medo, se Koestler ou o Boeing. Mas é nisso que dá escrever sobre coisas passadas, na verdade ainda não cheguei a Santiago e já falo da Argentina. O fato é que esta angústia corroía a todos, pairava no ar um certo arrière-goût a almejas, piúres, locos e picorocos. Estamos sobre a Cordilheira. As comparações são inevitáveis, não falta quem evoque os Alpes ou os Urais, evidência de que não navego com marinheiros de primeira viagem. Um gaúcho me fez emergir de minhas elucubrações: - O senhor também é criador? Enfim, uma alma gêmea. Criador sempre fui, desde que rabisquei minhas primeiras ficções. Só não sabia que tal profissão de fé se me estampara no rosto, ou talvez o gaúcho me conhecesse de peleias passadas, o fato é que ser reconhecido sobre os Andes constituía uma gentil massagem a meu ego. Quis saber então qual a linha de produção de meu interlocutor: - Hereford, Angus-Abeerden. Voltei a Koestler. Dias depois, nas cadeirinhas suspensas de Bariloche, numa Argentina à beira da hiperinflação, eu voltaria a rever meus colegas de vôo, em monótona sucessão, os cabos de aço girando e fazendeiros e bancários passando. Lá embaixo, os lagos andinos e mais ao leste, apenas intuído, um Brasil em crise. Mas isto aconteceu mais adiante, bem depois daquele momento bendito em que as rodas encontram a pista e o piloto reverte as turbinas. Estou em Santiago do Chile. Alívio. Quinze graus, céu de anil. Um por cento, a inflação de abril. (Joinville, A Notícia, 11.06.89)
Quarta-feira, Outubro 17, 2007
SÃO LANCELOTTI O padre Júlio Lancelloti, defensor incondicional dos moradores de rua e menores delinqüentes, apresentou queixa à polícia, dizendo-se vítima de extorsão há três anos, período no qual teria pago 50 mil reais a um grupo de extorsionistas, que ameaçavam denunciá-lo por prática de abusos sexuais contra menores. A vítima de seus abusos seria filho de um dos extorsionistas, já acusado por homícidio. Vejamos as declarações do padre à Folha de São Paulo: Além de intimidá-lo com insinuações de agressão, o grupo passou nos últimos meses a dizer que procuraria a imprensa para denunciar um suposto abuso sexual cometido pelo padre contra o filho de Conceição, de oito anos. "Tem coisas que você não consegue explicar. Tem coisas subjetivas. Eu queria mudá-los [os autores da extorsão]", disse o religioso, ao ser questionado por que tinha pago aos acusados por tanto tempo. O padre Júlio afirmou ontem que recebe salário de R$ 1.000 por mês e que mora com sua mãe e a sobrinha. Ele disse que irá pedir proteção policial. Não convence. Como pode alguém que recebe mil reais por mês pagar 50 mil reais a extorsionistas no período de três anos? Além disso, o gesto do padre, de pretender com seu pagamento evitar outras extorsões - como declarou em outra entrevista - não tem precedente nos anais da hagiografia. Temos um novo caso Henry Sobel. O sacerdote impoluto envolvido em um reles caso de reportagem policial. Quanto mais Sobel se explicava, mais se enredava. Quanto mais Lancelotti se explicar, mais se enredará. Quem dá explicações já perdeu a discussão. É óbvio que o imbroglio que envolve Lancelotti está longe de ter sido elucidado. Como pode uma personalidade pública de seu status ceder a chantagens por temer que seu nome seja envolvido pelas denúncias de um homicida? É claro que há algo mais atrás da ameaça de denúncia. Se não houver, temos de apresentar Lancelotti como candidato a santo pela Igreja Católica. Só um santo cederia a uma chantagem para evitar outras chantagens. Urge apresentar o nome do santo homem ao Vaticano, para posterior beatificação e santificação.
Crônicas da Guerra Fria (10) LÁ! Florianópolis - Lá! Lá onde nos bares não há cerveja e quando cerveja há, sempre está morna; onde todos falam baixinho, temendo que ao lado o vizinho pertença à polícia; onde em um restaurante se espera duas horas na fila para se comer um frango com fritas, isso quando não falta nem frango nem fritas; onde o garçom lhe joga o prato na cara julgando estar prestando um favor; onde os restaurantes de luxo, se de luxo se pode falar, são proibidos ao cidadão comum e somente acessíveis ai turista com dólares; onde só o dólar compra, nas berioskas, o que de melhor o Ocidente oferece; onde a moeda local compra menos que um cruzado-louvado-seja Machado; e mesmo se algo comprasse, pouco ou nada há a comprar. Lá! Lá onde telefones são grampeados e uma ligação interurbana exige três ou quatro horas de espera; onde pesquisadores estrangeiros têm microfones ocultos em seus quartos; onde as máquinas de xerox são proibidas ao cidadão e as de escrever devem ser registradas na polícia; onde para se fazer um xerox se necessita a assinatura de dez burocratas; onde livros estrangeiros são proibidos de entrar e os nacionais são proibidos de sair; onde nas bancas de jornais não há nem sombra de imprensa ocidental; onde há um diário oficial que atende pelo pomposo nome de A Verdade e pouco publica além de mentiras; onde jornalista fez do medo uma segunda natureza e só se permite contestar o Estado quando o Estado admite ser contestado; onde criticar o poder pode render alguns anos de Sibéria. Lá! Lá, de onde é proibido sair e de onde quem sai não volta mais, ou só volta para não expor a represálias os filhos mantidos como reféns; onde para viajar de uma cidade a outra é preciso passaporte; onde trocar de cidade não está ao alcance de qualquer cidadão; onde, na capital "onde faltam menos coisas", cada moscovita dispõe de cinco metros quadrados para habitar; onde os jovens casam, não por casar, mas postular o direito de, após cinco ou dez anos, obter dez metros quadrados fora da casa paterna; onde um grupo de atletas só vai ao Exterior cercado por anjos da guarda; onde uma orquestra, em excursão pelo Ocidente, ao voltar vira quarteto; onde entrar em hotéis internacionais é proibido ao cidadão comum; onde falar com um turista é gesto altamente suspeito e passível de imediata interrogação policial. Lá! Lá, onde as caixas de correspondência não têm aberturas, para que nenhuma mensagem passe de uma pessoa a outra a não ser por intermédio do carteiro; onde todo porteiro tem por função vigiar quem visita quem em um edifício; onde quem quer que detenha uma parcelinha de poder esmaga quem tem menos ou não tem nenhuma; onde é proibido a quem quer que entre no país portar uma carta fechada; onde, para um turista, é impossível escolher um hotel que lhe agrade; onde, para o visitante, são impostas previamente datas e itinerários, e ai de quem deles fugir; onde o horário de partida de um trem é objeto de apostas e o de chegada é segredo do maquinista; lá, onde casais alugam táxis para fazer amor enquanto o táxi roda, já que outros lugares não há. Lá! Lá naquelas plagas que Graciliano Ramos e Jorge Amado tanto amaram; naquela Nova Jerusalém para onde rumaram milhares de intelectuais deste século; naquelas estepes onde milhões de kulaks foram exterminados pelo Paizinho dos Povos; naqueles gulags onde foram explorados, torturados e massacrados os milhões de soviéticos que ousaram opor-se ao Paizinho, ao qual Amado dedicou um terno e amoroso livro, idilicamente intitulado O Mundo da Paz; naqueles países onde sindicatos e partidos políticos são proibidos e dissidentes são calados; naquela cultura onde liberdade é palavra já sem sentido, exceto quando sinônima de dizer sim. Lá! Lá naquelas terras que tantos escritores e artistas tanto louvaram, mas nelas jamais ficaram; naquele paraíso em prosa e verso cantado, cercado por cães, metralhadoras e arame farpado, não para que nele ninguém entre, mas para que dele ninguém saia e não volte; naquele mundo da paz que em nome da paz invade seus vizinhos; naquele universo fechado onde o lucro é pecado e a economia um poço de águas paradas; naquele outro lado do Muro, onde cidadãos, buscando a liberdade, enfrentam guardas, cães, metralhadoras, arames farpados e campos minados. Lá! Lá naquelas praias onde veleiros só existem em maquete e manual de navegação à vela é livro subversivo; onde guardas de metralhadoras com baionetas caladas zelam para que os autóctones não falem com estrangeiros e onde navios ao largo despertam os nativos com alegres canhoneios, para insinuar que se vive em guerra permanente; naquelas ilhas piscosas, onde pescar é proibido, pois quem tem barco vai a Miami; onde lagosta é exportada ao satânico mundo capitalista, enquanto os ilhéus comem macarrão com ketchup, isto quando têm a ventura de encontrar os dois; onde um ditador de barbas brancas, há trinta anos no poder, proíbe qualquer plebiscito, eleição ou livre manifestação do pensamento e, apesar de tudo, continua sendo caitituado pelas esquerdas da América latina; naquela ilha tanto amada por Chico Buarque e Caetano Veloso, mas na qual nenhum dois gostaria de morar. Lá! Lá onde Shakespeare, Nietzsche, Kafka, Orwell, Koestler, Sartre, Camus, Ernesto Sábato, Vargas Llosa, entre outros, estão proibidos; onde só existe uma editora que só edita o que o Estado quer; onde computador deve ser escondido debaixo da cama, e impressora , nem sonhar; onde tratamentos dentários são feitos sem anestesia e papel higiênico é privilégio da Nomenklatura; onde você não pode escolher um modelo de óculos ou número de sapatos; onde os absorventes higiênicos são tamanho único e vire-se como puder. Lá! Lá, onde o álcool é proibido e sem nele afogar-se é difícil viver; onde o açúcar vale ouro pois dele pode-se fazer álcool; onde as colheitas apodrecem nos campos, pois a ninguém apetece colher qualquer coisa sem obter qualquer lucro; onde as prateleiras dos mercados são monótonas sucessões de coisas iguais; onde a prostituição oficialmente não existe, mas com uma calcinha de renda ou um par de meias de náilon você compra universitárias soberbas nos corredores dos hotéis internacionais; onde um prosaico par de jeans é símbolo de paraíso inacessível; onde as garrafas vazias de uísque são sinais de status e objeto de culto. Lá! Lá, onde o cotidiano é tão duro que sequer sobra tempo a alguém para pensar em contestar o regime; onde falar sem peias é sempre um risco e pensar é sempre perigoso; onde o livre debate, a oposição de idéias e maneiras de ver o mundo é sequer concebível; onde o comer, longe de ser um prazer, constitui triste obrigação de ingerir coisas sem gosto para manter o esqueleto em pé; onde uma cervejinha gelada com lingüiça e farofa, viável em qualquer botequim de favela, é delírio só pensável nas ficções de um escritor de imaginação poderosa. Lá! Lá, onde o século XIX ainda não chegou. Lá, onde viver só difere de estar morto porque os mortos, estes pelo menos não sofrem. Lá onde viajar é proibido e prospectos de agências de turismo são como contos de fadas. Lá, onde impera o medo e o futuro não existe. Lá, onde sonhar é crime. Nós queremos LULA LÁ! Aqui, não. (Joinville, A Notícia, 30.04.89)
Terça-feira, Outubro 16, 2007
Crônicas da Guerra Fria (9) TOVARITCH GORBACHOV NAS ÍNDIAS OCIDENTAIS Florianópolis - Falei outro dia de dois cidadãos de Forquilhinha, o Paulo e a Albertina. Paulo é o cardeal aquele que reza pedindo ao Pai para que sempre permaneça no poder o tirano que tanto sangue fez rolar em Cuba. Albertina é a minha faxineira e detesta sangue. Mas não consegue viver sem açúcar. Quanto a mim, de doce já me basta a vida. Desaparecesse o açúcar do mercado, em função de algum desses planos mágicos para combater a inflação, eu só ficaria sabendo da coisa pelo olhar súplice da Albertina. Pois sempre reservo uma ração para seu café. Em sua insciência, a coitada nem sonha que desde sempre o açúcar teve sabor de sangue. Mas não era disto que pretendia falar. Carson Ritchie é um cidadão americano - ou talvez britânico, mas isto pouco importa - que um dia convidou alguns amigos a um bom restaurante. Jantaram à la farta e tudo transcorreu muito bem, pelo menos até o momento da dolorosa. Ritchie puxou a carteira e nela não encontrou dinheiro suficiente. Teve de apelar aos amigos que convidara para jantar. Passado o episódio, considerou que a história da alimentação em algo se parece com esta anedota: quando chega o momento de pagar o banquete, podemos descobrir que aquilo que desfrutamos custa bem mais do que estávamos dispostos a pagar quando nos sentamos à mesa. Terá sido talvez esta gafe o que levou Ritchie a escrever um belo ensaio, Food in Civilization - How History Has Been Affected by Human Tastes. "O açúcar para adoçar o chá e o café europeu - escreve Ritchie - foi cultivado às custas da escravidão negra. Os peles vermelhas foram expulsos sem piedade das pradarias onde caçavam para que o homem branco pudesse cultivar trigo e milho, e seus búfalos foram exterminados para dar lugar a grandes rebanhos vacuns. Os escritores norte-americanos responsabilizaram as grandes multinacionais fruticultoras pelo caos das economias centro-americanas, construindo ferrovias ilegais, sonegando impostos, manipulando os baixos salários da mão-de-obra não qualificada (já por si suficientemente baixos), expropriando as terras dos camponeses e exaurindo a fertilidade do solo. E tudo isso para que os norte-americanos tivessem bananas como sobremesa!" Ao debruçar-se sobre os efeitos dos alimentos sobre a História, Ritchie descobre que foram os conceitos errôneos de alimentação e não os corretos, os que demonstraram ter maior influência. "Crenças em que as especiarias aumentavam a virilidade, que o açúcar era essencial para a saúde, ou que para ser forte devia-se beber muita cerveja, condicionaram mais os destinos da humanidade que as autênticas e consolidadas leis da ciência da alimentação". Mas como convencer minha Albertina de que seu vício não passa de um hidrato de carbono sem nenhum valor alimentício? Se os europeus, para açucarar suas tardes, destruíram homens e culturas, na África e nas ditas Índias Ocidentais, como queixar-me de minha faxineira? Já vi universitários e professores universitários se lambuzando com sorvetes, que além de açúcar contém algo mais nocivo, o sal. Pior ainda, já vi muitos destes senhores que, por uma questão de ofício possuem, ou deveriam possuir, noções de bem comer, dando sorvetes a seus filhos. Assim sendo, sempre tenho em casa um açucareiro cheio para saciar os instintos primários de Albertina e de eventuais formigas que já descobriram o mapa da mina. Sem falar que, quando o café é forte, tipo exportação, não me furto a ajuntar-lhe uma colherinha de veneno. Pois este hidrato tão prestigiado, que no fundo só serve para produzir cáries, obesidade e doenças cardíacas, produziu mais estragos na trajetória do ser humano do que o próprio sal, que pelo menos tem a virtude de conservar as carnes, fator aparentemente banal mas decisivo na caminhada do Homo Sapiens, seja rumo ao combate, seja rumo a descobertas. E já fez levas de jovens do mundo todo partirem em revoadas rumo àquela ilha tanto amada por Paulo, Cardeal Arns, o conterrâneo de minha voraz consumidora de açúcar. Pois a cana-de-açúcar deve ser colhida rapidamente quando madura e Castro, preocupado em seguir as diretrizes de Moscou, mandou para Angola a juventude cubana, onde, em vez de ceifar cana, ceifam vidas alheias e muitas vezes perdem as suas. Mas Estados Unidos, Europa, América Latina e mesmo o Brasil, pronto supriram a falta de mão-de-obra. Milhares de jovens, que jamais haviam visto de perto um canavial, bravamente acorreram, de machete em punho, em apoio à ditadura. Verdade que Cuba está passando de moda, o supra-sumo agora é colher café na Nicarágua. A esta geração, costumo chamá-los de os Novos Cafeicultores. A cada época de colheita, filhinhos de papai da Europa democrática, e mesmo daqui, rumam à Manágua em alegres revoadas onde, sem precisar muita sorte, se pode fazer um rápido estágio na guerrilha, com possibilidades de pós-graduação na Líbia. Mas do que era mesmo que eu falava? Ah, do açúcar. Foi introduzido no mundo mediterrâneo por Dario, o rei dos persas, trazido da Índia após suas conquistas por lá. Difundiu-se pela Europa e passou ao Novo Mundo graças aos colonizadores espanhóis. Hernán Cortez introduziu a cana-de-açúcar no México. O Caribe proporcionava ao açúcar o clima mais adequado que seu próprio lugar de origem, a Índia, pois lá chovia muito mais. Acontece que os espanhóis jamais iriam trabalhar se encontrassem alguém que o fizesse por eles. A tarefa foi delegada, se assim se pode dizer, aos índios caribes e arawaks, culturas que logo foram exterminadas. Tendo de buscar mão-de-obra em outra parte, os colonizadores das "Índias Ocidentais" deram uma piscadela de olhos aos portugueses. Estes, tendo observado que os índios, não se adaptando ao trabalho duro, morriam na colheita de açúcar, os deixaram de lado e foram buscar escravos na África. "Já que espanhóis e portugueses haviam começado a desenvolver suas plantações de cana com a colaboração dos escravos negros, todos os demais pensaram que tinham de seguir seu exemplo. Se assim não faziam, expunham-se a produzir um açúcar mais caro, sem saída no mercado. Resulta irônico comprovar a que ponto haviam chegado os primeiros colonos franceses e ingleses no Caribe: homens idealistas, freqüentemente perseguidos por suas crenças religiosas, e muitas vezes indivíduos de princípios elevados que queriam viver de uma forma mais livre da qual lhes era permitido viver na Europa". Pois estes senhores, diz-nos Ritchie, tornaram-se escravocratas nas Índias Ocidentais. Para satisfazer o paladar europeu. Outro subproduto da cana, o rum, serviu para incrementar o tráfico de escravos. Quando surgem as primeiras campanhas abolicionistas, seus líderes implantam o primeiro boicote ao comércio infame, adoçando o café com nata em vez de açúcar, e pedindo conhaque francês em lugar de rum. Para ajudá-los a propagar suas idéias, lady Henderson, comerciante em Londres, vende açucareiros com gravado em letras douradas: "Açúcar das Índias Orientais, não produzido por escravos". Falar nisso, sei lá porquê, lembrei uma historinha que li recentemente. Uma galinha surge nas ruas de Havana e é perseguida por um bando de cubanos famintos. A galinha descobre um bueiro e nele se esconde. Em seguida, um ovo surge rolando na esquina e é logo perseguido. A galinha o chama para seu esconderijo. Aparece então na calçada um filé. Antevendo o perigo, a galinha e o ovo chamam o filé para o esconderijo. Mas o filé, sem se apressar, responde calmamente: "não se preocupem, não há nenhum problema. A mim, eles não reconhecem mais". Confesso não saber porque me ocorreu a anedota. Enfim, falava de comida e civilização. Em verdade, não era disto que pretendia falar. Em verdade, pretendia comentar a visita do líder soviético Mikhail Gorbachov à Cuba de Castro. Vai ver que é por isso que lembrei do filé. Pois os cubanos estão vivendo a nível de fome, enquanto Castro se dá ao luxo de mandar soldados para a África e exportar sua "revolução" para a América Latina. Com todo seu messianismo, o Líder Máximo não conseguiu livrar seu feudo da fase da monocultura. Cuba, hoje, só subsiste graças aos cinco bilhões de dólares anuais fornecidos por Moscou. Trocados por açúcar vendido por preço acima da cotação de mercado. Pouco entendo de protocolo, mas imagino que Castro oferecerá um café a Mikhail e Raíssa. Seria bom ver com que tipo de açúcar tovaritch Gorbachov adoça o seu, se com o açúcar de homens livres ou com o açúcar da ilha. (Joinville, A Notícia, 09.04.89)
UMA PROPOSTA INTERESSANTE De Franklin Anagnostopoulos, recebo notícias de um proposta de modificação jurídica do casamento, que merece atenção. Gabriele Pauli, deputada do Sul da Alemanha está propondo uma nova lei segundo a qual casamentos valeriam por apenas sete anos e teriam que ser renovados depois desse período. Pela proposta da deputada, que representa o estado da Baviera, após o "estágio probatório", os casais estariam aptos a renovar as alianças por mais tempo. Caso não renovem, a união ficará automaticamente dissolvida. Segundo a parlamentar, e medida diminuiria os altos custos dos processos de divórcio na nação européia. "Vários casais só continuam juntos porque têm medo da separação. Muitos casais continuam juntos porque eles acreditam que assim estão seguros", defendeu a deputada de 50 anos, que já se casou duas vezes - e se divorciou duas vezes. A proposta, curiosamente, parece inspirar-se noregime teocrático dos aiatolás iranianos, que instituiram o sigheh, casamento temporarário que pode durar uma hora. O shigheh é o arabesco colateral usado pelos iranianos para burlar a proibição de relações sexuais antes do casamento. Não é o caso da proposta da deputada bávara, que prevê uma duração mínima de sete anos. Considerando-se que boa parte dos matrimônios contemporâneos não duram sequer sete anos, a proposta me soa muito sensata. É claro que a igreja católica e advogados de qualquer crença vão chiar, afinal uma significativa parcela de seus lucros irá pelo ralo. Gostei.
