¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008
 
NOCHES DE BODA

Joaquin Sabina


Que el maquillaje no apague tu risa,
Que el equipaje no lastre tus alas,
Que el calendario no venga con prisas,
Que el diccionario detenga las balas,
Que las persianas corrijan la aurora,
Que gane el quiero la guerra del puedo,
Que los que esperan no cuenten las horas,
Que los que matan se mueran de miedo.

Que el fin del mundo te pille bailando,
Que el escenario me tiña las canas,
Que nunca sepas ni cómo, ni cuándo,
Ni ciento volando, ni ayer ni mañana
Que el corazón no se pase de moda,
Que los otoños te doren la piel,
Que cada noche sea noche de bodas,
Que no se ponga la luna de miel.

Que todas las noches sean noches de boda,
Que todas las lunas sean lunas de miel.
Que las verdades no tengan complejos,
Que las mentiras parezcan mentira,
Que no te den la razón los espejos,
Que te aproveche mirar lo que miras.

Que no se ocupe de ti el desamparo,
Que cada cena sea tu última cena,
Que ser valiente no salga tan caro,
Que ser cobarde no valga la pena.

Que no te compren por menos de nada,
Que no te vendan amor sin espinas,
Que no te duerman con cuentos de hadas,
Que no te cierren el bar de la esquina.

Que el corazón no se pase de moda,
Que los otoños te doren la piel,
Que cada noche sea noche de bodas,
Que no se ponga la luna de miel.

Que todas las noches sean noches de boda,
Que todas las lunas sean lunas de miel.

 
ASTRÓLOGO LOUVA MALAFAIAS


Do leitor Darke Mayer Goulart recebo:


Janer, essa eu precisava compartilhar, no melhor espírito cristão. Não sei se tu conheces um pastor televisivo chamados Silas Malafaias. Acho que ele é da Assembléia de Deus, pelo que achei via Google (portanto, concorrente do Edir Macedo e do R.R. Soares, os outros "chefões" do evangelho televisivo no Brasil). Ele segue a agenda evangelica tradicional: pedir dinheiro, orar, pedir dinheiro, condenar o homossexualismo, pedir dinheiro, exorcizar o Diabo, pedir dinheiro e, quando volta do intervalo, pedir mais dinheiro. Aleluia.

Pues não é que o nosso amigo Astrólogo e Arauto do Foro de São Paulo é um admirador do "trabalho" do bom Silas? Ele o confessou num dos seus talk shows (acho que de janeiro), que por falar nisso é uma das coisas mais engraçadas atualmente disponíveis na internet. Uma mistura de aula esotérica, análises políticas e aula de catequese, tudo regado a palavrões a la Alborghetti. Ele disse que conhecia o trabalho do Malafaias e o achava "muito importante", "um trabalho belíssimo". Pelo visto, o Walter Mercado de Bananópolis já anda estudando como garantir a aposentadoria através do trabalho "muito importante" de extorquir dinheiro abusando da fé popular em cadeia nacional. Sei lá, daqui a pouco ele começa a pedir doações em nome de Jesus no talk show dele... aguardemos para ver.

PS: Olavo é mesmo uma figura. Ele acha que as pessoas têm preconceito contra a "maneira de falar" dele, que se ele fosse mais educadinho iriam dar ouvidos às bobagens dele. Ora, ele diz: "não tenha a menor dúvida de que o Diabo é uma figura real e presente no nosso mundo", e ainda quer que alguém o leve a sério? Para ele não ter a menor dúvida de que o Diabo é uma entidade real e presente no nosso mundo, ele deveria ter "arquievidências" disso, mas até hoje tudo o que ele apresentou foram as teorias conspiratórias de sempre, que são melhor explicadas pela boa e velha estupidez humana do que por entidades cósmicas malignas. Acho que é "arquievidente" que o Olavo andou lendo Eric Voegelin demais e acreditou em cada palavra do paranóico germano-americano.

Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008
 
REENCONTROS



Nos anos de minha adolescência, havia em Dom Pedrito um maluco que se postava à frente da igreja nos dias de casamento. Maluco mas não muito. Ficava o tempo todo dizendo: “é hoje. É hoje”. Só saía da porta da igreja se lhe pagassem algo.

Uma das boas coisas da vida são os reencontros inesperados em insuspeitadas geografias. Tive muitos desses reencontros e deles lembro com ternura. Começo pelo primeiro. Deles deduzi uma lei, que chamaria de Lei de Cristaldo: todos os encontros são possíveis, desde que as pessoas se desloquem.

Nos dias de universidade, anos 60, quando já namorava minha Baixinha, encontrei na colônia de férias da URGS uma menina adorável. Ela teria doze ou treze anos e nos apaixonamos. De manhã, eu ia para a praia com minha Baixinha. À tarde, com ela. À noite, íamos juntos para os bares. Vai daí que o pai da pivetinha descobriu a história e não gostou daquele estranho trio. Prendeu a menina em casa e cortou todo contato comigo. Fiquei sem telefone nem endereço.

Corto para 71, Estocolmo. Freqüento aulas de sueco numa rua lateral ao Kungsträdgården, uma belíssima praça que, em língua de gente, quer dizer Jardim do Rei. É pleno inverno. Estou saindo da aula e a vejo no café da praça. Junto com um varão. Fui me aproximando lentamente, ela me assestou uma máquina fotográfica, parei, ela me fotografou, continuei, me aproximei dela e sem dizer palavra a beijei. O macho ao lado ficou inquieto. Normal, era seu marido. Disse então o que jamais me imaginei dizendo: “que bom encontrar brasileiros no Exterior, precisamos manter contato, me dá teu telefone”.

Ela deu, para desconforto do bruto. Dia seguinte, telefonei. Não foi fácil, ela estava com o marido ao lado. Propus: nos encontramos amanhã, às dez horas, no mesmo local. Diz apenas sim ou não. Ela disse sim. Dia seguinte, lá estava eu. Cheguei às dez. Ela já me esperava há meia hora, enregelada em um banco coberto de neve. Nos abraçamos com um carinho há vários anos contido. Fui caminhando como quem não quer nada até meu apartamento. Quando ela percebeu onde estava chegando, exclamou: “vais fazer isso comigo?”

Vou. Hoje, nem Deus te salva, respondi. Não salvou. Deus pode até ser onipotente. Mas às vezes falha. Cobrei - y con creces, como dizem os espanhóis - o que me era devido.

Anos 70, Porto Alegre. Uma de minhas namoradas me pede um favor. Uma amiga está chegando do Rio, para os Jogos Universitários, e não tem onde parar. Poderia ficar em teu apartamento? Claro que pode. A carioca ficou cinco dias lá em casa. Tinha uma preocupação, comprar botas. Para que queres botas no Rio? Não é para o Rio, quero ir à Europa. Já tens passaporte, passagem? Nada disso, primeiro eu quero as botas. Ok! Sem acreditar muito na viagem da moça, indiquei as lojas onde havia botas.

Corto para 70 e pico largo, como dizem os gaúchos. Em Amsterdã, fui a uma agência da Varig para marcar passagem. Na entrada, uma mulher divina, com casaco de peles, botas longas até o joelho e um chapéu de astracã, me abre os braços e me beija. Nossa – pensei – os serviços da Varig estão cada vez melhores. Nada disso. Era a menina que um dia recebi em Porto Alegre. Depois disso, marcamos encontro em Genebra. Claro que não deu certo. Encontro marcado é mais difícil.

Em Florianópolis, tomava um dia um cafezinho na Felipe Schmidt, no Senadinho. Frente a mim havia um personagem insólito. Perfil cervantino, boina basca e uma saharienne azul índigo. Ah! Não poderia deixar de abordar aquela figura exótica. Era um uruguaio, professor de História na Universidade Federal de Santa Catarina. Nos tornamos grandes amigos.

Corto para Madri, 87. Estou saindo do Gijón, com minha Baixinha. Sei lá porque, estava atravessando a Recoletos. Já falei do Gijón. Foi o café que sempre me impediu de pesquisar na Biblioteca Nacional da Espanha. Quando eu ia rumo à biblioteca, estava o Gijón a meio caminho. Não conseguia resistir. Ficava no Gijón e não conseguia atravessar a Recoletos. Bom, nesse dia, sei lá por que estranhas razões quis atravessar o Paseo de Recoletos. Mal boto o pé na faixa zebrada, Aníbal Abadie encosta em mim. Em nosso último encontro em Florianópolis, havíamos começado uma discussão que não chegara ao fim.

Lembrei de Fray Luís de Leon, professor da Universidade de Salamanca, condenado pela Inquisição a cinco anos de cárcere, por ter traduzido a Bíblia ao espanhol. Ao voltar à universidade, em sua primeira aula, disse o frei: “Como decíamos ayer...” Foi o que disse a meu amigo uruguaio. E continuamos, como se tivéssemos nos despedidos ontem, aquela nossa charla de anos atrás. Minha Baixinha, que olhava para o lado quando ele me abordou, ao voltar o olhar não entendeu o que estava acontecendo. Como eu voltaria a Madri alguns dias depois, marcamos encontro. Claro que não deu certo. Encontro marcado é mais difícil.

Lisboa, 1977. Embarquei no Eugenio C para cumprir uma bolsa em Paris. O navio atracou por seis horas no porto, o que me deixava algum tempo para revisitar a cidade. Ao sair do porto, vejo um casal do outro lado da rua. Olhei aleatoriamente para a mulher. O luso deu um berro – filho-da-puta! – e veio para cima de mim. Confesso que fiquei apreensivo. Não era luso coisa nenhuma. Era um antigo colega de jornal em Porto Alegre, o Clóvis Camargo Ott, que se exilara em Lisboa. Ao reconhecê-lo, pendurei-me no pescoço dele. Confraternizamos, mas não muito. O Eugenio continuava viagem.

Voltei a reencontrá-lo em Lisboa, anos mais tarde. Tomamos grandes porres, e um muito especial na Tasca do Chico, em Sintra. Chico não é o proprietário. E sim um garnizé. Que pulava em meu joelho, depois em minha cabeça e depois para sua gaiola. Falar nisso, vinte anos depois voltei à Tasca do Chico. Claro que o Chico não mais estava lá. Sentei sob sua gaiola e me pareceu ouvir uma espécie de crocitar. Ruídos fantasmas, pensei. Deveria ser minha memória que me fazia voltar no tempo. Mas os ruídos se repetiram. E o Chico saiu debaixo da mesa, pulou em minha perna, pulou na cabeça e entrou na gaiola. Seria certamente um neto do Chico original. Mas conservava nos gens os hábitos do Chico.

Corto para anos 80, Florianópolis. Eu caminhava pela praia da Barra da Lagoa, com um amigo gaúcho, e comentava exatamente este episódio de Lisboa. Foi quando recebi um forte chute no traseiro. Era o Clóvis. Todos os encontros são possíveis, desde que as pessoas se desloquem. Clóvis, eterna criança, morreu no ano passado.

Aconteceu há pouco. Ou há muito. Há uns bons vinte anos, namorei uma menina que muito quis, a mulher deste meu amigo. Circunstâncias da vida nos afastaram. Viajei, mudei de cidades, ela ficou em sua geografia. Há uns sete ou oito anos, reencontrei-a de maneira trágica. Eu estava no bar da casa Mário Quintana, em Porto Alegre. Estive ao lado dela, ela conversava com alguém, estava linda e igual àquela que um dia conheci, seu rosto sempre luminoso. Eu estava à sua frente, ela não me reconhecia. Pior ainda: tive uma pane mental e não lembrava de seu nome. Sabia perfeitamente quem era, mas naquele instante me faltava o nome. Como posso me aproximar dela - me perguntei - e ter de admitir que esqueci como se chamava?

Nestes dias, minha mente foi assaltada por canções mexicanas:

Mira como ando mujer,
por tu querer,
borracho y apasionado,
no más por tu amor.
Mira como ando mi bien
Muy dado a la borrachera
Y a la perdición.


Passei por sua mesa, fui até a sacadinha do bar, voltei e permaneci parado por alguns segundos. Quem sabe ela me reconhece e me diz "oi'. Chegou a me olhar, mas não me viu. Minhas barbas já estavam brancas. Os cabelos, que os tive hirsutos, já rareavam. Sobrava apenas uma resistência organizada no alto da testa. Um pouco antes, eu havia tropeçado com um antigo colega de jornal. Ele esbarrou em mim, me pediu desculpas e não me reconheceu. Virei fantasma, pensei. Me senti irremediavelmente velho naquele dia.

De domingo a domingo,
te vengo a ver.
Cuándo será domingo,
Cielito lindo,
para volver?


Instantes de bobeira. Me arrependi amargamente de não a ter abordado. Mas o momento havia passado e passado não volta. Pensei tê-la perdido para sempre. Eis senão quando ela me encontra pela Internet. Já no primeiro mail, fui tomado por gigabytes de ternura. De repente voltou – e voltou com força – uma antiga paixão não muito bem consumada. Eu, que considerava que aos 60 não há mais espaço para esses transportes, estou perplexo. Virei guri novo. Nestas últimas semanas, tenho contado angustiadamente os dias que me faltavam para abraçá-la. Já nem consigo ler. A lembrança de seu sorriso embaralha minhas leituras. “Gostavas de me beijar no pescoço”. Sim, ela tinha um pescoço que pedia imperiosamente beijos. Lembro Agostinho: "meu coração está inquieto enquanto não repousa em Vós, ó Senhor(a)".

Tres días sin verte mujer
tres días llorando tu amor
tres días que miro el amanecer.
No más tres días te amé
y en tu mirar me perdí
y hace tres días que no sé de ti.


Virei perdidamente mariachi.
Ela está chegando.
E é hoje.

Quarta-feira, Fevereiro 27, 2008
 
FIM DO SOCIALISMO NO BRASIL?



Leio que a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) aprovou ontem a liberação gradual das tarifas dos vôos que saem do Brasil com destino aos 12 países da América do Sul: Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa e Suriname. A medida será publicada no Diário Oficial da União ainda esta semana e entrará em vigor a partir do dia 1º de março de 2008.

Segundo a notícia, a resolução da ANAC vai corrigir uma distorção que existe atualmente entre os valores das passagens cobradas no Brasil e nos demais países sul-americanos que já têm as tarifas liberadas, como Argentina, Chile e Peru.
Por exemplo, hoje uma passagem Buenos Aires - São Paulo na classe econômica pode custar apenas US$ 205 se comprada na Argentina, enquanto a rota oposta (São Paulo - Buenos Aires), adquirida no Brasil, pela mesma companhia, não sai por menos de US$ 405 – um valor 97% maior. Já uma passagem de Santiago para o Rio de Janeiro, adquirida no Chile, hoje sai por US$ 332, enquanto a passagem para o vôo de volta comprada no Brasil, pela mesma companhia, ficaria em US$ 441 – mais 33%. Em períodos de promoções agressivas, essas diferenças já chegaram a mais de 800%, com a passagem adquirida na Argentina sendo oferecida por US$ 29 e no Chile por US$ 49.

Faz quase quarenta anos que viajo. Sempre evitei companhias nacionais. Particularmente a Varig, que detinha o monopólio das linhas aéreas no Brasil. Viajar pela Varig era sinônimo de pagar caro. Se alguma empresa estrangeira oferecia vôos baratos para o Exterior, a Varig se queixava junto aos milicos e no outro dia a empresa estrangeira era vetada de operar no Brasil. Sempre detestei a Varig e saudei sua morte com alegria.

Naqueles dias, muitas vezes fui ao Paraguai ou à Argentina para voar para a Europa. As Linhas Aéreas Paraguaias (LAP), por exemplo, ofereciam vôos pela metade de preço dos oferecidos no Brasil. Como não podiam pegar passageiros em território nacional, tínhamos de ir até Asunción para pegar o vôo. Como o avião saía já lotado de São Paulo, não havia porque aterrissar em Asunción. O avião sobrevoava a cidade e embicava para a Europa.

Mas o monopólio persiste. Brasileiro paga caro para voar só porque vive no Brasil. Ano passado, minha filha voou de Londres a Paris por dez euros. Menos de trinta reais. Hoje, se você quiser ir de São Paulo ao Rio, paga por ida e volta pelo menos 424 reais. Voar, na Europa, hoje está saindo mais barato que viajar de trem. Nem dá para comparar com Brasil, pois há muito o Brasil renunciou ao trem.

Gosto de trens. De trens europeus, bem entendido. Ano passado, pensei ir de trem de Barcelona até Madri. Seriam nove horas de viagem e custava algo em torno a 110 euros. Por 70 euros e hora e meia de viagem, eu chegava de avião em Madri. Ora, por mais que eu gostasse de trem, seria idiota viajar de trem.

A ANAC decidiu também pela criação de um grupo de trabalho para estender a liberação tarifária a todos os vôos internacionais que saem do Brasil. O grupo tem prazo inicial de 90 dias para apresentar uma proposta para a Diretoria.

Estaremos saindo do socialismo e entrando em um saudável regime capitalista, onde a concorrência é livre? Não consigo acreditar.

