¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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Quinta-feira, Janeiro 31, 2008
 
CHIUSO SE FECHA



Amigos,

Há pouco mais de dez anos atrás, em 1997, criei o jornal O Expressionista com mais três amigos de faculdade. O jornal foi crescendo ao longo da década, chegando a ter, em média, 20 mil acessos mensais. Claro que não poderia deixar de agradecer todas as pessoas que ajudaram a engrandecer o jornal. Também não posso deixar de lembrar - e agradecer - a amiga Milla Kette, que em toda história do jornal, foi a campeã de audiência, com suas reportagens desde os Estados Unidos. Uma, em especial, atingiu 6 mil visitas num único dia. Tratava das denúncias de corrupção do programa Oil for food da Onu, um verdadeiro furo em toda imprensa nacional, que só veio mencionar o fato dois longos anos depois.

Houve uma época em que não dispunha de tempo para atualizá-lo, e isso fez com que o jornal ficasse quase um ano fora do ar. Com ajuda dos amigos, Moreno Garcia e Sandro Ribeiro, o site voltou na versão que hoje vigora. Neste momento não posso deixar de me desculpar com ambos, por ter descumprido a promessa de pautar o site mais com assuntos culturais do que políticos. Mil desculpas!

Após esta introdução que a mim é muito pertinente, vamos direto ao ponto: é com pesar que lhes comunico que tirarei o site do ar. No entanto, não os deixarei sem os motivos que levaram a tal conclusão.

Em primeiro lugar, não tenho mais tempo disponível para ele, tanto em relação ao sistema (que detém algumas falhas grotescas), quanto em relação ao editorial, que, como editor, seria minha obrigação.

Em segundo lugar, é sempre bom saber a hora de fechar as portas. Um site que já teve uma média de 2.000 visitas diárias, não pode se contentar com uma média de 100. E o declínio é constante, exceto pelas últimas semanas, que com o advento do bate-boca com o sr. Janer Cristaldo, as visitas aumentaram, mas com ela veio o espírito de porco daqueles que têm predileção às porcarias. Claro que o incidente com Janer, pouco influenciou na decisão de fechar o jornal, que já se arrasta desde o final do ano passado. Certamente, precipitou a decisão, o que agora não importa lá muita coisa.

Decerto, Janer com sua nova turminha, não perderão a oportunidade de sair por aí a dizer que eram tão importantes ao jornal que tive que fechar depois e dispensá-los. Ou algo mais criativo que saiam das suas mentes férteis e detetivescas. Seja como for, estou me lixando para o que vão falar. Nos últimos dias foi triste vê-los enchendo a rede com baixarias e cretinices. É constrangedor eles não perceberem.

Por fim, agradeço a todos que colaboraram com o jornal. Peço desculpas aos excessos que aqui foram cometidos.

Aos colunistas, sorte e sucesso!

Aos leitores, um grande abraço e muito obrigado!

Diogo Chiuso



É uma lástima. O Expressionista era um bom fórum de debates e Diogo foi, por vários anos, um bom interlocutor. Aparentemente, não agüentou a liberdade de expressão que a Internet permite. Os jovens, sempre os vi como libertários, pessoas que lutavam contra a censura e a opressão. Ao que tudo indica, os tempos mudaram. Em meus debates, tenho me confrontado mais com jovens que com idosos. Jovens que não aceitam opiniões contrárias ao que pensam.

Embora tenha tido texto censurado no Expressionista, fico triste com o fim do jornal. É uma voz a menos no espaço da Web. Ao mesmo tempo, vejo nesta atitude um desrespeito aos colaboradores que, durante anos, publicaram no jornal sem cobrar um vintém. Diogo, como faziam os inquisidores na Idade Média, queimou uma biblioteca.

 
SOBRE MINHAS VIAGENS



Um menino que nada entende de jornalismo está preocupado em saber como custeio “viajens (sic!) à Europa, vinhos e restaurantes, foie gras, prostitutas” e meu ego. Bom, ego não custa caro. Quanto ao mais, já ouvi várias teorias ao longo de minha vida. No final dos anos 60, em meus dias de universidade, pelo simples fato de não ser comunista, considerava-se que eu era pago pelo DOPS. Se as jovens gerações já não lembram o que quer dizer, explico: Departamento de Ordem Política e Social, organismo do governo criado durante o Estado Novo, cujo objetivo era controlar e reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao regime no poder.

Comecei então a trabalhar em jornais. Fui imediatamente promovido ao SNI. Se as jovens gerações já não lembram, o Serviço Nacional de Informações foi criado pela lei nº 4.341 em 13 de junho de 1964, com o objetivo de supervisionar e coordenar as atividades de informações e contra-informações no Brasil e no Exterior. Um burguês reacionário que trabalhasse em jornal, naqueles dias, só podia ser agente do SNI. Eu, camponês e filho de camponeses, achava muito divertida a nova profissão que me fora atribuída.

Comecei a viajar. Já na primeira “viajem” – como escreve o menino analfabetinho – percorri a Europa de sul a norte e de leste a oeste. Era jovem, as geografias longínquas me fascinavam e 30 ou 40 horas de trem para mim constituíam lazer. Após um ano de Suécia, voltei para Porto Alegre. Recebi nova promoção. Trabalhava agora para a CIA. Mais ainda: minha missão seria vigiar os exilados brasileiros que planejavam a revolução latino-americana nos hotéis de luxo de Estocolmo e nos restaurantes caríssimos de Gamla Stan.

Que assim seja, pensei. Já que vivia de parcos recursos na Suécia – vinho só em fins de semana e olhe lá! – pelo menos curti o prestígio de espião internacional bem remunerado. A Guerra Fria acabou, tornou-se demodé pichar como agente da CIA quem não fosse comunista. Após toda uma trajetória como jornalista, escritor, tradutor e professor universitário, ainda há quem queira saber como vivo bem. Nesta altura dos acontecimentos, certamente sou financiado pelo Foro de São Paulo.

Nada mais prazeroso para um homem honrado do que falar de si mesmo – escreveu Dostoievski. Não vou perder a vaza. O leitor em questão parece ignorar que a forma mais prática de viajar sem ter muito dinheiro é exercer o jornalismo. Me formei em Direito e Filosofia. Se exercesse o Direito, teria boas chances de acumular bom capital. Mas seria prisioneiro da profissão. Certa vez, viajei um mês pelas ilhas gregas com uma advogada trabalhista gaúcha. Na volta ao sul, ela descobriu que seu sócio no escritório lhe havia roubado todas as causas e clientes. Teve de recomeçar de zero.

Optei pelo jornalismo pela possibilidade de exercer este ofício onde quer que se esteja. Graças à profissão, consegui bolsas e muitas viagens. Volto à minha primeira viagem. Foi em 71. Com minha companheira, percorremos a Europa de ponta a ponta durante dois meses. Irritado com o Brasil – não com a ditadura, mas com o país do carnaval e do futebol – decidi ficar em Estocolmo. Na época, não pretendia mais voltar a meu país. Dois livrinhos me mantiveram em pé no reino dos Sveas: as Poesias Completas, do Fernando Pessoa, e o Martín Fierro, do Hernández. Mas minha mulher era funcionária pública e não era sensato largar seu emprego. Apesar do afeto das suecas, muitas noites chorei, estático junto a uma janela, olhando aquele deserto branco e hibernal dos hiperbóreos. Um dia, um amigo boliviano me disse: Sos un boludo, che! Tienes en Brasil una mujer que te quiere. Que haces en esta tierra de hombres tristes?

Voltei. Foi certamente a decisão mais sensata de minha vida. Desempregado, estava me preparando para um concurso na Capitania dos Portos, para trabalhar como faroleiro no litoral brasileiro. Veleidade romântica minha, afinal eu jamais suportaria a vida de farol. Foi quando fui convidado a substituir Luís Fernando Verissimo na Folha da Manhã, em Porto Alegre. Após um ano de crônica diária, tive uma recaída de uma doença que geralmente acomete quem mora na Suécia, a resfeber. Em bom português, febre de viagens. Candidatei-me então a uma bolsa para um doutorado em Paris. Candidatei-me junto à embaixada francesa, não pela Capes ou CNPq, onde quem não tem pistolão não consegue nada. Não que estivesse interessado em doutorado ou vida acadêmica. Queria aqueles vinhos, queijos e mulheres só encontradiças às margens do Sena.

A bolsa me foi concedida sem que eu tivesse uma única carta de recomendação. Quando o cônsul telefonou-me para anunciá-la, disquei imediatamente para minha companheira. Eu, que sempre fora avesso ao casamento, perguntei à queima-roupa: “queres casar?” Perplexidade do outro lado da linha. “É que estou indo para Paris e quero te levar junto”. Envergonhado, casei meio às escondidas, num cartório ao lado de meu bar.

Às onze da manhã, eu bebia com o Carlos Coelho, excelente amigo e colunista da Zero Hora, na Rotisserie Pelotense. Deixei minha caipirinha pela metade e disse ao Coelho: “segura aí que vou comprar um jornal”. Entrei no cartório, onde já me esperavam familiares e testemunhas. Aí o juiz me fez uma pergunta idiota: você quer casar com esta mulher? Claro que queria, senão não estaria lá. Disse então aos circundantes: “vou comprar um jornal, me esperem na churrascaria aqui na frente”.

Voltei à Pelotense, terminei minha caipira com o Coelho, ele sequer imaginava que naqueles poucos minutos eu mudara de estado civil. Ocorre que Coelho, jornalista futriqueiro, tinha o detestável hábito de ler o Diário Oficial. Viu os proclamas e largou a história na imprensa. Viu os proclamas e largou a história na imprensa. Dia seguinte, tive de dar longa entrevista na Folha, tentando convencer minhas demais amadas que continuava sendo o mesmo homem solteiro de sempre. Não convenci muito.

Mas já estava com um pé em Paris.

 
AINDA MINHAS VIAGENS



Foram anos de muitas viagens. Durante quatro anos, fiz crônica diária para a Caldas Júnior, de Porto Alegre. O vínculo empregatício, mais a bolsa, nos deram vida folgada. Sem falar que o governo francês pagava metade de meu aluguel. A cada início do mês, um funcionário dos Correios me trazia em casa um pacote de notas estalando de novinhas e as contava em minha frente, até o último centime. Os seis primeiros meses de aluguel, por questões burocráticas, atrasaram. Quando peguei a bolada acumulada, compramos bermudas e sandálias e fomos para as ilhas gregas. Daí minha eterna gratidão à França. O Brasil nunca me pagou metade de meu aluguel nem jamais me proporcionou navegações pelo Egeu.

Quando passei a fazer correspondência de Paris, todo dia era festa. Minhas crônicas, eu sempre as elaborava em algum café, ao lado de uma Leffe radieuse. Minha pauta, eu mesmo a fazia. Se jantava em um bom restaurante, escrevia sobre gastronomia. Se andava nas ilhas gregas ou canárias, escrevia sobre as ilhas gregas ou canárias. Se marcava um encontro no Café Florian, em Veneza, com uma amiga macedônia, escrevia sobre o Florian, sobre Veneza, sobre a Iugoslávia e até mesmo sobre minha musa da Peônia, berço do Alexandre. Saudades daquelas noites de Veneza. Nos perdíamos entre os canais e só ouvíamos o chiado dos sapatos no silêncio da noite. Conversando com outros viajores que conheceram a ilha, soube que esta sensação de ouvir o chiado dos sapatos na calçada é bastante comum.

A peoniana levou-me para Skopje e Mljet. Escrevi sobre os soberbos restaurantes nas montanhas próximas a Skopje e escrevi sobre uma ilha de nudismo em Mljet, ilha dentro de um lago dentro da ilha maior, onde passei dias felizes. Não pelo nudismo. Mas pelo silêncio extraordinário da ilhota interior. Lembro que um dia dediquei-me a cortar as unhas e Katitza protestou com veemência contra minha insuportável agressão ao silêncio.

Ursula, uma namorada polonesa – que me chamava de “mon ours tropical” – rendeu-me várias crônicas sobre a Polônia. Não há melhor maneira de conhecer um país do que namorar uma das filhas desse país. Nem melhor dicionário que o dicionário de cabeceira. Em suma, meu lazer era meu trabalho. Durante quatro anos, viajei para onde quis e trabalhei onde quis. Sempre com uma maquininha de escrever a tiracolo. Fui ao Cairo e escrevi sobre o Cairo. Fui ao Sahara argelino, percorri El Hoggar em Land Rover e lombo de camelo, e escrevi sobre as montanhas e os tuaregues de El Hoggar. Aproveitei para escrever também sobre Argel. Percorri alguns países do Leste Europeu e escrevi sobre o socialismo. Participei dos festivais de cinema de Cannes, Berlim e Cartago. Sempre trabalhando. Nada melhor que ter como matéria de trabalho os melhores filmes da Europa e do mundo.

O menino preocupado com minhas viagens demonstra desconhecer o que seja jornalismo. Jornalista, em trabalho, não paga viagens. Além de meu salário e de minha bolsa, viajei subsidiado pela Internationes alemã, pelo Senado de Berlim, pelas mairies de Cannes e de Túnis, pelo Instituto de Cooperación Iberoamericana (ICI), da Espanha, e mais algumas instituições que já nem lembro. Viajar é inerente ao jornalismo. Esta foi uma das razões pelas quais optei pela profissão.

Cansei de Paris. Após quatro anos de Sorbonne Nouvelle, Paris III (a Sorbonne mesmo naqueles dias já não existia), meu orientador ofereceu-me mais um ano de bolsa. Comovido, agradeci. Minha mulher já havia voltado e eu não conseguia viver sem ela. Meu jornal havia falido. Foi quando descobri que doutorado servia para lecionar em universidade, coisa que até então eu sequer havia percebido. Fui lecionar Literatura Brasileira e Comparada na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), como professor-visitante.

Foram quatro anos de muitos dissabores e muitas alegrias. Os dissabores consistiam no relacionamento com meus colegas e nas reuniões de Departamento, verdadeiros aquelarres onde bruxas caquéticas se dedicavam ao estranho prazer de amarrotar egos alheios. As alegrias me foram dadas por minhas aluninhas, que – muitas delas – me honraram com a honra maior que um professor pode merecer. São homenagens que rejuvenescem.

Ocorre que eu não era marxista, nem petista, nem papista, nem politicamente correto. Claro que não duraria muito no magistério. Certo dia, o chefe de Departamento, com ar grave, veio falar-me. “Uma aluna se queixou ao Departamento que quando entrou na universidade tinha certezas. Depois das tuas aulas, não tem mais certeza nenhuma”.

Nossa! Aquilo foi música para meus ouvidos. Me senti plenamente realizado como professor. Considero que a função maior do magistério é destruir certezas. Também causou espécie meu hábito de orientar teses em bares. Ora, por que não? – objetei. Não existe determinação nenhuma que proíba orientar teses em bares ou mesmo na cama. E continuei orientando meus alunos sempre em torno de um bom vinho. Por essas e por outras – e as outras foram muitas – fui ejetado da universidade.

Fui então para Madri, com bolsa do ICI. Orgia total. Nossas aulas terminavam a las dos de la tarde, como dizem os madrilenhos. É quando se começa a almoçar naquelas plagas. O vinho era barato como água, comia-se bem por três ou quatro dólares, e eu terminava minhas tardes com minhas amigas latinas naqueles cafés adoráveis de Madri. Nunca consegui chegar à Biblioteca Nacional. Entre o ICI e a biblioteca havia um dos mais charmosos cafés da cidade, o Gijón. Ao passar pelo café, algo imperioso me atraía para suas mesas e nunca consegui atravessar o Paseo de Recoletos. Se não fosse o Gijón, havia o El Espejo ao lado. Não é fácil freqüentar uma biblioteca em Madri.

Pelas regras do ICI, estávamos proibidos de sair da capital. Cantiga para ninar pardais. Um dia tínhamos notícias de que uma colega fora vista em Fez, no Marrocos, uma outra zanzava por Berlim e um terceiro fora encontrado em Paris. E se alguém fora visto em Fez, Berlim ou Paris, era porque alguém o vira. Os turistas já eram no mínimo seis. Minha mulher vivia então em Paris. A cada mês, eu – ou ela – pegávamos um trem e íamos degustar vinhos em outras paisagens.

Nunca viajei tanto pela Espanha. Tinha de entregar uma tese ao final do curso. Ora, eu já tinha doutorado em Paris. Para que mais um? Entreguei então uma carta a meus professores. Nela, eu dizia que quando se faz uma bolsa, as teses são duas. Há aquela que se defende ante uma banca e fica mofando nas bibliotecas. E há a segunda, a mais vital, a que se defende freqüentando os bares da cidade, lendo seus jornais e conhecendo seu povo. A segunda – declarei – eu a defendi com brilhantismo nos cafés de Madri, Barcelona, Salamanca, Sevilha, Toledo, Cuenca, Santiago. A primeira, vou ficar devendo.

De volta da Espanha, vivi um ano em Curitiba e acabei vindo para São Paulo, onde trabalhei na Folha de São Paulo, no Estadão e depois na Folha de novo. Neste jornal, tive um problema sério. Vomitava todos os dias, antes de ir para a redação. Quando saí da Folha pela primeira vez, parei de vomitar. Quando voltei, voltei a vomitar. O diagnóstico se confirmava. Ora, eu não podia viver vomitando cada vez que pensava em ir para a redação. Acabei me demitindo. Dia seguinte, de novo parei de vomitar. Gostei muito de trabalhar lá e gostei do convívio com meus colegas. Mas havia uma incompatibilidade entre mim e o jornal e eu a somatizava.

De 71 para cá, acho que só não fui à Europa em três ou talvez quatro anos. De modo geral, sempre financiado por instituições ou em função do jornalismo. Ultimamente, afastado dos grandes jornais, não tenho mais essas colheres de chá. Hoje, graças ao bom Deus dos ateus, tenho como pagar minhas viagens. Depois da morte de minha mulher, a cada ano escolho uma parceira e saio a bater pernas pelo planetinha. Como nem sempre encontro a companhia adequada, não viajo tanto quanto poderia. Viajar sozinho, não consigo. Viajar é partilhar prazeres, paisagens, emoções. Não vejo graça alguma em comer um bom prato ou tomar um bom vinho sem dividi-lo com alguém, por melhor que seja um restaurante.

Tive vida serena até hoje. Gosto de meu passado. Para quem só conheceu cidade aos dez anos, está bom demais. Verdade que uma sombra empana meus dias, a perda da companheira com a qual partilhei quatro décadas de viagens e prazeres. Solo queda al desgraciao lamentar el bien perdido – dizia Hernández.

Não que a lembre todos os dias. Eu a lembro todas as horas de todos os dias. Que fazer? Morrer faz parte da vida. Como todo homem que chega aos 60, tive outras perdas nos dias que me foram dados viver. Não foram uma nem duas. Foram mais. É normal. Envelhecer é perder. Nos últimos anos, muitas vezes me perguntei o que seria melhor, se ter sido feliz ou não ter sido feliz. A pergunta, à primeira vista, pode parecer sem sentido. Afinal é óbvio que ter sido feliz é melhor. À segunda vista, não. Pois quem não foi feliz não tem sensação de perda alguma quando não é feliz. Seja como for, concluí que ter sido feliz foi melhor.

Como vivo? Bom, isto é questão que só diz respeito a mim e à Receita Federal. E com esta estou quite. Poderia até dizer, em minhas rendas não há nada de ilícito. Mas deixo a questão no ar, para alimentar boatos. Esta questão irrita um tipo de leitor que adoro irritar e é claro que não vou furtar-me a este prazer. Posso no entanto afirmar que

- não vivo de tráfico, nem de drogas nem de ideologias, nem de religiões

- estou mais preocupado com os índices da Bovespa do que com o desmatamento da Amazônia ou o terceiro mandato do Sumo Apedeuta

- não dependo mais de chefes ou editores. O menininho que grafa “viajens” acha, por isso, que sou “mal sucedido” (assim ele grafou, sem hífen). Ora, me considero extremamente bem-sucedido, afinal posso trabalhar sem depender de patrão. Escrevo o que quero, quando quero e como quero. Não tenho mais as restrições que normalmente tem um redator de jornal. Nos jornais eletrônicos em que atualmente escrevo, posso criticar deuses, papas, lulas e castros, marxistas e carolas, petistas e tucanos, o que nem sempre é viável na imprensa em papel. Conquistei a liberdade de expressão e isto é muito bom. Feliz do jornalista que chegou à condição de escrever o que quer escrever. Não o invejo, porque também cheguei lá

- milhões de pessoas no mundo prefeririam que Nietzsche, Voltaire ou Swift permanecessem calados e nada tivessem escrito. Mas escrever é direito de todo cidadão e dele não abdico

- nunca fui chapa-branca, nunca escrevi para revistas do PSDB nem de partido algum, nunca fui tucano nem papista, nunca fui ghost writer de políticos em anos eleitorais, nunca dependi de fiesps nem de afifs

- last but not least, nunca pedi esmolas a meus leitores. Sangra mucho el corazón, del que tiene que pedir – poetava Hernández. Claro que coração de quem não tem vergonha não sangra nada. Volto ainda a meu guru: cuando la vergüenza se pierde, jamás se vuelve a encontrar. Sentir vergonha, escreveu Aristóteles, é um dos indicadores mais inequívocos de que não perdemos de todo o sentido da ética em nossas vidas. Ruborizar-se é conseqüência de termos consciência da maldade ou da imoralidade dos atos que praticamos. A ausência de rubor e de vergonha indica que as pessoas se tornaram imunes ante a imoralidade de suas ações. Quem acompanha esta discussão, sabe de qual astrólogo estou falando.

Se alguém anda irritado com minhas viagens, quero brindar-lhe com mais um motivo de irritação. (Cronista, tenho dois prazeres em meu ofício. Um, o de agradar leitores. Outro, o de irritá-los). Estou projetando para junho ou julho próximo mais uma, com uma menina jovem, linda, profissional competente e dotada de qualidade que muito prezo, a curiosidade pelo anecúmeno. Quero mostrar-lhe o sol da meia-noite, o verão boreal, Oslo, Bergen, Ålesund, os fjords noruegueses, Trondheim, Bodø, as ilhas Lofoten, Tromsø, Kiruna, Luleå, Umeå, Estocolmo. Penso sobrevoar o arquipélago de Estocolmo em balão durante suas noites brancas. Talvez tome um daqueles ferryboats divinos da Silja Line para visitar uma amiga em Helsinki. Volto por Berlim, para revisitar a cidade e uma outra amiga dos dias de juventude.

Mais uma passadinha por Paris, para matar saudades daqueles cafés onde bebi, li, pesquisei, escrevi, trabalhei, namorei e fui feliz. Quanto ao foie gras e às prostitutas, que constituem mais uma preocupação de meu irado leitor, talvez a responda mais tarde. Ou não. Veremos.

Quarta-feira, Janeiro 30, 2008
 
ALEGRIA DE POBRE DURA POUCO



A Polícia Federal acaba de editar um manual de operações para disciplinar suas ações do órgão. O novo manual reforça o uso de algemas como “regra de segurança”, mas veta a exposição de presos, sob pena de punição disciplinar ao policial infrator. Ora, neste país onde impera a impunidade, particularmente quando os criminosos são políticos, magistrados ou empresários, a única alegriazinha – fugaz, é verdade – que restava ao povão era ver os distintos senhores escondendo suas algemas com casacos ou blusas cobrindo os pulsos.

Verdade que era precaução exibicionista por parte da polícia. Algemar um traficante ou qualquer outro criminoso jovem e forte faz sentido. Mas velhotes gordos e corruptos, que sequer teriam energia para correr dez metros ou dar um soco, é evidente exagero. De qualquer forma, ver um Fábio Maluf ou um Jader Barbalho algemados sempre fez bem à psique nacional. A Polícia Federal acaba de nos roubar estes raros instantes em que parecia que justiça estava sendo feita. Digo parecia, porque se contarmos nos dedos os criminosos ricos ou poderosos que estão na cadeia neste país vai sobrar um monte de dedos.

Também alegrava ver um político sendo jogado num camburão. Esta alegriazinha vai terminar também. “A algema é o símbolo do Estado exercendo seu poder de prisão, mas o sucesso da PF não deve ser marcado pela imagem de alguém sendo jogado num camburão”, disse alta autoridade da Polícia Federal. Consta que estas novas determinações decorrem das preocupações do Sumo Apedeuta, em junho passado, pelo fato de que a PF estaria vazando informações para jornais sobre o suposto envolvimento de seu irmão, Genival Inácio da Silva, o Vavá, num esquema de lobby.

Melhor prevenir que remediar. Mas o país fica mais triste a partir de hoje.

 
VELHO BOLCHEVIQUE
NÃO PERDE OCASIÃO




Leio na revista Istoé entrevista com o professor e historiador João Fragoso, da UFRJ. Como todo velho bolchevique, não perde ocasião de dizer bobagens:

“Nós somos miscigenados, porém existe de fato o racismo contra as pessoas de pele negra. Há o racismo, mas acho que estamos em um nível diferente do dos EUA, onde um senador pode ser eleito no sul tendo como plataforma a repressão violenta contra os negros. No Brasil, um político assim nunca seria eleito”.

Parece que o ilustre historiador desconhece a história do país das últimas décadas. Quando me falam de racismo no Brasil, entre todos os negros bem-sucedidos do país, gosto de citar o gaúcho Alceu Collares. Poderia citar a Benedita da Silva ou o Celso Pitta, políticos negros que, se saíram mais sujos que pau de galinheiro de suas administrações, indubitavelmente foram muito bem-sucedidos na política nacional. Mas prefiro citar o Collares, que sempre teve boa recepção no eleitorado de um Estado majoritariamente branco e com fama de racista.

Nascido de família pobre em Bagé, pequena cidade na fronteira gaúcha com o Uruguai, Collares foi prefeito de Porto Alegre, governador do Rio Grande do Sul e deputado federal por cinco mandatos. Não teve, é verdade, como plataforma a repressão violenta contra os negros. Afinal, nunca houve no Brasil repressão violenta contra negros, como houve nos Estados. Nunca tivemos nada parecido com as leis Jim Crow.

O professor carioca, em sua miopia histórica, demonstra desconhecer o passado recente do país. Ou talvez imagine que o Rio Grande do Sul pertence à República Cisplatina. Quando ouço esses disparates, costumo lembrar que o Estado mais negro do país, a Bahia, jamais elegeu um governador negro.

Terça-feira, Janeiro 29, 2008
 
ARCEBISPO QUER SHARIA



Diz o artigo 2º da Constituição da República Islâmica do Irã:

1. Há um só Deus que por direito é soberano e legislador, e o homem deve submeter-se a seu mando.

2. A revelação divina tem um papel a desempenhar na promulgação das leis.

3. A ressurreição desempenha um papel essencial no processo de desenvolvimento do homem em relação a Deus.

4. A justiça de Deus é inerente à sua criação e sua lei.

5. O imamato proverá a liderança e desempenhará um papel fundamental no progresso da revolução islâmica.

6. O homem é dotado de nobreza e elevada dignidade; sua liberdade acarreta responsabilidade perante Deus.

Leio nos jornais que o arcebispo de Recife e Olinda, dom José Cardoso Sobrinho, anunciou ontem que a Igreja vai entrar com uma ação para tentar evitar que a Prefeitura de Recife distribua a pílula do dia seguinte na cidade durante o Carnaval deste ano.

Para Dom José – continua a notícia - nem mesmo a violência sexual justifica o uso da pílula do dia seguinte. "A mulher que sofreu abuso sexual e engravidou é vítima de uma grande injustiça, mas não pode abortar. A Igreja condena o abuso sexual, mas não pode um crime justificar outro crime. É imoral. A Igreja não aceita isso. Nenhum ser humano tem o direito de suprimir a vida de um inocente. É pecado grave", disse o arcebispo, para quem o medicamento tem efeitos abortivos.

Bom, se é pecado, isto é problema dos crentes. Pecado só existe para quem crê em pecado. Mas o melhor vem agora. Segundo o purpurado, os padres das cem paróquias ligadas à arquidiocese em 19 municípios estão sendo orientados a defender essa posição em seus sermões. "Não temos força para impor alguma coisa ao governo. A gente pode pregar, tentar persuadir, dizer as nossas convicções e, sobretudo, que trata-se de uma lei de Deus".

Não estou vendo muita diferença entre a postura de Dom José e a do aiatolá Khomeini, que em 1979 impôs ao Irã uma constituição baseada na sharia, segundo a concepção dos xiitas imamitas. Ora, que tem a lei de Deus a ver com um Estado laico? Pretenderá Sua Eminência impor ao Brasil a sharia? Instaurar no país uma república teocrática? Essa história de Deus é para quem nele crê.

Quando reclamo desta mania dos católicos de pretender legislar para o universo todo, não falta quem me chame de intolerante. Se os católicos acham que aborto é crime, que não abortem, ora bolas. Os defensores do aborto falam em descriminalizar o aborto no país. Santa ingenuidade! O aborto está há muito descriminalizado.

O Ministério da Saúde considera que um milhão de abortos ilegais sejam feitos anualmente no Brasil, apesar da proibição no Código Penal e da forte oposição da Igreja. Ora, se um milhão de abortos são feitos anualmente em um país, é porque a prática já faz parte dos usos e costumes nacionais.

Os Testemunhas de Jeová, por exemplo, são contra as transfusões sanguíneas. É uma atitude insana que pode levá-los à morte. Mas pelo menos nunca pretenderam impor esta proibição à sociedade. Se preferem morrer por falta de transfusão, que tenham boa viagem.

Já propus, em crônicas passadas, que os católicos – e só os católicos – fossem punidos com todo o rigor da lei quando praticassem aborto. Não faltou quem se escandalizasse: “horror, leis especiais para determinados grupos”. Ora, o Brasil desde há muito tem leis especiais para determinados cidadãos. Índio pode matar, estuprar, fazer reféns... e tudo bem. Os sem-terra podem invadir fazendas, próprios da União, destruir laboratórios científicos e ainda têm a perspectiva de contar com aposentadoria por tais serviços. Negro vale por dois brancos nos vestibulares.

Por que não uma legislação especial para católicos? Se acham que aborto é crime, prisão firme para o católico que aborte. Que estes misóginos vulturinos deixem em paz as pessoas que querem apenas ter os mesmos direitos dos cidadãos dos países civilizados do Ocidente.

 
ASTRÓLOGO MORRE PELA BOCA



Escreveu ontem Olavo de Carvalho:

O sr. Janer Cristaldo jamais foi censurado no Mídia Sem Máscara. Foi expulso, a pedido de leitores judeus, por ser mais anti-semita do que poderia justificar mediante a exibição de um mero atestado de insanidade mental.

Escrevia o astrólogo em 06 janeiro 2006:

Louvando a franqueza e o vigor da minha resposta ao artigo anti-semita de Janer Cristaldo, nossos amigos do De Olho na Mídia protestam que ela não foi suficiente; que, não removido o artigo da página nem excluído o articulista do nosso quadro de colaboradores, "a nódoa ficou". Têm razão: ficou mesmo. Não tentei apagá-la; apenas admitir sua existência e chamá-la pelo nome. O Mídia Sem Máscara não é puro e inatacável como a Folha, o Globo e tantos outros monumentos de santidade jornalística. Enquanto essas publicações jamais pecam, jamais têm culpas morais, no máximo deslizes técnicos cometidos com intenções insuperavelmente éticas e elevadas, nós aqui assumimos a plena responsabilidade moral do que publicamos, e não nos sentimos isentos de culpa pelo que Janer Cristaldo escreveu.

Ao contrário, assumimos essa culpa - não por concordarmos com uma só palavra do que ele disse, mas porque, quando um homem não sente vergonha do mal que comete, não resta alternativa aos seus colegas e amigos senão senti-la em lugar dele. Por isso não procurei limpar a nódoa, mas mostrá-la aos olhos de todos. Achei que isso seria suficiente para alertar o colunista e demovê-lo da sua loucura. Não fiz isso para puni-lo, mas para avisá-lo de que entrou por um caminho errado e deve sair dele o mais que depressa.

Por isso mesmo não o excluí do quadro de nossos articulistas. Expulsá-lo seria carimbá-lo para sempre com um rótulo que, a meu ver, ele só merece a título provisório. Não posso exterminar a reputação de um colaborador quando espero ganhá-lo de volta para as boas causas. No fundo, não acredito na seriedade do anti-cristianismo nem do anti-judaísmo de Janer Cristaldo.


A cada vez que abre a boca, Aiatolavo se atola cada vez mais.

Segunda-feira, Janeiro 28, 2008
 
SOBRE ENTELÉQUIA E BORDÉIS



Tenho uma amiga em Porto Alegre que diz munir-se do Aurélio quando vai ler minhas crônicas. Ela exagera. Cá e lá, é verdade, puxo uma antiga palavra do baú, examino-a contra a luz, vejo se não está por demais gasta e a jogo no texto. Vivemos uma época muito pobre intelectualmente. Os jornais já não se preocupam em expandir o vocabulário de seus leitores. Pelo contrário, reduzem a diversidade vocabular para adaptar-se ao leitor. Em meus dias de Folha de São Paulo, tive grandes discussões com colegas de redação. Não por usar palavras eruditas. Mas palavras banais, desconhecidas por gente mais jovem.

Já contei a história. Como contei há sete anos, vou contar de novo. Escrevendo sobre uma escaramuça qualquer no planeta, fiz uma manchetinha mais ou menos assim:

OBUS MATA UM E FERE TRÊS

Mal viu o título na rede, um jovem editor, desses formados em escola de jornalismo, pegou meu pé:

- Obus? O que é isso, Janer?

Obus, expliquei pacientemente, é uma peça pequena de artilharia, um tipo de morteiro. Também chama-se obus a granada ou bala lançada por esse morteiro.

- Ah, mas o leitor não vai entender. Ninguém sabe o que é obus.

Então tá. Eu só queria ver como ele encontraria palavra mais concisa que obus para dizer tiro de morteiro. Surgiu a turma do deixa-disso, entre eles um editor que fizera serviço militar. Sim, é isso mesmo, é obus. "Mas vocês fizeram serviço militar, disse o jovem. O leitor, nem sempre". O que, pelo menos no que a mim dizia respeito, era falso. Nunca fiz serviço militar. Quando guri eu fazia, isto sim, palavras cruzadas. Projétil de morteiro, quatro letras? Obus.

Meses mais tarde, novo conflito com os meninos hostis ao vernáculo. Me caíra nas mãos um TL (texto-legenda) para titular. Na foto, uma mulher de mãos postas e cabeça inclinada manifestava sua adoração por algo ou alguém. Nem hesitei: EM SINAL DE PREITO. Mal o texto chegou em sua tela, o editor, sempre alerta, gritou de sua baia:

- Preito, Janer? O que é isso?

Juntei minhas mãos, inclinei a cabeça e disse:

- Preito é isto.
- Ah, mas então deve ser uma palavra muito antiga.

De fato, era bem mais antiga que eu. Como aliás a imensa maioria das palavras que eu ou você usamos. Lembrei-me do obus e fui tomado de súbita iluminação. Para aquele menino, formado na reputadíssima ECA, palavra que ele não conhecia certamente o leitor também não a conhecia. Os leitores do jornal eram nivelados pelo padrão do que ele ignorava.

Semana passada, puxei uma palavra de minha adolescência lá em Dom Pedrito. Escrevi que Jeová e Alonso Quijana participavam da mesma enteléquia. Um bom amigo gaúcho, o Marcelo Tostes, homem sempre atento às boas e velhas palavras, gostou do achado e me manifestou seu apreço. Já outros leitores manifestaram seu espanto e querem saber do que se trata. Mais intrigados ficarão ao tentar entender o que esta palavra fazia em Dom Pedrito. Mais ainda: embora a palavra nada tenha a ver com assunto, sempre a associo a bordel.

Ora, naquela cidadezinha havia uma excelente biblioteca na Prefeitura. E na biblioteca havia aquela bela coleção da Editora Globo, a Biblioteca dos Séculos, da qual constava desde Aristóteles e Platão a Balzac e Montaigne. Foram livros que devorei, ainda jovem, como uma formiga faminta de folhas verdes. O conceito de enteléquia surge em Platão e é desenvolvido por Aristóteles. Durante muitas noites as profissionais da cidade bocejaram nos bordéis ouvindo nossas discussões sobre enteléquia. É que nossas mães não gostavam de nos ver lendo filosofia (eram os dias pós 64) e proibiam nossas reuniões em casa. Nos refugiávamos então nos raros bares da cidade. Ou melhor, no único, o bar do Santinho. Mas o Santinho fechava cedo e o minuano batia com força na praça General Osório. O remédio era abrigar-se nos bordéis.

Vamos à palavrinha. Platão dizia que a alma possui enteléquia ou movimento contínuo e se supõe que Aristóteles alterou o vocábulo platônico para diferenciar sua doutrina da de Platão. Mas o emprega com ambigüidade. Alguns autores a traduzem como “o fato de ter perfeição”. Outros usam a forma adjetiva como sinônimo de perfeito. Em De Anima, Aristóteles talvez defina melhor a palavra: se o corpo é a matéria, a alma é uma certa forma. “A alma é a primeira enteléquia do corpo físico orgânico, que possui a vida em potência” – diz o estagirita.

A palavra fez carreira no tempo e no espaço, e nenhuma mudança de língua ou geografia permanece impune. Segundo Ferrater Mora, em seu Dicionário de Filosofia, na época moderna a noção de enteléquia foi deixada de lado. Plotino, por exemplo, afirma que a alma não é como uma enteléquia, pois a alma não seria separável do corpo. Para Mora, a palavra assumiu inclusive um sentido pejorativo de algo “não-existente”, que ainda conserva na linguagem comum.

A discussão vai bem mais longe. Em todo caso, eu queria dizer que Jeová e o Quixote possuem a mesma natureza. Ou seja, são entes de imaginação.