Segunda-feira, Outubro 15, 2007
LEI CONTRA O CRISTIANISMO Datada do dia da Salvação: primeiro dia do ano Um (em 30 de Setembro de 1888, pelo falso calendário). Guerra de morte contra o vício: o vício é o cristianismo. Artigo Primeiro - Qualquer espécie de antinatureza é vício. O tipo de homem mais vicioso é o padre: ele ensina a antinatureza. Contra o padre não há razões: há cadeia. Artigo Segundo - Qualquer tipo de colaboração a um ofício divino é um atentado contra a moral pública. Seremos mais ríspidos com protestantes que com católicos, e mais ríspidos com os protestantes liberais que com os ortodoxos. Quanto mais próximo se está da ciência, maior o crime de ser cristão. Conseqüentemente, o maior dos criminosos é filósofo. Artigo Terceiro - O local amaldiçoado onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco deve ser demolido e transformado no lugar mais infame da Terra, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Lá devem ser criadas cobras venenosas. Artigo Quarto - Pregar a castidade é uma incitação pública à antinatureza. Qualquer desprezo à vida sexual, qualquer tentativa de maculá-la através do conceito de "impureza" é o maior pecado contra o Espírito Santo da Vida. Artigo Quinto - Comer na mesma mesa que um padre é proibido: quem o fizer será excomungado da sociedade honesta. O padre é o nosso chandala - ele será proscrito, lhe deixaremos morrer de fome, jogá-lo-emos em qualquer espécie de deserto. Artigo Sexto - A história "sagrada" será chamada pelo nome que merece: história maldita; as palavras "Deus", "salvador", "redentor", "santo" serão usadas como insultos, como alcunhas para criminosos. Artigo Sétimo - O resto nasce a partir daqui. Nietzsche - O Anticristo
Crônicas da Guerra Fria (8) CARTA ABERTA AOS HEMATÓFAGOS Florianópolis - "O lugar digno de execração onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco" - escreveu Nietzsche, em O Anti-Cristo - "será completamente arrasado, e este lugar maldito sobre a terra inspirará horror às gerações futuras. Nele serão criadas serpentes venenosas". Se interpretamos a frase lato sensu, tomando o Egeu e o Mediterrâneo como focos primeiros de transmissão do cristianismo, estive em uma dessas chocadeiras, mais precisamente Lindos, na ilha de Rodes. Entra-se na cidade pela baía onde, segundo a tradição, Paulo teria aportado em sua terceira viagem de apostolado, introduzindo os Evangelhos no Ocidente. A entrada da baía é árida e escarpada e fiz a mim mesmo um propósito: vou subir no penhasco mais alto e fazer xixi lá de cima. Não foi preciso nem seria conveniente. Na praia, em vez de serpentes venenosas, miríades de suecas nuas. Pelo menos ali os ovos haviam gorado. Melhor mergulhar daquele barco sem pressa e varar a braço os poucos metros que me separavam do Valhala. Junto com outros apressadinhos que haviam tido a mesma idéia, joguei-me do barco e lá me fui, braço e braço, rumo às suecas, rumo às suecas, nuas, nuas. Paulo sempre me lembra sangue, perdoem-me os "leitores" da Bíblia que só a carregam sob o sovaco. De maior assassino de cristãos no século de emersão do cristianismo, travestiu-se em maior divulgador do novo monoteísmo. Cansado de derramar o sangue dos primeiros cristãos, passou a vender o sangue de Cristo como elixir da salvação. "O cálice de benção que benzemos" - escreve aos coríntios - não é a comunhão do sangue de Cristo?" Aos efésios, lembra: "Naquele tempo estáveis sem Cristo, sem direito de cidadania de Israel, alheios às alianças, sem esperança da promessa e sem Deus neste mundo. Mas em Jesus Cristo, vós, que antes estáveis longe, agora vos aproximastes pelo seu sangue". Na Epístola aos Hebreus, Paulo - ou quem quer que tenha sido seu ghostwriter - nos mostra um Cristo como Sumo Sacerdote dos bens vindouros, penetrando um tabernáculo mais excelente e mais perfeito, não feito por mãos do homem. Não leva consigo o sangue de carneiros ou bezerros, "mas com seu próprio sangue entrou uma só vez no santuário, adquirindo-nos uma redenção eterna. Pois se o sangue de carneiros e de touros e a cinza da novilha, com que se aspergem os impuros, santificam e purificam pelo menos os corpos, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito Eterno ofereceu a si mesmo como vítima sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas para o serviço do Deus vivo?" Na narrativa bíblica, do Antigo ao Novo Testamento, o sangue é conditio sine qua non da salvação. Moisés inaugura a Antiga Aliança entre Deus e o povo eleito com o sangue dos animais sacrificiais e Cristo sela a Nova Aliança com seu próprio Sangue. Seria possível, mas monótono, enumerar as dezenas de vezes em que os autores bíblicos clamam por sangue para salvar-se. No Apocalipse, os puros, envoltos em vestes brancas, são salvos pelo sangue do cordeiro: "Esses são os sobreviventes da grande tribulação: lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do cordeiro". Jeová, ou Adonai ou Eloim, ou como quer que se chame o deus judaico, é deus sedento de sangue, inclusive humano. A Abraão, ordenou que lhe oferecesse o sangue de Isaac. Pode-se objetar que interrompeu a trajetória do punhal do pai de Isaac. Mas sua sede de sangue não fora saciada: Cristo não teve sursis. Em meio a isso, correu solta a farra-do-boi, nesta Semana Santa, na ilha e no litoral catarinense. Seus defensores - que são legião - alegam tratar-se de uma antiga tradição açoriana e que, como tal, não pode ser proibida ou reprimida. Não demonstram conhecer história, estes senhores. Esta sede de sangue, como vimos, vem de bem mais longe. Esta orgia de sangue e sadismo só pode ser concebida dentro de um caldo cultural cristão. E não é por acaso que a farra atinge seu auge nos dias da Paixão. Que a farra seja cruenta, isto a mim não espanta. Para se ter uma idéia do que é capaz o ser humano, não precisamos de grandes leituras. Basta um livrinho, e dele estamos falando. A Bíblia toda é um desfile de massacres, plenamente justificáveis quando feitOs em nome - ou por ordem - de Deus. Há quem afirme que o Novo Testamento vem suavizar a Lei Antiga. Os defensores desta idéia certamente esqueceram de trechear, que mais não seja, o último livrinho do Livro. Crueldade não constitui novidade para ninguém. O espantoso em tudo isto é que, tendo a farra existido desde sempre, só agora, nos últimos três anos, venha sendo denunciada. A Igreja sempre se manteve silente sobre o assunto. Cardeais, bispos e padres, sempre tão preocupados em proibir filmes ou ocupar terras, jamais disseram uma palavra ou assinaram uma linha condenando a orgia infame, pelo menos antes da repercussão internacional da farra. Se bem que isto tampouco me espanta. Quem bebe sangue todos os dias, deve ter pego gosto pela coisa. De hematófagos profissionais, nada se pode esperar. Literatos, intelectuais e artistas em geral, todos cientes da coisa fétida que ocorria sob suas vistas, jamais abriram o bico. Sempre preocupados em definir a identidade ilhoa, em cantar o verde e o azul dos morros e praias não perceberam - ou preferiram deixar de perceber - que o cerne desta identidade é a farra, tanto que persiste desde o povoamento da Ilha de Santa Catarina e até hoje resiste com armas, inclusive, como já ocorreu na praia de Ganchos, a qualquer tentativa de proibição. Verdade que agora começamos a ouvir tímidos chiados, afinal não fica bem compactuar com a ignomínia. Sem falar que, hoje, denunciar a farra já rende prestígio e até mesmo votos. Na universidade, onde trafeguei pela área de Humanidades, jamais ouvi um pio sequer em torno à farra, o que não deixa de ser coerente. Boa parte dos professores desta área são défroqués ou ex-seminaristas (particularmente nos cursos de Letras) e, apesar de terem largado o hábito ou a batina, continuam cultuando o deus sanguinolento nascido no deserto. Deles, portanto, nada esperar. Quanto ao governo e demais autoridades, menos chances ainda de qualquer reação. Fornecer bois para a farra rende votos e, o que é mais importante, preserva a incultura do ilhéu e do homem litorâneo, isto é, o mantém sob o jugo. Para perpetuar-se no poder, nada melhor que pequenos currais de eleitores estupidificados pela barbárie. Mas uma sensibilidade nova parece estar contagiando a ilha nos últimos anos, a idiossincrasia de uma cultura onde o boi, em prosa e verso cantado, sempre foi considerado amigo e companheiro de trabalho. A partir da migração gaúcha rumo a Santa Catarina, forma-se uma massa crítica que permite a denúncia da farra. A internacionalização da denúncia, segundo me consta, foi obra de um gaúcho junto aos grupos antitaurinos em Madri. Para os que, em defesa da farra, brandem o argumento da existência das touradas, é bom lembrar que tanto na Espanha como em toda a Europa, há um movimento organizado e aguerrido lutando pelo fim das "tardes de sangre y de sol". Com a entrada da Espanha na comunidade européia, tal propósito deixa de ser utópico, pois os demais países-membros podem muito bem optar por sanções econômicas que afetariam duramente a vida dos espanhóis. Mas voltemos à farra. Os antitaurinos, sem conseguir acreditar na existência de um ritual mais sangrento e estúpido do que a tourada, quiseram ver para crer. Receberam um dossiê com as primeiras e tímidas denúncias da imprensa catarinense e, a partir destas, o escândalo tomou dimensões internacionais. Todo jornalista que, escandalizado com as hecatombes de todas as páscoas, registrou em seu espaço seu protesto, pode orgulhar-se de ter contribuído para esta tentativa de acabar com a farra. Verdade que esta não acabará tão cedo. Mas enquanto existirem, carregaremos a pecha de viver entre bárbaros. Alegar que a farra é tradição açoriana, inocentando a cultura local, é prático e confortável e parece ser sinônimo de: "se é tradição, nada se pode fazer". Mas é falso. Porto Alegre e parte do litoral rio-grandense foram colonizados por açorianos e naquelas plagas boi algum é torturado. Por outro lado, mesmo sem conhecer as Açores, não consigo acreditar que nelas se pratiquem tais vilezas. Se nelas a farra existisse, há muito teria sido denunciada pelos milhões de turistas nórdicos, alemães ou franceses que constituem seu suporte econômico. A tradição, dizia, vem de bem mais longe. Vem do livro que está na base da cultura ocidental e que tanto sangue fez - e ainda faz - correr mundo afora. Não consigo ver como acabar, seja com a farra, seja com as corridas de touros, participando de uma cultura onde milhares de homens, todos os dias, bebem sangue. Não sei se o leitor sabe, mas quando o sacerdote consagra o vinho na missa, o vinho não é mais vinho. É sangue. E muita gente foi queimada e sangrada pela Igreja, por julgar que o vinho continuava sendo vinho, que a consagração era meramente simbólica. E se o leitor duvidar, pode perguntar até para o Leonardo Boff. Por mais avançadinho que se pretenda, aposto que não vai negar que bebe sangue todos os dias. É dogma, e fim de papo. Enfim, voltando à farra, devo confessar que nela não é exatamente o sofrimento do boi o que mais me preocupa. E sim o que deve existir de hediondo e perverso nos seres que a praticam. Vistos de longe, até parecem gente. A tortura não degrada apenas o torturado, mas também o torturador. Na farra, no fundo, o ilhéu é o boi. (Joinville, A Notícia, 02.04.89)
Domingo, Outubro 14, 2007
Crônicas da Guerra Fria (7) IDADE MÉDIA, VOLVER! Florianópolis - Valayaté-Faghih, Kachfol-Astar e Towzihol-Masael são os três livros-chave de um escritor que, em 1979, recebeu generoso asilo em terras de França, em cidade nas cercanias de Paris. Traduzindo, pela ordem: O Reino do Erudito, A Chave dos Mistérios e A Explicação dos Problemas. Pinço cá e lá algumas reflexões do erudito autor: · No momento de urinar ou defecar, é preciso se agachar de modo a não ficar de frente nem dar as costas para Meca. · Não é necessário limpar o ânus com três pedras ou três pedaços de pano, uma só pedra ou um só pedaço de pano bastam. Mas, se se o limpa com um osso ou com coisas sagradas como, por exemplo, um papel contendo o nome de Deus, não se pode fazer orações nesse estado. · É preferível agachar-se num lugar isolado para urinar ou defecar. É igualmente preferível entrar nesse lugar com o pé esquerdo e dele sair com o pé direito. Recomenda-se cobrir a cabeça durante a evacuação e apoiar o peso do corpo no pé esquerdo. · Durante a evacuação, a pessoa não deve se agachar de cara para o sol ou para a lua, a não ser que cubra o sexo. Para defecar, deve também evitar se agachar exposto ao vento, nos lugares públicos, na porta da casa ou sob uma árvore frutífera. Deve-se igualmente evitar, durante a evacuação, comer, demorar e lavar o ânus com a mão direita. Finalmente, deve-se evitar falar, a menos que se seja forçado, ou se eleve uma prece a Deus. · A carne de cavalo, de mula e de burro não é recomendável. Fica estritamente proibido o seu consumo se o animal tiver sido sodomizado, quando vivo, por um homem. Nesse caso, é preciso levar o animal para fora da cidade e vendê-lo. · Quando se comete um ato de sodomia com um boi, um carneiro ou um camelo, a sua urina e os seus excrementos ficam impuros e nem mesmo o seu leite pode ser consumido. Torna-se, pois, necessário matar o animal o mais depressa possível e queimá-lo, fazendo aquele que o sodomizou pagar o preço do animal a seu proprietário. · Onze coisas são impuras: a urina, os excrementos, o esperma, as ossadas, o sangue, o cão, o porco, o homem e a mulher não-muçulmanos, o vinho, a cerveja, o suor do camelo comedor de porcarias. · O vinho e todas as outras cervejas que embriagam são impuros, mas o ópio e o haxixe não o são. · O homem que ejaculou após ter tido relações com uma mulher que não é sua e que de novo ejaculou ao ter relações com a legítima esposa, não tem o direito de fazer orações se estiver suado; mas, se primeiro tiver tido relações com a sua mulher legítima e depois com uma mulher ilegítima, poderá fazer as suas orações mesmo se estiver suado. · Por ocasião do coito, se o pênis penetrar na vagina da mulher ou no ânus do homem completamente, ou até o anel da circuncisão, as duas pessoas ficarão impuras, mesmo sendo impúberes, e deverão fazer as suas abluções. · No caso de o homem - que Deus o guarde disso! - fornicar com animal e ejacular, a ablução será necessária. · Durante a menstruação da mulher, é preferível o homem evitar o coito, mesmo que não penetre completamente - ou seja, até o anel da circuncisão - e que não ejacule. É igualmente desaconselhável sodomizá-la. · Dividindo o número de dias da menstruação da mulher por três, o marido que mantiver relações durante os dois primeiros dias deverá pagar o equivalente a 18 nokhod (três gramas) de ouro aos pobres; se tiver relações sexuais durante o terceiro e quarto dias, o eqüivalente a 9 nokhod e, nos dois últimos dias, o eqüivalente a 4½ nokhod. · Sodomizar uma mulher menstruada não torna necessários esses pagamentos. · Se o homem tiver relações sexuais com a sua mulher durante três períodos menstruais, deverá pagar o eqüivalente em ouro a 31½ nokhod. Caso o preço se tiver alterado entre o momento do coito e o do pagamento, deverá ser tomado como base o preço vigente no dia do pagamento. · De duas maneiras a mulher poderá pertencer legalmente a um homem: pelo casamento contínuo e pelo casamento temporário. No primeiro, não é necessário precisar a duração do casamento. No segundo, deve-se indicar, por exemplo, se a duração será de uma hora, de um dia, de um mês, de um ano ou mais. · Enquanto o homem e a mulher não estiverem casados, não terão o direito de se olhar. · É proibido casar com a mãe, com a irmã ou com a sogra, · O homem que cometeu adultério com a sua tia não deve casar com as filhas dela, isto é, como suas primas-irmãs. · Se o homem que casou com uma prima-irmã cometer adultério com a mãe dela, o casamento não será anulado. · Se o homem sodomizar o filho, o irmão ou o pai de sua esposa após o casamento, este permanece válido. · O marido deve ter relações com a esposa pelo menos uma vez em cada quatro meses. · Se, por motivos médicos, um homem ou uma mulher forem obrigados a olhar as partes genitais de outrem, deverão fazê-lo indiretamente, através de um espelho, salvo em caso de força maior. · É aconselhável ter pressa em casar uma filha púbere. Um dos motivos de regozijo do homem está em que sua filha não tenha as primeiras regras na casa paterna, e sim na casa do marido. · A mulher que tiver nove anos completos ou que ainda não tiver chegado à menopausa deverá esperar três períodos de regras após o divórcio para poder voltar a casar. · Qualquer comércio de objetos de prazer, como os instrumentos musicais, por menores que sejam, é estritamente proibido. · É proibido olhar para uma mulher que não a sua, para um animal ou uma estátua de maneira sensual ou lúbrica. Cansei. Acho que chega. Pois o autor destes eruditos preceitos não é nenhum doente mental - ou pelo menos assim não é oficialmente considerado - nem, pelo que me conste, está sob camisa de força. Ao contrário, é um dos chefes de Estado contemporâneos que mais freqüenta as primeiras páginas da imprensa internacional e, do alto de sua sabedoria e humanismo, ousa reptar as potências. O autor de tão doutas prescrições é nada menos que o aiatolá Ruhollah Khomeiny. Excertos destas suas três obras foram publicadas em vários países, no Brasil inclusive, sob o título genérico de O Livro verde dos Princípios Políticos, Filosóficos, Sociais e Religiosos do Aiatolá Khomeini. Paris, 1979. Eu me preparava para credenciar-me junto ao Festival de Cinema de Teerã, quando Khomeiny recebeu asilo da França e, ao arrepio das leis que regem este estatuto, sentado em seu tapete em Neauphle le Chateau, desfechava suas baterias contra o xá Reza Palhevi. O festival gorou, o xá caiu e o aiatolá entrou a ferro e fogo no Irã, de Corão em punho, fuzilando homossexuais e prostitutas. Uma de suas primeiras providências foi proibir a música e o cinema. Mas as esquerdas parisienses continuavam abominando o xá e louvando o potencial revolucionário do islamismo. Só começaram a preocupar-se quando Khomeiny, empunhado uma esquecida surata do Corão, que assimila o consumo de ovas de esturjão a um ato impuro, decidiu proibir a exportação de caviar. A União Soviética passou então a dominar o mercado e aproveitou a prescrição de Alá para aumentar o preço das ovas de beluga (um primo do narval, que habita o Ártico). Caíra um aiatolá no caviar dos intelectuais de esquerda. Não sei se o leitor sabe, mas no Irã de Khomeiny, como aliás em todo o mundo islâmico, as mulheres têm o clitóris cortado, lá pelos cinco ou seis anos, e a vagina infibulada, isto é, costurada com fibras vegetais. Ao casar, o marido corta as fibras com uma faca e depois a pendura às costas, para exibi-la, pingando sangue, aos vizinhos. Após o parto, a mulher volta a ter a vagina costurada, para ser novamente rasgada. A esta prática estão submetidas cerca de cinqüenta milhões de mulheres, na África e no Oriente Médio, hoje, 1989. A genitália de muitas muçulmanas transformou-se em cloaca, o que esclarece a alta incidência de Aids nos países africanos, pois dadas as lesões internas da mulher, toda relação sexual sempre é de alto risco. Isto é o Islã, século XX. Pois Khomeiny, cuja primeira providência ao assumir o poder foi provocar uma guerra que produziu um milhão de cadáveres, não contente de legislar sobre a maneira de defecar ou copular com animais, quer agora impor seu obscurantismo ao Ocidente. Ao entrar em Teerã, afirmou: "Criminosos não devem ser julgados, e sim executados". Começou fechando os bordéis e fuzilando as prostitutas. Mas casar por uma hora, tudo bem. Continuou fuzilando homossexuais. Mas se o homem sodomizar o filho, o irmão ou o pai de sua esposa após o casamento, este continua válido. Numa França de baixo crescimento demográfico, estes fuzilamentos sumários causaram, diga-se de passagem, muita apreensão. Pois, como me dizia um colega de imprensa, "se a moda pega na França, vamos chegar ao final do século com a população reduzida à metade". Com a nonchalance de um deus, Khomeiny condenou à morte o escritor Salman Rushdie, autor de Versos Satânicos, romance onde Maomé, à semelhança do Cristo de Kazantzakis, é visto como um ser humano. Rushdie, a propósito, não é cidadão persa, o que o colocaria sob a "legislação" do atual Estado teocrático iraniano. O escritor condenado à morte é um hindu, goza de cidadania britânica e vive em Londres. Para o assassino, o aiatolá oferece não só o paraíso, como também três milhões de dólares, que já subiram para seis. Mais ainda: a pena de morte é extensiva aos editores do livro. Stalin era mais modesto. Mandou matar Trotsky no México, sem maiores alardes. Em outras palavras, o terrorismo com a bênção de um chefe de Estado. Terrorismo previamente anunciado, premiado com o paraíso vírgula seis milhões de dólares. A liberdade de expressão, talvez a mais importante conquista da cultura ocidental, é ameaçada pelo fanatismo de um sacerdote à beira das morte. Rushdie, provavelmente, deverás viver escondido pelo resto de seus dias. E editores e livreiros correm risco de vida em função das aiatolices de um padre no poder. "As linhas da batalha estão se formando" - escreve Rushdie em Versos Satânicos -, "o secular contra o religioso, a luz contra a escuridão. É melhor escolher o lado". Com sua sentença, o aiatolá decreta não apenas a morte de um homem, mas a volta do Ocidente aos dias cinzentos da Idade Média. A Europa acaba de chamar seus embaixadores em Teerã. É chegada a hora, para todo homem que pensa, de escolher seu lado, ainda que com risco da própria vida. Joinville, A Notícia, 26.02.89
Sábado, Outubro 13, 2007
Crônicas da Guerra Fria (6) PRIMEIRA EPÍSTOLA AO AIATOLÁ DE FORQUILHINHA Florianópolis - De Forquilhinha, Santa Catarina, conheço dois cidadãos. Ou melhor, um cidadão e uma cidadã, o Paulo e a Albertina. O Paulo, conheço apenas de nome. A Albertina, de meu dia-a-dia. Ambos nasceram em lares humildes mas - coisas da vida! - tiveram diferentes destinos. Albertina veio a ser minha faxineira e Paulo doutorou-se pela Sorbonne. Paulo viu no sacerdócio sua chance de chegar ao poder e a Albertina, coitada, enfrenta bravamente o mundo com sua vassoura. Paulo, ao que tudo indica, prefere uma metralhadora. Falar em metralhadora me faz lembrar um distante 1º de abril, como também aquela pergunta que nos anos 70 se tornou moda: onde você estava no 1º de abril de 1964? Eu estava em Santa Maria, mais precisamente na sede dos Sindicato dos Ferroviários, mais conhecido como Casa Rosada. Era jovem e idiota. Do alto de meus dezessete anos, trepado em uma mesa, trazia aos operários o apoio da classe estudantil, denunciava Carlos Lacerda, louvava Brizola e exigia do comandante da guarnição local, general Pope de Figueiredo, uma definição sobre o governo João Goulart. Em meio a meu discurso, o salão foi se esvaziando aos poucos, o que era no mínimo desconfortável para quem se julgava bom orador. Mas o problema não era o verbo. Era a definição que chegava, trezentos homens armados de fuzis e metralhadoras, baionetas caladas. Minha platéia se evaporava. Desci da mesa, sentindo-me ridículo até a medula. Na Casa Rosada, restamos eu e mais dez operários. Fui até a porta. A um metro e meio de mim, centenas de soldados, todos de minha idade, formavam semicírculos concêntricos de baionetas. Não senti medo, não acreditava que alguém desse ordem de fogo. Mas tive de desarmar um operário bêbado que, com seu facão, pretendia enfrentar o exército. Algum tempo depois, surgiram os mensageiros da guerrilha. Convidado para a luta armada, recusei-me. Considerava suicídio lutar de bodoque contra tanques. A esta mesma conclusão chegaram meus companheiros de geração, só que vinte anos mais tarde, após centenas de mortes e sofrimentos no exílio. Mas falava de Paulo. Não no de Tarso, o maior matador de cristãos de seu tempo e que acabou construindo o cristianismo, Stalin precursor que se tornou um enviado de Deus para suas vítimas. Falava do Paulo de Forquilhinha. Conterrâneo de Albertina. Pois o Paulo, ou Dom Paulo, como prefere ser chamado, ou melhor ainda, Dom Paulo Evaristo Arns, escreveu há pouco afável cartinha a um dos mais antigos tiranos da América Latina, que há trinta anos oprime com seus coturnos toda uma nação. Não, a carta não foi dirigida a Stroessner. Bem poderia ser. Pois como disse o estafeta episcopal, o ficcionista Carlos Alberto Libânio Christo, vulgo frei Betto, o pecador não deve ser confundido com o pecado. Muito menos a Pinochet, que parece ainda pouco maduro nos meandros do poder - afinal tem só quinze anos de ditadura! - para merecer tapinhas no ombro de um príncipe da Igreja. A carta foi dirigida a Fidel Castro Primeiro e Único, Real Imperador de la Isla de Cuba. E eu que me queixava da Albertina, a coitada, cujo único pecado é tentar organizar por altura das lombadas os livros de minha biblioteca. Pois Dom Paulo, de certa forma, já me aprontou outra. Quando estava sendo traduzido ao brasileiro o livro Nunca Mais, o relatório da Conadep (Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas), cujos trabalhos foram coordenados por Ernesto Sábato, Dom Paulo tomou a dianteira: endossou trabalho semelhante feito no Brasil, o que é bom, digno e justo. Só não é bom, digno e justo roubar título alheio como o fez, usufruindo indevidamente da publicidade internacional de que gozava o trabalho coordenado por Sábato. A Albertina de vez em quando junta Casanova com Tomás de Aquino, só porque os tomos são da mesma altura, mas jamais subtraiu nada de minha biblioteca. "Queridíssimo Fidel" - começa o corajoso cardeal - "Paz e bem". Digo corajoso porque coragem intelectual é o mínimo que se exige de um homem culto e bem informado para assim saudar o único ditador do continente que ainda mantém intelectuais no cárcere e proíbe aos nacionais saírem de seu gulag tropical. Em sua epístola ao tirano, Paulo abraça Castro e saúda o povo cubano pelo trigésimo aniversário da ditadura: "Hoje em dia Cuba pode sentir-se orgulhosa de ser no nosso continente, tão empobrecido pela dívida externa, um exemplo de justiça social". Não é bem o que pensa a Anistia Internacional, cujas investigações embasam em boa parte o Brasil: Tortura Nunca Mais, de Dom Paulo. Muito menos o que pensam dois milhões de cubanos que votaram com os pés, fugindo para Miami. Como dizia a Albertina, "que paraíso é esse, professor, onde as pessoas estão proibidas de sair e quando saem não voltam mais?" "A fé cristã descobre" - continua Paulo em sua epístola aos castrenses castristas - "nas conquistas da Revolução, os sinais do Reino de Deus que se manifestam em nossos corações e nas estruturas que permitem fazer da convivência política uma obra de amor". Ora, se fronteiras fechadas, ausência de eleições livres, imprensa e oposição sufocadas e vida a nível de miséria são sinais do Reino de Deus, vamos então canonizar logo este santo homem chamado Joseph Vissarionovitch Djugatchivili, mais conhecido como Stalin, "o de aço". Ao dar notícias do Brasil, sua Excelência Reverendíssima, nosso cardeal Arns, não perde a oportunidade de evocar "a vitória popular alcançada nas últimas eleições". Supomos que quando fala de vitória popular se refira ao avanço do PT, pois não é de hoje que temos conhecimento deste namoro entre a Igreja e o partido que se diz dos trabalhadores mas, fundamentalmente, é constituído por acadêmicos. Tal vitória, continua o cardeal, "renova o marco político do país e abre esperanças de que o indescritível sofrimento do nosso povo possa ser minorado no futuro". Que em algo renova, disso não tenho dúvida alguma, pois pela primeira vez vejo uma prefeita, Luiza Erundina, eleita folgadamente pelo voto popular, declarar via Embratel que a solução dos problemas nacionais passa pela luta armada. Marília Gabriela, sua entrevistadora na TV Bandeirante, em vez de ficar esbanjando charme, bem que poderia propor-lhe três questõezinhas mais: a) Luta armada exige preparação. O PT está se preparando para ela? b) Se está, quem o prepara e financia? c) Se a luta armada é necessária, contra quem vai ser a luta? Contra os empresários? Contra as Forças Armadas? Contra o Congresso? Quem é o inimigo? Pois atribuo mais sensatez à minha inculta Albertina: "Derramamento de sangue, Deus nos livre, professor!" Não contente em esfregar-se junto à caspa da ditadura, Paulo Evaristo, cardeal Arns, vai mais longe, reza diariamente por Castro e pede "ao Pai que lhe conceda sempre (o grifo é meu) a graça de conduzir os destinos de sua Pátria". Ora, conceder sempre a graça de conduzir os destinos da pátria, a meu ver não tem diferença alguma de conceder a graça de sempre conduzir os destinos da pátria. Estará Paulo, o de Forquilhinha, pedindo ao Pai pela permanência do tirano? Paulo de Tarso, que na verdade, não era de Tarso, mas da Cilícia, fariseu fanático que mais matou cristãos no primeiro século do cristianismo, era mais singelo e não usava de meias palavras, matava quem quer que seguisse o Cristo e estamos conversados. Quando viu no cristianismo então emergente um potencial instrumento de controle do poder, não teve dúvidas, converteu-se às novas circunstâncias. Dom Paulo de Forquilhinha parece estar percorrendo a estrada de Damasco em rumo contrário. Depois de velho, vai esfregar-se em prepostos de Moscou, que preferem manter um país a nível de fome para garantir a presença soviética na África, regada com o sangue de jovens cubanos. Passou aqui em Florianópolis, há coisa de um ano e pouco, um destes senhores que adora sangue e cultua quem o faz derramar. Chamava-se Antonio Callado e fez palestra nos salões da Universidade Federal de Santa Catarina. Hospedou-se em hotel de luxo, foi caitituado pelos intelectuais autóctones e vinha financiado por uma multinacional. Disse esperar que no Brasil estoure uma revolução violenta. Desafiado por um repórter, disse que assinava embaixo. E assinou mesmo, o velhote sanguinário. Disse ainda que este caminho, o da revolução violenta, passa pela Igreja e pelo PT. Os sinais do Reino de Deus parecem estar fechando. Frei Betto levando quitutes da mamãe para o tiranete das Antilhas, portando cartas de Paulo de Forquilhinha ao ditador. Leonardo Boff namorando Ernesto Cardenal, mais conhecido internacionalmente como o aiatolá do Caribe por seu apoio a Khomeiny. Erundina falando em luta armada. Lula estabelecendo vínculos com os aprendizes de tirano da Nicarágua. Estará próximo o Reino de Deus? Ou talvez o da estupidez, como diria Albertina, sem talvez ter idéia da profundidade do que diz. Nenhum homem medianamente informado desconhece o preço pago em sangue pelos espanhóis durante a Guerra Civil. A nenhum homem honesto é permissível ignorar quem foi Pol Pot. Latino-americanos, todos sabemos em que resultaram essas tentativas desvairadas de tomada do poder no Uruguai, Chile, Argentina e Brasil. O massacre está sendo reeditado no Peru. Um grupo de assassinos com vocação para o suicídio tomou recentemente um quartel em Buenos Aires. Eram paranóicos a ponto de portar no bolso um programa de governo. Luís Carlos Prestes, outro sanguinário impenitente, do alto de suas oito décadas de vida, que nada parecem ter-lhe ensinado, declarou que o assalto a La Tablada foi uma loucura. Nisto concordamos. Mas preferiria que o Cavaleiro da Esperança (sic!) reconhecesse, antes de morrer, seu ataque de loucura em 1935, quando, aterrissando na praia do Campeche, cá na ilha, voltou de Moscou para inaugurar a guerra civil, em sua tentativa messiânica de instalar no Brasil o reino, sei lá se de Stalin ou de Deus, pois afinal estes dois eram bastante confundidos na época e - o que é pior - parece que até hoje, pelo menos na América Latina, em pouco ou nada se distinguem. Tenho mais de quarenta anos. Há umas boas décadas deixei de ser o jovem idiota de 64, que obedecia palavras de ordem que não entendia e que levaram parte de minha geração ao massacre. Não quero mais viver, nem quero ver alguém vivendo, aqueles dias de opressão, medo, exílio, desconfiança mútua, prisões arbitrárias e tortura, inerentes a tais processos de assalto ao poder. Vivi dias em que a amizade era exercício quase impossível, pois se buscávamos a convivência de um colega já contaminado pelo vírus da ideologia, ou tínhamos de concordar em tudo ou, automaticamente, éramos classificados como inimigos. Vivi seis meses na Espanha, em 87. A Guerra Civil terminara há meio século e observei que, até hoje, os espanhóis continuam divididos e ainda alimentam velhos rancores. Pior ainda: a Espanha é hoje nação livre, rica e democrática, e nunca falta intelectual que continue a sonhar com a vitória dos republicanos, o que teria levado o país, e certamente toda a Europa junto, à paupérrima condição dos países do bloco soviético. Paulo Evaristo, cardeal Arns: bem ou mal, pertenço à sua Igreja. Fui batizado, à revelia, é verdade, como à revelia se tornam partícipes do Corpo Místico de Cristo crianças que prefeririam uma chupeta a serem aspergidas com água benta. Dentro de vossa ótica, talvez seja um membro doente deste Corpo. Mas a ele pertenço. Uma vez a ele pertencendo, sinto-me no direito de pedir a meu pastor que não mais abrace tiranos. E não mais escreva bobagens. Não fica bem para um cardeal. Ou o cardeal nos deseja um novo Primeiro de Abril? (Joinville, A Notícia, 05.02.89)