 
PARA QUEM CURTE



De uma comunidade no Orkut sobre ópera,
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=3065,
filei estas dicas:

"A cavalgada", com Levine:

http://www.youtube.com/watch?v=ClLnqYq62qM

O dueto da Walküre com Norman e Thomas:

http://www.youtube.com/watch?v=Ns19zYIDgKQ

Windgassen no Parsifal:

http://www.youtube.com/watch?v=p1JdPgoDprs

Flagstad cantando o Hojotoho,esse é um clássico!

http://www.youtube.com/watch?v=tAo_fTiZ2hY

Lohengrin in concert,com Grümmer como Elsa:

http://www.youtube.com/watch?v=3_iCcR7CZBo

O final da Walküre com Jerome Hines:

http://www.youtube.com/watch?v=CoHcXEGccl4"

Excertos do Meistersinger, com Böhm, na Alemanha nazista:

http://www.youtube.com/watch?v=KZaGKWjTRQI

Melchior canta o Winterstürme no filme hollywoodiano Luxury Liner:

http://www.youtube.com/watch?v=yrfbaXPFHfQ&search=wagner

Três excertos de uma recente montagem do Holländer:

http://www.youtube.com/watch?v=vtPp2huIyuE

http://www.youtube.com/watch?v=8TB3TmXQcMk

http://www.youtube.com/watch?v=ZJIfc8VUVG

Stehe still, do Wesendonck Lieder, com Norman:

http://www.youtube.com/watch?v=KBced-CwPyE

Dich teure Halle com Rysanek:

http://www.youtube.com/watch?v=GnDxPC2OKv8

A maldição de Isolde com G.Jones:

http://www.youtube.com/watch?v=_J8TSOrjcrk

A maldição de Isolde com Nilsson:

http://www.youtube.com/watch?v=vQL2n_ndVLw"

Muito legal:

http://www.youtube.com/watch?v=473lv1d0Bcg&search=parsifal - CORAL DO PARSIFAL

E AGORA VAI O VÍDEO DO ANO:

http://www.youtube.com/watch?v=2evftRlYFrA&search=parsifal

Vídeo em homenagem à Rysanek, desde a década de 50 à década de 90, EXCEPCIONAL!!!!!!

BIRGIT NILSSON

MACBETH - Una macchia è qui tuttora
http://youtube.com/watch?v=nPFCMa8CUPE&search=birgit%20nilsson

DIE FRAU OHNE SCHATTEN - Final do Ato 2
http://youtube.com/watch?v=QYcRIGvU5Fg&search=birgit%20nilsson

TRISTAN UND ISOLDE - Mild und leise
http://youtube.com/watch?v=NR2bOKcivGs&search=birgit%20nilsson

TRISTAN UND ISOLDE - Wie lachend sie mir Lieder singen
http://youtube.com/watch?v=vQL2n_ndVLw&search=birgit%20nilsson

TURANDOT - In questa reggia
LA WALLY - Ebben... Ne andrò lontana
http://youtube.com/watch?v=gW2sry7rQIg&search=birgit%20nilsson

TURANDOT - In questa reggia
http://youtube.com/watch?v=UsgmGKgcF38&search=birgit%20nilsson

BASTIDORES - Humor na gravação histórica de O Anel do Nibelungo, com Solti.
http://youtube.com/watch?v=GI1F7ziJIEo&search=birgit%20nilsson

Terça-feira, Fevereiro 26, 2008
 
BRASILEIRO E PANACA



Veja é uma revista curiosa. Tem excelentes reportagens e ao mesmo tempo abriga cronistas medíocres. Já nem falo do recórter chapa-branca tucanopapista hidrófobo, que nesta última edição assina um artigo estúpido, onde afirma que as origens do PT estariam na Cuba de Castro. Pelo jeito, desconhece a história do século passado. As origens do PT não estão em Cuba, mas em 1917. Como também os últimos dez lustros de Cuba.

Mas o artigo besta mesmo desta vez é outro. É o de Stephen Kanitz. Há muito eu desconfiava de seus artigos. São reflexões inconclusivas, sempre em cima do muro, que não conduzem a lugar nenhum. No artigo desta semana, “O suplício das malas”, o homem se exibiu em toda sua miséria. Apesar de suas pretensões de cosmopolita, revelou-se um brasileiro atroz.

Quando estou em um aeroporto, em qualquer lugar do mundo, e vejo alguém com quatro ou cinco malas imensas em um carrinho, tento me aproximar dele só para comprovar uma tese: só pode ser brasileiro. Jamais errei. O panaca sempre é brasileiro. Até pode ser que sejam de outras nacionalidades. Tem muito árabe que faz isso. Mas os que sempre vi, de modo geral, são gente nossa.

Escreve o provinciano cronista:

“Depois de doze horas viajando num avião a 12 000 metros de altura, seu corpo está cansado, sua cabeça está zonza, devido ao fuso horário, e seus reflexos diminuem. Seu corpo está ligeiramente inchado, reduzindo sua força, medida por centímetros cúbicos de massa muscular. Provavelmente, você está ligeiramente desidratado, o que limita sua capacidade na troca de calor. Daqui a alguns minutos, quatro malas virão em sua direção a 10 quilômetros por hora, e você terá cinco décimos de segundo para capturar suas alças e com um forte solavanco levantar de 25 a 32 quilos no ar, numa espetacular explosão de energia, e, finalmente, colocar as malas, uma a uma, a seu lado. Só que, na maioria das vezes, você erra na coordenação motora e só consegue capturar a bendita alça quando a mala já está fugindo de você, na direção contrária. Isso significa 20 quilômetros por hora de diferença. Ao todo, você despenderá 1 280 joules de energia em menos de um minuto”.

Kanitz transcreve as preocupações de um cirurgião, Antonio Luiz Macedo, que considera que a vida sedentária dos aposentados está aumentando assustadoramente o número de lesões internas devido a esses heróicos atos de bravura. Dias depois surgem os primeiros sinais de hérnias inguinais, dores musculares, luxações, microrrompimento de tendões, que passam despercebidos e muitas vezes terminarão em cirurgias.

Atos de bravura? De estupidez, diria eu. Eventuais leitores que assim viajam que me desculpem. Quatro malas de 25 quilos significa cem quilos. Quatro malas de 32 quilos quer dizer 128 quilos. Ora, quem viaja com tal volume, ou é sacoleiro ou é idiota. O sacoleiro até que entendo, ele está tratando de sua subsistência. O outro, bem que merece uma hérnia.

Em minhas viagens, levo no máximo oito quilos. Um jeans na mala, outro no corpo. Mais quatro ou cinco camisas, cuecas e meias, e não vejo porque levar mais que isso. Nos invernos, o casaco levo no corpo. Sapatos, apenas um par, os que estou usando. Ok! Admitamos que alguém queira se vestir melhor durante a viagem. Mas quatro malas de 25 quilos é loucura. Quem assim viaja não é pessoa inteligente.

“Não são as companhias aéreas as culpadas pelas esteiras – escreve o cronista caipira -. São os aeroportos, que estão economizando e destruindo ainda mais o turismo receptivo deste país, hoje dominado por aposentados do mundo inteiro, sem mordomos nem ajudantes de bordo para auxiliá-los. Se o Brasil quiser fazer bonito na área de turismo e hospitalidade, se quiser receber os turistas aposentados do mundo, cheios da grana, mas sem energia, vamos ter de humanizar os aeroportos na chegada e na saída, lembrando que mala de 32 quilos não é para qualquer um levantar”.

Ora, em boa parte deste nosso mundinho, não há mais mordomos nem ajudantes de bordo para auxiliar este tipo de gente. Isso de 32 quilos é coisa de brasileiro panaca. O arguto cronista revelou-se um deles.

Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008
 
SOBRE PICO DELLA MIRANDOLA E A
PERICULOSIDADE DOS ASTRÓLOGOS




Pico della Mirandola (1463-1494) é um dos mais eruditos personagens do quattrocento italiano. Nasceu em Florença e viveu vida breve porém agitada. De inteligência muito precoce, aos 14 anos, quando estudava Direito Canônico em Bolonha, escreveu um compêndio intitulado Decretais. Estudou grego, árabe, hebreu e caldeu para poder entender a Cabala, o Corão, os Oráculos caldeus e os diálogos de Platão, no original. Perseguido pela Inquisição por suspeita de heresia, em função de sua obra Conclusiones philosiphicae, cabalisticae et theologicae, teve de refugiar-se em Paris, onde acabou sendo detido. Libertado por Carlos VIII, voltou à Florença onde aprofundou seus estudos bíblicos, escrevendo o Heptaplo, uma análise do Gênesis. Antes de morrer, escreveu uma obra colossal, Disputationum in astrologiam libri duodecim (Disputações contra a Astrologia), na qual defende a impossibilidade de uma ciência dos astros como investigação das leis dos fenômenos celestes.

Reproduzo verbete do Diccionario Literario Bompiani:

“A astrologia parte do pressuposto que o universo celeste e terreno formam um todo orgânico. Como os astros e o céu são mais sensíveis e mais fiéis, neles é onde melhor se pode conhecer os fatos humanos já acontecidos e a previsão ou causa de novos fatos. (...) Contra isto, Pico expõe uma série de argumentos. Um dos principais é o de assegurar que os filósofos sempre condenaram a astrologia, que tampouco encontra apoio na opinião corrente porque carece de coerência lógica e porque amiúde degenera em absurdos e em discussões inúteis. Além disso, a Igreja e a religião tampouco podem estar de acordo com os juízos da astrologia, razão pela qual a autoridade religiosa, além da civil, sempre a condenaram. O argumento mais forte é o predileto do autor, o da dignidade do homem, livre árbitro de seu próprio destino. Repugna pensar que o homem, ser espiritual, esteja fatalmente determinado pelos astros, que são seres materiais. Acrescenta que, embora acontecesse inevitavelmente o que se prevê interrogando os astros, seria melhor não o prever, donde se concluí que a Astrologia é uma ciência inútil. (...) Pico se apóia em São Paulo que opõe a religião à astrologia como a luz às trevas. E por fim, se o influxo dos astros é real e eficaz, por que razões dois gêmeos nascidos na mesma hora ou pelo menos concebidos no mesmo instante, têm diferente destino? Isso significa que, sem dúvida, o influxo dos céus é muito vago e indistinto e portanto não são estes a causa dos acontecimentos humanos, que dependem de muitos outros motivos particulares”.

É espantoso observar que, cinco séculos mais tarde, ainda existam malabaristas intelectuais que pretendem conciliar astrologia com filosofia e religião. Mas não era disto que pretendia falar. E sim de uma hipótese lançada pelo El País, sexta-feira passada. Segundo o jornal espanhol, della Mirandola não teria morrido de doença, mas assassinado, por ter indicado em sua obra que a astrologia era uma arte adivinhatória e não uma ciência.

Assim pensa o professor italiano Silvano Vicenti, a partir da leitura de uma carta inédita e anônima, dirigida ao filósofo Marsilio Ficino. “Pico se transformou em vítima. Seu livro assumirá mais importância. Pico tinha dúvidas em publicá-lo, agora seu herdeiro se sentirá no dever de fazê-lo. Este livro deve desaparecer. Encontra-o”. O fato de não considerar a astrologia como uma ciência, mas como uma arte adivinhatória, teria causado um grande mal-estar na sociedade de fins do século XV, quando era considerada uma ciência perfeita.

Vicenti conjetura que seu assassinato foi ordenado por Piero di Medici, filho de Lorenzo El Magnífico. Esta tese poderá ser confirmada se as análises de DNA feitas nos restos do pensador, enterrado na Igreja de São Marcos, em Florença, resultarem positivos para as provas toxicológicas, já que uma das hipóteses é que tenha sido envenenado com arsênico. Uma equipe de cientistas começou a realizar os exames no princípio deste fevereiro.

Eu, que só via periculosidade nos ornitólogos, vejo que nem só ornitólogos são perigosos.

Domingo, Fevereiro 24, 2008
 
SOBRE MEU DOMINGO



Aos sábados e domingos, minha rotina começa em um dos botecos de meu bairro, o Prainha. Simpático, quase um clubinho, não tem nada demais. Mas sempre há um bom chope e uma boa caipira. Dedico uma ou duas horas à leitura de imprensa de fim de semana, que sempre é mais farta que a imprensa da semana. São os únicos dias em que uso celular. Permaneço em estado randômico, à espera de com quem vou almoçar.

Bueno, estava hoje eu em meu boteco, já havia lido o Estadão e começava a folhear a Veja, cuja capa é um dos grandes momentos do jornalismo nacional: sob a silhueta de Fidel, a manchete: JÁ VAI TARDE.

Tarde mesmo. Foi quando fui abordado por uma pesquisadora.
- Você leu o Estadão?
- Li.
- Achou eficaz a publicidade das casas Bahia?

Que casas Bahia? Eu não havia visto nada. Ela abriu meu jornal. Só no primeiro caderno havia cinco páginas com anúncios de cinco colunas das ditas casas. Juro: eu não havia visto nenhum.

- O que você achou do anúncio do novo Subaru?

Que Subaru? Alguma nova espécie de sanduíche? Seja como for, eu não achava nada porque nada havia visto. Ela abriu de novo o jornal. Havia anúncio de página inteira. Fiquei então sabendo que se tratava de um carro. Ela continuou me interrogando, entre outras coisas sobre a CVC, uma agência de turismo. Tinha anúncio de página inteira, mas eu também não o havia visto. Em todo caso, a CVC eu sabia o que era. Faz turismo de massa, junta em pacotes essa brasileirada infame com espírito de rebanho e os joga em cruzeiros animados pelo Roberto Carlos ou similares. Sim, a CVC eu conheço – respondi –. Tanto que jamais viajarei por ela.

Não vejo publicidade em jornais. Nem na Internet. Não é que não queira ver. É que não vejo mesmo. É como se os anúncios permanecessem em um ponto cego de minha visão. Todo o dinheiro que as empresas investem em publicidade, pelo menos no que a mim diz respeito, é dinheiro jogado fora. Par contre, certos pequenos detalhes de uma reportagem me atingem com força.

Por exemplo, um artigo de Sérgio Augusto sobre o Kosovo. Sempre leio todos os cronistas de um jornal, e particularmente os medíocres. Do Sérgio Augusto, sempre desconfiei de sua erudição arrogante. Como também sempre desconfiei dos jornalistas que assassinam ou mutilam o pronome reflexivo. Até já pensei em criar uma Associação de Defesa do Pronome Reflexivo. Lá pelas tantas, o articulista brande um estranho conceito, que jamais consegui entender, o conceito de albaneses étnicos. Ora, que pode ser um albanês étnico? Albanês não é uma nacionalidade? Nunca me constou que os albaneses constituíssem uma etnia. Mesmo se assim fosse, que distinguiria os tais de albaneses étnicos dos demais albaneses?

Desconfio que o articulista esteja pretendendo referir-se aos albaneses muçulmanos. O que ocorreu nos Bálcãs – e está ocorrendo agora no Kosovo – no fundo foi uma guerra entre católicos, católicos ortodoxos e muçulmanos. Em Mitrovica, o rio Ibar não separa exatamente sérvios e albaneses. Mas católicos ortodoxos e muçulmanos. Isso de albanês étnico é eufemismo ditado pelo políticamente correto.

Mas a máscara do erudito articulista cai mesmo é mais adiante. É quando escreve: “Meses depois, Gelbard confraternizava-se com líderes do Elk”. Ora, que uma cronista social escreva “confraternizava-se”, até que entendo. Cronistas sociais são uma praga do jornalismo e geralmente recrutados entre semi-analfabetos. Que um jovenzinho oriundo da ECA assim maltrate o pronome reflexivo, também entendo. Nos cursos de jornalismo hoje ideologia tem preponderância sobre a gramática. O que não se entende é como um velho jornalista – da época em que ainda se escrevia corretamente – grafe “confratenizava-se”.

Os anúncios de página inteira dos jornais, nem os enxergo. Mas uma flexão destas me fere na alma. Na página seguinte, numa reportagem de Flávia Guerra sobre uma escritora iraniana, esta barbaridade que aos céus clama justiça: “Ela devia usar roupas que jamais marcassem o quadril e o hijab (o véu sagrado que zela pelo recato das mulheres muçulmanas)”.

Sim, o hijab pode zelar pelo recato das mulheres muçulmanas. Mas das muçulmanas árabes. E Marjane Satrapi, a escritora em questão, é persa. Persas não usam hijab. Persas usam chador.

Fosse eu editor, jornalistas que grafam “confraternizava-se” ou que atribuem o hijab às iranianas, primeiro receberiam uma advertência. Em caso de reincidência, olho da rua.

 
QUERO MEU DINHEIRO



Não é meu hábito reproduzir longos textos de jornal. Mas este, da Folha de São Paulo de hoje, é irresistível.


O deputado Gilberto Gonçalves (PMN) liga para o diretor de recursos humanos da Assembléia, Roberto Menezes, e ameaça "estourar" a Assembléia se não receber sua parte do dinheiro - que, segundo ele, "é dinheiro de roubo, de corrupção". Ele pede para Menezes avisar o presidente da Casa, Antônio Albuquerque (DEM), de sua ameaça.

Gonçalves: Alô?

Menezes: Oi, meu líder.

Gonçalves: Olhe, eu vou dizer um negócio a você. Eu sou tudo na vida; agora, não sou besta. Eu quero meu cento, o meu dinheiro. Diga a Albuquerque. Eu quero o meu dinheiro. Se não eu estouro essa Assembléia. Que eu não tenho medo de neguinho nenhum nem de nenhum filho da peste desse. E eu quero meu dinheiro. Eu quero meu dinheiro certo. Que é dinheiro de roubo, de corrupção. Eu quero meu dinheiro.

Menezes: Ô deputado, você vai ter que procurar o presidente.

Gonçalves: Seu dinheiro, aquela merda que vocês mandaram lá. Eu deixei aquela bosta lá.

Menezes: Hm.

Gonçalves: Entendeu? Eu quero meu dinheiro. E não venha com desconto do INSS, não, porque isso é dinheiro roubado.

Menezes: Mas você vai ter que dizer isso ao presidente, viu, deputado? Não é para mim, não. Porque isso é determinação da Mesa.