 
COTAS ESTIMULAM ÓDIO RACIAL



Há mais de década defendo a idéia de que, com o desmoronamento do comunismo, os antigos apparatchiks se entrincheiraram na luta racial. Luta de classes morta, luta racial posta, escrevi lá pelo início deste século. Os velhos comunistas brasileiros, que já não conseguem empunhar as antigas e bolorentas bandeiras, estão tratando de importar para o Brasil o ódio racial dos Estados Unidos. Pretendem inclusive instituir a one drop rule ianque, pela qual só existe preto e branco. O mulato, prova evidente da miscigenação ocorrida no Brasil, passa a não existir. Neste ano em que se comemora o centenário da morte de Machado de Assis, não tenhamos dúvidas: os ativistas dos movimentos negros pretenderão enquadrá-lo como negro.

É óbvio que a política de cotas para os negros nos vestibulares só pode estimular o ódio racial. Qual estudante branco verá com bons olhos um negro que teve classificação inferior à sua e só entrou na universidade porque é negro? Estamos diante de uma política racista deslavada, que vem sendo louvada por uma expressão que não tem lógica nenhuma, a tal de discriminação positiva. Ora, discriminação é discriminação e ponto final.

Claro que, ao fazer tais afirmações, fui sumariamente pichado como racista. Assim, é com sumo prazer que vejo hoje, no Estadão, pelo menos duas manifestações em favor de minha tese. Em artigo para a página de editoriais, Antonio Paim, presidente do Conselho Acadêmico do Instituto de Humanidades, escreve:

“O que me parece mais grave no racismo de tais movimentos consiste em que as políticas que têm conseguido obter correspondem a equívoco funesto. A médio e longo prazos, trarão prejuízos definitivos tanto a instituições como a indivíduos. É óbvio que a obtenção de títulos acadêmicos, mediante ingresso na universidade por meio de cotas, disseminará indevidamente a pecha de incompetente a pessoas que, sendo bem dotadas, poderiam alcançá-los sem benesses. Quanto ao acesso à universidade dos que, por dificuldades econômicas, não tiveram condições de se preparar de forma a enfrentar a competição, a política adequada consiste em proporcionar-lhes bolsas que lhes permitam ingressar pela porta da frente”.

Mais adiante, em entrevista ao jornal, afirma o procurador da República Davy Lincoln Rocha que as “cotas estão estimulando o ódio racial”. É o que venho afirmando há mais de década. Foi este procurador quem conseguiu suspender, na Justiça Federal, o sistema de cotas na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Diz Lincoln Rocha:

“Recebi a representação de alunos, analisei, vi que as cotas não estavam previstas em lei. Como a Constituição estabelece a igualdade de direitos, entendi que a universidade não pode reservar vagas para alguns e impedir o acesso de outros candidatos. Há 30% de estudantes que estão sendo retirados por proibição, mesmo tendo notas para ingressar na faculdade”.

O procurador vai mais longe: “Entrarei com uma ação civil pública pedindo a anulação de um concurso para juiz do TRF 4 que está em andamento e não prevê reserva de vagas para negros, egressos do ensino público e índios e um novo concurso que estabeleça cotas. O tribunal não pode ter uma política para fora e uma para dentro”.

Trata-se, é claro, de um chamado à lógica dirigido à magistratura. O pior que pode acontecer é que tenha sua ação julgada procedente. Conclui o procurador:

“A universidade não é lugar para quem quer, mas para quem tem intelecto para freqüentá-la. E a capacidade intelectual não está na raça ou na condição social. O negro e o pobre não são incapazes e não devem ser apequenados pelo paternalismo. O acesso pode ser por um sistema de bolsas que contemple quem tem aptidão e não tem recursos. Do jeito que estão, as reservas condenam cotistas ao vexame na faculdade e à discriminação no mercado. No futuro, poderemos ter pessoas evitando a contratação de serviços de médicos e engenheiros cotistas. (...) Essa questão das cotas está estimulando o ódio racial. Recebi e-mails com conteúdo muito ofensivo dos dois lados”.

Domingo, Janeiro 27, 2008
 
SOBRE CENSURA



“Janer insiste nesse tipo de texto bobo, para prejuízo daquilo que realmente queremos ler dele” – escreveu um leitor. O texto bobo ao qual se refere é artigo em que comento censura a um artigo meu no Mídia Sem Máscara. Vai adiante o leitor: “Depois da censura - que existiu e foi perfeitamente legítima, o site é empreeendimento privado e publica ou rejeita o que quiser de quem bem entender”

De fato. Qualquer jornal ou site pode publicar ou rejeitar o que quiser de quem bem entender. Isto se chama censura, que o leitor em questão considera perfeitamente legítima. A ditadura também considerava perfeitamente legítima a censura. Aliás, todas as ditaduras consideram a censura perfeitamente legítima.

No meu caso, a censura foi ridícula. Escrevi artigo em que dizia Cristo ter nascido em Nazaré e não em Belém, e o jornal o censurou. Pelo que me consta, a censura não era decorrente deste artigo, mas de outro anterior, onde eu comentava as peripécias do prepúcio de Cristo.

Em verdade, eu comentava o dogma da Ascensão de Cristo, que "ressuscitou dentre os mortos e subiu ao céu em Corpo e Alma." Os teólogos, especialistas em filigranas, tiveram de discutir um grave problema. Cristo era judeu. Como todo judeu, havia sido circuncidado. Ao subir aos céus, teria deixado o prepúcio na terra?

Embora não tenha sido decretado dogma algum em torno ao prepúcio de Cristo, o assunto foi muito discutido na Idade Média. Em 1351, argumentava-se que o sangue versado pelo Cristo durante a Paixão havia perdido toda divindade, havia se separado do Verbo e restado sobre a terra. Clemente VI ouviu com horror esta assertiva. Reunindo uma assembléia de teólogos, combateu esta doutrina e conseguiu que ela fosse condenada. Os inquisidores receberam em toda parte a ordem de abrir procedimentos contra aqueles que tivessem a audácia de sustentar esta heresia. Ocorre que os franciscanos discordavam do papa e diziam que o sangue de Cristo podia muito bem ter ficado na terra, pois o prepúcio extirpado por ocasião da circuncisão fora conservado na igreja de Latrão e era venerado como relíquia, sob os próprios olhos do papa e dos cardeais e mesmo as gotas de sangue e água que corriam sobre a cruz estavam expostas aos fiéis em Mantova, Bruges e em outros lugares. Mais de um século depois, em 1448, o franciscano Jean Bretonelle, professor de teologia na Universidade de Paris, submeteu a affaire à faculdade, declarando que esta questão provocava discussões em La Rochelle e em outros lugares. Uma comissão de teólogos foi nomeada e, após graves debates, tomaram uma solene decisão, declarando que não era contrário à fé crer que o sangue versado durante a Paixão tivesse ficado sobre a terra. Por analogia, o prepúcio também. Ou seja, se Cristo foi aos céus, o Sagrado Prepúcio ficou entre nós.

O relato da douta discussão parece não ter agradado ao astrólogo que edita o Mídia Sem Máscara e o artigo seguinte – aquele que situava o nascimento de Cristo em Nazaré – foi censurado. Justo pelo jornal que pretende denunciar a censura na grande mídia. 64 passou, para a infelicidade de muitos senhores que se pretendem liberais. Se antes havia quem protestasse contra a censura, hoje que não há censura há muitos que a pedem de volta.

E quem mais a pede de volta são, curiosamente, os católicos. Tornei-me ateu aos 16 ou 17 anos, ou seja, fui ateu quase minha vida toda e durante décadas isto não parece ter causado espécie a ninguém. Nestes últimos anos, meu ateísmo parece ter-se tornado um crime de lesa-humanidade. Ora, de lá para cá meu pensamento não mudou. O que parece ter mudado é um certo tipo de catolicismo, que se tornou mais fanático e fundamentalista. Pessoas que se julgam donas de uma verdade – a existência do tal de deus único – e consideram perfeitos idiotas quem quer que não a aceite.

Ora, nem Jeová se acreditava único, pelo menos nos primeiros livros da Bíblia, tanto que mandava destruir os altares dos demais deuses. Jeová era apenas o deus de uma pequena tribo. Mais tarde, dada a arrogância e poder de Israel, começa a se pretender único. Surgiu então um maluco que disse ser filho dele. Seu pensamento – se é que ele existiu – gerou problemas. Os deuses, até então, pertenciam a nações. Existiam os deuses gregos, os deuses persas, os deuses romanos e o deus de Israel. Cristo não era deus de nação nenhuma, fato que tinha uma implicação inusitada. Não sendo de nação alguma, era deus de todas as nações, e isto terá sido um dos fatores que o levou à morte. Se é que existiu, é bom lembrar.

Cristo não era cristão. Era judeu e freqüentava a sinagoga. Nos dias de Cristo não havia cristianismo. A doutrina é montada por Paulo, tanto que há quem prefira falar em paulismo em vez de cristianismo. Mas Paulo, o grande perseguidor de cristãos que acabou apostando no Cristo, não teve suficiente cacife histórico para criar uma religião que acabou dominando o Ocidente. Foi preciso Constantino, que tornou o cristianismo uma religião de Estado.

Até aí, o bê-à-bá do cristianismo, de conhecimento obrigatório de quem quer que professe a doutrina. De quem quer que tenha lido a Bíblia e conheça a história da Igreja. Ocorre que os católicos hodiernos, pelo jeito não cultivam o hábito de ler os textos sagrados e da história da Igreja não entendem pivicas. No fundo, em pouco diferem de torcedores do Corintians.

Assim, quando comento estas obviedades do cristianismo, provoco ondas de ódio nestes católicos contemporâneos, que sequer se deram ao trabalho de ler a Bíblia. Sou então acusado de ateu militante, este palavrão que os católicos criaram para insultar quem é simplesmente ateu. Ora, eu não milito por causa nenhuma, apenas manifesto meus pontos de vista. Não peço – nem jamais pedirei – a alguém que me siga.

Tem mais. Jamais discuti a existência do tal de deus. É discussão rumo ao inútil. Discuto, isto sim, as ações desse personagem cuja trajetória é descrita pela Bíblia. Para mim, Jeová e Alonso Quijana participam da mesma enteléquia.

Nós, ateus, dispensamos muletas. Estamos expostos à intempérie metafísica e a enfrentamos sem medo. Medo alimentam estes catolicões que se guiam pelo catecismo, sem jamais ter lido a sério o Livro. Daí, a necessidade imperiosa de censurar quem a conhece a fundo.

Sábado, Janeiro 26, 2008
 
GUSTLOFF, O GRANDE VILÃO



Este mundinho nosso tem de tudo e seu contrário. De um leitor, recebo esta entusiasta defesa do afundamento do transatlântico Gustloff – que custou mais de nove mil vidas – pelos russos:

Janer,

Vou ter que discordar de voce aqui.

O Gustloff foi um navio-hospital até o fim dos anos 30, quando foi convertido em cruzador-auxiliar pela Kriegsmarine.

Voce tem mais detalhes da historia aqui:

http://www.wilhelmgustloff.com/

http://www.zdf.de/ZDFde/inhalt/24/0,1872,1020824,00.html#

http://www.wlb-stuttgart.de/seekrieg/45-01.htm

Mas vamos dar uma canja, e vamos supor que ele realmente fosse um navio-hospital. Pra isso, ele não poderia usar o cinza-naval como usava, teria que usar branco e possuir as marcas da cruz vermelha ou do crescente vermelho, não possuir qualquer tipo de armamento (ele possuia armamento anti-aéreo), não carregar tropas militares (que existiam no Gustloff quando de seu afundamento) e também não poderia viajar em comboio, como viajava.

O capitão do submarino russo afundou corretamente o navio alemão. Naquelas condições, o Gustloff era um alvo militar válido.


Entendi. Afundar um navio com nove mil civis indefesos é um alvo militar válido. A inteligência russa, inocentinha, ignorava que o navio transportava nove mil refugiados de guerra. Imaginemos os americanos afundando o Gustloff. Seriam, obviamente, criminosos.

Sexta-feira, Janeiro 25, 2008
 
454


São Paulo afirma ter completado hoje 454 anos de idade. Claro que isto é piada. Ninguém sabe quando uma cidade começa a nascer. Mas vá lá. A cada suposto aniversário, os jornais locais fazem um cocoricó ufanista, entrevistando personalidades que são personalidades só porque a imprensa diz que são personalidades. Todos eles, é claro, dizem amar São Paulo.

A imprensa paulistana, em geral crítica às mazelas da cidade, neste dia oferece uma trégua. São Paulo se torna toda virtudes. Ora, não é bem assim. São Paulo é um dos maiores monstrengos urbanos do mundo. Caótica, desorganizada, feia, a cidade é extremamente desconfortável para os que a habitam. 55% de seus moradores, segundo o Estadão, sairiam da capital para viver em outra cidade. Mas não saem.

Eu também não. Ora, perguntareis, se acho a cidade caótica, desorganizada e feia, por que vivo aqui? Já disse porquê. A partir de certo momento, tomei uma atitude mental. Eu não vivo em São Paulo. Vivo em meu bairro, Higienópolis. Mais ou menos como se eu vivesse num espaço como Dom Pedrito. As demais extensões da cidade são para mim como viagens ao exterior. Se for para ir longe, vou a Cumbica.

Dom Pedrito, com algumas diferenças relevantes. Aqui perto de casa, em uma ruelazinha de uns duzentos metros, tenho um dez restaurantes de cinco ou seis distintas culinárias. Daqui a um século, Dom Pedrito não chegará lá. Defendo a tese de que determinadas cidades se situam em eixos de civilização. Outras não. Ai daquelas que ficam fora. A cidade pequena, poetava Kavafis, olha e passa.

Declara hoje, no Estadão, José de Souza Martins, professor de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP: “Uma parcela grande da população da cidade vive nesta situação de acoplamento, está aqui pelo trabalho. Esse morador não excursiona por São Paulo, só conhece seu próprio bairro. É preciso ter políticas públicas apropriadas para criar essa relação e melhorar a percepção dos moradores”.

Linguajar safado de profetas. Não se precisa política pública apropriada para criar relação nenhuma nem melhorar percepção alguma de moradores. O que se precisa é bom transporte. O sistema de transporte público é vergonhoso nesta cidade que se pretende a maior metrópole do continente e o transporte privado disto se ressente. Ir de um bairro a outro pode levar mais de hora. Se algum brasileiro tem memória, deve lembrar quando chamávamos os argentinos de macaquitos, porque estariam imitando imitando os ingleses ao instaurar o metrô. Hoje, em pleno século XXI, Buenos Aires dispõe de uma excelente rede de metrô e São Paulo de uma rede irrisória de transporte, que nem de longe atende as necessidades de uma metrópole. Tomar um ônibus em São Paulo exige boa dose de masoquismo.

Difícil amar São Paulo, como pretendem os jornais. Quanto a gostar do bairro, se o bairro é bom, é admissível. É meu caso. Decidi que moro em Higienópolis e não abro. Já o ufanismo da imprensa que, curiosamente, só se manifesta nesta data, me parece absolutamente ridículo.

 
APROPRIAÇÕES INDÉBITAS


De Denise Bottman, recebo:

sr. janer, passo-lhe uma exposição mais detalhada do assunto:

talvez o sr. tenha tomado conhecimento pela imprensa de um certo início de movimentação entre tradutores contra a apropriação indébita de traduções muito consagradas, feitas por grandes intelectuais brasileiros e portugueses, de grandes obras da literatura universal.

sucintamente, trata-se do seguinte:
um levantamento inicial mostra que mais ou menos 30 obras da grande literatura universal, que haviam sido publicadas na coleção da abril cultural, foram reeditadas pela editora nova cultural com a substituição dos nomes dos tradutores originais, aparecendo em lugar deles ou nomes de fantasia ou nomes de gente de carne e osso. essa quantidade de obras corresponde a mais de 65% dos títulos traduzidos da coleção "obras-primas" da ed. nova cultural, e portanto parece indicar que não se trata de casos isolados, e sim de uma prática deliberada e sistemática adotada pela referida editora.

o que parece se configurar, portanto, é que a editora de maior visibilidade no país (que muitas pessoas ainda associam à editora abril e à extinta abril cultural) tomou para si um patrimônio tradutório do país (pois nossa formação cultural, num país que depende tremendamente do acervo de obras traduzidas para o português, se constrói também e maciçamente sobre essa atividade - basta ver o caso de suas traduções de t.s.eliot, que tantas gerações influenciou e continua a influenciar no brasil!) e, por razões ignoradas, mas com certeza escusas e que não vêm agora ao caso, eliminou, suprimiu, enterrou e está contribuindo ativamente para o esquecimento da contribuição desses intelectuais da primeira metade do século passado à constituição de um acervo das grandes obras mundiais em tradução para o português. assim temos que oscar mendes, octavio mendes cajado, mario quintana, ligia junqueira, hernâni donato (este ainda entre nós), silvio meira, brenno silveira foram eliminados, suprimidos, tirados fora, aniquilados, exterminados, dos créditos de tradução.
pelo andar da carruagem, dentro em breve rachel de queiroz, carlos drummond, cecília meirelles, manoel bandeira também serão banidos dos créditos das traduções... mesmo que isso não ocorra, de qualquer forma o sumiço já perpetrado é mais do que suficiente para despertar uma imensa indignação entre quem preza a parca tradição cultural deste país, construída tão a duras penas.

o fato é tanto mais grave porque, aqui, não são práticas avulsas, motivadas por questões financeiras, de pequenas editoras desacreditadas, como a martin claret, e sim partem de uma empresa de grande porte com suposta credibilidade acumulada ao longo de décadas junto ao público leitor brasileiro.

assim, a meu ver, seria da máxima e mais premente importância que a nova cultural devolvesse o que é de direito a quem é de direito, ou seja, no mínimo publicasse uma espécie de errata pública nos principais meios de comunicação do país (nem seria o caso de tentar se justificar ou se penitenciar), apresentando os devidos créditos de tradução desses grandes clássicos e assim restituindo a verdade.

além de restituir a verdade, num gesto de decência básica e fundamental, uma atitude pública da nova cultural, no sentido acima exposto, certamente ajudaria a coibir a continuidade dessa prática inominável e permitiria que a história e memória da tradução literária neste país deixasse de ser tão brutalmente adulterada.

por isso dirigimo-nos ao sr., para pedir apoio a esse protesto. o sr. poderá ver outros elementos em nosso blog, http://assinado-tradutores.blogspot.com


atenciosamente,

denise bottmann


É uma preocupação válida, Denise. Seria no entanto interessante também pesquisarmos a fundo essa prática inominável para sabermos quais são as qualificações de Rachel de Queiroz em sueco, para traduzir Verner von Heidenstam, ou em russo para traduzir Dostoievski. Onde Drummond de Andrade estudou norueguês para traduzir Knut Hamsun? Desde quando Cecília Meirelles conhecia suficientemente bengali para traduzir Rabindranath Tagore? Onde Manoel Bandeira estudou persa para traduzir Omar Khayyam?

Quinta-feira, Janeiro 24, 2008
 
GUSTLOFF VOLTA À TONA



Aos 30 de janeiro de 1945, um submarino soviético lançou três torpedos contra o transatlântico Wilhelm Gustloff, que na ocasião estava aparelhado como navio-hospital e transportava 10.582 alemães, entre passageiros e tripulantes, que fugiam do avanço do Exército Vermelho. Mais de nove mil pessoas morreram no mar, quase seis vezes mais do que no naufrágio do Titanic. Se o Titanic afundou em razão de um acidente, o afundamento do Gustloff foi um massacre cometido a sangue frio.

Durante décadas, o episódio permaneceu sepultado sob um mar de silêncio. Fora um filme de 1959, do cineasta alemão Frank Wisbar - Nacht fiel über Gotenhafen – e uma menção no livro Im Krebsgang (Passo de Caranguejo), 2002, de Günter Grass, a tragédia permaneceu esquecida no século passado. Pelo jeito, foi preciso que o Muro de Berlim fosse derrubado e que a União Soviética desmoronasse, para que o assunto voltasse à tona.

Estreou ontem na Alemanha, com a presença da chanceler Angela Merkel, um filme produzido pela televisão pública alemã ZDF e dirigido por Joseph Vilsmeier – Gustloff – que evoca a tragédia. O filme será transmitido pela ZDF em 02 e 03 de março vindouro. As viúvas do Kremlin já estão pondo as barbas de molho. Para o deputado Dietmar Barsch, do Partido de Esquerda, o filme está eivado de clichês.

Falta agora filmar o afundamento do Altalena, a mando de Yitzhak Rabin, que resultou na morte de mais de cem judeus.

 
QUEM FINANCIA O ASTRÓLOGO?



Anselmo Heidrich está se propondo a um trabalho interessante, a desmitisficação de dois engodos da imprensa eletrônica nacional, o jornal Mídia sem Máscara e seu mentor, o sedizente filósofo e astrólogo Olavo de Carvalho. Sedizente filósofo porque se pretende como tal. Astrólogo por ofício, já que escreveu três ou quatro livros de astrologia, que curiosamente prefere nem mais citar em sua bibliografia. Aliás, o “filósofo” parece ter desistido de definir-se como astrólogo, pois em seus créditos já não acrescenta o antigo ofício. Quando a profissão é infamante, melhor declarar-se bailarina.

Ok! Filósofo não é profissão regulamentada, como muito menos a de astrólogo, psicanalista ou ornitologista. Assim, quem quiser anunciar-se como filósofo, astrólogo, psicanalista ou ornitologista, esteja a gosto. Nihil obstat!

Como leitor que um dia teve algum apreço por Olavo de Carvalho e ex-colaborador censurado do Mídia sem Máscara, presto meu depoimento. Gostei de seu livro O Imbecil Coletivo. Quando Olavo o autografou na livraria Cultura, em São Paulo, fui lá prestigiá-lo. O autógrafo veio eivado daquela simpatia impessoal que os autores dedicam a um leitor quando não querem comprometer-se. Li também o Imbecil Coletivo II, menos interessante que o primeiro, como todas as suítes de filmes. Acabei sabendo que meu livro sobre a Suécia, O Paraíso Sexual-Democrata, fora citado em O Jardim das Aflições. Até hoje não entendi porquê. Meu livro nada tem a ver com o que pretende ser um tratado de filosofia.

Tratado de filosofia, umas ovas. Olavo irritou-se com uma palestra de um certo José Américo Motta Pessanha sobre Epicuro, proferida no MASP, em maio de 1990, e escreveu um livro inteiro para contestar o autor. Na verdade, quem Olavo não suporta é Epicuro,o filósofo de Samos que se opôs às concepções fundamentais dos estóicos, platônicos e peripatéticos, aproximando-se dos cirenaicos, movido por uma dupla necessidade: a de eliminar o temor aos deuses e a de desprender-se do temor da morte. Segundo Ferrater Mora, “o primeiro se consegue declarando que os deuses são tão perfeitos que estão além do alcance do homem e de seu mundo; os deuses existem (pois, contrariamente à opinião tradicional, Epicuro não era ateu) mas são indiferentes aos destinos humanos. O segundo se consegue advertindo que enquanto se vive não se tem sensação da morte e quando se está morto não se tem sensação alguma. (...) A felicidade se consegue quando se conquista a ataraxia, não para insensibilizar-se por completo, mas para alcançar o estado de ausência de temor, de dor, de pena, e de preocupação”.

É claro que este tipo de filosofia não pode servir a um astrólogo que, manipulando a superstição, quer exercer poder sobre seus semelhantes. Quem não teme a morte não teme deuses nem astros. O divertido em tudo isso é que, Olavo, irritado com o Pessanha, escreveu um livro inteiro sobre sua palestra. Ora, invejo o Pessanha. Adoraria um ouvinte assim irritado. Se cada palestra minha tivesse gerado um livro, minha bibliografia hoje seria vasta. Caso típico de um tiro que saiu pela culatra.

O autor de O Jardim das Aflições revela-se mais com vocação para garçom do que para ensaísta. Elabora sofisticados coquetéis de idéias que nada têm a ver com pensamento. Mistura todo tempo filosofia e teologia e chega a proferir este despautério: “O sábio deve, por um lado, obediência às leis e costumes, caso não deseje ser excluído da comunidade humana; deve-a, por outro lado, ao Deus verdadeiro, do qual a comunidade só conhece analogias e símbolos distantes, cristalizados em ritos e mandamentos cujo sentido se perdeu”.

Que Deus verdadeiro? Teria lido o pretenso teólogo algum dia a Bíblia? Até Jeová acreditava em outros deuses, tanto que mandava destruir seus altares. Os jeovistas contemporâneos são mais jeovistas que Jeová, acham que deus é um só. Jeová não achava. Aliás, esse gambito do astrólogo é muito safado. Professa um cristianismo abstrato, manifesta sua fé no tal de Altíssimo, sem jamais dizer à qual confissão de fé pertence. Aparentemente, é a fé católica. Mas o astrólogo não pode afirmá-la, sob pena de incoerência. Ninguém pode ser católico tendo tido três mulheres. Muito menos ser astrólogo e católico ao mesmo tempo. Então, fica professando aquele cristianismo indefinido, que só convence quem adora ser convencido – para não ter de comprometer-se. Em suma, um arremedo de Nostradamus que vive de mascambilhas. Nós, ateus, podemos ter uma, dez ou vinte mulheres. Católico só pode ter uma só.

Católicos, hoje, têm se mostrado mais enrustidos que homossexuais dentro do armário. Se homossexualismo se tornou uma opção comportamental, a fé católica é mais difícil de sustentar. Essas empulhações de mãe virgem, de deus-três-em-um, de Cristo que ressuscitou, de vinho que vira sangue, de pão que vira carne, já não convencem nem mesmo os cristãos.

De escritor de textos lúcidos contra as esquerdas, Olavo de repente descambou para aiatolices. O Mídia sem Máscara seguiu o chefe. Quando escrevi sobre as práticas medievais da Opus Dei aqui em São Paulo, recebi advertência do editor Paulo Diniz. Que não era bem assim, etc e tal. Quando escrevi que Cristo nascera em Nazaré, mas não em Belém – questão que sequer constitui dogma – fui censurado. Hoje o Vaticano mostra um presépio na praça de São Pedro, onde Cristo nasce em Nazaré. Se o Vaticano mandar um artigo para o Mídia sobre o assunto, certamente será censurado. Quanto a algum artigo do Bento, talvez passe. Neste Natal passado, enquanto o Vaticano afirmava o nascimento do Cristo em Nazaré, o Bento falava em Belém. Pelo jeito, está faltando comunicação interna na Santa Sé.

É curioso observar que o Mídia – que, bem ou mal, acaba se professando católico ou algo por el estilo – não escreveu uma linha sobre a visita do papa a São Paulo. Pelo jeito, temos cisma à vista. Quem sabe o Olavo cria uma seita. Dá grana a granel – os pastores da Renascer ou da IURD que o digam – e assim Olavo não precisaria pedir esmola a seus discípulos para sustentar suas vilegiaturas na Virginia. Também é curioso observar que Olavo, defensor incondicional da cristandade, nunca disse sequer uma palavrinha contra as práticas hediondas do islamismo, como a ablação do clitóris e a infibulação da vagina.

Padre não briga com padre. Muito menos astrólogos com teólogos. O ofício é o mesmo. Como escreveu Anselmo, “o Mídia Sem Máscara hoje é um site que detém elementos claramente totalitários. E isto parte da chamada “filosofia de Olavo de Carvalho”. Mas, seu maior erro é se julgar “sem máscara” enquanto que, na verdade, apresenta dois rostos: um anticomunista e outro tão totalitário quanto o comunismo, o do fundamentalismo religioso em campanha contra o estado laico e a pluralidade de opiniões intrínseca à democracia. (...) E não diferencio isto de um lixo como Carta Capital ou Caros Amigos”.

Mantive longos debates com alguns meninos da comunidade Mídia sem Máscara, no Orkut. Todos se manifestavam católicos, mas pouco ou nada entendiam de teologia ou doutrina da Igreja. Em boa parte, defendiam a Inquisição. Mais ainda: mantinham uma postura de quem se atribuía direitos sobre a orientação do jornal. Muito estranho.

A pergunta que permanece é esta: quem financia o Mídia sem Máscara? Porque o jornal tem algum custo de edição. Seus redatores não recebem nada. Os editores recebem. Recentemente, a ministra petista Marina da Silva alinhou-se a Olavo de Carvalho na defesa do creacionismo. Quando tivermos esta resposta, saberemos a quem servem Olavo de Carvalho e seus acólitos.

Olavo estende o chapéu desde Virginia: “Estou pedindo a todos os meus leitores e amigos que me ajudem a fazer o que tenho de fazer. Doações pessoais ainda são permitidas e livres de impostos. Quem tiver sensibilidade e condições para isso, que faça uma contribuição por qualquer destes três meios, à sua escolha: “Para contribuições em dólares, por cartão de crédito, simplesmente clique o botão abaixo e siga as instruções (no formulário, em resposta ao item "payment for", escreva simplesmente "donation").

Ainda há poucos dias, o Mídia sem Máscara oferecia um curso de filosofia ministrado pelo astrólogo em Virginia, por módicos três mil e poucos dólares. Parece que o site tomou vergonha: o anúncio do curso não está mais lá.

Ora, alguém acredita que leitores financiarão um guru nos States? Guru brasileiro? Para isto é preciso manipular altos níveis de vigarice, oriundos de países que têm prestígio místico. Falo de Bento XVI, Osho, Dalai Lama, Deepak Chopra.

Não é empreitada para campineiro. Resta então a pergunta: quem financia o astrólogo?

Quarta-feira, Janeiro 23, 2008
 
EM RITMO DE GANSO



A estupidez pátria não dá trégua. Se um dia lemos uma notícia alvissareira, como a do juiz catarinense que vetou a prática racista de cotas para negros na Universidade de Santa Catarina, no mesmo dia os jornais nos oferecem um parecer da Consultoria Jurídica do Ministério da Previdência, que garante cobertura previdenciária a invasores de terra que estejam trabalhando em área invadida, incluindo terras públicas. A medida foi aprovada pelo ministro Luiz Marinho. Os bandoleiros da guerrilha católica do MST podem agora usar o tempo de atividade rural para se aposentar.

Num país que aposentou regiamente os celerados comunistas que queriam transformar o Brasil em uma republiqueta soviética, nada mais coerente. Urge agora estender o benefício aos demais trabalhadores que tocam a economia do país: contrabandistas, bicheiros, apontadores do bicho, traficantes de drogas, soldados do tráfico e outros profissionais da economia informal. Esse povo trabalha duro, gente! Não podem ficar a descoberto do guarda-chuva previdenciário.

E assim marcha o Brasil. Em ritmo de ganso. Um passo, uma cagada.

 
CENSOR CENSURA AUTOCENSURA



Vá lá se saber o que se passa na cabeça dos jovens. Algumas horas após minha postagem infra, Diogo, o Chiuso, repôs seu artigo no site. Alguns desafetos se espantam porque levo adiante esta discussão com "um menino inseguro".

O problema não é o menino inseguro. O problema é a censura. Que a censura exista nos jornalões, se entende. Em um grande jornal, há muitos interesses em jogo, desde os econômicos aos políticos e ideológicos. A Internet inaugura a verdadeira idade da livre expressão: não há razões para censurar um blog, cuja produção não depende de publicidade nem de capital algum.

Por outro lado, censura é coisa de religiosos dogmáticos e ditadores. Que Fidel Castro, Hugo Chávez e Olavo de Carvalho exerçam censura é perfeitamente compreensível. O Mídia sem Máscara, por exemplo, aos poucos foi se tornando um reduto papa-hóstias. Não me parecia ser o caso de O Expressionista.

No entanto, era. Em recente resposta a um artigo de Anselmo Heidrich, no qual o articulista denuncia o fundamentalismo de Olavo de Carvalho e a defesa da Inquisição por um de seus discípulos, um leitor faz uma velada defesa do Santo Ofício: "Vocês querem discutir o passado, condenar a Igreja no mesmo momento em que querem considerar burrice ter uma religião. Ou tentar responsabilizar os católicos de hoje pela Inquisição. É a mesma coisa dos negros culparem os brancos de hoje pelo que houve no passado. Não tem sentido. Depois, cansa esse negócio de criticar a fé alheia. Vá procurar o que fazer".

Tem sentido, sim senhor. "A luta pela memória é a eterna luta do homem contra o poder" - escreveu Milan Kundera. Além do mais, no dia em que não se puder criticar a fé, seja qual fé for, teremos voltado aos dias sombrios da Idade Média, ao que parece vistos com terna nostalgia pelo leitor.

E essa agora! A novel teóloga Marina da Silva e Olavo de Carvalho empenhados no mesmo combate, a defesa do creacionismo. Estranhos canais subterrâneos unem a ministra petista e o astrólogo da direita.

 
CENSOR SE AUTOCENSURA



Diogo, o Chiuso, superou-se. Em sua fúria censória, deleteu artigo de sua própria lavra em O Expressionista, onde, entre outras gentilezas, me chamava de moleque birrento, velho babão e mocinha impúdica, assim mesmo, com acento. O menino que acusava os jornalistas brasileiros de desconhecerem o português sequer sabe acentuar. Em seu destempero verbal, Diogo, o Chiuso, equipara-se a Olavo de Carvalho, Hugo Chávez e Reinaldo Azevedo. Filhote de Olavo, Olavinho é.

O artigo já tinha 25 respostas e o Chiuso as deletou todas, demonstrando total desconsideração para com seus leitores. Entre as várias mensagens, algumas eram bastante desfavoráveis ao autor, que agora se revela como é: um dogmático que não aceita críticas. E que não consegue sustentar sequer por 48 horas um artigo de sua própria autoria.

Como dizia Nelson Rodrigues: "Envelheçam, jovens. Envelheçam antes que seja tarde".

Terça-feira, Janeiro 22, 2008
 
MAIS DOIS JUÍZES SENSATOS



Me escreve Érico Hack:


Caro Janer

Felizmente o Juiz Federal de SC não é pioneiro.

Antes dele (em 2004) o juiz federal Mauro Spalding (na época substituto da 7ª Vara Federal de Curitiba) já havia proibido as quotas no vestibular da UFPR: http://conjur.estadao.com.br//static/text/31667,1

Recentemente, também em Curitiba e contra a UFPR, a juíza federal substituta Giovanna Mayer deu sentença favorecendo estudante:
http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/educacao/conteudo.phtml?id=730311

Abraços

Érico

 
MILAGRE EM SANTA CATARINA:
UM JUIZ DOTADO DE BOM SENSO



Diz o artigo 5º da Constituição Federal: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:”

Seguem-se 77 itens e outros tantos subitens. No entanto, desde há anos, o caput do artigo vem sendo solenemente desrespeitado por unidades federais e estaduais, que usam um critério flagrantemente racista na seleção de seus vestibulandos: negros e índios contam mais pontos que brancos. Este recurso sórdido, importado dos Estados Unidos, não é só racista como também estimula a luta racial. Coloque-se na situação de um aluno branco e pobre, que fez das tripas coração para passar em um vestibular, passa no vestibular e no entanto é rejeitado pela universidade... porque não é preto. É óbvio que este jovem, se antes não tinha restrição alguma a negros, agora passará a ter.

Muita água rolou sob as pontes antes que um juiz corajoso prolatasse uma sentença sensata. Aconteceu em Santa Catarina, onde a Justiça Federal suspendeu o sistema de cotas raciais e sociais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Através de uma medida cautelar, o juiz federal substituto Gustavo Dias de Barcellos argumentou que qualquer medida que estabeleça critérios étnicos ou socioeconômicos para ingresso no ensino público superior deve depender de uma lei específica. Na sua interpretação, a direção da universidade não tem autonomia para decidir de quem serão as vagas. A sentença também determina que as vagas sejam ocupadas pelos estudantes que foram aprovados, por ordem de classificação.

Claro que a questão está longe de ser encerrada. A Reitoria da UFSC vai recorrer. Conhecendo os bois com que lavro, imagino que a sentença do juiz seja reformada. De qualquer forma, sempre é bom constatar que neste país nosso – que adora adotar os piores modelos do estrangeiro – alguém ainda conserva um sólido senso de justiça.

Já escrevi muitas páginas sobre a injustiça do sistema de cotas. O que os negros que o defendem ainda não entenderam é que estão caindo em uma armadilha futura. Na hora de disputar no mercado, quem vai querer um profissional que entrou na universidade pela porta dos fundos? Até há pouco, se tinha de recorrer aos serviços de um advogado, médico ou destino, a cor da pele não me interessava. Agora passa a interessar.

Nada de novo tenho a dizer sobre a questão. Reproduzo então artigo que escrevi há cinco anos. No Brasil, não teve muita repercussão. Traduzido nos Estados Unidos, onde racismo é regra, provocou um acirrado debate entre universitários negros. Um deles chegou a escrever-me uma resposta de 48 páginas.

 
ARMADILHA PARA NEGROS



Ainda há pouco, os movimentos negros brasileiros reivindicavam a eliminação do item cor nos documentos de identidade. Com a malsinada lei de cotas que hoje assola o ensino superior, os negros insistem em declarar a cor na inscrição no vestibular. Estes mesmos movimentos negros sempre consideraram que qualquer critério supostamente científico para determinar a cor de alguém é racista. Quem então é negro para efeitos legais? No caso da lei estadual no Rio e do projeto de lei federal, o critério é o da auto-declaração. Pardo ou negro é quem se considera pardo ou negro, mesmo que branco seja. Ora, neste país em que impera a chamada lei de Gérson, não poucos brancos se declararam negros no último vestibular da UERJ, a primeira universidade pública brasileira a estabelecer o sistema de cotas. Grita dos líderes negros: vamos determinar cientificamente quem é branco e quem é negro e processar os brancos que se declaram negros. Ou seja, as palavras de ordem da afrodescendentada são mais cambiantes que as nuvens. Mas mudam num só sentido, na direção de obter vantagens para os negros, não só dispensando méritos como também passando por cima dos eventuais méritos de quem se declara branco.

