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¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV
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Janer Cristaldo escreve no Página Não-Oficial de Janer Cristaldo Arquivos 10/01/2003 - 11/01/2003 12/01/2003 - 01/01/2004 01/01/2004 - 02/01/2004 02/01/2004 - 03/01/2004 03/01/2004 - 04/01/2004 04/01/2004 - 05/01/2004 05/01/2004 - 06/01/2004 06/01/2004 - 07/01/2004 07/01/2004 - 08/01/2004 08/01/2004 - 09/01/2004 09/01/2004 - 10/01/2004 10/01/2004 - 11/01/2004 11/01/2004 - 12/01/2004 12/01/2004 - 01/01/2005 01/01/2005 - 02/01/2005 02/01/2005 - 03/01/2005 03/01/2005 - 04/01/2005 04/01/2005 - 05/01/2005 05/01/2005 - 06/01/2005 06/01/2005 - 07/01/2005 07/01/2005 - 08/01/2005 08/01/2005 - 09/01/2005 09/01/2005 - 10/01/2005 10/01/2005 - 11/01/2005 11/01/2005 - 12/01/2005 12/01/2005 - 01/01/2006 01/01/2006 - 02/01/2006 02/01/2006 - 03/01/2006 03/01/2006 - 04/01/2006 04/01/2006 - 05/01/2006 05/01/2006 - 06/01/2006 06/01/2006 - 07/01/2006 07/01/2006 - 08/01/2006 08/01/2006 - 09/01/2006 09/01/2006 - 10/01/2006 10/01/2006 - 11/01/2006 11/01/2006 - 12/01/2006 12/01/2006 - 01/01/2007 01/01/2007 - 02/01/2007 02/01/2007 - 03/01/2007 03/01/2007 - 04/01/2007 04/01/2007 - 05/01/2007 05/01/2007 - 06/01/2007 06/01/2007 - 07/01/2007 07/01/2007 - 08/01/2007 08/01/2007 - 09/01/2007 09/01/2007 - 10/01/2007 10/01/2007 - 11/01/2007 11/01/2007 - 12/01/2007 12/01/2007 - 01/01/2008 01/01/2008 - 02/01/2008 02/01/2008 - 03/01/2008 03/01/2008 - 04/01/2008 04/01/2008 - 05/01/2008 05/01/2008 - 06/01/2008 06/01/2008 - 07/01/2008 07/01/2008 - 08/01/2008 08/01/2008 - 09/01/2008 09/01/2008 - 10/01/2008 10/01/2008 - 11/01/2008 11/01/2008 - 12/01/2008 12/01/2008 - 01/01/2009 01/01/2009 - 02/01/2009 02/01/2009 - 03/01/2009 03/01/2009 - 04/01/2009 04/01/2009 - 05/01/2009 05/01/2009 - 06/01/2009 06/01/2009 - 07/01/2009 07/01/2009 - 08/01/2009 08/01/2009 - 09/01/2009 09/01/2009 - 10/01/2009 10/01/2009 - 11/01/2009 11/01/2009 - 12/01/2009 12/01/2009 - 01/01/2010 01/01/2010 - 02/01/2010 |
Sexta-feira, Novembro 30, 2007
SOBRE A EXTRAORDINÁRIA CAPACIDADE DE SÍNTESE DO SUPREMO APEDEUTA Em visita às favelas da zona sul do Rio de Janeiro, o Supremo Apedeuta foi rápido no sofisma: "Rico quando mora em morro é chique. Pobre na favela é vergonha. Vamos mudar isso." Ouviu o galo cantar mas não sabe onde. Não é que pobre na favela seja vergonha. Pobreza é vergonha em qualquer parte do mundo. Além disto, as favelas ostentam uma vergonha a mais, a de serem territórios livres para o tráfico. De constituírem verdadeiros Estados dentro do Estado, sobre os quais não mais se exerce a autoridade do governo central. Nem mesmo do governo estadual e muito menos do governo municipal. Brasileiro que um dia passou pela Costa Amalfitana tem uma estranha sensação de déjà-vu. Cidades como Positano, Amalfi, Ravelo, belíssimas e de alto padrão de vida, têm a mesma estrutura vertical de nossas favelas. Com uma diferença: lá só mora quem é rico. Serão certamente as mais caras cidades da Itália. Não é que rico seja chique quando mora no morro. Ser rico é ser chique. Seja no morro, seja no asfalto. Em seu português arrevesado, continuou o Apedeuta: "Houve um tempo em que favela era uma coisa poética. Quem não lembra da Saudosa Maloca? Quem não lembra de Barracão de Zinco. Mas, hoje, favela, embora more uma maioria de pessoas honestas e trabalhadores, pelas dificuldades geográficas e pela degradação, a gente percebe que as favelas mais violentas são reprodutoras de mais violência, de jovens que não têm oportunidade". Não disse água sobre o grande drama das favelas, o das drogas. Não é que a favela fosse poética nos tempos da Saudosa Maloca. Por um lado, o morro não estava tomado pelas drogas. Por outro, no mundo das artes nunca faltou quem gostasse de poetizar a miséria. Quem cantava as virtudes do barracão de zinco nunca morou em um barracão de zinco. Lula tem uma grande virtude, a capacidade de síntese. Em pequenas frases, consegue sintetizar uma montanha de bobagens. Isso não é para qualquer um.
UMA OUTRA QUESTÃO TEOLÓGICA: PREPÚCIOS NO FREEZER? A empresária Rita Hirsch foi morta a tiros ontem pela manhã dentro de seu carro em plena marginal Tietê, na região da Penha (zona leste de São Paulo). O veículo foi abordado por quatro homens que ocupavam duas motos. Hirsch era judia. Três membros da comunidade israelita foram à delegacia e entregaram ao filho da vítima, uma garrafa com uma porção de terra, recolhida do local do acidente, onde caíra um pouco de sangue dela ao ser retirada do carro por policiais. "O que é do corpo precisa ser enterrado com o corpo", disse o rabino Shie Pasternak, da comunidade israelita de SP. O rabino está levantando um grave problema teológico. Se o que é do corpo precisa ser enterrado com o corpo, como fazem os judeus em relação aos prepúcios cortados? Guardam-nos em um freezer? Ora, os judeus já têm duas geladeiras em casa, uma para carnes e outra para lacticínios. Precisarão manter uma terceira?
AIDS: OBA-OBA E ÁGUA FRIA Na Folha de São Paulo de hoje, escrevem os médicos Vicente Amato Neto e Jacyr Pasternak: No Brasil, nos entusiasma o fato de que nosso programa de assistência aos pacientes com HIV/Aids continue funcionando tão bem; é quase inédito, neste país, que um plano de longo prazo, tocado por governos politicamente divergentes, tenha se mantido e expandido de maneira adequada com a cobertura que alcançou. Isso nos faz perguntar por que em outras situações clínicas mais comuns não há iniciativas tão bem organizadas e articuladas. Mas é aquela história, se todos os componentes da área da saúde imitassem o nosso sistema de atenção aos acometidos de HIV/Aids, o Brasil seria a Suécia. No Uol Online, declara o virologista Robert Gallo, 69, co-descobridor da doença: Folha Online - O programa brasileiro de combate à Aids é visto como um modelo nessa área... Robert Gallo - Não fique tão orgulhoso. Vocês não são um modelo. Folha Online - Por quê? Gallo - O que vocês estão liderando, que caminho estão apontando? O Brasil trata seu povo, assim como os Estados Unidos. Qual é o modelo? Modelo para quem? Eu não entendo... Folha Online - Talvez porque o tratamento é gratuito e atinge um grande número de pessoas, além de a epidemia estar razoavelmente controlada aqui. Gallo - Todos são tratados na Suíça, na Alemanha, na Itália, na Inglaterra, no Canadá. Por que vocês seriam um modelo? Folha Online - Então o senhor não concorda com isso? Gallo - A realidade é o seguinte: quando você diz que é um modelo, está implícito que todo mundo deve seguir você. Mas a maioria dos países já faz isso [tratar gratuitamente os pacientes com Aids]. Apenas países que são muito, muito pobres não fazem isso. Vocês são modelos para quem? Se você quer saber se o Brasil está fazendo um bom trabalho com respeito ao tratamento contra a Aids, eu digo que sim. E isso é ótimo, maravilhoso. Mas se você diz que o Brasil é um modelo, isso significa que vocês são uma lição para mim. Por que vocês seriam uma referência para mim? Talvez sejam um modelo para a África do Sul, para alguns países, mas não para o mundo inteiro, já que a maioria dos países realmente trata seus pacientes com Aids.
Crônicas da Guerra Fria (52) QUESTÕES TEOLÓXICAS São Paulo - ¿Como admitir que a Deus non lle saíra o home un pouco mellor de querer crealo á súa imaxe e semellanza? ¿En que cabeza cabe que o home, esse saco de inmundicia e de soberbia, a partes iguais, poida parecerse a Deus? ¿Como Deus na súa infinita bondade, na súa infinita sabedoria, puido errar de semellante estrepitosa maneira co invento do home, esta besta débil e depredadora que se entretén coa guerra e morre de cáncer? Non, non, o erro orixinase ó confundir a Deus, esa noción eterna e, por tanto, que nin empeza nin acaba, con química e o ciclo do carbono, que son duas nocións continxentes e abrangibles con maior ou menor esforzo. Se o leitor entendeu o que leu acima, meus cumprimentoss: conhece mais uma língua e não sabia. A língua de tão saborosa pronúncia é o galego, e o texto, intitulado Disquisicións teolóxicas, é de Don Camilo José Cela, prêmio Nobel de literatura, do qual tive a honra - e o compromisso - de traduzir dois romances ao brasileiro. De certa forma, foi Don Camilo que me levou à Galícia. Fascinado com aquela música que ouvimos em Mazurca para Dois Mortos, fui dar uma olhadela naquelas “xeografias”. Em Santiago de Compostela, na estação rodoviária, encontrei Marina Pérez Rodriguez, atenta observadora dos trens que passam por aquela cidade de sonho e sempre disposta a introduzir o viajante perplexo na magia da Galícia. Pois é Marina que me envia esta crônica de Cela. Sei la por quê, lembrei de Jeffrey Dahmer, o canibal de Milwaukee. Matou 17 pessoas - pelo que se sabe até agora -, decepou-as e comeu partes de suas vítimas, tendo guardado alguns órgãos no refrigerador para comer depois. Praticava sexo com seus convivas tanto quando vivos como depois de mortos. Quanto a comê-los, só degustava a carne daqueles que mais o atraíam. Em Paris, tive ocasião de cruzar com um destes seres de paladar tão exigente. Estudávamos literatura na mesma universidade, La Sorbonne Nouvelle (Paris III). Meu colega, cujo nome me escapa, era japonês e acabou comendo a namorada. Literalmente, bem entendido. Conservou durante semanas pedaços da moça e os fritava aos poucos. Amor é fogo. Hoje, meu colega de estudos comparatistas vive no Japão, está livre e vai escrever um livro. Que certamente vai virar filme e lhe trará rios de dinheiro. Eu, que só comi minhas namoradas de mentirinha, continuo tendo de lutar pelo pão de cada dia. Há uma constante nas fotos de Dahmer, quando ele desfila ante seus semelhantes: os homens que vão julgá-lo - entre os quais, bem ou mal, nos incluímos - olham o canibal com terror e perplexidade. Como se Dahmer pertencesse a outra espécie que não a humana. Quando na verdade nada fez senão praticar um gesto que está nos fundamentos da cultura cristã. Mais ainda, é exercido diariamente em todos os países do Ocidente. No Deuteronômio, um dos principais livros da Bíblia, a hipótese é aventada como ameaça: “Então, na angústia do assédio com que o teu inimigo te apertar, irás comer o fruto de teu ventre: a carne dos filhos e filhas que Javé teu Deus te houver dado”. Em Jeremias, enciumado com os cultos a Baal, Javé anuncia os dias em que o vale de Ben-Enom se chamará Vale da Matança: “Eu farei que eles devorem a carne de seus filhos e a carne de suas filhas: eles se devorarão mutuamente na angústia e na necessidade com que os oprimem seus inimigos e aqueles que atentam contra a sua vida”. Nos cinco poemas das Lamentações, livro atribuído a Jeremias, cujo tema central é a destruição de Jerusalém, volta o tema recorrente: “As mãos de mulheres compassivas fazem cozer seus filhos; eles serviram-lhes de alimento na ruína da filha de meu povo”. Em Ezequiel, contemporâneo mais jovem de Jeremias, que denuncia a perversidade de Jerusalém e proclama a iminência de seu assédio e destruição, Javé volta a lembrar: “Farei no meio de ti o que nunca fiz e como não tornarei a fazer, isto por causa de todas tuas abominações. Por esta razão os pais devorarão os filhos, no meio de ti, e os filhos devorarão os pais”. De fato, o canibalismo só ocorre no II Reis. A fome impera durante o cerco de Samaria, quando uma mulher diz à outra: “Entrega teu filho, para que o comamos hoje, que amanhã comeremos o meu”. A primeira mãe cozinha seu filho e o divide com a segunda e, no dia seguinte, lhe pede: “Entrega teu filho para o comermos”. Mas a outra foge ao trato e esconde o filho. Maldição no Antigo Testamento, no Novo o canibalismo se torna virtude. Durante a Santa Ceia, Cristo oferece seu corpo e seu sangue para que os participantes entrem em contato com o sacrifício, comendo do sacrificado. É o que os católicos romanos chamam de transubstanciação. Todo católico, quando comunga, não está bebendo o vinho ou comendo o pão como símbolos do corpo de Cristo. Está, de fato, bebendo o sangue e comendo a carne do Cristo. No sacramento do altar, depois da consagração, não há senão o corpo e o sangue de Cristo. A doutrina da igreja Católica é clara. Segundo Santo Ambrósio, “antes da benção há uma espécie que, depois da consagração, se transforma no corpo de Cristo”. Santo Hilário confirma: “sobre a verdade concernente ao corpo e sangue de Cristo, não há lugar para dúvidas. Pois, conforme a afirmação mesma do Senhor e nossa fé, a sua carne é verdadeiramente comida e o seu sangue verdadeiramente bebido. Assim como Cristo é verdadeiramente filho de Deus, assim a carne que recebemos é verdadeiramente carne de Cristo, e a bebida é verdadeiramente seu sangue”. São Tomás, na Suma Teológica, encerra a discussão, com uma ressalva: “que o corpo e sangue de Cristo estão verdadeiramente no sacramento do altar, não podemos aprendê-lo nem pelos sentidos nem pelo intelecto; mas só pela fé, que se apoia na autoridade divina”. Tomás, o Doutor Angélico, vê na eucaristia a suprema celebração da amizade: “E porque é próprio por excelência à amizade, conviver com os amigos, Cristo nos prometeu como prêmio sua presença corporal. Por isso ele próprio disse: O que come minha carne e bebe meu sangue, esse fica em mim e eu nele. Logo, este sacramento é o máximo sinal da caridade e o sublevamento de nossa esperança pela união tão familiar de Cristo conosco”. Os jornais me falam da infância de Dahmer, dos pais de Dahmer, dos traumas de Dahmer. Só não me contaram até agora qual é a religião de Dahmer, se é cristão ou luterano, calvinista ou simplesmente ateu. Seja qual for sua condição, nasceu em um caldo cultural cristão. Talvez jamais tenha ouvido falar de Tomás de Aquino. Mas intuiu muito bem suas lições: só se deve comer a carne de quem se ama. Falava de Cela, que ao falar do homem, pela voz de seus personagens, o define como um “saco de inmundicia e de soberbia”. É o que muita gente deve estar pensando de Jeffrey. Herdeiros de uma tradição cultural que tem o canibalismo como suporte, não vejo como condená-lo. Talvez o leitor não tenhas se dado conta, mas Jeffrey é nosso irmão. Afinal, somos filhos do mesmo pai, daquele pai que sempre adorou sangue. Pediu inclusive a Abraão que sacrificasse seu filho Isaac. Não faltará quem objete: mas Isaac foi poupado. Pode ser. Mas na primeira esquina do milênio, Javé ferrou o Cristo. De cuja carne muito comemos, com amor e devoção, nos dias de juventude. (Porto Alegre, RS, 17.08.91)
Quinta-feira, Novembro 29, 2007
UM COCHINILLO, UM RIOJA, UMA ROMENA E UM ABRAÇO EM TOLEDO Sempre que vou à Espanha, reservo um dia para Toledo. Graças aos trens de alta velocidade, a antiga capital espanhola está agora a 25 minutos de Madri. Em Toledo, tenho dois compromissos solenes: um almoço na Casa Aurélio e uma visita à catedral, uma das mais soberbas da Europa. Mas atenção! Há três restaurantes na cidade com esse nome, sendo que dois deles ficam na rua Sinagoga. A cozinha é a mesma nos três e excelente. Mas a casa da Sinagoga 1 é a mais aconchegante. Pelo menos para mim, já que suas paredes são revestidas de estopa e de arreios e instrumentos do campo. Uma vez no Aurélio, só consigo ver três pratos à minha frente, o cochinillo, o cordero lechal e a perdiz toledana. Mas não consigo optar. Vou direto ao cochinillo. Enfim, como nunca viajo só, minha parceira geralmente pede um lechal e fazemos um intercâmbio cultural. Tudo isto regado a um Marqués de Cáceres. Ou de Riscal. Ou melhor, a um Marqués de Cáceres mais um Marqués de Riscal. De modo que quando chego à catedral, sempre tenho a nítida impressão que suas naves estão girando suavemente. Minha Baixinha adorada também chegava à catedral no mesmo estado - como direi? - de espírito que eu. Na última vez que esteve lá, sufocada pela beleza, começou a chorar. Uma senhora aproximou-se dela, quis saber se não sentia mal. Nada disso. Ela se sentia bem demais, e por isso chorava. A beleza, quando em excesso, sempre nos fez chorar. Outro ritual que sempre cumpro em Toledo é subir a pé aquele penhasco do Tajo. Que é o mesmo Tejo que banha Lisboa. É a maneira que encontro de medir minha forma física. Enquanto puder chegar ao Zocodovar a pé, é porque sou jovem. Sem falar que a subida, mais ou menos uma hora penhasco acima, é belíssima. Confesso que desta última vez, em março passado, preferi tomar um ônibus. Estava com las bisagras emohecidas – como diriam os espanhóis. Isto é, com as dobradiças enferrujadas. Um problema de joelho me fez pensar duas vezes antes da empreitada. Mas Toledo não perde por esperar. A próxima vez será a pé. Mas não era disto que pretendia falar. E sim da Romênia, que surge de repente nos grupos de mais alto IDH, da ONU, um pouco antes do Brasil. A ONU que me desculpe, não acredito. Aliás, em editorial publicado hoje, o Estadão punha em dúvida esta classificação. “Causa compreensível estranheza encontrar o Brasil abaixo de países como a Romênia, Albânia e Macedônia - que despejam sem cessar legiões de imigrantes na Europa Ocidental – para não falar de Líbia, Tonga, Maurício e assimilados”. Causa estranheza mesmo. Talvez a explicação esteja na antiga mania de maquiar dados, típica dos antigos países socialistas. Bom, eu estava na Casa Aurélio fingindo que lia o cardápio – pois não preciso de cardápio para saber o que quero quando estou lá – e fui atendido por uma espanhola adorável, jovenzinha e linda, doce e falando um impecável espanhol de Castilla, la Vieja. Aquela garçonete era um valor agregado ao cochinillo e ao vinho. Sem falar que a proximidade física de uma mulher bonita é sempre agradavelmente perturbadora. Puxei de minha melhor pronúncia para não fazer feio ante a moça e – surpresa! – descubro que ela era romena e estava há apenas dois anos na Espanha. Não sei o que me deu, afinal eu ainda nem degustara o riojano, mas fiquei comovido até o âmago. Já falei de minhas desventuras na Romênia, o país mais miserável do continente europeu que me foi dado conhecer. De repente, ali na minha frente, eu via uma cidadã romena, jovem e linda, feliz da vida, perfeitamente integrada à vida espanhola e mais, falando aquele espanhol divino. Escapara do inferno, pensei, e tinha agora um futuro risonho pela frente. Falei de meus dias em Bucareste, Mangalia e Constanza nos anos 80 e ficamos um bom tempo conversando. Bom, me disse a moça, “as coisas melhoraram um pouco de lá para cá. Se voltares a Mangalia, não vais reconhecer a cidade”. Mas é claro que ela não trocaria o novo país pelo antigo. Com a vantagem de que, com o fim do comunismo, sempre podia voltar para rever parentes e amigos. Ela voltou a seus afazeres. Éramos três. O Rioja chegou, o cochinillo, o lechal e a toledana também. Não consegui conversar muito com minhas parceiras de viagem. No fundo, eu vibrava com a vida nova da menina. Certamente teria um namorado que a queria bem, estava fazendo universidade, um dia teria ou não teria filhos, mas já tinha um belo futuro assegurado nel país más lindo del mundo, como dizia Camilo José Cela. Durante uma viagem longa por vários países, nossa sensibilidade se torna a cada dia que passa mais aguda, e eu estava num daqueles dias de lágrimas a flor da pele. Eu estava feliz com a felicidade dela. Quando o maître me trouxe a conta, pedi: - Traeme también la rumana. Ela veio. Acho que sabia o que a esperava. Abracei-a com todos meus braços e beijei-lhe as faces. Sem falar. Se falasse, ela ouviria uma voz quebrada pelo pranto. Síndrome de Stendhal ou efeito dos Riojas? Não sei. E fui visitar a catedral tomado por insólita alegria interior.
Crônicas da Guerra Fria (52) PERCEBES EN LOS PENDEJOS Que estamos vivendo uma época de nivelamento por baixo, isto não é novidade. Os jornais, em vez de manter uma linguagem culta e precisa, optam pelo genérico e ao alcance de todos. Em vez de excitar o leitor a buscar o sentido de um conceito mais complexo, preferem respeitar seu patamar de ignorância e dispensá-lo da leitura de um dicionário. Não sei se já foi feita alguma pesquisa sobre o assunto, mas duvido que no Brasil alguém precise conhecer mais de quinhentas palavras para ler as notícias da imprensa diária. Televisão, nem falar. Orangotango que conseguir dominar a proeza de entender cem palavras, já domina o universo da rede Globo. Ora, lidar com quinhentas palavras pouco ou nada nos distingue de nosso primo, o Pithecanthropus erectus. Pode ser suficiente para candidato a deputado, animador de auditório, campeão de futebol ou de fórmula 1. Ou fórmula 2. Aliás, já começo a falar de coisas que não entendo, até hoje não sei qual é a diferença entre uma e outra. Ou melhor, talvez saiba. De meus dias de Florianópolis, fui contemplado pela ingrata epifania: uma polui mais, sonoramente, que a outra. Qual polui mais ou menos, não sei. Deixo a resposta a esses analfabetos de final de milênio, que já se julgam eruditos mal conseguem pronunciar um quadrissílabo tipo cilindradas. Este reducionismo, rumo ao primo aquele que até hoje anda pendurado pelo rabo nas árvores, parece estar contaminando até mesmo este jornal. Outro dia, nesta página, falei em Cérbero. Foi overdose, as sinapses de meu revisor entraram em curto circuito e ele preferiu, por via das dúvidas, grafar cérebro. Acontece que Cérbero é Cérbero e cérebro é mercadoria cada vez mais escassa. Outro dia, escrevi que a avenida Berrini, em São Paulo, era uma contrafação de La Défense, em Paris. Parece que a palavra já não tem registro no cérebro de quem é pago para bem grafá-las. Saiu contratação. Outra vez, falei na polícia turística da Grécia. Não deu outra, o redator grafou política turística. Ainda no Egeu: certa vez falei na cidade cultual de Delos. Claro que o redator corrigiu para cidade cultural. Fora outras que já nem lembro. Mas não era disto que pretendia falar. Minto. Era disto mesmo que estava falando, desta tendência cada vez mais freqüente no jornalismo contemporâneo de descer ao nível do analfabeto, ao invés de tentar erguê-lo ao nível da língua culta. Orwell já analisou em profundidade o assunto em 1984, quando criou a novilíngua, que aliás não foi criação sua, mas dos finados (perdão, leitor!) comunossauros. Pois esta saudade de selva e cachos de banana, ainda embutida nos genes do homem contemporâneo, manifestou-se agora com vigor em uma das últimas determinações da alcaiceria de São Paulo. Os cardápios da capital devem agora ter seus pratos traduzidos ou explicados em português. O que me faz voltar a Florianópolis e à praça XV. O penúltimo prefeito, ilustre representante da cultura ilhoa, não conseguia se fazer entender quando falava em praça Xivi. Uma vez esclarecido, não teve dúvidas. Baixou bando: ficam proibidos, a partir de agora, números romanos na designação de ruas ou praças. Para contentamento geral da nação, digo, da ilha, a praça Xivi agora é praça 15. Volto a São Paulo. Vai ver que a Erundina andou se atrapalhando em algum restaurante francês e decidiu seguir o safado exemplo do prefeito florianopolitano. Acontece que gastronomia é um nível superior de cultura. Comer, todos comem. Até o faminto come. Se não comesse, não seria faminto, mas defunto. Comer é um imperativo orgânico, que gere a agenda tanto da ameba quanto a do Lula. Saber comer já é outro assunto. Quanto a comer, não para encher a pança, mas para satisfazer o palato, bom, isso é privilégio de quem já não tem a premência metabólica da ameba ou do classe média inculto. Em Florianópolis, cheguei a fazer campanha, não para que os cardápios fossem traduzidos, mas que pelo menos fossem grafados corretamente. Pois restaurador que não sabe escrever o que serve, não tem a mínima idéia do que está servindo. Lá eu vi, juro que vi, filé à guarani por filé garni. Vi camarão à ilha-e-óleo por camarão ao alho-e-óleo. Eu não pedia tradução. Fossem os pratos grafados com acerto e servidos honestamente, já me dava por contente. Sem falar que culinária é geralmente intraduzível. Churrasco, por exemplo. Americanos ou europeus podem achar que entenderam o prato ao pedir barbecue. Mas o churrasco mesmo é outra coisa. Mocotó ou dobradinha podem lembrar as trippes à Caen, mas com elas nada têm a ver. Cassoulet não é feijoada e duvido que alguém possa traduzir paella, sem pelo menos usar uma dez palavras. A intenção da prefeitura paulistana parece ser dicionarizar o cardápio. Melhor faria se nos explicasse porque desvia verbas da merenda escolar para financiar congressos da CUT. Pois é o que andam fazendo os salvadores da humanidade, cá em São Paulo. Para proclamar ao mundo que as criancinhas do Brasil passam fome, consomem a verba destinada a alimentar crianças que passam fome, na organização de congressos onde denunciam a fome das criancinhas. Mas falava no nivelamento por baixo. Na Bahia, estado que nos legou dois dos maiores embustes nacionais - o Rui Barbosa e o Jorge Amado - a prefeitura sancionou lei que proíbe nomes estrangeiros em prédios residenciais e comerciais em Salvador. Parece que para evitar que o cidadão médio confunda, por exemplo, Bois de Boulogne com bois da Bolonha. Avante, baianada. Mais um esforço e este país ainda vira uma imensa Santa Catarina! Que estamos rumando ligeirinho à noite dos tempos, disto não tenho dúvida alguma. Outro dia, a respeitável Folha de São Paulo cometeu uma gafe que é sinal dos tempos. A notícia era sobre Malcolm X, o líder terrorista negro aquele que só tem mídia entre os botocudos, pois nossas esquerdas ainda sofrem da doença infantil do anti-americanismo. Pois bem, a redatora, sem saber do que falava e tentando se fazer entender junto ao leitor, não teve dúvidas: tascou Malcolm 10. Cá entre nós, Praça Xivi tem mais charme. Cardápios, era disto que eu falava. Em Madri, lá pelas dez da madrugada, eu adorava começar o dia tomando um carajillo con porras. Nestas circunstâncias, até concordo com a alcaidessa, é melhor traduzir: café batido com conhaque e uma espécie de biscoito que na Espanha se chama porra. Em Cuenca, me encharquei em litros de Q, o vinho da região. Brasileiro que sabe como se chama em espanhol esta letra, já deve estar imaginando minha perplexidade quando o garçom me perguntou: - El Q, usted lo quiere blanco, tinto o rosado? Enfim, espanhol não é vernáculo. Mas em Lisboa, cansei de comer febras, pregos, bifanas e safadinhas. Nestes dias em que o Antônio Hoauiss fala em unificação do idioma, como é que ficamos? Teríamos de traduzir do português para o brasileiro? Mas isto implica admitir que uma língua já são duas, fato que qualquer tradutor europeu ou americano já conhece, mas que os universitários brasileiros teimam em negar. Lisboa, além das ginjas (com elas ou sem elas?) e fados, me faz lembrar dois outros pratos, a sopa de grelos e os percebes. De grelos, gosto em qualquer geografia. Quanto aos percebes, ainda não firmei opinião. É um bichinho asqueroso, que parece ainda não ter decidido se pertence ao reino vegetal ou animal, mas muito apreciado pelos gastrônomos. Como as angulas e santolas, não têm gosto de nada. Resumindo, é aquela craca que dá em cascos de navios e postes submersos. O verme custa caro, se faz de difícil ao ser descascado, e o único prazer que nele encontrei foi literário. Como as colônias de percebes levam tempo para se formar junto a cascos, madeiras ou rochas, os espanhóis encontraram uma bela metáfora para definir um homem de raciocínio lento: es que tiene percebes en los pendejos. Em bom português: tem percebes nos pentelhos. Este é, a meu ver, o mal que está afetando a alcaidessa. (Porto Alegre, RS, 20.07.91)
Quarta-feira, Novembro 28, 2007
MINHAS CIDADES DILETAS - PARIS Voltando às cidades onde é melhor morar. O documento da ONU está provocando um inusitado orgulho no jornalismo patrioteiro nosso. A Folha de São Paulo, por exemplo, mancheteia: BRASIL ENTRA NO GRUPO DOS PAÍSES COM MAIS ALTO IDH Na linha fina: Documento anual das Nações Unidas afirma que brasileiros vivem em elevado grau de desenvolvimento humano Ora, façam-me o favor! Estamos num inglório 70º lugar, logo após a Macedônia e a Albânia. Da Macedônia até entendo, estive lá nos anos 80, quando ainda era província da ex-Iugoslávia. Não vi em Skopje, a capital, um único mendigo nas ruas. Não vi os picos de riqueza do Brasil, mas muito menos nossos picos de miséria. Quanto à Albânia, a ONU que me desculpe, mas não consigo acreditar que tenha melhor IDH que o Brasil. Ainda nos 80, sob a ditadura de Enver Hoxha, era o país mais miserável do continente europeu, onde até mesmo os automóveis particulares eram proibidos. Até hoje lembro de um episódio significativo. A agricultura era feita na base da enxada e acusava-se o regime de Hoxha de não ter conseguido chegar ao trator. O ditador pôs então seus engenheiros a trabalhar e acabaram produzindo um trator, quadrado e um tanto antediluviano, mas trator. Um só trator, é bom salientar. Provado que o regime albanês conseguira fabricar um trator, o trator foi para um museu. Duvido que nestas últimas três décadas a Albânia tenha chegado a uma condição melhor que a brasileira. O mesmo diga-se da Romênia, situada em 60º lugar. Ora, estive lá em 81 e confesso jamais ter visto em um país tanta miséria e escassez, a ponto de as pessoas disputarem a tapa um pedaço de carne em mercados de gôndolas vazias. Nem mesmo na Argélia ou Egito. Não acredito que de lá para cá a Romênia tenha se desenvolvido a ponto de suplantar o Brasil em qualidade de vida. Mais ainda: na lista da ONU, Cuba ocupa o 51º lugar. Não queiram convencer-me de que um país, onde as pessoas se jogam no mar em precárias embarcações para fugir ao horror, esteja melhor que o Brasil. Volto então às minhas cidades diletas. Em segundo lugar, coloco Paris. Quando sonhava em bater pernas pelo planetinha, dizia, Paris sequer constava de meus projetos. Porque não constava, não sei. Mas Paris, em meus dias de guri, não me fascinava. A idéia que eu fazia da cidade era a de uma capital cheia de chaminés e túneis, herança das leituras dos Mistérios de Paris, de Eugéne Sue, dos três mosqueteiros e de mais alguns romances de capa-e-espada. Entrei em Paris lá por 71. De trem. Isto é importante. A chegada de avião é muito brusca. A gente cai no aeroporto e de lá ruma direto à cidade. Por trem, é diferente, a cidade vai se revelando aos poucos. O trem vai até o centro e em marcha lenta. Aos poucos aquela arquitetura horizontal foi se mostrando, lá estavam as chaminés da Paris de Eugéne Sue e tudo o que eu imaginava da cidade. Os túneis, fui conhecer depois. Minha primeira passagem foi rápida. Eu queria conhecer o continente todo e tinha pouco tempo para Paris. Além disso, jovem quando viaja sempre viaja com pouca grana. Não dá pra conhecer o melhor da cidade. Pretendia ir rumo ao Norte e contava meus centavos. Dos restaurantes, conheci apenas os mais acessíveis. Mas as baguetes, patês, queijos e vinhos, que tomei no hotel com minha Baixinha, foram suficientes para gostar de Paris. Com pouca grana, eu tinha acesso ao que de melhor a França oferece. Voltei várias vezes a Paris. (A bem da verdade, volto quase todos os anos). Em 1977, foi para ficar. Tinha uma bolsa do governo francês e a correspondência da Caldas Júnior. Isto não constituía uma fortuna, mas já dava para freqüentar restaurantes com certa assiduidade. Deixei-me então conquistar pela cidade. Certamente é a mais linda das grandes cidades do mundo. Para encantar-se não se paga nada. É só sair caminhando, para qualquer lado, e Paris vai se oferecendo com seus encantos. Você sai a passear sem maiores compromissos, passa pelo magnífico parque de Luxembourg, segue pelo boulevard Saint Michel e tropeça no Sena. À esquerda, a Conciergerie, à direita a Notre Dame, à esquerda o Palais de Justice e a Sainte-Chapelle, mais adiante o Louvre e o Pompidou, um pouco mais à direita o Palais Royal e a Place des Vosges, Opera e Madeleine, e por aí vai. Mude de bairro e lá estão la Dame de Fer – a torre Eiffel – os Champs Elysées e o Arco do Triunfo, ou o Pantéon, ou a Saint Sulpice ou as Tulherias. E por aí vai. Por onde for, é lindo. Este degustar Paris não custa nenhum vintém. A cidade é pequena, pelo menos vista a partir da ótica deste monstrengo que se chama São Paulo. Pequena mas inesgotável. Vivi quatro anos em Paris e sempre que vou lá descubro algo novo. Vivesse dez anos, ocorreria o mesmo fenômeno. A cidade está cheia de encantos escondidos, que não se revelam ao turista. Você quer ver, dentro de Paris, um vilarejo bucólico? Vá até a Butte aux Cailles, no XIII, e se sentirá de repente no interior da França. Quer fazer um passeio insólito, mais ou menos inimaginável numa metrópole? Vá até a Promenade Plantée. Quer flanar numa arena romana? Entre numa portinhola discreta da Rue Monge, ali pelo nº 53, e você cai de repente na Roma antiga. Quer catacumbas? Vá até Denfert-Rochereau e desfile por paredes sufocantes de tíbias, fêmures e crânios. Quer boa gastronomia, diversificada e representativa de cada região da França, de cada país da Europa? Basta olhar à sua volta. Quer vinhos de distintas cepas? Sirva-se a gosto. Uma das coisas que me agrada em Paris é que, como cada cruzamento de rua tem quatro esquinas, é cartesianamente dedutível que também tenha quatro restaurantes. Você quer produtos de tecnologia de ponta? Vá às três Fnacs de Paris. Quer ter uma sensação de Nova York? Pegue um R.E.R e vá até La Défense. E segure o queixo pra não cair. Estive em Paris nos dias em que foi inaugurado o centro Georges Pompidou. A construção permaneceu o tempo todo escondida por imensos tapumes. Que foram derrubados, de repente, durante a noite. No dia seguinte, escândalo. Ninguém conseguia dizer se aquilo era lindo ou horroroso. Houve jornal que falou em “architeture du néant”, ou seja, arquitetura do nada. Nem eu soube como reagir. Não conseguia decidir se gostava ou não daquela coisa, que ora parecia fábrica com suas tripas de fora, ora parecia navio ancorado às margens do Sena. Hoje, não consigo imaginar Paris sem o Pompidou. A “coisa” está perfeitamente integrada ao antigo Marais, como se lá sempre tivesse existido. Paris é paradoxal, pelo menos para nós, latinos. Costumamos alimentar uma relação de amor e ódio com a cidade. Durante os anos que lá vivi, xinguei Paris todas as semanas. Ernesto Sábato viu isto muito bem em Abadón, o Exterminador: “Y mientras hacés gestiones para que la Embajada Francesa te dé una de esas bequitas que luego sirve para hablar mal de Francia...” Falei mal da França o tempo todo em meus dias de Paris. Certo dia, um bom amigo me observou: falas mal de Paris, mas é a cidade para a qual mais voltas. Tinha razão. Já voltei mais vezes a Paris do que a qualquer cidade do mundo. Voltei lá mais vezes do que à cidade onde vivi minha adolescência. A conheço melhor do que São Paulo, onde vivo há 17 anos. Por uma razão simples: Paris é linda e cada esquina fica grudada na memória. Minha alma, eu a perdi por lá. Então, Paris é a segunda cidade onde mais me parece ser bom viver. É a segunda porque tive a desgraça – ou ventura, como quisermos – de conhecer Madri. Não conhecesse Madri, seria certamente a primeira.
Crônicas da Guerra Fria (51) REMEMBER NURENBERG São Paulo - Quando Claire Sterling publicou A Rede do Terror, o coral costumeiro das esquerdas bradou em uníssono: ela é agente da CIA. Como agente da CIA era todo aquele que ousasse denunciar as ditaduras socialistas e o terrorismo por elas patrocinado. Agentes da CIA foram Gide, Kravchenko, Albert Camus, Ernesto Sábato. A pecha sobrou até para mim. Nos anos 70, por não participar dos desvarios das esquerdas, fui marcado na paleta como agente do DOPS, logo eu que tinha farto dossiê naquele departamento. Com o tempo, e graças à generosidade característica dos comunossauros, fui promovido a agente do SNI. Mais tarde, quando comecei a viajar, recebi a láurea máxima: agente da CIA. Hoje, tais acusações sequer me fazem rir. Mas era duro, na época, sentar em um bar e sentir que na mesa ao lado todos silenciavam ou mudavam de assunto. Como também era doloroso ser excluído da cama das colegas de universidade, em função de intrigas ideológicas, justo naquela idade em que de mulheres andamos famintos. Mas falava de Sterling. A Rede do Terror foi publicado no Brasil pela Nórdica Editorial, ao final dos anos 70, quando os Pinheiros Machados da vida pontificavam assegurando que a reunificação da Alemanha só seria possível se a Alemanha Ocidental se tornasse socialista. Sterling analisava o fenômeno do terrorismo nas democracias ocidentais e dava o endereço da escola: as ditaduras socialistas do Leste europeu, com especial menção aos serviços secretos da Tchecoeslováquia e Alemanha Oriental. Como pano de fundo de tudo, a Santa Madre Rússia, vulgo União Soviética. Escândalo! Calúnias do imperialismo ianque. Com a derrocada do fascismo eslavo, tudo se torna mais claro. Na finada Alemanha Oriental, a Stasi não só formava terroristas, como também os protegia após seus crimes no lado de cá. Outras fábricas de assassinos funcionavam na Romênia, Tchecoeslováquia e Bulgária. Como também em Cuba, Nicarágua, Argélia e Líbia. Com a débâcle dos milenaristas, o reflexo nas estatísticas foi imediato. Recente relatório do Departamento de Estado americano - Patterns of Global Terrorism: 1990 - mostra que, no ano passado, os ataques terroristas tiveram uma redução de 14,6% no mundo todo. Qualquer coincidência com a queda do Muro de Berlim e suas conseqüências é mais que mera semelhança. Com o que todos ganhamos, particularmente a América Latina. O terrorismo está perdendo terreno no continente. As “forças revolucionárias”, as “frentes populares”, as “uniões patrióticas”, eufemísticas expressões que abrigavam os celerados do século, em falta da mesada da Santa Madre Rússia, começam a pedir água. Na Guatemala - que antes de 89 ia de Guatemala a Guatepeor - a União Revolucionária Nacional Guatemalteca (quanto menor a republiqueta, mais solenes se pretendem seus salvadores) se dispõe a conversar com o governo. Em Honduras, as Forças Populares Revolucionárias da Colômbia e o Exército de Libertação Nacional sentem seus dias contados e acenam com negociações. O Movimento Revolucionário 19 de Outubro, tão ao gosto de Gabriel Garcia Márquez, virou partido político. Em El Salvador, a Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional deve assinar este mês um acordo definitivo de cessar-fogo. Quanto a nossos vizinhos, no Uruguai os tupamaros tocaram as armas pela política e tomaram de assalto a prefeitura de Montevidéu, o que aliás explica esse obsceno namoro de nuestros vecinos com a alcaiceria de Porto Alegre. Na Argentina, os derrotados montoneros entraram na política na garupa do peronismo. No Chile, metade dos universitários da Frente Patriótica Manuel Rodriguez, que em 1986 tentou matar Pinochet, já largou as armas. O Movimento de Esquerda Revolucionária não mais existe. Restam os fanáticos das Forças Rebeldes Populares Lautaro, que não estão gostando de ver o Chile vivendo um período de paz social e desenvolvimento econômico fora dos fracassados moldes marxistas. E no Peru, para vergonha da América Latina, persistem em suas paranóias os assassinos do Sendero Luminoso e do Movimento Revolucionário Tupac Amaru. Desesperados à parte, parece que estamos entrando em uma era de certa lucidez. A hora é de fazer o balanço dos estragos que Marx (voluntária ou involuntariamente, isto é outra questão) fez à humanidade. O curioso é que, para estes assassinos e seus cúmplices intelectuais, a impunidade parece ser direito adquirido. Posam de heróis e sequer lhes passa pela cabeça sentar no banco dos réus. Na Revolução do Nove de Novembro, se as vítimas se libertaram do tacão socialista, os opressores - exceção feita de algum Ceaucescu ou Honecker - continuam lindos e livres como passarinhos. Com a derrota de Hitler, os nazistas foram catados à unha onde quer que se escondessem. Stalin morreu de vez e seus cultores aí estão, empoleirados em prefeituras, órgãos culturais e universidades. Até hoje não entendi por que certo tipo de assassino merece Nurenberg, enquanto outros batizam ruas. Na Polônia, pelo menos há um certo pudor, os comunossauros em climatério, como penitência simbólica, fazem uma hora de crucificação. A Administração porto-alegrense, auto-intitulada de Popular, bem que podia, em vez de memoriais a Prestes, inaugurar um monte Calvário. Ia faltar cruz no mercado, é verdade. Mas eu me divertiria muito se me dessem o papel do Arimatéia. Os mais vivos saem pela tangente. Da Albânia a Angola, os tiranos e cúmplices da tirania começam a posar de social-democratas. Após ter de engolir Jonas Savimbi, da Unita, o MPLA-PT passou a chamar-se MPLA-PSD. Ou seja, o glorioso “Movimento Popular pela Libertação de Angola - Partido do Trabalho” passa agora a chamar-se “Movimento Popular pela Libertação de Angola - Partido Social Democrata”. Mudam as moscas e o marxismo é sempre o mesmo. Falar nisso, lembro que o Tarso Genro andou escrevendo uma ode qualquer à ditadura de Angola. Se algum leitor com espírito de humor tiver em mãos a escatológica obra, peço que ma envie para o endereço ao final destas, para que mais tarde possamos rir juntos através desta página. Os comunossauros passam então a chamar-se social-democratas, quem diria? Volta às origens? Afinal de contas, até 1914 Lênin se considerava social-democrata. Quando fundou o Comintern, em 1919, impôs aos social-democratas a alternativa de continuarem filiados à Segunda Internacional ou romper com ela e filiarem-se à Internacional Comunista. No III Congresso do Comintern, em 1921, Trotsky e Varga deitaram doutrina: “A diferença entre comunistas e social-democratas é que estes obstruem o verdadeiro progresso revolucionário ao fazer tudo quanto podem, seja no governo, seja na oposição, para ajudar a reconstruir a estabilidade do Estado burguês, enquanto que os comunistas aproveitam todas as oportunidades e todos os meios para derrubar ou destruir o Estado burguês”. Pouco a pouco, para os fanáticos da deusa História, social-democracia virou insulto. Décadas mais tarde, muito militante foi expulso do partido, acusado de “capitulacionismo” ou “reboquismo”, por ter aderido ao bom senso. Acontece que social-democracia, de ideal utópico passara a ser experiência social relativamente bem sucedida. Como todo religioso, os comunistas detestam qualquer projeto viável do qual não tenham sido patrocinadores. E optar pela social-democracia, no jargão dos comunossauros, passou a ser sinônimo de reacionarismo atroz. Mas os tempos mudam, e com eles os conceitos. Depois de reduzirem à miséria um país potencialmente rico como Angola, os marxistas esboçam um discreto dar-de-ombros, como se nada tivessem a ver com o desastre. E passam a chamar-se social-democratas. Social-democratas à la Lênin ou mais ao estilo de um Gunnar Myrdal ou Olof Palme? É o que resta saber. Pois toda a trajetória do marxismo não passou de manipulação de palavras. Tanto que agora, em Moscou, foi elaborado um novo dicionário para tentar fixar um sentido às velhas palavras. Primeira conclusão dos lexicologistas: democracia quer dizer nada. Ou qualquer coisa, tanto faz. De tanto ser usada a propósito de qualquer coisa, a palavra perdeu todo e qualquer sentido no mundo socialista. O mesmo parece que vai acontecer à social-democracia. Já vi muito agitprop fazendo proseletismo, na imprensa e na universidade, tentando provar que o rumo da humanidade só podia ser mesmo o socialismo, tanto que até os países nórdicos já haviam optado por este sistema. Quando Mitterrand foi eleito na França, não faltou tupiniquim se regozijando com os “avanços do socialismo". Como se os regimes da França, Alemanha ou países nórdicos - basicamente capitalistas - tivessem algo a ver com a miséria e barbárie predominantes nas democracias ditas populares. As denúncias de Claire Sterling, se há dez anos atrás podiam suscitar certa prudência no leitor mais céptico, são agora de uma luminosidade mediterrânea, como adoram dizer os magistrados para insinuar que estão voltando de uma excursão à Europa. A fonte geradora do terrorismo era Moscou. Muito bem. Pergunta a quem interessar possa: os “humanistas” que financiaram, organizaram e estimularam guerrilhas, seqüestros, massacres, assassinatos, esta gente não vai ser julgada? Pelo jeito que o mundo gira, ao que tudo indica, até as esquerdas preferem esquecer Nurenberg. (Porto Alegre, RS, 18.05.91)
AINDA O POBRISMO O blog Hermenauta (http://www.subsolo.org/hermenauta/archives/2007/11/index.html#008810) reproduz dois trechos do livro El P.r.u.n.: Almazán y el desastre final, de autoria de Bernardino Mena Brito, onde está a palavra pobrismo. "Este senhor foi cônsul mexicano em New York e chegou a ser acusado de querer fugir para a Europa levando 150 mil dólares do governo mexicano. No livro em tela, ele narra a ascensão e queda do Partido Revolucionario de Unificación Nacional, um partido de direita que tentou desafiar o Presidente Cárdenas na década de 30. Ah, o livro é de 1941..." Ou seja, a palavra vinha de longe. Tem mais de meio século. Da discussão faz-se a luz. Por outro lado, o blog afirma que fui defenestrado do jornal MSM. Não fui defenestrado. Fui censurado. Tive uma crônica censurada e recusei-me a continuar escrevendo, a menos que a crônica fosse publicada. Confesso que não sei o que passou pelo bestunto dos editores, afinal a crônica nada tinha de herético ou iconoclasta. Basicamente, eu afirmava que Cristo nasceu em Nazaré, não em Belém. Ora, o local de nascimento do Cristo sequer chega a constituir dogma para a Igreja Católica. Mas me consta que o problema era anterior. Parece que Aiatolavo não havia gostado de uma crônica anterior, onde eu discutia - à luz da teologia - a transcendente questão do destino do prepúcio do Cristo.
Terça-feira, Novembro 27, 2007
MINHAS CIDADES DILETAS - MADRI Periodicamente, a imprensa nos traz uma listagem dos melhores países para se viver. Hoje, trouxe uma tabela anual da ONU. Como sempre, os países ricos estão entre os primeiros. E os países pobres estão entre os últimos. Os cinco primeiros são a Islândia, a Noruega, a Austrália, o Canadá e a Irlanda. Os EUA caíram de oitavo, no ano passado, para 12º na lista elaborada segundo o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da ONU. Todos os 22 países colocados na categoria "baixo desenvolvimento humano" encontram-se na África subsaariana. Serra Leoa é o último colocado. Viajor entusiasta – desde que pelo Ocidente – vou meter minha esquiva colher nesse caldo. Não vou opinar sobre os países mais pobres do mundo. Não os conheço nem tenho interesse algum em conhecê-los. Miséria, já me basta a do Brasil. Quem gosta de ver miséria é turista do Primeiro Mundo. O que mais atrai um francês no Brasil são as favelas. Cidadão de Terceiro Mundo, jamais me ocorreria visitar uma favela. Também acho complicado falar de melhores países. País é algo bastante heterogêneo. Existem as capitais... e os vilarejos. Por outro lado, existem critérios e critérios para se eleger um país como melhor do mundo. Não sei exatamente quais são os da ONU. Sei apenas dos meus: bem-estar generalizado, segurança nas ruas, imprensa farta e livre, sistema eficaz de transporte coletivo, óperas, teatro e bom cinema, alta culinária e – o que mais me fascina – restaurantes, cafés e bares sofisticados. Seguidamente leitores me perguntam quais as cidades onde é melhor morar. Dentro do que me foi dado viver, vou falar das minhas dez diletas. Falarei apenas de cidades. Gosto muito da França, mas dificilmente viveria em alguma outra cidade que não Paris. Adoro a Espanha, mas jamais viveria em Toledo ou Cuenca. Atenção: adoro Toledo e Cuenca. Mas não para morar. Há cidades para se morar e cidades para almoçar num fim-de-semana. Antes de seguir adiante, vou descartando Reykjavik. A Islândia é um país fascinante. Mas viver numa capital com 100 mil habitantes me deixaria tão entediado como a uma ostra. Oslo, muito menos. Comida muito cara, bebida a preços de tornar sóbrio qualquer cristão. Na Islândia ainda é mais caro. Ora, não é bom viver em cidades em que o custo de vida seja muito alto. A confraternização se torna difícil. Mais ainda: na Noruega, nas lojas estatais que têm o monopólio da venda a varejo de bebidas alcóolicas, só pode comprar quem tiver mais de 25 anos. Puritanismo de luteranos. Não dá! Não por acaso – pasmem! – em pleno século XXI, a Noruega tem uma Igreja Estatal Protestante oficial, baseada na religião luterana evangélica. Oslo é como Montevidéu: simpática e nada mais que isso. Vamos às minhas dez. Não vou falar daquelas cidades pequenas e lindas, que nos encantam mas onde jamais moraríamos. A cidade pequena – escreveu Kavafis – olha e passa. Vou falar de grandes cidades. A lista está longe de ser definitiva e, pensando com mais vagar, eu até poderia mudar o ordenamento de algumas. Não citarei nenhuma cidade vertical. As cidades verticais achatam o ser humano. Gosto de cidades horizontais. Em primeiro lugar, para quem me conhece, não há surpresa alguma: Madri. Adoro Madri e ao despedir-me dela saí de lá chorando. Nem Paris nem Estocolmo me produziram esta reação. Mais ainda: já li relatos de outros viajores que também saíram de lá chorando. Não que a cidade seja excepcionalmente linda, nada disso. Paris, Praga ou Viena são muito mais lindas. O que gosto em Madri são os madrilenhos e seu savoir vivre. Há uma profusão extraordinária de cafés e restaurantes, tudo isso dentro de um quadrilátero relativamente pequeno, o que permite fazer-se a pé a geografia etílica da cidade. Adoro os horários da Espanha, que tornam perplexos os demais europeus. Às nove da manhã, as cidades estão mortas. Começam a acordar lá pelas dez. O almoço geralmente é a las dos del mediodía. Quando não a las tres. Nem pense em almoço às doze do meio-dia. Seria um insulto ao restaurador. A noite, por sua vez, começa a las nueve de la tarde. Adoro aquelas madrugadas geladas de inverno, temperaturas abaixo de zero e milhares de madrilenhos percorrendo aquelas vielas e avenidas quais formigas enlouquecidas, lá pela uma ou duas horas da madrugada. Me encantam também os cafés de Madri. Diria que os melhores dias de minha vida, eu os vivi no Oriente, em frente ao Palácio Real, na Cerveceria Alemana, na Plaza Santana, nos centenários Gijón e El Espejo, no Paseo de Recoletos. O Gijón explica porque nunca consegui chegar à Biblioteca Nacional de Madri. Quando ia para a biblioteca, antes de atravessar o Paseo de Recoletos, estava o Gijón. Nunca consegui atravessar aquela avenida. Sem falar nos cochinillos e corderos lechales. São dois assados que valem uma viagem à Espanha. O cochinillo é um leitãozinho de vinte e poucos dias, assado em um forno especial, que parece derreter-se na boca de tão tenro. O lechal é o cordeiro de leite, ainda não desmamado e cuja idade não passa de seis semanas. Existe ainda um cordeiro mais adulto, o pascual, que é criado pastando tomilho. Ou seja, temperado desde o berço. O melhor restaurante para degustá-los em Madri é o Sobrino de Botín, com mais de trezentos anos. Em Toledo, procure o Valério. Em Segovia, o Conde Duque ou o Cândido. Lá, já fui servido pelo próprio Conde Duque, que partia o cochinillo com um prato, para mostrar sua tenrura, e depois quebrava o prato no piso do restaurante. E não adianta procurar estes pratos fora da Espanha. Outro dia, aqui em São Paulo, fui ao Rubayat, que se gaba de oferecer um cochinillo aos sábados. Não era nem a sombra da sombra do cochinillo do Sobrino de Botín. Pelo tamanho do pernil, seria um leitãozinho senil, talvez com três ou mais meses de idade. E o Rubayat não tem o forno do Sobrino de Botín. Sem falar que adoro ouvir espanhol, adoro falar espanhol e me sinto muito mais em casa falando espanhol do que falando português. E adoro o flamenco, sevillanas e cante hondo. Em suma, vejo a Espanha como um misto de cores e sons, sabores e odores, alegria e canção. Recomendo vivamente. Em segundo lugar, colocaria Paris. Quando sonhava em bater pernas pelo planetinha, Paris sequer constava de meus projetos. Porque não constava, não sei. Mas Paris, em meus dias de guri, não me fascinava. A idéia que eu fazia da cidade era a de uma capital cheia de chaminés e túneis, herança das leituras dos Mistérios de Paris, de Eugéne Sue, dos três mosqueteiros e de mais alguns romances de capa-e-espada. Conto mais adiante.