Sexta-feira, Outubro 12, 2007
Crônicas da Guerra Fria (5) AOS NOVOS INQUISIDORES Florianópolis - Cristo decide voltar à terra, mostrar-se a seu povo sofredor e miserável e para isso escolhe Sevilha, em pleno século XVI, quando mais intensamente crepitavam as fogueiras acendidas ad majorem Dei gloriam. No dia anterior, o cardeal Grande Inquisidor havia feito queimar uma centena de hereges. Cristo surge discretamente, sem se fazer notar, mas todos o reconhecem. Ressuscita uma menina e o cardeal manda prendê-lo nos porões do Santo Ofício. À noite, vai visitá-lo. - És Tu? Tu? Face ao silêncio do Cristo, ajunta: - Não diz nada, cala a boca. Por que vieste nos atrapalhar? Assim vê Dostoievski o Cristo. No livro V de Os Irmãos Karamazov, o genial e histérico místico russo, católico ortodoxo e sempre hostil à igreja de Roma, desenvolve o eterno paradoxo do cristianismo, a oposição entre um Cristo humilde e pobre e uma igreja rica e arrogante. O Grande Inquisidor, considerando os homens excessivamente débeis e mesquinhos para viver segundo os mandamentos de Jesus, decidira corrigir sua obra: a fé na liberdade e no amor é substituída pelo poder, pelo milagre e pela autoridade. - Não há nada mais sedutor para o homem do que o livre arbítrio - acusa o cardeal - mas também nada mais doloroso. Tu ampliaste a liberdade humana em vez de confiscá-la e assim impuseste para sempre ao ser moral os tormentos desta liberdade. O inquisidor vai longe em seus considerandos e Dostoievski é à prova de síntese. Transcrevo apenas as palavras finais do cardeal: - Amanhã, a um sinal meu, tu verás essa tropa dócil trazer carvões ardentes para a fogueira onde subirás, por ter vindo atrapalhar nossa obra. Pois se alguém mereceu mais que todos a fogueira, foste tu. Amanhã, eu te queimarei. Dixi. Voltarei em breve, diz Cristo ao final do Apocalipse. Se ainda não voltou, totalitário e triunfante como o quer João, tem seguidamente reaparecido nas artes e particularmente na literatura, sempre provocando em crentes e sacerdotes a mesma inquietação manifestada pelo Inquisidor: por que vieste nos atrapalhar? E sempre que volta, atrapalha. Perturba até mesmo a vida dos que mais o veneram. Nietzsche, por exemplo, não saiu ileso de seu corpo-a-corpo com ele: em seus dias de insânia, assinava-se "O Anticristo". Ernest Renan, outra das maiores sensibilidades do mesmo século de Nietzsche, tampouco escapou a seu charme. Vida de Jesus, qualificado como um dos grandes acontecimentos do século passado, é um poema em torno ao Cristo, travestido em ensaio histórico. Para escrevê-lo, Renan preparou-se estudando línguas semíticas e refazendo o percurso do biografado na Galiléia e Palestina. Em 1862, ao assumir uma cátedra no Collège de France, teve de interromper seu curso por ordem do governo: em sua primeira aula, ousara falar de Jesus como "um homem incomparável". Giovanni Papini, outro apaixonado pelo nazareno, escreveu uma História de Cristo e nem por isso escapou ao Index Prohibitorum. E hoje em dia, tanto Dostoievski como Nietzsche, tanto Renan como Papini, são anatematizados pelos inquisidores, grandes ou pequenos, de qualquer igreja. Qualquer dia destes, até Hegel cai em desgraça, pois na juventude escreveu - o que muito marxista ignora - uma Vida de Jesus, onde o sentido espiritual da revelação cristã e mesmo o drama da vida, morte e ressurreição do cristo estão explicados através da doutrina ético-religiosa de Kant. Martin Scorsese, cineasta americano, está sendo vítima de insultos e interdições no mundo todo, por ter levado às telas o romance A Tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis. Curiosamente, o livro foi recentemente traduzido ao brasileiro, está em todas as livrarias e, pelo que me consta, os novos inquisidores, cientes de que seus seguidores são mais ou menos analfabetos, pouco estão ligando para a difusão literária da obra. Cinema já é mais perigoso, pode gerar idéias no mais inculto dos espectadores. Perigoso a tal ponto que um distribuidor catarinense, em crise de atroz provincianismo, proibiu o filme em suas salas. Freira de dia, puta à noite, tudo bem, tais obras-primas parecem não ofender credo algum. Já uma madura reflexão, oriunda sensibilidade de um criador fascinado pelo Cristo, esta merece a fogueira. Pois uma grande injustiça está sendo cometida em relação a Kazantzakis e sua obra. Para começar, duvido que a literatura deste século tenha produzido autor tão febrilmente religioso como este cretense, que já conhecíamos através de Zorba, o Grego. Ou será ateu e herege quem escreveu "Três espécies de alma, três preces"? a) Eu sou um arco em tuas mãos, Senhor; tende-me, senão apodreço. b) Não me tende muito, Senhor; eu quebrarei. c) Tende-me quanto quiseres, Senhor, e tanto pior se eu quebrar. Poeta, tradutor, místico e viajante, Kazantzakis percorreu o mundo em busca de fé e encontrou nessas andanças quatro degraus decisivos para sua ascensão: Cristo, Buda, Lênin e Ulisses. Como funcionário do Ministério de Assuntos Sociais de seu país, salvou da fome, na Rússia, 150 mil gregos expulsos da Ásia Menor, no final da II Guerra. Os cardeais e inquisidores menores que têm condenado o filme de Scorsese certamente não ignoram tais fatos e, caso os ignorem, deveriam procurar conhecê-los antes de abrir a boca para dizer bobagens. Mas o fascínio de Kazantzakis pelo Cristo não se esgota em A Última Tentação. Em Cristo de Novo Crucificado, um dos momentos culminantes da novelística contemporânea - também já traduzido e disponível em qualquer livraria - o cretense volta à carga e desta vez com artilharia de grosso calibre. A ação se desenrola em Licovrisi, aldeia grega encravada em território turco. Seus habitantes seguem a religião grega ortodoxa e têm por hábito, a cada sete anos, representar o drama da paixão. Os atores são escolhidos e cabe a um pastor de olhos azuis e barba curta e loura, Manolios, representar o Cristo. A partir da escolha, os atores devem imbuir-se de seus papéis, procurando identificar-se, na vida cotidiana, com os personagens interpretados. É quando acontece o imprevisível: um grupo de gregos, perseguidos pelos turcos, pede abrigo em Licovrisi. Os aldeões, liderados pelo pope Grigoris, o organizador da Paixão, recusam-se a recebê-los. O final, este sim, é previsível. Manolios e seus companheiros, os que deviam representar os apóstolos, imbuídos do espírito evangélico, advogam pelos gregos. A paixão se consuma, só que desta vez não é teatro. Manolios é assassinado na igreja, por instigação do pope, pelo aldeão que fazia o papel de Judas. Estamos em pleno Dostoievski, novamente. Os que se dizem seguidores do Cristo não hesitam em crucificá-lo quando volta. Não terá sido por acaso que, ao perguntar a um sacerdote grego o que pensava de seu conterrâneo de Creta, obtive resposta curta e grossa: "louco, doido varrido". Quanto a mim, se por um lado abomino a santa ira dos moralistas de cueca que hostilizam o filme de Scorsese, por outro não partilho do enamoramento de Renan ou Kazantzakis. Vejo o Cristo como um iluminado, como tantos outros que brotavam às margens do Jordão como cogumelos após a chuva. Sua doutrina, é verdade, rejeita o ódio imanente ao Antigo Testamento, mas pouco ou nada tem de original. Para o leitor atento, os evangelhos já estão todos embutidos nos textos judaicos. E como homem - já que só assim posso vê-lo - Cristo desaparece se comparado, por exemplo, a um Sócrates, Platão, Aristóteles ou Alexandre. Há um certo zelotismo, diga-se de passagem, na impermeabilidade de Cristo à cultura grega e em seu recurso exclusivo à cultura judia. Paulo, que desde menino falava grego, a língua comum de Tarso, é quem efetivamente inventa o cristianismo a partir de fontes helênicas, mesclando conceitos do gnosticismo e das religiões de mistério, particularmente do culto de Átis. Sócrates, por exemplo. Guerreiro e pensador, ousou contestar os deuses de Atenas e, uma vez condenado à morte, acusado de introduzir novas divindades e corromper a juventude, não pediu a seus juizes clemência, como era praxe pedir. Nem quis fugir, como poderias ter feito. No momento de contrapor à pena imposta pelos juizes a pena que julgava merecer, Sócrates ri dos que o condenam ao declarar que merecia não uma punição, mas um prêmio, por seus serviços prestados à Atenas. Morreu por não querer humilhar-se e bebeu serenamente a cicuta, rodeado de amigos e discípulos. Quando vemos um Cristo lamuriento, balbuciando Eli, Eli, lama sabachtani?, aceitando sem revolta alguma a crucificação, salta-nos aos olhos a superior fibra moral do ateniense. Ou um Alexandre, que desbravou a pata de cavalo e a ponta de espada a Ásia Menor, fundando cidades por onde passava e criando a primeira universidade da História, a Biblioteca de Alexandria, isso três séculos antes de Cristo. Rei, ao entrar em combate ia sempre à frente de seus comandados. Quase perdeu a vida quando, impaciente ante o vagar com que seus homens tomavam uma fortaleza, apanhou uma escada e nela penetrou sozinho, para perplexidade dos inimigos, que não sabiam se enfrentavam um louco ou um deus. Quando os sacerdotes do Sinédrio perguntam a Cristo se é lícito ou não pagar tributos a César, Cristo tenta fugir: "Daí, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". Mas tarde piou. Decididamente, se busco homens a cultuar, antes e depois de Cristo, a história nos oferece centenas de nomes ornados pela decisão, coragem e feitos e não pela indefinição, covardia e palavras dúbias. As visões de Dostoievski, Renan ou Kazantzakis, ainda que respeitáveis, a meu ver são românticas. Apenas acho que os novos inquisidores, que se presumem defensores da civilização cristã, deveriam examinar carinhosamente - e não condenar sem ler - as obras destes escritores fascinados pelo Cristo. (Joinville, A Notícia, 18.12.88)
Quinta-feira, Outubro 11, 2007
Crônicas da Guerra Fria (4) NÃO BRANDIR MARTÍ Florianópolis - Fui convidado, certa vez, a um debate em torno ao socialismo, do qual participavam vários intelectuais marxistas. Por socialismo, no caso, entenda-se socialismo soviético, é melhor deixar claro isto desde o início, particularmente nestes dias em que todo mundo fala de socialismo sem especificar a qual se refere, se ao socialismo do Leste europeu, da Iugoslávia ou da Albânia, ou das social-democracias européias, regimes estes fundamentalmente capitalistas mas de economia muito mais socializada do que a das ditas "democracias populares", pleonasmo só concebível em intelectuais sem noções mínimas de grego. Enfim, etimologia à parte, meus colegas de mesa abriram o debate louvando a eficácia, o humanismo e o caráter revolucionário das teorias marxistas. De Marx, pouco ou nada entendo, e vou dizer porque não entendo. No dia em que me dispus a enfrentar O Capital, percebi que necessitaria de bases anteriores de matemática, estatística, economia, história da Europa e particularmente da Inglaterra no período da Revolução Industrial. Em suma, para poder entender o economista Marx (até hoje não sei porque o consideram filósofo) eu necessitava de alguns anos de formação que não me dispunha a desperdiçar para tão-somente entender um livro. Leigo em matéria de teorias, modestamente me restringi a contar o que vi em minhas andanças por países socialistas, favor não confundir com as social-democracias. Estive em Berlim Oriental, na Romênia e na Bulgária. Estive ainda na Iugoslávia, regime socialista peculiar, o único onde os nacionais podem sair do país sem maiores problemas e onde, em certas repúblicas, há uma economia dinâmica. Pequenos fatos do cotidiano nos oferecem robustos elementos de comparação. Por exemplo: é meio-dia e você quer almoçar. Sem ir muito longe, até em Florianópolis o turista encontra um restaurante onde, com mais ou menos sorte, há boa oferta de pratos. Pois estive um dia em uma das capitais mais ricas do mundo socialista e localizar um restaurante foi uma epopéia que me exigiu mais de hora. Mesmo com amigas que falavam fluentemente o alemão, não foi tarefa fácil encontrar um, escondido no segundo andar de um monstruoso bloco de concreto, sem placa alguma que o anunciasse. Enregelado, minha carcaça submetida a sei lá quantos graus abaixo de zero, esperei mais de hora em uma fila de resignados cidadãos. Tomasse o metrô e voltasse a Berlim Ocidental, quatro mil casas de restauração me atenderiam em um segundo, com carinho e calefação. Enfim, cheguei finalmente à porta, quando Sua Eminência, o Garçom, com um gesto ríspido me ordenou entrar. Penetrei em um galpão imenso, onde mesas imensas, situadas a enormes distâncias umas das outras, esperavam humildemente ser atendidas. Um cardápio me oferecia uma vintena de pratos, mas pelo menos na hora de escolher o garçom foi gentil: melhor nem tentar, só tem o prato do dia. Eu estava em um restaurante de luxo, em Berlim Oriental. Transportei-me então - em meio ao debate - para Mangália, cidade balneária romena, às margens do Mar Negro. Era verão e a moça que me acompanhava, julgando muito caros os maiôs de Paris, decidiu deixar para comprar um honesto maiô socialista. Não sei, não - objetei - tens certeza de encontrar maiô por lá? Respondeu-me com um gesto indignado, quase ofensivo. Resumindo: após revirar Mangália inteira - cidade balneária e dirigida ao turismo europeu, insisto - em pleno verão, ela teve a ventura de encontrar dois maiôs: um era verde e outro azul. Quanto às dimensões, que se lixasse. Mas isto é o de menos. Estávamos em um hotel de primeira classe e já na primeira noite o garçom perguntou-me que desejávamos para o almoço do dia seguinte e estendeu-nos uma tira suja de papel mimeografado onde devíamos optar entre porco ou frango. Não que fôssemos muçulmanos, mas preferimos frango. Café ou chá? Café. Dia seguinte, deu porco com chá da China. "Desculpe, mas frango e café estão em falta". Hóspede de um hotel de primeira classe, pago em moeda forte, imaginei então o que seria a vida de um romeno, detentor de magros leu, a moeda local. Nem foi preciso imaginar: supermercados vazios, clientes disputando a tapas um pedaço de carne e isso que o pedaço era disputado por aqueles que tinham poder aquisitivo suficiente para comprá-la. O verão fazia jus ao nome. Céu de brigadeiro, na praia os turistas eram brindados com alegres canhoneios de barcos de guerra ao largo. Minha companheira, ostentando seu magnífico maiô verde - e magnífico aqui é superlativo de grande mesmo, que outro número não tinha - desceu comigo à praia, justo no momento em que dois garçons começavam a abrir um bar. Uma hora de sol e pensamos em uma cerveja. Fui lá buscar. Ah, cerveja não tem. Enfim, água mineral? Muito menos. Tentei outras hipóteses. Existe na Romênia uma cachaça feita á base de ameixa, o haidouc, aguardente típico do país. Também não tem. Estávamos sob domínio soviético, pensei, quem sabe um vodca. Nem pensar. Parti então para a utopia: serve então um uísque, pode ser? Nem em sonhos. Por curiosidade, já que nem no deserto me ocorreria tal idéia, pedi uma Coca, Pepsi, ou um refrigerante qualquer. Negativo. Não há nada para beber, então? Nada. E para comer, o que é que tem? Nada. Nada não entendia eu. Era aquilo um bar? Era, disse o garçom. Estava aberto? Claro que estava, o senhor não está vendo? Eu estava vendo. Mas não há nada para comer ou beber? Não. E por que não há? Porque o distribuidor não trouxe, ora bolas! Contava eu estas histórias - e contei muitas outras, por exemplo, a dos turistas internos tirando fotos junto a maquetes de veleiros, porque veleiro, que é bom, nem pra remédio, pois bom velejador em dois dias chega às costas da Turquia, sem falar nos vigias de praia, assessorados por cães e metralhadoras de baioneta calada, assestadas contra o primeiro nacional que ousasse abordar um turista em busca de dólares, sem falar na moça da portaria com cara de sargento, que quando reclamei da falta de papel higiênico me perguntou: "quantos dias o senhor vai ficar aqui?". Neste hotel, dois dias. Olhou-me então de alto a baixo, avaliou meu metabolismo, rasgou uns dois metros de um rolo e passou-me as tiras - enfim, contava eu essas coisas e muitas outras contaria se mais tempo tivesse, quando o organizador do debate interrompeu-me: - Não é para isso que te convidamos. Estamos discutindo o socialismo em teoria. Desculpei-me. De teoria eu nada entendia, só conhecia os dados da realidade. As teorias são brilhantes. Na prática, a teoria é outra, Estas considerações surgem à propósito do artigo de Gilson Pereira, "O coro dos contentes", publicado domingo passado, onde o autor contesta algumas observações minhas após uma visita a Santiago do Chile. Diz Gilson jamais ter ido a Santiago - o que já não o autoriza muito a falar de Santiago - e acresce ser um daqueles 80 por cento de brasileiros que provavelmente jamais cruzará a fronteira, por absoluta falta de condições. Cantiga para ninar pardais, como dizem os lusos. O articulista demonstra excelente domínio do vernáculo, e mesmo da lógica - a ponto de sofismar à vontade - e hoje, qualquer pessoa que tenha chegado a este quociente mínimo intelectual é homem que, ou viajou, ou não viajou porque não quis. Diz não ser economista, mas brande a teoria da escola monetarista de Chicago. E assim explica o atual período de prosperidade vivido no Chile. Cito literalmente: "repressão ao movimento de massas, arrocho salarial e grandes investimentos estruturais". Confesso que nada sei da escola de Chicago. Mas de Stalin entendo um pouco. Sua política foi exatamente essa e mais, continua sendo. Mesmo sob o signo da glasnost e perestroika gorbachovianas, as massas continuam sendo reprimidas (vide os armênios do Azerbaijão e, certamente dentro em breve, os estonianos) e liberdade sindical, que dizem os petistas ser bom, digno e justo e justo, nem sombra dela nas repúblicas soviéticas. Esta política começou com a repressão e morticínio dos kulaks sob Stalin e tem sua seqüência com Lech Walesa. Os grandes investimentos estruturais na América do Sul, pelo menos, ainda não se traduzem em armamento nuclear e militarização do espaço. Em suma, como lemos no Eclesiastes, nada de novo sob o sol. Com uma diferença: nos países soviéticos esta política não deu certo e hoje a URSS é uma "confederação" que permanece um século atrás da era moderna, onde instrumentos banais do nosso cotidiano, como o xerox e o telefone, são inacessíveis ao cidadão comum. Estou apenas seguindo a argumentação de meu interlocutor, pois não sendo especialista em questões econômicas - e muito menos chilenas - não tenho a mínima idéia a que se deve a atual prosperidade do Chile. É curioso, no entanto, que alguém que jamais atravessou a Cordilheira, tenha uma resposta certinha para explicar uma realidade que jamais viu. O que mais fascina os jovens no marxismo, a meu ver, é esta possibilidade de entender o mundo através de fórmulas figées. Acontece que o universo é por demais complexo para ser captado a partir de doze lições. Gilson Pereira tem também uma resposta na ponta da língua para explicar a pluralidade de informações que encontrei em Santiago, seja em livrarias como em quiosques de jornais: "para mim está meridianamente claro que o Chile colhe hoje o que plantou no passado". O que não passa de uma colossal lapalissade, afinal, todo presente, seja qual for, é conseqüência imediata de um passado. Acontece que o passado do articulista é imediatíssimo, é o de ontem: "Seriam necessários pelo menos mais duzentos anos de ditadura para apagar do Chile as marcas da experiência socialista do governo Allende". A assertiva carrega em seu bojo a fé de um crente. Mais cauteloso, não me parece que alguns anos de governo possam criar leitores que consomem jornais russos, poloneses, suecos, franceses, ingleses, italianos, americanos e vou ficando por aqui, já que não me preocupei em listar tudo que vi nas bancas. Que mais não seja, que fatores teriam levado Eça de Queiroz a escrever, em 1890: "Haverá talvez Chiles ricos e haverá certamente, Nicaráguas grotescos"? Todo presente decorre fatalmente de um passado, mas o passado de Gilson é por demais curto e tendencioso. Passado é um conceito elástico, espichado por cada um conforme suas próprias conveniências. Na Espanha, eu me divertia às custas dos madrilenhos quando tentavam provar-me, por exemplo, que Sêneca era um pensador espanhol. Allende se professava marxista. Desafio meu interlocutor a citar um regime, um só regime marxista, onde haja pluralidade de expressão e informação, onde livrarias e quiosques estejam repletos das mais diversas formas de pensamento. É ocioso contar mortos, afirma Gilson. Eu diria que não. Até mesmo por uma questão de ofício, jornalistas, estamos sempre contando mortos. O que me desagrada é a diagramação da contagem. Em julho de 83, eu estava na Itália quando começaram uma série de manifestações em Santiago. DOIS MORTOS NO CHILE - titulava um jornal italiano. CINCO MORTOS NO CHILE - dizia outro na manhã seguinte. Passei à França: DEZ MORTOS NO CHILE. Já na Espanha - e sempre em garrafais nas primeiras páginas dos jornais - Pinochet havia matado uma dúzia ou mais. Que a imprensa denuncie tais fatos é salutar. Foi aí que apanhei um Le Monde, talvez um Le Matin, em Madri. Posso não lembrar muito bem o jornal. Lembro apenas que, na última página, uma notinha telegráfica, sem destaque algum, noticiava: russos matam 250 no Afeganistão. Gilson cita Engels: a violência é a parteira da história. Pode ser que tenha sido, meu caro. Mas já está na hora de fugirmos a esse fatalismo tão grato a velhotes gagás como Antônio Callado, que quando babam na gravata, babam ódio e sangue. Não penso ser ocioso contar mortos. Infelizmente, temos de contá-los. Ao reivindicar como seu modelo intelectual o cubano José Martí, o articulista faz-me lembrar meus alunos de Letras que, ao ver na televisão Quanto mais Quente Melhor ou O Anjo Azul sonhavam, idílicos: "já pensou? Eu tomando um trago com a Marylin na Florida, convidando a Dietrich para uma esticada noturna em Paris?" Nesta nossa era televisiva, passado, presente e até mesmo o futuro parecem ter sido mesclados em um tempo só. Como as imagens são oferecidas simultaneamente no vídeo, os jovens gostariam talvez de achar o número de telefone da Monroe ou quem sabe contemplar as pernas célebres da Dietrich, que hoje tem pelo menos o pudor de escondê-las em seu refúgio parisiense. Pior mesmo, só quando essa mixagem de tempos - recurso inerente ao cinema - é transporta para a história ou literatura e é isto que faz Gilson, quando insere Martí na Cuba contemporânea. Que sempre lutou pela independência de Cuba e dos países latino-americanos, isto todos sabemos, e talvez muito poetinha de esquerda que adora falar em Nuestra America ignore ter sido Martí quem cunhou tal expressão. Gilson tem em mãos o epistolário. Boa leitura. Mas conheceria melhor o poeta se tivesse suas obras completas. Constataria, por exemplo, nos Discursos, a fé de Martí no futuro de Cuba e na capacidade de os cubanos governarem-se livremente, a fé de Martí no continente que ele considerava ser o da esperança humana. Seria também interessante ler El Presídio en Cuba, de 1871, fruto de sua condenação ao regime de trabalhos forçados. O livrinho tem mais de um século, mas sua publicação seria atualíssima na Cuba de Castro, afinal presídios, sejam os de ontem, sejam os de hoje, em pouco ou nada diferem. Martí contesta efetivamente a hegemonia ianque. Mas contestou-a estabelecido em Nova York, onde foi cônsul, sucessivamente, do Uruguai, Paraguai e Argentina. Constituiria um interessante exercício intelectual imaginá-lo hoje em Cuba, contestando a ditadura de Castro. Por outro lado, se contestava a hegemonia econômica e política dos Estados Unidos, era homem fascinado pela cultura de seus irmãos do Norte, a ponto de estudar, em Norte-americanos, as obras de Emerson, Beacher, Cooper, Wendell Philips, Grant, Sheridan, Whitman e fico por aqui. Yo quiero cuando me muera sin patria, pero sin amo tener en mi losa un ramo de flores y una bandera. Martí, pensador libertário, morreu em 1895. Que seu cadáver - por favor! - não seja brandido em defesa de tiranetes dos trópicos. Joinville, A Notícia, 11.12.88
Quarta-feira, Outubro 10, 2007
Crônicas da Guerra Fria (3) SANTIAGO SEGUNDO LITTÍN Santiago do Chile - A cidade é feia, pobre e suja. Pelos buracos e lixo acumulado nas amplas avenidas, adivinha-se uma capital que um dia foi próspera e cujos habitantes desfrutaram, em passado pouco distante, um alto nível de vida. Cidadãos pobremente vestidos, em seus ternos ainda restam farrapos de dignidade - e nada mais triste do que ver um homem cheio de remendos, mas elegantemente vestido, estendendo a mão súplice para pedir alguns centavos. Lojas vazias, de vazias e tristes vitrines, restaurantes entregues às moscas, garçons olhando para nada. Mal o sol se põe sobre o Pacífico, a capital escurece e os raros privilegiados da tirania se escondem em suas tocas, temerosos da fome e da justa violência dos deserdados. Mesmo durante o dia, nota-se tensão e medo nos rostos e gestos, como se alguém que agora circula livremente pelas ruas, no momento seguinte, sabe Deus lá por que razões, pudesse estar algemado nos porões da ditadura. Um exército parece ter postos suas patas sobre a cidade. Estou em Santiago do Chile. Do Chile de Pinochet. O poder do tirano é onipresente. Em um país privilegiado pelos deuses, que por sua geografia se permite quatro estações simultâneas, mar e montanha, deserto e neve, os tentáculos da ditadura envolvem o território todo, manifestando-se principalmente na capital. Raríssimas bancas de jornais exibem apenas a imprensa laudatória ao regime. Jornais de oposição, nem em sonhos. A imprensa internacional está banida do país e só pode ser adquirida em hotéis de luxo, onde o cidadão comum só pode entrar se estiver disposto a sérios interrogatórios pela polícia do regime ao sair, mesmo que saia sem jornal algum. As raríssimas livrarias, de paupérrimas estantes, exibem não mais que literatura técnica e alguma ficção de escritores coniventes com a ditadura. Miséria, lixo, decadência, medo, opressão, silêncio, desconfiança: estes são os odores que todo visitante, isento de quaisquer preconceitos ideológicos, respira em um rápido giro por Santiago. Mas as cidades são como árvores, quem quiser destruí-las terá de cortar-lhes as raízes. Estão vivas as raízes de Santiago. Que um dia será Salvador. Salvador Allende. Terminasse eu aqui esta crônica, sem ajuntar sequer uma linha a mais, conquistaria platéias e simpatias, sem falar em tribunas, lugar ao sol e quem sabe até mesmo uma sinecura num órgão público qualquer. Acontece que estaria mentindo, transmitindo, é verdade, uma mentira que todos gostam de ouvir. Como não gosto de mentir, renuncio a eventuais simpatias e passo a contar o que vi. Para quem está acostumado a bater pernas pelas ruas de cidades como Porto Alegre ou São Paulo, Santiago exerce um poderoso impacto pela conservação e limpeza de suas ruas e passeios. Nas capitais brasileiras, há muito resignei-me a enfrentar ruas sujas e esburacadas, sem falar no lixo cotidiano nelas jogado por transeuntes sem noção alguma de cidadania, meros habitantes, nefastos usuários da cidade. Passear pelas margens do Mapocho - rio que atravessa um aglomerado de cinco milhões de almas - respirar milagre, suas águas preservam a limpidez com que descem da Cordilheira. Para quem sofre a Beira-Mar Norte de Florianópolis - já nem falo do riacho Ipiranga ou Tietê - o Mapocho mais parece miragem de viajante perturbado pela travessia dos Andes. Pelo Paseo de la Ahumada, rua Estado, Huérfanos, uma fauna humana e bem vestida (insisto em dizê-la humana, pois os transeuntes das ruas centrais do Rio ou São Paulo, sem ir mais longe, mais parecem animais machucados na luta pela vida) que há muito não se vê nas metrópoles da América Latina. Antes de Santiago, estive em Buenos Aires e a outrora elegante Florida, hoje, proporções à parte, mais parece rua Direita ou Nossa Senhora de Copacabana. Deixada de lado a agressão idiota - mas não perigosa - de cambistas à cata de divisas fortes, senti no centro de Santiago sensação que brasileiro algum pode hoje sentir em nossas capitais: a sensação de segurança. As ruas da capital chilena têm um ar de praça; nela vi velhos, jovens e crianças sentados, degustando sorvetes e o espetáculo da rua em si, tanto à tarde como à noite, sem preocupação alguma com assaltos ou violência gratuita. Para mim, que já penso duas vezes quando em Porto Alegre ao atravessar a Borges e a Praça XV para freqüentar o Chalé à noite, Santiago me fez evocar a Praça da Alfândega dos anos 60, quando filosofávamos madrugada adentro preocupados com a enteléquia aristotélica ou o ser em Sartre, jamais com punhais ou revólveres. Outra surpresa, e das melhores, os quiosques de jornais e revistas. Penso que tais quiosques são uma excelente amostragem da cultura e liberdade de expressão de um país, neles podemos auscultar que tipo de informação consomem os cidadãos e, ao mesmo tempo, que qualidade ou quantidade de informação não proíbe o Estado de ser consumida. Pois bem: nesta Santiago que imaginava cidade sitiada e sob censura, vi nas bancas uma profusão e diversidade de jornais que sequer encontrei em Paris ou Madri. Jornais em cirílico do Leste europeu, imprensa de toda Europa, Escandinávia, Alemanha, França, Itália, Espanha, Estados Unidos, América Latina, Brasil. Sabendo como esta imprensa toda é gentil a Pinochet, o espanto do turista vira perplexidade. E mais: jornais chilenos malhando, em primeira página, a ditadura. Ocorre-me evocar os quiosques tristes e monocórdios que vi em cidades do Leste europeu, mas nem preciso ir tão longe. nenhuma banca do Rio ou São Paulo, neste Brasil 88, me oferece tal quantidade e diversidade de informação. Livrarias imensas, bem sortidas, onde não faltam livros de Fidel Castro ou Garcia Márquez, o mais ferrenho adversário de Pinochet e, curiosamente, defensor incondicional do ditador cubano. Tampouco faltam nas prateleiras obras de José Donoso ou Isabel Allende, isso para citar apenas dois opositores do regime chileno já conhecidos do leitor brasileiro. O que é no mínimo insólito em uma ditadura. Nas vitrines e gôndolas das mercearias, víveres e bebidas do mundo todo, desde arenques do Báltico a foie gras trufado, dos mais diversos uísques da Escócia a vinhos alemães, franceses, italianos, espanhóis. E