O atual presidente da República está longe de ser o primeiro apedeuta a assumir o poder neste país. Câmara e Senado estão repletos de analfabetos jurídicos, que nada entendem da confecção de leis nem sabem sequer distinguir lei maior de lei menor. Embalados por palavras de ordem estúpidas, em geral oriundas dos Estados Unidos, criam leis irresponsáveis, com a tranqüilidade de quem não precisa prestar contas a ninguém. É o caso da lei de cotas. Só agora, após o vestibular da UERJ e de uma enxurrada de ações judiciais, argutos analistas descobriram que a famigerada lei fere o artigo 5º da Constituição: "todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza."

Não bastasse esta tremenda mancada jurídica, que daqui para frente só servirá para entupir ainda mais os já entupidos tribunais - gerando grandes lucros aos advogados, os reais beneficiados pela lei de cotas - o presidente da República, mal assumiu o poder, sancionou lei que obriga a inclusão da temática História e Cultura Afro-brasileira no currículo oficial da rede de ensino Fundamental e Médio. As aulas abordarão desde a história da África e dos africanos até a luta dos negros no Brasil. A medida é de um racismo evidente. E por que não a História de Portugal e a luta dos portugueses no Brasil? Ou a história da Itália e as lutas dos italianos? Ou a história do Japão e a luta dos japoneses? O Brasil é um cadinho de culturas e a contribuição africana a seu desenvolvimento está longe de ser a única ou a mais importante. O estudo da história afro-brasileira tem no entanto suas complicações.

Para os próceres do movimento negro, não basta historiar a cultura afro-brasileira. É preciso embelezá-la. É o que se deduz da proibição do livro Banzo, Tronco e Senzala, de Elzi Nascimento e Elzita Melo Quinta, na rede pública do Distrito Federal por ordem do governador Joaquim Roriz, em acatamento ao pedido do senador petista Paulo Paim. Um garoto teria ficado impressionado com as informações contidas no livro dizendo que os "negros perdiam a condição humana assim que eram aprisionados na África para se tornarem simples mercadoria à disposição dos brancos" e que aprisionar os negros não era difícil. "Principalmente, depois que os traficantes passaram a contar com o auxílio de negros traidores que prendiam elementos de sua própria raça em troca de fumo, cachaça, pólvora e armas."

"Qual é a auto-estima de uma criança negra quando recebe um livro que diz que, se seu povo um dia foi escravo, os culpados foram os negros, e não os europeus da época, mercadores de escravos?" - pergunta Paim. O deputado parece ignorar - ou propositadamente omite - o fato de que a escravidão não é invenção dos europeus. Ela já está na Bíblia e em momento algum é condenada pelos profetas ou patriarcas. Nem mesmo Paulo, reformador do Livro Antigo, a condena. Foi norma na Grécia antes de a Europa existir. Séculos antes de o primeiro navio negreiro europeu aportar no continente africano, ela lá já existia, sem a interferência do Ocidente. O presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, que o diga. Comentando as reivindicações dos movimentos negros, identificou-se como descendente de uma rica família de senhores de escravos e perguntou se alguém iria pedir-lhe indenização. Ainda bem que não o fez em jornais do Distrito Federal, ou seria censurado pelo governador Joaquim Roriz.

Que os chefes tribais negros facilitavam a tarefa dos negreiros, vendendo escravos de outras tribos, isto tampouco é ignorado. Vendiam e continuam vendendo até hoje, em pleno século XXI. Na Mauritânia, Sudão e Gana, no Benin, Burkina Fasso, Mali e Niger, a escravidão ainda persiste como nos tempos dos navios negreiros. Ano passado, a GNT mostrava brancos europeus comprando escravos no Sudão. Não que fossem negreiros. Eram representantes de Ongs européias, que compravam negros para libertá-los. O propósito pode ser nobre. Mas toda procura gera oferta e os dólares dos ongueiros só serviram para estimular o tráfico de escravos. Esta é a história da África. E se algum autor relega a escravidão para tempos passados, o livro está desatualizado.

A nova lei assinada pelo presidente da República acrescenta ao calendário escolar o dia da morte de Zumbi (20 de novembro) como o Dia Nacional da Consciência Negra. Esta ambição patrioteira de ter heróis, típica de países subdesenvolvidos, levou políticos negros a elegeram Zumbi como herói da raça. Ora, é sabido que os quilombos faziam escravos brancos. Como é que ficamos? Irão as autoridades censurar qualquer livro que ateste esta condição de escravagista de Zumbi?

Ao defender os sistemas de cotas na universidade, os negros caíram em uma tosca armadilha. Podem hoje ter facilidades na obtenção de um diploma. Mas quem, amanhã, irá contratar os serviços de profissional que entrou na universidade pela porta dos fundos? Ao exigir a inclusão da história africana nos currículos, caíram em armadilha mais sofisticada. A história da África é a história das guerras tribais e da escravidão, da lapidação por adultério, da mutilação física como punição e da mutilação sexual como costume. Democracia, direitos humanos, liberdade de imprensa, emancipação da mulher, são instituições desconhecidas no continente. Seis mil meninas têm o clitóris extirpado, diariamente, em vinte países do Oriente Médio e da África. Por barbeiros locais ou parteiras, com instrumentos não esterilizados.

A África, até hoje, está mais para Idi Amin Dada do que para Mozart. Mais para Bokassa que para Einstein. Estudar sua história, seja a passada, seja a presente, não leva criança alguma a nenhuma auto-estima.



SOBRE IDI AMIN DADA E MOZART


Em crônica passada, comentei o sistema de cotas para negros na universidade e o estudo obrigatório da História africana nas escolas brasileiras. O artigo rendeu uma saraivada de mensagens, em geral iradas, nas quais invariavelmente sou acusado de racista. “A doença do racismo é uma invenção européia” – escreve um dos leitores – “Você não pode infetar uma pessoa com a doença sem esperar ficar doente. Seu artigo mostra a doença que você ainda tem”. Tantas foram as objeções, que responder a todas é impossível. Atenho-me então a comentar os pontos mais recorrentes, como racismo, sistema de cotas, escravidão e história da África. Deixo de lado minha surpresa ao tomar conhecimento de que os hutus e tutsis que se cortam aos pedaços em Ruanda estão contaminados por uma invenção européia.

Comecemos por meu suposto racismo. Nasci no Rio Grande do Sul, Estado que, por sua forte colonização européia, tem a fama de ser o Estado mais racista do Brasil. Apesar de ser constituído por uma expressiva maioria branca, foi o primeiro Estado do país a eleger um governador negro, Alceu Collares. Ora, nem a Bahia, Estado majoritariamente negro, teve um governador negro. Collares não só foi governador, como também prefeito de Porto Alegre, capital também majoritariamente branca. Antes de ser prefeito da capital gaúcha, foi prefeito de Bagé, cidade da fronteira oeste do Rio Grande do Sul, onde os brancos constituem maioria esmagadora.

Desde minha infância, de meus estudos primários aos universitários, convivi afavelmente com negros. Em meus anos de Porto Alegre, por noites a fio participei da mesa de Lupicínio Rodrigues, no bar da Adelaide, e por ele sempre nutri admiração. Lupicínio – que compôs os mais belas letras de samba do Brasil – era universalmente querido pelos gaúchos. Hoje, noto que tive entre os negros bons amigos. E por que hoje? Porque na época nem notava que eram negros. Com o acirramento recente da luta racial, passamos a conviver com pessoas que insistem em se definir como negras, quando nem cogitávamos de que o fossem.

Entre os mails recebidos, sou acusado de defender a tese de que no Brasil não existe racismo. De certa forma, a defendo. Algum racismo existe entre nós, ou humanos não seríamos. Mas jamais ao nível dos EUA ou países europeus. O negro, quando rico ou bem-sucedido, é estimado e mesmo invejado no Brasil. Milhões de brancos brasileiros se sentiriam sumamente honrados sendo fotografados junto a um Pelé. O rechaço existe em relação ao negro pobre ou miserável. Neste caso, o fator de distanciamento não é a negritude do negro, mas sua miséria. Exceto padres católicos e assistentes sociais, ninguém gosta de miséria. Nem negro gosta de negro pobre.

Nunca tivemos, no Brasil, leis proibindo a negros qualquer direito. As chamadas leis Jim Crow, declaradas inconstitucionais pela Suprema Corte americana em 1954, constituíram a partir de 1880 a base legal da discriminação contra negros nos Estados do Sul, proibindo até mesmo um estudante passar um livro escolar a outro que não fosse da mesma raça. No Alabama, nenhum hospital podia contratar uma enfermeira branca se nele estivesse sendo tratado um negro. As estações de ônibus tinham de ter salas de espera e guichês de bilhetes separados para cada raça. Os ônibus tinham assentos também separados. E os restaurantes deveriam providenciar separações de pelo menos sete pés de altura para negros e brancos. No Arizona, eram nulos casamento de qualquer pessoa de sangue caucasiano com outras de sangue negro, mongol, malaio ou hindu. Na Florida, proibia-se o casamento de brancos com negros, mesmo descendentes de quarta geração. Neste mesmo Estado, quando um negro compartilhasse por uma noite o mesmo quarto que uma mulher branca, ambos seriam punidos com prisão que não deveria exceder 12 meses e multa até 500 dólares. Na Geórgia, cerveja ou vinho tinham de ser vendidos exclusivamente a brancos ou a negros, mas jamais às duas raças no mesmo local. No Mississipi, mesmo as prisões tinham refeitórios e dormitórios separados para prisioneiros de cada raça. No Texas, cabia ao Estado providenciar escolas para crianças brancas e para negras. As leis Jim Crow explicam a mauvaise conscience ianque, que se traduziu na ação afirmativa.

Brasileiros, desconhecemos este racismo institucionalizado. Negros e brancos casam-se com brancas e negras, bebem e comem nos mesmos restaurantes, estudam e confraternizam nos mesmos bancos escolares. Se há menos negros que brancos na universidade, isto se deve a fatores econômicos, mas jamais legais. O branco pobre – e eles são legião – tem a mesma dificuldade de acesso aos bancos universitários que o negro pobre. O negro rico – e eles também existem – tem a mesma facilidade de acesso que o branco rico. É inteligível o ódio que um negro americano possa sentir por um branco americano. Não há no entanto razão alguma para que este ódio seja exportado ao Brasil. Neste país, do ponto de vista legal, o negro nunca foi discriminado.

O Brasil costuma importar as piores práticas do Primeiro Mundo, costumo afirmar. No censo de 2.000, quase sete milhões de norte-americanos, pela primeira vez, foram autorizados a identificar-se como integrantes de mais de uma raça. As categorias inter-raciais mais comuns citadas foram branco e negro, branco e asiático, branco e indígena americano ou nativo do Alasca e branco e "alguma outra raça". Os Estados Unidos deixam de lado a one drop rule, pela qual um cidadão é considerado negro mesmo que tenha uma única gota de sangue negro em sua ascendência, e descobrem o mestiço.

Enquanto os Estados Unidos reconhecem a multi-racialidade, alguns movimentos negros no Brasil pretenderam que até os mulatos se declarassem negros no último censo. O propósito é óbvio, exercer pressão legislativa. A população negra do Brasil, em 99, era de apenas 5,4%. Com o acréscimo de 39,9% do contingente de mulatos, o Brasil estaria perto de ser definido como um país majoritariamente negro, como aliás é hoje considerado por muitos americanos e europeus. O presidente José Inácio Lula da Silva, em sua já proverbial incultura, caiu nesta armadilha, ao afirmar que o Brasil é a segunda nação negra do mundo. Não é. Negro é minoria ínfima no Brasil. A menos que, como fizeram os EUA, se pretenda negar este espécime híbrido, o mulato.

Quando os americanos descobrem o mestiço, os ativistas negros brasileiros querem eliminá-lo do panorama nacional. Em uma imitação servil da imprensa ianque, os jornais tupiniquins passam a usar o termo afrodescendente para definir a população que o IBGE classifica como negra ou parda. Mas se um negro é obviamente afrodescendente, o pardo é tanto afro como eurodescendente. A adotar-se a nova nomenclatura, sou forçado a declarar-me eurodescendente. E não vejo nisso nenhum desdouro.

A palavra racismo, pouco freqüente na imprensa brasileira em décadas passadas, passou a inundar as páginas dos jornais a partir da queda do Muro de Berlim. Apparatchiks saudosos da Guerra Fria, vendo desmoralizadas suas bandeiras de luta de classes, proletariado versus burguesia, trabalho versus capital, trataram logo de encontrar uma nova dicotomia, para lançar irmãos contra irmãos. Existem negros e brancos no Brasil? Maravilha. Vamos então lançá-los em luta fratricida. Criaram-se leis absurdas que, a pretexto de combater o racismo, só servem para estimulá-lo. Hoje, no Brasil, se você insultar um negro, incorre em crime com prisão firme e sem direito à fiança. Mas se matar um negro, a lei é mais leniente. Se você for primário, pode responder ao processo em liberdade. Ou seja: se você, em um momento de ira, insultou um negro e quer escapar de uma prisão imediata, só lhe resta uma saída: mate-o. Segundo a lei absurda, assassinato é menos grave que ofensa verbal.

Vamos às cotas. Em virtude deste hábito nosso de importar do Primeiro Mundo seus piores achados, acabamos instituindo as cotas raciais na universidade. Mais uma dessas tantas leis que fabricam racismo. Como pode um jovem pobre e branco encarar sem animosidade um negro que lhe tomou a vaga na universidade, só porque é negro? Quando o juiz federal Bernard Friedman determinou o fim da política de ação afirmativa da faculdade de Direito da Universidade de Michigan, os americanos começaram a perceber que a política de cotas era uma péssima idéia. Em 1977, a estudante branca Barbara Grutter abriu processo depois de não ter sido aceita pela faculdade de Direito. Para Friedman, levar em consideração a raça dos estudantes como fator para decidir se os aceita ou não é inconstitucional. Segundo o juiz, a política de ação afirmativa da faculdade assemelha-se ao sistema de cotas, que determina que uma certa porcentagem de estudantes pertença a grupos minoritários. Ao ordenar que a faculdade deixe de praticar essa política, escreveu: “Aproximadamente 10% das vagas em cada turma são reservadas para membros de uma raça específica, e essas vagas são retiradas da competição”.

Ano passado, o programa 60 Minutes entrevistou um professor que mostrava a injustiça do sistema. De 51 estudantes brancos candidatos a um programa da faculdade, apenas um foi aceito. Entre dez candidatos negros, foram aceitos os dez. A universidade adota uma espécie de lei Jim Crow às avessas, aceitando qualquer candidato negro e recusando brancos. Quando os americanos descobrem que a política de afirmação positiva não constituiu uma idéia boa ou justa, autoridades brasileiras aderem a esta política infame. Já existe projeto, aprovado Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara Federal, segundo o qual deverão ser escalados 25% de atores negros ou mulatos em peças de teatro, filmes e programas de televisão.

Só no teatro, o leitor já pode imaginar as peripécias de um diretor. Se pensa em encenar Ibsen ou Tchekhov, como inserir negros em contextos eslavos ou nórdicos? E se a peça tiver um só personagem? Pelo menos um quarto do monólogo terá de ser feito por um negro? Só mesmo no bestunto de um analfabeto poderia ocorrer esta pérola do politicamente correto. Quando os EUA passam a abandonar o sistema de cotas, deputados brasileiros querem adotá-lo até mesmo no universo do lazer.

Quando afirmei que negros capturavam negros na África, para vendê-los como escravos aos brancos europeus, não faltou interlocutor que alegasse que, se escravidão existia, é porque na Europa havia uma procura de escravos. Vários leitores jogaram sobre a Europa a pecha da escravidão. Tal atitude intelectual denota falta de leituras históricas. A escravidão é muito anterior à Europa. Ela já existe na Grécia socrática, quando Europa era apenas o nome de uma virgem raptada por Zeus, travestido em touro. Que mais não seja, a escravidão é vista como algo perfeitamente normal no livro que embasa o Ocidente.

Um leitor cita o Eclesiastes, quando Salomão fala de um homem que domina outro homem para arruiná-lo. Considera que esta declaração é universal, não se aplicando a uma raça, mas a todas as raças. E considera ser intelectualmente irresponsável invocar a Bíblia sem realçar este fato. O leitor esqueceu de ler o Êxodo:

“Quando comprares um escravo hebreu, seis anos ele servirá; mas no sétimo sairá livre, sem nada pagar. Se veio só, sozinho sairá; se era casado, com ele sairá a esposa. Se o seu senhor lhe der mulher, e esta der à luz filhos e filhas, a mulher e seus filhos serão do senhor, e ele sairá sozinho. Mas se o escravo disser: ‘eu amo a meu senhor, minha mulher e meus filhos, não quero ficar livre’, o seu senhor falo-á aproximar-se de Deus, e o fará encostar-se à porta e às ombreiras e lhe furará a orelha com uma sovela: e ele ficará seu escravo para sempre”. À semelhança de ativistas negros que não gostam de ouvir que chefes tribais africanos vendiam escravos aos brancos europeus, muitos católicos não gostam de ouvir que a Bíblia endossa a escravidão. Mas que se vai fazer? No Livro está escrito: “Se alguém ferir o seu escravo ou a sua serva com uma vara, e o ferido morrer debaixo de sua mão, será punido. Mas, se sobreviver um ou dois, não será punido, porque é dinheiro seu”.

O Levítico legitima a aquisição de escravos estrangeiros: “Os servos e servas que tiverdes deverão vir das nações que vos circundam; delas podereis adquirir servos e servas. Também podeis adquiri-los dentre os filhos dos hóspedes que habitam entre vós, bem como das suas famílias que vivem conosco e que nasceram na vossa terra: serão vossa propriedade e deixá-los-eis como herança a vossos filhos depois de vós, para que os possuam como propriedade perpétua. Tê-los-eis como escravos; mas sobre os vossos irmãos, os filhos de Israel, pessoa alguma exercerá poder de domínio”.

Ou seja, não há originalidade alguma no fato de a Europa ter sido escravista. Estava apenas seguindo os ditames do livro que a embasa. A escravidão percorre o Livro de ponta a ponta, só não vê quem não quer ver. Portugal, país bom cristão, não deixaria de dar continuidade à tradição bíblica. Negros brasileiros exigem hoje indenizações milionárias da República, em nome da escravidão passada. Ocorre que o Brasil república não conheceu a instituição da escravatura. A Lei Áurea é de 1888 – coincidentemente da mesma época em que nos EUA vigiam as hediondas leis Jim Crow. A república foi proclamada em 1889. Se os negros querem indenização, a conta deve ser enviada a Portugal.

Existe hoje trabalho escravo no Brasil? Sim, existe. Mas nenhuma lei o legitima, pelo contrário. É crime e como tal é punido. Seria insensato de nossa parte negar a existência de nossas mazelas, em nome de um enjolivement da história pátria.

E aqui entramos no ponto que mais protestos provocou em meu artigo, a afirmação de que a história da África é a história das guerras tribais e da escravidão, da lapidação por adultério, da mutilação física como punição e da mutilação sexual como costume. Choveram e-mails citando feitos passados, antigas culturas e houve quem empunhasse o Egito como um dos expoentes da cultura negra. Não bastasse a tese furada de que Atenas era negra, vemos agora o Egito inserido no debate afro. De Dakar, um leitor me envia referências sobre Cheikh Anta Diop, estudioso senegalês que parte da idéia de que o antigo Egito faz parte da África negra.

Pode ser. Mas tal tese está longe de constituir unanimidade entre historiadores. Mesmo que assim fosse, de nada vale o argumento. Se um dia um hipotético Egito negro teve uma trajetória gloriosa, hoje não mais a tem. Essa trajetória foi em algum momento interrompida, e hoje o Egito vive a hora nada gloriosa do Islã. Que mais não seja, o antigo Egito era escravagista - os hebreus que o digam! - e isto tampouco depõe a favor da África.

Não faltou quem me acusasse de ser filho ingrato, afinal nossos ancestrais todos teriam surgido em solo africano. O argumento é contraproducente. Se todos de lá descendemos, foi preciso abandonar Mãe África para que o homem evoluísse. Que mais não seja, apegar-se a passados gloriosos de um país para alimentar auto-estima é doença de nacionalistas tacanhos. Pior ainda quando o apego é ao passado de uma etnia: estamos entrando na estreita fímbria que separa orgulho étnico de racismo. Antes de pertencermos a uma ou outra nação, a esta ou aquela etnia, pertencemos à raça humana.

Afirmei que estudar a história africana, seja a passada, seja a presente, não leva criança alguma a nenhuma auto-estima. Vejo que magoei muitos leitores. Inúmeros destes, munidos de um computador, enviaram suas mensagens por modem, em velocidade quase instantânea, via Internet. São pessoas alfabetizadas, o que neste nosso mundo já constitui privilégio. Em geral com curso superior, pelo que entendi. Usufruem das atuais facilidades de comunicação e da liberdade de expressão de pensamento nos países onde vivem. São nutridas por informação via satélite e podem acompanhar quase em tempo real os conflitos no planetinha, confortavelmente sentadas frente a um televisor. Certamente são usuárias de jatos e automóveis em seus deslocamentos, comem em bons restaurantes e foram formados em boas universidades. Ou seja, gozam do melhor do Ocidente.

Isto, caríssimos, não é herança africana. Que a África seja uma terna lembrança de um passado imemorial, vá lá. Hoje, não tem lição nenhuma a dar ao Ocidente. Quando na África existir eleições livres e democracia, noções de direitos humanos, imprensa e liberdade de imprensa, mulheres com os mesmos direitos que os homens, quando na África clitóris não mais sejam mutilados nem mulheres lapidadas, voltamos a conversar. A África trouxe contribuições à humanidade? Viva a África. O que não se pode, sob pena de falsificar a história, é ignorar suas mazelas presentes. Por enquanto, repito, a África está mais para Idi Amin Dada que para Mozart.

Quando alguém me fala da excelência de certas culturas primitivas, costumo lembrar de A Vida de Brian, dos Monty Python. Reunidos os conspiradores judeus, o líder pergunta: que nos trouxeram os romanos? Estradas, responde alguém. Certo. Mas além das estradas, que nos deram? Hospitais, responde outro. É! Mas que mais além das estradas e hospitais? Aquedutos, sugere um terceiro. E assim continua a discussão, até que sai um manifesto: apesar de nos terem trazido estradas, hospitais, aquedutos, escolas, esgotos, romanos go Rome!

Entendo o estudo da história como o estudo do acontecido. Não pode um historiador subtrair fatos só porque tais fatos são desonrosos à história de um povo. Durante todo um século – o passado – os comunistas construíram uma história fictícia para mostrar como paraíso o que em verdade era um inferno aqui na Terra mesmo. Não queiram os ativistas negros repetir esta infâmia. A do século passado ainda nos pesa e está longe de ser extirpada de nossa memória.



LUTA DE CLASSES MORTA, LUTA RACIAL POSTA



Em reposta a artigos que publiquei nesta revista (Brazzil), leio uma prolixa contestação de um acadêmico da Universidade de Michigan. Por apreço à síntese e ao leitor, tentarei ser breve. Não vou entrar na discussão de DNA ou fenótipos. Seria cair na armadilha da discussão sobre raça, conceito que até hoje não se conseguiu definir. Minha proposição inicial foi discutir racismo e leis que estimulam o racismo, o que é muito diferente. Se raça é algo impossível de determinar, racismo é algo muito palpável, e contamina tanto brancos como negros. Por um lado, a idéia de fenótipos é o caminho mais curto até sistemas como o nazista. Por outro, em nada me interessa que fenótipos portam as pessoas que me rodeiam. Tampouco vou responder, ponto a ponto, todas as objeções. Doze mil palavras é formato que não condiz com meu estilo. Vou me ater, nesta réplica, a alguns itens sobre este país em que nasci e vivo.

Mark Wells, militante da nova ideologia afrobrazilianista ianque, começa citando o doutor e sociológo Raimundo Nina Rodrigues: "the black race of Brazil... will always constitute one of the factors of our inferiority as a people”. Para começar, o tenho por etnológo e não sociólogo, mas isto é o de menos. Tal afirmação não corresponde ao que um brasileiro pensa sobre as populações negras no Brasil. Não tendo nunca os negros empunhado o poder político e administrativo da nação, jamais poderiam ter sido responsáveis por qualquer suposta inferioridade do país. Esta tese é de um racismo insólito, só concebível no bestunto de um acadêmico isolado em torre de marfim. O homem do povo, que vive e trabalha ombro a ombro com negros e mulatos, não pensa assim. Se inferioridade há, esta deve ser debitada aos brancos, que sempre tiveram o poder em mãos. Há quem afirme, isto sim, que nossas mazelas decorrem de termos sido colonizados por portugueses, e não por holandeses ou franceses. É possível. Mas história alternativa é disciplina espúria, que nada tem de rigor. Prefiro outra tese: nossas desgraças decorrem de termos sido colonizados por católicos. País protestante ou luterano, de modo geral, é sempre rico.

Cabe lembrar que Nina Rodrigues foi influenciado pelas idéias do conde de Gobineau, um dos precursores do racismo nazista, que esteve no Brasil entre 1869 e 1870. Este nobre francês aventou a exótica idéia de que a mistura de raças acabaria levando à pura e simples extinção da população brasileira. O médico baiano deixou-se deslumbrar pelo discurso da aristocracia gálica e considerou que toda e qualquer miscigenação resultaria inevitavelmente em desequilíbrio mental e degenerescência. Nina Rodrigues foi incumbido de analisar o crânio de Antônio Conselheiro. Considerou que, em se tratando de um mestiço, o morto era muito suspeito de ser degenerado. Você não pode, de forma alguma, Mr. Wells, interpretar a realidade brasileira a partir de considerações de um pensador racista influenciado por um precursor do nazismo. Seria como pedir a Hitler um parecer sobre a questão judia.

Mr. Wells afirma, citando pesquisa da Fapesp, que “the term pardo was developed as a way for the Brazilian government to hide the fact that it had such a high proportion of African descent people”. A afirmação é vaga. Qual governo? Em que época? Quais documentos baseiam tal afirmação? O autor da pesquisa citada não fornece nenhuma base documental à sua tese. É uma afirmação apoiada no vazio, o que depõe contra as qualificações acadêmicas exibidas pelo articulista. Pardo ou mulato quer dizer a mesma coisa e mulato é palavra antiga. Se você apanhar um Larousse, lá está: “Mulâtre, mulâtresse: homme ou femme de couleur, nés d'un d'un Noir et d'une Blanche”. A palavra vem do espanhol e data de 1544. Vamos ao dicionário de Maria Moliner: “se aplica al mestizo hijo de blanco y negro”. A distinção entre negro e mestiço não foi criada por governo brasileiro algum. Ela já existia há séculos em outras culturas.

Machado de Assis, o patrono da literatura brasileira, sempre foi considerado mulato. Estamos no século XIX. Os historiadores da literatura não o situam como negro, por uma simples razão: não era negro. É salutar que esta distinção seja feita, pois a fenômenos diferentes cabem denominações diferentes. Mesmo mulato, Machado conquistou a admiração da intelectualidade branca e universitária, como também um outro seu coetâneo, Lima Barreto. Estranho país racista este nosso, onde o vulto maior da Letras nacionais é um mulato.

Mr. Wells tem razão ao citar pesquisa do Censo mostrando que “the state of Bahia is approximately 25 percent white, 20 percent black and 55 percent mulato”. Folgo em saber que, pelo menos para efeito de argumentação, você aceita as definições do censo. Penintencio-me por ter afirmado “a definite black majority”. Seria mais preciso se dissesse “uma maioria de pretos e mulatos”. Mas isto não muda em nada o mérito da questão. O que afirmei é que o Estado da Bahia jamais fez um governador negro. Mesmo com o mais alto percentual de negros do país, com o mais alto contingente de negros e mulatos somados e com uma minoria de 25% de brancos. Ou seja, o eleitorado baiano é composto por três quartos de eleitores de cor. Porque só elege brancos? Para ativistas que tudo vêem sob a ótica do racismo, a resposta é constrangedora. Teriam pretos e mulatos preconceitos contra candidatos pretos e mulatos? Aliás, esta parece ser a característica fundamental dos negros que fizeram sucesso no futebol brasileiro. Tão logo se tornam ricos, escolhem loiras como suas mulheres.

Já no Rio Grande do Sul, Estado majoritariamente branco, tivemos o negro Alceu Collares eleito governador, em 1990. Você afirma: “It's also funny that you should mention Alceu Collares being elected governor. In 1993, in Vitória, state of Espírito Santo, a 19-year old black female college student named Ana Flávia Peçanha de Azeredo was assaulted and punched in the face by a 40-year old white woman and her 18-year old son over the use of an elevator in an apartment complex”. Ora, você não pode comparar um fait divers da crônica policial com a vontade de um eleitorado de nove milhões de habitantes (na época). Pesquisando melhor, é possível que você encontre mais casos semelhantes. Digamos que encontre dez, ou mesmo vinte. Não podem ser comparados à vontade de uma população de nove milhões, que tinha de escolher entre um candidato negro e dois outros brancos, e escolheu o negro. Collares, diga-se de passagem, tão logo tornou-se governador, teve a mesma atitude dos atletas negros. Trocou a fiel e negra Antônia que o acompanhara nos anos de vacas magras por uma loiríssima secretária.

“In Brazil, still today, maids must use the back service elevator while residents use public elevators”. Sua afirmação parece provir de quem conhece extensivamente o país todo, e não a de um pesquisador que esteve onze semanas na Bahia. Tivesse saído do gueto, veria por exemplo, que em todos os elevadores de São Paulo está afixada a transcrição de uma lei: "É vedado, sob pena de multa, qualquer discriminação em virtude de raça, sexo, cor, origem, condição social, porte ou presença de deficiência física e doença não contagiosa por contato social no acesso aos elevadores”. Você não encontrou este aviso na Bahia? Se não encontrou, é porque a Bahia, com seus 75 % de negros e mulatos, está ainda muito atrasada em matérias de leis contra a discriminação.

“With this in mind, let us also remember this when we walk the streets of Bahia (a 75 percent black state) and never see a black face on the cover of a magazine (except for Raça Brasil) or rarely see a black face on Brazilian television (except as criminals, maids, pagodeiros, futebol players). Com esta afirmação, você confirma minha antiga suspeita que a Bahia é um Estado onde o negro é racista em relação ao negro. Venha a São Paulo, onde a proporção negra é bem menor, e verá negros e negras como âncoras de televisão, animadores de programas, repórteres, redatores e colunistas em jornais. São Paulo, com seus mais de dez milhões de habitantes, é, ao lado do México, uma das maiores metrópoles latino-americanas. Ainda recentemente, teve como prefeito Celso Pitta, cidadão negro eleito em concorrência a candidatos brancos. Saiu do governo com a pecha de corrupto, mas isto é outra história. Mais recentemente, tivemos uma governadora negra no Rio, hoje ministra em Brasília *.

Você não pode afirmar, de forma alguma, que a televisão brasileira só mostra faces pretas quando se trata de “criminals, maids, pagodeiros, futebol players”. Ano passado, eu participava de uma festa em um condomínio de luxo (essas cidadelas fortificadas onde ricos – sejam brancos, sejam negros – se protegem da violência que toma conta do país) e, em dado momento, vi os participantes todos da festa, brancos e negros, se apertando para sair na foto junto a um negro. Como quase não assisto a televisão nacional, não imaginava de quem se tratasse. Soube mais tarde que era Nettinho, um dos mais famosos apresentadores do país.

Mas você ainda afirma: “It is truly a shame that in the year 2003 people continue to use Brazilian entertainers and athletes such as Pelé to try and down play the effects of racism in society. Many people use this same logic in the US. Just because you allow a black person to entertain you doesn't necessarily mean you would like for a person who looks like them to be your neighbor, marry your daughter or be president of your country”. Pode ser que assim seja nos Estados Unidos. Aqui, não. Os negros estão representados na Câmara de Deputados e no Senado, nas Câmaras de Vereadores e nos Ministérios, na magistratura, na universidade e na imprensa. Constituem minoria? É porque não contam sequer com o voto do grande contingente negro e mulato do país, pois neste país as eleições são livres e negros e mulatos votam. E até é bom que assim seja. A maior desgraça com que poderíamos ser brindados seria ter partidos baseados em raça. A idéia de que negro só vota em negro já roçou as mentes tupiniquins. Por enquanto, pelo menos, esta semente de nazismo foi esconjurada.

E os negros são nossos vizinhos e casam com nossas filhas, sim senhor! Ou não teríamos um população de quase 40% de mestiços. Há famílias que têm restrições a casamentos interraciais? E por que não? Alguma lei proíbe que uma família tenha preferências em relação a seus filhos? De qualquer forma, não vivemos em um país feudal, onde a vontade soberana do pater familias determina o destino dos filhos. Quanto a ser presidente da República, nada impede um negro de candidatar-se à suprema magistratura e tenho a firme convicção de que, mais dia menos dia, teremos um presidente negro. A este operário branco de extrema incultura que o país hoje elegeu, eu me sentiria muito melhor servido por um presidente negro que tivesse maiores luzes e experiência administrativa. A cor do presidente não me interessa. Interessa-me sua competência.

Você cita a participação de João Batista de Lacerda, em 1911, no I Congresso Universal das Raças, em Londres. Segundo o médico brasileiro, em um século de miscigenação, “black people would ultimately disappear from Brazilian society”. Sabemos que Lacerda ilustrou sua tese com o quadro A redenção de Can, de Modesto Brocos y Gomes, que pretendia registrar esse branqueamento mostrando como o cruzamento dos negros e seus mestiços com brancos diluía o sangue africano, gerando descendentes claros. Pela denominação do Congresso, você já pode deduzir que se vivia uma época em que o conceito de raça gozava de estatuto científico, o que hoje não mais se admite. No quadro de Brocos y Gomes, havia uma negra velha em gesto de preito, ao lado de uma mulata clara, mais um homem de traços ibéricos e uma criança, supostamente filha do casal, de pele clara, mostrando a progressão do negro ao branco. Ora, a obra de um pintor não pode ser fundamentação para quem pretende demonstrar uma tese na área de genética.

Citar Lacerda é o mesmo que citar o protonazista Nina Rodrigues. Se Gobineau – o guru de Nina Rodrigues – afirmava que a mistura de raças acabaria levando à pura e simples extinção da população brasileira, Lacerda é mais modesto: será extinta apenas a população negra. Não podemos hoje, em pleno século XXI, dar ouvidos a teorias desvairadas do século XIX, que aliás se revelaram em contramão da realidade. Ao afirmar que “Brazil's leaders chose to try and mix the African blood right out of the country” você está aceitando teorias conspiratórias que jamais existiram, exceto talvez na cabeça de algum racista – e estes sim existem. Mas nada, em sã consciência, autoriza alguém a afirmar que sejam os líderes brasileiros os responsáveis por esta teoria. Quem são esses líderes responsáveis por tão maquiavélica estratégia? Eu os desconheço. Quem defendeu quase histericamente a miscigenação, nos últimos anos, foi Darcy Ribeiro. Mas em defesa da negritude e não como instrumento de extinção do negro.

Em O Presidente Negro (1926), Monteiro Lobato, ciente das teses de Nina Rodrigues e Batista Lacerda, satiriza uma cientista americana, Miss Jane, que afirma ser o ódio a mais profunda das profilaxias. Impede que uma raça se desnature, descristalize a outra e conserva ambas em um estado de relativa pureza. “O amor matou no Brasil a possibilidade de uma suprema expressão biológica. O ódio criou na América a glória do eugenismo humano”. Não por acaso, o autor coloca na boca de uma norte-americana esta tese estapafúrdia. Brasileiros, dispensamos este ódio purificador.

Mr. Wells diz ter visto uma única vez uma mulher negra ser coroada Miss Brasil, Deise Nunes de Souza, em 1986. Ocorre que o Brasil não existe a partir de 1986. Em 1964, a carioca Vera Lúcia Couto dos Santos foi a primeira negra a ser eleita Miss Brasil. Verdade que foi bombardeada com telefonemas anônimos, alegando que uma preta não poderia ser Miss Brasil. Isso no Rio de Janeiro, Estado também de predominância negra e mulata. Mas foi eleita e eleita permaneceu. Cabe lembrar que Deise Nunes é gaúcha, pertence àquele mesmo Estado de maioria branca que elegeu Alceu Collares. E cabe ainda lembrar um episódio de flagrante racismo de parte da comunidade negra de Porto Alegre, ocorrido nos anos 80. Porto Alegre elegeu uma rainha do carnaval ... branca, para sua infelicidade. Os movimentos negros protestaram, alegando que o carnaval era uma festa negra e a rainha, portanto, tinha de ser negra. As pressões, que incluíram inclusive apedrejamento à casa da moça, foram tantas, que ela teve de renunciar ao cetro. Curiosamente, ninguém lembrou na época que o carnaval, em suas origens, nada tem a ver com negros ou África. É uma festa branca e romana.

“In several books about Brazil, it has been reported that Afro-Brazilians were barred from entering prestigious social clubs even when they had the money for the special membership fees”. A afirmativa merece algumas observações. Existiram clubes no Brasil, exclusivamente de negros ou brancos. Se nos clubes de brancos negro não entrava, a recíproca era verdadeira: no de negros, branco não entra. Desses clubes, o que hoje mais se destaca, é o bloco Ilê Aiyê, na Bahia, fundado em 1974, e que até hoje não admite brancos entre seus membros. Que mais não seja, clubes são entidades privadas, onde pessoas se reúnem com as pessoas que gostam de reunir-se. Se britânicos gostam de reunir-se entre britânicos, se homossexuais gostam de reunir-se entre homossexuais, não vamos condená-los por isso. Condenável seria, isto sim, barrar pessoas em lugares públicos por uma questão de cor.