Crônicas da Guerra Fria (50) FALEM NDERIT São Paulo - "Crescem os bosques de oliveira pelos vales, sobem pelas íngremes ladeiras num doce verde que me recorda subitamente terras de Espanha e Portugal. O avião voa sobre ásperas montanhas, em breve alcançaremos o mar, as águas ilustres do Adriático, e tudo é intensamente belo na paisagem em redor. No límpido céu azul fogem farrapos brancos de nuvens, serpeiam os rios cor de prata por entre a variação mediterrânea do verde, a Albânia se oferece aos olhos num esplendor de luz e colorido. Volto-me para os companheiros de viagem e os vejo de olhos pregados nas pequenas janelas do avião. Estes olhos fixos, de búlgaros e tcheco-eslocavos, de franceses e alemães, de poloneses e húngaros, estão turvados de emoção. Acabamos de sair das terras sofredoras da Iugoslávia, onde vis traidores assentaram seu acampamento. Este avião em que vamos é o mais persistente traço de ligação da Albânia com o mundo e contra ele se volta, em mesquinhas represálias, o ódio bovino dos judas titistas. Wanda Jacubowska, com um sorriso comovido, diz: - É a Albânia! É belo!" Deste relato, escrito por viajor experiente e de longo curso, lido em minha adolescência, deve provir minha curiosidade pela Albânia. Assim sendo, quando em visita às vis terras titistas, qualquer coisa me impelia a olhar para o outro lado da fronteira macedônia. De Titov Veles, cidade que homenageia o traidor, deixei o Vardar seguir seu curso e enveredei alguns quilômetros a sudoeste. Velejando pelas águas mansas do Ohrid, percebi um certo temor em meus companheiros à medida que o barco avançava. Uma linha imaginária fazia a fronteira com a Albânia, e a fixação dessa linha dependia muito do humor das patrulhas albanesas. Melhor voltar, antes que nos crivassem de metralha. De modo que, estando a poucos quilômetros da Albânia, não consegui saciar minha curiosidade. "Os rebanhos de carneiros pastam nos vales" - prossegue o celebrado guia - "a faixa branca das praias circunda o azul do mar, a Albânia se estende sobre nossas vistas. Para trás deixamos a Iugoslávia, essas estradas que partem de Shkroda se dirigem para Montenegro. Os olhos cobiçosos de Tito, mísera criatura de Truman e de Churchill, fitam com furiosa raiva as terras albanesas e a esse povo indomável. Seu ódio contra a Albânia e contra os comunistas albaneses deve ser alguma coisa de terrível: os comunistas desse pequeno país souberam conservar-se fiéis ao internacionalismo proletário quando Tito, cevado pelas gorjetas imperialistas, se afundou cada vez mais no lodo do imperialismo burguês, traiu os povos da Iugoslávia e o proletariado de todo o mundo... (Os albaneses) não são apenas cordiais, cordialidade é uma frágil palavra para expressar essa atmosfera fraternal, esse calor de vida, essa prova triunfal da força criadora do socialismo. As vozes se elevam numa canção, enquanto os automóveis partem. Eu vos disse antes que a Albânia é uma festa e realmente não sei de melhor comparação para a alegria reinante nesses locais de trabalho, para essa atmosfera de entusiasmo criador". E eu ali, em meio ao lago Ohrid, sem poder visitar a terra encantada. Na fábrica Enver, nosso viajante se extasia ante a felicidade de uma operária: "Penso com ternura e gratidão nos homens que lhe abriram as perspectivas de todo esse futuro: Marx e Engels, Lênin e Stalin, Dimitrov e Enver Hodja. A moça se curva outra vez sobre a máquina, suas mãos a movimentam, seus olhos estão atentos, sua face iluminada! De onde vem essa luz que cobre a face bela da jovem operária? O poeta Alexis Çaçi nos fala dessa luz num poema sobre a terra libertada da exploração do homem pelo homem: Faces sorridentes desfilam sucessivamente e o sol, a lua e as estrelas se unem, e uma grande luz invade a nossa terra. É a aurora do socialismo." Claro que tais paraísos não se constróem ao acaso. Sem a vontade férrea de um grande líder, um farol da humanidade, os países jamais superariam a fase de um capitalismo decadente. A vontade, no caso, foi a do "Comandante": "Durante a guerra de libertação, Enver Hodja atravessou, por duas vezes, a pé, todo o território da Albânia. Pode-se dizer que ele conhece cada cidadão, dormiu numa enorme quantidade de casas, nas cidades e nos campos, compartilhou da mesa pobre de milhares de camponeses, foi por eles escondido enquanto a polícia do fascismo o buscava afanosamente. Era, para cada um, como um filho querido, esse jovem quase adolescente que chefiava a luta pela libertação da Pátria. Mas era também como o Pai de cada um, aquele que estava construindo o destino de todo esse povo. Fiz esta viagem em 79. As greves, os conflitos sociais, a falta de liberdade de imprensa e a ditadura então vigentes em meu país, todos estes fatores me pesavam como chumbo na alma. E eu estava ali, a poucas léguas da sociedade justa, erigida por um homem só: "Quando não o tratam de Comandante, chamam-no pelo seu prenome: Enver. Vi os jovens estudantes o cercarem no teatro de Tirana e ele perguntar a cada um pelos seus estudos. Os operários da fábrica Enver disseram-se que de seu orgulho e de sua responsabilidade de trabalhar na fábrica que leva seu nome. E ouvi os seus discursos e ouvi dele, em três largas conversas, se desprender sua fidelidade ao povo albanês, à União Soviética e ao internacionalismo proletário. (...) Não é por acaso que ele está presente na poesia dos poetas novos da Albânia como o símbolo da nova vida conquistada. É que ele foi o coração ardente da luta, foi o cérebro dirigente, foi a coluna mestra da criação do Partido. Ele nasceu do sangue operário derramado nas greves dos anos feudais, nasceu do suor do camponês vertido sobre a terra que não era sua, nasceu das lutas anônimas de todo os patriotas contra o jugo estrangeiro. E hoje ele é mais do que nunca o coração da nova Pátria livre". Ainda às margens do Ohrid, pareceu-me ouvir inefável canção: "Quando sobe pelos céus da Albânia a música da construção socialista, quando se erguem os edifícios das fábricas, quando os jovens conquistam a técnica e a cultura, quando os camponeses se reúnem em cooperativas e as mulheres arrancam os véus para dirigir tratores, quando as crianças repousam nas creches e brincam nos jardins de infância, quando os escritores tomam da pena para criar romances e poemas, quando o trem de ferro apita sobre os trilhos colocados pela juventude, quando os túneis rasgam as montanhas e os fios elétricos se prolongam pelas aldeias perdidas, quando velhos camponeses se curvam sobre a carta do ABC, quando novas minas e novos campos de petróleo são explorados, quando a vida do povo se transforma e a pátria cresce em fartura e alegria, ali estão o Partido e Enver, criadores de vida!" Após ter usufruído do sumo privilégio que me foi negado, o de visitar nação tão feliz, nosso entusiasmado viajante agradece comovido: "Quero, Albânia, pôr a mão direita na altura do coração, num gesto de tamanha civilidade e gentileza como o fazem teus filhos, e repetir as palavras de agradecimento: Falem nderit, muito obrigado. Falem nderit, Albânia, pelo novo amor que te tenho, esse amor feito do conhecimento, com a mesma tímida ternura comovida. Amo a tua juventude, risonha adolescente colorida que os anos não envelhecerão jamais. Bem sei que madura és de experiência, adulta na vontade invencível dos trabalhadores, e amanhã madura estarás em teus kolkozes, nas torres de petróleo libertadas, no mar e na montanha conquistados. Mas adolescente serás p'ra todo o sempre, não há outono para a primavera do socialismo". Pois não é que vejo nos jornais os ingratos albaneses derrubando estátuas do Pai da Pátria, enfrentando a polícia para retirar seu nome de fábricas e universidades? Quanta ingratidão, meu Deus! Quanto ao autor do hagiológio supra, é Jorge Amado, rodando a baiana nos Bálcãs. O mesmo que escreveu, no mesmo livro: "Não existe nada mais poderoso do que a verdade. Ela rompe qualquer cortina de dólares e sua luz ilumina os povos". Pelas citações, falem nderit. (Porto Alegre, RS, 16.03.91)
ASTRÓLOGO SÓ ESCREVE PARA DEUS De uma entrevista com Olavo de Carvalho: Eu só estou interessado, por exemplo, com relação aos leitores, ao público etc., aliás, o único público para o qual eu escrevo é Deus, eu só quero saber a opinião de Deus a respeito do que eu estou fazendo; a do outros, se for favorável é bem vinda, se não for favorável não tem a menor importância.
¿QUÉ ES EL POBRISMO? De uma entrevista com Alejandro Rozitchner: - ¿Qué es el “pobrismo”? - Es una idea que inventé para un artículo, es el cultivo de la pobreza, es decir, la creencia de que la pobreza es un valor. Muchos piensan que “si uno no tiene plata, es bueno. Si uno tiene plata, es malo. Los ricos son malos, los pobres son buenos. ¿Por qué es pobre el pobre? Porque es bueno”. Pero ser pobre no es ser bueno; ser pobre es ser pobre. Si queremos lograr que haya menos pobreza tenemos que destruir esa visión romántica, pura, religiosa y trascendente de la pobreza, como si ser pobre fuera el resultado de no haber transado con el horror del mundo sensual y mercantilista. A mi juicio, ser rico (o dejar de ser pobre) es ser capaz de un intercambio sensual con la realidad. Esto implica riqueza, tanto de sentido como material. Riqueza es tanto un bello gesto como un celular. Y ambas se relacionan y van juntas.
Segunda-feira, Novembro 26, 2007
CRONISTA TUCANOPAPISTA MENTE O cronista tucanopapista Reinaldo Azevedo gaba-se em sua coluna de hoje de ter criado um neologismo, que já teria passado para as novelas da Globo. Escreve o chapa-branca: Pobrismo.... Hehehe... Uma palavrinha criada pelo Tio Rei foi parar na novela das oito — quer dizer, das nove... Uma personagem lá acaba de dizer algo como: “Ser rico é o grande problema no país do POBRISMO.” Criei o vocábulo no Primeira Leitura. O arquivo do site não está no ar, mas as revistas estão aqui, bem guardadinhas. Vou ver se consigo achar o texto em que escrevo largamente a respeito. Ora, este neologismo foi criado pelo escritor argentino Alejandro Rozitchner, em trabalho publicado em 2005, na revista Notícias, sob o título "Una visión pobrista". A palavra se refere a uma mentalidade surgida lá por 2001. Pobrismo é entendido como "no ver ni entender que pagar los altos precios que requiere la realización de una persona madura o de una sociedad madura es lo que permite elevar el nivel de vida, como si la finalidad de toda la sociedad y en especial de sus dirigentes, fuera ante todo la de no modificar la existencia de una pobreza a la que se dice querer eliminar pero a la que se reivindica al mismo tiempo, como cultura popular, como expresión de sabiduría y campo de valores superiores" y también como "hacer de la comunidad carenciada una comunidad virtuosa"; como “no aspirar a una vida plena sino a la mera supervivencia" entre varias interpretaciones de un término que define sobre todo un modo de encarar la realidad y de mirar al mundo. Y a las prueba me remito. Vejamos este texto de Rozitchner, publicado na Web em julho de 2006: Friday, July 07, 2006 El pobrismo Alejandro Rozitchner sobre el pobrismo, una de las variantes del “tercermundismo” y de la “teoría de la dependencia” a la que adherimos con mayor pasión en Argentina. Esta manera de encarar la vida es sin duda uno de los principales sostenes culturales de la creencia de que menos es mejor que más, la base de la Argentina post golpe de fines de 2001: El pobrismo no es un mecanismo de dominación, es una visión de la sociedad, una filosofía de vida, una versión del mundo. Como forma de dominación es muy imperfecta, ya que debe pagar un altísimo costo en la violencia que engendra y en la potencial revuelta justiciera que hace asomar en el horizonte. El pobrismo es una forma de vivir la vida y de pensar el país, una manera reducida de concebir al ser, la creencia absurda de que el destino se manifiesta como una serie infinita de carencias y que cualquier propuesta debe respetar el peso de ese límite. La carencia es promovida como si se tratara de una prueba de honradez, como si ser honrado fuera no aspirar a más porque todo querer nos compromete en los caminos del mal. Su moral es una moral de quedados que dicen estar siempre bajo una voluntad ajena, cuando por lo general antes de la existencia de esa voluntad enemiga lo que se evidencia es la falta de una voluntad propia. El pobrismo es la política de la neurosis, de aspirar a poco, el plan de no pagar, no ya la deuda externa sino ninguno de los precios que una sociedad debe pagar para conquistar un buen nivel de vida generalizado. Ni pagar cada persona los precios de su crecimiento personal, se trate de su crecimiento afectivo, laboral, espiritual, de cualquier tipo. Pobrismo es no ver ni entender que pagar los altos precios que requiere la realización de una persona madura o de una sociedad madura es lo que permite elevar el nivel de vida, como si la finalidad fuera ante todo la de no modificar la existencia de una pobreza a la que se dice querer eliminar pero a la que se reivindica al mismo tiempo como cultura popular, como expresión de sabiduría y campo de valores superiores. Pobrismo es hacer de la comunidad carenciada una comunidad virtuosa, del hombre caído un personaje siempre más valioso y mejor que el hombre entero y capaz de algo. Pobrismo es confundir el hecho de que es necesario ayudar y asistir y educar y formar a quienes padecen de miseria con la creencia de que a ese estado se llega por haber sido bueno. Pobrismo es rechazar el crecimiento por ver en la riqueza que este genera la huella del diablo, pobrismo es ser más sensible a las pérdidas que todo crecimiento siempre produce que a los beneficios de tales metamorfosis. Pobrismo es estar enamorados de los momentos débiles del desarrollo, preferir subrayar esos costos antes que hacer pie en los posibles resultados de las apuestas osadas y tal vez exitosas. Pobrismo es no aspirar a una vida plena sino a una mera supervivencia, lo que constituye una forma de involucionar. Pobrismo es no querer crecer, ver en el crecimiento una tentación indebida, tener un repertorio de ideas para afear el camino de quien quiere crecer, para arruinárselo, con la moral absurda de que si yo no puedo o no quiero tampoco debe poder o querer nadie. Pobrismo es mirar para atrás, pensar para atrás, querer para atrás, asegurarse la quietud con estratégicas morales de respeto y de temor. Pobrismo es creer que el temor es una reverencia frente a una instancia importante que debe respetarse, no captar la debilidad que ese temor entraña y no querer por lo tanto nunca superarlo. Pobrismo es creer que la gente que tiene plata no puede querer el bien del país y por el contrario creer que lo que quiere y decide alguien en mala situación es siempre bueno y correcto. Pobrismo es creer que las malas ideas, las comprensiones limitadas de la situación, desde el momento en que se tornan masivas se vuelven también verdaderas e imprescindibles. Pobrismo es, para un político, cortejar a la pobreza como a una novia, siendo incapaz de generar otra estrategia de poder que la de reinar en el vacío. Pobrismo es depresión de líder que no puede dejar de querer reinar pero no sabe bien para qué, y pobrismo es también suponer que a todo líder le pasa lo mismo, dar esa versión miserable de los hechos según la que todo en el fondo responde al mismo vacío. Pobrismo es halagar al sentido común, halagar al pueblo en sus aspectos más quedados y conservadores, pobrismo es conformar ese poder de un pueblo encaprichado con el facilismo, armar una ciudadanía con el lomo de sus prejuicios bien sobado, contenta de ser mediocre y tiránica a la hora de descalificar cualquier instancia que busque desafiarla, hacerla crecer, llevarla a confrontar con sus límites de comodidad y a desprenderse de su moral de pobreza justa, de pobreza racionalizada, de pobreza padecida pero de la cual siempre otro es responsable, de pobreza que se convierte en plan del lucha en contra de aquel que osó no ser pobre para castigar su osadía. Pobrismo es preferir no hacer olas y quedarse en el confort y la retroalimentación que produce el grupo de frustrados, es no querer explorar las posibilidades disponibles, preferir el juego de rechazarlas a todas para hacer más fuerte el sentido colectivo de la frustración y centrarse en una lucha inverosímil e inventada, falsa, optar por culpar al rico, al menos pobre, al que busca, como si fuera responsable absoluto de la existencia de las dificultades que se padecen. No digo que nuestra sociedad sea total y fatalmente pobrista, pero me parece productivo mirar a la cara estas tendencias poderosas en nuestra vida social, porque es el único modo de aspirar a desactivarlas. Hay entre nosotros también otras visiones, más capaces y más vitales. Sería bueno distinguir unas de otras y aprender a apoyar las tendencias más aptas para aprovechar lo que de positivo tiene nuestro momento actual. Argentina tiene necesidad de enormes dosis de buena conciencia, es decir, de modos de mirar la vida que la hagan superar las miserias mentales que engendran miserias materiales. Dejar de creer que nuestra pobreza proviene de enemigos feroces, modificar el vicio de crear y recrear nuestros vacíos meritorios. Ora, o cronista plagiador tucanopapista, o virtuose do cut and paste, já tem idade suficiente para intuir que a mentira tem pernas curtas. Apud Azevedo, pobrismo adquire uma nova conotação: plagiar descaradamente colegas de jornalismo. PS - Um leitor acaba de me enviar uma referência anterior da palavra pobrismo. Está em Reporte Publicidad, de 2004, e é um achado do blog O Hermenauta (http://www.subsolo.org/hermenauta/archives/2007/11/index.html#008805): Y lo gracioso es que, de esos rasgos, lo que surge es más pobreza. Es una política del pobrismo. El peronismo bonaerense es pobrista, le gustan los pobres, produce pobres. Es una especie de cristianismo también. Es una mentalidad. ¿Y por que odiamos a los Estados Unidos? Porque no son así. ¿Por qué los EE.UU. pudieron tanto? Porque no son así.
VOVÓ CORTA KINTIR DE HIRSI Fui a seguinte. Fazendo um gesto amplo, vovó disse: “Quando esse kintir comprido for retirado, você e sua irmã ficarão puras”. Pelas palavras e gestos dela, concluí que aquele abominável kintir, o meu clitóris, acabaria crescendo tanto que um dia começaria a balançar entre minhas pernas. Ela agarrou meu tronco do mesmo modo que tinha prendido Mahad. Duas outras mulheres abriram as minhas pernas. O homem, que provavelmente era um “circundador” intinerante tradicional do clã dos ferreiros, pegou a tesoura. Com a outra mão, segurou o lugar entre minhas pernas e começou a puxá-lo e espremê-lo, como quando vovó ordenhava uma cabra. “Aí”, disse uma das mulheres, “aí está o kintir”. Então o homem aproximou a tesoura e começou a cortar os meus pequenos lábios e o meu clitóris. Ouvi o barulho, feito o de um açougueiro ao tirar gordura de um pedaço de carne. Uma dor aguda se espalhou no meu sexo, uma dor indescritível, e soltei um berro. Então veio a sutura, a agulha comprida, rombuda, a transpassar canhestramente os meus grandes lábios ensangüentados, os meus gritos desesperados de protesto, as palavras de conforto e encorajamento de vovó: “É só uma vez na vida, Ayaan. Seja corajosa, está quase acabando”. Ao terminar a costura, o homem cortou a linha com os dentes. (Excerto de Infiel, de Ayaan Hirsi Ali, Companhia das Letras)
JÔ E O CLITÓRIS Raphael Piaia me envia nota da Folha Online: O Ministério Público Federal no Rio de Janeiro informou nesta segunda-feira que investiga o "Programa do Jô", exibido depois do "Jornal da Globo" pela TV Globo, por suposta manifestação de preconceito. Segundo a procuradoria, houve denúncias sobre uma entrevista que abordava a questão de mulheres submetidas à cirurgia no clitóris na África e que comentários do apresentador podem ter manifestado preconceito em relação a hábitos e costumes culturais daquele continente. As entidades que levaram a denúncia ao MPF acusam o programa de desrespeito a comunidades negras. A representação está sob os cuidados da procuradora dos direitos do cidadão, Márcia Morgado. O MPF não informou a data exata na qual o programa foi ao ar, mas foi em 2007. A assessoria de imprensa do programa informou que não recebeu nenhuma notificação sobre o procedimento. Essa agora! Confesso que não vi este programa do Jô, afinal raramente vejo televisão nacional. Pelo pouco que conheço do apresentador, suponho que tenha se manifestado contra as mutilações genitais usuais na África negra ou muçulmana, que a redatora Dayanne Mikevis eufemisticamente chama de cirurgia. (Há quem fale também em circuncisão feminina, como se a ablação do clitóris e a infibulação da vagina pudessem ser comparadas ao ato pouco ou nada mutilante da circuncisão). Tampouco tenho conhecimento dos termos da denúncia ao Ministério Público. Mas, ao que tudo indica, já temos no Brasil defensores da mutilação genital feminina, em nome do tal de multiculturalismo. Só o que faltava. Quando até mesmo no Egito, onde a clitoridectomia e a infibulação são usuais, estas práticas já constituem legalmente crime, surgem fanáticos no Brasil para defendê-las. A notícia da denúncia ao MP chega nestes dias em que uma mulher estuprada por um grupo de homens foi condenada a 200 chibatadas e seis meses de prisão por uma corte de apelação na Arábia Saudita. A mulher, de 19 anos, foi estuprada 14 vezes por homens de uma tribo sunita na cidade de Al-Qatif, região leste da Arábia Saudita. Inicialmente, os estupradores foram condenados a cinco anos de prisão. A vítima, que havia estado no carro de um homem desconhecido antes do ataque, recebera anteriormente uma pena de 90 chibatadas. Quando a mulher recorreu da sentença, foi acusada pelos juízes de tentar influenciar a decisão da corte através da mídia. Por isso, sua pena mais do que dobrou, chegando a 200 chibatadas mais prisão. Em todo Ocidente, a decisão da corte saudita foi condenada como prática bárbara. Para os que denunciaram o programa do Jô, vai ver que não passa de preconceito em relação a hábitos e costumes culturais daquele país. Adiante, senhores! Poderiam continuar pedindo a proibição de Infiel, livro de Ayaan Hirsi Ali, a somali que desafiou o Islã, denunciando suas práticas bárbaras, entre elas a mutilação genital feminina. A propósito, o livro saiu recentemente pela Companhia das Letras, está em minha cabeceira e qualquer hora o comentarei. Ó tempora, ó mores! Chegamos a uma época em que se tem de defender até mesmo um medíocre como Jô Soares!
Crônicas da Guerra Fria (49) SOBRE CÃES E COMUNISTAS São Paulo - Eu flanava por Montparnasse, quando uma voz rouca vinda de meu passado, quase cantando, me chama, carregando nos erres: Janérrr. Era Michelle, permanente do PCF e minha antiga professora de francês. Há quase uma década não nos víamos e estávamos frente ao Select Latin. O bar fica frente ao La Coupole, um dos bebedouros de Sartre e Simone. Nele, em 1980, havíamos erguido um brinde póstumo a Sartre, logo após seu enterro. A ocasião era única para reviver porres passados, o que foi feito. Mal sentamos, o garçom já foi perguntando: – É verdade, Monsieur. Que é que o senhor quer? O início da frase me surpreendeu. Diante de meu espanto, o garçom indicou com os olhos o livro que eu acabara de comprar, Les Hommes ont soif, de Arthur Kloester. Ah, bom! E pedimos uma Leffe, a cerveja que sempre pedíamos no Select. Após as efusões iniciais, perguntei por Igor. Passava bem, embora um pouco alquebrado pelo reumatismo. E Marchais? Sempre capitaneando o Partido, embora um pouco perplexo com os acontecimentos no Leste. Trocamos trivialidades e telefones. Não demorou uma semana, aquela voz rouca, que tanto me agrada em mulheres, cantarolou ao telefone: – Janérrr, j'ai besoin de tes forts bras! Foi minha vez de ficar perplexo, certamente bem mais do que George Marchais com o fuzilamento de seus queridos amigos, os Ceaucescu. Entre nós, sempre se interpunha a sombra de Igor. No final de 70, eu fazia correspondência em Cannes para a Caldas Júnior. Era maio, festival de cinema, muito sol no céu do Midi e estrelas vagando pela Croisette. Eu alugava sozinho um apartamento com sacada para o mar, ela se deprimia em um estúdio escuro em Paris. Sejamos gentis com nossos mestres, pensei, vou oferecer-lhe alguns dias de sol e cinema. Recebeu faceira* meu convite e chegou no dia seguinte, fazendo autostop. Dizem as más línguas que, de Paris a Cannes, são só quatro ou cinco orgasmos. A França é pequena. Sol vale ouro para um parisiense e cinema é um dos orgulhos nacionais. Ela estava feliz, eu também. Sempre considerei que, quanto mais íntima a relação professor-aluno, mais rápido é o aprendizado. Mas pouco durou minha felicidade. Ficou apenas três dias comigo, morria de saudades do Igor. Havia telefonado a Paris e sentiu, ao telefone, que ele se sentia só. Ela se foi e fiquei só. Mas não por muito tempo. Naquele festival Coppola havia lançado, em pré-estréia internacional, seu Apolicapse Now. Jornalistas do mundo todo me confundiam com o Coppola e não vi nada demais em tirar algumas casquinhas às custas de meu sósia. Seja como for, Igor me ficou atravessado na garganta. E agora, dez anos depois, aquela voz rouca me chamava, dizia necessitar de meus fortes braços. Armistício, reconciliação? Quand vous voulez, respondi enfaticamente, afinal sempre a tratara por tu. Marcamos a coisa para o dia seguinte. Ãs nove da manhã, chez elle. Francesa tem cada horário. Aquele leitor que me odeia mas não deixa de me ler todas as semanas, já deve estar espumando: lá vem o Cristaldo com suas histórias de cama. Pois hoje vais ganhar colher de chá, meu querido. A moça necessitava de meus fortes braços para que eu ajudasse em sua mudança. Em função das conquistas sindicais, as prestações de serviços são caríssimas em Paris. A menos que se esteja na condição de rico para milionário, toda mudança é um mutirão entre amigos. Quem contrata os serviços de uma transportadora, tem não só de colocar seus trastes no caminhão, como também de retirá-los, que trabalhador francês não está lá para isso. Lá estava eu, ao lado de outros panacas que a permanente atroz conseguira reunir, carregando móveis do apartamento e arquivos das caves. Lá pelas tantas do meio-dia, exausto de carregar caixas, quis saber o que elas continham. São os arquivos da célula de Montparnasse, me respondeu aquela detestável voz rouca. Ah! Entrei em greve e fui pro Select rir um pouco de mim mesmo. Pois é! Por algumas horas, pus meus fortes braços ao serviço da História, carregando os arquivos da célula do PC de Montparnasse. Ou seja: eu ajudava, braçalmente, na mudança de uma menina burguesa, cujo partido lutava para liberar os trabalhadores do trabalho braçal. Jamais recebi pena tão bem merecida. A gente morre e não aprende tudo. Já de barbas brancas, acabei caindo na armadilha de uma voz insinuante. Pior de tudo , não era a primeira vez que entrava em fria. Num outro mês de maio, fora a Amsterdã para o coroamento da rainha Beatrix. Ao falar da viagem para Michelle, ela se entusiasmou com um fim-de-semana na Holanda e, desta vez, me ofereceu carona. Desde que eu não me importasse, é claro, que Igor fosse conosco. Sem imaginar o afluxo de turistas para as solenidades de coroamento, nem pensei em reservar hotel. Resumindo: acabamos dormindo no carro à margem de um canal, arriscando inclusive dissabores com a polícia, pois em Amsterdã isto constitui infração. Bueno, uma noite como quer se passa, diz o gaúcho. Sem falar que não é todos os dias que um mortal acorda às margens de um canal de Amsterdã com uma francesa nos braços. Mais uma colher de chá para o leitor que me detesta: o que prometia ser um despertar paradisíaco, revelou-se um pesadelo. Acordei cheio de pelos e com Igor me lambendo as cãs. E sequer podia dar um chute naquele quadrúpede abominável, pois minha parceira entraria em crise. Enfim, tudo isto é um pequeno intróito para explicar, inclusive a meus irritadiços leitores, porque não morro exatamente de amores por cães nem por comunistas. Dos cães, até que eu gosto. Me criei entre eles, retouçando em meio aos alhos-bravos, como se cachorro fosse. Mas gosto de cachorro no campo, ou pelo menos em casa, jamais em apartamento. Meu primeiro choque na Europa – que nada tem de original, mas é espanto de todo latino-americano – foi esta situação privilegiada dos cães. Visitei cemitérios para cães, vi três gerações chorando, em um Dia de Finados, diante da tumba de um deles. Li cardápios para cães, receitas de almoços, janta e sobremesa para cães, sem falar em xampus e pastas dentifrícias, temperadas com mel, para os pulguentos. Vi anúncios de psicanalistas para cães, recomendando inclusive aos donos que, por favor, fizessem psicanálise, para que seus distúrbios emocionais não interferissem na vida psíquica do cãozinho. Conheci pesquisadoras latinas que trabalharam como dogsitters, isto é recebiam alguns trocados para levar os cães a defecar, e com isso financiavam seus doutorados. Ouvi, juro que ouvi, a frase infame: Mademoiselle X., elle suit un doctorat à la Sorbonne. Elle s'encharge de mon chien. Se terminou seu doutorado, não sei. Mas uma velhota decrépita se orgulhava de ter, como criada de seu lulu, uma pesquisadora brasileira. Vi também casais divorciados, lutando na justiça pelo direito de visita, não aos filhos, mas ao cão. Vi cachorro tomando cerveja no mesmo copo que sua dona. Já não lembro em que cidade da França, busquei um boteco e pedi um calvá. A meu lado, sentou-se uma dame, e seus três pestilentos tomaram assento em minha mesa. A distinta senhora molhava pedrinhas em seu conhaque e as oferecia a seus amores**. Sentar com comunistas, foi rotina em meus dias de universidade. Com cachorros, chupando pedrinhas de açúcar embebidas em calvá, foi realmente uma experiência nova. Esta minha ojeriza, insisti em registrá-la em Ponche Verde. Quem conhece Paris só de vista, acha que exagerei. Quanto aos franceses, não entendem como alguém possa ter algo contra essa idolatria. Mas Michelle tinha senso de humor, qualidade rara tanto em franceses como em comunistas. Pelo jeito, soube preservá-lo, tanto que acaba de enviar-me um bem-humorado livrinho recém-lançado em Paris, Bas les Pattes, de Fabien Gruhier, redator do Nouvel Observateur. Gruhier, um dos raros franceses a intuir o absurdo deste culto aos animais, acrescenta novos dados a meu arquivo de zoofilia. Nas lojas Samaritaine já se pode comprar, a 72 francos a meia dúzia, calcinhas para cadelas no cio, o que inaugura um novo ramo na tão celebrada lingerie francesa. Mais ainda: para cães diabéticos ou com problemas de colesterol, a Quaker lançou um enlatado, à base de carne branca e legumes ao vapor. Sem falar que as dietas caninas já passaram ao reino da informática. Na cadeia de butiques Animal's, você pode inserir em um terminal a idade, a raça, o sexo e o peso de seu cachorro e, na tela, aparece o menu ideal de seu tesouro. Este promissor mercado de futilidades oferece ainda dentifrícios e pastilhas clorofilisadas contra o mau hálito canino. Existissem na época do coroamento da Beatrix, talvez eu não guardasse tão triste memória de meus dias em Amsterdã com Igor. Mas o melhor vem agora, o drama dos cães comunistas. Que Igor era um deles, disto não tenho dúvida alguma, pois Michelle jamais partilharia seu leito com um salle chien capitaliste. Mas Igor vivia em Paris, sonho de todo revolucionário, humano ou canino. Fabien Gruhier se refere ao drama dos cães do Leste, após a queda do muro. A revista Animaux Magazine consagrou um número, em março do ano passado, aos animais vítimas – ou beneficiários – da perestroika. Segundo Gruhier, nem os animais do Leste querem ouvir falar de socialismo e não deixam de ter suas razões para tanto. Após a Grande Revolução, os cães soviéticos foram golpeados com uma taxa anual de 15 rublos, o que eqüivale a dois dias de um salário médio na União Soviética. O que fez com que, nos regimes comunistas, até mesmo inocentes cães passassem a ter uma vida clandestina. Segundo o professor Tkachov Kuzmine, da Academia de Agricultura de Moscou, na URSS há no mínimo tantos cães clandestinos quanto os oficialmente declarados. Para Animaux Magazine, citando o professor Kuzmine, os cães e gatos soviéticos são menos felizes que a média cães-gatos dos países ricos. Ah! que vontade de mandar o Igor para lá! * Em São Paulo, faceira quer dizer bonita. Emprego a palavra em sua acepção gaúcha: contente. ** O leitor pode imaginar-me, de cotovelos na mesa, sentado junto a três cães, também de cotovelos na mesa? (Porto Alegre, RS, 16.02.91)
Domingo, Novembro 25, 2007
USPIANA ANUNCIA PROFETA ERRADO Leyla Perrone-Moisés, professora emérita da Fefeleche, vê Jorge Luís Borges como o profeta da Internet, em artigo para a edição de hoje do Estadão. E cita dois ensaios colocados online, de Douglas Wolk, onde se afirma que a rede seria o labirinto ou O Jardim de Veredas Que Se Bifurcam; o Microsoft Internet Explorer, o Zahir; o comércio eletrônico, A Loteria na Babilônia; as histórias infinitas e imbricadas, hipertextos ou links. Já Christophe Rollason, segundo a professora da Fefeleche, em Borges Library of Babel and the Internet, também considera a biblioteca borgiana como uma prefiguração da internet, a partir de uma observação feita por Ignacio Ramonet, o editor comunista de Le Monde Diplomatique: "Como na Biblioteca de Babel, muitas informações se encontram na rede, com todas as suas variantes e aproximações; nada garante a veracidade dos dados; um boato e uma informação se equivalem!" Para Perrone Moisés, Rollason estende a comparação, observando que os homens da biblioteca seriam hoje os cibernautas. Otimista, ele acha que a internet permite escapar do pensamento único, da ortodoxia, e que Ramonet sofre do complexo profissional, que consiste em lamentar que a informação saia do controle dos jornalistas e intelectuais. Pelo jeito, nem Douglas Wolk, nem Christophe Rollason, nem Ignacio Ramonet - e muito menos Leyla Perrone-Moisés - ouviram falar de O Presidente Negro, de Monteiro Lobato, editado em 1926. Sim, podemos ver alguns elementos da Internet na Biblioteca de Babel. Mas a professora não parece ter muita familiaridade com a Web. Pois Babel, antes de estar na Internet, está nos hyperlinks das enciclopédias eletrônicas. Também surpreende que a uma uspiana não tenha ocorrido que, se quisermos procurar profetas da Internet, o primeiro não está em Buenos Aires. Mas bem perto de nós. Em Taubaté. Em junho de 1998, escrevi artigo mostrando que a Internet foi antecipada, no mundo todo, por Monteiro Lobato. Taubateano antecipa a Internet – Lobato angustiava-se com o desperdício de energia e "os milhões de veículos atravancadores de espaço" - e isso nos primórdios do século passado - necessários para o deslocamento do homem até o trabalho ou lazer. Via a salvação na "fecunda descoberta das ondas hertzianas e afins". O trabalho, o teatro, o concerto passam então a vir ao encontro do homem. As condições do mundo se transformam quando a maior parte das tarefas, industriais e comerciais começam a ser feitas de longe pelo que Lobato chama de rádio-transporte. Há três quartos de século, antes mesmo de sua viagem aos Estados Unidos, Lobato antevia o fim da maneira de fazer jornalismo da época e antecipava o que hoje é rotina em qualquer redação deste final de milênio. Através de miss Jane, o escritor de Taubaté começa a descrever a sociedade americana do futuro: "Pelo sistema atual – Lobato refere-se a 1926 – o colaborador ou escreve em casa o seu tópico ou vai escrevê-lo na redação; depois de escrito, passa-o ao compositor; este o compõe, passa-o ao formista, este o enforma e passa-o ao tirador de provas; este tira as provas e manda-o ao revisor; este o revê e envia-o ao corretor; este faz as emendas e... e a coisa não acaba mais! É uma cadeia de incontáveis elos, isto dentro das oficinas, pois que o jornal na rua dá início à nova cadeia que desfecha no leitor - correio, agentes, entregadores, vendedores, o diabo". Toda essa complicação desapareceria. Cada colaborador do Remember, jornal criado na ficção lobatiana, "radiava" de sua casa, numa certa hora, o seu artigo, e imediatamente suas idéias surgiam impressas em caracteres luminosos na casa dos assinantes. Numa época em que computador, fibras óticas e satélites pertenciam ao universo mental de visionários, Lobato fala de rádio-transporte. Se substituirmos esta expressão por fax/modem, temos o criador de Bentinho e Jeca Tatu antecipando, há sete décadas, um jornal que já existe. Seus correspondentes há muito enviam seus "caracteres luminosos" para suas redações. Daí ao leitor recebê-los numa tela em sua casa, basta uma decisão administrativa, já tomada por centenas de empresas no Brasil e no mundo ocidental. E quando o acervo da literatura universal estiver digitalizado, poderá consultar, de sua casa, todas as bibliotecas do mundo. Além da era da roda - "As ruas tornaram-se amáveis, limpas e muito mansas de tráfego" – continua Lobato –. "Por elas deslizavam ainda veículos, mas raros, como outrora nas velhas cidades provincianas de pouca vida comercial. O homem tomou gosto no andar a pé e perdeu os seus hábitos antigos de pressa. Verificou que a pressa é índice apenas de uma organização defeituosa e anti-natural. A natureza não criou a pressa. Tudo nela é sossegado". Esta previsão, melhor creditá-la ao pendor utópico do escritor, que não chegou a vislumbrar este lado provinciano do brasileiro, que se sente despido e humilhado se não tiver uma carroça sobre quatro rodas. Enfim, para sonhar não se paga imposto. Mas Lobato vai mais longe. Miss Jane considera superada a revolução da roda. Segundo a moça, "o homem deu o primeiro grande passo em matéria de transporte com a invenção da roda. Mas ficou nisso. Repare que a nossa civilização industrial se cifra em desenvolver a roda e extrair dela todas as possibilidades. Daqui a séculos, quando for possível ao homem uma ampla visão de seu panorama histórico, todo este período que vem do albor da história e ainda vai prolongar-se por muitas gerações receberá o nome de Era da Roda". O rádio matará a roda, segundo Miss Jane. "A roda, que foi a maior invenção mecânica do homem e hoje domina soberana, terá seu fim. Voltará o homem a andar a pé. O que se dará é o seguinte: o rádio-transporte tornará inútil o corre-corre atual. Em vez de ir todos os dias o empregado para o escritório e voltar pendurado num bonde que desliza sobre barulhentas rodas de aço, fará ele o seu serviço em casa e o radiará para o escritório. Em suma: trabalhar-se-á à distância". Lobato fala em rádio, o must dos anos 20. Se não podia prever as nuvens de terabytes diariamente transmitidas de um ponto a outro do planeta pela WEB, intuiu muito bem suas conseqüências. O teletrabalho – trabalho "radiado" para o escritório, como diria Lobato – já é um fenômeno em expansão. Hoje, qualquer trabalhador intelectual, desde que tenha um telefone por perto, pode enviar sua produção para qualquer canto do mundo, refugiado num chalé no Itatiaia ou em busca de solidão e deserto em Tamanrasset. Jornais impressos a milhares de quilômetros de suas redações há muito não constituem mais novidade. Segundo o historiador francês Roger Chartier, a revolução hoje em curso é muito mais ampla que a de Gutenberg, de 1455, "pois transforma as próprias formas de transmissão do escrito. A passagem do livro, do jornal ou do periódico, como os conhecemos hoje, para a tela de computador, rompe com as estruturas materiais do texto escrito. A única comparação histórica possível é a revolução no início do cristianismo, nos séculos II e III, quando o livro da Antiguidade, em forma de rolo, deu lugar ao livro herdado por Gutenberg, o códice, com folhas e páginas reunidas em cadernos". Habitantes deste final de milênio, somos testemunhas privilegiados da revolução intuída por Lobato. Revolução das boas, sem sangue e sem volta. Sem sequer imaginar a existência de computadores, o escritor paulista anuncia a Internet. Cabe lembrar que, em 1996, o Brasil foi um dos primeiros países do mundo a instituir o voto informatizado, instituição já em funcionamento nesta ficção escrita há sete décadas. A biblioteca de Borges - Também ao sul do Equador, um vizinho nosso, situado às margens do Prata, imaginava um acervo que hoje começa a tomar corpo com a Internet. Falava de uma biblioteca em forma de esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono. Sua circunferência é inacessível. Existe ab aeterno e nela não há dois livros idênticos. É ilimitada e periódica. Assim definia o Jorge Luis Borges, em um conto datado de 1941, a Biblioteca de Babel. Em alguma prateleira de algum hexágono existiria um livro que era a chave e o compêndio de todos os demais. "Algum bibliotecário o terá percorrido e é análogo a um deus". Na Babel de Borges, há um grave problema de comunicação. A Biblioteca abarca todos os livros. Todo conhecimento humano está disperso pelos hexágonos. O problema é encontrar o que se busca. Milhares de funcionários lutam, se estrangulam e morrem em busca dos livros nos corredores da biblioteca, muitas vezes derrubados por homens de hexágonos remotos. Outros enlouquecem. O autor exagera, o que é direito de todo ficcionista. Mas em muitas bibliotecas contemporâneas os funcionários já usam bicicletas ou patins para buscar os livros. Em 41, estávamos a meio século da Internet. Hoje, aos buscadores desta ficção de Borges bastaria digitar um endereço eletrônico e teriam em segundos os livros desejados, sem a necessidade de estrangular-se ou enlouquecer, pedalar ou patinar, subir escadas ou cair em poços sem fundo. Hoje, um leitor de qualquer parte do mundo, com uma placa modem em seu computador, pode acessar a Congress Library em Washington, a Bibliothèque Nationale em Paris ou a Biblioteca Nacional de Madri. Hoje, temos ao alcance de um clique de mouse, tanto Plutarco como Platão, até Descartes ou Marx, passando pela Bíblia, Voltaire ou Dostoievski. Teoricamente, já se pode pensar na biblioteca total de Borges. Chegar lá é uma questão de tempo. A biblioteca faraônica iniciada por François Mitterrand - Tontonkhamon, para os inimigos íntimos - em Paris, concebida para armazenar acervos futuros, com seus quatro prédios mastodônticos em forma de livro, nasceu mais ou menos obsoleta. Seu design pertence ao passado. A pergunta “quantos livros tem sua biblioteca?” inclusive perdeu o sentido e não mais permite uma resposta precisa. Vivemos uma época em que ninguém sabe de quantos livros dispõe em seu gabinete de trabalho. Os livros ao alcance de sua mão - ou de seu mouse - são tantos quanto os que estão digitalizados e disponíveis na grande rede, esteja você morando em qualquer aldeia do fim do mundo. Desde, é claro, que tenha uma linha telefônica por perto. Aleph, porviroscópio, webcams e Google Earth - Borges, sonhador irrecuperável, antecipa em suas ficções a biblioteca sonhada por todo bibliófilo, hoje em construção. Mas o autor vai mais longe em seu desejo de futuro. Em Aleph, conto publicado em 1949 – 23 anos após o livro de Lobato –, Borges nos fala do peculiar poeta Carlos Argentino, que se propõe nada menos que "versificar toda a redondez do planeta". Carlos, que está construindo sua obra a partir de seu quarto, entra em pânico quando lhe noticiam a demolição de sua velha casa na Calle Garay. Pois nela, em algum ponto de uma escada no porão, existe um aleph, "o lugar onde estão, sem confundir-se, todos os lugares do mundo". A partir daquela pequena esfera, de dois ou três centímetros de diâmetro, Carlos Argentino perscrutava o mundo, a fonte de seu poema colossal. Vejamos a descrição do aleph, feita por Borges em 1949. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava ali, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (a face do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu claramente a via desde todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a alba e vi a tarde, vi as multidões da América, vi uma teia prateada no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto rompido (era Londres), vi intermináveis olhos imediatos perscrutando-se em mim como em um espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, vi em um pátio da rua Soller os mesmos ladrilhos que há trinta anos vi no saguão de uma casa em Fray Bentos, vi racimos, neve, tabaco, veios de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, vi o altivo corpo, vi um câncer no peito, vi um círculo de terra seca em uma vereda, onde antes houve uma árvore, vi um sítio em Adrogué, um exemplar da primeira versão inglesa de Plínio, a de Philemon Holland, vi ao mesmo tempo cada letra de um volume (quando criança, eu me maravilhava com o fato de que as letras de um volume fechado não se misturassem e se perdessem no transcurso da noite), vi a noite e o dia contemporâneo, vi um pôr-de-sol em Querétaro que parecia refletir a cor de uma rosa em Bengala, vi meu dormitório sem ninguém, vi em um gabinete de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos que o multiplicavam ao infinito, vi cavalos de crinas enredadas. Em uma praia do mar Cáspio vi a alba, vi a delicada ossadura de uma mão, vi os sobreviventes de uma batalha, enviando cartões postais, vi em uma vitrine de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de fetos no chão de uma estufa, vi tigres, êmbolos, bisões, maremotos e exércitos, vi todas as formigas que há na terra, vi um astrolábio persa, vi em uma caixa do escritório (e a letra me fez tremer) cartas obscenas, incríveis, precisas, que Beatriz havia dirigido a Carlos Argentino, vi um adorado monumento em La Chacarita, vi a relíquia atroz do que deliciosamente havia sido Beatriz Viterbo, vi a circulação da morte, vi o Aleph, desde todos os lados, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetural, cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem mirou: o inconcebível universo. Contemporaneamente, não falaríamos em aleph – escrevi na época – mas em webcams, a rede incipiente de câmeras onde, se não podemos ver o universo em sua totalidade, podemos bisbilhotar cada vez mais seus pontos mais longínquos. Hoje, de minha mesa de trabalho, posso ver o quarto de Jennifer e a praça do Kremlin, uma ponte em Liljestrom, na Suécia, e a faina diária de uma formiga, uma universidade imersa na escuridão no norte da Noruega e um papagaio na Austrália, a torre Eiffel e as lavas candentes de um vulcão. Sem falar, é claro, nos livros da biblioteca de Babel em construção. Monteiro Lobato, para consultar o futuro, cria em O Presidente Negro um aparelho semelhante, o porviroscópio, uma espécie de globo cristalino, através do qual Miss Jane perscruta o mundo do século 23. O professor Benson obtém, neste aparelho, (...) uma corrente contínua, que é o presente. Tudo se acha impresso em tal corrente. Os cardumes de peixe que neste momento agonizam no seio do oceano ao serem apanhados pela água tépida do Golfo, o juiz bolchevista que neste momento assina a condenação de um mujik relapso num tribunal de Arkangel; a palavra que, em Zorn, neste momento, o kronprinz dirige ao ex-imperador da Alemanha, a flor do pessego que no sopé do Fushiama recebe a visita de uma abelha; o leucócito a envolver um micróbio malévolo que penetrou no sangue dum fakir da Índia; a gota d’água que espirra do Niágara e cai num líquen de certa pedra marginal; a matriz de linotipo que em certa tipografia de Calcutá acaba de cair no molde; a formiguinha que no pampa argentino foi esmagada pelo casco do potro que passou a galope; o beijo que num estudio de Los Angeles Gloria Swanson começa a receber de Valentino... A forma como o visionário de Taubaté descreve o universo vislumbrado no porviroscópio é quase idêntica à descrição do aleph, publicada 23 anos mais tarde. O achado de Borges revela-se uma paráfrase do texto lobatiano. Se considerarmos que Borges conhecia a literatura de Lobato, e que este viveu em Buenos Aires em 1946, três anos antes da publicação de El Aleph, é bastante pertinente supormos que o autor argentino andou bebendo na cacimba de nosso taubateano. Enquanto os sedizentes modernistas de 22 papagueavam Marinetti, Marx e outros doutrinadores totalitários europeus, Lobato, o escritor excluído do universo intelectual pelos seus contemporâneos, olhava meio século adiante. Hoje, juízes bolchevistas, leucócitos que envolvem micróbios e beijos de Gloria Swanson à parte, o Google Earth é a mais perfeita aproximação do porviroscópio lobatiano. Que antecede em duas décadas o Aleph borgiano. Espanta constatar que uma professora da USP desconheça estes fatos literários. O que só demonstra a subserviência cega dos PhDeuses uspianos ao que se publica no Exterior. Olhasse a professora para a próxima Taubaté, veria que foi Lobato e não Borges o grande profeta dos novos tempos.
Crônicas da Guerra Fria (48) O ESTRANHO AMOR DAS VIVANDEIRAS Ai que vida que passa na terra quem não ouve o rufar do tambor quem não canta na força da guerra ai amor, ai amor, ai amor! Quem a vida quiser verdadeira é fazer-se uma vez vivandeira. Só na guerra se matam saudades só na guerra se sente o viver, só na guerra se acabam vaidades só na guerra não custa morrer. Ai que vida, que vida, que vida, ai que sorte tão bem escolhida! (Canção da vivandeira - Guerra do Paraguai, anônimo) Curitiba - A Terceira Guerra, tão almejada pelos derrotados do século, já teve data várias vezes marcada. Para muitos, teria começado lá pelos anos 70. O vilão invariavelmente são os Estados Unidos e a razão é uma só, a luta pelo petróleo. Em 1978, Sir John Hackett, general inglês, assessorado por uma prestigiada equipe de outros militares, ousou fixar uma data: 04 de agosto de 1985. Do trabalho da equipe resultou um livro, The Third World War – August 1985. Este exercício de ficção política foi traduzido ao brasileiro pela Biblioteca do Exército Editora e hoje pode ser encontrado nos bons sebos da praça. Mas de pouco adianta comprá-lo. Mais imprevisível que qualquer guerra foi a Revolução do Nove de Novembro. Sir John Hackett trabalhou com dados que hoje parecem pertencer a um passado distante. Desenha um quadro onde a Índia e a África do Sul estão desintegradas, formando várias repúblicas. A 29 de novembro de 1984, um submarino soviético afunda um cargueiro iraniano e um navio de espionagem americano é atacado no Golfo de Aden. Os berlinenses orientais começam distúrbios e o presidente do México é assassinado. No início do verão de 1985, a Rússia invade a Iugoslávia, forçando a OTAN e os Estados Unidos a reagirem contra a invasão. No desenrolar do conflito, o império soviético na Europa Oriental se desfaz. A luta na Europa termina em três meses. Acontece que, em uma década, se esfarelaram boa parte dos pressupostos do general Hackett e sua equipe, composta aliás de eminentes oficiais-generais e conselheiros da OTAN. Berlinenses orientais não existem mais. A Rússia está tratando de sua própria fome e mal consegue conter a libertação de suas colônias. A Iugoslávia tende, espontaneamente, ao mesmo fim do império soviético na Europa Oriental, o desmoronamento desde dentro. O autor tampouco leva em consideração este fator imponderável no curso da História, os delírios de grandeza de um megalomaníaco armado até os dentes. Esta falha, aliás, sempre foi constante nas "científicas" análises dos finados marxistas: nenhum de seus teóricos previu a iniciativa bélica de insanos como Saddam ou Khomeiny. A queda do muro – disse alguém – provocou a reunificação da Alemanha, a reunificação da Europa e, o que é mais importante, a reunificação do discurso. A Guerra Fria supria as necessidades dos cérebros binários-maniqueístas. Para estes senhores, interpretar o mundo era fácil quando de um lado havia o Mal absoluto, os Estados Unidos e, de outro, o Bem, também absoluto, a União Soviética. Mesmo após a derrocada do socialismo, seus cérebros não deixaram de funcionar binariamente: se antes havia o conflito entre Leste e Oeste, manifesta-se agora o conflito Norte-Sul, entre a civilização e a barbárie. Com esta simplificação eludem o fato que agora se tornou óbvio: socialismo era a barbárie. Aliás, continua sendo. Vontade de rir é o que não me falta quando os jornais mancheteiam uma ameaça de ditadura na União Soviética. Como se a partir de ontem tivesse sido instaurado, no império russo, qualquer sistema que mesmo de longe lembrasse a democracia. As vivandeiras estão confusas. Para que o universo continuasse inteligível, era necessário que o urso soviético continuasse alinhado com o Iraque. Nada mais confortável do que tomar partido quando uma questão tem apenas dois lados. Um chanceler iraquiano acaba de confirmar minha hipótese ao acusar a URSS – ora, ora – de ter sido a responsável pela Guerra no Golfo. E por quê? Porque concordou com o fim da Guerra Fria, é claro. Gorbachov tem sua sobrevivência política – e até mesmo física – ameaçada, mal consegue segurar os cordões que mantêm o império empacotado, e ainda é acusado de ter iniciado uma guerra. Da qual, aliás, tem procurado se manter distante. Outra afirmação espantosa – para não dizer criminosa – é acusar Israel de ter começado a guerra. Os judeus estão suportando estoicamente os mísseis cegos de Saddam e não falta quem os acuse da iniciativa bélica. Sei que é difícil acreditar. Mas na semana passada, após quatorze dias de guerra e sete Scuds jogados em Haifa e Tel-Aviv, um leitor me telefonava: viste a agressão dos judeus? Se fé removesse montanhas, até que não era nada. O pior é que remove evidências. Para enfrentar os tomahawks, Saddam brande Alá. Acontece que Alá, como disse Roberto Campos, não tem software. As esquerdas, acometidas pelo que já passou a ser chamado de doença infantil do anti-americanismo, fazem manifestações pela paz. Que mal não pergunte: porque não as fizeram em agosto passado, quando começou a guerra? No Brasil, pelo menos, Saddam já fez uma vítima: ao apoiá-lo, o PT deixou cair a máscara e mostrou sua verdadeira face. Pelo jeito, o PT ainda não matou o pai. Aquele bigodinho à la Djugatchilivi está fazendo furor nas esquerdas. Saudades do Paizinho dos Povos, bem entendido. Se bem que, em país onde se cultuou – e ainda se cultua – Envers Hodja, nada mais me espanta. Mas se a reunificação da Alemanha hoje é fato consumado e a da Europa avança aceleradamente, a reunificação do discurso segue em ritmo de tartaruga. Quando Khomeiny entrou a ferro e fogo no Irã do Xá, as esquerdas imediatamente apoiaram o aiatolá. Pois Palhevi contava com o apoio do grande Satã americano. Até mesmo um jornalista soi disant lúcido como Paulo Francis, caiu na armadilha do pensamento binário e manifestou seu apoio ao fanático que fez o Irã retornar à Hégira. Palhevi morreu como um cachorro sarnento. Moribundo, teve seu quase-cadáver recusado por países cujos dirigentes foram alegremente saudá-lo em Persepólis. Por ocasião da guerra Irã-Iraque, cessou o alarido das esquerdas. Por um lado, não havia uma bússola ianque a orientá-los. Por outro, Saddam era protegido de Moscou. Sem falar que a intelligentsia ocidental pouco está ligando quando a carnificina é do lado de lá. Se eles são muçulmanos – ou amarelos – que se entendam entre si. Em meio a este desnorteamento – sem trocadilhos – das viúvas da Guerra Fria, surge na Itália um Ernesto Bobbio afirmando que esta guerra é justa. Bobbio, pensador de bom tráfego junto aos milenaristas, fala da Guerra do 15 de Janeiro de 1991, é claro. Falasse da Guerra do Dois de Agosto de 1990, quando o Iraque invadiu o Kuait, em vez de estar sendo amaldiçoado, estaria respirando incenso. Pois o conceito de guerra justa fere a certas consciências supostamente delicadas. Poderíamos, por exemplo, citar Marx: a violência é a parteira da História. Mas aí não faltará quem reclame: "alto lá, essa frase é nossa, os direitos autorais são nossos, só nós podemos usá-la". Quando os teólogos da libertação (mas onde é que se viu teologia libertando?) ciscam Tomás de Aquino para justificar a violência da guerrilha, louvado seja o Doutor Angélico. Mas ai de quem empunhar a Suma para justificar a reação a Saddam. Não faltará quem insinue a organização de novas cruzadas. Tão binário é o "pensamento" das vivandeiras, que estabeleceram uma segunda data para um fato que, como todos os fatos, tem uma data só. Bobbio, se consegue escapar ao primarismo dos desbussolados, acaba caindo na armadilha da cronologia. Ao clamar pela paz, nesta altura da guerra, as vivandeiras em verdade defendem o fato bélico gerado pelo ditador iraquiano. Responsáveis pela guerra foram Bush, Gorbacthov, Kuait, Israel. Menos Saddam Hussein. Nunca foi tão oportuno relembrar Orwell. Em 1984, os donos da História e da linguagem conseguem convencer suas vítimas de que guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é sabedoria. Dr. Strangelove, o filme de Stanley Kubrick baseado no romance homônimo de Peter George, merecia também ser revisto. Quem não lembra do reflexo condicionado do braço direito do Dr. Strangelove? Mal se falava em guerra, tinha de usar a mão esquerda para conter o braço que se erguia esboçando a saudação ao Führer. Certo, o filme é da época da Guerra Fria. Embora os tempos sejam outros, o mesmo fenômeno parece estar ocorrendo com as viúvas. Moscou deixou de apoiar Saddam e, pelo jeito, esqueceu de enviar ucasses para informação dos crentes. (Porto Alegre, RS, 09.02.91)
Sábado, Novembro 24, 2007
TARDE PIOU FHC Fernando Henrique Cardoso, falando durante o Congresso Nacional do PSDB, pretendeu rebater as críticas do PT de que seu partido e seus membros são elitistas. "Nosso partido tem gente acadêmica, não temos vergonha disso. Tem gente que sabe falar mais de uma língua, e também sabemos muito bem falar a nossa língua. Muitos brasileiros ainda não puderam saber falar bem a nossa língua e muito menos as outras. E nós faremos o possível e o impossível para que saibam falar bem a nossa língua. Queremos brasileiros melhor educados, e não brasileiros liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria." A farpa tem endereço óbvio. Lula repetidamente gaba-se de não ter instrução alguma. Desde há muito – mais precisamente, desde 2002 – o defini como o Supremo Apedeuta, o analfabeto-mor da nação. Não que não saiba ler. Lula pertence a uma estirpe pior ainda, aquela da qual Mário Quintana disse: pior analfabeto é aquele que sabe ler e não lê. Tarde piou FHC. Isto precisava ser dito há uns bons dez anos. Agora o analfabeto foi eleito, reeleito e só não será reeleito mais uma vez se não quiser. No entanto, o ex-presidente parece desconhecer o país que já dirigiu. Porque entre os eleitores do Apedeuta havia, é verdade, uma grande massa de analfabetos. Mas quem o impôs a esta grande massa foi uma pequena elite, educada nas melhores universidades do país e do Ocidente. A responsabilidade pela eleição do analfabeto pode ter sido, em última instância, disso que chamamos de povão. Mas em primeira instância, não. Lula é um rebento espúrio de uma partouse entre USP, Igreja Católica e grupos marxistas do país. A crise que o país vive decorre da irresponsabilidade de elites muito bem-educadas e muito bem-falantes. Desde seu surgimento, a universidade brasileira deixou-se encantar pela sereia do marxismo. Fernando Henrique, com toda erudição e domínio de línguas, foi um dos encantados. Desde os anos 30 para cá, gerações e mais gerações de brasileiros foram levados por estas elites universitárias rumo a uma ideologia obsoleta, nascida no século XIX. Não só a universidade brasileira, mas também a latino-americana. Ora, se as elites intelectuais de uma nação se deixam levar por utopias socialistas, que se pode esperar do povo? Nada, é claro.
