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¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV
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Tiragem
Janer Cristaldo escreve no Página Não-Oficial de Janer Cristaldo Arquivos 10/01/2003 - 11/01/2003 12/01/2003 - 01/01/2004 01/01/2004 - 02/01/2004 02/01/2004 - 03/01/2004 03/01/2004 - 04/01/2004 04/01/2004 - 05/01/2004 05/01/2004 - 06/01/2004 06/01/2004 - 07/01/2004 07/01/2004 - 08/01/2004 08/01/2004 - 09/01/2004 09/01/2004 - 10/01/2004 10/01/2004 - 11/01/2004 11/01/2004 - 12/01/2004 12/01/2004 - 01/01/2005 01/01/2005 - 02/01/2005 02/01/2005 - 03/01/2005 03/01/2005 - 04/01/2005 04/01/2005 - 05/01/2005 05/01/2005 - 06/01/2005 06/01/2005 - 07/01/2005 07/01/2005 - 08/01/2005 08/01/2005 - 09/01/2005 09/01/2005 - 10/01/2005 10/01/2005 - 11/01/2005 11/01/2005 - 12/01/2005 12/01/2005 - 01/01/2006 01/01/2006 - 02/01/2006 02/01/2006 - 03/01/2006 03/01/2006 - 04/01/2006 04/01/2006 - 05/01/2006 05/01/2006 - 06/01/2006 06/01/2006 - 07/01/2006 07/01/2006 - 08/01/2006 08/01/2006 - 09/01/2006 09/01/2006 - 10/01/2006 10/01/2006 - 11/01/2006 11/01/2006 - 12/01/2006 12/01/2006 - 01/01/2007 01/01/2007 - 02/01/2007 02/01/2007 - 03/01/2007 03/01/2007 - 04/01/2007 04/01/2007 - 05/01/2007 05/01/2007 - 06/01/2007 06/01/2007 - 07/01/2007 07/01/2007 - 08/01/2007 08/01/2007 - 09/01/2007 09/01/2007 - 10/01/2007 10/01/2007 - 11/01/2007 11/01/2007 - 12/01/2007 12/01/2007 - 01/01/2008 01/01/2008 - 02/01/2008 02/01/2008 - 03/01/2008 03/01/2008 - 04/01/2008 04/01/2008 - 05/01/2008 05/01/2008 - 06/01/2008 06/01/2008 - 07/01/2008 07/01/2008 - 08/01/2008 08/01/2008 - 09/01/2008 09/01/2008 - 10/01/2008 10/01/2008 - 11/01/2008 11/01/2008 - 12/01/2008 12/01/2008 - 01/01/2009 01/01/2009 - 02/01/2009 02/01/2009 - 03/01/2009 03/01/2009 - 04/01/2009 04/01/2009 - 05/01/2009 05/01/2009 - 06/01/2009 06/01/2009 - 07/01/2009 07/01/2009 - 08/01/2009 08/01/2009 - 09/01/2009 09/01/2009 - 10/01/2009 10/01/2009 - 11/01/2009 11/01/2009 - 12/01/2009 12/01/2009 - 01/01/2010 01/01/2010 - 02/01/2010 |
Segunda-feira, Dezembro 31, 2007
DISSERAM POIS OS ÍMPIOS... Disseram pois os ímpios no desvario de seus pensamentos: o tempo de nossa vida é curto e cheio de tédio, e não há nenhum bem a esperar depois da morte, e também não se conhece ninguém que tenha voltado dos infernos. Pois do nada somos nascidos e depois desta vida seremos como se nunca tivéssemos sido. Pois a respiração de nossos narizes não passa de fumaça; e a razão é como faísca para mover o nosso coração. Apagada ela será e nosso corpo reduzido a cinza e o espírito se dissipará como um ar sutil. E a nossa vida se desvanecerá como uma nuvem que passa e se dissipará como um nevoeiro que é afugentado pelos raios de sol e oprimido pelo seu calor. E o nosso nome com o tempo ficará sepultado no esquecimento, e ninguém se lembrará de nossas obras. Pois nossa vida é a passagem de uma sombra, e não há regresso depois da morte. Pois, lacrada, dela ninguém retorna. Vinde portanto, e gozemos dos bens presentes, e apressemo-nos a usar das criaturas como na mocidade. Enchamo-nos de vinho precioso e de perfume e não deixemos passar a flor da primavera. Coroemo-nos de rosas antes que murchem; não haja prado algum em que a nossa intemperança não se manifeste. Nenhum de nós falte às nossas orgias. Deixemos em toda parte sinais de alegria, porque esta é a parte que nos toca e esta é a nossa sorte. (Livro da Sabedoria, II:1,7) Bom 2008 a todos leitores!
Domingo, Dezembro 30, 2007
SENADOR-PENETRA É espantoso como determinadas pessoas se atribuem - ou a elas são atribuídos - episódios curiosos. Renato Lessa escreve hoje no Estadão: “Não sei se lenda ou peça de folclore político. Conta-se que décadas atrás o atual senador Marco Maciel se viu envolvido, em visita oficial à China, em um diálogo trepidante com Deng Xiaoping. Nosso senador - exemplo raro de gentileza na vida pública - teria perguntado ao líder chinês: “O que pensam vocês da Revolução Francesa?” A reposta, nessa improvável conversa, é reveladora da relatividade das distâncias temporais. O camarada Deng teria dito não haver ainda, na altura, opinião formada entre seus súditos sobre o evento, dado o caráter recente do mesmo. O que, afinal, significa um par de séculos, diante de uma história contada pela métrica dos milênios?” Improvável conversa mesmo. Nada a ver com Marco Maciel, que entra na história de penetra. Essa anedota, eu a ouvi nos anos 70, em Estocolmo. O interlocutor de Deng Xiaoping teria sido um diplomata sueco. E a resposta do chim teria sido mais breve, como convém a uma história bem contada: - Estamos observando.
PAPA FAZ APOLOGIA DO ADULTÉRIO DE MARIA Disse Sua Santidade hoje pela manhã, em sua alocução na praça São Pedro: "Ao contemplar o mistério do Filho de Deus que veio ao mundo cercado do afeto de Maria e de José, convido as famílias cristãs a experimentar a presença amorosa do Senhor em suas vidas. Além disso, os estimulo a que, inspirando-se no amor de Cristo pelos homens, dêem testemunho ao mundo da beleza do amor humano, do matrimônio e da família". "Esta, fundada na união indissolúvel entre um homem e uma mulher, constitui o âmbito privilegiado no qual a vida humana é acolhida e protegida, desde seu início até seu fim natural. Por isto, os pais têm o direito e a obrigação fundamental de educar seus filhos na fé e nos valores que dignificam a existência humana". Ao evocar Jesus, Maria e José como paradigmas do matrimônio, Bento XVI está no fundo fazendo a apologia do adultério. Segundo a Igreja, Maria casou com José. Mas teve seu filho com o Espírito Santo. Adultério divino, mas adultério. Sem falar que este místico conúbio acaba com a pretensão da Igreja de que Cristo pertença à casa de Davi. Como poderia pertencer, se a linhagem humana foi interrompida pelo Paráclito?
Sábado, Dezembro 29, 2007
EUROPA FINANCIA TERROR NA EUROPA A Europa foi escolhida como um gigantesco lar seguro pelos terroristas porque, diferentemente de todas as demais partes do mundo (incluindo-se o norte da África, o Oriente Médio e outros países muçulmanos), ela oferecia não apenas segurança, mas também assistência financeira porque, conforme as regras vigentes e enquanto solicitantes de exílio político, os “ativistas” podiam se habilitar a apoio financeiro. Desse modo uma situação bizarra se desenvolveu: Abu Qatadah, que se acreditava ser o representante de Osama bin Laden na Europa, obteve exílio na Grã-Bretanha; Abu-Hmaza al-Mizri fez da mesquita de Finsbury o centro de “atividades militantes” na Europa Ocidental; o mulá Krekar, líder da Al Ansar, foi para a Noruega; Abu Talal al-Qasimi, um dos cabeças do Gama’a egípcio, fez da Dinamarca sua base de operações (1993); Abdel Ghani Mzoudi e Mounir el-Mouttazadek, da célula de Hamburgo que realizou os ataques do 11 de setembro, continuam operando livremente. Eles ficaram detidos durante algum tempo, mas o sistema legal alemão mostrou-se impotente para lidar com eles. Células terroristas surgiram e operaram por muitos anos em Madri, Turim, Milão, Frankfurt, Roterdã, Eindoven (a mesquita Al Furgan) e em diversas localidades. Em algumas ocasiões, os “militantes” foram levados a julgamento, mas com freqüência acabaram absolvidos. A maioria vivera durante anos à custa da assistência social e recebera apartamentos, pagamentos à vista de autoridades locais ou estaduais que chegavam a dezenas (muitas vezes centenas) de milhares de dólares, seguros-desemprego para ele e suas numerosas famílias; em certos casos, receberam apoio para suas atividades religiosas. O mulá Krekar foi preso pelas autoridades dinamarquesas durante um breve período; ele entrou com um processo e recebeu cinco mil euros por prisão injustificada, quantia posteriormente aumentada para 45 mil euros. Enquanto isso, esses ativistas não faziam segredo de suas intenções – chegaram a ameaçar os governos anfitriões com retaliações medonhas caso suas exigências não fossem atendidas. (In Os últimos dias da Europa - Epitáfio para um velho continente, de Walter Laqueur, Rio de Janeiro, Odisséia Editorial, 2007)
COISAS DELES & COISAS NOSSAS Leio no El País que um dos trens de alta velocidade (AVE) entre Málaga e Madri teve hoje um atraso de 40 minutos, que afetou 140 passageiros. O trem, que saiu de Málaga às 7h10, deveria chegar em Madri às 10h20. Devido a este atraso, que foi de mais de meia hora, a RENFE devolverá a todos os passageiros o valor total dos bilhetes. Cá em Pindorama, as empresas aéreas atrasam até vinte ou mais horas e você não recebe um vintém. Recente projeto do governo, de ressarcir por atrasos de mais de quatro horas, continua no limbo das boas intenções. Já contei episódio semelhante. Quando vinha de Bruxelas para Paris, o Thalys atrasou vinte minutos. Na gare du Nord, em Paris, na chegada do trem vários funcionários distribuíam papéis aos passageiros. Perguntei de que se tratava. “É para sua indenização. O trem atrasou vinte minutos”. Ao voltar ao Brasil, voei pela famigerada Varig. O vôo atrasou duas horas. Já a bordo, uma senhora cujo destino era a Argentina manifestava a um comissário sua preocupação com a conexão para Buenos Aires. O comissário, com a serenidade dos justos, respondeu: "Se a senhora perder o vôo, pode entrar na Justiça".
Sexta-feira, Dezembro 28, 2007
CATÓLICOS DE ARAQUE Outro dia tomei um táxi e o taxista, além de se persignar frente a toda igreja, tinha um terço pendurado no carro. Perguntei se era católico. Disse que era. Olhei melhor o terço. Era fajuto. "Tá faltando o pai-nosso", disse. Como? É, não tem os cinco pai-nossos, só tem ave-marias. Ele não entendeu nada. Perguntei onde ele situava o salve-rainha. Parecia que eu estava falando grego. Recitei o salve-rainha. Nunca havia ouvido falar. Esses são os católicos com os quais lidamos. Já que falei em persignar-se... Já vi, por duas vezes, pessoas fazendo o sinal da cruz ao entrar em um shopping. Não entendi. Será um breve contra o consumo compulsivo? Ou quem sabe proteção contra o eventual desmoronamento do shopping? Mistério profundo. Tive vontade de interpelar as pessoas, perguntar porque se persignavam. Mas estava longe delas. Permanece o mistério. Se algum leitor souber a razão disto, favor informar-me.
NÃO SE FAZEM MAIS ATEUS COMO ANTIGAMENTE Em reportagem sobre religiões, na Veja desta semana, André Petry se revelou um ateu conciliador. Quando escreve que “ninguém pode afirmar que os deuses, os livros sagrados e as preces são uma criação do homem, sem nenhuma intervenção divina”, está entregando o ouro aos bandidos. É óbvio que deuses, livros sagrados e preces são criações humanas. A outra hipótese é que os deuses existem e os livros sagrados e as preces são criações suas. Faltou coragem ao articulista. É o que dá escrever em jornalões. Daí decorre outra pergunta: se existem deuses, em qual deus crer? Ou todos têm o mesmo certificado de validade?
AINDA A REVOADA DE ORNITÓLOGOS Prezado Sr. Janer, quanto ao seu artigo "sobre a periculosidade dos ornitólogos" acho que o senhor deveria se informar melhor sobre alguns aspectos biólogicos antes de criticar a atuação de conservacionistas e ONGs. Eu, como bióloga, sinto-me na obrigação de defender o outro lado. Atividades conservacionistas são complicadas por si só, como o senhor bem relata "se o que importa é o tamanho do fragmento ou a sua conectividade". E é ainda mais difícil colocá-las dentro do contexto sociológico e humano. Sabemos o quão difícil são estas decisões de deixar milhares de pessoas sem tratamento de água para a preservação do ambiente! Entretanto, quero ressaltar dois principais pontos. O primeiro é que, quando utilizamos os passarinhos, tigres ou mico-leão para tentar impedir uma catástrofe ambiental, sabemos que temos que usar como símbolo uma espécie bonitinha, que nos ajude a conseguir atenção e fundos para os projetos de conservação. Entretanto, a preservação de algumas espécies é essencial para a preservação do ecossitema como um todo (ou da referida área). Chamamos estas espécies de espécies-chave, como é o caso dos tigres, por exemplo. Por serem predadores de topo de cadeia, o equilíbrio da comunidade (conjunto local de espécies) é completamente dependente da presença deste predador. Mais ou menos assim: se o tigre é extinto, a quantidade de herbívoros aumenta descontroladamente e estes, por sua vez, acabam com as plantas, entende? Ou seja, se mantivermos vivo o tigre, aranhas, morcegos e lagartixas também são preservados. Aqui cabe ainda dizer que sim, existem de projetos voltados para a preservação de morcegos; sobre estes eu posso afirmar, mas acredito que também exista para a preservação de espécies mais "nojentas". Quanto as outras espécies, como pássaros, muitos são indicativos de se uma área está bem preservada ou não. TODAS as espécies são diferentes e possuem diferentes papéis ecológicos. É óbvio que uma pomba conseguiu se adaptar ao ambiente urbano. Se adaptou tão bem que inclusive representa uma ameaça a ambientes pristinos, e pode introduzir inúmeras doenças. Entretanto, outras espécies de aves, como os tapaculos, são extremamente sensíveis a deterioração ambiental. E nem todas as aves migram, isto é um informação incorreta. Alguns pássaros são incapazes de sair de um fragmento de floresta passando por uma área aberta e destruída para chegar a outra floresta! Eles simplesmente ficam e morrem se faltarem recursos! O segundo ponto é que, sempre haverá um rio ou outro local para se fazer uma represa que não afete tanto o equilibrio ambiental. Ou seja, de várias opções de projetos de saneamento, deve ser escolhida a que menos afeta o ambiente. Mas da mesma forma que o senhor alega que a ave pode migrar e se readaptar, lhe afirmo que o ser humano tem uma capacidade de migração e readaptação muito maior. Somos a única espécie que está em todos os ambientes! Sim, o equilíbrio humanidade/natureza é muito complexo. O fato é que não podemos simplesmente asfaltar tudo e fazer hidroelétricas em todos os rios! O efeito da destruição ambiental já tem sido bastante óbvio com o aquecimento global. Temos que preservar o pouco de ecossistema nativo que nos resta na tentativa que vivermos num mundo que acreditamos ser o melhor pra nós humanos também! Eloisa Sari
Quinta-feira, Dezembro 27, 2007
SARKOZY E A VIAGEM A LUXOR Escreve-me um leitor: Senhor Janer, Em primeiro lugar, gostaria de externar minha admiração por seus pensamentos a respeito da necessária secularização das sociedades, da valorização do iluminismo e da demonstração clara da irracionalidade de todas as religiões e crendices humanas, MAS não posso deixar de registrar a incoerência de Vossa Senhoria, quando o assunto é política, esquerdas e afins. Vejamos a seguinte notícia: Férias de Sarkozy provocam nova polêmica na França PARIS, 26 dez 2007 (AFP) - A viagem presenteada por um importante empresário ao presidente da França Nicolas Sarkozy, que partiu para o Egito com a ex-modelo e atual namorada Carla Bruni, reavivou a polêmica sobre o gosto que demonstra por este tipo de situação. Sarkozy voou na véspera para Luxor, no sul do Egito, a bordo de um jato particular do empresário e "amigo" Vincent Bolloré. O empresário Bolloré já havia presenteado Sarkozy com uma viagem de iate a Malta, após a vitória nas eleições presidenciais de maio passado, o que provocou uma série de denúncias da oposição. (...) Senhor JANER, onde está sua análise política ? Vai escrever uma crônica sobre a mentira que é a direita e que o senhor já anunciava há tempos? Ou isso só se aplica à esquerda? E PRINCIPALMENTE A PERGUNTA QUE O SENHOR PRECISA RESPONDER: E se fosse a Ségolène Royal? o que o senhor diria? Não precisa responder eu já sei que escreveria que as "esquerdas são sempre as mesmas; "que são corruptas"; "que quando chegam ao poder desiludem os incautos" , PORÉM como foi o aplaudido por todos de direita, como foi o senhor Nicolas Sarkozy, vejo Vossa Senhoria se cala. Quer dizer que a direita que Sarkozy representa é "honesta" e a viagem de "férias" no jatinho do amigo não é ato de improbidade e moralmente legítimo? Onde estão seus comentários políticos sobre isso? Respondo: Sarkozy viajou às custas do contribuinte francês? Não. Viajou em um avião de luxo comprado às custas do contribuinte? Não. É moralmente condenável ter um amigo rico? Não. Sarkozy, como chefe de Estado, tem regalado seu amigo rico com benesses do Estado? Que saibamos, não. Então que viaje e bom proveito. Quanto à Ségolène: se tiver amigos ricos que lhe financiem viagens de luxo, se não viajar às custas do contribuinte, se não viajar em avião de luxo comprado com dinheiro do contribuinte, tampouco vejo algo de moralmente condenável nisto. Bon voyage à tous les deux!
AS FARC JOGAM E GANHAM Que a Colômbia seja parte no resgate dos reféns das Farc é normal, os reféns são colombianos. Que a Venezuela esteja envolvida no resgate é a parte suja da história. A guerrilha escolheu Hugo Chávez como interlocutor para conferir-lhe as honras de estadista humanitário. Chávez, em verdade, é cúmplice da guerrilha do narcotráfico. O espantoso é que mais seis países tenham caído na armadilha do tiranete de Caracas. Leio no Estadão que, para corroborar sua “Operação Transparência”, como qualificou o processo, Chávez convidou representantes de seis países, além da Colômbia, para integrar a ação: França, Argentina, Brasil, Bolívia, Cuba e Equador. “Alguns enviados já estão em Caracas, e outros, a caminho.” Lula apressou-se a colaborar com o fanfarrão Chávez, enviando seu chanceler interino, o velho comunista Marco Aurélio Garcia. A máfia de narcotraficantes conseguiu o que talvez jamais imaginasse conseguir: é interlocutora de oito Estados constituídos. Mais um pouco e envia representações diplomáticas à América Latina e Europa. Ainda há pouco, a guerrilha narcocomunista apresentou uma singela exigência para a libertação de todos seus réfens. Que Álvaro Uribe, o presidente colombiano, renunciasse. A exigência é de uma arrogância insólita. Um país elege um presidente e um grupo de bandoleiros faz um monte de reféns para destituí-lo. A pretensão das FARC me lembrou muito a de Dom Cappio: parem com a transposição das águas ou me suicido. Lula - este crédito lhe seja dado - não caiu na armadilha do bispo. Sete países - Venezuela não conta, é cúmplice - caíram na armadilha montada por Chávez e pela guerrilha comunista. As FARC jogam e ganham.
AS BASES TEÓRICAS DA JUÍZA Escreve-me um leitor, a respeito da sentença da juíza Rosana Navega Chagas sobre um seqüestrador de ônibus: As teses defendidas nos seminários do tribunal desta juíza (TJRJ) são do nível da decisão comentada. São os adeptos do "garantismo penal", do italiano Luigi Ferrajoli (garantismo do criminoso, é bom que se entenda; jamais da vítima), e do "direito penal mínimo", do alemão Claus Roxin. Teorias elaboradas na academia européia e aplicadas em sua plenitude no Terceiro Mundo. Não poderia sair outra coisa, não é? Um grande abraço e sucesso para o blog. Carlos Vinicius Rosenburg
Quarta-feira, Dezembro 26, 2007
PARABÉNS, DOM ALOÍSIO! Foi celebrada nesta quarta-feira a missa que marca o fim do velório de d. Aloísio Lorscheider na Catedral Metropolitana de Porto Alegre (RS). Nos últimos dias, chegaram mensagens de pêsames e dor de todos os rincões do Brasil e de mais alguns cantos do mundo. Por que pêsames? O cardeal não vai encontrar-se com o Criador? Em A Peste, de Albert Camus, o padre Panelou demonstra uma extraordinária aceitação da morte: - Há muito tempo, os cristãos da Abissínia viam na peste um meio eficaz, de origem divina, de se obter a eternidade. Aqueles que não haviam sido atingidos se enrolavam nos lençóis dos pestíferos para terem a certeza da morte. Sem dúvida, este desejo furioso de saúde não é recomendável, pois denota uma deplorável precipitação, bem próxima do orgulho. Não se deve ser mais apressado do que Deus. Tudo o que pretende acelerar a ordem imutável, estabelecida de uma vez por todas, conduz à heresia. Mas este exemplo, pelo menos, traz sua lição. Para nossos espíritos mais clarividentes, faz luzir este brilho delicado de eternidade que jaz no fundo de todo sofrimento. Esta luz ilumina os caminhos crepusculares que conduzem à libertação. Ela manifesta a vontade divina que, sem falhar, transforma o mal em bem. Confesso não entender os cristãos que demonstram tristeza quando outro cristão morre. O momento é de alegria, gente. É o almejado encontro com o Pai. Parabéns, Dom Aloísio!
NATAL MATA E NÃO COMOVE O acidente da TAM em Congonhas, em julho passado, deixou 199 mortos. Comoção nacional. O feriado deste Natal, no período entre zero hora de sexta-feira (21) e meia-noite de ontem (25), deixou 196 mortos nas estradas federais. Comoção nenhuma. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as 196 mortes provocam um prejuízo de cerca de 111,1 milhões de reais ao país. O estudo leva em consideração os custos com óbitos, cuidados com feridos e também a perda de geração de riquezas devido às mortes e ao afastamento de pessoas acidentadas. Isso sem falar em 1.870 feridos. Os números superam os registrados no Carnaval, tradicionalmente o feriado mais violento por causa dos excessos, quando foram computadas 145 mortes e 1.587 feridos. Comoção nenhuma. A morte a conta-gotas parece não comover ninguém.
SEQÜESTRO EM LEGÍTIMA DEFESA Leio na revista jurídica Última Instância que a juíza Rosana Navega Chagas, do 1º Juizado Especial Criminal e da Violência Doméstica de Nova Iguaçu (RJ), absolveu André Luiz Ribeiro da Silva da acusação do seqüestro de sua ex-companheira, Cristina Ribeiro, e dos 39 passageiros do ônibus da linha 499 em novembro de 2006 no Rio de janeiro. Ele também foi absolvido do crime de constrangimento ilegal contra o motorista do veiculo. Quem vê televisão deve lembrar do caso. André Luiz ameaçou com um revólver Cristina Ribeiro, forçando-a a descer do ônibus no qual se encontrava e a entrar, contra a sua vontade, no ônibus linha 499, Cabuçu - Central do Brasil. O seqüestrador ordenou que o motorista prosseguisse com a viagem, para fugir dos policiais militares que o perseguiam. Na sentença, a juíza entendeu que "o réu estava apenas exteriorizando o seu instinto de sobrevivência, ao avistar na mira da sua cabeça um fuzil, que o policial que o conduzia já o mirava, conforme a prova oral produzida". Ou seja, cometer um seqüestro e fugir da polícia chama-se agora exteriorizar seu instinto de sobrevivência. Com a sentença da juíza, todo seqüestrador está agora autorizado a resistir a uma ordem de prisão, mesmo quando conduz uma refém com uma arma apontada para sua cabeça. Está apenas exteriorizando seu instinto de sobrevivência. Ainda de acordo com a magistrada – diz a revista - ficou comprovado nos autos que a violência física cometida contra Cristina foi episódica, ocasional, havendo indícios veementes no sentido de que o réu não se encontrava no seu estado normal no episódio do 499, "por força das circunstâncias cinematográficas e apavorantes do caso - a presença de 100 policiais fortemente armados, helicópteros sobrevoando o local, o ´Caveirão´ etc". Traduzindo a sentença: daqui para a frente, é bom que a polícia faça uma perseguição discreta a bandidos armados que ameaçam uma refém indefesa, de preferência com poucos agentes e sem helicópteros, para não deixar o criminoso fora de estado normal. A perseguição deverá ser feita - supõe-se - delicadamente, de modo a não assustar o bandido. Para a juíza, "o longo período de privação da liberdade de Cristina somente ocorreu porque houve o ingresso do casal no ônibus 499, em razão da situação inusitada de a polícia ter confundido o réu com um assaltante, e pelo fato de ele ter se valido dela para não ser morto ou atingido por uma bala do fuzil, que já apontavam para a sua cabeça, de acordo com o depoimento dos próprios policiais". Quer dizer, é perfeitamente legítimo tomar uma pessoa como refém para livrar-se da perseguição policial. A magistrada talvez não tenha se dado conta, mas inovou em Direito. Criou a figura do seqüestro em legítima defesa. Assaltantes de bancos e condomínios, penhorados, agradecem.
ANTROPÓLOGO PROFERE BÍBLICAS BOBAGENS O antropólogo Roberto da Matta rides again. No Estadão de hoje escreve: No Natal, no entanto, uma ética de realeza, inaugurada com os Reis Magos, revela a grande estrela que conduz a um menino que veio nos salvar de nós mesmos. O panorama marcado pela reversão tudo diz: os reis magos visitam o menino nascido num estábulo; a aristocracia visível, presenteia uma divindade escondida. Ora, não existem reis magos na Bíblia. Você pode vasculhá-la do Gênesis ao Apocalipse e não se vê rei mago algum. Há inclusive quem fale em três reis magos. Ora, em momento algum a Bíblia diz que são três os magos. Este mesmo erudito acadêmico, que leciona em uma prestigiosa universidade americana, em outubro passado escrevia outra bobagem em sua coluna: O amor é ponte porque, num sentido preciso, ele liga virtudes longínquas, como a esperança; com as próximas, como a caridade. Foi por isso que São Paulo apóstolo falou que de nada vale o sino do melhor metal, se no seu som não há amor. Ora, tampouco há sinos na Bíblia. Os sinos só surgem com os grandes edifícios para o culto, a partir do século V. A primeira referência que temos a sinos ocorre em torno do ano 515, em carta de um diácono de Cartago. Três séculos mais tarde, o papa Estevão II fez edificar, na basílica de São Pedro, um campanário. O ínclito antropólogo deve ter lido alguma tradução espúria da Bíblia – o que pouco o recomenda como intelectual – ou deve ter confundido címbalos com sinos, o que tampouco o recomenda como leitor atento. Enfim, até Sua Santidade proferiu bobagens, ao falar em reis magos em janeiro passado. Se nem um acadêmico americano, se nem o papa conhecem a Bíblia a fundo, que pode-se esperar desses pobres diabos que vão a missas e cultos com o Livro debaixo do sovaco?
Terça-feira, Dezembro 25, 2007
PAPA PAGA MICO NA MISSA DO GALO A cada Natal, tão certo como o sol se põe, se repete o erro: desde há séculos, Vaticano, livros e jornais afirmam que Cristo nasceu em Belém. Não nasceu em Belém. Todos os jornais do mundo, nestes dias, afirmam que Cristo nasceu em Belém. Os natais se repetirão ad aeternum e a imprensa continuará afirmando ad aeternum esta inverdade. Este ano, temos uma novidade. Enquanto dezenas de milhares de peregrinos rumaram a Belém, para visitar a Igreja da Natividade, onde o Cristo teria nascido, o monumental presépio que é montado todo ano na praça São Pedro foi ambientado pela primeira vez, desde que existe, em Nazaré. A decisão foi tomada pelo Governo do Estado da Cidade do Vaticano, encarregado da montagem do presépio, inspirado desta vez no Evangelho de Mateus, que situa o nascimento de Jesus na casa de José, em Nazaré. Nos Evangelhos de Lucas, Marcos e João o local indicado é uma gruta em Belém. O Vaticano informou que o presépio deste ano terá três ambientes: a sala da Natividade, a carpintaria de São José e uma hospedaria, símbolo da vida coletiva da época. Sempre defendi a tese de que Jesus nasceu em Nazaré. Ou melhor, não que eu a defenda. Quem a defende, em verdade, é Ernest Renan, como veremos adiante. Por ter situado o nascimento do Cristo em Nazaré, tive uma crônica censurada no jornal católico conservador Mídia Sem Máscara, o que fez com eu me afastasse daquele site papista. Hoje, é o Vaticano que afirma o nascimento de Jesus em Nazaré. O que desautoriza as pretensões da Igreja da Natividade, em Belém, pretensões estas que, curiosamente, sempre foram apoiadas pelo próprio Vaticano. Dentro da igreja, ficaria a gruta onde, segundo a tradição, nasceu Jesus. Há inclusive uma estrela marcando o ponto exato onde o nascimento ocorreu. Escrevia-me, no ano passado, um leitor: “Senão vejamos: “E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”. (Miquéias 5:2). Este poderoso trecho bíblico não somente profetiza o nascimento do Senhor Jesus Cristo em Belém, como também atesta Sua divindade: “e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”. E aqui vemos o cumprimento literal da profecia de Miquéias: “Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, em dias do rei Herodes, eis que vieram uns magos do Oriente a Jerusalém. E perguntavam: Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo. Tendo ouvido isso, alarmou-se o rei Herodes, e, com ele, toda a Jerusalém; então, convocando todos os principais sacerdotes e escribas do povo, indagava deles onde o Cristo deveria nascer. Em Belém da Judéia, responderam eles, porque assim está escrito por intermédio do profeta: E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as principais de Judá; porque de ti sairá o Guia que há de apascentar a meu povo, Israel.” (Mateus 2:1-6)”. Vários outros leitores, daqueles que só encontram na Bíblia o que o padre diz para encontrar, alegam a mesma coisa. Que segundo os Evangelhos de Mateus e Lucas, Jesus nasceu em Belém. Que “não há motivos para duvidar do relato de um contemporâneo de Jesus (Mateus) e de alguém que viveu pouco tempo depois, conhecendo diversas pessoas que haviam convivido com ele (Lucas)". Não é bem assim. Vou repetir mais uma vez, e talvez tenha de repeti-lo a cada fim de ano: os Evangelhos não podem ser lidos ao pé da letra. Profecia é uma coisa, fato histórico é outra. O fato inconteste, aceito pelos historiadores, é que Jesus nasceu na obscura Nazaré, pequena e desconhecida cidade da Galiléia. Nos Evangelhos, é chamado o tempo todo de nazareno. Em sua cruz, Pilatos manda inscrever: "Jesus nazareno, rei dos judeus". Verdade que Mateus escreve: "Tendo, pois, nascido Jesus em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes ...." E acrescenta: "Ouvindo, porém, que Arquelau reinava na Judéia em lugar de seu pai Herodes, temeu ir para lá; mas avisado em sonho por divina revelação, retirou-se para as regiões da Galiléia, e foi habitar numa cidade chamada Nazaré; para que se cumprisse o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado nazareno". Pois dissera Miquéias: "Mas tu, Belém Efrata, posto que pequena para estar entre os milhares de Judá, de ti é que me sairá aquele que há de reinar em Israel". No fundo, Mateus trazia no sangue esta tendência do jornalismo contemporâneo, de adaptar os fatos à visão que se tem do mundo. Quis adaptar o nascimento a antigas profecias. A realidade que se lixasse. Escreve Renan, em A Vida de Jesus: "Cristo nasceu em Nazaré, pequena cidade da Galiléia, desconhecida até então. Toda sua vida foi designado pelo nome de Nazareno e só por um esforço que não se compreende é que se poderia, segundo a lenda, dá-lo como nascido em Belém. Veremos adiante o motivo dessa suposição, e como ela era conseqüência necessária do papel messiânico que se deu a Jesus". Segundo Renan, Nazaré não é citada nem no Antigo Testamento, nem por Josefo, nem no Talmude. Enquanto Nazaré da Galiléia era um vilarejo anônimo, Belém da Judéia portava o prestígio de antigas profecias. Nazaré era aldeia era desprovida de qualquer prestígio. Tanto que, em João 1:46, Natanael pergunta: “Pode haver coisa bem vinda de Nazaré?” Que nascesse em Belém, portanto. A estrela de prata pregada na igreja da Natividade em Belém, não passa de um wishful thinking. Nazarenos nascem em Nazaré. Lucas também adere à lenda do nascimento em Belém: "Naqueles dias saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todo o mundo fosse recenseado. Este primeiro recenseamento foi feito quando Cirino era governador da Síria. E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. Subiu também José, da Galiléia, da cidade de Nazaré, à cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam ali, chegou o tempo em que ela havia de dar à luz, e teve a seu filho primogênito; envolveu-o em faixas e o deitou em uma manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem". Os evangelistas, ao situarem o nascimento de Cristo no reinado de Herodes e evocarem o recenseamento de Cirino, desmontam a própria tese. Diz Renan: "O recenseamento feito por Cirino, do qual se fez depender a lenda que ajunta a jornada a Belém, é posterior, pelo menos dez anos, ao ano em que, segundo Lucas e Mateus, nascera Jesus. Com efeito, os dois Evangelhos põem o nascimento de Jesus no reinado de Herodes (Mateus,II, 1,19,22; Lucas, I, 5). Ora, o recenseamento de Cirino foi feito só depois da deposição de Arquelau, isto é, dez anos depois da morte de Herodes, no ano 37 da era de Ácio. A inscrição pela qual se pretendia outrora estabelecer que Cirino fizera dois recenseamentos é reconhecida como falsa. O recenseamento em todo caso não teria sido aplicado senão às partes reduzidas à província romana, e não às tetrarquias. Os textos pelos quais se pretende provar que algumas das operações de estatística e registro público, ordenadas por Augusto, chegaram até o reinado de Herodes, ou não têm o alcance que se lhes quer dar, ou são de autores cristãos que colheram esse dado no Evangelho de Lucas". Se o Vaticano hoje se rende à evidência histórica, o desastrado bispo de Roma desautorizou o presépio instalado sob seu papado. Nesta madrugada, na homilia da Missa do Galo, Bento XVI lembrou o nascimento de Jesus, como Maria lhe envolveu em um pano e lhe deitou em um presépio, "porque não havia lugar na pousada onde pretendiam alojar-se". Sua Santidade precisa decidir-se. Afinal, nasceu na casa de Maria e de José, como indica o presépio montado na praça São Pedro, e neste caso não teria precisado buscar pousada alguma? Ou nalguma gruta em Belém, onde a rejeitada parturiente teve de abrigar-se? O Vaticano está precisando contratar urgentemente um bom roteirista. Seja como for, seria bom que a Santa Sé avisasse o Sumo Pontífice de suas decisões, para não deixar o papa pagando mico nas frias madrugadas de Roma.