A propósito, você afirma: “In the Frances Twine book, we find that black people were often times not allowed to walk on certain sides of the street!” Ora, Twine viveu apenas onze meses em uma pequena comunidade fluminense. (Melhor que onze semanas, é verdade, mesmo assim pouco concludente). Extrair conclusões genéricas a partir de tão curto período em uma comunidade isolada é confundir o universo com o círculo-de-dois-metros-de-diâmetro-em-torno-ao-próprio-nariz. Se por ventura em alguma época isso existiu naquela comunidade, não pode ser estendido ao Brasil, onde negros e brancos andam por onde bem entendem. Nada nem ninguém obriga, hoje, um negro a andar por este ou aquele lado da calçada. Não podemos julgar o Brasil contemporâneo a partir de hipotéticos fatos isolados de comunidades perdidas na geografia. Certos grupos, no Rio de Janeiro, costumam aplaudir o pôr-do-sol. Nem por isso vamos afirmar que no Brasil costuma-se aplaudir o pôr-do-sol. O que existe hoje são territórios inteiros onde nem negro nem branco pode entrar. São as reservas indígenas.

Os afrobrazilianistas têm produzido não poucos ensaios, onde o não-branco é automaticamente identificado com o negro. Na recente enxurrada de estudos acadêmicos sobre o Brasil, publicados nos Estados Unidos, talvez o historiador Jeffrey Lesser seja o único a ter uma visão abrangente e não racista da questão. Em Negotiating National Identity: Immigrants, Minorities and the Struggle for Ethnicity in Brazil, Lesser procura mostrar como outros grupos imigrantes não-brancos, em especial japoneses e árabes, participaram da construção de uma identidade brasileira. Segundo o viés racista dos afrobrazilianistas, o universo parece ter apenas duas cores, branco e preto.

Não procedem as afirmações de Mr. Wells de que ninguém tenha sido punido por racismo no Brasil. “How many white Brazilians do you know (and can prove) have been actually thrown in jail for racist practices? Most likely NONE! And as far as murder, I can relay several stories I have been told in which a black Brazilian was killed and absolutely NOTHING was done about it!” Você não pode citar um, ou três ou quatro casos como regra geral. Para começar, aqui em São Paulo (falo apenas da cidade de São Paulo), a cada fim-de-semana, são assassinadas entre 50 e 60 pessoas, entre brancos e negros, e assassino algum é punido. Há hoje, só no Estado de São Paulo, nada menos que 127 mil mandados de prisão a cumprir. Que não são cumpridos porque não há vagas nas penitenciárias. Ou seja, há 127 mil condenados – ou pelo menos indiciados – livres como passarinhos. Neste número não estão incluídos as dezenas de milhares de autores de crimes não elucidados. Impunidade não é característica de assassinos de negros, mas prática amplamente disseminada no Brasil.

Quanto a delitos raciais, uma rápida pesquisa nos jornais nos mostra casos interessantes. O Tribunal de Alçada de Minas Gerais, por exemplo, condenou uma senhora a indenizar seu vizinho em R$ 5.000,00, a titulo de danos morais. A referida senhora havia chamado seu vizinho, publicamente, de "macaco", "nego fedorento" e "urubu", ferindo a moral do ofendido. No Rio de Janeiro, o juiz da 7a. Vara Criminal condenou a dois anos de detenção, com sursis, uma empresária que teria se referido a uma candidata a emprego como "negrinha maltrapilha e sem modos”. O juiz da Infância e Adolescência de Florianópolis condenou menor que, em um jogo de futebol na escola, chamou o colega de "negro feio". O menor foi condenado a seis meses de liberdade assistida. São punições pesadas para uma ofensa verbal, que jamais seria punida se dirigida a um branco.

Enquanto isso, um cantor popular fez sucesso nacional no rádio e televisão com uma música intitulada Lôra Burra. Nenhum processo, nenhuma acusação de racismo, nenhuma condenação. Imagine, Mr. Wells, se alguém intitulasse alguma canção de Nega Burra. Seria imediatamente processado. Foi o que aconteceu com o cantor Tiririca, acusado de crime de racismo por causa da música Veja os Cabelos Dela, que contém os versos “Essa nega fede / Fede de lascar”. Sobre o assunto, escreveu Henrique Cunha Júnior, professor titular da Universidade do Ceará: “se não bastassem os insultos e outros vexames impostos, temos ainda um boçal cantando no rádio que a nega fede, e nenhum dizer social de justiça ou de dignidade humana que proíba e puna este racismo”. O detalhe caricatural em tudo isto é que a música era dedicada à própria mulher do cantor, que nela não via intenção alguma de insulto, mas sim uma referência bem humorada.

O que venho afirmando, desde meu primeiro artigo, é que diplomas legais estão criando lutas raciais no Brasil. A lei nº 7.716, de 1989, que define os crimes resultantes de preconceitos de raça ou de cor, está sendo brandida a torto e a direito não para dirimir, mas para acirrar conflitos. Há cinco anos, numa prova de língua portuguesa no vestibular da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), ocorreu um caso caricatural deste novo tipo de racismo. As frases "ela é bonita, mas é negra" e "embora negra, ela é bonita" provocaram indignação de entidades ligadas aos direitos dos negros no Estado. O Instituto e Casa de Cultura Afro-Brasileira (Icab) ingressou com representação criminal junto ao Ministério Público Federal e registrou queixa na Secretaria da Segurança Pública, pedindo que fosse apurada denúncia de crime de racismo por parte da UFMS. O grupo Trabalhos e Estudo Zumbi (Tez) pediu a anulação da questão e uma retratação pública da UFMS. Para Aparício Xavier, presidente do Icab, a questão era uma aberração, feita para a época medieval. "Se eu estivesse fazendo a prova, a rasgaria e botaria fogo."

A partir de duas frases, o candidato deveria indicar as respostas corretas. Uma das respostas considerada certa afirmava que na frase "a" ("Ela é bonita, mas é negra") a cor da moça era argumento desfavorável à sua beleza. Outra resposta considerada correta, na frase "b" ("Embora negra, ela é bonita"), dizia que a cor da moça era uma restrição superável pela beleza. Para o presidente da Comissão Permanente de Vestibular, responsável pela elaboração da prova, Odonias Silva, a questão foi "uma escorregada infeliz". O presidente do Icab pediu ao chefe do Departamento de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, Ivair Augusto dos Santos, que oficializasse a indignação dos negros junto ao Grupo Interministerial da Presidência da República pela Valorização da População Negra, criado pelo presidente Fernando Henrique. Tanto o Icab como o Grupo Tez pediram uma indenização por danos morais. A nenhum representante de entidades ou professor ou reitor ocorreu lembrar que, se alguém quisesse queimar e rasgar a provas em razão da frase, teria de começar rasgando e queimando a Bíblia. Pois lá está, na abertura de seu mais belo livro, o Cântico dos Cânticos: “Eu sou negra, mas formosa, ó filhas de Jerusalém, como as tendas de Quedar, como as cortinas de Salomão”. Vamos à Vulgata Latina, tradução da qual deriva a maior parte das traduções atuais. Lá está: nigra sum, sed formosa. A Vulgata, por sua vez, deriva da tradução dos Septuaginta - feita a partir do original hebraico - onde está, em grego: Melaina eimi kai kale.

Durante o governo passado, a Associação Brasileira de Negros Progressistas ingressou com uma representação ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a abertura de processo contra o ministro da Saúde, José Serra, por racismo. Questionava-se a escolha de uma atriz negra para a campanha de prevenção à Aids no carnaval, na qual a moça pede que seu último parceiro faça o teste de HIV. Para a entidade, a mulher negra foi ofendida ao ser exposta no anúncio como prostituta. O Ministério da Saúde reage: a atriz foi escolhida entre trinta candidatas, grupo que incluía louras, morenas e negras. Só teria ocorrido racismo se a melhor candidata não pudesse estrelar a campanha pelo fato de ser negra.

Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come. Não fosse a modelo negra a escolhida no concurso, este poderia ser contestado por dar preferência a brancas. Curiosamente, não ocorreu aos sedizentes negros progressistas perguntar o que achava do assunto a principal interessada, a atriz Carla Leite. Que de modo algum se sentiu inferiorizada. "Pelo contrário, tenho orgulho de ter passado uma mensagem importante, por mais que haja polêmica", disse Carla. Ao que tudo indica, não existe prostituta negra no Brasil. O diretor de Comunicação da Associação Brasileira de Negros Progressistas, Aguinaldo Triumpho Avellar, alega que os negros deveriam ser consultados sobre o teor do comercial. Assim, cada atriz negra que quiser trabalhar, terá de pedir prévia licença aos negros progressistas para saber se pode ou não candidatar-se a determinado papel.

Ainda em Florianópolis, aquela mesma cidade onde um menor foi condenado por chamar um colega de negro feio, ocorreu caso que bem demonstra o absurdo das leis anti-racismo. Uma trintena de funcionários foi demitida de uma empresa para-estatal. Um deles era negro. Entrou com ação por racismo. Foi reintegrado ao cargo e recebeu gorda indenização. Os demais funcionários, pela desgraça de serem brancos, ficaram a ver navios. Mas o caso mais caricatural desta histeria ocorreu em Brasília. Onde um negro já foi para a cadeia por ter chamado outro negro... de negro.

Como os conflitos raciais no Brasil jamais foram tão intensos como nos Estados Unidos, os sedizentes negros progressistas tupiniquins estão fazendo o que podem para que possamos atingir os invejáveis níveis de ódio racial de um país de Primeiro Mundo. Para isto, contam com o valioso apoio desta nova geração de ativistas formados nas universidades americanas nas últimas décadas. Em vez dos apparatchiks soviéticos, temos agora uma fábrica acadêmica de racismo, os centros de black studies. Com arrogância típica de cidadãos do império, os afrobrazilianistas ianques pretendem entender melhor o Brasil do que os próprios brasileiros.

O país está deslizando em um declive perigoso, criando leis diferentes para diferentes pessoas. Índios já gozam de um estatuto especial. Podem matar à vontade, como Raoni. Ou estuprar com gosto, como Paiakan. Não podem ir para a cadeia, são índios. Negro pode entrar na universidade passando na frente de brancos com melhor habilitação no vestibular. Podem também insultar brancos, isto não é crime. Crime é insultar negro. Luta de classes morta, luta racial posta. Parafraseando os marxistas: o ódio é o fórceps da História.

* Também acabou saindo do governo com a pecha de corrupta, mas isto também é outra história.

(março 2003)

 
PIADA VIRA FATO



Antiga piada nos conta que veio a São Paulo um especialista britânico em questões de trânsito para tentar resolver os problemas da área. Durante vários meses, o técnico pesquisou a circulação de carros da cidade. Concluído seu estudo, reuniu os jornalistas e deu uma entrevista coletiva no alto do Copan. E anunciou sua conclusão:

- Não há nada a fazer. Deixem tudo como está.

Leio no Estadão de hoje que, seis meses depois de anunciar medidas emergenciais para reformular o sistema aéreo, sob o impacto do acidente com o Airbus da TAM, que matou 199 pessoas em São Paulo, o governo federal recuou de medidas que apresentou como cruciais para evitar o caos aéreo e garantir a segurança dos passageiros. A partir de 16 de março, o Aeroporto de Congonhas, zona sul da capital, voltará a receber escalas e poderá ser usado pelas empresas para fazer conexões. Nelson Jobim, doublé de clown e ministro da Defesa, anunciou ainda a desistência - por “inviabilidade técnica” - da construção da terceira pista do Aeroporto de Cumbica, Guarulhos, antes apontada como fundamental para reorganizar o chamado “terminal São Paulo”.

O ministro pariu um rato.

Segunda-feira, Janeiro 21, 2008
 
DOM LUIZ CAPPIO E O MAR VERMELHO



Nestes dias que correm, até missa virou comício. Dom Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA), dedicou ontem quarenta minutos das duas horas de uma missa para protestar contra a transposição das águas do São Francisco. Líder do movimento contra o projeto, o bispo aproveitou para acusar Lula de cuspir no prato em que comeu. "Na hora em que os movimentos sociais conseguiram colocá-lo lá onde ele está, na hora que ele alcança o poder, ele dá as costas aos movimentos sociais, esquece os movimentos sociais. Eu diria que ele cospe no prato em que comeu", disse dom Luiz, para quem "uma vez lá, Lula governa o Brasil para as elites".

Grande novidade. Espantoso que o arguto purpurado não tenha descoberto isto antes. Seja como for, sempre é bom recapitular o Livro.

Êxodo, 14:21 Então Moisés estendeu a mão sobre o mar; e o Senhor fez retirar o mar por um forte vento oriental toda aquela noite, e fez do mar terra seca, e as águas foram divididas.
22 E os filhos de Israel entraram pelo meio do mar em seco; e as águas foram-lhes qual muro à sua direita e à sua esquerda.
23 E os egípcios os perseguiram, e entraram atrás deles até o meio do mar, com todos os cavalos de Faraó, os seus carros e os seus cavaleiros.
24 Na vigília da manhã, o Senhor, na coluna do fogo e da nuvem, olhou para o campo dos egípcios, e alvoroçou o campo dos egípcios;
25 embaraçou-lhes as rodas dos carros, e fê-los andar dificultosamente; de modo que os egípcios disseram: Fujamos de diante de Israel, porque o Senhor peleja por eles contra os egípcios.
26 Nisso o Senhor disse a Moisés: Estende a mão sobre o mar, para que as águas se tornem sobre os egípcios, sobre os seus carros e sobre os seus cavaleiros.
27 Então Moisés estendeu a mão sobre o mar, e o mar retomou a sua força ao amanhecer, e os egípcios fugiram de encontro a ele; assim o Senhor derribou os egípcios no meio do mar.
28 As águas, tornando, cobriram os carros e os cavaleiros, todo o exército de Faraó, que atrás deles havia entrado no mar; não ficou nem sequer um deles.
29 Mas os filhos de Israel caminharam a pé enxuto pelo meio do mar; as águas foram-lhes qual muro à sua direita e à sua esquerda.
30 Assim o Senhor, naquele dia, salvou Israel da mão dos egípcios; e Israel viu os egípcios mortos na praia do mar.


Ainda bem que naqueles tempos bíblicos não existia Dom Luiz Cappio. Ou não seria fácil para o deus de Israel salvar os judeus das forças egípcias. Jeová seria acusado no mínimo de crime ecológico.

 
O PODER DAS PRECES



Escreve-me um leitor: "Tu não podes negar o bem que orações fazem ao espírito dos que crêem. Infelizmente, eu gostaria de ser mais créu (sic!) para ter este benefício".

Isso de que orações fazem bem é piada de uma corja de crentes, a Fundação Templeton, dos Estados Unidos. Eles fizeram uma experiência que custou 2,4 milhões de dólares, liderada por um certo dr. Herbert Benson, cardiologista do Mind/Body Medical Institut, citado num material da Templeton como alguém que acreditava "que estão se acumulando as evidências da eficácia das preces intercessórias no cenário médico". Só que o tiro saiu pela culatra.

Foram monitorados 1802 pacientes em seis hospitais. Todos haviam sido submetidos a cirurgias de pontes de safena e/ou mamária. Os pacientes foram divididos em três grupos. O grupo 1 recebeu preces, mas não sabia disso. O grupo 2 não recebeu preces e não sabia disso. O grupo 3 recebeu preces e sabia que estava recebendo. A comparação entre o grupo 1 e 2 testou a eficácia das preces intercessórias. O grupo 3testou os possíveis efeitos psicossomáticos de saber que estava sendo alvo de preces.

As preces foram feitas pelas congregações de três igrejas, uma em Minnesota, uma em Massachussets e uma no Missouri., todas distantes dos três hospitais. Os autores das preces receberam o primeiro nome e a primeira letra do sobrenome de cada paciente por quem deveriam rezar. Os resultados foram publicados no American Heart Journal de abril de 2006. Não houve diferença entre os os pacientes que foram alvo de preces e os que não foram. Houve, no entanto, diferença entre aqueles que sabiam que estavam recebendo preces e aqueles que não sabiam se estavam ou não estavam; mas ela foi para a direção errada. Aqueles que sabiam ser beneficiários de preces sofreram um número significativamente maior de complicações do que aqueles que não sabiam.

Estaria Deus contra-atacando, para mostrar sua desaprovação pela estranha empreitada? Parece mais provável que os pacientes que sabiam que estavam sendo alvo de preces tenham sofrido um estresse adicional em conseqüência disso: "ansiedade de desempenho", nas palavras dos autores da experiência. Um dos pesquisadores, dr. Charles Betea, disse: "Isso pode tê-los deixado inseguros e se perguntando: será que estou tão doente que eles tiveram de convocar a equipe de oração?"

Estou citando Richard Dawkins, em The God delusion, recentemente traduzido no Brasil, com o título de Deus - um delírio. O autor se pergunta: na sociedade litigiosa de hoje, seria querer demais achar que aqueles pacientes que tiveram complicações cardíacas, em conseqüência do fato de saber que estavam recebendo preces experimentais, possam entrar na justiça com uma ação coletiva contra a Fundação Templeton?

 
CRISTÃOS E ABOMINÁVEIS



Esses senhores ditos cristãos estão se revelando cada vez mais abomináveis. O vice-presidente da República, José Alencar, de 76 anos, está enfrentando um câncer que já o levou à mesa de cirurgia seis vezes. Sábado passado, saiu de uma internação do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde ficou internado durante uma semana para tratamento de alterações hematológicas decorrentes de quimioterapia.

Em vez de agradecer ao corpo médico que o assistiu, pediu à população que por ele faça orações. “Continuem rezando um Padre nossozinho” - disse. Na hora do Jesus-está-chamando, o vice-presidente recorre a tecnologias de ponta. Mal sai do hospital, atribui sua cura a superstições.

Fosse eu médico, creio que me recusaria a atender crentes. Que busquem a Eucaristia, como recomenda o Bento. Que papem hóstias, em vez de remédios. “Eucaristia aos doentes tem que ser realizada com decoro e espírito de oração, e é o verdadeiro apoio para quem sofre de qualquer tipo de doença. Deus é o fármaco da imortalidade que não desilude, que sana o físico e o espírito".

Ou que recorram, quem sabe, às pilulinhas de papel do frei Galvão, o pequeno charlatão de Guaratinguetá canonizado pelo sumo charlatão de Roma. Estou cansado de ver enfermos que recebem excelente tratamento médico em hospitais e agradecem suas curas ao tal de Deus.

Que se tratem então com esse divino fulano, ora bolas!

Domingo, Janeiro 20, 2008
 
SUMO CHARLATÃO DIXIT



Não é que eu seja ateu. Em verdade, o sou. Mas isto pouco importa. O fato é que, em minhas seis décadas de vida, nunca vi um papa dizer tantas besteiras como Bento XVI.

Disse ontem Sua Santidade: "A distribuição da Eucaristia aos doentes tem que ser realizada com decoro e espírito de oração, e é o verdadeiro apoio para quem sofre de qualquer tipo de doença. Deus é o fármaco da imortalidade que não desilude, que sana o físico e o espírito".

Ok! Você é hipertenso e se mantém vivo graças ao maleato de enalapril? Largue o maleato de enalapril. Chupe uma hóstia. Você mantém sua glicemia controlada com a metformina ou insulina? Jogue fora estes medicamentos pagãos e ingira o corpo e sangue do Cristo. O Vaticano, em sua busca de fiéis, está se aproximando cada vez mais dos Edirs Macedos da vida.

Sua Santidade destacou o comparecimento de muitos peregrinos doentes a Lourdes, "o que ajuda a refletir sobre a materna premência que Nossa Senhora manifesta para com a dor e o sofrimento". Mande seu médico às favas. Você está perdendo tempo ao recorrer à medicina. Vá a Lourdes, fale com a Virgem e deixe lá seu dinheiro para o Vaticano.

Não li, até agora, nenhuma manifestação de associações médicas contra as crendices do Sumo Charlatão. Quando o papa fala, até a medicina cala.

Sábado, Janeiro 19, 2008
 
ANTIGA ENTREVISTA



A contrapartida da papagaiada

por Diogo Chiuso e Sidney Vida


Não é fácil entrevistar alguém que sempre tem algo interessante a dizer, principalmente na hora da edição do texto. Essa é a parte complicada quando o entrevistado é alguém como o jornalista Janer Cristaldo, que deixou clara a impressão de que para cada assunto levantado caberia mais e mais perguntas.

Felizmente no jornalismo online não temos os problemas técnicos e de espaço em papel, como no jornalismo impresso. Portanto, no final das contas, toda a complicação teve uma simples solução: publicar a entrevista na íntegra, sem cortes, nem edição.

Mas não poderíamos privar os leitores de tentar conhecer como Janer Cristaldo é pessoalmente. Já lá com seus 56 anos, mais parece um garotão entusiasmado com a beleza das mulheres e das lindas cidades européias. Até hoje não possui automóvel, pois preferiu gastar seu dinheiro em momentos bem vividos em viagens à Europa, estampadas em lindas fotos de bares e cafés nas paredes. "Adoro bares, aliás, é meu lugar preferido para a leitura", confessa, apontado, numa das fotos o seu preferido, um café em Viena.

Além da agradável recepção em seu apartamento no charmoso bairro paulistano, Higienópolis, Janer fez questão de nos guiar pela imensa biblioteca que viaja pelo mundo das idéias, da literatura e até dos "inimigos", como refere-se com zombaria aos comunistas. Relembra fatos de sua infância em Dom Pedrito - pequena cidade do Rio Grande do Sul - e fala de suas experiências nos jornais paulistas Folha de São Paulo e Estadão. Considera a imprensa brasileira, apesar de tudo, muito boa por abranger o mundo todo na editoria internacional, diferente da americana e européia que centralizam as notícias em informações "caseiras". Em compensação, critica o jornalista que não gosta de ler e tampouco tem sua própria biblioteca, pois esse profissional, segundo ele, tem a obrigação de conhecer melhor o mundo em que vive.

Hoje, Janer escreve em diversos jornais na internet que dá a ele a liberdade que jamais teria nos de papel, além de não precisar bajular o grande público. Janer é polêmico, mas não por querer ser conhecido, obter fama ou coisa parecida - que aliás diz ter ojeriza a essas coisas - mas, sim, por não ser preso a nenhuma ideologia ou convicção religiosa: "...abandonei Deus lá pelos meus dezesseis, dezessete anos, e senti uma baita sensação de liberdade", afirma com a convicção de quem viveu muito bem a maior parte da vida sendo ateu.

Janer Cristaldo é a essência do homem anti-politicamente correto, no sentido de, com responsabilidade, falar o que pensa sobre qual for o assunto, sem se importar com as reações adversas e o ranger dos dentes daqueles que crêem nos objetos de suas críticas.

Portanto, o que o leitor verá a seguir são análises sérias e contundentes de um homem que tem o que dizer, em contrapartida dos papagaios que encontramos aos montes arrotando a sabedoria alheia, por não ter a capacidade de pensar por si mesmo.

Atualmente a religião Católica, que é a mais praticada no Brasil, parece estar meio sem rumo. Antigamente tínhamos o conhecimento muito vinculado aos colégios católicos, além dos grande filósofos da Igreja como São Tomás, Santo Agostinho etc. O que aconteceu para que a Igreja Católica perdesse esse status de produtora de grandes pensadores?

A meu ver, hoje não há grandes pensadores, nem dentro nem fora da Igreja. É como se os antigos tivessem esgotado todas as formas de enquadrar o ser humano e a realidade, e não restasse aos contemporâneos senão papagueá-los. No campo da filosofia ocorre a mesma coisa. Não se vê mais surgir Sócrates, Kants ou Descartes. O que surgem são repetidores confusos.

Que mais pode acrescentar a Igreja ao que disseram os antigos doutores? Além do mais, a Igreja tem uma espécie de AI-5, o dogma, que inibe todo pensamento. Católico algum pode negar o dogma. Até mesmo um marxistóide como Leonardo Boff tem de engolir a virgindade de Maria, tanto que ele escreveu um livrinho, A Ave Maria - o Feminino e o Espírito Santo, endossando esse fenômeno típico de certos pulgões da lavoura, a partenogênese. O pensador católico tem também de engolir que o pão consagrado não é mais pão, mas carne, e o vinho consagrado não é mais vinho, mas sangue. Mas atenção: pão e vinho não são símbolos da carne e do sangue, mas a própria carne e sangue. Ou seja, todo católico é no fundo um canibal ou hematófago. Impossível pensar a partir de dogmas.

Só poderia surgir algum pensamento na Igreja no momento em que esta abandonasse o dogma. E não só o dogma, mas também boa parte dos livros do Antigo Testamento, e mais alguns do Novo, particularmente aqueles que defendem genocídio, massacres, escravidão. Que esses livros permaneçam como documentos históricos, muito bem. Mas deveriam ser eliminados do corpo doutrinário de uma religião contemporânea, particularmente de uma religião que se pretende defensora dos direitos humanos.

Embora o sr. seja ateu, deve concordar a base moral dos últimos dois milênios da humanidade foi erguida sobre os ensinamentos judaíco-cristãos. Como o sr. vê os ataques mútuos entre ideologias e religiões, principalmente no século XX?

Em primeiro lugar, vamos acabar com essa história de sr. Até parece que tu és mais jovem que eu (risos). Continuando: vocês falam na base moral da humanidade. Da humanidade, não. Mas do Ocidente, pois no Oriente a realidade é outra. Mesmo assim, a esses elementos judaico-cristãos se deve acrescentar o legado greco-romano. Juntem-se esses ingredientes todos e temos o que se convencionou chamar de Ocidente. Quanto aos ataques mútuos, estes decorrem do problema que já apontei, o dogma. Aliás, antes de serem mútuos, são internos. A negação dos dogmas provocou cismas, perseguições, massacres, fogueiras.

Depois, surge o problema do monoteísmo, a origem da maior parte das guerras. Com tanta pedra no deserto, Maomé inventou de subir aos céus a partir de uma rocha sagrada para os judeus. Esta história é curiosa. No espaço de uma noite, Maomé voou de Meca a Jerusalém, montado em uma mula alada chamada Burak, com cabeça de mulher e rabo de pavão. Lá, da rocha onde Abrahão iria sacrificar Isaac, subiu ao céu para receber a revelação. Toda pretensão árabe a Jerusalém, todo o atual derramamento de sangue no Oriente Médio, tem no fundo esta lenda estúpida. Árabes e judeus até hoje estão se matando em função da luta pelas mentes de dois deuses ciumentos, Alá e Jeová. Católicos e protestantes estão se entredevorando na Irlanda, shiitas e sunitas se massacram no mundo islâmico, cristãos e muçulmanos se mataram com gosto nas recentes guerras iugoslavas. Melhor o antigo mundo grego. Os deuses eram tantos que soaria ridículo um deles se declarar como único.

Qual o seu conceito de Deus?

Não tenho conceito algum de deus. Se tivesse, seria um crente. Tenho, isto sim, um conceito da idéia de deus. Esta idéia responde, de forma primitiva, é verdade, aos mais profundos anseios humanos. Primeiro, serviu como tentativa de explicar o inexplicável. A medida em que o homem desenvolvia seu conhecimento, esta idéia foi sendo relegada a um segundo plano. Quando a física, a química, a biologia começaram a tornar o universo compreensível, deus foi se reduzindo à sua insignificância. Isto permite que, no final do XIX, Nietzsche proclame: Deus morreu. Verdade que o alemão se enganava. As multidões contemporâneas, cada vez mais famintas de misticismo, reduziram o brado de Nietzsche a um ingênuo wishfull thinking.

Hoje, Deus é uma espécie de esperança para as grandes massas incultas. Aliás, desconfio que as pessoas que dizem crer em Deus, pouco estão se importando com o tal de Deus. O que importa realmente é a transcendência da própria alminha. Encontramos isto mesmo no universo pagão. Que eram os deuses lares, manes e penates romanos, senão reencarnações dos próprios antepassados? O homem que cultuava seus lares estava em verdade cultuando seus mortos. A família era mais sólida naquele mundo pagão. A progênie era uma benção e a infertilidade uma maldição. Quem não procriasse, uma vez morto não teria quem lhe oferecesse os manjares que agradam aos lares.

O ser humano é um bicho que se viciou com a vida, aspira ardentemente à eternidade. O que, se pensarmos bem, é um grande engodo. Se uma vida já cansa, imagina ser eterno. Deus ainda tem algum prestígio porque promete vida post-mortem, paraíso ou inferno conforme os méritos do cliente. Se um deus dissesse: “olha, te comporta como quiseres, não tenho nada a ver com isso, afinal depois da morte não existe nada mesmo”, é claro que esse deus não teria Ibope. Eu ousaria avançar que, no fundo, ninguém crê em Deus. Prova disto é o pavor dos crentes na hora da morte. Ora, a morte propicia o encontro com Deus. Deveria ser ardentemente desejada. Mas não é isto que ocorre. Na hora do jesus-está-chamando, até mesmo o papa busca medicina de ponta. Em A Peste, pela voz do padre Panélou, Camus fala de antigos cristãos que se envolviam em lençóis usados pelos pestíferos, para morrer depressa e mais depressa se encontrarem com Deus. Este tipo de cristão não existe mais.

Alguns pensadores - e até o senso comum - costuma associar a crença em Deus a manutenção de comportamentos éticos (os dez mandamentos, por exemplo). O escritor Dostoievski chegou a afirmar que, se Deus não existe, tudo é permitido. Há, no entanto, diversas interpretações para tal frase da mesma forma que parte da filosofia ergueu uma ética sem Deus. Uma pessoa, enfim, pode ter uma vida de virtudes sem Deus, sem esperar as recompensas transcendentais que as religiões oferecem? Qual a sua posição diante de tal dilema?

Vamos aos fatos. Em primeiro lugar, Dostoievski nunca afirmou isso. Se alguém afirmou, teria sido Ivan Karamazov, um de seus personagens. Não se pode confundir personagem com autor. Em segundo lugar, Ivan tampouco afirmou isso. Quem o afirmou foi Sartre, ao escrever que o existencialismo francês estava fundamentado no argumento de Ivan Karamazov, de que se Deus não existe, tudo é permitido. Os fatos são um pouco diferentes. Em verdade, Ivan conclui que se Deus não existe, não existe imortalidade. E “se não existe imortalidade, não existe virtude”. O que, aliás, confirma minha tese: o que preocupa realmente as pessoas é a transcendência.

Para efeitos de raciocínio, admitamos a proposição “se Deus não existe, tudo é permitido”. É uma proposição safada. Dita por um libertino, significaria que tudo é permitido mesmo, já que Deus não existe. Elimina-se qualquer ética, como se ética dependesse da existência de Deus e não de um acordo entre homens. Dita por um crente, é um alerta: cuidado, se Deus não existe, tudo é permitido. Para que tudo não seja permitido, é preciso que Deus exista. Mas de que deus fala quem assim fala? É bom que lembrar que, no universo do monoteísmo, os deuses são vários. Mesmo na Bíblia não existe um só. A que deus se referem esses pensadores e o tal de senso comum? Ao que não só permite, mas também ordena guerras, massacres, pestes e catástrofes? Ou àquele outro que fala em amor e perdão? É bom ainda lembrar que este deus amoroso do Novo Testamento, segundo o Apocalipse, deve voltar a ferro e fogo para fazer tábula rasa do planetinha. Pela primeira vez, nos textos sagrados, Cristo monta um cavalo, arma de guerra.

Quanto aos Dez Mandamentos: estamos naquele período histórico em que religião não se distingue de legislação, onde ainda não há Estado mas apenas um poder religioso. Ora, isto faz mais de três mil anos. De lá para cá, o homem ocidental foi suficientemente sensato para separar as duas coisas. Uma das grandes confusões de nossos dias é a falta de distinção entre preceito religioso, preceito ético e lei. Lei deve ser cumprida, sob pena de sanção. Preceito ético pode ser cumprido ou não, depende do conceito de ética de cada um. Pode até ocorrer alguma sanção da comunidade, em caso de transgressão, mas esta sanção não tem o aval do Estado, nem pode ser exercida através de força policial. Quanto ao preceito religioso, este deve ser cumprido apenas pela comunidade que crê naquela religião. Ou pelo menos assim deveria ser. Que os cristãos considerem pecado o aborto ou o homossexualismo, isto é um problema que diz respeito apenas à comunidade cristã. Tal condenação não pode ser imposta a um Estado laico, como pretendem os papistas.

Pessoalmente, não preciso de Deus nem de recompensas transcendentais para ser honesto. E penso que não somos poucos os que assim pensamos.

Mas no Brasil a questão religiosa é complicada. A maioria é católica, porém, nada impede que freqüentem terrenos de candomblé ou até sigam as doutrinas espíritas de Kardec, que aliás, o Brasil é um dos únicos países que ainda levam à sério a "ciência-religião" deste francês. Na sua opinião por que há esse desespero em querer salvar a alma? Neste sentindo o ateu é mais tranqüilo, já que sabe que seu fim não é a eternidade proposta pelas religiões?

O candomblé se deve à porção africana do Brasil. Há toda uma população que não se reconhece no deus e santos brancos europeus. Apela então às tradições animistas africanas. É uma religião de negros e pobres, mas que gera muito dinheiro e poder, particularmente na Bahia. Até um comunista empedernido como Jorge Amado achou melhor fazer o jogo dos orixás. Quanto ao espiritismo, foi uma fórmula encontrada por um setor das elites brasileiras para escapar ao catolicismo sem cair no animismo. O kardecismo tem suas origens no mesmerismo, doutrina proposta pelo austríaco Franz Anton Mesmer, para quem a alma humana ultrapassava os limites do corpo e atuava fora dele. Que o corpo humano emitia radiações, compostas de elementos materiais, que seriam os veículos transmissores da ação da alma e que continham forças vitais. Kardec - em verdade Denizard Rivail - aproveitou esses elementos, mesclou-os com uma teoria da reencarnação e estabeleceu bate-papos com os espíritos através de mesas girantes. Não sei se já observaste, mas muita gente que perde um filho ou pessoa próxima, logo é assediada pelos espíritas. Na ânsia de transcendência, de comunicação post-mortem, há pessoas que caem no engodo. É uma variante mais pragmática da vigarice da vida além-túmulo dos cristãos.

Kardec está sepultado no Père Lachaise, em Paris. Multidões de brasileiros visitam sua tumba. Se fores perguntar a um francês quem foi Kardec, ele não te dirá nada, pois nem sabe de quem se trata.

Eu não saberia dizer nem onde nem quando surge essa idéia estúpida de salvar a própria alma, aliás tão estúpida quando a idéia de alma. Isto é tarefa para historiadores, mas obviamente o cristianismo não é inocente neste imbroglio. Claro que o ateu é um homem mais tranqüilo, ele dispensa muletas espirituais. Mas atenção: há dois tipos de ateus. Há aquele que simplesmente não acredita em Deus nem na craca metafísica que vem junto com essa idéia, nem faz proselitismo Existe ainda um outro, o ateu militante, aquele que procura adeptos para reforçar sua descrença. Este, na verdade, está doidinho para acreditar em deus. Mal um deus qualquer lhe pisca um olho numa esquina, ele adere de corpo e alma à nova crença.

Então Marx acertou em dizer que "a religião é o ópio do povo"?

Ópio do povo e mais um pouco. Fonte de renda e poder para elites, atraso para o pensamento e para a ciência, um peso inútil para o indivíduo. No caso da Igreja Católica, é um tremendo fator de miséria para o Terceiro Mundo. O Vaticano tem assento na ONU e sempre se opõe às políticas de controle da natalidade. Fator de insalubridade, também. Toda vez que as autoridades falam em preservativos para conter a Aids, não falta padre ou bispo que se manifeste contra. O Congo, que tem uma população de 52% de católicos, está sendo arrasado pelo HIV, graças aos padres que se opõem ao preservativo. Estas políticas merecem um só adjetivo: criminosas.

Vamos falar de literatura. Na sua opinião, qual o valor dos livros na vida de uma pessoa? E quais livros uma pessoa jamais deveria deixar de ler?

Sem livro, não há cultura. Vê os índios, por exemplo. Há tribos ágrafas no Brasil que continuam chafurdando no paleolítico, para alegria e sustento dos antropólogos. O livro, primeiramente, com Gutenberg, e depois a democratização do livro, com Aldus Manutius, foi uma poderosa ferramenta do desenvolvimento humano. O livro liberta, nos livra de idéias preconcebidas, de crendices e religiões. Ensina e humaniza. Tem mais: se não for instrumento de libertação, de informação e de degustação estética, para nada serve. Curiosamente, um dos primeiros livros que me ajudou a jogar fora idéias religiosas, foi a Bíblia. Não há fé que resista a uma leitura atenta da Bíblia. Lendo-a com atenção, vê-se que deus é uma criação humana, e seu conceito depende de época e geografia.

Mas o livro também tiraniza. Já deves ter notado o poder de que se imbui um desses pregadores de rua, ou mesmo de púlpito, ao brandir uma bíblia. Eles se apegam apenas a alguns aspectos da bíblia, os que mais convêm a seus dogmatismos, e ameaçam a clientela com inferno, fogo e sofrimento eterno. Não por acaso, o livro predileto deles é o Apocalipse.

Quanto aos livros que uma pessoa jamais deixaria de ler, a pergunta é complicada. Eu diria que, ocidentais, todos temos de dar uma olhadela em Platão e seus Diálogos. O Quixote é outro grande livro, mas atenção: é preciso que o leitor goste da ironia literária, da Espanha e, principalmente, da antiga Espanha. Sem isto, o Quixote pode tornar-se uma leitura maçante. As Viagens de Gulliver, de Swift, este tremendo libelo contra as instituições humanas, é outro livro importante. 1984, de Orwell, é fundamental para conhecermos o debate do século passado. Para se ter uma idéia das instituições do Ocidente, eu sugeriria A Cidade Antiga, de Fustel de Coulanges. Para bem entender os fundamentos de nossa cultura, importante ler A História das Origens do Cristianismo, de Ernest Renan. São sete volumes, mas é leitura que prende. Particularmente para quem gosta de viajar, é uma visita - ou revisita - a Jerusalém e Roma antigas.