Crônicas da Guerra Fria (47) CULO CLAVADO* Curitiba - Analistas apressados vêem na atual crise no Golfo Pérsico uma continuação do confronto entre o Ocidente cristão e o Oriente muçulmano. Um adjetivo se justapõe a um substantivo e, com o tempo e a repetição, a dobradinha assume ares de verdade histórica. Tais "especialistas", oriundos certamente de faculdades onde se estuda qualquer coisa menos História, esquecem – ou desconhecem – que nem sempre o Oriente foi muçulmano. E que cristianismo é religião nascida no Oriente. A título de curiosidade, é bom lembrar que as três religiões dominantes do planeta foram criadas por homens do deserto. A vontade de deserto acometeu-me lá pelos anos 70. Cansado de cidades, queria silêncio e solidão. Federica de Cesco, escritora suíça e cidadã do mundo, colega de um curso de sueco em Estocolmo, me sugeriu El Hoggar, maciço montanhoso do Saara argelino, dois mil quilômetros ao sul de Argel. Comecei a viagem de Boeing, continuei em Land-Rover e terminei em lombo de camelo. Entre tuaregues e harratines, passei duas semanas mastigando alho e areia, sob uma temperatura que baixava a 15 graus negativos durante a noite. Ao contrário do que se pensa, o Saara é um país frio que aquece durante o dia. A ausência de qualquer forma de vida gera um silêncio estridente, que zumbe dolorosamente em nossos ouvidos anestesiados pelos ruídos urbanos. Naquelas noites glaciais, esmagado pelos três picos imponentes do Assekrem, acho que entendi Moisés, Cristo e Maomé. Se deus existisse, seria o deserto sua morada. Foi meu primeiro contato físico com o Islã. Terminei a viagem em lombo de camelo, dizia. Minto. Mesmo nesta era das comunicações, nossa ignorância é tamanha que imaginamos que no deserto africano existam camelos. Apesar dos presépios natalinos e da imprensa nacional, no Saara pode até existir Deus. Mas camelo, não. Camelo não sobrevive em climas quentes, mesmo que as noites sejam frias. O que existe é o dromedário, aquele de uma bossa só. Foram eles, os caluniados dromedários, a razão de meu primeiro espanto ante o universo muçulmano. De Argel a Tamanrasset, fiz um vôo interno repleto de árabes voltando da Arábia Saudita, após a peregrinação à Meca, ritual que todo muçulmano deve cumprir pelo menos uma vez na vida. A Arábia é Saudita, caso o leitor não saiba, por ser feudo da família Saud. Algo assim como se o Brasil se chamasse República Federativa dos Silva. Mas volto ao avião. O fato de ver aquela gente embuçada, usando propulsão a jato para virar o traseiro pra lua ante a Kaaba, até que não me surpreendia, afinal cá entre nós jatos e jatos despejam aleijados mentais, em Fátima, Lourdes ou Medgorje. Caiu-me o queixo, isto sim, ao aterrissar em Gardaia. Ao descer, os peregrinos eram recebidos por seus haréns, centenas de mulheres que produziam um alarido infernal, batendo a mão junto à boca. Até aí, tudo bem. Que mais não fosse, tal gritaria não me era estranha, estava em A Batalha de Argel, de Ponte Corvo. O que embasbacou este guasca do Ponche Verde foi ver a indiada descendo de um Boeing para montar num dromedário, de volta a suas vilayas. Minha impressão foi a de que desembarcavam do século XX para entrar na Idade Média. Não por acaso, a Hégira começa no ano 622 da era cristã, quando Maomé, após ter dado um braguetaço numa viúva rica, foge de Meca para Medina. Entre o Boeing e os dromedários havia uns cinqüenta metros de areia e quatro séculos de distância. Mas não desci em Gardaia. Aqueles quatro séculos, eu iria transpô-los nos confins da antiga França, que De Gaulle dizia ir de Paris a Tamanrasset. Lá estavam também as mulheres ululantes e os dromedários subservientes à espera dos crentes idem. Dali até a base do Assekrem, fomos em um Land-Rover, dirigido por um tuaregue desvairado que me fez sentir saudades do Boeing, apesar de meu medo ancestral a aviões. Eu viajava rumo ao nada quando, no meio do caminho, vindos do nada, um monte de tuaregues de mantos esvoaçantes desceu de um caminhão. O sol caía e a hora era de preces. Curvaram-se na direção de Meca, viraram os glúteos para o Ocidente e louvaram Alá. Sem que eu imaginasse, fora improvisada uma mesquita em meio ao vazio do deserto. Pois mesquita, por definição, é todo lugar onde o crente faz suas preces. Na época, falava-se muito do poderio bélico do Irã, ainda regido por Reza Palhevi. O Irã, é bom lembrar, islamismo à parte, nada tem a ver com o mundo árabe. Mas cultua o mesmo deus de Maomé. A pedra de toque do Xá, se bem me lembro, era sua força aérea, hoje desmantelada pela incompetência dos aiatolás. Que derrubaram o Xá, não por razões religiosas, mas por outras bem mais chãs. Reza Palhevi iniciara um programa de reforma agrária em uma sociedade em que os sacerdotes eram os maiores terratenentes. O Alá dos aiatolás não gostou e deu no que deu: o Irã, que começava a namorar o século XX, voltou á Idade da Hégira. Ou da pedra, como quisermos. Em seu livro de preceitos teológicos, o aiatolá Khomeiny escrevia que ao crente não eram necessárias três pedras para fazer a higiene anal. Uma só bastava. Mas eu estava na Argélia, estado teocrático-socialista, cuja Nomenklatura explorava – e ainda explora – Maomé para manter-se no poder. A fé dos pobres de espírito sempre me comoveu, e pobres de espírito eram aqueles coitados que beijavam a areia adorando o deus enjambrado por um profeta analfabeto. Sei lá por quê, talvez por recém ter descido do século XX, imaginei um daqueles seres pilotando um caça ou bombardeiro. Ou melhor, tentei imaginar. Pois não é fácil conceber que o piloto de um Mig, por exemplo, tenha de virar, cinco vezes por dia, a bunda pra lua. Mas Jeová pouco difere de Alá – objetará o leitor mais atento – e nem por isso o Ocidente deixou de fabricar seus jatos, bombas e naves espaciais. Ocorre que no Ocidente, em boa hora, o estado deixou de ser teocrático. Caso contrário, ainda estaríamos pastando, como nos tempos em que o Vaticano forçou Galileu a admitir que terra era imóvel e o sol girava em torno dela. Falar nisso, lembro agora de uma ingênua dúvida de infância: será que o Papa acredita em Deus? Dúvida boba, coisa de criança. É claro que um papa não pode acreditar em Deus. Eles são em geral homens cultos, conhecedores de História e falantes de várias línguas. Seriam os últimos a crer nos mitos que o homem cria para conjurar o deserto metafísico que o rodeia. Quando Stalin perguntava quantas divisões teria o aiatolá de Roma, apesar de ser ex-seminarista, esquecia o potencial tremendo desta arma típica dos fracos, a manipulação da humana estupidez. Tanto que Stalin está morrendo pouco a pouco e Wojtylla vai exibir sua majestade, ainda este ano, na escatológica Beira-Mar Norte de Florianópolis. Mas falava do Islã. O Iraque, não conheço. Nem pretendo conhecê-lo. Depois de rápidas incursões pelo Egito, Argélia e Tunísia, prometi a mim mesmo jamais voltar a país muçulmano. Não me sinto em casa em países onde o álcool é proibido e uma mulher pode ser trocada por dromedários. Quanto a Saddam Hussein, dele já temos um bom perfil. Civil travestido de militar, líder tribal metido a tiranete, só porque dorme sobre poços de petróleo julga que pode reptar o Ocidente. Com a covardia típica dos fracos quando armados, invadiu o poço de petróleo vizinho. Acuado pela máquina bélica americana, invoca Alá e brande a bandeira palestina. Tal blefe só pode viger em um oásis de analfabetos: quando o inimigo natural seria a aguerrida Israel, o Hitlerzinho do Golfo estupra um Kuait indefeso. Bush** é o grande Satã? Pode ser. Mas é o Senhor da Guerra. Saddam apela então à Jihad – guerra santa – e ao terrorismo. Alá é grande e os civis europeus e americanos, que nada têm a ver com o peixe, que se cuidem. Como terrorista desempregado é o que não falta no mercado destes dias de pós-Guerra Fria, nenhum anônimo cidadão comprando frutas em uma feira em Paris, Londres ou Berlim estará a salvo da fúria impotente do ladrão de Bagdá. Enquanto escrevo estas linhas, dezoito mil toneladas de bombas foram jogadas sobre a capital iraquiana. Aproveitando a tensão da guerra, remanescentes dos trogloditas russos, sub-éspecie comunossauros, esmagaram civis com tanques na Lituânia e ameaçam brincar de turismo blindado na Letônia. Seus êmulos gaúchos, pelo que me contam os jornais, organizam comitês de apoio a Saddam Hussein. O que só me confirma uma recente intuição: órfãs e desorientadas, as esquerdas elegeram George Bush como líder. Guru às avessas, é verdade, mas guru. Se Bush vai ao Norte, as viúvas rumam ao Sul. Se bem que, conforme o Islã, as esquerdas sem norte não precisam temer devotos de Alá. O grande vencedor desta guerra, que provavelmente já estará concluída quando forem publicadas estas linhas, foi sem dúvida alguma o Iraque. Pois uma vez declarada a Guerra Santa, todo fiel morto em combate vai direto para o céu. Não é sonho de todo humano morrer feliz? Pelo menos para quem crê, o que não deve ser o caso da maioria dos iraquianos. Para justificar um saque, Saddam apelou ao misticismo. Em meio ao ruído de bombardeios, a televisão nos trouxe a voz de um Saddam assustado, repetindo Alá é grande, Alá é grande. Será? Por via das dúvidas, Saddam acabou falando inglês. Provavelmente estava tentando convencer seus adversários do poder de Alá. Para os últimos fanáticos do século, que têm a Terceira Guerra como dogma, esta foi uma decepção. Para quem apostou no Apocalipse, foi culo clavado. * Expressão gaúcha utilizada no jogo da taba. O osso usado no jogo, o astrágalo do boi, tem duas faces, denominadas suerte e culo. Quando o osso clava de culo, quem o jogou perde. ** Refiro-me ao pai do atual Bush. (Porto Alegre, RS, 26.01.91)
Sexta-feira, Novembro 23, 2007
O AMARGO CAVIAR DO EXÍLIO "Janer, achei excelente seu artigo sobre o Luis Fernando Veríssimo – escreve um leitor -. Ler o que você escreveu me lembrou que o melhor emprego do mundo é ser esquerdista no Brasil: o sujeito não precisa pensar muito (só repete os pensamentos do "rebanho"), ganha rios de dinheiro na vida privada enquanto posa de defensor do povo na vida pública e ainda se dá ao luxo de passar longas temporadas em Paris, como Verissimo ou Chico Buarque. Abração e um ótimo fim-de-semana!" Pois, meu caro Costa, ser de esquerda sempre rendeu altos dividendos no século passado. Aliás, continua a render também neste. Não é que Chico Buarque passe longas temporadas em Paris: ele tem apartamento em Paris e numa das ilhas mais prestigiosas da cidade. Jorge Amado, um dos mais ativos comunistas do continente, inimigo implacável do capitalismo, tinha um magnífico apartamento às margens do Sena, com vista para a Notre Dame. Neruda, que vivia no circuito Elizabeth Arden do Ocidente, deu-se inclusive ao luxo de regalar uma de suas amantes com uma sofisticada mansão em Santiago, la Chascona. Bertolt Brecht, o dramaturgo por excelência das esquerdas, aquele não via mal nenhum em roubar bancos, tinha seus ganhos muito bem guardados em bancos suíços. Ganhos obtidos com suas peças, que fustigavam o capitalismo que lhe guardava os dólares e louvavam as excelências dos regimes comunistas. Quando teve de fugir do regime hitlerista, refugiou-se nas capitalistas Áustria, Suíça, Dinamarca, Finlândia, Suécia e Inglaterra. Também esteve na Rússia – onde suas peças eram censuradas – mas apenas o tempo necessário para embarcar para os Estados Unidos. Foram dias de glória e luxúria para escritores e artistas de esquerda. Exílio sempre foi festa. Você era expulso de um país de Terceiro Mundo e generosamente acolhido em países do Primeiro. Você quer saber onde está a melhor culinária, quais são os melhores vinhos? Fale com um intelectual de esquerda. Afinal, passou toda sua vida pesquisando quais os melhores restaurantes do mundo, para ter uma idéia de como seria a sociedade ideal. Ele sabe muito bem o que é o amargo caviar do exílio. Esta expressão surgiu nos 80 e me parece definir, com propriedade, a condição dos exilados de esquerda. E ai dos escritores que não fechassem com a ideologia marxista. Eram expulsos do mundo dos vivos. As universidades lhes fechavam as portas, os jornais lhes proibiam suas as páginas. Sofri na pele esta condição. Titulado por uma das mais conceituadas universidades francesas, fui solenemente rejeitado pelas universidades brasileiras. Lembro que certa vez apresentei meu currículo à Universidade de Brasília. Era doutorado em Letras Francesas e Comparadas, me dirigi ao Curso de Letras. O chefe de departamento louvou minhas pesquisas, mas lamentou que eu não tivesse curso de Letras. Tinha só doutorado e isso não era suficiente. Sugeriu que me dirigisse ao Curso de Filosofia, afinal minha tese tinha conotações filosóficas e afinal eu tinha curso de Filosofia. Fui ao Departamento de Filosofia da UNB. O chefe do dito considerou o fato de eu ter curso de Filosofia. Ocorre que eu não tinha doutorado em Filosofia. Sugeriu-me então que procurasse Comunicações, afinal eu tinha centenas de trabalhos publicados na imprensa. Fui ao Curso de Comunicações, ou como quer que se chamasse. O chefe de Departamento louvou meu currículo jornalístico. Mas infelizmente eu não tinha curso de Jornalismo. Claro que se eu pertencesse ao Partido ou ao PT, seria recebido de braços abertos em qualquer curso. Quanto a minhas peripécias no jornalismo, qualquer hora dessas volto ao assunto. Ser comunista já não rende muito no Velho Continente. A Europa sempre esteve muito perto do mundo socialista e não quer nem ouvir falar de socialismo. A menos que seja socialismo na América Latina, na Ásia, na África. Na Europa, não. Enfim, nas últimas décadas os intelectuais de esquerda estão bastante desmoralizados no continente. O remédio é refugiar-se no Terceiro Mundo. Sempre a reboque do que acontece no Primeiro Mundo, a América Latina sempre precisou de umas duas ou três décadas para emparelhar o passo. Aqui, ainda há solo fértil para a cultura de Ches, Fidéis, Evos e Chávez. Mas, como escrevi, é alvissareiro ver um Luís Fernando Verissimo perplexo ante a reportagem de Veja sobre o Che. O velho comunista já está intuindo que os tempos começam a mudar. Vai demorar um pouco, é verdade. É preciso que as múmias que ainda assombram universidades e jornais se decomponham definitivamente, para que as novas gerações se eduquem com liberdade. Mas já está começando. E isso é bom.
Crônicas da Guerra Fria (46) O PÁLIDO ASPARGO DE PABLO Curitiba - Ainda em atenção aos leitores que não gostam de ler sobre essa coisa inconveniente chamada História, falo hoje sobre livros. Contemporâneos, bem entendido. Pois livro antigo muitas vezes é refúgio de bolcheviques em plena andropausa, que assim se furtam aos debates atuais. Como dizia alguém, já não lembro quem, nada mais doloroso do que ler jornais nos dias atuais. Imagine comentá-los. Enfim, acabo de receber Minha Vida com Pablo Neruda, de Matilde Urrutia, viúva do maior embuste literário deste século que finda. Pois haja fé para se considerar como poesia aquelas tripas espichadas de Eliecer Neftali Ricardo Reyes y Basoalto, que assim se chamava Neruda. Como ver um poema naquelas palavras soltas das Odes, muitas vezes uma ou duas por verso? Alinhadas horizontalmente, dariam uma ou duas frases, no máximo, de péssima prosa. John Gunther, em seu ensaio A Rússia por Dentro, há quatro décadas, já nos explicava a razão das linhas extremamente curtas dos versos dos poetas russos: é que os poetas recebiam uma taxa uniforme por linha, quatorze rublos. Stalinista e tão mais ávido por dinheiro que Jorge Amado, pensei, Neruda terá disposto seus "poemas" de modo a obter um lucro máximo por cada verso em defesa das massas espoliadas pelo vil regime capitalista que mais tarde lhe conferiu um Nobel, mas isto já é outro assunto. Pensei, mas sequer ousei expressar o que pensava, não faltaria quem me chamasse de fascista e reacionário, inimigo dos mais belos sonhos da humanidade. Pois não é que, lendo uma recente coletânea de crônicas, tive minhas infames suspeitas confirmadas? Em A Ponte dos Suspiros, o insuspeito Moacir Werneck de Castro nos conta que os versos curtos das Odes nada tinham a ver com normas poéticas e sim motivações menos prosaicas: "é que o jornal El Nacional, de Caracas, pertencente ao escritor Miguel Otero e Silva, grande amigo de Neruda, colaborador assíduo, pagava as poesias por linha". Eu sabia que nesse mato tinha coelho. Para muito jovem ingênuo, a malandragem do Avida Dolars chileno passou por escola poética. Avida Dolars, deve estar o leitor lembrado, foi o anagrama pespegado a Salvador Dali. Não tanto por seu amor aos dólares. Mas porque permaneceu na Espanha salva por Franco da peste que hoje Gorbachov tenta conjurar. Tomasse o partido dos vermelhos (republicanos foi eufemismo que só surgiu tardiamente), Dali poderia adorar dólares à vontade. Como aliás fez Picasso, sem que ninguém condenasse tão humano desejo no pintor de Guernica. Este mural, a propósito, foi um braguetaço dos mais bem-sucedidos. Picasso havia pintado uma tela de oito metros de largura por três e meio de altura, intitulada La Muerte del Torero Joselito, plena de cores fúnebres, que iam do preto ao branco, em homenagem a um amigo seu, o toureiro Joselito, morto em uma lídia. O quadro ficara esquecido em algum canto de seu ateliê. Ao receber uma encomenda para o pavilhão republicano da Exposição Universal de Paris de 1937, Picasso lembrou do quadro. Foi quando, para fortuna do malaguenho, a cidade de Guernica foi bombardeada pela aviação alemã. Ali estava o título e a glória, urbi et orbi. Uns retoques daqui e dali, e Picasso deu nova função ao quadro. No entanto, multidões hipnotizadas pela propaganda comunista, vêem em uma cena de arena, com cavalo, touro e picador, uma homenagem aos mortos de Guernica. De um só golpe de pincel, o vigarista malaguenho traiu a memória do amigo e mentiu para a História. Picasso bem poderia ter batizado sua obra de Paracuellos del Jarama. Mas aí seria expulso do mundo dos vivos, como o foram todos os que ousaram denunciar os crimes dos republicanos. Pois em 1936, em Paracuellos del Jarama, sítio que ninguém gosta de lembrar, foram fuzilados pelo Partido Comunista nada menos que dois mil e quatrocentos espanhóis que se opunham à Frente Popular. À frente do PC espanhol estava Santiago Carrillo. Mas falava de outro Pablo, o Neruda. Terá sido esta avidez de dólares, disputados verso a verso, que o fez escrever esta pérola: Stalin construía, de suas mãos nasceram os cereais os tratores os ensinamentos as estradas... Etc. Ad nauseam. Fico por aqui, que a tripa é longa e não tem graça. Pelo menos para nós. Pois de rublo em rublo, Pablo encheu o papo de dólares. Em 71, tais hagiológios lhe renderam nada menos que um prêmio Nobel. Em Pablo y Don Pablo, Jurema Finamour, sua secretária, nos conta a "surpresa" do poeta ao saber da premiação. Pois Neruda, que todos os anos viajava a Moscou na condição de jurado do prêmio Stalin, durante toda sua vida mobilizou energias e os serviços diplomáticos do Chile para alcançar a láurea máxima literária da sociedade capitalista que tanto abominava. Sua surpresa foi tamanha que o banquete comemorativo do prêmio já estava organizado. Mas comecei falando das memórias de Matilde Urrutia, uma das muitas esposas de Neruda. O livro data de 1986, quando já não mais se podia dizer que Salvador Allende fora assassinado em La Moneda, como o faz a autora nas primeiras páginas. Em Os Dois Últimos Anos de Salvador Allende, publicado originalmente em 1985, Nathaniel Davis demoliu definitivamente este mito. Não faltarão objeções ao autor, afinal era o embaixador americano no Chile na época do golpe. O fato é que Hortencia Allende, no dia 15 de setembro de 1973, confirmou a um jornal mexicano o suicídio de seu marido. Quatro dias depois, falou em assassinato. Hoje, em recentes declarações, distante dos fatos e de quaisquer pressões, a viúva Allende reconhece que de fato ocorreu um suicídio. O livro de Urrutia fica assim prejudicado, desde as primeiras linhas, por uma afirmação que hoje sabemos ser falsa. Quanto ao mais, é uma fútil crônica social de peregrinações por Berlim, Praga, Paris, Capri, Nice, Veneza, itinerário no mínimo insólito na vida de um líder proletário. Em Praga, no ano passado, quando fui respirar os ares de liberdade que hoje inundam a cidade de Kafka, aprendi algo mais sobre Neruda. Sempre me intrigara onde Eliecer Neftali, de sefardita ressonância, fora buscar seu pseudônimo. Ao dirigir-me ao castelo que hoje abriga Vaclav Havel, subi pela rua Nerudova, desagradável evocação em cidade tão linda. Relendo agora Confesso que Vivi, as memórias de "pájaro Pablo", como ele adorava autodenominar-se, constato que meu mal-estar tinha sua razão de ser: Eliecer buscou seu nome de guerra em Jan Neruda, poeta tcheco do século passado. O que não deixa de constituir uma ironia atroz: por uma dessas razões da qual homem algum está livre, o poeta que amou e cantou Praga acabou emprestando seu nome ao poetastro que deu aval, com seu stalinismo, aos tanques que tentaram escravizá-la. Mas a História é mulher loureira, dizia Machado. Visto de nossos dias, o monumento se revela de barro. Rindo por dentro deve estar Leo Gilson Ribeiro, um dos raros ensaístas corajosos a militar na crítica brasileira. Em O Continente Submerso, livro que recomendo a todo leitor que queira dar um passeio pelas letras latino-americanas, Leo Gilson, comemorando o livro de Finamour, o define como "um processo póstumo às mentiras que criaram o culto dessa personalidade que ela revela, traço por traço, ser mesquinha, narcisista, medíocre, covarde, egoísta, avarenta, calculista, superficial". Por esta - e por outras - tanto Leo Gilson como Jurema Finamour tiveram suas mortes civis decretadas nas letras tupiniquins. Pois da manutenção de certos mitos dependem muitas carreiras jornalísticas e universitárias. Outro escritor expulso do mundo dos vivos foi Ricardo Paseyro, ao publicar em Paris Le Mythe Neruda, pequeno e contundente ensaio sobre o óbvio: "seus livros são um monumento à infâmia. Neruda, como certos pássaros, faz seu ninho de bosta, se compraz na imundície da frase, na vulgaridade da sensação primária e nela refocila com volúpia". O mito nada tem de misterioso. Para Alberto Baeza Flores, "à força de repetir durante trinta anos que Neruda era genial, o Partido Comunista conseguiu que todo mundo acreditasse nesse refrão". Por falar em livros, acaba de ser lançado em Paris, pela Payot, Martin Heidegger, de Hugo Ott. Para os discípulos do pensador nazista, que ficaram escandalizados com as denúncias do professor chileno Otávio Farias, há muito ainda o que ver e ouvir. Pois Ott demonstra ainda mais abundantemente as ligações de Heidegger com o regime hitlerista. Nos meios universitários, exceção feita dos doutores que fizeram suas carreiras papagueando o filósofo nazista, todos dele se afastam como se leproso estivesse. "Que horror, era nazista!" Quando nutrirão, nossos universitários, este mesmo horror sagrado em relação aos pensadores, poetas e professores comunistas? Se as bandeiras eram diferentes, a barbárie foi a mesma. Enquanto isto, melhor lermos Leo Gilson, para quem na história das artes e do pensamento sempre houve inúmeros casos de monstros que foram artistas admiráveis: "Céline, assassino; Genet, ladrão; Baudelaire, toxicômano; Rimbaud, mercador de negros; Knut Hamsun, Walter Gieseking e Elisabeth Schwartzkopf abraçando o nazismo; Ezra Pound transmitindo mensagens radiofônicas em prol do fascismo; Brecht jamais denunciando os crimes do stalinismo - mas há uma cisão nítida entre a arte que sobrevive por sua vida intrínseca e temporal e o ser humano cego, calculista, viciado, débil, oportunista. Esta cisão, infelizmente, nunca existiu entre a obra e o homem Pablo Neruda". O cronista deve possuir uma nerudiana fabulosa, deve estar imaginado o leitor. Nada disso, sou apenas um leitor vadio, adoro pular de livro em livro. Tenho até uma ode ao poeta, Elegi för Pablo Neruda, de autoria de Artur Lundkvist, nada menos que o falecido presidente da Real Academia Sueca, aquela que atribui os prêmios Nobel de Literatura. Parceiro de Neruda nos Congressos pela Paz financiados por Moscou (aqueles mesmos dos quais participava Antônio Pinheiro Machado Netto, o defensor do Muro de Berlim, gaúcho de triste memória), Lundkvist era caitituado pelo apparatchik chileno, que o recebia em suas embaixadas e mansões diplomáticas, o que nos mostra que os caminhos que levam ao Nobel não dependem propriamente do talento. Enfim, panfletos à parte, o que sempre me espantou em Neruda foi sua urolagnia. Quem não lembra de "poemas" como El Gran Orinador, plágio descarado de Swift? Ou ainda esta coisa, onde o poeta canta a amada ao ouvi-la urinar na escuridão, no fundo da casa, como se vertesse um mel trêmulo, argentino, obstinado, quantas vezes entregaria este coro de sombras que possuo. Bueno, em sua elegia a Neruda, Lundkvist canta o sexo do futuro Nobel, "en blek sparris som blott gav vatten". Traduzindo: "um pálido aspargo que apenas jorrava água". Estranha ode à anatomia do vate. Como também são estranhos os sendeiros que conduzem ao Nobel. Outro dia volto a falar de livros. (Porto Alegre, RS, 19.01.91)
Quinta-feira, Novembro 22, 2007
FILHO DE VERISSIMO VERISSIMINHO É Lá por 2003, comentei Lágrimas na Chuva, de Sérgio Faraco, editado no ano anterior em Porto Alegre. O livro relata período de pouco mais de ano vivido pelo autor em Moscou, em 1963 e 64. "Depois de uma série de conflitos com chefetes políticos ligados aos partidos brasileiro e soviético" – diz-nos o editor na orelha – "Faraco foi internado em regime de reclusão, sob pesada bateria de medicamentos, numa clínica de reeducação. Era este, na época, um procedimento de rotina em relação àqueles que se rebelavam contra o ultra-esquerdismo do Partido". Ora, quais foram os gestos de rebeldia do heróico mártir gaúcho? Pelo que lemos em sua memória, foram basicamente duas atitudes: mantinha relações com uma russinha e insistia em escutar Wagner a todo volume em seu dormitório. Fora isso, em uma viagem à Armênia, demonstrou insólita coragem ao perguntar a um mandalete local como podiam avançar na automação do que quer que fosse, se as moradias não dispunham de vasos sanitários e as necessidades eram feitas nos quintais, em latrinas. A tradutora nem sabia o que era latrina. Ou seja, os armênios não haviam chegado sequer ao conceito de latrina. Em função disto, o rebelde escritor foi enviado a uma clínica de reeducação, onde dispunha de quarto individual, com chuveiro e vaso sanitário (um progresso em relação à Armênia) e mais uma enfermeira que vinha pegar-lhe a mãozinha quando deprimido. Gulag classe A, com direito a cafuné. Pra dissidente algum botar defeito. Há quatro décadas, Faraco sentiu na carne o preço a ser pago, na União Soviética, por pequenas molecagens. Escritor, não lhe terá sido difícil imaginar o quanto custava qualquer discordância com a linha do Partido. Quarenta anos depois, já em idade provecta, a tardia madalena alegretense demonstrou sua coragem denunciando fato ocorrido nos 60. Seu depoimento, se feito na época, seria de extraordinário valor para sua geração. Seria o relato insuspeito de um militante comunista que, em sua viagem iniciática ao paraíso soviético, fora tratado como doente mental apenas por escapadelas a uma disciplina absurda, típica de seminários católicos. Seria oportuníssimo, logo após 64. Isto foi o que comentei na ocasião. Mas a questão tinha implicações bem mais graves. Faraco relata que Erico Verissimo perguntou-lhe se não pensava escrever sobre sua estada na União Soviética. "Respondi que, de fato, tinha essa intenção, embora minha experiência não fosse edificante. Ele ficou pensativo, depois disse que, se era assim, talvez fosse ainda menos edificante narrá-la, enquanto vivíamos, no Brasil, sob uma ditadura militar. Ele tinha razão" – diz Faraco. Ora, os militares lutavam para que o Brasil não virasse o imenso gulag que o futuro escritor então testemunhara. Em função de um regime que jamais o pôs na prisão, mesmo sendo comunista, Faraco silencia sobre o regime comunista que o internou em um hospital psiquiátrico, mesmo sendo comunista. A história se repete. Em 1929, o escritor romeno Panaïti Istrati publicou Vers l’autre flamme, primeira denúncia do stalinismo no Ocidente. Os originais deste livro levaram Romain Rolland, seu padrinho literário em Paris, a aconselhá-lo: "Isto será uma paulada a toda Rússia. Estas páginas são sagradas, elas devem ser consagradas nos arquivos da Revolução Eterna, em seu Livro de Ouro. Nós lhe estimamos ainda mais e lhe veneramos por tê-las escrito. Mas não as publique jamais". Istrati teve suas Obras Completas publicadas pela Gallimard, exceto Vers l’autre flamme. Que só foi republicado, na democrática Paris ... em 1980. Anos 60, Brasil. Erico Verissimo, conivente com a barbárie comunista, repassa a Faraco o covarde conselho. Escritor, Faraco intuiu o que Erico há muito já intuíra. Se dissesse uma só palavrinha contra a Santa Madre Rússia, adeus editoras, adeus honras literárias, adeus imprensa amiga, adeus resenhas e teses universitárias. O gaúcho de Alegrete, que não teve sequer a hombridade de despedir-se da humilde moscovita que o aquecera nos seus dias cinzas às margens do Volga, baixa a crista. Mas seu livro tem um grande mérito: nos revela a cumplicidade com a tirania do escritor gaúcho tido como campeão da liberdade. Não por acaso, a universidade e imprensa gaúchas idolatram Erico. Luis Fernando Verissimo, escrevi outro dia, ainda deve estar em estado de choque com a reportagem de Veja sobre os 40 anos da morte de Che Guevara. Pelo jeito, de fato está. No Estadão de hoje, o filho do Erico se lamuria. Começa comentando o filme Viva Zapata, que termina com a morte do personagem numa emboscada dos 'federales'. "O antigo aliado que o traiu, um intelectual vivido no filme por Joseph Wiseman, insiste para que os soldados não deixem escapar com vida o cavalo branco de Zapata. 'Matem o cavalo! Matem o cavalo!', grita, em vão. A última cena do filme é a do cavalo branco solto numa montanha, um símbolo não muito sutil do espírito que sobreviveu ao sacrifício do seu dono para inspirar outras gerações e outras revoltas. O intelectual entende que símbolos são perigosos e que não basta abater o homem para anular o exemplo. É preciso trucidar a sua memória, emporcalhar a sua legenda e apagar qualquer vestígio simbólico da sua rebeldia". Armada a premissa maior do silogismo, o cronista marxista petista diz ao que vem: "Parecido com o que está sendo feita entre nós com o Che Guevara, que, de acordo com a revisão atual, não só cheirava mal como era um péssimo caráter. É difícil entender por que estão tentando matar este particular cavalo branco agora. Se Che simbolizava alguma coisa, nos últimos anos, era a absorção de todas as formas de revolta pela cultura pop. O ex-ícone da esquerda era visto principalmente nas paredes e camisetas de gente que jamais sonharia em ir para as montanhas, a não ser pelo fondue de queijo. E no entanto o empenho em demitificá-lo (sic!), e desmistificá-lo, é evidente. Do que será que estão com medo? O que assombra tanto o neomacarthismo, a ponto de atirarem com tanta fúria contra um defunto de 40 anos? Talvez seja o caso de rever o significado da figura do Che, e do seu exemplo de idealismo e inconformismo, entre as novas gerações. Talvez a direita esteja vendo um cavalo branco solto por aí que nós não vemos". Ora, não é bem matar cavalos brancos o que se quer. O que está acontecendo é que, só agora, quarenta anos depois da morte do bandoleiro, estão surgindo jornalistas com suficiente coragem para revelar sua verdadeira face, a de um assassino frio a serviço de uma ideologia assassina. Da mesma forma, muito anos foram necessários para que viessem à tona as matanças de Stalin. E também as de Lênin. Estamos emergindo de um século em que a mentira teve plena vigência e celerados receberam honras de santos. Por que tanto empenho em desmitificar e desmistificar Che? Porque desmitificar e desmistificar é necessário. Não é bom que a humanidade tenha por santos assassinos com as mãos sujas de sangue. É trabalho de todo historiador – e deveria também ser de todo jornalista – denunciar as mitificações e mistificações. Ninguém está com medo. Pelo contrário. O medo foi esconjurado e as novas gerações de jornalistas não têm porquê defender as bandeiras espúrias que renderam prestígio e fortuna aos velhos jornalistas. Ninguém está vendo cavalos brancos soltos por aí. O que está se vendo é o colossal embuste que há quatro décadas vem enganando gerações. Como seu pai, Luís Fernando quer fraudar o relato histórico, omitindo os crimes do comunismo. Filho de Verissimo, Verissiminho é.
Crônicas da Guerra Fria (45) POR UM FIO Florianópolis - Leitores pedem que o cronista deixe de falar dessa coisa inconveniente que se chama História. Um deles, que certamente jamais saiu do Brasil e acha que social-democracia é algo distinto do capitalismo, preferiria que eu escrevesse sobre livros, bares, vinhos e mulheres. O que lembra um pouco minha falecida mãe. Em seu instinto cego de preservar a cria, lá pelos idos de 64, não perdia ocasião ao sugerir-me: por que não escreves sobre flores? No Brasil há tantas... Mas de botânica eu não entendia. Quanto às pautas sugeridas por meu irritadiço leitor, bem ...delas talvez entenda um bocado. Como a fruição simultânea de livros e mulheres é pouco viável, deixo os livros para mais tarde. Evoco então as boas amigas que me aqueceram corpo e alma, com vinhos e afagos, em meus dias de auto-exílio e solidão. Estocolmo, inverno de 71. As razões que nos impelem a viajar nem sempre são as que alegamos como motivo de partida. Conscientemente, eu fugia de um continente militarizado, do Brasil, do samba e da miséria. As gaúchas recém começavam a libertar-se dos preconceitos de Roma, e eu tinha pressa. Sem falar que, na época, o mito sexual por excelência eram as "adoráveis louras nórdicas". Quando o sol cai por trás dos fiordes, dizia uma atriz, só nos resta ir para casa e fazer amor. É para lá que eu vou, pensou este ingênuo que vos escreve. Pois as suecas eram bem mais inacessíveis do que insinuavam os pacotes turísticos. Tanto que minha primeira "sueca", de sueca nada tinha. Era uma brava cidadã soviética, de Ashkhabad, no Turquimenistão. Tinha pômulos asiáticos e deles muito se orgulhava. Como língua comum tínhamos o sueco, do qual conhecíamos umas dez palavras. "Jag, vacker" - me confessava Gysel, indicando seu rosto. "Eu, bonita". Acontece que eu partira em busca das louras vikings. "Du vacker i Ashkhabad", respondi. "Tu bonita em Ashkhabad". "Jag, mycket exotisk", insistia a camarada. "Eu, muito exótica". Em suma, acabei partilhando do gosto dos Sveas - que assim se chama aquela tribo que erigiu a Suécia - pelos rostos orientais. Gysel casou-se com um sueco. Não que lhe agradassem os branquelas do Norte. Ocorre que faria qualquer sacrifício para jamais voltar a seu universo soviético. A adorável loura nórdica surgiu bem mais tarde, afinal elas não dão em cachos à beira da estrada, como imaginam os latinos. Encontrei-a em uma festa, num daqueles verões em que o sol jamais se põe e os suecos correm desvairados pelos bosques. A noite não caía, o dia não amanhecia e o vinho jamais findava. Se bem me lembro, naquela noite que não era noite, ensinei os nórdicos a dançar samba, logo eu que detesto samba, o que deve dar uma vaga idéia de meu estado etílico. Summa av kardemuma, como dizem os suecos: acabamos coincidindo na mesma cama. Amor? Nada disso, era puro porre. Em todo caso, daquela coincidência - como direi? - quase geográfica, resultou uma cálida amizade que embalou meus dias junto ao Ártico. Lena iniciou-me nos melhores autores suecos, e a ela devo minha descoberta de Karin Boye e a tradução de Kalocain ao brasileiro. Como também meu primeiro livro, O Paraíso Sexual Democrata. Lena me havia introduzido no fechado universo estocolmense, nada mais justo do que dedicar-lhe meu ensaio. Justo até certo ponto, já que no Brasil me esperava minha companheira. Decidi como Salomão, dediquei-o às duas. Quanto a Lena, casou-se com um romeno. Em suas viagens como guia turística, encontrara Alex e decidiu tirá-lo da miséria e da tirania dos Ceaucescu. Jamais me deixava jogar no lixo sacos de plástico, "em Bucareste, isso vale uma fortuna e dá status". E foi essa a primeira idéia que tive da Romênia, um país onde o lixo das social-democracias era disputado como símbolo de prestígio. Com Lena degustei minha primeira Uzicka Sljivovica e soube que na Iugoslávia havia uma ilha chamada Krk. (Para os cinéfilos atentos, em O Silêncio, de Bergman, Ingrid Tulin bebe este aguardente à base de ameixas). De modo que, ao encontrar uma iugoslava com o nome cheio de kas e ves, passei logo a chamá-la de Krk. Mas sigamos a cronologia. Antes aconteceu Úrsula, polonesa refugiada em Paris. Não era dissidente, nada disso. Era apenas jovem e queria viver. Após alguns anos de espera, conseguira vaga em uma excursão para a Iugoslávia. De lá, teria de voltar à Polônia, já que os iugoslavos, cujas fronteiras estavam abertas apenas para os nacionais, não lhe permitiriam sair rumo á Europa livre. Em uma nesga da Áustria, em uma pausa para fazer xixi, abandonou o ônibus e sua pátria. No que não foi nada original: para Varsóvia voltaram só dois polacos, o motorista e o guia. Úrsula seguidamente me surpreendeu com quilos e quilos de prospectos turísticos, propondo viagens pelo Nepal ou Nova Zelândia, Brasil ou Patagônia, Itália ou Espanha. Mas que fazes com esses folhetos - perguntei - afinal mal tens dinheiro para o metrô? "São de graça. E me fazem sonhar. Em meu país, até sonhar é proibido". Como adoro apresentar a alguém uma cidade que me fascina, convidei-a em uma de minhas viagens a Berlim. "Tenho medo, meu urso tropical. De trem, não vou nem atada, tenho de atravessar a Alemanha comunista e me mandam de volta para a Polônia. E para avião, me falta a grana". Enfim, acabou dando um jeito em ir de avião, rezando para que nenhum imprevisto a obrigasse a uma aterrissagem forçada em território alemão oriental. Do muro, manteve distância. A simples proximidade do horror lhe causava medo. Enfim Krk. Chama-se em verdade Katica - pronuncia-se Katitza, o que soa bem mais terno - e a ela dediquei minha tese de doutorado. Peoniana, como Alexandre, era dirigente das juventudes comunistas da Macedônia. Nos encontramos em Paris, e não creio que por acaso. Quando duas pessoas gostam de Paris, vinho e literatura, o mais provável é que um dia tropecem uma na outra em algum bistrô do Quartier Latin. Estudávamos Literatura Comparada, disciplina que se nutre de viagens, exílio e traduções. Não que ela fosse exilada. Na época, a Iugoslávia era o único país do Leste europeu a permitir o livre tráfego de seus cidadãos. Orgulhosa de sua república, a Macedônia, Krk insistia para que eu a visitasse. O que fiz tão logo pude. No barco de Bari para Dubrovnik, entabulei conversa com uma dálmata, que não entendia o que levava um brasileiro às terras de Tito. É que conheço uma macedônia, expliquei. Tive então, pela primeira vez, uma percepção da fama daquelas gentes: "ma sono tutti testadura" - exclamava a dálmata. Hóspede privilegiado dos camaradas macedônios, eu preferia defini-los como altivos. E inflexíveis como um poste. Entre íntimos, em interiores aquecidos por um bom vinho, a discussão era livre e nada ortodoxa. Mas bastava que entrássemos em um ônibus, bar ou qualquer recinto público e lá se instalava, onipresente, aquele sentimento que tanto torturava Úrsula, o medo. Cabe lembrar que meus anfitriões pertenciam à Nomenklatura iugoslava. E quando a própria Nomenklatura tem medo, pode-se imaginar o que sente o cidadão comum. Poeta e contaminada pelos ares de Paris, Katica queria demonstrar-me que em seu país havia liberdade de expressão. Não conseguiu. Em qualquer banca de jornais nas capitais brasileiras, mesmo durante o regime militar, havia mais evidência de democracia que nas bancas da Macedônia. Uma peste qualquer do século havia secado o solo que gerou Alexandre, o criador da primeira universidade da História. A Iugoslávia está por desintegrar-se. Talvez desapareça do mapa, mas sempre permanecerá em minha memória, país onde, sem entender língua alguma, não me senti estrangeiro. Palavra puxa palavra e acabei desviando do assunto. Nesta altura, o leitor já deve estar intrigado. Ou o cronista é obcecado por meninas do Leste, ou fazia espionagem sexual. Nem uma, nem outra. Como comparatista, por um dever de ofício, estendi minhas pesquisas ao Ocidente. Em boa parte de minhas amigas do lado de cá constatei também um desejo de fuga, apenas as motivações eram distintas. Enquanto as camaradas do Leste queriam liberdade, as ocidentais partiam em busca de algo inefável. Uma de minhas professoras de francês, parisiense da gema, foi várias vezes a Cuba cortar cana. Voltava às margens do Sena com as mãos escalavradas pelo machete, por demais enrijecidas para o afago. O que te leva a abandonar Paris para cortar cana para Fidel? -perguntei. Solidariedade ideológica? "Não é bem assim. Acontece que conheci um dirigente do PC cubano..." Ah, bom! Agora, eu entendia, mas cortar cana em Cuba passou de moda, como passam todas as modas. De volta ao Brasil, curiosamente, fui encontrar motivação semelhante em Florianópolis. Uma amiga, sempre que podia, juntava uns três mil dólares e ia colher café e passar fome na Nicarágua. Nos dias de Ortega, bem entendido. Não que a revolução a fascinasse. "É que conheci um comandante guerrilheiro num congresso do Partido". O que me fez concluir que, nas ocidentais, as ideologias se transmitem por via uretral. Ou, como diria o gaúcho, um fio de pentelho puxa mais que vinte juntas de boi. Voilà, consegui mudar de assunto. (Porto Alegre, RS, 12.01.91)
Quarta-feira, Novembro 21, 2007
NEGROS PRETEJAM MULATOS ILUSTRES (II) No início deste mês, comentei a última campanha dos movimentos negros brasileiros para promover o racismo no Brasil. Neste novembro, as ruas paulistanas viraram uma galeria a céu aberto, com imensos retratos de brasileiros negros, que marcaram a história do País. A promoção é da secretarias de Cultura do Estado e do Município, que lançam a campanha Mês da Consciência Negra. O problema é que, entre estes negros, foram incluídos Castro Alves, Machado de Assis, Lima Barreto, Nilo Peçanha, todos mulatos. Desde há muito, no Brasil, os movimentos negros, com o aval de ministérios e secretarias de Estado, querem eliminar da história do país o mulato, este testemunho mais evidente da miscigenação no país. Miscigenação, coisa que não existe em países racistas como os Estados Unidos, é a prova mais evidente do bom convívio entre raças. Não bastasse pretejar mulatos ilustres, as secretarias de Cultura parecem ter apelado ao photoshop para tornar mais convincente a negritude dos mulatos. Foi o caso de Mário de Andrade. Leio na Folha de São Paulo de hoje, coluna de Mônica Bergamo: MÁRIO DE ANDRADE NEGRO: "NÃO É ELE", DIZ ANTONIO CANDIDO O governo de São Paulo anunciou com orgulho que ontem, Dia da Consciência Negra, estaria prestando sua homenagem pendurando fotos imensas de "personalidades brasileiras que ou têm pele mais escura, ou cabelo crespo, ou que são descendentes de escravos", como escreveu o secretário de Cultura, João Sayad, na Folha, ontem. "A foto de Mário de Andrade moço e antes de ficar careca, com a testa larga emoldurada pelo cabelo crespo, para que nos lembrássemos de que o intelectual e poeta era negro" seria uma das estrelas da homenagem. Pois a foto "não é dele", diz o crítico Antonio Candido, um dos maiores intelectuais do Brasil. E como ele sabe? "Eu conheci o Mário de Andrade. Não é ele, uai! Eu olho e vejo que não é". Candido examinou a foto antes de ela se transformar no banner de propaganda, atendendo a um pedido de Carlos Augusto Calil, secretário municipal de Cultura. Avisou que Mário de Andrade não era estrábico, como aparece na imagem do governo. E não tinha tanto cabelo. Calil mostrou a imagem também a Telê Ancona Lopez, professora titular de literatura do IEB, o Instituto de Estudos Brasileiros, da USP. "Examinei a foto, dei a pesquisadores, passei também para os meus alunos. Não é o Mário de Andrade. Os olhos, a orelha, o cabelo e o formato do rosto, nada é dele". Calil alertou o governo que a foto, doada por Oswaldo de Camargo, especialista em literatura, poderia não ser de Mário de Andrade.(...) Ainda assim, os banners de Mário de Andrade foram instalados. Para Telê Ancona Lopez, "é um negócio muito maluco. Fica lá uma criatura que ninguém sabe quem é passando por outra. Isso é muito leviano, né?". Para ela, o "pior é colocarem um documento na rua sem dizerem a fonte. De que revista é essa foto? De que jornal?". As campanhas para a extinção do mulato, ao retocar documentos fotográficos para falsificar a história, está exibindo suas origens stalinistas.