Gonçalves: Se quiser que eu diga a ele, eu digo.

Menezes: Então diga.

Gonçalves: Porque esse dinheiro é meu. É melhor você me dar do que sair tudo algemado dessa porra.

Menezes: Eu vou dizer para ele isso que o senhor tá falando.

Gonçalves: Eu quero meu dinheiro. Diga para o pessoal que eu quero o meu dinheiro.

Menezes: O senhor vai ter que dizer pessoalmente a ele, deputado.

Sábado, Fevereiro 23, 2008
 
MINISTRO PROFERE BESTEIRA



O Estadão comemorou hoje, em editorial, “a remoção do mais tóxico dos entulhos deixados pela ditadura militar, a Lei de Imprensa, sancionada em fevereiro de 1967”. Ou seja, a liminar concedida pelo ministro Carlos Ayres de Britto, do Supremo Tribunal Federal, que suspende no todo ou em parte uma vintena dos seus 77 artigos. “Mais: ele determinou a paralisação imediata dos processos abertos com base nos artigos visados, bem como de suas conseqüências eventualmente em curso”.

Alvíssaras! A lei infame existia apenas para intimidar os jornalistas. Mas, em seu entusiasmo, o jornal saúda um ataque de estupidez – ou demagogia – do ministro:

- Fez uma frase que irá para a história da afirmação das liberdades civis no Brasil: “O que quer que seja pode ser dito por quem quer que seja”.

É espantoso que um magistrado de uma suprema corte profira tal sandice. Mais espantoso ainda é que um jornal como o Estadão a endosse. Quer dizer então que estão legalmente autorizadas a injúria, a calúnia e a difamação? O ministro por certo andava com fome de mídia. O jornal caiu na armadilha.

O que quer que seja não pode ser dito por quem quer que seja. Se assim for, qualquer cidadão pode ser linchado pela imprensa. Já aconteceu. Quem tem memória deve lembrar da affaire da Escola Base. Professores tiveram suas vidas destruídas e tiveram de esconder-se para fugir de um linchamento, só porque o que quer que seja pode ser dito por quem quer que seja.

Que o Supremo Apedeuta diga besteiras, entende-se. Já um ministro do STF...

 
SAN ERNESTO Y SAN JUAN PABLO



Será inaugurada em Santa Clara (cerca de 300 km a leste de Havana) uma estátua gigantesca de João Paulo II. Estranha homenagem de um país comunista ao chefe da Igreja Católica. Detalhe: a estátua do papa ficará ao lado de uma outra, cujo pedestal tem 16 metros, a de San Ernesto de la Higuera. Que é como Che Guevara é cultuado na Bolívia.

Assim os cubanos poderão contemplar, lado a lado, o psicopata assassino e o líder da cristandade. Se João Paulo ainda não foi canonizado, Che pertence há muito ao hagiológio das esquerdas.

O Vaticano, sedento de novas ovelhas para seu redil, não disse um pio sobre a exótica companhia do papa. Bento XVI e Fidel Castro: mesmo combate.

Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008
 
DITADOR RUSSO BRANDE
RETÓRICA DA GUERRA FRIA




Para Vladimir Putin, a independência do Kosovo é um "precedente horrível" que terminará voltando contra os próprios ocidentais. "Este precedente do Kosovo acabará destruindo todo o sistema de relações internacionais, desenvolvido não durante décadas, mas durante séculos". Citando os países que reconheceram a proclamação da independência de Kosovo, o ditador russo estimou que a situação teria "conseqüências imprevisíveis".

Quais conseqüências imprevisíveis? Que destruição do sistema de relações internacionais? Quais foram as conseqüências imprevisíveis da independência da Bósnia e Herzegovina, da Croácia, da Eslovênia, da Macedônia? Houve guerras, é verdade. Estará o ditador brandindo a ameaça de uma nova guerra?

Parece que sim. Dimitri Rogozin, o representante de Moscou na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Dmitri Rogozin, declarou que a Rússia se reservava o direito de "utilizar a força" se a Aliança Atlântica ou a União Européia "desafiarem" a ONU em Kosovo.

Putin e Rogozin, talvez por falta de assunto, estão retomando a retórica da Guerra Fria. Só o que faltava, em pleno 2008, as tropas russas fazerem turismo blindado nos Bálcãs.

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008
 
SE BATINA FOSSE BRONZE,
QUE BADALADAS!



Em minha juventude, fui católico. A Igreja foi buscar-me ainda no campo. Uma catequista uruguaia apanhava-me em um jipe na Linha Divisória entre Livramento e Dom Pedrito para jogar-me nas aulas de catecismo. Na cidade, fui estudar em colégio católico, dirigido por padres oblatos. A eles agradeço minha iniciação em latim, francês e inglês. E só. Para desgraça de meus catequistas, muito cedo comecei a ler a Bíblia. Como não há fé em Deus que resista a uma leitura atenta da Bíblia, minhas dúvidas começaram a inquietar os oblatos. Um sacerdote de Bagé, franzino e inquisitorial, veio às pressas para tentar trazer o herege em potencial de volta ao rebanho.

Discutimos um dia todo, com várias jarras de água e um almoço de permeio. A cada preceito de fé que eu contestava, o padre Fermino Dalcin me jogava no rosto a acusação: "Arrogância. Orgulho intelectual. Quem és tu para contestar, aqui em Dom Pedrito, o que autoridades decidiram em Roma?"

Era um argumento pesado para um piá de uns quinze anos. Eu só tinha como defesa descrer do que não conseguia entender. Mas resisti e consegui, ainda adolescente, libertar-me do deus judaico-cristão. Bem sabia a Igreja o que fazia, ao proibir a leitura do Livro a menores de trinta anos. Como cachorro que sacode o corpo para secar-se, sacudi minha alma e procurei, nos anos seguintes, livrar-me da craca ética que vinha grudada ao cadáver do deus cristão. Esta é, a meu ver, a grande função da leitura, libertar o homem de mitos e superstições.

Muitas foram as restrições que tive à fé católica. Mas o conflito inicial, sem dúvida alguma, tinha suas origens na questão sexual. Ao menor pecado contra a castidade, fossem atos solitários ou acompanhados, éramos ameaçados com o fogo do inferno. Em verdade, mesmo pensar em sexo era pecado. No confessionário, a primeira – e diria que única – pergunta era: “pecaste contra a carne, em atos ou pensamento?” Atos, com algum esforço, até que se podia evitar. Mas como evitar pensamentos?

Vivi noites e noites torturado pela idéia de uma condenação eterna. Pecava e sentia meu corpo e minha alma queimando nas labaredas que jamais se consomem. Fazia rapidamente um ato de contrição, contando que viveria até o sábado seguinte – dia de confissão – para poder redimir-me de meus pecados. Fazia o sublime propósito de não mais pecar. Ocorre que a carne não é fraca, como dizem as gentes. É forte. Tão forte que não conseguimos dominá-la. Pecava de novo e se repetia o ciclo: arrependimento, contrição, confissão, bons propósitos... e pecado de novo.

As noites de tempestade constituíam para mim um tormento. Cada raio que caía, eu sentia que era dirigido a este pecador que vos escreve. Megalomania? Até pode ser. Mas o fato é que eu, quando não estava em estado de graça, me encolhia ante a ira divina como cusco amedrontado. Tive um dia a idéia de consultar a Bíblia. Descobri que nela não existia nem mesmo a palavra castidade. Pelo contrário, havia muita orgia, prostituição e até mesmo incesto.

Foi quando abandonei minha fé. Como eu exercia alguma liderança entre meus colegas de ginásio, providenciaram a vinda do Torquemada de Bagé para trazer-me de volta ao rebanho. Autoritário e ao mesmo tempo melífluo, padre Fermino voltou de mãos abanando.

Foi quando sofri minha primeira expulsão da cidade. Expulsão discreta, nada oficial. O oblato padre Antonio Paul, diretor do ginásio, cortou-me a matrícula. Se quisesse continuar estudando, tinha de mudar de cidade. (Eu seria de novo expulso mais tarde, oficialmente, pela comunidade toda e por questões bem mais graves, mas isto é outro assunto). Como já tinha contatos com a JEC, consegui consegui matrícula no colégio Santa Maria, em Santa Maria, dirigido pelos maristas. Que pelo menos não se imiscuíam na vida sexual de ninguém.

Naqueles dias, um pouco antes de perder definitivamente a fé, militei na Juventude Estudantil Católica (JEC) e Juventude Universitária Católica (JUC). Os religiosos que nos orientavam eram homens abertos, mas o conflito sexual persistia. Em Santa Maria, eu apertava o padre Carlos Pretto contra a parede: "Se mulher é tão bom, por que é proibido?" Pretto armava uma longa história, de final curto e grosso. Que não devíamos ter relações com uma mulher por amor a ela. “Eu estudei em Roma – dizia Pretto – no meio daquelas gringas boazudas. Eu me perguntava porque não podia ir para a cama com elas. Examinei criticamente a Bíblia e concluí que não podia fazer isso pelo amor que devia a elas”.

Nada mais fácil para um crente do que inverter uma evidência. Eu também havia lido a Bíblia e, fora as neuroses de Paulo, não via nada demais no exercício da sexualidade. Mas o Paulo era o Paulo. Eu era o Cristaldo. De minha parte, era por amá-las que as queria na cama.

Mas Pretto não era de ferro. As militantes de JEC e JUC, secundaristas e universitárias cheias de charme e desejo, fizeram um excelente trabalho de sapa. Mais adiante Pretto já ousava heresias desde "mulher e religião não se discute, se abraça" a outras do tipo "se batina fosse bronze, que badaladas!" Os sacerdotes que desceram do púlpito para falar conosco – e foram vários – sempre condenando a sexualidade, acabaram largando a batina, casando e fazendo filhos. Foi nossa revanche a longo prazo.

Nós, jecistas, éramos quase virgens em matéria de sexo. Havia o desejo, mas não sabíamos muito bem como a coisa funcionava. Nos apalpávamos nos corredores, nos beijávamos meio sem jeito, sem nem sempre chegar às vias de fato. Certa vez, uma jucista das mais árdegas apertou-me contra uma parede e foi direto ao assunto. Exclamou surpresa: “é por isso que chamam de pau?” Fico imaginando as torturas que elas impunham aos padres naquela penumbra silenciosa dos confessionários.

Um sexualidade exigente e incontrolável foi, sem dúvida alguma, o que me libertou do obscurantismo. Houve também os questionamentos de ordem intelectual, mas estes foram secundários. E é o sexo que tem afastado milhares de sacerdotes da Igreja Católica.

Leio na Folha On Line que a CNP (Comissão Nacional dos Presbíteros) deve publicar daqui a duas semanas texto intitulado "Subsídios para reflexão", no qual pede a abertura de discussões em torno da obrigatoriedade do celibato de padres na Igreja Católica. Com o fim da obrigação, os religiosos casados ou ex-casados também poderiam ser ordenados padres. Segundo o padre Francisco Santos, presidente da CNP, "o que está se propondo é que se reflita sobre novas formas de ministério, que não seja apenas o celibatário".

É uma boa idéia. Terá como conseqüência a diminuição do número de padres pedófilos. Ocorre que a Igreja submete seus ministros a um impiedoso leito de Procusto. Para a Santa Madre, o casamento de seus ministros trará uma série de problemas ainda não pensados.

Casar implica a possibilidade de divorciar-se. O padre pode até considerar o casamento indissolúvel. Mas... e se a mulher pensa diferente? Sacerdote algum poderá impedir, em nome de sua fé, uma mulher de divorciar-se. Aí surge outro problema: pagamento de pensão à mulher e filhos. O homem de Deus terá de suar um pouco mais a camiseta em função desses gastos, que um celibatário não tem.

Casar, por outro lado, neste nosso mundinho contemporâneo, é expor-se à cornificação. A menos que a Igreja admita o freio dos crimes ditos de honra – que já não são mais absolvidos pela Justiça – sempre existe a possibilidade de a mulher pular a cerca. E tais ornamentos não ficam bem na cabeça de um ministro do Senhor.

Ou seja, não vai dar pé. Mas a solução é singela. Se você gosta de sexo, faça como eu fiz. Largue essa fé.

Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008
 
ENTERRO CUBANO


De um leitor, recebo uma piadinha antiga. Sinistra e emblemática.

Toda a família em Cuba se surpreendeu quando chegou de Miami um ataúde com o cadáver de uma tia muito querida. O corpo estava tão apertado no caixão que o rosto estava colado no visor de cristal. Quando abriram o caixão encontraram uma carta, presa na roupa com um alfinete, que dizia assim:

Queridos Papai e Mamãe,

Estou lhes enviando os restos de tia Josefa para que façam seu enterro em Cuba, como ela queria. Desculpem por não poder acompanhá-la, mas vocês compreenderão que tive muitos gastos com todas as coisas que, aproveitando as circunstâncias, lhes envio. Vocês encontrarão, dentro do caixão, sob o corpo, o seguinte:

12 latas de atum Bumble Bee, 12 frascos de condicionador e 12 de xampu Paul Mitchell, 12 frascos de Vaselina Intensive Care (muito boa para a pele... não serve para cozinhar!), 12 tubos de pasta de dente Crest, 12 escovas de dente e 12 latas de Spam das boas (são espanholas) e 4 latas de chouriço El Miño.

Repartam com a família, sem brigas!

Nos pés de titia, estão um par de tênis Reebok novos, tamanho 9, para o Joseíto (é para ele, pois com o cadáver de titio, não se mandou nada para ele, e ele ficou amuado). Sob a cabeça, há 4 pares de "popis" novos para os filhos de Antônio, são de cores diferentes (por favor, repito não briguem!).

A tia está vestida com 15 pulôveres Ralph Lauren; um é para o Robertinho, e os demais para seus filhos e netos. Ela também usa uma dezena de sutiãs Wonder Bra (meu favorito), dividam entre as mulheres, e também os 20 esmaltes de unhas Revlon que estão nos cantos do caixão. As três dezenas de calcinhas Victoria's Secret devem ser repartidas entre minhas sobrinhas e primas.

A titia também está vestida com nove calças Docker's e 3 jeans Lee. Papai, fique com 3, e as outras são para os meninos.

O relógio suíço que papai me pediu, está no pulso esquerdo da titia. Ela também está usando o que mamãe pediu (pulseiras, anéis, etc.).A gargantilha que titia está usando é para a prima Rebeca, e também os anéis que ela tem nos pés.

E os oito pares de meias Chanel que ela veste, são para repartir entre as conhecidas e amigas, ou, se quiserem, as vendam (por favor, não briguem por causa destas coisas, não briguem).

A dentadura que pusemos na titia é para o vovô que, ainda que não tenha muito o que mastigar, com ela se dará melhor (que ele a use, custou caro). Os óculos bifocais, são para o Alfredito, pois são do mesmo grau que ele usa, e também o chapéu que a tia usa.

Os aparelhos para surdez que ela tem nos ouvidos são para a Carola. Eles não são exatamente os que ela necessita, mas que os use mesmo assim, porque são caríssimos. Os olhos da titia não são dela, são de vidro. Tirem-nos e, nas órbitas, vão encontrar a corrente de ouro para o Gustavo, e o anel de brilhantes para o casamento da Katiuska.

A peruca platinada, com reflexos dourados que a titia usa, também é para a Katiuska, que vai brilhar, linda, em seu casamento.

Com amor, sua filha

Carmencita.

PS1: Por favor, arrumem uma roupa para vestir a tia para o enterro e mandem rezar uma missa pelo descanso de sua alma, pois, realmente, ela ajudou até depois de morta. Como vocês repararam, o caixão é de madeira boa (não dá cupim); podem desmontá-lo e fazer os pés da cama de mamãe e outros consertos em casa. O vidro do caixão serve para fazer um porta-retrato da fotografia da vovó, que está, há anos, precisando de um novo. Com o forro do caixão, que é de cetim branco (US$ 20,99 o metro), Katiuska pode fazer o seu vestido de noiva. Não se esqueçam, com a alegria destes presentes, de vestir a titia para o enterro!!!

Com amor,

Carmencita.

PS2: Com a morte de tia Josefa, tia Blanca caiu doente. Se quiserem antecipar algum pedido...

 
MENTIRA RECORRENTE



Janer,

com relação ao seu último artigo, digo que a mentira recorrente de que o ditador Fidel Castro melhorou a saúde pública em Cuba é uma piada de mau gosto. Eu estive na ilha-presídio há menos de um semestre, onde fiquei por um mês, e o que alguns cubanos me contaram (bem discretamente e só depois de me conhecerem melhor) foi que o sistema de saúde estatal era uma desgraça. Não há remédios nem ambulâncias e se o cidadão comum não for apadrinhado por alguém do Partido, é impossível marcar uma consulta e ser atendido rapidamente. Os médicos preferem carregar malas nos hotéis a trabalhar para o Estado, o que gera um deficit de profissionais na área. Eu não os culpo, pois as gorjetas que eles recebem em Euros e em dólares são muito maiores do que qualquer salário na ilha.

Depois da minha experiência naquele presídio socialista, tem uma frase que costumo dizer de vez em quando: se é verdade que Frei Betto disse que Cuba era a materialização do paraíso na Terra, então eu quero ir para o inferno.

Abração!

 
FOI-SE O DITADOR,
FICOU A DITADURA



À semelhança de Kim Il Sung, Castro inaugurou uma dinastia socialista na América Latina. É dogma que não admite contestação: o sucessor do tirano deve ser seu irmão. Leitores me pedem uma crônica sobre a renúncia do ditador. Ora, não há muito a comentar.