Em matéria de poesia, penso que Fernando Pessoa é o grande poeta do século passado, apesar de a universidade tentar destruí-lo com suas análises teóricas. E sou apaixonado por José Hernández, este poeta maior da América Latina, tão pouco conhecido no Brasil. Martín Fierro é certamente o poema que mais adoro. A propósito, se alguém não o conhece, aqui está:
http://www.literatura.org/Fierro.

Mas isso são as minhas leituras. Um outro leitor certamente proporia outras. A leitura da Bíblia também é fundamental, não posso considerar culto quem não a tenha lido. Mas é preciso lê-la sem fé, sem idéias preconcebidas, ou então a leitura só serve para reforçar fanatismos.

A literatura e a intelectualidade já estiveram muito ligadas à boemia, principalmente nas décadas de 1920 e 1930, em que muitas obras "nasceram" em meio a conversas de bar. Você não acha que existe hoje uma certa predominância do meio acadêmico no processo de produção literária? O escritor Gore Vidal acha, por exemplo, que a literatura norte-americana praticamente transferiu-se para a universidade, confundindo-se com a crítica literária. Não há uma separação muito abissal entre o escritor que narra as coisas do cotidiano dos que fazem sua literatura com base na cultura adquirida na universidade?

Considero a literatura como uma expressão da revolta. Ou a literatura contesta a própria época, ou é mero entretenimento. A universidade é uma instituição fortemente ancorada no stablishment. Quando a universidade adota uma obra, é porque essa obra já perdeu sua força de contestação.

O suporte da indústria do livro, hoje, é a universidade. Se um dia o livro foi um instrumento sem o qual a universidade não podia existir, hoje a universidade é um instrumento sem o qual a indústria do livro perde seu vigor. O que era fim, a aquisição de saber através da universidade, se tornou meio para sustentação de um comércio. E o que era meio, o livro como instrumento de deleite espiritual ou comunicação do saber, tornou-se fim, uma mercadoria como qualquer outra, para alegria de editores e massagens no ego de escritores com boas relações junto ao MEC e crítica acadêmica. Claro que estou falando da área humanística da universidade, e particularmente dos cursos de Letras. Na área científica e tecnológica encontramos mais seriedade.

A universidade está até mesmo determinando como deve ser feita a literatura. Há milhares de escritores escrevendo para agradar acadêmicos. Mais ainda: a universidade preserva em formol autores que há muito deveriam estar sepultados. Os acadêmicos criaram um mercado artificial, que chamo de indústria textil - textil assim mesmo, sem acento, a indústria do texto - e só assim certos defuntos ainda nos chateiam. Machado de Assis é um deles. Duvido que algum editor apostasse na publicação do Machado se este não fosse leitura obrigatória de vestibulares e ementas universitárias. Mas Machado até que tem algum valor, como referência histórica. Que mais não seja, como cronista de sua época. O pepino são as clarices lispector da vida, as lígias telles, os guimarães rosas. São elefantes brancos que estariam repousando em paz nos cemitérios de paquidermes, não fosse a venda forçada imposta pela universidade. Guimarães Rosa, por exemplo. Todo mundo cita e ninguém lê. Não fosse a pressão universitária, jamais seria reeditado. Além disso, em Grande Sertões, perdeu uma excelente oportunidade de escrever o grande romance homossexual brasileiro. Diadorim era mulher. A família está salva.

Certa vez, em uma palestra na PUC de Porto Alegre, afirmei mais ou menos isso. Após a palestra, uma professora me procurou. Disse-me sentir-se gratificada ao ouvir aquilo, pois ela não suportava a Clarice Lispector, seus alunos abominavam a Clarice Lispector e ela tinha de impor a Clarice Lispector a seus alunos. O que me espanta em tudo isto é que os universitários engulam calados estas imposições curriculares, sem nenhum protesto, nenhuma proposta de mudança de currículo. Há uma indústria estatal no país, títulos que são impostos à rede escolar por compadrismos dos autores ou herdeiros de autores junto ao MEC ou universidades. A audácia que se atribui aos jovens é mero chavão. Os jovens são covardes e, de um modo geral, engolem tudo que se lhes serve.

Denuncia-se muito a corrupção no governo neste país, mas ninguém ousa denunciar a corrupção no santo dos santos, a universidade. Lygia Fagundes Telles, por exemplo, que participou de uma comissão que escolheria 300 títulos a serem comprados pelo Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação, teve o desplante de sugerir um livro seu, Ciranda de Pedra para a lista dos trezentos. Do dia para a noite, sua cotação subiu nesta suspeita bolsa de valores. Segundo a revista Veja, seu passe foi comprado pela editora Rocco, para a publicação de doze livros, por 500 mil reais. Ora, isto é corrupção.

Mas nem Machado de Assis escapa?

Quando o Machadinho estava preocupado com o tremendo drama da Capitu - se ela corneou ou não o marido - Nietzsche estava lutando a tapa contra Deus, Dostoievski estava discutindo os grandes problemas da condição humana, o assassinato, o poder, a revolução. Marx (sem entrar em seus méritos ou deméritos) já havia declarado sua guerra particular à Europa. A impressão que se tem é que Machado desconhecia esses autores. Ou, se os conhecia, preferiu ignorá-los. É muito pobre, muito tacanho. Mas Machado não tem culpa do que mais me irrita nele: é sua circulação forçada nas escolas e universidades. Sem falar que ele cometeu um pecado que não tem perdão, criou essa associação de pavões medíocres que se chama Academia Brasileira de Letras.

Essa mediocridade está clara hoje, por sermos totalmente órfãos de bons textos literários e dramatúrgicos, o que reflete, principalmente, em nosso cinema, que não tem boas estórias para transpor para as telas. Na sua opinião, por que isso acontece?
A escassez de bons textos não é só brasileira. É como se a ficção, a força de multiplicar-se, tivesse se exaurido. O escritor tinha uma função social importante até o século XIX, até a primeira metade do XX. Era uma espécie de filósofo, maître-à-penser, o sonhador da comunidade. A indústria editorial cresceu desmesuradamente e a literatura foi se banalizando. Imprensa, cinema e televisão foram aos poucos invadindo o território antes ocupado pelo escritor. Qual a diferença entre um filme e um romance? Do ponto de vista estrutural, nenhuma. Do ponto de vista prático, no filme há imagens e sons, e além disso pode ser degustado em menos de duas horas. Em uma época em que as pessoas são pouco dadas à leitura, isto se reflete na literatura.

Houve época em que escritores promoviam revoluções. Que fez Marx, que influiu no século passado de ponta a ponta? Marx não fez nada senão escrever. Mas o mundo mudou. As revoluções hoje são feitas por cientistas e técnicos em laboratórios. A pílula anticoncepcional foi mais eficaz que milhões de palavras contra o obscurantismo. O chip de silício aproximou mais os homens que inflamados discursos em prol da solidariedade.

Pessoalmente, não leio mais ficções. Cansei. O autor leva muito tempo e muitas páginas querendo criar um clima especial, para então plantar sua tese. Sei disso porque cometi algumas ficções. Prefiro ensaios, que são mais diretos, e particularmente ensaios históricos. E adoro essa novela sem fim nem roteiro, as notícias do mundo que o jornalismo traz. Leio hoje os jornais com o prazer que um dia li ficções. Há romances para todos os paladares, sempre segundo a fórmula do antigo folhetim. Desde clássicos antigos como A Guerra dos Seis Dias, Watergate, A Guerra no Golfo, A Queda do Muro, Ex-URSS, O Conflito nos Bálcãs, até outros mais contemporâneos como A Guerra no Iraque, Intifada em Israel, Rio sem Lei, O Presidente Analfabeto. São obras surpreendentes, que autor algum, por mais imaginoso que seja, ousou conceber.

Para você qual o melhor escritor de todos os tempos?

Pergunta complicada. Dentro do pequeno universo que li, o que mais me toca é José Hernández, talvez por minhas origens gaúchas. Martín Fierro é minha bíblia predileta. Quanto me exilei na Suécia no início dos 70 (voluntariamente, bem entendido, afinal ninguém me obrigou a sair do país) levei no bolso um pequeno exemplar de Fierro. Invejo a capacidade de síntese de um Renan. É preciso muito talento e obstinação para montar aquele imenso quebra-cabeça histórico. Invejo também a intuição de Orwell em 1984, a meu ver a obra mais importante do século passado. Não quero dizer que estes sejam os melhores escritores de todos os tempos. São apenas os que mais admiro. Ah! Tenho também de pôr Pessoa nesta cesta básica. Foi o outro autor que levei em minha bagagem para Estocolmo. Hernández e Pessoa foram os amigos que reconfortaram naquelas noites brancas, solitárias e geladas de Estocolmo.

Fale um pouco sobre os seus livros e quais as influências literárias que você teve para escrevê-los; e aonde eles podem ser achados pelos leitores interessados?

Meu primeiro livro foi um ensaio sobre a Suécia dos anos 70, O Paraíso Sexual Democrata. Publiquei depois vários livros em papel e eletrônicos (contos, dois romances, crônicas, ensaios) e traduzi vinte títulos do sueco, espanhol e francês, entre estes praticamente toda a obra de Ernesto Sábato. Como as publicações em papel estão todas esgotadas, o leitor pode encontrar os eletrônicos no E-books Brasil. Dois romances, Ponche Verde e Laputa. O primeiro é um romance de exílio, dez anos na vida de um grupo de gaúchos que sai de Porto Alegre e perambula por Estocolmo, Berlim e Paris. O segundo, as angústias de um professor de Letras em uma ilha tropical, leia-se Santa Catarina. Mensageiros das Fúrias é minha tese de doutorado em Letras Francesas e Comparadas na Sorbonne Nouvelle (Paris III). Nesta tese, em torno às obras de Albert Camus e Ernesto Sábato, há um capítulo que hoje não assinaria mais, é o capítulo sobre o Che Guevara. Ocorre que Sábato o tomou como personagem em Abadón, o Exterminador, e faz do assassino frio um herói generoso e sonhador. Eu endossei a proposta do autor, também tomei Che como personagem. Hoje, considero que não se pode maquiar impunemente um personagem histórico. Sábato, tenho hoje de convir, caiu na armadilha do Terceiromundismo. Foi cúmplice póstumo deste mito que só tem atrasado a América Latina.

Mais os ensaios Engenheiros de Almas (sobre o stalinismo em Jorge Amado e Graciliano Ramos), Qorpo Santo de Corpo Inteiro, Ianoblefe (ensaio jornalístico sobre essa tremenda farsa que foi o massacre de ianomâmis em 93) e A Indústria Textil, ensaios sobre a corrupção literária e universitária. Textil assim mesmo, sem acento, a indústria do texto. Em crônicas, há mais títulos: Crônicas da Guerra Fria, EleCrônicas, Flechas contra o Tempo, Ressentidos de Todo o Mundo, Uni-vos e o último, A Vitória dos Intelectuais, compilação de crônicas do ano passado. Minhas crônicas atuais, e muitas das anteriores, podem ser encontradas no Baguete, Mídia sem mascara, Brazzil.com e Jornaleco.

Influências? Os autores que mais me transformaram, já os citei. Aos leitores, recomendo minhas últimas crônicas. O jornalismo na Web não depende de grandes custos em papel, máquinas, distribuição, logo não precisa bajular o grande público. A liberdade que tenho nos jornais eletrônicos, eu jamais a teria nos jornais em papel.

Você acha que o nível das nossas universidades melhorou ou piorou nas últimas quatro décadas? Quais os motivos? Você não acha que está sendo instituída uma supervalorização do diploma universitário?

Piorou, e piorou terrivelmente. Senti isso quando lecionei Letras na Universidade Federal de Santa Catarina. No último ano de curso, meus alunos não dominavam nem mesmo o português. Aí lembrei de meus dias de ginásio, no Colégio Patrocínio, em Dom Pedrito, pequena cidade gaúcha na fronteira com o Uruguai, na época com uns 15 mil habitantes. Completei o ginásio aos quatorze anos, com um português impecável, um excelente francês, um inglês razoável e arranhando um bom latim. Essa educação, que tive no ginásio, nenhuma universidade fornece hoje. Basta ler os jornais e ver o resultado. Jornalistas oriundos até mesmo da prestigiosa ECA já não conseguem conjugar o subjuntivo e se enredam com os verbos reflexivos. O pronome reflexivo está em vias de extinção. Urge criarmos uma Sociedade Protetora do Pronome Reflexivo, ou este pronome desaparece da língua brasileira. Os jornalistas cometem até mesmo erros crassos, como trocar a letras l (ele) por u. Sauva tua auma, como li certa vez em uma cruz de uma Igreja no interior.

Certa vez, na Folha de São Paulo, escrevi a palavra “preito” em um texto-legenda. Escândalo na editoria. Um subeditor veio reclamar que ninguém conhecia aquela palavra, deveria ser palavra muito antiga. Ora, todas as palavras são antigas, e a imensa maioria delas são bem mais antigas que nós. Tenho dezenas dessas histórias. Isso nos dá uma idéia do nível do ensino universitário hoje.

Quanto à supervalorização do diploma: o papelucho é algo mítico para o brasileiro. Os mercadores do ensino sabem disso e as faculdades proliferam como cogumelos após a chuva. Dessa expansão descontrolada decorre o baixo nível dos cursos. Não há preocupação das universidades na seleção dos melhores. As universidades querem clientes, e quanto mais clientes melhor. Agora chegou no Brasil, tardiamente, a moda das cotas. Querem enfiar os negros à força nas universidades, mesmo quando ineptos para o ensino universitário. Se a moda pegar, vai piorar ainda mais. Todo brasileiro sabe que um marceneiro ou mecânico ganha mais do que muito profissional diplomado. Mas há quem prefira ganhar menos ou mesmo nada, desde que tenha o diploma na parede.

Como você vê a dicotomia entre o grande número de formados que saem das universidades brasileiras todos os anos com a crescente queda de oferta de empregos no mercado formal para pessoas qualificadas?

Isto não é difícil de entender. É decorrência do que falei antes. Ninguém está preocupado com possibilidades no mercado, o que interessa é o diploma. Em minha cidadezinha, vi gente pobre, pagando o que não podia a faculdades particulares, para que os filhos tenham um diploma que não servirá para nada. Diploma é sinal de status no Brasil. Que mais não seja, sempre pode render um empreguinho público ou mesmo um casamento morganático. Só um setor tem ganhos garantidos com a expansão descontrolada do ensino superior: os mercadores de ensino superior. Em minha passagem pelo curso de Letras, vi que o magistério pode não levar a nada, mas tem suas mordomias nada desprezíveis. Bolsas no Exterior, congressos literários, intercâmbio universitário. Isto é, turismo à la farta, boa gastronomia, vida sexual mais diversificada que na província. Tudo isto às custas do contribuinte. Denunciei amplamente, na imprensa, esta corrupção na Universidade Federal de Santa Catarina, que eu chamava de UFSCTUR. Deu em nada. O reitor me processou, mas também não levou nada.

Na sua opinião o que é uma pessoa culta?

Culto, a meu ver, é o homem que conhece história suficientemente para entender a época em que vive. Também acho que uma pessoa, hoje, para entender o mundo em torno a si, deve conhecer pelo menos uns dois ou três idiomas além do vernáculo. Idiomas são janelas abertas para o mundo e viver em ambientes fechados não é nada salutar. Não se pode admitir que um brasileiro medianamente culto não entenda espanhol, francês e inglês. Espanhol, porque é língua irmã, língua do vizinho. Francês, além de ser língua irmã, é a língua das artes. E inglês, queiramos ou não, é o esperanto que deu certo. Se não entender estas três línguas, não saiu da aldeia.

Mas qual o incentivo para estudar se você pode virar um jogador de futebol rico e famoso?

Bom, tens de convir que o jogador de futebol tem vida mais dura que o intelectual. Transpira mais, faz mais esforço. Mas a fortuna só bafeja uns poucos. Para cada moleque de favela que sonha ser um Pelé, há milhares que não chegam sequer a um time de porte médio. A verdade é que o futebol é um meio de ascensão rápida no Brasil, para quem nasceu pobre. É como as touradas na Espanha. Ou como os seminários. A grande safra de padres no Brasil - e provavelmente no mundo todo - depende de famílias pobres, que jogam os filhos numa escola gratuita e num ofício que lhes dá alguma proeminência social. Se o objetivo é ser rico e famoso, estudar de pouco vale.

O que você acha desta busca desenfreada nos dias de hoje - principalmente dos jovens - por alguns valores como fama, poder, corpo perfeito, riqueza e sexo. Essa busca demasiada de tais valores seria característica do declínio da nossa civilização? Por que não se cultiva mais a justiça, lealdade, honra, amor, honestidade e etc., em nossa sociedade?

Começo pela ordem inversa. Sexo é ótimo. Tens algo contra? Riqueza não é ruim, não. Quem gosta de pobreza são os católicos e marxistas. Eu adoraria ser rico. Seria pródigo, daria bolsas e viagens às pessoas que julgasse merecê-las. Bill Gates doa um bilhão de dólares por ano aos países do Terceiro Mundo. Te confesso que adoraria doar um bilhão de dólares. Infelizmente, não posso doar nem mil. Corpo perfeito é uma bela idéia, desde que não seja obsessão. O sedentarismo inerente à cidade deforma o corpo, mas que fazer? Como dizia Sócrates: a vida no campo é linda, mas os amigos estão em Atenas. Quanto a poder e fama, bom, são coisas que não me atraem. Para se chegar ao poder é preciso mentir, bajular a opinião pública. Está aí o Lula. Para chegar lá, mentiu a vida toda. Mas chegou.

Fama também exige mentir. A idéia de escrever para agradar o maior número de pessoas possível me horroriza. Daí minha ojeriza a best-sellers, sejam livros, sejam filmes. Best-seller, por definição, é algo medíocre. Se o que escrevo não irrita boa parte de meus leitores, em algo devo ter errado.

Quanto à justiça, todo mundo clama por ela. Tanto o Lalau como o Fernandinho Beira-Mar se sentem injustiçados. Lealdade é virtude muito cara aos gaúchos, mas quando falo em gaúchos me refiro àquele ser mítico já extinto, que um dia habitou Uruguai, Argentina e a Fronteira Oeste gaúcha. Lealdade é uma virtude camponesa, pouco encontradiça na urbe. Honra? Está fora de moda. Hoje vale mais saldo bancário, carro importado, roupa de grife. Amor? É um mito literário que surgiu nos poemas de Safo, de Lesbos, na Grécia, invadiu a Idade Média e hoje rende milhões de dólares a indústria cinematográfica, particularmente Hollywood. É talvez o mais lucrativo produto de exportação ianque. Honestidade? Já encontrei pessoas que me confessaram ter vergonha de serem tidos como honestos. Passam por panacas. Assim é o mundo em que vivemos. Não adianta deplorar.

Quem gosta de música, quem precisa de música, acha-a uma emoção, uma sensação, uma onda de prazer. Você não pode sentir prazer se não se permitir sentir, principalmente no caso da música erudita - o prazer de um Mozart, de um Beethoven, tem que penetrar em você suavemente, sem que você perceba, dando uma sensação de bem estar. Mas é notório que nos últimos vinte anos - sendo muito otimista -, a música erudita foi marginalizada na nossa cultura; ninguém quer sequer experimentar tais emoções. Qual a sua opinião sobre os ramos atuais da música erudita em nossa cultura?

Vou discordar de teus pressupostos. Existe, é claro, essa massa informe que vai a megashows, curte rock, funk, reggae e barulhos do gênero. Ou essa música fajuta caipira que de caipira nada tem. São multidões, como multidões são também os leitores de Paulo Coelho ou Harry Potter. Essa gente não interessa, são mercado. Mas a música erudita não foi marginalizada, não. Tenta encontrar um ingresso para uma ópera em Paris, Roma ou Viena. Se não tentares com um mês de antecedência, só vais encontrar o "assento do ceguinho". Em Nova York, há duas salas de ópera, lado a lado, com espetáculos diários, eternamente lotadas. Conheço pessoas que economizam o ano todo para fazer circuitos de ópera em ópera no Exterior. Concertos de música erudita também são muito concorridos no mundo todo.

Eu acho espantoso - e reconfortante - que obras de Mozart, Verdi ou Bizet, escritas há séculos, ainda atraiam multidões. Não só atraiam, como também comovam. Há momentos em Carmen ou Don Giovanni que até hoje nos fazem chorar de emoção. A música erudita vem de séculos e tem excelente futuro pela frente. Considerada a população do planetinha, seus cultores são minoria. Mas é uma minoria de milhões. Outro dia, tomei um táxi com uma amiga, o taxista escutava a Carmina Burana. Mal entramos, desligou. Minha amiga chiou: deixa aí. Ele ficou surpreso, disse que o CD estava sendo um sucesso entre seus passageiros. Estatisticamente, isto não quer dizer muita coisa. Mas já é algo.

Além disso, o CD e o DVD trouxeram a música erudita para mais perto de seu público. Hoje, podemos assistir dezenas, centenas de vezes, a uma ópera de Mozart. Ou as diversas encenações de uma mesma ópera. Mozart não teve essa chance.

Por que tudo se politizou no Brasil? Ou é da natureza do homem desde sempre?
Não me parece que o Brasil se tenha politizado. Há setores politizados, isto sim. O povão gosta mesmo é de futebol, samba, carnaval, novelas da Globo, Ratinho e Sílvio Santos, Fórmula Um e besteiras do gênero.

O que você acha das medidas do governo Lula? Você acha que tais iniciativas diferem das do ex-governo FHC? Acredita que até terminar seu mandato o sr. Luiz Inácio Lula da Silva finalmente cumprirá parte do ideário socialista de suas propostas iniciais?

Lula começou com uma grande bobagem, o tal de Fome Zero. A meu ver, será este programa o fator maior de desmoralização de seu governo. É uma idéia de jerico dar de comer a uma grande massa. Há inúmeros planos assistenciais no Brasil, desde o governo Fernando Henrique. No ritmo em que vamos, teremos em breve metade do país trabalhando para sustentar uma outra metade ociosa e improdutiva. Não se constrói riqueza deste jeito. Esta é a melhor fórmula para chafurdar eternamente na pobreza.

Lula não está seguindo exatamente ao pé da letra o programa de Fernando Henrique, está indo além. Fernando Henrique tentou taxar os inativos, mas acabou desistindo. Para Lula, é uma questão de honra levar a velharada à miséria. Com o argumento de acabar com aposentadorias milionárias, que são exceção, quer tascar a mão no bolso de milhões de pessoas que estão longe de receber aposentadorias milionárias. Não importa se isto ferir um dos pilares dos regimes democráticos, o direito adquirido. O PT pode ter-se civilizado, mas dadas suas raízes stalinistas, pouco está ligando para democracia. Quer fazer caixa rapidamente. Como afirmou o presidente, nem o Congresso nem o Judiciário irão impedi-lo deste propósito. Só Deus. Quanto ao ideário socialista, ao que tudo indica, o PT, uma vez no poder, o abandonou. Ainda bem.

Mas o Brasil não está passando por uma revolução comunista aos moldes de Antonio Gramsci?

Não creio. Se o PT tivesse ascendido ao poder nos anos 80, quando ainda o urso soviético arrotava e fazia ouvir seu arroto no Terceiro Mundo, sem dúvida teríamos corrido o risco de virar uma gigantesca Cuba. Verdade que o socialismo serviu de bandeira para a tomada do poder. Mas, como dizia Roberto Campos, o poder é como o violino: pega-se com a esquerda e toca-se com a direita. Derrubado o Muro, desmoronada a União Soviética, não há mais clima para aventuras socialistas neste mundo contemporâneo. Se os brasileiros todos estrilam contra um salário mínimo de 75 dólares, não vejo como reduzir, nos dias atuais, o salário de um médico ou professor universitário a vinte ou trinta. O paraíso cubano, onde médicos e professores foram reduzidos a esta condição de miserabilidade, só serve de referência para militantes idosos, saudosos de suas bandeiras de juventude, e universitários sem noções da História recente, como o são geralmente os universitários hoje. O salário de um profissional liberal nos atuais países socialistas e ex-socialistas, um mendigo diligente o tira em uma semana no Brasil. Tampouco consigo imaginar os brasileiros se submetendo à tirania de um partido só.

O poder tornou o PT mais pragmático. Um dos últimos movimentos no mundo a empunhar as bandeiras do obscurantismo hoje é a guerrilha católica do MST, cujas lideranças cultuam assassinos como Mao, Lênin e Castro como paradigmas para a sociedade. Há quem desconfie do namoro dos encanecidos petistas com o regime de Cuba. Árvore velha não se curva, sob risco de quebrar. Condenar Cuba, para vetustos senhores como José Dirceu, Genoíno, Tarso Genro, seria algo como negar a própria biografia. O mesmo fenômeno vemos nas universidades, onde velhos marxistas continuam fiéis à antiga crença. Negá-la seria o mesmo que afirmar: “eu fui um idiota a vida toda e minha obra não vale nada”. A um homem já maduro, é preciso muita coragem para tal admissão, e coragem é moeda rara. O máximo que o PT conseguirá fazer é afundar um pouco mais o país na pobreza. E daí não passa. Espero.

Quanto ao Gramsci, me parece que atualmente seu maior divulgador é o Olavo de Carvalho, ao conceder-lhe créditos por esse pensamento comunizante que ora vige no país todo. Discordo. Não consigo ver a militância do PT, de Gramsci em punho, tentando encontrar em seus livros a fórmula de introduzir o comunismo no Brasil. Não é preciso ler Gramsci para concluir que, dominadas a universidade e a imprensa, tem-se o controle do que pensa a população. As esquerdas brasileiras são malandras e não precisam de maiores leituras para saber disso. O Olavo vê o mundo a partir de um prisma filosófico e pensa que atrás de todo fenômeno social deve existir um pensamento. Ora, não é bem assim. Basta apanharmos os milhares, talvez dezenas de milhares, de jovens que se dizem marxistas. Raros, raríssimos, são os que leram Marx. Nessas doutrinas messiânicas há algo de místico que não apela à razão, mas ao irracionalismo. De fato, no Brasil le fonds de l'air est rouge, como diziam os franceses em 68. Daí a estabelecer um regime comunista, vai uma longa distância. Comunismo significa miséria. Se os brasileiros já acham injusto um salário mínimo de 75 dólares, imagino que a população jamais aceitaria um regime onde um médico ganha 20 dólares por mês.

Com a falência do chamado socialismo real, surgiu o neoliberalismo (sic) como saída política e econômica para as sociedades ocidentais. Esse modelo, no entanto, já começa a dar sinais de falência. O sr. enxerga uma terceira via nesse processo ou uma saída inovadora baseada em novos princípios?

Isso de neoliberalismo mais me soa como insulto criado pelas esquerdas para atacar o poder. Palavras como capitalismo, burguesia, classes dirigentes, tornaram-se obsoletas com a derrocada do comunismo. Era preciso criar um novo vocabulário, novos palavrões ideológicos. Conheço pensadores, teóricos e obras do liberalismo. Do tal de neoliberalismo, não conheço nada. O PT usou muito o novo palavrão em sua campanha. Agora, ao repetir o programa de Fernando Henrique, faz boquinha de siri. As sociedades ocidentais encontraram uma boa saída tanto no capitalismo como nas sociais-democracias, sistemas que aliás em pouco diferem. Isso de buscar uma terceira via é recurso retórico dos derrotados da história que não querem admitir que foram derrotados. Os petistas já andam piscando o olho para a social-democracia, que até bem pouco era considerada reformismo. Será divertido ver o PT, partido no governo de um país pobre, sendo aceito pela Segunda Internacional, movimento de países ricos. Será um vexame, algo como um penetra maltrapilho em baile da corte.

O que é ser um estadista? Você acha que houve algum em nosso país?

Quem decide quem foi ou não estadista é a História e, no caso brasileiro, esta senhora parece não ter-se decidido por nome algum. Mas há um grande má vontade, um propósito veemente de negar a importância dos governantes militares de 64 em diante. Da mesma forma que Francisco Franco salvou a Espanha - e a Europa, eu diria - do comunismo, nossos militares salvaram o país desta peste que contaminou o século passado. Da mesma forma que Franco, foram situados como vilões. Até o século XIX, os vencedores escreviam a História. Do século XIX em diante, graças à propaganda soviética, surgiu um fenômeno novo: os derrotados passaram a escrever a História. Hoje, no Brasil, são cultuados como heróis os apparatchiks financiados por Moscou, pagos para transformar o país numa tirania comunista.

Podemos acreditar em um futuro para o nosso país?

Futuro é claro que o país tem, já que não há perspectiva alguma de que amanhã desapareça do mapa. Como vai ser este futuro? Esta é a pergunta que se impõe. Não sou nada otimista. Com as favelas se multiplicando, com os ditos moradores de rua aumentando nas metrópoles, com o tráfico dominando e administrando comunidades inteiras, com os sedizentes sem-terra invadindo fazendas, repartições e pedágios, com um governo populista dando - ou pretendendo dar - comida em vez de trabalho e educação, não consigo ver dias lindos pela frente. Tenho mais de meio século de existência e neste curto tempo já vi países escapando à pobreza e levando prosperidade a seus cidadãos. Sem ir mais longe, aí estão a Irlanda, Espanha e Portugal, que deram um tremendo salto econômico nas últimas décadas. Se antes forneciam mão-de-obra aos demais países europeus, hoje têm de fechar fronteiras para escapar aos migrantes da África, Ásia e Leste europeu. O Brasil marcha em ritmo de ganso: um passo, uma cagada. Vivi na Europa e viajo seguidamente para lá. Cada viagem me dói na volta. Vejo países cada vez mais lindos, organizados e ricos e volto a um país cada vez mais sujo, bagunçado e pobre.

Qual a sua mensagem para os jornalistas que estão iniciando sua carreira?

Resumindo: antes de mais nada, aprender português. Depois, ler História.

Sexta-feira, Janeiro 18, 2008
 
O CHIUSO



Quem dá explicação, já perdeu a discussão. Tentando explicar o inexplicável, Diogo Chiuso, o editor de O Expressionista, escreveu na edição de hoje gentil artigo onde me chama de moleque birrento, velho babão e mocinha impúdica, assim mesmo, com acento. O menino que acusava os jornalistas brasileiros de desconhecerem o português sequer sabe acentuar. Em seu destempero verbal, Diogo, o Chiuso, equipara-se a Olavo de Carvalho, Hugo Chávez e Reinaldo Azevedo. Filhote de Olavo, Olavinho é.

Mais ainda, me chama de sexagenário. Se acha que me insultou, enganou-se. Sou sexagenário e com muito orgulho. Vivi muito bem minhas seis décadas de existência. Tive sofrimentos, é verdade, como todo homem que chega aos sessenta. Mas se muitas vezes chorei de dor, outras tantas chorei de alegria, principalmente diante de momentos de extrema beleza. E estas outras vezes foram as mais. A propósito, estou nos sessenta, sem necessidade alguma de pedir esmolas a meus leitores para viver no estrangeiro, como faz o guru de Diogo - o Chiuso -, o astrólogo Olavo de Carvalho, em inexplicáveis vilegiaturas pela Virginia.

Nossa! Que diferença entre este irado missivista e o rapaz que ontem escrevia: “Se sou uma pessoa a quem você muito estimou, fique sabendo que ainda o estimo”. Extraordinária demonstração de estima. Diogo revelou-se mais metamórfico que o Metamorfose Ambulante. Enquanto o Metamorfose Ambulante muda de estado de espírito de uma semana para outra, Diogo muda em 24 horas. Mas lembra, meu caro, que se os deuses não tiverem especial apreço por ti, um dia chegarás aos sessenta. Faço votos que chegues lá como eu cheguei: cheio de juventude, bem de vida, de bem com a vida, rodeado de amigos e amigas. Viver é uma ciência que poucos dominam. O saldo só se revela no final.

Escreve Diogo: “Mesmo com um pedido de desculpas, Cristaldo, que pessoalmente pareceu as aceitar, preferiu posar publicamente como “o censurado”. Ora, não estou posando de censurado. EU FUI CENSURADO. Minha resposta foi deletada. Que deletasses tuas bobagens (és tu mesmo que assim defines o que escreveste), entendo. Mas não podes deletar minha resposta. Pedidos de desculpas são simpáticos. Mas prefiro direito à resposta.

Em teu artigo, cheio de evasivas e invectivas, não respondeste à pergunta que fiz. Em um primeiro mail, escreveste: “um dos moderadores achou por bem encerrar as discussões naquele post por entender que a discussão atingiu o seu limite”. Já no segundo mail, há uma nova versão: “todos os moderadores concordam que a discussão daquele post passou dos limites”.

Afinal, o moderador é um só? Ou são plurais: “todos os moderadores”? Quem são estes senhores? Te pedi os emails dos moderadores, queria falar com eles. Não os enviaste. Nem poderias enviar. É claro que não há moderadores. A censura foi responsabilidade exclusiva tua. Te envergonhaste das bobagens que proferias e preferiste encerrar o debate com aquele instrumento ao qual apelam todos aqueles que têm medo ao debate, a censura. A única forma de escapares à pecha de mentiroso é enviar-me os emails dos moderadores.

Continuo à espera dos nomes deles. Manda-me o email dos que censuraram minha resposta. Quero falar com eles e saber, de viva voz, porque me censuraram. Ou O Expressionista será uma espécie de maçonaria, cujos participantes devem permanecer ocultos?

Não contente de insultar-me, passaste a insultar até meus leitores: “os pobres diabos que ainda lhe dão ouvidos”. Ou seja, até leitor meu passou a ser pestilento. Pareces esquecer que meus leitores eram leitores do teu jornal. Estás insultando teus leitores. Escreves ainda: “já me chamava em seu blog de galardão”. Nunca chamei ninguém de galardão. Nem tenho idéia do que signifique chamar alguém de galardão.

"Sempre rodeado de criaturas enfermas que quererão ser seus amigos". Ou seja, quem quer que seja meu amigo é pessoa enferma? Pelo jeito, Diogo, o Chiuso, vive ainda nos tempos da Inquisição, quando ser amigo de um condenado pela Santa Madre Igreja Católica era estar condenado aos infernos.

Em teu artigo, fazes um link para o que seria meu último artigo. Ora, remetes para “Dormindo com o inimigo”, que está logo abaixo no jornal. Não foi esse. Meu último artigo foi o que deletaste, porque não suportaste ser desmascarado em tuas bobagens. Atenção, foste tu quem escreveste: “Já o teu comentário eu deletei em seguida, pois era dirigido às bobagens que EU havia escrito e já deletado”. Confio em teu depoimento.

Finalizando, escreves: “Cristaldo posou de dama púdica e saiu gritando: censura! Depois, se meteu a valentão, e conseguiu no máximo inventar apelidinhos pejorativos ao editor Olavo de Carvalho, coisa que se orgulha, como um menino colegial. Qual será o que ele inventará para mim?”

De novo púdica, assim com acento. O menino que reclamava da falta de conhecimento de português dos jornalistas continua sem saber acentuar. Tua observação me lembra meus dias de universidade. Em uma reunião de departamento, encontrei um aluno com rosto totalmente inexpressivo e pensei com meus botões: “Que cara de tapado”. Quase caí de costas quando ouvi o nome dele: Renato Tapado. O homem portava no nome sua própria definição. Tu não precisas de apelido. Teu nome já diz tudo. Diogo, o Chiuso.

Expulso do Expressionista, estou agora publicando em
http://pugnacitas.blogspot.com.

Engana-se quem imagina que, neste mundo internético, pode censurar alguém.

 
AINDA A CENSURA DO CHIUSO


Escreve Rodolfo Castanho:


January 18th, 2008 at 17:32
Realmente é uma pena… Um debate intelectual virar uma baixaria é realmente bizarro. Nós leitores estamos perdendo a oportunidade de ler ótimos artigos de um ótimo colunista. Os dois colunistas brigões perdem a amizade. É uma pena. Já que, um dia, sentaram juntos para conversar amigavelmente e tomar um vinho, deveriam sentar-se para conversar sobre o que está acontecendo aqui. Não importa o que decidam, uma conversa cara-a-cara terá muito mais dignidade. Espero que resolvam isso como pessoas inteligentes e decentes que são. Um abraço.


Não adianta sentar para conversar, Castanho. Fui censurado. Um artigo meu foi deletado. Só há uma saída: reabrir os debates. Como isto jamais será feito, não há saída alguma. Jovens não gostam de sair-se mal em um debate.

 
ABOUT LOBATO


Do professor Christopher Rollason, Ph.D
(http://christopherrollason.spaces.live.com),
recebo:


18/1/2008
BORGES AND THE INTERNET - DEBATE IN BRAZIL / INPUT FROM MY OWN WORK

A dense and fascinating debate is under way in Brazilian academic, press and on-liue circles over the relationship between the Internet, the fictions of Jorge Luis Borges and the (hitherto underplayed) role of Brazilian literature in anticipating aspects of today's networked world.