Crônicas da Guerra Fria (44) AO NOVE DE NOVEMBRO Curitiba - Uma das boas lembranças que trouxe de meus dias de Suécia - exílio voluntário, é bom esclarecer - foi um romance de Karin Boye, Kalocain. A autora optou por fugir à vida há cinqüenta anos, e a ocasião é oportuna para rever sua obra, seu rosto lindo e seu sorriso terno. Em Estocolmo, estudei cinema e acho que não exagero se afirmo que Boye me fez optar pela literatura. "Este livro que me proponho escrever parecerá sem sentido para muitos - se ao menos ouso pensar que muitos poderão lê-lo - pois iniciei-o espontaneamente, sem ordens de ninguém, e no entanto nem certamente eu mesmo sei qual é meu objetivo. Quero e preciso, isso é tudo. Pouco a pouco, inexoravelmente, acabamos nos perguntando pelo objetivo e método do que fazemos e dizemos, de modo que palavra alguma caia ao azar, mas o autor deste livro foi forçado a tomar o caminho oposto, em direção ao inútil". Assim abre seu longo depoimento Leo Kall, o personagem central de Kalocain. Sempre fui fascinado pelas frases iniciais de uma obra de porte, e Boye capturou-me já no primeiro parágrafo. De volta a Pindorama, para não perder meu sueco, decidi traduzir o livro. Caminho em direção ao inútil, como diria Leo Kall. Por um desses estranhos caminhos, sei lá como, consegui publicá-lo no Rio, pela Companhia Editora Americana. O livro foi solenemente ignorado pela crítica, pois era um libelo contundente contra os milenarismos que empestaram o século. Falar nisso, a Real Academia Sueca parece voltar a tomar vergonha. Após ter premiado celerados como Sholokov, Neruda e Garcia Márquez, passou a honrar homens íntegros com Cela e Octavio Paz. Verdade que meu candidato era outro, Ernesto Sábato. Verdade que Paz abandonou tarde demais o barco stalinista, só lá pelos anos 60, quando após a affaire Kravchenko, em 1949, a nenhum intelectual minimamente informado era permissível continuar defendendo o regime soviético. Mas pelo menos foi homem capaz de revisar seu itinerário. "Tenho medo do homem incapaz de mudar de idéias", dizia Camus. Premiando Paz, os Sveas honram a coragem e a lucidez de um herege, como também prestigiam a língua que, contemporaneamente, tem produzido a melhor literatura desta segunda metade de século. Quem perde pontos são os fanáticos. Escreve Paz: "Acredito que existe um setor profundamente reacionário na América Latina: o dos intelectuais esquerdistas. Trata-se de uma gente sem memória. Jamais vi um deles reconhecer um erro cometido. O marxismo converteu-se em um vício intelectual e na superstição do século XX". Quem ousa fazer tal afirmação só podia mesmo ser amaldiçoado do Alaska à Patagônia. Sua premiação, surpreendente à primeira vista, talvez tenha uma explicação. Ano passado, morreu em Estocolmo Artur Lundkvist, presidente da Real Academia Sueca e tradutor de Neruda ao sueco. Claro que um homem com tais credenciais jamais iria permitir a concessão do Nobel a um escritor que passou a denunciar a empulhação do século. Enfim, o Valhala parece ter aberto suas portas aos homens lúcidos. Mas falava de Karin Boye. Em 86, em Uppsala, percorri a geografia de sua infância, adolescência e maturidade. Vinte graus negativos me cortavam o rosto como navalhas. Por dentro, eu me sentia aquecido, diria melhor, comovido com a evocação daquela sofrida escritora que acabou dando sentido a meu exílio. A propósito, se alguém quiser conhecer esta geografia, basta ver ou rever Fanny e Alexander, de Bergman. O filme foi rodado em época de uma nevada excepcional e a ausência de carros e sinais de tráfego nas ruas retrata a Uppsala de início deste século. Boye, como a quase totalidade dos intelectuais dos anos 30 e 40, foi comunista e sua militância ocorreu no grupo sueco Klarté. Escritora de águas profundas, baseada na experiência do nazismo, ela antecipa a derrocada do sistema gêmeo, o comunismo. Em Kalocaína (título brasileiro), vivemos em uma sociedade indefinida no tempo e no espaço. Nós a intuímos no século XX - o avião e o metrô já existem, e os personagens falam de uma grande guerra - mas Karin Boye não a data nem a situa geograficamente. Existe o Estado Mundial e as cidades não têm nomes: temos assim as Cidades Químicas, as Cidades dos Calçados, as Cidades Têxteis, cada uma atendendo por um número. Além do Estado Mundial - o mundo teria sido dividido em dois depois da Grande Guerra - há "os outros seres do outro lado da fronteira", o Estado vizinho, com o qual o Estado Mundial vive em guerra permanente. Cabe lembrar que esta ficção foi publicada em 1940. Sete anos depois, a Guerra Fria dividiria o mundo em dois blocos permanentes. Nesta sociedade sem classes, que antecipa a estrutura política de Israel, seus habitantes são cidadãos e soldados ao mesmo tempo. O Estado oferece a cada um - recruta ou general - apartamentos estandardizados e uma alimentação padrão distribuída pelas cozinhas centrais de cada prédio. Como vestes, o cidadão-soldado dispõe de três uniformes: um para o trabalho, outro para o serviço policial-militar e um terceiro para o tempo de lazer. Pobres não existem, ricos muito menos. Olhos e ouvidos eletrônicos da polícia vigiam o interior de cada apartamento, mesmo à noite, através de raios infravermelhos, antecipação do Grande Irmão, de George Orwell. Mais ainda: as domésticas são trocadas semanalmente e têm o dever de enviar à polícia, após a prestação de serviços em uma família, um relatório sobre a mesma. Solicitações para visitas devem ser encaminhadas aos porteiros dos edifícios que, por sua vez, as encaminham à polícia. Concedida a permissão, o porteiro controlará a identidade e o horário de entrada e saída do visitante. No metrô e nas ruas, cartazes advertem: Ninguém pode estar seguro. Quem está a teu lado pode ser subversivo. Nesta atmosfera já asfixiante, Leo Kall, cientista da Cidade Química nº 4, descobre a droga sonhada por todos os profissionais de informação: a kalocaína. Com apenas uma dose, sem tortura alguma, todo indivíduo que tenha idéias associadas confessa alegremente e sem reservas sua culpa. Se o cidadão pertence por inteiro ao Estado, como poderiam os pensamentos e os sentimentos ser coisas privadas? Se até então eram as únicas coisas que não podiam ser controladas, agora o meio fora encontrado. Quando alguém objeta ter sido devassado o último refúgio da vida privada, Kall responde alegremente: - Mas isto não tem importância alguma. A coletividade está pronta para conquistar a última região onde as tendências associais poderiam esconder-se. Vejo agora, simplesmente a grande comunidade aproximar-se de sua culminância. A kalocaína começa a ser aplicada em cobaias e descobre-se, para espanto e temor dos serviços de segurança, uma espécie de seita onde as pessoas preferem relacionar-se entre si a relacionar-se com o Estado. Seus membros cumprem um estranho ritual. Alguém apanha uma faca e um outro dorme ou finge que dorme. O cientista químico crê estar tratando com loucos. Quer saber qual o sentido daquilo. - Um sentido simbólico - diz a cobaia -. Através da faca ele se entrega à violência do outro. E no entanto nada lhe acontece. Leo Kall suspeita da existência de alguma organização que quer tomar o poder ou, no mínimo, exige cargos no Estado: - Organização? Não buscamos organização alguma. O que é orgânico não precisa ser organizado. Vocês constróem de fora para dentro, nós construímos de dentro para fora. Vocês constróem utilizando a vocês mesmos como pedras, e ruem por fora e por dentro. Nós nos construímos desde dentro como árvores, e crescem pontes entre nós que não são de matéria morta ou força bruta. De nós emerge o vivo. Em vocês submerge o inanimado. Resumindo: à medida que a droga da verdade vai sendo aplicada, desvela-se a grande mentira. Nem mesmo o chefe de Polícia acreditava no que pensava e pregava. O Estado Mundial desmorona desde dentro. Verdade que os russos não chegaram à kalocaína, ou teria sido mais apressada a queda do império. Mas penso que podemos eleger Karin Boye como o primeiro escritor deste século a prever um desmoronamento interno do socialismo, sem que filosofia ou organização alguma necessitasse desfechar uma guerra. O que é orgânico não precisa ser organizado. O Muro caiu de podre. O socialismo também. Boye tinha medo do livro que havia escrito. Nele está antecipado o Muro, a Segunda Guerra e a Guerra Fria, a Stasi e o KGB, o medo e a desconfiança mútua imperantes nos países socialistas. Quando sua mãe comenta que ela havia feito um bom livro, Boye comenta: - Tu achas que fui eu quem o fez? Em Kalocaína está a inexorabilidade da Revolução do Nove de Novembro, já considerada na Europa mais importante e prenhe de conseqüências do que a Revolução Francesa. Como seu primeiro aniversário certamente será esquecido entre nós, neste novembro, quando for revisitar a Feira do Livro de Porto Alegre e os jacarandás da Praça da Alfândega, azuis de flores, estarei fazendo uma palestra sobre Boye e a queda do Muro. Dia nove, sexta-feira, às dezoito horas. (Porto Alegre, RS, 03.11.90)
Terça-feira, Novembro 20, 2007
ARMADILHA PARA NEGROS (Em homenagem ao feriado racista celebrado hoje no país, reproduzo artigo que publiquei originalmente em abril de 2003, na revista Brazzil, de Los Angeles, com o título A Trap for Blacks, por ocasião de um debate com ativistas negros americanos) Ainda há pouco, os movimentos negros brasileiros reivindicavam a eliminação do item cor nos documentos de identidade. Com a malsinada lei de cotas que hoje assola o ensino superior, os negros insistem em declarar a cor na inscrição no vestibular. Estes mesmos movimentos negros sempre consideraram que qualquer critério supostamente científico para determinar a cor de alguém é racista. Quem então é negro para efeitos legais? No caso da lei estadual no Rio e do projeto de lei federal, o critério é o da auto-declaração. Pardo ou negro é quem se considera pardo ou negro, mesmo que branco seja. Ora, neste país em que impera a chamada lei de Gérson, não poucos brancos se declararam negros no último vestibular da UERJ, a primeira universidade pública brasileira a estabelecer o sistema de cotas. Grita dos líderes negros: vamos determinar cientificamente quem é branco e quem é negro e processar os brancos que se declaram negros. Ou seja, as palavras de ordem da afrodescendentada são mais cambiantes que as nuvens. Mas mudam num só sentido, na direção de obter vantagens para os negros, não só dispensando méritos como também passando por cima dos eventuais méritos de quem se declara branco. O atual presidente da República está longe de ser o primeiro apedeuta a assumir o poder neste país. Câmara e Senado estão repletos de analfabetos jurídicos, que nada entendem da confecção de leis nem sabem sequer distinguir lei maior de lei menor. Embalados por palavras de ordem estúpidas, em geral oriundas dos Estados Unidos, criam leis irresponsáveis, com a tranqüilidade de quem não precisa prestar contas a ninguém. É o caso da lei de cotas. Só agora, após o vestibular da UERJ e de uma enxurrada de ações judiciais, argutos analistas descobriram que a famigerada lei fere o artigo 5º da Constituição: "todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza". Não bastasse esta tremenda mancada jurídica, que daqui para frente só servirá para entupir ainda mais os já entupidos tribunais - gerando grandes lucros aos advogados, os reais beneficiados pela lei de cotas - o presidente da República, mal assumiu o poder, sancionou lei que obriga a inclusão da temática História e Cultura Afro-brasileira no currículo oficial da rede de ensino Fundamental e Médio. As aulas abordarão desde a história da África e dos africanos até a luta dos negros no Brasil. A medida é de um racismo evidente. E por que não a História de Portugal e a luta dos portugueses no Brasil? Ou a história da Itália e as lutas dos italianos? Ou a história do Japão e a luta dos japoneses? O Brasil é um cadinho de culturas e a contribuição africana a seu desenvolvimento está longe de ser a única ou a mais importante. O estudo da história afro-brasileira tem no entanto suas complicações. Para os próceres do movimento negro, não basta historiar a cultura afro-brasileira. É preciso embelezá-la. É o que se deduz da proibição do livro Banzo, Tronco e Senzala, de Elzi Nascimento e Elzita Melo Quinta, na rede pública do Distrito Federal por ordem do governador Joaquim Roriz, em acatamento ao pedido do senador petista Paulo Paim. Um garoto teria ficado impressionado com as informações contidas no livro dizendo que os "negros perdiam a condição humana assim que eram aprisionados na África para se tornarem simples mercadoria à disposição dos brancos""e que aprisionar os negros não era difícil. "Principalmente, depois que os traficantes passaram a contar com o auxílio de negros traidores que prendiam elementos de sua própria raça em troca de fumo, cachaça, pólvora e armas". "Qual é a auto-estima de uma criança negra quando recebe um livro que diz que, se seu povo um dia foi escravo, os culpados foram os negros, e não os europeus da época, mercadores de escravos?" - pergunta Paim. O deputado parece ignorar - ou propositadamente omite - o fato de que a escravidão não é invenção dos europeus. Ela já está na Bíblia e em momento algum é condenada pelos profetas ou patriarcas. Nem mesmo Paulo, reformador do Livro Antigo, a condena. Foi norma na Grécia antes de a Europa existir. Séculos antes de o primeiro navio negreiro europeu aportar no continente africano, ela lá já existia, sem a interferência do Ocidente. O presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, que o diga. Comentando as reivindicações dos movimentos negros, identificou-se como descendente de uma rica família de senhores de escravos e perguntou se alguém iria pedir-lhe indenização. Ainda bem que não o fez em jornais do Distrito Federal, ou seria censurado pelo governador Joaquim Roriz. Que os chefes tribais negros facilitavam a tarefa dos negreiros, vendendo escravos de outras tribos, isto tampouco é ignorado. Vendiam e continuam vendendo até hoje, em pleno século XXI. Na Mauritânia, Sudão e Gana, no Benin, Burkina Fasso, Mali e Niger, a escravidão ainda persiste como nos tempos dos navios negreiros. Ano passado, a GNT mostrava brancos europeus comprando escravos no Sudão. Não que fossem negreiros. Eram representantes de Ongs européias, que compravam negros para libertá-los. O propósito pode ser nobre. Mas toda procura gera oferta e os dólares dos ongueiros só serviram para estimular o tráfico de escravos. Esta é a história da África. E se algum autor relega a escravidão para tempos passados, o livro está desatualizado. A nova lei assinada pelo presidente da República acrescenta ao calendário escolar o dia da morte de Zumbi (20 de novembro) como o Dia Nacional da Consciência Negra. Esta ambição patrioteira de ter heróis, típica de países subdesenvolvidos, levou políticos negros a elegeram Zumbi como herói da raça. Ora, o herói negro também era proprietário de escravos. Como é que ficamos? Irão as autoridades censurar qualquer livro que ateste esta condição de escravagista de Zumbi? Ao defender os sistemas de cotas na universidade, os negros caíram em uma tosca armadilha. Podem hoje ter facilidades na obtenção de um diploma. Mas quem, amanhã, irá contratar os serviços de profissional que entrou na universidade pela porta dos fundos? Ao exigir a inclusão da história africana nos currículos, caíram em armadilha mais sofisticada. A história da África é a história das guerras tribais e da escravidão, da lapidação por adultério, da mutilação física como punição e da mutilação sexual como costume. Democracia, direitos humanos, liberdade de imprensa, emancipação da mulher, são instituições desconhecidas no continente. Seis mil meninas têm o clitóris extirpado, diariamente, em vinte países do Oriente Médio e da África. Por barbeiros locais ou parteiras, com instrumentos não esterilizados. A África, até hoje, está mais para Idi Amin Dada do que para Mozart. Mais para Bokassa que para Einstein. Estudar sua história, seja a passada, seja a presente, não leva criança alguma a nenhuma auto-estima.
ARMADILHA PARA NEGROS (II) Sobre Idi Amin Dada e Mozart Em crônica passada, comentei o sistema de cotas para negros na universidade e o estudo obrigatório da História africana nas escolas brasileiras. O artigo rendeu uma saraivada de mensagens, em geral iradas, nas quais invariavelmente sou acusado de racista. "A doença do racismo é uma invenção européia" – escreve um dos leitores – "Você não pode infetar uma pessoa com a doença sem esperar ficar doente. Seu artigo mostra a doença que você ainda tem". Tantas foram as objeções, que responder a todas é impossível. Atenho-me então a comentar os pontos mais recorrentes, como racismo, sistema de cotas, escravidão e história da África. Deixo de lado minha surpresa ao tomar conhecimento de que os hutus e tutsis que se cortam aos pedaços em Ruanda estão contaminados por uma invenção européia. Comecemos por meu suposto racismo. Nasci no Rio Grande do Sul, Estado que, por sua forte colonização européia, tem a fama de ser o Estado mais racista do Brasil. Apesar de ser constituído por uma expressiva maioria branca, foi o primeiro Estado do país a eleger um governador negro, Alceu Collares. Ora, nem a Bahia, Estado majoritariamente negro, teve um governador negro. Collares não só foi governador, como também prefeito de Porto Alegre, capital também majoritariamente branca. Antes de ser prefeito da capital gaúcha, foi prefeito de Bagé, cidade da fronteira oeste do Rio Grande do Sul, onde os brancos constituem maioria esmagadora. Desde minha infância, de meus estudos primários aos universitários, convivi afavelmente com negros. Em meus anos de Porto Alegre, por noites a fio participei da mesa de Lupicínio Rodrigues, no bar da Adelaide, e por ele sempre nutri admiração. Lupicínio – que compôs os mais belas letras de samba do Brasil – era universalmente querido pelos gaúchos. Hoje, noto que tive entre os negros bons amigos. E por que hoje? Porque na época nem notava que eram negros. Com o acirramento recente da luta racial, passamos a conviver com pessoas que insistem em se definir como negras, quando nem cogitávamos de que o fossem. Entre os mails recebidos, sou acusado de defender a tese de que no Brasil não existe racismo. De certa forma, a defendo. Algum racismo existe entre nós, ou humanos não seríamos. Mas jamais ao nível dos EUA ou países europeus. O negro, quando rico ou bem-sucedido, é estimado e mesmo invejado no Brasil. Milhões de brancos brasileiros se sentiriam sumamente honrados sendo fotografados junto a um Pelé. O rechaço existe em relação ao negro pobre ou miserável. Neste caso, o fator de distanciamento não é a negritude do negro, mas sua miséria. Exceto padres católicos e assistentes sociais, ninguém gosta de miséria. Nem negro gosta de negro pobre. Nunca tivemos, no Brasil, leis proibindo a negros qualquer direito. As chamadas leis Jim Crow, declaradas inconstitucionais pela Suprema Corte americana em 1954, constituíram a partir de 1880 a base legal da discriminação contra negros nos Estados do Sul, proibindo até mesmo um estudante passar um livro escolar a outro que não fosse da mesma raça. No Alabama, nenhum hospital podia contratar uma enfermeira branca se nele estivesse sendo tratado um negro. As estações de ônibus tinham de ter salas de espera e guichês de bilhetes separados para cada raça. Os ônibus tinham assentos também separados. E os restaurantes deveriam providenciar separações de pelo menos sete pés de altura para negros e brancos. No Arizona, eram nulos casamento de qualquer pessoa de sangue caucasiano com outras de sangue negro, mongol, malaio ou hindu. Na Florida, proibia-se o casamento de brancos com negros, mesmo descendentes de quarta geração. Neste mesmo Estado, quando um negro compartilhasse por uma noite o mesmo quarto que uma mulher branca, ambos seriam punidos com prisão que não deveria exceder 12 meses e multa até 500 dólares. Na Geórgia, cerveja ou vinho tinham de ser vendidos exclusivamente a brancos ou a negros, mas jamais às duas raças no mesmo local. No Mississipi, mesmo as prisões tinham refeitórios e dormitórios separados para prisioneiros de cada raça. No Texas, cabia ao Estado providenciar escolas para crianças brancas e para negras. As leis Jim Crow explicam a mauvaise conscience ianque, que se traduziu na ação afirmativa. Brasileiros, desconhecemos este racismo institucionalizado. Negros e brancos casam-se com brancas e negras, bebem e comem nos mesmos restaurantes, estudam e confraternizam nos mesmos bancos escolares. Se há menos negros que brancos na universidade, isto se deve a fatores econômicos, mas jamais legais. O branco pobre – e eles são legião – tem a mesma dificuldade de acesso aos bancos universitários que o negro pobre. O negro rico – e eles também existem – tem a mesma facilidade de acesso que o branco rico. É inteligível o ódio que um negro americano possa sentir por um branco americano. Não há no entanto razão alguma para que este ódio seja exportado ao Brasil. Neste país, do ponto de vista legal, o negro nunca foi discriminado. O Brasil costuma importar as piores práticas do Primeiro Mundo, costumo afirmar. No censo de 2.000, quase sete milhões de norte-americanos, pela primeira vez, foram autorizados a identificar-se como integrantes de mais de uma raça. As categorias inter-raciais mais comuns citadas foram branco e negro, branco e asiático, branco e indígena americano ou nativo do Alasca e branco e "alguma outra raça". Os Estados Unidos deixam de lado a onedrope rule, pela qual um cidadão é considerado negro mesmo que tenha uma única gota de sangue negro em sua ascendência, e descobrem o mestiço. Enquanto os Estados Unidos reconhecem a multi-racialidade, alguns movimentos negros no Brasil pretenderam que até os mulatos se declarassem negros no último censo. O propósito é óbvio, exercer pressão legislativa. A população negra do Brasil, em 99, era de apenas 5,4%. Com o acréscimo de 39,9% do contingente de mulatos, o Brasil estaria perto de ser definido como um país majoritariamente negro, como aliás é hoje considerado por muitos americanos e europeus. O presidente José Inácio Lula da Silva, em sua já proverbial incultura, caiu nesta armadilha, ao afirmar que o Brasil é a segunda nação negra do mundo. Não é. Negro é minoria ínfima no Brasil. A menos que, como fizeram os EUA, se pretenda negar este espécime híbrido, o mulato. Quando os americanos descobrem o mestiço, os ativistas negros brasileiros querem eliminá-lo do panorama nacional. Em uma imitação servil da imprensa ianque, os jornais tupiniquins passam a usar o termo afrodescendente para definir a população que o IBGE classifica como negra ou parda. Mas se um negro é obviamente afrodescendente, o pardo é tanto afro como eurodescendente. A adotar-se a nova nomenclatura, sou forçado a declarar-me eurodescendente. E não vejo nisso nenhum desdouro. A palavra racismo, pouco freqüente na imprensa brasileira em décadas passadas, passou a inundar as páginas dos jornais a partir da queda do Muro de Berlim. Apparatchiks saudosos da Guerra Fria, vendo desmoralizadas suas bandeiras de luta de classes, proletariado versus burguesia, trabalho versus capital, trataram logo de encontrar uma nova dicotomia, para lançar irmãos contra irmãos. Existem negros e brancos no Brasil? Maravilha. Vamos então lançá-los em luta fratricida. Criaram-se leis absurdas que, a pretexto de combater o racismo, só servem para estimulá-lo. Hoje, no Brasil, se você insultar um negro, incorre em crime hediondo, com prisão firme e sem direito à fiança. Mas se matar um negro, a lei é mais leniente. Se você for primário, pode responder ao processo em liberdade. Ou seja: se você, em um momento de ira, insultou um negro e quer escapar de uma prisão imediata, só lhe resta uma saída: mate-o. Segundo a lei absurda, assassinato é menos grave que ofensa verbal. Vamos às cotas. Em virtude deste hábito nosso de importar do Primeiro Mundo seus piores achados, acabamos instituindo as cotas raciais na universidade. Mais uma dessas tantas leis que fabricam racismo. Como pode um jovem pobre e branco encarar sem animosidade um negro que lhe tomou a vaga na universidade, só porque é negro? Quando o juiz federal Bernard Friedman determinou o fim da política de ação afirmativa da faculdade de Direito da Universidade de Michigan, os americanos começaram a perceber que a política de cotas era uma péssima idéia. Em 1977, a estudante branca Barbara Grutter abriu processo depois de não ter sido aceita pela faculdade de Direito. Para Friedman, levar em consideração a raça dos estudantes como fator para decidir se os aceita ou não é inconstitucional. Segundo o juiz, a política de ação afirmativa da faculdade assemelha-se ao sistema de cotas, que determina que uma certa porcentagem de estudantes pertença a grupos minoritários. Ao ordenar que a faculdade deixe de praticar essa política, escreveu: "Aproximadamente 10% das vagas em cada turma são reservadas para membros de uma raça específica, e essas vagas são retiradas da competição". Ano passado, o programa 60 Minutes entrevistou um professor que mostrava a injustiça do sistema. De 51 estudantes brancos candidatos a um programa da faculdade, apenas um foi aceito. Entre dez candidatos negros, foram aceitos os dez. A universidade adota uma espécie de lei Jim Crow às avessas, aceitando qualquer candidato negro e recusando brancos. Quando os americanos descobrem que a política de afirmação positiva não constituiu uma idéia boa ou justa, autoridades brasileiras aderem a esta política infame. Já existe projeto, aprovado Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara Federal, segundo o qual deverão ser escalados 25% de atores negros ou mulatos em peças de teatro, filmes e programas de televisão. Só no teatro, o leitor já pode imaginar as peripécias de um diretor. Se pensa em encenar Ibsen ou Tchekhov, como inserir negros em contextos eslavos ou nórdicos? E se a peça tiver um só personagem? Pelo menos um quarto do monólogo terá de ser feito por um negro? Só mesmo no bestunto de um analfabeto poderia ocorrer esta pérola do politicamente correto. Quando os EUA passam a abandonar o sistema de cotas, deputados brasileiros querem adotá-lo até mesmo no universo do lazer. Quando afirmei que negros capturavam negros na África, para vendê-los como escravos aos brancos europeus, não faltou interlocutor que alegasse que, se escravidão existia, é porque na Europa havia uma procura de escravos. Vários leitores jogaram sobre a Europa a pecha da escravidão. Tal atitude intelectual denota falta de leituras históricas. A escravidão é muito anterior à Europa. Ela já existe na Grécia socrática, quando Europa era apenas o nome de uma virgem raptada por Zeus, travestido em touro. Que mais não seja, a escravidão é vista como algo perfeitamente normal no livro que embasa o Ocidente. Um leitor cita o Eclesiastes, quando Salomão fala de um homem que domina outro homem para arruiná-lo. Considera que esta declaração é universal, não se aplicando a uma raça, mas a todas as raças. E considera ser intelectualmente irresponsável invocar a Bíblia sem realçar este fato. O leitor esqueceu de ler o Êxodo: "Quando comprares um escravo hebreu, seis anos ele servirá; mas no sétimo sairá livre, sem nada pagar. Se veio só, sozinho sairá; se era casado, com ele sairá a esposa. Se o seu senhor lhe der mulher, e esta der à luz filhos e filhas, a mulher e seus filhos serão do senhor, e ele sairá sozinho. Mas se o escravo disser: 'eu amo a meu senhor, minha mulher e meus filhos, não quero ficar livre', o seu senhor falo-á aproximar-se de Deus, e o fará encostar-se à porta e às ombreiras e lhe furará a orelha com uma sovela: e ele ficará seu escravo para sempre". À semelhança de ativistas negros que não gostam de ouvir que chefes tribais africanos vendiam escravos aos brancos europeus, muitos católicos não gostam de ouvir que a Bíblia endossa a escravidão. Mas que se vai fazer? No Livro está escrito: "Se alguém ferir o seu escravo ou a sua serva com uma vara, e o ferido morrer debaixo de sua mão, será punido. Mas, se sobreviver um ou dois, não será punido, porque é dinheiro seu". O Levítico legitima a aquisição de escravos estrangeiros: "Os servos e servas que tiverdes deverão vir das nações que vos circundam; delas podereis adquirir servos e servas. Também podeis adquiri-los dentre os filhos dos hóspedes que habitam entre vós, bem como das suas famílias que vivem conosco e que nasceram na vossa terra: serão vossa propriedade e deixá-los-eis como herança a vossos filhos depois de vós, para que os possuam como propriedade perpétua. Tê-los-eis como escravos; mas sobre os vossos irmãos, os filhos de Israel, pessoa alguma exercerá poder de domínio". Ou seja, não há originalidade alguma no fato de a Europa ter sido escravista. Estava apenas seguindo os ditames do livro que a embasa. A escravidão percorre o Livro de ponta a ponta, só não vê quem não quer ver. Portugal, país bom cristão, não deixaria de dar continuidade à tradição bíblica. Negros brasileiros exigem hoje indenizações milionárias da República, em nome da escravidão passada. Ocorre que o Brasil república não conheceu a instituição da escravatura. A Lei Áurea é de 1888 – coincidentemente da mesma época em que nos EUA vigiam as hediondas leis Jim Crow. A república foi proclamada em 1889. Se os negros querem indenização, a conta deve ser enviada a Portugal. Existe hoje trabalho escravo no Brasil? Sim, existe. Mas nenhuma lei o legitima, pelo contrário. É crime e como tal é punido. Seria insensato de nossa parte negar a existência de nossas mazelas, em nome de um enjolivement da história pátria. E aqui entramos no ponto que mais protestos provocou em meu artigo, a afirmação de que a história da África é a história das guerras tribais e da escravidão, da lapidação por adultério, da mutilação física como punição e da mutilação sexual como costume. Choveram e-mails citando feitos passados, antigas culturas e houve quem empunhasse o Egito como um dos expoentes da cultura negra. Não bastasse a tese furada de que Atenas era negra, vemos agora o Egito inserido no debate afro. De Dakar, um leitor me envia referências sobre Cheikh Anta Diop, estudioso senegalês que parte da idéia de que o antigo Egito faz parte da África negra. Pode ser. Mas tal tese está longe de constituir unanimidade entre historiadores. Mesmo que assim fosse, de nada vale o argumento. Se um dia um hipotético Egito negro teve uma trajetória gloriosa, hoje não mais a tem. Essa trajetória foi em algum momento interrompida, e hoje o Egito vive a hora nada gloriosa do Islã. Que mais não seja, o antigo Egito era escravagista - os hebreus que o digam! - e isto tampouco depõe a favor da África. Não faltou quem me acusasse de ser filho ingrato, afinal nossos ancestrais todos teriam surgido em solo africano. O argumento é contraproducente. Se todos de lá descendemos, foi preciso abandonar Mãe África para que o homem evoluísse. Que mais não seja, apegar-se a passados gloriosos de um país para alimentar auto-estima é doença de nacionalistas tacanhos. Pior ainda quando o apego é ao passado de uma etnia: estamos entrando na estreita fímbria que separa orgulho étnico de racismo. Antes de pertencermos a uma ou outra nação, a esta ou aquela etnia, pertencemos à raça humana. Afirmei que estudar a história africana, seja a passada, seja a presente, não leva criança alguma a nenhuma auto-estima. Vejo que magoei muitos leitores. Inúmeros destes, munidos de um computador, enviaram suas mensagens por modem, em velocidade quase instantânea, via Internet. São pessoas alfabetizadas, o que neste nosso mundo já constitui privilégio. Em geral com curso superior, pelo que entendi. Usufruem das atuais facilidades de comunicação e da liberdade de expressão de pensamento nos países onde vivem. São nutridas por informação via satélite e podem acompanhar quase em tempo real os conflitos no planetinha, confortavelmente sentadas frente a um televisor. Certamente são usuárias de jatos e automóveis em seus deslocamentos, comem em bons restaurantes e foram formados em boas universidades. Ou seja, gozam do melhor do Ocidente. Isto, caríssimos, não é herança africana. Que a África seja uma terna lembrança de um passado imemorial, vá lá. Hoje, não tem lição nenhuma a dar ao Ocidente. Quando na África existir eleições livres e democracia, noções de direitos humanos, imprensa e liberdade de imprensa, mulheres com os mesmos direitos que os homens, quando na África clitóris não mais sejam mutilados nem mulheres lapidadas, voltamos a conversar. A África trouxe contribuições à humanidade? Viva a África. O que não se pode, sob pena de falsificar a história, é ignorar suas mazelas presentes. Por enquanto, repito, a África está mais para Idi Amin Dada que para Mozart. Quando alguém me fala da excelência de certas culturas primitivas, costumo lembrar de A Vida de Brian, dos Monty Python. Reunidos os conspiradores judeus, o líder pergunta: que nos trouxeram os romanos? Estradas, responde alguém. Certo. Mas além das estradas, que nos deram? Hospitais, responde outro. É! Mas que mais além das estradas e hospitais? Aquedutos, sugere um terceiro. E assim continua a discussão, até que sai um manifesto: apesar de nos terem trazido estradas, hospitais, aquedutos, escolas, esgotos, romanos go Rome! Entendo o estudo da história como o estudo do acontecido. Não pode um historiador subtrair fatos só porque tais fatos são desonrosos à história de um povo. Durante todo um século – o passado – os comunistas construíram uma história fictícia para mostrar como paraíso o que em verdade era um inferno aqui na Terra mesmo. Não queiram os ativistas negros repetir esta infâmia. A do século passado ainda nos pesa e está longe de ser extirpada de nossa memória.
ARMADILHA PARA NEGROS (III) Negros e mulatos Em resposta a artigos que publiquei nesta revista, leio uma prolixa contestação de um acadêmico da Universidade de Michigan. Por apreço à síntese e ao leitor, tentarei ser breve. Não vou entrar na discussão de DNA ou fenótipos. Seria cair na armadilha da discussão sobre raça, conceito que até hoje não se conseguiu definir. Minha proposição inicial foi discutir racismo e leis que estimulam o racismo, o que é muito diferente. Se raça é algo impossível de determinar, racismo é algo muito palpável, e contamina tanto brancos como negros. Por um lado, a idéia de fenótipos é o caminho mais curto até sistemas como o nazista. Por outro, em nada me interessa que fenótipos portam as pessoas que me rodeiam. Tampouco vou responder, ponto a ponto, todas as objeções. Doze mil palavras é formato que não condiz com meu estilo. Vou me ater, nesta réplica, a alguns itens sobre este país em que nasci e vivo. Mark Wells, militante da nova ideologia afrobrazilianista ianque, começa citando o doutor e sociológo Raimundo Nina Rodrigues: "the black race of Brazil... will always constitute one of the factors of our inferiority as a people". Para começar, o tenho por etnológo e não sociólogo, mas isto é o de menos. Tal afirmação não corresponde ao que um brasileiro pensa sobre as populações negras no Brasil. Não tendo nunca os negros empunhado o poder político e administrativo da nação, jamais poderiam ter sido responsáveis por qualquer suposta inferioridade do país. Esta tese é de um racismo insólito, só concebível no bestunto de um acadêmico isolado em torre de marfim. O homem do povo, que vive e trabalha ombro a ombro com negros e mulatos, não pensa assim. Se inferioridade há, esta deve ser debitada aos brancos, que sempre tiveram o poder em mãos. Há quem afirme, isto sim, que nossas mazelas decorrem de termos sido colonizados por portugueses, e não por holandeses ou franceses. É possível. Mas história alternativa é disciplina espúria, que nada tem de rigor. Prefiro outra tese: nossas desgraças decorrem de termos sido colonizados por católicos. País protestante ou luterano, de modo geral, é sempre rico. Cabe lembrar que Nina Rodrigues foi influenciado pelas idéias do conde de Gobineau, um dos precursores do racismo nazista, que esteve no Brasil entre 1869 e 1870. Este nobre francês aventou a exótica idéia de que a mistura de raças acabaria levando à pura e simples extinção da população brasileira. O médico baiano deixou-se deslumbrar pelo discurso da aristocracia gálica e considerou que toda e qualquer miscigenação resultaria inevitavelmente em desequilíbrio mental e degenerescência. Nina Rodrigues foi incumbido de analisar o crânio de Antônio Conselheiro. Considerou que, em se tratando de um mestiço, o morto era muito suspeito de ser degenerado. Você não pode, de forma alguma, Mr. Wells, interpretar a realidade brasileira a partir de considerações de um pensador racista influenciado por um precursor do nazismo. Seria como pedir a Hitler um parecer sobre a questão judia. Mr. Wells afirma, citando pesquisa da Fapesp, que "the term pardo was developed as a way for the Brazilian government to hide the fact that it had such a high proportion of African descent people". A afirmação é vaga. Qual governo? Em que época? Quais documentos baseiam tal afirmação? O autor da pesquisa citada não fornece nenhuma base documental à sua tese. É uma afirmação apoiada no vazio, o que depõe contra as qualificações acadêmicas exibidas pelo articulista. Pardo ou mulato quer dizer a mesma coisa e mulato é palavra antiga. Se você apanhar um Larousse, lá está: "Mulâtre, mulâtresse: homme ou femme de couleur, nés d'un d'un Noir et d'une Blanche". A palavra vem do espanhol e data de 1544. Vamos ao dicionário de Maria Moliner: "se aplica al mestizo hijo de blanco y negro". A distinção entre negro e mestiço não foi criada por governo brasileiro algum. Ela já existia há séculos em outras culturas. Machado de Assis, o patrono da literatura brasileira, sempre foi considerado mulato. Estamos no século XIX. Os historiadores da literatura não o situam como negro, por uma simples razão: não era negro. É salutar que esta distinção seja feita, pois a fenômenos diferentes cabem denominações diferentes. Mesmo mulato, Machado conquistou a admiração da intelectualidade branca e universitária, como também um outro seu coetâneo, Lima Barreto. Estranho país racista este nosso, onde o vulto maior da Letras nacionais é um mulato. Mr. Wells tem razão ao citar pesquisa do Censo mostrando que "the state of Bahia is approximately 25 percent white, 20 percent black and 55 percent mulato". Folgo em saber que, pelo menos para efeito de argumentação, você aceita as definições do censo. Penintencio-me por ter afirmado "a definite black majority". Seria mais preciso se dissesse "uma maioria de pretos e mulatos". Mas isto não muda em nada o mérito da questão. O que afirmei é que o Estado da Bahia jamais fez um governador negro. Mesmo com o mais alto percentual de negros do país, com o mais alto contingente de negros e mulatos somados e com uma minoria de 25% de brancos. Ou seja, o eleitorado baiano é composto por três quartos de eleitores de cor. Porque só elege brancos? Para ativistas que tudo vêem sob a ótica do racismo, a resposta é constrangedora. Teriam pretos e mulatos preconceitos contra candidatos pretos e mulatos? Aliás, esta parece ser a característica fundamental dos negros que fizeram sucesso no futebol brasileiro. Tão logo se tornam ricos, escolhem loiras como suas mulheres. Já no Rio Grande do Sul, Estado majoritariamente branco, tivemos o negro Alceu Collares eleito governador, em 1990. Você afirma: "It's also funny that you should mention Alceu Collares being elected governor. In 1993, in Vitória, state of Espírito Santo, a 19-year old black female college student named Ana Flávia Peçanha de Azeredo was assaulted and punched in the face by a 40-year old white woman and her 18-year old son over the use of an elevator in an apartment complex". Ora, você não pode comparar um fait divers da crônica policial com a vontade de um eleitorado de nove milhões de habitantes (na época). Pesquisando melhor, é possível que você encontre mais casos semelhantes. Digamos que encontre dez, ou mesmo vinte. Não podem ser comparados à vontade de uma população de nove milhões, que tinha de escolher entre um candidato negro e dois outros brancos, e escolheu o negro. Collares, diga-se de passagem, tão logo tornou-se governador, teve a mesma atitude dos atletas negros. Trocou a fiel e negra Antônia que o acompanhara nos anos de vacas magras por uma loiríssima secretária. "In Brazil, still today, maids must use the back service elevator while residents use public elevators". Sua afirmação parece provir de quem conhece extensivamente o país todo, e não a de um pesquisador que esteve onze semanas na Bahia. Tivesse saído do gueto, veria por exemplo, que em todos os elevadores de São Paulo está afixada a transcrição de uma lei: "É vedado, sob pena de multa, qualquer discriminação em virtude de raça, sexo, cor, origem, condição social, porte ou presença de deficiência física e doença não contagiosa por contato social no acesso aos elevadores". Você não encontrou este aviso na Bahia? Se não encontrou, é porque a Bahia, com seus 75 % de negros e mulatos, está ainda muito atrasada em matérias de leis contra a discriminação. "With this in mind, let us also remember this when we walk the streets of Bahia (a 75 percent black state) and never see a black face on the cover of a magazine (except for Raça Brasil) or rarely see a black face on Brazilian television (except as criminals, maids, pagodeiros, futebol players)". Com esta afirmação, você confirma minha antiga suspeita que a Bahia é um Estado onde o negro é racista em relação ao negro. Venha a São Paulo, onde a proporção negra é bem menor, e verá negros e negras como âncoras de televisão, animadores de programas, repórteres, redatores e colunistas em jornais. São Paulo, com seus mais de dez milhões de habitantes, é, ao lado do México, uma das maiores metrópoles latino-americanas. Ainda recentemente, teve como prefeito Celso Pitta, cidadão negro eleito em concorrência a candidatos brancos. (Saiu do governo com a pecha de corrupto, mas isto é outra história). Mais recentemente, tivemos uma governadora negra no Rio, hoje ministra em Brasília. Você não pode afirmar, de forma alguma, que a televisão brasileira só mostra faces pretas quando se trata de "criminals, maids, pagodeiros, futebol players". Ano passado, eu participava de uma festa em um condomínio de luxo (essas cidadelas fortificadas onde ricos – sejam brancos, sejam negros – se protegem da violência que toma conta do país) e, em dado momento, vi os participantes todos da festa, brancos e negros, se apertando para sair na foto junto a um negro. Como quase não assisto a televisão nacional, não imaginava de quem se tratasse. Soube mais tarde que era Nettinho, um dos mais famosos apresentadores do país. Mas você ainda afirma: "It is truly a shame that in the year 2003 people continue to use Brazilian entertainers and athletes such as Pelé to try and down play the effects of racism in society. Many people use this same logic in the US. Just because you allow a black person to entertain you doesn't necessarily mean you would like for a person who looks like them to be your neighbor, marry your daughter or be president of your country". Pode ser que assim seja nos Estados Unidos. Aqui, não. Os negros estão representados na Câmara de Deputados e no Senado, nas Câmaras de Vereadores e nos Ministérios, na magistratura, na universidade e na imprensa. Constituem minoria? É porque não contam sequer com o voto do grande contingente negro e mulato do país, pois neste país as eleições são livres e negros e mulatos votam. E até é bom que assim seja. A maior desgraça com que poderíamos ser brindados seria ter partidos baseados em raça. A idéia de que negro só vota em negro já roçou as mentes tupiniquins. Por enquanto, pelo menos, esta semente de nazismo foi esconjurada. E os negros são nossos vizinhos e casam com nossas filhas, sim senhor! Ou não teríamos um população de quase 40% de mestiços. Há famílias que têm restrições a casamentos interraciais? E por que não? Alguma lei proíbe que uma família tenha preferências em relação a seus filhos? De qualquer forma, não vivemos em um país feudal, onde a vontade soberana do pater familias determina o destino dos filhos. Quanto a ser presidente da República, nada impede um negro de candidatar-se à suprema magistratura e tenho a firme convicção de que, mais dia menos dia, teremos um presidente negro. A este operário branco de extrema incultura que o país hoje elegeu, eu me sentiria muito melhor servido por um presidente negro que tivesse maiores luzes e experiência administrativa. A cor do presidente não me interessa. Interessa-me sua competência. Você cita a participação de João Batista de Lacerda, em 1911, no I Congresso Universal das Raças, em Londres. Segundo o médico brasileiro, em um século de miscigenação, "black people would ultimately disappear from Brazilian society". Sabemos que Lacerda ilustrou sua tese com o quadro A redenção de Can, de Modesto Brocos y Gomes, que pretendia registrar esse branqueamento mostrando como o cruzamento dos negros e seus mestiços com brancos diluía o sangue africano, gerando descendentes claros. Pela denominação do Congresso, você já pode deduzir que se vivia uma época em que o conceito de raça gozava de estatuto científico, o que hoje não mais se admite. No quadro de Brocos y Gomes, havia uma negra velha em gesto de preito, ao lado de uma mulata clara, mais um homem de traços ibéricos e uma criança, supostamente filha do casal, de pele clara, mostrando a progressão do negro ao branco. Ora, a obra de um pintor não pode ser fundamentação para quem pretende demonstrar uma tese na área de genética. Citar Lacerda é o mesmo que citar o protonazista Nina Rodrigues. Se Gobineau – o guru de Nina Rodrigues – afirmava que a mistura de raças acabaria levando à pura e simples extinção da população brasileira, Lacerda é mais modesto: será extinta apenas a população negra. Não podemos hoje, em pleno século XXI, dar ouvidos a teorias desvairadas do século XIX, que aliás se revelaram em contramão da realidade. Ao afirmar que "Brazil's leaders chose to try and mix the African blood right out of the country", você está aceitando teorias conspiratórias que jamais existiram, exceto talvez na cabeça de algum racista – e estes sim existem. Mas nada, em sã consciência, autoriza alguém a afirmar que sejam os líderes brasileiros os responsáveis por esta teoria. Quem são esses líderes responsáveis por tão maquiavélica estratégia? Eu os desconheço. Quem defendeu quase histericamente a miscigenação, nos últimos anos, foi Darcy Ribeiro. Mas em defesa da negritude e não como instrumento de extinção do negro.
ARMADILHA PARA NEGROS (IV) Luta de classes morta, luta racial posta Em O Presidente Negro (1926), Monteiro Lobato, ciente das teses de Nina Rodrigues e Batista Lacerda, satiriza uma cientista americana, Miss Jane, que afirma ser o ódio a mais profunda das profilaxias. Impede que uma raça se desnature, descristalize a outra e conserva ambas em um estado de relativa pureza. "O amor matou no Brasil a possibilidade de uma suprema expressão biológica. O ódio criou na América a glória do eugenismo humano". Não por acaso, o autor coloca na boca de uma norte-americana esta tese estapafúrdia. Brasileiros, dispensamos este ódio purificador. Mr. Wells diz ter visto uma única vez uma mulher negra ser coroada Miss Brasil, Deise Nunes de Souza, em 1986. Ocorre que o Brasil não existe a partir de 1986. Em 1964, a carioca Vera Lúcia Couto dos Santos foi a primeira negra a ser eleita Miss Brasil. Verdade que foi bombardeada com telefonemas anônimos, alegando que uma preta não poderia ser Miss Brasil. Isso no Rio de Janeiro, Estado também de predominância negra e mulata. Mas foi eleita e eleita permaneceu. Cabe lembrar que Deise Nunes é gaúcha, pertence àquele mesmo Estado de maioria branca que elegeu Alceu Collares. E cabe ainda lembrar um episódio de flagrante racismo de parte da comunidade negra de Porto Alegre, ocorrido nos anos 80. Porto Alegre elegeu uma rainha do carnaval ... branca, para sua infelicidade. Os movimentos negros protestaram, alegando que o carnaval era uma festa negra e a rainha, portanto, tinha de ser negra. As pressões, que incluíram inclusive apedrejamento à casa da moça, foram tantas, que ela teve de renunciar ao cetro. Curiosamente, ninguém lembrou na época que o carnaval, em suas origens, nada tem a ver com negros ou África. É uma festa branca e romana. "In several books about Brazil, it has been reported that Afro-Brazilians were barred from entering prestigious social clubs even when they had the money for the special membership fees”. A afirmativa merece algumas observações. Existiram clubes no Brasil, exclusivamente de negros ou brancos. Se nos clubes de brancos negro não entrava, a recíproca era verdadeira: no de negros, branco não entra. Desses clubes, o que hoje mais se destaca, é o bloco Ilê Aiyê, na Bahia, fundado em 1974, e que até hoje não admite brancos entre seus membros. Que mais não seja, clubes são entidades privadas, onde pessoas se reúnem com as pessoas que gostam de reunir-se. Se britânicos gostam de reunir-se entre britânicos, se homossexuais gostam de reunir-se entre homossexuais, não vamos condená-los por isso. Condenável seria, isto sim, barrar pessoas em lugares públicos por uma questão de cor. A propósito, você afirma: "In the Frances Twine book, we find that black people were often times not allowed to walk on certain sides of the street!" Ora, Twine viveu apenas onze meses em uma pequena comunidade fluminense. (Melhor que onze semanas, é verdade, mesmo assim pouco concludente). Extrair conclusões genéricas a partir de tão curto período em uma comunidade isolada é confundir o universo com o círculo-de-dois-metros-de-diâmetro-em-torno-ao-próprio-nariz. Se por ventura em alguma época isso existiu naquela comunidade, não pode ser estendido ao Brasil, onde negros e brancos andam por onde bem entendem. Nada nem ninguém obriga, hoje, um negro a andar por este ou aquele lado da calçada. Não podemos julgar o Brasil contemporâneo a partir de hipotéticos fatos isolados de comunidades perdidas na geografia. Certos grupos, no Rio de Janeiro, costumam aplaudir o pôr-do-sol. Nem por isso vamos afirmar que no Brasil costuma-se aplaudir o pôr-do-sol. O que existe hoje são territórios inteiros onde nem negro nem branco pode entrar. São as reservas indígenas. Os afrobrazilianistas têm produzido não poucos ensaios, onde o não-branco é automaticamente identificado com o negro. Na recente enxurrada de estudos acadêmicos sobre o Brasil, publicados nos Estados Unidos, talvez o historiador Jeffrey Lesser seja o único a ter uma visão abrangente e não racista da questão. Em Negotiating National Identity: Immigrants, Minorities and the Struggle for Ethnicity in Brazil, Lesser procura mostrar como outros grupos imigrantes não-brancos, em especial japoneses e árabes, participaram da construção de uma identidade brasileira. Segundo o viés racista dos afrobrazilianistas, o universo parece ter apenas duas cores, branco e preto. Não procedem as afirmações de Mr. Wells de que ninguém tenha sido punido por racismo no Brasil. "How many white Brazilians do you know (and can prove) have been actually thrown in jail for racist practices? Most likely NONE! And as far as murder, I can relay several stories I have been told in which a black Brazilian was killed and absolutely NOTHING was done about it!" Você não pode citar um, ou três ou quatro casos como regra geral. Para começar, aqui em São Paulo (falo apenas da cidade de São Paulo), a cada fim-de-semana, são assassinadas entre 50 e 60 pessoas, entre brancos e negros, e assassino algum é punido. Há hoje, só no Estado de São Paulo, nada menos que 127 mil mandados de prisão a cumprir. Que não são cumpridos porque não há vagas nas penitenciárias. Ou seja, há 127 mil condenados – ou pelo menos indiciados – livres como passarinhos. Neste número não estão incluídos as dezenas de milhares de autores de crimes não elucidados. Impunidade não é característica de assassinos de negros, mas prática amplamente disseminada no Brasil. Quanto a delitos raciais, uma rápida pesquisa nos jornais nos mostra casos interessantes. O Tribunal de Alçada de Minas Gerais, por exemplo, condenou uma senhora a indenizar seu vizinho em R$ 5.000,00, a titulo de danos morais. A referida senhora havia chamado seu vizinho, publicamente, de "macaco", "nego fedorento" e "urubu", ferindo a moral do ofendido. No Rio de Janeiro, o juiz da 7a. Vara Criminal condenou a dois anos de detenção, com sursis, uma empresária que teria se referido a uma candidata a emprego como "negrinha maltrapilha e sem modos". O juiz da Infância e Adolescência de Florianópolis condenou menor que, em um jogo de futebol na escola, chamou o colega de "negro feio". O menor foi condenado a seis meses de liberdade assistida. São punições pesadas para uma ofensa verbal, que jamais seria punida se dirigida a um branco. Enquanto isso, um cantor popular fez sucesso nacional no rádio e televisão com uma música intitulada Lôra Burra. Nenhum processo, nenhuma acusação de racismo, nenhuma condenação. Imagine, Mr. Wells, se alguém intitulasse alguma canção de "Nega Burra". Seria imediatamente processado. Foi o que aconteceu com o cantor Tiririca, acusado de crime de racismo por causa da música Veja os Cabelos Dela, que contém os versos "Essa nega fede / Fede de lascar". Sobre o assunto, escreveu Henrique Cunha Júnior, professor titular da Universidade do Ceará: "se não bastassem os insultos e outros vexames impostos, temos ainda um boçal cantando no rádio que a nega fede, e nenhum dizer social de justiça ou de dignidade humana que proíba e puna este racismo". O detalhe caricatural em tudo isto é que a música era dedicada à própria mulher do cantor, que nela não via intenção alguma de insulto, mas sim uma referência bem humorada. O que venho afirmando, desde meu primeiro artigo, é que diplomas legais estão criando lutas raciais no Brasil. A lei nº 7.716, de 1989, que define os crimes resultantes de preconceitos de raça ou de cor, está sendo brandida a torto e a direito não para dirimir, mas para acirrar conflitos. Há cinco anos, numa prova de língua portuguesa no vestibular da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), ocorreu um caso caricatural deste novo tipo de racismo. As frases "ela é bonita, mas é negra" e "embora negra, ela é bonita" provocaram indignação de entidades ligadas aos direitos dos negros no Estado. O Instituto e Casa de Cultura Afro-Brasileira (Icab) ingressou com representação criminal junto ao Ministério Público Federal e registrou queixa na Secretaria da Segurança Pública, pedindo que fosse apurada denúncia de crime de racismo por parte da UFMS. O grupo Trabalhos e Estudo Zumbi (Tez) pediu a anulação da questão e uma retratação pública da UFMS. Para Aparício Xavier, presidente do Icab, a questão era uma aberração, feita para a época medieval. "Se eu estivesse fazendo a prova, a rasgaria e botaria fogo". A partir de duas frases, o candidato deveria indicar as respostas corretas. Uma das respostas considerada certa afirmava que na frase a ("Ela é bonita, mas é negra') a cor da moça era argumento desfavorável à sua beleza. Outra resposta considerada correta, na frase b ("Embora negra, ela é bonita"), dizia que a cor da moça era uma restrição superável pela beleza. Para o presidente da Comissão Permanente de Vestibular, responsável pela elaboração da prova, Odonias Silva, a questão foi "uma escorregada infeliz". O presidente do Icab pediu ao chefe do Departamento de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, Ivair Augusto dos Santos, que oficializasse a indignação dos negros junto ao Grupo Interministerial da Presidência da República pela Valorização da População Negra, criado pelo presidente Fernando Henrique. Tanto o Icab como o Grupo Tez pediram uma indenização por danos morais. A nenhum representante de entidades ou professor ou reitor ocorreu lembrar que, se alguém quisesse queimar e rasgar a provas em razão da frase, teria de começar rasgando e queimando a Bíblia. Pois lá está, na abertura de seu mais belo livro, o Cântico dos Cânticos: "Eu sou negra, mas formosa, ó filhas de Jerusalém, como as tendas de Quedar, como as cortinas de Salomão". Vamos à Vulgata Latina, tradução da qual deriva a maior parte das traduções atuais. Lá está: nigra sum, sed formosa. A Vulgata, por sua vez, deriva da tradução dos Septuaginta - feita a partir do original hebraico - onde está, em grego: Melaina eimi kai kale. Durante o governo passado, a Associação Brasileira de Negros Progressistas ingressou com uma representação ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a abertura de processo contra o ministro da Saúde, José Serra, por racismo. Questionava-se a escolha de uma atriz negra para a campanha de prevenção à Aids no carnaval, na qual a moça pede que seu último parceiro faça o teste de HIV. Para a entidade, a mulher negra foi ofendida ao ser exposta no anúncio como prostituta. O Ministério da Saúde reage: a atriz foi escolhida entre trinta candidatas, grupo que incluía louras, morenas e negras. Só teria ocorrido racismo se a melhor candidata não pudesse estrelar a campanha pelo fato de ser negra. Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come. Não fosse a modelo negra a escolhida no concurso, este poderia ser contestado por dar preferência a brancas. Curiosamente, não ocorreu aos sedizentes negros progressistas perguntar o que achava do assunto a principal interessada, a atriz Carla Leite. Que de modo algum se sentiu inferiorizada. "Pelo contrário, tenho orgulho de ter passado uma mensagem importante, por mais que haja polêmica", disse Carla. Ao que tudo indica, não existe prostituta negra no Brasil. O diretor de Comunicação da Associação Brasileira de Negros Progressistas, Aguinaldo Triumpho Avellar, alega que os negros deveriam ser consultados sobre o teor do comercial. Assim, cada atriz negra que quiser trabalhar, terá de pedir prévia licença aos negros progressistas para saber se pode ou não candidatar-se a determinado papel. Ainda em Florianópolis, aquela mesma cidade onde um menor foi condenado por chamar um colega de negro feio, ocorreu caso que bem demonstra o absurdo das leis anti-racismo. Uma trintena de funcionários foi demitida de uma empresa para-estatal. Um deles era negro. Entrou com ação por racismo. Foi reintegrado ao cargo e recebeu gorda indenização. Os demais funcionários, pela desgraça de serem brancos, ficaram a ver navios. Mas o caso mais caricatural desta histeria ocorreu em Brasília. Onde um negro já foi para a cadeia por ter chamado outro negro... de negro. Como os conflitos raciais no Brasil jamais foram tão intensos como nos Estados Unidos, os sedizentes negros progressistas tupiniquins estão fazendo o que podem para que possamos atingir os invejáveis níveis de ódio racial de um país de Primeiro Mundo. Para isto, contam com o valioso apoio desta nova geração de ativistas formados nas universidades americanas nas últimas décadas. Em vez dos apparatchiks soviéticos, temos agora uma fábrica acadêmica de racismo, os centros de black studies. Com arrogância típica de cidadãos do império, os afrobrazilianistas ianques pretendem entender melhor o Brasil do que os próprios brasileiros. O país está deslizando em um declive perigoso, criando leis diferentes para diferentes pessoas. Índios já gozam de um estatuto especial. Podem matar à vontade, como Raoni. Ou estuprar com gosto, como Paiakan. Não podem ir para a cadeia, são índios. Negro pode entrar na universidade passando na frente de brancos com melhor habilitação no vestibular. Podem também insultar brancos, isto não é crime. Crime é insultar negro. Luta de classes morta, luta racial posta. Parafraseando os marxistas: o ódio é o fórceps da História.