Cuba continuará sendo um país de partido único por mais algumas décadas. O aparelho comunista que detém os mecanismos do poder não vai aceitar largá-los. É possível que haja alguma liberalização da economia, mas certamente não será significativa. Os cubanos da ilha, anestesiados por meio século de tirania e pobreza, já nem devem ter lembrança do que seja democracia e prosperidade.

Se não há muito o que falar da renúncia de um tirano, há muito o que dizer do que dizem os jornais. A UOL, por exemplo, em reportagem de Murilo Caravello, mancheteava ontem:

Regime de Fidel cerceou democracia e direitos
humanos, mas melhorou qualidade de vida


Uma no prego e outra na ferradura. Diz o texto:

Em quase meio século como líder de Cuba, Fidel Castro escreveu uma história pontuada por grandes conquistas e perdas significativas. Se educação, saúde, redução de miséria e emprego são áreas em que é impressionante a evolução do país após a revolução, em categorias como direitos humanos, liberdade de expressão, democracia e acesso a bens de consumo Cuba consta como um contra-exemplo no cenário mundial.

Acontece que, no caso cubano, não dá pra dar uma no prego e outra na ferradura. Em 58, durante o regime de Fulgencio Batista, o PIB cubano era o dobro do mexicano. Hoje é um quinto. E ainda há que ouse falar nas excelências da educação e da saúde, na redução da miséria e do emprego. Não me venham falar de virtudes da educação em país que tem imprensa única e não permite a liberdade de opinião. Educação para quê? Para ler o Granma? Fossem os cubanos analfabetos, estariam mais bem servidos.

Melhoras na saúde? Como podem existir melhoras na saúde em um país que vive à beira da fome? Onde os gêneros alimentícios são racionados por uma libreta? Onde carne e pescados são reservados aos turistas que pagam em moeda forte? Já vi depoimentos de visitantes que viram maravilhas em um hospital em Cuba. É que são conduzidos a um hospital diplomático. Tive essa experiência em Praga, na então Tchecoeslováquia.

Tive um problema de menisco e não houve outro jeito senão buscar socorro médico. O hospital era um lixo. Passei a manhã toda tentando me fazer entender. Eu falava inglês, meus interlocutores até que entendiam. Mas me respondiam em tcheco. Finalmente descobri uma ala diplomática no hospital.

Fui até lá. Nossa! O panorama mudou. Muita limpeza, muita higiene, não vi mais gente deitada nos corredores. Me atendeu uma médica que fizera estágio em Cuba e falava espanhol. Bonitaça, ela aproximou seu rosto do meu, começou a queixar-se de sua vida, me confessou suas mais íntimas angústias. Eu, que não sabia se voltaria ao Brasil com uma perna ou duas, não percebi naquele momento que a moça estava me insinuando outros serviços que não os médicos. Por uns vinte dólares, eu talvez até tivesse esquecido o inchume de meu joelho. Seja como for, a ala diplomática era limpa e abordável. Com acesso ao serviço VIP da doutora. O mesmo acontece em Cuba.

Clóvis Rossi, o decano dos cronistas da Folha de São Paulo, faz hoje uma pergunta ingênua: “Resta-me uma perplexidade: como o líder de uma pequena ilha, praticante de um modelo que caiu em desuso, conseguiu manter-se, ainda assim, como um "pop star?"

Ora, Rossi tem idade suficiente para saber que o século XX foi o século do comunismo. Para boa parte do Ocidente, comunismo era sinal de redenção. Nem a denúncia dos massacres de Stalin nos anos 30, nem a denúncia de Kravchenko em 49, nem a denúncia de Kruschov no XX Congresso do PCUS conseguiram convencer o Ocidente de que a Rússia geria um regime tão cruel quanto o nazista. Quando Castro aderiu ao comunismo, sua imagem de pop star foi inaugurada.

Há histórias de Cuba que a imprensa não conta. Tenho um amigo em Paris que adora Cuba e vai para lá pelo menos uma vez por ano. Não que adore o regime. O que o fascina é sentir-se em um museu que mostra um tempo passado. Hospeda-se sempre com cubanos e tem uma boa idéia da vida na ilha. Contou-me esse amigo que, quando morre um cubano em Miami, seu cadáver é enviado para seus parentes em Cuba. A chegada do cadáver é uma festa. O caixão vem recheado de dólares, jóias, enlatados. Mal chega o cadáver, seus parentes se dedicam à garimpagem. Isto é Cuba.

A população da ilha, em 2006, era estimada em 11,3 milhões de habitantes. 1,1 milhão fugiram para Miami. Isto faz dez por cento da população do país. Ora, quando dez por cento da população de um país foge, é porque algo há de errado naquele país. Este contingente constitui a maior fonte de divisas de Cuba, chegando a enviar mais de um bilhão de dólares por ano, trazidos por “mulas” através do México. O turismo, que seria o grande captador de divisas, está em segundo lugar.

Uma das características da ditadura de Castro é que ela não se exerceu sobre Cuba, mas sobre toda a América Latina. Houve anos aqui no Brasil em que um jornalista se suicidava profissionalmente se escrevesse que Castro era ditador. Aconteceu comigo.

Anos 80. Eu lecionava em Santa Catarina. Um jornalista gaúcho, que estava organizando o lançamento do Diário Catarinense, convidou-me para escrever uma crônica para o número zero do jornal. Era uma espécie de teste para escolher o cronista. Escrevi duas. Em uma delas, eu dizia que as esquerdas deviam rezar pela saúde de Stroessner e Pinochet. Não que eu tivesse maior apreço por estes senhores. Ocorre que, uma vez mortos, Castro seria o último ditador do continente.

A crônica entrou nos computadores e provocou um motim na redação. Que eu não poderia ser o cronista do jornal, de forma alguma. Que até poderia ter razão. Mas que aquilo não podia ser publicado. O editor não ousou bancar meu nome.

E assim Fidel Castro Ruz, lá de sua distante ilha, roubou-me um emprego. Mas ninguém imagine que amanhã a ilha estará respirando liberdade. Foi-se um ditador. Ficou a ditadura.

 
ALÉM DE ASTRÓLOGO, GRÃO-MESTRE?



De um leitor que prefere não ter seu nome publicado, recebo:

Sr. Cristaldo,

Não sou ateu, mas gostava de ler alguns de seus artigos no Mídia Sem Máscara. Após a sua saída do MSM, passei a visitar seu blog para ler seus artigos. Não sei se o senhor foi amigo de Olavo de Carvalho, mas fiquei surpreso ao saber que o senhor desconhecia que ele é astrólogo. Olavo de Carvalho é grão-mestre da maçonaria. Ele pertence a uma loja da maçonaria romena e já escreveu vários artigos sobre a maçonaria. Caso o senhor não saiba, os maçons estudam astrologia. A maçonaria se organizou em torno do Zohar, o livro escrito pelo rabino Shimon Bar Yohai contendo os ensinamentos da Cabala, a ciência oculta dos judeus. Para ter outras informações sobre a maçonaria, o senhor pode acessar o site da Editora Madras (www.madras.com.br), que publica livros de vários maçons. Pelos títulos publicados pela editora, o senhor saberá o que os maçons estudam. Não tenho intenção em convencê-lo a deixar de ser ateu, mas gostaria que o senhor compreendesse o que é maçonaria e a importância que eles dão à astrologia. Para alguém que escreve sobre religião, estudar a maçonaria é um dever.

 
O ASTRÓLOGO



“Com bandido não se discute. Lugar de criminoso é na cadeia”, diz o Astrólogo a meu respeito. Essa eu ainda não tinha ouvido. Já fui chamado de comunista, reacionário, agente do Dops, agente do SNI e mais tarde, quando comecei a viajar, de agente da CIA. Fui também chamado de Robin Hood às avessas, “o que tira de todo e não dá nada a ninguém”. Como também de Savonarola às avessas, “o que nos condena por não pecarmos”. Ultimamente tenho sido chamado de ateu, no que não vai nenhuma impropriedade, sou ateu mesmo. O curioso é que ajuntaram um adjetivo à definição: ateu militante. É o pejorativo que os católicos fundamentalistas empregam para desqualificar quem é simplesmente ateu. Pois há uma raça neste século XXI que não concebe que alguém seja ateu. Pode ser muçulmano, hinduísta, protestante, evangélico, testemunha de Jeová. Pode até ser terrorista, desde que em nome de Deus. O que não pode é ser ateu.

Agora, sou bandido, criminoso. Esta é ótima. Estou sendo acusado por nosso Nostradamus tupiniquim, que já foi bolchevique convicto. Do comunismo se converteu à astrologia, da astrologia assestou a proa rumo ao islamismo e do islamismo para um cristianismo difuso, que não ousa dizer seu nome. Nem pode, pois aí se afogaria em um mar de contradições. Católico não pode ser, pois é astrólogo. Protestante ou luterano também não, aí afasta seus discípulos católicos. O Astrólogo diz-se filósofo, sem que filosofia alguma tenha elaborado. Neste sentido, em nada difere da “filósofa” Marilene Chauí, velha bolchevique. Pretende-se de direita, mas faz frente única com outra velha bolche, a Marina Silva, quando se trata de defender o creacionismo. Um mesmo passado ideológico implica solidariedade com os velhos camaradas.

Pretende-se defensor da liberdade de imprensa. Mas fecha com o bispo Edir Macedo, quando se trata de ameaçar jornalistas com processos, quando estes jornalistas denunciam suas falcatruas. Edita um jornal que pomposamente se chama Mídia Sem Máscara. Que, ao professar um catolicismo fanático e fundamentalista, deixou cair a máscara que tentava ocultar a seus leitores. O Astrólogo, Marilena Chauí, Marina Silva, Edir Macedo: o mesmo combate.

Que ninguém me chame de ingrato. Fui convidado para escrever no MSM e gostei de escrever ali. O jornal liderava uma caterva de jovens católicos, fanáticos e analfabetos em relação à Bíblia e ao magistério da Igreja, com os quais muito me diverti digladiando. Os meninos sequer tinham noção dos dogmas católicos e pretendiam discutir com quem os conhece. Infelizmente, senti-me obrigado a deixar de escrever no jornal que se pretendia sem máscara, quando censuraram crônica em que eu afirmava que Cristo havia nascido em Nazaré. Foi uma lástima. Eu adorava provocar aquela malta de carolas. Hoje, sinto uma falta enorme dos papa-hóstias.

Tirante os astros, o itinerário do Astrólogo é o mesmo de um intelectual confuso do século passado, Roger Garaudy, autor de um livro que até fez certa fortuna no Brasil, A Perspectiva do Homem. Foi católico, virou comunista, ou era comunista e virou católico, já não lembro. A ordem dos fatores não altera a vigarice. E morreu muçulmano. Estas conversões tresloucadas, eu as assisti de perto. Em Porto Alegre, havia um jornalista que começou católico, tornou-se comunista, o Jefferson Barros. E morreu virando o traseiro pra lua e cumprindo o Ramadã. Pobres diabos cuja cabeça oca gira como cata-vento ao sabor das brisas, que chegam à velhice sem ter uma idéia definida do que seja a vida. Precisam acreditar em algo, por estúpido que esse algo seja.

Eu o conheci como autor de um livro interessante, O Imbecil Coletivo, livro que recomendei a muitos leitores. Era uma crítica contundente às esquerdas. O que não se via, neste livro, era o fanático fundamentalista que mais tarde o Astrólogo revelou ser. Eu jamais imaginaria que era astrólogo. A revelação surgiu a partir de uma crônica, em que comentei projeto de outro velho bolche – tudo fecha! – o senador Artur da Távola, que pretendia regulamentar a profissão de astrólogo. Baixei a lenha na pretensão do senador e – aproveitando a vaza – na astrologia.

Em um fórum de debates, um interlocutor me interpelou: “Como que você critica a astrologia, se escreve num jornal que tem como editor um astrólogo?” Fiquei perplexo. Meu interlocutor foi adiante: “Mais ainda: ele não só é astrólogo, mas mestre-astrólogo. Tem quatro tratados de astrologia publicados e um de seus onze filhos também é astrólogo”. Pus um pé atrás. Neste momento, dei-me conta de que não basta a alguém criticar as esquerdas, o marxismo e o PT, para ser considerado honesto.

O que espanta, em tudo isto, é que um astrólogo, que se pretende entendido em Lógica, lidere um grupo de jovens católicos que, por questões de fé, não podem aceitar a astrologia. Até mesmo o recórter chapa-branca tucanopapista hidrófobo Reinaldo Azevedo é fanzoca do Nostradamus de Pindorama. Mais um pouco e estará fechando – se é que já não fecha – com a bolchevique petista Marina Silva.

Ó tempora, ó lógica!

Terça-feira, Fevereiro 19, 2008
 
ASTRÓLOGO E BISPO EDIR MACEDO
TENTAM INTIMIDAR JORNALISTAS



O Desespero de Olavo


por Rodrigo Constantino


Bateu desespero em Olavo de Carvalho. Depois que eu provei que ele mentiu – ou criticou meu artigo sem nem ter lido, restou ao "filósofo" um ataque desesperado, uma ameaça de uso do Estado como coerção. Tirando os milhões na conta, não resta mais diferença entre Olavo e Bispo Macedo, cuja Igreja Universal tenta apelar para os mesmos artifícios para calar a crítica da mídia. Onde já se viu um filósofo ameaçar usar a lei para impedir que os outros critiquem suas crenças religiosas? Eis o que Olavo escreveu:

"O artigo 208 do Código Penal pune com detenção e multa os atos de 'escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa' e 'vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso'. Os srs. Rodrigo Constantino, Janer Cristaldo e Anselmo Heydrich já cometeram esse crime tantas vezes, que o simples fato de eu me contentar em xingar esses bandidinhos, em vez de denunciá-los à polícia, deveria ser considerado um exagero de caridade. Com bandido não se discute. Lugar de criminoso é na cadeia. Admito, porém, que não é a caridade, e sim a mera distância geográfica, que me impede de tomar contra os referidos as providências judiciais cabíveis."

Fico constrangido e ao mesmo tempo com muita pena do "filósofo". Ele deve estar mesmo em pânico para ter de apelar desse jeito. Logo ele, que xinga tudo e todos, que não respeita a crença de ninguém. Mas fica a pergunta: os não-crentes podem processar os crentes quando estes chamam de idiotas todos os ateus? Quando um crente jura que o ateu vai passar a eternidade no inferno, ele pode ser processado por danos morais? Se Olavo "vilipendiar publicamente objeto de culto religioso" de uma seita diferente, como a cientologia, ele vai se entregar à polícia? Olavo quer me colocar na cadeia por questionar a sua crença religiosa. Para ele, sou um bandido, um criminoso, pois questiono suas crenças. Como eu disse, o sonho dele era viver na Idade Média, e me mandar para a roda ou fogueira. Ainda bem que tivemos o Iluminismo para colocar uma focinheira em tipos como este. Conservadores fanáticos não odeiam o Estado coisa alguma, nem querem reduzir seu poder. Querem apenas se apossar dele, e ai de quem divergir de suas crenças! A dúvida é: será que Olavo vai respeitar a lei quando ela condenar a homofobia?

Parece que Olavo ficou muito irritado de ser chamado de astrólogo também. Vejamos:

"Quanto à insistência obsessiva desses canalhas em me chamar de 'astrólogo', com a ênfase que a palavra tem quando associada a tipos como Walter Mercado, é fácil notar que nenhum dos três jamais examinou criticamente e nem mesmo citou de passagem qualquer escrito meu sobre a questão da astrologia. [...] O intuito deliberado de falsificar para melhor difamar não poderia ser mais evidente, e a eventual desculpa de que foi ofensa proferida impensadamente no calor da discussão já está impugnada antecipadamente pelo número de vezes que a ofensa se repetiu."

Mas Olavo não disse o que importa: era ou não um astrólogo? Ainda acredita na astrologia? Fazia ou não mapa-astral? Chamar um astrólogo de astrólogo agora é ofensa? Ora, ofensa é um sujeito que se diz católico ser astrólogo também! O que a Bíblia diz sobre a astrologia? Mas vejamos o que o próprio Olavo disse numa entrevista, quando Roberta Tórtora perguntou como a astrologia contribuiu para sua formação:

"Muito. Não existe possibilidade alguma de entendimento de qualquer civilização antiga sem o conhecimento da Astrologia. O modelo de visão do mundo baseado nos ciclos planetários e nas esferas esteve em vigor durante milênios e isto continua a estar, de certo modo, no 'inconsciente' das pessoas. Apesar de algumas deficiências no modelo astrológico, foi ele quem estruturou a humanidade pelo menos a partir do império egípcio-babilônico, o que significa, no mínimo, cinco mil anos de história. A Astrologia é um elemento obrigatório, por isto quem não a estudou, não estudou nada, é um analfabeto, um estúpido."

Não creio que seja necessário fazer qualquer comentário. Melhor voltarmos ao tema das tradições, onde Olavo insiste em ignorar o que eu realmente escrevi. Eis o que ele disse depois que provei sua mentira:

"Constantino reduz o conceito de 'tradição' ao de 'repetição mecanizada', opondo-o ao do exame racional maduro, mas linhas adiante reconhece que 'há tradições boas'. Então é claro que, no seu entender, elas não são boas por ser tradições, mas pela coincidência casual do seu conteúdo com algo que o exame racional, feito por ele, aprova."