On Sunday, 25 November 2007. The newspaper O ESTADO DE SÃO PAULO carried, in its section ESTADÃO DE HOJE - CADERNO 2, a piece entitled 'Profeta da web, refém do presente' ('Prophet of the Web, hostage of the present'), by Leyla Perrone-Moisés, Professor Emeritus of the Faculty of Philosophy, Letters and Human Sciences of the University of São Paulo -

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20071125/not_imp85139,0.php

The article was devoted to Borges as a precursor of the Internet. The author took as her starting-point two articles available on-line, one by Douglas Wolk (www.salon.com), and my own: 'Borges' "Library of Babel" and the Internet', IJOWLAC (Indian Journal of World Literature and Culture) (Kolkata/Calcutta, India), Vol. 1.1, January-June 2004, pp. 117-120;
www.themodernword.com/borges/borges_papers_rollason2.html).
Douglas Wolk's piece, in Perrone-Moisés' words (my translation), 'says that Borges predicted the Internet', with examples drawn from stories such as 'La lotería en Babilonia / The Lottery in Babylon' and 'El Zahir / The Zahir'. My own article, in which I take issue with Ignacio Ramonet, the editor of LE MONDE DIPLOMATIQUE, argues that Borges' 'La Biblioteca de Babel / The Library of Babel' anticiupates certain aspects of today's endless library that is the Internet, but fails to predict one of its key elements, namely that it is a library made by its users (this essay has been placed on the reading lists of several higher education institutions, including - !!! - a librarianship college in Denmark).

Perrone-Moisés accepts my and Wolk's notion that the Argentinian writer is at least a partial precursor of the Internet, and goes on to list some of the many Borges resources available on the Web (out of over three million ..).

The same day (25 November 2007), the Brazilian writer and journalist Janer Cristaldo published an on-line response to Perrone-Moisés, at: http://www.oexpressionista.com.br/?p=363, entitled 'Uspiana anuncia profeta errado' ('University of São Paulo academic announces the wrong prophet'). Cristaldo too cites Wolk's and my own articles, but goes on to claim that if there is a true Latin American precursor of the Internet it is not the famous Argentinian, but a much lesser-known Brazilian, Monteiro Lobato. He shows how in Lobato's novel of 1926, 'O Presidente Negro' ('The Black President') - a futurological narrative set in 2228 - elements like 'radiotransportation' (anticipating teleworking), instantaneous voting, and the 'porviroscópio' or 'futuroscope' all presage aspects of today's networked world. Indeed, he goes so far as to compare, side by side, a passage in which Lobato describes the 'porviroscópio' and a famous extract from Borges' 'El Aleph / The Aleph' (1949), concluding that Borges' proto-networked image of an object which contains all objects derives very closely from the similar imagining of this little-known Brazilian writer (Lobato's novel is apparently out of print). Borges, it would seem, knew the work of Lobato, who spent some time in Buenos Aires …

On 13 January 2008, on a site called 'Baguete', Cristaldo returned to the subject of Lobato, in a text entitled 'Lobato e Obama' ('Lobato and Obama') - http://www.baguete.com.br/colunasDetalhes.php?id=2631.

This time, while referring once again to the Borges debate, he stressed a rather different predictive aspect of Lobato's novel: it narrates a US presidential campaign in which, of the three candidates, one is a woman and one (male) is black.

**

I am most grateful, both to Leyla Perrone-Moisés for citing my Borges article and to Janer Cristaldo for opening up the debate. My own response is that no single author can or should be considered 'the' precursor of the Internet, and I greatly welcome the way Cristaldo has 'rescued' the little-known Lobato as a player in the complex intertextual game of anticipation and prediction. Let us meanwhile not forget the precursor role of another Argentinian, Julio Cortázar. I hope to return to these fascinating issues soon in future writings!

 
E SEGUE O BAILE NO GALPÃO...



Raphael Piaia, disse:
January 18th, 2008 at 12:08
Oh Boy, falando em maniqueísmo…

Sim, na mente do tal Diogo, impedir que se comente um artigo não é censura, principalmente se os motivos que o levaram a isso forem a profusão de “ofensas pessoais” que supostamente caracterizavam os comentários. Ora, seria interessante que Diogo, levando seus próprios critérios em consideração, censurasse então (quero dizer, bloqueasse) este seu último artigo. Seria o mínimo esperado para que se mantenha alguma coerência, a não ser que “velho babão”, “moleque birrento”, “mocinha impudica” e “herói sem caráter” sejam críticas racionais e razoáveis.

Não, Janer Cristaldo não foi censurado do Mídia sem Máscara. Afinal, que tipo de maluco pode achar que recusar a publicação de um artigo sem que nenhuma justificativa tenha sido apresentada seja censura? Só o bobão do Janer.

Quem são os leitores de Janer Cristaldo, pergunta Diogo. Mais importante que isso é: quem são os leitores de Diogo? O rapaz, ao que tudo indica, pode muito bem ter baseado em si mesmo a afirmação de que Janer está “rodeado de criaturas enfermas que quererão ser seus amigos”.

Enfim, quando o quiproquó – como disse o Janer - entre os dois já parecia resolvido, veio um Severino, na página de recados do Janer, e reacendeu tudo. Diogo, infelizmente, caiu.

Ramón Portal, disse:
January 18th, 2008 at 12:35
Senhores:

Li tudinho e o que me parece é que o desfecho desagradável pode ter sido causado por um choque no timing um tanto exacerbado entre as respostas de um e de outro - entre as “desculpas” de Diogo e o depoimento de Janer em seu blog. Enquanto um punha os panos quentes, o outro já tinha lançado brasas. Nada tenho com isso, mas, fosse Diogo, manteria a intenção da paz oferecida - quiçá Janer fizesse algum contorno e continuasse colaborando no Expressionista. Ora, com ego enorme pesando entre os ombros ou não, os artigos do gaúcho são sempre instigantes e únicos. Uma pena que sua pena não rabisque mais neste espaço. Vocês foram céleres demais no afã de marcar suas posições. É… a internet é rápida e não perdoa.

Abs.

Mauro, disse:
January 18th, 2008 at 13:04
Sou um contestador nato de Cristaldo, principalmente quanto a seus atendados ao Catolicismo e as agressões gratuitas aos católicos. Entretanto neste embróglio, não posso deixar de discordar de Diogo. Foi um erro bloquear os comentários, estejam eles no braseiro que estão.

Por outro lado, caberia ao Janer, em respeito ao amigo, não ser tão deselegante. Dizer que um amigo é desempregado e partir para outros tantos desaforos, se ditos ao vivo pode levar às vias de fato. Depois, se tivesse desculpado mesmo, faria a tal retratação que o amigo esperava.

Lá o blog do Janer ele ao mesmo tempo que aceita as desculpas, mete a boca no rapaz. Bate a assopra. Estranho jeito de tratar um amigo que até frequentava a sua casa…

Renato, disse:
January 18th, 2008 at 14:22
Esse Piaia não é aquele que chama Janer de mestre?

Diogo não perguntou quem lê os textos de mestre de Piaia. Perguntou quem conhece a sua história. Tem outra pergunta ainda melhor. O que se tornou o Janer Cristaldo? O colunista que foi expulso do Midia sem Mascara. Agora do Expressionista. Mas quem chamou ele antes de velho babão e com nome de travesti foi o Reinaldo Azevedo. Mas desistiu de tentar brigar com gente famosa para ganhar seus 15 minutos.

Julio, disse:
January 18th, 2008 at 14:26
Vai tarde…

Roberto Venegeroles, disse:
January 18th, 2008 at 14:32
Piaia, você gosta de dizer por ai que sou um zé ninguém, um Severino da vida. Eu ao menos publico artigos científicos em revistas internacionais altamente qualificadas. Mesmo em início de carreira acadêmica, publiquei sozinho no ano passado um artgo na revista de Física mais importante do mundo, a Physical Review Letters. Não é o meu caso, mas o úlitmo prêmio Nobel de Física surgiu de uma publicação nesta revista. O mesmo aconteceu com muitos outros.

Por outro lado, googlei o seu lindo e famoso nome e nada encontrei. Talvez um concurso público prestado no meio do século passado, no máximo. O único ofício relevante que conheço de sua parte é admirar incondicionalmente Janer Cristaldo.

Então, passo a ser um fã seu, provavelmente o único que terá em toda sua vida. Porque não deve ser fácil viver às custs das sombras dos outros. Você é meu herói…

Raphael Piaia, disse:
January 18th, 2008 at 14:38
Renato, esse Piaia (eu aqui)é leitor de Janer e até acompanhou Diogo por algum tempo. Quanto a você, não duvido que seja uma Olavete, acertei? Os únicos que gostam tratar por Mestre, Professor e tudo o mais são vocês, boas Olavetes que são. Tenho que acrescentar uma boa dose de fanatismo até alcançar vocês, mas chego lá…



DUAS OBSERVAÇÕES

Em primeiro lugar, não fui expulso do Midiasemmascara. Afastei-me do jornal porque um artigo meu foi censurado. O único jornal do qual fui expulso é OExpressionista, editado por Diogo, o Chiuso. O menino entrou em um debate para o qual lhe faltavam condições para participar, sentiu-se mal e tomou a providência mais ao alcance de sua mão, a censura.

Quanto à postagem do nobelizável Roberto Venegeroles, entendo que se um leitor gosta de meus textos, isto passou a ser condenável.

Quinta-feira, Janeiro 17, 2008
 
ADEUS, CARÍSSIMO!



“Espero que aceite minhas desculpas. Mas não aceitando, que continue postando os teus textos. Embora "editor", o jornal é muito mais dos colunistas do que meu”. Isto escrevia Diogo Chiuso, há cerca de 24 horas atrás. Em mensagem no Orkut, escreveu: "Mesmo assim, se o teu desejo é sair gritando a todos que sofreu censura, pouco me importa, já que só seria censura se tivessem lhe privado o espaço ou a liberdade para escrever o que bem entende. Isso não ocorre, nem ocorreu. Você tem acesso ao jornal e não escreve porque não quer".

Mas a Internet é rápida. Ainda hoje, em nova mensagem, escreve Diogo: “Convém lembrar que todos os moderadores vêem esta tua atitude como uma cretinice. Se o teu desejo é gritar por aí que eu o censurei, vou facilitar as coisas. Após esta postagem irei cancelar tua conta no blog. E parte de mim a iniciativa, para dar mais veracidade a campanha da fictícia censura que já iniciaste.”

Tão coerente como o Metamorfose Ambulante. Estranhos canais subterrâneos unem um Diogo Chiuso a um Lula da Silva.

Claro que Diogo me censurou. Deletou artigo em que eu refutava suas infantilidades. Não suportou o debate. Ou seja: “Você, Janer, pode continuar postando seus textos. Mas não vai postar mais nenhum”. Brilhante propósito de liberdade de expressão.

Bom, vamos aos fatos mais recentes. Em um primeiro mail, Diogo escreveu: “um dos moderadores achou por bem encerrar as discussões naquele post por entender que a discussão atingiu o seu limite”.

No segundo mail, há uma nova versão: “todos os moderadores concordam que a discussão daquele post passou dos limites”.

Afinal, foi um moderador? Ou foram todos os moderadores? Pedi ao Diogo o email dos moderadores. Queria conversar com eles. Até agora, Diogo não os enviou. Queria discutir com eles por que razões minha resposta foi deletada. Que Diogo deletasse a sua, não vejo nenhum problema. As pessoas acabam se pejando de dizer bobagens. Isto de bobagens não é afirmação minha. É admissão do próprio Diogo, em mensagem que reproduzi dois ou três posts atrás: “Já o teu comentário eu deletei em seguida, pois era dirigido às bobagens que eu havia escrito e já deletado”.

Que Diogo deletasse suas bobagens, é direito seu. Mas não podia deletar a minha mensagem. Isto é censura.

Neste sentido, o jornal católico conservador Midiasemmascara foi mais decente comigo. Sei que quem censurou meus textos foi Olavo de Carvalho. No Expressionista, não sei. Diogo delega a censura a um suposto colegiado de moderadores, e não ousa dar-me o nome de nenhum. Até parece administração do MASP, cujos membros são ocultos. Ou uma espécie de maçonaria, onde barbados parecem criancinhas brincando de segredinhos.

Diogo, já o recebi com bons vinhos em minha casa. Mais ainda: certa noite Diogo cozinhou um peixe divino chez moi. Entramos madrugadas adentro discutindo o homem e o mundo. Diogo fez uma excelente entrevista comigo, que pode ser achada na Web. (De repente, a reproduzo neste blog). Convidado para escrever no Expressionista, aderi ao convite com prazer. Gostei de debater com os leitores. Suponho que minha contribuição tenha trazido muitos outros leitores ao site.

Hoje, censurado! Diogo parece estar vivendo nos anos 70, quando alguém censurado era censurado pour de bon. Nestes dias de Internet, isto não mais vige. Se sou censurado aqui, escrevo acolá. Impossível impedir a livre expressão nestes dias. O que aconteceu, a meu ver, foi que um menino inseguro não suportou ouvir críticas a suas posturas adolescentes.

Deploro apenas não mais escrever em um jornal que gostei de escrever. Paciência. Meus leitores podem sempre encontrar-me neste blog, onde jamais me passou pela cabeça exercer censura sobre mim mesmo. O Expressionista parece estar encontrando sua vocação. Doidivanas que nada entendem de mundo, perambulando pela Europa e deitando erudição sobre países onde recém chegaram e dos quais nada conhecem. Católicos enrustidos – que não ousam dizer o próprio nome – condenando o aborto, aderindo a uma das mais obsoletas teses da Igreja Católica. Testemunhas de Jeová pontificando sobre o cristianismo. Também sem ousar identificar-se como Testemunhas de Jeová.

O Expressionista está cada vez mais próximo do jornal católico conservador Midiasemmascara. Dogmático e intolerante. Resta a pergunta: quem foram os moderadores que censuraram meu artigo?

Ou você responde, Diogo. Ou você é vil.

 
BASTA DE PANOS QUENTES


A mais importante revista do país enviou determinação a seus redatores: daqui para a frente, as FARC só poderão ser tratadas como grupo terrorista. Por outro lado, em entrevista na Folha de São Paulo de hoje, as duas reféns das FARC recém-libertadas sequer ousam falar em terrorismo.

 
SUPREMO APEDEUTA ENCONTRA
INGRATO COMA ANDANTE



Ainda ontem, Lula se gabava de ter falado mais de duas horas com Fidel Castro. "Nessas duas horas e meia em que nós conversamos, Fidel falou duas horas e eu falei meia. Se um dia eu ficar doente, quero ter a mesma capacidade de falar que teve o Fidel comigo".

Pelo jeito, faltou combinar o script. No mesmo dia, o novel articulista do Granma escreveu: “Não estou fisicamente capaz de falar diretamente aos cidadãos. Faço o que posso: escrevo. É algo novo. Escrever não é como falar."

Ingrato Coma Andante. Quando o Sumo Apedeuta louva sua saúde, o enfermo a nega. Lula elogiou a “lucidez incrível” e a “saúde impecável” do moribundo, moribundo que nunca foi lúcido, nem mesmo quando em vida. Louvou ainda seu estado físico: "Se um dia eu ficar doente, quero ter a mesma capacidade de falar que teve o Fidel comigo".

Disse ainda: “Fidel Castro está pronto para assumir o papel político que ele tem em Cuba e que tem na história, no mundo globalizado".

Sem comentários. Comentar o quê?

Quarta-feira, Janeiro 16, 2008
 
MEU CARO DIOGO,


contente em saber que voltarei a colaborar no Expressionista. Me agrada o debate gerado neste jornal e creio que discordar sempre faz bem à saúde intelectual. Me choca a idéia de, nos dias atuais, cortar relações por diferenças de ponto de vista.

Já perdi amigos por fatos que aconteciam na Indochina. Já vão longe os tempos em que Sartre dizia a Camus: "l'amitié, elle aussi, tend à devenir totalitaire; il faut l'accord en tout ou la brouille, et les sans-parti eux-mêmes se comportent en militants de partis imaginaires".

A Guerra Fria acabou. Espero que breve possamos retornar a discutir o homem e o mundo em minha mesa redonda, apoiados sobre bom mármore, em torno a um generoso vinho da Cordilheira.

Abraço. No entanto, ainda não encontrei quadro para resposta no Expressionista.

 
MAIL DO DIOGO



Janer, estava escrevendo um e-mail a você, mas fiquei sem internet e não consegui enviá-lo antes que me encaminhasses este teu artigo.

Antes de mais nada, não o expulsei do jornal. Tua senha de acesso é a mesma, assim como o teu espaço.

O que escrevia era um pedido de desculpas pela última postagem. É o mínimo que posso fazer. Escrevi um monte de bobagens que culminaram em ataques pessoais. Preferi deletá-la por achar por demais ridícula - ao mesmo tempo, como moderador não permitiria um comentário semelhante. Discordâncias têm limites e eu o estrapolei.

Já o teu comentário eu deletei em seguida, pois era dirigido às bobagens que eu havia escrito e já deletado. Assim, achei que não teria sentido deixá-lo sem o meu comentário anterior. E que poderia me redimir diretamente com você. Talvez tenha errado novamente, assim sendo, peço desculpas duplamente.

Sou editor do jornal, mas nunca me meti numa vírgula do que é postado. E nem espere isto de mim. Mesmo que mantivesse o que havia escrito naquele comentário, sei separar as coisas. Não é uma discussão pela internet que me levará a expulsá-lo de algum lugar. Muito menos do jornal, não é do meu feitio. Como disse, sei separar as coisas e admitir meus erros.

Se sou uma pessoa a quem você muito estimou, fique sabendo que ainda o estimo, mesmo parecendo estranho após ter levado a discussão às vias da cretinice.

Bom, tua senha é a mesma e espero que poste o artigo que escreveu. Não estou isento de críticas por ser "editor".

Mas tudo que escrevi até aqui é de menor importância porque quero me desculpar pelo ocorrido. Foi algo que me deixou profundamente triste comigo mesmo.

Por fim, não estou desempregado, tampouco mal empregado. Nem procuro um cargo no governo. E por mais que eu possa buscar refúgio em problemas pessoais, nada justificaria as palavras que lhe dirigi. Sempre obtive respeito de sua parte. Não foi da mesma forma que correpondi naquele comentário infame.

Espero que aceite minhas desculpas. Mas não aceitando, que continue postando os teus textos. Embora "editor", o jornal é muito mais dos colunistas do que meu.

Um abraço,
Diogo

 
LONGA VIDA AO JOVEM CENSOR



Tenho recebido não poucos galardões ao longo de minha vida. Já fui expulso de uma comunidade que discutia Luís Fernando Verissimo. Era comunidade dirigida por jovens fanatizados, que não aceitavam críticas a seu guru. Recebi como uma comenda minha expulsão.

Mais tarde fui expulso da comunidade do MSM, o Midiasemmascara. Como eu escrevia no jornal católico conservador, passei a freqüentar o site. Comecei a interrogar os jovens católicos e descobri que nada entendiam de Bíblia, dogmas ou doutrina da Igreja. Tentei instruí-los um bocado na doutrina da Santa Sé. Fui expulso. Mais uma comenda em meu peito.

Logo depois, tive de abandonar o Mídiasemmascara. Escrevi uma singela crônica, onde afirmava que Jesus nasceu não em Belém, mas em Nazaré. Fato que não implica nenhum dogma. Sei lá porque razões, minha crônica foi censurada. Soube mais tarde que o que provocou a censura não foi esta crônica, mas uma outra, já publicada, onde eu discutia as hipóteses teológicas sobre o destino do prepúcio de Cristo. Como se eu estivesse desvairando: o destino do prepúcio do Cristo preocupou teólogos – inclusive da Sorbonne – durante séculos. Como não admito ser censurado, deixei de escrever no jornal.

Hoje, acabo de ser expulso de mais um jornal eletrônico, O Expressionista (http://www.oexpressiniosta.com.br), no qual colaborava há alguns anos. Entrei em uma polêmica com o editor, pessoa a quem muito estimei e com quem já tomei bons vinhos aqui em casa. Diogo Chiuso levantou teses absurdas a respeito do Brasil, da Europa e de mim mesmo, e eu as refutei, como sempre faço quando discordo de algo. Discordei com contundência, mas sempre com elegância, como é de meu estilo. Parece que Diogo achou o puchero por demais gordo. Em uma de suas últimas postagens, além de proferir bobagens como “os jornalistas no Brasil mal sabem escrever português” (y otras por el estilo), passou a agressões pessoais. Condenava o desconhecimento de português dos jornalistas, ao mesmo tempo em que cometia erros primários.

Enviei longo post (pena que não o salvei), refutando sua afirmações e deplorando suas agressões pessoais, afinal era pessoa de minha estima e já havíamos confraternizado por longas horas em torno a um bom vinho. Disse que já havia perdido amigos, em outras épocas, por discussões sobre longínquas questões na Indochina e no Oriente Médio, e achava que não valia a pena perder mais um, por discussões a respeito de jornalismo ou Brasil.

Pois bem, minha resposta foi deletada. Escrevi um último mail:

Janer Cristaldo, disse:
January 16th, 2008 at 13:39 e
Postei uma longa resposta ao Diogo logo após este comentário do Anselmo. Foi deletada.


Tive como resposta:

Diogo Chiuso, disse:
January 16th, 2008 at 13:48 e
Também foi deletado o que originou a resposta, Janer. E ainda antes da tua postagem. Não havia razão de ter uma sem a outra. Foram as duas.


Tentei responder a este post. Não havia quadro para responder. Escrevi então artigo, afirmando que o Diogo podia muito bem censurar seus próprios textos, mas não os meus. Tentei postar o artigo, não consegui. Entendo que estou excluído do Expressionista.

Mais um galardão. É uma lástima. Eu gostava de discutir no site. Mas, para bom entendedor, todo fato é ensinamento. Descobri que os jovens podem ser tão fanáticos quando um Olavo de Carvalho. E tão censores como os milicos de 64. E covardes a ponto de excluir um colaborador valioso, para não terem de ouvir argumentos contrários ao que pensam.

Longa vida a Diogo Chiuso, o jovem censor. Creio que está desempregado, ou pelo menos mal empregado. Que procure logo o governo. Merece cargo bem remunerado no PT.

Terça-feira, Janeiro 15, 2008
 
COMO TORNAR UM VINHO DIVINO



Sempre desconfiei de vinhos com preços exorbitantes. Certa vez, em Verona, Itália, em um restaurante simpático e nada caro, encontrei exposta uma garrafa de vinho a onze mil dólares. A singela garrafinha equivalia ao que eu e minha mulher estávamos pagando por um mês de Europa. Suponho que estava ali para emprestar um duvidoso prestígio à casa. Ou talvez à espera de algum novo rico bobalhão. Nunca se sabe...

Na Folha de São Paulo de hoje, leio artigo do excelente Ricardo Bonalume Neto, cujo título já nos dá uma pista sobre a armadilha:

PREÇO ALTO FAZ CÉREBRO SENTIR MAIS
PRAZER COM VINHO, MOSTRA ESTUDO


Se é caro, deve ser melhor. A desculpa esfarrapada do consumista inveterado foi agora demonstrada verdadeira, pelo menos segundo reações do cérebro de 20 voluntários em um estudo nos EUA. Bastou dizer que um vinho era mais caro que outro para as "cobaias" humanas acharem que ele era mais gostoso – mesmo quando se tratava da mesmíssima bebida. Péssima notícia para os amantes do vinho, excelente para os profissionais de marketing.


Segundo a experiência, as "cobaias" degustaram cinco tipos de vinhos tintos varietais, da uva Cabernet Sauvignon, enquanto tinham seu cérebro monitorado por ressonância magnética. No aparelho de mapeamento cerebral, as áreas ativas apareciam iluminadas. Quando algo gerava prazer, luzes surgiam na região conhecida como córtex orbitofrontal medial.

Em verdade, não foram cinco, mas apenas três vinhos. Dois deles foram apresentados com seu preço real - US$ 5 e US$ 90 - e depois com preços fictícios - o mais barato ficou 900% mais caro (US$ 45); e o mais caro ficou 900% mais barato (US$ 10). O terceiro vinho, de US$ 35, foi apresentado apenas com seu preço real. As bebidas apresentadas como caras, no final, tinham recebido notas maiores mesmo que fossem baratas; mas a maior atividade cerebral indicava que havia real aumento do prazer.

Sem me pretender cientista nem dispor de aparelhos de ressonância magnética, diria que os degustadores gostaram mesmo é do status. Sempre dá mais status tomar um vinho caro do que um barato. É de supor-se que esta sensação de riqueza mexa com o tal de córtex orbitofrontal. Deve ser a mesma sensação de quem usa um falso Rolex, pelo menos antes de descobrir que é falso. Idêntica experiência, se aplicada a alimentos, certamente dará o mesmo resultado. Se a esse tipo de comensal for servido um soberbo faisão trufado por dez reais num boteco de esquina, o prato certamente não lhe estimulará o palato. Mas se pagar uma fortuna por um coelho mal assado nos Fasanos da vida, sentir-se-á sumamente gratificado.

Não por acaso, falei em coelho mal assado. Há alguns anos, para comemorar seus ganhos na Bolsa, um amigo convidou-me para uma janta no Massimo, um dos mais caros restaurantes de São Paulo, muito freqüentado por impolutos senhores como Delfim Netto, José Sarney, Zé Dirceu. É o que chamo de restaurante não para pessoas físicas, mas para pessoas jurídicas. Quem vai lá, paga com verbas de representação. Isto é, joga a conta para o contribuinte. Bom, gosto de coelho, pedi um coelho.

Na segunda garfada, tive de devolvê-lo. Mal assado, a carne tinha uma cor abominável tendendo ao gris. Sabor nenhum de coelho. O maître ficou perplexo, me pareceu que nunca tinha visto alguém devolver um prato. Foi a segunda vez que devolvi um prato em minha vida. A outra foi em Paris, em circunstâncias semelhantes. Mas pelo menos o restaurante não era metido a besta.

A notícia, como escreve Bonalume, é excelente para os profissionais de marketing. Basta elevar os preços de um vinho para torná-lo divino. Isto me lembra um dos mais belos filmes que já vi em minha vida, A Festa de Babette, de Gabriel Axel. No banquete final, aqueles pobres diabos protestantes da Jutlândia, que dos prazeres do palato jamais haviam tido notícia, não têm idéia alguma das excelências com que Babette lhes brinda. É preciso cultura e experiência de mundo para entender o banquete. Só o general Löwenhielm, acostumado às cortes européias, consegue identificar a caille en sarcophage, o blinis Demidoff, o Clos Vougeot 1845.

Ali não está em jogo o preço das coisas. O banquete é fruto da generosidade de Babette. Gastronomia, como toda arte, exige cultura para ser degustada. Last but not least, quero registrar um lapso do roteirista que me parece imperdoável em tão belo filme. Naquele fim de mundo das estepes danesas, o general Löwenhielm não demonstra curiosidade alguma em conhecer a soberba cozinheira, humildemente escondida atrás do outro lado da parede da sala.

 
UNIVERSIDADE ROMANA
RECHAÇA BISPO DE ROMA




Nunca entendi bem um papa visitando uma universidade. Universidade é lugar de pesquisa, papa é obscurantismo. A Igreja até pode estar na origem das universidades européias. Foi em época em que até mesmo a universidade devia prostrar-se ante a Igreja. Hoje não mais. Foi o que entenderam professores e alunos da universidade La Sapienza, de Roma.

Bento XVI deveria visitá-la na próxima quinta-feira. Um grupo de 67 professores pediu a anulação da visita por considerar o Papa um "obscurantista" e por "ter dito, em 1990, que o processo da Igreja contra Galileu tinha sido razoável e justo". Cartazes colocados na universidade diziam: "a ciência é laica". O Vaticano acusou o golpe e cancelou a visita papal. "Devido ao caso bem conhecido em relação à visita do Santo Padre à Universidade La Sapienza, que, a convite do Reitor Magnífico, seria realizada em 17 de janeiro, considerou-se oportuno adiar o evento. O Santo Padre enviará, de todos os modos, o discurso previsto", afirmou o escritório da imprensa da Santa Sé.

Sinal dos tempos – e sinal dos bons – ver uma universidade romana recusando a visita do bispo de Roma. Fosse entre nós, o corpo acadêmico se desdobraria em rapapés ao pastor alemão.

Segunda-feira, Janeiro 14, 2008
 
SANTA INGENUIDADE



Em artigo para o jornal católico conservador Midiasemmascara, o padre Luiz Carlos Lodi da Cruz denuncia a CFFC - Catholics For a Free Choice, em inglês, Católicas pelo Direito de Decidir, em português – como um grupo de agentes infiltrados,

“cujo nome “católica” é estratégico para confundir o público. O objetivo é infiltrar-se nas paróquias, nas dioceses, nas universidades católicas, nos meios de comunicação, nas casas legislativas a fim de dar a entender que é possível, ao mesmo tempo, ser católico e defender o direito ao aborto. Além do aborto, tais “católicas” defendem o uso de anticoncepcionais, o divórcio, as relações sexuais pré-matrimoniais, os atos homossexuais, o matrimônio de pessoas do mesmo sexo e todas as formas de reprodução artificial”.

Ora, as tais “católicas” – assim entre aspas – defendem apenas o que a maior parte das católicas – sem aspas – pratica. Ou seja, o uso de anticoncepcionais, o divórcio, as relações sexuais pré-matrimoniais, os atos homossexuais, o matrimônio de pessoas do mesmo sexo e todas as formas de reprodução artificial.

Ou em que mundo pensa o padre Luiz que vive? Ou imagina que as católicas - sem aspas - não usam pílulas? Não têm relações antes do casamento? Não se divorciam? Não praticam aborto? Não têm relações homossexuais? Se até os sacerdotes as têm, por que não teriam suas ovelhas?

Santa ingenuidade.

 
TALAK POR CELULAR



Já comentei várias vezes a chamada lei dos três talaks (repúdio). É o divórcio ao estilo muçulmano. Pronunciado três vezes o repúdio pelo marido, a mulher está divorciada. Claro que o inverso é inimaginável. Mulher vale sempre metade no Islã. Se o Corão reconhece às mulheres o direito à herança, os doutores da lei decidiram que a mulher só pode receber metade da parte devida ao homem. O testemunho de um homem vale pelo testemunho de duas mulheres. Um homem pode ter quatro mulheres. A mulher, um homem só.

Em março passado, comentei uma versão mais ágil do divórcio árabe. Uma professora de Literatura em Genova, casada em segundo matrimônio com um marroquino, descobriu-se divorciada por celular. Recebeu um singelo SMS com a mensagem: EU TE REPUDIO, EU TE REPUDIO, EU TE REPUDIO. O divórcio estava consumado. Em 2006, um tribunal de Manila, Filipinas, reconheceu que o direito dos maridos ao divórcio se poderá efetivar via SMS. A tecnologia unida à barbárie torna tudo mais rápido.

Agora aconteceu no Egito. Há duas semanas, Abul Naser perdeu uma chamada de seu marido. Logo recebeu uma mensagem SMS que dizia textualmente: “Te repudio porque não respondeste a teu esposo”. Não era a primeira vez. O marido já havia pronunciado o repúdio duas outras vezes.

Abul Naser, uma engenheira que vive no Cairo, não hesitou um segundo e se dirigiu a um tribunal de família para conhecer sua situação depois do SMS. Seria ainda uma mulher casada? Ou o divórcio por celular teria validade legal? Embora o Egito tenha um código civil, o direito de família é administrado de acordo com a comunidade à qual pertence cada um. Se o tribunal valida a decisão do homem, será o primeiro caso de divórcio por celular no Egito.

Quanto às Filipinas, foram pioneiras. O assunto é controverso no mundo islâmico. Segundo o El País – onde colhi a notícia – o governo de Kuala Lumpur proibiu o divórcio por meios eletrônicos (SMS, fax ou email). Dois anos antes, o Conselho Religioso de Singapura decidiu que o divórcio através de SMS é inaceitável. Na Malaisia, os ulemás basearam seus argumentos nas “dúvidas que podem ser suscitadas sobre a identidade e sinceridade de quem envia a mensagem”.

Bom, verdade que tal sistema não deixa de ter seus convenientes. Elimina burocracia e advogados. Mas ai da mulher que ouse divorciar-se do marido por SMS. Divórcio, no Islã, é direito que só concerne aos machos.

Domingo, Janeiro 13, 2008
 
MAIS METAMÓRFICO
QUE O METAMORFOSE




Sexta-feira passada – há apenas dois dias, portanto – Hugo Chávez solicitava aos governos do continente que retirassem as Farc e o ELN da lista de grupos terroristas do mundo. “Peço à Europa que retire as Farc e o ELN da lista de grupos terroristas do mundo, porque essa lista tem uma única causa, a pressão dos Estados Unidos", afirmou o clown, diante da Assembléia Nacional venezuelana, ao apresentar seu relatório anual de 2007.

Chávez está afirmando - é o que deduzimos - que as Farc e o ELN estão na lista de grupos terroristas não por serem terroristas, mas por terem sido incluídos na lista de grupos terroristas por influência dos Estados Unidos. Hoje, Chávez reiterou seu pedido, acrescentando que se for concedido o status de insurgentes com projetos políticos aos grupos rebeldes da Colômbia, a medida mudaria os métodos de luta.

"Presidente Uribe, se reconhece as Farc em estado de beligerância, por exemplo, e as Farc aceitam isso, as Farc entrariam de imediato nos protocolos de Genebra, não poderiam utilizar o sequestro, por exemplo", disse Chávez em seu programa de rádio semanal. Explicou que a "guerra civil" estaria regulamentada pelos protocolos de Genebra, o que obrigaria as Farc e o Exército de Libertação Nacional (ELN) a renunciar "aos atos terroristas contra a população civil".

Afinal, as Farc praticam ou não praticam terrorismo? Se praticam, devem ser simplesmente absolvidas para que não mais pratiquem? O sargentão venezuelano está se revelando mais metamórfico que o Metamorfose Ambulante. Segundo seus critérios, quem não participa dos protocolos da Convenção de Genebra está autorizado, ipso facto, a seqüestrar e praticar terrorismo.

Falar nisso, o Brasil fica liberado para reconhecer as Farc como grupo terrorista. Afinal, até Hugo Chávez, seu patrono, já as reconhece como tal.

 
RIDÍCULOS FANTASMAS
DE UM SÉCULO ESTÚPIDO




“Não se nasce mulher. Torna-se”. Esta frase idiota, que fere o mais elementar bom-senso, constituiu dogma para multidões nos anos 60, 70 e 80, e não é duvidar que até hoje exista ainda quem acredite nas bobagens escritas por Simone de Beauvoir. Os jornais comemoram hoje, sem muito entusiasmo, é verdade, seu centenário de nascimento.

Guru de várias gerações, la Beauvoir não deixou de ter seus méritos, ao reivindicar iguais direitos para homens e mulheres. Verdade que a obra de Simone serviu para liberar muitas mulheres do ranço religioso. Em meus dias de universitário, quando estávamos assediando uma colega, o presente mais eficaz era O Segundo Sexo. As meninas cediam mais facilmente a nossos avanços, quando guiadas por Simone. Isso no snobíssimo universo universitário. Porque no dia-a-dia, no universo das enfermeiras, balconistas, empregadinhas, daquelas moças que nunca haviam ouvido falar de mulher-objeto, tudo era mais fácil. Nenhuma delas precisava de ideologia para entregar-se ao bem-bom da vida.

O doentio de sua doutrina era não ver maiores diferenças entre um sexo e outro. Em O Segundo Sexo, lemos: “A verdadeira mulher é um produto artificial que a civilização fabrica como outrora se fabricavam os castrati. Seus pretensos instintos de coqueteria, de docilidade, lhe são insuflados como ao homem é insuflado o orgulho fálico”. É espantoso que semelhante disparate tenha sido levado a sério por décadas e, sobretudo, por universitárias.

Orgulhar-se do próprio falo – e por que não? – tornou-se um pecado de lesa-humanidade. Orgulhar-se da feminilidade também. Simone propunha uma espécie de ser assexuado. Uma de suas discípulas chegou a dizer-me certa vez: “Tu não me penetraste. Na relação sexual não há penetração, apenas um mútuo roçar de mucosas”. Um século precisa ser muito estúpido para reverenciar semelhante estupidez.

O século foi assim. Sartre foi aclamado com entusiasmo quando, ao voltar da União Soviética, deu entrevista ao Libération alertando que a França, caso não mudasse de rumos, em cinco anos, no mais tardar, seria ultrapassada pela URSS. A única mudança de rumos, evidentemente, era seguir o caminho do socialismo. Ambos defendiam incondicionalmente o marxismo, o stalinismo, o maoísmo e contemplaram deslumbrados Fidel Castro.

Sic transit gloria mundi. Hoje não passam de ridículos fantasmas de um século estúpido.

Sábado, Janeiro 12, 2008
 
FOLHA ENTREVISTA GENERAL
RUSSO DESMEMORIADO




Na Folha de São Paulo que circula amanhã, há uma entrevista de Igor Gielow, enviado especial a Moscou, com um general russo aposentado, Nikolai Sergeievitch Leonov, 79 anos, que parece estar sofrendo de problemas de memória. Lá pelas tantas, o general, que se pretende “ex-número dois da KGB”, declara: “Em 35 anos de trabalho na inteligência, nunca ouvi nada sobre apoio com dinheiro ou armas a movimentos comunistas no Brasil”.

Ora, ora. Seria interessante saber perguntar-se quem financiou a entrada de Luís Carlos Prestes e Olga Benário no Brasil, que chegaram em 1935, como marido e mulher, na praia do Campeche, em Santa Catarina, vindos de Moscou. Seria interessante também perguntarmos quem financiou os apparatchiks Arthur Ernst Ewert, alemão também conhecido como Harry Berger, o argentino Rodolfo Ghioldi, o belga Jules Léon Vallée, o norte-americano Victor Alen Barron e o ucraniano Pavel Stuchevski, que foram enviados ao Brasil para assessorar o assalto ao poder de 1935.

Para refrescar a memória do decrépito general, seria interessante remetê-lo à leitura de Camaradas, de William Waack, que fez suas pesquisas em arquivos de Moscou:

As operações do Komintern foram financiadas por caixa separado, e a maneira de fazer o dinheiro chegar às mãos do chefe do Bureau Sul-Americano era tão prosaica quanto simples e eficiente. Telegrafavam-se remessas urgentes a endereços de firma ou pessoas “testas-de-ferro’. O fluxo “normal” seguia por uma rede de mensageiros montada a partir da Europa Ocidental. Na pasta, contendo parte da correspondência secreta de Piatniski, podem-se ler exemplos como este:

(...) Carta a Codovilla. Sem relatório referente a janeiro/maio recebido. 1) Enviamos em fevereiro para o BSA: a) o resto de fevereiro, 644 dólares; b) repondo o resto, 1300 dólares para o BSA. Partido Comunista Brasileiro, para as eleições, 1538 dólares. Para janeiro e fevereiro, 426 dólares.