Segunda-feira, Dezembro 24, 2007
O CAUSO DAS ESCRITURA (Conto de Sérgio Jockymann) Pois não sei se já les contei os causo das Escritura Sagrada. Se não les contei, les conto agora. A história essa é meio comprida, mas vale a pena contá por causa dos revertério. De Adão e Eva acho que não é perciso contá os causo, porque todo mundo sabe que os dois foram corrido do Paraíso por tomá banho pelado numa sanga. Naqueles tempo, esse mundaréu todo era um pasto só sem dono, onde não tinha nem dele nem meu. O primeiro índio a botá cerca de arame foi um tal de Abel. Mas nem chegou a estendê o primeiro fio porque levou um pontaço no peito do irmão dele, um tal de Caim, que tava meio desconforme com a divisão. O Caim, entonces, ameaçado de processo feio, se bandeou pro Uruguay. Deixou o filho dele, um tal de Noé, tomando conta da estância. A estância essa ficava nas barranca de uma corredera e o Noé, uns ano despois, pegou uma enchente muito feia pela frente. Cosa munto séria. Caiu uma barbaridade de água. Caiu tanta água que tinha até índio pescando jundiá em cima de cerro. O Noé entonces botou as criação em cima de uma balsa e se largou nas correnteza, o índio velho. A enchente era tão braba que quando o Noé se deu conta a balsa tava atolado num banhado chamado Dilúlvio. Foi aí que um tal de Moisés varou aquela água toda com vinte junta de boi e tirou a balsa do atoleiro. Bueno, aí com aquele desporpósito, as família ficaram amiga. A filha mais velha do Noé se casou-se com o filho mais novo do Moisés e os dois foram morá numa estância muito linda, chamada estância da Babilônica. Bueno, tavam as família ali, tomando mate no galpão, quando se chegou um correntino chamado Golias, com mais uns trinta castelhano do lado dele. Abriram a cordeona e quiseram obrigá as prenda a dançá uma milonga. Foi quando os velho, que eram de muito respeito, se queimaram e deu-se o entrevero. Peleia braba, seu. O correntino Golias, na voz de vamos, já se foi e degolou de um talho só o Noé e o velho Moisés. E já tava largando planchaço em cima do mulherio quando um piazito carretero, de seus dez ano e pico, chamado Davi, largou um bodocaço no meio da testa do infeliz que não teve nem graça. Foi me acudam e tou morto. Aí a indiada toda se animou e degolaram os castelhano. Dois que tinham desrespeitado as prenda foram degolado com o lado cego do facão. Foi uma sanguera danada. Tanto que até hoje aquele capão do Mar Vermelho. Mas entonces foi nomeado delegado um tal de major Salomão. Homem de cabelo nas venta, o major Salomão. Nem les conto! Um dia o índio tava sesteando quando duas velha se bateram em cima dum guri de seus seis ano que tava vendendo pastel. O major Salomão, muito chegado ao piazito, passou a mão no facão e de um talho só cortou as velha em dois. Esse é o muito falado causo do Perjuízo de Salomão que contam por aí. Mas, por essas estimativas, o major Salomão, o que tinha de brabo tinha de mulherengo. Eta índio bueno, seu. Onde boleava a perna, já deixava filho feito. E como vivia boleando a perna, teve filho que Deus nos livre. E tudo com a cara dele, que era pra não havê discordância. Só que quando Deus nosso Senhor quer, até égua véia nega estribo. Logo a filha das predileção do major Salomão, a tal de Maria Madalena, fugiu da estância e foi sê china de bolicho. Uma vergonhera pra família. Mas ela puxou a mãe, que era uma paraguaia meio gaudéria que nunca tomo jeito na vida. O pobre do major Salomão se matou-se de sentimento, com uma pistola Eclesiaste de dois cano. Mas, vejam como é a vida. Pois essa mesma Maria Madalena se casou-se três ano despois com um tal de coronel Ponciano Pilatos. Foi ele que tirou ela da vida. Eu conheço uns três caso do mesmo feitio e nem um deles deu certo. Como dizia muito bem o finado meu pai, mulher quando toma mate em muita bomba, nunca mais se acostuma com uma só. Mas nesses contraproducente, até que houve uma contrapartida. O coronel Ponciano Pilatos e a Maria Madalena tiveram doze filho, os tal de aposto, que são muito conhecido pelas caridade que fizeram. Foi até na casa deles que Jesus Cristo churrasqueou com a cunhada de Maria Madalena, que despois foi santa muito afamada. A tal de Santa Ceia. Pois era uns tempo muito mal definido. Andava uma seca braba pelos campo. São José e a Virge Maria tinham perdido todo o gado e só tavam com uma mula branca no potrero, chamada Samaritana. Um rico animal, criado em casa, que só faltava falá. Pois tiveram que se desfazê do pobre. E como as desgraça quando vem, já vem de braço dado, foi bem aí que estouraram as revolução. Os maragato, chefiado por uma tal de coronel Jordão, acamparam na entrada da Vila. Só não entraram porque tava lá um destacamento comandado pelo tenente Lazo aquele mesmo que por duas vez foi dado por morto. Mas aí um cabo dos provisório, um tal de cabo Judas, se passou-se pros maragato e já se veio uns tal de Romano, que tavam numas várzeas, e ocuparam a Vila. Nosso Senhor foi preso pra ser degolado por um preto muito forte e muito feio chamado Calvário. Pois vejam como é a vida. Esse mesmo preto Calvário, degolador muito mal afamado, era filho da velha Palestina, que tinha sido cozinheira da Virge Maria. Degolador é como cobra, desde pequeno já nasce ingrato. Mas entonces botaram Nosso Senhor na cadeia, junto com dois abigeatário, um tal de João Batista e o primo dele, Heródio dos Reis. Os dois tinham peleado por causo de uma baiana chamada Salomé e no entrevero balearam dois padre, monsenhor Caifás e o cônego Atanásio. Mas aí veio uma força da Brigada, comandada pelo coronel Jesus Além, que era meio parente do homem por parte de mãe e com ele veio mais três corpo de provisório e se pegaram com os maragatos. Foi a peleia mais feia que se tem conhecimento. Foi quarenta dia e quarenta noite de bala e bala. Morreu três santo na luta: São Lucas, São João e São Marco. São Mateus ficou três mês morre não morre, mas teve umas atenuante a favor e salvou-se o índio. Nosso Senhor pegou três balaço, um em cada mão e um que varou os pé de lado a lado. Ainda levou mais um pontaço do mais velho dos Romanos, o César Romano, na altura das costela. Ferimento muito feio que Nosso Senhor curou tomando vinagre na sexta-feira da paixão. Mas aí, Nosso Senhor se desiludiu-se dos home, subiu na Cruz, disse adeus pros amigo e se mandou-se de volta pro céu. Mas deixou os dez mandamentos, que são cinco e que se pode muito bem acolherá em dois: não se mata home pelas costa, nem se cobiça mulher dos outros pela frente. (In Assim Escrevem os Gaúchos, antologia compilada por Janer Cristaldo, São Paulo, Editora Alfa-Ômega, 1976)
Domingo, Dezembro 23, 2007
AS ANGULAS E O ESPÍRITO NATALINO Entre outras, sou devoto da culinária espanhola. Mas há duas iguarias nas quais não vejo graça alguma, os percebes e as angulas. Estamos no Natal, o auge da procura pelas angulas. Deixo então os percebes para outro dia. Angulas são filhotinhos de enguias. São bichinhos com pouco mais de cinco centímetros, que lembram um espermatozóide. Em suma, uma enguia minúscula. Em si, não têm gosto de nada. Apenas do tempero com que se as tempera. Caríssimas. Neste Natal, estão custando cerca de 1.200 euros o quilo. Em março passado, quando a procura é baixa, as angulas eram o prato mais caro do Sobrino de Botín: 115 euros. Para se ter uma idéia do preço, o segundo prato mais caro do restaurante mais antigo da Europa era o cochinillo, uma das glórias culinárias da Espanha: 20 euros. O cordero lechal – outra excelência espanhola – custava o mesmo. Pelas angulas, prato sem sabor algum, pagava-se praticamente seis vezes mais. Em meus dias de Madri, meu guru foi Enrique Sordo, autor de España, entre trago y bocado, jornalista que faz um excelente apanhado das cozinhas regionais espanholas. Recorro a Sordo para definir as angulas. “Durante muito tempo, estes peixinhos foram um grande mistério, até que as investigações de Schimch conseguiram esclarecer que se tratavam de filhotes das enguias. Estas desovam no mar de Sargaços. Põem quantidades imensas de ovos, dos que saem as larvas ou leptocéfalos. Estas larvas emigram em massa até a desembocadura dos rios europeus: sua emigração dura dois anos e, quando chegam, se convertem em angulas. Ao chegar medem 7 ou 8 centímetros. Depois, no final de inverno ou começo de primavera, bancos de milhares de angulas atravessam os estuários e remontam os rios. “Ao que parece, há angulas em todas as águas marinhas européias, exceto no mar Negro. Mas, em verdade, o primeiro povo da Europa que as consumiu com deleite foi o basco, contagiando o resto da península com este são costume. (...) Se são compradas vivas, são postas em um recipiente com água e nesta se introduz um pacote que contenha tabaco negro picado e se pressiona constantemente para extrair a nicotina e outras substâncias que produzem a morte dos peixinhos. As angulas podem ser preparadas em tortilla, prato delicioso, mas o mais freqüente é fazê-las ao pil-pil, em uma panela de barro, com azeite, alho e malagueta. Este procedimento, segundo Busca Isusi, encobre totalmente o fino mas escasso sabor das angulas escaldadas”. Isto é, até Busca Isusi concorda com o escasso sabor da angulas. Eu as degustei uma vez, paguei caríssimo e me senti roubado. Assim, é com certo conforto que leio na edição de hoje de El País, que “o desorbitado preço das angulas é a primeira razão pela qual este produto deixou de fazer parte dos menus na Espanha, embora se possa esgrimir outra para desejá-las com menos pesar: seu perigo real de desaparição. Existiria um terceiro argumento, esse sim, controvertido, como é o duvidoso valor gastronômico que os mais ousados atribuem aos filhotes da enguia, cuja crescente demanda por parte do mercado asiático elevou de maneira notável o percentual das exportações e, por sua vez, a pesca e o preço destes alevinos cada vez mais escassos”. Sempre me julguei o único soldado de passo certo, ao achar que as tais de angulas não têm sabor algum. Parece, no entanto, que alguns espanhóis concordam comigo. Xabier Gutiérrez, pesquisador do laboratório do restaurante Arzak de San Sebástian, julga que o valor culinário da angula é “um mito que é preciso quebrar”. E um auxiliar do cozinheiro Juan Maria Arzak, em um momento de extraordinária coragem intelectual no País Basco, considera que “a angula não tem gosto de nada. É preciso deixá-la crescer, que desenvolva gorduras e aromas até converter-se em uma enguia de quilo, que é superior”. Este homem de confiança de Arzak está ciente de que vão chamá-lo “de tudo” por esta heresia. Nestes dias natalinos, há uma obsessão pelas angulas na Espanha. Como pode um prato caríssimo – certamente o mais caro da culinária espanhola – ser o objeto de desejo das gentes, se não tem sabor algum? Só pode ser desejo de status. Se é caro, deve ser bom.
Sábado, Dezembro 22, 2007
EU, EMÉRITO ORNICIDA Foi divertido ouvir o rufar de asas de dezenas de ornitólogos, em função da crônica que escrevi há cerca de um ano. Segundo um dos missivistas, são necessários oito anos para a formação de um ornitólogo. Discrepo. Ornitólogos somos todos nós. Não sendo profissão regulamentada pelo Ministério do Trabalho, é profissão que não existe. Ornitólogos são equiparáveis a psicanalistas ou antropólogos. Do ponto de vista legal, não existem. Ornitólogo ou psicanalista é quem se diz ornitólogo ou psicanalista e estamos conversados. Vou mais longe. Ornitólogos são como deuses. Não existem. Em meio a isso, muito me divertiu saber que estou a serviço de empresas multinacionais. Não imagino qual o interesse de uma multinacional em exterminar pássaros no Brasil. Last but not least, devo confessar que fui emérito ornicida. Se a palavra ainda não existe, eu a crio. Sim, matei pássaros a granel em meus dias de guri. Era o esporte predileto de toda criança que nasceu no campo. Não éramos sádicos exterminadores de vida, nada disso. Era uma espécie de tiro ao alvo. Mais ainda, tiro a um alvo móvel. Minha glória era matar um pássaro em pleno vôo. Meu dia começava com uma ida à sanga, que é como se chamam os rios no Rio Grande do Sul. Para juntar pedras. Levava comigo uma espécie de cartucheira e mais dois fios de barbante. A cartucheira, eu as enchia de pedras, munição para matar a bicharada. Com um bodoque, ia aniquilando a fauna do pedaço. Ao voltar de minhas incursões diárias, os fios de barbante eram fieiras de pássaros mortos. Havia uma certa ética naquela matança. João-de-barro e quero-quero eram aves que não se podia matar. Eram honestos e trabalhadores. O quero-quero, além disso, era um atalaia dos pampas. Durante as revoluções que sacudiram aqueles pagos, sempre alertou para a chegada do inimigo. Chupim podia matar, era bicho parasita que vivia em ninho alheio. Caranchos, chimangos, quiriquiris, caturritas, era dever matar. Os rapaces atacavam pintos nos galinheiros, as caturritas destruíam pomares e milharais. A prefeitura inclusive pagava por cada bico de caturrita morta. Suponho que os ilustres ornitólogos que me xingam não tenham nada contra matar caturritas. O dilema é simples: ou a caturrita, ou a lavoura. A humanidade perdeu algo com meus ornicídios? Diria que nada. Por um lado, não consegui exterminar espécie alguma. Por outro, se exterminasse alguma espécie, ela continuaria viva em outros rincões. A humanidade perdeu algo com as milhares de espécies que se extinguiram desde que existe vida na Terra? Ao que tudo indica, não. Diria mais: a extinção dos megapredadores em muito terá facilitado a sobrevivência do homem no planetinha. Se me arrependo destes pecados? Nada disso. Caçar pássaros fazia parte de minha infância. Como fez parte da infância de todo piá de campanha. Hoje, sou incapaz de matar uma formiga. Na janela ao lado do computador, tenho um recipiente com sucos para atrair pássaros. E trabalho ao lado de beija-flores, pardais, sabiás e canarinhos. O que não se pode admitir, senhores ornitólogos, é impedir a construção de barragens em função de um passarinho. Privar de luz, energia, calor, refrigério e boa água - isto é, de saúde - centenas de milhares de pessoas só porque em determinada região vive o curiango-do-banhado. Homem sendo, sou antropocêntrico. Fosse pássaro e tivesse consciência disto, seria certamente ornicêntrico. Não sou pássaro. Primeiro o bem-estar de minha espécie. Depois, o das outras. Este culto aos pássaros está tomando ares de religião. Como toda religião, só atrai fanáticos e ignorantes. O que explica, a meu ver, o mal tratar do vernáculo por boa parte de meus missivistas. Gente que sequer domina a própria língua e pretende salvar a humanidade.
O BLEFE DO MINISTRO Leio no noticiário online de hoje que a quantidade de vôos atrasados nos principais aeroportos do país aumentou nas últimas horas e atingiu 31,9% das partidas programadas entre a 0h e 20h, segundo a Infraero. O número equivale a 459, dos 1.437 vôos programados. O balanço da Infraero aponta ainda que 97 vôos, o equivalente a 6,8% dos vôos, foram cancelados. Ontem ainda, Nelson Jobim, o ministro da Defesa - aquele falastrão que no dia de sua posse disse: "Faça ou saia" - negava que o Brasil teria um novo caos aéreo como o do final do ano passado. “A crise como tivemos no ano passado não vai se repetir. Podem viajar tranqüilos, tomando chimarrão se quiserem”. O Brasil deve ser o único país no mundo que há mais de ano perdeu o controle de seu tráfego aéreo. Nunca é demais repetir Bilac: Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste! Criança! Não verás nenhum país como este!
Sexta-feira, Dezembro 21, 2007
AINDA A REVOADA DE ORNITÓLOGOS Mais furiosos que ornitólogos, só vi caradriídeos, quando a gente se aproxima do ninho deles. Caradriídeos é como os ornitólogos chamam os prosaicos quero-queros da pampa gaúcha. Reproduzo mais duas mensagens. O uso do português continua por conta dos senhores ornitólogos. Seu texto sobre a periculosidade dos ornitólogos chega ser rídicula. Sou ornitólogo e sou contra a construção da UHE de Mauá (PR) e sou a favor do Rio Tibagi! O local da construção da UHE de Mauá é planejada para uma das últimas áreas de alta biodiversidade do PR, segundo o próprio Ministério do Meio Ambiente! Você não acha incoerente um governo que afirma que uma área deve ser conservada e mesmo assim pretende construir uma UHE e alagar essa área? EIA-RIMAs fraudados, informações omitidas e distorcidas são algumas das táticas das empresas do setor de infra-estrutura para conseguir seus objetivos, tudo isso com o papinho medíocre de que é pelo "desenvolvimento nacional", tudo isso é papo-furado! Você deveria ler mais sobre o impacto causado pela construção de uma UHE para quem sabe mudar um pouco a sua opnião, mas acho isso pouco provável. Seu texto cheio de palavras pretenciosas e sua atitude condenscendente para com os ornitólogos me passam a idéia de ser frustrado sexualmente e de que gosta de "pagar" de intelectual para impressionar menininhas com esse seu vocabulário parnasianista. Sinceramente, Gabriel SOBRE A PERICULOSIDADE DOS ORNITÓLOGOS E DE AGUNS JORNALISTAS. Caro amigo Janer, confesso que quando acabei de ler seu texto “sobre a periculosidade dos ornitólogos”, me levantei rápido da frente do computador rindo da tamanha falta de informação ali contida. Contudo, por estudar área correlacionada à ornitologia sinto-me na obrigação de dar-lhe algumas informações sobre o assunto, já que seu tempo deve ser escasso para pesquisar antes de escrever. Primeiramente, quando um ornitólogo evidencia uma espécie em declínio populacional ocorre um monitoramento dessa população para que seja inferido se ela corre perigo de extinção. Essa extinção pode ser natural, como ocorreu com milhões de espécies em nosso planeta, mas também pode estar sendo acelerada por processos antrópicos. O importante é sabermos que uma espécie de ave que está sendo extinta não é apenas uma ave, ela representa milhões de anos de evolução e até de co-evolução. A natureza é regida por processos ecológicos e a ave é apenas uma parte desses processos, proteger essa ave é proteger a fruta da qual ela se alimenta, é proteger a árvore que fornece esse fruto, é proteger a sombra que essa árvore gera para os gados é proteger a umidade necessária para o sucesso da sua defendida agricultura. O Sr. Citou um exemplo de uma ONG que vetou a construção de uma hidrelétrica na índia mas por falta de referencia não consegui ler sobre o assunto...realmente se isso ocorreu é lamentável, mas no Brasil, por exemplo, a maioria dos movimentos anti-barragens levam em consideração o bem estar da comunidade local e a conservação da biodiversidade, passou-se o tempo em que ambientalistas inconseqüentes se manifestavam a favor do verde, hoje isso é feito também por muitos doutores e estudiosos por uma questão de necessidade, a vida não se mantém sobre concretos... O Sr. cita que “De qualquer forma, desde quando passarinho é prioritário ante um projeto de agricultura ou pecuária? Por outro lado, pássaros voam. Se um território tornou-se hostil, eles buscam outro. Pássaros migram. Não é preciso ser ornitólogo para saber disto. Quando migram, não migram a pé. Asas vão longe e a Amazônia é vasta.” Ora meu amigo, para algumas espécies de aves 100m é como o oceano atlântico para um homem! Se o Brasil fosse atacado nesse momento por uma forte força bélica, o Sr. sairia nadando pelo oceano atlântico até chegar à África sem nenhum problema? Sugiro que leia mais sobre o assunto. Para finalizar gostaria de dizer que o Sr. assim como eu e todos os leitores desse veículo informativo somos dependentes do meio natural, é como uma teia; de alguma forma as aves estão relacionadas a nossas atividades diárias. Quando um ornitólogo briga pela preservação de uma ave, ele briga também pela preservação de recursos naturais, pelo respeito à vida, pelo nosso bem estar, ou seja, por um desenvolvimento realizado com estudos que contemplem todos os itens necessários a uma sociedade. Concordo que alguns ornitólogos são reducionistas e inconseqüentes, assim como alguns jornalistas que influenciam milhares de pessoas com textos sem fundamentação, por isso o Senhor deveria mudar o título do seu texto para “Sobre a periculosidade de alguns ornitólogos”. João Vitor Campos e Silva
MENSAGEM DO ODILON Minha çolidariedade ao esforsso preservativo dos ornitólogos. Suas mençagens são um alerta para noz. Não podemos continuarmos indiferentes em quanto ex-pécies importantes como Grammathica Ellementaris, Minnima Orthographia, Regentia Verballis Pueri e Syntaxis Preginasyana são esterminadas diante de noços olhos. Precizamos fazermos alguma coiza! Odilon Toledo
Quinta-feira, Dezembro 20, 2007
EFEITO CAPPIO A greve de fome do bispo Dom Luiz Flávio Cappio teve um efeito insólito: constrangeu pessoas que sempre abominaram Lula e seu governo a apoiar o Supremo Analfabeto.
MAIS ORNITÓLOGOS EM FÚRIA Pelo jeito, mexi em um aguerrido ninho de ornitólogos em crônica de janeiro passado. Os protestos continuam chegando. Deixo de lado uma boa dezena destes, com insultos e baixo calão. Reproduzo outros, com os devidos erros de português. Os ornitólogos e/ou simpatizantes, sempre preocupados com pássaros, parecem não ter maiores preocupações com o vernáculo. "Cinseramente..." Tirem esse cara daí e o coloquem no humorista, ele não sabe o que está dizendo!!To rindo muito de sua ignorância tadinho!!!! E percebe-se que é arrogante!! Conselho para essa criatura, estude sobre o tema para depois escrever, se não fica com um ar de palhaço, de comédia de tantos absurdos!!Sem noção!!! Desculpe a cinseridade!! SEM NOÇÃO!!!!! André Marques Para qualquer biólogo ou pessoa de qualquer profissão que conheça e estude sobre biodiversidade ler este texto é realmente lamentável. O autor demonstra sua ignorância no assunto e faz questão de exibi-la em argumentações que fogem completamente da lógica, discorrendo parágrafos e prágrafos sem se dar conta do erro cabal que comete. Desculpe falar assim, mas dói ler esse texto tão banal e estúpido. Sugiro que o autor, Janer Cristaldo, leia uma dúzia de artigos científicos das melhores revistas da área, ou até que volte à sua terra natal, converse com alguém da terra, que observe a natureza, para que não precise pagar mais micos como esse. Sinto muito por você Janer Cristaldo, e acredito que possa ter boas idéias e fazer críticas construtivas, mas dessa vez, que vexame! Ana Carvalho Quanta ignorância! Fernanda De imensa irresponsabilidade e falta de conhecimento biológico este texto. Deveria se informar sobre conservação e a importância da preservação dos biomas remanescentes, quanto a economia do país. Não estamos falando de conseqüências apenas econômicas quando se inviabiliza uma obra para preservarmos aves, répteis ou fragmentos de mata. Estamos falando de conseqüências ambientais irreversíveis que podem em pouco tempo inviabilizar a existência de várias espécies no nosso planeta. Dentre elas, a nossa!! Pedro Nunes Sou estudante de Ciências Biológicas, e nunca na minha vida de pesquisador, lí uma matéria tão infeliz! Espero que vcs selecionem melhor o que é passado nesta mídia, porque até então, a edução das nossas crianças e adolescetes, no ponto de vista ecológico, tem funcionado muito bem, e a mídia até certo tempo, era um veículo de informação/educação! Os animais que são descritos como nojentos ou independentes, na verdade, tem tanto direito a vida como qualquer animal(homens tb são animais) e que são pesquisados dia e noite, por pesquisadores brasileiros, que por falta de investimentos nacionais, buscam financiamentos do exterior, para inclusive, ajudarem em matérias feitas por leigos, sem embasamento científico como este infeliz! Os aquedutos da antiguidade, em nada se pareciam com as obras de hoje, que antes de ser uma usina, roubam o subsolo, fazem carvão com a madeira e vendem as espécies da fauna, para os leigos que pensam que nas matas existem apenas passarinhos! Todos os pássaros são aves, mas nem todas as aves voam como pássaros! Estes animais já estão adaptados à vida neste planeta a milhares de anos, mas um bicho metido a besta como o homem, que não se adapta sem um ar condicionado ou uma lareira, insiste em se achar superior a uma mosca! Quanta inocência! Amigo, leia mais e para de escrever tanto mesmice! Pra mim vc é um charlatão e não vai mudar a minha opinião quanto a imprensa marrom! Você deve estar sendo bancado por alguma empresa multinacional, seja patriota e não um idiota! Douglas Rocha Por um acaso você, autor, é burro? Pois, ao terminar de ler o seu (péssimo) texto, foi a conclusão a que cheguei. Mas, deixando a sua óbvia ignorância sobre o assunto de lado (você tem idéias atrasadas em pelo menos 200 anos), você poderia ao menos aprender a escrever, já que se diz jornalista e escritor... Quem é o imbecil que usa a maldita palavra "tipo" em um texto jornalístico? Aliás, em qualquer texto escrito? Enfim, espero que você sofra em um desastre ecológico qualquer que tenha sido causado pela ignorância de pessoas como você. Killer of Fools
Quarta-feira, Dezembro 19, 2007
MEUS PÊSAMES! Leio no Estadão online que a greve de fome de Dom Luiz Flávio Cappio foi encerrada na tarde de hoje por decisão do médico Klaus Finkan, em consonância com os familiares do religioso e com autorização do próprio d. Cappio. "Ele está semiconsciente, com o estado geral comprometido e será internado por determinação minha para evitar possíveis danos permanentes", afirmou o médico. Se a notícia procede, meus pêsames a Dom Cappio. Perdeu aquela inefável chance de encontrar-se com o Criador. Em vez de gozar da visão beatífica do Senhor, terá de permanecer contemplando o ar de vitória do Supremo Apedeuta. Como eu supunha, venceu o humano e vil temor à Esperada das Gentes. Não se fazem mais bispos como antigamente. Seu protesto não passou de um blefe.