chilenos, naturalmente. Preços? Abordáveis. Para se ter uma idéia, pode-se comprar um scotch - com a certeza de que não são da reserva Stroessner - a partir de dez dólares, ou seja, o preço de um Natu Nobilis hoje. Que mais não seja, qual intelectual de esquerda não gostaria de viver em uma sociedade onde uma dose de um bom escocês custa, em bares, um dólar? Conheço não poucos exilados traumatizados com a democrática França de Mitterrand, onde um gole de uísque só é viável a partir dos cinco dólares. Piadas à parte, a farta oferta de tais produtos evidencia uma sociedade habituada a comer bem e com requinte, afinal comerciante algum seria insano a ponto de importar iguarias para turista ver. Contava eu estas e outra coisas a uma moça ilhoa e bem-nascida, cidadã da Santa e Bela Catarina, dessas que julgam ser todo empresário um canalha, mas que jamais recusam uma cobertura facilitada por um pai empresário, dessas que jamais subiram o morro do Mocotó mas estão preocupadas com a colheita do café na Nicarágua, em suma, falava eu com um espécime típico da raça que chamo de os Novos Cafeicultores, e a objeção - a primeira objeção - caiu como um raio: - E a miséria? Aposto que não foste visitar os bairros pobres, a periferia de Santiago. Tinha razão em parte a jovem cafeicultora. Não visitei os bairros pobres de Santiago, afinal se troco as margens do Atlântico pelas do Pacífico, não será para ver miséria que conto meus parcos dólares. Não tenho a psicologia do francês médio, por exemplo, que mal chega ao Brasil, quer visitar favelas. Este comportamento, a meu ver doentio, parece-me ser vício de europeu inculto e de consciência pesada, que insiste em ver a miséria do Terceiro Mundo que explora, para depois contribuir com avos de seu bem-estar para guerrilhas suicidas. Se junto meus trocados para visitar um país, quero receber o que de melhor esse país tem a me oferecer. Nos anos que vivi em Paris, descia certa vez de Montmartre e enveredei pelas ruelas da Goutte d'Or, encrave árabe e paupérrimo que se alastra na cidade como mancha de óleo. Senti-me, de repente, em um território miserável para o qual jamais teria pensado em viajar, que mais não seja não será minha indignação ou revolta que resolverá o problema árabe na França. Dei meia volta, enfurnei-me na primeira boca de metrô e só voltei à superfície na Rive Gauche, a margem que mais me fascina do Sena. Não, não vi a miséria de Santiago. Mas consolei a cafeicultora: podes estar certa de que miséria existe, pois miséria está presente em qualquer metrópole do mundo. Ela sorriu por dentro, parecia dizer: que bom que existe miséria em Santiago. O que me deixou um tanto perplexo, eu sorriria intimamente se soubesse que não existe miséria em lugar algum do mundo, independentemente de regimes políticos ou ideológicos. Ela, por sua vez, admitia a veracidade de meu relato. Ajuntei que a inflação era de seis por cento. Quando digo isto a um brasileiro, a reação normal é: "seis por cento ao mês?" Acontece que é seis por cento ao ano. Isto é sonho que, brasileiros, já nem ousamos sonhar. Se eu passar a alguém os preços de um restaurante que visitei em Santiago no mês passado, e se este alguém visitar o Chile no ano que vem, é provável que os preços continuem os mesmos ou, no máximo, tenham variado em torno de uns dez por cento a mais. Cá entre nós, não conseguimos recomendar para amanhã um restaurante no qual comemos ontem. Caiu, então, fulminante, a segunda objeção: - Sim. Mas que preço pagaram os chilenos por este bem-estar? Houve, no Chile, um assalto marxista e armado ao Estado e negá-lo é paranóia. Deste confronto resultaram três mil mortes. Um preço infinitamente inferior ao preço pago pelos russos a Josiph Vissarionovitch Djugatchivili - que oscila entre vinte e sessenta milhões de cadáveres - para dar no que deu: uma confederação forçada de países pobres, alguns vivendo a nível de fome, como a Romênia e a Albânia. Bem mais barato que o preço pago pelos cambojanos a Pol Pot: dois milhões e meio de mortos, em um país de cinco milhões de habitantes, e disto não mais se fala. Sem falar que os que ficaram se jogam ao mar em jangadas, enfrentando tempestades, tubarões e piratas, ou já esquecemos os boatpeople? Sem falar nos que matou Castro - número que nenhum Garcia Márquez aventa - para instalar no Caribe seu gulag tropical. Em Cuba também há farta escolha de bebidas e gêneros alimentícios. Mas só o turista pode comprá-los, e com dólar. O cidadão cubano fica chupando no dedo. Nas praias, cheias de peixe, não há atividade pesqueira alguma, pois quem tem barco vai pra Miami. - Justificas então tais mortes? - quis saber a moça - referindo-se, é claro, aos mortos do Chile, já que tornou-se tácito, para os fanáticos contemporâneos, que é lícito fazer correr sangue de certas pessoas e criminoso o de outras. Em suma, para usar dois conceitos que não me agradam, porque multívocos, é perfeitamente permissível fazer jorrar sangue da assim chamada direita e constitui sacrilégio, quase tabu, sangrar a assim chamada esquerda. Não justifico morte alguma, a humanidade tem pelo menos uns três mil anos de experiência histórica, milênios suficiente, parece-me, para concluirmos que não é matando que se chega a erigir a cidade humana. - Cristaldices! - jogou-me na cara minha cafeicultora, digo, interlocutora. Pode ser. Chamo então um cineasta exilado que voltou clandestinamente ao Chile, em depoimento tomado por Gabriel Garcia Márquez, intitulado A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile, já traduzido ao brasileiro por Eric Nepomuceno e encontradiço em qualquer livraria. No capítulo significativamente intitulado "Primeira desilusão: o esplendor da cidade", depõe Littín: - Eu atravessei o salão quase deserto seguindo o carregador que recebeu minha bagagem na saída, e ali sofri o primeiro impacto do regresso. Não notava em nenhuma parte a militarização que esperava, nem o menor traço de miséria. (...) Não encontrava em nenhuma parte o aparato armado que eu tinha imaginado, sobretudo naquela época, com o estado de sítio. Tudo no aeroporto era limpo e luminoso, com anúncios em cores alegres e lojas grandes e bem sortidas de artigos importados, e não havia à vista nenhum guarda para dar informação a um viajante extraviado. Os táxis que esperavam lá fora não eram os decrépitos de antes, e sim modelos japoneses recentes, todos iguais e ordenados. Mais adiante: - Na medida em que chegávamos perto da cidade, o júbilo com lágrimas que eu tinha previsto para o regresso ia sendo substituído por um sentimento de incerteza. Na verdade o acesso ao antigo aeroporto de Los Cerrillos era uma estrada antiga, através de cortiços operários e quarteirões pobres, que sofreram uma repressão sangrenta durante o golpe militar. O acesso ao atual aeroporto internacional, em compensação, é uma auto-estrada iluminada como nos países mais desenvolvidos do mundo, e isto era um mau princípio para alguém como eu, que não só estava convencido da maldade da ditadura, como necessitava ver seus fracassos na rua, na vida diária, nos hábitos das pessoas, para filmá-los e divulgá-los pelo mundo. Mas a cada metro que avançávamos, o desassossego original ia se transformando numa franca desilusão. Elena (militante da esquerda chilena que acompanha Littín) me confessou mais tarde que ela também, ainda que estivesse estado no Chile várias vezes em épocas recentes, tinha padecido o mesmo desconcerto. Coragem, leitor de esquerda. Adelante! Leiamos Littín, só mais um pouquinho: - Não era para menos. Santiago, ao contrário do que contavam no exílio, aparecia como uma cidade radiante, com seus veneráveis monumentos iluminados e muita ordem e limpeza nas ruas. Os instrumentos de repressão eram menos visíveis do que em Paris ou Nova York. A interminável Alameda Bernardo O'Higgins abria-se frente a nossos olhos como uma corrente de luz, vinda lá da histórica Estação Central, construída pelo mesmo Gustavo Eiffel que fez a torre de Paris. Até as putinhas sonolentas na calçada oposta eram menos indigentes e tristes do que em outros tempos. De repente, do mesmo lado em que eu viajava, apareceu o Palácio de La Moneda, como um fantasma indesejado. Na última vez que eu o tinha visto, era uma carcaça coberta de cinzas. Agora, restaurado e outra vez em uso, parecia uma mansão de sonho ao fundo de um jardim francês. Fico por aqui. Se o leitor ainda alimenta dúvidas, que visite o Chile, preferentemente após ter deambulado por Havana. O homem só conhece comparando. Para finalizar, apenas mais uma observação, não minha, mas de Littín, que talvez elucide a prosperidade atual de seu país. - Uma das primeiras medidas que ele (Allende) tomou no governo foi a nacionalização das minas. Uma das primeiras medidas de Pinochet foi privatizá-las outra vez, como fez com todos os cemitérios, os trens, os portos e até o recolhimento do lixo. O que esclarece, a meu ver, o fascínio das ruas de Santiago. (Joinville, A Notícia, 27.11.88. Porto Alegre, RS, 10.12.88)
Terça-feira, Outubro 09, 2007
BOM SABER... ... que tenho leitores atentos da bíblia. Me escreve Nilo Sérgio Krieger: Boa tarde, Janer. Desnecessário lembrar que sou teu leitor de carteirinha. Embora sendo de Brusque, SC, conheço a tua terra e toda região da fronteira do RS. Já estive por duas ou três vezes em Dom Pedrito. Bem, quanto ao assunto "Sobre sinos e címbalos", de domingo, outubro, 07, 2007, consultei o meu filho, que é estudante de teologia na Escola Superior de Teologia, em São Leopldo, RS, vinculada a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Bem, segundo ele, o correto de 1 Cor 13.1 é CÍMBALO. Segue em anexo cópia da folha do Novo testamento na sua linguagem original, grego (Címbalo_b) bem como cópia de folha do "Léxico do N.T. Grego/Português" (Címbalo_a), que, creio, matam a charada. A título de curiosidade, a palavra "címbalo" aparece na Bíblia por duas vezes: uma em Salmos 150, 5 e a outra em 1º Coríntios 13.1, ao passo que a palavra "sino" não tem menção, ao menos na "Chave Bíblica", publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil, 1970, baseada na Edição Revista e Atualizada no Brasil da Tradução de João Ferreira de Almeida. Um abraço.
Crônicas da Guerra Fria (2) MÃE É UMA SÓ Florianópolis - Com A Última Tentação de Cristo, de Martín Scorcese, parece que vai repetir-se no Brasil o mesmo fiasco gerado pelo anódino Je vous salue, Marie, de Jean-Luc Godard. Em países catolicíssimos como França, Espanha e Portugal, o filme de Godard passou completamente despercebido e em poucas semanas saiu de cartaz. No Brasil, graças à publicidade gratuita decorrente de sua proibição, foi visto por jovens que jamais haviam ouvido falar de Godard e que, se tivessem visto seus filmes anteriores, provavelmente não repetiriam a façanha. Ao que tudo indica, apesar de sua experiência milenar, a Igreja romana ainda não aprendeu que todo index prohibitorum é contraproducente: só serve para vender o que pretende proibir. Curiosamente, um filme como A Vida de Brian, dos Monty Python, este sim blasfemo e deletério, passou e repassou em todas as telas do país, sem que censor algum, laico ou religioso, desse um pio. Neste filme, de refinado humor, Maria é apresentada como prostituta e representada por um ator do grupo, travestido. Quando chegam os três reis para ver o Menino, Maria os recebe de péssimo humor, afinal já era tarde da noite. Quando sabem que trazem ouro, incenso e mirra, sorri pragmaticamente: "bom, o ouro vocês deixam aqui e o incenso e a mirra podem levar de volta". Verdade que no filme dos Monty Python o personagem é Brian, uma espécie de profeta que só dá certo por acaso e que, inclusive, assiste ao Sermão da Montanha, pregado pelo próprio Cristo. Mas para quem conhece os Evangelhos, os ingleses não enganam: é o próprio Cristo que é submetido ao ridículo e disto só parecem ter-se dado conta os censores da Noruega, único país, segundo me consta, a proibir o filme. No Brasil, a Igreja dormiu de touca. Ou então Godard passou alguma grana ao papa para que promovesse seu abacaxi em geografia tupiniquim. Em A Vida de Brian, Cristo inclusive se mostra como foi crucificado. Ou seja, nu. Só que não está na cruz, e sim com uma discípula revolucionária e é flagrado na cama, tanto por seus seguidores como por sua mãe. No filme todo, perpassa a imagem de uma espécie de bobo alegre envolvido pelas circunstâncias e que em momento algum sabe o que está acontecendo, o que aliás não difere muito da circunstância do Cristo histórico. Ao ser crucificado, acaba cantando e acompanhando com o pé batendo no madeiro, em coro com seus colegas de cruz, uma espécie de samba britânico e fatalista no melhor estilo de M. Pangloss. Confesso jamais ter visto - e já vi seis vezes - filme mais hilariante e corrosivo do que este. Em matéria de hilaridade, só é comparável a Mash e ao Incrível Exército Brancaleone. Em matéria de derrisão, às vezes me pergunto se Swift terá conseguido ir mais longe. Pois bem: este filme desopilou o fígado de platéias do mundo inteiro e só os luteranos noruegueses, que pouco ou nada têm a ver com o profeta fracassado e maquiado pela Igreja romana, perceberam seu caráter herético. Neste Brasil 88, a Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) parece estar pretendendo, com sua censura prévia e desaforada - pois o foro censório em um Estado laico não é o eclesiástico, sem falar que a nova Constituição abole a censura tornando-a apenas classificatória - render mais royalties a Mr. Scorcese. O fulcro da condenação está nos delírios sexuais de Jesus. Mesmo partindo do pressuposto de que fosse Deus, tais fantasias seriam perfeitamente inteligíveis, já que se fez homem e humano é o desejo. O filme é baseado em um romance de Kazantzakis, místico cretense que cometeu maiores despautérios ao nivelar Cristo a Lênin e nem por isso foi apedrejado. O que só nos ensina que os ianques têm mais senso de merchandising que os helenos. A realidade histórica, no entanto, está mais para os Monty Python que para Scorcese. Que Cristo tenha tido seus desejos, mais do que natural é absolutamente lógico, ou então humano não era nem em homem havia-se encarnado. Se isto não consta no relato de seus biógrafos tidos como oficiais, será talvez porque os evangelistas não dominavam as modernas técnicas narrativas do diálogo interior, desenvolvidas a partir de Bergson, Proust e Joyce. Sem falar que os quatro evangelhos aceitos pela Igreja romana constituem, para o leitor mais atento, uma antologia incoerente e mal-costurada. Mas o problema não é esse. Ao que tudo indica, a partir de depoimentos históricos e inclusive bíblicos, Maria era efetivamente prostituta, e isto não é descoberta dos Monty Python. Para começar, deve-se eliminar de toda e qualquer discussão essa versão puritana de que Jesus era o único filhos de Maria. Jesus tinha cinco irmãos e se, parir uma só vez e permanecer virgem já é em si paradoxal, mais misterioso se torna ainda parir seis filhos e preservar a "graça original". A nenhum pesquisador honesto é permissível a aceitação desta tradução chamada Vulgata. Assim sendo, a realidade histórica parece ser bem mais contundente que os inocentes delírios eróticos de um Cristo perdido em meio ao caldeirão de uma situação pré-revolucionária. Que não é filho de José, isto a própria Bíblia nos diz. Para o crente que leva ao pé da letra o texto bíblico, só resta outra alternativa: é filho de Maria com uma pombinha. Para o cético que aceitaria prazerosamente tal circunstância apenas se inserida na mitologia grega, restaria uma última opção, a partenogênese, fenômeno já observado em certos pulgões da lavoura, mas jamais em ser humano. Jesus é então filho de quem? Segundo Celso, filósofo pagão, que viveu na segunda metade do século II, Cristo seria filho de um soldado romano chamado Pantera. Tal afirmação está no livro intitulado Discurso Verdadeiro, onde o pensador romano, perplexo, faz uma análise da religião então emergente. Sua hipótese não pode ser ignorada pelos historiadores por várias razões. Uma delas é que a Igreja queimou os oito tomos de seu livro onde os encontrou. Do Discurso só nos restam os fragmentos reunidos por Orígenes no seu Contra Celso, onde, no afã de contestar o nobre romano, acabou transmitindo à posteridade a voz do homem que queria calar. Uma outra razão está na tradição talmúdica, que fala de Jesus Ben Panthera, ou seja, Jesus filho de Pantera. O que é bem mais verossímil, pois filho de algum pai teria de ser, e de José não era. Analisemos o texto de Celso, transcrito e contestado por Orígenes, graças ao qual, ironicamente, chegaram até nós alguns fragmentos do pensador pagão: "Voltemos às palavras atribuídas ao Judeu (personagem criado por Celso, parêntese meu), onde ele escreve que a mãe de Jesus foi repelida pelo carpinteiro que a havia pedido em casamento, por ter sido convencido de adultério e ter sido engravidada por obra de um soldado romano chamado Pantera". Mais adiante: "Admitamos que haja verdade na doutrina dos fisiognomistas Zopyros, Loxos, Polémon, e de todos aqueles que escreveram sobre o tema, gabando-se de um saber espantoso sobre o parentesco de cada corpo com o caráter de sua alma: a esta alma, destinada a viver miraculosamente e cumprir grandes feitos, seria necessário um corpo, não como crê Celso, nascido de um adultério entre Pantera e a Virgem, pois de uma união assim impura teria antes nascido um louco nocivo aos homens, mestre da intemperança, da injustiça e de outros vícios, e não do domínio de si, da justiça e de outras virtudes". Apoiar-se nos tratados de Zopyros, Loxos e Polémon, dos quais hoje pouco ou nada sabemos, podia ser de grande valia a Orígenes, mal tal argumentação hoje nada nos diz. Por outro lado, boatos havia em torno de Maria e, dada a fúria censória da Igreja em relação ao livro de Celso, é bastante provável que nele exista mais verdade que no absurdo e incongruências dos Evangelhos. Celso - pelo menos no que dele resta - não nos fala de prostituição. Mas onde iríamos situar, em uma cultura judaica e patriarcal, uma mulher com seis filhos de pai desconhecido, sendo um deles oriundo de um soldado do exército invasor? A resposta a esta pergunta talvez explique o respeito de Cristo, sempre manifesto nos Evangelhos mais divulgados, às adúlteras e prostitutas. A santa ira que se ergue nas comunidades católicas do Ocidente é, no fundo, cortina de fumaça erguida por clérigos que desconhecem a Bíblia - como também por outros que a conhecem muito bem - para eludir o drama vivido por Jesus e Judas em sua luta contra o império romano. Afinal, mãe só se tem uma, e Paulo de Tarso quis dividi-la em duas. E o resto é publicidade gratuita a um filme ianque. (Joinville, A Notícia, 11.09.88)
Segunda-feira, Outubro 08, 2007
JUSTIFICANDO O ROUBO Leio na Folha de São Paulo de hoje artigo em que um marginal - sedizente escritor - pretende justificar o roubo. O assunto gira en torno de um artigo em que uma vedetezinha do mundo televisivo, o tal de Luciano Hulk, mostrou-se indignado com o roubo de seu rolex. "Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes. Se o assalto não desse certo, talvez cadeira de rodas, prisão ou caixão, não teria como recorrer ao seguro nem teria segunda chance. O correria decidiu agir. Passou, parou, intimou, levou. No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio. Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes", disse o convicto defensor do banditismo. Ou seja, está justificado o roubo, desde que seja feito contra os ricos. Nisto não vai nada de novo. Desde há muito as esquerdas vêem batendo nesta tecla, através da imprensa, escolas, universidade. Ferréz, o autor do artigo estúpido, por não ter maiores laivos de cultura disse com todas as letras o que os antigos comunistas queriam dizer. Mas o comunismo morreu. Ora, nenhuma sociedade se construirá decentemente, enquanto roubo for um método admissível de subsistência. Se assim for, que teríamos contra um Renan, um José Genoíno, um José Dirceu? É claro que o tal de Ferréz jamais admitiria um rico roubando e permanecendo impune. Em seu bestunto, só os pobres merecem roubar. No fundo, não deixa de ser lógico. Em uma sociedade em que assassinos como Che ou Lamarca são cultuados como heróis, que razões teríamos para condenar como criminosos meros ladrões de relógios?
Crônicas da Guerra Fria (1) GADES, EL ATARANTADO Florianópolis - Carmen me libera, dizia Nietzsche. Bizet, infelizmente, não teve ocasião de ouvir esta confissão proferida pelo espírito mais refinado de seu século: amargurado pelas violentas e injustas críticas feitas à ópera, morreu na noite de sua 33ª apresentação. Antonio Gades, bailaor alicantino e emérito pizzaiolo, traz ao Brasil sua versão de Carmen e pode estar seguro de que não sofrerá o que sofreu Bizet. Desde que dance e se mantenha silente. Não sei se Gades sabe, mas em meu último ano sabático em Madri, freqüentei sua casa quase todas as semanas. Falo da Casa de Gades, pizzaria que fica próxima à Biblioteca Nacional e ao Museu do Prado, o que tem suas vantagens e desvantagens. Vantagens, porque após uma aula sobre Velázquez ou Goya, era sagrado um osso bucco chez Gades. Desvantagens, porque após umas que outras de Valpolicella, embalados pela ambiência afável do restaurante, atravessar o Paseo de Recoletos para chegar até a biblioteca é esforço que exige fibra sobre-humana. Sem falar que entre a Casa de Gades e a Biblioteca Nacional se situam, solertes, El Gijón e Los Espejos, à espreita do pesquisador incauto. Assim que, se jamais consegui atravessar o Paseo de Recoletos, a culpa é um pouco do atarantado alicantino que ora nos visita. Digo atarantado por alusão a Nietzsche, este alemão enamorado de Carmen, que dizia não poder acreditar em um deus que não soubesse dançar. Assim falava Zaratustra: "Olha, esta é a toca da tarântula! Queres vê-la, a ela mesma? Está aqui a sua teia: toca-lhe para a veres tremer!" Tarântula é uma aranha grande que vive entre as pedras e buracos profundos e abunda na cidade de Taranto, Itália. Sua picada é extremamente venenosa e de seu nome vem a tarantela, dança napolitana de movimentos muito vivos. Daí vem "Los Tarantos", grupo de dança espanhol. Como também atarantado, isto é, Gades falando em vez de sapatear. Falando em sapatear, meus interlocutores de esquerda dão pulinhos de ódio quando sugiro que rezem ao bom Deus para que conceda longos anos de vida e governo a Alfredo Stroessner. Não que eu nutra simpatias pelo homem. Acontece que quando Stroessner morrer, a desconfortável comenda de decano dos ditadores latino-americanos será carregada por Castro, guru de Gades. Pois o bailaor, em suas declarações à imprensa, sempre vai além de suas pizzas. Diz que Carmen representa o ideal da própria Espanha, que renasceu das cinzas após uma ditadura brutal de quarenta anos. Castro sapateia em cima dos direitos mínimos dos cubanos - para começar a liberdade de ir e vir - já faz quase trinta anos e, para Gades, esta ditadura é boa, pois é de esquerda. Seus contínuos salamaleques ao gulag tropical gerido por Moscou já quase me fizeram renunciar a seus dotes de pizzaiolo. Meus colegas, mais realistas, acabavam arrastando-me à Casa de Gades: "Calma, Cristaldo. Estamos com fome e o resto é veleidade ideológica". Siete son las fases de la castaña - dizem os espanhóis - e por castaña, no caso, leia-se porre. A saber: - copeo - rudo copeo - cantos marítimos y regionales - franca amistad - insultos al clero y autoridades constituídas - negación de la evidencia - y devolución del ingerido. Devo ter chegado, nas tardes que passei chez Gades, certamente até à quinta fase, lembro ter erguido brindes como "Muerte a los maridos!" e "Las putas al poder, que sus hijos allá ya están!" Mas Gades, mesmo sóbrio, parece chegar à sexta fase, sem passar pelas precedentes. O que é deplorável em seu caso, de homem que se pretende cosmopolita e bem-informado. Dizer que Carmen é um ideal libertário renascido das cinzas do franquismo é afirmação de um homem que fez toda sua carreira sob o regime de Franco. A Espanha é hoje país livre, com eleições livres e se dá até mesmo ao luxo de ter rei e família real. Constituí atualmente uma das mais dinâmicas economias do continente europeu e um dos mais belos países para se descobrir e viver. Não fosse Franco, os espanhóis viveriam hoje certamente sob ditaduras de economia ao estilo do Leste europeu, onde até para se comprar uma máquina de escrever é necessário registrá-la na polícia. Escritores como Ramón Sender e Jorge Semprún, que lutaram décadas contra Franco, viveram a clandestinidade e sofreram prisão e exílio, ao conhecer a realidade dos países socialistas, concluíram amargamente ter combatido o mau combate. Gades, que não combateu nem foi forçado a exilar-se, vira o cocho condenando o regime onde viveu e cresceu como artista. Em algo, no entanto, o bailaor é coerente: comunista exemplar, como seu guru Castro, adora dólares. Ou capitalistas marcos ocidentais, que marcos do outro lado do Muro pouco lhe interessam. E seu espetáculo no Brasil não se dirige ao proletariado, mas a um público burguês capaz de despender quase um salário mínimo em uma noite. Gades justifica que numa sociedade justa, em um Estado socialista, os espetáculos seriam de graça. Pela experiência que tenho de tais "sociedades justas", nelas os espetáculos nunca são de graça e mais: o turista é sistematicamente despojado de seus dólares. Se o leitor viajar um dia a qualquer país europeu e não souber orientar-se em sua geografia gastronômica, sugiro procure alguma célula ou sede do partido Comunista. Todo militante, à força de lutar contra a fome no mundo, sabe onde melhor matá-la. Não é por acaso que um dos mais orgíacos festivais de bem comer na Europa é a Fête de l’Humanité, a festa do PC francês, que se realiza a cada segundo fim-de-semana de setembro no parque La Courneuve, ao norte de Paris. Afinal, como dizia aquele outro emérito gourmet, Bertold Brecht, não pode ser revolucionário quem não sabe comer bem, beber bem e bem tratar uma mulher na cama. Mulheres à parte, a Casa de Gades em Madri é uma verdadeira escola revolucionária. De excelente cozinha, vinhos de boa cepa, nela o militante se prepara para o agir revolucionário bem melhor que nos canaviais de Cuba ou nos cafezais da Nicarágua. Neste sentido, Gades se revela autêntico revolucionário, e de revolução muito aprendi em sua escola. Freqüentada por intelectuais, escritores, jornalistas, artistas de teatro e cinema, toreros, verdade que nela jamais vi aqueles operários de macacão azul que abundam nos demais cafés e restaurantes de Madri. Mas, enfim, a revolução é assunto por demais importante para ser entregue às mãos de operários. Assim que, parece-me absolutamente improcedente a queixa de um estudante pobre no Rio, que perguntava ao bailaor porque não fazer um espetáculo acessível a quem tem pouco dinheiro. Revolução é affaire para elites, ora bolas! "Compañero - respondeu Gades - guarde uma pergunta dessas para quando falar com um inimigo de classe". Pois eu sou amigo de classe de Gades e confesso que já morro de saudades das etílicas tardes que passei em sua Casa. Carmen é como Che Guevara, declarou Gades em São Paulo, e os ossos do argentino nesta altura já devem estar se contorcendo em sua tumba desconhecida. Pois, se bem me lembro, Che empunhava um fuzil. Quanto a Carmen, com todo meu respeito pela obra de Merimée, do que ela empunhava já nem falo. O sr. Antonio Gades está subestimando o nível de informação no país que ora o recebe. Para promover seu espetáculo não precisa usar recursos assim demagógicos. A mítica Cuba revolucionária hoje não passa de uma Disneylândia das esquerdas, para onde partem em românticas revoadas aburguesados senhores em busca dos sonhos de adolescência, pois sentir-se-iam ligeiramente ruborizados se fossem visitar a Disneylândia gringa. Dito isto, vou assistir Gades. Que dance. Y, por favor, hombre: cállese! (Blumenau, Jornal de Santa Catarina, 07.05.88)
Domingo, Outubro 07, 2007
SOBRE SINOS E CÍMBALOS Do Humberto Quaglio, recebo estas considerações: Prezado Janer, Saudações, Logo que terminei de de ler seu artigo "O antropólogo e os sinos", tive a impressão que o Roberto da Matta, ao tentar citar o apóstolo Paulo, ou foi traído pela memória, e confundiu címbalo com sino, ou leu mesmo alguma "bíblia espúria", alguma tradução malfeita. O texto bíblico gravado na minha memória, (enfiado a força na minha cabeça em quinze anos de permanência compulsória em uma igreja protestante), era o da edição mais utilizada pela congregação, a Edição Revista e Atualizada no Brasil da bíblia de João Ferreira de Almeida: "... o címbalo que retine". Esta edição, como consta no seu artigo, não faz menção a sino, mas a címbalo, que são coisas diferentes. No entanto, a edição revista e atualizada no Brasil foi feita, se não me engano, na década de 1960. Antes, a maior parte das igrejas protestantes no Brasil utilizavam a Edição Revista e Corrigida "Traduzida em Portuguez pelo padre João Ferreira D'Almeida", como se grafava na época. Tenho duas destas edições em casa, e meu pai tem uma que pertenceu ao meu avô, muito antiga, grande como uma tábua de cortar carne, impressa em Londres pela Sociedade Báblica Britânica, do tempo em que bíblias ainda não eram impressas no Brasil. Dei uma olhada em 1 Coríntios (ou "Corinthios") 13:1 na edição revista e corrigida, e lá estava: "...o sino que tine". Outra edição diferente que eu tenho da bíblia de Almeida, a versão revisada da Imprensa Bíblica Brasileira, de 1991, menciona címbalo. A única bíblia católica que eu tenho, uma tradução da editora Vozes, de 1982, menciona tímpano no lugar de címbalo. A Bíblia na Linguagem de Hoje da Sociedade Bíblica do Brasil traz, no mesmo versículo, "...o som do sino", mas eu não levo em consideração porque a BLH é uma espécie de bíblia para leitores com vocabulário pobre. Não estou escrevendo em defesa de da Matta, mesmo porque Paulo não falou nada sobre a qualidade do metal do címbalo (ou sino), e nem sobre amor no som da coisa, mas acho que a edição revista e corrigida de Almeida não é espúria. Ela foi, por muitas décadas, a única bíblia utilizada pelos protestantes de língua portuguesa e, talvez, se não me engano, a única bíblia de fácil acesso no Brasil, pois a massa de católicos lusófonos raramente lê a bíblia e, historicamente, a igreja romana nunca estimulou sua leitura. Daí, é muito provável que alguém que tenha lido a bíblia antes da década de 1970, mesmo católico, leu a edição revista e corrigida, que fala em sino. Eu não sei se o próprio João Ferreira de Almeida, que era um português protestante em pleno século XVII ("peça rara"), escreveu "címbalo" ou "sino". Eu realmente gostaria de saber, mas nunca tive acesso a uma tradução de Almeida mais antiga. Contudo, talvez a edição revista e corrigida seja mais fiel à tradução original de Almeida, pois é mais antiga, e é bem diferente da edição revista e atualizada no Brasil, que a modificou. Por curiosidade, consultei outras bíblias que tenho em casa. Tenho uma edição de 1988 de "La Santa Biblia, antigua versión de Casiodoro de Reina (1569) revisada por Cipriano de Valera (1602) y otras revisiones: 1862, 1909 y 1960", cujo texto é "...címbalo que retiñe". Outra edição que tenho, "La Sacra Bibbia, versione riveduta" (uma bíblia protestante em italiano, publicada, naturalmente, pela Sociedade Bíblica Britânica), que menciona "...uno squillante cembalo". Já a famosa "King James Version", que muitos protestantes anglófonos consideram a única bíblia digna de ser lida dentro das igrejas (as demais traduções são obra conjunta do Papa e do Capeta), traz "... a tinkling cymbal". Um abraço, Humberto Quaglio Meu caro Quaglio, estou consultando a tradução de João Ferreira de Almeida. Nela não há sinos. E nem poderia haver. Não havia sinos na época de Cristo.