Com letra redonda e caprichada, Piatniski acrescentou outra informação a Codovilla: para o PCB, Moscou havia pago, a cada tgrimestre de 1929, a quantia de 240 dólares. O que se nota de imediato nesses telegramas é o fato de que mesmo a utilização do “ouro” já vinha determinada por Moscou. Meticuloso e perseverante, Piatniski reclamou de Guralski, meses mais tarde, uma prestação de contas para o ano de 1930, e para ajudar o “ajuste de contas” mandou para Buenos Aires, por telegrama cifrado, sua própria demonstração de remessas de dinheiro para o Bureau Sul-Americano:

Envio pelo quarto trimestre de 1930: para a Argentina, 832 dólares; para o Brasil, 569 dólares; para o Bureau, 1920 dólares; e para o Chile, 991 dólares.


É bom lembrar que estes valores em dólares se referem ao ano de 1930. Seja como for, o desmemoriado general Leonov logo adiante se contradiz: “Sim, havia dinheiro para os PCs de todo mundo”. Ora, se havia dinheiro para todos os PCs do mundo, havia também para o PCB.

A mentira tem pernas perguntas. O deplorável nisto tudo é constatar que o repórter da Folha não teve a presença de espírito de explorar as contradições do general desmemoriado.

 
SOBRE A VOLTA


De um leitor sensato, recebo:

Prezado Janer,

Saudações,

Gostei muito, mas muito mesmo, de seu texto "Porque voltei". Nos anos de 2005 e 2006, eu e minha esposa estávamos planejando viver na Europa. Somos ambos cidadãos italianos, e pensávamos em fazer uso de nossa dupla nacionalidade para fugir daqui, principalmente após a vitória do Lula em 2006. No entanto, os mesmos argumentos que você usou em seu texto passaram pelas nossas cabeças. Teríamos de viver certamente em alguma moradia menor do que a nossa atual, e com certeza nosso padrão de vida não seria muito superior ao que hoje possuímos. Além disso, possivelmente seríamos vistos como estrangeiros sulamericanos pelos europeus, e como europeus pelos árabes e africanos que lá vivem. Já em 2005 eu lia seus textos, e refletia sobre eles, principalmente aqueles em que você aconselhava os leitores a visitar a Europa "antes que ela acabe". Se no Brasil a situação costuma piorar, e se na Europa ocorre o mesmo, então enfrentamos o clássico dilema: "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come". Então, ficamos e enfrentamos o bicho.

O parágrafo sobre a possibilidade de se viver no Brasil em um mundo particular, sem se incomodar com o Lula ("Morar no Brasil, por outro lado, significa a humilhação de ter como presidente um analfabeto e tudo que o analfabeto significa. Mas abstraí. Já nem ligo. Se ganhar um terceiro mandato, tanto faz. Ele não mexe em meu pequeno e prazeroso universo."), sintetizou de forma perfeita o que pensamos hoje.

Obrigado e um grande abraço,

Humberto Quaglio


Pois, Quaglio, se alguma vantagem há em morar no Terceiro Mundo, esta é o custo de vida mais barato. Não digo quanto ao comer, sempre há como comer barato nas grandes metropóles. Mas quanto ao habitar. Uma amiga que vive em Paris acaba de comprar um pequeno apartamento (55m2) na Normandia. Duzentos mil euros. Ora, com esse montante se compra um apartamento de altíssimo padrão em São Paulo.

Eu me acostumei aos pequenos espaços, quando vivia na França. Meu apartamento tinha 47 metros quadrados. O que não é pouco espaço para Paris. Para mim e minha mulher ficava quase apertado. Mas tínhamos consciência que estávamos de passagem. Quem passou por esta experiência adquiriu habilidade em aproveitar cada centímetro quadrado do apartamento. Dadas as condições de habitação em Paris, eu diria que uma pessoa solteira deve dar-se por feliz se dispuser de 30m2.

Em Madri é mais barato residir, mas ainda assim caro para os níveis salariais brasileiros. Em Lisboa, já foi relativamente barato. Com o lifting da cidade, graças aos subsídios da Comunidade Européia, Lisboa se tornou objeto de desejo dos hiperbóreos. Escandinavos e alemães estão comprando imóveis por lá e esta busca inflaciona o preço do metro quadrado.

Para nós, que não somos ricos, melhor Brasil.

Sexta-feira, Janeiro 11, 2008
 
LEITOR DEFENDE SUPREMO APEDEUTA



De um leitor, recebo:

Senhor Janer,

Continuo admirando sua posição de crítica consistente às religiões, MAS novamente permita-me discordar de outros pontos de vista do senhor.

Quando critica o Presidente Lula adjetivando-o de "analfabeto" incide em dois erros crassos:

1o. Confunde formação acadêmica com conhecimento;

2o. Confunde gramática normativa com alfabetização e demonstra desconhecimento de lingüística. Recomendo mais leitura de lingüístas consagrados. Vai ser interessante corrigir a imprecisão de seu argumento.

Por fim, há também incoerência lógica em sua crítica à falta de formação acadêmica de Lula e a inexigência de Vossa Senhoria da mesma formação para o exercício do Jornalismo. Ora, eu também defendo que jornalista não precisa de diploma para a atividade dele, mas estou sendo coerente com o meu entendimento de que o Presidente da República não precisa ser bacharel ou graduado em nada para ser presidente. Aqui e em nenhum lugar do mundo.

A incoerência de Vossa senhoria é que, ao exigir formação para o Presidente deveria exercer também formação acadêmica para jornalista, mas o que o senhor defende ponto de vista diferente para essa atividade e inclusive faz jornalismo e não é jornalista...


E por fim, já tivemos um Sociólogo Presidente e o que ganhamos em qualidade de gestão e administração pública com isso? Se o seu entendimento estivesse correto bastaria nomear o melhor Professor de Administração com formação em ciências políticas da FGV que estaríamos com o melhor presidente do planeta.

Mas lanço o desafio: Em que aspecto qualitativo o sociólogo apresentou melhores resultados na administração pública que Lula? (em números por favor).

Abraços,

Ricardo Donizetti.



Vossa Senhoria se engana redondamente, porque nunca confundi formação acadêmica com conhecimento. Fui professor universitário e vi de perto que uma coisa nada tem a ver com a outra. Vi alunos recebendo diploma universitário sem sequer terem condições de entrar na universidade.

Vossa Senhoria ainda se engana quando afirma que confundo gramática normativa com alfabetização. Considero apenas que não pode ser considerado alfabetizado quem não domina os recursos básicos da própria língua. E lingüística não tem nada a ver com isto.

E engana-se mais redondamente ainda quando fala "em sua crítica à falta de formação acadêmica de Lula e a inexigência de Vossa Senhoria da mesma formação para o exercício do Jornalismo".

Jamais critiquei a falta de formação acadêmica de Lula e sempre considerei um erro criticá-la. Porque a academia dá diploma a pessoas tão ou mais analfabetas quanto o Lula. Mais ainda, a academia forma marxistas desvairados que fariam muito mais mal ao país do que o Supremo Apedeuta. Essa crítica à falta de formação acadêmica do Lula não pode ser imputada a mim. Vossa Senhoria jamais irá encontrá-la em meus textos. O que tenho criticado é a incultura de Lula, e esta incultura encontramos também em acadêmicos. Mas Lula é pior dos analfabetos. Como dizia Quintana: "Pior analfabeto é aquele que sabe ler e não lê.

Quanto à formação universitária para o exercício do jornalismo, devo informar Vossa Senhoria que o Brasil é o único país que conheço que a exige. Na França, por exemplo, a lei que regulamenta a profissão é curta e grossa: "é jornalista todo aquele que tira a maior parte de seus proventos do jornalismo".

Vossa Senhoria diz que faço jornalismo e não sou jornalista. Sou jornalista, sim senhor, e registrado no Ministério do Trabalho, na época em que não se exigia formação universitária específica para o exercício da profissão. Esta exigência, tão defendida pelas esquerdas, é achado da Junta Militar que governou o país no final dos sessenta, mais conhecida como a Junta dos Três Patetas. É curioso ver as esquerdas defendendo uma das medidas mais estúpidas da ditadura militar. Que mais não fosse, eu já tinha os cursos de Direito e Filosofia, onde se adquire instrumentos mais úteis para o jornalismo do que nos cursos de jornalismo.

Quanto ao sociólogo-presidente, Vossa Senhoria perde tempo em compará-lo com Lula, porque eu jamais o defendi e muito menos votei nele. Seja como for, o que vejo na atual administração é a ampliação desmesurada dos principais erros do governo Fernando Henrique, a saber: as régias indenizações e aposentadorias para os celerados que queriam transformar o Brasil em uma republiqueta soviética e as esmolas concedidas às camadas pobres da população com objetivos eleitoreiros.

 
TERRORISTAS COMUNISTAS LIBERTAM REFÉNS



Com a libertação de dois dos setecentos reféns que as Farc mantém acorrentados na selva colombiana, a imprensa parece ter esquecido que a organização guerrilheira é comunista, terrorista e tira seu financiamento do narcotráfico. Li hoje jornais do Brasil, Espanha, França, Itália e Suécia. Todos noticiavam a libertação dos reféns. As Farc agora são simplesmente um grupo de guerrilha. Jornal algum fala de suas origens marxistas, de suas práticas terroristas nem de seu tráfico de cocaína. Curiosamente, o único a falar em terrorismo foi o maior aliado das Farc, Hugo Chávez.

"Solicito aos governos do continente que retirem as Farc e o ELN da lista de grupos terroristas do mundo; peço à Europa que retire as Farc e o ELN da lista de grupos terroristas do mundo, porque essa lista tem uma única causa, a pressão dos Estados Unidos", afirmou Chávez diante da Assembléia Nacional venezuelana, ao apresentar seu relatório anual de 2007.

"As Farc e o ELN não são nenhum corpo terrorista, são verdadeiros exércitos que ocupam espaço na Colômbia", declarou o presidente. "É preciso dar a eles reconhecimento, pois são forças insurgentes que têm um projeto político, um projeto bolivariano, que aqui é respeitado", completou.

No que diz respeito ao Brasil, nem precisa pedir. O governo brasileiro sempre se recusou a considerar as Farc como grupo terrorista. Quanto a qualificá-las como verdadeiros exércitos, o tiranete venezuelano superou-se em sua retórica. Como se fosse característico de um exército cometer seqüestros, assassinatos e traficar drogas. Mais um pouco e o grupo terrorista comunista ganha status de entidade beneficente.

Pior que isto, é ver as reféns recém-libertadas se desmanchando em agradecimentos ao mais importante aliado do grupo terrorista que as seqüestrou.

 
JUIZ PROTEGE DELINQÜENTES



Diz a Constituição Federal vigente:
Art.220 - A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.
§ 1º - Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art.5º, IV, V, X, XIII e XIV.
§ 2º - é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.

Diz o juiz Joaquim Domingos de Almeida Neto, do 9º Juizado Especial Criminal: "Os principais veículos de comunicação locais [redes de TV Globo, TVE, Bandeirantes, CNT, Record, Rede TV] e jornais de grande circulação (O Globo, Jornal do Brasil, Extra, O Dia)" terão que "se abster de veicular imagem dos autores do fato".

O fato em questão é uma agressão a prostitutas e travestis com um extintor de incêndio roubado. Os autores do fato são três filhinhos-de-papai - Fernando Mattos Roiz Júnior, 19, Luciano Filgueiras da Silva Monteiro, 21, e um menor – que foram condenados a prestar oito horas semanais de serviços à companhia de limpeza urbana do Rio por um ano.

Desde que foi promulgada a Constituição de 88, não poucos juízes têm se arvorado o direito de censurar a imprensa. Espantoso que não tenha ocorrido aos deputados e senadores mensaleiros recorrer aos préstimos de magistrado tão cioso da proteção à privacidade de delinqüentes. Tivessem os coitadinhos dos mensaleiros conhecimento dos critérios do meritíssimo Joaquim, não teriam suas impolutas imagens expostas à execração pública.

Quinta-feira, Janeiro 10, 2008
 
PORQUE VOLTEI



Leitores me perguntam porque voltei da Europa, se a toda hora vivo manifestando meu apreço pela Europa. Voltei por várias razões. Em primeiro lugar, no Brasil vivia a mulher que eu queria. Uma mulher que eu não trocava por todas as riquezas do mundo. Um continente não vale uma mulher querida. Todo país é lindo quando nele existe alguém a quem amamos. (Enfim, não exageremos. Não estou falando de Uganda nem Zaire).

Em segundo lugar, na Europa eu seria sempre estrangeiro. A cada vez que criticasse uma instituição européia, não faltaria quem me dissesse: “e porque não voltas para teu país?” É pergunta para a qual não há como responder satisfatoriamente. Não suporto a idéia de ser cidadão de segunda classe em lugar algum do mundo.

Em terceiro lugar, o preço do metro quadrado na Europa. Aqui em São Paulo, moro em bairro nobre, disponho de um apartamento com 120 m2. É um bom espaço. Se o vendesse e juntasse mais algumas economias, não conseguiria nem 30 m2 em Paris. Não teria espaço nem pra minha biblioteca. Então, prefiro viver confortavelmente em São Paulo e revisitar a cada ano as cidades que adoro.

Em quarto lugar, o Brasil é um país que dá pra voltar e viver. Não é nenhuma Rwanda ou Quênia. Os exilados de 64, que só pretendiam voltar de metralhadora em punho e para tomar o poder, voltaram com o rabo entre as pernas quando um general concedeu-lhes anistia. Voltaram chorando. Passado é forte. Após meus quatro anos de Paris, quando desembarquei no Galeão e ouvi aqueles sons já quase esquecidos do português, devo confessar que fui acometido pelo famoso nó na garganta.

A Internet nos coloca no mundo, não estamos mais isolados como nos anos 70, quando até carga pra caneta eu tinha de buscar na Europa. Antes que o parisiense vá comprar sua baguete e seu jornal, eu já li o Monde no computador. Tenho em minha tela qualquer jornal da Europa. Tenho acesso a óperas e boa literatura, num clique de mouse. Se é isso que me agrada na Europa e se posso ter isso aqui em casa, então tudo bem.

Me fazem falta os cafés, é verdade. E a culinária. E a arquitetura. Mas isso desconto numa viagem. Visitar a Europa tem seus encantos. Meu primeiro dilema do dia é saber em qual café vou tomar uma cerveja. O segundo, onde vou almoçar. O terceiro, onde vou jantar. Morar já implica certos aborrecimentos. Ter consciência de que árabes e africanos estão tomando conta das capitais européias. De que há bairros, em minha cidade, que já não posso percorrer. Ter de lidar com a burocracia da polícia. Irritar-me com a política nacional. Turista, sou poupado destas preocupações.

Morar no Brasil, por outro lado, significa a humilhação de ter como presidente um analfabeto e tudo que o analfabeto significa. Mas abstraí. Já nem ligo. Se ganhar um terceiro mandato, tanto faz. Ele não mexe em meu pequeno e prazeroso universo.

Meus amigos, hoje, estão em sua maioria em São Paulo. Outros, esparramados em Florianópolis, Porto Alegre, Santa Maria e Dom Pedrito. Amigos são patrimônio de difícil e demorada aquisição, que não pode ser jogado fora. Minhas amigas e minha filha também estão aqui. Idem minha biblioteca. Da gastronomia, não me queixo. Depois de Collor, tenho à minha disposição desde vinhos até arrozes que antes estavam fora do alcance de quem não fosse rico. Tenho acesso à informação que quero e que necessito. Nestes dias de Internet, não é preciso ir à Europa para respirar melhor. Não consegui ainda terminar de ler os livros da penúltima viagem. Música sofisticada é o que não falta aqui em casa. Vivendo no Brasil, tenho grana para viajar para qualquer parte do mundo. Vivesse em Paris ou Madri, não teria. Ficaria prisioneiro da cidade.

O homem é o homem e suas circunstâncias, dizia Ortega y Gasset. Minhas circunstâncias são estas e são ótimas. Em qualquer capital européia não me sobraria dinheiro pra curtir o mundo. Então, fico aqui.

Como disse, apenas uma coisa me impede de viver lá. O preço do metro quadrado. Se tivesse dinheiro suficiente para morar confortavelmente em Paris ou Madri, é claro que não estaria aqui. Mas não tenho. E viver precariamente na Europa não tem muita graça.

Quarta-feira, Janeiro 09, 2008
 
LOBATO E OBAMA


Comentei outro dia artigo do Estadão, em que Leyla Perrone-Moisés, professora emérita da Fefeleche, vê Jorge Luís Borges como o profeta da Internet. A professora cita ainda Christophe Rollason, que considera a biblioteca borgiana como uma prefiguração da internet, a partir de uma observação feita por Ignacio Ramonet, o editor comunista de Le Monde Diplomatique: “Como na Biblioteca de Babel, muitas informações se encontram na rede, com todas as suas variantes e aproximações; nada garante a veracidade dos dados; um boato e uma informação se equivalem!” Para Perrone Moisés, Rollason estende a comparação, observando que os “homens da biblioteca” seriam hoje os cibernautas.

Pura bobagem. O escritor que antecipou a Internet chama-se Monteiro Lobato, e o fez em seu livro O Presidente Negro, publicado em 1926. Esta observação, eu a fiz em artigo publicado em finais do século passado. Fui o único jornalista a perceber o fato. O que significa que, ou os estudiosos de Lobato eram pouco familiarizados com a Internet, ou os internautas eram pouco familiarizados com a obra de Lobato. Repito isto aqui porque já li um cronista do Estadão – Matthew Shirts – falando no assunto, sem citar quem levantou a lebre. Antes que algum arguto pesquisador uspiano ou algum cronista tucanopapista pretenda ter descoberto a América, vou antecipando: fui eu quem a descobriu.

Mas não era disto que queria falar. E sim de Obama Barack, o candidato negro que está despontando como um dos favoritos à Presidência dos Estados Unidos. Se vencer, a fortuna literária de Lobato subirá vários pontos na Bolsa das Letras. Pois foi nosso taubateano quem primeiro previu – em 1926, na mesma obra citada - um presidente negro para os Estados Unidos.

Reproduzo parte de meu artigo. Para Miss Jane, personagem de Lobato, os negros se batiam por uma solução muito mais viável: queriam a divisão do país em dois, o sul para os negros e o norte para os brancos, já que a América surgira do esforço conjunto de ambas as raças. Se não era possível gozarem juntas da obra feita em comum, o razoável seria dividir o território em dois pedaços. Temos então, já no início deste século, um escritor brasileiro antecipando as propostas de líderes negros contemporâneos como Farrakhan. É bom lembrar que nessa época Lobato ainda não havia viajado para os Estados Unidos.

Os brancos nada queriam ceder de seu status quo e o problema tornava-se ameaçador. É quando surge um candidato capaz de unir o eleitorado negro: Jim Roy, de tez levemente acobreada, parecendo um mestiço de senegalês e pele-vermelha. A cor de sua pele em nada lembrava os negros de hoje (isto é, 1926). Na época, a ciência havia resolvido o caso de cor pela destruição do pigmento. Jim Roy, negro de raça puríssima e cabelo carapinha, era “horrivelmente esbranquiçado”. O espírito visionário de Lobato antecipa, en passant, a tendência negra americana que gerou um Michael Jackson, por exemplo. Inaugurando, já no início do século, a atual categoria do “politicamente incorreto”, diz o estupefato sr. Ayrton:
– Barata descascada, sei...
No entanto, nem os recursos da ciência faziam os negros deixarem de ser negros na América. Os brancos não lhes perdoavam aquela camouflage da despigmentação.

Jim Roy, líder do partido Associação Negra, não chega a ser uma ameaça para o poder. Representa cem milhões de negros, contra 200 milhões de brancos. Ocorre que entre os brancos surge uma séria dissidência, um partido de mulheres. Os velhos partidos Democrático e Republicano haviam-se fundido num forte bloco sob a denominação de Partido Masculino, liderado por Kerlog, presidente em exercício e candidato à reeleição. Este bloco não tinha certeza da vitória, pois o partido contrário, o Feminino, dispunha de maior número de vozes, lideradas por miss Evelyn Astor. As estatísticas davam ao Partido Masculino 51 milhões de votos; ao Feminino 51,5 milhões e à Associação Negra, 54 milhões. A eleição dependia pois da atitude de Jim Roy.

Aproximam-se as eleições. Que, no ano da graça de 2.228, ocorrem em poucos minutos, em função de avanços tecnológicos previstos por Lobato, que anunciam nosso mundo de hoje, 1998.

A possibilidade de “radio-transportar” os dados – antecipação da Internet pelo autor – opera uma reviravolta nas eleições de 2.228, nos Estados Unidos. Jim Roy vai explorar com habilidade este dado novo, a velocidade. As eleições haviam sido marcadas para as 11h da manhã e durariam apenas 30 minutos. O candidato da Associação Negra avisa os agentes distritais que só às 10h anunciará o nome em que os negros devem votar. Ao anunciá-lo, a desconfortável surpresa: Jim Roy se anuncia como candidato.

Para pasmo de todos, depois de 87 presidentes brancos, surgia o primeiro presidente negro, eleito por 54 milhões de irmãos de sangue. Os partidos Masculino e Feminino haviam mais ou menos empatado, com algo em torno de 50 milhões e meio de votos. Passada a perplexidade, negros e brancos caem na realidade do dia seguinte. Para Kerlog, 87º presidente dos Estados Unidos e candidato derrotado, surge uma dor de cabeça histórica: ele vê na vitória negra a América transformada num vulcão e ameaçada de morte. Considera que se não forem mantidas presas as rédeas dos dois monstros – a ebriedade negra e o orgulho branco –, a chacina será espantosa. Seis líderes brancos reúnem-se em convenção e discutem uma solução para o impasse. A solução, mantida em sigilo, é aceita por unanimidade. Na época, John Dudley, inventor e um dos membros da convenção, descobrira os raios Omega, que tinham a propriedade miraculosa de modificar o cabelo africano. Com o tratamento, o mais rebelde pixaim se tornava não só liso, mas também fino e sedoso como o cabelo do mais apurado tipo de branco. Os raios Omega influíam no folículo e eliminavam o encarapinhamento, último estigma da raça negra, que já havia resolvido o problema da pigmentação.

Ainda não recuperados das emoções da vitória, cem milhões de criaturas agradeciam aos céus a nova descoberta, que redundaria em um aperfeiçoamento físico da raça. O pigmento fora destruído mas o esbranquiçamento da pele não revelava cor agradável à vista. Com os raios Omega, tinham esperança de obter com o tempo a perfeita equiparação cutânea.

Em todos os bairros de todas as cidades, a Dudley Uncurling Company estabeleceu Postos Desencarapinhantes, que se multiplicaram ao infinito, como se uma força oculta empurrasse a empresa do inventor dos raios Ômega ao desencarapinhamento da América Negra no menor espaço de tempo possível.

Era dos mais simples o processo. Três aplicações apenas, de três minutos cada uma, ao custo de dez centavos por cabeça, faziam com que os negros acorressem aos postos como cães famintos. Os brancos, inicialmente irritados com o que chamavam de “a segunda camouflage do negro”, acabaram se divertindo com o espetáculo da súbita transformação capilar de cem milhões de criaturas.

Na véspera do dia da posse, Jim Roy, em sua residência particular, sonhava o maior sonho já sonhado no continente, quando seu criado lhe anuncia a visita de “um homem branco natural”. Era o presidente Kerlog, o adversário derrotado. Que anuncia ao líder negro não existir moral entre raças, como não há moral entre povos. Há vitória ou derrota.

– Tua raça morreu, Jim...

Os raios Omega de John Dudley tinham uma dupla virtude: ao mesmo tempo que alisam os cabelos, esterilizavam o homem. No dia em que seria empossado o 88º presidente dos Estados Unidos, o primeiro presidente negro da América, Jim Roy aparece morto em seu gabinete de trabalho. Os negros pensaram imediatamente em crime e chegou a haver um movimento de revolta. Mas o fatalismo ancestral superou o ódio e o imenso corpo sem cabeça recuou instintivamente e repôs-se no humilde lugar de onde a vitória de Roy o tirara. Procederam-se novas eleições e Kerlog foi reeleito por 100 milhões de votos. A vida da América voltou à normalidade.

Enfim, o final proposto por Lobato seria inviável nos dias atuais. Mas o taubateano continua sendo o primeiro escritor no mundo a prever um presidente negro para os Estados Unidos.

 
SAUDADES DO BONIFÁCIO



A Espanha atual está sendo palco de um ataque do Vaticano, que no fundo não passa de uma tentativa da Igreja de recuperar seus poderes soberanos sobre a Europa. Vã pretensão do Bento, diga-se de passagem. Leio no El País que neste domingo passado Bento XVI defendeu, em conexão direta de Roma, diante de fiéis reunidos em Madri, que a família "fundada na união indissolúvel entre um homem e uma mulher, constitui o âmbito privilegiado em que a vida humana é acolhida, desde seu início até seu fim natural".

Espírito de síntese admirável. Em uma pequena frase, quatro anátemas. A condenação política do governo espanhol: nada de divórcio nem de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nem aborto nem eutanásia. Este papa, saudoso dos tempos medievais, deve lembrar com nostalgia os bons tempos aqueles de 1706, quando Gregório VII excomungou o imperador Henrique IV e o depôs de seu cargo. Em 1707, em Canossa, humilhado, Henrique IV ficou na neve do lado de fora da residência papal, pedindo perdão.

Bento XVI é useiro e vezeiro em interferir na administração e legislação de países, em nome de sua concepção universal de comportamentos humanos. Desde que empunhou o cajado de Pedro, tem-se comportado como o representante na Terra de um deus único e dono de todas as verdades. Assim sendo, a humanidade toda deve submeter-se ao cetro de Roma.

Segundo F. E. Peters, autor de Os Monoteístas, este vício começou em Soissons, França, em 750, quando um legado papal ungiu, com plena aprovação do papa, um novo rei dos francos – Pepino, filho de Carlos Martel – à maneira da sagração de um bispo. “Por este ato papal, a noção de um rei teocrático divinamente ordenado foi introduzida na tradição ocidental de soberania”. Porém o fato mais grave ocorreu em 800, quando o papa Leão III coroou Carlos Magno, não como rei, mas como imperador. Não em Soissons, mas em São Pedro, Roma. Ora, se o papa coroava, o papa descoroava. A humilhação de Henrique IV em 1707 decorre da submissão do poder laico à Igreja de Roma em 750.

Mas o que Sua Santidade deve lembrar com saudades mesmo é a bula Unam Sanctam, de 1302, onde Bonifácio VIII declarava em mensagem dirigida a Felipe IV, da França:

“Declaramos, afirmamos e definimos como verdade necessária para a salvação que todo ser humano deve sujeitar-se ao romano Pontífice”.

Terça-feira, Janeiro 08, 2008
 
Crônica antiga:

CONDOR CHOCA MILITANTES



Para eles, as nações não tinham fronteiras e o palco de lutas era o planeta todo. Em 35, uma judia berlinense, oficial do Exército Vermelho soviético, veio coordenar a revolução no Brasil, assessorada por apparatchiks belgas, alemães, franceses e argentinos. Osvaldo Peralva, membro brasileiro do Kominform, sediado em Bucareste, ao denunciar a conspiração toda em O Retrato (Editora Globo, 1962), foi banido do mundo intelectual e classificado como agente da CIA. O que Peralva denunciou com conhecimento de causa, foi mais tarde documentado por William Waack, no excelente Camaradas (Companhia das Letras, 1993), com pesquisas nos arquivos do Kremlin.

Em 36, foram todos para a Espanha, dar apoio bélico e moral a Stalin, que tentava imobilizar a Europa estrangulando-a com o controle do Mediterrâneo. Juan Negrín, ministro da Fazenda do governo Largo Caballero, raspou os cofres da Espanha em troca de aviões, carros de combates, canhões, morteiros e metralhadoras russas. Ao celebrar com um banquete no Kremlin a chegada das 7.800 caixas com 65 quilos de ouro cada uma (três quartos das reservas espanholas), Stalin, evocando um ditado russo, comemorou: "Os espanhóis não voltarão a ver seu ouro, da mesma forma que ninguém pode ver as orelhas". Aproveitando a vaza, um vigarista malaguenho fez fortuna internacional, dando o título de Guernica a um quadro em torno à morte de um toureiro.

Em 59, eles deram apoio logístico e de mídia a Fidel e Che, para instalar a mais longa ditadura da América Latina. De Paris, um filósofo feio, baixinho e confuso veio dar seu aval ao tirano do Caribe. Uma foto da época é das mais emblemáticas: Sartre, de pescoço espichado para o alto, adorando Castro como um Deus. Em La Lune et le Caudillo (Gallimard, 1989), Jeannine Verdès Leroux nos relembra este momento de extraordinária poesia.

- Todos os homens têm direito a tudo que eles pedem - pontifica Castro. - E se eles pedem a lua? - pergunta Sartre. O ditador retoma seu charuto e se volta para o filósofo baixinho: - Se eles pedem a lua, é porque têm necessidade dela.

Pediam a lua no bestunto do ditador e do filósofo. Em verdade, queriam dólares, pão e liberdade. Da mesma forma que a Espanha, em 36, foi um campo de treinamento para a Segunda Guerra, a América Latina era laboratório de experimentos sociais para os filosofadores europeus que, no dizer de Camus, assestavam suas poltronas no sentido da História.

Também dos salões de Paris vinha o apoio teórico a Che Guevara e seus celerados, através de Régis Debray, mais tarde ministro de Mitterrand. Che morreu em odor de santidade e hoje é cultuado na Bolívia, como San Ernesto de la Higuera. Danielle Mitterrand, a viúva enamorada pela figura romântica do guerrillero, dá apoio a guerrilha zapatista em Chiapas, comandada por um agitprop branco travestido de líder indígena, o subcomandante Marcos. E a mulher de Debray criou a biografia fictícia da guatemalteca Rigoberta Menchú, embuste que mereceu o prêmio Nobel da Paz de 92.

Nos anos 60, eles tentaram reeditar no Brasil a Intentona de 35. Para isso, foram treinados na China, União Soviética, Cuba e Argélia. Fracassados e escorraçados em 64, os sobreviventes migraram ao Chile para assessorar Allende e ao Uruguai para dar apoio aos tupamaros. De Cuba, vinha o brado de guerra: "un, dos, tres, mil Vietnãs". Derrotados no Uruguai em 73 por Bordaderry, deixaram o país conhecido como a "Suíça latino-americana" em destroços, com mais da metade de sua população ativa refugiada no exterior. Para simbolizar o apoio de Cuba ao regime marxista que se instalara no Chile, Castro presenteou Allende com uma submetralhadora. Presente de grego: foi a mesma que o líder marxista usou para suicidar-se em 73. Derrubado o regime de Allende, eles rumaram à Argentina e Portugal, onde a "Idéia" estava em marcha. Em 76, instaura-se, com Videla, a ditadura militar na Argentina. Era o momento de dar de rédeas rumo a outros nortes.

Em 75, alguns militares lusos, entusiasmados com a derrocada de um salazarismo já moribundo, tentaram instalar na península ibérica a república socialista que os espanhóis já haviam exorcizado. A esperança migrara para Portugal. Ou para o Peru, onde o Sendero Luminoso e o Tupac Amaru assassinaram, nos 80, milhares de peruanos, sob a inspiração humanitária do Grande Timoneiro.

Era o que, em Paris, chamávamos de la grande randonée. Aventureiros de todos os quadrantes, alguns imbuídos de nobres ideais, outros de ressentimentos e vontade de poder, migravam de um país a outro para "fazer a Revolução". Em qualquer geografia sentiam-se em casa: sempre havia um comitê para recebê-los como heróis e delegar-lhes novas tarefas. Só no Rio de Janeiro, o cardeal Eugenio Sales alugou 80 apartamentos para abrigar apparatchiks de toda a América Latina, que chegaram a acolher grupos de 150, simultaneamente. O total de militantes hospedados, entre 76 e 82, chegou a cinco mil pessoas.

Eles percorreram o século e o continente latino-americano, receberam doutrinação ideológica e treinamento de guerrilha em diversos países. Quem atesta esta internacionalização são os próprios guerrilheiros em suas memórias. Foram financiados pela China, ex-URSS e até pela miserável Cuba. Além de dispor santuários para onde quer que fugissem, gozavam de exílios confortáveis nas sociais-democracias européias. Se um apparatchik era preso na mais discreta fronteira do mundo, no outro dia manifestantes em Paris, Berlim, Estocolmo ou Londres pediam sua libertação. A luta não tinha fronteiras. Agora condenam, indignados, a chamada operação Condor.

Que horror! Os militares da América Latina trocavam informações e serviços para combatê-los. Isto me lembra um debate dos anos 70 em Estocolmo. Pacifistas denunciavam as Forças Armadas suecas, porque estas usavam armas que feriam e matavam. Um oficial, muito pedagógico, teve de vir a público para esclarecer: "a função de uma arma é ferir e matar".

Consta que os responsáveis pela operação Condor até se comunicavam em código. Maquiavélicos, estes senhores.

(26/05/2000)

 
NÁPOLES, A IMUNDA



Comentei, em crônica passada, que Nápoles é a cidade mais suja e desagradável que conheci na Europa. Um leitor atento me envia este despacho da BBCBrasil:

MORADORES QUEIMAM TONELADAS DE LIXO NAS RUAS DE NÁPOLES

Moradores da cidade italiana de Nápoles queimaram pilhas de lixo que estava em decomposição nas ruas em meio a uma crise no sistema de coleta.

Grande parte dos depósitos de lixo da cidade estão superlotados e não há espaço para novos depósitos. As ruas da cidade ficaram com forte cheiro de lixo, devido às toneladas que se acumularam e às altas temperaturas. A cidade no sul da Itália, de um milhão de habitantes, está enfrentando uma onda de calor, com temperaturas em torno de 30ºC.

'Vamos todos morrer'

“O cheiro ruim é insuportável. Olhe para todos esses cachorros correndo por aí. Nós vamos todos morrer nesse ritmo”, disse a estudante Michela Giordano à agência de notícias Reuters. Moradores irritados com a situação resolveram colocar fogo no lixo. De acordo com o correspondente da BBC em Milão Mark Duff, apenas na terça-feira foram registrados 130 focos de incêndio em Nápoles.

Os fogos têm preocupado autoridades, devido ao lançamento de gases possivelmente nocivos no ar. Elas temem que o contato de toxinas com alimentos e animais possa causar uma catástrofe ambiental.Também há temores de que os incêndios afetem o turismo da cidade. Autoridades de saúde alertam que o lixo espalhado pela cidade pode provocar doenças infecciosas. Algumas escolas tiveram de fechar devido à invasão de ratos.

O problema de Nápoles é que não existe mais lugar para se colocar lixo. O único depósito ainda disponível deve ficar lotado até o final da semana, de acordo com o governo.


Em meio a isso, o que me espanta é que turistas ainda procurem cidade tão imunda.

Segunda-feira, Janeiro 07, 2008
 
ISLÃ VERSUS GINECOLOGIA



Uma amiga da Finlândia me envia notícia antiga, publicada no jornal francês La Presse, em 2006.

A agressão ocorreu em agosto de 2003, mas Stéphane Saint-Léger dela se lembra nos mínimos detalhes. O ginecologista-obstreta francês, então de plantão no hospital de Montreuil, na periferia parisiense, tenta dar assistência a uma mulher muçulmana grávida, cujo trabalho de parto parece ser doloroso.

“Eu queria perguntar-lhe se ela tinha necessidade de uma peridural para suportar a dor. Seu marido me disse que eu não tinha o direito de entrar no quarto, que sua mulher não tinha o direito de falar e que era ele que falava por ela”, disse o médico na entrevista.

"Eu insisti dizendo que preferia saber diretamente de sua mulher se tinha necessidade de ajuda ou não”, ajuntou.

O marido, furioso, pegou o médico pelo colete e o jogou para fora do quarto, dizendo: “Aqui, você está na terra do Islã. Você não está em seu país”.


Aconteceu nos subúrbios de Paris. Dispensável qualquer comentário.

 
NÃO VERÁS MESMO!



Só no ano passado, recebi seis telefonemas de falsos seqüestros. De anos anteriores, já nem lembro. Começam com um indefectível “paiê”, com um ar angustiado. Ocorrem em geral por volta de meia-noite. Mando-os para onde merecem. Outro dia, resolvi dar corda:

- Fala, filho!
- Me seqüestraram, paiê! Querem grana.
- Tá falando em celular, filho?
- Tô, pai!
- Então dobra, meu filho. E enfia...

Acho inacreditável que ainda haja pessoas que caiam nesse conto. Nestes dias em que todo mundo – exceto apenas eu, talvez – está munido de celular, bastaria um telefonema ao filho para checar se está seqüestrado ou não. As vítimas deste golpe são tão estúpidas, que já aconteceu chantagearam um pai dizendo ter seu filho seqüestrado, ao mesmo tempo em que chantageavam o filho dizendo estar o pai seqüestrado. Me consta que ambos caíram neste primaríssimo conto do vigário.

Cientes da total impunidade de que gozam, a bandidagem nem se preocupa em esconder-se. Telefonam a cobrar. Marco a hora exata e quando chega a conta, confiro. Tenho todos os números que me chamaram. A maioria procede de São Paulo. Em segundo lugar, Rio de Janeiro. Mas já recebi anúncios de seqüestros de Recife. Pelo que se sabe, estes chamados procedem geralmente de presídios. Comunicar estes números à polícia? Nem me passa pela cabeça. Seria pura perda de tempo. Nunca ouvi falar de um presidiário que tenha sua pena aumentada por uso indevido de telefone.