Será possível que Olavo ainda não tenha entendido mesmo? Sim, para mim uma tradição não é boa apenas por ser tradição. Por isso devemos questionar as tradições! É justamente o "exame racional maduro", ao invés de uma repetição mecanizada. Ora, como Olavo faz para saber quais tradições seguir? Escolhe aleatoriamente, joga um dardo, verifica no seu mapa-astral? Eu não. Eu prefiro justamente questionar se faz mesmo sentido adotar uma tradição. É o julgamento de um costume através da nossa razão, coisa que você vem condenando. Veja meu exemplo de noivas casando de branco: uma tradição. Para Olavo, tradições nunca são repetidas mecanicamente, mas sim compreendidas. As católicas sabem mesmo porque se casam de branco? Quantas podem seguir esta tradição honestamente? Em resumo, eu quero simplesmente questionar racionalmente qualquer costume ou tradição, algo que fez Olavo de Carvalho perder a linha e partir para as agressões. Não deixo nada acima da minha razão, nem as tradições nem a autoridade de algum filósofo. Meu instrumento epistemológico para tentar compreender o mundo em que vivo é a razão. Mas o ódio de alguns "filósofos" à razão é mesmo algo incrível.

Não satisfeito, Olavo fez uma análise psicológica de minha pessoa, não sei com quais credenciais. De astrólogo para comunista, depois filósofo conservador, crente católico e agora psicólogo também. O homem entende de tudo mesmo! Depois, num típico ataque de vaidade megalomaníaca, ele concluiu que tudo que eu escrevo é para "parasitar seus temas e referências". Segundo ele, passei a citar Ortega y Gasset e Viktor Frankl graças aos seus escritos. Não passa por sua cabeça narcisista que eu possa ter lido sobre Frankl no famoso livro de Steven Covey, Os 7 Hábitos de Pessoas Altamente Eficazes, ou ter descoberto Ortega y Gasset, autor renomado mundialmente, por qualquer outra fonte. Não! Tudo que escrevo, até mesmo sobre o multiculturalismo, é para copiar o grande filósofo. O mundo não gira mais em torno da Terra, como os crentes achavam. Gira em torno de Olavo! E um sujeito desses acha que pode dar um diagnóstico psicológico de alguém. Para Olavo, minhas "investidas polêmicas" são um "longo e reiterado pedido de socorro". Olavo deve escrever essas besteiras todas diante de um espelho, só pode!

Quando escrevi meu artigo provando as mentiras de Olavo, algumas pessoas me mandaram a seguinte resposta: "Nunca discuta com um tolo; eles podem não saber a diferença". Eu concordo com o alerta, mas explico que não discuto com Olavo. Se fosse apenas nós dois numa sala fechada, meu tempo seria mais bem gasto lendo gibis da Turma da Mônica. O problema é que Olavo ainda conquista seguidores desavisados. Cada vez menos, é verdade. Mas faz-se necessário desmascarar o embuste. Rebato as mentiras e falácias de Olavo como faço com Verissimo, Sader ou qualquer outro do tipo. Sei que, à exceção dos desesperados que ainda levam Olavo a sério, quase ninguém mais o enxerga como um debatedor honesto, mesmo entre seus pares conservadores. Mas sempre existe um ou outro que ainda pode acordar do entorpecimento da erudição de Olavo. Escrevo para eles.

E por falar nos seguidores de Olavo, nada mais lamentável que ver a bajulação em sua comunidade do Orkut. Os comentários são todos do tipo: "Perfeito, professor", "Muito bom!", "Perfeito!", "Excelentes comentários, Olavo!". Olavo criou uma seita, explorando o desespero dos outros, tal como Bispo Macedo fez. Vaidoso, ele busca puxa-sacos que não questionam, mas apenas aplaudem como focas. A falta de argumentos é diretamente proporcional aos elogios feitos ao "mestre". Olavo, ao comentar a obra de Schopenhauer, Como Vencer um Debate sem Precisar ter Razão, assimilou muito bem todos os estratagemas de erística, que ele usa e abusa. Mas, uma vez desmascarado, entrou em desespero. A ameaça de processo foi a gota d'água, o ato desesperado de alguém que sabe não ter mais argumentos para rebater as críticas que recebe. Como disse Ayn Rand, "o argumento pela intimidação é uma confissão de impotência intelectual". Olavo acaba de confessar a sua.

 
BIBLE DENIERS


Prezado Janer,

Saudações,

Acabei de ler seu texto "O Poder das Interpretações". Ainda não li o livro "A Bíblia" de Armstrong, que você mencionou, mas, pelo interesse que você demonstra pelo assunto, eu recomendo a leitura do livro "The Bible Unearthed: Archaeology's New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts", de Israel Finkestein e Neil Asher Silberman, que foi publicado no Brasil pela editora A Girafa com o título meio sensacionalista de "A Bíblia não Tinha Razão". Avaliando pelo seu texto, acho que o ponto de vista dos autores dos dois livros são semelhantes.

A polêmica causada por estes estudos arqueológicos, literários e históricos mais recentes sobre a Bíblia é muito grande, principalmente em Israel, pois os mitos do Velho Testamento são usados por muita gente como argumento para sustentar a legitimidade do Estado de Israel, e, quando a historicidade deles é questionada, as implicações políticas são fortes. Algumas reações a estes estudos chegam a ser engraçadas, como o fato de seus autores serem chamados de "Bible deniers".

Abaixo, envio uma entrevista interessante com Finkelstein, publicada no Ha'aretz.

http://www.haaretz.com/hasen/pages/ShArt.jhtml?itemNo=291264&contrassID=2&subContrassID=14&sbSubContrassID=0&listSrc=Y

Um grande abraço,

Humberto Quaglio

 
INTERPRETAÇÕES SEGUNDO
OS ACADÊMICOS DE LAGADO



Quem me acompanha, sabe que um de meus livros de cabeceira é As Viagens de Gulliver, de Swift. Pois bem, em sua visita à Academia de Lagado, o capitão Lemuel Gulliver toma ciência de curiosos métodos de interpretação.

"Um outro acadêmico mostrou-me um escrito contendo um curioso método para descobrir as conspirações e as intrigas, que era examinar os alimentos dos indivíduos suspeitos, a ocasião em que os comem, o lado para o qual se deitam na cama e a mão com que limpam o traseiro; observar-lhes os excrementos e ajuizar, pelo cheiro e pela cor, dos pensamentos e dos projetos de um homem, tanto mais que, na sua opinião, os pensamentos não são nunca mais ponderados, nem o espírito se encontra tão recolhido, como quando se está no retrete. Ajuntava que, quando, para fazer simplesmente experiências, havia algumas vezes pensado no assassínio de um homem, tinha então encontrado os seus excrementos muito amarelos e que, quando pensava em revoltar-se e incendiar a capital, achara-os de uma cor muito negra.

"Arrisquei-me a acrescentar algumas palavras ao sistema desse político; disse-lhe que seria bom manter sempre um núcleo de espiões e delatores que se protegeriam e aos quais se daria sempre uma certa importância em dinheiro proporcional ao valor da sua denúncia, quer fundada, quer não; que, por esse meio, os súditos viveriam no receio e no respeito; que esses delatores e acusadores seriam autorizados a dar o sentido que lhes aprouvesse aos escritos que lhes caíssem nas mãos; que poderiam, por exemplo, interpretar assim os termos seguintes:

"Uma peneira: uma alta dama da corte.
Um cão coxo: uma descida, uma invasão.
A peste: m exército em pé de guerra.
Um bolônio: um favorito.
A gota: um grão-sacerdote.
Um pinico: uma assembléia.
Uma vassoura: uma revolução.
Uma ratoeira: um emprego financeiro.
Um esgoto: a corte.
Um chapéu e um cinto: uma amante.
Uma cana partida: o tribunal.
Um tonel vazio: um general.
Uma chaga aberta: o estado dos negócios públicos.

"Poder-se-ia ainda observar o anagrama de todos os nomes citados num escrito; para isso, porém, eram necessários homens da mais elevada penetração e do gênio mais sublime, principalmente quando se tratasse de descobrir o sentido político e misterioso das letras iniciais. Assim: N poderia significar uma conspiração; B um regimento de cavalaria; L uma esquadra. Além disso, transpondo-se as letras, poder-se-ia descobrir num escrito todos os ocultos desejos de um partido descontente. Por exemplo: lê-se numa carta escrita a um amigo: Seu irmão Tomás sofre de hemorróidas; o hábil decifrador desvendará, na assimilação destas palavras indiferentes, uma frase que fará compreender que está tudo preparado para uma sedição".

Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008
 
O PODER DAS INTERPRETAÇÕES



Acabei de ler um belo estudo sobre a Bíblia, que se intitula precisamente A Bíblia, da teóloga Karen Armstrong. A autora remexe nas camadas mais profundas do Pentateuco e agora passei a entender porque Jeová ora se chama Jeová, ora se chama Eloim. Os extratos mais antigos do Pentateuco – ou Torá, para os judeus – teria duas vertentes: um épico sulista de Judá que os estudiosos chamam de J, porque seus autores sempre chamavam seu Deus de Jeová, e uma saga do norte conhecida como E, porque esses historiadores preferiam o título mais formal de Eloim. Mais tarde essas duas histórias distintas foram combinadas por um editor para formar a história única que constituiu a espinha dorsal da Bíblia hebraica.

O livro de Armstrong é leitura fundamental para quem queira entender o Livro a fundo. Recomendo vivamente. Dele se deduz, por exemplo, que o próprio Jeová acreditava em outros deuses, obviedade que choca muito crente. É só em Isaías que Jeová passa a se considerar único. “Sou Jeová, inigualável. Não há nenhum outro deus além de mim”.

Cito Armstrong:

“Tanto J como E tinham, por exemplo, concepções de Deus muito diferentes. J usava imagens antropomórficas que causariam embaraço a exegetas posteriores. Jeová passeia pelo jardim do Éden como um potentado do Oriente Médio, fecha a porta da Arca de Noé, irrita-se e muda de idéia. Contudo, em E havia uma concepção mais transcendente de Eloim, que mal “fala”, preferindo enviar um anjo como seu mensageiro. A religião israelita posterior iria se tornar profundamente monoteísta, convencida de que Jeová era o único Deus. Mas nem J nem E eram monoteístas. Originalmente, Jeová fora membro da Assembléia Divina dos “santos”, que El, o poderoso deus de Canaã, havia presidido com sua consorte Aserá, e Jeová era o santo de Israel. No século VIII, Jeová havia expulsado El da Assembléia Divina e reinava sobre uma multidão de “santos”, guerreiros do exército celeste. Nenhum dos outros deuses podia se igualar a Jeová na fidelidade a seu povo. Nisso ele não tinha pares, não tinha rivais. Mas a Bíblia mostra que até a destruição do templo por Nabucodonosor, em 586, os israelitas também adoraram grande número de outras divindades”.

Um dos momentos do livro que mais me surpreendeu foi a revelação da exegese rabínica da midrash, na qual o significado de um texto não é evidente em si mesmo. O exegeta tinha de ir a sua procura, porque cada vez que um judeu se confrontava com a palavra de Deus na Escritura, ela significava algo diferente. A Escritura era inesgotável. Os rabinos gostavam de salientar que o rei Salomão usara três mil parábolas para ilustrar cada versículo da Torá e podia dar 1.005 interpretações de cada parábola - o que signficava que havia três milhões e 15 possíveis exposições de cada unidade da Escritura. Quer dizer, se a Bíblia diz isto, você pode perfeitamente interpretar como sendo aquilo. Cada rabino, uma sentença.

Vejamos este singelo versículo do Gênesis: "Porque o meu anjo irá adiante de ti, e te introduzirá na terra dos amorreus, dos heteus, dos perizeus, dos cananeus, dos heveus e dos jebuseus; e eu os aniquilarei".

Um bom especialista na midrash talvez pudesse chegar legitimamente à conclusão que Jeová recomendara enviar beijos e flores aos amorreus, aos heteus, aos perizeus, aos cananeus, aos heveus e aos jebuseus.

Esta orgia interpretativa contaminou inclusive os cristãos. Orígenes, por exemplo, nunca se deixou levar pelo sentido literal dos textos bíblicos. Abraão prostitui Sara para receber mordomias de faraó? Nada disso. Para Orígenes, Abraão queria partilhar a extraordinária virtude de Sara.

Da mesma forma, quando Sulamita diz: “Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o seu amor do que o vinho”, por favor, ninguém imagine que se trata de uma poema erótico. É apenas uma imagem do amor de Cristo por sua Igreja.

Domingo, Fevereiro 17, 2008
 
DENÚNCIAS DEVASSAM
O SANTO DOS SANTOS




Desde há mais de vinte anos tenho me perguntado por que a imprensa não aborda a corrupção nas universidades. Até hoje, a universidade tem sido o Santo dos Santos, onde jornalistas não podem penetrar. O Santo dos Santos era uma sala do Templo de Salomão onde ficava guardada a Arca da Aliança. Era onde se realizava anualmente uma cerimônia de sacrifício expiatório de um cordeiro sem mácula pelos pecados dos judeus. Esta sala ficava separada do templo por uma cortina de linho. Segundo a lei de Moisés, somente ao sumo sacerdote era permitido entrar no Santo dos Santos, e ele tinha que ser cerimonialmente purificado antes que pudesse falar com Deus.

Em meus dias de UFSCTUR – como denominei a Universidade Federal de Santa Catarina – denunciei na imprensa as centenas de professores contratados sob regime de Dedicação Exclusiva e que continuavam tocando serenamente seus consultórios de médicos ou dentistas, seus escritórios de advocacia. Mais outros tantos que ganhavam bolsas em outros Estados do País ou no Exterior e voltavam de mãos abanando, após quatro ou cinco anos de turismo regiamente subsidiado – extensivo a mulheres e filhos, é claro – sem nada devolver ao Erário. Minha denúncia causou comoção na Universidade, mas ficou tudo por isso mesmo. A desfaçatez da UFSC era tamanha a ponto de a Reitoria abrigar uma agência de turismo em suas instalações. (E talvez ainda a abrigue). O reitor processou-me por calúnia e difamação, mas teve de tirar o cavalinho da chuva. Em suma, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. A universidade é o Santo dos Santos, onde não há pecados nem impurezas.

Isso sem falar naquela corrupção perfeitamente legal, tais como doutorandos que vão a Paris ou Londres pesquisar a obra de Machado de Assis ou Nelson Rodrigues. Ora, por que não pesquisá-la aqui, onde estes autores a elaboraram? Depois de quatro ou cinco anos, elaboram um textículo de 300 ou 400 páginas, que não será lido por ninguém – talvez nem mesmo pelos participantes da banca – e ficará mofando nalguma biblioteca. Isso quando elaboram as 400 pagininhas. Pois muitos nem isso conseguem. Isso quando fica mofando nalguma biblioteca. Porque às vezes nem fica. Na UFSC, nos anos 60, um incêndio providencial numa sala da Reitoria queimou as “teses” de boa parte dos doutores da Universidade. Estranho incêndio, queimou só as teses. “Ainda bem que queimou” – me confessou um deles, doutor em História – . Porque a minha tese não se sustentava”.

Isso sem falar em professoras que voam de Porto Alegre a Tóquio, para expor durante vinte minutos um comunicado vital... sobre Literatura Comparada. Em velhotes que se candidatam a doutorado aos 50 anos, quando já estão perto da aposentadoria. O doutorado, que deveria ser uma especialização para o exercício do magistério, passa a ser um prêmio de consolação na velhice. Encontrei em Paris uma de minhas colegas de magistério, uma velhota quase sexagenária com dificuldades de locomoção, pois mal conseguia enxergar um semáforo. Fazia doutorado em Lingüística. Passaram-se os anos e não escreveu uma linha. A universidade queria trazê-la de volta. Mas para isso ela tinha de ser comunicada – sei lá porque razões – aqui no Brasil. Como ela não queria receber essa comunicação, permanecia em Paris. Com seus salários e subsídios de bolsa preservados. Não sei como foi resolvida a situação.

Mas isso tudo é perfeitamente legal. A UFSC teve um caso caricatural. Um professor, que foi contemplado com uma bolsa na Bélgica, jamais foi à Bélgica. Encontrou uma fórmula para abrir uma conta em um banco belga e receber seu dinheiro no Brasil. Com a bolsa, construiu uma mansão em Itapema. Me consta que a universidade não conseguiu afastá-lo de seus quadros.

Graças ao escândalo dos cartões corporativos, a universidade brasileira finalmente entrou na berlinda. Descobriu-se que o reitor da Universidade de Brasília (UNB), Timothy Mullholland, gastou apenas 470 mil reais na reforma do apartamento em que residia. Em que residia gratuitamente, diga-se de passagem. Homem refinado, o Magnífico comprou – com o cartãozinho mágico – uma lata de lixo no valor de R$ 990 e um saca-rolhas de R$ 859. Gente fina é outra coisa.

Mais ainda. Leio hoje no Estadão que os cartões corporativos da UnB serviram para pagar compras de valor elevado em supermercados, mercearias, açougues, peixarias e armazéns no ano passado. De 2004 a 2006, esse tipo de gasto tinha produzido uma despesa abaixo de R$ 13 mil, somadas as contas dos três anos. Levantamento do Estado mostra que somente em 2007 os cartões pagaram R$ 69.721,99 em compras feitas em estabelecimentos especializados na venda de gêneros alimentícios, como Carrefour, Pão de Açúcar, Tigrão e Oba, entre outros.

Mas também aparecem compras em lojas que vendem artigos mais refinados, como o minimercado e delicatessen La Palma, a confeitaria Monjolo - que vende biscoitos, tortas e bolos finos - e a padaria Pão Italiano, por exemplo. A profusão de compras desse tipo, pela universidade, mostra que o cartão público de débito é usado como um cartão pessoal - com a diferença de que a fatura é emitida contra o caixa do Tesouro Nacional.