Crônicas da Guerra Fria (43) A DESUNIÃO SOVIÉTICA Curitiba - "Deus morreu, Marx agoniza e eu estou com gripe" - queixava-se, no final dos anos 70, um jornalista francês - "Quel siècle, mon Dieu!" Pois eu também estou perplexo. Há poucos meses, li que fora eliminada a censura da imprensa na União Soviética. Quer dizer então que a imprensa era censurada no paraíso dos sovietes? Que vamos fazer dos relatos dos peregrinos da Nova Jerusalém, que desde Amado e Neruda a freis Bettos e Boffs, nos juravam de pés juntos que lá não existia censura alguma? Pior ainda: leio agora que o Parlamento soviético aprovou o texto geral de um projeto de lei que permite a liberdade religiosa na URSS. Quer dizer que antes não havia liberdade religiosa lá? Não entendo mais nada. Milhares de viajantes, entre estes não poucos sacerdotes, de lá voltavam garantindo a plena liberdade de culto no éden socialista. Mas a liberdade de culto, na URSS, não vai durar muito, que mais não seja porque dentro de pouco nem a URSS existirá. Gorbachov propõe uma mudança de nome, para União dos Estados Socialistas Soberanos. Cai a palavrinha sagrada, o soviete. Mas resta uma que não consegue consenso entre os ex-soviéticos: socialismo. Setores mais lúcidos da Desunião Soviética sugerem: União das Repúblicas Euro-Asiáticas. Avante, camaradas! Mais um pequeno esforço mental e ainda verão que a palavrinha união só serve para desunir e é perfeitamente dispensável. Crise geral de identidade. Na Itália, o Partido Comunista anda em busca de melhor nome. Enquanto não o acham, é tratado como A Coisa, assim com maiúsculas. O que demonstra atroz falta de criatividade dos camaradas italianos, já que poderia ser confundido com uma outra cosa, a Cosa Nostra, se é que não são as duas faces de uma mesma moeda. Enquanto muitos capos mafiosos enfrentaram julgamento e foram condenados, Palmiro Togliatti continua sendo venerado como herói. Acontece que, mais dia menos dia, serão abertos os arquivos do Kremlin, salvo se um incêndio oportuno não for provocado para salvar as biografias das estátuas de pés de barro deste século. Togliatti, como há muito se sabe, foi conivente - se não responsável - com a liquidação do PC polonês e com o assassinato de militantes italianos pelos serviços secretos de Stalin. A Coisa quer então mudar de nome! Qualquer nome, desde que elimine outra palavrinha subitamente fora de moda, comunista. Propõe-se algo como Partido Democrático da Esquerda. Em italiano, Partito Democratico della Sinistra. Ou seja, PDS. As esquerdas tupiniquins já devem estar sofrendo de insônia. Que tal o Lula ou Erundina sendo recebidos, em Roma, pelo PDS? Não vai ser fácil explicar a coisa às bases. Enquanto A Coisa lá deles continua indefinida, o Líder Máximo da Disneylândia das Esquerdas dá um passo à frente em sua revolução. Mais um pouco e ultrapassa a Albânia, só que em marcha à ré. Lá pelos anos 70, quando a revolução albanesa foi acusada de sequer ter conseguido mecanizar a agricultura, Envers Hodja reuniu seus engenheiros e ordenou a produção de um trator. O que foi feito. Foi gerado um monstrengo quadrado e antediluviano, mas trator. Construída a coisa, provado que o pensamento invencível do Farol da Humanidade era capaz de produzir uma máquina agrícola motorizada, o trator foi posto num museu e os albaneses continuaram arando a terra no rabo do arado. É o que propõe o caudilho do gulag tropical, ante o corte das generosas verbas moscovitas, já que os russos parecem estar concluindo ser melhor garantir o escasso pão nosso de cada dia do que financiar aventuras ideológicas nas Índias Ocidentais. Sem combustível para tratores, Castro revela que cem mil bois e touros estão sendo preparados para trabalhar no campo dentro de seis meses. Se a situação piorar e for necessário substituir mais veículos e máquinas agrícolas, este número poderá chegar a quatrocentos mil. O que certamente fará as delícias das viúvas do socialismo, um charter a Cuba terá o sabor de uma exótica viagem no tempo, um inesperado tour à Idade Média. Sem falar nesta humilhação suprema para um touro, puxar um arado. Fosse eu o touro em questão, concitava até bois e vacas para derrubar Castro. Fossem só estes os problemas da ilha, agora órfã da finada doutrina, até que não era nada. Em Cuba começa a faltar papel, drama de todo país socialista, sequer previsto por Marx. Em meus giros pelos regimes comunistas, senti brutalmente a falta de duas coisas, papel higiênico e boa imprensa. Na Romênia, tive de solicitar na portaria de um hotel, não jornais, seria sonhar demais. E sim o prosaico papel higiênico, que o aiatolá Khomeiny autorizava ser substituído por duas pedras, mas afinal nada tenho a ver com Maomé. Uma moça com cara de sargento quis saber quantos dias eu lá ficaria, avaliou minhas trocas metabólicas e me ofereceu uns dois ou três metros, com ares de quem me havia prestado um grande favor. Como não gosto de julgar uma sociedade a partir de experiências individuais, sempre procuro checar minhas impressões com as de outros viajantes. Ainda há pouco, encontrei uma professora que voltava de Moscou. Estivera hospedada no Cosmos e eu quis saber se a perestroika já havia resolvido este probleminha vil, mas crucial, o do papel higiênico. "Que nada, só com requerimento". O que deve explicar, a meu ver, as tiradas mirabolantes da Pravda. Mas em Cuba, o que falta é papel-jornal. Ou seja, o higiênico já deve pertencer ao território do anecúmeno. Em meus pagos, nos dias de minha infância, a gauchada usava guanxuma, erva um pouco áspera, é verdade, mas que talvez ainda acabe sendo recuperada nestes dias em que nasce uma nova religião, a ecologia, emergindo já com seus santos e mártires, vide Chico Mendes, obscuro apparatchik lotado na Amazônia e hoje mito pra gringo ver. Na falta de guanxuma, servia a grama. Para os cubanos, ao que tudo indica, só resta o Granma, órgão oficial da Coisa, digo, do Partido Comunista, que não teve vergonha alguma em adotar para seu jornal um nome ianque que, ironicamente, significa vovozinha. Pois a Vovó da Coisa, com o corte de papel de Moscou, capital que não consegue sequer suprir os turistas de papel higiênico, a Vovó, dizia, será o único jornal a ser publicado diariamente em Cuba. Intelectualmente, os cubanos não perderão nada, afinal numa ditadura tanto faz ter um como dez jornais, todos são unânimes. Parece que Castro está preocupado com o "colapso no setor de informações". Charminho de déspota a caminho do desemprego. Preocupados devem estar os cubanos com sua higiene pessoal. Mas este final de século não nos deixa com fome de surpresas. Pois não é que Castro, do alto de sua ilhota, que hoje pensa voltar a uma agricultura de boi e arado, queria provocar, nada mais nada menos, que uma guerrinha nuclear? É o que nos revela o terceiro volume das memórias de Nikita Kruschov. Em 62, durante a crise provocada pela instalação dos mísseis soviéticos em Cuba (calúnia! - disseram na época os comunossauros), Castro pediu a Kruschov um ataque preventivo contra os Estados Unidos. Republiqueta açucareira, mas aguerrida! Graças aos Rosenberg, que armaram com segredos nucleares o fascismo eslavo. Este é um dos segredos de Polichinelo revelados por Kruschov. Segundo o líder soviético, Julius e Ethel Rosenberg foram realmente os fornecedores dos segredos da bomba atômica a Moscou, mas por "idealismo", não por dinheiro. O casal foi executado na cadeira elétrica em 53. Mártires do maccartismo, ulularam as esquerdas. Tive uma tia que teria uma visão diferente da coisa: há putas que são tão putas que até dão de graça. Enquanto isto, o império vai desmoronando. No final de setembro, as Izvestia deixaram de circular por um dia, por falta de papel. Se em Moscou falta papel para propaganda do partido, o tiranete do Caribe já deve estar com as lêndeas de molho. E com Castro, el Africano, todos os intelectuais vendidos que o apoiaram. Desde Sartre - que no Brasil ainda não morreu - até vestais de quinta categoria, tipo Antônio Callado, Chico Buarque, Evaristo Arns, e outras que até me canso em citar. (Porto Alegre, RS, 13.10.90)
Segunda-feira, Novembro 19, 2007
BISPO DE BILBAO RACHA IGREJA ESPANHOLA Fim de mês passado, comentei a beatificação de 498 vítimas da Guerra Civil Espanhola por Bento XVI. Me espantou na época que boa parte da imprensa brasileira deixava passar a impressão de que estes religiosos haviam sido assassinados pelas tropas de Franco. Nada disso. Foram assassinadas pelos comunistas, anarquistas e socialistas. Parece estar ocorrendo um racha na Igreja Espanhola. Leio no El País de hoje, que o bispo Ricardo Blázquez, prelado de Bilbao, no término de seu mandato à frente Conferencia Episcopal Española (CEE), pediu perdão para a Igreja Católica pelas atuações concretas de seus membros durante a Guerra Civil (anos 1931 a 1939, o "decênio dos 30", nas palavras do bispo). Em verdade, a Guerra Civil teve seu desfecho em 18 de julho de 1936, com o assassinato do deputado monarquista José Calvo Sotelo. O purpurado quer perdão para a Igreja por ter apoiado Franco, apenas vinte dias depois de Bento XVI ter beatificado meio milhar de religiosos que morreram pelas mãos dos comunistas que combatiam Franco. Até agora os bispos consideravam a Igreja como vítima da República. Dom Ricardo, ao que tudo indica entusiasmado com a desfranquização da Espanha pelo governo socialista de Zapatero, quer agora mudar a História com um pronunciamento. O bispo, não por acaso, exerce seu bispado em Bilbao. Foi no País Basco que surgiu a ETA, nutrida dentro de seminários católicos e com a benção inclusive de cardeais. Neste sentido, é muito esclarecedor o estudo ETA nació en un seminário – Historia de ETA (1952-1995), de Alvaro Baeza, que mostra a cumplicidade da Igreja vasca com o grupo terrorista. A pergunta que me resta é: pode um bispo pedir perdão pela instituição como um todo? Ainda mais quando o papa demonstrou cabalmente – e há não mais que vinte dias – ter uma visão totalmente contrária à do bispo vasco, no que se refere à participação da Igreja na Guerra Civil Espanhola. O racha é evidente. Mais um pouco e veremos os prelados bascos pedindo a canonização dos comunistas que mataram de seis a sete mil sacerdotes católicos e destruíram e queimaram igrejas e conventos. De l'audace, encore de l'audace, toujours de l’audace, senhores bispos vascos!
Crônicas da Guerra Fria (42) JUSTIÇA AOS BRANCOS Curitiba - Na África do Sul jamais estive. Como não gosto de falar sobre países que não conheço, jamais ousei escrever sobre apartheid. Jornalista, não confio muito em meus confrades. A Suécia curou-me desta doença, a confiança irrestrita nos meios de comunicação. Antes de ir para lá, havia recortado e relido reportagens e relatos sobre o paraíso nórdico, sem falar na leitura de pelo menos uns quinze livros de privilegiados hóspedes do país dos Sveas. Abandonei o Brasil embalado por miragens. Mal comecei a balbuciar o idioma e ler a imprensa local, descobri que havia sido ludibriado pelo entusiasmo de viajantes apressados. A Suécia real em nada coincidia com a Suécia que me haviam vendido. Assim sendo, sempre fiquei com um pé atrás quando lia sobre as injustiças cometidas pelos brancos em relação à maioria negra da África do Sul. Minhas suspeitas aumentaram quando o líder da população negra explorada era um marxista, Nelson Mandela. Ora, marxista denunciando injustiça me lembra o Lula condenando o analfabetismo. Nosso século criou um curioso silogismo: Os presos e torturados sempre têm razão. Eu fui preso e torturado. Logo, eu tenho razão. Acontece que a primeira premissa nem sempre é verdadeira. Que o diga Luís Carlos Prestes. Sofreu prisão e exílio por lutar pela peste mais mortífera que empestou o século. Mandela, aliás, ao sair das grades, logo mostrou as garras: desmanchou-se em elogios a Kadhafi e Fidel Castro, ditadores sanguinolentos e ridículos dos quais Saddam Hussein parecer querer roubar o cetro da truculência. Comentaristas internacionais tentaram escusá-lo, alegando que Mandela, em sua prisão, não recebia jornais. O argumento não procede, afinal o Tarso Genro recebe jornais todos os dias e jamais fez qualquer denúncia - logo ele que adora denunciar - em relação ao último e decrépito e caspento ditador latino-americano. Mas falava da África do Sul. Em Madri, encontrei uma argentina que residira cinco anos em Pretoria. Contaminado pelo bombardeio da imprensa, quis saber como conseguira sobreviver, sendo branca, em meio aos conflitos raciais. "Não é bem assim" - contestou-me a moça -. "Eu também trabalhei em teu país, e duvido que o negro viva melhor no Brasil que na África do Sul". A convicção com que falava caiu-me como gelo ao lombo. Quer dizer que todas as informações que eu tinha sobre o apartheid eram falsas? - Não - atalhou a portenha -. A separação racial é um fato, isso não se pode negar. Mas em que país do mundo há cinco universidades para negros? Em que país da América Latina um negro dirige uma Mercedes sem provocar a suspeita de que é chofer ou ladrão? Em qual estado do Brasil um negro, ou mesmo um branco, ganha oitocentos dólares para descer ao fundo de uma mina? Fiquei, literalmente, sem palavras, quase envergonhado ao confessar que em meu país o salário mínimo, para pretos ou brancos, sempre oscilara em torno aos 40 dólares. Sem falar que Mercedes Benz era sonho de alta classe média, de preferência próxima ao poder. Pedi que me contasse mais coisas sobre Pretoria, e muito mais coisas me contou, só que delas não mais lembro, já que um Rioja e seu sorriso embotaram, pouco a pouco, minha memória. Mas seu relato não era o de um viajante apressado. Ela me falava de um país onde havia vivido. Ano passado, li no Jornal do Brasil uma entrevista com empresários brasileiros que voltavam da África do Sul. Suas declarações fechavam com as de minha amiga portenha. Que o operário brasileiro, que sobrevive na base do salário mínimo, sequer ousava sonhar com o ganho do menos qualificado mineiro sul-africano. E de novo falava-se em oitocentos dólares como mínimo. Em anúncio deste mês, a Folha de São Paulo acenava com Cr$ 50 mil para o cargo de repórter, dominando preferentemente uma língua estrangeira e cursando, se possível, pós-graduação. Nos dias de hoje, de câmbio excepcionalmente baixo, teríamos 714 dólares. Ou seja, um jornalista com curso superior, mais pós-graduação, na capital que melhor paga no Brasil, recebe menos que uma mão-de-obra não qualificada na África do Sul. O conceito de racismo sempre me deixou com um pé atrás, pois é conceito só de ida e não tem volta. Quando o branco discrimina o negro, o branco é racista. Se o negro discrimina o branco, aí as coisas mudam de figura, é a justa reação do dominado ante a arrogância do dominador. Os porto-alegrenses foram testemunhas disto. Ainda há pouco, uma branca foi eleita rainha do carnaval e teve de entregar a coroa, tão hostilizada que foi. Pois a comunidade negra da capital julga que carnaval é domínio privado da raça. Tivessem a preocupação de enfronhar-se um pouco em História, talvez até descobrissem que o carnaval tem suas origens na Roma branca e cristã. Enfim, nestes dias em que racismo é crime inafiançável, ficou o dito pelo não dito, afinal só branco é racista. Insulto que, aliás, já me foi atribuído. Quando editava um caderno de cultura no falecido Diário de Notícias, fui procurado por um poeta que queria assinar uma coluna. Ora, colaboradores era o que eu mais necessitava. Acontece que o poeta em questão queria dar à sua coluna um cabeçalho: Poesia Negra. Como, a meu ver, poesia não tem cor - e muito menos sexo - declinei de sua oferta. Se a aceitasse, por uma questão de coerência, teria de pensar em um espaço para a poesia branca, outro para a amarela, a verde, a azul. Outro racismo que anda despontando no campo literário é o sexual. Nas últimas décadas, passou-se a falar de literatura feminina. Como se literatura necessitasse adjetivações. Ou é literatura ou não é, independentemente do sexo de quem a faz. Mas falava de quê? Ah, da África do Sul. País no qual um branco trabalhando - segundo minha amiga portenha - carregava seis negros nas costas. País que, caso fosse expulsa a minoria branca, seria devorado por lutas tribais. Que a Europa, é verdade, havia sido consumida por tais lutas, mas pelo menos hoje, as tribos haviam chegado a um acordo. Sem querer pôr em dúvida o depoimento de pessoa na qual, de cara, depositei confiança, de qualquer forma, seu testemunho revelava uma idiossincrasia branca. Já não é o caso de Ivo Castro, presidente da União dos Sindicatos e Associações de Garimpeiros da Amazônia. Brasileiro, negro e garimpeiro, Castro faz na última Veja, uma declaração que vai entortar o pescoço das esquerdas: "quero morar na África do Sul'. Ouçamos este depoimento insuspeito: - Com a libertação de Nelson Mandela, abriu-se uma perspectiva para o racismo acabar na África do Sul. Mas o que se viu desde então foi um aumento fabuloso das agressões e assassinatos. Só que desta vez entre os negros, entre as tribos e facções que se entredevoram. Ainda assim, eu quero morar lá. Na África do Sul, os operários negros que trabalham nas minas de ouro não ganham menos de mil dólares por mês. Fora das minas, vi muito executivo negro ganhando, no mínimo, seis mil dólares mensais, todos com pleno acesso à educação, saúde e moradia. O melhor de tudo é ganhar isso em um país de inflação baixíssima, sem a ameaça de redução de salário. Castro - favor não confundi-lo com o tirano - considera que a imprensa internacional dá excessivo destaque à violência da polícia sul-africana contra os protestos políticos. Mas considera que, no Brasil, os negros apanham por muito menos. O que me lembra episódio caricatural, ocorrido em Canoas. Um pastor evangélico rodesiano foi interpelado pela polícia gaúcha. Como falava um português precário, eivado de forte sotaque inglês, os policiais o tomaram por um negro bêbado enrolando a língua. Até que o assunto fosse esclarecido, levou não poucas porradas. Mas falava de Castro, que julga ser necessário fazer justiça aos brancos na África do Sul, "ilha de prosperidade no paupérrimo e conturbado continente africano". Castro nos conta a história de um amigo seu, filho dos colonizadores portugueses em Angola, onde tinha uma fábrica de cimento e defendia a luta dos negros. - Quando houve a revolução socialista, os negros o colocaram para correr. Pouco depois, quando retornou à Angola, viu sua fábrica arruinada por pura falta de capacidade dos negros para mexer com as máquinas. Não sabiam consertá-las e não entendiam de contabilidade. Mas não há dúvidas de que os negros vão assumir o poder na África do Sul. É difícil saber se isto será melhor para o país. Numa das minas de ouro que visitei, percebi que boa parte dos operários era oriunda de países vizinhos, onde a maioria negra tomou o poder, como Angola, Moçambique e Namíbia. Alguns atravessaram a fronteira a pé para trabalhar nas minas de ouro, porque em seus países a independência virou também sinônimo de miséria absoluta. Expulsaram os brancos, o dinheiro dos brancos, as idéias dos brancos, e ficou um bando de negros sem saber o que fazer. Pedras, por favor, jogá-las no Castro, não no Cristaldo. (Porto Alegre, RS, 22.09.90)
Domingo, Novembro 18, 2007
CATALÃO LOUVA CIDADE ARRASADA Porto Alegre é uma cidade que, bem ou mal, faz parte de minha vida. Não vivi muito tempo lá, como aliás nunca vivi muito em cidade alguma. São Paulo é a cidade onde estou ancorado há mais tempo, isto é, há 17 anos, e isto não faz sequer um terço de minha existência. Se conto nos dedos das duas mãos os anos que vivi em Porto Alegre, sobra um ou talvez dois dedos. Mas foi um período decisivo de minha vida. Lá fiz meu curso de Filosofia. Para concluir, é verdade, que a filosofia não leva a nada, mas isso já é uma conclusão importante. Mas não posso queixar-me. Foi na universidade que encontrei minha Baixinha, a mulher de toda minha vida, e só isso para mim justifica toda a História da Filosofia, desde os pré-socráticos até Sartre ou Heidegger. Foi em Porto Alegre que tive meus primeiros embates intelectuais, foi lá que optei pelo jornalismo, é lá que ainda está boa parte de minha base afetiva. Assim sendo, pelo menos uma vez por ano, eu a visito. Não pelo seu famoso pôr-de-sol, tampouco por sua geografia ou gastronomia, muito menos por suas ruas e prédios. Visito Porto Alegre para rever os meus. No dia em que o tempo levá-los, não terei mais razão alguma para visitar a cidade. A cada visita, sinto vontade de chorar. O centro sempre foi meu habitat, em qualquer cidade que tenha vivido. Cheguei em 65 na capital gaúcha, quando a decadência do centro histórico mostrava seus primeiros sinais. Na Rua da Praia, passarela da cidade, havia um único restaurante, o Oásis. Tinha ainda duas livrarias, que hoje não existem, a então poderosa Globo e a Kosmos. Lá pelas quatro ou cinco da tarde, a rua tomava um ar surrealista. No leito da rua, os homens se postavam para conversar e paquerar as gaúchas, que se enfeitavam com suas melhores prendas para desfilar naquela passarela informal. Mas os bancos já começavam a invadir o centro da capital. Ao lado da Praça da Alfândega, um quarteirão todo que antes abrigara cafés e cinemas, foi totalmente tomado por agências bancárias. E a metástase foi se espalhando pelas demais ruas. Lá por 76 ou 77, escrevi uma crônica, "Bancos matam ruas". Nela, eu mostrava que, com o potencial de compra de um banco, que pode pagar o que pedirem pelo metro quadrado, não sobrava mais espaço para cafés, bares, casas de chá ou cinemas. Ora, bancos fecham às seis da tarde. Um quarteirão de bancos, quando cai a noite, torna-se um deserto sinistro, propício à cultura do crime e da bandidagem. Não é preciso ser urbanista para constatar isto. Colegas de jornalismo me olhavam como a um insano. "Estás louco. Queres expulsar os bancos do centro da cidade?" A verdade é que a idéia sequer me ocorrera. Eu fizera apenas um diagnóstico. Mas ocorreu a um vereador que, com minha crônica em punho, propôs projeto de lei proibindo a instalação de bancos nos andares térreos do centro. Já era tarde. A Rua da Praia estava morta. O resto do centro seguia pelo mesmo caminho. Os bancos encontraram uma fórmula para burlar a postura municipal. Compravam prédios antigos, deixavam o térreo vazio e instalavam-se no mezanino. O centro, com suas belas edificações, como o prédio dos Correios, da Alfândega, do então Banco do Comércio, do Correio do Povo, do Theatro São Pedro, começava a morrer. Aí surgiu um prefeito, Paulo Thompson Flores, que ergueu viadutos e muros por todos os lados, transformando uma arquitetura amena em uma floresta brutal de concreto. Fez mais. Separou o porto de sua cidade, com um muro absurdo, também de concreto. A única solução viável para desmanchar o estrago seria destruir o muro. Mas prefeito algum teve até hoje esta coragem. Surgiu então o PT, as sedizentes administrações populares e o tal de orçamento participativo. O que restara de agradável no centro morreu de vez. O centro hoje é um bazar árabe, totalmente tomado pelos camelôs e traficantes. A Marechal Floriano, transversal da Rua da Praia, é o império do crack. Quando começa a anoitecer, os transeuntes começam a fugir apressados da região. Tenho amigos que fugiram definitivamente do centro para outros bairros. E outros que ainda vivem no centro, mas evitam por lá transitar, mesmo de dia. O centro de Porto Alegre hoje, tomado pelo crime, contrabando e pirataria, é um dos centros urbanos mais imundos e deploráveis do país. As cidades mais feias que conheci em minha vida foram o Cairo e Nápoles. Hoje, ponho Porto Alegre na lista. Se alguém quiser uma fórmula sobre como enfear e destruir uma cidade, debruce-se sobre a capital gaúcha e suas últimas administrações. Por estas e por outras, muito me espanta a avaliação do catalão Josep Maria Montaner, tido como um dos principais críticos de arquitetura do mundo, que fez palestra no sábado passado em São Paulo, na 7ª Bienal Internacional de Arquitetura. Diz Montaner sobre Porto Alegre: - São emblemáticas a cidade moderna de Brasília e o modelo participativo de Porto Alegre. Esta é uma cidade que vem melhorando paulatinamente, desde seu centro histórico e seu porto até a nova Fundação Iberê Camargo, passando pelo Gasômetro e por toda a margem verde do rio. A sumidade catalã fez a louvação de duas das piores cidades que o Brasil hoje abriga. Pessoalmente, acho que preferia morar em Nápoles, que abomino, a morar em Brasília. É cidade estúpida desde sua concepção. Não é por ser planejada. Madri é também capital planejada e é hoje uma das cidades mais charmosas do mundo. Ocorre que Brasília foi concebida a partir do modelo urbanístico soviético stalinista. Como, na época, tudo o que os comunistas faziam virava mito, Brasília foi em prosa e verso cantada. Estive lá duas vezes e nunca mais lá voltarei. Aquilo não é habitat para seres humanos. Quanto a Porto Alegre, este senhor tem a coragem de afirmar que a cidade vem melhorando paulatinamente. Quando a cidade está, salvo alguns bairros que se desenvolveram ultimamente, cada vez mais degradada. Em Ipanema, bairro nobre, existe até um morro ocupado por índios caigangues – que são de Santa Catarina – e pretendem que lá, em Ipanema, estão suas terras imemoriais. E ninguém consegue expulsar os bugres. Quanto ao centro histórico, dispenso comentários. Dá asco. Quanto à fundação Iberê Camargo, é um dos monumentos mais horrendos que a imaginação humana conseguiu um dia conceber. Suponho que este senhor Montaner é mais um destes ativistas de esquerda e quis, no fundo, fazer uma homenagem às administrações "populares" que aceleraram a decadência de Porto Alegre. Só pode ser isto. Porque pessoa alguma, em seu são juízo, pode afirmar que uma cidade arrasada como a capital gaúcha vem melhorando paulatinamente.
Crônicas da Guerra Fria (41) EU, SEM TERRA Curitiba - Das coisas que fizeram as mãos de um homem do campo, poucas não terão feito as minhas. Arranquei chirca com picão, cortei aveia com foice, trabalhei em alambrados e rasguei a terra no rabo de um arado puxado por bois. Quinchar um rancho para mim não tem mistérios, muito menos carnear uma vaca ou ovelha. Meus primeiros trocados - questão de comprar bolinhas de gude ou rapaduras - ganhei-os juntando cordeiros mortos pela geada. Com sorte, cada manhã rendia uns cinco ou seis e depois era só negociar as peles no bolicho do Candoca. E mais: se algum gaúcho ainda sabe o que é mundéu, devo confessar que fui emérito caçador de perdizes. Sem tiros nem violência. Apenas uma forca onde o bichinho, talvez não muito espontaneamente, acaba entrando. Minha infância, eu a vivi em uma época que antecede o trator. Tratores já existiam, é verdade, mas descendo de uma raça de camponeses teimosos - ou suicidas, como quisermos - que preferiam ir morrendo lentamente, tomando chimarrão sob a copa cúmplice de um cinamomo, do que entregar-se às tentações da modernidade. Sou da época do radinho de pilhas e mais ainda: poderia afirmar que sou de antes do rádio. Só fui conhecê-lo lá pelos seis ou sete anos, graças à iniciativa de um tio mais ousado, que sacrificou seu mais antigo eucalipto para instalar um catavento. Escutar rádio para mim sempre teve algo de mágico, e meu tio girava o dial qual sacerdote erguendo uma hóstia. Cidade é coisa que fui conhecer aos dez anos. Enfim, tudo isto é para dizer que, nestes dias em que se fala tanto nos tais de sem-terra, sem-terra mesmo sou eu. Fui expulso de minha geografia, um pouco pela pressão dos latifúndios circundantes, outro tanto pelas tentações da cidade. E, cá entre nós, graças a Deus - há horas em que viro místico! - que fui expulso. Nutro imenso carinho pelas sangas e cacimbas de minha infância, mas se nelas continuasse pescando ou bebendo, do mundo só teria visto o horizonte. A vida no campo é linda, dizia Sócrates, acontece que os amigos estão em Atenas. Assim sendo, muito me surpreendem as manifestações dos ditos sem-terra, entre os quais os mais falantes são pessoas de mãos sem calos. Que as minhas não tenham calos é inteligível, abandonei meus pagos há cerca de trinta anos. Mas tampouco reivindico uma volta à terra. Em Portugal, lá pela época da finada Revolução dos Cravos, quando os intelectualóides do PCP desciam ao Algarve para conclamar os camponeses à luta (mas que luta?), os algarvios pediam apenas uma coisa: mostra as mãos, ó gajo! E ao ver que os salta-pocinhas lisboetas nas mãos não tinham calos, os mandavam de volta à capital, sob pena de experimentar nas fuças a mão de um homem que trabalha. Em Paris, ainda neste ano, encontrei um colombiano que fazia uma tese sobre as lutas sociais na América Latina. Interrogou-me sobre os movimentos camponeses no Brasil, e não quis acreditar quando garanti que no Brasil não havia movimento camponês algum. Para começar, camponês é palavra dúbia. Homem algum do campo se define como camponês. Camponês é palavra inventada por aqueles que - lá no campo - nós chamávamos de "bundinhas da cidade". A denominação não é fortuita. O gaúcho, dentro de suas bombachas, esconde as ancas. O bicho urbano, com sua calça corrida, exibe mais suas convexidades. Mas falava dos ditos movimentos camponeses. Ora, o homem do campo, o peão, jamais teve senso algum de organização. O que existe no Brasil, afirmei, é uma massa de pobres coitados manipulados pela dita ala progressista da igreja Católica e pelas viúvas de Stalin, os integrantes do autodenominado Partido dos Trabalhadores. Este filme tem um gosto insosso de déjà-vu, e efetivamente já o vimos na China e na Rússia, para dar no que deu: ditadura, opressão, miséria e fome. O que me lembra versos do Aparício Silva Rillo, gaúcho da gema, quando canta a saga do João da Gaita: Lá um dia percebeu para o seu entendimento de índio meio bagual, que o que chamavam "ideal" era apenas, bem pensando, ambição pura de mando dos chefões da capital, daqueles que concitando a gauchada ao combate ficavam tomando mate peleando só por jornal. E nisto se resumiram as degolas de 93 a 23, revoluções que apenas sangraram o Rio Grande do Sul, sem que o sangue tivesse alguma paga. As atuais invasões de terra, feitas ao arrepio da lei e com logística de quem conhece guerrilha, parecem querer forçar as circunstâncias a mais um derramamento de sangue. Não é de espantar que tais movimentos sejam liderados por padres e bispos. Eles bebem sangue todas as manhãs - e, por favor, não ousem negá-lo! - e vai ver que querem sangue também no almoço e na janta. De sangue, devo confessar que também gosto, mas suíno ou bovino e sob forma de morcilha ou guisado. O sangue ritual, aquele que os padres bebem, com ele jamais fui brindado. Os padres o reservavam a si próprios e me serviam um pão sem fermento e sem graça. O cara aquele, o Cristo, muitas vezes o comi, mas sem prazer algum. Mas falava de terras. Terra, em minha geografia, conquistava-se com o trabalho, jamais com proseletismo. A loja brasileira da máfia romana, sentindo-se obsoleta e pouco convincente, em seu desespero apela aos pobres. Não para torná-los ricos, mas para nivelá-los por baixo, mantendo-os naquele nível de pobreza que sempre agradou ao poder. Fala-se em demitir 360 mil apaniguados no Brasil para moralizar o serviço público? Horror, arbítrio do poder. Mas os alemães orientais acabaram concluindo, a duras penas, que só com alguns milhões de desempregados pode se aspirar a uma economia sadia. Se não nos cuidarmos, após o fim de Castro, o Brasil será o último país socialista da América Latina. Mas falava de quê? Ah, de terras. A meu pai, gaúcho daqueles que não se fazem mais, jamais ocorreria invadir a terra de alguém. Em contrapartida, jamais lhe ocorreria permitir que alguém invadisse suas poucas braças. Havia um alambrado que dividia seu território dos alheios, e ai daquele que o ultrapassasse sem seu convite. Herança talvez de 23, sob as camas havia um arsenal escondido. Fui criado manipulando mosquetes Mauser e Winchesters e creio que só agora, depois de adulto, consegui entender este sentimento visceral do homem da terra: em meu território, por menor que seja, ninguém põe as patas. Na Hungria, leio nos jornais, está se começando a devolver a terra a seus antigos proprietários. No Brasil, tenta-se tirar a terra de seus proprietários. Se, por um lado, não há sentido algum em quadras e quadras de latifúndio improdutivo, tampouco há sentido algum em invadir geografias produtivas. Santa Catarina, por exemplo. Em um estado cuja distribuição fundiária é das mais coerentes e produtivas do país, não faltam agitprops defendendo a invasão de terras. E as invasões estão virando seqüestros. Ser oficial de justiça no Brasil está começa a tornar-se tão arriscado quanto ser juiz na Colômbia. É curioso constatar que Dom José Gomes, que já foi bispo em Bagé, sem jamais ter dito um pio contra o latifúndio, agora se erija em líder dos tais de sem-terra nesta geografia bastante humana de Santa Catarina. Os príncipes da Igreja, em vez de envelhecerem com elegância, parecem ter aderido a esta demagogia barata, a aceitação de idéias aparentemente jovens, mas no fundo senis e obsoletas. A todo jornalista que entrevista esta nova classe, permito-me sugerir duas análises, a das mãos e a do vocabulário. Se as mãos não têm calos e se o vocabulário é petóide - atenção! - o tal de sem-terra é camponês de mentirinha, e só posa como vítima em função de interesses das viúvas saudosas do finado Djugatchivili. (Porto Alegre, RS, 11.09.90)
Sábado, Novembro 17, 2007
ESTUPRADA E MAL PAGA Uma mulher estuprada quatorze vezes por um grupo de homens foi condenada a duzentas chibatadas e seis meses de prisão por uma corte de apelação na Arábia Saudita. A justificativa da sentença foi a vítima ter infringido as leis de segregação sexual no país e tentar chamar a atenção da mídia para o caso. É o que nos dizem os jornais de hoje. A mulher de 19 anos foi violentada, há um ano e meio, por homens de uma tribo sunita na cidade de Al-Qatif, região leste da Arábia Saudita. Inicialmente, os estupradores foram condenados a cinco anos de prisão. A vítima, que havia estado no carro de um homem desconhecido antes do ataque, recebeu uma pena de 90 chibatadas. Quando a mulher recorreu da sentença, foi acusada pelos juízes de tentar influenciar a decisão da corte através da mídia. Por isso, sua pena mais do que dobrou, chegando a duzentas chibatadas mais a prisão. Sete homens sunitas foram considerados culpados pelo crime. A Arábia Saudita veta qualquer tipo de associação entre homens e mulheres não relacionados entre si. Além disto, em pleno século XXI, proibe que mulheres dirijam e as obriga a se cobrirem dos pés à cabeça. Os juízes decidiram punir a vítima porque ela teria tentado influenciar o poder judiciário pela mídia. O advogado da vítima foi suspenso do caso, teve sua licença confiscada e enfrenta processo disciplinar. Ou seja, você é violentada e não tem sequer o direito de reclamar publicamente. Mulheres estupradas e condenadas a duras penas nos países muçulmanos é um tipo de notícia que está virando monótono. Entidade alguma ligada à defesa dos tais de Direitos Humanos denuncia a Arábia Saudita junto a tribunais internacionais por crimes contra a humanidade. A Arábia Saudita tem petróleo para dar e vender.
Crônicas da Guerra Fria (40) A INDÚSTRIA TEXTIL Curitiba - E já vou avisando ao revisor que é textil mesmo, assim sem acento, para não confundir com a dos têxteis, atividade esta honesta e produtiva. Se a indústria têxtil está vinculada ao campo, a textil melhor floresce no campus. Enquanto a primeira vai depender de condições climáticas e flutuações do mercado, a segunda constitui lucro certo a seus cultores, independentemente de humores atmosféricos ou financeiros. O que talvez explique a crescente migração de homens do campo para o campus. Se no campo a vida é dura e carente de atrativos (exceto talvez para poetas românticos), no campus tudo são flores e facilidades. "A crise universitária não é um fenômeno urbano" - escreve Vargas Llosa - "nem latino-americano, mas que também provocou rupturas em sociedades de alta cultura, com sua tradição universitária de muitos séculos. França, Itália, Espanha, Alemanha e outros países europeus conheceram ou conhecem, como o Peru, a Colômbia, o México, a Venezuela, uma profunda crise em seu sistema universitário, e há vários anos dão murros de cego em busca de uma solução que não parece fácil nem imediata". Ao falar de universidade, Llosa fala da universidade pública, diga-se de passagem. E cita um discurso de Manuel Vicente Villarán, que acusava a universidade de produzir inúteis, pensadores literários e juristas, em vez de agricultores, colonos, empresários, engenheiros, capazes de produzir riquezas e modernizar o país. Este discurso, é bom lembrar, foi pronunciado em 1900, quando o Brasil era dominado pela frágil literatura de um mulatinho europeisado e europeisante, e sequer sonhava com universidade. Trocando em miúdos: brasileiros, estamos começando a intuir, neste final de século, problemas que nuestros vecinos tentavam equacionar em meio aos estertores do século passado. Ao abordar o movimento da reforma universitária, iniciado nos anos 20, em Cordoba, Argentina, o escritor peruano constata uma vontade de que a universidade produzisse, não capitalistas industriosos, e sim revolucionários: "É preciso ler as páginas que José Carlos Mariátegui lhes dedica em Siete Ensayos, para se ver até que ponto a reforma concebia a universidade como uma instituição cuja meta é formar ativistas e militantes, converter-se numa máquina de demolição da sociedade burguesa. Ele vê com simpatia o movimento da reforma porque a ele parece um aspecto - no campo burguês e juvenil - da luta pela destruição da sociedade capitalista e sua substituição pela socialista. A reforma deixou flutuando no ar da América a idéia de que a universidade (e a cultura) não devia subordinar a política a seus fins e trabalhos, mas sim subordinar estes à ação e ideais políticos". Enquanto a revolução não ocorre, o socialismo se refugia nas universidades, cuja finalidade, é bom lembrar, jamais foi subsidiar utopias desvairadas. Se nosso século provou à bastança que não é fácil impor uma disciplina marxista às leis da gravidade ou da genética, o mesmo não ocorreu no campo das ciências humanas, onde tanto faz que dois mais dois sejam quatro, cinco ou dez. Emerge então, no Ocidente, o fundamento de uma indústria das mais prósperas. Investimento? Palavras. Dividendos? Bons salários, turismos e mordomias. Tudo isto, é claro, sob a égide de uma palavrinha mágica; pesquisa científica. Os cursos da área humanística, na universidade brasileira, são, de um modo geral, grotescas cartilhas marxistas. Enquanto os países do Leste europeu estão eliminando o marxismo de seus currículos, nós, botocudos, continuamos a insistir em doutrinas obsoletas. Na Alemanha Oriental, constatei o desespero de 25 mil professores de marxismo desempregados. Ao comentar o fato com um amigo universitário, este pediu-me que não falasse do assunto. "Se a universidade brasileira sabe, contrata todos". Discreto que sou, nem piei. Cá entre nós, o diagnóstico mais arrasador da universidade pública brasileira foi feita por Edmundo Campos, sociólogo mineiro, em A Sinecura Acadêmica, um corajoso ensaio ante o qual os PhDeuses torcem o beicinho e se mantêm silentes. Para o autor, a universidade não está dando o retorno pelo que a sociedade paga, em impostos e taxas, pela sua manutenção. "Ninguém mais se importa com uma greve universitária que dura cinco meses. A universidade não faz nenhuma falta, tornou-se absolutamente irrelevante. Existem, é óbvio, ilhas de competência espalhadas pelo país, com bons cursos e programas, professores bem preparados e responsáveis, mas essas são exceções à regra, que são as universidades dominadas pelo baixo clero". Por baixo clero não deve o leitor desavisado entender cardeais que louvam ditaduras no Caribe nem freis que pregam o totalitarismo. Na acepção do professor Campos, baixo clero é "esse enorme contingente de professores mal qualificados e com titulação mínima, aos quais foi entregue o grosso das funções universitárias. Hoje, é o baixo clero que está nas salas de aula, quando não está fazendo greve ou promovendo assembléias gerais. O baixo clero costuma ser agressivo e raivoso, porque odeia o debate e as idéias de uma forma geral". Dinheiro público versado generosamente, baixo clero mais utopismos desvairados, eis o caldo fértil para a instalação da próspera indústria de textos. Se causa indignação no país todo o número de professores que fazem turismo com o pretexto de defender teses, não menos escandalosa é a situação - falo da área humanística - da maioria dos que voltaram com tese defendida. Cá e lá pode-se catar algum ensaio interessante, é verdade. Mas, de um modo geral, os programas de doutoramento constituem verdadeiros crimes ecológicos, nos quais milhares de árvores inocentes são sacrificadas para fornecer o papel a masturbações teóricas, geralmente importadas da Europa. Aqui-del-rei, secretário Lutzenberger!* Durante várias décadas, os acadêmicos brasileiros fundamentaram suas reflexões no pensamento marxista, conforme as vulgatas de evangelistas menores como Lukács, Gramsci, Goldman, Althusser, Poulantzas et caterva. Tais teóricos conferiam ao pesquisador o selo sagrado de garantia, o rigor científico. Perguntinha para este final de século, quando o pensamento marxista desmorona desde dentro, exatamente por revelar-se como crença e não como ciência: que destino dar a essas toneladas de reflexões anódinas, fundamentadas em dogmas fajutos? Para o que o leitor está pensando não serve, o papel é muito grosso. Mas acho que a Holanda, por exemplo, poderia ter algum interesse no assunto, já que sempre faltou terra aos Países Baixos para fazer diques. Mas nem só os professores-turistas são beneficiados pela indústria textil. Graças a ela, autores que há muito deviam estar mortos e enterrados continuam a transitar como se vivos fossem nos corredores universitários. Não fossem as exigências curriculares dos cursos de Letras, quem leria hoje, por exemplo, uma obra chocha e pedante como Macunaíma? Qual editor, em pleno juízo e com capital de seu próprio bolso, ousaria reeditar um chato como Oswald de Andrade? Qual leitor, em sã consciência, compraria os peixes podres dos irmãos Campos? Indo um pouco mais longe: que tem a dizer Machado de Assis a um jovem de nossos dias? Por que impor Machado a alunos que jamais folhearam um Nietzsche ou Dostoievski, estes eternamente jovens e subversivos? Através da indústria textil, a máfia universitária consegue vender cadáveres literários, ao mesmo tempo que afasta do mundo das letras gerações inteiras de leitores potenciais. Causou celeuma em São Paulo, a hipótese de retirar o nome de Drummond de Andrade da lista de autores exigidos no vestibular. Pois acho que deveria ser retirado mesmo, para vermos se morreu ou não morreu. Poeta é aquele que vai em socorro das angústias de seus contemporâneos e pósteros, e não o que sobrevive graças à benção da máfia. Quando descobri Pessoa ou Cervantes, fui ao encontro deles por prazer e necessidade espiritual, não por imposições acadêmicas. O mesmo ocorreu com Nietzsche, Dostoievski, Herman Hesse, Hernández, Sábato, Donoso, Cela. Curiosamente, jamais vi estes nomes nos currículos universitários. O baixo clero, além de odiar o debate, detesta o gênio. Fala-se, nestes dias, em cortar as enxúndias da universidade pública. Os reitores, reféns dos funcionários que os elegeram, negam-se a qualquer corte de pessoal. O professor universitário, com a garantia da estabilidade, sente-se acima do bem e do mal. O que deveria ser universidade virou repartição pública, com todas as impunidades daí decorrentes. E a indústria textil vai muito bem, obrigado. (Porto Alegre, RS, 19.08.90)
Sexta-feira, Novembro 16, 2007
MÚMIAS TEMEM VIRAR PÓ Luis Fernando Verissimo, ao que tudo indica, ainda deve estar em estado de choque com a reportagem de Veja sobre os 40 anos da morte de Che Guevara. A bem da verdade, até eu estou perplexo. Pois nestas últimas quatro décadas as redações sempre esteve dominada pelas esquerdas, até mesmo em jornais tidos como de direita. A reportagem de Veja rompeu com meio século de silêncio em torno aos assassinatos do bandoleiro argentino. Eu, no entanto, estou agradavelmente perplexo. Não é o caso de Verissimo. Em entrevista aberta à platéia, ontem, no Memorial da América Latina, o escritor analisou a mudança ideológica dos jornalistas. E desenvolveu uma bizarra teoria para explicá-la: - Antigamente, as redações tinham máquinas de escrever. Era um barulho infernal. Tenho até uma teoria para explicar essa mudança da esquerda para a direita nas redações. Nos últimos anos, os jornais e as revistas brasileiras deram uma guinada à direita. Mas, quando comecei no jornalismo, todos nós éramos de esquerda. A gente aceitava o fato de ser direita quando era do editor pra cima. Hoje, é o contrário. Do editor pra baixo, os jornalistas preferem ser de direita. Isso tem muito a ver com a mudança das máquinas de escrever para os computadores. Como as redações eram barulhentas e agitadas, os jornalistas se identificavam mais com os trabalhadores das fábricas. Hoje, com os computadores, as redações parecem bancos. Limpas, aquele silêncio... Sei que é uma teoria meio forçada... Ou seja, a máquina de escrever induz a uma produção de jornalismo de esquerda. Já o computador, este leva os profissionais a um pensamento de direita. Vou até dar uma achega à teoria do cronista. Vai ver que isto ocorre porque os computadores são basicamente um produto do imperialismo ianque. Provavelmente vêm com algum vírus embutido que empurra o pensamento do jornalista para a destra. Fossem os PCs um achado da finada União Soviética, provavelmente só produziriam textos de sinistra. O mundo mudou e o cronista não viu. Com a queda do Muro, o desmoronamento da URSS e a penúria de Cuba, o comunismo virou mala-sem-alça. Antes de 90, existia ainda uma poderosa máquina publicitária que mantinha em formol um cadáver já rumo à putrefação. No Ocidente – confortavelmente distanciado daquelas tiranias – não faltavam intelectuais que faziam carreira e fortuna em cima dos “nobres ideais” do socialismo. Em verdade, os ideais não deixavam de ser nobres. Os métodos é que eram vis e tirânicos. A massa de informações que está vindo à tona com a abertura dos arquivos de antigos países comunistas não mais permite absolver tiranos como Stalin, Lênin, Mao, Hodja, Ceaucescu, Pol Pot. Quem, há 50 anos, ousaria acusar estes assassinos de assassinos. Houve escritores corajosos, é verdade, já nos anos 30, que ousaram denunciar os crimes do stalinismo. Mas foram apedrejados pela imprensa internacional e tidos como inimigos da humanidade. Hoje, estão surgindo excelentes biografias destes ditadores e seus massacres não podem mais ser ignorados. Verissimo se diz um gaúcho desnaturado, que não gosta de lembrar da última vez em que montou num cavalo. Antes continuasse montando cavalos e não tivesse feito carreira montado no pensamento assassino que dominou o século passado. Costumo afirmar que múmia não se dobra. Se dobrar, se esfarela. Múmias como Veríssimo, Niemeyer, Ariano Suassuna, Zuenir Ventura, Carlos Heitor Cony continuarão sempre cultuando – aberta ou secretamente – o Paizinho dos Povos. É claro que Verissimo não pode conferir razão a estes novos jornalistas, que ele qualifica como de direita. Dar-lhes razão equivaleria a afirmar: tudo o que escrevi é lixo. Um jovem ainda tem tempo pela frente para chegar a esta constatação. Um macróbio, não. Mas a constatação do cronista é reconfortante. Como pessoa ligada aos meios de comunicação, está sentindo que sua era morreu junto com o stalinismo. Restam focos da infecção mundo afora, é verdade. Mas marxismo é bandeira que não mais se sustenta. Os jovens que hoje escrevem nas redações de jornais, sem estarem atados a uma carreira ou obras escoradas no totalitarismo, renderam-se finalmente ao óbvio. Múmia que é múmia não se rende. Arrisca virar pó.
Crônicas da Guerra Fria (39) IN MEMORIAM DEUTSCHMARX Curitiba - Saudades - escreve-me uma amiga berlinense. Mas a saudades não é de mim, e sim do muro. "Nostalgia generalizada. Depois da invasão alemã oriental faminta de consumo, poloneses, romenos, ciganos, vietnamitas do Leste. Roubalheira, especulação, conto do vigário, esmoleiros e bêbados em cada canto. Não podes imaginar a reviravolta que está acontecendo por aqui. Adeus dolce vita alternativa. Hoje fui realizar um velho desejo, visitar Berlim Oriental de bicicleta. Andei quase três horas e voltei deprimida com o aspecto da cidade. Meu Deus, não só as gentes são detestáveis no seu incrível provincianismo, também seu habitat é assustador. Ponto para ti, que deves estar feliz lendo estas linhas negras". O ponto para mim, este eu aceito. Mas feliz não estou, a desgraça alheia é algo que jamais me alegrou. Minha amiga é marxista. Vive há mais de década na orgíaca capital de consumo que é Berlim ocidental, mas sempre louvou o outro lado. Com a queda do muro, do alto de sua bicicleta, parece estar descobrindo o horror que embasava suas convicções. "É óbvio que os mitos sobre a URSS são interpretáveis tanto a partir do lugar onde nascem quanto a partir do país que produz sua substância", - escreve Marc Ferro, em O Ocidente diante da Revolução Soviética. "Por que, na França, por exemplo, acreditou-se em Soljenitsin em 1970, quando ele falou do terror na URSS de 1920 a 1950? Por que não se acreditou em Kerenski ou Volin, em Kravtchenko ou Koestler, embora eles dissessem a mesma coisa? É evidente que a resposta deve ser encontrada em Paris, em Berlim e Londres, e não somente na URSS". A antiga Berlim ocidental foi certamente a capital mais marxista de toda a Europa. Situada no olho do furacão, atraiu, talvez até mesmo em maior intensidade do que Paris, as esquerdas de toda América Latina. Ostensiva vitrine do capitalismo, encravada em um oceano socialista, Berlim constituiu a ilha ideal para os defensores do fascismo eslavo. Sempre era possível defender o sistema circundante, sem precisar renunciar às delícias do sistema contestado, tais como carros de luxo, giros pelas ilhas do Egeu ou do Mediterrâneo, boa calefação, boa cerveja e bom vinho, isso sem falar dos demais requintes que a cidade oferece, de braços e pernas abertas, a seus amantes. Tal lascívia conseguiu chocar até mesmo aquele poetastro gordo, glutão, medíocre e stalinista, o Neruda, que julgava ter construído um poema apenas alinhando palavras na vertical: Os pederastas dançam se abraçando contra os técnicos do State Department as lésbicas encontraram seu paraíso protegido e seu santo: Saint Ridway Berlim ocidental; tu és a pústula sobre o rosto antigo da Europa as velhas raposas nazis escorregam sobre as mucosidades de tuas sujas ruas arqui-iluminadas Coca-cola e anti-semitismo correm abundantemente sobre teus excrementos e tuas ruínas Na cidade maldita filha do crocodilo Truman... Etcétera. Neruda depois abiscoitou o Nobel, para vergonha de todo poeta que se preze, mas se afinal Cholokhov o conseguiu com um plágio, O Don Silencioso, os braços da Real Academia Sueca permaneciam abertos aos vigaristas do século. Mas falava de Berlim. Como a alma de todo marxista, Berlim permaneceu décadas dividida, e nisto reside seu caráter emblemático, de cidade-mártir de um século ensandecido por milenarismos. Tanto Neruda, gordo e glutão, como minha amiga berlinense, magra e ascética, adoram e ao mesmo tempo detestam a luxuriante vitrine do capitalismo ocidental. Neruda, para sua própria sorte, está morto e bem morto. Não precisa mais responder pela tirania que lhe rendeu dólares e prestígio. Quanto à minha missivista... Bem, alguém terá de reformular conceitos, e este alguém não sou eu. Quando adolescente e contaminado por idéias obsoletas, sempre detestei o consumo e as sociedades de consumo. Impregnado pelo obscurantismo católico, a meu ver todo comércio era crime e todo comerciante um ladrão. Mas a vida, para bom entendedor, é uma caminhada rumo à lucidez. Hoje estou convicto de que o comércio é a base mais saudável da paz entre os povos. Um consumista inveterado - já deve estar pensando o leitor fanático de Neruda. Nada disso. Meu consumo se resume a comprar livros, curtir bom cinema, sentar em bares propícios ao recolhimento, ler jornais, beber e conversar. Certos museus também me atraem. Por exemplo, o Berlin Musée. Até hoje não sei bem o que ele abriga, parece que umas locomotivas antigas. Mas após aquelas tralhas, há um bar magnífico, onde se toma uma vodca com figo, nata e pimenta, capaz de dobrar o mais radical inimigo de museus. Enfim, falava de consumo. Por idiota que seja, acaba gerando empregos e riquezas. Nisto reside o fascínio de capitais como Berlim, Paris ou Madri. Para suprir as demandas do consumo, seja uma peça de lingerie, uma caneta mais sofisticada, um computador ou Mercedes Benz, centenas de milhares de cidadãos têm emprego e salários garantidos. Jamais participei desta orgia consumista. Mas constatei que, nas sociedades onde existe, as pessoas vivem bem. Se me sobra salário no fim do mês, estou livre tanto para opções burras como inteligentes e qualquer uma delas gera riqueza e distribuição de renda. Assim sendo, com a isenção de ânimo de quem detesta entrar em lojas, louvo a nova Berlim que nasce dos escombros da barbárie. Verdade que os intelectuais de esquerda refugiados nos Kneipen da Kudam ou do Kreutzberg terão agora de disputar seu espaço vital com os famintos de consumo do Leste. Dialética tem dessas coisas. O caráter ficcional do bem-estar de uma economia sempre acaba se revelando na saúde de sua moeda. Brasileiros, há muito sabemos disso. Conscientes do valor simbólico da moeda ou do papel-moeda, a Alemanha ocidental sempre cuidou de oferecer a seus cidadãos cédulas estalando de novinhas. Mal um bilhete começava a ficar sujo ou amarrotado, era queimado e substituído por papel novo. O Deutschmark jamais sujou as mãos de seus portadores e sempre teve livre curso no mundo todo. Já o Deutschmarx, como foi apelidado o marco oriental, além de não comprar nada fora das fronteiras da ditadura, era tão ou mais imundo quanto cruzados ou cruzeiros. Ao raiar do mês de julho, como conseqüência da revolução do Nove de Novembro e selando a reunificação alemã, toneladas de marcos ocidentais foram transportados à parte enferma da nação para substituir a cédula inútil. "Milhões de pessoas terão pela primeira vez nas mãos uma moeda realmente forte" - disse Helmut Kohl -. "Elas não vão iniciar uma discussão teórica ou filosófica sobre a unificação alemã. Provavelmente, o marido dirá á mulher: vamos até Paris. E eles passearão pelos Champs Elysées e se sentirão no centro do mundo". Para não poluir ainda mais a já poluída geografia da Alemanha oriental, a falecida moeda será sepultada em minas de sal e urânio. Junto com as cédulas de cem, jazem as efígies de Marx e Engels. Se daqui a um século, um arqueólogo ou espeleólogo deparar-se com aquelas toneladas de dinheiro sujo, constatará com ironia, que Lênin tinha razão: para destruir um regime, basta desmoralizar sua moeda. (Porto Alegre, RS, 14.07.90)
Quinta-feira, Novembro 15, 2007
EL PAÍS A SEU ALCANCE A partir de hoje, você tem o excelente jornal espanhol El País - http://www.elpais.com - à distância de um click de mouse. Até ontem, seu acesso era limitado. Agora é total. Estão também à sua disposição edições anteriores do jornal, de 1976 para cá.