BOA MORTE E PARABÉNS, DOM CAPPIO! Estes são os meus votos nestes dias natalinos. Creio que não se realizarão, mas é o que mais almejo no fundo de meu meigo coração. Confesso não ter idéia formada a respeito da transposição das águas do rio São Francisco. Intervenções humanas de grande porte na natureza têm riscos imprevisíveis. O exemplo por excelência disto é o desastre do mar de Aral, entre o Usbequistão e o Casaquistão. Na década de 60, o governo soviético achou mais lucrativo desviar dois rios que alimentavam o mar de Aral, o Amu Daria e o Sir Daria, para irrigar plantações de algodão. Bastou que decorressem quatro décadas para que esse mar perdesse três quartos do seu volume, baixasse seu nível em 19 metros e a área ocupada por suas águas fosse reduzida a 40% da original. Esta tragédia, conhecida a “Chernobil calada”, só começou a ser conhecida em meados dos 80, devido à relativa abertura da glasnost soviética. O desastre foi total. Degradação ambiental, desertificação, destruição dos peixes do mar de Aral – e conseqüente extinção da indústria da pesca – extinção de portos, linhas férreas, ferrys, estações balneárias. Isso sem falar no desastre sanitária e no aumento de doenças e mortalidade infantil. Segundo relatório de Lucy Jones, Shrinking of Aral Sea Causes Regional Health Crisis (1999), “em áreas de elevada utilização de pesticidas as doenças infantis (proporção de doenças) até à idade de 6 anos é 4,6 vezes superior à das regiões de baixa proporção de pesticidas”. Segundo a Academia de Ciências Soviética, a taxa de mortalidade infantil na região da Ásia central aumentou entre 1970 e 1985. Em Bozataus, uma região do Karakalpaquistão, 110 em cada 1.000 crianças morrem antes de completar um ano. Ainda no Karakalpaquistão, a taxa do câncer do esôfago é sete vezes superior àquela do resto do país. Segundo E. Paronina, uma investigadora soviética, “tudo isto (crise sanitária) é o preço excessivo pago com a saúde da população para se ter auto-suficiência em algodão”. A documentação sobre a tragédia do mar de Aral é abundante na Internet. Por enquanto, remeto o leitor ao site de onde retirei estes dados: http://resistir.info/asia/mar_de_aral.html Ou seja, se você quer matar um mar – e um monte de gente junto – fale com os comunistas. Eles sabem como se faz. Assim sendo, em princípio não saberia que dizer da questão do São Francisco. Mas as forças que se opõem à transposição das águas me dão um indicativo. Se a Igreja Católica, o PSOL e o MST – os setores mais obsoletos do país – são contra a transposição, há boas chances de que a transposição seja boa para o país. O que é bom para a Igreja sempre é ruim para o país e vice-versa. Estas entidades satanizam palavras como agronegócio ou hidronegócio, como se fossem representações do mal. Ora, agro ou hidronegócios são negócios tão bons como quaisquer outros. E se estes senhores acham que lucro é pecado, seria bom alertá-los que ainda chegamos à condição da Cuba de Fidel. Dom Luiz Flávio Cappio, o bispo testarudo, entra hoje no 23º dia de greve de fome contra o projeto. Opõe-se como uma mula a um projeto do governo, só porque este projeto não lhe agrada. E faz chantagem, ameaçando acabar com a própria vida. Ora, há poucas horas, o Supremo Tribunal Federal (STF) cassou uma tutela antecipada que havia suspendido as obras projeto de transposição do rio São Francisco com a Bacia do Nordeste Setentrional. A decisão do TRF, dessa forma, perde a validade e as obras podem voltar a ser realizadas. O bispo acaba de perder mais um ponto em sua campanha insana. Mas o STF pode, ainda hoje, tomar uma decisão salomônica, suspendendo temporariamente a transposição, e assim salvando a cara do bispo e a do governo. Se o governo perder esta parada, pode-se imaginar o que teremos pela frente nos próximos anos. A cada projeto de usina, estrada ou barragem, nunca faltará um bispo ou uma besta para ameaçar suicidar-se caso o governo não faça antes uma consulta popular. Cairemos então em uma república plebiscitária, que a cada projeto precisa conclamar a nação toda para desviar um rio ou construir uma barragem. Pelo que entendo dos bois com que lavro, o valente prelado vai encontrar um pretexto qualquer para salvar sua pele. Se o pretexto não existe, o governo acabará por fornecê-lo. É nestes momentos que sou tomado de um espírito cristão e natalino. Acho que o bom bispo não deve recuar. Não deve deixar-se encantar pelos cantos de sereia do governo. Deve levar sua greve de fome até o fim. O desfecho será o melhor possível. Poderá finalmente encontrar-se com o Criador. O bispo irá até o fim? Pessoalmente, creio que não. Se for, só posso parabenizá-lo. Encontrar-se com Deus é o anseio supremo de todo cristão.
Terça-feira, Dezembro 18, 2007
A RENDIÇÃO DA HOLANDA Terminei de ler Infiel, de Ayaan Hirsi Ali. Suas revelações sobre a opressão da mulher no universo islâmico para mim não constituíram novidade. A venda de mulheres a seus futuros maridos, a ablação do clitóris, a infibulação da vagina são instituições por nós todos conhecidas. O que me espantou em seu depoimento foi a rendição de um avançado país europeu, a Holanda, à invasão islâmica. Também causa espécie constatar que a mais apaixonada defesa dos valores ocidentais, na Holanda, tenha sido feita ... por uma ex-muçulmana somali. Quando Hirsi tenta pesquisar os assassinatos em defesa da honra – mulheres mortas na Holanda por irmãos e pais em nome da sagrada honra da família – o Ministério da Justiça não lhe fornece dados: “Não registramos homicídios com base nessa categoria de motivação. Isso pode levar a estigmatizar um grupo na sociedade”. Para não estigmatizar os muçulmanos, o Estado esconde da população as verdadeiras razões de um crime. “Nenhum funcionário público queria reconhecer que aquele tipo de homicídio ocorria regularmente. Nem mesmo a Anistia Internacional contava com estatísticas a respeito do número de mulheres vítimas de assassinato em nome da honra no mundo. Sabia quantos homens eram presos e torturados, mas não tinha idéia do número de mulheres açoitadas em público por fornicação ou executadas por adultério. Não era da alçada dela”. A verdade é que, nos últimos anos, todo e qualquer crime cometido por muçulmanos, em países como França, Alemanha, Holanda e escandinavos, até que é noticiado pelos jornais. Mas sem nenhuma referência aos autores, nem à etnia, origem ou nacionalidade. É como se uma imprensa, que sempre se pretendeu livre, tivesse se tornado cúmplice desta hipocrisia de Estado. Pior ainda: “Na Holanda, milhares de mulheres e crianças muçulmanas eram vítimas de uma violência sistemática, e não havia como escapar disso. Crianças pequenas sobriam excisão na mesa da cozinha – eu soube disso pelas somalis para as quais servia de intérprete. As moças que se atrevessem a escolher namorado ou amante eram espancadas quase até a morte ou mesmo assassinadas; grande parte delas apanhava regularmente. O sofrimento dessas mulheres era horrível. E, embora os holandeses contribuíssem generosamente para as organizações internacionais de amparo, continuavam ignorando o silencioso padecimento das mulheres e crianças maometanas no seu próprio quintal”. Ou seja, em um Estado de direito europeu, moderno e liberal, onde homens e mulheres gozam de igualdade perante a lei, os brutos maometanos sentem-se em casa para cometer suas barbáries. Barbáries que, se no mundo islâmico constituem tradição, no Ocidente constituem crimes. Espanta também ver uma deputada do Parlamento holandês ter de viver escondida e cercada de forte segurança, trocando de residência a toda hora, só porque ousou afirmar o óbvio. Ao comentar que Maomé, segundo os critérios do Ocidente, teria praticado pedofilia ao casar-se com uma menina de seis anos, atraiu o ódio de todos os machos muçulmanos acolhidos pela Holanda. A propósito, a imprensa nacional e internacional nos trouxe hoje uma foto da americana Stephanie Sinclair, premiada pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), que mostra uma menina de 11 anos ao lado de seu marido, um barbado de 42 anos. A criança foi vendida para o marido, no Afeganistão. Vi a foto em vários jornais. Nenhum deles fala em pedofilia. Esta palavrinha parece estar reservada, no Ocidente, para adultos que ousem ter relações consensuais com adolescentes. O primeiro gesto de rendição do Ocidente ao Islã, ocorreu, a meu ver, em setembro de 1988, quando Shalman Rushdie publicou no Ocidente seus Versículos Satânicos. Em 14 de fevereiro de 1989, o aiatolá Khomeiney proferiu uma fatwa (decreto religioso), oferecendo uma recompensa de 2,5 milhões de dólares a quem matasse o escritor, não importa em que país estivesse. Naquele momento, Khomeiny afrontava a soberania de todo e qualquer país. Do alto de sua prepotência, o aiatolá ordenou: Eu informo o orgulhoso povo muçulmano do mundo inteiro que o autor do livro Os Versículos Satânicos, que é contrário ao Islã, ao Profeta e ao Corão, assim como todos os implicados em sua publicação e que conhecem seu conteúdo são condenados à morte. (...) Apelo a todo muçulmano zeloso a executá-los rapidamente, onde quer que eles estejam. (...) Todo aquele que for morto nessa empreitada será considerado mártir”. Observe o leitor a sutileza do decreto, que abrange inclusive os “que conhecem seu conteúdo”. O aiatolá condenou à morte até os leitores de Rushdie. A Europa não reagiu, afinal era um hindu. Verdade que tinha cidadania britânica, mas tratava-se de apenas um homem, e não vai se fazer guerra por um homem só. Ainda mais quando toda a Europa está atada por fortes laços econômicos com o Irã. Seria o bom momento de todas as democracias do Ocidente cortarem relações diplomáticas e econômicas com Teerã e deixar bem claro que não será um sacerdote persa insano quem irá impor sua vontade doentia a todos os países do globo. Nem Hitler ousou tanto. O livro de Ayaan termina com o assassinato do cineasta Theo van Gogh, em Amsterdã, em novembro de 2004. Ayaan foi roteirista de seu curta-metragem Submissão – Parte I, que denunciava a opressão das mulheres do mundo muçulmano. Antes de morrer, o cineasta perguntou ao assassino: “Será que não podemos conversar?” Como resposta, teve a jugular cortada por uma faca de açougueiro. Com outra faca, o árabe espetou-lhe no peito uma carta de cinco páginas, com um recado para a deputada: “a próxima será você”. E assim marcha a Respublica Christiana – como um dia chamou-se a Europa – rumo à entropia. Oferece abrigo, saúde, educação, direito sociais e até mesmo mesquitas ao inimigo que quer destruí-la. Minha próxima leitura, Os Últimos Dias da Europa, de Walter Laqueur, historiador norte-americano de origem alemã. Segundo resenha que leio do livro, para o autor as imigrações, as políticas sociais e o fracasso da unificação continental desenham um quadro assustador da Europa. Laqueur é mais um profeta do óbvio: "as levas de imigrantes vindas da África, Oriente Médio e Ásia não buscam a assimilação nas sociedades européias, mas apenas beneficiar-se dos serviços sociais oferecidos por elas". Siga meu conselho. Visite logo a Europa. Antes que acabe.
POLITICAMENTE CORRETO ASSOLA ITÁLIA Uma ridícula polêmica está assolando a Itália. Os proprietários de uma cafeteria em Gênova decidiram que o filho não engrossaria a lista dos milhares de Francescos, Giovannis, Robertos, Massimos, ou Giuseppes - nomes comuns na Itália. E decidiram dar-lhe o nome de Venerdi, isto é, sexta-feira. Os funcionários municipais avisaram que teriam de cancelar o registro, alegando que o nome poderia causar constrangimentos futuros ao menino. "É um nome ridículo", afirmaram na ocasião. Ora, em um país onde milhares de pessoas se chamam Domenica (domingo) ou Sabato (sábado), por que seria ridículo chamar-se sexta-feira? Alegam o Tribunal de Justiça e a Prefeitura de Gênova que o nome Venerdì comportava ligação imediata com o romance Robinson Crusoé, de Daniel Defoe. "Uma figura caracterizada por um papel de submissão e de inferioridade que, além de seu estado de criatura selvagem, não chegou nunca a ser igualado à imagem do homem civilizado". Essa agora! Não se pode chamar alguém de Sexta-feira porque em um romance do século XVIII o autor deu esse nome a um selvagem de uma ilha tropical. Além de dobrarem-se ao politicamente correto, as autoridades judiciais superestimam a cultura literária dos italianos. Como se fosse óbvio que, nestes dias que correm, todos os italianos tivessem conhecimento da obra de Defoe.
Segunda-feira, Dezembro 17, 2007
ORNITÓLOGOS EM FÚRIA Internet é ótima. Nossos artigos não ficam mofando em arquivos nem em pastas de recortes. Estou recebendo, nestes dias, uma revoada de mails, em função de um artigo publicado em janeiro passado, isto é, há onze meses. São protestos de ornitólogos em fúria, inconformados com as considerações que fiz sobre a periculosidade dos ditos. Reproduzo aqui as primeiras mensagens, preservando a linguagem deselegante, os erros de digitação e de vernáculo. (Os árdegos defensores dos pássaros parecem gostar de depenar a língua-mãe). Considerada a relevância que a crônica assumiu, quase um ano depois de publicada, eu a reproduzo na postagem anterior. Prezado Senhor, Sua matéria "Sobre a periculosidade dos ornitólogos" demonstra que conhece pouco ou não se preocupou em conhecer mais acerca de um tema complexo sobre o qual decidiu escrever. Basicamente cito duas questões de máxima importância: Países como o Brasil já destruiram a maior parte de seu ambiente e nem assim conseguiram atingir o desenvolvimento que trouxesse dignidade a sua população, logo destruir o puco que sobrou não Trará o muito de desenvolvimento que necessitamos. Por que não utilizar as áreas já degradadas para fazer barragens, minas, plantações de eucalípto e etc? Ao contrário do que o senhor afirma, o fato de ter asas não dá as aves liberdade para buscar novos habitats. Leia mais sobre aves antes de fazer afirmações absurdas. Diversas espécie são endêmicas de uma região limitada ou ecossistema restrito e caso este seja destruido elas não tem como simplesmente sair voando para outra parte pois são dependentes daquele ecossistema em particular. Na Amazônia os rios são limites de distribuição de vária espécies. Isto demonstra que elas não podem sequer cruzar os rios voanda. Em Cabo Frio - RJ existe um tipo de Thamnophilidae que só ocorre na vegetação de restinga entre Saquarema e Búzios. A maior parte de seu habitat já foi destruído. Um de seus últimos refúgios é a praia do Peró. O senhor acha justo extinguir uma espécie que evoluiu nequele ambiente e depende dele há milhares de anos para se construir um resort ou seja lá o que queira fazer lá para o bem de seres humanos que tem opção? O pássaro infelizmente não tem opção. Mas isto o senhor ignora. É justíssimo se preocupar com as condições de miséria e subdesenvolvimento dos seres humanos mais carentes. O que não é justo é culpar os poucos seres humanos que tiveram acesso a uma educação de melhor nível de querer impedir o desenvolvimento daqueles porque estão mais preocupados com "passarinhos" e "miquinhos". A questão não é esta. A questão é que todos nós, ambientalista ou não, devemos juntar esforços para encontrar meios sustentáveis de desenvolvimento que não destruam o pouco dos ambientes preservados que restaram depois de séculos de prevalência da sua lógica. A lógica é justamente o inverso: Quanto mais poreservarmos o meio ambiente, melhor será a qualidade de vida dos seres humanos, carentes ou não. O ser humano, diferentemente das outras espécies pode buscar alternativas de energia, consumo e ocupação do território que não agridam o meio ambiente. Não se esqueça que nós somos apenas uma das várias espécies que habitam o planeta e as outras tem tanto direito quanto nós de continuar a habitá-lo. Segundo sua lógica, quando destruirmos tudo não haverá mais como nos desenvolver. O que faremos então? Ricardo Gagliardi ----------- Assim como seu texto, acredito que sua vida de jornalista é desnecessária. Para que abrirmos um jornal ou página de notícias na internet para ver um perfeito mal-letrado falar mal da vida alheia? Seria muito mais cômodo ir para as praças públicas e escutar as senhoras columbófilas falando da vida alheia que seria muito mais fácil e poético. Agora um BUNDA MOLE que deve ficar sentado atrás de um computador dentro de uma sala de ar condicionado pouco se importando qual será a qualidade de ar que seu filho vai respirar, quais "passarinhos" ele verá LIVRE EM SEU HABITAT NATURAL, se todos, como o senhor disse "voaram para a vasta Amazônia". Sou totalmente contra ao seu capitalismo idiota. Sou Presidente de uma ONG que visa sim, conservar (que preservar é quase impossível aqui no Brasil, pois existem pessoas como o senhor) o pouco que resta e combater falsos moralistas como o senhor. O "progresso" tem que vir sim, mas de modo sustentável. Quando o senhor for viajar para NY, que deve ser seu país de origem (pelo que dizes, seria bom que continuasse por lá, até mesmo se não for de lá), abra um pequeno atlas de segundo grau e veja a extensão da Amazônia de 30 anos atrás e veja agora. Outra coisa de gente que não sabe o que está falando: em falar sobre Amazônia, seu solo é um dos piores para monocultura. Seu solo depende das árvores para serem enriquecidos rapidamente, antes que a matéria orgânica seja carreada pela água da chuva (que só cai nessa região por causa das benditas árvores que o senhor quer que não existam mais naquele e em qualquer outro local). Veja bem ao falar mal de uma profissão, seja ela qual for. Sua profissão tem um histórico horrível! A décadas atrás qualquer um poderia ter uma carteira de jornalista. Era só fazer uma mísera prova e voalá, sou jornalista. Para ser ornotólogo, tem que, no mínimo, estudar 8 anos. Pense muito antes de falar na importância de cada profissão e pense também na vida de seus filhos, se é que o senhor tem e se sua preferência sexual o permite. Igor Camacho ---------- Olá meu querido senhor, resolvi escrever esse e-mail diante de tão grande absurdo que li e uma de suas reportagens. Tenho trabalhado com inúmeras empresas que agridem o meio ambiente, de dois anos pra cá venho tendo surpresas interessantes. Iniciativas conservacionistas por parte destas empresas a fim de entrar nas especificações que a união européia, a fim de apresentar produtos sócio-ambiental mente corretos e limpos de qualquer escrotisse de países sub-desenvolvidos (como colocar fogo em áreas de matas para produzir gado entende?) e escravizadores de classes humildes. Fico surpreso pelo conteúdo de sua reportagem, porque se os grandes empresários que antes estavão pouco se fudendo para o meio-ambiente estão querendo limpar seus nomes perante seus consumidores, pergunto eu: -em nome de que o senhor defende o interesse dessas construções que o senhor cita? - qual a viabilidade técnica da obra perante o custo sócio-ambiental da obra? Ornitólogos (Biólogos) não decidem sozinhos a viabilidade de um projeto mas sim um grupo multidisciplinar. Concluo eu: a culpa não é dos Ornitólogos, mas sim da equipe incopetente que não soube resolver essa problemática, ou seja, políticos e profissionais filhinhos de papai que compraram seus diplomas e não sabem administrar em situações adversas. Atenciosamente, Jose Roberto Silveira Mello Junior Biólogo - Ornitólogo Consultor Ambiental
SOBRE A PERICULOSIDADE DOS ORNITÓLOGOS Ano passado, comentei o perigo que os ornitólogos representam para a economia de um país. A idéia que temos destes senhores é a de pacatos cidadãos que adoram observar essas maravilhas da natureza, os passarinhos. Até pode ser. Mas sempre é bom desconfiar quando ornitólogos apresentam um pássaro na televisão. Normalmente, há grossa sacanagem de ONGs e ambientalistas atrás disto. Nos dias em que vivi no Paraná, durante semanas foi vedete dos noticiários televisivos um pequeno pássaro, uma espécie de pardal, que estaria ameaçado de extinção. Chamava-se curiango-do-banhado e habitava nos arredores de Curitiba. Durante longos minutos, o bichinho era exibido em seus ângulos mais simpáticos, sempre com a mensagem: corre perigo de extinção. Ano seguinte, foi a vez de uma nova espécie de tapaculo, da família Rhinocryptidae, batizada com o nome popular de macuquinho-da-várzea. Também vivia nos arredores de Curitiba. Algumas semanas mais tarde se soube ao que vinham o curiango-do-banhado e o macuquinho-da-várzea. Para preservá-los, era preciso preservar seu habitat natural. E para preservar seu habitat natural, as tais de ONGs fizeram uma ferrenha campanha para impedir a construção de uma barragem que abasteceria a capital paranaense. Me consta que o projeto de barragem morreu na casca. Há alguns anos, vi uma reportagem no 60 Minutes sobre uma região da Índia que abrigava quarenta milhões de habitantes. O programa começava mostrando mulheres e crianças carregando em baldes, para próprio consumo, uma água preta e lamacenta. Outras juntavam esterco de vaca, usado como combustível. Havia um projeto de uma represa para abastecer de energia elétrica e água potável a região toda. Uma ONG vetou o projeto junto ao Banco Mundial, com a argumentação de que a represa ameaçava uma espécie qualquer de tigre. A represa gorou e quarenta milhões de pessoas continuaram a beber água podre e cozinhar com esterco de vaca. A reportagem entrevistava em Nova York, em um elegante apartamento, a porta-voz da ONG que conseguiu sepultar a represa. Não sei se a moça percebeu a ironia, mas o repórter a filma enchendo um copo de límpida água de torneira. O repórter quer saber porque privar milhões de pessoas de água limpa. A moça dizia mais ou menos o seguinte (cito de memória): não queremos que aquelas populações adquiram os hábitos de consumo do Ocidente. É como se dissesse: esses hábitos do Ocidente são privilégios de ocidentais. Vocês aí, continuem catando esterco de vaca. Claro que a moça jamais viveu naquelas condições. Eu, água preta à parte, vivi. Em meus dias de guri, esterco de vaca era um dos combustíveis que usávamos. Outro era gravetos de chirca, um arbusto daninho que invade os campos. E também madeira de árvores, particularmente de eucaliptos. Mas hoje o Ibama proíbe derrubar qualquer árvore. Quanto à água, tinha-se água limpa. O problema é que tinha de ser buscada, operação que tomava uma boa hora de cada dia. Primeiro era preciso encilhar um cavalo, atrelar uma rasta com uma barrica, levar a barrica até a cacimba - a mais de quilômetro de distância - , enchê-la pacientemente balde a balde, usando um pano qualquer para coar a água. A fauna macroscópica ficava se contorcendo sobre o pano. Quanto à microscópica ninguém ligava e jamais vi morrer alguém por beber daquela água. A água gelada daquela cacimba até hoje me dá saudades. Quando migrei para a cidade, vi a água correndo da torneira como se estivesse diante de um milagre. Todas as casas de Roma tinham água encanada antes de Cristo. No Brasil, até hoje, milhões de pessoas não dispõem deste conforto. Mais de trezentos projetos de barragens já foram engavetados no mundo, especialmente na África, Ásia e América Latina, por obra de ONGs. Estas organizações estão cometendo crimes contra a humanidade, ao condenar milhões de pessoas a viver longe da água potável e energia elétrica. Seus militantes são sempre oriundos de países desenvolvidos, todos pontilhados de represas. Sua ação sempre incide sobre países do Terceiro Mundo, que precisam de energia para abandonar esta condição. É preciso olhar com cautela para os defensores aguerridos da fauna. Tigres ou passarinhos, bichinhos comoventes tipo o mico-leão-dourado, constituem uma ameaça ao desenvolvimento de países pobres quando manipulados por ongueiros. Semana passada, dois simpáticos passarinhos ameaçados de extinção ilustraram uma reportagem na Folha de São Paulo, o papa-formigas-de-topete-branco e o rapazinho-carijó. Segundo recente estudo feito por cientistas brasileiros - e americanos, como não poderia deixar de ser - as unidades de conservação pequenas têm potencial limitado na conservação da biodiversidade na Amazônia quando se trata de espécies de pássaros. A conclusão é de um novo estudo de cientistas do Brasil e dos Estados Unidos, a partir de levantamentos feitos desde 1979 numa área desmatada perto de Manaus. Os cientistas tentam entender qual é fator mais crucial para a sobrevivência de espécies em um determinado fragmento de mata que tenha restado numa região desmatada. É mais importante que esse fragmento seja grande ou é mais importante que ele não esteja muito isolado de outros trechos de mata? Seja qual for a conclusão, é óbvio que se oporá a qualquer iniciativa para desenvolver a região. "Fragmentos de cem hectares perdem a metade do número de espécies de ave em cerca de 15 anos", diz o pesquisador, que alerta para um problema: "Para diminuir dez vezes a velocidade de perda, é preciso aumentar cem vezes a área". Confesso que não sei o que está sendo projetado para a região. De qualquer forma, desde quando passarinho é prioritário ante um projeto de agricultura ou pecuária? Por outro lado, pássaros voam. Se um território tornou-se hostil, eles buscam outro. Pássaros migram. Não é preciso ser ornitólogo para saber disto. Quando migram, não migram a pé. Asas vão longe e a Amazônia é vasta. Isto pode ser observado no Sul do país. Afugentadas pelos agrotóxicos, muitas aves do campo estão buscando as cidades. O quero-quero, ave campestre que jamais pousou em árvores, já aprendeu até mesmo a pousar em cumeeiras de casas. Necessidade obriga. Mais algumas décadas e talvez estejam pousando em fios de telefone. Se é que até lá existirão fios de telefone. Nos anos 70, uma foto feita por um fotógrafo do Estadão ganhou prêmios internacionais, a foto de um ninho de pomba. Isolada na urbe, sem a matéria-prima usual para a construção de seu ninho - folhas e gravetos - a pomba inovou: fez um ninho de clips. Man tager vad man haver, dizia uma profunda escritora sueca, Kajsa Varg. Em bom português: a gente pega o que a gente tem. (Em tempo: Kajsa Varg é autora de livros de culinária). Os pássaros se adaptam. Quem não se adapta são os ambientalistas, aferrados a seus dogmas ecológicos. Esses estudos que surgem de tempos em tempos nos jornais, visando criar santuários para pássaros, não passam de pretextos de ecochatos para impedir projetos agrários, usinas, estradas. Num país que não consegue sequer dar segurança a seus cidadãos, ainda há quem queira preservar o bem-estar dos pássaros. Os pássaros-vítimas-do-desenvolvimento - ou animais - têm de ser simpáticos para comover a opinião pública. Ninguém se comoveria com a preservação dos morcegos. Que nojo! Muito menos de aranhas, escorpiões ou lacraias. Já o mico-leão-dourado é podre de charme. Assim, quando você vir ornitólogos passeando pela floresta, de binóculos em punho, como quem inocentemente observa pássaros, cuidado: algo devem estar tramando contra a humanidade. (15/01/2007)
Domingo, Dezembro 16, 2007
MINHAS CIDADES DILETAS - VIENA Uma lista de cidades diletas será sempre algo muito subjetivo. Leitores me perguntem porque nunca escrevo sobre Londres. É simples: não consigo gostar de Londres, nem do universo anglo-saxão. Mais ainda, não consigo me entender com o mundo anglófono. De minhas experiências, deduzi que quem é apaixonado pelos países latinos, em geral não tem muito apreço pelo Reino Unido e Estados Unidos. E vice-versa. Minha primeira restrição a Londres é gastronômica. Alguém já ouviu falar de cozinha inglesa? Eu não. Nas duas únicas vezes que estive em Londres, me refugiava nos restaurantes italianos ou chineses. Mas isto já faz mais de vinte anos. Minha filha andou por lá este ano e achou que hoje eu já não teria problemas com culinária. Pode ser. Mas resta um outro, os pubs. Detesto a ambiência de pubs. Isso de servir-se no balcão, de pagar cada consumação no momento de recebê-la, me afasta definitivamente de qualquer cidade. Já devo ter contado de meu súbito desejo de Espanha quando andava por Nova York. Eu pedia uma cerveja e lá vinha a garçonete de nota em punho: só isso? Ora, como posso saber se vou tomar só uma cerveja? Depende da qualidade da cerveja, da dimensão de minha de sede, do clima do bar, do interesse de minhas leituras, das conversas com minha parceira de mesa. Me acometeu então uma imensa saudade de meus garçons de Madri. Quando pedia a conta, após duas ou mais horas de bar, ouvia como resposta: ya? Sendo homem que viaja para curtir bares, Londres está excluída das minhas diletas. Claro que é preferível ao Cairo, Argel, Tunis ou Nápoles. (Esta é a cidade mais feia e desagradável que conheço na Europa). Posso até voltar lá para ver como é hoje. Mas nesta lista me proponho a falar de cidades agradáveis para morar e Londres – pelo menos segundo meus critérios – não é uma delas. Em quinto lugar, eu elegeria Viena. Cidade também horizontal, como gosto, arquitetura soberba, imperial, muita ópera e, fundamentalmente, muitos cafés. Eu imaginava que os cafés mais lindos do mundo estavam em Paris e Madri. É que não conhecia Viena. Encrave avançado no Leste europeu, a cidade fica um pouco fora de mão quando se viaja de sul a norte pelo velho continente. Até que um dia resolvi visitá-la. Dos castelos e palácios, teatros e óperas, já nem falo. Falarei dos cafés, o plat de résistance de Viena. Nos dois sentidos, a bebida e os cafés propriamente ditos. Em 1983, Viena celebrou os três séculos de sua descoberta da bebida. Hoje, a cidade tem cerca de 560 cafés e mais de 680 cafés-restaurantes, pelo menos 1.200 expresso-bares e cerca de 250 cafés-confeitarias. Os cafés, conforme dito secular, constituem a segunda sala dos vienenses. Segundo Alfred Polgar, reúnem pessoas que querem estar sós, mas precisam de companhia para isso. Neles se pode tomar desde o espresso forte até o franziskaner, mais suave, passando pelo einspänner, o kleiner brauner, le kapuziner e mesmo o dito café turco. Os cafés assumem versões com álcool e sorvetes e custam até mais que uma taça e vinho. Ou mais que uma entrada de ópera. Certa vez, eu degustava um destes cafés em frente à Staatsoper. “E se fôssemos à ópera?” – sugeriu minha Baixinha. Agora? Nem sonhar – objetei – supondo que precisasse reservar vaga semanas antes. “Tentar não custa nada” – voltou a insistir a Baixinha. De fato, não custava nada. Tentamos. Havia lugares na última galeria, em pé, reservados a estudantes. Em cartaz, O Rapto do Serralho, de Mozart. Preço, dois euros. O café custava cinco. Café Central, Landtmann, Sacher, Hawelka, Demel, Karlsplatz, Frauenhuber, Prückel, Imperial, Sperl, Griensteidl. Muito mármore, muita madeira, muito pó dos séculos. Neste café vivia o Freud, neste outro conspirava Trotski, aqui estiveram Wagner e Hitler, ali tocou Mozart. Aqui bebia o Stefan Zweig, neste escrevia o Kloester, Klimmt preferia este outro, naquele ali discutia Karl Kraus. Este era do Elias Canetti, este outro do Arthur Schnitzler. Passei dias encantados vagando entre um café e outro, desesperado pela consciência de saber que não conseguiria fazer todos aqueles cafés divinos de Viena. Em todos, jornais do mundo todo. (Exceto do Brasil, é claro. Mas quando viajo não quero nem ouvir falar de Brasil). Um deles, até há poucos anos, oferecia a seus habitués nada menos que trezentos jornais. De chegada, uma instituição local me desagradou. Em cada café, deixa-se o casaco na chapelaria, pelo que se paga um euro. Ora, minha parka é meu escritório, nela estão minha agenda, meus postais e canetas, meus livros. Além disso, não é simpática a idéia de pagar para entrar em um boteco. Com o tempo, relaxei. Em Viena, como os vienenses. Sem falar que, por um euro, tenho uma hemeroteca ao alcance das mãos. Viena é uma das cidades nas quais gostaria de ter morado. Mas nem sempre se come pão quente. A quem um dia quiser visitá-la, eu diria: deixe de lado castelos e museus. Entregue-se aos cafés. Com a ciência de que, mesmo ficando lá um mês, você não conseguirá curtir sequer um décimo dos cafés que a cidade oferece. Last but not least, mesmo sendo o mais empedernido dos ateus, assistir a uma missa em Viena é sempre um grande momento de arte.
LOUCURAS DE NATAL Está circulando por email um texto a mim atribuído, intitulado Loucuras de Natal - Mulher fica nua em frente ao Muro das Lamentações. Refere-se ao caso de uma jovem que causou choque e indignação ao entrar num setor reservado para os homens, próximo ao Muro das Lamentações, em Jerusalém, tirar as roupas e depois se deitar no chão do local completamente nua. O fato ocorreu há poucos dias, durante a celebração do Chanucá, a festa judaica das luzes. Ora, o texto é e não é meu. Trata-se de uma montagem. A primeira metade do texto é mera reprodução do noticiário internacional. A segunda metade é uma crônica que escrevi, creio que em 2005, sobre a Síndrome de Jerusalém.