CRÔNICAS DA GUERRA FRIA Estou viajando ao Sul. Sul do Brasil, bem entendido. Não que me atraiam aquelas cidades onde um dia vivi. Não por acaso, fugi delas. Nelas só me atraem os amigos que lá deixei. É uma viagem rumo a amigos, não a cidades. Vou cumprir minha peregrinação anual a Dom Pedrito. Peregrinação dolorosa. Lá está minha professora de francês no ginásio, lá estão meus amigos dos dias de adolescência, lá estão os remanescentes de meu clã lá dos campos de Ponche Verde. Mas... mas... mas... lá não tem um bar um ou restaurante que mereça este nome. A melhor opção para um almoço decente é ir à Banda Oriental. À Rivera, no Uruguai. É espantosa a diferença cultural entre as duas cidades, que distam coisa de cem quilômetros uma da outra. Dom Pedrito é um breve contra o bem comer e bem beber. Rivera é a festa. Uruguai e Brasil. Uruguai com sua finesse. O Brasil com seu grotesco. Meu restaurante predileto, o Brasil-Uruguay, na Sarandi, é revestido de madeiras e mármores. A madeira pode até ter chegado a Dom Pedrito, mas o mármore jamais botou os pés por lá. Em Rivera, há garçons. Em Dom Pedrito, há meninos que carregam pratos. Sem falar que em Rivera posso falar mi lengua de cuna - minha língua de berço. Atravesso a rua e encontro a casa onde José Hernández criou as primeiras coplas de meu poema dileto, o Martín Fierro. Nas próximas semanas, estarei longe de meu PC, o que não é tão grave. O pior é que estarei também longe de meus arquivos e de minha biblioteca. Assim sendo, não sei se poderei alimentar todos este blog. Para não ficar longe dos leitores, vou republicar crônicas que escrevi no final dos 80 e no início dos 90. Quando caiu o muro de Berlim, reuni todas essas crônicas em um volume, que intitulei Crônicas da Guerra Fria. Eram reflexões sobre viagens, países, cidades, ideologias, em geral centradas sobre o fracasso do comunismo. Reuni estas crônicas com carinho. Eu era o primeiro jornalista no Brasil a saudar a queda do Muro e o desmoronamento da União Soviética. Estávamos na época pré-Internet. Tirei umas vinte cópias e enviei-as a vinte editoras. Sentia-me um pioneiro. Foram raros os jornalistas, no século passado, a condenar o comunismo. E eu era um dos raros. Via um futuro brilhante para minhas crônicas. Santa ilusão. Como me disse um dia um amigo abominável, triste é a vida de quem está adiante de sua época. Não recebi resposta alguma das vinte editoras para as quais enviei os textos. Nem mesmo resposta de recusa. Eu ria sozinho, enquanto os editores estavam todos de luto. Suponho que o envio de meu livro deve ter soado como insulto ao pranto das viúvas. A queda do Muro, que foi vista na Europa como a segunda data mais importante do século - a primeira teria sido a Revolução de 17 - foi solenemente ignorada no Brasil. Se você perguntar hoje a universitários, sejam alunos ou professores, o que aconteceu no dia 09 de novembro de 1989, ninguém saberá responder. Enquanto viajo, reproduzo estas crônicas. São textos que têm mais de vinte anos. A republicação será um teste para ver se ainda se mantêm em pé. Algumas já serão conhecidas de quem me lê. Não importa. Ao longo de escrever, descobri que curta é a memória das gentes. E que repetir se impõe. À bientôt!
EU, PRECURSOR Um amigo me envia notícia informando que a Suécia está criando uma nova revolução social, com a introdução da chamada "Sociedade B" - uma sociedade que leva em conta os diferentes ritmos biológicos dos indivíduos para introduzir horários alternativos de funcionamento para escolas, locais de trabalho, universidades e organizações. A primeira instituição a implementar o esquema seria uma escola secundária de gotemburgo, que a partir do mês passado passou a oferecer turnos opcionais entre 8 da noite e 8 da manhã. "Por que precisamos trabalhar todos no mesmo horário, e enfrentar os mesmos engarrafamentos?" - pergunta o manifesto do movimento B-Samfundet (Sociedade B). "Por que temos que correr ao mesmo tempo para pegar as crianças na escola antes que elas fechem? Por que tudo tem que funcionar nos mesmos ritmos e horários, se isso causa problemas gigantescos na infra-estrutura da sociedade?" Segundo a notícia, a B-Samfundet tem origem na Dinamarca, onde o movimento foi criado no ano passado. Neste outono europeu, a Sociedade B será introduzida na Noruega e na Finlândia, e para outubro está previsto o lançamento na Grã-Bretanha. Os suecos que me desculpem, mas a B-Samfundet desde há muito existe em São Paulo. Não que haja escolas entre as 8 da noite e 8 da manhã. Ainda não chegamos lá. Mas estima-se que em São Paulo haja pelo menos 800 mil pessoas vivendo e trabalhando à noite. Ou seja, quase a população de Estocolmo. Entre este quase milhão, estão prestadores de serviços, como funcionários de usinas, hospitais, bares e restaurantes e mais a outra porção que busca lazer noturno. Há muitas cidades no mundo que não dormem. Assim, de improviso, me ocorrem cidades como Nova York e Madri. Os suecos não estão criando coisa alguma. Acham que estão criando porque desde há muito costumam dormir cedo. Paris é outra cidade que dorme cedo. Às onze da noite, Paris começa a fechar. É preciso conhecer muito bem a cidade, para comer algo depois da meia-noite. A Sociedade B se basearia em pesquisas científicas que indicam que cada indivíduo tem seu próprio ritmo biológico, uma espécie de "relógio interno" que é geneticamente determinado. Está muito em moda dizer que todo comportamento tem algo genético. Homossexualismo, por exemplo, não seria uma opção, mas postura determinada por um gene qualquer. Só não se admite o gene da inteligência. A existência deste implicaria que há seres que não o têm, e afirmar isto é heresia politicamente incorreta. "Nosso objetivo é acabar com as rígidas disciplinas de horário da sociedade industrial, em que todos chegam ao mesmo tempo e saem na mesma hora", disse em entrevista a BBC Brasil Erika Augustinsson, vice-presidente do B-Samfundet. Modéstia a parte, muito antes dos suecos, proclamei esta revolução. Desde décadas, consegui organizar minha vida de modo a não viver as rígidas disciplinas de horário da tal de sociedade industrial, em que todos chegam ao mesmo tempo e saem na mesma hora. Mas não penso que tenha um relógio interno geneticamente determinado. Desde há muito vivo à noite, porque gosto do silêncio noturno e considero as manhãs absolutamente sem graça. Manhãs, para mim, é o momento de abastecimento das cidades, de carga e descarga. A vida mesmo, só começa lá pelas onze. Se há algum precursor da B-Samfundet, é este quem vos escreve. Os suecos estão me roubando os direitos de autor sobre um estilo de vida.
Sábado, Outubro 06, 2007
AIATOLÁ DE ROMA CONDENA OCIDENTE Bento rides again. Afirmou ontem, no Vaticano, que a lei de Deus é a única que pode garantir a liberdade do homem porque a história "demonstra que as maiorias podem equivocar-se". Esta besteira foi dita ante uma Comissão Teológica Internacional, que procura definir outra besteira, os princípios de uma "ética universal". Segundo Bento XVI, somente a lei natural, que seria a estabelecida por Deus, pode regular plenamente a vida humana, a família, a igualdade na ordem social e os direitos fundamentais do homem. Qual deus, cara-pálida? Se no Ocidente há pelo menos quatro ou cinco, no Oriente há, não milhares, mas milhões deles. É de supor-se que Bento se refira ao deus católico. Àquele velho e rabugento Jeová, roubado dos judeus, que foi mesclado com o Cristo e com este ente hipótetico não muito definido que se chama Paráclito. Mescla não muito convincente, pois o velho Deus do Antigo Testamento é cruel e genocida, ordena massacres a torto e a direito, destrói tribos e altares, em oposição ao doce Jesus, que prega o amor a todas as gentes. Doce mas não muito. "Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada", disse o doce. No Apocalipse, volta com fúria, para aniquilar os que - segundo sua ótica - não são justos. Os católicos adoram falar em lei natural. Seria a lei pré-existente a todos os códigos humanos, aquela que o deus deles teria proferido. Ora, tal lei não existe. Pelo motivo óbvio de que não existe quem a teria proclamado. A idéia de lei natural é um conceito stalinista, que pretende pairar sobre todo Direito. Desde há muito tenho dito que Paulo, o apóstolo, foi stalinista avant la lettre. Nenhum papa, até hoje, conseguiu libertar-se deste viés stalinista. É vício de quem se pretende dono da verdade. Há quem me julgue um ateu fanático, sempre que teço críticas ao papa. Nada disso. Para começar, crentes do mundo todo, e do próprio universo católico, têm suas críticas ao papa. De minha parte, não teria crítica alguma se o Bento, ao pregar sua fé, a pregasse apenas a seu rebanho. Ocorre que seu conceito de rebanho vai muito além do rebanho católico. Age e pensa como se aquele deusinho que impera nos corredores do Vaticano fosse o deus único do universo todo. Quando afirma que a lei de seu deus é a única que pode garantir a liberdade do homem, em nada difere de um aiatolá iraniano regendo um governo teocrático. Aiatolás e mulás, em seus feudos de analfabetos, gozam de grandes poderes. O vice-deus católico vive no Ocidente. Nada pode impor a Estados. Parece não ter se dado conta disto. Afirmar que a lei de Deus é a única que pode garantir a liberdade do homem é condenar o Ocidente e suas instituições, onde impera a lei dos homens. Ocorre que não vivemos em regimes teocráticos. Bento vive inflado de si mesmo, de seu poder virtual sobre o mundo, todos os dias confirmado por seus áulicos. Mas o mundo é muito maior que o universo misógino do Vaticano. Que ética universal? Pretenderá Bento que seja universal essa ética que aceita a escravidão e prescreve a lapidação de mulheres? Que ordenou o extermínio de nações e mandou para a fogueira quem quer que discordasse das verdades da Santa Madre? Nenhum papa, até hoje, desautorizou a Inquisição. Enquanto não a condenar, não têm moral algum para falar de ética, muito menos de ética universal, que é coisa que não existe. Bento XVI, no fundo, é um aiatolá castrado, que vive na ilusão medieval que sua igreja ainda tem algum poder sobre o século.
Sexta-feira, Outubro 05, 2007
LA BELLA FIDANZATA NUDA Há mais de quatro anos, comentei uma curiosa discussão semântica ocorrida na imprensa paulista. Na ocasião, Barbara Gancia, da Folha de São Paulo, se espantava com "a desenvoltura da mídia e dos envolvidos no caso dos grampos telefônicos na Bahia em tratar a senhora Adriana Barreto como ex-namorada do falecido ACM. "Vem cá: o senador não é um homem casado? Então que história é essa de "ex-namorada"? Até prova em contrário, Adriana foi ou voltará a ser (se depender da vontade dos pais) a amante de ACM". Já Roberto Pompeu Toledo, colunista de Veja, aproveitava o ensejo e fazia ironias, dizendo que ficara feio falar em amante. "A palavra invoca trampolinagem de mau gosto, libertinagem de subúrbio. Só não é mais brega que "amásia". Então, usa-se "namorada", ou "ex-namorada", para qualificar a mulher que incorreu na fúria do poderoso senador. Pelos padrões atuais de bom gosto, a língua talvez não ofereça mesmo melhor alternativa. Mas surge um problema. Namorar, pelo que sempre se entendeu, e ainda em geral se entende, é para pessoas livres e desimpedidas. Ora, o personagem em questão é homem casado, pai de filhos e avô de netos. Pode-se falar com tanta naturalidade que tem, ou tinha, namorada? Se se pode, é porque estamos no Islã e não sabíamos. Caiu mais um tabu, e está liberada a poligamia". A primeira vista, dois íntegros profissionais da palavra denunciavam a hipocrisia com que as palavras são usadas. Mas só à primeira vista. Ocorria que o senador baiano, apesar de seu apoio ao novel presidente, não era um esquerdista de souche. Era homem de direita e uma espécie de símbolo do mal. Tinha amantes, portanto. Como um reles Fernandinho Beira-Mar. Quem não lembra de Zélia Cardoso de Mello, a amante do ministro da Justiça Bernardo Cabral? Ou de Suzana Alves, a amante de PC Farias? São personagens do século passado. Mas o século passado recém passou. Zélia, para quem não mais lembra, era ministra de Fernando Collor de Mello. Causou furor na época a revelação de Cabral de que sua posição favorita era ficar de quatro. Caiu bem no imaginário popular a imagem de uma ministra de quatro. Já o PC Farias, se alguém esqueceu, era o caixa dois de Collor. Tanto o ministro da Justiça como PC Farias não tinham namoradas, mas amantes. Já a prefeita do PT na época, dona Marta Suplicy, esta tinha namorado. Na grande imprensa, ao referir-se ao gigolô argentino, redator algum ousava falar em amante da prefeita. Muito menos a corajosa cronista Barbara Gancia. Falava-se da prefeita e seu namorado, como se dona Marta já não fosse suficientemente grandinha para ter algo mais que um namorado. Ou da prefeita e seu companheiro. Ou ainda, a prefeita e seu consorte. Ou marido, mesmo que marido não fosse. Para o Estado de São Paulo, o enfoque era outro: Dona Marta iria casar. "Marta Suplicy (PT) anunciou que pretende oficializar a relação com o franco-argentino Luís Favre ainda este ano, assim que for concluído o processo de separação dela com o ex, o senador Eduardo Suplicy" - escreveu Deborah Bresser. Já a Folha de São Paulo, sempre hesitante entre o politicamente correto e o desejo de bem informar, ou talvez por achar o namoro demasiadamente longo, promoveu o compadrito portenho da alcaidessa a marido. É curioso que Barbara Gancia, colega de empresa de Mônica Bergamo, não tenha reclamado quando esta colunista falou em Marta Suplicy e "seu marido, Luis Favre". Em seu desejo de ser elegante com a prefeita, o jornal acabou promovendo dona Marta a bígama. Oficialmente, a prefeita ainda não se divorciara de seu ex. Se Dona Flor e seus dois maridos pertencia ao mundo da ficção, a Folha ofereceu a seus leitores uma fatia da vida real, Dona Marta e seus dois maridos. Para não confundir a prefeita com essas vulgares amantes, típicas da direita reacionária, promoveu-a a marida. Como diria sem querer dizer - mas disse - Roberto Pompeu de Toledo, "caiu mais um tabu, e está liberada a poligamia". César Giobbi, em sua coluna no Estado de São Paulo, dizia que a prefeita estava indignada porque até então "ninguém tinha mencionado a questão moral, já que ACM é casado". Parece que a alcaidessa, de tanto a imprensa falar em seu marido Luis Favre, convenceu-se de sua condição de marida. E até mesmo esqueceu que, para casar de novo, precisava primeiro divorciar-se de seu ex, o que até então não havia ocorrido. Segundo dona Marta, "se a situação a envolvesse ou a governadora Rosinha Matheus ou Benedita da Silva, por exemplo, aí, sim, fariam muito barulho em torno dessa questão". Não é verdade. Sobre quem milita na esquerda e sobre sua honra caem todas as benevolências da imprensa. Nossos bravos colunistas pareciam ter sido acometidos de reflexos da Guerra Fria. Por questão de ofício, tinham uma convivência quase diária com a prefeita e sua trajetória, mas foram procurar amantes na biografia ... do baiano. Pois amante é atributo do mal, da direitona clássica. A casta esquerda tem maridos. Foi o que escrevi na época. Hoje, a imprensa parece ter-se acostumado com as amantes, já que na affaire do senador Renan Calheiros ninguém cogitou em falar de namorada. Aliás, senador está virando palavra que faz dobradinha com amante. O tempora, o mores! Amante, há algumas décadas, era mulher de bandido. Hoje, é direito adquirido de senador. Onde se viu senador sem amante? Se no Brasil a imprensa parece ter assumido a palavrinha, o mesmo não ocorre na Itália. Minha interlocutora predileta dos últimos anos me envia nota de um hot site italiano: Brasile, la giornalista Monica nuda per Playboy Si chiama Monica Veloso e oltre che una giornalista è anche la bella fidanzata del presidente del senatore brasiliano Renan Calheiros. Ha posato nuda per l'ultimo numero del magazine Playboy. Noivas nuas. Mudaram os tempos e eu não mudei? Sei lá, mas a expressão me soa um tanto paradoxal.
MEU DESENCANTO Os grandes escândalos nacionais já nem me escandalizam. Fazem parte da normalidade do país. A imprensa denunciou fartamente o mensalão, ministros caíram, o Ministério Público denunciou quarenta corruptos, em geral ligados à alta cúpula do PT, e tudo ficou por isso mesmo, afinal o PT está no poder. O mentor da corrupção toda, evidentemente não sabia de nada. As denúncias parecem ter caído no vazio, pois o presidente da República continua comprando deputados desbragadamente para aprovar a permanência da CPMF. Isso faz parte da normalidade política do país. Fernando Henrique Cardoso comprou, Sarney comprou. Quem não quis comprar - falo do Collor de Mello - foi ejetado do poder. Não defendo Collor. Apenas constato que foi ejetado porque não comprou o Congresso. Lula está comprando todos. Não há mais oposição no país. Isto não me escandaliza. O que me escandaliza são dois casos, não de prática política, mas de polícia. O primeiro é o dos precatórios. A União, os Estados e municípios têm dívidas já executadas e não pagam e estamos conversados. Não consigo entender um país que não paga o que deve a seus cidadãos. É claro que este país não tem moral algum para exigir qualquer pagamento de seus cidadãos. O segundo caso é a extorsão feita aos brasileiros pelas tais de igrejas evangélicas. Certo, a Igreja Católica também extorque dízimos de seus fiéis. Mas esta extorsão, pelo menos é discreta. No caso das evangélicas, a extorsão é pública, exigente, televisiva e intensiva. Em final de noite, sempre dou uma passadinha nas televisões que transmitem os programas evangélicos. Fico perplexo. Pastores operando milagres, praticando medicina ilegal, mentindo descaradamente, iludindo pobres diabos e exigindo dízimos desses pobres diabos que mal têm como se sustentar. Nas madrugadas, templos imensos lotados de vítimas da vigarice, cantando entusiasticamente em louvor dos pastores que as iludem. A vigarice é pública, escancarada. E juiz algum condena, polícia alguma inibe esta extorsão. Crime flagrante, anunciado à luz do dia. Punição? Nenhuma. Reportagem da Veja on line nos mostra que a bispa Sônia e o “apóstolo” Estevam, da Igreja Renascer, têm patrimônio de cerca de 130 milhões de reais em uma única conta bancária e dívidas de 6,5 milhões de reais com o fisco nacional. Teria sido este patrimônio construído com trabalho produtivo? Nada disso. Esta fortuna toda foi feita na base do gogó. Estevam e Sonia Hernandez foram presos e condenados nos Estados Unidos por não declararem míseros 56 mil dólares. Em nome do Cristo, dois vigaristas fazem uma fortuna fabulosa e ninguém considera isto um crime. Foi preciso que os ianques detivessem o casal, pelo porte de um valor cem vezes menor, para que os vigaristas saíssem de cena. Enquanto isto, Edir Macedo, outro vigarista evangélico, que está construindo um império no planetinha, aparece sorrindo nas primeiras páginas dos jornais, em foto com o presidente da República. Nesta altura do jogo, deputados e senadores, por mais corruptos que sejam, parecem ser meros aprendizes de vigaristas. É espantoso ver tanto a Presidência da República, como o Judiciário e a própria polícia coniventes com esta roubalheira desbragada, feita em nome da liberdade de expressão. Infeliz de quem ainda alimenta alguma ilusão na prosperidade deste país. Meu desencanto é definitivo. Gostaria de apostar - mas não aposto - um vintém no futuro deste país.
Quinta-feira, Outubro 04, 2007
MELHOR IR A PARIS Passei ontem numa loja de delikatessen, no shopping aqui perto de casa. Por curiosidade, fui ver o preço do foie gras. Nada menos que 180 reais a latinha de cem gramas. Multipliquemos. Se porventura eu quisesse comprar dez latinhas, pagaria 1800 reais. Ora, a Air France está oferecendo uma passagem de ida e volta a Paris por 864 dólares. Fazendo o câmbio pelo dólar turismo, temos hoje 1.693,4401 reais. Em Paris, você compra cada latinha a cinco euros. Ou seja, 13,8229 reais. Dez latinhas, 138 reais. Somemos. A passagem de ida e volta a Paris mais as dez latinhas dá 1831 reais. Apenas 31 reais a mais que as dez latinhas do shopping. Se você gosta de foie gras, melhor ir a Paris e curtir a cidade toda.
TRIBUTO AO TERROR Alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo, escrevi outro dia. Me referia à rejeição da medida provisória que determinava a nomeação de Roberto Mangabeira Unger, para a Secretaria de Planejamento de Longo Prazo, pelo plenário do Senado por 46 votos a 22. Mangabeira é aquele catedrático de Harvard, que considerou o governo de Lula o mais corrupto da História. Mal recebeu convite para uma prebenda veio, qual cachorrinho abanando o rabo, lamber os pés do mais corrupto da História e tomou posse no cargo em 19 de junho. O acadêmico que se humilhou ante o analfabeto ficou exatamente cem dias no cargo. Alegria de palhaço também dura pouco. Sem cargo desde a semana passada, o "filósofo" retornará à Esplanada por um decreto do Supremo Apedeuta, que criará o Ministério Extraordinário de Assuntos Estratégicos. Qual o interesse de Lula em dar a um acadêmico enrolador e venal um ministério que para nada serve? Está recompensando o quê? Senão vejamos. Nancy Mangabeira Unger, irmã do futuro ministro do ministério rumo ao nada, era quem dirigia o carro que conduzia quatro militantes do PCBR que fuzilaram o tenente Mateus Levino dos Santos, em Jaboatão, grande Recife, em junho de 1970. Nancy Mangabeira Unger, foi banida do Brasil em 13 de janeiro do ano seguinte, em troca da vida do embaixador suíço Giovani Enrico Bucher.