Crônicas da Guerra Fria (38) MINHA FÚRIA DEMENTE Curitiba - Que fazer? - perguntava-se outro dia José Hildebrando Dacanal, evocando, talvez conscientemente, a célebre pergunta de Lênin. - Vomitar ou apoiar a fúria demente de Janer Cristaldo? Referia-se, é claro, à perplexidade das esquerdas ante as transformações na União Soviética e no Leste europeu. Por enquanto, deixo entre parênteses minha "fúria demente". Mas a alternativa é falsa. Vomitar é preciso e apoiar minhas denúncias também. Desde os dias em que me conheci por gente e optei por escrever, venho denunciando o totalitarismo, não importa sob qual forma se apresente. Naquela idade em que alguém se desvencilha do deus cristão e tende a suprir o vazio de fé com o marxismo, eu estudava Filosofia e História da Filosofia, disciplinas que me afastaram a tempo do novo dogma. Como sempre foi anátema para um escritor deste século não ser marxista, pelo menos nos países de influência católica, ao longo dos últimos vinte anos perdi amigos, empregos, editores e tribunas. Sempre por escrever e dizer o que penso, sem preocupar-me com ideologias em moda. Em 1968, no falecido Correio do Povo, escrevi uma sátira aos comunistas de café, intitulada "Marxismo Gaúcho Contemporâneo". Fui excluído do mundo dos vivos na universidade e acabei sofrendo prisão e interrogatório, por ordens de um delegado analfabeto que julgou, pelo título, que eu fazia a apologia do marxismo. De lá para cá, fui fichado e interrogado no DOPS, enquanto as ditas esquerdas me estigmatizavam como agente do SNI. Quando comecei a viajar, não houve mais dúvidas: "ele é da CIA'. Enfim, pelo menos fui promovido. Meus livros foram sistematicamente ignorados pela crítica tupiniquim e minhas traduções sabotadas. Em certas universidades ou redações de jornal, há autores que não são estudados ou mencionados por terem sido por mim traduzidos. Tudo isto porque cometi este pecado mortal: jamais fui marxista. Pior ainda, ousei criticar a nova religião. Meu consolo foi saber que sempre estive em boa companhia: Panaïti Istrati, Eugéni Zamiatine, André Gide, Arthur Koestler, George Orwell, Albert Camus, Raymond Aron e muitos outros que sofreram a conspiração do silêncio conduzida pelos cultores da peste do século. Mas os ventos estão mudando. E se, forçados pelos fatos, determinados intelectuais tiveram de reformular suas convicções, entre eles não estou. Eles, por sua vez, aí estão, usufruindo de altas mordomias nas estatais criadas pela ditadura militar, ocupando postos-chaves na administração federal, estadual e municipal, arrotando teorias assassinas nas universidades e igrejas, censurando na imprensa, nas editoras e em toda e qualquer tribuna qualquer autor que conteste seus dogmas. José Ribamar, em sua cabeça-chatice, entendeu-os muito bem. Foi semeando stalinistas pela Funarte e fundações outras, TVs ditas educativas, Boeings presidenciais e mordomias diversas e deu no que deu: os aguerridos comunossauros do PT não disseram sequer uma palavrinha, na última campanha eleitoral, contra os desmandos do governo Sarney. E ainda há quem diga que nordestino é burro! Eles mentiram, ocultaram e deturparam fatos, assassinaram e censuraram durante décadas. A censura das esquerdas no Brasil foi mil vezes mais eficaz que a censura dos militares. Estes proibiam livros que continuavam circulando clandestinamente, e a proibição fazia vender mais do que qualquer campanha publicitária. As esquerdas proibiam autores e desta vez a censura era pra valer. Quem a ignorasse, virava leproso da noite para o dia. Nelson Rodrigues, talvez o estilista maior de nossas letras, foi vítima paradoxal desta censura. Seu teatro, enquanto crítica feroz dos modelos comportamentais da classe média, foi louvado e difundido no País todo. Suas crônicas, onde encontramos o melhor de Nelson, jamais foram reeditadas. Pois cometia o sacrilégio de neleas ridicularizar os sagrados dogmas do stalinismo tupiniquim. Em suas Memórias - livro que recomendo a todo leitor que queira entender um pouco deste século - Raymond Aron evoca uma pergunta do norueguês Jon Elster, seu "réu" em uma defesa de tese na Sorbonne: em que condições se pode ser simultaneamente marxista-leninista, inteligente e honesto? Para Elster, pode-se ser marxista-leninista e inteligente, porém neste caso não se é intelectualmente honesto. Como também há marxistas-leninistas sinceros, mas estes carecem de inteligência. Trocando em miúdos a proposição de Elster, temos que todo marxista-leninista ou é burro ou é mau-caráter. A Revolução do Nove de Novembro passado foi, para os últimos românticos, como uma dessas injeções que dão melhor transparência a um órgão radiografado: tudo se tornou mais claro. Os pretensos heróis não passavam de grotescos celerados e o tal de paraíso socialista, em prosa e verso cantado, não passava de um inferno mal-administrado. Se não, vejamos. Segundo Algert Likhanov, presidente do Fundo Soviético para a Infância, anualmente 900 mil menores são detidos pela polícia por vadiagem nas grandes cidades soviéticas, logo lá naquele mundo onde Jorge Amado e Neruda nos juravam que as crianças eram felizes e sem problemas. Calcula-se que na União Soviética existam uns três milhões de desabrigados, entre eles 20% de mulheres e 2% de profissionais com formação universitária. Segundo o Konsomolskaya Pravda, o jornal da Juventude Comunista, "a pobreza é uma realidade, a nossa tragédia nacional". O Notícias de Moscou vai mais longe. Calcula-se que 15% da população soviética, estimada em 287 milhões de habitantes, tem renda mensal de 75 rublos, insuficiente para viver. Ou seja, temos 43 milhões de soviéticos na miséria. Como é de supor-se que tal catástrofe não exista apenas de Gorbachov para cá, espanta-nos que viajantes deslumbrados, tipo freis Bettos e Boffs, não tenham visto tais "pecados sociais", conforme o jargão dos sedizentes teólogos da libertação. "Minha viagem até transcorreu bem, mas que decepção em minha chegada" - escreveu-me um dia uma amiga francesa muito querida -. "O que mais me chocou foi, em torno às cidades, a pobreza das pessoas, os pobres são amontoados em barracos de madeira e as crianças se arrastam na imundície. Neste momento, o país está paralisado pela greve dos comerciantes, não se encontra mais manteiga e a carne é escassa. Os preços dobraram em um mês e todo mundo deseja a queda do governo". Pelo teor da carta, o leitor já terá intuído que não estamos em Moscou, pois há comerciantes e greves, sem falar no desejo da queda do governo. Esta carta, que agora pinço de meus arquivos, está datada de Concepción, Chile, 1972, um ano antes da queda de Allende. Dezesseis anos depois, ao descobrir o Chile, encontrei um país rico e sem problemas sociais, com plena liberdade de imprensa, expressão de pensamento e eleições livres. Escrevi sobre o que vi e quase perdi meus últimos amigos. "Pode até que seja assim" - disse-me um deles, que jamais esteve lá -. "Mas não podes escrever isso". Escrevi. Não participo daquela tese sartriana de que os amigos devem concordar em tudo ou então não há amizade. Estávamos em 88, um ano antes do Nove de Novembro, quando condenar Allende, Castro ou o Muro de Berlim constituía crime de lesa-humanidade, De 88 para cá, se não me engano nas contas, transcorreram dois anos. Vejamos então esta pérola, publicada a 23 de março passado, não no New York Times, mas no Notícias de Moscou: Segundo Yuri Korolev, técnico que trabalhou na equipe econômica do presidente Salvador Allende (quer dizer então que havia apparatchiks russos na espontânea revolução chilena?), o modelo econômico tentado por Allende fracassou, e o que foi implantado pelo general Pinochet "é perfeitamente exemplar". Para Korolev, o modelo chileno de Pinochet, que deixou o país praticamente à margem da crise latino-americana, poderia ser uma das alternativas estudadas pelos dirigentes soviéticos para a difícil transição do centralismo à economia de mercado. Como detesto estatísticas, deixo por conta do economista russo seu entusiasmo pelos indicadores - segundo suas palavras - do grande sucesso chileno: "Nos últimos cinco anos, o Chile teve um crescimento de 5 a 6% e no ano passado chegou a 10%. A agricultura responde por menos de 20% do PNB chileno e a produtividade industrial supera dez mil dólares anuais, o que é mais de quatro vezes a taxa da URSS". Tais afirmações, é bom lembrar, não são do Cristaldo, mas do Korolev. As pedras, por favor, enderecem-nas ao tovaritch moscovita. Em A Insustentável Leveza do Ser, falando dos regimes comunistas da Europa Central, Milan Kundera considera que tais regimes não foram moldados por criminosos, mas por entusiastas convencidos de terem descoberto a única via para o paraíso. "Eles defendiam corajosamente esta via, executando para isso muita gente. Mais tarde, tornou-se claro como dia que o paraíso não existia e que os entusiastas eram assassinos". Surgem então as desculpas: nós não sabíamos! Fomos enganados! Nós acreditávamos! No fundo do coração, somos inocentes! Outra variante, não registrada pelo escritor tcheco, mas muito repetida nestes dias no Brasil, nos lembra o corvo de Poe: não lembro mais, não lembro mais. Como se fosse possível esquecer ou ignorar, nesta era das comunicações, as purgas de Stalin, o pacto germano-soviético, os gulags, o caso Kravchenko, o XX congresso do PCUS, as invasões da Hungria e Tchecoeslováquia, isso sem falar na falta crônica de comida e liberdade que sempre caracterizou os regimes socialistas. Mas Kundera, através da perplexidade de seu personagem Tomas, vai adiante. Para este médico caído em desgraça, a questão fundamental não é: eles sabiam ou não sabiam? E sim: somos inocentes por não sabermos? Um imbecil sentado sobre o trono é isento de toda responsabilidade, apenas por ser imbecil? "Édipo também não sabia que dormia com a própria mãe e, no entanto, quando compreendeu o que havia acontecido, não se sentiu inocente. Não pode suportar o espetáculo da desgraça que havia causado por sua ignorância, furou seus próprios olhos e, cego para sempre, abandonou Tebas". As esquerdas têm uma invulgar sensibilidade para detectar ditaduras, desde que delas não participem, é claro. Na aldeia global, bastam não mais que dez dias, quando não dez horas, para que um regime seja condenado, urbi et orbi, como ditatorial. Curiosamente, necessitaram de mais de meio século para intuir que, de 1917 para cá, os regimes socialistas sempre constituíram férreas ditaduras e produziram mais prisioneiros e cadáveres do que Hitler ousaria sonhar. Minha fúria demente? "O anticomunismo sistemático que alguns me atribuem" - escreve Raymond Aron - "professo-o sem consciência pesada. O comunismo não é menos odioso do que o era o nazismo". Minha fúria nada tem de demente, É a justa indignação de um observador atento que vê seus companheiros de geração defendendo, com a convicção de um santo, as piores tiranias que dominaram o século. E se algum dia deixar de indignar-me - como dizia Gide - será sinal de que estou envelhecendo. Que fazer? Às esquerdas, não se pede que furem os olhos, como Édipo. A medicina contemporânea tem técnicas extraordinárias de correção de miopia e raspagem de catarata. Mas a história deste século deverá ser revista sob uma nova ótica. Ou então, por favor, abandonem Tebas. (Porto Alegre, RS, 09.07.90)
NOSSA URBANA FRAGILIDADE Ontem foi dia de blecaute em meu prédio. Um transformador explodido e quatorze horas sem energia. Voltei a meus dias de infância, quando lia à luz de velas. Isto é o de menos. O pior é a sensação de incomunicabilidade. Me senti urbano e frágil, desligado do mundo. Enfim... O livro que estou lendo me fala de tempos em que ainda não haviam sido descobertas as velas. Pelo menos é o que deduzo da leitura da Bíblia, onde as três únicas ocorrências da palavra (Isaías, Ezequiel e Atos) referem-se a velas de navio. Refiro-me ao excelente ensaio de F. E. Peters, Os monoteístas, que faz uma análise comparativa das três religiões abrâmicas. Estou lendo o primeiro volume, não sei se o segundo já foi publicado no Brasil. Seja como for, é entusiasmante saber que há um outro volume a degustar. Outra palavra que também não encontramos no Livro é catolicismo. Peters explica: O termo "católico", do grego katholike, "universal", surgiu em parte como epíteto descritivo, em parte como slogan, na esteira da crise ariana no começo do século IV. O arianismo foi a primeira heresia "católica" ou generalizada na Igreja a se defrontar com o cristianismo, e foi combatida com exatamente a mesma noção, que a Igreja era universal, portanto "católica". A "Igreja Católica" descrevia o que se podia também chamar de "Igreja Imperial", Igreja que se estendia "por toda a parte", que de fato significava o Império Romano e seus arredores. A metade ocidental ou latina da Igreja Imperial foi desde cedo dominada pelo bispo de Roma, e a união deliberada de "romana" à Igreja Latina foi obra dos reformadores protestantes que quiseram indicar exatamente a particularidade da Igreja papal. No entanto, a Igreja papal continuou a manter sua pretensão de universalidade e a caracterizar os reformadores como dissidentes. Assim, "romano" e "católico" ficaram interligados, e é irônico que no uso comum o "católico" ecumênico seja agora comumente usado para descrever a suposta Igreja "romana" dos reformadores como "romana", que era o epíteto protestante alternativo. Recomendo vivamente a leitura de Peters. Malandros, os católicos. Além de roubarem o livro dos judeus, se apropriaram da grife dos arianos.
Quarta-feira, Novembro 14, 2007
Crônicas da Guerra Fria (37) PRESTES PODE O Pilla é mobile qual pluma ao vento muda de assento e de partido já foi comuna e trabalhista ultimamente é socialista. Curitiba - Sei lá por quê, me vem à memória esta paródia das reflexões do duque de Mântua, em Rigoletto, parece que muito cantada nas redações de um jornal de Porto Alegre, particularmente depois que nosso volúvel secretário municipal de Cultura cantou a Internacional durante sua posse na Administração dita Popular. Ah! Descobri agora porque lembrei do Pilla Vares. É que suas contradições não são menos tragicômicas que as enfrentadas pelos comunossauros no poder. Maldade minha. Nem era do Pilla que queria falar. E sim da alcaiceria. Num destes fins-de-semana, ao passar pela Esquina Fascista, encontrei a Borges de Medeiros e a Rua da Praia entregue ao lixo e ao ratos, o que me lembrou antiga crônica de Ney Messias. Nela, Ney falava de sua dificuldade em definir o que seja povo, este nome tantas vezes invocado e que parece, após a Revolução Francesa, ter substituído o nome de Deus. Em suma, o cronista não conseguia chegar a uma definição precisa e unívoca da palavra, mas de algo tinha certeza: bastava olhar o Parque Farroupilha numa manhã de segunda-feira e o fato se tornava óbvio, por ali o povo havia passado. Se aceitamos a definição do Ney, não nos resta dúvidas de que a atual administração da capital é eminentemente popular. Mas tampouco era disto que pretendia falar. E sim de Luís Carlos Prestes, que em paz descanse. "E então eu te prometi contar a história do Herói, aquele que nunca se vendeu, que nunca se dobrou, sobre quem a lama, a sujeira, a podridão, a baba nojenta da calúnia nunca deixaram rastro" - escrevia Jorge Amado, em O Cavaleiro da Esperança - "E como ele é o próprio povo sintetizado num homem, é certo que o povo não se vendeu nem se dobrou. Como ele o povo está preso e perseguido, ultrajado e ferido. Mas como ele o povo se levantará, uma, duas, mil vezes, e um dia as cadeias serão quebradas, a liberdade sairá mais forte de entre as grades. 'Todas as noites têm uma aurora', disse o Poeta do povo, amiga, em todas as noites, por mais sombrias, brilha uma estrela anunciadora da aurora, guiando os homens até o amanhecer. Assim também, negra, essa noite do Brasil tem sua estrela iluminando os homens, Luís Carlos Prestes. Um dia o veremos na manhã de liberdade e quando chegar o momento de construir no dia livre e belo, veremos que ele era a estrela que é o sol: luz na noite, esperança; calor no dia, certeza". O Cavaleiro da Esperança foi escrito em 1941, traduzido e publicado nas democracias ocidentais e nas ditaduras comunistas, como parte de uma campanha para libertar Prestes da prisão, após sua sangrenta tentativa, em 1935, de impor ao Brasil uma tirania no melhor estilo de seu guru, o Joseph Vissarionovitch Djugatchivili que, qualquer dia, se a gente se descuida, ainda acaba recebendo busto ou nome de rua em Porto Alegre. Mais tarde, apesar das denúncias contínuas na imprensa internacional dos massacres e assassinatos de Stalin, Amado prestará seu preito ao "Paisinho dos Povos", no baboso e encomiástico O Mundo da Paz. Recebe o prêmio Stalin de Literatura - atualmente sempre omitido em suas biografias - e, com o fervor de crente que recebeu uma dádiva de seu deus, escreve Os Subterrâneos da Liberdade, última pérola do zdanovismo, ainda encontradiço em qualquer livraria do país. E do jeito que vão as coisas, com o Pilla Vares – cuja trajetória intelectual vai de Trotski a Sirotski – cantando a Internacional e o Olívio Dutra e o Tarso Genro convocando o Niemeyer - outro stalinista ferrenho, personagem de Amado em Subterrâneos e autor deste horror arquitetônico chamado Brasília - para erigir um memorial a Prestes, qualquer dia sobra título de porto-alegrense honorário para este baiano deslumbrado e prostituído que ontem ainda se roçava em Sarney, utilizando os serviços diplomáticos brasileiros, na esperança de abocanhar um Nobel, que moeda capitalista sempre vem bem, mesmo para quem fez da condenação do capitalismo sua fórmula de encher as burras. Mas falava de Prestes. Mal faltam algumas horinhas para virar o século - ou o milênio, como quisermos - e o herói virou vilão, o que era verdade virou embuste e o que, para Amado, eram calúnias, revelaram-se como fatos. O desmoronamento do socialismo no Leste europeu é visto, por ingênuos intelectuais latino-americanos, como uma transição pacífica e sem sangue rumo a um regime mais humano, como se não contasse, nesta revolução, o sangue de milhões de vítimas do stalinismo até hoje vigente. As estrelas anunciadoras da aurora, sempre presentes nas panfletárias ficções de Amado, estão sendo derrubadas com gosto do alto dos prédios horrendos que inspiraram Niemeyer. E as manhãs de liberdade, os lendemains qui chantent, os dias livres e belos não passavam de tardes cinzentas nos gulags. Na Europa, pelo menos, estes fatos já eram conhecidos. As notícias parecem, no entanto, ainda não ter chegado à América Latina, onde os piores celerados do século continuam merecendo bustos e homenagens. O senhor alcaide foi à Brasília receber das mãos do idealizador daquela monstruosidade urbana o projeto ao memorial do stalinismo caboclo. Certamente o receberá de graça, pois Niemeyer sempre foi generoso com seu talento, desde que mais tarde as obras sejam tocadas por suas empresas. Na volta de Brasília, o prefeito voltou por Rio, São Paulo e Campinas, "pois sempre se pode trocar experiências e aprender com os outros municípios". Melhor faria, a meu ver, se ficasse em casa estudando um pouco da história deste século, talvez assim ficasse poupando os gaúchos de ver sua capital ornada com um monumento ao obscurantismo. Pois memorial sempre tem o sentido de homenagem. Propusesse a Prefeitura um arquivo Prestes, nada teríamos a reclamar, afinal o homem pertence, bem ou mal, à história do país. Visitaríamos então, não o mausoléu do herói com pés de barro cantado por Amado, mas a triste trajetória de mais um idealista enganado pelos milenaristas russos. A luta pela memória - dizia Milan Kundera - é a eterna luta do homem contra o poder. Precisamos de memória, não de altares. Enquanto o alcaide brinca de sacristão, os vereadores brincam de libertários. Por unanimidade, aprovaram projeto de lei proibindo o uso da suástica em símbolos, emblemas, propagandas, ornamentos ou distintivos expostos na cidade, como se os analfabetos que com ela se ornam constituíssem alguma potencial ameaça nazista. Enquanto o PT e PCs empunham a estrela vermelha e a foice e o martelo na Esquina Fascista, os vereadores saem à caça de balangandãs que são vendidos em qualquer capital européia sem que com isso ninguém se preocupe. Pois se vamos proibir símbolos que evocam genocídios, pela entrada de ordem na história do Ocidente, teríamos de começar proscrevendo a cruz. "Crimes contra a humanidade não podem ser comemorados" - diz o prefeito - "sequer através de símbolos ou brincadeiras". Quanto aos cultores de Stalin, estes merecem memoriais. Cantar a Internacional, pode, mesmo para quem sabe o que significa cantá-la. O que não pode é um desmiolado qualquer portar um pedaço de lata, cujo significado sequer conhece. Quando, na verdade, o que se pede à administração municipal é mais preocupação com o lixo das ruas e menos carinho pelo lixo da História. Um pouco mais de coerência e teremos a praça Ceaucescu, que sabe em frente à Prefeitura, em homenagem ao homem que, segundo o deputado Amaury Müller, foi o maior estadista do século. Ou talvez uma avenida Fidel Castro, em homenagem ao gerente da Disneylândia das esquerdas, em prosa e verso cantado. E, no rumo em que marcha o trem da História, digo da Prefeitura, melhor trocar o nome daquela avenida próxima ao riacho Ipiranga, a avenida Erico Verissimo. Afinal, um dos maiores bestsellers já publicados pela Editora Globo foi Mein Kampf. Na ocasião, eram conselheiros editoriais da casa, entre outros, Erico Verissimo e o judeu Maurício Rosenblat. (Porto Alegre, RS, 30.06.90)
Terça-feira, Novembro 13, 2007
UMA CENA DE TERROR "Quase dezessete anos antes, Janer, você já dizia o que os ateus mais conhecidos de hoje dizem, religião é abuso infantil. Uma criança não pode ter religião. No máximo, tem a religião de seus pais" – me escreve Raphael Piaia, a propósito da crônica abaixo. Em verdade, faz bem mais tempo que escrevo. Certamente há mais de quarenta anos. Meu primeiro artigo, num jornalzinho estudantil de Dom Pedrito, quando eu teria uns quinze anos, intitulava-se "Esses padres..." Não lembro do que escrevi então, mas pelas reticências certamente não foi uma declaração de amor. Nasci no campo, em um ambiente que não hesitaria de definir como pagão. Meus pais e o resto da parentada tinham uma vaga crença em Deus, que na verdade não diferia em muito da crença de um Einstein. Que escreveu, certa vez, a um correspondente: "Foi, claro, uma mentira quando você leu sobre minhas convicções religiosas, uma mentira que está sendo sistematicamente repetida. Eu não acredito em um Deus pessoal, e nunca neguei isso; ao contrário, o disse claramente. Assim, se há algo em mim que possa ser chamado de religioso é a ilimitada admiração pela estrutura do mundo na medida em que nossa ciência possa revelá-la". (Apud Hitchens) Sem ser cientista – pelo contrário, era um camponês de poucas letras – meu pai acreditava que algo deveria existir, e não mais que isso. Era hostil a padres e não gostava muito de palavrórios vazios. Foi quando passou então em meus pagos uma catequista do Uruguai, mulher de um fazendeiro de Villa Indarte. Arrebanhou toda a meninada daquele rincão para o catecismo. O que, para nós, era uma festa, tínhamos a chance de andar de camionete. Aí começamos a ouvir palavras estranhas para nós: sangue de Cristo, Virgem Maria, mãe de Jesus, Sagrado Coração, Santíssima Trindade e outras que tais. O que eu não conseguia entender era o tal de sangue de Cristo, que teria sido derramado não só pela humanidade como por mim também. Mais tarde, lá pelos dez anos, fui estudar na cidade, num colégio dirigido pelos padres oblatos, da Alemanha. Logo logo os padres me jogaram na Congregação Mariana. Abriram minha cabeça a machado e jogaram doutrina dentro. Eu não entendia certos conceitos? Era para não entender mesmo. É dogma e fim de papo. Não é dado aos mortais entender os dogmas. Só lhes resta aceitá-los. Resumindo: fui educado em meio a uma religião moralista, que dava especial destaque aos chamados pecados da carne. Para pecar, não era necessário nem mesmo praticar sexo ou masturbar-se. Bastava ter pensamentos libidinosos e eu já estava incurso em pecado mortal. Qualquer ereçãozinho juvenil era uma ofensa ao Cristo, que havia derramado seu sangue por nós, ingratos mortais. Ora, qual adolescente não tem ereções? Só se for um anormal. Esta é a estratégia mais sórdida dos padres: impor regras impossíveis de serem cumpridas, para que os fiéis cheguem ao confessionário sempre cheios de culpa. Nosso destino era o inferno, com todos seus horrores, chamas, gemidos e ranger de dentes. A não ser, é claro, que confessássemos todos nossos pecados – e eles eram sempre relativos a sexo – a um padre que provavelmente se masturbava no confessionário. O padre queria detalhes. Não bastava dizer: "pequei contra a carne". O padre queria saber com quem foi. Como foi? Solitário ou acompanhado? Quantas vezes? Talvez aqueles oblatos não tivessem consciência disto, mas eles foram os precursores do sexo oral, isto é, desta sexualidade que hoje se exercita por telefone. Só que na época não havia telefone, tudo era feito por sussuros e tête-à-tête, o que tornava a coisa mais excitante. Vivi dias e noites de terror naqueles dias. À menor masturbação, ereção ou "pensamento feio", já me sentia queimando nas chamas do inferno. Apressava-me a fazer um ato de contrição, para garantir a salvação pelo menos até a confissão dos sábados. A cada sábado, lá estava eu ajoelhado frente àquele torturador, ajoelhado e humilhado pela confissão de minhas misérias. E eu sabia que não podia mentir. Não adiantava mentir. Quem me ouvia era Deus, o onisciente. Nas noites de tempestade, o pânico era total. O leitor pode até achar que é mania de grandeza. Mas cada raio que caía, eu achava que era dirigido a este pecador. Me ajoelhava e rezava desesperado, prometendo nunca mais pecar. Passada a tormenta, eu já estava pecando de novo. Ora, eu estava rodeado de árdegas filhas de Maria. E a carne, ao contrário do que se pensa, é forte. Tão forte que sempre acaba vencendo. A simples proximidade feminina me induzia ao pecado. Resolvi um dia ler a Bíblia, principalmente aquela parte onde estão os mandamentos. Queria saber se Deus ordenara mesmo não pecar contra a castidade. Para minha surpresa, a palavra castidade sequer existia na Bíblia. Pelo contrário, havia personagens se masturbando, um pai tendo relação com suas duas filhas, patriarcas prostituindo suas esposas, reis e profetas com várias mulheres e outras tantas concubinas. Repassei a Bíblia com uma filha de Maria particularmente interessante, mostrei-lhe que no livro sagrado não havia nada que proibisse sexo. Ela concordou comigo. Foi quando o inábil atroz que vos escreve cometeu esta gafe fatal: - Então, vamos lá? - Credo, Janer, pára com essas bobagens. Quem pensas que sou? Foi ridículo mas foi didático. Descobri desde cedo que quando se quer uma mulher, os argumentos racionais de nada valem. O caminho é outro. Passei então a aprofundar-me na Bíblia. Foi lendo as sagradas escrituras que me tornei ateu. Fui tomado de uma embriagante sensação de liberdade. O mundo agora era meu e eu podia fazer com meu sexo o que bem entendesse. Minha primeira preocupação foi recuperar o tempo perdido. E recuperei-o com prodigalidade. Aliás, acho que passei o resto de minha vida tentando recuperá-lo. Religião é droga muito poderosa. Não deve ser ministrada a crianças. Foi Richard Dawkins, creio, que manifestou seu espanto de nos chocar a idéia de uma criança comunista, mas não nos chocamos com a idéia de uma criança católica. Em seu livro Deus – um delírio, o escritor conta uma história de terror, protagonizada pelo mestre do terror, Alfred Hitchcock. O cineasta dirigia por uma estrada na Suíça, quando de repente apontou pela janela do carro e disse: "Essa é a cena mais aterrorizante que já vi". Era um padre conversando com um menininho, a mãe dele sobre o ombro do garoto. Hitchcock pôs a cabeça para fora do carro e gritou: "Fuja, menininho! Salve sua vida!" Eu tive a ventura de fugir a tempo. Mas quantos pobres coitados andarão por aí, arrastando seus grilhões mentais, por não terem escapado a tempo da tirania da religião? Volto ao assunto a qualquer hora.
Crônicas da Guerra Fria (36) SOBRE VIRGENS E IXIPTLAS Curitiba - Mas então a gente não termina nunca de contar? - quis saber outro dia minha filha. Contente ao ver que já roçava o conceito de infinito, disse que sim, os números começam e não terminam nunca mais. Para ela, em sua insciência, até o infinito já tinha limitações: - Quem sabe, só Deus sabe contar até o fim. A pivete mal sabe contar até cem. Mas Roma já está fazendo seu trabalho. Deus? Mas quem é esse cara? - perguntei. Qual é o jeitão dele? Ah! Ele é barbudo. Assim que nem eu? Mais ainda, e a barba é branca, muito mais branca que a tua. Onde é que ele mora? Lá em cima. Ali, no teto? Não, depois do teto. Mas depois do teto só tem nuvens, e lá não estou vendo nenhum barbudo. Ah! Mas ele não pode ser visto. Se não pode ser visto, como é que sabem que ele é barbudo? Ela pôs um dedinho na boca e desistiu de argumentar. Acho que ganhei a parada: consegui ativar a lógica implacável das crianças. Estávamos em um bar, ela chupando um desses abomináveis xaropes ianques vendidos pela televisão, eu degustando minha cerveja, que mais não seja pelo menos ela aprende a segurar um copo e familiarizar-se com garçons. Quem te falou desse cara? - eu quis saber. A professora, diz Isa. E isso que Isa é pagã e estuda em escola laica. Deus tem telefone? - perguntei. Acho que não. Bom, se tiver, pergunta pra tua professora qual é o número, pergunta também pra ela se ele gosta de coca ou cerveja, e depois convidamos ele pra tomar um trago com a gente. Creio tê-la confundido, o que aliás era meu propósito. As crianças mal sabem ler ou contar e já estão contaminadas, mesmo em escolas laicas, pela imagem antropomórfica do deus judaico-cristão. Atrás da imagem do deus barbudo, o pacotaço teológico: medo ao pai, medo à autoridade, o sexo visto como pecado, o prazer como fonte de culpa. Já nos primeiros anos, a escola semeia a neurose no inconsciente infantil, para alegria futura dos ditadores, gurus e psicanalhas. Se Deus é barbudo e mora acima das nuvens, ó Isa, quando chove ele está fazendo xixi? E quando troveja, cocô? Pedagogas, por favor: não infiltrem em um cérebro ainda informe a idéia de um deus pai, patriarca e castrador. Alfabetizem-se, antes de pretender alfabetizar. Imagens. Disto os conquistadores europeus entendiam - desde os dias da Descoberta até nossa era televisiva - e até hoje a elas permanecemos submetidos. "Pois a imagem constitui com a escritura" - escreve Serge Gruzinski - "um dos instrumentos maiores da cultura européia. O gigantesco empreendimento de ocidentalização que se abateu sobre o continente americano assumiu a forma de uma guerra de imagens que se perpetua desde séculos, e nada indica que hoje esteja encerrada". Aposto que, depois do deus barbudo, minha filha virá torrar-me a paciência (a coitada não tem culpa) com a Virgem Maria. E atrás da Virgem outro pacotaço papista: virgindade, amor, monogamia, casamento, reprodução e o começo do ciclo todo. Desde Colombo até hoje, os conquistadores sabem muito bem que, ao impor o mito de uma mãe virgem a culturas pagãs, já ganharam a batalha. O papa que o diga. João Paulo II foi ao México, não para degustar tequila ou ouvir mariachis, e sim para beatificar Juan Diego, o índio em cuja túnica as rosas teriam deixado gravada a imagem da Virgem de Tepeyac, mais conhecida como Virgem de Guadalupe, não por acaso a mesma venerada nas montanhas de Estremadura, e muito querida pelos conquistadores. João Paulo, padre astuto, intuindo que a tal de teologia de libertação está em franca decadência com o desmoronamento do fascismo eslavo, investe no mistério. E confere odor de santidade ao coitado do íncola manipulado pelo barroco europeu. Tudo começa nos anos 1550, quando na colina de Tepeyac os indígenas mexicanos prestavam culto a um ixiptla, ou seja, estátua ou imagem de uma deidade que, na linguagem dos conquistadores, é traduzida como ídolo. O ixiptla, no caso, é o da deusa Toci-Tonantzin, nome que, traduzido do náuatle, dá - maravilhosa coincidência! - Nossa Mãe. Alonso de Montufar, arcebispo do vice-reino, não vai perder esta oportunidade - como direi? - divina, de sobrepor, como sempre fez a Igreja romana, aos símbolos e cultos pagãos, a tralha católica. Encomenda a Marcos, um pintor indígena, uma obra inspirada em um modelo europeu e a coloca ao lado do ixiptla asteca, gesto aparentemente inocente se visto daqueles dias, mas carregado de conseqüências quando o olhamos com o distanciamento de quatro séculos. Pelo período de aproximadamente um século, a imagem da Virgem permanece, sem trocadilhos, em banho-maria, sem que se fale de epifanias ou milagres. Em 1648, com a publicação de Imagen de la Virgen Madre de Diós de Guadalupe, do padre Miguel Sánchez, o culto mariano toma novo impulso. "Segundo esta versão destinada a tornar-se canônica" - escreve Gruzinski, em La Guerre des images - a Virgem teria aparecido três vezes em 1531 a um índio chamado Juan Diego. Segundo Juan de Zumárraga, primeiro bispo e arcebispo do México, Juan Diego abriu sua capa sob os olhos do prelado: "em lugar das rosas que ela envolvia, o índio descobriu uma imagem da Virgem, miraculosamente impressa, até hoje conservada, guardada e venerada no santuário de Guadalupe". Mas nada surge do nada, muito menos imagens. Antes da publicação do livro de Miguel Sánchez, que oficializa a versão das rosas imprimindo os traços da Virgem na capa de Juan Diego, haviam chegado ao México pelo menos duas levas de pintores e arquitetos, profundamente influenciados pela escola flamenga. Colocando seus talentos a serviço da Igreja, estes artistas transportam ao novo continente o imaginário europeu. Vasto é o mercado. Para Gruzinski, a clientela dos artistas cresce e se diversifica: "A corte, a igreja, as autoridades municipais, a universidade, a Inquisição, as confrarias e os ricos entregam-se a uma concorrência cada vez mais viva e rivalizam em encomendas que afirmam publicamente, aqui como alhures, poder, prestígio e influência social. Eis então reunidos todos os meios de uma predileção pela imagem e de uma produção em larga escala, conforme o gosto europeu, impulsionada pela Igreja, posta sob a vigilância da Inquisição e de prelados de zelo por vezes intempestivo". Faltava apenas o ingênuo para descobrir, sob as rosas, a imagem da Virgem. Como seria pouco convincente apresentar uma imagem sendo descoberta por seus criadores, foi escolhido Juan Diego, hoje alçado à condição de beato pela igreja que destruiu seus ixiptlas e sua cultura. E assim, como quem não quer nada, semeando marias mundo afora, vai o Vaticano alastrando seus domínios. A última é a de Medjugorje, na Iugoslávia, ainda não reconhecida pela Igreja. Mas como débil é a memória das gentes, mesmo nestes dias de cultura impressa, não é de se duvidar que dentro de alguns séculos esteja sendo canonizado algum discípulo do general Tito, para alegria das agências de turismo, que mesmo sem o reconhecimento papal lotam aviões para ver a virgem vermelha. Que, segundo me consta, se dispõe até mesmo a interceder junto ao Senhor pela entrada de Lula no Reino dos Céus. Mas o Collor, por mais missas que assista, de jeito nenhum, principalmente após aquele plano perverso que cortou as divisas de seu séquito de adoradores. Ave, Regina! (Porto Alegre, RS, 26.05.90. Joinville, A Notícia, 17.06.90)
Segunda-feira, Novembro 12, 2007
MORRER SIM, MAS DEVAGAR A crônica que escrevi sobre o cardeal que via os cemitérios como repugnantes provocou, naturalmente, discussões sobre a morte. Evento do qual tive medo, em meus verdes anos, quando acreditava em deus e justiças do Além. Hoje, a vejo com naturalidade e não nutro medo algum em relação a esta senhora. Pelo menos no que diz respeito à minha morte. Duro, isto sim, é enfrentar a morte das pessoas que amamos. "O destemor frente à morte é uma das qualidades mais raras e, por isso mesmo, uma das mais veneradas em todas as culturas, sobretudo naquelas antigas, em que os guerreiros e os heróis eram figuras dominantes e necessárias" – escreve um leitor –. "O Cristaldo chega afirmar ainda, com a sabedoria de um conselheiro Acácio, que não há nenhum mistério e nada de inexplicável na morte. Sugiro-lhe inclusive que escreva um livro sobre o tema, iluminando o nosso parco entendimento sobre o fatídico destino, já que inúmeros filósofos fracassaram nesse intento". Sem me pretender guerreiro nem herói, de fato, não nutro medo algum da morte. Tenho medo, isto sim, da imortalidade. É possível que eu me sinta triste ao abandonar esta vida que foi e tem sido tão pródiga e tão prazerosa. Isso se a morte chegar antes do tempo. É possível que eu chore ao sentir que vou abandonar os meus. Mas medo, decididamente não. Medo têm os crentes, que temem enfrentar uma jurisdição do Além sem ter muita certeza se serão absolvidos ou não. Entendo a velhice como uma preparação para a morte. Nossas faculdades vão fenecendo e chega um momento em que o melhor mesmo é morrer. Não vejo nada de inexplicável na morte, muito menos mistérios absolutos ou insondáveis. Não há mistério algum. Assim como nascemos, morremos. Tudo que respira morre. Se alguém quiser ter uma idéia dos horrores da vida eterna, sugiro ler Todos os homens são mortais, da Simone de Beauvoir. Um personagem do século XIII, o conde Fosca, teve a infelicidade de beber o elixir da imortalidade. E se arrasta entediado de século em século, aspirando à benção da morte. Ou o capítulo sobre os struldbruggs, nas Viagens de Gulliver, do Swift. A propósito, vou publicá-lo em seqüência a esta postagem. Só vê mistérios na morte o homem iludido pelas religiões, que lhe acenam com a idéia estúpida de eternidade. Diz ainda o leitor: "Quem não se apavora frente a idéia de um descanso eterno? Se alguém soubesse que iria dormir e não mais acordaria, jamais pregaria os olhos". Ora, dormir e não mais acordar é a melhor das mortes. Sem consciência de morte, sem agonia, sem sofrimento. Tenho notícias de pessoas que morreram assim e as invejo. Tampouco não me interessa escrever livro algum sobre a morte. Escreve sobre a morte quem com ela está preocupado ou espera alguma alternativa no Além. Não é meu caso. Quando jovem e católico, isto é, até aos 16 ou 17 anos, a idéia de morte me apavorava. Quando joguei fora a crença em Deus e em justiças do Além, me despreocupei totalmente. Minha única preocupação, na época, era viver com intensidade, pois não sabia se minha hora não seria amanhã. Se os filósofos fracassaram nesse intento – como afirma meu leitor – fracassaram porque estavam buscando algo no Além. Porque no Além não há nada. Não há Além. Em O nascimento da tragédia, Nietzsche nos conta sobre o Rei Midas, que captura o fauno Sileno e dele ouve a terrível verdade: "Estirpe miserável e efêmera! Filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer o que seria para ti melhor não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor é morrer depressa". Não, não chego a tanto. Morrer sim, mas devagar – como dizia Dom Sebastião, rei de Portugal. Minha única preocupação em relação à morte, hoje, é chegar lá sem maiores sofrimentos. Uma queda de avião seria muito oportuna. Aliás, era um dos sonhos de minha mulher, morrermos os dois juntos em um acidente aéreo. Seria o ideal. Pena que a vida quis diferente. Enfim, se o sofrimento for insuportável, sempre se consegue um médico gentil que dê uma mãozinha. Há circunstâncias em que o que mais se deseja é a morte. Em um apólogo datado do século XVII, transcrito por Eugen Herrigel, em A arte cavalheiresca do arco e flecha, um grande mestre da espada ensinava sua arte ao shogum Tokugawa Jyemitsu. Certo dia, um dos guardiões do xógum aproximou-se do mestre e pediu que lhe ensinasse. "Segundo vejo - disse o mestre - já sois mestre da espada. Dize-me, te peço, a que escola pertences, antes que entremos numa relação de mestre e de discípulo". O guardião contesta: "Envergonho-me em confessar que jamais aprendi tal arte". "Te divertes comigo? Sou o mestre do venerável xógum e sei que meu olho não me engana". "Lamento ofender vosso honor, mas a verdade é que não tenho nenhum conhecimento dessa arte". Frente a tal negativa, o mestre vacilou e disse: "Se assim afirmas, assim será. Mas certamente és mestre em alguma outra disciplina, embora eu não veja bem qual é". "Como insistis nisso, vos direi. Há uma única coisa da qual posso considerar-me mestre consumado. Quando ainda era moço, ocorreu-me que, sendo Samurai, não devia temer a morte em caso algum e desde então - já faz alguns anos - lutei continuamente com a questão da morte, até que deixei de me preocupar. Talvez seja isso que Vossa Mercê observa?" "Exatamente - exclamou o mestre - é isso. Alegro-me que meu juízo tenha sido acertado, pois o último segredo da arte da espada reside também em estar liberado da idéia de morte. A centenas de alunos mostrei esta meta, mas até agora nenhum alcançou o grau supremo na arte da espada. Tu não necessitas nenhum exercício, já és mestre".
STRULDBRUGGS Relato do capitão Lemuel Gulliver, a princípio cirurgião e depois capitão de vários návios, sobre uma peculiar raça de imortais encontrada na ilha de Luggnagg. Disse-me primeiramente que não era o único estrangeiro que olhava com espanto e com inveja a situação dos struldbruggs; que encontrara nos Balnibarbos e nos Japoneses pouco mais ou menos as mesmas exposições; que o desejo de viver era natural do homem; que aquele que tinha um pé para a cova, se esforçava por se manter firme no outro; que o velho mais corcovado imaginava sempre um amanhã e um futuro e apenas encarava a morte como um mal longínquo e fugidio; mas, na ilha de Luggnagg se pensava de um modo bem diferente, e que o exemplo familiar e a contínua presença dos struldbruggs haviam preservado os habitantes desse insensato amor pela vida. — O sistema de conduta — continuou ele — que se propunha na suposição de ser imortal e que há pouco traçou, é ridículo e completamente contrário a todo o raciocínio. Supôs, decerto, que, nesse estado, gozaria de uma eterna mocidade, de um vigor e de uma saúde de ferro. Mas, quando perguntámos o que faria se tivesse de viver sempre, supusemos porventura que nunca envelhecesse e a sua pretendida imortalidade fosse uma eterna primavera? Em seguida, descreveu-me os struldbruggs, dizendo que eram semelhantes aos mortais e como eles viviam até aos trinta anos; que, depois dessa idade, caíam a pouco e pouco em negra melancolia, que aumentava sempre até atingirem os oitenta; que, por então, não eram apenas sujeitos a todas as enfermidades, a todas as misérias e a todas as fraquezas dos velhos dessa idade, mas a aflitiva idéia da eterna duração da sua miserável caducidade os atormentava a tal ponto que nada podia consolá-los; que não eram simplesmente, como todos os outros velhos, cabeçudos, rabugentos, avarentos, carrancudos, linguareiros, mas gostavam de si próprios, renunciavam às doçuras da amizade, não dispensavam ternura a seus filhos e que, além da terceira geração, já não reconheciam a posteridade; que a inveja e a raiva os devoravam continuamente; e que a vista dos sensíveis prazeres de que usufruem os juvenis mortais, os seus divertimentos, os seus amores, os seus exercícios os faziam de certo modo morrer a cada momento; que tudo, até a própria morte dos velhos que pagavam o tributo à natureza, lhes excitava a raiva e os mergulhava no desespero; que, por essa razão, todas as vezes que viam realizar-se um enterro, maldiziam a sua sorte e se queixavam amargamente da natureza, que lhes recusara a doçura de morrer, de acabar a sua aborrecida carreira para entrar num eterno repouso; que já não se encontravam em estado de cultivar o espírito; que a memória enfraquecia; que mal se lembravam do que tinham visto e aprendido na sua mocidade e na idade madura; que os menos miseráveis eram os que tinham entontecido, que tinham perdido completamente a memória e estavam reduzidos ao estado infantil; esses, ao menos, encontravam quem se condoesse deles, dando-lhes todos os recursos de que necessitavam. — Quando um struldbrugg — acrescentou — se casa com uma struldbrugg, o casamento, conforme as leis do Estado, é dissolvido logo que o mais novo dos dois chegue aos oitenta anos. É justo que desgraçados entes humanos, condenados, contra a vontade e sem o haverem merecido, a viver eternamente, não sejam ainda, para acréscimo de desgraça, obrigados a viver com uma mulher eterna. O que é mais triste ainda é que, depois de ter atingido esta idade fatal, são olhados como mortos civilmente. Os seus herdeiros apoderam-se dos seus bens; são-lhes dados tutores, ou antes, são despojados de tudo e reduzidos a uma simples pensão alimentícia (lei muito justa em virtude da sórdida avareza comum aos velhos). Os velhos são mantidos por custeio público numa casa chamada: hospital dos imortais pobres. Um imortal de oitenta anos já não pode exercer um emprego ou função alguma; não pode negociar, não pode contratar, não pode comprar nem vender e o seu próprio testemunho não é reconhecido em justiça. Quando, porém, atingem noventa anos, ainda é pior: todos os dentes e cabelos caem; perdem o paladar e bebem e comem sem prazer algum; perdem a noção das coisas mais fáceis de reter, e esquecem o nome dos amigos e às vezes o próprio. Torna-se-lhes por este motivo inútil entreterem-se com a leitura, pois que, quando querem ler uma frase de quatro palavras, esquecem as duas primeiras, enquanto lêem as duas últimas. Pelo mesmo motivo lhes é impossível conversar com alguém. Além disto, como a língua deste país está sujeita a freqüentes mudanças, os struldbruggs nascidos num século têm muito trabalho em compreender a linguagem dos homens nascidos noutro século, e são sempre estrangeiros na sua pátria. Tais foram os pormenores que me forneceu a respeito dos imortais desse país, pormenores que me surpreenderam em extremo. Em seguida, mostrou-me uns seis, e confesso que nunca vi nada mais feio e mais desagradável; as mulheres, sobretudo, eram horrorosas; imaginei ver espectros. O leitor decerto compreenderá que perdi, então, toda a vontade de tornar-me imortal por semelhante preço. Fiquei vexadíssimo com as loucas imaginações a que me entregara sobre o sistema de uma vida eterna neste baixo mundo. O rei, sabendo da conversa que eu mantivera com aqueles de quem falei, riu muito das minhas idéias sobre a imortalidade e a inveja que eu sentira pelos struldbruggs. Em seguida, perguntou-me muito a sério se eu queria levar comigo dois ou três exemplares deles para o meu país, para curar os meus compatriotas do desejo de viver e do medo de morrer. No íntimo, sentiria muito prazer em que me tivesse feito esse presente; mas por uma lei fundamental do reino é proibido aos imortais sair dele. Viagens de Gulliver, Jonathan Swift
Crônicas da Guerra Fria (35) AOS AMIGOS DE CUBA Curitiba - A boa nova, eu a recebi numa segunda-feira, em Madri. Acordei cedo para aparar as cãs e meu barbeiro brindou-me com uma daquelas notícias que faz bem a todo homem que detesta ditaduras: "Le pegaron a Ortega". Caía a penúltima ditadura na América Latina. "Y muy pronto llegará la hora de Castro", avançou meu fígaro*. Fui pródigo em gorjetas naquela manhã cheia de sol. Mal chego ao Brasil, morre Luís Carlos Prestes, o mais corajoso, paranóico, fanático e burro stalinista que percorreu neste século nosso continente. Corajoso a tal ponto que costumo afirmar: gaúcho, quando não presta, dá um Prestes. E o homem que apoiou o Getúlio Vargas, o ditador que enviara sua mulher para os campos de concentração nazistas, o homem que mandou matar Elza Coloni, o homem que em toda sua vida seguiu rigidamente as ordens do império que ora desmorona, este homem que durante mais da metade de sua vida lutou pelo totalitarismo, hoje recebe homenagens de herói ao descer à tumba. Morreu simbolicamente no mesmo dia em que o Partido Comunista obteve seu registro definitivo no Brasil, logo agora que comunista velho e cruzado novo não valem um vintém e os camaradas, numa tentativa de fugir à antiga parassematografia, não sabem se trocam a foice e o martelo por um nabo e um pepino ou, quem sabe, por uma rutabaga e uma ferradura. Mal morre a múmia, vem nos visitar o último ditador latino-americano, precursor da sedizente Teologia da Libertação, quando lutava em Sierra Maestra com um crucifixo ao pescoço, rodeado de medalhas da Virgem da Caridade do Cobre (jesuíta é fogo!), e não por acaso fez palestra para as Comunidades Eclesiais de Base, apresentado pelo maior ficcionista que as letras catarinenses um dia tiveram notícia, frei Leonardo Boff, em encontro que mais evidenciou, como disse alguém, um casamento tardio da Inquisição com o marxismo agonizante. A Lituânia se declara independente do fascismo eslavo, o pensador libertário Florestán Fernandes volta da Albânia declarando seu amor à mais grotesca e mais antiga ditadura dos Balcãs e, na Ilha de Santa Catarina, funda-se uma Associação de Amigos de Cuba, ou seja, de Amigos de Castro, pois se amigos fossem de Cuba deveriam, já na primeira reunião, enviar telex a Castro pedindo que abra as portas de seu gulag tropical. Não está sendo fácil, para o cronista, acompanhar os fatos. Amparai-me, Virgen del Cobre, tu que destes forças a teu devoto para instaurar a mais longa ditadura deste século na América Latina! Desamparado pelos russos e farejando novos tempos, Castro aproveita a posse de Collor para uma ofensiva de charme no Brasil, certamente preparando uma caminha para um eventual exílio, que isso de terminar seus dias na Líbia, Argélia ou Coréia do Norte pouco deve apetecer ao Garanhão Máximo do Caribe que, seguindo a tradição de Vasco Porcallo de Figueroa, um dos primeiros conquistadores espanhóis, semeou parece que uma centena de filhos pela Disneylândia das esquerdas, mais conhecidos como Castricos. Don Porcallo, colonizador de Cuba, onde boleava a perna deixava filho feito e emprenhou boa parte das índias que sobraram das matanças. Segundo a lenda, deixou mais de setecentos rebentos, o que parece servir de emulação ao caudilho que ora nos visita, em sua tentativa de superar os recordes do machismo latino-americano, tanto que os castricos são hoje bem humoradamente chamados pelos cubanos de potricos. Enquanto o grande reprodutor caribenho, travestido de general russo, fala a Marília Gabriela sobre os pijamas listados que usa para dormir - ou imaginaria La Rubia que Castro dormisse de battledress? - os generais russos retomam um velho hábito, o turismo blindado, desta vez pelas ruas de Vilna, na Lituânia, numa tentativa de intimidação ao desejo de respirar dos lituanos e como alerta à Letônia e Estônia, o que vai entortar ainda mais o diminuto cérebro dos comunossauros que, nos últimos dias, parodiando o corvo de Poe, só sabem papaguear: não lembro mais, não lembro mais. Mas eu lembro, e se bem me lembro, ao falar em eleições, Castro queria saber quem elegeu o rei da Espanha ou a rainha da Inglaterra e não ocorreu a La Rubia perguntar se Castro quer iniciar uma dinastia, legando o cetro certamente ao mano Raulito, que se o legasse a algum potrico ia dar guerra civil na luta pelo usufruto de uma ilha tropical, cujo proprietário gaba-se de suas habilidades culinárias no preparo da lagosta enquanto os cubanos comem massa com molho de tomate, isso quando têm a sorte de encontrar os dois. Tampouco lembraram de perguntar, os jornalistas brasileiros, porque sendo tão linda a ilha e tão perfeito o sistema - a ponto de merecer as louvações de sua Eminência Reverendíssima Cardeal Arns, Paulo Evaristo -, os cubanos não têm direito a passaporte e dela não podem sair e por que quando de lá saem não voltam mais. Perguntado sobre seus medos, respondeu Castro que teme um dia não poder servir mais à revolução. Mas jornalista algum - muito menos La Rubia - ousou interrogá-lo sobre seu medo fundamental, a livre informação. Enquanto o mundo todo é bombardeado pelas emissões das rádios Havana, Moscou e Pequim, Fidel Castro Primeiro e Único treme em seu trono ante a perspectiva de que as emissões da TV Marti informem seus súditos sobre o que acontece fora da ilha e, particularmente, no Leste europeu. Mas por que tanta apreensão, companheiro? Em caso de desemprego, dado o deslumbramento das esquerdas brasileiras pela tirania, sempre lhe restará algum papel nalguma escola de samba, o de último caudilho do continente, e nem vai ser preciso comprar barba postiça. Cuba é ilha cheia de miragens, tanto que já enganou Colombo, que ao bordejá-la estava certo de ter chegado ao Japão, para espanto dos acadêmicos de Espanha que negavam tal feito. Colombo ria dos acadêmicos, afinal eram teóricos e não navegantes, enquanto ele, o nauta, lá havia estado. O que mais uma vez nos confirma que muitas vezes o homem ignora completamente as circunstâncias que o envolvem. Consta que Colombo, em sua viagem, buscava nada menos que o paraíso, como pelo paraíso pensam ter passado fanáticos deslumbrados que cantam as virtudes de um sistema social no qual não suportariam viver um mês na condição, não de turistas, mas de cidadãos comuns. Os teólogos da libertação (mas onde se viu teologia libertando?) e suas macacas de auditório entoam loas ao homem que, em 1961, como nos conta Carlos Franqui, seu companheiro de guerrilha, deportou de Cuba milhares de sacerdotes e freiras, acabou com as igrejas, fechou os colégios religiosos, mesmo aqueles nos quais havia estudado, acabou com o Natal e ano Novo, dia de Reis, Semana Santa e demais tradições cristãs que os cubanos, religiosos ou leigos, praticavam entre a festa e a fé. Ainda segundo Franqui, a constituição de 1976, as leis, códigos e disposições estabelecem uma clara discriminação para os que não se declarem marxistas ou pratiquem alguma fé ou religião. Ser católico impede ser membro do Partico, digo, do Partido do pai dos potricos, e não ser membro do Partido Comunista impede o acesso, na melhor tradição tradição stalinista, a qualquer posição importante no Estado cubano. Hei, hei, hei, Fidel é nosso Rei. Uma turista francesa, ao ler em um ônibus a inscrição PAREDÓN PARA LOS TERRORISTAS, interpretou a coisa segundo sua fé. "Pardon pour les terroristes? Oh, ils sont gentils, les Cubains!" Terroristas, é claro, é quem exige eleições livres, alternância de poder, pluripartidarismo, economia de mercado e liberdade de expressão. PERO YO, FIDEL ALEJANDRO CASTRO RUZ, SOY LA REVOLUCIÓN: LA REVOLUCIÓN TIENE OJOS, TIENE OÍDOS. Cuba é miragem. Há muito venho denunciando tais miragens, para escândalo dos desejosos de crer. Mereci, recentemente, por parte de um leitor em pane, o apodo de esquizofrênico. Ora, esquizofrenia é uma psicose que ataca particularmente os jovens, logo, dela estou salvo. Se esquizofrenia é demência precoce, sou então o que se chamaria de esquizofrênico tardio. Gabriel Garcia Márquez, por exemplo, não merece tal pecha: jamais criticou seu dileto amigo Fidel, embora o tenha pintado, sem querer, em O Outono do Patriarca. Recebeu o Nobel e doou parte das coroas suecas à guerrilha colombiana. Em meio a isso, leio nos jornais que tenho ilustre parceria. Mário Vargas Llosa, cuja vendagem de livros caiu no mundo inteiro quando passou a denunciar a ditadura cubana, foi galardoado pelo garanhão do Caribe, em sua visita ao Brasil, com o título de esquizofrênico. Parece que um novo palavrão ideológico vai invadir os jornais nestes dias de amnésia. * Santa ingenuidade de meu fígaro. (Joinville, A Notícia, 08.04.90)
Domingo, Novembro 11, 2007
REINALDO AZEVEDO FELIZMENTE PLAGIA CRONISTA INDEPENDENTE A Folha de São Paulo de hoje traz reportagem que muito me alegra. Pela primeira vez na grande imprensa, surge a palavra apedeuta como definição de Lula. No ano mesmo de sua eleição, em crônica intitulada "Eu sou o que sou", publicada no Baguete Diário, jornal eletrônico de Porto Alegre (29/03/2002), pareceu-me oportuno qualificá-lo como apedeuta: "Até hoje as esquerdas são pródigas em contar piadas sobre a falta de cultura de Costa e Silva. Mas Costa e Silva fez Escola Militar, cujo acesso não é para qualquer apedeuta". Em 19 de agosto do mesmo ano, no mesmo jornal, na crônica intitulada "O neoaparatchik", voltei ao tema: "Existe uma raça de apedeutas que se sentem muito eruditos quando usam proparoxítonas ou quadrissílabos. No debate organizado pela Folha de São Paulo, na segunda feira-passada, ele se superou. Lá pelas tantas, arrotou erudição: 'Entretanto, há coisas a serem feitas concomitantemente'. Embriagado pelo próprio verbo, feliz pelo heptassílabo, perguntou ao interlocutor: 'Gostou do concomitantemente?'" Em 17 de março de 2003, no artigo "Armadilha para negros", publicado no jornal eletrônico MSM, escrevi: "O atual presidente da República está longe de ser o primeiro apedeuta a assumir o poder neste país. Câmara e Senado estão repletos de analfabetos jurídicos, que nada entendem da confecção de leis nem sabem sequer distinguir lei maior de lei menor". Na tradução do artigo para o inglês, "A Trap for Blacks", publicada na revista Brazzil, de Los Angeles, o tradutor teve um feliz achado: First Ignoramus. Our current President is far from being the first ignoramus to take office in this country. Both the House and the Senate are full of juridical illiterates who understand nothing about lawmaking and can't even distinguish major from minor laws. Daí a associar apedeuta com supremo, foi um passo. De um lado, eu tinha em mente o romance de Augusto Roa Bastos, Yo, el Supremo (1974), baseado na história de Gaspar Rodríguez de Francia (doctor Francia), que governou o Paraguai durante 26 anos. Por outro lado, a associação com Primeiro Magistrado ou Supremo Magistrado da nação tornou-se óbvia. Supremo Apedeuta soava como expressão erudita - e não deixa de sê-la - ao mesmo tempo que afirmava o analfabetismo do personagem sem chamá-lo de analfabeto. Em 01 de agosto de 2004, no artigo "In Brazil, Good News Is No News", publicado na mesma revista, eu escrevia: For sure, Brazil's government would take pleasure in installing its own peculiar form of dictatorship. Marxism has always run in the veins of the Workers' Party. It's in the DNA. Not by chance, every so often, ghostwriters for President Lula, the Supreme Ignoramus, find room to insert a Stalinist author amidst his fastidious speeches. E mais adiante: Nor do I deem possible that any party, no matter how obsolete, can drag this country into a communist regime. Will the Supreme Ignoramus manage to transform this pluralistic society into a single party regime? Do away with elections and replace them with a one candidate farce? Em "Fala, ó metamorfose ambulante", publicado também no MSM, em 20 de setembro de 2004, lá está: "Durante solenidade em Brasília, o Supremo Apedeuta disse que 'o ser humano não tem que ter medo de ser uma eterna metamorfose ambulante', fazendo referência a um dos sublimes autores que embasam sua erudição". Em julho de 2006, na mesma Brazzil, eu escrevia: Again, the quotas. The white guild wants to protect the corporation. While the country was getting thrilled and distracted by the World Cup, the project was approved almost clandestinely in Congress. It now depends only on a veto or an approval by the Supreme Ignoramus, the president. It's amazing that such a rule would appear now in these Internet days, a time in which any citizen can start his blog and do journalism the way he pleases. Em suma, para meu prazer, a expressão foi fazendo fortuna na mídia eletrônica. Tanto o Supremo Apedeuta como o Supreme Ignoramus. Nada lisonjeia tanto um jornalista como ver seus achados correndo mundo. Em agosto de 2006, o ator Carlos Vereza, em entrevista a Jô Soares, largou pela primeira vez a expressão na televisão. No dia 21 do mesmo mês, o cronista chapa-branca tucanopapista Reinaldo Azevedo escrevia em seu blog: Memórias do PT 3 - Vereza e a "glamourização do Apedeuta". Reparem na platéia O ator Carlos Vereza era um dos entusiasmados assinantes da extinta Primeira Leitura. Chegamos a nos falar duas vezes. Ele tinha grande admiração pela revista. No auge do mensalão, foi entrevistado no Programa Jô Soares e fez um discurso muito interessante. O vídeo está em dois tempos, vejam até o fim. Num dado momento, Vereza diz que "Lula é a glamourização do apedeuta (uma palavrinha importante para nós, hehe), a glamourização da ignorância". E tanto ele como Jô Soares falam do partido "tentacular". Prestem atenção à reação da platéia. Como foi que a oposição deixou passar aquele momento??? Bom, a palavrinha importante para nós não é achado do Vereza. De 2002 para cá, escrevi pelo menos 50 crônicas, onde uso as expressões apedeuta ou Supremo Apedeuta. Mais tarde, lendo ao azar a revista tucana Primeira Leitura, vi que o jornalista chapa-branca tucanopapista a empregava várias vezes. Maravilha, pensei, minha trouvaille já é de conhecimento dos partidos de oposição. Ocorre que, conversando com outros jornalistas, fiquei sabendo que o autor do artigo reivindicava a autoria da expressão. Na ocasião, escrevi: - Alto lá, senhor Reinaldo Azevedo. Supremo Apedeuta é cria minha, e isto qualquer pesquisa rápida no Google pode comprovar. Use e abuse da expressão, quantas vezes quiser, divulgue-a aos quatro ventos, isto só me faz feliz. Mas não pretenda tê-la criado. Isto é muito feio para um jornalista. Ou, para usarmos uma palavra da moda, é antiético. E não fica bem para o porta-voz de um partido que pretende dar um banho de ética no partido que se dizia dono da ética tomar atitudes assim antiéticas. O Supremo Apedeuta é meu. Na reportagem de hoje da Folha, leio: "Apedeuta" Em seu blog, Reinaldo Azevedo não vive sem provocar polêmicas. Entre suas expressões favoritas estão "chutar o traseiro dos adversários" e "petralha', neologismo que diz ser "a variação petista dos Irmãos Metralha: sempre de olho na caixa-forte". A palavra campeã de audiência é a usada para se referir ao presidente Lula: "apedeuta" (pessoa sem instrução, ignorante). Fico grato pela difusão que Reinaldo Azevedo tem dado à minha trouvaille. É bom que a palavrinha chegue à grande imprensa. É bom também saber que o cronista tucanopapista se inspira na leitura de cronistas independentes, que não são capachos de partido nenhum.