Sábado, Dezembro 15, 2007
JEJUAR COMO UM BISPO "Comeu como um bispo", dizia-se antigamente, quando alguém havia comido muito. Dom Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra, Bahia, que faz greve de fome em protesto pela transposição do rio São Francisco, ainda vai criar uma expressão nova, jejuar como um bispo. O prelado, que há quase vinte dias diz nada ingerir senão soro caseiro, exibe excelente estado físico. Se Lula se mantém firme em sua disposição de não ceder à chantagem episcopal, arrisca de enfrentar Dom Cappio jejuando em seu terceiro mandato.
ELE É BRILHANTE! "As pessoas que votaram contra a CPMF não usam o SUS" - disse ontem o Supremo Apedeuta. Como se os 45 senadores que votaram a favor o usassem.
TEMPLO É DINHEIRO Nesta terra nossa, onde em se plantando tudo dá, o que mais dá é sem dúvida alguma o imenso mercadão das angústias humanas. Recomendo a leitura, na Folha de São Paulo de hoje, de uma série de reportagens sobre as igrejas evangélicas neopentecostais, que já têm 24 milhões de seguidores no Brasil. Considerando-se que todas têm em comum o culto do Cristo – antes ícone mais ou menos privilegiado da Igreja Católica – vê-se que o desfalque foi considerável nas hostes romanas. A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) foi fundada em 1977 por Edir Macedo, então funcionário da Lotérica do Rio. Nos últimos trinta anos, criador da nova igreja montou um império de 23 emissoras de TV – o maior conglomerado de imprensa televisiva do país – mais 40 emissoras de rádio, sem falar em outras 36 arrendadas. A rede Record é avaliada hoje em dois bilhões de dólares. Cristo rende altos dividendos. Segundo o bispo Macedo, a Iurd é apenas cliente da Record. Ocorre que a igreja repassa à emissora, como aluguel de espaço na madrugada e a preços superfaturados, o que lucra com o dízimo de seus seguidores. Segundo dados da própria Iurd, só no Brasil eles já são dez milhões. Dados mais recentes sugerem 15 milhões. A Igreja, com apenas três décadas de existência, já está instalada em 115 países. Com tal aparato, Edir Macedo foi até mesmo “canonizado” pela Folha de São Paulo, que de alguns anos para cá mais não grafa a palavra bispo entre aspas, como antes fazia quando a ele se referia. Para uma igreja que tem como prato de resistência as possessões pelo demônio, os exorcismos e os encostos – ou seja, as mais baixas crendices das massas incultas – é um feito e tanto. Cristo dá infinitamente mais lucros que a Bovespa em seus melhores dias. Um outro fenômeno do mundo das finanças é a Igreja Apostólica Renascer em Cristo, fundada em 1986 por um ex-gerente de marketing da Xerox, Estevão Hernandes, e por sua mulher, Sônia, proprietária de uma boutique em São Paulo, hoje presos nos Estados Unidos. Tudo começou com um grupo de orações organizado na casa de Hernandes, que foi transferido para uma pizzaria, onde foi criada a igreja. Vinte anos depois, o apóstolo Hernandes e a bispa Sonia, mesmo vendo o sol quadrado, já têm mais de mil templos no Brasil e uma clientela de cerca de dois milhões de fiéis. Mas o esforço missionário do apóstolo e da bispa não se resumiu à criação da Renascer. Além desta, fundaram também a Igreja Internacional Renovação Evangélica, uma espécie de igreja-laranja, criada para assumir as dívidas e protestos judiciais movidos contra a Renascer. O patrimônio acumulado pelo casal nestes últimos vinte anos é avaliado em 130 milhões de reais. Foram presos nos EUA quando tentavam entrar no país US$ 56 mil não-declarados. Condenados pela Justiça norte-americana a 140 dias de reclusão em uma penitenciária, cinco meses de prisão domiciliar e dois anos de liberdade condicional por contrabando de dinheiro, mesmo atrás das grades continuam pregando para seus fiéis, via televisão, e posando de mártires. Fé é sem dúvida o melhor investimento. Muito melhor que ações da Petrobrás.
Sexta-feira, Dezembro 14, 2007
UM POUCO DE PESSOA A grande poesia não faz mal a ninguém. Como a relação entre escritor e leitor é sempre uma teia de cumplicidades, suponho que não seja estranha a meus leitores a obra de Fernando Pessoa. Mas sempre há os leitores emergentes, a turma mais jovem que começa a iniciar-se no território das letras. Em atenção a estes, vou alegrar o blog com alguns bons momentos de poesia, que podem significar a descoberta de um autor. Hoje, o Pessoa, um de meus dois poetas prediletos. O outro é José Hernández. Gato que brincas na rua Como se fosse na cama, Invejo a sorte que é tua Porque nem sorte se chama. Bom servo das leis fatais Que regem pedras e gentes, Que tens instintos gerais E sentes só o que sentes. És feliz porque és assim, Todo o nada que és é teu Eu vejo-me e estou sem mim, Conheço-me e não sou eu.
VATICANO ESQUECE BÍBLIA Leio que o Vaticano defendeu hoje o "direito e o dever" da Igreja Católica de evangelizar os não-crentes e acolher os convertidos, especialmente de outras religiões cristãs. A defesa foi feita em um documento do departamento doutrinário e também ensina como os católicos devem lidar com conversões de fiéis vindos de diferentes denominações cristãs. O documento me parece ocioso. Pelo menos no Ocidente, nunca vi quem negasse o direito de a Igreja Católica evangelizar não-crentes e acolher convertidos. Se isso ocorre no mundo árabe, bom... lá é território do Alá, não do Jeová. O problema é que a Igreja não se contenta em evangelizar não-crentes e acolher convertidos. A Igreja quer mesmo é exterminar outras crenças. Que não venha o papa dizer – como disse em maio passado – que o Evangelho enriqueceu, não destruiu as culturas nativas. Claro que destruiu. Sempre foi política da Igreja Católica impor seu deus em detrimento de outros deuses de outras culturas. Isso, desde o Gênesis. É a tentativa lógica de expansão de um grupo de poder. “Mas os seus altares derrubareis, e as suas colunas quebrareis, e os seus aserins cortareis (porque não adorarás a nenhum outro deus; pois o Senhor, cujo nome é Zeloso, é Deus zeloso), para que não faças pacto com os habitantes da terra, a fim de que quando se prostituirem após os seus deuses, e sacrificarem aos seus deuses, tu não sejas convidado por eles, e não comas do seu sacrifício; e não tomes mulheres das suas filhas para os teus filhos, para que quando suas filhas se prostituírem após os seus deuses, não façam que também teus filhos se prostituam após os seus deuses”. Até aí, nada além da tradição de uma crença fanática e intolerante. Se hoje não se admite que a Igreja derrube altares de outras crenças, nada impede que pregue suas crendices. O que a Igreja não pode é tentar impô-las a Estados laicos, através de legislação. Ora, o Vaticano é useiro e vezeiro nestas tentativas, quando encontra clima para impor-se aos Estados. O divórcio só foi instituído no Brasil porque um dia tivemos um presidente protestante. E o aborto até hoje não é legalizado por influência da Igreja Católica. Para o Vaticano, "a incorporação de novos membros à Igreja não é a expansão de um grupo de poder, e sim a entrada na rede de amizade com Cristo, que conecta céus e terras, diferentes continentes e eras". Terras, continentes e eras, até que se entende! Mas que céus, cara-pálida? O Vaticano, quando fala, parte do pressuposto de que toda a humanidade participa de suas fabulações. Ora, não é bem assim.
Quinta-feira, Dezembro 13, 2007
COMUNISTA QUER LÍNGUA ESTANQUE A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou hoje pela manhã projeto do deputado Aldo Rebelo, que proíbe o uso de estrangeirismos no país. Pelo projeto, toda palavra ou expressão escrita em língua estrangeira e destinada ao conhecimento público no Brasil virá acompanhada, em letra de igual destaque, do termo ou da expressão correspondente em português. Isso inclui os meios de comunicação de massa, as mensagens publicitárias e as informações comerciais. O projeto vem de longe. Já escrevi sobre o mesmo em 1999. Em verdade, a preocupação do deputado comunista é com a invasão de palavras inglesas no cotidiano nacional. Rebelo considera descaracterização de nossa língua a invasão de palavras como "holding", "recall", "franchise", "coffee-break", "self-service" e aportuguesamentos como "startar", "printar", "bipar", "atachar", "database". Luiza Erundina, nordestina como Rebelo, também não gostava de palavras estranhas ao idioma. Quando prefeita de São Paulo, quis proibir palavras estrangeiras nos cardápios dos restaurantes, obrigando o eventual devoto da culinária francesa a comer um prosaico pato com laranja, em vez de degustar um autêntico canard à l'orange. Mas como traduziríamos filé? Ou menu? Ou garçom? A prefeita nada disse sobre o assunto. A luta contra os anglicismos preocupa todos os países não-anglófonos. Nos anos 70, Etiemble já denunciava em Paris a invasão da França pelo que chamou de franglais. Legislação semelhante à proposta por Rebelo foi adotada na França. Ocorre que vivemos dias de Internet. Os franceses podem dizer ordinateur em vez de computer, logiciel em vez de software, souris em vez de mouse. Mas o mar de palavras do campo da informática que invade a praia dos franceses a cada ano, os submerge antes que possam ser traduzidas. Internet, computadores, Windows ou browsers são coisas de ianques. Melhor relaxar e gozar. O deputado Rebelo, em aguda crise de anti-americanismo infantil, assesta suas baterias contra os anglicismos e aportuguesamentos. No entanto, desde que o homem saiu a trotar mundos - e isso já faz alguns séculos - nenhuma língua mais é pura. Um brasileiro pode ser analfabeto, mas fala latim, francês, árabe ou grego, com fluência e todos os dias. Ao perguntar por um ônibus, você fala latim. Ao chamar o garçom ou pedir um filé, ao entrar na garagem ou carregar a bagagem, você está falando um excelente francês. Ao comprar alface ou ir a um alfaiate, você falou árabe. Palavras como táxi ou telefone são grego puro, sem mistura. Estas palavras importadas, constantes do acervo de qualquer língua, são milhares. Seria insano pretender bani-las do vernáculo. Quanto a aportuguesamentos, os usuários da língua são pródigos em soluções. Se hot dog ou cheeseburger são demonstrações de imperialismo aos olhos do comunista alagoano, em São Paulo os vendedores de cachorro quente encontraram algo abominável para designar a profissão, mas que soa a vernáculo: são dogueiros. Não pretenderá o deputado que se chamem cachorreiros. No Brasil, cheese virou xis. Que acabou tornando-se sinônimo de sanduíche, aliás outro anglicismo. Em Florianópolis, eu li esta pérola do gênio ilhéu, uma barraca anunciando - juro que li! - xis com queijo. Outro dia, passando por um boteco vagabundo, vi cartaz anunciando uma feijoada a cinco reais. Com um convite: enjoy it! Os portugueses, mais zelosos, não falam em menu, mas ementa. Não chamam o garçom, mas o camareiro. Não usam prêt-à-porter, mas pronto-a-vestir. Monitor não é monitor, mas tubo visor. Mouse é rato. É uma opção. Mas Rebelo que me desculpe: prefiro clicar o mouse a premer o camundongo. O projeto do deputado prima pela incultura. As línguas não são estanques e se formadas a partir de estrangeirismos. Só no bestunto de um comunista existe língua pura. De qualquer forma, será divertido ver as autoridades censurando os meios de comunicação de massa toda vez que usarem um estrangeirismo. Para começar, os suplementos de informática seriam todos proibidos.
AINDA AYAAN Um dia, acompanhei uma jovem somali ao hospital para uma consulta com o ginecologista. O médico me pediu que lhe explicasse que era preciso tirar a roupa para que ele lhe examinasse o útero com um comprido instrumento prateado. Ela disse: “Tudo bem, mas duvido que ele consiga ver o meu útero”. Compreendi: a moça era totalmente fechada, nada mais que uma cicatriz. Tentei informar o médico, mas ele se limitou a retrucar: “Faça o que eu disse”. Mas, quando a garota se deitou na maca, o homem olhou entre suas pernas e retrocedeu, chocado, deixando escapar um palavrão. Tirou as luvas com raiva, pois nenhum instrumento de aço entrava ali. A jovem não tinha vulva, apenas uma lisa superfície de tecido cicatrizado. Era o famoso farooni, uma excisão tão extrema que extirpava inteiramente a genitália, transformando-a em uma dura faixa de pele escura. (Trecho de Infiel, de Ayaan Hirsi Ali)
PORQUE NÃO VOTO Foi uma sessão emblemática, a de ontem, do Congresso Nacional, que mostrou definitivamente a que ponto a política pode ser suja. O PSDB, que criou a CPMF, votou para enterrá-la. E conseguiu enterrá-la. O PT, que em anos passados foi crítico contundente do imposto tucano, defendeu-o com unhas e dentes. Faltaram quatro votos para a prorrogação da medida. Se considerarmos que seis senadores da base aliada votaram contra a prorrogação, podemos afirmar que o governo infligiu a si mesmo uma derrota fragorosa. Como observa Eliane Cantanhêde, na Folha de São Paulo, “só faltava no plenário do Senado ontem um bate-boca entre Lula (que foi radical contra a criação da CPMF), argumentando a favor dela, e Fernando Henrique (que lançou e ampliou o imposto no seu governo), argumentando contra”. É por esta – e por outras – que não voto há mais de vinte anos. Enquanto isso, com ou sem CPMF, o brasileiro continua sendo mordido em cerca de 60% de seus ganhos.
Quarta-feira, Dezembro 12, 2007
ISLÃ VERSUS BICICLETAS Nas raras vezes em que viajei por países islâmicos, voltei ao Ocidente com vontade de imitar João Paulo II, que a cada país, ao sair do avião, beijava o solo em que pisava. Minhas observações sobre esses países – Egito, Argélia e Tunísia – são as observações superficiais de um turista, pois jamais consegui penetrar na intimidade daquelas sociedades. Esses países, eu os conheço mais de leitura do que de visita. Mas, pelo que se vê na rua, já se pode ter uma boa idéia da desgraça de ser mulher no Islã. Quando sento nos bares do Ocidente, seja em Paris ou São Paulo, seguidamente evoco aqueles países que ainda não saíram da Idade Média. Olho em torno a mim, vejo mulheres alegres e independentes, bebendo e comendo o que bem lhes apetece, pagando suas contas com seu dinheiro, rosto descoberto, coxas, seios e espáduas à mostra. É quando ergo uma prece silenciosa a este Ocidente, que tantas vezes xingamos intimamente, sem nos darmos conta do privilégio que gozamos. Fosse aquele boteco transferido a um país islâmico, cada uma daquelas mulheres estaria cometendo vários crimes ao mesmo tempo. Em Infiel (Companhia das Letras, 2007), a somali Ayaan Hirsi Ali nos mostra o universo islâmico desde dentro. O que se vê é de assustar. A autora nos transporta a um universo estranho, que sabemos que existe, mas no qual é difícil acreditar que exista. “Ayaan, minha filha, tenho uma ótima notícia para você – a melhor de todas -, Alá ouviu as minhas orações. Hoje, na mesquita, um homem abençoado me procurou com uma proposta de casamento, e lhe ofereci sua mão”. Você já imaginou ouvir de seu pai esta notícia? Pois foi o que Ayaan ouviu um belo dia. Como não lhe passava pela cabeça casar-se com alguém que sequer conhecia, disse a seu pai que não iria ao nikah, a cerimônia de casamento. Tanto faz. A cerimônia islâmica dispensava sua presença e sua assinatura. Sem maiores opções, Ayaan acaba comparecendo ao nykah. E discute com seu pai suas obrigações de esposa à luz do Corão. Sobre a obrigação de pedir autorização ao marido para sair de casa, o pai explica: “Vocês podem fazer o seguinte: cheguem a um acordo, logo no começo, para que essa autorização seja dada em caráter permanente. É um voto de confiança, ele confia em você, de modo que não há necessidade de pedir autorização cada vez que você for à mercearia”. Seu marido é somali, mas vive no Canadá. Para juntar-se a ele, Ayaan viaja até a Alemanha. Em Düsseldorf, não consegue acreditar no que vê: “Homens e mulheres juntos, não em bares, mas com plácida familiaridade, como se fossem iguais. Passeavam de mãos dadas à luz do dia, sem se esconder de ninguém, e todo mundo parecia achar aquilo a coisa mais normal do mundo”. O contraste é flagrante com as cidades onde Ayaan um dia viveu: “Tudo se mantinha tão bem conservado. Os sulcos entre as pedras da rua eram limpos. As fachadas das lojas reluziam. Lembro de ter pensado: “Que coisa assombrosa, como é possível?” Estava habituada a montes de lixo malcheiroso e a ruas esburacadas, nas quais a sujeira ia ao nosso encontro e nada parecia limpo. Em Nairóbi, com exceção dos poucos encraves abastados reservados aos funcionários do governo e aos empresários milionários, as pessoas viviam amontoadas em barracos de blocos de concreto nus ou de papelão e folhas de metal. Não faltavam mendigos, batedores de carteira e órfãos morando nos monturos; o trânsito era maluco; os rádios ensurdecedores; e os motoristas de matatou chamavam os passageiros aos berros. Eu me senti como que em outro mundo, um mundo calmo e organizado, como nos romances e em alguns filmes, mas, de certo modo, nunca tinha acreditado neles”. Enfim, não cabe contar aqui uma vida que coube, um tanto apertada, em 500 páginas. Faço um atalho, não sem antes remeter meus leitores à leitura deste depoimento insólito. Quando Ayaan chega a Bonn, uma idéia começa a germinar em sua cabeça: não tinha nada que ir ao Canadá. Opta pela Holanda, o país das bicicletas. Rápido parêntese: em meus dias de Suécia, uma das instituições que mais me espantou foram os horários de ônibus. Nas paradas, um quadro mostrava os horários de chegada, minuto a minuto. E você podia acertar o relógio pela chegada do ônibus. Em minha volta ao Brasil, trouxe fotos desses quadros de horário, para que ninguém me tomasse por doido varrido quando falasse do assunto. Recordo que, em minha primeira viagem à Suíça, telefonei para uma amiga que lá vivia. Dei o horário de meu trem e ouvi do outro lado da linha: “ok, te espero às 12h31 em frente ao quiosque de jornais”. Tomei a resposta quase como ofensa. Estaria a brasileirinha contaminada pelos hábitos suíços? Estaria pretendendo dar-me uma lição introdutória ao país dos relojoeiros? Brasileiro e subdesenvolvido, explodi com um sonoro “vai pra PQTP, estou chegando por volta das doze e trinta”. Ocorreu então o que eu jamais imaginaria. O trem chegou às 12h30, como previsto. Do trem ao quiosque, era um minuto. Encontrei-a exatamente às 12h31. Fui pontual à revelia. O mesmo choque teve Ayaan em Amsterdã: “Enquanto esperava para fazer baldeação, reparei que o ônibus chegou exatamente na hora marcada, catorze horas e trinta e sete minutos, pontualmente. Em Bonn, os ônibus também eram assim, e aquela misteriosa pontualidade me parecia esquisitíssima. Como era possível prever que o ônibus chegaria precisamente às catorze e trinta e sete? Acaso eles também controlavam as regras do tempo?” Qual uma Alice no País das Maravilhas, Ayaan está perplexa com o cotidiano europeu: “se eu cair morta neste instante, pelo menos vi o mundo”. No Centro de Refugiados, quando uma etíope com quem divide um bangalô lhe sugere tirar o véu, a somali se escandaliza: “Não, sou muçulmana”. Considera que se os homens vissem mulheres vestidas como estavam as etíopes, com maquiagem e minissaias, braços nus e quase tudo à mostra, ficariam confusos e sexualmente excitados. “Vão ficar cegos de desejo. Aí não conseguem mais trabalhar, os ônibus perdem a direção, instaura-se um estado de fitna total”. Um defeito da tradução brasileira é não traduzir determinadas palavras árabes ou somalis do livro. Vamos lá: fitna é uma palavra árabe, dificilmente traduzível, que se refere à guerra civil, ao desacordo e às divisões no interior do Islã, em particular os períodos de conflitos de fé. O termo implica também movimentos de revolta e secessão. Certa manhã, Ayaan resolve fazer uma experiência. Sai sem véu. Queria ver o que acontecia. Saiu suando frio. Aquilo era realmente haram (proibido, em árabe) e também era a primeira vez, desde os seus dezesseis anos, em que pisava em um espaço público com o cabelo descoberto. “Pois não aconteceu absolutamente nada. Os jardineiros continuavam podando as sebes. Ninguém teve nenhum ataque de nervos. Se bem que ali só houvesse holandeses, talvez não fossem homens de verdade. Passei por etíopes e zairenses, e ninguém reparou; mas, afinal, aquela gente não era muçulmana. Então me acerquei de um grupo de bósnios. Nenhum deles olhou para mim. Aliás, eu chamava menos atenção do que quando estava de véu. Não vi nenhum homem perder a cabeça”. Muitos são os episódios que revelam o choque cultural de uma muçulmana descobrindo o Ocidente. Um deles é particularmente saboroso, a inevitável descoberta da bicicleta em uma cidade como Amsterdã. Para começar, Ayaan tem de trocar sua longa saia por um jeans. Escolhe um jeans masculino, larguíssimo, para que as formas de suas pernas não fiquem à mostra. Seus conterrâneos somalis a reprovam: “Você está envergonhando a todos nós com a sua bicicleta. Quando você chega, com as pernas abertas, a gente vê sua genitália”. Haja imaginação! É claro que não encontraremos no Corão proibição alguma às bicicletas. Mas em uma cultura em que uma mulher não pode mostrar suas formas, usar jeans já constitui vergonha. Bicicletar, então, é sacrilégio. O curioso em tudo isto é que aqueles brutos do Islã, mesmo usufruindo das benesses da Europa, não abrem mão dos bárbaros hábitos de suas bárbaras mentalidades. A Europa, passivamente, assume a barbárie alheia. Leia o livro de Ayaan Hirsi Ali. Você vai dar graças ao bom Deus por viver no Ocidente.
Terça-feira, Dezembro 11, 2007
PAPEL HIGIÊNICO E SOCIALISMO Quando surgiram as primeiras notícias de que começavam a faltar carne, leite e ovos na Venezuela, não me surpreendi. Socialismo é isso mesmo. Sempre foi. Nada de espantar que começasse a faltar comida no socialismo do século XXI do fanfarrão Hugo Chávez. E pensei com meus botões: logo vai faltar papel higiênico. O socialismo sempre foi incompatível com papel higiênico. Não deu outra. Li há pouco, em reportagem do Lourival Santana, que começa a faltar papel higiênico na Venezuela. O papel higiênico foi inventado há apenas 150 anos. É coisa recente em termos de história. Mas seu uso não é lá muito universal. O mundo muçulmano não o usa muito. Os vasos sanitários dos hotéis árabes reservam uma surpresa não muito simpática a seus usuários. Você puxa a descarga... e recebe um forte jato d’água no devido lugar. Aliás, este importante momento da vida de cada um recebeu merecida atenção do aiatolá Khomeiny. Em seus comentários ao Corão, escreveu: - Não é necessário limpar o ânus com três pedras ou três pedaços de pano, uma só pedra ou um só pedaço de pano bastam. Mas, se se o limpa com um osso ou com coisas sagradas como, por exemplo, um papel contendo o nome de Deus, não se pode fazer orações nesse estado. Que no deserto não haja papel higiênico, até que entendo. Quando passei quinze dias no Sahara argelino, levei meu estoque pessoal. A verdade é que não tínhamos nem hotel. Dormíamos ao relento ou em habitações sem teto em alguma aldeia. Vaso, nem sonhar. O que é difícil entender é a inevitável escassez de papel no socialismo. Em todos os países socialistas que andei, conseguir papel higiênico era sempre uma luta contra a burocracia. Nunca encontrei um quarto de hotel com o dito. Era preciso pedi-lo na portaria, e pedir com jeito. Com visível enfado, o burocrata de plantão lhe passava alguns poucos metros de papel. Rolo, nem pensar. Nos dias do glorioso império soviético, os turistas que se dirigiam às repúblicas socialistas sempre recebiam a recomendação de levar sua própria provisão. Suponho que as coisas não mudaram muito. Estive na Rússia em 2000, nove anos após a desintegração da URSS. Em São Petersburgo, em hotel cuja diária me custou 112 dólares, nada do bendito papel. Aliás, o quarto não tinha nem lâmpadas. O curioso é que a Venezuela, mais que um país, é um poço de petróleo. É no mínimo espantoso que falte papel higiênico numa república que tem 100 bilhões de barris de petróleo de reserva. O socialismo tem suas leis inelutáveis.