Quarta-feira, Outubro 03, 2007
O ANTROPÓLOGO E OS SINOS Nos sinos antigos - escreveu Pitigrilli - liam-se inscrições deste gênero: "Funera plango, fulgura frango, sabbata pango, excito lentos, dissipo ventos, placo cruentos". Traduzindo: choro os mortos, disperso as tormentas, anuncio as solenidades, estimulo os vagarosos, dissipo os ventos, aplaco os violentos. Ou ainda, em fórmula mais sintética: "Vivos voco, mortuos plango, fulgura frango". Convoco os vivos, choro os mortos, amaino os temporais. Pitigrilli - não sei se alguém lembra dele - foi coqueluche em meus dias de jovem. Segundo o autor, acreditava-se outrora que, tocando os sinos, as ondas sonoras dispersariam as tempestades. Firmou-se entre as aldeias da Europa a convenção de não tocar os sinos durante os temporais e quando houvesse granizos. Era uma política de boa vizinhança. Quem tiver nuvens sobre seu vinhedo, guarde-as e não as empurre para a povoação vizinha. Os sinos surgem com os grandes edifícios para o culto, a partir do século V. A primeira referência que temos a sinos ocorre em torno do ano 515, em carta de um diácono de Cartago. Três séculos mais tarde, o papa Estevão II fez edificar, na basílica de São Pedro, um campanário. Trocando os queijos de bolso, quando leio o antropólogo Roberto da Matta, sinto um certo cheiro de falsa erudição. No Estadão de hoje, ela se torna evidente, na crônica intitulada "A cura por Schopenhauer". Escreve o cronista: "O amor é ponte porque, num sentido preciso, ele liga virtudes longínquas, como a esperança; com as próximas, como a caridade. Foi por isso que São Paulo apóstolo falou que de nada vale o sino do melhor metal, se no seu som não há amor. Do mesmo modo, de nada valem leis formalmente perfeitas e que resolvem tudo, se não há juízes, delegados, policiais, advogados e cidadãos para segui-las e honrá-las". Se da Matta quer justificar a existência do aparelho de Estado, melhor não apelar a metáforas com sinos, pois na Bíblia toda não há referência alguma a sinos. Nem no Velho nem no Novo Testamento. A metalurgia da época não havia chegado a tanto. O mais parecido que encontramos a sinos na Bíblia, são campainhas de ouro, em Êxodo 28,33-35. Quanto a metal, há apenas duas referências, mas não nas circunstâncias em que o antropólogo cita. A primeira está em Êxodo, 35,24: "Todo aquele que tinha prata ou metal para oferecer, o trazia por oferta alçada ao Senhor; e todo aquele que possuía madeira de acácia, a trazia para qualquer obra do serviço". A segunda está no Primeiro Coríntios, 13,1: "Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine". Nada a ver portanto com sinos do melhor metal, nem de sons com ou sem amor". O ilustre antropólogo deve andar lendo bíblias espúrias.
LA PUTAIN DE LA RÉPUBLIQUE A jornalista Mônica Veloso, que está com tudo para ser a musa deste verão, será capa da revista Playboy, sob o título "A mulher que abalou a República". Em entrevista na Folha de São Paulo de hoje, diz a musa que não se sentiu Identificada com a personagem de Camila Pitanga, a prostituta Bebel, da novela Paraíso Tropical. Disse ainda que pretende lançar, mês que vem, um livro autobiográfico, no qual conta sua relação com Brasília. Foi o que fez Christine Deviers-Joncour, beldade francesa que viveu episódio mais ou menos semelhante na França dos 90. Tendo sido amante de Roland Dumas, que foi ministro das Relações Exteriores e também de Assuntos Estrangeiros, Christine teria recebido vultosas comissões - algo em torno de 64 milhões de francos - com seu envolvimento na affaire Elf, empresa pública química e petroleira, como também no caso de fragatas militares destinadas a Taiwan. Roland Dumas acabou sendo condenado a seis meses de prisão, mas apelou e safou-se. Christine fez cinco meses de prisão provisória. Após sair do cárcere, publicou suas memórias. Claro está que Mônica nada tem a ver com corrupção e propinas. A semelhança entre as duas divas reside no envolvimento sexual com um político de alto coturno e no fato de que ambas abalaram as respectivas repúblicas. La Deviers-Joncour foi honesta no título que deu às suas memórias: La Putain de la République.
BIÓGRAFO JUSTIFICA CRIMES DE GUEVARA Para o biógrafo mais conceituado de Che Guevara, o jornalista Jon Lee anderson, "assassino" é uma palavra muito forte para definir o argentino - ainda que ele ostente no currículo uma lista de mortes nas frentes de batalha em Cuba, no Congo e na Bolívia. "Era um contexto de guerra", diz Lee Anderson. "Ele matou gente. Guerra se trata de matar pessoas". Sim, em uma guerra se mata pessoas. Mas... por acaso a Argentina andou declarando guerra à Cuba? Cuba declarou guerra ao Congo? Ou à Bolívia? Ou basta um cidadão, por si só, declarar guerra a um país, para arvorar-se no direito de sair matando? Se assim for, bin Laden está coberto de razão. Declarou guerra aos Estados Unidos. Como guerra se trata de matar pessoas, matou umas três mil de um tiro só. A definição do jornalista respondia a uma pergunta, em uma palestra em Porto Alegre, em seminário promovido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), sobre se o homem que ajudou Fidel Castro a liderar a Revolução Cubana deveria passar para a história como herói ou assassino. Para ele, Che é um herói porque as pessoas o querem assim. "A política dele em si não importa tanto quanto a mitologia criada ao seu redor. Se as pessoas querem que ele se torne um mito, logo ele é um mito", disse Lee Anderson. O jornalista confunde mito com herói. Mitos são narrativas que buscam explicar os principais acontecimentos da vida, aqueles fenômenos naturais que o homem primitivo não entendia, as origens do mundo e do homem por meio de deuses, semi-deuses e heróis. No fundo, uma tosca tentativa de explicar a realidade, quando o homem ainda desconhecia as leis da física ou química. O herói, personagem criado pelos antigos gregos, é o homem capaz de feitos excepcionais. Até aí morreu o Neves, afinal tanto Lênin, como Hitler, Stalin, Mao ou Pol Pot foram responsáveis por feitos excepcionais. Alguém situaria hoje estes senhores como heróis? Como psicopatas é o que não falta neste mundo, de fato ainda há quem assim os considere. Mas não serão os psicopatas, penso, que definirão o que é herói. Hitler foi certamente o homem mais amado em toda história da humanidade. Se examinarmos a iconografia da época, a cada aparição do Führer, há multidões hipnotizadas e deslumbradas com seu encanto. Nem Cristo, o homem-Deus, conseguiu tanto. Em sua crucificação, seus seguidores todos deram no pé. Stalin também foi adorado, mas de modo distinto. Era adorado no estrangeiro, temido entre os seus. Stalin, na Rússia, liderou pelo temor. Hitler, pelo amor. Os alemães da época viram Hitler como herói. Hoje o vemos como assassino. Quem está enganado? Nós, ou os conterrâneos contemporâneos de Hitler? Jon Lee Anderson está dizendo que herói é quem o povo quer que seja herói. É um critério. Mas arriscado. Neste país em que futebol é símbolo de civismo, os atletas que participam das copas são, ipso facto, heróis. "Nossos heróis", dizem os jornalistas esportivos, ao se referirem aos jogadores. Estes acabam acreditando nas manchetes e assumem com prazer esta condição olímpica. Numa das últimas Copas, quando a seleção voltou ao Brasil em um Boeing com toneladas de muamba, "nossos heróis" conseguiram derrubar um secretário da Receita Federal, que insistia em submetê-los à revista pela qual passa, nas alfândegas, todo cidadão brasileiro. Na ocasião, o goleiro Tafarel manifestou aos jornalistas sua indignação em relação ao insólito excesso de zelo do secretário Osires da Silva: "Mas nós somos heróis!". Tafarel acreditou no mito criado pela imprensa. Neste mesmo Brasil, heroísmo foi virtude atribuída até mesmo a animais. Quem não lembra da Catita, a cadelinha que defendeu uma criança atacada por dois pitbulls? "Heroína!" - berraram as manchetes. O episódio foi emblemático. Catita, mãe de vários cachorrinhos, arriscava a vida em defesa de um filhote alheio. O velho mito - este sim, mito - da Madonna, desta vez em versão canina, tão utilizado pelos jornalistas para comover leitores. Mais ainda: Catita era uma cadela plebéia, vira-lata latina e nativa. Os agressores eram cães de elite, alienígenas e com sotaque anglo-saxão. A finada luta de classes ressuscitava e se manifestava mesmo entre caninos. Em falta de heróis, vai cadela mesmo. Mito, pode ser. Daí a herói, a distância é hiante. Se a maioria tem autoridade para decidir que um assassino é herói, está na hora de destituirmos a maioria de qualquer autoridade para afirmar qualquer coisa. Considerar Che como herói significa justificar o assassinato e os massacres, aqueles mesmos massacres que nos fazem ver com asco Hitler, Mao ou Stalin. Que as Bundchens da vida portem na bunda a efígie do herói, entende-se. Não vamos conferir autoridade intelectual a quem vive de exibir a bunda. Mais grave é ouvir um pesquisador afirmar que o conceito de herói depende do que o povo gosta.
Terça-feira, Outubro 02, 2007
RAÍZES DO MARXISMO UNIVERSITÁRIO José Arthur Rios (Sociólogo) Ao prático da arqueologia das idéias que tentar, em época futura, a análise de nossa Universidade, não deixará de causar perplexidade a penetração nos campi acadêmicos, da ideologia marxista. Não evitará perguntar-se como tal coisa aconteceu, quais os antecedentes e conseqüentes desse modismo. O Professor Mircea Buescu debruçou-se sobre o problema e considerou-o fenômeno de fundo religioso. Acertou na natureza essencial dessa vasta contaminação ideológica que parece ter tentado responder ao vazio espiritual dos après guerres tanto na geração dos anos 20, como na dos que sofreram os anos 50 e o impacto da bomba. Não pretendo analisar o Marxismo na inteligentsia brasileira, estudo de maior escopo que aguarda pena mais hábil. Cautamente, limito minhas indagações à Universidade e ao campo das Ciências Sociais, tentando vencer, dessa forma, estranho preconceito que parece vem inibindo pesquisadores receiosos do patrulhamento ou da pecha de adesista ou direitista. Encaro o Marxismo como ideologia, isto é, primeiramente, como instrumento de compreensão e reprodução da realidade que busca traduzi-la basicamente em conceitos; e, em segundo lugar, como forma de ação voltada para a conquista do Poder. Marx, aliás, concitava os filósofos a não mais interpretarem o mundo, mas a mudá-lo. Caminhamos, neste estudo, nas pegadas de Mannheim que, irritando a muitos, dessacralizava o Marxismo, considerando-o uma ideologia como qualquer outra, descambando muitas vezes para a utopia. Na formação desse amazônico caudal, julgamos distinguir vários afluentes: o oportunismo populista e delirante; ainda que generosos, movimentos estudantis; tecnocracias impacientes; ardores estatizantes, até libertações salvíficas de clérigos inquietos e a propagação do idealismo dialético invadindo, avassalador, Departamentos e Faculdades. Onde buscar as raízes de tudo isso? Para entender a força de penetração do Marxismo nos meios universitários é preciso compreender a própria Universidade. Surgiu, primeiro, como produto das oligarquias familistas que governaram o País até os anos 30. Mais adiante, com a urbanização e a indústria, tornou-se instituição de classe média, reproduzindo suas fraquezas e frustrações (1). Conservou, todavia, da primeira fase, o estilo personalista, autocrático e vertical, no relacionamento entre autoridade, docentes e alunos - estilo cada vez mais incompatível com a mudança que o país então atravessava. Antes da grande abertura dos anos 70, a principal função da Universidade, tal como encarada por seus dirigentes, era formar profissionais, educar uma elite, e esse foi, por muito tempo, o sentido da palavra "democratização". No meio tempo, o hiato entre a nova composição da sociedade e os valores oligárquicos só fez aumentar – fenômeno generalizado a toda a América Latina. O descompasso entre o crescimento da população universitária e a expansão do mercado de trabalho qualificado, em tempos de Juscelino, agravou a inquietação dos jovens e as tensões internas do mundo acadêmico. Esses fatores levariam necessariamente a uma esquerdização – não necessariamente ao predomínio da Esquerda marxista. Foi, no entanto, o que aconteceu graças ao emprego de uma máquina de conquista do Poder por uma minoria atuante, já usada pelo jacobinismo, desde o século XVIII, através das chamadas "sociedades de idéias", mais tarde, na Rússia, em 1917, pela mão hábil de Lênin. Podemos afirmar que a Universidade brasileira dos anos 60 e 70 foi o campo de experiência desses processos muito bem descritos para a Revolução Francesa pelo historiador Augustin Cochin, em obra só recentemente redescoberta, e valorizada. Na realidade, tudo isso pouco tem a ver com o Marxismo como teoria - ou qualquer de suas modalidades. O ativismo revolucionário, entre nós, empalmou as idéias de Marx pelo seu conteúdo subversivo pouco se lhe dando se cabia ou não na propalada "realidade brasileira", tema, na época, de farta literatura. O Marxismo e seu jargão serviu, antes, de pretexto para expressão de frustrações e perdas das camadas médias, das quais derivava a grande maioria dos estudantes. Sob essa luz, o clamor pela reforma da Universidade foi geral em toda a América Latina, como nos países do Terceiro Mundo. A educação oferecida pelas Universidades, desde as primeiras décadas do século, era capitulada de elitista e, como tal, insatisfatória para as camadas médias desfavorecidas. Nesse processo, as Ciências Sociais passaram a ganhar importância, como técnicas de descoberta do mundo, elementos da nova cosmovisão, ferramentas imprescindíveis na ascensão dessas camadas sociais emergentes. Um estudo de 1968, mostrou, entre 1957 e 1964, a diminuição do percentual dos candidatos a Medicina e Direito - como o dos matriculados em Agricultura. Cresciam, ao contrário, as percentagens - de 6% a 14% - dos que buscavam as Ciências Sociais, sobretudo Economia. O sociólogo colombiano Orlando Fals Borda atribuiu essa mudança, do ponto de vista da América espanhola, à crescente secularização de valores, parte do amplo processo de modernização das sociedades latino-americanas.(2) Se isso é verdade, além dos Andes, nessas sociedades hispânicas tradicionais de acentuado pendor clericalista, o mesmo não se pode afirmar do Brasil, onde a família e o familismo foram as forças dominantes, muitas vezes subordinando socialmente a Igreja ao clã familiar e a seus ditames.(3) De toda maneira, aqui como lá, houve uma sintomática reação conservadora, dentro e fora da Universidade, contra a expansão das Ciências Sociais, sobretudo a Sociologia, amiúde grotescamente confundida com Socialismo. Essa resistência à função crítica da ciência de Comte, levou a uma ciência "batizada", untuosa, limitada cautamente ao estudo superficial da doutrina da Igreja, destituída de qualquer formação empírica e identificada falsamente com uma espécie de moral social.(4) A introdução das Ciências Sociais no currículo universitário foi uma exigência dos tempos, das novas necessidades e imperativos criados pela industrialização e a urbanização. Haja vista que a primeira experiência séria de aclimação delas entre nós, ocorreu em São Paulo, na Faculdade de Filosofia da USP e na Escola Livre de Sociologia e Política, sob o influxo de Roberto Simonsen e da Federação das Indústrias. Fez-se sob o signo do pragmatismo americano, representado na figura de Donald Pierson, sociólogo de Chicago. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, predominava a influência positivista, francesa e durkheimiana, nos cursos de Direito, e na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, criada em 1939, pelo Ministro Gustavo Capanema, com a finalidade específica e modesta de formar professores. Fazia parte de um monstrengo, a Universidade do Brasil, não por acaso, à sombra do Estado Novo e que se destinava a fixar os padrões do ensino superior. No pensamento do Ministro Capanema, devia ser "uma instituição total e unânime". Em 1940, os estudantes universitários eram apenas cerca de 21 mil, numa população de 60 milhões. O que se chamava, então, Universidade, consistia em uma reunião de autarquias docentes, confederadas apenas no nome. A chamada Lei das Universidades Brasileiras (Decreto no 19.851, de 1931) determinava o contorno da instituição universitária a partir de um núcleo de três unidades de ensino superior, escolhidas entre Direito, Medicina,Engenharia, Educação, Ciências e Letras. Em 1960, já tínhamos 70 milhões de habitantes e mal atingíamos 100 mil estudantes no ensino superior. Em 1966, éramos 90 milhões e os estudantes universitários somavam 185 mil – representando um acréscimo de 339% sobre os dados de 1940.(5) Em 1971, em pleno debate da reforma universitária, um eminente reitor podia escrever: "A exigüidade dos recursos agrava todos os nossos problemas educativos". A frase é acaciana, mas se põe como a premissa maior do silogismo reformista. Tempo integral, educação exclusiva, obrigatoriedade de freqüência, gratuidade de ensino superior, autonomia administrativa, cursos paralelos, restaurantes estudantis, melhores laboratórios, implantação de unidades - tudo esbarra na escassez fundamental de recursos, enganchados nas medidas governamentais de contenção e desinflação. E, de pernas amarradas nos orçamentos, pergunta-se porque a Universidade não corre.(6) A situação pouco mudou, impasse típico daqueles que o esquerdismo gosta de explorar, sabendo da impossibilida-de de sua solução a curto prazo. Propagou-se a convicção de que a Universidade, além de competência, teria de criar empregos. Partia-se da idéia de uma perfeita adequação entre curso superior e mercado - que não existe, entre outras coisas, porque o ensino superior, de sua natureza seletiva, jamais poderá competir, nessa função, com o ensino médio, muito menos acompanhar as flutuações de uma economia em expansão. Tudo isso, nesses anos críticos, transformava a Universidade em vasta panela de pressão. Nos anos 50, dourados segundo alguns, a instituição universitária entrou em cheio na polêmica do desenvolvimento, virou presa fácil dos ideólogos de Esquerda. Tornou-se comum dizer-se que representava uma "cultura ornamental e reflexa". Falava-se em "casta ou estamento professoral". Foi então que espíritos ardentes descobriram a luta de classes dentro do campus, sua submissão ao capital estrangeiro e aos agentes do Imperialismo. A Academia, seria, ela própria, agente de alienação. E, confundia-se espírito crítico com politização. Esses chavões marxistas não eram brandidos apenas por estudantes incipientes, mas por professores que não se pejavam de tentar coagir ou intimidar colegas quando esposavam pontos de vista contrários. Nessas refregas, os cursos de Ciências Sociais, constituíam a trincheira viva onde se feriam os mais acesos combates ideológicos. Seus Departamentos eram, na mesma medida, alvo preferencial das Esquerdas marxistas. Vamireh Chacon, ao traçar a história da nossa evolução sociológica, distinguiu dois marxismos - um confessional, militante e partidário; outro "metodológico, difuso, permeando muitas correntes".(7) Foi este, em nossa opinião, que predominou nos Departamentos universitários. Vírus atípico,por isso mais difícil de caracterizar e combater. Ninguém podia prever, no começo do século, essa virulência. Quem primeiro citou Marx no Brasil, segundo Sílvio Romero, foi o fundador da "Escola teuto-sergipana", Tobias Barreto, no discurso de colação de grau dos bacharéis de 1883. "Karl Marx", perorava Tobias, "diz uma bela verdade quando afirma que cada período evolutivo, logo que passa de um estágio a outro, ele começa também a ser dirigido por leis diferentes. A questão cardeal do nosso tempo não é política nem religiosa, é eminentemente social e econômica".(8) Por esses tempos, como exprimiu certo contemporâneo de Tobias, conversado por Gilberto Freyre - só "alguns" falavam em Karl Marx. Falava-se mais em Socialismo - nesse país de escravos, parlamentarismo à inglesa e romantismo, sem precisar muito essas vagas e generosas aspirações. Gilberto identificara esse primeiro prestígio da "mística anarquista ou marxista" - a expressão é dele - não nos sovados e descabidos argumentos socioeconômicos, mas no vazio espiritual dessa geração novecentista - "adolescentes burgueses criados em colégios católicos e que se sentiam quase de repente abandonados não pela Caridade da Igreja ... mas pela fé da sua infância. A fé de seus pais e avós".(9) Inaugura Tobias a vertente dos professores marxistas à qual se filiariam, nos idos de 30, Leônidas Rezende, Castro Rebello e Hermes Lima. Este, aliás, fez questão de frisar: "Nunca fui marxista no sentido político, leninista do termo. Não penso que o Estado como relação de comando e obediência, como de ação social coercitiva dirigente, venha a desaparecer... mas o Marxismo é chave indispensável para a análise e compreensão da Vida em Sociedade, o mais apropriado dos métodos para inserir a Razão no contexto da História".(10) Outro professor universitário, marxista ou pseudo, dentre os raros, foi Joaquim Pimenta (1886-1963), advogado e catedrático da Faculdade de Direito do Recife, imortalizado por José Lins do Rego, no Dr. Pestana do seu romance Moleque Ricardo. Era socialista e discursava nos sindicatos, citando Marx, Engels, Lenin e Trotski. No clima do Recife, longe das estepes, andava à moda bolchevista, de capa e boné. Chamava os operários de "camaradas" - o que tudo escandalizou a congregação da Faculdade. Em 1919, dirigiu greve operária em Pernambuco, o movimento apelidado de "pimentismo". Vindo para o Rio de Janeiro abriu mão do seu vago marxismo e aderiu às teses populistas de Getúlio Vargas.(11) Inaugurou esse matrimônio ideológico. Em 1886, o jovem Clóvis Beviláqua, escrevia sobre Marx de forma confusa e até disparatada - e o piauiense Higino Cunha parece ter vislumbrado,muito de longe, os contornos da obra desmedida do economista. Em 1918, esse prócer já era antiimperialista e antinorte-americano - no Piauí. Euclides da Cunha, também padece certo xodó por Marx. Na Associação de São José do Rio Pardo, que ajudara a fundar, propôs se substituísse o retrato de Bakunin pelo do gênio barbudo. Outros o acompanham. Namoro sem conseqüências. Todo esse Marxismo vinha de cambulhada com muito Positivismo e Evolucionismo.(12) O primeiro marxista brasileiro, de fato e de militância, parece ter sido o médico Silvério Fontes, nascido em Aracajú, em 1858, que passou a maior parte de sua vida em Santos. Depois de intensa atividade, tendo atravessado o Positivismo e o Anarquismo, acabou aderindo ao Partido Comunista do Brasil.(13) Fontes - pai do poeta Hermes Fontes - é traço de união entre os ideólogos e os militantes. Muito embora os comteanos ortodoxos repelissem as idéias marxistas, no Brasil há uma continuidade, senão individual, pelo menos familiar, entre positivistas e marxistas. É só cotejar os patronímicos de tantos membros do credo de Augusto Comte com os de sectários de Marx e do socialismo científico. O que torna muitas vezes válido o axioma: pais positivistas, filhos marxistas, netos terroristas.(14) Em 1922, nascia o Partido Comunista Brasileiro. Em 1924, Octávio Brandão traduzia, em Porto Alegre, o Manifesto Comunista, de 1848. Na fundação do Partido logra papel decisivo Astrogildo Pereira, seu secretário geral até 1929.(15) Coube a ele, em Puerto Juarez, na Bolívia, em dezembro de 1927,converter Luiz Carlos Prestes do tenentismo à militância comunista, levando-lhe uma pacotada de livros da melhor doutrina - Marx, Engels, Lenin. Prestes, aliás, foi outro caso de transição - do Positivismo para o Marxismo. Leandro Konder, cauteloso, afirma que houve "uma combinação discreta do stalinismo com o modo de pensar positivista..."(16) Antonio Paim, mais pertinente, considera expressão clara dessa combinação a obra de Leônidas Rezende "talvez a principal figura do marxismo brasileiro, do ponto de vista das gerações que freqüentaram cursos universitários, nas décadas de 30 e 40, ou tiveram, no mesmo período, alguma participação no movimento político dos estudantes".(17) O elo seria o autoritarismo de Comte e a concepção da ditadura do proletariado de Marx. A modalidade estalinista do Marxismo, que procurava se instalar na vida política e cultural do Brasil, no começo dos anos 30, podia oferecer àqueles que tinham sido educados pelo Positivismo, imponentes esquemas classificatórios e fórmulas concisas, límpidas, semelhantes às que celebrizaram Augusto Comte. Mudavam os textos fundamentais, indicadores das verdades básicas, permanecia o vezo de procurar em uns poucos livros, condensada, a essência de tudo aquilo que se podia saber, cientificamente, a respeito da sociedade humana. As tarefas delegadas por Comte à sociologia (por ele rotulada física social) eram atribuídas pelo estalinismo ao "materialismo dialético" e ao "materialismo histórico".(18) Nenhum desses epígonos exercia o ensino universitário. Poucos os professores declaradamente marxistas nas Faculdades de Direito, de influência praticamente restrita às salas de aula, um ou outro proclamando suas convicções entre paredes, ocasionalmente em livro ou artigo de imprensa, fumaçando no mesmo incenso Marx e outros pensadores. Tudo no melhor ecletismo que sempre caracterizou a cultura bacharelesca brasileira. A Universidade como tal só anos mais tarde passaria a campo de pouso dos marxistas.(19) Todavia, enquanto mestres pontificavam um Marxismo de cátedra, os estudantes partiam para a ação revolucionária. A marxização dos moços começa muito antes da penetração da ideologia nos recintos acadêmicos. Em 1925, o II Congresso Nacional do PCB, no Rio de Janeiro, decide dar mais atenção aos jovens e cria a Juventude Comunista (JC); mas só depois de 1927 o Partido teria se preocupado em reorganizá-la, para tanto designando Leôncio Basbaum, pernambucano, de 19 anos, quartanista da Faculdade de Medicina do Rio. No Recife, Manuel Souza Barros apresenta Basbaum e Manuel Karacik, seu colega e melhor amigo, a Astrogildo Pereira. Leram Bakunin e Octávio Brandão, conheceram a liderança do Partido. Em 1926, outro estudante, também pernambucano, João Celso de Uchôa Cavalcanti, fundou, com as benções de Astrogildo, a primeira célula estudantil do PCB, na Faculdade de Medicina. Basbaum logo se dedicou a ministrar um curso de Marxismo a operários de uma fábrica de tecidos, baseando-se em um resumo em português de O Capital. Não prosseguiu. Achou os alunos despreparados. Em 1927, Basbaum, criava a diretoria provisória da Juventude Comunista com Karacik e Francisco Mangabeira. Em poucos meses recebiam mais de 100 adesões, 90% de operários, de 15 a 19 anos. Formalmente constituída, a 1o de agosto de 1927, sua primeira direção nacional era formada de quatro operários e três estudantes. Basbaum, secretário-geral, manteve o posto até 1929, quando completou 21 anos, e passou para os quadros do Partido. Ainda em 1927, a JU solicitou sua inscrição na KIM (Internacional Comunista da Juventude), sediada em Moscou, que logo ofereceu uma bolsa de estudos de três anos na Escola Leninista a um jovem operário brasileiro, Heitor Ferreira Lima.(20) A partir de 1928, passam a figurar estudantes nos comícios ao lado dos operários. A Juventude Comunista cresce. Ao VI Congresso da Internacional Comunista, comparece uma delegação brasileira composta de três membros, Paulo Lacerda, Leôncio Basbaum e um garçom José Lago Morales. Em Moscou encontraram Heitor Ferreira Lima, inteiramente russificado - "de botas, blusa e boné de pala virada para cima", no estilo Bukharin. Nesse Congresso, aliás, aprovou-se a condenação de Trotsky. No 5º Congresso da Internacional Comunista da Juventude todo o material de propaganda e educação marxista, enviado para os jovens do Brasil, era redigido - em espanhol. Ante o protesto de Basbaum, alguém da mesa perguntou - "então que raio de língua se fala no Brasil?" Basbaum passou a representante do Partido no Comitê Central da Juventude Comunista e participou do I Congresso Nacional da Juventude, em 1929. Apesar de tudo isso, o Partido continuava a ser, na retórica dos dirigentes, dos operários e camponeses. Os estudantes não passavam de linha auxiliar. Em maio de 1929, comitê de universitários, lançou manifesto de apoio a uma greve de gráficos. Assinavam-no Francisco Mangabeira, cujo tio era, na época, Ministro das Relações Exteriores; e Antonio Mendes de Almeida. Presos na Polícia Central não puderam comparecer ao comício na Praça da Sé. Em fins de 1928, a Juventude Comunista teria cerca de 200 membros, num Partido de 800. Estudantes eram pouco mencionados no fraseado dos manifestos de Prestes. Em 1930, tornam-se visíveis nas passeatas, de lenço vermelho ao pescoço. Em São Paulo, depois de um grande comício contra o Governo, montaram-se barricadas e no tiroteio houve jovens entre os mortos.