Crônicas da Guerra Fria (34) BAITAS MACHOS Curitiba - Andei lendo, outro dia, as memórias de um ex-guerrilheiro gaúcho, um desses meninos revoltados, oriundos geralmente de família burguesa, que são capazes de levantar-se em armas contra o Estado enquanto não recebem poder e regalias. Hoje, confortavelmente sentado nas poltronas do poder, o guerrilheiro de pijamas evoca com saudosismo seu passado stalinista, tentando pintar como heroísmo o que não passou de atroz estupidez. Mas isto é o de menos, afinal está virando moda e modas não me interessam. O homem transitou pela Argentina, Chile, Argélia e acabou em Paris, sonho de todo revolucionário, afinal Paris foi a cidade que abrigou o maior contingente de exilados latino-americanos. As esquerdas podem se enganar quanto aos rumos da História, mas na hora do bem-bom ninguém tem dúvidas, antes a burguesa Lutécia do que o desconforto das heróicas Havana ou Moscou. Mas isto tampouco importa. Impressionou-me no livro, não seu caráter de diário de viagem, com fotos idiotas de alguém que julga estar vivendo um momento histórico por onde quer que passe, vício ancestral de todo comunossauro, que ao substituir Deus pela História esqueceu que se o finado Adonai era absoluto, a História é muito relativa. Impressionou-me, isto sim, um pequeno episódio ocorrido em Valparaíso. O bravo guerrilheiro, tendo deixado sua amada no Sul, repousa na cama de uma chilena. Quando sua Dulcinéia, no melhor estilo das fotonovelas cristãs, vai encontrá-lo em Santiago, o corajoso revolucionário abandona, sem sequer despedir-se, a moça que o acolheu em seus dias de exílio. Baita macho! O homem enfrentou polícia, exércitos, ditaduras e, na hora de ser honesto com uma parceira, enfiou o rabo entre as pernas e fugiu qual cachorro magro. Conquistar o mundo - ou uma sinecura, para revolucionários gordos e mais modestos - parece ser empreendimento mais fácil do que olhar nos olhos da pessoa que dia abraçamos e que nos fez felizes. Falando assim no plural, confesso estar falando à toa, afinal jamais participei de tais covardias. Mas já encontrei não poucos valentes capazes de tomar de assalto um ninho de metralhadoras sem ter, no entanto, a coragem de confessar à própria companheira onde e com quem passaram a noite. Em meus dias de universitário, desde minhas primeiras incursões ao território do outro sexo, sempre fui partidário de uma glasnost afetiva e sexual. Estudante de Filosofia e Direito e leitor ávido de Platão, Nietzsche, Dostoievski e Pessoa, entre outros, monogamia sempre me soou como solene balela dos papistas. Homem que conhece uma só mulher, a meu ver não conhecia nenhuma, pois não tinha elementos de comparação. O mesmo sempre afirmei sobre a mulher que conhece um único homem e jamais exigi fidelidade de companheira alguma. As amigas daqueles dias, hoje todas bem casadas (afinal, não casaram com este que vos escreve) certamente guardarão uma grata lembrança de um dia ter encontrado alguém que jamais mentiu nem precisou buscar bares discretos para encontrá-las. Sou fiel, isto sim, a bares. Para não traí-los, sempre marquei encontros com elas nos mesmos bares e mesas. Desde que me entendi por gente, passei a ter uma visão atéia do mundo e não tinha razão alguma para submeter-me aos grilhões de Roma. Admirávamos, nos anos 60, a relação aberta existente entre Sartre e Simone de Beauvoir, cada um vivendo sua vida e elaborando sua obra sem interferir na vida do outro. Admirávamos é modo de dizer, o verbo talvez ficasse melhor no singular. Pois se era lindo Sartre e Simone terem respectivamente seus amantes lá em Paris, em Porto Alegre o papo era outro. Uma troca de esperma sempre rejuvenesce uma mulher, dizia Henry Miller. Em Paris, é claro. Mal uma esposa ou namorada sedenta de outras emoções aventava tal hipótese, os machões gaúchos, por mais lidos e liberais que fossem, se arrancavam os cabelos: "Estás louca! Como levar este tipo de vida nesta sociedade mesquinha? Fosse em Paris, tudo bem". Como nem um nem outro iam a Paris - e se lá estivessem, continuariam vivendo a mesma miséria sexual - o macho continuava a exercer sua tirania. Mas dos anos 60 para cá, as mulheres entraram de rijo no mercado de trabalho. E quem é dona de seu sustento é dona de seu corpo. A mulher deu um passo à frente e o homem não conseguiu acompanhá-la, daí a avalanche de separações de nossos dias. Mas falava de Simone. Apesar de admirá-la, a mulher sempre foi uma pedrinha em meu sapato, pelo menos no curso de filosofia. O Segundo Sexo era um dos ensaios em moda, e mal eu propunha a uma colega uma relação erótica, meramente lúdica, lá vinha pedrada: "estás achando que eu sou mulher-objeto?". Este maldito conceito, elaborado às margens do Sena, roubou-me centenas, talvez milhares de horas de folgança. Eu queria apenas dar e receber prazer, pois esta história de amor e sexo é coisa de católico e católico eu não era e muito menos a Simone. O remédio era buscar prazer em outras áreas, junto às enfermeiras, bancárias, balconistas e profissionais da noite, moças que jamais haviam lido Simone e se entregavam a seus instintos sem o freio mental das universitárias que liam Simone. Em Paris, a Gallimard acaba de lançar Lettres à Sartre, epistolografia póstuma desta senhora que de tantos prazeres me privou em meus dias de aprendiz de filósofo. Numa espécie de voyeurisme literário, la Beauvoir relata a seu companheiro suas lides de leito com homens e mulheres. Junto com esta obra, foi lançado seu diário, Journal de Guerre, septembre 1939 - janvier 1941. E não é que em plena guerra Simone fazia com as moças o mesmo que eu queria fazer com elas em tempos de paz? Só que elas não deixavam, pois haviam lido Simone. Destaco uma pérola, datada de um réveillon: - Já são 6h10min - diz Simone - e eu acho que ela calcula o tempo que restará para os abraços, isto me irrita, eu lhe propus uma hora a mais para escutar música e ela resmunga. Sei que sou injusta, ela me vê tão pouco, ela não pode suportar estar encerrada comigo em um quarto sem estar em meus braços... Enfim, eu a pego em meus braços e em cinco minutos estamos na cama. Abraçadas. Mal acabamos, ela se agita e soluça: "Foi um fracasso, não há nada a fazer", etc., e logo ela se desmancha com minhas carícias. Acendemos a luz, nos vestimos e como ela quer ainda me pegar, tenho um movimento de humor que lhe traz lágrimas aos olhos, do qual me desculpo banalmente. Pois confesso jamais ter sido assim indelicado com uma mulher, e muito menos tão indiscreto. A líder e teórica das feministas foi tão linguaruda, mesmo em vida, que fez um Mauriac escrever a propósito de um de seus romances: On sait déjà tout sur le vagin de cette dame! O mesmo não escreveria, por exemplo, Drummond de Andrade, para quem "as coisas de cama são segredo de quem ama". Ou nem tanto. Pois o poeta que cantou Stalingrado ao mesmo tempo que trabalhava para o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), durante a ditadura de Getúlio Vargas, foi postumamente flagrado em sua mineirice. Uma exposição de fotografias no Rio de Janeiro, que comemora o sexagésimo aniversário da publicação do primeiro livro do poeta, nos revela seu caso secreto, uma moça com quem conviveu durante 36 anos. Apesar de ter o dobro da idade de sua musa, Drummond ainda se dava ao luxo de alimentar este sentimento inerente aos inseguros e pobres de espírito, o ciúme. A vida dúbia e hipócrita vivida pelo poeta que acenava para as esquerdas e comia milho na mão de Getúlio Vargas quase o privou deste afago fundamental, apertar a mão de quem amamos quando estamos de partida. Enquanto Drummond morria no hospital, sua companheira não podia vê-lo, dada a presença da esposa do poeta no quarto. Finalmente, com a intervenção de um neto, Dolores saiu e Lygia pode apertar-lhe a mão até o último suspiro. E assim são os heróis desde século, em prosa e verso cantados, mitificados em vida e reduzidos a farelo mal descem à tumba. (Porto Alegre, RS, 28.04.90. Joinville, A Notícia, 03.05.90)
Sábado, Novembro 10, 2007
CARDEAL VÊ CEMITÉRIOS COMO REPUGNANTES Tenho um apreço especial por cemitérios. Não vai nisto nada de necrofilia, como já pretenderam alguns de meus leitores. Gosto do silêncio e da paz que neles impera, da arquitetura dos túmulos e de observar as vaidades póstumas que os túmulos traduzem. Além do mais, é uma geografia oportuna para se meditar sobre a fugacidade da vida. Um dos cemitérios mais lindos que vi em minha vida foi o de Salzburg, totalmente integrado ao centro da cidade, sem muro algum, ao lado de bares, lojas e residências. Um outro foi em Oslo, ou talvez Helsinki, já não lembro. Eu passeava por um bosque e as tumbas - certamente protestantes, já que eram placas rasas de mármore, nada de mausoléus - foram surgindo aos poucos, uma aqui, outra acolá. Sem perceber, de repente encontrei-me em pleno campo-santo. Atravessei-o e as tumbas começaram a rarear, devolvendo ao bosque sua natureza de bosque. Nos países nórdicos, os hiperbóreos encontraram uma fórmula que torna trivial e afável o convívio com a morte. Os cemitérios em geral estão em torno às igrejas. Em sueco, kyrkogården. Ou seja, o jardim da igreja. A cada vez que o crente vai fazer suas preces ou cumprir seus cultos, aproveita e faz um aceno aos que lhe antecederam na grande viagem. É o mesmo cumprimento que faço todos os dias à minha Baixinha adorada. Suas cinzas, joguei-as no jardim de meu prédio. Assim, todos os dias, ao voltar e sair de casa, passo por ela. Ou melhor, entre ela. Existiriam religiões se o homem fosse imortal? Diria que não. Toda religião decorre do medo da morte e do desconhecido. Todos os três monoteísmos abrâmicos acenam com uma vida post mortem. No cristianismo, todos os homens serão ressuscitados e, conforme seus méritos, merecerão as delícias do paraíso e o encontro com o Senhor, ou o sofrimento eterno no inferno. Para Maimônides, "a recompensa máxima é o mundo futuro e a punição máxima é a extinção". Para Ibn Khaldun, Deus determina o destino de cada coisa criada. "Ele causa nossa ressurreição depois da morte. Esse constitui o toque final no cuidado de Deus pela primeira criação. Se as coisas criadas estivessem destinadas a desaparecer completamente, a sua criação teria sido inútil. Estão destinadas à existência eterna após a morte". Sacerdotes, profetas e criadores de religiões são extremamente hábeis na manipulação dos medos humanos. E o medo maior é a morte. Leio no Estadão de hoje artigo de Dom Odilo Pedro Scherer, cardeal-arcebispo de São Paulo e secretário-geral da CNBB, sobre "O drama da morte e o sentido da vida". Dom Odilo é aquele purpurado que deposita confiança integral na lisura do padre Lancellotti, sacerdote que tem mentido descaradamente à imprensa e às autoridades ao defender-se das acusações de pedofilia e desvio de dinheiro destinado a ONGs. (Não é o cronista quem afirma isto. É o próprio padre com suas declarações que mudam de um dia para outro). Enfim, isto não importa no momento. Em seu artigo, o príncipe da Igreja fala do Dia de Finados e, ao referir-se a cemitérios, diz existir "uma estranha atração por esse lugar, que tem, ao mesmo tempo, algo de repugnante e de familiar". O prelado católico lembrou-me os leitores que me julgam necrófilo por gostar de passear entre tumbas. Sem acreditar em justiças futuras nem em tribunais do Além, considero a morte uma instância natural da vida. Dói em quem fica, é verdade. Mas, salvo se não partirmos antes de nossos amados, todos temos de enfrentar estas instâncias e dores. Assim sendo, me surpreende ver um homem cujo ofício depende fundamentalmente da morte considerar repugnante a geografia onde jazem os que partiram. Confesso jamais ter ouvido, nem de crentes nem de ateus, referência tão pejorativa a um lugar que sempre nos evoca ternura, saudades e reverência pelos que nos antecederam. "Muitos já tentaram explicar a morte" – escreve o cardeal –. "Os povos, com suas culturas, filosofias e religiões, em todos os tempos, tentaram entender a morte e sugeriram atitudes coerentes para enfrentá-la. Também a ciência dá sua explicação. Porém o mistério permanece". Ora, não há mistério algum na morte. Não há nada a explicar sobre a morte. Tudo que respira morre. Faz parte da vida. Confere mistério à morte esta infame estirpe de sacerdotes, que faz da morte seu ganha-pão. Quando levei o corpo de minha Baixinha à capela do crematório, um Cristo meio pelado dominava uma das paredes do recinto. "Tirem isso imediatamente daí" – ordenei. Só o que faltava minha amada, em seu momento final, fazer propaganda dos mercadores da morte. Se a morte é o encontro com Deus, todo cristão deveria correr alegremente ao encontro da morte. Quem elucidou bem esta questão foi Albert Camus, em A Peste. O padre Paneloux faz uma longa exposição sobre os flagelos que acometeram os homens por vontade divina. Como o Cristo, ele aceita passivamente o Mal, sem mesmo se interrogar sobre as eventuais motivações da divindade. Se o Cristo, em um momento de sua agonia, deixa escapar o "lamma sabachtani", Paneloux morrerá sem uma só palavra nos lábios. "Há muito tempo, os cristãos da Abissínia viam na peste um meio eficaz, de origem divina, de se obter a eternidade. Aqueles que não haviam sido atingidos se enrolavam nos lençóis dos pestíferos para terem a certeza da morte. Sem dúvida, este desejo furioso de saúde não é recomendável, pois denota uma deplorável precipitação, bem próxima do orgulho. Não se deve ser mais apressado do que Deus. Tudo o que pretende acelerar a ordem imutável, estabelecida de uma vez por todas, conduz à heresia. Mas este exemplo, pelo menos, traz sua lição. Para nossos espíritos mais clarividentes, faz luzir este brilho delicado de eternidade que jaz no fundo de todo sofrimento. Esta luz ilumina os caminhos crepusculares que conduzem à libertação. Ela manifesta a vontade divina que, sem falhar, transforma o mal em bem". Ocorre que hoje não se fazem mais cristãos como os da Abissínia. Quando Jesus está chamando, até o papa recorre à medicina de ponta. Ora, quando alguém morre, a reação coerente de um católico seria dizer: graças a Deus! "A antropologia cristã traz ensinamentos luminosos para compreender essa realidade extrema: Deus é o 'amigo da vida' – continua o cardeal – "que não deseja a morte eterna para suas criaturas. O ser humano é feito para a vida, e não para a morte, que não terá a última palavra sobre sua existência". Ora, ainda há pouco eu escrevia sobre as multidões que o Deus do cardeal mandou massacrar. Não vou repetir. Que mais não seja, basta olhar a Bíblia. Não há nenhum outro deus no mundo que tenha mandado matar tanta gente. Dom Odilo, como também o Bento, precisar reler as Santas Escrituras e parar de enganar as gentes com esse papo de amigo da vida. Se o tal de deus não desejasse a morte eterna para suas criaturas, a Igreja não teria criado o inferno. Dom Odilo fecha seu artigo com a fanfarronada de Paulo: "A visita ao cemitério, por isso, também é uma ocasião para proclamar, com São Paulo: 'Onde está, ó morte, a tua vitória?' (1 Cor. 15, 55). Nas orações que fazem e, sobretudo na celebração da Eucaristia, os cristãos anunciam a morte de Jesus Cristo, proclamam sua ressurreição e manifestam sua firme esperança de participar um dia, com Ele, na vida eterna". De minha parte, não tenho vocação alguma para herói e tampouco maiores preocupações com o que possa acontecer com a humanidade. Não vejo, no entanto, maiores virtudes em morrer pela humanidade sabendo que vou ressuscitar três dias depois. Assim é fácil, acho que até eu daria uma de Salvador.
Crônicas da Guerra Fria (33) O MURO SEXUAL Berlim - Um dia antes da derrubada física da parte do muro que divide Berlim, fui até a Porta de Brandenburgo colher meus caquinhos. Se você vem do Leste pela Unter den Linden, mal se aproxima do muro logo começa a ouvir aquele matraquear incessante dos alemães e turistas ocidentais picando o concreto do outro lado, tentando arrancar um souvenir da barbárie. Aproximando-se da porta pelo lado ocidental, pela Strasse des 17 Juni - agora espontaneamente rebatizada por Nove de Novembro - o panorama é mais divertido. Centenas de pessoas dirigem-se ao muro de martelo e punção em punho, enquanto os orientais invadem a avenida com sacolas vazias, em busca de coisas mínimas que por décadas lhes foram proibidas. Enfim, melhor seria conjugar este passeio no passado, afinal aquela parte do muro não mais existe e, com a derrocada do fascismo eslavo, o mercado de seus cacos está sendo substituído pelos símbolos de um regime também obsoleto, as insígnias, distintivos e medalhas com a estrela vermelha ou a foice e o martelo. (Atenção, velha e jovem guardas stalinistas: o que já foi motivo de prisão terá, daqui por diante, valor crescente. Nestes dias de cruzeiros curtos, titularidades perdidas podem ser compensadas com uma banquinha de relíquias no brique da Redenção). Mas não era disto que pretendia falar. E sim de sexo. Lá no Leste. Lieb steht nicht auf dem Plan (O Amor não está escrito no Plano), livro redigido a quatro mãos pela jornalista russa Tatiana Suworowa, da agência Tass, e por seu colega Adrian Geiges, da RDA, recentemente lançado na Alemanha Ocidental, nos revela a miséria sexual de boa parte do mundo socialista, a tragédia de sociedades de um puritanismo de fazer inveja a João Paulo II, onde fora do casamento não há salvação. "Toda experiência erótica enriquece a alma humana", escrevia Alexandra Kollontai, bolchevique itinerante dos anos 20, em seu livro A Revolução Sexual. O mesmo não pensava o ex-seminarista Joseph Vissarionovitch Djugatchivili, hoje mais conhecido como Stalin. E um universo materialista e ateu, de onde foi expulso o deus cristão, permaneceu décadas - e ainda permanece - sob o império de uma ideologia que odeia o corpo, tão grata ao aiatolá de Roma. Os depoimentos colhidos pelos autores nos fazem voltar às tardes cinzentas da Idade Média. - A primeira vez que eu deitei com um homem - declara uma russa de 23 anos, empregada da Administração - eu não sabia como se faz um filho. Isto me trazia problemas quando lia livros estrangeiros. Quando li Fiesta, de Hemingway, eu não entendia o que estava acontecendo entre homens e mulheres. - A masturbação é uma doença - diz uma engenheira de 25 anos - uma doença terrível que se desenvolve durante a infância. É preciso explicar às crianças os danos causados por essa atividade, é preciso levar as crianças a pensar em outras coisas. - Isto está indo longe demais - protesta fora de si, o secretário do Partido de uma grande empresa moscovita -. Imagine o que esses pretensos autores estão fazendo. Esses tipos interrogam nossos empregados sobre a masturbação! Tais questões sapam a ideologia de nosso Estado e permitem à propaganda burguesa lavar os cérebros de nossos operários. Com o simples fato de mencionar noções como essa, pode-se destruir a moral comunista. Se a masturbação é doença e tabu, homossexualismo é crime e maldição. - É preciso liquidar os homossexuais, são todos seres inferiores - diz uma laboratorista de 21 anos. - É um fenômeno inquietante, eles deviam ir presos - declara uma operária da indústria têxtil. - A sociedade deve eliminá-los - opina um estudante de jornalismo, 27 anos. - Devem ser torturados - propõe um chofer, 22 anos. - Depois dos anos 30 - diz uma estudante de cinema, 20 anos - a alegria de viver não mais existe em nosso país, prega-se o ascetismo. São poucas as pessoas que podem falar livremente da sexualidade, sem preconceitos, sem corar nem sentir vergonha. O sexo tem uma função reprodutiva, e é só. Segundo os autores, uma grande parte das mulheres interrogadas, raramente - ou nunca - têm orgasmo. As chances de conhecer a satisfação sexual constituem privilégio masculino. Mais de um terço das mulheres admite jamais ter chegado lá, nem se masturbando, nem por ocasião de relações sexuais. A maior parte dos homens acha que o vai-e-vem do pênis na vagina é mais que suficiente para proporcionar prazer à mulher. Raros são os que sabem alguma coisa sobre o papel decisivo do clitóris. Quais muçulmanos, ainda não descobriram o que é bem bom. Que mais não seja, para a reprodução, o clitóris não faz falta alguma. Exceção feita da Polônia e Hungria, onde a duplicidade da cultura católica deixa certa margem ao prazer, os autores constatam nos demais países do Leste um total analfabetismo do corpo, puritanismo, vigilância incessante, intolerância aos pecados mais veniais e uma legislação anti-homossexual medieval. Aproveitando o lançamento deste livro que desponta como um dos primeiros bestsellers da era pós-comunista, a revista parisiense L’Evenement du Jeudi enviou seus repórteres às repúblicas socialistas vizinhas para auscultar a saúde sexual dos camaradas do leste. Na Alemanha Oriental, talvez por influência da irmã vizinha, o nível de tolerância às opções sexuais de cada um é bastante satisfatório. Um homossexual arrisca de ouvir na rua perguntas como 'eles esqueceram de pôr no forno em 45?", é verdade, mas já se fala em um partido gay para as próximas eleições. Claro que a RDA ainda sequer cogita das sexshops da Alemanha Ocidental. Com a derrubada do Muro, as lojas de Beate Hushe, antes entregues às moscas, voltaram a locupletar-se de clientes, famílias inteiras do lado oriental, rindo entre perplexas e nervosas, ante a colorida oferta de gadgets, filmes e revistas pornográficas. Na Tchecoeslováquia, a revolução sexual ocorreu há vinte anos, o adultério sempre foi praticado como esporte e hoje, tanto tchecos como eslovacos estão mais imbuídos do amor a Vaclav Havel do que a outros amores. Na Polônia católica, sexo continua sendo tabu e os aiatolás polacos conseguiram até mesmo proibir que se fale em contracepção. Na Iugoslávia, que sempre repudiou o stalinismo, liberdade sexual não é novidade. O tétrico da coisa sobrou para a Romênia de Ceaucescu. - Em dez anos - declara o romancista Florin Iaru - só foi possível publicar um único livro sobre sexualidade e mesmo assim... Quando se chegava ao capítulo dos desvios sexuais, fim para toda e qualquer explicação científica! Dizia-se que era efeito dos costumes podres do Ocidente. Mihaï Bacanu, redator-chefe do Romana Libera, após ter saído da prisão, conta como fazia para escapar ao arbítrio dos Ceaucescu: - Para driblar a censura, em vez de dizer "igreja" empregava-se palavras como prédio ou casa. Quanto a sexo, no entanto, não havia palavras possíveis, nenhuma referência, nada senão o não-dito. Mas o melhor mesmo nos conta Ioanna Craciunescu, atriz de cinema: - Certa vez, eu interpretava uma francesa que havia combatido no maquis durante a guerra. Ela casava com um romeno e o seguia até Bucareste. À noite, ela jogava as roupas de baixo ao pé da cama. Claro que a cena desapareceu durante a montagem. Mas o pior ocorreu durante a filmagem de Ion, um filme baseado no romance de Liviu Rebreanu. Uma jovem camponesa se deixa seduzir por um homem ambicioso. Esta cena, eu a repeti seis vezes. Meu jeito de gritar enquanto ele me fazia amor parecia por demais sugestivo. No final, eu só emitia um pequeno suspiro, como se alguém tivesse me beliscado. Em sua tentativa de castrar os romenos, os Ceaucescu obrigaram os criadores a exóticos malabarismos. Florin Iaru, por exemplo, quando tinha de escrever "sexo", escrevia "caneta esferográfica". Em vez de "orgasmo", grafava "marasmo". A censura nada entendia e deixava passar. O muro de Berlim caiu. Falta ainda derrubar outros. Sem uma perestroika no Vaticano, não vai ser fácil. (Porto Alegre, RS, 14.04.90)
Sexta-feira, Novembro 09, 2007
MALA ORTOGRAFIA Se há algo que me afasta de um restaurante é ver cardápios mal redigidos. Lembro que em Santa Catarina, seguidamente eu via filés "à moda do Chefe". Eu supunha que deveriam ser "à moda do Chefe de Polícia". Porque Chef é outra coisa. Foi lá que encontrei uma pérola da culinária catarinense, o filé à la guarani. Que é isso? – perguntei. É um filé com guarnição, me respondeu o garçom. Fiz um longo percurso para elucidar o enigma. Ao que tudo indica, a história deve ter começado com filé garni. Alguém mais erudito no restaurante deve ter percebido algum erro e corrigido: filé à la garni. Finalmente, alguém ainda mais culto, deve ter notado que isto não existe, e o correto mesmo seria filé à la guarani. Aqui em São Paulo, mesmo em restaurantes de bom nível, é difícil encontrar quem grafe corretamente os peixes “à la belle meunière”. Já vi à la belle muniére, à la belle minière e um achado até que interessante: à la belle manière. Ou ainda, as trutas à la suíssa. Supondo-se que se tratem de trutas à la Suíça, a idéia que passa é a de um peixe escalando o Mont Blanc. Enfim, devemos dar um desconto a restauradores que pouco ou nada entendem do francês. Mas, insatisfeitos de estropiar a língua alheia, não falta quem estropeie a própria. Tenho visto, em inúmeros restaurantes, fraudinha por fraldinha. Sauva tua auma enquanto é tempo. Nos restaurantes em que me sinto bem apesar dos erros de grafia, proponho ao patrão revisar o cardápio. Alguns aceitam. Considero que quem não domina a língua não pode dominar a boa culinária. Mas já estou entregando os pontos à bárbarie. Ou então não acho mais onde comer em São Paulo. Outro dia, eu passava por uma agência de viagens que estava sendo instalada. Um pintor desenhava as letras do cartaz. E já ia pintando EXCURÇÕES. Não agüentei. Entrei na agência ainda em fase de montagem e chamei o responsável. Moço, se você vai lidar com pessoas que viajam, vai relacionar-se até mesmo com gente culta. Aquele EXCURÇÕES vai pegar mal. Pessoalmente, eu não entraria numa agência que grafa EXCURÇÕES. Ele ficou um tanto perplexo, mas foi receptivo à minha sugestão. Alguns dias depois passei por lá e a palavra estava grafada corretamente. Vi esta notícia, em primeira mão, no jornal espanhol El País. Por enquanto, não a vi na imprensa nossa, nem mesmo no jornalismo on line: A LA CARCÉL POR MALA ORTOGRAFIA Un error ortográfico tuvo la culpa de que dieran con sus huesos en la cárcel. Siete ladrones que intentaban hacerse pasar por empleados de una empresa de alimentación para robar en un edificio residencial de Sao Paulo, en Brasil, fueron detenidos ayer al intentar entrar en el edificio con un vehículo en el que aparecía escrita la palabra Impório, en lugar de Emporio. Según informaciones policiales, los siete hombres, sospechosos de estar implicados en robos contra empresas de transporte de fondos, intentaban entrar en los apartamentos con el pretexto de entregar cestas de comida, con vinos y "panetones" bizcochos con frutas). Las sospechas policiales tuvieron una clara confirmación al ver el rótulo mal escrito en el vehículo con el que operaban. "Desde el vista operacional, son muy buenos. Pero, desde el punto de vista gramatical, son pésimos", comentó el delegado de policía Ruy Ferraz, del Departamento de Investigaciones sobre el Crimen Organizado. Que os incompetentes tenham grafado Impório em vez de Empório não me espanta. O que me espanta é que policiais tenham cultura suficiente para notar que a grafia estava errada. Mas se grafia errada em anúncios públicos for fator de suspeita, mais da metade dos comerciantes, restauradores e prestadores de serviço deste país já estariam indiciados.
VESTAL INDIGNADA O ministro da Justiça, Tarso Genro, considerou ofensiva a atitude dos 43 militares do 15º BPM de Duque de Caxias, suspeitos de envolvimento com o tráfico de drogas, que soltaram fogos ao serem libertados na terça-feira passada. Eles estavam presos há dois meses, acusados de receber propina de traficantes. Em março do ano passado, quando a deputada petista Ângela Guadagnin dançou obscenamente em plenário para comemorar a absolvição de seu colega João Magno, acusado de receber dinheiro do chamado mensalão, Tarso Genro não considerou nada ofensiva a atitude da deputada.
Momentos edificantes das Escrituras Sagradas: A CONCUBINA DO LEVITA Antes que me esqueça, outro episódio fascinante das Escrituras Sagradas, é o da concubina do levita, em Juízes 19:15. Quanto a oferecer duas mulheres da família à turba para satisfazer seus apetites sexuais, em troca da preservação da honra do hóspede, já conhecemos esta história do Gênesis, quando o santo homem Ló oferece suas duas filhas aos sodomitas, que na verdade queriam usufruir os encantos dos dois anjos que foram visitá-lo. O senso de hospitalidade é deveras edificante no Livro Sagrado. 15 ... e o levita, entrando, sentou-se na praça da cidade, porque não houve quem os recolhesse em casa para ali passarem a noite. 16 Eis que ao anoitecer vinha do seu trabalho no campo um ancião; era ele da região montanhosa de Efraim, mas habitava em Gibeá; os homens deste lugar, porém, eram benjamitas. 17 Levantando ele os olhos, viu na praça da cidade o viajante, e perguntou-lhe: Para onde vais, e donde vens? 18 Respondeu-lhe ele: Estamos de viagem de Belém de Judá para as partes remotas da região montanhosa de Efraim, donde sou. Fui a Belém de Judá, porém agora vou à casa do Senhor; e ninguem há que me recolha em casa. 19 Todavia temos palha e forragem para os nossos jumentos; também há pão e vinho para mim, para a tua serva, e para o moço que vem com os teus servos; de coisa nenhuma há falta. 20 Disse-lhe o ancião: Paz seja contigo; tudo quanto te faltar fique ao meu cargo; tão-somente não passes a noite na praça. 21 Assim o fez entrar em sua casa, e deu ração aos jumentos; e, depois de lavarem os pés, comeram e beberam. 22 Enquanto eles alegravam o seu coração, eis que os homens daquela cidade, filhos de Belial, cercaram a casa, bateram à porta, e disseram ao ancião, dono da casa: Traze cá para fora o homem que entrou em tua casa, para que o conheçamos. 23 O dono da casa saiu a ter com eles, e disse-lhes: Não, irmãos meus, não façais semelhante mal; já que este homem entrou em minha casa, não façais essa loucura. 24 Aqui estão a minha filha virgem e a concubina do homem; fá-las-ei sair; humilhai-as a elas, e fazei delas o que parecer bem aos vossos olhos; porém a este homem não façais tal loucura. 25 Mas esses homens não o quiseram ouvir; então aquele homem pegou da sua concubina, e lha tirou para fora. Eles a conheceram e abusaram dela a noite toda até pela manhã; e ao subir da alva deixaram-na: 26 Ao romper do dia veio a mulher e caiu à porta da casa do homem, onde estava seu senhor, e ficou ali até que se fez claro. 27 Levantando-se pela manhã seu senhor, abriu as portas da casa, e ia sair para seguir o seu caminho; e eis que a mulher, sua concubina, jazia à porta da casa, com as mãos sobre o limiar. 28 Ele lhe disse: Levanta-te, e vamo-nos; porém ela não respondeu. Então a pôs sobre o jumento e, partindo dali, foi para o seu lugar. 29 Quando chegou em casa, tomou um cutelo e, pegando na sua concubina, a dividiu, membro por membro, em doze pedaços, que ele enviou por todo o território de Israel.
Crônicas da Guerra Fria (32) UM ESCRITOR SEM MEDO Praga - A vida é como uma viagem aos países do Leste - dizia-me um jornalista espanhol -, curta e cheia de aborrecimentos. Suas observações, é claro, datavam do ano passado. Corroído desde dentro o regime tão amado pela intelligentsia brasileira, regime que durante décadas devastou os povos do Leste, viajar por estas bandas torna-se interessante. Em Berlim, junto à porta de Brandenburgo, onde consegui arrancar alguns cacos do Muro antes que fosse posto abaixo pelos seus construtores, o ruído incessante dos martelos escavando o símbolo maior da Guerra Fria foi música para meus ouvidos. Estou agora em Praga. Segundo observadores temerários, a cidade mais linda do mundo. Opinião discutível para quem viveu em Paris. Mas isto pouco importa. E sim Vaclav Havel. No ano passado estava no cárcere e hoje é presidente da Tcheco-Eslováquia. Tudo muda neste mundo, e mais rapidamente do que se podemos imaginar. Como dizia Marx, profeticamente, tudo que é sólido se desmancha no ar. - Não encontrei um único relógio nos gabinetes do Castelo de Praga - disse Havel em seu primeiro discurso ante o Parlamento -. Considero isto como algo simbólico. Durante longos anos não havia porque olhar um relógio, pois o tempo estava parado. Em realidade, foi a História que parou. Vaclav Havel é escritor, dramaturgo e ensaísta. Sofreu quatro anos de prisão lutando contra o regime comunista cuja defesa levou ao cárcere míopes intelectuais brasileiros e latino-americanos. Antes de partir para a Tcheco-Eslováquia, decidi munir-me de alguma informação sobre o país. Publicações oficiais louvavam os grandes feitos do socialismo. O mesmo não diria - nem disse - Havel em seu discurso. - Durante quarenta anos temos escutado a mesma coisa da boca de meus predecessores, embora apresentada de formas diferentes: nosso país floresceu, produzíamos tantos milhões mais em aço, somos todos felizes, temos fé em nosso governo e brilhantes perspectivas pela frente. Suponho que não me propuseram para este cargo com a finalidade de que eu também lhes minta. Nosso país não floresce. Este estado, que pretende ser um estado de trabalhadores, humilha e explora os trabalhadores. Devastamos a terra, os rios e os bosques, patrimônio de nossos antepassados, e temos o mais poluído meio ambiente de toda a Europa. Mas isto não é o principal. O pior é que vivemos em um meio moral putrefato. Estamos moralmente doentes porque nos acostumamos a dizer algo diferente do que pensamos. Aprendemos a não acreditar em nada, a não nos importarmos uns com os outros, a não nos ocuparmos senão de nós mesmos. Definições tais como o amor, a amizade, a compaixão, a humildade ou o perdão perderam suas dimensões e sua profundidade e significam para nós uma espécie de peculiaridade psicológica, que interpretamos como mensagens errantes de tempos passados, um tanto ridículos na era dos computadores e dos foguetes espaciais. Em minhas rápidas incursões pelos países socialistas, sempre intuí nos rostos e gestos um medo latente pairando no ar. Medo de falar com o viajante estrangeiro, medo de falar alto, medo de emitir qualquer opinião não sacramentada pelo poder. Este medo, diga-se de passagem, só fui encontrá-lo no Brasil em duas ilhas: Brasília e Florianópolis, coincidentemente os dois mais corruptos currais eleitorais do país. Mas estou na Tcheco-Eslováquia. Em uma carta aberta a Gustav Husak, datada de 1975, Havel propunha uma questão fundamental: por que as pessoas se comportavam como o faziam? Por que cumpriam todos tudo aquilo que, globalmente, dava a impressão de uma sociedade totalmente unida, apoiando totalmente seu governo? Para Havel, a resposta era então evidente: o medo. - Por medo de perder seu posto, o professor ensina a seus alunos coisas nas quais não acredita. Por medo de seu futuro, os alunos o repetem. Por medo de não poder continuar seus estudos, os jovens aderem à União da Juventude e fazem o que se lhes pede. Por medo de que seus filhos não obtenham, ao entrar na universidade, o número de pontos exigidos pelo monstruoso sistema de conotação política, o pai aceita as mais diversas funções e faz "voluntariamente" o que lhe é exigido. Por medo de eventuais perseguições, as pessoas participam das eleições, votam nos candidatos propostos e fingem tomar esta liturgia por verdadeiras eleições. Por medo, as pessoas assistem às comemorações, manifestações e desfiles. Por medo de serem impedidos no prosseguimento de seu trabalho, cientistas e artistas defendem idéias às quais não aderem, escrevem coisas que são falsas, associam-se a organizações oficiais, participam de trabalhos dos quais têm péssima opinião, ou ainda amputam ou deformam suas próprias obras. Denunciar o medo exige coragem, Vaclav que o diga. Sua coragem custou-lhe anos de cárcere e agora parece contaminar os tchecos. Pela primeira vez em um país socialista, consegui falar de política, abertamente, com um desconhecido encontrado ao azar em um café. "É o começo do fim", dizia-me com entusiasmo um tcheco, embalado por uma cerveja de Praga, a 12 graus. E brindamos em altos brados - gesto insólito nas ditaduras socialistas - ao fim do regime infame. Mas o fim ainda não chegou. Como bem acentuava meu interlocutor, estamos assistindo ao começo do fim. "O medo não é - escrevia Havel a Husak -, o único material de construção de nossa sociedade atual. Mas continua sendo, no entanto, o material essencial". Estes povos, para os quais a História parou e os relógios não têm sentido, necessitarão de mais algumas décadas para readquirir o aprendizado da fala e do livre debate. Pode ser até verdade que a vida seja curta e aborrecida, como filosofava meu colega espanhol. Mas voltar a Praga será sempre cada vez mais interessante. (Porto Alegre, RS, 31.03.90)
Quinta-feira, Novembro 08, 2007
NEGROS PRETEJAM MULATOS ILUSTRES Os movimentos negros brasileiros intensificam sua campanha para promover o racismo no Brasil. Neste mês de novembro, as ruas paulistanas vão virar uma galeria a céu aberto, ao receber imensos retratos de brasileiros negros, que marcaram a história do País. Eles serão instalados em 20 prédios públicos e particulares, como o Teatro Municipal e o Instituto Itaú Cultural, em forma de banners de 5 metros de altura. Essas mesmas fotos ainda serão espalhadas em 20 CEUs da capital, 11 pontos de atendimento do Poupatempo e 20 terminais de ônibus. A iniciativa é da secretarias de Cultura do Estado e do Município, que lançam a campanha Mês da Consciência Negra. O problema é que, entre estes negros, foram incluídos Castro Alves, Machado de Assis, Lima Barreto, Nilo Peçanha, todos mulatos. Desde há muito, no Brasil, os movimentos negros, com o aval de ministérios e secretarias de Estado, querem eliminar da história do país o mulato, este testemunho mais evidente da miscigenação no país. Miscigenação, coisa que não existe em países racistas como os Estados Unidos, é a prova mais evidente do bom convívio entre raças. O Brasil costuma importar as piores práticas do Primeiro Mundo, costumo afirmar. Em artigo escrito há dois ou três anos, eu afirmava que, no censo de 2.000, quase sete milhões de norte-americanos, pela primeira vez, foram autorizados a identificar-se como integrantes de mais de uma raça. As categorias inter-raciais mais comuns citadas foram branco e negro, branco e asiático, branco e indígena americano ou nativo do Alasca e branco e "alguma outra raça". Os Estados Unidos deixam de lado a onedrope rule, pela qual um cidadão é considerado negro mesmo que tenha uma única gota de sangue negro em sua ascendência, e descobrem o mestiço. Enquanto os Estados Unidos reconhecem a multi-racialidade, alguns movimentos negros no Brasil pretenderam que até os mulatos se declarassem negros no último censo. O propósito é óbvio, exercer pressão legislativa. A população negra do Brasil, em 99, era de apenas 5,4%. Com o acréscimo de 39,9% do contingente de mulatos, o Brasil estaria perto de ser definido como um país majoritariamente negro, como aliás é hoje considerado por muitos americanos e europeus. Luís Inácio Lula da Silva, em sua já proverbial incultura, caiu nesta armadilha, ao afirmar que o Brasil é a segunda nação negra do mundo. Não é. Negro é minoria ínfima no Brasil. A menos que, como fizeram os EUA, se pretenda negar este espécime híbrido, o mulato. Quando os americanos descobrem o mestiço, os ativistas negros brasileiros querem eliminá-lo do panorama nacional. Em uma imitação servil da imprensa ianque, os jornais tupiniquins passam a usar o termo afrodescendente para definir a população que o IBGE classifica como negra ou parda. Mas se um negro é obviamente afrodescendente, o pardo é tanto afro como eurodescendente. A adotar-se a nova nomenclatura, sou forçado a declarar-me eurodescendente. Não vejo nisso nenhum desdouro. Esta campanha intitulada Mês da Consciência Negra, melhor seria definida se fosse chamada Mês da Consciência Racista. Pois é preciso ser muito racista para eliminar o mulato e situar Castro Alves, Machado de Assis, Lima Barreto, Nilo Peçanha como negros. Melhor decretar logo uma lei em dois parágrafos: $ 1 – Fica abolida a existência do mulato no Brasil. $ 2 – Revogam-se disposições em contrário. PAINÉIS RESGATAM NEGROS ILUSTRES, 'BRANQUEADOS' PELA HISTÓRIA - diz o Estado de São Paulo em manchete. Eu manchetearia diferentemente: NEGROS PRETEJAM MULATOS ILUSTRES, SEQÜESTRADOS PELO RACISMO
Crônicas da Guerra Fria (31) O FIM DA GUERRA Berlim - Nestes dias de fevereiro, Berlim agita-se a cada ano em função do Festival Internacional de Cinema, hoje em sua 40ª edição e desenvolvido nas duas Berlins, se é que de duas Berlins ainda se pode falar. Mas estamos em fevereiro de 1990 e a grande vedete não é o cinema e sim o Muro, dia a dia picotado por berlinenses e turistas ávidos de uma lembrancinha do fim da barbárie. Um milionário americano chegou a oferecer às autoridades do Leste 40 milhões de dólares pelo Muro, valor que pretendia multiplicar por cem, vendendo-o aos pedaços. O negócio não foi feito, afinal o Muro pertence a todos e a ninguém. "Todo muro no mundo" - escreve Peter Schneider, autor de Sauter le mur - "provoca a vontade instintiva de atravessá-lo. Nem uma criança, nem um gato, resiste à intenção de escalá-lo, para ver o que acontece do outro lado". Para os alemães ocidentais, esta curiosidade sempre pode ser saciada. Um visto no passaporte, mais a troca compulsória de alguns marcos e o cidadão ou turista podia constatar in loco o horror ao qual havia escapado, voltando ao Oeste ainda em tempo de comer decentemente em um bom restaurante. Para os homens do Leste, até Nove de Novembro passado, a Berlim livre estava tão distante quanto a Austrália ou o Japão. Pular o Muro era gesto pago com a própria vida. Hoje, o Muro é apenas um muro e a vergonha parece pertencer a um passado distante. Para os ex-presidiários, o choque é brutal. Pessoas que não mais lembravam a cor de bananas ou laranjas, sorriem incrédulas ante a profusão de frutas, carnes e bebidas no mercado. Uma grande loja de departamentos causa pânico. Depoimento de uma jovem universitária, hoje vivendo no lado ocidental: "Descubro como se provoca a necessidade de comprar: os bunkers dos supermercados engolem as pessoas como imensos aspiradores, lá se encontra de tudo, e sobretudo uma quantidade considerável de bobagens; os animadores berram por todos os lados. Minha cabeça zumbe e eu me precipito rumo à saída". O mesmo choque ao inscrever-se na universidade: "Entrego meu pedido de inscrição, recebo de volta minha carteira de estudante. Peço informações aos professores e os descubro desprovidos de arrogância, da autoridade e do patriarcalismo aos quais eu estava habituada; pelo contrário, eles dão provas de tolerância, às vezes de desenvoltura, muitos demonstram inclusive camaradagem ao tutear-me desde o início. Divirto-me lendo as inscrições nas paredes; cada um nelas exprime seus sentimentos, suas opiniões políticas. No Leste, foram retirados de circulação todos os sprays para impedir os grafitti". As máquinas de xerox, estes objetos rotineiros do mundo ocidental, constituem milagre para a recém-vinda do Leste: "Em cada corredor da universidade vejo máquinas de xerox. Eis-me de novo desorientada. Na RDA, estas máquinas eram reservadas a certas pessoas: era preciso obter intermináveis autorizações, fornecer por escrito o interesse científico de sua requisição, antes que a pessoa responsável fotocopiasse seu documento. A única intenção era impedir a circulação de idéias hostis ao Estado. Eis-me agora diante de uma enorme máquina que me explica seus botões. Sinto-me como uma extraterrestre". Para melhor esta surpresa de extraterrestre da moça do Leste, nada melhor que evocar uma parábola proposta por Peter Schneider. Para o escritor, ao final de quarenta anos, pode-se considerar a divisão das Alemanhas como uma experiência social involuntária surgida das necessidades da guerra, os Aliados assumindo o papel de laboratoristas e os alemães de cobaias superdotadas. Dois gêmeos, com um passado comum, são dominados pelos Aliados e encerrados em internatos diferentes. O gêmeo criado no Oeste tem por nome RFA, cresce no clima estimulante dos valores ocidentais, aprende o que são a democracia, a economia de mercado, a propriedade privada e a liberdade individual e liga-se a seu experimentador ocidental. O outro gêmeo tem por nome RDA, é seguidamente espancado, deve familiarizar-se com os valores rebarbativos e menos acessíveis da cultura comunista. Nele se incluem virtudes tais como a solidariedade internacional, o engajamento social, o desprezo da propriedade individual, o ódio de classes e, evidentemente, uma "amizade inquebrantável" pelos laboratoristas do Leste. Doze anos depois, um muro é construído entre esses dois irmãos e um sistema bizarro de visitas é estabelecido. Enquanto o gêmeo do Oeste goza do Plano Marshall e dos progressos do sistema capitalista, seu irmão deve reembolsar as dívidas de guerra ao laboratório do Leste, bem mais pobre, do qual ele herdou o Estado de um só partido e um sistema econômico inoperante. As queixas não se farão esperar. Ouçamos o irmão do Leste: - Meu caro irmão vive tão ocupado que aos poucos vai me esquecendo. Já não vem me ver quando eu lhe peço. Não vê o que me falta. Bastaria apenas que se mostrasse mais generoso, principalmente em sentimentos, pois ele tem mais sorte em ter ficado no Oeste. Aliás, diga-se de passagem, ele nada fez para merecê-lo. Ele simplesmente vivia no bom momento na boa margem do Elba. Mas agora seu sucesso subiu-lhe à cabeça. Em vez de dividir - pois não se trata de dar, mas sim de dividir - ele pretende trabalhar mais, ter mais talento. Honestamente, eu o conheço desde pequeno, ele não é mais nem menos preguiçoso do que eu. Ele apenas tornou-se arrogante, cheio de si. Em verdade - nossa propaganda não erra totalmente - ele continua a viver da exploração e da miséria dos outros. Mas ele não quer saber de nada. Ele poderia ao menos demonstrar um pouco mais de sentimento filial em relação a seu pobre irmão que teve menos sorte. Diz seu irmão ocidental: - As coisas não vão bem para meu pobre irmão atrás de seu muro, é evidente. Mas ele me enerva com suas reprovações. E esta maneira que tem de esperar eternamente... Afinal de contas, não fui quem o construí, e não se pode dizer que ele tenha se oposto ao muro. Só Deus sabe como gosto de dar presentes mas, se não existe mais a surpresa, não é divertido. Ele acha que lado de cá, as televisões em cores, os aparelhos de vídeo e os relógios Rolex nascem das árvores. Mas ninguém recebe um Mercedes quando nasce, é preciso ganhá-lo. Dívida, crédito, leasing, são palavras que meu irmão não conhece senão por ouvir dizer. Gostaríamos de explicar-lhe mas ele não escuta, ele só fala. Naturalmente, não é por sua culpa que ele ainda deve fazer fila para comprar laranjas. Não o estamos criticando diretamente, é a economia dirigida que é um desastre. Longo é o discurso do irmão ocidental, segundo Schneider, pois o oriental sequer aceita críticas. - Quando a discussão se anima, ele acaba me tratando de conformista e consumidor idiota, cumprimento que tenho prazer em devolver-lhe, pois suas pretendidas virtudes sociais lhe foram todas inculcadas, sei disso. Ele se toma por um idealista que ainda não vendeu sua alma! Acontece-me às vezes sentir-me aliviado ao final das visitas. Entre nós instalou-se um ressentimento, um sentimento de decepção sobre o qual precisaríamos falar um dia. Quando chega o momento de partir, mal ouso olhar meu relógio, tenho pena de vexá-lo. Ele dispõe de tempo, muito tempo, e ignora que pessoas como eu trabalham também nos fins-de-semana, têm almoços de negócios aos domingos. Com o fim da Segunda Guerra, que poderíamos datar, na necessidade de uma data precisa, de Nove de Novembro, chegou a vez dos gêmeos se entenderem. A aproximação será certamente dolorosa e a Europa a vê com apreensão. Os livros de História deverão ser reescritos. Heróis passarão para a ala dos vilões e vice-versa. E muito ainda há de se ver até o final do milênio. Prosit! (Joinville, A Notícia, 11.03.90)
Quarta-feira, Novembro 07, 2007
MOMENTOS SUBLIMES DA PALAVRA DE DEUS "É preciso ter sempre presente que a Palavra de Deus atravessa os tempos, que as opiniões vêm e vão, e o que agora é moderno amanhã será passado", disse hoje Bento XVI na audiência geral realizada na Praça de São Pedro. Disse ainda que para os católicos "a Palavra de Deus é palavra de vida eterna e leva consigo a eternidade, o que vale para sempre". Vejamos algumas palavrinhas inspiradas por Deus que, segundo Bento, levam consigo a eternidade e valem para sempre. No Deuteronômio, lemos: Se, a respeito de alguma das tuas cidades que o Senhor teu Deus te dá para ali habitares, ouvires dizer: uns homens, filhos de Belial, saindo do meio de ti, incitaram os moradores da sua cidade, dizendo: Vamos, e sirvamos a outros deuses! - deuses que nunca conheceste - então inquirirás e investigarás, perguntando com diligência; e se for verdade, se for certo que se fez tal abominação no meio de ti, certamente ferirás ao fio da espada os moradores daquela cidade, destruindo a ela e a tudo o que nela houver, até os animais. Ainda no Deuteronômio: Quando te aproximares duma cidade para combatê-la, apregoar-lhe-ás paz. Se ela te responder em paz, e te abrir as portas, todo o povo que se achar nela será sujeito a trabalhos forçados e te servirá. Se ela, pelo contrário, não fizer paz contigo, mas guerra, então a sitiarás, e logo que o Senhor teu Deus a entregar nas tuas mãos, passarás ao fio da espada todos os homens que nela houver; porém as mulheres, os pequeninos, os animais e tudo o que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás por presa; e comerás o despojo dos teus inimigos, que o Senhor teu Deus te deu. Assim farás a todas as cidades que estiverem mais longe de ti, que não são das cidades destas nações. Mas, das cidades destes povos, que o Senhor teu Deus te dá em herança, nada que tem fôlego deixarás com vida; antes destruí-los-ás totalmente: aos heteus, aos amorreus, aos cananeus, aos perizeus, aos heveus, e aos jebuseus, como Senhor teu Deus te ordenou. No Êxodo, quando Moisés vê os seus adorando o bezerro de ouro, num acesso de ira quebra as duas tábuas da lei e lhes diz: Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: Cada um ponha a sua espada sobre a coxa; e passai e tornai pelo arraial de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, e cada um a seu amigo, e cada um a seu vizinho. E os filhos de Levi fizeram conforme a palavra de Moisés; e caíram do povo naquele dia cerca de três mil homens. Em Números, irado porque seus generais não haviam matado todas as mulheres após uma batalha, Moisés ordena: Agora, pois, matai todos os meninos entre as crianças, e todas as mulheres que conheceram homem, deitando-se com ele. Mas todas as meninas, que não conheceram homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós. São, sem dúvida, palavras de vida eterna, que levam consigo a eternidade e valem para sempre. Em minha humilde opinião, deveriam ser repetidas todos os dias em cada missa. Sua Santidade instou os católicos a viverem em contato e diálogo vivo com esta Palavra de Deus na Sagrada Escritura. Mas alertou: as Sagradas Escrituras devem ser lidas "em comunhão com a Igreja viva". Acrescentou ainda que "o lugar privilegiado para a leitura e a audição da palavra de Deus é a liturgia, durante a realização da missa". Ou seja, a Bíblia deve ser previamente filtrada para uso dos fiéis. A impressão que Bento nos passa é que ainda não ouviu falar de Lutero, reformador religioso que negou à Igreja a interpretação exclusiva dos textos sagrados e atribuiu este direito a todo e qualquer fiel. Sua Santidade parece querer furtar a seu rebanho estes momentos sublimes do Livro sagrado.