Segunda-feira, Dezembro 10, 2007
Crônicas da Guerra Fria (58) COMO UM VIGARISTA CONSTRÓI SEU PEDESTAL São Paulo - O ano de 1997 viu desmoronar no Brasil um dos mitos mais frágeis criado pela intelligentsia brasileira. Ou talvez fosse melhor falarmos de burritzia. O mito em questão é o senador monoglota Darcy Ribeiro, que construiu toda sua vida e carreira sobre mentiras. Morreu em fevereiro deste ano e deixou um lixo póstumo, Mestiço é que é bom (Editora Revan, Rio, 97). Antes de entrarmos nas falcatruas do senador, leiamos algumas pérolas de seu pensamento. Neste livro, Darcy é entrevistado pelos mais ilustres comunossauros tupiniquins, como Antonio Callado, Antonio Houaiss, Eric Nepomuceno, Ferreira Gullar, Oscar Niemeyer, Zelito Viana e Zuenir Ventura. A relação destes nomes é importante. Não fosse o testemunho destes seus amigos, seria difícil de acreditar nos parágrafos seguintes. O terror das virgens - Uma das revelações surpreendentes de sua obra póstuma, é o prazer cultivado pelo ilustre humanista de Minas Gerais em espancar mulheres. Oscar Niemeyer, um dos mais sólidos bastiões do stalinismo no Brasil, levanta a bola e Darcy chuta em gol: OSCAR NIEMEYER - Teve uma história que você me contou uma vez que era mais complicada, que jogaram você numa estrada de ferro. DARCY - Foi em Paris, na primeira vez que eu fui a Paris, em 54. Lá, encontrei uma coisa incrível, uma menina, de família turca, libanesa, de Rio Claro, em São Paulo. Ela tinha ganho, aos dezoito anos, o prêmio de língua francesa, era estudante. Eu cheguei lá, vindo da Suíça, tinha passado um mês na Suíça, trabalhando. Quando cheguei em Paris, por acaso encontrei com a menina, gostei da companhia, fiquei andando com ela. Ela estava com uma vergonha enorme de ser virgem - a francesa é muito mais cuidadosa da virgindade que a brasileira, a francesa de família burguesa - mas ela, vivendo na Rive Gauche, lá ela estava com vergonha de ser virgem, porque os meninos namoravam e queriam trepar. Eu também quis trepar e ela não trepou. Eu já estava enjoado dela e ela me procurando como um carrapato, agarrada em mim, mas não me dava. Ia na minha pensão e não me dava. Pensão daquele tempo, em Paris! Essa menina estava com muita vergonha de ser virgem, mas com muito medo. Então, fiquei passeando com ela em Paris. Num certo momento, nós fomos pegar o último metrô, tínhamos que pegar ou andaríamos quarteirões. Fomos para o metrô, estávamos na beira do metrô, esperando, e ela sabia que, quando chegássemos, ela ia ser comida, porque senão eu quebrava a cara dela. Logo depois eu iria embora, então era o dia dela ser comida, ela estava muito nervosa. Então, a filha da puta, num certo momento, me jogou na linha do metrô, lá embaixo. Aquele negócio é eletrificado, eu podia ter morrido! Eu fiquei querendo levantar, apoiado com a mão na beirada da plataforma, e ela pisando na minha mão. Eu fiquei com uma raiva danada e dei uma surra nela. HOUAISS - Você conseguiu se levantar e sair de lá? DARCY - Consegui levantar - hoje, não conseguiria -, ela pisando na minha mão. Dei uma surra nela, rapaz! Ela ficou quietinha, chorou muito e depois me deu. Por isso é que eu estava, agora, faz pouco, andando com minha chefe de gabinete, que é uma mulher muito bonita, e com o marido dela na feira de Montes Claros e eu cheguei e disse para uma daquelas feirantes - muitas delas me conhecem: - Como vai? Ela perguntou: - Quem é essa, é sua mulher? - Não, trabalha comigo e não me dá. - Bate nela que ela dá. O Don Juan da aldeia - Não satisfeito em proclamar seus dotes de espancador emérito, o senador passa a gabar-se de suas aventuras sexuais como etnólogo, quando faturava algumas “índias decadentes”. Quem levanta a bola, desta vez, é o também finado Antônio Callado: CALLADO - Darcy, a primeira vez que eu fui ver os índios, em 50 ou 51, já estava muito estabelecido que índia não se comia, para não bagunçar muito o coreto, era mais ou menos tradicional, para não começarem a comer as índias todas. Tanto é assim que, quando eu estive lá, o Leonardo Villas-Boas já estava na Fundação Brasil Central, sendo forçado a deixar o Serviço de Proteção ao Índio porque ele tinha comido uma índia, com quem se casou. Quando é que você chegou lá pela primeira vez? Nessa época já tinha essa lei? DARCY - É verdade. Eu comecei com os índios em 46. Essa lei existe até hoje, por causa do Rondon e da antropologia clássica. Eu fui educado para não trepar com índia porque, para o antropólogo, no meu caso específico, pesquisas longas eram difíceis. Hoje em dia é que as moças começaram a dar para os índios, as antropólogas dão para os índios, gostam de transar com eles, para fazer intimidades. Tão dando mesmo, dão para eles também. Coitado, índio também é gente. Então, dão. E como elas dão, os homens também começaram a comer as índias, antropólogos de primeira geração. (...) Eu passei meses com os índios, arranjava um jeito de ter uma. Por exemplo, eu não comia as índias Urubus-Kaapor porque eu estava trabalhando com os Kaapor, mas comia índia Tembé, que eram umas índias decadentes que havia lá. Teologia barata e anti-semitismo - Vejamos esta brilhante interpretação do “Gênesis” proposta pelo senador: DARCY - Aliás, eu preciso contar para vocês uma coisa muito interessante que eu desenvolvi ultimamente, meio literária mas muito bonita. E uma história sobre Eva, eu estive meditando sobre Eva e descobri que Eva é trotskista. É a primeira revolucionária da história. Nós devemos coisas fundamentais a Eva. Primeiro, Eva fundou a foda. Adão era um bestão, estava lá, com aquele penduricalho dele e não sabia o que fazer. Eva disse: - Vem cá Adãozinho. Ele pôs dentro dela e foi aquele gozo, ele teve o orgasmo e, quando deu aquele gozo, o anjão desceu e disse: - Deus não gosta, Deus está puto com vocês, fora! E os pôs para fora do Paraíso. O Paraíso era uma merda, não era de matéria plástica porque não existia matéria plástica, era de papel crepom. Porque a flor é o órgão genital das plantas, fode, não poderia ter no paraíso flor fodendo. Era de papel crepom. Quando o anjão pôs eles para fora, obrigou o seguinte: - Vamos fazer o comunismo, vamos fazer o Paraíso lá fora. Eva também foi fazer o comunismo. E já que falamos de temas bíblicos, cabe dar uma olhadela na concepção que tem Darcy Ribeiro dos judeus: DARCY - Os judeus são tão filhos da puta que, de vez em quando, colocam na menina o nome de Lilith. Lilith é a Eva pecaminosa, a que dá a bocetinha ambulante, fogosa. Racismo anti-branco - Admitamos que estas confissões sejam produto de muito álcool na cuca. O que aliás as torna mais graves: in vino, veritas. Mas é de supor-se que o senador monoglota não estaria bêbado quando escreveu na Folha de São Paulo: "A expansão do homem branco foi a maior catástrofe da história humana”. Fosse esta afirmação feita por um analfabeto qualquer, sem maiores noções de história ou geografia, a frase passaria como mais uma das tantas bobagens reproduzidas diariamente pela mídia. Ocorre que ela foi proferida por um senador da República, cujo pensamento, profissão, vida e carreira - apesar de seu monoglotismo e carência de cultura universitária - foram nutridos pela Europa. Partindo de quem parte, tal bobagem merece algumas considerações. Que os brancos europeus mataram, tanto em seu continente como nos que conquistaram, ninguém em sã consciência vai negar. Mas também mataram os chineses, os mongóis, os turcos, os árabes, os japoneses. Também negros e índios mataram e continuam matando. Em se tratando de seres humanos, a única afirmação abrangente que podemos fazer, sem incorrer em falácia, é que os homens verdes, como também os azuis, jamais mataram seus semelhantes. Pelo singelo fato de que não existem homens verdes nem azuis. O primeiro homem a criar embriões de universidade mundo a fora - e isso 300 anos antes de Cristo - saiu matando e conquistando, a patas de cavalo, desde a Macedônia até a Ásia. Não fosse Alexandre, o diálogo entre Oriente e Ocidente se atrasaria por séculos. Houve tempos em que a cultura seguia a espada e estes tempos não estão muito distantes de nós. O conquistador europeu abafou o neolítico de Pindorama? Que bom! Não fosse isso, Darcy Ribeiro não teria acesso à bomba de cobalto que, nos anos 70, lhe deu longa sobrevida. Virando o cocho - O branco europeu matou e destruiu, como matam e destróem todos os homens, exceto os homens verdes e azuis. Mas também descobriu a penicilina e a fissão nuclear, foi à Lua, já está pensando em Marte e seus olhos eletrônicos já se aproximam de Plutão. Nos deu Mozart e Vivaldi, a ópera e o cinema, as comunicações e o computador. O próprio cristianismo, apesar de sua fúria assassina medieval, nos legou uma estética que não pode ser jogada na famosa lata de lixo da história. Não há termos de comparação entre a Notre Dame e um terreiro de umbanda. Nem se pode confundir uma oca de bugres com a torre Eiffel. Muito menos o cacique caiapó Paiakan com Casanova. Rechaçar a expansão do branco, ou seja, a cultura européia, é negar Sócrates e Platão, Cervantes e Shakespeare, Dante e da Vinci, Schliemann e Champolion, Fernão de Magalhães e Armstrong, Pasteur e Einstein. Sem falar em Hegel e Marx, que no fundo embasam a "Weltanschaaung" de Darcy Ribeiro. Se aceitamos sua ótica fundamentalista, que as telas de Van Gogh ou Bosch sejam largadas aos papeleiros, para reciclagem industrial. Os grandes acervos dos museus poderiam servir para construir diques na Holanda. Que sejam fechados o Louvre e o Hermitage, queimadas as bibliotecas, hemerotecas e filmotecas, e proibidos os computadores e as antenas parabólicas, como aliás já está ocorrendo no mundo islâmico. A primeira providência dos fanáticos talebans, ao entrar em Cabul, no Afeganistão, foi destruir os aparelhos de televisão. A tecnologia branca transportou Darcy Ribeiro com seus jatos aos países onde degustou “o amargo caviar do exílio”. Na hora de escolher refúgio, optou por países de cultura branca, a cultura que, ao expandir-se, segundo sua acusação, foi a maior catástrofe da história. Já perto da morte, Darcy decidiu virar o cocho em que se nutriu. Hierático, gozando da absolvição que a morte confere, morreu em aura de santidade. Nem por isso podem ser perdoadas as infâmias que proferiu postumamente, graças ao esforço editorial de seus “compagnons de route”. Tantas besteiras proferidas por um intelectual de renome internacional têm uma explicação: Darcy foi toda sua vida um embuste. O escroc acadêmico - Além de gabar-se de ser monoglota, exibia como titulação universitária um diploma da Escola de Sociologia e Política, de São Paulo, curso que jamais foi reconhecido pelo Ministério de Educação e Cultura. Em seu currículo enviado ao Senado, espertamente se intitulou etnólogo, ofício que, como o de antropólogo, prostituta ou psicanalista, ainda não foi regulamentado no Brasil. Gozou de três aposentadorias federais, uma delas pela Universidade de Brasília, com a qual jamais teve vínculo de emprego. Sua carreira é a de um escroc acadêmico. Não bastasse isto, dizia ter fundado a Universidade de Brasília. Não fundou. Nem nela lecionou, embora tenha por ela se aposentado. Segundo o Dr. José Carlos de Almeida Azevedo, ex-reitor da UnB, Darcy nela jamais teve um só aluno e foi “reintegrado” para “aposentar-se”, sem jamais ter vínculo de emprego com a universidade, já que era “requisitado”. A propósito, cito artigo do ex-reitor, publicado em 24/06/96 na Folha de São Paulo: “Servidor do antigo SPI, hoje Funai, e da UFRJ, Darcy apareceu na comissão convocada pelo então ministro da Educação, Clovis Salgado, para cumprir determinação de JK, no sentido de “...fundar Universidade Brasília... em moldes rigorosamente modernos...”. Na comissão, presidida por Pedro Calmon, Darcy era o único que jamais havia concluído, ou iniciado, um curso superior, mas foi Reitor da UnB e ministro da Educação, poucos meses em cada lugar, sem deixar qualquer vestígio do que fez”. A citação será longa, mas pertinente. Continua Azevedo: “No final de 1968, cinco anos depois que Darcy deixou a reitoria, os esgotos da UnB eram a céu aberto; não havia galeria de águas pluviais, e tudo inundava; porque só havia uns mil metros de asfalto, era um lamaçal; havia uns cinco telefones, um computador de 6k nunca usado; uma só quadra de esportes, simples chão cimentado e dita “polivalente”; nenhum curso reconhecido havia, além de Direito e Economia. Toda a administração era na “munheca”, nada mecanizado. Em uns seis barracos de madeira, amontoavam-se o restaurante, o alojamento estudantil, algumas unidades de ensino e os serviços gerais. À beira do lago, outros três barracos, malocas de índios e sebastianistas. Era ver para crer. Os alunos, uns 2.000, amontoavam-se em três prédios de dois andares, com uns 2.000 m² cada um, com a pequena biblioteca e laboratórios. (...) Nem as escrituras do imóveis tinha e, por isso, perdeu uma centena de terrenos comerciais e um enorme prédio”. Concluí o ex-reitor: “Ao autoproclamar-se “fundador” e “criador” da UnB, beneficiando-se disso ad perpetuam, o Darcy usurpa méritos exclusivos de Juscelino Kubitschek, de seu ministro Clovis Salgado e de Anísio Teixeira, comprovados em relatório oficial do MEC e em depoimento do ministro. O primeiro mandou criar a universidade, compreendendo sua importância; o segundo criou todas as condições, e Anísio a organizou. (...) A construção, institucionalização e consolidação da UnB devem-se aos reitores Caio Benjamin Dias, Amadeu Cury e, em escala menor, a este modesto escriba, que a ela serviram, a convite exclusivo do Conselho da Fundação UnB”. O senador monoglota dizia ainda ter fundado a Universidade Nacional de Costa Rica. Tampouco a fundou. Aliás, nem existe tal universidade. Conforme nos informa o professor Augostinus Staub, “existe, sim, a Universidade Nacional, na cidade de Herédia, criada em 1970, pelo presbítero Benjamin Nuñez Gutierrez, e não por Darcy Ribeiro”. Gabava-se de ter um diploma de Dr. Honoris Causa pela Sorbonne. Pura fraude intelectual. O Honoris Causa, Darcy o recebeu em 1978, quando não mais existia a Sorbonne. O diploma foi conferido pela Universidade de Paris VII e entregue em uma sala do prédio da antiga Sorbonne, o que é muito diferente. Sem falar que diploma Honoris Causa só serve para enfeitar cartão de visita e não confere nenhuma capacitação acadêmica a seu portador. Rumo à lata de lixo - Darcy sabia muito bem que, neste país sem maiores critérios de avaliação da inteligência, enganar é o recurso mais ao alcance do homem inculto para subir na vida. Mentindo sempre, foi guindado a um ministério e ao Senado. Uma vez no poder, do alto de seu cursinho secundário, o senador monoglota condenou, em uma só frase, a cultura na qual nasceu e mamou. Ao tentar fugir da morte espiritual, Ribeiro não optou pelo tantã ou pelo relato oral sob a sombra de um baobá, mas por gráficas modernas montadas pelo branco que tanto abomina. Tentando fugir da morte física, reação instintiva de todo ser humano, o antropólogo não recorreu a pajelanças, mas a hospitais de primeira linha. Quando Jesus estava chamando, não buscou salvação junto a xamãs. Preferiu pedir água a representantes da cultura que o gerou e, depois, virando o cocho, passou a abominar. A maior catástrofe da história humana, "a expansão do homem branco", gerou este país que gerou Darcy Ribeiro, temperou este caldo cultural no qual o senador, com suas manhas de mineiro, fez sua carreira e prestígio. Antes de morrer, organizou uma fundação, para que seu “pensamento” não morresse. Grafômano contumaz, tem obra tão vasta que já nem sabe quantos livros escreveu nem em quantos idiomas está traduzido. Graças a quem? A um europeu chamado Gutenberg. É moda entre antropólogos, sociólogos, psicólogos e outros óologos, negar sistematicamente os valores da cultura ocidental, ou seja, da cultura branca, cujas bases estão na Grécia e em Roma, em favor de culturas primitivas, que muitas vezes nem chegaram a um alfabeto e, se lá chegaram, hoje vivem encharcadas no sangue de guerras tribais. Mais que moda, esta tendência é uma verdadeira conspiração dos derrotados da História, que assestam seu ressentimento surdo contra o que de melhor a humanidade produziu. Em vida, o senador Darcy Ribeiro chutou neste imenso time de ressentidos. Morto, virou estátua. Por mais monumentos e salas com seu nome que lhe outorguem seus amigos e compagnons de route, sua trajetória é a de um escroc acadêmico. Quando a burritzia tupiniquim receber notícias de que o Muro de Berlim já caiu, Darcy assumirá seu merecido espaço, a famosa lata de lixo da história. (Los Angeles, EUA, revista Brazzil, novembro 97)
MINHAS CIDADES DILETAS - BARCELONA Madri, Paris e Roma, para começar. A quarta cidade que eu escolheria para viver é Barcelona. Antes de prosseguir, mais um critério personalíssimo. Cidade boa há de ter pelo menos um milhão de habitantes. Se tiver dois ou três milhões, melhor. Quanto mais habitantes, mais opções, mais lazer, mais culinária, mais intercâmbios culturais, mais universidade e mais universitários, mais editoras e livrarias e melhor imprensa. Adoro Toledo, mas depois de uma semana estaria entediado como uma ostra. Barcelona tem 1,6 milhão de habitantes, é a segunda cidade mais povoada da Espanha e a décima da Europa. As primeiras impressões marcam definitivamente. A cidade pela qual fiz minha primeira entrada na Europa foi Barcelona. Já contei, mas vou contar de novo. Mal pisei em terra, uma espanhola linda como imaginamos que seja uma espanhola, saudou-me: - Que guapo! Não devia ser comigo, decididamente não faço o gênero. Olhei em volta, não havia mais ninguém no saguão do porto, era comigo mesmo. Não é todos os dias que um mortal é assim recebido em terra estranha, que viva la España! Atrapalhado com as malas – levava todas minhas posses, o que não era muito, mas sempre pesava um pouco – saí em busca da maldita da consigna, disposto a enfrentar a atrevida na volta. Achei onde deixar minhas malas, mas perdi a catalã. Em todo caso, os augúrios eram favoráveis, começava pisando em Barcelona com o pé direito. Na época em que tinha medo de avião e só viajava de navio, sempre insisti em começar por um porto: Barcelona. Ao voltar, despedia-me em outro porto: Barcelona. Não voltei a ver a espanhola, tampouco as outras que encontrei me disseram “que guapo!”, por certo eram mais realistas. Não a elegi por amor à primeira vista. O coup de foudre ocorreu, é verdade. Mas sou duro na queda e decidi primeiro conhecer outros povos e paisagens, não iria render-me sem mais nem menos a uma cidade que envia suas mais lindas filhas ao porto para dizer “que guapo!” aos forasteiros. Continuei a peregrinação em busca sei lá de quê, provavelmente de mim mesmo. Estive próximo ao Círculo Polar Ártico e voltei ao sul. Três cidades me fascinaram na Europa naquele meu primeiro giro, Estocolmo, Paris e Barcelona. (Madri viria mais tarde). Comecei pela primeira, por gostar de desafios. Estocolmo era a mais distante, a mais cara, mais fria, mais hostil e mais estrangeira. Faço depois Paris, pensei, e na descida vou refestelar-me em Barcelona. Mas viver não é preciso e cá estou sem chegar a possuir a amada. Mas ainda não depus as armas. Nunca acreditei em genética, quando se trata de opções culturais. Mas... após examinar várias cidades na Europa, minha filha acaba de decidir que vai morar em Barcelona. Meu amor pela cidade parece ter reencarnado nela. Tem critérios refinados, a pivetinha. Voltei várias vezes a Barcelona, cada vez mais apaixonado. Por pequenas coisas. Por exemplo, um pequeno café no Barrio Gótico, o Mesón del Café. É quase um cubículo, consiste em uma prateleira com bebidas, um balcão e dois ou três bancos. Ao fundo, há duas mesinhas, com lugar para no máximo cinco ou seis pessoas. O ambiente todo transpira antigüidade, a história pinga das paredes. É uma impulsão doentia, dirá o leitor, mas que fazer? Mal chego em Barcelona, deixo as malas no hotel e vou direto ao Méson tomar o cafezinho inaugural. Nem livrarias ou bares interrompem a caminhada pressurosa até o café. Cumprido este ritual, estou então disponível para os demais encantos da cidade. Já que estamos próximos da catedral, vamos à sardana. Diante de uma retreta, homens e mulheres amontoam casacos e sacolas na calçada, dão-se as mãos e dançam. A cena não deixa de ter toques buñuelescos, mas afinal estamos na Espanha. Pessoas que jamais se viram, das mais distintas nacionalidades, interrompem seus trajetos para dançar. Entra quem quer na roda. Quando se torna muito ampla, alguém puxa um grupo e forma outra roda, dentro ou fora da anterior. Em poucos minutos, várias rodas saltitam e giram em meio à multidão. A sensação de euforia e confraternização universal que nos envolve em meio a uma sardana talvez não possa ser experimentada em nenhum outro lugar ou data. Em instantes, uma multidão amorfa de desconhecidos se transforma em um clube de velhos amigos. Condição para ser sócio: desembaraçar-se de casacos pesados e sacolas e dar as mãos ao súbito amigo que se apressa em nos estender a sua. Não sou exatamente um emotivo, mas uma sardana sempre me provoca um discreto nó na garganta. Não é todos os dias que vemos uma multidão de homens despidos de suas couraças e com armas depostas. Março passado, fui revisitá-la. O Barrio Gotico, que estava bastante decaído em minhas primeiras visitas, está reformado e esplendoroso. A Barceloneta tem agora um passeio esplêndido à beira-mar, emendado ao Paseo de Colón, que abriga uma marina belíssima e milionária. O Hotel Rialto, onde me hospedo há mais de trinta anos, foi ampliado e tem um refeitório aconchegante em suas caves. Ficava na Calle de Fernando. Continua lá. Mas a calle, com as pretensões de autonomia da Catalunha, mudou de nome. É agora Carrer de Ferrán. Ao lado do hotel, o eterno Mi Burrito y Yo, restaurante especializado em assados. Soberbos, diga-se de passagem. As prostitutas da Calle de Boqueria e adjacências, que um dia Camilo José Cela fotografou em Izas, Rabizas y Colipoterras, não mais estão lá. Eterno também continua Los Caracoles, com seus interiores decorados com caracóis, presuntos e botas. (Bota é uma espécie de cantil de couro para se beber vinho). Visca Catalunya!
Domingo, Dezembro 09, 2007
¿EN QUÉ CREE EL SER HUMANO? um artigo longo, mas interessante, do El País, sobre religiões: http://www.elpais.com/articulo/portada/cree/ser/humano/elpepusoceps/20071209elpepspor_6/Tes
Crônicas da Guerra Fria (57) PARIS HOMENAGEIA A GRANDE PROSTITUTA São Paulo - A palavra bordel, para quem não sabe, nasce em Paris. Na época em que as "maisons closes" ficavam às margens do Sena, quando alguém ia em busca de mulheres, dizia eufemisticamente: "j'vais au bord'elle". Sena, em francês, é feminino, la Seine. Portanto, quando alguém dizia "au bord'elle", queria dizer "au bord de la Seine". Daí, bordel. Não é de espantar que a capital que deu ao mundo esta palavra queira homenagear, nos dias 20 e 25 de março próximos, no 18º Salão do Livro de Paris, a prostituta maior das letras contemporâneas. O Brasil será o país homenageado do Salão e terá como convidado de honra e representante de nossas Letras, Jorge Amado, o mais vendido escritor nacional, que começou sua carreira como estafeta do nazismo, continuou como agente do stalinismo e hoje é roteirista oficioso de Roberto Marinho. Amado ainda receberá, na ocasião, o título de Dr. Honoris Causa por uma universidade parisiense. Nada de espantar: os parisienses, de longa tradição colaboracionista e stalinista, não perderiam esta oportunidade de homenagear, neste século que finda, o colega que desde a juventude militou nas mesmas hostes. Do nazismo ao stalinismo - Autor brasileiro mais divulgado no exterior, com traduções em mais de 40 idiomas, colaborador de publicações nazistas, ex-militante do Partido Comunista, deputado constituinte em 46, Oba Otum Arolu do candomblé Axé Opô Afonjá na Bahia, membro da Academia Brasileira de Letras, Amado nasceu em uma fazenda de cacau, em 10 de agosto de 1912, no então recém-criado município de Itabuna, na Bahia, filho de pai sergipano e mãe baiana de ascendência indígena. Em 1936, é preso no Rio, em conseqüência da Intentona de 35, tentativa de tomada do poder ordenada pelo Kremlin e liderada no Brasil por Luís Carlos Prestes. Em 1940, durante a vigência do pacto de não-agressão germano-soviético, assinado por Stalin e Von Ribbentrop, assume a edição da página de cultura do jornal pró-nazista Meio-Dia. Em uma reunião do Partido Comunista, é denunciado por Oswald de Andrade como "espião barato do nazismo" e instado pelo escritor paulista a retirar-se de São Paulo. Quando interrogado sobre o trabalho sujo deste período, Amado diz simploriamente: “Não me lembro”. Mas Oswald de Andrade lembra. Em antiga entrevista, republicada mais recentemente, em Os Dentes do Dragão, dizia Oswald: “Diante de tantos erros e mistificações, retirei a minha inscrição do partido. Numa reunião da comissão de escritores, diante de quinze pessoas do PC, apelei para que o sr. Jorge Amado se retirasse de São Paulo e denunciei-o como espião barato do nazismo, antigo redator qualificado do Meio-Dia. Contei então, sem que Jorge ousasse defender-se, pois tudo é rigorosamente verdadeiro, que em 1940 Jorge convidou-me no Rio para almoçar na Brahma com um alemão altamente situado na embaixada e na agência Transocean, para que esse alemão me oferecesse escrever um livro em defesa da Alemanha. Jorge, depois me informou que esse livro iria render-me 30 contos. Recusei, e Jorge ficou surpreendido, pois aceitara várias encomendas do mesmo alemão”. Em 45, Amado é eleito deputado federal pelo Partido Comunista e publica Vida de Luís Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, uma apologia ao líder comunista gaúcho e membro do Komintern. O panfleto, encomendado pelo Kremlin, foi traduzido e publicado nas democracias ocidentais e nas ditaduras comunistas, como parte de uma campanha para libertar Prestes da prisão, após sua sangrenta tentativa, em 1935, de impor ao Brasil uma tirania no melhor estilo de seu guru, o Joseph Vissarionovitch Djugatchivili, mais conhecido como Stalin. Para Amado, Prestes, é o “herói, aquele que nunca se vendeu, que nunca se dobrou, sobre quem a lama, a sujeira, a podridão, a baba nojenta da calúnia nunca deixaram rastro.” Prestes preso, segundo o escritor baiano, é o próprio povo brasileiro oprimido: “Como ele o povo está preso e perseguido, ultrajado e ferido. Mas como ele o povo se levantará, uma, duas, mil vezes, e um dia as cadeias serão quebradas, a liberdade sairá mais forte de entre as grades. ‘Todas as noites têm uma aurora’, disse o Poeta do povo, amiga, em todas as noites, por mais sombrias, brilha uma estrela anunciadora da aurora, guiando os homens até o amanhecer. Assim também, negra, essa noite do Brasil tem sua estrela iluminando os homens, Luís Carlos Prestes. Um dia o veremos na manhã de liberdade e quando chegar o momento de construir no dia livre e belo, veremos que ele era a estrela que é o sol: luz na noite, esperança; calor no dia, certeza”. Em 46, como constituinte, Amado assina a quarta Constituição Brasileira. Dois anos depois, seu mandato é cassado em virtude do cancelamento do registro do PC. Neste mesmo ano, 1948, fixa residência em Paris, onde convive, entre outros, com Sartre, Aragon e Picasso. Em 1950, passa a residir no Castelo da União dos Escritores, em Dobris, na ex-Tchecoslováquia, onde escreve O Mundo da Paz, uma ode a Lênin, Stalin e ao ditador albanês Envers Hodja. No ano seguinte, quando o livro é publicado, recebe em Moscou o Prêmio Stalin Internacional da Paz, atribuído ao conjunto de sua obra, condecoração geralmente omitida em suas biografias. Esta década é marcada por longas viagens, entre outras, à China continental, Mongólia, Europa ocidental e central, à ex-União Soviética e ao Extremo Oriente. “Vós sabeis, amigos, o ódio que eles têm - os homens de dinheiro, os donos da vida, os opressores dos povos, os exploradores do trabalho humano - a Stalin. Esse nome os faz tremer, esse nome os inquieta, enche de fantasmas suas noites, impede-lhes o sono e transforma seus sonhos em pesadelos. Sobre esse nome as mais vis calúnias, as infâmias maiores, as mais sórdidas mentiras. ‘O Tzar Vermelho’, leio na manchete de um jornal. E sorrio porque penso que, no Kremlin, ele trabalha incansavelmente para seu povo soviético e para todos nós, paras toda a humanidade, pela felicidade de todos os povos. Mestre, guia e pai, o maior cientista do mundo de hoje, o maior estadista, o maior general, aquilo que de melhor a humanidade produziu. Sim, eles caluniam, insultam e rangem os dentes. Mas até Stalin se eleva o amor de milhões, de dezenas e centenas de milhões de seres humanos. Não há muito ele completou 70 anos. Foi uma festa mundial, seu nome foi saudado na China e no Líbano, na Rumânia e no Equador, em Nicarágua e na África do Sul. Para o rumo do leste se voltaram nesse dia de dezembro os olhos e as esperanças de centenas de milhões de homens. E os operários brasileiros escreveram sobre a montanha o seu nome luminoso”. Em função de sua militância no PC, no início de sua trajetória foi traduzido na China, Coréia, Vietnã e ex-União Soviética. Só depois então é puxado para os países ocidentais, pelas mãos de seu tradutor para o alemão. Em Munique, em 1978, entrevistei Curt Meyer-Clason, o responsável pela introdução de Amado na Europa ocidental. O baiano invade com sua literatura o mundo livre, que tanto caluniou, através da finada República Democrática Alemã. “Devido à proteção do PC, a RDA incumbiu-se da publicação de todos os seus livros, já nos anos 50” - disse-me Meyer-Clason -. “Depois, por meu intermédio, passou diretamente à República Federal da Alemanha”. Não por acaso, Meyer-Clason acaba de ser denunciado, pela revista alemã Der Spiegel, como espião do Terceiro Reich no Brasil. Da mesma forma que nega seu passado nazista, Amado não comenta seu passado stalinista. Em seu último livro, Navegação de Cabotagem, declara: "Durante minha trajetória de escritor e cidadão tive conhecimento de fatos, causas e conseqüências, sobre os quais prometi guardar segredo, manter reserva. Deles soube devido à circunstância de militar em partido político que se propunha mudar a face da sociedade, agia na clandestinidade, desenvolvendo inclusive ações subversivas. Tantos anos depois de ter deixado de ser militante do Partido Comunista, ainda hoje quando a ideologia marxista-leninista que determinava a atividade do Partido se esvazia e fenece, quando o universo do socialismo real chega a seu triste fim, ainda hoje não me sinto desligado do compromisso assumido de não revelar informações a que tive acesso por ser militante comunista. Mesmo que a inconfidência não mais possua qualquer importância e não traga conseqüência alguma, mesmo assim não me sinto no direito de alardear o que me foi revelado em confiança. Se por vezes as recordo, sobre tais lembranças não fiz anotações, morrem comigo". Realismo Socialista - Em 1954, julgando talvez insuficiente a defesa do stalinismo feita em O Cavaleiro da Esperança e O Mundo da Paz, Amado publica os três tomos de Subterrâneos da Liberdade, onde pretende narrar a saga do Partido Comunista no Brasil. Só em 58, com Gabriela, Cravo e Canela, deixará de lado sua militância comunista e passará a fazer uma literatura eivada de tipos folclóricos baianos, que mais tarde será transposta em filmes nacionais e novelas da Rede Globo. O romancista baiano foi o introdutor nas letras brasileiras do realismo socialista, também conhecido como zdanovismo, fórmula de confecção literária para a pregação do ideário comunista, concebida pelos escritores russos Maxim Gorki, Anatoli Lunacharski, Alexander Fadéev, e sistematizada pelo coronel-general Andrei Zdanov. Nos países em que foi traduzido, Amado é visto como um escritor que faz literatura brasileira. Em verdade, obedecia a uma fórmula tosca, mais panfletária que estética, produzida por teóricos em Moscou. Wilson Martins, em A História da Inteligência Brasileira, traduz em bom português as características do novo gênero: “... de um lado, os bons, ou seja, os que se incluem na “chave” mística do “trabalhador”, do “operário”; de outro lado, os maus, isto é, todos os outros mas, em particular, o “proprietário” e a “polícia”, as duas entidades arimânicas deste singular universo. Os primeiros são honestos, generosos, desinteressados, amigos da instrução e do progresso, patriotas, bons pais de família, sóbrios, artesãos delicados, técnicos conscienciosos, empregados eficientes (embora revoltados), imaginativos e incansáveis, focos de poderoso magnetismo pessoal, cheios de inata vocação de comando e, ao mesmo tempo, do espírito de disciplina mais irrepreensível, corajosos, sentimentais, poetas instintivos, sede de paixões violências (oh! no bom sentido!), modelos de solidariedade grupal, argumentadores invencíveis, repletos, em suma, de uma nobreza que em torno deles resplandece como um halo. O “trabalhador” é o herói característico desses romances de cavalaria: sem medo e sem mácula, ele tem tantas relações com a realidade quanto o próprio Amadis de Gaula. “Já o “proprietário” é um ser asqueroso e nojento, chafurdado em todos os vícios, grosseiro, bárbaro, corrupto, implacável na cobrança dos seus juros, lascivo na presença das viúvas jovens e perseguidor feroz das idosas, barrigudo, fumando enormes charutos, arrotando sem pudor, repleto de amantes e provavelmente de doenças inconfessáveis, membro da sociedade secreta chamada “capitalismo”, onde, como todos sabem, é invulnerável a solidariedade existente entre seus membros; indivíduo que favorece todos os deboches, inclusive dos seus próprios filhos; covarde, desonesto, egoísta, ignorante, vendido ao dólar americano, lúbrico, marido brutal e pai perverso, irritante e antipático, rotineiro, frio como uma enguia, incapaz de sinceridade, sem melhores argumentos que a força bruta, verdadeira encarnação contemporânea dos demônios chifrudos com que a Idade Média se assustava a si mesma.” Wilson Martins continua enumerando detalhadamente os demais estereótipos utilizados neste tipo de romance, entre eles a polícia, o tabelião, o posseiro, o governador, o latifundiário, o camponês. Seria por demais monótono continuar a descrição deste universo maniqueísta, como tampouco teria sentido acompanhar a repetição - ad nauseam - de uma fórmula primária de fabricar livros. Vamos então enfiar logo as mãos no lixo. Os Subterrâneos também foi escrito em Dobris, no mesmo castelo da União de Escritores Tchecoeslovacos onde Amado produzira O Mundo da Paz, de março de 1952 a novembro de 1953, ou seja, no período imediatamente posterior à obtenção do Prêmio Stalin. Como pano de fundo histórico temos, como não poderia deixar de ser, a Revolução de 1917. Outras datas e fatos posteriores determinarão poderosamente a construção dos personagens. Em 1935, ocorre no Brasil a Intentona Comunista. Em 36, Prestes é preso, e sua mulher Olga Benário, judia alemã que é oficial do Exército Vermelho, é deportada para a Alemanha de Hitler. Getúlio Vargas consegue persuadir o Congresso e criar um Tribunal de Segurança Nacional para punir os insurgentes. Ainda neste ano de 36, eclode na Espanha a Guerra Civil, confronto que envolveu todas as nações européias e constituiu uma espécie de ensaio geral para a Segunda Guerra, detonada em 1939, circunstância amplamente explorada por Amado. Em 1937, os integralistas lançam Plínio Salgado como candidato às eleições presidenciais de janeiro do ano seguinte, abortadas a 10 de novembro pelo golpe com que Getúlio consolida o