É o que nos conta o jornal. Também informa que a segunda universidade com maior despesas de cartão corporativo é a Federal do Piauí, cujos gastos nem de longe rivalizam com os feitos pela UnB. Em 2007, a Universidade Federal do Piauí gastou R$ 356.772 nos cartões.

As denúncias chegaram ao Santo dos Santos do mundo acadêmico. Mas ainda são tímidas. No Brasil, quando se puxa um fio da corrupção, vem atrás um imenso novelo. E as demais universidades do país? Seus Magníficos Reitores e funcionários não usam cartões corporativos? Ora, se usam, é de supor-se que também terão caído na farra dos cartões. Alguém consegue acreditar que só as universidades de Brasília e do Piauí fazem uso indevido dos cartões?

As denúncias seguirão adiante? Duvido. Se seguirem, vai ser bom para o mercado de trabalho dos jornalistas. As empresas terão de contratar mais profissionais para apurar tanta malversação de dinheiro público.

De qualquer forma, a corrupção universitária é anterior à prática dos cartões. Corrupção são essas bolsas para pesquisas rumo ao nada, viagens para congressos inúteis, dobradinhas com Dedicação Exclusiva e exercício simultâneo de outra profissão, doutorandos que voltam de mãos vazias e nada devolvem à universidade. Em um colóquio literário, por exemplo, quem mais ganha não é a cultura, mas a hotelaria e as agências de turismo.

Puxa-se um fio e vem o novelo. Começou com o Executivo. Logo descobriu-se que Legislativo e Judiciários tinham também suas fórmulas de salário indireto. Agora, entra a Academia no baile. Antes tarde do que nunca. Mas se bem conheço os bois com que lavro, ninguém será punido. É gente demais para ser punida. Melhor então não punir ninguém.

 
OBSCURANTISMO MARXISTA NA UNIVERSIDADE



De Raphael Piaia, recebi:


Janer,

gostaria que você estivesse na faculdade nas últimas semanas. Ou melhor, acho que não gostaria. Não desejo esse tipo de tortura para ninguém, muito menos a você. Eu estava para te escrever esse e-mail há algum tempo, mas ainda não tive oportunidade. Ele deveria ser grande, mas vou tentar fazê-lo curto pela falta de tempo.

Lembra quando você disse que vomitava todo dia antes de ir para a redação da Folha? Pois é assim que me sinto na faculdade. O esquerdismo entre os professores é patente, não existem dúvidas sobre isso. Salva-se, no máximo, um pelo que pude notar até aqui. Os absurdos já foram vários, mas para citar um que se relaciona ao seu texto, só preciso lembrar de ontem.

Na aula de sociologia, surgiu o assunto índios. E então começa a “professora”, socióloga também formada em teologia: “Antes tudo era bom, não era, meu queridos? Agente vivia em harmonia com a natureza, as cidades não eram entupidas de gente como são agora, o ar era respirável. Deixa eu citar um exemplo de aumento da população em Londres, o êxodo rural e a queda no padrão de vida de tal década para tal década” (...) “Mas era bom, não era? Antes do Brasil ser descoberto, nós vivíamos bem, não vivíamos? Alguém consegue pensar em alguma coisa boa que eles ( europeus) trouxeram para nós?Nada, não é?” Deu para ter um idéia, não, Janer? Eu pensei em várias coisas que os europeus trouxeram, mas estava tão cansado. Desisti de debater com esses professores. No colegial até que ainda era legal, atraia garotas e tudo o mais, só começou a estressar no fim dos estudos. No convívio social, mais legal ainda, não há aquela tropa politicamente correta atrás de você. Se você discute com alguém, discute em pé de igualdade. Não é como na faculdade, onde o professor se arroga de sua autoridade de... mestre-doutor e você de... aluno do contra. E isso foi só um aperitivo, Janer. Já conseguiram opor empresários x proletariado. Já conseguiram comparar o Brasil com Cuba, onde um professor universitário ganha e vive bem com 10 dólares, veja só, pois lá não se paga nada! Escola, luz, saúde, para o espanto da classe, são providos pelo Estado. Aliás, muitas dessas defesas, embasbacando-me, vieram em aulas de economia. E, claro, Nenhum professor esqueceu de falar sobre o “ nosso capitalismo selvagem”.

Nos primeiros dias, desafiei bastante os absurdos. Desafiei sobre o ridículo de defender-se a cultura dos muçulmanos. Desafiei o nada tímido antiamericanismo dos professores. Desafiei os crucifixos no alto das salas ( nesse caso, numa conversa particular com um dos professores) enfim... Resultado? Consegui fama de antipático. Do tipo: “ Quem esse moleque pensa que é, contestando assim nossos divinos doutores?” A Parte atuante da sala deve me ver como um reacionário odioso, uma vez que ficam de boca aberta e olhos brilhando durante os discursos das viúvas de Marx. Os professores, como um rapazinho perigoso, audacioso e arrogante. O resto, a parte mais alienada que não dá bola para nada disso, deve se perguntar o que o Piaia faz se preocupando com essas coisas enquanto poderia passar mais tempo bebendo no barzinho ou “brincando” com as garotas.

Ora, brincar com as garotas é bom, não nego. Mas os professores com sua verborragia conseguem assassinar e sepultar qualquer clima. E eu ainda me mantenho calmo, Janer. Não contestei nada daquilo onde ainda sou leigo. Não contestei, por exemplo, as afirmações de que o Direito Natural é visto e entendido da mesma forma por todas as culturas e pessoas do mundo. Os desafio – os professores uspianos doutores que vieram criticar o capitalismo em universidade paga-, até os corrijo em alguns casos, quando se trata de assuntos culturais, geopolítica e afins. É cansativo, é estressante, é... Eu sei que você e todos sempre advertiram para não esperar nada diferente disso na faculdade, mas mesmo assim. Por enquanto, ainda me sinto como você se sentia antes de ir para a redação da Folha. Mas isso tem mudado. Estou indo para o lado do sarcasmo ou da indiferença como sempre fiz em outros tempos. Ou o da contestação sem circo, como faço, ou tento fazer, socialmente. Não sei. Não existem muitas alternativas.

Sábado, Fevereiro 16, 2008
 
MARTA RELAXA E GOZA INAUGURA
GREAT BRAZIL PICARETAGEM




Foi inaugurado ontem o trem de luxo Great Brazil Express, que percorrerá o trecho entre Ponta Grossa e Cascavel. A solenidade aconteceu em Morretes (PR) e contou com a presença da ministra do Turismo, Marta Suplicy. Mas atenção: o trem não é para viajar. Faz parte de um pacote turístico que inclui, além do passeio ferroviário, visita para as cataratas do Iguaçu. As saídas ocorrem desde Curitiba ou do Rio de Janeiro.

Vejamos agora os preços. Começam em 2,3 mil euros (cerca de R$ 5,8 mil) saindo da capital paranaense para Foz do Iguaçu, para um passeio de sete dias em outubro. A tarifa mais cara é para saída de Foz do Iguaçu até o Rio de Janeiro, entre julho e agosto, com duração de 10 dias para a viagem: 3,5 mil euros (cerca de R$ 8,9 mil). O trecho entre Ponta Grossa e Cascavel passa pelas cidades de Curitiba, Morretes, Antonina, Piraquara, Castro, Guarapuava, Irati e Tibagi. Estes preços incluem todas as refeições e bebidas no trem, entradas para os passeios, hotéis e taxas.

Vejamos agora os preços de um Eurail Pass na Europa, viajando em primeira classe naqueles soberbos trens europeus. Quinze dias, 747 euros. 21 dias, 968 euros. Um mês, 1.201 euros. Três meses, 2.093 euros. Há uma fórmula ainda mais barata, o Saver Pass. E se você tiver menos de 26 anos, os preços baixam pela metade. Quer dizer, para girar três meses na Europa, você paga menos do que por dez dias no Brasil.

Verdade que estes preços não incluem refeições nem bebidas, hotéis nem taxas. Mas trem, na Europa, é um meio de transporte ao alcance de todos os cidadãos. E não um pacote turístico, ao alcance de turistas ricos. Com o Eurail Pass, em vez de Curitiba, Morretes, Antonina, Piraquara, Castro, Guarapuava, Irati e Tibagi, você tem Lisboa, Madri, Barcelona, Toulose, Roma, Bolonha, Veneza, Paris, Bruxelas, Amsterdã, Munique, Stuttgart, Berlim, Copenhague, Estocolmo. E quantas mais cidades quiser. Em verdade, toda e qualquer cidade da Europa onde chegue um trem.

A Great Brazil Picaretagem é obviamente dirigida a turistas estrangeiros. Tanto que já fornece seu preço em euros. Mas europeus ou americanos não são tão estúpidos quanto imagina a dona Marta Relaxa e Goza. O pacote brasileiro só tem de interessante as cataratas. Pela metade do preço, um parisiense voa até lá, sem ter de perder seu tempo passando por cidades sem charme algum. Pelo preço proposto pela tal de Great Brazil, pode-se passar um mês nas ilhas gregas ou canárias.

Alguma crise de afonsocelsismo deve ter acometido as autoridades do turismo no Brasil. É claro que este trem de luxo tem seus dias contados.

 
BUGRES PODEM MATAR



Ao comentar a defesa da adoção de certos aspectos da sharia no Reino Unido, feita pelo o líder espiritual da Igreja anglicana, afirmei que o Brasil estava fazendo escola. Pois neste país insólito, desde há muito há diferentes legislações para diferentes grupos sociais. Para espanto de alguns leitores, afirmei que índio tem carteirinha de 007, aquela que dá o direito de matar.

Enquanto a Igreja Católica luta contra o aborto por considerá-lo um assassinato, os indígenas brasileiros se reservam o direito de matar filhos de mães solteiras, os recém-nascidos portadores de deficiências físicas ou mentais. Gêmeos também podem ser sacrificados. Algumas etnias acreditam que um representa o bem e o outro o mal e, assim, por não saber quem é quem, eliminam os dois. Outras crêem que só os bichos podem ter mais de um filho de uma só vez. Há motivos mais fúteis, como casos de índios que mataram os que nasceram com simples manchas na pele – essas crianças, segundo eles, podem trazer maldição à tribo. Os rituais de execução consistem em enterrar vivos, afogar ou enforcar os bebês. Geralmente é a própria mãe quem deve executar a criança, embora haja casos em que pode ser auxiliada pelo pajé. É o que nos conta reportagem da recente edição da Istoé.

Em meu livro Ianoblefe, citei as denúncias do antropólogo americano Napoleon Chagnon sobre as práticas ianomâmis, em cujas tribos a criança não desejada é morta após o parto. Ao tornar público este segredo de polichinelo, Chagnon foi excluído do universo da antropologia. Segundo a Istoé, a prática do infanticídio já foi detectada em pelo menos 13 etnias, como os ianomâmis, os tapirapés e os madihas. Só os ianomâmis, em 2004, mataram 98 crianças. Os kamaiurás, a tribo de Amalé e Kamiru, matam entre 20 e 30 por ano. Mas entre os sacerdotes que vociferam contra o aborto, você não encontra um só que denuncie estes assassinatos. E tudo isto sob os olhares complacentes da Funai, que considera que os brancos não devem interferir nas culturas indígenas. Dessa mesma Funai que quer proibir a adoção de crianças indígenas pelos brancos. “Índio sofre muito fora da tribo”, dizem os antropólogos. Na tribo, conforme o caso, nem sofre: é enterrado vivo ao nascer. Ou afogado. Ou enforcado.

A reportagem narra a história de Amalé, indiozinho de quatro anos, que sobreviveu a um enterramento. Logo que nasceu, foi enterrado vivo pela própria mãe, que seguia um ritual determinado pelo código cultural dos kamaiurás, que manda enterrar vivo aqueles que são gerados por mães solteiras. Para assegurar que o destino de Amalé não fosse mudado, seus avós ainda pisotearam a cova. Duas horas depois, em um gesto que constituiu um desafio a toda aldeia, uma tia apiedou-se do menino e o desenterrou. Estava ainda vivo. Amalé só teria escapado da morte porque naquele dia a terra da cova estava misturada a muitas folhas e gravetos, o que pode ter formado uma pequena bolha de ar.

“Antes de desenterrar o Amalé, eu já tinha ouvido os gritos de três crianças debaixo da terra”, relata Kamiru, a tia que o salvou. “Tentei desenterrar todos eles, mas Amalé foi o único que não gritou e que escapou com vida”.

Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008
 
EVANGÉLICOS E CANALHAS



Enquanto os cabeças-de-toalha tentam censurar a Wikipedia, no Brasil são os fanáticos da Igreja Universal do Reino de Deus que tentam censurar a imprensa nacional. Em dezembro passado, a repórter Elvira Lobato, da Folha de São Paulo, assinou reportagem intitulada "Universal chega aos 30 anos com império empresarial". Para intimidá-la, a IURD entrou com 47 ações de indenização por danos morais em Juizados Especiais de vários Estados. As ações são impetradas por diversos crentes desses vários Estados, mas o texto é sempre o mesmo.

A intenção é clara, forçar a jornalista a nomear advogados e ter de viajar pelo Brasil todo para defender-se. Em esquema semelhante ao usado contra a Folha, a IURD impetrou mais 41 ações de indenização por danos morais contra dois jornalistas dos jornais Extra, do Rio de Janeiro, e A Tarde, da Bahia, por terem noticiado ato de vandalismo numa igreja católica em Salvador atribuído a adepto da igreja.

Ou seja, a IURD não quer que os jornais informem. Felizmente ainda há juízes sensatos neste insensato país. O juiz Edinaldo Muniz dos Santos, 36, titular da comarca de Epitaciolândia, no Acre, extinguiu processo em que um reclamante, Edson Duarte Silva, pretendia obter indenização da Folha e da repórter Elvira Lobato.
O juiz entende que há um "assédio judicial", ou seja, "uma atuação judicial massificada e difusa da Igreja Universal contra o jornal". Já o juiz Alessandro Leite Pereira, de Bataguaçu (MS), condenou outro reclamante, Carlos Alberto Lima, por litigância de má-fé.

Reproduzo trechos de entrevista da Folha:

FOLHA - Por que o sr. extinguiu imediatamente o processo?
EDINALDO MUNIZ DOS SANTOS - Lendo a reportagem, vi de cara que o requerente, um simples fiel da igreja, era manifestamente ilegítimo, não poderia se aproveitar da matéria para pedir da Folha uma indenização. Legalmente só a própria Igreja Universal poderia, ao menos em tese.
FOLHA - Por que o sr. diz que está havendo um assédio judicial patrocinado pela Igreja Universal?
SANTOS - O Judiciário está sendo usado apenas para impor à parte requerida um prejuízo processual, isto com centenas de deslocamentos para audiências, passagens aéreas, advogados etc. O processo judicial, que é meio de punição e reparação, passa ser a própria punição.
FOLHA - Quais são os riscos quando os juízes, sem compreender a gravidade do caso, mandam citar os réus?
SANTOS - Se o requerido for citado e não comparecer, corre o risco de ser condenado à revelia. Depois, para desfazer isso leva tempo e dinheiro. O caminho da simples importunação judicial não é tão complicado. O "piloto automático" do Juizado Especial pode sim gerar injustiças que para serem desfeitas leva tempo e dinheiro.


Com outros métodos, a igreja do bispo Edir Macedo em nada difere dos cabeças-de-toalha que querem censurar a Wikipedia. A técnica é antiga. Já fui alvo de pelo menos três processos que tentavam intimidar-me. Qualquer jornalista mais combativo tem um histórico de processos em sua vida. Mas a IURD foi maquiavélica. Se o Judiciário aceita esta estratégia safada de processar um jornalista em diversos Estados da União, a vida do profissional se torna um inferno. E o livre exercício da crítica se torna inviável.

Canalhas!

 
CABEÇAS-DE-TOALHA QUEREM
CENSURAR A WIKIPEDIA



“Tirem as ilustrações de Maomé da Wikipedia”, é o que exige um manifesto com assinaturas de mais de 160.000 internautas. Muçulmanos, é claro. Apelam ao respeito às religiões e argumentam que na cultura islâmica as imagens do profeta e outros seres humanos não são permitidas. As ilustrações que despertaram a ira dos sarracenos aparecem na entrada dedicada a Maomé na enciclopédia eletrônica. Uma delas data do século XV e provém de um manuscrito de Al Bïrüni, conservado na Biblioteca Nacional da França. A outra é considerada o primeiro retrato do profeta e data do século XIII.

Ora, imagens de Maomé estão reproduzidas em todas as enciclopédias do mundo, isso sem falar em milhares de livros que abordem o islamismo. Em meu Diccionario Literário Bompiani (15 volumes), no verbete Mahoma há oito ilustrações do profeta analfabeto. Quatro são de miniaturas árabes e duas de miniaturas persas. Ou seja, de culturas predominantemente islâmicas. Ora, a Bompiani é uma mais prestigiosas enciclopédias literárias da Europa. Pretenderão os cabeças-de-toalha que todas as bibliotecas do mundo queimem suas enciclopédias e livros sobre o Islã? Quando estes senhores ousarão pedir a censura da Divina Comédia? Pois neste poema emblemático da Europa cristã, Dante joga Maomé nos quintos dos infernos.

É claro que árabe algum está preocupado com reproduções da imagem do profeta pedófilo. Esta manifestação é obviamente uma campanha arquitetada por mulás para chantagear o Ocidente. Assim como foi o caso das caricaturas publicadas em um obscuro jornal dinamarquês. De repente, até na Indonésia muçulmanos analfabetos tinham lido o tal de jornal.