(21) A tendência do Partido para o "obreirismo", palavra de ordem de Moscou, levou a várias defecções. Não favorecia, nem intelectuais, nem estudantes, estes em posição de inferioridade perante "operários e camponeses", destaque maior dos manifestos. Em 1934, a Juventude Comunista já desempenhava papel importante no 1o Congresso da Mocidade Operária-estudantil; e, em 1935, apoiaria o levante de Agildo Barata no 3o R.I. Na ilegalidade em que mergulhou, após esses acontecimentos, surgiu uma Federação Vermelha dos Estudantes que agrupava secundaristas e universitários. A ascensão de Vargas, a Ditadura do Estado Novo, lançando o Partido na clandestinidade, recalcou os estudantes e a Juventude Comunista para a subversão. Carlos Lacerda que começou a simpatizar com a Esquerda quando ainda na Faculdade de Direito, ingressou na Frente Popular, cuja criação levou à dissolução da Juventude Comunista.(22) No mesmo ano em que se proclamou o Estado Novo, era criada a Universidade do Brasil (Lei nº 452, de 05.02.1937), "pronta e acabada como Minerva da cabeça de Júpiter".(23) Mas enquanto o Ministério da Educação corria com esse projeto grandioso, instalava-se, em 1935, no Rio, sob a liderança de Anísio Teixeira, então Secretário de Educação do Prefeito Pedro Ernesto, a Universidade do Distrito Federal (UDF). Instaurado o conflito ideológico entre as duas entidades, a UDF foi considerada responsável por uma situação de "indisciplina e desordem' e extinta por decreto em janeiro de 1939. Já em abril do mesmo ano, pelo Decreto-Lei nº 1.190, o Governo criava, no Rio de Janeiro, a Faculdade Nacional de Filosofia, nos moldes de sua antecessora paulista, porque, em 1934, no Governo de Armando Sales de Oliveira, fundava-se a Universidade de São Paulo e, nesta, a Faculdade de Filosofia e Letras que se tornaria, com os professores Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni, numa das matrizes da difusão do Marxismo. Nomeavam-se professores para a Universidade do Brasil por autorização do Presidente, ouvida a Seção de Segurança Nacional.(24) Paradoxalmente, e sob esse regime asfixiante e o peso do obscurantismo e da intolerância do Estado Novo, vai o Marxismo penetrar nos cursos e cátedras universitárias, tornando-as alvos preferenciais do Esquerdismo. Do 2o Congresso Nacional de Estudantes (1938) saiu a proposta da criação da UNE (União Nacional de Estudantes) que teve sua primeira diretoria eleita em dezembro de 1939. A par do oficialismo que caracterizara esses Congressos - o Presidente Getúlio Vargas foi aclamado Presidente de Honra do conclave - repontam no seu temário e na sua linguagem, teses caras aos comunistas que se tornariam, mais tarde, verdadeira "marca de fábrica", tais como a necessidade de "libertar a economia nacional da exploração imperialista", as denúncias contra o "truste estrangeiro do papel" etc. Em 1939, durante o Ministério Gustavo Capanema, discutia-se a Reforma Universitária e nela Governo e Esquerda pareciam concordes. Essa lua de mel com o Estado Novo foi, no entanto, perturbada pela Guerra contra o Eixo e a luta antifascista que congregou universitários de vários matizes políticos; mas, em 1940, a UNE ainda pugnava pela paz e pela neutralidade do Brasil. De 1942 a 1945, a entidade, pressionada pela opinião, dedica-se à campanha contra os países do Eixo; e, em 1943, opunha-se à criação da Juventude Brasileira, conforme o modelo fascista italiano, proposto pelo Ministro Gustavo Capanema. Os movimentos estudantis da Esquerda lograram papel cada vez mais importante. Enquanto isso, as autoridades apegavam-se ao statu quo, aos consagrados rituais de poder e prestígio, as Universidades lançavam ao mercado turmas e mais turmas de bacharéis candidatos ao desemprego.(25) Cresceu o papel do radicalismo estudantil, muitas vezes incentivado por políticos e administradores, sobretudo depois que o fermento populista contaminou as estruturas da Universidade. Essa agitação que saía às ruas, conferia novo prestígio aos mandarins da educação, e aos burocratas a oportunidade de infinitas portarias e decretos. Não que a maioria dos estudantes se alistasse nas fileiras do radicalismo. Mas a minoria radical, cada vez mais marxizada, foi conquistando os postos de mando e, graças a uma legislação perversa, foi pesando na administração da Universidade, nos seus destinos e desatinos. A UNE visava, de início, congregar estudantes. Tinha caráter apolítico. Entre os anos 1940 e 1942, empreendeu campanha no sentido de mobilizar a opinião pública e o Governo para participação na II Guerra Mundial contra o nazifascismo. Era praticamente tutelada pela Ditadura, funcionava em sala do Ministério da Educação. A partir de 1943 começam a aparecer indícios de insurreição. Comunistas e democratas passaram a lutar contra a Ditadura. Entre 1944 e 1947, os estudantes democratas venciam as eleições. Constituíram-se Diretórios representativos dos discentes de cada Faculdade, entre eles o Diretório Central dos Estudantes da então paranoicamente chamada Universidade do Brasil. A partir de 1959, aprofunda-se a marxização da UNE. Os temas versados passaram a ser eminentemente políticos e tratados sob o ângulo dos interesses da Esquerda. Quando Marialice Foracchi, nos anos 60, elaborava sua pesquisa sobre o estudante universitário, as principais organizações que dividiam a massa universitária, além da UNE, eram (a) a Juventude Universitária Católica (JUC), (b) o Partido Comunista que atuava através dos seus diretórios estudantis, (c) a Ação Popular, (d) a Política Operária (PLOLOP) e (e) a Quarta Internacional. Eram todos de Esquerda com dosagens diversas da ideologia marxista. O Partido de Representação Acadêmica (PRA), criado na Faculdade de Direito da USP, era considerado de Direita. E havia, ainda, os chamados “independentes” que permeavam todas as unidades estudantis e procuravam quebrantar a influência crescente da Esquerda católica. Todas essas facções, salvo a última, se vinculavam a correntes políticas de âmbito nacional e macaqueavam as linhas dominantes do processo político. Nos anos 60 dá-se o momentoso encontro, verdadeira pororoca ideológica, entre a Juventude Universitária Católica, a Esquerda Católica e o Esquerdismo marxista. A Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) desempenhou papel importante na agitação estudantil e no processo de marxização da Universidade. Diz um historiador desses acontecimentos que, durante o período de 1960 a 1964, a Faculdade foi "uma espécie de escalão avançado do movimento estudantil como um todo”.(26) Isso se explica pela variedade de seus cursos e pela estrutura interdepartamental que ensejava maior contato de professores com alunos e, destes entre si, nas várias disciplinas. O período é de intensa politização - leia-se de doutrinação esquerdista. É o momento em que se forma, no movimento estudantil, uma frente única de católicos e comunistas, que um autor de vistas largas considerou "precursora do pensamento ecumênico em nosso país".(27) Daí por diante, até 1964, a Nacional-Esquerda domina o movimento estudantil. Essa intensificação da atividade política do estudante universitário, sem outras compensações no plano do saber e da cultura, era, em certo sentido, uma medida do fracasso da Universidade como comunidade acadêmica. Lipset vincula a participação política do estudante latino-americano em geral ao mau treinamento e à baixa profissionalização do corpo docente. "Onde o professorado é de tempo parcial, como na maioria da América Latina, a tendência dos estudantes é dar mais atenção a preocupações não acadêmicas, inclusive políticas".(28) Citava o Reitor de uma Universidade hindu que acreditava ser sua alta função retirar os jovens das ruas, para impedir que se tornassem delinqüentes. "Em compensação", dizia o bom Reitor, "nós os convertemos em comunistas". Parece que nisso também influía a origem social dos estudantes. Marialice Foracchi, em seu estudo sobre o papel do estudante na transformação da sociedade (1965) sugeria que "as condições sociais de participação do estudante no processo brasileiro devem ser investigadas no contexto de sua classe de origem que é, predominantemente, a pequena burguesia ascendente, denominada por alguns autores de nova classe média. E, dá ênfase à condição de dependência que daria ambivalência à ação de classe".(29) O que se evidencia, nesses anos 60, é a crescente politização da massa estudantil tal como definida em documento da UNE: "A massa estudantil precisa ser politizada pois sua tarefa é politizar as massas populares".(30) Foracchi considera a politização da massa o problema básico em cada novo movimento estudantil, e que só pode ser compreendido como "expressão da eficiência do trabalho partidário". Por aí, negava capacidade de subversão a esses movimentos. De braço dado com os comunistas, os católicos de esquerda fomentaram a marxização - estimulando a participação das Universidades Católicas nesse amplo movimento. Um Manifesto do Diretório Central da PUC do Rio, denunciava o caráter privilegiado do estudante universitário, convocavam-no à rebelião contra o clericalismo na religião, o capitalismo na economia, e o reacionarismo na política. A opção da Ação Popular (AP) era revolucionária e o rumo era o socialismo. Segundo o Professor Cândido Mendes de Almeida, que analisou o Manifesto, com a gravidade habitual, "sua autenticidade estaria nesta passagem à ação prática imediata, compensando dessa forma o longo silêncio da Igreja face aos problemas de uma sociedade em mudança radical".(31) Em 1966, os autores mais lidos e que mais colaboraram na elaboração de uma ideologia radical católica seriam Lebret, Mounier, Marx, Sartre, Teilhard de Chardin - mais apregoado que lido - e o Padre Henrique de Lima Vaz. Em segundo plano vinham Saint-Exupéry, Michel Quoist, Khalil Gibran, Celso Furtado e Josué de Castro - este publicara, em 1947, sua Geografia da Fome, de grande repercussão. Geopolítica da Fome que o seguiu é de 1951. Esses autores - e seus leitores - começavam um tímido descomprometimento face às idéias de Marx. Em breve, iria se acentuar, transformado, às vezes, em aberto rompimento - mas nem todos e nem sempre desligados da nebulosa marxista que continuava a rolar, ovante, pelos firmamentos universitários. A situação política precipitava a radicalização. A 28 de março de 1964, os Diretórios Acadêmicos das Faculdades Nacionais de Direito (CACO) e da Filosofia, da Universidade do Brasil, mais o de Sociologia da PUC, lançavam manifestos de apoio aos marinheiros e fuzileiros navais em greve permanente na sede do Sindicato dos Metalúrgicos. Fizeram mais: no dia 31 de março, mal ouvidas as notícias do levante em Minas Gerais, exigiram do Governo Jango que lhes desse armas para a resistência. Tiveram de se contentar com "manifestações antigolpistas" na Cinelândia, no Rio de Janeiro. Com a depredação da sede da UNE, o presidente José Serra pediu asilo à Embaixada do Chile e juntou-se a outros líderes revolucionários que buscavam o caminho do exílio. Concluía-se dessa forma um ciclo de agitação estudantil que, daí por diante, iria se desdobrar em trágicas conseqüências, no terrorismo e na ilegalidade. Poerner, dá testemunho insuspeito do sucesso e dos rumos dessa marxização: "... No momento em que se confundiu, na Faculdade, o apoio ao Diretório com uma posição esquerdista, inflacionou-se a Esquerda e baralhou-se o esquema de forças políticas existentes. Este, o primeiro erro de análise e, talvez o mais catastrófico, por ser o mais generalizado. A partir dele, os analistas lúcidos e frios - que almejavam uma FNFi atuante politicamente, mas, sobretudo, voltada para problemas universitários e para a modificação da estrutura do ensino - perderam o controle da situação". "De um momento para o outro", depõe o mesmo escrupuloso cronista, "a FNFi se transformara em Faculdade com a mais alta percentagem de socialistas em toda a América Latina. Em menos de seis meses, jovens de vinte e poucos anos, recém-egressos de suas leituras machadianas, davam por absorvidos, com uma superficialidade que chegava a ser comovente, os textos de Marx e Engels".(32) Para o autor tudo isso não passava de delírio coletivo que levava muitos estudantes a caírem vítimas de outra forma do mal que combatiam. Tratava-se, segundo esse clínico, de uma "doença infantil" - o esquerdismo. Constata esse historiador dos movimentos estudantis, que, daí por diante, "para a maioria dos jovens que cursavam a FNFi, nos últimos meses de 1963, estudar passou a ser um "desvio pequeno-burguês" (as aspas são de Poerner) pois a cultura estava morta e a Faculdade representava um monumento ao latifúndio (sic). Afinal, importava que estudassem!", constatação extraordinária. Paradoxalmente, Poerner, acha que, por esse tempo, princípios de 1964, a Faculdade, já se achava "rachada". "Já tinha saído da moda ser apenas de Esquerda. Num processo que tem suas semelhanças remotas com a Revolução Cultural Chinesa (sic) o grau de radicalização da faculdade chegara a um ponto em que era preciso providenciar, imediatamente, uma Revolução para que nela se engajasse a FNFi". A Revolução veio, mas em sentido diverso do que pensavam os ativistas da FNFi. A vanguarda estudantil carecia de lastro político próprio, daí o divórcio entre cúpula e base nesses movimentos. A participação dos estudantes era destituída de suporte ideológico, desprovida de coordenadas políticas - o que só foi parcialmente superado nas greves e movimentos de protestos - e no terrorismo - pós-1964. Daí o caráter abstrato e altamente teórico dos manifestos. "... Quando (a cúpula) teoriza é porque não sabe como agir".(33) Essa indecisão impregnou os documentos do movimento estudantil dos anos 60, ora apoiando a Revolução cubana e militando contra a Aliança para o Progresso, ora clamando pela necessidade de atuar o estudante sobre problemas especiais de sua categoria. Fica-lhe, então, um papel histórico, de conscientizar (ainda que massa privilegiada) as massas populares - embora, segundo Foracchi, "sua capacidade de identificar-se com os oprimidos, nada mais expressaria senão as suas aspirações sociais frustradas". Para a pesquisadora paulista, "... o estudante brasileiro não representa, em termos socioeconômicos, uma camada privilegiada, e sim, uma camada em mobilidade ascensional que acumula recursos para firmar-se socialmente. A formação universitária representa um nivelamento e uma responsabilidade".(34) Essa afirmativa ganha importância, fundamento e amplitude, com a "abertura" da Universidade nos anos subseqüentes e a conseqüente "massificação" que a desencadeou. Os anos 70 viram a tranqüila ocupação da Universidade brasileira por esse Marxismo faccioso. O fenômeno é tanto mais marcante quanto mais pesava, fora dos muros acadêmicos, a intransigência do regime militar, a censura sobre a imprensa e demais meios de comunicação, contribuindo tudo isso a agravar a atmosfera opressiva daqueles tempos, tão bem retratada, entre outros, nos livros de Zuenir Ventura, Márcio Moreira Alves e Fernando Gabeira, cuja obra mereceu, há pouco ser levada às telas. Enquanto aumentava a pressão ditatorial sobre a inteligência e sobre as próprias Universidades, a infiltração marxista se processava a escancaras, na cátedra e no livro, no controle efetivo do ensino e, às vezes, na administração dos Departamentos. Embora não se possa subscrever, em forma ou substância, a frase de Zuenir Ventura -"a geração de 1968 talvez tenha sido a última geração literária do Brasil" (35) não há dúvida que os jovens universitários desses aflitos tempos liam bastante. Mas que autores? Marx não, certamente, não obstante a edição portuguesa da Civilização Brasileira, a não ser por dever e devoção, talvez por penitência, na intimidade das células e dos conciliábulos; mas certamente Marcuse, seu profeta que, em Reason and Revolution, Eros and civilization, propõe uma hábil fusão entre Marx e Freud e dá aos jovens a arma ideológica que desejavam - a repulsa à tecnologia - cujos subprodutos gostosamente usavam - a liberação do sexo e da droga e a revolta contra os pais. Marcuse, em 1968, era uma novidade. Conciliando Marx e Freud, ele fornecia ambiciosos objetivos políticos ao movimento estudantil, "já que o papel de vanguarda da revolução", dizia ele, "se transferira da classe operária, engajada no processo produtivo, para as minorias sociais, para os marginalizados pela sociedade industrial e, principalmente, para os estudantes". Ensinava que, em lugar da exploração bruta, o capitalismo passava a impor novas formas de controle social, mais efetivas e agradáveis. Diante desse quadro, "o proletariado, seduzido pela sociedade de consumo, passava a não pensar mais em revolução, só em casa de veraneio". Havia proposta mais sedutora para quem, como o jovem idealizado por Marcuse - estar biologicamente destinado à revolta? Não foi Marcuse o único guru dessa geração.(36) Outros disputavam essa influência, Mao, Guevara, Debray , o pétreo estalinista Lukacz, sobretudo Gramsci, os autores da Escola de Frankfurt - Walter Benjamin, Adorno, o ascendente, jamais cadente, Eric Hobsbawm, marxista inglês, e o então noviço Umberto Eco que ainda esperaria alguns anos pelas grandes tiragens da perversa O Nome da Rosa, e Althusser que propunha nova leitura de Marx, nova interpretação teológica dos santos livros. A revista Civilização Brasileira, de Enio da Silveira, acolhia autores prestigiosos. Corria de mão em mão. Entre seus colaboradores o agora, avançado e liberal Alceu Amoroso Lima, o futuroso Fernando Henrique Cardoso, Ferreira Gullar, Paulo Francis, ao tempo trotkista - depois, em boa hora, convertido à democracia, por isso repudiado e mantido no escanteio - Nelson Werneck Sodré, Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho - todos crismados "aprendizes de Lukacs". Nas Universidades Católicas a infiltração marxista continuou ao longo dos anos 70, como demonstra a crise instaurada na PUC do Rio, em 1979, deflagrada pela censura imposta por ato do Diretor do Departamento de Filosofia a um texto do professor Miguel Reale, escolhido por uma professora para leitura e debate. Reagiu a professora e uniram-se ao seu protesto outras vozes. Verificou-se que o mesmo diretor havia determinado a extinção da cadeira de Ética Social o que motivou reação de seu regente, o Padre Ney Sá Erp. As autoridades universitárias estavam convencidas de que controlavam a Universidade. Na realidade, a política era ditada pelos Conselhos Departamentais em que selecionavam os membros das bancas examinadoras, os regentes das disciplinas, e tutti quanti. Esse avanço se dava pelo boicote a qualquer dissidência e pela seleção dos detentores de cargos de ensino e administração departamental, muitas vezes à revelia da cúpula universitária, outras - é bom dizer, a bem da verdade - com a omissão dela e sua cumplicidade tácita. Na Europa, nos arraiais das ciências da sociedade, muito antes da queda do Muro e do desmoronamento do regime soviético e dos seus satélites, o Marxismo era visto como doutrina sectária e ultrapassada. Com exceção da França, não desfrutava do prestígio intelectual dos anos 40 e 50. Nada parecia alterar, nestes trópicos, a tranqüilidade dos meios acadêmicos, cada vez mais dominados pela Esquerda, criando o paradoxo de um ensino superior eivado de Marxismo sob um regime militar em choque contra a guerrilha armada, o terrorismo e a subversão. Como isso podia acontecer quando as autoridades educacionais e universitárias eram escolhidas ou aprovadas pelo Governo, quando um dos Ministros da Educação, era, ele próprio, militar; quando as Universidades eram submetidas a um sistema de fiscalização que chegava a extremos de espionagem policial, quando as lideranças universitárias eram objeto e vítimas de constante e inquisitorial investigação? É o que a nosso ver, se deve a vários fatores. Em primeiro lugar ao bom-mocismo típico do caráter brasileiro que aborrece as atitudes nítidas e cortantes, prefere as moles e acomodatícias. Além disso, por um erro de julgamento. Enquanto as cúpulas universitárias e as autoridades educacionais imaginavam que conseguiam manter uma Universidade esterilizada dos bacilos esquerdistas, estes penetravam tranqüilamente nas estruturas formais e informais da comunidade universitária. Isso só foi possível depois que as Universidades cresceram em população, começaram a sofisticar sua organização e a adotar o modelo formal dos departamentos, copiado das escolas americanas, substituindo-os às antigas cátedras, consideradas anacrônicas e até "feudais". Esse modelo criava uma pirâmide de conselhos, desde o departamental - a célula brasileira - até o Conselho Universitário. O controle desses conselhos passou a ser tema e alvo dos grupos de Esquerda que se dedicaram a essa tarefa com a habitual pertinácia, aplicando a esse objetivo todo o tempo e forças disponíveis. A eleição dos membros desses corpos, na estratégia de conquista do poder, tornou-se momento importante da vida universitária. Para isso mobilizavam-se todos os recursos e, com a notória falta de ética desses grupos - na eliminação dos adversários, eram adequados todos os meios. Em nome de uma suposta autonomia universitária, reivindicou-se para a formação de corpos eleitorais uma participação cada vez maior dos estudantes e dos funcionários. Pleiteou-se para essas categorias, mais manobráveis pelos partidos e partidões, peso igual ao voto dos docentes. Verdade se diga que os grupos de Esquerda, nem sempre constituídos pelos melhores alunos, recrutavam uma "galera" mais presente e assídua. Na realidade, para eles, com honrosas exceções, o estudo, a aplicação, a nota, eram secundários diante da presença na eleição, na passeata, na assuada e no protesto. Foram assim, aos poucos, conquistando conselhos e congregações onde se preparava a pauta para as reuniões dos Conselhos Universitários. Estabelecia-se, dessa forma, nesses corpos acadêmicos, um verdadeiro rolo compressor que comandava as votações e as decisões. A mesma pressão se exercia nos concursos para docência através da seleção dos membros das bancas examinadoras. Tudo começava nos exames da tese e da monografia, para mestrado e doutorado, em geral degraus iniciais para a plenitude da docência. Eram, por via de regra, cerimônias, cujo ritual impecável, dentro das aparências, levava à consagração do certificado, do grau, do título. Supunha-se que o trabalho apresentado, dissertação ou monografia, atendia aos requisitos de desempenho e perfeição fixados pelos mais estritos padrões universitários. Na prática, tal não ocorria. Casos houve de candidatos que encomendavam esses trabalhos a ghost writers bem pagos que se encarregavam de apresentá-los, em tempo hábil, para o exame. Daí por diante, o candidato se esmerava na memorização e na agilidade da desconversa diante de uma banca mais exigente e agressiva. Esses comportamentos acadêmicos se conciliavam com uma cultura formalista. Nessa massa mole de complascência, a lâmina do Marxismo trabalhou com facilidade, ditando nomes, selecionando autores, discriminando outros, deturpando doutrinas e assoalhando inverdades, num trabalho eficaz de subversão da inteligência. Na medida em que os Departamentos representavam a vida real da Universidade e os Conselhos os comandavam, pouco fazia aos seus mentores que a cúpula universitária, alienada, continuasse a crer, de pés juntos, na pureza da doutrina e da prática democrática. Essas boas intenções, nutridas na atmosfera rarefeita dos gabinetes de Brasília, desmoronavam na intimidade dos estabelecimentos de ensino, no caso das Universidades particulares, roídas pelo mercantilismo; no caso das Universidades públicas, pelo oficialismo e pelos compromissos políticos. Em uma Universidade Federal houve um Reitor, notoriamente de Esquerda, que preparou sua reeleição, nomeando três mil funcionários. O modelo norte-americano prosperou, entre nós, dentro de um quadro institucional e comunitário muito diverso do anglo-saxônico, este dinamizado por uma participação efetiva e conduzido por lideranças autênticas, na clivagem dos grupos étnicos que se defrontam na sociedade americana, hoje presa das contradições de um liberalismo rousseauniano apodrecido. Não se tratava de um confronto de idéias, de um debate leal de doutrinas, mas de uma luta pelo poder, de um choque de burocracias que só levaram à massificação e à mediocrização do ensino, subordinadas suas exigências às solidariedades escusas das panelinhas universitárias. Nisso capitularam os governos militares que trocaram a realidade pela aparência e, absortos no progresso material e tecnológico, abandonaram a educação - e os problemas sociais - aos seus novos senhores, as lideranças da Esquerda. Apoiavam-se no pessoal miúdo da mídia, comodamente aconchegado nas redações de jornais e estúdios de TV, tidos como burgueses, conservadores, até reacionários - e que passou a manipular a notícia, o comentário, até o artigo de fundo. É de notar que essa invasão não resultou, pelo menos nas Ciências Sociais, nem em obras notáveis, nem em pesquisas reveladoras. Ao contrário, produziu frutos ideológicos, demonstrações do óbvio, tendentes a demonstrar ou expandir os refrões da propaganda esquerdista. Passamos, desta forma, do dogmatismo positivista para a ditadura intelectual desse Marxismo vira-lata. Não se diga que nos enquistamos em sectarismos estreitos para essa afirmação. Cabe distinguir, com Wright Mills, entre Marx e os marxismos, escoimando a obra do economista e sociólogo, notável instrumento de crítica das sociedades burguesas, apesar dos seus erros e contradições - assinalados por Weber, Wright Mills, Raymond Aron e tantos outros - e a política de infiltração e subversão do marxismo-leninismo, o terrorismo cultural das elites de Esquerda que visam à tomada do Poder pelo Poder, em nome, é claro, da libertação das massas, da ascensão do proletariado e da superação do capitalismo. Em nome desses ideais sacrificou-se, muitas vezes, a objetividade científica e a verdade histórica, criou-se, à margem da narração imparcial dos fatos, uma anti-história e uma paraciência. Em Ciência Social, o estudo objetivo da realidade, o rigor do método depurado por Le Play, Durkheim, Pareto, Weber, Sombart, foi substituído pelas análises de Lukacs, servo fiel de Stalin e pelas elocubrações de Sartre. Apagaram-se claridades, cresceu a zona cinzenta entre a ortodoxia e as heresias marxistas. Os departamentos universitários tornaram-se a arena dos choques entre marxistas de estalinismo estreito, "cubanos", maoistas, enfim, as diversas "linhas" em que se refratava a multiforme dialética nas discussões infinitas dos bares e cafés. Depois de 1964, mudara a problemática social brasileira. Enquanto os problemas rurais eram a dominante nas preocupações acadêmicas nas décadas anteriores, bem como o tema das migrações internas e da assimilação e aculturação do imigrante - nos anos 70, as cidades passaram a tomar lugar de relevo na ótica dos cientistas sociais, com elas, experiências de planejamento regional e urbano, de colonização interna, de favelização, de segurança urbana, de condição do migrante urbano. Precisamente nessa época, quando a ciência social deveria afinar seus métodos para enfrentar esses novos problemas, muitos se empenhavam, ao contrário, na luta ideológica e esgrimiam com garbo toda a parafernália do que se veio a denominar "sociologia do conflito" - como se a sociedade brasileira fosse ringue de boxe, aberto entre categorias abstratas, burguesia e proletariado. Hoje os mesmos conceitos se aplicam aos sem-terra, aos sem-teto, e assim por diante. É preciso notar que não estamos aqui diante de um mero choque de doutrinas, um debate intelectual que poderia produzir lucros para os contendores. É característica do conflito ideológico deixar marcas profundas, mutilações, ressentimentos, sobretudo quando levado a termo, sem nenhuma preservação de princípios éticos fundamentais - quando transborda da oposição de idéias para a luta crua pelo poder. A marxização da inteligência brasileira é tema mais amplo que o aqui tratado. Implicaria uma pesquisa e um aprofundamento em nossa história das idéias fora dos limites deste trabalho. Não se trata, repetimos, de minimizar a obra de Marx, mas de separá-lo dos marxistas locais e traçar as derivações que aqui tomou o Marxismo e seus efeitos na vida universitária brasileira, no revolucionarismo explícito dos anos 60 e 70. É esse período de fermentação marxista, onde se repetem ortodoxias e heresias, onde se chocam e mal conciliam os clássicos - Marx, Engels, Lenin – com os novos teóricos como Sartre, Lukacs, Althusser. É o tempo das "apostasias" - de Oswaldo Peralva e Agildo Barata. É quando se produz farto material de leitura, original e traduzido, em história, economia, sociologia, pedagogia; revista como Tempo Brasileiro, de Eduardo Portela e a importante contribuição a tudo isso da Editora Civilização Brasileira. Tudo isso serviu de lenha à fogueira das esquerdas universitárias. Com a Revolução de 1964 e a ditadura que lhe seguiu, mais o aparelho censório manejado por mãos incipientes, perdeu-se a possibilidade de uma crítica objetiva que se contrapusesse à Esquerda marxista e, até, propiciasse possibilidade de uma Esquerda democrática, apta a desfraldar a bandeira das reformas sociais sem identificação ou vinculação com o Marxismo, a "ditadura do proletariado" e a subversão. A penetração marxista em nosso ensino universitário deixou marcas indeléveis. Ainda hoje, essa ideologia não é simples lembrança ou saudosismo. Persiste, sob a fachada da democracia liberal ou debaixo das tênues maquilagens do socialismo caboclo - nas invasões de propriedades, nas ocupações de gabinetes de Reitores e Ministros; no sindicalismo tumultuário que não mais se limita a reivindicações de classe, mas se arroga o direito de mudar o regime político e exigir a renúncia do Presidente, em marchas e demonstrações de cunho fascista; no convívio fronteiriço com movimentos subversivos tais como o Sendero Luminoso, a guerrilha e o narcotráfico colombiano; na ternura com que acolhe o ditador cubano e o festejo em assembléias universitárias, enquanto o próprio Fidel, em cerimônia pública, dava as costas aos colegas e, num gesto de soberano desprezo, fugia à fotografia - para ir ao banheiro; na mística desagregadora dos "direitos humanos" que serve para acobertar impunidades, vitimizações e injustiças; na Universidade, enfim, nas suas panelinhas, cortejadas pela mídia, que alimentam badernas e mediocridades acadêmicas. Persistirá, enfim, enquanto não conseguirmos criar, no campus, condições de estudo, trabalho, criação e meditação, e verdadeiros mecanismos de participação democrática, lideranças autênticas; enquanto não desatrelarmos a Universidade das burocracias estatais, fazendo da autonomia universitária algo mais que uma palavra. Notas 1. "Não é de espantar que o estudante brasileiro de tempo parcial responda a estímulos ideológicos e se junte aos movimentos de protesto, passeatase até à guerrilha urbana. Atribui as desigualdades sociais ... à classe médiade onde provem, mas cujos valores, rejeita... Sua origem e a educação que recebe o condicionam à mentalidade elitista típica de uma sociedade estratificada". José Arthur Rios, The University student and Brazilian society, Michigan State University, 1971, p. 33. Ver lista dos teóricos da "Educação Revolucionária" in Ernane Galvêas, A Educação no Brasil in CNC, Carta Mensal, vol. 39, no 457, Rio de Janeiro, abril, 1993 (incluído no livro de mesmo nome, CNC, Rio de Janeiro, 1995, pp.103-04). 