Estado Novo. Para desenvolver sua história, Amado fixará um dos mais turbulentos períodos deste século, que até hoje continua gerando rios de bibliografia. A ação de Subterrâneos situa-se precisamente entre outubro de 37 (às vésperas do Estado Novo e em meio à Guerra Civil Espanhola) e finda aos 7 de novembro de 39, 23º aniversário da proclamação do regime soviético na Rússia. Amado, escritor e militante, tem por incumbência várias missões. A primeira consiste na defesa dos ideais de 17, encarnado em Lênin e Stalin, potestades várias vezes invocadas ao longo dos três volumes. Segunda, fazer a defesa do Messias que salvará o Brasil, Luís Carlos Prestes, e não por acaso a trilogia encerra-se com seu julgamento. Missões secundárias, mas não menos vitais: denunciar o imperialismo ianque, condenar a dissidência trotskista, pintar Franco com as cores do demônio e fustigar Getúlio por ter esmagado a atividade comunista a partir de 35. Seus personagens são títeres inverossímeis e sem vontade própria, embebidos em álcool se são burgueses, ou imbuídos de certezas absolutas, mais água mineral, se são operários ou militantes, estes sempre obedientes aos ucasses emitidos às margens do Volga. A obra, composta por três volumes - Os Ásperos Tempos, Agonia da Noite e A Luz no Túnel - constituiria apenas a primeira parte de uma trilogia mais vasta, com pretensões a ser o Guerra e Paz brasileiro. Os três tomos são publicados em maio de 1954, um ano após a morte de Stalin e dois antes do XX Congresso dos PCURSS, o que obriga o autor a interromper seu projeto. Pela segunda vez, na trajetória literária de Amado, sua ficção será determinada não por uma análise da realidade brasileira, mas por decisões tomadas em Moscou. A onipresença do novo Deus - O personagem por excelência do romance é o Partido Comunista, onipresente como o antigo deus cristão e feito carne na figura de Stalin. A luta do PC é a luta - na ótica do autor - do povo brasileiro contra a tirania, no caso, Getúlio Vargas. Externamente, os inimigos são os Estados Unidos da América, a Alemanha, Franco e Salazar. Sem falar, é claro, na IV Internacional e nos trotskistas. O PC está infiltrado na classe dominante, disperso na classe média e fervilha nos meios operários. Invade as cidades e o campo, a pampa e a floresta, os salões burgueses, as fábricas e os portos, corações e mentes. “Quantos outros, do Amazonas ao Rio Grande do Sul”, - reflete o militante Gonçalo - “não se encontravam nesse momento na mesma situação que ele, ante problemas complicados e difíceis, devendo resolvê-los, sem poder discutir com as direções, sem poder consultar os camaradas? Gonçalo sabe que os quadros do Partido não são muitos, alguns mil homens apenas na extensão imensa do país, alguns poucos milhares de militantes para atender à multidão incomensurável de problemas, para manter acesa a luta nos quatro cantos da pátria, separados por distâncias colossais, vencendo obstáculos infinitos, perseguidos e caçados como feras pelas polícias especializadas, torturados, presos, assassinados. Um punhado de homens, o seu Partido Comunista, mas este punhado de homens era o próprio coração da pátria, sua fonte de força vital, seu cérebro poderoso, seu potente braço.” Esta onipresença extrapola o país, manifesta-se onde quer que andem os personagens, no Uruguai, França, Espanha, no planeta todo. Inevitáveis as referências à foice e ao martelo. E a Stalin, naturalmente, guia, mestre e pai. A litania dirigida ao grande assassino tem por vezes características de humor negro: “- Quantos mais formos” - diz a militante Mariana - “mais trabalho terão os dirigentes. Pense em Stalin. Quem trabalha no mundo mais que ele? Ele é responsável pela vida de dezenas de milhões de homens. Outro dia li um poema sobre ele: o poeta dizia que quando todos já dormem, tarde da noite, uma janela continua iluminada no Kremlin, é a de Stalin. Os destinos de sua pátria e de seu povo não lhe dão repouso. Era mais ou menos isto que dizia o poeta, em palavras mais bonitas, é claro...” O poeta em questão é Pablo Neruda, já citado em O Mundo da Paz: “Tarde se apaga a luz de seu gabinete. O mundo e sua pátria não lhe dão repouso.” Consta de uma ode a Stalin, subtraída às Obras Completas do poeta chileno, onde, por enquanto, ainda se pode encontrar uma “Oda a Lenin”. Hoje, temos uma idéia precisa do que planejava Stalin nas madrugadas tardias de seu gabinete. Quando Apolinário Rodrigues, por exemplo, (personagem calcado em Apolônio de Carvalho, oficial brasileiro exilado que participara da Intentona de 35) chega a Madri, sente-se em casa pois, para onde quer que se vire, lá está o Partido. A única cor local da capital espanhola parece ser a luta pela libertação de Prestes: “Quando chegara à Espanha, vindo de Montevidéu, vivera dias de intensa emoção, ao encontrar por toda a parte, no país em guerra, nas ruas bombardeadas das cidades e aldeias, nos muros da irredutível Madri, as inscrições pedindo a liberdade de Prestes. Cercava-o o calor da intensa solidariedade desenvolvida pelos trabalhadores e combatentes espanhóis para com os antifascistas brasileiros presos e, em particular, para com Prestes. (...) Era uma única luta em todo o mundo, pensava Apolinário, ante essas inscrições, o povo espanhol o sabia, e em meio às suas pesadas tarefas e múltiplos sofrimentos, estendia a mão solidária ao povo brasileiro.” A coincidência da instituição do Estado Novo com a explosão da Guerra Civil Espanhola é uma oportunidade única para Amado de inserir seus personagens no conflito internacional que redundaria na II Guerra, expondo ao mesmo tempo a linha do Partido. Tão única é esta oportunidade e tanto o autor quer aproveitá-la, que chega a deslocar para 1938 uma greve dos portuários de Santos, efetivamente ocorrida em 1946, o que aliás provocou um certo debate. Estaria Amado realmente sendo fiel ao método que “exige do artista uma representação veridicamente concreta da realidade no seu desenvolvimento revolucionário”, conforme proclamavam os estatutos da União de Escritores Soviéticos? Ao autor isto pouco importa. Deslocando a greve para 38, pode criar um navio alemão que vem buscar, no Brasil, café para a Espanha. De uma só tacada, Amado fustiga Hitler, Getúlio e Franco: “Em algumas palavras (o velho Gregório) historiou o motivo por que a direção do sindicato havia convocado essa sessão: o governo oferecera ao general Franco, comandante dos rebeldes espanhóis (“um traidor”, gritou uma voz na sala), uma grande partida de café. Agora se encontrava no porto um navio alemão (“nazista”, gritou uma voz na sala) para levar o café.” Na Guerra Civil Espanhola, segundo Amado, há apenas “nazistas alemães e fascistas italianos”. Tão pródigo em elogios à Stalin e à União Soviética, em sua trilogia o autor silencia sobre a presença russa na Espanha, constituída por pilotos de guerra, técnicos militares, marinheiros, intérpretes e policiais. A primeira presença estrangeira em terras de Espanha foi a soviética, com o envio de material bélico e pessoal militar altamente qualificado, em troca das três quartas partes (7800 caixas, de 65 quilos cada uma) das reservas de ouro disponíveis pelo Banco de España. Pagos adiantadamente. Silêncio de Amado: a representação veridicamente concreta da realidade no seu desenvolvimento revolucionário pode esperar mais um pouco. A presença do Partido permeará a trilogia das primeiras páginas de Os Ásperos Tempos às últimas de A Luz no Túnel. Nestas, a militante Mariana, antes de presa, assiste ao julgamento de Prestes. A voz do líder comunista é “a voz vitoriosa do Partido sobre a reação e o terror”: “Eu quero aproveitar a ocasião que me oferecem de falar ao povo brasileiro para render homenagem hoje a uma das maiores datas de toda a história, ao vigésimo terceiro aniversário da grande Revolução Russa que libertou um povo da tirania...” Seria monótono e redundante perseguir esta onipresença do Partido na trilogia de Amado. Neste universo imperam o bem e o mal absolutos. O bem, evidentemente, é representado pelo novo Deus, o proletariado. O mal, pela burguesia detentora do capital. Entre um universo e outro transitam eventualmente seres camaleônicos, “traidores de classe” ou traidores do Partido. Dividir o universo em duas metades, uma boa e outra má, nada tem de novo e original. Tal princípio vem do século III, através da doutrina do persa Mani. O espantoso é que continue a viger em pleno século XX, e mais: impondo gostos, comportamentos e até mesmo filiação partidária aos personagens de um romance. Os representantes do Bem amam. Os representantes do Mal têm amantes. Os bons bebem café ou água mineral. Os maus bebem cachaça ou uísque. Os bons são magros e idealistas. Os maus são gordos e mesquinhos. Os bons têm gargalhar sadio, os maus têm dentes podres. Os bons não têm posses. Os maus são proprietários. Os bons são pobres, os maus ricos. Os bons pertencem ao Partido ou com ele colaboram. Os demais são maus. Os bons, diga-se de passagem, estão aprisionados em tal camisa-de-força ideológica que sequer podem se dar ao luxo de gostar de pintura surrealista ou naïve. Até 1954, Amado traduzirá em sua literatura as determinações do Partido Comunista russo. Em entrevista para Istoé (18/11/81), Amado reconhece seu stalinismo: “- Não sei se o termo “realismo socialista” se aplica a todos os meus livros daquela época. Estariam em face do realismo socialista, mas o fato é que Jubiabá (1935) Mar Morto (1936) e Capitães de Areia (1937), do período ao qual você se refere, só puderam ser publicados em russo depois da morte de Stalin. Acredito que a classificação seja justa para Terras do Sem Fim (1943), Seara Vermelha (1946) e Subterrâneos da Liberdade (1954). Se existe um livro meu totalmente influenciado pelo stalinismo, é Subterrâneos da Liberdade, que reflete uma posição totalmente maniqueísta.” Denunciados os crimes do stalinismo por Kruschov, em 1956, Amado molha o dedinho na língua e o ergue ao ar, para sentir de onde sopram os ventos: o sentido da História é agora uma literatura popularesca, ao estilo da rede Globo. Passa então a produzir uma literatura de evasão em torno de motivos baianos. Não sem antes fazer um tímido e discreto mea culpa, publicado em 10 de outubro do mesmo ano pela Imprensa Popular: “Aproximamo-nos, meu caro, dos nove meses de distância do XX Congresso do PCUS, o tempo de uma gestação. Demasiado larga essa gravidez de silêncio e todos perguntam o que ela pode encobrir, se por acaso a montanha não vai parir um rato. “Creio que devemos discutir, profunda e livremente, tudo o que comove e agita o movimento democrático e comunista internacional, mas que devemos, sobretudo, discutir os tremendos reflexos do culto à personalidade entre nós, nossos erros enormes, os absurdos de todos os tamanhos, a desumanização que, como a mais daninha e venenosa das árvores, floresceu no estrume do culto aqui levado às formas mais baixas e grosseiras, e está asfixiando nosso pensamento e ação. (...) Sinto a lama e o sangue em torno de mim, mas por cima deles enxergo a luz do novo humanismo que desejamos acesa e quase foi submergida pela onda dos crimes e dos erros.” Como se o simples fato de sentir “a lama e o sangue” em torno a si o redimisse das cumplicidades passadas. Mas as denúncias dos crimes do stalinismo não geraram nenhum tribunal de Nuremberg e Jorge Amado sente-se como um ingênuo, enganado pelos ventos do século. No entanto, não mais permite a reedição de O Mundo da Paz. Quanto à sua obra ficcional, embasada no realismo socialista, esta continua sendo reeditada e traduzida. Mas o agitprop baiano se vê obrigado a mudar de rumos e publica, em 1958, Gabriela, Cravo e Canela. Em 61, lança Os Velhos Marinheiros, considerado um dos melhores momentos de sua literatura. Neste mesmo ano, é eleito membro da Academia Brasileira de Letras, instituição que havia apedrejado e insultado em sua juventude. No discurso de posse, com a inocência de um moleque que relembra travessuras passadas, reitera sua oposição à Casa que o recebe: "Chego à vossa ilustre companhia com a tranqüila satisfação de ter sido intransigente adversário desta instituição naquela fase da vida em que devemos ser necessária e obrigatoriamente contra o assentado e o definitivo. Ai daquele jovem, ai daquele moço aprendiz de escritor que no início de seu caminho, não venha, quixotesco e sincero, arremeter contra as paredes e a glória desta Casa. Quanto a mim, felizmente, muita pedra atirei contra vossas vidraças, muito adjetivo grosso gastei contra vossa indiferença, muitas vaias gritei contra vossa compostura, muito combate travei contra vossa força". Em resposta aos que o condenam, diz o escritor: "Mas tudo na vida obedece a formalidades e se eu sou socialista não quer dizer que ignoro o mundo formal que me rodeia". De Moscou, recebe o apoio de Ilya Ehremburg: "Amamos Jorge Amado e temos confiança nele. Eu só o vi numa fotografia levemente mais gordo, em fardão de acadêmico. Olhei e sorri. Aos acadêmicos brasileiros dão um luxuoso fardão. Além disso usam espadas como seus colegas franceses. Não há nada de mal em que o homem simples de ontem apareça uma vez por ano na roupagem de imortal". De amores com o imperialismo ianque - Com a transposição de seus romances para as novelas televisivas, o revolucionário aposentado torna-se uma espécie de roteirista da Rede Globo. Gaba-se até hoje de seu passado esquerdista. Mas foi o primeiro escritor brasileiro a felicitar pessoalmente Fernando Collor de Mello por sua vitória. Claro que não foi apoiá-lo durante o impeachment. Com a nova guinada, seus livros começam a ser publicados nos Estados Unidos. Em depoimento autobiográfico, concedido em 1985 à tradutora francesa Alice Raillard, em sua mansão na Bahia, de inimigo incondicional do capitalismo, Amado vira sócio: "Sim, esta casa... Esta casa, eu digo sempre que foi o imperialismo americano que me permitiu construí-la! Era um velho sonho meu ter uma casa na Bahia. (...) Construir uma casa na Bahia? Eu tinha vontade, mas não o dinheiro. Foi então que vendi os direitos para o cinema de Gabriela à Metro Goldwin Mayer". Em uma entrevista concedida à Folha de São Paulo, em dezembro de 94, expõe ao repórter a mansão comprada graças aos dólares da Metro Goldwin Mayer: "Esse é o quarto do casal. Passei a vida a xingar os americanos, mas tudo o que temos é graças ao dinheiro dos imperialistas ianques. Compramos essa casa em 63 com a venda dos direitos de Gabriela para a MGM, rodado 21 anos depois. Cobrei barato, só US$ 100 mil”. A parceria com o inimigo capitalista se revela lucrativa e permite a Amado a realização de outro sonho, morar na Paris que tanto insultou quando marxista: “Em 86, os americanos me pagaram um adiantamento alto pelos direitos de tradução de Tocaia Grande: US$ 250 mil. Juntamos com os guardados de Zélia e compramos nossa mansarda no Marais, em Paris”. Pois este senhor, que empunhou com entusiasmo as piores e mais assassinas bandeiras do século, que no final da vida confessa sem nenhum pudor seu venalismo, é quem hoje representa o Brasil no Salão do Livro em Paris. Em verdade, tal fato não é espantar: Amado vende à Europa uma imagem que a Europa aceita como sendo a do Brasil. Ainda segundo Wilson Martins: “A verdade é que a nossa literatura é sempre encarada como algo de exótico, de tropical. É por isso que Jorge Amado é extremamente popular nos outros países, ele oferece esse estereótipo da violência, da conquista da terra, da luta de classes e da opressão racial. Essa idéia exótica, uma espécie de ilha dos mares do sul, todos de tanga pelas ruas, armados de arco e flecha, e caçando onças na Avenida Rio Branco. Quando aparece um brasileiro branco e com grande cultura internacional, ele causa um espanto extraordinário. Nós alimentamos esse preconceito com todas as forças. Fazemos questão de mostrar que somos tropicalistas, que isto aqui é um país tropical, que somos mestiços, que branco aqui não tem vez. Quem defende tudo isso são esses grupos dos baianos e dos novos baianos, dos trios elétricos. É até um preconceito contra a cultura, no sentido ecumênico da palavra”. Interrogado recentemente sobre como gostaria de ser lembrado em uma enciclopédia daqui a 50 anos, a grande cortesã responde com a candura dos inocentes: "Um baiano romântico e sensual. Eu me pareço com meus personagens - às vezes também com as mulheres". E talvez seja um de seus personagens femininos o que melhor representa a ambivalência do “baiano romântico e sensual”: Dona Flor, a que administrava tranqüilamente dois maridos. Ao homenagear Amado, em verdade Paris está condecorando um escritor venal, que prestou os piores desserviços ao Brasil ao lutar para transformá-lo em mais uma republiqueta soviética, em nome de uma rápida ascensão literária e fortuna pessoal. (Los Angeles, EUA, revista Brazzil, abril 98)
Sábado, Dezembro 08, 2007
TERÁ BENTO LIDO A BÍBLIA? O papa Bento XVI disse hoje, durante a tradicional homenagem à Nossa Senhora da Conceição na Praça da Espanha, em Roma, que "sem Deus ou contra Ele" não se pode "construir uma paz estável". É verdade. Vejamos algumas palavrinhas inspiradas por Deus que, segundo Bento, levam consigo a eternidade e valem para sempre. No Deuteronômio, lemos: "Se, a respeito de alguma das tuas cidades que o Senhor teu Deus te dá para ali habitares, ouvires dizer: uns homens, filhos de Belial, saindo do meio de ti, incitaram os moradores da sua cidade, dizendo: Vamos, e sirvamos a outros deuses! - deuses que nunca conheceste - então inquirirás e investigarás, perguntando com diligência; e se for verdade, se for certo que se fez tal abominação no meio de ti, certamente ferirás ao fio da espada os moradores daquela cidade, destruindo a ela e a tudo o que nela houver, até os animais". Ainda no Deuteronômio: "Quando te aproximares duma cidade para combatê-la, apregoar-lhe-ás paz. Se ela te responder em paz, e te abrir as portas, todo o povo que se achar nela será sujeito a trabalhos forçados e te servirá. Se ela, pelo contrário, não fizer paz contigo, mas guerra, então a sitiarás, e logo que o Senhor teu Deus a entregar nas tuas mãos, passarás ao fio da espada todos os homens que nela houver; porém as mulheres, os pequeninos, os animais e tudo o que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás por presa; e comerás o despojo dos teus inimigos, que o Senhor teu Deus te deu. Assim farás a todas as cidades que estiverem mais longe de ti, que não são das cidades destas nações. Mas, das cidades destes povos, que o Senhor teu Deus te dá em herança, nada que tem fôlego deixarás com vida; antes destruí-los-ás totalmente: aos heteus, aos amorreus, aos cananeus, aos perizeus, aos heveus, e aos jebuseus, como Senhor teu Deus te ordenou". No Êxodo, quando Moisés vê os seus adorando o bezerro de ouro, num acesso de ira quebra as duas tábuas da lei e lhes diz: "Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: Cada um ponha a sua espada sobre a coxa; e passai e tornai pelo arraial de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, e cada um a seu amigo, e cada um a seu vizinho. E os filhos de Levi fizeram conforme a palavra de Moisés; e caíram do povo naquele dia cerca de três mil homens". Em Números, irado porque seus generais não haviam matado todas as mulheres após uma batalha, Moisés ordena: "Agora, pois, matai todos os meninos entre as crianças, e todas as mulheres que conheceram homem, deitando-se com ele. Mas todas as meninas, que não conheceram homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós".
IMPRENSA FRANCESA SE ACOVARDA Seis menores queimaram um ônibus, provocando lesões irreparáveis em uma jovem de 27 anos. Dois deles já foram condenados a oito anos de prisão. A promotoria, que pediu doze anos, recorreu. Claro que não foi no Brasil. E sim na França. Mais precisamente em Marselha, um dos grandes redutos de imigração árabe do país. Justificativa de um dos arruaceiros: “Esta noite, eu precisava queimar um ônibus... em Paris eles são queimados e passa na televisão. Aqui nós queimamos e não passa na televisão”. Claro está que os delinqüentes são árabes ou africanos. Nenhum francês vai largar seu conforto para queimar ônibus só para aparecer na televisão. Mas o Monde não dá informação alguma sobre a origem dos criminosos. Cautamente, cita uma lei de 1945, segundo a qual “a publicação do resumo dos debates é proibida”, bem como “a publicação de todo texto ou ilustração relativo à identidade e personalidade dos menores delinqüentes”. Ora, se a lei fala em identidade e personalidade, não fala em nacionalidade ou origem. Os jornais franceses, de modo geral, estão subtraindo inutilmente informações a seus leitores, já que ninguém ignora que os responsáveis pela baderna são os imigrantes africanos de segunda, terceira e quarta geração. Sarkozy, que tem reputação de coragem, foi impreciso. Acusou uma “voyoucracie”, neologismo que poderia ser traduzido por bandidocracia. Não ousou ser preciso. Neologismo por neoloismo, melhor faria se tivesse dito "bougnoullecracie". Bougnoulle é o pejorativo mais comum para árabes na França. A verdade é que, quando se trata de árabes ou africanos, a imprensa européia tem escondido nomes de delinqüentes, sejam eles menores ou maiores de idade. É como se os jornais se tivessem acovardado no momento de denunciar a verdadeira raiz do problema. Curiosamente, na mesma página em que omite a origem dos menores delinqüentes, o Monde cita nominalmente os seis cidadãos franceses detidos no campo americano de Guantanamo, entre janeiro de 2002 e março de 2005, sob acusação de “association de malfeitores em relação com o terrorismo”. Eles haviam sido interpelados pelo Exército paquistanês em dezembro de 2001, quando fugiam do Afeganistão onde haviam estagiado vários meses nos campos de treinamento da Al Qaeda e compareceram, no início deste mês, a uma Câmara Correcional em Paris. Os nomes têm uma extraordinária ressonância francesa: Mourad Benchellali, Nizar Sasi, Brahim Yadel, Imad Achad—Kourani, Khaled Bem Mustapha e Redouane Khaled.
Sexta-feira, Dezembro 07, 2007
SOBRE METAMORFOSES AMBULANTES Há quem pense estar descobrindo a América ao fazer piada com o recente pronunciamento do Supremo Apedeuta. Ora, reproduzo esta crônica que publiquei no MSM e em outros jornais, em setembro de 2004. FALA, Ó METAMORFOSE AMBULANTE! por Janer Cristaldo em 20 de setembro de 2004 Resumo: "Fora FMI. Fica FMI; Censura. Não censura; O Brasil não precisa de heróis. O Brasil precisa de heróis". Em meio a tantas mudanças e incoerências, qual é o verdadeiro Lula? No final das contas, Larry Rohter devia estar certo. © 2004 MidiaSemMascara.org Durante solenidade em Brasília, o Supremo Apedeuta disse que "o ser humano não tem que ter medo de ser uma eterna metamorfose ambulante", fazendo referência a um dos sublimes autores que embasam sua erudição. Há um certo tipo de nordestino que não resiste a empregar proparoxítonas e quadri ou pentassílabos. Sente-se culto. Metamorfose - com sua ressonância grega - é uma palavra enorme na boca de Lula. "Eu acho que a gente precisa todo dia levantar de manhã com a vontade de reciclar a nossa cabeça. Nós temos que reciclar a nossa cabeça, reciclar muitas vezes o nosso comportamento, reciclar as nossas decisões anteriores, ou seja, o ser humano não tem que ter medo de ser uma eterna metamorfose ambulante". Claro que não foi em Kafka que o presidente encontrou a palavra. Foi na música "Metamorfose Ambulante", deste ilustre pensador chamado Raul Seixas. Ocorre que as sinapses do Supremo Apedeuta se reciclam rápido demais. O público sequer tem tempo de absorver um enunciado quando surge outro, diametralmente oposto. No dia 29 de junho, abrindo a Conferência Nacional dos Direitos Humanos, havia dito: - Pobre do país que precisa de heróis para defender a dignidade. Pobre do país que precisa de mártires para defender a liberdade ou de mortos para defender a vida. No dia 19 de julho, em um evento em São Paulo, queixou-se: - Em qualquer lugar do mundo que eu vou, eu tenho que levar flores ao túmulo do herói nacional. No Brasil não tem. Afinal, precisamos ou não de heróis? Em junho, não precisávamos. Em julho, é deplorável que não os tenhamos. Em setembro, o Supremo confere as honras de herói ao brasileirinho desmilinguido que ganhou um bronze em Atenas. Se antes o presidente reciclava sua cabeça de mês em mês, agora nos ameaça de reciclá-la todas as manhãs. É o que dá curtir roqueiros profundos como Raul Seixas. Mais um pouco e teremos citações deste outro grande filósofo, Paulo Coelho. No dia 05 de agosto passado, Lula encaminhou ao Congresso um projeto de lei criando o Conselho Federal de Jornalismo, uma óbvia tentativa de reinstauração da censura na redação dos jornais, rejeitada por profissionais do país todo. Dia 31 do mesmo mês, voltou a atacar a imprensa e criticou o denuncismo que "muitas vezes" prevalece sobre a notícia. De modo indireto, defendeu seu projeto de censura: "É uma boa política não ter a preocupação na disputa eminentemente de mercado. É preciso pensar na qualidade da informação que o povo brasileiro recebe. Sobretudo num momento em que muitas vezes o denuncismo pelo denuncismo tem prevalência sobre a notícia e a informação". Denuncismo porque agora o PT está no poder. Quando não estava, era legítimo direito de denúncia. Duas semanas depois, no dia 14 de setembro, deitou verbo assumindo a pose de paladino da liberdade de imprensa. Destacou a importância da independência da imprensa e lembrou a censura do regime militar, assegurando que a censura não voltará ocorrer no Brasil, muito menos de forma dissimulada. "Sem a necessária independência, os jornais estariam entregues a um amontoado de interesses menores, interesses partidários, religiosos, familiares ou econômicos que distorcem e estragam a informação". O Metamorfose Ambulante se metamorfoseia tão rapidamente que me confunde. Não chego nem a ter tempo de fixá-lo na mente como autor de um projeto de censura, quando já está propondo o fim da censura. Propõe o fim da censura, mas não retira do Congresso o projeto de lei que institui a censura, enviado por ele mesmo. Ouçam o que eu digo e esqueçam o que faço. Em matéria de reciclar decisões anteriores, Metamorfose Ambulante é imbatível. Em maio passado, em um ímpeto de tiranete do Caribe, tentou expulsar do país Larry Rohter, correspondente do New York Times. Crime do jornalista? Escreveu o que o Brasil inteiro sempre soube, que Lula é contumaz cachaceiro. Não que o país saiba disto por terceiros. Em várias ocasiões e entrevistas, o presidente demonstrou seu apego - não a um bom vinho ou champanhe - mas à prosaica cachaça. Curiosamente, dois meses antes da reportagem de Rohter, o jornal argentino La Capital, em entrevista feita com o cineasta Héctor Babenco, mancheteava com todas as letras: Lula está deprimido y bebiendo cada vez más. Metamorfose Ambulante nem se manifestou. Comentários desairosos nos arralbades do continente, tudo bem. O que não pode é ter a imagem maculada na matriz. Este mesmo senhor, não contente de hoje tentar censurar toda a imprensa com seu projeto canhestro enviado ao Congresso, o da criação de um Conselho Federal de Jornalismo (CFJ), há quatro meses pretendia - nada menos que isso - censurar a imprensa americana. E isso porque a menção a seu apego ao álcool saiu num jornal americano. No dia em que sair na Europa, exigirá a censura do jornalismo europeu. Hoje, certamente influenciado por sussurros de seus áulicos, se apresenta como campeão da liberdade. Não sem antes ter anunciado, num acesso de modéstia, que sua eleição foi um "um grande passo para a humanidade". Como se a tal de humanidade tivesse algum conhecimento do que acontece no Brasil. Haja capacidade metamórfica. Pejem-se os camaleões, que só conseguem mudar de cor. Não bastasse pretender sufocar a imprensa, Metamorfose Ambulante, ciente de que a maioria dos brasileiros participam de sua insciência, quer controlar também o último recurso de informação dos analfabetos, a comunicação audiovisual. O consumo de jornais é mínimo no Brasil, e diminuiu para menos da metade nos últimos oito anos. A Folha de São Paulo, que em 96 vendia 924.387 exemplares aos domingos, hoje vende apenas 379.600. O Globo, baixou de 731.383 para 352.836. O Estadão, de 655.723 para 302.543. Censurar a imprensa escrita é o de menos, os leitores de jornais constituem uma minoria que não se reflete nas urnas e se torna cada dia cada vez menor. Urge censurar a mídia dos analfabetos, o cinema e o audiovisual. Neste sentido, a tal de Ancinav, proposta pelo campeão da liberdade, é muito mais grave que o CFJ. Metamorfose Ambulante quer, nada mais nada menos, que o controle dos corações e mentes de todos os brasileiros. Segundo o artigo 38 do projeto, a Ancinav, além de regular a exploração de atividades cinematográficas e audiovisuais, regulará também a radiodifusão de sons e imagens e os serviços de comunicação eletrônica de massa por assinatura. Que querem dizer com isto as eminências pardas do Metamorfose Ambulante? Por trás deste eufemismo, leia-se Internet. Mas não será fácil, Mr. Metamorfose. Nem a ditadura chinesa está conseguindo. Pobre do país cujo dirigente recicla a cabeça todas as manhãs. Hoje censura, amanhã liberdade de imprensa, depois de amanhã censura de novo.Ontem, contra a contribuição dos inativos, amanhã a favor. Ontem, fora FMI, hoje bem-vindo seja. Hoje democracia, amanhã ditadura. Entende-se que uma pessoa mude sua visão de mundo, após um longo período de reflexão. Mudar a cada semana, só o Metamorfose Ambulante.
SOBRE OS CARGOS CULTS De Vinícius Arcaro, recebo: O conceito é útil para entender alguns comportamentos tupiniquins. Por exemplo, eu já entrei de carro numa base militar Brasileira e reparei que o soldado armado que guardava a entrado pediu meu RG e eu simplesmente falei o número e não mostrei documento algum. Consegue imaginar alguém entrando numa base militar nos EUA sem mostrar documento? O soldado estava imitando um comportamento sem entender o motivo de fazer aquilo, em tudo parecido com o cargo cult. Outro exemplo foi quando uma "autoridade" decidiu que os estrangeiros deveriam deixar a impressão digital registrada. Não havia nem sequer maneira de armazenar as informações e imagino que os papéis com as impressões digitais colhidas num dia eram simplesmente jogados fora no dia seguinte para prover espaço para uma nova coleta. Aqui também voce pode interpretar esse comportamento como cargo cult – algo do tipo se colhermos a impressão digital dos estrangeiros seremos fortes e poderosos como os EUA. A primeira vez que ouvi falar do assunto foi nos anos 70, justamente lendo o livro O Despertar dos Mágicos. Na ocasião achei que era uma forma de ridicularizar a religião. Para meu espanto, cerca de dois anos atrás, descobri que cargo cult é um conceito antropológico bem estabelecido. Para encontrar o livro, bastou usar o google. Está disponível em: http://www.cienciashermeticas.com.br/e-books/despertar-magicos.zip Vinicius
COMO NASCEM AS RELIGIÕES Cargos cult é como se convencionou chamar certas práticas religiosas de movimentos proféticos e salvíficos nascidos do confronto espiritual entre os indígenas das ilhas melanésias e os colonos europeus. Segundo a Encyclopédie des Religions, de Gerhard J. Bellinger, este nome genérico provém de um desses movimentos originado nas ilhas Salomão, em 1931-1932. Segundo outros, tais cultos só teriam surgido quando a marinha americana começou a desmantelar as suas bases aeronavais no Pacífico Sul e o fluxo de mercadorias usado para manter os nativos satisfeitos foi cortado. O termo cargo (em inglês, mercadoria, carga) sublinha o fato de que esses movimentos são fortemente ligados à espera de um avião-milagre, de cargas e de expedição de mercadorias, que chegam às ilhas por via marítima ou aérea. Os cultos do cargo traduziriam a esperança que têm os indígenas de cor de ter acesso aos bens e à tecnologia dos estrangeiros brancos. A coisa parece ter funcionado mais ou menos assim: os nativos viam chegar alimentos, mercadorias, máquinas, objetos, mas jamais viam os colonizadores fabricando tais mercadorias ou objetos. Viam-nos apenas construindo aeroportos, erguendo postes, rabiscando papéis ou debruçados sobre caixas de metal de onde saíam ruídos estranhos. Concluíram então que estes gestos eram rituais mágicos para a obtenção das cargas. E passaram a mimetizar as práticas dos brancos para também obtê-las. Como mencionei estes cultos em crônica passada, o leitor Vinicius Arcaro me enviou texto de um livro que foi bestseller em meus dias de universidade. Trata-se de O Despertar dos Mágicos, de Louis Pauwels, Jacques Bergier, uma espécie de vigarice ao estilo de Eram os Deuses Astronautas?, livro da mesma época escrito pelo hoteleiro suíço Erich von Däniken. Li Pauwels e Bergier na época e esta prática melanésia deve ter-me passado despercebida. Talvez porque a tomasse como mais um delírios dos autores. Vamos ao texto: “Em 1946, as patrulhas do governo australiano, ao aventurarem-se nas altas regiões incontroláveis da Nova Guiné, ali encontraram tribos agitadas por um grande vento de excitação religiosa: acabava de nascer o culto do "cargo". O "cargo" é um termo inglês que designa as mercadorias comerciais destinadas aos indígenas: latas de conserva, garrafas de álcool, candeeiros de parafina, etc. Para esses homens ainda na idade da pedra o súbito contacto com semelhantes riquezas não podia deixar de ser profundamente perturbador. Seria caso que os homens brancos pudessem ter fabricado tais riquezas? Impossível. “É evidente que os Brancos são incapazes de construir com as próprias mãos um objeto maravilhoso. Sejamos positivos, era mais ou menos o que pensavam os indígenas da Nova Guiné: já alguma vez se viu um homem branco fabricar fosse o que fosse? Não, mas os Brancos dedicam-se a tarefas muito misteriosas: vestem-se todos da mesma maneira. Por vezes sentam-se diante de uma caixa de metal sobre a qual há mostradores e escutam ruídos estranhos que de lá saem. Fazem sinais sobre folhas em branco. Trata-se de ritos mágicos, graças aos quais obtêm dos deuses que estes lhes enviem o cargo. “Os indígenas resolveram então copiar esses "ritos": experimentaram vestir-se à européia, falaram para dentro de latas de conserva, espetaram troncos de bambu sobre as suas choupanas, a imitarem antenas. E construíram falsas pistas de aterragem, na expectativa do cargo". Em Quest in Paradise (apud Richard Dawkins), David Attenborough descreve o novo culto: “Eles (os brancos) construíam mastros altos com fios ligados a eles; ficavam sentados ouvindo pequenas caixas que brilhavam e emitiam barulhos curiosos e vozes abafadas; convenciam o povo local a usar roupas idênticas e o faziam marchar para lá e para cá – e seria quase impossível imaginar uma ocupação mais inútil do que essa. O indígena então percebe que a resposta para o mistério está na sua cara. Essas ações incompreensíveis são os rituais utilizados pelos brancos para convencer os deuses a enviar a carga. Se o indígena quiser a carga, também ele tem de fazer aquelas coisas”. Ainda segundo Attenborough, “antropólogos perceberam dois focos distintos na Nova Caledônia, quatro nas Salomão, quatro em Fiji, a maioria delas bastante independente e sem ligação entre si. A maioria dessas religiões afirma que um messias específico trará a carga quando o apocalipse chegar”. Ou seja, nada mais fácil do que criar uma religião. Desde que se respeite um pressuposto: urge que exista uma sólida base de ignorância. Os cultos do cargo têm um valor antropológico extraordinário, ao demonstrar como nascem as religiões.