Crônicas da Guerra Fria (30) BRONZEAR-SE EM BERLIM Paris - As revoluções normalmente têm uma data, seja ano, mês ou dia, data sempre determinada a posteriori, pois nunca se sabe quando uma guerra ou revolução está começando. Foi o que aconteceu com esta que, cidadãos do final do milênio, estamos assistindo. A fins de outubro passado, ninguém ousaria imaginar o que ocorreria na semana seguinte. Aqui em Paris, pelo menos, o evento já foi batizado: Revolução do Nove de Novembro, data emblemática e por cima de tudo aliterante, para que não seja esquecida. Derrubado o muro, desmorona também o sistema que empestou sete décadas deste século. Confusos ante os acontecimentos, em janeiro passado, reuniram-se na Sorbonne dezoito intelectuais parisienses, no que foi pomposamente intitulado "Le Grand Coloque de la Liberté". Colóquio que seria honroso se fosse anterior ao Nove de Novembro. Posterior sendo, tem um certo ar de oportunismo e mea culpa. Deste confiteor coletivo, excluamos Hélène Carrère d’Encausse, que há mais de década previu a explosão do império russo em função do avanço muçulmano. Os demais, Leszek Kolakowski, Cornélius Castoriadis, K. S, Karol e Alain Tourraine, entre outros, correm atrás do trem perdido. Para Carrère d’Encausse, autora de L’Empire eclaté - livro que foi amaldiçoado pelos franceses com o "coração à esquerda", pois antecipava há mais de dez ano o que hoje está ocorrendo nas repúblicas muçulmanas - o comunismo foi, em 1917, a resposta de Lênin a uma velha questão: onde está a Rússia? Na Europa ou fora dela? "Incapaz de optar, Lênin tomou uma decisão singular: a Rússia era, ela sozinha, o futuro da Europa. O comunismo foi o manto de Noé de um império de tzares reconstituído e mantido na esperança de que um dia as diferenças nacionais desapareceriam. O fim do comunismo põe a nu o problema da relação entre os povos e da escolha a fazer entre uma Rússia que se restringiria a seus limites ou um império que seria preciso manter, a não importa qual preço. Manter o império é afastar-se da Europa e frear a democracia. A escolha desta segunda via abriria, é claro, um processo longo e doloroso: seria o abandono de uma longa história de conquista. Isto, a Rússia tem dificuldade para aceitar. Mesmo se uma facção da intelligentsia encara a questão com lucidez e espera que os dirigentes soviéticos saberão facilitar um abandono do império que teria por resultado a democratização e europeização da Rússia". Explodido - ou implodido, como quisermos - o império russo, a utopia em bancarrota, poderia a religião ocupar o vazio ideológico criado pelo naufrágio do dogma marxista-leninista? Para Leszek Kolakowski, o marxismo-leninismo (grande novidade!) era uma paródia de religião, ou seja, uma ideologia global que pretendia resolver todos os problemas metafísicos, históricos, filosóficos e sociais. "Mas, ao contrário das religiões, ele se pretendia uma teoria científica. Hoje, não acredito que a religião possa tomar o lugar de uma ideologia global, salvo sob sua forma medieval, isto é, nos países islâmicos fundamentalistas onde religião engloba tudo, dá resposta a tudo. A religião cristã, inclusive sob sua forma oriental, não poderá, a meu ver, assumir novamente este papel". Ou seja: no fundo, o que Kolakowski deixa transparecer é que religião, nos dias de hoje, só serve para países pobres e populações analfabetas. Assino embaixo. Bernard Henri Lévy já não é tão otimista: "A questão não é de saber se a religião terá algum papel no futuro. Hoje, nas sociedades pós-totalitárias contemporâneas, ela já tem este papel. Em Moscou, restauram-se monumentos históricos, reabrem-se igrejas. Em suma, a Igreja está no centro do debate político e ideológico russo". Para Adam Michnick, outro participante do debate, há duas formas de renascimento religioso: "No cemitério das ilusões do bolchevismo, assistimos o retorno aos valores morais do cristianismo, os valores absolutos. Sem este renascimento da consciência do valor absoluto, a vida no pós-comunismo totalitário seria impossível. Mas o renascimento religioso pode também ser a fascinação pela força da Igreja como instituição". Ou seja, assim como todos os mercadores europeus, João Paulo deve estar de olho no tentador mercado dos milhões de crentes órfãos de Marx. Deus sucederá Lênin? - pergunta-se o Nouvel Observateur. É possível. E o mundo socialista terá saído do barro para cair na merda. Mas a Revolução do Nove de Novembro - do ano passado, bem entendido - já parece pertencer a um século distante. A imprensa francesa já saúda a Revolução de Fevereiro - de fevereiro deste ano, é bom salientar. Gorbachov montou num tigre, como diz um provérbio oriental, e quem monta em tigre dele jamais desmonta. A perestroika, desde sua gestação, tinha endereço, mais que certo, necessário: o fim da preponderância do Partido Comunista Russo na gestão do poder. As ex-colônias russas entenderam logo o recado. Alemanha Ocidental, Polônia, Tchecoeslováquia, Bulgária e - aos trancos e barrancos - a Romênia, estão jogando os comunossauros na lata de lixo da História. Faltava a Rússia. E não é que o camarada Gorby propõe nada mais nada menos que o fim do monopólio do PC? O que significa que não mais existirá o Partido Comunista e sim um partido comunista, se é que na Nomenklatura vai sobrar alguém com coragem suficiente para apagar a luz do museu. "O Partido não pode existir" - diz Gorbachov em seu discurso de abertura do 28º Congresso do PCUS - "e cumprir seu papel de vanguarda se não for uma força democraticamente reconhecida. Isto que dizer que sua posição não deve ser imposta através de uma legalização pela Constituição". Em outras palavras, os russos parecem estar descobrindo a democracia burguesa que Lênin e Stalin tanto odiavam. A proposição de Gorbachov, vitoriosa no plenum do PCUS, significa simplesmente a instituição no império desta coisinha elementar tão rotineira no Brasil: o pluripartidarismo. Castro já deve estar de barbas de molho, afinal a Constituição cubana evoca, em seus preâmbulos, a proteção da URSS, assim como a nossa evoca a proteção de Deus, jaculatória que, dada nossa taxa de inflação, só serve para desmoralizá-Lo. Que fará Castro quando secar sua fonte de misticismo? Enfim, Castro pouco ou nada tem a fazer, a não ser abandonar sua ilha particular e o osso do poder. A pergunta crucial é outra: que farão os paranóicos latinos quando for evidenciado o horror da última utopia desvairada do Ocidente? Sei lá! Já começo a ouvir explicações. Cartazes em Paris dizem que tudo foi traição, que o socialismo não estava lá, mas mais adiante. Quanto a mim, vou a Berlim. Para bronzear-me. Ora, direis leitores, na Europa é inverno e sol só se encontra nas agências de publicidade. Mas, como insinua o Nouvel Observateur, o sol da liberdade também bronzeia. (Porto Alegre, RS, 10.03.90)
Terça-feira, Novembro 06, 2007
CNBB DEFENDE PADRE MENTIROSO A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) está arriscando perder o que resta de sua já escassa reputação, ao tomar a defesa de São Lancellotti, o santo redentor da FEBEM. O presidente da entidade, d. Geraldo Lyrio Rocha, fez ontem em Minas uma enfática defesa do padre Júlio e só faltou atribuir as acusações feitas ao padre aos militares de 64. Disse que as acusações contra Lancellotti se assemelham a uma prática da ditadura. "É triste que uma pessoa que dedicou a vida, que se sacrificou para o bem das crianças, de adolescentes e jovens em situação de carência e de risco, receba agora esse pagamento triste e de certa forma cruel. Há certas acusações que são expressão de irresponsabilidade. Como é que se lança uma acusação sem apresentar as provas?". Provas de abuso sexual ainda não existem. Só existem testemunhos. Como tampouco existem provas de extorsão por parte do ex-FEBEM acusado pelo sacerdote. Mas o que está sobejamente provado é que padre Lancellotti mente. E mente despudoradamente. Começou afirmando ter sido extorquido em 50 mil reais ao longo de três anos. Alguns dias depois, prudentemente preferiu falar em 80 mil reais. Seu advogado, ainda mais prudente, preferiu erguer a vara mais alto: 150 mil reais. Anderson Batista, o suposto extorsionista, nega a extorsão e fala em quase 800 mil reais. Inicialmente, padre Lancellotti disse que Anderson comprou uma Pajero em seu nome, sem ele saber. Depois que um vendedor do Shopping Aricanduva disse tê-lo reconhecido, o padre mudou a versão. Disse que foi à concessionária com Anderson e sua mulher e assinou os documentos da compra. O padre mente e admite que mentiu. Como pode um alto prelado da CNBB fazer a defesa incondicional de um reles mentiroso? D. Geraldo está preocupado com provas. Não tem preocupação alguma com as mentiras do padre, por ele confessadas publicamente na imprensa, sem coação alguma. Mentiras que constituem o maior indício de que algo bem mais sujo do que se pensa está por trás de um vulgar caso de amor bandido.
BIBLIOAGORAFOBIA "As pessoas têm de descobrir que perdem tempo quando não lêem" - disse a professora argentina Delia Lerner, da Universidade de Buenos Aires. A professora me redime. Soube, há alguns anos, ser portador de uma estranha moléstia desde os dias de adolescência. A doença é crônica e não tem cura. Eu a tenho portado como posso ao longo das décadas e não consigo conviver muito bem com ela. Talvez seja epidêmica. Pois em todas as geografias que percorri, sempre encontrei portadores do mesmo mal. Trata-se da biblioagorafobia, nome que algum desses construtores contumazes de palavras resolveu conferir ao pânico de alguém se encontrar em um lugar público sem ter um livro em mãos. Não digo que eu entre em pânico, mas meu desconforto é total. Deve fazer mais de quarenta anos que não saio à rua sem um livro nas mãos. Outro dia, em minhas visitas anuais a Dom Pedrito, um conterrâneo confirmou minha mania. Era pessoa de minha idade, de quem eu não mais lembrava. Mas ele lembrava de mim. "Não te esqueço. Quando guri, passavas pela rua lá de casa, sempre com um livro debaixo do braço". Confesso que nem havia percebido isso, tão costumeiro era meu hábito. Não que eu sempre porte livros. Quando não é livro, é jornal. O dia nos oferece inúmeras oportunidades de leitura. Esperar num consultório, num escritório, beber em um bar, são horas preciosas propícias à leitura. Mesmo quando trabalhei em redação de jornal, sempre tinha um livro na gaveta, para não deixar vazios aqueles minutos entre a chegada de um despacho e outro. Em um curso de literatura espanhola que fiz em Madri, as aulas eram de uma chatice tal que eu as aproveitava para ler boa literatura. Meu companheiro fiel em boa parte dessas aulas foi o excelente España, entre trago y bocado, de Enrique Sordo, um guia etilogastronômico da Espanha. Enquanto os professores falavam de literatices, eu mergulhava no que de mais profundo a Espanha oferecia. Adoro ler em cafés, acompanhado de um bom vinho, eventualmente de um álcool mais forte. Quando vejo alguém bebendo sozinho, sem um livro ante os olhos, não tenho dúvidas: é alcoólatra. A bebida é excelente companheira da leitura e, não por acaso, há cafés em Paris, Madri e Viena que parecem salas de leitura. A leitura está na origem dos cafés literários de Paris. Como nem sempre havia calefação nos studios dos estudantes do Quartier Latin, estes desciam aos cafés para ler e estudar. Em Viena, alguns desses cafés oferecem de 50 a 100 jornais ao habitué. Conheci um que gabava-se de oferecer 300. Um outro, tinha toda a estrutura de sala de leitura, com mesas com iluminação individual, nada lembrava um bar. Em muitos cafés dessas cidades, até evito falar em voz alta, para não atrapalhar a leitura. Gostei muito de ler nos metrôs da Europa. Há linhas em Paris cujos metrôs mais parecem bibliotecas. Sim, há quem diga que os franceses escondem o rosto atrás de um jornal para não ver o vizinho. Maldade de estrangeiro ressentido. Os franceses gostam de ler. Já vi inclusive passageiros, siderados, longe deste insensato mundo, lendo partituras. Em Estocolmo, em uma linha cujo trajeto era de uma hora, o metrô oferecia cursos de línguas. Isso é o que chamo de civilização. Viciado nestas práticas, ao voltar ao Brasil, fui visitar uma amiga em São Paulo em um bairro distante. Fiz meu roteiro de ônibus, concluí que levaria perto de hora até chegar lá e me muni de pelo menos dois jornais. Santa ingenuidade. Ao entrar no ônibus, mal tive braços para pendurar-me. Ler, nem pensar. Outra boa ocasião de ler seriam as viagens intermunicipais ou interestaduais de ônibus. Nada melhor que algumas horas de leitura para esquecer da viagem. De dia, vá lá. À noite, impossível. As empresas de transporte nunca imaginaram que alguém possa querer ler durante a viagem. A iluminação é precária e não permite a leitura. Osman Lins, um dos grandes escritores deste país tão avaro em grandes escritores, chegou a fazer uma campanha para que as empresas fornecessem iluminação suficiente para a leitura. Foi tido como maluco. Onde se viu ler em ônibus? Curiosa também é a concepção que os leigos têm da leitura. Eu trecheava, outro dia, em um café, Un autre Moyen Âge, do Le Goff, livrinho que tem 1400 páginas. (Em verdade, é uma coletânea de sete obras). Minha garçonete se assustou: como é que você consegue ler livro tão grosso? Outra vez, peguei pra dar uma relida o J'ai choisi la liberté, do Kravtchenko, de 1947. O livro está com as páginas amarelecidas pela idade. Não faltou quem me dissesse: como é que consegues ler livro tão antigo? Ou seja, nestes dias que correm, ler livro grosso ou livro antigo soa como ofensa ao intelecto. De bom tom é ler best-seller, recém saído do prelo. De preferência, fininho. Minhas aluninhas de Letras adoravam Graciliano Ramos: ele só escrevia livros curtos. Mas falava da Delia Lerner. Já estamos em novembro e dificilmente alguém dirá frase mais inteligente no que falta de ano. Não ler é total perda de tempo. Muitas são as concepções de inferno. Para mim, seria estar numa sala de espera sem livro algum para ler.
Crônicas da Guerra Fria (29) A PARANÓIA CEDE Paris - Vista das margens do Sena, a América Latina efetivamente perdeu a década. A moda agora é o Leste europeu. As livrarias expõem esquecidos autores tchecos, poloneses, húngaros e romenos. Os cinemas ressuscitam cineastas proibidos. E as agências de turismo oferecem pacotes para todos os bolsos, para quem quiser dar uma última olhadela nos cacos do comunismo. Quanto a Nuestra America, esta parece ser preocupação do milênio passado. Castro, se antes teve a sustentação da intelectuália parisiense, hoje é visto como o último caudilho do continente. La Lune et le caudillo: le rêve des intellectuels et le régime cubain, de Jeannine Verdés-Leroux, é um dos bons lançamentos que parece ser onipresente nas livrarias do Quartier Latin. Neste ensaio, a autora não se preocupa em desmitificar Castro propriamente, e sim os intelectuais parisienses que, cachimbando às margens do Sena, com a poltrona assestada na direção do rumo da História, apoiaram a ditadura cubana. E não faltam alguns respingos para o Che Guevara, cuja imagem de santo laico começa a ceder ante o perfil de um psicopata excitado com o cheiro de sangue. É triste constatar que nós, brasileiros, só daqui a uns dez anos acabaremos chegando a estas conclusões*. A propósito, olhando-se o mundo lado de cá, tem-se a nítida percepção de que o Brasil é o último país comunista da América Latina. Ou seja, país onde há uma predominância de uma ideologia obsoleta, que atrasou em um século ou mais os países do Leste. Ora, direis leitores, e Cuba onde é que fica? Acontece que Cuba não é um país comunista. Lá, ao que tudo indica, só existe um comunista, já desesperado ante a perspectiva, cada vez mais próxima, de largar o osso do poder. "Todos os homens têm direito a tudo que pedem", disse um dia Fidel a Sartre. "E se eles pedem a Lua" - quis saber Sartre, pensando certamente na peça Calígula, de Camus. "Se eles pedem a Lua" - respondeu o caudilho - "é porque dela necessitam". Hoje, sabemos que os homens não pedem tanto. Querem algo mais singelo e mais ao alcance da mão, a liberdade. Os intelectuais franceses estão confusos. Até setembro, outubro ou novembro do ano passado, havia resposta para todo e qualquer problema. De repente, as respostas todas se revelaram falsas, se não safadas. Bernard Henry Lévy, velho-novo-filósofo, tenta recuperar-se parafraseando Marx: "Sonhamos muito tempo em transformar o mundo, chegou a hora de interpretá-lo". Talvez acabe chegando, depois de velho, a alguma conclusão inteligível. A Europa Ocidental levará ainda alguns anos para mitigar a perplexidade que lhes foi brindada pelos primos pobres do Leste. O stalinismo impregnou de tal forma os cérebros ocidentais, a ponto de o Muro de Berlim ser considerado como um fasto eterno e consumado, mesmo pelos mais obstinados anti-stalinistas. Percebem agora estes pensadores terem esquecido que a alavanca das grandes transformações sociais continua sendo a mesma de sempre: o desejo de liberdade, inerente a todo ser humano. E nisto em nada diferem de nós os homens do Leste. Nas manchetes da imprensa parisiense, começa a mudar o vocabulário político. Pela primeira vez na França, ouço falar em fascismo eslavo. PC virou piada. Nanni Moretti, corrosivo cineasta italiano, diverte a fauna parisiense com seu último filme, La Palombella Rossa, datado do ano passado. Cenário, uma piscina. Personagem central, um deputado do PC italiano, jogador de waterpolo. Ao tentar explicar em que consistiria ser comunista hoje, o deputado se deixa emaranhar em uma teia de lugares comuns que conduzem o público a um sorriso interior e amargo. Mas quando fala na "crise geral do capitalismo" nestes primórdios de 1990, não há na sala quem controle a gargalhada. Repetindo à exaustão os slogans do Partido, Moretti deixa claro que a peste que contaminou este século não passou de um amontoado de palavras vazias. Sem Deus nem ideologia, o deputado italiano pede socorro à mamãe. Assim devem sentir-se, suponho, os últimos comunossauros tupiniquins. O filme, de 1989, revelou-se premonitório. Na França, só um cara-de-pau como Marchais, íntimo de Ceaucescu, consegue defender, ao lado de Castro, os ideais comunistas. "Não nos jogaremos nos braços da social-democracia, nem aceitamos o capitalismo", insiste Marchais no L’Humanité, órgão oficial do PC francês, precisamente nestes dias em que os países comunistas dissolvem seus PCs e a Polônia cria um partido social-democrata. Comentaristas angelicais pretendem que social-democracia é uma coisa, capitalismo é outra. Só cai neste conto quem não conhece Alemanha e países escandinavos. Ao clamar pela social-democracia, os sofridos habitantes do Leste em verdade reivindicam, eufemisticamente, um regime capitalista, com todas as suas - boas ou más - conseqüências. E o resto é conversa fiada. Para os historiadores futuros, o século XX será visto como um vasto laboratório no qual ensaiou-se - às custas de milhões de cadáveres - uma utopia que não deu certo. "O pior fracasso do comunismo" - escreve Jean Daniel, do Nouvel Observateur - "foi ter associado o horror a um dos maiores sonhos da humanidade". Enfim, o sonho acabou, conforme expressão das carpideiras. Melhor diriam: a paranóia. Sempre vi algo de paranóico nestes senhores que, beneficiando-se das delícias do capitalismo, apoiavam-se incondicionalmente no regime que oprimia os cidadãos do Leste. Não por acaso, corre uma piada na Romênia pós-Ceaucescu. Em Bucareste, nos dias do conducator, um cidadão entra em uma farmácia: - Bom dia, camarada farmacêutico! - Bom dia, camarada cliente! - Camarada farmacêutico, você tem algo para a paranóia? - Para a paranóia, camarada cliente, só tenho respeito. * Pequei pelo otimismo. Neste ano da graça de 2007, ainda há quem cultue Castro no Brasil. (Joinville, A Notícia, 25.02.90)
Segunda-feira, Novembro 05, 2007
PORQUE SÃO COMPRIDOS OS POEMAS DE NERUDA Um leitor se pergunta porque são tão compridos todos os poemas de Neruda. É simples. Aquelas tripas espichadas de Eliecer Neftali Ricardo Reyes y Basoalto - que assim se chamava Neruda - alinhadas horizontalmente, dariam uma ou duas frases, no máximo, de péssima prosa. Só mesmo décadas de repetição reiterada de que os poemas de Neruda são poesia tornaram possível conferir ao chileno o status de poeta. John Gunther, em seu ensaio A Rússia por Dentro, há mais de cinco décadas, já nos explicava a razão das linhas extremamente curtas dos versos dos poetas russos: é que os poetas recebiam uma taxa uniforme por linha, quatorze rublos. Em A Ponte dos Suspiros, o insuspeito Moacir Werneck de Castro nos conta que os versos curtos das Odes nada tinham a ver com normas poéticas e sim motivações menos prosaicas: "é que o jornal El Nacional, de Caracas, pertencente ao escritor Miguel Otero e Silva, grande amigo de Neruda, colaborador assíduo, pagava as poesias por linha".
MURRAY APÓIA WATSON Lá por fins de 98, a Folha de São Paulo foi acusada de crime de preconceito racial por ter publicado artigo sobre o livro The Bell Curve (A Curva do Sino), de Charles Murray e Richard Herrnstein. O pecado da obra consistia em afirmar que os testes de QI apontavam diferenças entre raças, com brancos se saindo em média melhor do que negros. Chegamos a este ponto histérico no qual comentar no Brasil um livro publicado nos Estados Unidos constitui crime. Condena-se não os autores, mas o jornal que noticia um fato, no caso a edição da obra. Tais processos são sempre impetrados para intimidar jornais e jornalistas e só servem para atulhar os tribunais. Normalmente, redundam em nada. Na edição de hoje, a Folha entrevista Charles Murray, a respeito do geneticista e prêmio Nobel James Watson, que foi execrado pela imprensa e pela academia por ter afirmado que "todas as políticas sociais são baseadas no fato de que a inteligência deles [negros] é igual à nossa, apesar de todos os testes dizerem que não". Murray concorda. "Não há discussão sobre o que os testes de inteligência dizem. Existem dados vindos de muitos países africanos e de diversos testes, inclusive alguns sem perguntas culturais, e estudos feitos por psicólogos negros, não são só pessoas brancas. E os resultados são muito confiáveis: ao longo dos países da África Sub-Sahariana, são extremamente baixos. Pode-se discutir é o que isso significa, mas os números são realmente baixos". Murray acha que Watson foi injusto ao afirmar que pessoas que já lidaram com empregados negros não acreditam que isso [a igualdade de inteligência] seja verdade e que há muitas pessoas de cor muito talentosas, mas não os promova quando eles não tiverem sido bem-sucedidos nos níveis mais baixos. Diz o autor de The Bell Curve: "Foi uma frase injusta da parte dele. Mas concordo com a segunda parte. Que você não promova pessoas só porque eles são membros de um grupo em desvantagem, o que é um problema nos EUA. Nós temos leis de ação afirmativa, que dá incentivos a empregadores para dar tratamentos especiais e favoráveis para negros. É uma política terrível. Para todos: para os negros, para os brancos, e pior ainda para as relações entre negros e brancos". Murray considera que Watson descuidou-se ao falar em uma entrevista e que jamais teria escrito isto (a primeira parte) de próprio punho. Aqui entramos em uma discussão que está envenenando os ânimos no Brasil. Desde há anos venho afirmando que a política de cotas na universidade e nos cargos públicos só serve para incentivar o racismo em um país onde, se algum racismo há, é incipiente. Nada a ver com o racismo violento e odioso ocorrido nos Estados Unidos. As esquerdas só conseguem sobreviver jogando os seres humanos uns contra os outros. Morta a luta de classes, impõem-se a luta de raças. São as viúvas de Moscou que hoje jogam negros contra brancos no Brasil. De longe, Murray viu com extraordinária lucidez o que hoje está ocorrendo entre nós. Interrogado sobre os prós e contras da ação afirmativa, responde: "Primeiro, deixe-me dizer que não conheço nem estive no Brasil. Mas a reputação do país é a de que as relações entre pessoas de diferentes etnias sempre foi boa. Vocês se apresentam como um país que não é obcecado com a questão negros versus brancos, como são os EUA. Se isso é verdade, a ação afirmativa é a melhor maneira possível para destruir essa vantagem. Se vocês querem garantir que os brasileiros comecem a se odiar, odiar talvez seja uma palavra muito forte, mas estranhar um ao outro como nunca antes aconteceu, criar divisões, então a melhor receita é implantar a ação afirmativa. Funciona maravilhosamente para criar ressentimento. Se você tenta ajudar os negros, os brancos vão dizer: "Espere, se eu tenho a mesma habilidade e um processo seletivo justo, porque alguém deve ter vantagem em relação a mim por conta da cor de sua pele"? "Ao mesmo tempo, prejudica as pessoas que estão supostamente sendo ajudadas pela ação afirmativa, no caso os negros. Toda vez que eles vão trabalhar, por exemplo, todas as pessoas brancas daquele escritório presumirão que eles conseguiram o emprego porque são negros. A presunção é: provavelmente essa pessoa não é tão capaz quanto nós porque conseguiu esse emprego por ação afirmativa. É uma idéia terrível! Sei pouco sobre o Brasil, mas sei muito sobre os EUA e outros países. Eu imploro aos brasileiros: não façam isso". --------- Íntegra da entrevista em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0511200702.htm
IDIOCRACY Janer, a respeito do seu post "O Custo Social da Ignorância", sua conclusão de que o núcleo pensante que faz o país se manter de pé está minguando me fez imediatamente lembrar do filme Idiocracy (2006). No filme, um sujeito que é a definição perfeita de "americano mediano" (ou seja, um sujeitinho bem medíocre, intelectualmente falando) participa de uma experiência de congelamento humano. Só que ele é esquecido e acaba congelado por 500 anos. Ao acordar, ele está em um mundo onde a sociedade emburreceu a tal ponto que ele é a pessoa mais inteligente do mundo. O filme é impagável, e é impossível não deixar de reconhecer o futuro do Brasil nele.. Darke Mayer Goulart
AINDA O POETA STALINISTA Nada melhor do que ter leitores atentos. Tony é um deles e enviou-me a versão em português da ode de Pablo Neruda a Stalin. A este cúmplice e cultor de facínoras, a Kungliga Akademie sueca conferiu o Nobel de Literatura. EM SUA MORTE Camarada Stalin, eu estava junto ao mar na Ilha Negra, descansando de lutas e de viagens, quando a notícia de tua morte chegou como um choque de oceano. Foi primeiro o silêncio, o esturpor das coisas, e depois chegou do mar uma onda grande de algas, metais e homens, pedras, espuma e lágrimas estava feita esta onda. de história, espaço e tempo recolheu sua matéria e se elevou chorando sobre o mundo até que diante de mim veio para golpear a costa e derrubou em minhas portas sua mensagem de luto com um grito gigante como se de repente se quebrasse a terra. Era em 1914. Nas fábricas se acumulavam sujeiras e dores. Os ricos do novo século repartiam-se a dentadas o petróleo e as ilhas, o cobre e os canais. Nem uma só bandeira levantou suas cores sem os respingos do sangue. De Hong Kong a Chicago a polícia buscava documentos e ensaiava metralhadoras na carne do povo. As marchas militares desde a aurora mandavam soldadinhos para morrer. Frenético era o baile dos estrangeiros nas boates de Paris cheias de fumo. Sangrava o homem. Uma chuva de sangue caía do planeta, manchava as estrelas. A morte estreou então armaduras de aço. A fome Nos caminhos da Europa foi como um vento gelado aventando folhas secas e quebrantando ossos. O outono soprava os farrapos. A guerra havia eriçado os caminhos. Olor de inverno e sangue emanava da Europa como de um matadouro abandonado. Enquanto isso os donos do carvão, do ferro, do aço, do fumo, dos bancos, do gás, do ouro, da farinha, do salitre, do jornal El Mercúrio, os donos de bordéis, os senadores norte-americanos, os flibusteiros carregados de ouro e sangue de todos os países, eram também os donos da História. Ali estavam sentados de fraque, ocupadíssimos em dispensar-se condecorações, em presentear-se cheques na entrada e roubá-los na saída, em presentear-se ações da carnificina e repartir-se a dentadas pedaços de povo e de geografia. Então com modesto vestido e gorro operário, entrou o vento, entrou o vento do povo. Era Lênin. Mudou a terra, o homem, a vida. O ar livre revolucionário transtornou os papéis manchados. Nasceu uma pátria que não deixou de crescer. É grande como um mundo, mas cabe até no coração do mais humilde trabalhador de usina e oficina, de agricultura ou barco. Era a União Soviética. Junto a Lênin Stalin avançava e assim, com blusa branca, com gorro cinzento de operário, Stalin, com seu passo tranqüilo, entrou na História acompanhado de Lênin e do vento. Stalin desde então foi construindo. Tudo fazia falta. Lênin recebeu dos czares teias de aranha e farrapos. Lênin deixou uma herança de pátria livre e vasta. Stalin a povoou com escolas e farinha, imprensas e maçãs. Stalin desde o Volga até a neve do norte inacessível pôs sua mão e em sua mão um homem começou a construir. As cidades nasceram. Os desertos cantaram pela primeira vez com a voz da água. Os minerais acudiram, saíram de seus sonhos escuros, levantaram-se, tornaram-se trilhos, rodas, locomotivas, fios que levaram as silabas elétricas por toda extensão e distância. Stalin construía. Nasceram de suas mãos cereais, tratores, ensinamentos, caminhos, e ele ali simples como tu e como eu, se tu e eu conseguíssemos ser simples como ele. Porém aprenderemos. Sua simplicidade e sua sabedoria, sua estrutura de bondoso coração e de aço inflexível nos ajuda a ser homens cada dia, diariamente nos ajuda a ser homens. Ser homens! É esta a lei staliniana! Ser comunista é difícil. Há que aprender a sê-lo. Ser homens comunistas, é ainda mais difícil, e há que aprender de Stalin sua intensidade serena, sua claridade concreta, seu desprezo ao ouropel vazio, à oca abstração editorial. Ele foi diretamente desenlaçando o nó e mostrando a reta claridade da linha, entrando nos problemas sem as frases que ocultando o vazio, direto ao centro débil que em nossa luta retificaremos podando as folhagens e mostrando o desígnio dos frutos. Stalin é o meio-dia, A madureza dos homens e dos povos. Na guerra o viram as cidades queimadas extrair do escombro a esperança, refundida de novo, fazê-la aço, a atacar com seus raios destruindo a fortificação das trevas. Mas também ajudou as macieiras da Sibéria a dar suas frutas debaixo da tormenta. Ensinou a todos a crescer, a crescer, plantas e metais, criaturas e rios ensinou-lhes a crescer, a dar frutos e fogo. Ensinou-lhe a Paz e assim deteve com seu peito estendido os lobos da guerra. Diante do mar de Ilha Negra, na manhã, icei a meia haste a bandeira do Chile. Estava solitária a costa e uma névoa de prata se mesclava à espuma solene do oceano, Em metade do seu mastro, no campo de azul, a estrela solitária de minha pátria parecia uma lágrima entre o céu e a terra. Passou um homem do povo, saudou compreendendo, e tirou o chapéu. Veio um rapaz e me apertou a mão. Mais tarde o pescador de ouriços, o velho búzio e poeta, Gonzalito, acercou-se para acompanhar-me sob a bandeira. "Era mais sábio que todos os homens juntos", me disse olhando o mar com seus velhos olhos, com velhos olhos do povo. E logo por longo instante não nos falamos nada. Uma onda estremeceu as pedras da margem. "Porém Malenkov agora continuará sua obra", prosseguiu levantando-se o pobre pescador de jaqueta surrada. Eu o fitei surpreendido pensando: como, como o sabe? De onde, nesta costa solitária? E compreendi que o mar lhe havia ensinado. E ali velamos juntos, um poeta um pescador e o mar ao Capitão remoto que ao entrar na morte deixou a todos os povos, como herança, a vida.
Crônicas da Guerra Fria (28) SARTRE E OS PICA-PAUS DE BERLIM Florianópolis - O sonho acabou, dizem intelectuais ditos de esquerda, ao referir-se ao fracasso total dos regimes comunistas. Digo intelectuais ditos de esquerda, porque jamais aceitei esta conceituação, afinal desde os anos 20 as tais de esquerdas vêm cultuando os vícios que atribuíram à tal de direita. Os gulags, é bom lembrar, datam de 1918. Hitler nada teve de original. Por sonho, nossos intelectuais entendem o socialismo. Estes sonhadores profissionais sempre viveram no cálido e capitalista Ocidente, é claro. Socialismo, no olho alheio, é colírio. Para quem o sofre, um pesadelo. O sonho pode ter acabado. Mas apenas para estes esquerdofrênicos que, degustando um scotch e pinçando castanhas ao som de Chico Buarque, louvavam o regime inumano que oprimia milhões de seres na China, União Soviética e colônias. Disse oprimia? Perdão leitor. Continua oprimindo. Se os países do Leste europeu começam a tatear um caminho de liberdade, Gorbachov ainda não está conseguindo impor a perestroika em sua própria casa. Quando os comunossauros de Moscou largarem o osso do poder, só então poderemos respirar tranqüilos. É bom lembrar que as tropas russas continuam estacionadas na Europa central. A Gorbachov, para concluir sua missão, só falta um passo: declarar massa falida o sistema que o gerou. Ou seu projeto terá sido vão. De Paris, recebo duas cartas. A primeira, de amiga que agora cogita visitar-me, pois finalmente o Brasil teve "eleições democráticas". (As aspas são dela, não minhas). Pelo jeito, preferia a barbárie no poder. A propósito, no período do segundo turno, os jornais franceses estavam saudando Monsieur Lula como le futur président du Brésil. Francês sempre teve o coração à esquerda. Socialismo é ótimo, desde que longe da França*. Mas falava de minha missivista, que já viajou pela China, União Soviética, países do Leste e jamais exigiu eleições livres do lado de lá. Conseguiu inclusive entrar na Albânia, último reduto dos "puros e duros", para onde agora estão viajando cinco deputados brasileiros, entre eles Florestan Fernandes, homem dotado de tal coragem intelectual que chegou a apoiar os massacres da praça da Paz Celestial em Pequim. Da Albânia, minha amiga parisiense contou-me uma história divina. Encrave tirânico e medieval em meio a uma Europa moderna, a agricultura do país ainda está na fase da enxada e do rabo do arado. Enver Hoxha, acusado pela imprensa ocidental (pela albanesa é que não o seria) de manter um sistema que sequer produzia um trator, convocou seus engenheiros e ordenou a construção de um. Construído o dito, ficou provado que o poderoso pensamento do camarada Hoxha era capaz de conceber uma agricultura mecanizada. Provado isto, o trator foi para um museu, onde até hoje está, enquanto os albaneses continuam entortando as vértebras no cabo da enxada. Na segunda carta, as angústias do final de década de um brasileiro há muito vivendo em Paris: "Toda a ideologia dominante de nossa geração e os castelos e fortalezas que sobre ela foram construídos se esboroam sobre as fundações que supúnhamos sólidas. No PCF a debandada é geral, o que, em comparação com o resto é um epifenômeno localíssimo. Embora a política não tenha sido objeto de minhas paixões, vejo tudo isso boquiaberto e me pergunto que nova Jerusalém o espírito humano (e europeu) vai nos tirar de sua caixinha de surpresas". Pois espero que o espírito europeu não conceba mais nenhuma, que de Jerusaléns estamos fartos. Gerações e gerações foram sacrificadas neste século na busca de um ideal assassino, e ai de quem discordasse dos sagrados postulados de Moscou! Dois milenaristas no poder já são demais para um único século em um só continente. Hitler e Stalin foram adorados por seus contemporâneos e quase afogaram a Europa no mais vasto mar de sangue que até hoje temos notícia. Hitler, ao perder a guerra, foi relegado ao papel de vilão. Mas não tenhamos dúvida alguma: se a ganhasse continuaria a ter adoradores no mundo todo, pois quem escreve a história são os vencedores. Stalin, vitorioso, virou Deus. Mas, como dizia Marx, tudo que é sólido se desmancha no ar. Esta singela frase, quase escondida no Manifesto, não parece ter recebido a devida atenção de seus seguidores. O tosco e rude messianismo russo impressionou os intelectuais do Ocidente a tal ponto que Sartre, ao voltar de uma viagem à União Soviética, declarou ao Libération, em 1954: "A liberdade de crítica é total na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. E o cidadão soviético melhora sem cessar sua condição no seio de uma sociedade em progressão contínua. Exceto alguns, os russos não têm muita vontade de sair do país... não têm muita vontade de viajar neste momento. Têm outra coisa a fazer em casa". Mais uma pérola: "Lá por 1960, antes de 1965, se a França continua estagnada, o nível médio de vida na URSS será de 30 a 40% superior ao nosso. Qualquer que seja o caminho que a França deve seguir para sair de seu imobilismo, para recuperar ser atraso industrial, para se constituir como nação diferente da de hoje, ele não pode ser contrário ao da União Soviética". E nisso é que dá receber mordomias de Moscou. Esta prostituta respeitosa, que chegou a receber o prêmio Nobel e o recusou de puro despeito, pois Camus o havia recebido antes, foi guru de toda uma geração de tupiniquins. Entende-se agora melhor Nelson Rodrigues quando dizia ser o pensamento de Sartre de uma profundidade tal que uma formiga o atravessava com água pela canela. Todo anticomunista é um cão, decretou um dia Sartre. Com a autoridade de parisiense que determina qual será o perfume ou filosofia da década, condenou ao círculo dos infames todos os pensadores lúcidos que clamavam por liberdade, Camus inclusive. Em 1980, assisti ao enterro de Sartre, acompanhado por stalinistas e compagnons de route. Pena ter morrido tão cedo. Teria hoje a coragem de chamar de cães toda esta gente que derruba dos prédios estrelas vermelhas e rasga das bandeiras a foice e o martelo? Serão cães estas nações que querem abandonar de suas histórias a palavra comunista? É uma pena, realmente, que Sartre não esteja vivo neste final de década. Falava de cartas. De Berlim recebo outra: "Vem logo, ou não vais conseguir nenhum pedacinho do muro como lembrança". Minha interlocutora me conta que, dia e noite, ouve-se um matraquear incessante de berlinenses de picaretas em punho, grudados ao muro que nem pica-paus a um eucalipto. E eu, que tanto me queixo dos ruídos de Florianópolis, não vou resistir ao convite para este concerto. * Quando finalmente eleito presidente, em 2002, Lula deixou de lado as veleidades socialistas do PT. (Porto Alegre, RS, 03.02.90. Joinville, A Notícia, 11.02.90
DO NOBEL STALINISTA Falei, em crônica passada, de uma ode de Neruda a Stalin, que foi subtraída de suas Obras Completas. É possível que seja esta, publicada em 1953, logo após a morte do georgiano, que me foi enviada por Vinicius Arcaro, leitor atento. Pena que está em inglês, mas já nos uma idéia da vileza do poeta. To be men! That is the stalinist law! . . . We must learn from Stalin his sincere intensity his concrete clarity. . . . Stalin is the noon, the maturity of man and the peoples. Stalinists, let us bear this title with pride. . . . Stalinist workers, clerks, women take care of this day! The light has not vanished. The fire has not disappeared, There is only the growth of Light, bread, fire and hope In Stalin's invincible time! . . . In recent years the dove, Peace, the wandering persecuted rose, Found herself on his shoulders And Stalin, the giant, Carried her at the heights of his forehead. . . . A wave beats against the stones of the shore. But Malenkov will continue his work.
Domingo, Novembro 04, 2007
O CUSTO SOCIAL DA IGNORÂNCIA Já que falei em Cervantes... Alguma vez na vida, talvez neste blog, contei episódio de uma sobrinha que foi visitar-me em Madri. Era formada em Relações Públicas por uma universidade gaúcha e estava em Londres para aperfeiçoar seu inglês. Ora, poucas coisas no mundo me dão tanto prazer quanto mostrar Madri a alguém, particularmente quando se trata de alguém que quero bem. Comecei pelo Café de Oriente, meu refúgio predileto. Após algumas copas y tapitas, mostrei-lhe o Palácio Real e seguimos pelos jardins de Sabatini. Ao chegarmos na Plaza de España, indiquei aquele monumento clássico, o Quixote montado no Rocinante e Sancho Pança em seu burrico. - Aqueles dois, suponho que conheces – fui dizendo. Melhor não dissesse. Para minha perplexidade, nunca ouvira falar. Jamais havia visto. Nem mesmo em figurinha. Não entendi mais nada. Minha sobrinha era pessoa inteligente, nascera em cidade universitária, fizera curso superior, era executiva bem sucedida em São Paulo e sempre teve curiosidade pelo mundo. Aquela lacuna só tinha uma resposta, o fracasso total do ensino secundário e superior no Brasil. Como era pessoa que nunca vivera em torre de marfim, mas sim sempre em contato com jovens e adultos, concluí que ela não deveria constituir exceção entre os de sua geração. Ainda nenhuma instituição fez uma pesquisa para saber quantos brasileiros tenham notícias de quem sejam o Quixote e Sancho Pança. O resultado seria certamente vergonhoso. Há algum tempo, zapeando pela televisão, testemunhei outro momento chocante. Sílvio Santos perguntava a uma universitária qual era a capital da França. Apresentava cinco alternativas e uma delas, é claro, era Paris. Pois não é que a universitária apontou Atenas? Que alguém desconheça o Quixote me pareceu até mesmo inteligível, afinal é personagem de quatro séculos atrás e pertence ao mundo das Letras. Mas desconhecer a capital da França? Quando toda mídia, tanto cinema como televisão, rádio ou jornais, estão a toda hora mostrando Paris? A impressão que fica é que há cabecinhas na universidade que não conseguem reter uma unidade sequer de memória. A Veja desta semana nos traz casos bem mais graves. Pesquisa do instituto Ipsos, feita com mil pessoas em setenta municípios de nove regiões metropolitanas, mostra que - 97% dos entrevistados não sabem onde fica a França. Alguns a situam na Groenlândia, outros na Alemanha, outros na Ucrânia - 92% não sabem onde fica o Japão. Há quem o situe na Austrália. Outros, na Rússia - 84% não sabe onde fica a Argentina. Para alguns fica na Bolívia, para outros no México - 82% não sabe onde ficam os Estados Unidos. Uns acham que fica no Canadá, outros na Rússia. E, pasmem: 50% não sabe onde fica o Brasil. Quase 10% dos entrevistados que passaram por uma faculdade, tendo completado ou não o curso, não sabem que o Brasil se localiza na América do Sul. (Aqui uma pergunta se impõe: como pode a universidade permitir o ingresso de pessoa que não sabe onde fica o Brasil?) Esse percentual sobe para 30% entre os que fizeram o ensino médio e aumenta para 50% entre os que iniciaram o ensino fundamental. Ignorância não quer dizer infelicidade, dizia-me recentemente um amigo. De fato. Eu até aventaria que os brutos, em sua insciência, não precisam de maiores conhecimentos para viverem felizes. Mas ignorância tem um custo social muito alto. Esta fatia de brasileiros que sequer sabe onde fica o Brasil é quem pôs no poder os analfabetos e corruptos que hoje dirigem a nação. Não existe no mundo país que tenha se desenvolvido tendo como matéria-prima a ignorância. A educação que o Brasil hoje oferece empurra o conhecimento cada vez mais para baixo. A universidade não tem mais preocupação alguma em captar os melhores. Com a política crescente de cotas, os piores têm direito adquirido aos bancos acadêmicos. Verdade que há ainda um núcleo de substância pensante que mantém o país o pé. Mas este núcleo parece não estar se reproduzindo, e sim minguando. Ai dos que estão chegando.
CERVANTES VIVE No prólogo a Novelas Ejemplares, Cervantes lamenta seus dentes, ni menudos ni crecidos, porque no tiene sino seis y esos mal acondicionados y peor puestos, porque no tienen correspondencia los unos con los otros. Também glorifica sua mão perdida em Lepanto, herida que, aunque parece fea, él la tiene por hermosa, por haberla cobrado en la más memorable y alta ocasión que vieron los passados siglos ni esperan ver nos venideros. Ali está o homem, mutilado pela vida mas inteiro e orgulhoso de seus feitos. Mais tarde, ciente da grandeza de sua obra, Cervantes dirá de Cervantes: tú, que en la naval dura palestra perdiste el movimiento de la mano izquierda, para gloria de la diestra! A palavra palestra, aqui, tem o sentido original grego: luta, batalha. Raros são os gênios que ousam reconhecer publicamente seu gênio, e Cervantes foi um deles. (Dois outros foram Fernando Pessoa e Swift). Carlos Fuentes é um reputado escritor mexicano, autor de longa obra, muitas vezes indicado para o Nobel. Sua pedra de toque é Cervantes e certa vez o vi declarar que não consegue passar um dia sem ler uma página do Quijote. Assim sendo, muito me espanta ouvir dele esta bobagem, publicada hoje em sua entrevista ao Estado de São Paulo: - O leitor sobrevive ao autor. Quando o escritor morre, o leitor continua. Cervantes já se foi, mas seus leitores continuam adorando sua obra. E eles nascem a cada dia. Ora, Cervantes não se foi nem nunca se irá. Quem partirá somos nós, seus leitores. Sim, os leitores nascem a cada dia. Mas também morrem a cada dia. Cervantes não morre. Muito menos o Quixote.
Crônicas da Guerra Fria (27) PAUNESCU E OS NOSSOS Florianópolis - Adrian Paunescu, poeta oficial da ditadura romena, vive hoje seus piores dias. É que caiu Ceaucescu, definido por Paunescu como o Titã dos Titãs, o gênio dos Cárpatos e outras gentilezas mais. No último Natal, mal soube do fuzilamento de seu protetor, o poeta foi correndo à televisão manifestar seu apoio à revolução emergente. Teve sorte em não ter sido linchado. "Devemos julgá-lo", bradavam os romenos. Eta povinho apressado! Ou seremos nós os lentos e propensos ao perdão? O século foi pródigo em poetas que cantaram ditaduras e até hoje não os julgamos. Pelo contrário, apressamo-nos a conferir-lhes os mais nobres galardões da literatura. Por exemplo, Louis Aragon, que durante toda sua vida foi um dos vates mais cultuados pelas esquerdas. Pincemos esta pérola, que reproduzo em francês, para não roubar ao poeta seu estro: Salut à toi, Parti, ma famille nouvelle Salut à toi, Parti, mon père désormais J’entre dans la demeure où la lumière est belle Comme um matin de premier mai! Traduzindo, sem preocupações com rima ou ritmo: Eu te saúdo, Partido, minha nova família Eu te saúdo, Partido, meu pai doravante Entro em tua morada, onde a luz é linda Como uma manhã do primeiro de maio. Isto foi escrito em 1960, quando já se sabia muito bem o que significava o comunismo russo. Enfim, para não sairmos de nosso continente, temos Pablo Neruda, que além de suas medíocres odes aos hortifrutigranjeiros, não deixou de escrever sua ode a Stalin. Não a tenho em mãos porque foi subtraída de suas Obras Completas, mas em algum lugar já tive oportunidade de lê-la. Neruda vai influenciar Drummond de Andrade, que além de prestar seu culto ao totalitarismo em Rosa do Povo chega a dirigir um jornal stalinista, em 1945. Ao inverso de Adrian Paunescu, Neruda, que morre como stalinista ferrenho, mereceu o Nobel de Literatura. E Carlos Drummond de Andrade que, como bom mineiro, calou o bico, mereceu homenagem na cédula de 50 cruzados novos. A inflação não deixa de ter seus méritos. Se hoje, com um Drummond, compro duas cervejas, mais dois ou três meses e o poeta não valerá sequer uma caixa de fósforos. Sem ir mais longe, Oswald de Andrade, cujo centenário está sendo comemorado, nestes dias, o que certamente valerá incontáveis hagiológios dos PhDeuses uspianos e irmãos Campos Universitário. Oswald, não contente de ser stalinista, foi fascista e nazista. Ou seja, prestou culto às três maiores pestes do século. Na Semana de Arte Moderna, foi porta-voz de Marinetti, vigarista italiano nascido no Egito que, por sua vez, era porta-voz de Mussolini. Em sua peça O Homem e o Cavalo, Oswald louva Stalin como o arauto dos tempos novos. Por ocasião do pacto Stalin-von Ribbentropp, passa a escrever no jornal nazista Meio-Dia, cuja página de cultura era editada, nada mais nada menos, por Jorge Amado.O erro de Paunescu parece ter sido apostar apenas em Ceaucescu. Distribuísse algumas fichinhas em Hitler, Mussolini, Khomeiny, talvez continuasse hoje sendo cultuado como poeta revolucionário. Convido o leitor a um rápido passeio pelo teatro do poeta centenário. "A voz de Stalin - Passar do cavalo camponês ao cavalo da indústria construtora de máquinas, eis o plano central do poder Soviético. Escutai a metáfora leninista. Passar de uma alimária à outra. Da alimária do campo, do cavalinho que convém a um país arruinado de camponeses ao cavalo que o proletariado procura e deve procurar, o cavalo da indústria, o cavalo-vapor". Só mais um pouquinho de Stalin, segundo Oswald: "- Não tínhamos indústria siderúrgica, agora temos! Não tínhamos indústria mecânica, agora temos! Não tínhamos indústria de tratores, agora temos! Não tínhamos indústria de automóveis, agora temos! Não tínhamos indústria química, agora temos! Não tínhamos liberdade, agora temos!" Não tínhamos liberdade, agora temos! - diz Stalin através da pluma do viajado e provinciano dandy, oriunda da burguesia cafeeira paulista. Tão provinciano a ponto de ter alugado uma sala na Sorbonne - como qualquer um pode fazer - para depois jactar-se de ter feito uma palestra na Sorbonne. Pior que tudo, sua apologia ao massacre stalinista, candidamente expressa pela voz da Terceira Criança. O sacrifício de milhões de vida justifica o mundo novo. Mundo que hoje se esboroa precisamente por ser arcaico e desumano. Fechamos as cadeias, diz Oswald pela boca do Médico. Esqueceu de acrescentar: abrimos gulags. Pois este senhor, que além de fazer a apologia de S | ||