A Wikipedia resiste. Seus editores recusam-se a retirar as imagens de Maomé do site. Em uma FAQ, advertem que a proibição de imagens não é universal na comunidade islâmica e que os critérios editoriais da enciclopédia impedem censurar conteúdos “em benefício de qualquer grupo. Nenhuma imagem será suprimida da Wikipedia porque haja pessoas que as julguem ofensivas”.

Seria o caso de lembrar um pouco conhecido diploma do Ocidente, o acórdão dito Handyside, de 1976, reconhecido pela Corte Européia de Direitos do Homem. Que declara: "A liberdade de expressão vale não apenas para as informações ou idéias acolhidas com favor, mas também para aquelas que ferem, chocam ou inquietam o Estado ou uma fração qualquer da população. Assim o querem o pluralismo, a tolerância e o espírito de abertura, sem o qual não existe sociedade democrática".

É claro que fanáticos oriundos de teocracias jamais admitirão Handyside. É insólito, para dizer o mínimo, o atrevimento dos cabeças-de-toalha. Se querem proibir as imagens do profeta dentro de suas culturas, estejam a gosto. Mas que não pretendam impor ao Ocidente seu obscurantismo. Ainda bem que a Wikipedia tem suas raízes nos Estados Unidos. Se as tivesse na Europa, provavelmente já teria se dobrado à arrogância dos bárbaros.

 
HÁ ALGO DE PODRE NA
IMPRENSA DA DINAMARCA



No noticiário online, leio:

Seis jovens foram detidos por atear fogo em carros e em latas de lixo e por jogar pedras nas forças da ordem, na quinta noite de conflitos em uma zona da capital dinamarquesa onde vivem muitos imigrantes, informou a polícia nesta quinta-feira.

Pelo menos 11 veículos foram queimados em vários bairros da capital dinamarquesa, e outros 10, na cidade de Kokkedal, ao norte de Copenhague.

A polícia deteve 17 jovens na madrugada de quinta, em Copenhague, onde dezenas de veículos acabaram incendiados com coquetéis Molotov.

"Não sabemos o porquê dos distúrbios. Suponho que estejam irritados. Alguns acham que tem a ver com as charges, mas eu não acho isso", disse à AFP o inspetor-chefe da polícia de Copenhague, Henrik Olesen.

Na quarta-feira, 17 jornais dinamarqueses publicaram uma charge de Maomé feita por um desenhista que era alvo de um atentado frustrado na véspera pela polícia.


Informação nenhuma sobre a nacionalidade ou origem étnica dos "jovens". É óbvio que se trata de árabes. Mas a imprensa européia já não ousa nominar os delinqüentes, quando estes são muçulmanos. Os jornalistas se acovardaram. Jovem virou sinônimo de árabe.

Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008
 
A NOVA E ÚLTIMA RELIGIÃO



Há uns bons dez anos, escrevi que quem viu muito bem o vazio de fé que assolaria o Ocidente foi o cineasta italiano Nanni Moretti, em Palombella Rossa. O filme é de 89, significativamente o ano em que caiu o Muro de Berlim. A história tem como personagem principal um deputado comunista que, do dia para a noite, perdeu a memória.

A cena final é emblemática: em uma auto-estrada, centenas de jovens correm para saudar o sol. Está inaugurada a nova religião, o culto da natureza. Não por acaso, o interlocutor privilegiado do Dalai-lama – palavra que modestamente significa Oceano de Sabedoria - no Brasil é Fernando Gabeira, ex-guerrilheiro marxista que trocou sua fé na História pela militância ecológica. Gyatso intuiu rapidamente esta virada ocidental e sempre insiste, do alto de seus parangolés, na defesa do meio ambiente.

Leio no El País de hoje: “O câmbio climático mobilizou cientistas que o estudam, engenheiros que buscam soluções tecnológicas e economistas que as medem. E começa também a tomar uma dimensão espiritual que o está convertendo, na opinião de alguns, na nova religião do século XXI. Uma nova espiritualidade ecológica. A linguagem messiânica e os instrumentos quase religiosos que se utilizam rompem os esquemas discursivos e calam em uma opinião pública mais cética ante causas do passado”.

Que o digam os ornitólogos que me bicam. Seu zelo é religioso. Ante a hipótese de extinção do macuquinho do banhado, brandem o apocalipse. Sem pretender analisar o tal de aquecimento global – já que não tenho instrumentos para tanto – desconfio do dito. Pois é pregado com a mesma ira sagrada de João de Patmos. Apostar no apocalipse é aposta confortável. Pois apocalipse não é pra já. É sempre mais adiante. Assim, enquanto não ocorre, seus profetas não são desmentidos.

Em fins do anos passado – conta o jornal – Al Gore desembarcou em Sevilha para falar de seu movimento contra o câmbio climático. Em seu afã de chegar aos interlocutores, Gore, que é profundamente religioso, usa frases como: “A Noé foi dito que salvasse as espécies vivas e isto hoje continua sendo nossa obrigação. Antes de pregar aos embaixadores ou discípulos que fazem parte de seu movimento, 1.700 em todo o planeta, lhes pede uma “conexão espiritual”.

Para o biólogo Miguel Delibes de Castro, “a estrutura que Gore organizou é quase religiosa, com discípulos que transmitem a boa nova, como Jesus Cristo”. Para Miguel Ferrer, biólogo, “as correntes ecologistas integristas têm muitas características comuns com escolas baseadas em crenças religiosas. Cada vez se ouve mais o discurso de que o homem é o ser malvado que provoca destruição e deve ser expulso dos últimos paraísos”.

Um dos 200 embaixadores de Al Gore na Espanha é Juan Negrillo. Interrogado sobre a conexão entre seu discurso e o sentir religioso, disse: “Todas as religiões têm suas raízes na fé, e nesse sentido se pode confundir a mensagem ecologista e a defesa do clima como uma mensagem religiosa, porque como não podemos tocar, cheirar, pesar ou ver o CO2, é quase uma questão de fé na comunidade científica”.

Quem não ouviu falar da hipótese Gaia, de Lovelock, que considerava a Terra como um ser vivo? Aqui no Brasil, tivemos um maluco que ganhou fama como ecologista, o José Lutzenberger, que acreditava profundamente nessa teoria mística.

“Mas o que vamos fazer primeiro: desvendar esta Maravilha, ou vamos continuar como um câncer no organismo de Gaia, devastando, fazendo extinções em massa, toxificando até que não haja volta?” – escreveu Lutzenberger – . E continuou:

“Quando daquela ameaça mortal que foi a crise da poluição do oxigênio, que quase extinguiu as formas de vida então existentes, Gaia, em vez de sucumbir, soube tirar proveito. Transformou um inimigo feroz em poderoso aliado, fator de mais vida, de vida mais complexa, mais perfeita, mais diversificada, mais harmônica - uma estonteante transcendência!”

Claro que não podia faltar a ameaça do apocalipse, com uma esperança de redenção para o ser humano: “Entretanto, a continuar a cacofonia atual, o desastre será total. Para nós! Talvez nem tanto para Gaia. Gaia tem muitos recursos, tem muito tempo. Com novas formas de vida encontrará saída. Sobram-lhe ainda uns cinco bilhões de anos até que o Sol, em sua penúltima fase evolutiva, ao tornar-se "gigante vermelho", venha expandir-se até aqui, antes de apagar-se lentamente. Gaia será recirculada nos gases incandescentes do Sol, assim como cada um de nós seremos recirculados no solo”.

A maluquice dos ecologistas chegou a tal ponto que houve quem visse na Internet – talvez o próprio Lutzenberger, agora não lembro – a consecução da existência de Gaia. A Web seria Gaia estabelecendo sua rede de neurônios.

Volto à reportagem do El País. Para o escritor José Antonio Marina, “a segunda metade do século XX contemplou o auge de múltiplos movimentos religiosos, espirituais e espiritistas, caracterizados por uma mistura de elementos diversos. Um deles prolongou o fervor ecológico dos últimos decênios. Nasceu possivelmente do movimento hippy, de sua volta à natureza, uniu-se com um certo panteísmo, que se voltava para a Terra como um ser vivo, com o qual se estabelecia uma relação mística. Admirou-se a relação com a natureza das antigas culturas, a Pacha Mama, o respeito das tribos americanas. Teorias como a Deep Ecology exaltaram o valor do mundo vegetal, a ponto de comparar o corte de um bosque com o assassinato de judeus em um campo de concentração”.

Decididamente, o ser humano não tem cura. Deus morto, Deus posto. Se um deus está em declínio, criam-se outros. Explorando sempre aqueles elementos constitutivos de toda religião, o medo da morte e a esperança de salvação. Para amedrontar os novos crentes, brande-se o apocalipse.

Nada de novo sob o sol.

Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008
 
DE COMO VOLTEI A SER FELIZ



Entre meus prazeres diletos estão as óperas. Nem todas, é claro. Wagner me afasta do gênero. Der Ring des Nibelungen me entedia. Fora isto, curto Verdi, Puccini, Rossini, Donizetti, Bizet. E Mozart, obviamente. Há pelo menos três óperas que revejo umas três ou quatro vezes por ano. Don Giovanni, Die Zauberflöte e Carmen. Tenho várias interpretações de cada uma, pois cada encenação é uma outra ópera. As melhores destas três, a meu ver, são:

- a de Don Giovanni, pela Wiener Philharmoniker, regida por Wilhelm Furtwängler, com Cesare Siepi no papel do personagem-título e Otto Edelman fazendo um magnífico Leporello.

- a de Die Zauberflöte, com coro e orquestra do Ludwigsburger Festspiele 1992, regida por Wolfgang Gönnenwein, com Deon Van deer Walt como Tamino e Ulrike Sonntag como Pamina. Papageno e Papagena são interpretados por Thomas Mohr e Patrícia Rozario.

- quanto a Carmen, não é uma ópera encenada, mas filmada, com exteriores de Sevilha e Ronda. O filme é de Francesco Rosi, Plácido Domingo faz Don José e a Carmencita é interpretada por Julia Migenes. Entre as várias Carmens que tenho – uma inclusive cantada em italiano, e o efeito é ótimo – a de Rosi é a mais divina. O momento em que a gitana tenta seduzir Don José é de uma sensualidade – como direi? – espeluznante. De arrepiar.

Cheguei muito tarde à ópera. Culpa das encenações medíocres da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. As intenções eram sublimes, mas o resultado, desastroso. Havia um maestro que mais parecia uma barata gorda de smoking, o húngaro Pablo Komlós. E uma soprano que era um breve contra óperas, Eni Camargo. Gordíssima, era um verdadeiro paradoxo ambulante ao interpretar uma tísica Violetta. Carmen, então, era um desastre. A cigana linda e sensual era uma pipa sem cintura. Quando caía sob as punhaladas de Don José, era um estrondo no palco. Eu achava o gênero ridículo e não entendia aquele público enorme das óperas encenadas na Reitoria.

Fui me entender com as óperas em Paris. Certa vez, vi na televisão, uma Carmen belíssima e extremamente sensual, e aí a história tomava sentido. Para interpretar se exige um physique du rôle, ou a ópera perde o sentido. Vou mais longe: as Carmens têm de ser latinas. Mais ainda: com cara de puta. Ou não é Carmen. Neste sentido, a Carmen feita pela Julia Migenes é a mais fascinante que já vi em minha vida.

Foi também em Paris que vi uma molecagem divina feita pela Tereza Berganza. Em Don Giovanni, quando Zerlina canta:

Giovinette che fate all'amore,
non lasciate che passi l'età;
se nel seno vi bulica il cor,
il rimedio vedetelo qua.
Ah! Che piacer, che piacer che sarà!


Il rimedio, no caso, é Masetto, seu noivo, que desce as escadas e Zerlina indica com as mãos. La Berganza resolveu inovar. Na hora do vedetelo qua, levou as mãos ao regaço. A platéia veio abaixo.

Há grandes momentos em todas as grandes óperas. Mas um outro que me fascina, por seu humor, é a famosa listina de Leporello, em Don Giovanni, quando o criado enumera, a uma apaixonada e perplexa Dona Elvira, as conquistas de seu amo:

Madamina, il catalogo è questo
Delle belle che che amo il padron mio
Un catalogo egli è che ho fatt' io;
Osservatte, leggete con me.
In Italia seicento e quaranta;
In Allemagna duecento e trentuna;
Cento in Francia; in Turchia novantuna;
Ma in Ispagna son gia mille e tre.
V'han fra queste contadine,
Cameriere, cittadine,
V'han contesse, baronesse,
Marchesane, principesse
E v'han donne d'ogni grado,
D'ogni forma, d'ogni eta.
Nella bionda egli ha l'usanza
Di lodar la gentilezza
Nella bruna la constanza
Nella bianca la dolcezza.
Vuol d'inverno la grassotta
Vuol d'estare la magrotta;
E la grande maestosa,
La piccina è cognor vezzosa
Delle vecchie fa conquista
Pel piacer di porle in lista
Sua passion predominante
E la giovin principiante.
Non si picca se sia ricca,
Se sia brutta se sia bella
Purchè porte la gonnella,
Voi sapete quel che fa.


Saindo de minhas três diletas, uma outra ária que me comove é o diálogo de Alfredo com Violetta, em La Traviata. E me comove porque me traz à mente a mulher linda e cheia de vida que um dia tive.

ALFREDO
Libiam ne' lieti calici
Che la bellezza infiora,
E la fuggevol ora
S'inebri a volutta'.
Libiam ne' dolci fremiti
Che suscita l'amore,
Poiche' quell'occhio al core
Onnipotente va.
Libiamo, amor fra i calici
Piu' caldi baci avra'.

TUTTI
Libiamo, amor fra i calici
Piu' caldi baci avra'.

VIOLETTA

Tra voi sapro' dividere
Il tempo mio giocondo;
Tutto e' follia nel mondo
Cio' che non e' piacer.
Godiam, fugace e rapido
E' il gaudio dell'amore;
E' un fior che nasce e muore,
Ne' piu' si puo' goder.
Godiam c'invita un fervido
Accento lusinghier.

TUTTI
Godiam la tazza e il cantico
La notte abbella e il riso;
In questo paradiso
Ne scopra il nuovo di'.


Em suma, foi em Paris que descobri o mundo da ópera. Dito isto, vivi ultimamente uns seis meses de infelicidade. Ocorre que encontrei aqui em São Paulo um restaurante dos mais charmosos, senti que ali havia espaço para música mais sofisticada, e levei a suas proprietárias dois DVDs, para que tirassem uma cópia. Um, o Don Giovanni da Wiener Philharmoniker. Outro, Carmen, do Francesco Rosi. Confesso que levei os DVDs com certa apreensão. Eram obras muito valiosas para mim e tinha medo de perdê-las.

Não deu outra. A Carmen – a mais fascinante das Carmens – foi extraviada. As moças se propuseram a encontrar uma outra. Inviável. O DVD está esgotado. Procurei tanto na Amazon como na Fnac de Paris. Nada feito. Indisponible. Vivi então estes últimos meses como se estivesse mutilado. Não seria feliz enquanto não tivesse minha Carmen de volta.

Dichosos dias estes de Internet – como diria Alonso Quijana. Em um grupo de discussões, Antonio Bemfica, um internético amigo do Canadá ouviu minhas lamúrias. Descobriu a ópera em uma biblioteca e fez uma cópia. Eu a recebi hoje e voltei a ser feliz.

 
IGREJA CATÓLICA É CONIVENTE
COM O APOIO DE BISPO BASCO
BANDOLEIRO ÀS INVASÕES DE TERRA




Não bastasse o Ministério da Previdência garantir aposentadoria aos invasores de terra que estejam trabalhando em áreas ocupadas – inclusive públicas –, temos agora um príncipe da Igreja assumindo a liderança dos bandoleiros. Segundo os jornais, o bispo de Presidente Prudente, o basco dom José Maria Libório Saracho, representante da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em São Paulo, disse ontem que vai incentivar sem-terra a continuarem invadindo fazendas no Pontal do Paranapanema. Sua declaração coincide com o chamado “carnaval vermelho” do líder do Movimento dos Sem-Terra (MST) José Rainha Júnior, período em que foram invadidas 18 fazendas na região.

A declaração do bispo só surpreende quem não conhece a História recente do País. A Igreja Católica sempre deu cobertura aos celerados que queriam transformar o Brasil numa republiqueta socialista. Boa parte da guerrilha brasileira teve abrigo em paróquias e seminários. E não só a guerrilha brasileira. No Rio de Janeiro, o cardeal Eugenio Sales alugou 80 apartamentos para abrigar aparatchiks de toda a América Latina, que chegaram a acolher grupos de 150, simultaneamente. O total de militantes hospedados, entre 76 e 82, chegou a cinco mil pessoas.

Segundo o bispo basco, “o único jeito de chamar a atenção do governo para a reforma agrária é invadir e criar uma situação de insegurança. Animo o pessoal para que continue invadindo. As multinacionais não vão querer vir para cá se a situação for de insegurança. A cana-de-açúcar vai ser um fracasso e o governo vai ter de fazer alguma coisa pelo povo”.

Chegamos a um ponto tal de desorganização social que nem se pode qualificar o apelo de dom José Maria como incitação ao crime. Pois há muito não se considera crime a invasão de terras. Em todo caso, cabe notar o nível de atrevimento dos prelados brasileiros. No final do ano passado, um outro bispo, dom Luiz Flávio Cappio, fez greve de fome contra o projeto de transposição das águas do São Francisco. Opôs-se como uma mula a um projeto do governo, só porque este projeto não lhe agradava. E fez chantagem, ameaçando acabar com a própria vida. Lástima que não foi até o fim.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) reagiu às declarações do bispo basco bandoleiro com a hipocrisia usual da Igreja. “Em mais de uma ocasião a Igreja deixou claro que incentivar invasões não faz parte de seu programa nem como último recurso”, disse ontem o bispo dom Airton José dos Santos, secretário-geral da regional Sul 1 da CNBB, que abrange todas as dioceses do Estado de São Paulo.
Dom Airton foi mais longe. Disse que dom José Maria “faz parte de uma pastoral da Igreja que acompanha os problemas agrários do País e conhece bem a realidade dos sem-terra. Pode ser que não esteja vendo outro jeito de agir. Mas, repito, ele não fala em nome da Igreja”.