Todos os meses, 900 celulares são apreendidos em presídios de São Paulo – diz hoje em entrevista ao Estadão o secretário da Administração Penitenciária, Antonio Ferreira Pinto, o xerife das cadeias no Estado. Percorro a reportagem de ponta a ponta, para saber se alguém foi punido. Nada. Punição alguma. Para o xerife, impedir a entrada desses aparelhos nas celas é seu “grande desafio. A maior arma dentro da prisão é o celular. É o contato fácil e imediato com o mundo exterior”.

Celular nos presídios é mais um fenômeno da categoria jaboticaba: só dá no Brasil. Leio jornais de diversos países, leio os despachos das agências noticiosas e nunca ouvi falar disso em outros países. Como exceção, talvez ocorra. Mas 900 celulares apreendidos por mês, disso não tenho notícias.

As soluções são simplórias, ao alcance do entendimento de um analfabeto. Duas são as vias de acesso aos celulares. Os agentes penitenciários e as mulheres que visitam os presos. Basta então eliminar todo contato entre agentes penitenciários e presidiários e acabar com essa piada de visitas íntimas. Cadeia não é motel.

Claro que no dia seguinte padres e ativistas dos tais de direitos humanos estariam chiando contra o Estado autoritário, que impede a humana necessidade de expressão dos coitadinhos dos excluídos. Ou seja, o xerife que desista de tentar coibir os celulares. Quando a legislação e grupos sociais tomam a defesa de criminosos, não há como extirpar a criminalidade.

Enquanto isso, os líderes da bandidagem encontraram o melhor e mais seguro lugar do mundo para coordenar o crime, o próprio presídio.

“Ama, com fé e orgulho a terra em que nasceste! Criança! Não verás nenhum país como este!”

Domingo, Janeiro 06, 2008
 
PAU QUE NASCE TORTO NÃO
TEM JEITO MORRE TORTO




É espantoso como, dezenove anos após a Queda do Muro, dezessete anos após o desmoronamento da União Soviética, ainda haja neste Brasil quem faça a louvação de comunistas. Um jornalista, Luiz Alberto Molinar, e uma historiadora, Luciana Maluf, devem lançar ainda este mês o hagiológio de uma velha comunista, que pretende morrer imersa no obscurantismo.

Trata-se de Lucília Rosa, que diz ter sido ensinada a ser comunista antes da revolução russa de 1917. O que é historicamente inviável. Não vivíamos em tempos de Internet naqueles dias, e a primeira célula comunista só surgiu em Santana do Livramento, em 1918, criada por anarquistas italianos que haviam aportado em Rio Grande. Os paulistanos se gabam - como se louvável fosse gabar-se da humana estupidez - de que o Partido Comunista tenha nascido em 1922, em São Paulo. Não é verdade. O obscurantismo tem origens gaúchas.

“Nasci em berço ateu. Sou comunista convicta e assim vou morrer”, disse Lucília em entrevista concedida hoje ao Estado de São Paulo. A moça, em seus 95 anos, dá a entender que ser comunista é decorrência de ser ateu. Ora, ateus tínhamos desde os tempos bíblicos, e ser ateu, em princípio, nada tem a ver com ser comunista.

Os comunistas, aliás, acabaram revelando-se extremamente religiosos. Muitos escritores do século passado denunciaram o marxismo como uma religião laica. Ao azar, cito Nikos Kazantzakis. Para o místico cretense, havia na Rússia um exército fanático, implacável, onipotente, constituído de milhões de seres, que tinha em mãos milhões de crianças e as instruía como bem entendia. Esse exército, continua Kazantzakis, tinha seu Evangelho, O Capital. Seu profeta, Lênin, e seus apóstolos fanatizados que pregavam a Boa Nova através do mundo. Esse exército possuía também seus mártires e heróis, seus dogmas, seus padres apologistas, escolásticos e pregadores, seus sínodos, hierarquia, liturgia e mesmo a excomunhão: "somos contemporâneos deste grande momento em que nasce uma nova religião".

Lucília Rosa, sedizente atéia, não parece ter percebido isto em seu climatério. Longa é a jornada de um imbecil até o entendimento. A casa onde Lucília mora – diz a reportagem – está quase caindo aos pedaços.

“É uma casa de comunista”, disse ela. “Não tem nada”. Não tem quase nada mesmo. Na sala da casa sem estuque, e com teias de aranha tomando conta de tudo, há apenas um sofá, uma mesa e uma cadeira, todos caindo aos pedaços. No seu quarto, uma TV com problemas na imagem, um ventilador que vai pifar a qualquer momento e uma cama de solteiro, com um colchão fino de espuma”.

Lucília Rosa não entendeu o espírito da coisa. Comunistas, hoje, vivem em magníficos apartamentos e gozam de régias pensões. Seja como for, o que espanta é que ainda escritores cultivem como heróis pessoas que passaram pela vida e da vida nada viram.

 
DOM CAPPIO FAZ ESCOLA



Agora é na França. O bispo dom Luiz Cappio, que quis impor sua vontade ao governo brasileiro com uma greve de fome, parece ter inspirado o exibicionista e clown José Bové. Semana passada, declarou-se em greve de fome contra o uso de sementes transgênicas em solo francês. Está decidido a não comer nada enquanto o governo não proibir as culturas geneticamente modificadas por um ano.

Claro que o governo não vai ceder. Após alguns de exibição na televisão e imprensa internacionais, Bové encontrará algum pretexto para suspender sua greve. Como fez seu homólogo brasileiro.

Puro blefe!

Sábado, Janeiro 05, 2008
 
DORMINDO COM O INIMIGO (I)



Quem me acompanha sabe que, desde há muito, não nutro pelo Brasil esperança alguma. Apesar do cocoricó presidencial, o país afunda no caos a cada dia que passa. A guerrilha católica dos sem-terra, financiada pelo próprio governo, continua tomando terras, destruindo laboratórios, invadindo próprios da União. Os indígenas, apoiados por ONGs alienígenas, continuam ocupando territórios onde jamais viveram, fazendo reféns, interrompendo estradas, matando garimpeiros.

Surgiu agora o movimento dos quilombolas. Qualquer negro – ou branco que se declare negro – pode sair a reivindicar terras nas quais nunca viveu. O tráfico tomou conta das favelas, transformando-as em bantustões onde a polícia só entra com reforços. Mananciais que deveriam ser áreas preservadas estão tomados por milhões de pessoas. O caos é tal que ultimamente surgiram até mesmo falsas favelas. Ou seja, vivaldinos montam barracos vazios junto a áreas de potencial valorização, para depois serem indenizados com o tal de cheque-despejo.

Quer dizer, o Brasil não tem cura. Estes problemas todos só tendem a agravar-se e eu não acredito que, no próximo século, o país conserve esta geografia à qual estamos habituados. Aliás, desde há muito defendo o separatismo. Se este país fosse dividido em quatro ou cinco, todos viveriam melhor. (De minha parte, esteja onde estiver, renuncio ao nome Brasil. Quem quiser que o leve). Se nunca consegui crer em um futuro glorioso para meu país, quando Lula foi eleito minha desesperança resvalou mais alguns metros rumo ao abismo. Com sua reeleição, não sobrou nada. Disto o Supremo Apedeuta não tem culpa. A culpa é deste poviléu infame que nele depositou seu voto. A desgraça do Brasil não é a saúva, como pensava Lobato. É o brasileiro.

Não, não deposito esperança alguma em meus compatriotas. Mas sempre me entusiasmei com a Europa. Lá pelo início dos 70, ainda jovem, conheci um continente cujos países respeitavam o cidadão, cujas cidades eram lindas, limpas e amenas, onde se podia passear à noite sem ter medo da própria sombra, onde havia boa imprensa e liberdade de expressão. Eram países onde me agradaria viver, e acabei vivendo em três deles: Suécia, França e Espanha. Eram países pelos quais valia a pena lutar. Estou usando os verbos no passado, embora essas condições ainda existam. Mas, ao que tudo indica, não existirão por muito tempo mais.

Acabei de ler um livro deprimente. Não que o livro seja em si deprimente. Deprimentes são os fatos narrados no livro. Falo de Os últimos dias da Europa – Epitáfio para um velho continente, do historiador alemão Walter Laqueur. Desde meus dias de Paris, nos anos 70, comecei a intuir que os muçulmanos ameaçavam o velho continente. Em 23 de março de 1979, eu escrevia minha primeira crônica sobre o assunto: “Islã preocupa franceses”. Na época, havia apenas uma apreensão. Hoje, existe a consciência de um desastre sem volta. Tive uma aguda percepção disto quando li, no jornal sueco Aftonbladet, há uns quatro ou cinco anos, esta manchete:

Stockholmarnas farligaste gator

Ou seja, as ruas mais perigosas de Estocolmo. Ora, quando vivi lá, em 71/72, não havia uma única rua perigosa na cidade. Agora, o Aftonbladet listava mais de cem. Que ocorrera de lá para cá? A invasão muçulmana. Laqueur, com sua visão privilegiada de cidadão da Alemanha, traça em seu livro um panorama desolador. É triste ver um continente, que sempre cultivou os ideais de liberdade, tendo seus judiciários, executivos e legislativos rendidos à barbárie islâmica.

Sexta-feira, Janeiro 04, 2008
 
DORMINDO COM O INIMIGO (II)



"Quanto estamos preparados para suportar de uma pequena parcela de jovens violentos, freqüentemente de origem estrangeira?" perguntou recentemente Roland Koch, destacado membro do Partido Democrata Cristão alemão. Koch foi delicado. Seria mais preciso se falasse em jovens violentos de origem turca ou árabe. Melhor ainda se dissesse jovens muçulmanos. A Alemanha tem 15 milhões de habitantes de origem imigrante. Os muçulmanos são apenas 3,5 milhões. Mas jamais teremos notícias de agressões generalizadas da parte de imigrantes latinos ou brasileiros, chineses ou hindus.

Koch foi aplaudido por seus colegas ao exigir uma repressão aos "jovens criminosos estrangeiros". (Leia-se criminosos árabes e turcos). Grupos de imigrantes e rivais políticos disseram que ele está brincando com fogo em um debate que revela a xenofobia. Ou seja, enunciar uma verdade singela passou a ser sinônimo de xenofobia. Cabe dizer que esta palavra é um neologismo que não corresponde muito bem à realidade que pretende expressar. Etimologicamente, xenofobia seria medo ao estrangeiro. Ora, não é que os europeus temam os estrangeiros. O que sentem, não pelo estrangeiro, mas por certo tipo de estrangeiros – leia-se muçulmanos – antes de ser medo é simplesmente asco.

O pronunciamento foi motivado pela agressão a um aposentado de 76 anos, que sofreu uma fratura no crânio ao ser espancado por um alemão de 20 anos descendente de turcos e um imigrante grego de 17 anos em 20 de dezembro passado, depois de pedir a eles que parassem de fumar em um vagão do metrô em Munique, onde é proibido fumar.

Segundo o Der Spiegel, o aposentado se recuperou após um período no hospital e lembra de como cuspiram nele e o chamaram de "alemão de merda" antes de o chutarem na cabeça. A polícia prendeu os agressores logo depois e o caso foi encerrado como um ataque covarde por parte de dois criminosos violentos com longa ficha policial.

Em Os últimos dias da Europa, Walter Laqueur analisa os problemas da imigração africana e muçulmana na França, Alemanha, Reino Unido e Espanha. Para dar uma idéia do livro, vou ater-me ao Estado alemão que, a crer-se no relato do autor, rendeu-se definitivamente à barbárie islâmica.

Os alemães começaram a receber turcos na segunda metade dos anos 50, em virtude de falta de mão-de-obra. Eram os gastarbeiter – trabalhadores convidados – que acabaram sendo hóspedes definitivos. Nos anos 70, a migração prosseguiu. Muitos pediram asilo político, quando em verdade fugiam das condições econômicas de seu país. Os assistentes sociais “mostraram aos turcos como manipular a rede de seguro social – ou seja, como tirar o máximo de ajuda financeira e de outros tipos do Estado e das autoridades locais, dando um mínimo de contribuição ao bem comum”. O mesmo, diga-se de passagem, ocorreu na Dinamarca. Assistentes sociais adoram subdesenvolvidos.

Ao contrário dos que imigraram para a França ou Grã-Bretanha, que de alguma forma arranhavam o francês ou o inglês, os turcos não falavam alemão e se isolaram em seus guetos. Seus filhos podiam até ir para as escolas alemãs, mas as filhas não podiam participar de atividades esportivas, excursões com as turmas ou aulas de biologia em que se falasse de sexo. “Insistiam no ensino islâmico na escola e ia aos tribunais para garantir seus direitos. Por fim, conseguiram. As autoridades alemães contrataram professores de religião, em sua maioria estrangeiros fundamentalistas e que que ou não falavam alemão ou tinham um domínio mínimo do idioma”.

Como as autoridades alemães achavam que o ensino religioso devia ser ministrado em alemão, a isto se opuseram as organizações religiosas turcas e o próprio governo da Turquia. “Os tribunais alemães, na dúvida, decidiam em favor dos muçulmanos. Rejeitavam as denúncias de não-muçulmanos com relação ao barulho provocado pelos alto-falantes das mesquitas, que amplificavam as convocações e preces dos muezins”.

As conquistas turcas avançaram. Metin Kaplan, um criminoso turco condenado a quatro anos por incitamento ao assassinato, recebeu da cidade de Colônia mais de duzentos mil euros a título de assistência social. A Milli Goerus, organização turca incrustada na Alemanha, tem como projeto um país que viva segundo as estritas leis do Islã, mesmo que para isso seja preciso fazer certas concessões até que os muçulmanos constituam maioria. O grupo tem em torno de 220 mil militantes e dirige cerca de 270 mesquitas na Alemanha. “Ela visa substituir a ordem secular no país em que vivem por uma outra baseada na sharia – a lei islâmica – , primeiramente naquelas regiões em que os muçulmanos são maioria, ou uma minoria representativa, e posteriormente à medida que seu espaço se expanda”.

Laqueur nos traz relatos insólitos dos bairros de Kreutzberg, Wedding, Neukoelln e outros habitados por turcos. Neles existem bancos, agências de viagem, lojas e consultórios médicos turcos. “Rapazes param as pessoas nas ruas e lhes dizem que, se não são muçulmanas, devem deixar as redondezas. As crianças alemãs têm sido expulsas de playgrounds. Na escola, os não-muçulmanos são pressionados a jejuar durante o ramada, as garotas não-muçulmanas são coagidas a usar roupas parecidas com as das garotas muçulmanas ou, pelo menos, saias, calças ou camisetas que não sejam consideradas indecentes. Pais de estudantes tiveram conhecimento de que, sejam quais forem as orientações que a escola lhes dê, a mesquita e suas aulas têm sempre a prioridade”.

Ou seja, tá tudo dominado. Os alemães já não mandam mais no próprio país. Seus próprios filhos têm de submeter-se a evitar determinados bairros e aos costumes islâmicos. E a Alemanha continua convidando muçulmanos para seu leito. A Lei de Cidadania de 2000 tornou mais fácil para os turcos obter a cidadania alemã. “Cerca de 160 mil têm se beneficiado anualmente desse direito”. Não bastasse isto, o governo alemão gasta atualmente cem milhões de euros por ano para promover a integração... com o inimigo.

A situação na França, Reino Unido e Espanha não é menos alentadora. Para aqueles que, como eu, um dia se fascinaram pela Europa, recomendo vivamente a leitura de Laqueur. Quando um turco se sente à vontade espancando um cidadão do país que o acolhe e se sente autorizado a chamá-lo de “alemão de merda”, os alemães já perderam a batalha. Laqueur já aventa a possibilidade de regiões binacionais autônomas na França. Os muçulmanos poderiam fazer concessões com relação à sharia, e as autoridades francesas poderiam desistir do velho modelo republicano, com uma clara divisão entre Igreja e Estado. Em meio a isso, os judeus que se cuidem. Talvez muito em breve sejam forçados a um novo êxodo da Europa.

Me sinto até feliz por não me restarem mais muitos anos de vida. Me doeria profundamente ver aquele continente que tanto adoro totalmente rendido aos bárbaros. Eu não verei este horror, ainda resta muito de bom na Europa nas próximas duas ou três décadas. Mas minha filha certamente o verá.

 
VELHO COMUNISTA DO PT DENUNCIA
VELHO COMUNISTA DO PT E VELHA
COMUNISTA DO PSOL




Num rompante de honestidade, o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, denunciou que a sede do PT gaúcho foi construída com “dinheiro de caixa dois”. No final dos 90, uma CPI foi instalada no governo gaúcho para apurar as relações do governo do Estado - leia-se Olívio Dutra - com o jogo do bicho. A CPI apontou ao Ministério Público indícios de irregularidades contra 45 pessoas. A Promotoria ofereceu denúncia contra 11 delas e todas foram absolvidas pela Justiça gaúcha. Com a autoridade de chefe da quadrilha, José Dirceu confirma hoje as suspeitas da CPI. Tarde piou.

Foi mais longe o capo di tutti capi. Disse que a ex-senadora do PSOL, Heloísa Helena votou contra a cassação do ex-senador Luiz Estevão (DF): "Votou mesmo e por motivos impublicáveis. Mas nunca a deixamos sozinha, defendemos o tempo todo, mesmo sabendo que a história era diferente”.

Assustado com a repercussão de suas declarações, o capo pôs incontinenti suas barbas de molho e disse que não disse o que disse: "Não fiz acusações relacionadas à compra da sede do PT em Porto Alegre. Limitei-me a repetir que ocorreram denúncias de que o prédio fora comprado com recursos ilegais e que a oposição falou em 'sacos de dinheiro', mas que a Justiça e uma CPI investigaram, exaustivamente, os fatos e, ao final, o PT gaúcho e os dirigentes alvo da denúncia foram absolvidos".

Cizânia nas hostes petistas e psolistas. A platéia se diverte. Penhorada, bate palmas e agradece.

Quinta-feira, Janeiro 03, 2008
 
AS GRAVES PREOCUPAÇÕES DO GOVERNO LULA


Presidência da República
Casa Civil
Subchefia para Assuntos Jurídicos

DECRETO DE 28 DE NOVEMBRO DE 2007.

Convoca a I Conferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, e dá outras providências.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso VI, alínea "a", da Constituição, DECRETA:

Art. 1º - Fica convocada a I Conferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, que será realizada no período de 9 a 11 de maio de 2008, sob os auspícios da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, com os objetivos de:
I - propor as diretrizes para a implementação de políticas públicas e o plano nacional de promoção da cidadania e direitos humanos de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais - GLBT; e
II - avaliar e propor estratégias para fortalecer o Programa Brasil Sem Homofobia.

Art. 2º - A I Conferência Nacional será presidida pelo Secretário Especial dos Direitos Humanos e desenvolverá seus trabalhos em torno da seguinte temática: "Direitos Humanos e Políticas Públicas: O caminho para garantir a cidadania de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais".

Art. 3º - A I Conferência Nacional terá a participação de delegados representantes da sociedade civil, a serem eleitos em conferências estaduais, e de delegados representantes do poder público, na proporção de sessenta e quarenta por cento, respectivamente.

Art. 4º - A Secretaria Especial dos Direitos Humanos constituirá, mediante portaria, a comissão organizadora da I Conferência Nacional, com vistas à elaboração do regimento interno e de orientação para as conferências estaduais, assim como ao acompanhamento da organização daquele encontro.

Art. 5º - Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 28 de novembro de 2007; 186º da Independência e 119º da República.


LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
Dilma Rousseff

 
PEQUIM EXPULSA LIXO HUMANO
DA PRAÇA DA PAZ CELESTIAL




Já faz alguns anos. Um mendigo deitou na rua de meu prédio. Deitou transversalmente, a cabeça contra o muro e os pés junto a uma árvore, impedindo a passagem de quem quer que fosse. Quem quisesse passar, teria de sair da calçada. Dormia com a dita tranqüilidade dos justos. Não tive dúvidas: chutei-lhe as costelas. Sua atitude era de provocação.

Acordou furioso. Veio de dedo pra cima de mim. “A Constituição me garante o direito de ir-e-vir”. Claro que tinha sido instruído por alguma assistente social. Você tem toda a razão – respondi. – O direito de ir-e-vir a Constituição lhe garante. Mas não o direito de deitar.

Ele ficou confuso, juntou seus trapos e deu no pé. Outro dia, assisti a uma cena insólita junto a meu prédio. De novo, um mendigo deitado junto à porta. Imundo, estava besuntado com uma espécie de graxa preta. Uma senhora, de certamente 70 ou mais anos, pegou pelos ombros e o jogou no meio da rua. Ficou com as mãos pretas daquela graxa. Abordei-a: a senhora não tem medo de uma reação? "Eu sobrevivi a um campo de concentração" - disse-me -. "Não tenho medo de vagabundo". Fiquei com vergonha de mim mesmo. Porque eu não teria coragem de pôr as mãos naquela imundície.

Eu vivia então perto do largo Santa Cecília, onde está a igreja Santa Cecília, isto é, na parte católica do bairro. Digo na parte católica, porque o bairro está mesclado a Higienópolis, parte judia. Junto às onze sinagogas do bairro, não há mendigo algum. Quem gosta de mendigo é católico. Quando os carros de limpeza da prefeitura se aproximavam do largo com suas mangueiras, militantes dos tais de direitos humanos se deitavam no chão frente aos carros, para impedir que molestassem os pestilentos em seu sono.

Na época, o prefeito era Maluf. Cheguei a escrever carta ao sírio, reclamando daquele pátio de milagres fedorento que infestava meu bairro. Minha carta deu voltas e mais voltas e retornou com uns quinze ou vinte carimbos e a conclusão era que nada podia ser feito. Meus impulsos de cidadania terminaram aí. Um belo dia, sei lá porque razões, os mendigos sumiram da praça. Estou em meu barbeiro, pego um jornal da paróquia, o Ceciliano. Nele, uma assistente social reclamava a ausência de mendigos. “Que foi feito de nossos mendigos? Queremos nossos mendigos de volta”.

A polícia chinesa iniciou hoje uma campanha para expulsar da Praça da Paz Celestial, centro geográfico e político de Pequim, todos os vendedores ambulantes e mendigos que operam no local, informou hoje a imprensa estatal. Neste Ocidente que considera ser direito adquirido dos mendigos morar nas ruas, a notícia vinda da China é um tapa de luva.

Coube aos comunistas, defensores incondicionais dos pobres e oprimidos, mostrar aos países católicos como deve ser tratado esse lixo humano que polui as metrópoles.

 
VELHO COMUNISTA SE CHOCA
COM APENAS UM CADÁVER




Paulinho da Viola, violonista e compositor, foi assaltado à mão armada na tarde de domingo passado, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Em entrevista publicada ontem no Estado de São Paulo, confidenciou que, num morro do Rio, se chocou com a naturalidade com que crianças passavam pelo corpo de um jovem assassinado. “É uma imagem que me perseguiu por muito tempo”.

Curioso que Paulinho da Viola, militante comunista em sua juventude, nunca se sentiu perseguido pela imagem dos cem milhões de cadáveres que o comunismo fez jazer sobre a terra.

Quarta-feira, Janeiro 02, 2008
 
NOTÍCIAS QUE CONFORTAM



Não é todos os dias que se lê algo assim tão prazeroso nos jornais:

O fundador da Igreja Renascer em Cristo, o apóstolo Estevam Hernandes, saiu da cadeia para começar a cumprir prisão domiciliar. Dentro dos próximos dias, sua mulher, a bispa Sônia, que estava em prisão domiciliar desde o dia 17 de agosto, deverá se apresentar à Justiça do país para cumprir 140 dias de prisão.

Claro que a notícia não procede do Brasil. Vem dos Estados Unidos.

 
FUMANTES FUMAM PORQUE QUEREM



Meu caro Renan:

se a Justiça conceder indenizações milionárias a quem morre por decorrências do tabagismo, está resolvido o problema de distribuição de renda no Brasil. Como quem fuma, hoje, de modo geral são os pobres, todo cidadão desprovido de recursos sempre poderia deixar um bom pecúlio aos seus familiares. Imagino que não poucos raciocinariam assim: "já que todos, mais dia menos dia acabamos morrendo, vou fumar e deixar minha família em boa situação". É uma maneira de otimizar a morte, muito utilizada pelos homens-bomba do Islã.

Considerando-se que álcool também mata - e beber quase todo mundo bebe - as mortes em decorrência da bebida também deveriam ser indenizadas. Em poucas décadas teríamos um Brasil homogêneo, sem grandes desníveis sociais - e isso dispensando o custo sangrento de uma revolução.

Não, fumantes não merecem indenização alguma por fumar. Fumam porque querem. Ou então livre arbítrio não existe. Se não se sabia dos malefícios do cigarro e de fumar em toda sua extensão até 1953, alguma coisa deveria se saber, pois cigarro matou e aleijou desde sempre. Impossível que fumantes inveterados não tenham estabelecido alguma relação de causa e efeito. Não é preciso ser cientista para concluir que alguma coisa que ingiro me provoca tosse e dificuldades de respirar. No caso que citei, o cidadão em questão morreu em 2001, aos 61 anos. Ou seja, de 53 para cá, teve muito tempo para informar-se sobre a nicotina. Que mais não seja, acho que toda pessoa deve ter o sagrado direito de escolher a sua morte e mesmo de suicidar-se.

Em fevereiro passado, assisti a uma cena em Paris que me desnorteou. Um velhote francês, carregando um tubo de oxigênio nessas rodinhas de carregar malas, e respirando com auxílio do tubo, entrou numa tabacaria e pediu dois maços do mais venenoso mata-ratos francês, o Gitanes. Queria morrer mesmo. Raciocinando melhor, acabei por entendê-lo. Se a morte era inevitável e estava próxima, por que não permitir-se alguns prazeres finais? Já vi cirrótico morrer bebendo, a meu lado, em meu boteco, e não lhe nego bom senso. Afinal, ia morrer mesmo.

Há muita hipocrisia na política e legislação. José Serra, ex-ministro da Saúde e responsável por campanhas contra o tabagismo, quando esteve em campanha política em Santa Cruz defendeu a indústria tabagista. Souza Cruz sempre rende votos. Ora, quando um ministro da Saúde defende o tabaco, melhor fariam os juízes se condenassem o ministro a alguns anos de cadeia. Enquanto um ministro da Saúde defende a indústria do cigarros, os maços trazem alertas escabrosos sobre as conseqüências do fumar. Ora, essa gente pretende convencer quem dos males do fumo?

Se o tabaco é uma droga legal e importante fonte de tributos no Brasil, não vejo porque indenizar quem morre fumando. Deveria ser condecorado com uma comenda, algo como Contribuinte Emérito, digamos. Se os juízes têm a firme convicção de que o tabaco mata, que o proíbam de vez. Por outro lado, já seria hora de cobrar indenizações dos narcotraficantes pelas mortes produzidas pelas drogas ilícitas.

Quanto a mentir para vender um produto, isto chama-se publicidade. Publicidade sempre mente. Mente para vender cigarros, mente para vender uísque, mente para vender carros. Desconheço publicidade que não minta. Se você o fuma o cigarro tal, se bebe o uísque X, se dirige o carro Y, você automaticamente se torna jovem e belo e vê-se cercado de lindas mulheres. Ora, é preciso ser muito panaca para acreditar em publicidade.

Last but not least, não sei de onde tiraste que vejo novelas da Globo. Algum noticiário à parte, não vejo televisão nacional. (Enfim, de vez em quando dou uma olhadela nos programas evangélicos, para informar-me sobre o nível da estupidez que assola o país). Às vezes acabo sabendo de algo que rola nas novelas por notícias da imprensa escrita. Pois nos dias que correm, os jornais acham tão importante noticiar a morte da Benazir Buttho como a morte de um personagem de novela.

Abraço e bom 2008!

 
AINDA O TABAGISMO



De Renan Uflacker, médico e interlocutor residente nos Estados Unidos, recebo:

Janer,

Apenas uns reparos/comentarios nos teus comentarios sobre tabagismo.

Nao se sabia dos maleficios do cigarro e de fumar em toda sua extensao, particularmente como causador de cancer ate 1953, quando foi publicado um trabalho de Doll e Hill que demonstrou sem sombra de duvida a relacao entre fumar, mascar tabaco e cancer. Nao so do pulmao, mas tambem do esofago, estomago, lingua, assoalho da boca e laringe. Hoje se sabe que o cancer de pancreas, colon, rim e bexiga tem uma forte relacao com o uso de tabaco. Portanto nao se sabia durante todo o seculo passado que o cigarro causava cancer e outros problemas. A relacao foi estabelecida mais recentemente ainda para doenca coronariana e vascular periferica.

A companhia Souza Cruz na realidade pertence a British American Tobacco (BAT) que resultou da fusao de uma companhia inglesa grande com a RJ Reynolds, aqui da Carolina do Norte e umas outras empresas menores. A RJ Reynolds no inicio dos anos 80 comprou a Companhia Souza Cruz. Nessa epoca mandou amostras de plantas modificadas por engenharia genetica, nos laboratorios da RJ Reynolds, para serem distribuidas aos plantadores de fumo de Santa Cruz e adjacencias. Essas plantas tem um alto teor de nicotina e foi banida sua producao nos EUA. O Rio Grande do Sul e o Brasil foram o laboratorio clinico do uso em massa desse tabaco de alto teor nicotinico, altamente adictivo, resultando numa elevacao do consumo dos cigarros da Souza Cruz no Brasil em 20 ou 30% nos primeiros anos. Logo apos passou a importar esse fumo para os EUA sem declarar que era tabaco modificado.

Note-se que a nicotina distribuida em quantidade usual de 1 mg por cigarro e' tao aditiva quanto a heroina, que e' uma das substancias que mais causa dependencia nos seres humanos e mais aditiva que a cocaina injetavel. Por essas acoes e' que as companhias de tabaco foram condenadas a pagar bilhoes de dolares em multas e indenizacoes a pessoas, comunidades e estados nos EUA. Porque mentiram, e usaram de artificios ilegais para elevar as vendas do cigarro.

Portanto dizer que todos os fumantes fumam porque querem ou sao dependentes voluntarios do cigarro nao e' correto ou justo. Nao conheco os detalhes do processo, mas O Juiz que condenou a Souza Cruz tinha certa razao em considerar ou estabelecer a responsabilidade da companhia.

Alias o presidente da companhia Souza Cruz morreu de cancer de pulmao. Quem vendeu a companhia para RJ Reynolds foram os filhos e um pool de acionistas. Conheci um dos filhos, anos atras.

A propaganda do uso do cigarro e derivados e' muito efetiva e tem se estabelecido que a propaganda macica promovendo e glamurizando o cigarro aumenta as vendas significativamente. Alias esta no B+A=BA dos cursos de marketing. Caso contrario as empresas do tabaco nao gastariam bilhoes de dolares em propaganda e marketing. Apesar da tua visao pessoal afirmando que nao es afetado pela propaganda, a maioria dos seres humanos e' afetada pela propaganda mas de maneira variavel, dependendo do tipo de personalidade, grau educacional, Q.I., esperiencias previas e exemplos familiares de consumo e comportamento. As industrias cinematograficas e de televisao sao permeadas por marketing de tabaco e bebidas alcoolicas, particularmente nos mercados onde existe restricao de propaganda aberta a certos produtos. O faturamento de alguns filmes chega a ser de ate 30% por produtos colocados para o espectador ver e se identificar com o ator ou personagem. Nao e' por acaso que os filmes do 007 mostram o heroi dirigindo uma BMW (inicialmente Aston Martin, mas ai e' outra estoria), fumando marlboro e bebendo um determinado whisky. As novelas da globo, que eu sei que ves com frequencia, tambem estao permeadas por marketing subrepticio. Marketing funciona. Nao sei se tens ido a Asia recentemente, mas o investimento em propaganda pro' tabaco e' de bilhoes e bilhoes de dolares, esta por tudo. O aeroporto de Narita em Tokyo nao da pra respirar. E' onde mais se fuma no mundo, sem nenhuma limitacao.

Feliz ano novo.

Renan Uflacker

Terça-feira, Janeiro 01, 2008
 
FRANÇA PROÍBE DEFINITIVAMENTE
ANCESTRAIS PRÁTICAS INDÍGENAS




Os defensores incondicionais das civilizações primitivas perderam hoje mais alguns pontos na Europa. A França proibiu definitivamente a ancestral prática dos indígenas da América do Sul, importada por Jean Nicot, o tabagismo. A partir da meia-noite passada, foi oficialmente proibido fumar em todos os bares, restaurantes, discotecas e cassinos do país. Um sursis foi concedido ao dia de hoje, 01 de janeiro, para que os tabagistas se permitam uma última baforada. Hoje, não houve fiscalização da nova restrição. Amanhã começa a linha dura.

A Alemanha tomou medidas semelhantes. A partir de hoje, o consumo de tabaco foi proibido em todos os lugares públicos, especialmente bares, restaurantes e boates, em oito dos 16 Estados federais (Länder) da Alemanha. Com uma certa flexibilidade: será permitido manter uma zona reservada aos fumantes totalmente separada da área para não-fumantes. Na Baviera, sul da Alemanha, a proibição é total. Na França, restará aos fumantes um certo espaço, que os isolará como leprosos: será permitido fumar em fumodrómos especiais, equipados com dispositivos de extração de ar e portas que se fecham automaticamente. Mas nenhum serviço será autorizado nestes locais e nenhum empregado pode neles entrar no local até uma hora depois da saída do último fumante.

A Europa tornou-se um continente desconfortável para fumantes. O cigarro já está total ou parcialmente proibido em 27 países. Até dois ou três anos atrás, os trens reservavam um vagão para os chupadores de câncer. Agora, não mais. Nas gares, tampouco se pode fumar. Alguns aeroportos ainda oferecem um minigulag para uso dos pestilentos, mas isto também tende a desaparecer.

O pior é que o velho continente está se tornando desconfortável também para não-fumantes. Viajei com duas amigas, em fevereiro passado, pela Espanha, França, Holanda e Bélgica. De certa forma, até eu – que jamais fumei – passei por alguns desconfortos. De uns vinte anos para cá, tenho viajado fundamentalmente para curtir cafés e restaurantes. (As visitas a museus e bibliotecas foram um desvario de juventude). As terrasses – a parte externa dos cafés – são lindas e acolhedoras, é verdade. Mas prefiro os interiores, com suas madeiras e mármores, lustres solenes e espelhos.

Em Bruxelas, hospedei-me no relativamente caro Metrópole, só para curtir o café do hotel, certamente um dos mais lindos da Europa. Mal me instalo com meus jornais sob aqueles candelabros magníficos caindo do teto, minhas companheiras me chamaram para a terrasse. Queriam fumar. Que fossem. Eu não iria renunciar àquele útero aconchegante do café. A história se repetiu mais tarde em Paris e Madri. Lembro que na gare de Amsterdã, mal saíram do trem, minhas companheiras puxaram seus pitos. A estação é imensa e é sempre percorrida por milhares de pessoas. Como que surgido do nada, um policial enorme as abordou: “Apaguem”. E tiveram a sorte de não serem multadas.

Os fumantes, aos quais ninguém obrigou a fumar, se queixam de foram induzidos a fumar pela publicidade. Recentemente, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS) condenou a Souza Cruz a indenizar em R$ 490 mil a família de um ex-fumante. A decisão é do 3º Grupo Cível do Tribunal. Pela sentença, a viúva e os cinco filhos de Vitorino Mattiazzi vão receber R$ 70 mil cada um, enquanto que os dois netos vão receber R$ 35 mil cada um. Mattiazzi morreu aos 61 anos em 2001, vítima de câncer no pulmão.

“Tratou-se de uma situação em que a requerida pôs a venda um produto reconhecidamente nocivo à saúde, sem informar adequadamente o consumidor a respeito dos riscos inerentes à mercadoria, entre os quais, se incluem a dependência química e a probabilidade de desenvolvimento de várias moléstias”, disse o desembargador Ubirajara Mach de Oliveira, que julgou o caso. Ora, como se alguém neste século passado não soubesse que o fumo produz câncer.

Disse ainda o desembargador que o fumante não podia ser responsabilizado pelo consumo. Isso porque os atos da vítima, com o uso do cigarro, eram motivados pelo vício e não mais pela vontade própria. O argumento não procede. Assim sendo, qualquer pessoa que alimenta um vício letal não mais é responsável pela própria morte. Curiosamente, ainda não ocorreu a nossos magistrados responsabilizar os traficantes pelas mortes produzidas pela cocaína. A Souza Cruz recorreu e me consta que foi absolvida.

Esta queixa dos fumantes é cantiga para ninar pardais, como dizem os lusos. Tenho lido que atores e roteiristas de Hollywood eram pagos para divulgar o hábito em seus filmes. Ora, me criei entre fumantes, passei minha adolescência vendo filmes em que tanto mocinho como bandidos fumavam como chaminés. Nunca me ocorreu fumar. Certa vez, ainda na escola primária, as professoras montaram uma peça onde nós, pivetes, fazíamos o papel de gaúchos. Permitiu-se então fumar. Botei um cigarro na boca, não gostei e o joguei pela janela. Foi a primeira e última tragada de minha vida.

Não me desagrada a idéia de ver uma Europa livre do cigarro. O problema será encontrar companheiras de viagem que não fumem. O que talvez não seja exatamente um problema. Todos os dias vejo alguém deixando de fumar.

O tabagismo é a vingança do índio contra o colonizador. Nestes dias em que a defesa das culturas indígenas virou moda, jornalista algum ousa lembrar que o mal que hoje dizima milhões de pessoas com câncer, enfisema e doenças coronarianas é a herança mais difundida que os bugres nos deixaram.