2. Timothy F. Harding, The University, Politics and Development in Contemporary Latin America, Research Seminar Series, no 3, Riverside, University of California, 1968, pp. 5, 11. 3. T. Lynn Smith, Brazil, People and Institutions, Baton Rouge, Louisiana University Press (1946), 1.072, p. 461. 4. Típico exemplo dessa tendência é a Preparação à Sociologia, de Alceu Amoroso Lima, 1931, e a obra de autores menores, de timbre conservador, como a de Amaral Fontoura, lido nas Escolas de Serviço Social, de caráter confessional que, nos anos 40 e 50, se multiplicaram em todo o País. 5. Dados in Djacir Menezes, Idéias contra Ideologias, Rio de Janeiro, UFRJ, 1971, p.51. IBGE, Brasil, Séries Estatísticas. Retrospectiva, 1977 e Anuário Estatístico do Brasil, 1995. Hoje, contamos com 156 milhões de pessoas e a população matriculada em Universidades subiu para um milhão, ou seja, cresceu 4.472% sobre 1940. 6. Djacir Menezes, op. cit., p. 54. Para um confronto com situações e Carta Mensal Rio de Janeiro, v. 45, n. 538, p. 30-59, jan. de 2000. Problemas mais recentes, ver, Fernando de Mello Freyre, Breves considerações sobre alguns problemas nas Universidades brasileiras, Recife, Fundação Joaquim Nabuco, 1981, p. 18. 7. Vamireh Chacon, História das Idéias Sociológicas no Brasil, São Paulo, Editora USP/Grijalbo, 1977, p. 85. 8. Esses conceitos, Tobias os hauriu diretamente da 3a edição de O Capital, de 1883, que cita escrupulosamente. Mas, desde 1879, já vinha falando em luta de classes. Vamireh Chacon, História das Idéias Socialistas no Brasil, Rio de Janeiro, 1965, pp. 265-66. "É impossível dizermos exatamente quando o nome do autor de O Capital foi pronunciado (sic) pela primeira vez em letra de forma... É muito provável que sempre continuem a pairar algumas dúvidas sobre o começo dessa história". Leandro Konder, A Derrota da Dialética, Rio de Janeiro, Campus, 1988, p. 67, sugere que foi na década de 1870, como eco dos acontecimentos da Comuna francesa (1871), em citação de Lúcio de Mendonça, na Câmara dos Deputados (p. 68). De ciência certa, no entanto, parece que a primeira referência é a de Tobias Barreto, ainda que Evaristo de Moraes Filho, Medo à Utopia, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985, p. 91, ache que o pensador de Escada não teria lido Marx. 9. Gilberto Freyre, Ordem e Progresso, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, vol. II, p. 629. 10. Chacon, História dos Idéias Sociológicas, p. 82, n. 2. Sobre Hermes Lima, ver sua biografia intelectual, in Sérgio Miceli, Intelectuais e classe dirigente no Brasil, São Paulo, 1979, pp. 41 e ss. E suas memórias, dele Hermes Lima, Travessia, Rio de Janeiro, 1974, onde se descreve, do ponto de vista do A.,o momentoso concurso à cátedra da Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Embora obscura a caracterização de "bacharel livre" dada por Miceli a Hermes Lima, assim como o rótulo de "anatolianos' a outros intelectuais, é importante sua indicação do conflito ideológico subjacente aos concursos. "As disputas entre os defensores das doutrinas materialistas e os porta-vozes dos princípios espiritualistas permearam as lutas em torno das posições docentes mas também se estenderam às organizações estudantis, de um lado a Liga dos Estudantes Ateus, a Federação dos Estudantes Vermelhos, e de outro, o pessoal católico (sic) do CAJU (Centro Acadêmico Jurídico Utilitário). Na verdade o que estava em jogo era o controle ideológico e da gestão da Faculdade de Direito que continuava sendo uma das principais instâncias de recrutamento e formação dos futuros quadros políticos e intelectuais da classe dirigente". Miceli, op. cit., p. 48. Isso se passava em 1933. 11. Moniz Bandeira e outros, O Ano Vermelho, Rio de Janeiro, 1969, p. 193 e Konder, op.cit., p. 122. Por esse tempo, lia-se Marx, Engels e outros autores socialistas, sempre em tradução francesa - o que levou Wilson Martins, a dizer que o socialismo pode ser tido como outras das "nossas idéias francesas", História da Inteligência no Brasil, V, Rio de Janeiro, 1978, p. 178. O Socialismo teria próspera fortuna, entre nós, e, especificamente,o Marxismo. Em 1907, ninguém menos que Pedro Lessa, escrevia "Seu triunfo é infalível, necessário". Martins, op. cit., p. 339. 12. Euclides da Cunha é o primeiro intelectual brasileiro importante a ter tido uma idéia global de Marx. Isso não quer dizer, evidentemente, que ele se tenha tornado marxista (Konder, op. cit., p. 95). Sobre o conflitivo diálogo entre Marxismo e Anarquismo, no começo do século, muito a propósito, as considerações de Konder. 13. Ao contrário do pai - marxista de primeira hora e comunista militante de quatro costados - o poeta Martins Fontes, parnasiano de Santos, era anarquista (Konder, op. cit., pp. 110-11). Sobre esse diálogo-duelo, entre anarquismo e comunismo, ver o minucioso, exaustivo John W. Foster Dulles, Anarquistas e Comunistas do Brasil, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1977, pp. 159-87. 14. Norberto Bobbio descreveu, na Itália do fim do século XIX, a mesma relação ambígua entre Positivismo e Marxismo, "...Estiveram sempre em desacordo sobre o modo de compreender a 'verdadeira' ciência, e, rivais como foram muitas vezes no mesmo terreno, trocaram-se acusações por não se terem liberado da metafísica e de serem, apesar de tudo, não científicos. Para ser científico, Marx teria de libertar-se da herança hegeliana, os positivistas da comteana. Foram, todavia, ambas, filosofias leigas, mundanas, nascidas da grande revolução do século que foi a revolução industrial, da qual o Positivismo foi a interpretação confiante e benévola, o Marxismo, a catastrófica". Profilo Ideologico del 900, Milão, pp. 22-23. Mutatis mutandis e ressalvada a falha de usar a expressão generalizante -"Marxismo", sem explicitá-la - essa relação de amor e ódio reflete-se entre nós. 15. "Entre os sete delegados que fundaram o Partido havia um, Cristiano Coutinho Cordeiro, professor e advogado. Não pude saber se era docente do ensino superior. Os demais eram trabalhadores ou artífices de pequeno ofício" (Konder, op. cit., p. 138). Konder considera a tradução do Manifesto por Octávio Brandão, um marco na divulgação das idéias de Marx no Brasil. No entanto, mesmo entre os comunistas, ainda os mais lidos, era generalizada a ignorância. "Os comunistas brasileiros, em geral, admitiam que conheciam muito mal os textos 'clássicos' do comunismo” (Konder, pp. 142-43). Quando Abílio de Nequete, que fundara em 1913, em Porto Alegre, a primeira associação bolchevista do País, a União Maximalista - perguntava a seus companheiros se tinham lido Lênin, recebia resposta negativa e causava má impressão. Acabou saindo do Partido e elaborando a teoria de que a revolução não seria feita pela classe operária e sim pelos técnicos (Ap. Dulles, op. cit., p. 149). Nisso, precursor do ISEB. Os jornais proletários, aliás, eram lidos nas reuniões em voz alta, porque a maioria dos operários era analfabeta (Brandão, ap. Dulles, p. 41, n. 36). 16. Por via de Comte e Spencer, o Positivismo e o cientificismo "contaminam" de "direitismo", em alguns autores, a pureza da ideologia marxista. É o caso, acusa Konder, de Octávio Brandão e dos professores Leônidas Rezende e Castro Rebello (Konder, pp. 147, 152-55, 180). Leônidas Rezende escrevia artigos em A Nação, sobre Marx e Comte, que Brandão considerava "tijolos" e via como uma "salada". Filiou-se ao Partido em 1927. Octávio Brandão, procedente do anarquismo, converteu-se ao marxismo lendo livros fornecidos por Astrogildo Pereira. A 15 de outubro de 1922, ingressava no comunismo. Até essa época eram escassos os estudantes no movimento. O alvo era o operariado, seus sindicatos e federações. Brandão, inspirado em Lenin, lido em francês, redige, em 1924, a primeira tentativa no Brasil de análise marxista - Agrarismo e Industrialismo, Buenos Aires, 1926 (Ap. Dulles, ib. p. 151). 17. Antonio Paim, ap. Konder, op. cit., pp. 181-82. O primeiro estudante marxista de que se tem notícia na atividade partidária foi Rodolfo Coutinho, pernambucano que ajudara a formar o Círculo de Estudos Marxistas no Recife e foi suplente na primeira Comissão Central Executiva (CCE) do Partido, reunido em 1922. Em 1924, viajou para Moscou com Astrogildo Pereira a fim de obter o reconhecimento do PCB pela Internacional comunista. Lá ficou até 1927, dividindo quarto com um oriental (Moniz Bandeira e outros, op. cit., p. 296). Foi depois professor no Colégio Pedro II. Exercia grande influência na Juventude Comunista. Era simpatizante trotskista, o que o levou a demitir-se do Partido quando viu o crescimento do estalinismo e da alta prestista. Astrogildo examinando mais tarde esses debates, concluiu que resultavam de uma insuficiência teórica. E constatou, como Machado de Assis, que "a confusão era geral" (Dulles, op. cit., p. 287). 18. O trecho é luminoso. Mas por que restringir ao stalinismo um vezo que é do Marxismo em todas as suas modalidades e espécies? Por aí se explica a volta do Positivismo no processo de decomposição do Marxismo. Não podia ser outro o desfecho na rota desse Marxismo pragmático quando buscava o Poder pelo Poder. Atribuir esse pendor aos "mecanismos de mercado" etc., como fez Leandro Konder (p. 201) é extrapolar do nível da economia para o da ideologia. A citação de Marx que compara a redução do valor de uso ao valor de troca à divindade de Cristo - e que, Konder, parece encampar - essa comparação, então, é delirante (Konder, op. cit., pp. 182 e ss). 19. "No ensino superior, o nome de Marx, só muito raramente era mencionado; e, quando isso ocorria, em geral, estava sendo dita alguma tolice sobre ele" (Konder, op. cit., p. 113). Sobre o ecletismo, forma de disponibilidade intelectual e seu peso ideológico, ver Konder, op. cit., pp.149 e ss. 20. Sobre tudo isso, ver Dulles, op. cit., pp. 268-70. 21. Ib. p. 356. 22. Carlos Lacerda, Depoimento, Rio de Janeiro, 1977, pp. 35-36. 23. Simon Schwartzman e outros, Tempos de Capanema, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984, p. 208. Ver Maria Hermínia Tavares de Almeida, "Dilemas da institucionalização das Ciências Sociais no Rio de Janeiro", in Sérgio Miceli, História das Ciências Sociais no Brasil, vol. I, São Paulo, IDESP, 1989, p. 188 e ss. 24. Ap. Schwartzman, ib., p. 218, n. 27. 25. Harding, op.cit., p. 13. 26. Arthur José Poerner, O Poder Jovem, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968, p. 215. 27. Ib, p. 195. 28. Seymor Martins Lipset, University Students and Politics in Underdeveloped Countries in Minerva, vol. III, no 1, 1964, pp. 38-39. 29. Marialice M. Foracchi, O Estudante e a Transformação da Sociedade Brasileira, São Paulo, 1965, pp. 220-22. 30. Foracchi, op. cit., pp. 225, 228. 31. Cândido Mendes de Almeida, Momento dos Vivos, ap. Poerner, op. cit.,pp. 198-209. 32. Poerner, op. cit., pp. 223, 226. 33. Foracchi, op. cit., p. 235. 34. Ib., p. 560. 35. Zuenir Ventura, 1968 O ano que não terminou, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988, pp. 51-60. 36. Ventura, pp. 126-27. Ver a crítica a Marcuse do Padre Fernando Bastos de Ávila in Carta Mensal, CNC, ano XV, no 173, Rio de Janeiro, agosto, 1969. Copyright: CARTA MENSAL, Rio de Janeiro, v. 45, n. 538, p. 30-59, jan. de 2000
Segunda-feira, Outubro 01, 2007
ARTIGO IMPORTANTE Reproduzo amanhã uma das melhores análises que já li sobre a infiltração marxista na universidade. É de autoria do sociólogo José Arthur Rios e foi tema de uma conferência pronunciada em 9 de setembro de 1999. Está publicado originalmente na revista Carta Mensal, Rio de Janeiro, v. 45, n. 538, p. 30-59, jan. de 2000. É longo, mais de 60 mil caracteres. Pensei em dividi-lo em quatro partes, mas desisti. Suponho que meus leitores não se assustem com textos longos. Além do mais, publicado de uma vez só, é mais fácil repassá-lo.
DEPUTADOS DESOCUPADOS QUEREM REGULAMENTAR APELIDOS A mãe de todas as besteiras é o ócio. E ócio é o que não deve faltar aos deputados de Santa Catarina, que estão discutindo na Assembléia Legislativa um projeto que visa criar mecanismos para impedir uma prática comum entre crianças: colocar apelidos nos colegas. Claro que a moda não surgiu por lá. Ao que tudo indica, é mais uma vertente do politicamente correto, mania que pretende abolir antigas palavras dos dicionários. Só que desta vez a proibição tem em princípio um alvo especial, as crianças. Para Joares Pontincelli, o autor do projeto, o caso deve ser debatido entre os profissionais da Educação por se tratar de uma questão "extremamente séria". Ele atuou no magistério por 20 anos e destaca que o uso de apelidos em crianças pode trazer graves conseqüências na vida adulta. "O caso não recebe a atenção devida, mas a humilhação, o constrangimento pode transformar a criança em uma pessoa traumatizada, capaz de atos extremos", continua o desocupado deputado, citando tragédias como o caso de Columbine e Virginia Tech, nos EUA. "Quantos vezes assistimos meninas e meninos sendo chamados de gorduchos, magrelas ou coisas piores?" Ora, querer atribuir a apelidos essas matanças típicas de americanos é sofismar. Quem se dispõe a pegar um fuzil e sair matando quem encontra pela frente, sairá matando de qualquer jeito, chamem-no pelo nome ou pelo apelido. O deputado esquece o outro lado da questão. Apelidos podem ser muito afetivos. Tive vários apelidos em minha vida e vários apelidos devo ter posto em meus colegas. Apelido algum me prejudicou e nem creio que aqueles que pespeguei em alguém o tenha prejudicado. Lembro que primeiro apelido, já na infância, foi Negrinho. Ou ainda, Negrinho do Canário. Ou ainda, Guri do Canário. Canário, por sua vez, era o apelido de meu pai. Todo meu clã - e não era pouca gente - sempre me chamou de Negrinho e nunca me senti desconfortável por isso. Era apelido dos mais afetivos. Em 1977, já com quarenta anos, voltei a meus pagos para despedir-me daquelas coxilhas, sangas e canhadas de meus dias de guri. Ia para Paris, onde ficaria alguns anos, e queria mostrar à minha Baixinha a pampa onde nasci. Quando cheguei à Casa - era como chamávamos o casarão senhorial de nossos avós - no pátio estava a Corininha do Raul. Ela custou a reconhecer-me. Mais de trinta anos haviam passado. Eu saíra dali imberbe e voltara barbudo. Quando falei, reconheceu-me pela voz e pulou em meu pescoço: "Negrinho!" A palavrinha, que há décadas eu não ouvia, me calou fundo, evocava toda minha infância e desatei a chorar. Hoje, este apelido talvez não fosse recomendável. Quem sabe Afrodescendentinho? Na escola, eu era o Porongo. Nada de pejorativo. Significava que eu tinha fama de cabeça grande, no sentido de inteligente. Depois fui chamado de Janer Lambreta. Creio que era pelo meu jeito de correr, com as pernas um tanto juntas. Em minha primeira viagem a São Paulo, ganhei outro que me acompanhou em minhas militâncias, Bagual. Eu teria uns 15 anos e viera para um congresso de Ação Católica, em Campinas. Meu sotaque sulino, minha verve ao discursar, me valeram o apelido. Nada contra. Gostei. Janer era palavra que não dizia nada. Já Bagual, estava recheada de significações, juventude, vigor, pampa, liberdade, cavalo não domado, hybris. Pegou muito bem junto às àrdegas companheiras congressistas. Há apelidos geniais. Em Porto Alegre, conheci a Maria-deixa-que-eu-chuto. Era uma esmoleira com um defeito na perna. A cada passo que dava, parecia que ia chutar mas não chutava. Ainda em Porto Alegre, conheci também um rapaz que, em função de algum distúrbio fisiológico, tinha a cabeça eternamente torcida para a esquerda. Não houve dúvida, foi logo apelidado como Peão: caminhava pra frente e comia pros lados. Foi também lá que tive uma amiga mais conhecida como Olívia Palito. Com esse nome, nem é preciso definir a pessoa. Mesmo sem conhecê-la, quando chega num bar, já sabemos que dela se trata. Também atendia por A-que-nem-o-Pitanguy conserta, mas este apelido podia indicar muitas coisas. Mais tarde, ela mesma deu-se um apelido, Bodira. Fora a Poona, na Índia, para um ashram coordenado por Rajneesh, o vigarista hindu dos 93 Rolls-Royces, e voltara rebatizada. Após mais de década sem vê-la, encontrei-a em um boteco em Florianópolis, anos 80. Olívia! - exclamei. Ela fez que nem me ouviu. Repeti. Ela me olhou e disse: "meu nome é Bodira". Ocorre que só havia duas Olívias Palitos no mundo, ela e a do Popeye. Queria ser chamada de Bodira? Que fosse. Fi-la sentar e ela me contou suas aventuras na Índia. Foi quando me mostrou no peito um medalhão do vigarista, que então se chamava Rajneesh. "É meu mestre", disse. Caí na gargalhada, contei-lhe das vigarices do guru. Ela se ofendeu, levantou-se e foi embora. Eu estava desrespeitando sua fé. Enfim, tudo isto para dizer como apelido pode ser uma solução. Com o nome mais sujo que pau de galinheiro, Rajneesh passou a chamar-se de Osho e continuou a enganar de novo, desta vez com o nome novinho em folha. Outro equívoco do deputado é imaginar que dar apelidos é coisa de criança. Adultos também adoram apelidar, e quando apelidam, sai da frente. Em Florianópolis, no Departamento de Letras, havia duas professoras nada simpáticas, uma chilena e outra paulista. A chilena tinha uma corcunda bastante acentuada e logo recebeu o que lhe era devido: Côncavo Andando. Também fez jus a um outro, Camelo Melancólico. A paulista, irascível e rabugenta, tinha um olho caído em função de algum problema no nervo ótico e foi logo batizada como Ritinha Farol Baixo. Na pós-graduação, onde os alunos conheciam melhor literatura, era Polifemo. Claro que tais apelidos decorrem de uma prévia animosidade. Mas animosidade é algo que existe, com ou sem apelidos. Que pretenderão os desocupados da Assembléia Legislativa de Santa Catarina? Proibir que se tasquem apelidos? E qual será a punição? Prisão, multa, medidas educativas? Quem sabe, ajoelhar em grão de milho? Proibir apelidos é algo tão ridículo quanto proibir palavrões. Palavrões e apelidos fazem parte da linguagem. Há apelidos que se transformaram em nomes definitivos. Milhões de pessoas no mundo ficariam surpresas se soubessem que Stalin, Lênin ou Trotsky não são nomes, mas apelidos. Stalin chamava-se em verdade Josiph Vissarionovitch Djugatchivili. Stalin quer dizer "o de aço". Lênin era Vladimir Illitch Ulianov. E Trostky, Lev Davidóvitch Bronstein. Edson Arantes do Nascimento teria o renome que tem se não fosse o Pelé? O apelido prejudicou-lhe alguma vez na vida? Pelé é palavra insólita, original, sonora. Impossível de ser esquecida. Ou mesmo Lula. Para os jornalistas, apelidos assim são uma benção. São curtos, não atrapalham na hora de fazer manchete. Por falar nisso, como se dirigiriam os desocupados deputados catarinenses ao dirigir-se ao presidente da República? Senhor Luís Inácio? Ridículo! Falta do que fazer.
RACISMO NEGRO Escreve Raphael Piaia: A ânsia pelo politicamente correto faz com que alguns vivam ou num estado de simpatia exagerada (como quando brancos tratam outras etnias, principalmente negros, melhor do que tratariam alguém de sua raça) ou num extremismo violento de revolta (no caso dos neonazistas). Esse completo descaso e preconceito moderno legalizado contra o branco vem fazendo as pessoas sentirem-se cada vez mais envergonhadas ou revoltadas, enquanto outras encontram no conveniente mote: "a culpa não é minha, sou uma vitima do sistema" a desculpa perfeita em qualquer situação adversa. No Brasil, se existe descriminação, ela é social. Tanto o branco quanto o negro pobre enfrentam as mesmas dificuldades para sair da pobreza. Alguns neo-racistas acreditam que, por negros com o mesmo tempo de estudo que brancos ganharem supostamente menos, a “opressão” do negro por parte do branco pode ser demonstrada. Ora, orientais, genericamente, também ganham o dobro que os brancos. Por acaso isso é prova de racismo? Alguém vai chegar a conclusão que, com base nisso, amarelos oprimem brancos? Fiz o ensino médio numa escola pública. Havia brancos, negros e mulatos na sala. Apesar de haver brancos, poucos ou nenhum tinha cabelos e olhos claros como eu, haja vista que minha cidade, nas ultimas décadas, como muitas outras, recebeu levas e mais levas de migrantes nordestinos. Certa vez, entrei numa discussão sobre Cuba com um professor comunista-cristão-negro (sinistro, não?). Não lembro bem sobre o que falávamos, mas lembro que em determinado momento, irritado, ele simplesmente cortou o que dizia e usou o fato da maioria dos jogadores da seleção de vôlei cubano serem negros para provar sua tese de que o sistema comunista cubano era superior. Não vi sentido no argumento usado, já que não estávamos discutindo nada racial. Lembrei-o que alguns dos jogadores da seleção de vôlei são brancos, mas que a maioria esmagadora dos jogadores brasileiros de futebol, de longe o verdadeiro esporte nacional, são negros. Acho que ele deu um sorrisinho afetado ou coisa parecida como que sugerindo que aquilo seria de se esperar de alguém como eu. Depois disso a discussão enveredou, inevitavelmente, para a questão racial. Em determinado ponto ele me "lembrou" que enquanto meus ancestrais comiam em mesas suntuosas - talvez, por refletir o retrato do professor brasileiro de nível educacional não muito alto, ele realmente acreditasse que não havia proletariado explorado na Europa ou camponeses que trabalhavam de sol a sol - os dele laboravam em meio a chibatadas e que, deste modo, isso faria só os melhores da raça sobreviverem aos rigores da escravidão, "provando" assim que o negro pertence a uma raça superior. Isso mesmo, lembro de algo dessa discussão devido a essa ultima afirmação macabro-darwiniana feita por um professor afirmando que o negro é racialmente superior. Perguntei-me, e provavelmente você também se pergunta, o que teria acontecido se a situação fosse inversa. Se o professor fosse branco e o aluno negro. Mas antes de dizer o óbvio, lembrei de outro exemplo simples. Na mesma escola, sem muito interesse em dar a aula, certa vez uma professora negra começou a discorrer sobre como não gostaria que seu filho negro se casasse com uma branca: "Se misturar com essa gente nunca da certo", dizia ela, enquanto outras mulheres sentadas ao lado concordavam comentando casos pessoais. Continuou a professora, não se incomodando em diminuir a voz: "Quando meu filho nasceu 'café com leite' eu achei que podia ter sido um castigo de Deus", desabafou provocando risadas. O leitor, se tiver tido paciência para ler até aqui, talvez indague sobre onde está o princípio da isonomia. Não é preciso procurar muito para encontrar desigualdades "democráticas" como essa. Basta ligar a tv, ir a uma banca de jornais ou pesquisar os casos de racismo e a etnia comum dos acusados de cometê-los. Sempre serão brancos. É quase impossível não lembrar de George Orwell. Se substituirmos a palavra bichos pela palavra homens, a frase ficaria mais ou menos assim: "Todos os homens são iguais, porem alguns homens são mais iguais que outros." Estes foram apenas alguns exemplos. Olhando pra sociedade atual em que vivemos, poderíamos encontrar mais centenas de outros. O abismo separando aqueles que não se enquadram a esse novo modo politicamente correto de ser vem aumentando cada vez mais, separando o que deveria tentar unir. Enquanto isso, o governo e o sistema educacional ajudam a tornar o racismo não-branco cada vez maior e com mais embasamento legal. Escreve Hermes Pereira Dutra: Em viagem por Fernando de Noronha assisti à seguinte cena: uma menina, guia de uma excursão em uma barca, talvez lá pelos dezesseis ou dezessete anos, muito bonita, negra, dizia ao piloto da barca: "tenho orgulho de ser negra". Como a conversa não era comigo, não me meti, até porque ela era uma excelente guia, que era o que me interessava. Ao retornar para Porto Alegre, perguntei a um militante do PT, que é meu amigo, é preto e sempre está na linha de frente na defesa da igualdade racial e contra a discriminação: "Se eu disser que tenho orgulho de ser branco, estarei fazendo uma manifestação racista?" Ele respondeu que sim. Aí lhe contei a história de Fernando de Noronha. Ele me disse, ah, mas tens que entender que o negro sofreu muito por causa do racismo e no caso se justifica. Pois é, como tu dizes, as frases tem significado diferente em função da cor de quem as diz. É o fim do mundo.
|
||