O SUPREMO APEDEUTA Livro novo nas boas bancas eletrônicas do ramo, uma reunião de minhas crônicas do ano passado, publicadas na Web, sob o título geral O Supremo Apedeuta. Em breve estará disponível em alguns sites. Por enquanto, posso enviá-lo por email a quem o desejar. Para não gerar falsas expectativas, alerto que o livro não trata exclusivamente do personagem-título, que não merece tanta deferência. Há diversas referências ao dito e uma crônica assim intitulada. As demais tratam de religião, ideologia, política, livros, viagens.
Quinta-feira, Dezembro 06, 2007
SOBRE O SENTIDO DA VIDA Caro Janer, Eu já vi alguém "ir às compras" à procura de uma religião: essa é a parte mais engraçada de Hannah e Suas Irmãs, de Woody Allen, filme brilhante, que gira em torno do tema. O filme, aliás, começa e termina numa reunião familiar (thanksgiving, eu acho), como a sugerir que o sentido da vida está ali, naquele universo - amor, família... Também em Manhattan, deprimido, pensando em suicídio, o personagem vivido por Allen faz um inventário das coisas por que vale a pena viver. Todos nós, ateus, certamente temos uma lista parecida. Dê uma olhada, quando puder. Abraço, Odilon Toledo
OCEANO DE SABEDORIA DE SAIAS Em abril passado, o monge Genshô me observava: Prezado jornalista Janer, 1) O chamado Buda histórico era um homem que morreu com 84 anos de distúrbio intestinal. Não existe reencarnação ou coisa semelhante para ele, já que o budismo nega almas e similares. E além disto Buda extinguiu seu carma. 2) Os budistas tibetanos falam (pelo menos deveriam usar este termo, a palavra reencarnação se presta a confusão) em manifestações do Buda da Compaixão, Avalokitesvara, e dizem que o Dalai Lama é uma manifestação deste Buda mítico. Belíssima forma de ver um líder de sua qualidade. Mas nada a ver com o Buda histórico Shakyamuni. 3) No budismo Buda significa acordado, desperto, e é um termo usado para muitas coisas, um exemplo é o budinha gordo que muitos no ocidente tomam pelo Buda histórico, fundador do budismo. Trata-se de uma espécie de papai noel chinês de nome Po Tai, nada a ver com o asceta e magro Buda histórico. 4) A sucessão dos Dalai Lamas , os 14 a que se referem, são apenas os líderes da escola Gelugpa, uma das 4 escolas tibetanas. Vê-se assim que a afirmação de que o Dalai Lama alega ser reencarnação de Buda Shakyamuni é uma interpretação errônea das crenças tibetanas. No entanto, leio hoje na Veja online: O Dalai Lama – chefe espiritual do budismo tibetano – afirmou nesta quinta-feira, em Milão, na Itália, que seu sucessor pode ser uma mulher, lembrando que "homens e mulheres têm os mesmos direitos" para a religião. "Se uma mulher se revelar mais útil, o Lama [Buda] poderá muito bem encarnar sob essa forma", disse, segundo a agência de notícias AFP. Pelo jeito, temos cisma no budismo. Segundo o Oceano de Sabedoria, o Buda poderá reencarnar. Inclusive com saias.
A GUERRA ENTRE DEUSES Voltando ao Deus à la carte. Na crônica anterior, escrevi que me incluía entre os que pensam que a vida não tem sentido algum. Um leitor me pergunta: “Se a vida é sem sentido (e sou um dos que também nisso acredita) por que então continuamos vivos?” Minha frase estava incompleta. Sim, a vida não tem sentido em si. Mas tem o sentido que a ela damos. Esta primeira percepção, eu a tive lendo um autor hoje fora do mercado, Somerset Maugham, nascido no século XIX na embaixada britânica em Paris. Não saberia dizer se o local de nascimento determina a vida de uma pessoa, em todo caso Maugham foi um dos escritores mais cosmopolitas do século passado. Em A Servidão Humana, Philip, o personagem central, recebe um tapete, com o recado de que nele encontraria o sentido da vida. Guarda o tapete por longos anos para finalmente descobrir o enigma: o tapete não tinha sentido algum. Como a vida. Isto não exclui, é claro, que Maugham tenha dado um sentido à sua. Se a vida em si não tem sentido, nada impede que seja plena e rica. Uns se dedicam a fazer poemas, outros a fazer pães, uns fazem revoluções, outros fazem pontes e estradas, há quem crie filosofias e quem construa religiões. São maneiras de enfrentar o vazio. E há também os que buscam deuses. Outro dia, em discussões internéticas, ouvi de um amigo um depoimento singular. Ele e sua mulher foram às compras em busca de um deus. Pesquisaram o mercado, não encontraram deus que agradasse e voltaram pra casa sem adquirir nada. Confesso que fiquei surpreso com tal atitude, da qual jamais havia ouvido falar. O que só confirma minha tese do deus à la carte. Se nenhum deus me agrada, então não compro. Quem sabe ano que vem a indústria das crenças lança no mercado um modelito mais conveniente. Reagindo às angústias da procura, as religiões se adaptam. Por exemplo, o tal de Santo Daime. É um culto sem pé nem cabeça, criado por um seringueiro da Amazônia, cujas cerimônias consistem na ingestão da ayahuasca, beberagem feita de um cipó, que produz vômitos e diarréias, as chamadas “peias”. A nova empulhação cultua o Cristo,a Virgem... e a floresta amazônica, ecologia oblige. Pelo jeito, as tais de peias não eram muito convincentes a ponto de por si só arrebanhar acólitos. O Santo Daime então adaptou-se. A Folha de São Paulo, em sua edição de domingo passado, traz uma reportagem das mais significativas sobre a nova religião – ou coisa que o valha. O Santo Daime assumiu elementos de hinduísmo, umbanda e hare krishna. Deus para todos os gostos. Aqui pertinho de São Paulo, em Nazaré Paulista, a escola espiritual tem dois gurus, um tal de Sri Prem Baba, o mestre da cerimônia, que pelo jeito é tupiniquim com nome indiano para melhor enganar. Mais o guru Sri Hans Raj Maharaji, que vive na Índia, mas já apita no Santo Daime. Mais o sedizente mestre Raimundo Irineu Serra, seringueiro brasileiro neto de escravos, que morreu em 1971, e teria sido o fundador da doutrina do chá de cipó. Na zona sul de São Paulo – continua a reportagem – no Centro Espírita Sete Pedreiras, a miscigenação de crenças se repete, com orixás da umbanda, santos católicos e retratos de daimistas posicionados em lugares estratégicos do terreiro. A fusão resulta na umbandaime, que promove a mistura entre a doutrina do daime com a religião afro-brasileira. Para o antropólogo Edward MacRae, da Universidade Federal da Bahia, assim como outras religiões o Santo Daime também tem a propriedade de aglutinar elementos de outras crenças, como umbanda, traços indígenas, cristãos, afro e esotéricos, ocidentais ou orientais. Mais um pouco de criatividade vocabular e teremos o catodaime, o krishnadaime, o budidaime. O fenômeno já existe, só falta batizá-lo. Sincretismo, direis! Nada de novo sob o sol. O cristianismo apoderou-se do Livro dos judeus, temperou-o com elementos da mitologia grega e do paganismo e voilà: temos uma nova religião. Nada se cria, tudo se copia. Mesma vigarice dos tais de Osho, Maharishi Yogi, Sathya Sai Baba, Dalai Lama e outros escroques que servem coquetéis de hinduísmo, budismo e cristianismo para enganar Oriente e Ocidente. Nestes dias de globalização, o Santo Daime quer globalizar-se e abre um grande leque de opções, para consumo dos pobres de espírito. Já tem até budista e hare krishna tomando chá de cipó. Para a monja tibetana Ani Sherab, o chá "oferece mais clareza para expressar e reconhecer a verdade. Com o daime, recebo muitas bênçãos e ensinamentos dos budas". Líderes das comunidade hare krishna desaprovam o daime, mas não negam que alguns membros consumam o chá. Para o professor de português Pandita, 51, Krishna se revela de formas diferentes. "O daime pode ser uma delas". Nas cerimônias – diz a reportagem – manifesta-se a salada toda. O altar é de Ganesh, deus hindu do sucesso. O som oriental de cítaras é substituído por maracás indígenas e mantras em sânscrito se sucedem a hinos em português. Não faltam sequer as entidades de umbanda. Segundo a mãe-de-santo Maria Natalina, "a ayahuasca proporciona sensibilidade maior. É um instrumento de contato superior com os orixás". Para o professor Antônio Flávio Pierucci, da USP, na tentativa de competirem umas com as outras, as religiões acabam se anulando, copiando fórmulas e formatos e, com isso, perdem sua verdadeira identidade. "É como ocorre no comércio alimentício. Tem o McDonald's e o Bob's. (...) No fundo, todas alegam que Deus é um só. Mas, na verdade, o que existe é uma guerra entre deuses”. Como dizia, o Ocidente está caindo em pleno politeísmo. Cientes disto, as religiões já oferecem um farto cardápio de crenças. Se você quer outros deuses, nem precisa buscar outros templos. O nosso os oferece. A necessidade de crer do bicho-homem não recua diante de absurdo algum. Mais adiante, falarei sobre o culto dos carregamentos, praticado por indígenas da Melanésia. Exato, pessoas que cultuam cargas de navio.
Quarta-feira, Dezembro 05, 2007
Crônicas da Guerra Fria (56) OS CRAVOS MURCHOS DO 25 DE ABRIL Este opúsculo trata exclusivamente da defesa e justificação da Ditadura Militar em Portugal, e do que, em conformidade com essa defesa, chamamos as Doutrinas do Interregno. As razões, que n’ele se presentam, nem se aplicam às ditaduras em geral, nem são transferíveis para qualquer outra ditadura, senão na proporção em que incidentalmente o sejam. Tampouco se inclui nele, explícita ou implicitamente, qualquer defesa dos atos particulares da Ditadura Militar presente. Nem, se amanhã, esta Ditadura Militar cair, cairão com ela estes argumentos. Não haverá senão que reconstruí-la, que estabelecer de novo o Estado de Interregno: não há outro caminho para a salvação e renascimento do País senão a Ditadura Militar, seja esta ou seja outra. São Paulo - Esta afirmação, que poderia parecer manifesto dos militares que lideraram há duas décadas a chamada Revolução dos Cravos em Portugal, em verdade é mais antiga. Data de 1928 e é parte introdutória de um extenso opúsculo intitulado Idéias Políticas em geral aplicadas ao caso português, assinado por - pasme o leitor! - Fernando Pessoa. Quatro anos depois, Antonio de Oliveira Salazar assumiria o poder, instalando um regime ditatorial que durou 46 anos. Pessoa morreu em 1935 e foi abominado pelas esquerdas por esta afirmação. Com o golpe militar de 1974 em Portugal, passou a ser visto com simpatia pelos que antes o abominavam. Afinal, os capitães e majores que haviam tomado o poder fechavam com Moscou, onde reinava a doutrina expansionista do brejnevismo, versão hodierna da ambição tzarista de um império com acesso a águas quentes. Portugal passou a ter um primeiro-ministro, o então coronel Vasco Gonçalves, que se submetia às decisões do Partido Comunista Português, o mais stalinista dos PCs europeus. Estive em Portugal em 1975, no auge do entusiasmo “revolucionário”. Bancos e empresas de seguro haviam sido estatizadas, como também a imprensa, a siderurgia, indústria petroquímica e até mesmo as cervejarias e fábricas de cigarros. A ala comunista brasileira derrotada em 1964 e 1968, refugiada no Chile de Allende e de lá expulsa em 1973, apostava agora suas fichas em Portugal. No mundo da imprensa lisboeta algo havia mudado. Sugeri a um editor um de meus livros. - Só se for P & P - me respondeu o gajo. Fiquei perplexo. Que seria P & P? - Política e putaria. É só o que se vende hoje em Portugal. Nos meios mais intelectualizados, não importava se um escritor escrevia bem ou mal. O que dava valor à sua obra era o fato de ter ou não estado preso sob o regime anterior. Nos jornais, não interessava se o redator tinha bom texto ou espírito analítico. Pesava mais o fato de ter sido ou não militante. Não mais se informava, a pretensão era formar. O pior que poderia ter acontecido à imprensa portuguesa aconteceu: o fim da censura. Antes, os jornais não valiam nada, mas se jogava a responsabilidade na censura. Com a Revolução dos Cravos a situação continuou a mesma, sem que existisse a desculpa da censura. Na sedizente revolução, os acusadores não sabiam como acusar os prisioneiros políticos em Portugal. As prisões eram sacos de gatos, onde se juntavam os PIDEs, (informantes da polícia política do regime salazarista) aos defensores de Marcelo Caetano, derrubado no 25 de abril. A estes, foram fazer companhia os “conspiradores” do 28 de novembro, quando Spinola foi destituído da presidência da República. Sem falar nos “conspiradores” do 11 de março, tentativa de golpe anti-esquerdista e fuga de Spinola. Depois foram jogados no mesmo e eclético saco os “conspiradores” do 25 de novembro, tentativa de golpe esquerdista. Apóstolos comunistas se deslocaram ao sul pobre de Portugal para pregar a nova idéia. Os camponeses, desconfiados como todo camponês, lhes pediam que mostrassem as mãos. “Não têm calos?” Não tinham. Os algarvianos os mandavam então de volta à Lisboa. Mão sem calos é mão de quem não trabalha. Boa pergunta a ser feita hoje à guerrilha coordenada pela Igreja Católica no Brasil, disfarçada sob o eufemismo de Movimento dos Sem-terra. Salazar, em sua luta contra a vontade expansiva de Moscou, se por um lado conteve o avanço dos partidários de Álvaro Cunhal - o mais stalinista dos dirigentes comunistas europeus - pelo outro não conseguiu tirar Portugal do barro. Mas se o país não atingiu um nível maior de desenvolvimento sob o salazarismo, pior estaria com Cunhal. Nos anos 70, o PC português procurava evitar que seus membros fossem à União Soviética, já que comparação dos níveis de vida de Portugal e países comunistas seria nefasta para a militância. No país vizinho, Francisco Franco, o mais caluniado estadista da história contemporânea, conteve o avanço russo e salvou a Espanha do obscurantismo. Com Franco, apesar das restrições aos direitos democráticos - que nem de perto poderiam na época se comparar às restrições existentes nos países comunistas - a Espanha sai de uma economia agrária e entra em uma fase de industrialização. Escapa da Idade Média que empobreceu os países do Leste. A península ibérica, por sua posição geográfica, sempre esteve presente nos sonhos expansionistas do Kremlin. Em 1936, Stalin tentou tomá-la. Conquistada a Espanha, Portugal cairia na semana seguinte.. Ou vice-versa. Dominada a península, os russos teriam acesso ao mar do Norte, controle do estreito de Gibraltar e, conseqüentemente, do Mediterrâneo e da costa atlântica européia. Daí para derrubar toda a Europa ocidental, bastaria um piparote. Salazar, digam o que quiserem os esquerdistas, foi uma retaguarda anti-Rússia escudada por Franco. Quando Álvaro Cunhal estava no cárcere, a ponte sobre o Tejo chamava-se Oliveira Salazar. A esperança dos bolcheviques ocidentais era Otelo Saraiva de Carvalho, o poderoso comandante do Copcon e da Região Militar de Lisboa, ligado ao grupo terrorista 25 de Abril, de inspiração maoísta. Em 1974, Cunhal foi promovido de criminoso a herói e a ponte passou a chamar-se 25 de Abril. Panta rei, dizia Heráclito. Tudo flui. Ninguém se banha duas vezes nas águas de um mesmo rio. Otelo Saraiva foi para o cárcere - de onde saíra Cunhal - e a ponte sobre o Tejo passou a chamar-se ponte sobre o Tejo. As revoluções - costuma dizer Ernesto Sábato - começam com R maiúsculo, passam a ser grafadas com r minúsculo e terminam entre aspas. A celebração afetuosa da imprensa brasileira à Revolução dos Cravos não passa de vendeta de uma intelectuália tupiniquim que ainda não entendeu que Marx, finalmente, bateu as botas. Não houve, em Portugal, o que se poderia chamar de revolução. O salazarismo caiu de podre, como mais dia menos dia cairá o regime de Fidel Castro. Se Portugal hoje está deixando de ser o primo pobre da Europa, não é pela vontade dos militares de abril, mas pelo bom senso inerente a qualquer padeiro da esquina. (Porto Alegre, Zero Hora, 30.04.94)
CALHEIROS, O CALHORDA Não, não vou afirmar que o Senado se desmoralizou definitivamente com a absolvição de Renan Calheiros. Pois desde há muito o Senado está definitivamente desmoralizado. Apenas um lembrete: as pessoas que atribuem ao PT manobras para salvar o calhorda costumam esquecer que Calheiros foi ministro de Fernando Henrique. Ministro da Justiça.
ALELUIA, IRMÃOS!!! Leio, em despacho da agência EFE, que a arquidiocese católica de Los Angeles pagará uma indenização de US$ 500 mil a uma mulher que denunciou ter sido abusada sexualmente por sete padres. Finalmente padres que gostam de mulheres. Aleluia, irmãos!
Terça-feira, Dezembro 04, 2007
UM DEUS À LA CARTE Curioso para saber o que se fala a meu respeito, dei um googlada no universo blogueiro. Nossa, mudaram os tempos! Ninguém mais me chama de comunista, como já fui chamado em priscas eras. Muito menos de agente do DOPS, do SNI ou da CIA, epítetos aos quais também já fiz jus. Houve época em que me foi pespegada a alcunha Robin Hood às avessas, o que tira de todos e não dá nada a ninguém. Um publicitário teve inclusive um achado dos bons: Savonarola às avessas, que nos condena por não pecarmos. Coisas da época da Guerra Fria. Mudam os tempos, mudam os insultos. Sou visto hoje, fundamentalmente como... ateu. Mais ainda, como ateu militante. Bom, ateu eu o sou desde meus tenros anos e não vejo isto como ofensa. Mas definir alguém como ateu é muito pobre. Significa apenas que a pessoa nega a existência de deus. Ora, uma negação não passa de uma negação. Não serve para definição. É algo como afirmar: o Cristaldo não gosta da literatura do Machado. Isto pouco ou nada diz a meu respeito. Se alguém dissesse que sou marxista ou anarquista, positivista ou espírita, tomista ou cartesiano, estaria de fato esboçando uma definição. Ocorre que não sou nada disto. Em minhas universidades, estudei Filosofia. E principalmente História da Filosofia. Se foi estudando a Bíblia e História das Religiões que me tornei ateu, certamente foi a História da Filosofia que me afastou da filosofia. O sentido da vida é este, diz um pensador. Não, o sentido da vida é aquele, diz outro. Sem falar nos que pretendem – e entre eles me incluo – que a vida não tem sentido algum. Uns afirmam que a História ruma para lá. Já outros pensam que ruma para cá. Cada filósofo constrói seu sistema e busca legar um ismo ao pensamento humano. Ora, a vida é bem mais simples. O homem é um bicho que nasce, cresce e morre e fim de papo. Em meio a isso, trabalha e luta, constrói e destrói, faz pontes e poemas, romances e óperas, constrói cidades, barcos e aviões, sofre e se alegra, chora e ri, faz guerra e confraterniza... e vai pra tumba. Não vejo mistérios na vida. Os sistemas filosóficos só servem para confundir. Não tenho filosofia alguma. Quanto ao ateu militante, é calúnia soez. Não sou militante de doutrina nenhuma, aliás não professo doutrina nenhuma nem nunca convidei ninguém a partilhar de minhas crenças. Apenas as exponho e não peço a quem quer que seja que me siga. Ateísmo não constitui doutrina, mas exige uma certa fortaleza de espírito. A maior parte das pessoas não consegue viver sem bengalas metafísicas. Jamais me ocorreria chutar a bengala de quem dela necessita para viver. Nunca disse a alguém: larga tua religião e vem gozar a vida. Mas não renuncio ao direito de crítica às religiões. Assim como critiquei com veemência as ideologias deste século e do passado, critico as religiões e particularmente o catolicismo, que conheço melhor que muito bispo. A época, no entanto, é hostil a quem ousa criticar religiões. Sinal dos tempos: passei minha juventude discutindo com os comunistas. Hoje, meus desafetos são os cristãos. Se sentem mais donos da verdade que os comunistas. Na época da universidade, se disséssemos a um marxista que não éramos marxistas, ele nos olhava com piedade. “Esse pobre diabo não entendeu o sentido da História”. Com a Queda do Muro e o desmoronamento da União Soviética, o famoso sentido da História foi pras cucuias. A bandeira dos fanáticos foi resgatada e passou a ser empunhada por católicos. A começar pelo atual papa, o Bento, que julga que fora do cristianismo não há salvação. Ser ateu, para muitos católicos contemporâneos, é sinônimo de ser analfabeto e nada entender do mundo. Em minhas discussões, tenho ouvido argumentos que jamais imaginava ouvir. Tenho discutido com jovens que defendem – sem pejo algum – a Inquisição. Nem os padres de minha época de jovem ousaram tanto. Preferiam desviar do assunto. Já vi comunista defendendo matanças, mas nunca ouvi um comunista defender a tortura. Os comunistas sempre torturaram às escondidas, sinal que viam na tortura algo abjeto. A Inquisição louvava a tortura, como um instrumento para a salvação das almas. Os jovens defensores da Inquisição – e outros não tão jovens – consideram que a legalização da tortura pelos inquisidores foi um considerável avanço na área do Direito. Nesses debates, tomei ciência de outros fatos não menos significativos. Descobri, por exemplo, que a maioria dos católicos pouco ou nada conhece da doutrina que professa. (Não por acaso, recente pesquisa feita na França revelou que apenas um católico em cada dois acredita em Deus). Eu, ateu – analfabeto por definição – preciso ensinar-lhes pacientemente os dogmas e sua história, o magistério da Igreja e os próprios fatos da Bíblia. Percebi que são raríssimos os católicos que um dia leram a Bíblia e mais raros ainda os que a lêem com isenção. Basta começarmos a citar os massacres de Jeová e não falta quem salte: estás citando fora do contexto. Mas que contexto, meu caro? Em que contexto é justificável genocídio, massacre de tribos, matança de inocentes? Outra descoberta curiosa, que mereceria aliás um denso ensaio, é que voltamos definitivamente ao politeísmo. Monoteísmo não satisfaz. Os homens, lá no fundo, são nostálgicos do paganismo. Constantino percebeu isso quando os primeiros cristãos passaram a cultuar três deuses, o Pai, o Filho e o Paráclito. Conclamou então um concílio e, sob sua sombra, foi decretado o primeiro dogma da igreja nascente, o da Trindade. Ou seja, que o Pai e o Filho e o Paráclito, mesmo sendo três eram um só. Entenda como quiser. Mas creia. Pois é dogma e portanto ultrapassa o humano entendimento. É pegar ou largar. Não adiantou. A Igreja criou os santos, uma forma de delegar deidade. Ao que tudo indica, os santos não foram suficientes para saciar a sede de deuses. Em meus debates, jamais discuti a existência ou não de deus. É beco sem saída. Uns querem provar deus a partir da fé, outros a partir da lógica e nunca se chega a conclusão alguma. O que questiono, isto sim, é em qual deus os crentes crêem. Pois só na Bíblia há vários. O Jeová que encerra o Velho Testamento não é o mesmo que o abre. No Gênesis, deus é bastante antropomórfico e chega a lutar a tapa com Jacó. Mais ainda: não era lá tão poderoso, pois sequer consegue vencer a luta. Há uma grande distância entre esse deus fajuto e o poderoso Senhor dos Exércitos, que manda matar, arrasar e não deixar vivo ser que respire. Perguntando sobre em qual deus as pessoas acreditam, cheguei a uma descoberta surpreendente: os católicos – ou os que se dizem católicos – criaram deuses à la carte. Cada um tem um deus particular, reminiscência talvez dos manes, lares e pênates romanos. É um deus camarada, compreensivo, que mantém um papo ameno com quem o porta e sempre o absolve. Isso de punição é coisa do Livro antigo. Se você acha que só os antigos profetas tinham privilégio de conversar com deus, está muito enganado. Estes religiosos contemporâneos falam com deus a toda hora. No fundo, uma espécie de alter ego. As pessoas falam consigo próprias e consideram que estão falando com Deus. No Ocidente, temos hoje milhões de deuses, talvez mais que os milhões de deuses do Oriente. Uma cabeça, um deus. Com uma diferença. Os milhões de deuses do Oriente têm existência oficial, enquanto que os milhões de deuses cultuados pelos crentes de cá têm existência mais ou menos clandestina. São deuses prêt-à-porter, cada um servindo como uma luva a seu portador. Assim, quando evoco o velho Jeová, que está na origem do cristianismo, sou visto como um perigoso ateu militante que quer minar as bases do Ocidente. Ora, nada disso. Apenas estou conclamando os crentes à coerência, ou seja, à volta ao monoteísmo. Continuo outro dia.
Crônicas da Guerra Fria (55) CHEZ LES BELINGUES São Paulo - Enquanto o Moacyr Scliar não nos explica aquele prêmio literário que recebeu da ditadura cubana, reservado a escritores que jamais denunciaram o regime totalitarista de Castro, enquanto o Luis Fernando Verissimo não nos informa se a Velhinha de Taubaté ainda acredita no socialismo como a aurora da humanidade, falemos da Paulicéia. Aconteceu em uma dessas noites, em que fico rezando pela saúde do papa, de Bush ou de Gorbachov. Não que creia em rezas. Mas terror de plantonista de jornal é a morte em fim de noite de personagens deste quilate. Estes senhores, tão bem servidos pela imprensa internacional, deveriam ser cordiais conosco, jornalistas: morrer preferentemente de manhã. Em função do fuso horário, o ônus da angústia noturna do jornalista de plantão recairia sobre nossos colegas orientais. Problema deles. Era fim de noite, eu havia lido os jornais do dia, o telex ronronava tranqüilo. Para espantar o tédio, comecei a ler classificados. Fui direto às massagistas especiais, setor que me fascina por seus eufemismos. Os jornais do centro do país anunciam diariamente profissionais que oferecem mãos de fada, boca de ouro, seios rijos, cintura fina, pernas torneadas, bumbum arrebitado, olhos verdes e rosto de princesa. Tudo aquilo ao alcance de um telefonema. Como o preço já especificado no próprio anúncio. Até aí, tudo bem, esse mercado não me é desconhecido. O que me espantou, em todos os jornais, eram os anúncios mais caros, os das belingues. Se é caro deve ser bom, pensei, mas mesmo depois de velho não tinha a mínima idéia do que eram belingues. Enfim, nada como uma sopa de cebola após um plantão de fim de noite. O planeta bocejava de tédio, eu de sono. Lá pela uma da matina, dei por finda minha missão de vigia noturno dos sobressaltos da história e fui ao Eldorado, bar tradicional da madrugada paulistana, em um hotel da São Luís. O Eldorado sempre me transporta aos cafés europeus. Só me sinto em casa quando ouço várias línguas a meu redor, e lá estava eu, longe desta sofrida São Paulo, tão violentada pela cruel Erundina. Estava, de repente, no Primeiro Mundo. Em meio a viajantes de todos os quadrantes, uma bela mostragem de mulheres lindas e disponíveis. Claro que toda mulher linda na madrugada, sorrindo pra gente, tem seu preço. Ou então a lógica desembarcou do planeta. Na mesa ao lado, três deusas me exibiam os dentes. Eu estava cansado, sem falar que cheguei àquela idade intolerante, na qual levar um bom livro para a cama me dá mais prazer do que muita mulher. Que mais não seja, um bom autor não diz bobagens. Enfim, aqueles dentes que pediam para serem secados ao relento acabaram despertando em mim o eterno sátiro. Convidei as moças à minha mesa. Apresentações rápidas e vamos ao que interessa: quanto é que é? Claro que em tais ambientes não se fala em cruzeiros *. Portanto, 200 dólares. Em um primeiro momento, não me pareceu caro. Três mulheres maduras, como gosto, e insinuando um sofisticado knowhow, não é toda madrugada que encontramos por esse preço. Se bem que, após uma jornada tensa de trabalho, corpo exausto, levar aquele trio para casa, mais que uma temeridade seria um desperdício. Estou morto, aleguei. Nós te ressuscitamos, revidaram as deusas. Sei lá por que, lembrei do Cristo. Se ele sozinho havia ressuscitado Lázaro, bem que uma me bastava. E dispensei duas, sempre pensando com meus botões: é meu tudo que está ao alcance de minha mão. Nada como um dia depois do outro. Havia um congresso de médicos-residentes naquela semana em São Paulo, e minhas deidades preteridas se espalharam pelo bar, com a nobre intenção de bem tratar estes profissionais que tão mal nos tratam. Já antecipava mentalmente o que estaria acontecendo dali a pouco, quando me ocorreu um senão: eu não tinha dólares. Envergonhado, voltando de repente ao Terceiro Mundo, perguntei timidamente à minha eleita se se dignaria aceitar moeda vil. Tudo bem, disse a moça, a gente faz pela cotação do dia. Foi justo naquela data em que o dólar parou nos 500 collorcruzeiros, o que me facilitou as contas. Setenta por quinhentos dá 35 mil, pensei. Vale! Devo ter pensado em voz alta, pois aqueles dentes lindos desapareceram de repente de meu raio visual. Como setenta? - perguntou a moça. Claro, meu anjo. Duzentos dólares por três dá dízima periódica. Como não gosto de discutir centavos, arredondei por alto, setenta. Que fiasco, leitor! Era duzentos por cabeça. Otimista como sou, pareceu-me que nem tudo estava perdido. A aura de encantamento que emanava das três meninas havia feito esquecer meu propósito original, uma casta sopa de cebola. E continuava com fome. Por 200 dólares, imaginei que seria recebido com um faisão trufado, escargots de entrada e talvez profiterolles de sobremesa. Depois então, mas só depois... Puro devaneio. Duzentos era a prestação devida exclusivamente a seus serviços profissionais. Fora táxi e motel. Há determinados ramos do comércio nos quais não cabe pechinchar. Como dizia Walter Benjamin, prostitutas são como livros, podemos levar quantas e quando quisermos para a cama. Naquela altura, já interiormente decidido a mergulhar na madrugada em algum capítulo do Quixote, me permiti tecer algumas considerações sobre o momento crítico que vive a nação. Nada de regateio, apenas o prazer de teorizar. As moças aproveitavam o congresso de médicos para arredondar a receita de fim de mês. Ora, neste país em que médico em começo de carreira ganha por hora menos que encanador ou azulejista, médico-residente anda matando cachorro a gritos. Por sofisticadas que fossem as três, a meu ver nada entendiam de marketing. Fossem girar bolsinhas em um congresso de metalúrgicos do ABC, ou de estivadores de Santos, teriam cientificamente maiores possibilidades de ganho. Ela concordou comigo. Mas pedia que eu ponderasse suas razões. Não era exatamente uma dessas meninas que fazem amor baratinho, com um olho no relógio para bem organizar o faturamento do dia. Nós - insistiu - não somos profissionais fulltime. Nós gostamos de unir o prazer ao dinheiro. Podes me imaginar na cama de um estivador, por mais dólares que me paguem? De fato, não conseguia. No fundo, tinha de concordar com ela. Claro que ela merecia 200 dólares. Mas, argumentei, por quatro noites contigo eu pago um vôo Buenos Aires-Moscou-Buenos Aires. Lá, sobre a tumba do finado comunismo, pelo menos enquanto os sórdidos hábitos capitalistas não contaminarem as ex-camaradas, posso ouvir eslavas uivando na língua de Dostoievski, por uma calcinha rendada ou um secador de cabelos. Pode ser, admitiu a moça, confessando que não conhecia Moscou. Mas alegou que precisava valorizar-se. Sem falar que era belingue. Senti um frio no estômago ao ver meus duzentos dólares batendo asinhas. Essas eu não conhecia. E tinha uma a meu lado, pronta para o consumo, bastava apenas aceitar seu preço. Nunca é tarde para aprender coisas novas, pensei. Já me dispunha a levantar a moça, quando me ocorreu perguntar: mas belingue, como é que é mesmo? Ela se espantou com minha incultura. “Jura que não sabe, amor?” Não sabia mesmo. Vagamente me ocorria uma mulher com duas línguas. Ela sorriu divertida: “ora, querido, sabes muito bem que isso não existe. Nós, belingues, falamos também inglês”. Foi a minha vez de sorrir. Ela queria dizer bilingüe. E já não tinha mais sopa de cebola no Eldorado. Pedi uma salada niçoise a quatro dólares, economizei 196. Mais quatro noites sem minhas belingues, estou em Moscou. Compro uma bijuterias dos camelôs que a cruel Erundina instalou no Brás, e seja lá o que Deus quiser! * A moeda da época, o cruzeiro, não era aceita por profissionais de luxo. (Porto Alegre, RS, 05.10.91)
Segunda-feira, Dezembro 03, 2007
UMA REFLEXÃO NATALINA... ...para quem gosta de reflexões natalinas: http://www.jornaleco.net/natal/janer.htm
POR QUE NO TE CALLAS? Pelas notícias que o excelente Lourival Sant'Anna, do Estadão, nos envia da Venezuela na madrugada, os venezuelanos fizeram ao tiranete Hugo Chávez a mesma pergunta que o rei da Espanha: CARACAS - O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Venezuela anunciou durante a madrugada desta segunda-feira, 3, a vitória do "não" no referendo sobre a reforma constitucional realizado na Venezuela neste domingo. O presidente Hugo Chávez em pronunciamento em rede nacional admitiu a derrota e pediu que o resultado seja respeitado. A reforma permitiria que ele disputasse o cargo um número indefinido de vezes.
PARA UNIVERSIDADE, CELERADO É HERÓI Costumo afirmar que a universidade brasileira - e particularmente seus cursos da área humanística - é um dos maiores fatores de atraso do país. Um leitor me conta de suas andanças por várias faculdades. “Na maioria delas, cartazes do Che e genéricos. Isso porque eram de Direito. Será que eu agüento?” Quarenta anos após a morte do bandoleiro, os cursos de Direito ainda o têm como herói. Entende-se então porque o filme Adeus, Lênin, em sua versão para a América Latina, teve cortada aquela parte em que o pôster de Che é recuperado do lixo. Ainda há pouco, nas Crônicas da Guerra Fria, citei artigo de Mário Vargas Llosa sobre a universidade. Ao falar de universidade, Llosa fala da universidade pública, diga-se de passagem. E cita um discurso de Manuel Vicente Villarán, que acusava a universidade de produzir inúteis, pensadores literários e juristas, em vez de agricultores, colonos, empresários, engenheiros, capazes de produzir riquezas e modernizar o país. Este discurso, é bom lembrar, foi pronunciado em 1900, quando o Brasil era dominado pela frágil literatura de um mulatinho europeisado e europeisante, e sequer sonhava com universidade. Trocando em miúdos: brasileiros, estamos começando a intuir, neste final de século, problemas que nuestros vecinos tentavam equacionar em meio aos estertores do século passado. Ao abordar o movimento da reforma universitária, iniciado nos anos 20, em Cordoba, Argentina, o escritor peruano constata uma vontade de que a universidade produzisse, não capitalistas industriosos, e sim revolucionários: “É preciso ler as páginas que José Carlos Mariátegui lhes dedica em Siete Ensayos, para se ver até que ponto a reforma concebia a universidade como uma instituição cuja meta é formar ativistas e militantes, converter-se numa máquina de demolição da sociedade burguesa. Ele vê com simpatia o movimento da reforma porque a ele parece um aspecto — no campo burguês e juvenil — da luta pela destruição da sociedade capitalista e sua substituição pela socialista. A reforma deixou flutuando no ar da América a idéia de que a universidade (e a cultura) não devia subordinar a política a seus fins e trabalhos, mas sim subordinar estes à ação e ideais políticos”. Que se pode esperar de um curso de Direito que tem como ícone um celerado comunista? Será que eu agüento? – pergunta-me o leitor. Bom, se precisar de diploma, vai ter de agüentar. Os cursos da área humanística da universidade brasileira - até mesmo das universidades católicas - estão contaminados pelo marxismo. Serão necessárias ainda umas duas ou três décadas para que estes cursos cheguem ao século XXI.
Domingo, Dezembro 02, 2007
MINHAS CIDADES DILETAS - ROMA O homem não viaja para conhecer geografias e sim para conhecer a si mesmo. É viajando que descobrimos quem somos e o que realmente queremos. Descobrimos inclusive o país em que vivemos. Gosto de repetir uma frase de Chesterton: não se conhece uma catedral permanecendo dentro dela. Uma pessoa que jamais saiu do Brasil dificilmente conhecerá o Brasil, já que não tem elementos de comparação. Toda viagem é um teste de sobrevivência. Não falo é claro de quem viaja em rebanho. Uma excursão é uma espécie de cápsula, onde o turista viaja protegido pelo útero de seu país. Em verdade, não saiu de casa. Permanece envolto por sua cultura, por sua língua e por seus hábitos mentais. Só uma vez em minha vida viajei em excursão. Foi quando fui para El Hoggar, no Sahara argelino. Por um lado, não havia outra opção, ninguém viaja só ao deserto. Por outro, não tem graça alguma viajar sozinho pelo deserto. Por razões personalíssimas, pus Madri em primeiro lugar entre as minhas diletas. Deve influir nisto meu apreço pelo mundo hispânico. Sempre me considerei mais platino que brasileiro, sempre me senti mais em casa em Buenos Aires do que em Porto Alegre ou São Paulo. Como latino, me sinto um tanto estrangeiro no universo anglo-saxão. Será talvez por isso que não nutro muitos amores por Reino Unido ou Estados Unidos. Minha segunda eleita foi Paris. Em terceiro lugar, coloco uma cidade aonde não cheguei a viver, que não conheço muito, mas que adoro: Roma. Começa pelo idioma, adoro ouvir italiano. Também conta nesta eleição o caráter horizontal da cidade. Mais a arquitetura antiga, a História pingando das paredes. Você está em pleno século XXI, dá alguns passos em qualquer direção e vai para dois mil anos ou mais atrás. Invejo as crianças de Roma: elas estudam história antiga in loco. Você sai do Vaticano e em poucos minutos cai no Fórum. Mais alguns passos e está no Coliseu. Adoro também as cores da cidade, aqueles tons de ocre e salmão que predominam por todas as ruas. A cordialidade dos italianos. Certa vez sentei em um trem com uma romana, em poucos minutos ela extraiu toda minha vida, queria saber meus pais eram mortos ou vivos, se minha irmã era casada, se tinha ou não tinha filhos, que fazia na vida. Você compra um jornal em um quiosque e antes de receber o troco já está discutindo política italiana com o jornaleiro. É uma diferença brutal em relação aos sisudos hiperbóreos. Em meus dias de Suécia, ouvi uma historinha em Estocolmo. Um sueco entrou na cabine de um trem, onde outros dois suecos contavam piadas e riam. O primeiro sueco, polidamente, apresentou-se aos outros dois e perguntou: “agora que nos conhecemos, posso rir com vocês?” Claro que é piada. Mas define muito bem a idiossincrasia dos homens do norte. Mais a estrutura da cidade. O centro de Roma é propriedade exclusiva dos pedestres. Um grande triângulo, formado por três ruas que partem de um único ponto, constituem o Tridente, espaço onde quase não entram carros. É uma cidade para se passear. Aliás, como Madri. As pessoas vão às ruas... para ver as pessoas que vão às ruas. É a antiga flânerie parisiense, lazer que, brasileiros, perdemos definitivamente em nossas capitais. Ninguém é suicida no Brasil de hoje para passear à noite pelas ruas das capitais. Aliás, de dia já não tem muita graça e tem seus riscos. Minhas flâneries geralmente terminam no Greco, um dos mais sofisticados cafés da Europa, nas proximidades da Piaza di Spagna. É caro. Mas é muito bom estar lá, ante uma grapa ou um prosecco. Gosto muito também de bebericar no Campo dei Fiori. Não que os cafés que lá existem sejam brilhantes. Mas aquele monumento a Giordano Bruno, queimado pela Inquisição ali mesmo, naquela praça, com a língua estraçalhada por pregos e tábuas para que não mais falasse, é uma presença reconfortante, o gesto de um homem que não se dobrou à tirania do Vaticano. Pertinho do Campo dei Fiori, está a Piazza Navona, com sua fonte magnífica. O único toque desagradável é a embaixada brasileira ali instalada. Lembrar que um tanso como Itamar Franco gozou daquela paisagem dói na alma de todo brasileiro sensível. E se você um dia curtiu cinema, ao chegar na Fontana di Trevi é claro que vai ver a Anita Ekberg semidesnuda sob as águas da fonte. Outro momento divino é tomar um café, em uma manhã ensolarada de inverno, nas terrasses frente ao Panteon. Bem entendido, quando mais prestigioso o monumento, mais caro você paga pelas consumações. Que fazer? Em Roma, como os romanos. E haja pernas para flanar. É bom lembrar que Roma tem sete colinas. Mas devagar se vai ao alto. Em meio a isso, acresça os vinhos, a gastronomia e a música italiana e você fica definitivamente enfeitiçado pela cidade. Detalhe insólito: certo fim de tarde, eu vagava pelas margens do Tevere, nas proximidades do Vaticano. Dia claro, tendendo ao crespúsculo, sinal nenhum de chuva no fundo do ar. E um monte de romanos andando de guarda-chuva. Pensei como Asterix: Ils sont fous, ces Romains! Estávamos perto de uma zona arborizada e um aparelho emitia sons de pardais, suponho que para atrair os pássaros para as árvores. E eles vieram. Centenas de milhares, a ponto de escurecer o dia. E eu estava embaixo deles. Aí entendi os guarda-chuvas. Corri com todas as pernas que tinha para longe das árvores. Enfim, escapei ileso. Em 2003, fui para Roma com minha Baixinha, com a intenção de ficarmos uns dois meses parados por lá, aperfeiçoar o italiano, estabelecer relações com jornaleiros de quiosques, garçons e restauradores, vizinhos de mesa nos bares, enfim, ter um contato mais íntimo com a cidade. Os deuses não o permitiram. Já nos primeiros dias, minha Baixinha foi tomada pela doença e tivemos de voltar, como náufragos, ao Brasil. Mas Roma é eterna. Sim, as grandes cidades são eternas. Mas em Roma a sensação de eternidade está em todas as esquinas. Mortais somos nós. Não descarto, antes de partir, a ventura de um dia viver Roma.
Crônicas da Guerra Fria (54) A DURA VIDA DE CAMPUS São Paulo - Estava outro dia no Brahma, ali na Ipiranga com a São João, quando um vizinho de mesa, logo ao sentar, foi perguntando pelo preço do chope. O garçom disse o que lhe cabia dizer: 480 cruzeiros. Meu vizinho contorceu-se na mesa, olhou para mim e desfiou um rosário de queixas: que horror este país, onde é que se viu chope a 480, onde é que vamos parar? Fui solidário com meu interlocutor: pedimos dois chopes. Outro dia, em Porto alegre, falava com um professor universitário. Queixava-se de 90, o pior ano de sua vida. Assim como quem não quer nada, fui puxando assunto e, ao final da charla, obtive três dados significativos. Em 90, ele havia quitado um apartamento em Petrópolis, havia passado três meses em Paris com mulher e filhos e tinha trocado de carro por um modelo do ano. Realmente, 90 foi um horror. Claro que havia votado no Lula, como aliás a maioria dos professores universitários, que completaram uma greve de mais de cem dias, sem que o país tenha se dado conta de que estão em greve. O que só demonstra uma coisa: do jeito que está, a universidade pública no Brasil é perfeitamente descartável. Imagino que 91 tenha sido ainda pior que 90 para meu interlocutor: três meses e meio sem trabalhar, recebendo tranqüilamente o salário no dia certo. O pior de tudo, queixava-se outro professor, é que a imprensa não nos dá cobertura. O sangue frio do acadêmico me deixou perplexo. Estávamos em São Paulo, única capital do país na qual o salário de um jornalista pode ombrear com o de um professor das universidades federais. Com uma diferença: a carga horária média de um professor da USP, por exemplo, é de 3,9 horas/aula por semana. Cabe ainda lembrar que uma hora/aula é, em verdade, 45 minutos. Ora, os professores universitários, de modo geral, estão no regime das 40 horas semanais. Ou pelo menos 20. Temos então que, na universidade padrão do Brasil, um professor cumprindo quatro horas efetivas de trabalho por semana, recebe em geral por 40 ou, pelo menos, por 20 horas. Ora, direis, e a pesquisa onde é que fica? De fato, há professores que elaboram pesquisas sérias e oportunas. Mas estes são minoria e duvido que constituam dez por cento do corpo acadêmico. Jornalistas, trabalhamos teoricamente cinco horas por dia, de fato sete ou oito e muitas vezes dez ou onze horas. Jornalista tem hora de entrar no jornal. Mas não tem hora de sair. O telex * e o modem nos jogam os fatos brutos na mesa, quase na hora em que acontecem, e temos de reelaborá-los rapidamente para que na manhã seguinte o leitor adoce seu café com cadáveres, massacres, terremotos. E não temos o direito de errar uma vírgula, uma letra de um nome impronunciável. Sem falar nos processos intimidatórios e ameaças de morte que estão se tornando cada vez mais freqüentes no Brasil. Não por acaso, mesmo que não seja assassinado, o jornalista em geral morre cedo. Sob um regime de tensão extrema, cumprimos no dia uma cota de trabalho que um professor da USP não cumpre em uma semana. Estes senhores vêm então queixar-se de que nós, jornalistas, não somos solidários com a famosa greve, que durou mais de cem dias sem que o país, como um todo, dela se desse conta. Transporte-se o problema para o interior do Brasil, onde jornalista sequer sonha em ganhar um terço do que ganha um bolsista da Capes, e o que parecia irônico vira cinismo. Enfim, esta greve paranóica, deflagrada por lideranças desvairadas, não deixa de ter sentido: mostra que a sociedade pode tranqüilamente dispensar os serviços desse paquiderme oneroso e inoperante no qual se transformou a universidade pública brasileira. Não me refiro, bem entendido, a cursos como medicina, engenharia, odontologia, biologia ou agronomia. Destes, todo país precisa. Mas os cursos de jornalismo, só para começar, podiam acabar que deles ninguém sentiria falta, fora os apaniguados do magistério. Não há país civilizado que exija curso de jornalismo para o exercício da profissão. Esta exigência legal no joga na vala comum da barbárie socialista. Continuando: se os cursos de Direito fossem reduzidos em 90 por cento, mesmo assim teríamos rábulas sobrando para o início do próximo milênio. Quanto aos de Letras, se desaparecessem dos campi, a literatura e os próprios escritores respirariam melhor. Já os de Sociologia, vão acabar morrendo de inanição conceitual: as teorias que os nutriam foram sepultadas no mês passado. O Brasil jamais sairá deste atoleiro de Terceiro Mundo enquanto a universidade, como também a maioria das estatais, não for privatizada. Enquanto professores que ganham de dez a vinte salários mínimos para dar quatro aulas por semana se dão ao luxo de cruzar os braços por mais de cem dias, continuaremos patinando neste final de milênio. No caso específico da universidade brasileira, um corte profundo terá de ser feito nos cursos ditos de humanidades, que até hoje só têm se prestado, em sua maioria, para a pregação de teorias mortas. O tema da corrupção e decadência da universidade brasileira é tão fascinante, que até perdi o fio do assunto. Falava dessa sacrificada classe média tupiniquim, que chora de barriga cheia. Que sofre quando o chope custa um dólar, escamoteando o fato de que cinco ou dez chopes por noite pouco afetam seus rendimentos. Desses bravos doutores, que intercalam três meses de greve, mais outros tantos de férias, tendo de suportar o trabalho escravo de três meses de magistério por ano, na base de três ou quatro horas/aula por semana. De fato, dura é a vida de campus. Talvez um dia os professores de Letras acabem descobrindo que o surrealismo não se encontra propriamente nos textos de Breton ou nos filmes de Buñuel, mas no dia-a-dia de cada um deles. Qual ficcionista conseguiu imaginar um Estado que financia a sua própria contestação? Afinal de contas, a universidade é autônoma. Os professores são efetivos. E o Tesouro nacional paga pontualmente, ao final de cada mês, os gordos salários dos bravos grevistas. Se o autoritarismo fascista de Brasília decide não pagar quem não trabalha, que horror! E a autonomia universitária, onde é que fica? E depois ainda há quem ache que o Brasil pode ingressar no Primeiro Mundo sem acabar com esse monstrengo corrupto - ilhas de competência à parte - que é a universidade pública brasileira. * Falo da época em que as notícias eram transmitidas por telex. (Porto Alegre, RS, 28.09.91)
Sábado, Dezembro 01, 2007
SOBRE MINISTROS INEPTOS, BODES E ELEFANTES Já transcorreu mais de ano após o desfecho da crise aérea no país e o caos continua a imperar nos aeroportos. Particularmente em Congonhas, que foi transformado em shopping pela Anac. Mesmo em dias de tráfego normal, faltavam assentos para os passageiros no saguão, tomado por lojas. Hoje, se você tiver a desgraça de ter de voar, os aeroportos parecem mais ou menos vazios. Foi adotada uma solução cosmética. Os passageiros, em vez de esperar no saguão, são enviados para os aviões e esperam na pista. Novembro passado, fiquei uma hora espremido num assento antes de decolar. Tive sorte. Os jornais seguidamente nos trazem relatos de pessoas que ficam cinco, seis e mais horas torrando dentro do avião antes de partir. Para resolver a crise, um ministro inepto foi trocado por outro não só inepto mas também fanfarrão. A primeira medida do ministro substituto, que além de inepto e fanfarrão tem bunda grande, foi determinar que as companhias aéreas abrissem mais espaço entre os assentos, para melhor acomodar o traseiro ministerial. A medida, anunciada como panacéia para a segurança dos vôos, é totalmente inviável. Pretenderá o governo brasileiro impedir a aterrissagem de aviões de empresas internacionais que se recusem a aumentar o espaço entre assentos? Empresas aéreas americanas, alemãs, espanholas, portuguesas, holandesas, suíças, kwaitianas, enfim, todas as demais empresas do Exterior, teriam de submeter-se aos caprichos do ministro de glúteos avantajados? Eh Brasil! Legislando para o mundo. Os jornais anunciaram hoje uma nova medida, não só ridícula como também lesiva a quem tem de voar. Não bastasse o Brasil ter uma das taxas de embarque mais altas do mundo, o governo quer agora resolver a crise do setor aéreo nos aeroportos de São Paulo aumentando violentamente as tarifas aeroportuárias. Segundo documento ao qual o Estadão teve acesso, são previstos aumentos de 100% nas taxas de embarque pagas pelos passageiros e de até 1.200%, nas tarifas pagas pelas empresas. Esta é brilhante solução encontrada pela flamante secretária da Anac, Solange Vieira, para estimular as empresas aéreas a buscarem outros aeroportos que não Congonhas e Guarulhos. Claro está que diminuir as taxas dos outros aeroportos sequer passou pelo bestunto das autoridades aeronáuticas. Segundo o Estadão, este reajuste poderá levar a um aumento de pelo menos R$ 40 para o passageiro, considerando um bilhete doméstico de ida e volta. As companhias estrangeiras serão taxadas com o aumento de 1.204,35% da tarifa de permanência de aeronaves em Guarulhos. Como a maioria das empresas estrangeiras aterrissa de manhã em Guarulhos e decola no período da noite, o custo adicional por hora, vai variar de 3.400 a 7.800 dólares, dependendo do tipo de avião. O repasse para o passageiro, nesse caso, pode variar de 19,99 a 28,69 dólares por hora de avião parado. Se o avião ficar dez horas em solo, o aumento para o passageiro pode chegar a 287 dólares. Você encontra facilmente bilhetes de ida-e-volta São Paulo-Buenos Aires por 265 dólares e mesmo por menos. Já pensou pagar mais 287 dólares de taxa de embarque? Com a desfaçatez de um déspota, o ministro Nelson Jobim pretende apresentar este pacote ao Supremo Apedeuta na semana que vem. Em vez de facilitar a vida dos passageiros, o governo aproveita a crise para infernizá-la. Não só para infernizá-la, como também para enfiar mais fundo a mão no bolso de quem voa. Havia um rebanho de bodes atulhando os saguões dos aeroportos. Em vez de retirar os bodes, o governo passa a entupir os aeroportos com uma manada de elefantes.
Crônicas da Guerra Fria (53) CARTA ABERTA À VELHINHA DE TAUBATÉ São Paulo - Foi em Porto Alegre, na Feira do Livro de 1989, se bem lembro. E como me lembro, pois foi antes da Revolução do Nove de Novembro. E já estamos na Revolução do 21 de Agosto. Nesse meio tempo, a independência da Estônia, Letônia, Lituânia, Tajiquistão, Usbequistão, Quirguistão, Azerbaijão, Moldávia, Bielo-Rússia, Ucrânia, Geórgia, Armênia. Sem falar na Croácia, Eslovênia, e Macedônia. Sem falar que talvez nasça um novo país antes do fechamento desta edição. De 89 para cá, até parece que transcorreram dois séculos. Faz tempo, dizia. Eu flanava pela Rua da Praia, quando encontrei o Nosso Homem em Moscou. Às gerações mais novas, explico: Nosso Homem em Moscou era o Paulo Silveira, diretor do Instituto Brasil-URSS - isto é, ex-URSS - espécie de cônsul honorário do stalinismo no Rio Grande do Sul. Encontrei o Silveira na Praça da Alfândega. Magro, trôpego e entrópico, era a própria imagem do comunismo. É, faz tempo. Na época, os ex-alemães orientais fugiam do paraíso socialista através de brechas na fronteira austro-húngara, em busca do capitalismo podre ocidental. Muitos fugiam da ex-Berlim oriental para a Berlim ocidental. Tremendo atalho: para deslocar-se mil metros, viajavam mil quilômetros. Era primavera no Brasil, outono na Europa. Não me contive. Apressei o passo e abordei Nosso Homem em Moscou: - Que te parece, Paulo, essa gente toda, sem lenço nem documento, fugindo do socialismo? Nosso Homem em Moscou, viajor experiente, do alto de seu humanismo parecia preocupado: - Que horror! O inverno está chegando na Europa, vão todos morrer de frio. Não morreram. Mas isso já faz dois séculos. Ou dois anos? Às vezes fico confuso. Por um lado, caiu o Muro de Berlim, ruíram as ditaduras do Leste. Por outro, o velho comunossauro continua flanando pela Rua da Praia, como se vivo estivesse. Vai ver que foi só dois anos. Nosso Homem em Moscou não por acaso era conhecido como Nosso Homem em Moscou: falava russo, deitava de quatro ante o PCUS - perdão, o ex-PCUS - e todos os anos ia a Moscou e incitava os gaúchos a visitar Moscou, desde que com dólares, é claro. Falando russo, viajando todos os anos a Moscou e conhecendo Moscou com a palma da mão, jamais nos disse água sobre a tirania atroz que o PC soviético exercia sobre os moscovitas, muito menos sobre a tirania que Moscou exercia sobre as repúblicas. Isso sem falar sobre a tirania que a URSS - perdão, ex-URSS - exercia sobre o Ocidente. Um pouco desligado, Nosso Homem em Moscou. No fundo, um humanista. Quando os alemães orientais largavam casa, posses, passado e parentes em busca de liberdade, Paulo Silveira preocupava-se com o conforto destes pobres equivocados: que horror, vão todos morrer de frio. A Santa ingenuidade de Nosso Homem em Moscou nos torna ternos e tolerantes. Se o Paulo Silveira, que ia todos os anos a Moscou, que conhecia Moscou e satrapias como a palma da própria mão, nada sabia dos porões de tortura da KGB, nem das mordomias da Nomenklatura, nem da corrupção do PCUS, em nada nos espanta que humanistas de souche como Josué Guimarães (R.I.P.), Moacyr Scliar ou Luis Fernando Verissimo - que não falam russo nem vão todo santo ano a Moscou e, ao que parece, não lêem jornais - em nada nos espanta, dizia, que estes renomados escritores jamais tenham informado seus leitores sobre a mais infame ditadura que contaminou o século. Falar nisso, soube que andou em Porto Alegre uma triste alma penada, convidado e patrocinado pelos bolches que tomaram posse da alcaiceria da capital gaúcha, o tal de Cornelius Castoriadis. E por favor, não me chamem de maldoso quando assim escrevo. Quando Pilla Vares, ilustre secretário municipal de Cultura - cujo itinerário intelectual vai de Trotski a Sirotski - canta a Internacional ao tomar posse do cargo, é sinal que algo de podre flutua nos corredores da prefeitura. Mas falava do Cornelius. Conivente a vida toda com o fascismo eslavo, desmoralizado em Paris por seus laivos de Madalena tardia, conseguiu encontrar ao sul dos trópicos, logo em Porto Alegre que eu julgava cidade culta, um palco para suas histrionices. A capital gaúcha está emburrecendo. Será por certo influência da alcaiceria, que importa da Europa putas de fim de noite, desde que tenham boca para qualquer prática como, por exemplo, tentar recuperar os restos podres do socialismo. Fosse só isso, não era nada. Quando o Cornelius, papagueando o que há duas décadas se sabe na Europa, classificou como stalinista o regime de Castro, foi vaiado. Devagar nas pedras, Cornelius. As esquerdas tropicais são assim mesmo, lentas e fanáticas. Mesmo após a queda de Castro, necessitarão de mais algumas décadas para considerá-lo ditador. Imagino, por exemplo, o Moacyr Scliar na platéia. Escritor premiado pela ditadura de Castro, deve ter-se contorcido por dentro ao ouvir do ex-stalinista grego que o regime que o premiara era stalinista. Mas o Scliar está acostumado a essas imposições sociais. Já apertou não poucas vezes a mão de Jorge Amado, que escreveu para jornais nazistas que defendiam Hitler e o massacre de judeus, como também foi adorador de Stalin, outro tremendo assassino de judeus. Falar nisso, recebo telex de que o ex-presidente da ex-Alemanha Oriental, o ex-Honecker, atualmente hospedado na ex-URSS, dado o risco de ser extraditado para a Alemanha, para responder por seus crimes, tipo fuzilamento pelas costas e outros que ainda desconhecemos, o ex-ditador, dizia, está por ser enviado pela ex-URSS para a China, último reduto da barbárie que também está por ruir. Como Honecker está em fim de vida, talvez escape ao Nurenberg que merece *. Falar nisso, lembrei de um ilustre musicista gaúcho, o Flávio Oliveira, que recebeu mordomias na ex-Berlim Oriental do ex-ditador Honecker e voltou fazendo cantatas ao ex-herói Che Guevara, que matou para erigir a ditadura de Castro, que premiou o Moacyr Scliar, ditadura que nem o Cornelius Castoriadis consegue condenar sem receber vaias em Porto Alegre. Horror, esta irreverência das esquerdas. Nem intelectuais tipo o Cornelius, que orientam suas poltronas no sentido da História, que quando arrotam às margens do Sena, o arroto ultrapassa a Rive Gauche e vira método na universidade brasileira, nem estes intelectuais, dizia, conseguem dobrar o stalinismo obstinado dos radicais oriundos da baixa classe média rio-grandense. Falar nisso, onde andará nossa Deusa Shiva, vulgo Antônio Hohlfeldt, que usufruiu prazerosamente da hospitalidade da ditadura búlgara? E nosso íntegro Santiago, sempre corajoso e irreverente? Tão corajoso, a ponto de ter seus cartuns premiados por uma tirania qualquer dos Balcãs, certamente por sua extraordinária coragem intelectual de ter sempre silenciado sobre tiranias, desde que estas fossem de esquerda. Quando nos brindará Santiago com um charge contra a ditadura cubana, por exemplo? Enfim, não sejamos ranzinzas. Se o Jorge Amado ostenta em seu currículo um prêmio Stalin de literatura, não vejo porque o Scliar, Hohlfeldt ou Santiago iriam recusar louros e mordomias de tiranetes menores. Aliás, preciso consultar o Luis Fernando Verissimo. Será que a Velhinha de Taubaté ainda acredita no socialismo, a aurora da humanidade? * O ditador alemão acabou se exilando no Chile, em 1993, onde morreu no ano seguinte. (Porto Alegre, RS, 21.09.91)
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