E mais não disse. Ora, dom José Maria pode não representar a Igreja nem a CNBB. Mas sua opinião é a opinião de um alto dignitário da Igreja. Os padres pedófilos – aliás acobertados por Sua Santidade Bento XVI – também não representam a Igreja, mas causam um estrago considerável à instituição. Um bispo é um homem que exerce liderança junto às comunidades e junto aos sacerdotes. Ao se pronunciar pela transgressão às leis do País, mereceria no mínimo uma solene advertência. Neste sentido, não se ouviu sequer um pio da pia CNBB.

Este silêncio só pode ser entendido como conivência. É a ancestral política de morde-e-assopra da Santa Madre. Não autoriza, mas tampouco pune. Enquanto isto, o bispo basco bandoleiro continua lutando para garantir a aposentadoria da bandidagem.

Terça-feira, Fevereiro 12, 2008
 
IN MEMORIAM DE AOLÁ E AOLIBÁ



Prostituição é sempre tema delicado. Mesmo as culturas que não a admitem encontram uma forma de assimilá-la. A prostituição é proibida no Irã, por exemplo. Mas existe o sigheh, o casamento por uma hora. Ou mais horas, ou dias ou mesmo semanas, conforme as conveniências do macho muçulmano. Se você pronunciar uma fórmula ritual, pode usufruir dos encantos da bela e depois mandá-la embora, sem que com isso tenha exercido a prostituição.

Já está no Gênesis. Quando houve fome em Canaã, Abraão e todo o seu acampamento foram para o Egito. Dada a beleza de Sara, sua mulher, faraó por ela apaixonou-se. O patriarca, muito pragmático, considerou: “Ora, bem sei que és mulher formosa à vista. E será que, quando os egípcios te virem, dirão: esta é sua mulher? E matar-me-ão a mim, e a ti te guardarão em vida. Dize, peço-te, que és minha irmã, para que me vá bem por tua causa, e que viva a minha alma por amor de ti".

Faraó leva a “irmã” para seu palácio e passa a favorecer Abraão. Salvo engano, a prostituição deve ter nascido nestes dias. Mais adiante, lemos em Ezequiel que as irmãs Aolá e Aolibá, que simbolizavam respectivamente os reinos do norte e do sul, ambas eram prostitutas. Aolá inflamou-se por seus amantes – diz-nos William Graham Cole, em Sex and Love in the Bible – pelos assírios, seus vizinhos, que se vestiam de azul, governadores e sátrapas, todos jovens de cobiçar, cavaleiros montados a cavalo. Assim cometeu ela as suas devassidões com eles, que eram todos a fina flor da Assíria e com todos aqueles pelos quais se inflamava; com todos seus ídolos se contaminou. As suas impudicícias, que trouxe do Egito, não as deixou; porque com ela se deitaram na sua mocidade, e eles apalparam os seios da sua virgindade, e derramaram sobre ela a sua impudicícia.

Com Aolibá foi pior – conta-nos o autor. Não lhe aproveitou o exemplo do castigo da irmã. Não apenas se inflamou pelos de cobiçar da Assíria, mas também se enamorou dos babilônios, cujos retratos viu pintados nas paredes. “Mandou-lhes mensageiros à Caldéia. Então vieram ter com ela os filhos da Babilônia para o leito dos amores e a contaminaram com suas impudicícias”. Em seus dias de mocidade, ela também se prostituíra na terra do Egito e “inflamou-se pelos seus amantes, cujos membros eram como o de um jumento e cujo fluxo é como o fluxo de cavalos. Assim trouxeste à memória a luxúria da tua mocidade, quando os do Egito apalpavam teus seios, os peitos de tua mocidade”.

Isso sem falar nas prostitutas cultuais (kedeshoth), mulheres sagradas com as quais os sacerdotes mantinham relações como parte de um rito da fertilidade. Em Miquéias, lemos que todas as imagens e ídolos foram pagos pelo “preço da prostituição”, o que indica que algo era cobrado aos homens que procuravam essas mulheres.

Judá possuiu Tamar, imaginando que ela fosse uma prostituta. Raabe, a prostituta de Jericó, foi respeitada e louvada. Jefté, o juiz de Israel, era filho de uma prostituta. Isso sem falar em Rute e Betsabé. E por aí vai. Longa é a crônica das profissionais, no livro antigo e no novo. Um tema historicamente delicado, pois.

A prostituta é o nó górdio da cultura ocidental. O assunto, de modo geral, é tratado com hipocrisia. Em meus dias de Suécia – anos 70 – a prostituta parecia ter adquirido uma certa dignidade como ator social. Elas eram vistas quase como assistentes sociais. Hoje, se você procurar uma profissional na Suécia, você vai em cana. Ela, não. Mas de que vai vier uma prostituta senão da paga de seus clientes?

Leio que o governo britânico estuda a possibilidade de bloquear os números telefônicos das prostitutas que anunciam nos jornais, em uma tentativa de acabar com este negócio. O plano faz parte de um estudo interministerial que também contempla medida semelhante à que atualmente é adotada na Suécia: considerar crime o pagamento por serviços sexuais.

A idéia é de jericos britânicos. Como saber que um pagamento é feito por serviços sexuais? A profissional dá recibo? Pode até aceitar cheque ou cartão de crédito, mas como determinar juridicamente a natureza da mercadoria vendida? Se recebe benefícios, como vestidos, jóias, viagens, apartamento montado, como determinar se estas mordomias constituem pagamento a serviços sexuais? Os britânicos parecem estar tomando medidas semelhantes à do velho bolchevique Tarso Genro, que pretende proibir a venda de cerveja nas rodovias. Ou medidas semelhantes às propostas pela Igreja Católica, que pretende proibir o aborto em um país onde o aborto é prática costumeira, inclusive por boa parte dos católicos.

Segundo Vera Baird, fiscal geral – o que quer que isto queira dizer – é fundamental acabar com os serviços das call girls, como são chamadas as meninas localizadas por telefone. Que vai acontecer? As prostitutas serão empurradas à clandestinidade, ou a oferecer seus serviços na rua. Ora, “é dez vezes mais perigoso trabalhar na rua que em um apartamento”, diz Cari Mitchell, do Coletivo Inglês de Prostitutas. Ou seja, o Estado admite um sindicato de prostitutas, mas quer proibir que as mesmas anunciem em jornais. Na Suécia, passou a viger a mesma hipocrisia. As companhias telefônicas cortam as linhas dos bordéis e prostitutas quando estas são descobertas.

Ora, prostituição é atividade nem sempre fácil de ser caracterizada. Se é viável capitular como crime sua exploração, é muito difícil considerar crime seu exercício. Por que não pode uma mulher vender suas carícias? Qual a diferença entre uma massagista e uma profissional do sexo? Ambas vendem prazeres sensuais. Uma lhe proporciona carinhos de superfície, a outra carinhos mais profundos. Se estou fazendo uma massagem e a moça quer ir mais adiante, que tem o Estado a ver com isso?

Você imaginou se a moda pega, cá abaixo do Equador? Jornais impolutos como a Folha de São Paulo e o Estadão vão perder uma receita preciosa em seus classificados.

 
LEITOR ME CORRIGE



"O que os antropólogos querem preservar é uma crosta de rituais e
crendices..."

Errado, Janer.
O que eles querem mesmo é manter a reserva de mercado do coitadismo e do
pobrismo para manter as ongs deles e dos seus asseclas mantidas com a
verba do governo (isto é, o meu, o seu dinheiro).

Os tais rituais e crendices estudados por esses inúteis servem apenas
para enganar trouxas e para justificar "cientificamente" o gasto do meu
dinheiro junto às agências do governo estadual e federal.

Abraço,

Takechi Sato

Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008
 
PADRE NÃO BRIGA COM PADRE


De Darke Mayer Goulart, recebo:

Janer,

a respeito do seu post "A Eurábia é amanhã", o jogo do arcebispo anglicano é evidente: aplicando a sharia para os muçulmanos, os padres vão ter o direito de exigir que os cristãos sigam o código canônico da Igreja. Como o aborto é legalizado no Reino Unido (não lembro se a eutanásia o é também), imediatamente seria considerado crime entre os cristãos. E logo o conceito de "cristão" seria ampliado para "todo habitante não muçulmano, não judeu do Reino Unido", e os católicos e anglicanos estariam felizes. Exceto que os muçulmanos talvez começassem a exigir que os cristãos se curvassem à sharia também. E aí simplesmente eles fariam uma nova Cruzada e resolveriam as coisas.

Você define muito bem, "padre não briga com padre". No fundo, todos eles são iguaizinhos, mudando só o altar e a roupa. E eles nem mesmo podem abrir o mar em dois, ressuscitar alguns mortos, subir aos céus, andar sobre a água ou fazer o sol parar no céu para nos convencer de que eles são, realmente, enviados de Deus na Terra e que seguir aquela patuscada toda vale a pena. Convenientemente, Aquele que teria feito isso tudo parece que morreu há quase 2 mil anos, numa época que - mais convenientemente ainda - não havia nenhuma forma de registrar tão mágicos acontecimentos para a posteridade, exceto o relato de meia dúzia de escritores que conseguiram contar meia dúzia de histórias diferentes sobre a mesma coisa. Deus é realmente um sacana muito esperto para evitar mandar o seu filho passear na Terra depois do advento da imprensa, do gramofone e da fotografia (para não dizer da internet e dos celulares com câmeras).


Tens razão, Darke. Não existe sacerdote que não tenha saudades de uma boa teocracia. Não por acaso, paróquias católicas têm financiado a construção de mesquitas na Europa.

 
RAÇA INFAME DE ANTROPÓLOGOS



Se tem algo em minha vida de que não posso falar, é de minha primeira namorada. Pois comecei minha vida afetiva com duas. Uma, foi a que me acompanhou durante quatro décadas e que a vida houve por bem roubar-me há cinco anos. Mas o que importa agora é a outra.

Era um bugra linda guarani, com uma voz um pouco grave que ainda sonho ouvir alguma vez de novo antes do final de meus dias. Índia do Mato Grosso, nada tinha a ver com essas selvagens que andam de tanga nas florestas. Seu pai era guarda aduaneiro e assim ela foi cair em Dom Pedrito. Trabalhava como locutora na Rádio Upacaraí, o que lhe dava uma certa onipresença na cidade. Minha paixão por ela surgiu aos poucos, subrepticiamente. Fui estudar em Santa Maria, depois em Porto Alegre. Até que um dia fui tomado por uma necessidade imperiosa de revê-la e decidi: vou até Dom Pedrito. Vou lá buscar o que é meu.

Nesse meio tempo, eu já havia achado a Baixinha. Mas... que fazer? Era algo mais forte que minha vontade. Resumindo: vivemos dias de muito carinho, durante uns bons dois ou três anos. Ela vivia enrolada em problemas familiares, o que nos fez decidir por dar um fim àquela relação. Em nossa última noite, choramos até o amanhecer. Saí a viajar, troquei de cidades e ela também. De nossa história, resultou minha expulsão da cidade. Com a promessa de ser castrado com brasas, se voltasse. Mais tarde, soube vagamente que casou, terá tido filhos e creio que mantém uma pousada em Santa Catarina. E mais não sei.

Índia, integrou-se perfeitamente à vida urbana. Para isso, teve um dia de sair de sua aldeia, abandonar sua tribo, desfazer-se de seu passado. Tivesse ficado no meio do mato, seria provavelmente uma mulher analfabeta, viveria sendo espancada por um bruto, talvez tivesse tido filhos que ou logo morreriam ou viveriam doentes e mal-nutridos, sem acesso à educação e aos confortos do mundo contemporâneo. Em suma, não teria vivido como gente.

Corto para outra boa amiga de meus dias de Santa Maria. Foi em função dela que fiz meu curso de Direito. Eu vivia em Porto Alegre, ela em Santa Maria. Cursar Direito lá era para mim um pretexto para visitá-la pelo menos seis vezes ao ano. Daí minha rápida passagem pelas ditas Letras Jurídicas. Bom, viajamos, cada um para seu lado. Musicista, ela casou com um alemão e foi viver em Berlim. Hoje vive em Florianópolis. Sem filhos, adotou duas adoráveis bugrinhas caingangues. As indiazinhas vivem hoje em uma casa de sonho, em um ambiente de muito carinho, de muita música e cultura e têm pela frente um mar de rosas. Não é difícil imaginar o que seria delas se não saíssem da tribo.

Por estas razões – e também por outras – é que leio com pasmo a denúncia da Fundação Nacional do Índio (Funai) de que crianças e adolescentes indígenas em Dourados (MS) têm sido retirados das famílias e colocados para adoção sem nenhum critério que respeite suas diferenças culturais. “Índio fora da tribo sofre muito mais, principalmente preconceitos. Tem comportamento diferente dos não-índios, portanto precisa viver com suas raízes, sua gente”, diz a administradora da fundação na cidade, Margarida Nicolletti.

Segundo esta senhora, a procuradoria da Funai já entrou com ação, com base no Estatuto do Índio, para cancelar processos de adoções por famílias não-índias que estejam em andamento ou já concluídos. Quando vítimas de maus tratos de pais ou familiares, as crianças são recolhidas pelo Conselho Tutelar de Dourados e levadas aos quatro abrigos de menores da cidade. Depois de 60 dias, tornam-se responsabilidade da Vara da Infância e Adolescência, que as põe na lista de adoção.

Segundo o juiz Zaloar Murat Martins, “menores de idade são menores, não importa a raça. Qualquer um que esteja sofrendo maus tratos tem que ser assistido. A destituição do vínculo familiar e a seguida adoção são medidas perfeitamente legais. Procuro todos os meios possíveis de evitar esse caminho, mas existem situações que não deixam alternativas.”

O mesmo já não pensa o antropólogo Rubem Thomaz de Almeida. “É um horror” – disse. “Os juízes estão agindo movidos por preconceitos, a partir de estigmas, sem conhecimento da realidade indígena.” Para Almeida, é um erro aplicar o Estatuto da Criança e do Adolescente nas comunidades guaranis, sem respeitar seus traços culturais: “No fundo, o que prevalece nas decisões é o estigma de que todos os índios são coitadinhos e alcoólatras e por isso sua cultura deve ser eliminada".

O que só confirma minha tese de que os antropólogos querem preservar os indígenas em jaulas atemporais, numa espécie de zoológico para contemplação dos homens do futuro. Se você quiser adotar um menino africano, vietnamita ou cambojano, não há problema algum. Mas ai de você se quiser adotar um indiozinho de seu país, que está condenado a uma vida econômica e culturalmente miserável se permanecer em sua aldeia. Você é visto como uma espécie de criminoso, de exterminador de culturas.

Ora, ninguém está pretendendo exterminar culturas indígenas. Culturas que, com o avanço da civilização mato adentro, com a expansão dos meios de comunicação e das escolas, inexoravelmente serão extintas. Como um dia foi extinta a cultura de caldeus e assírios, de guanches e godos, de mujiques e etruscos. Os indígenas brasileiros sequer chegaram a construir um alfabeto. Culturas ágrafas estão condenadas ao desaparecimento. Sem escrita a memória é curta, não há História. Quando um índio aprende a ler e escrever, sua cultura já está morrendo. Quando um indiozinho vai à escola, já está deixando de ser índio. O que os antropólogos querem preservar é uma crosta de rituais e crendices, que só serve para manter os índios presos a um passado paupérrimo e desconfortável.

Ninguém quer matar culturas. Que, aliás, estão condenadas a morrer. O que se quer é salvar uma criança da miséria. Digamos que uma família índia, que tomou consciência de que na aldeia não há futuro, queira entregar seus filhos a casais brancos. Quer entregá-los para dar-lhes educação, melhores condições de vida, enfim, um futuro decente. Não pode. A Funai não deixa. Para a Funai, é melhor que a criança morra por desnutrição ou doenças da pobreza. Que viva chafurdando em meio à incultura e à barbárie. Porque segundo o novo dogma antropológico, índio fora da tribo sofre muito.

Não foi o caso de minha bugra adorada, que se sofreu foi de amores, e este sofrimento tem um arrière-goût dos mais agradáveis. Não é o caso das adoráveis bugrinhas caingangues, que têm um futuro admirável pela frente.

Esta raça infame de antropólogos deveria ser condenada a viver no paleolítico, por crime de lesa-humanidade. Deveriam ser confinados numa aldeia, sem ter acesso nem a água corrente nem a sanitários, nem a geladeiras ou papel higiênico, muito menos a vinho ou champanhe, enfim, desprovidos de todos esses luxos capitalistas da civilização branca.

É muito confortável defender a vida na tribo quando se vive na metrópole. Difícil é viver na aldeia. Este é o quinhão dos bugres.

Domingo, Fevereiro 10, 2008
 
EURÁBIA É AMANHÃ



Em crônica passada, comentei o livro Os últimos dias da Europa – Epitáfio para um velho continente, do historiador alemão Walter Laqueur. Entre outras informações que inquietam todo homem que cultiva os valores europeus, o autor nos falava da Milli Goerus, organização turca incrustada na Alemanha, que tem como projeto um país que viva segundo as estritas leis do Islã, mesmo que para isso seja preciso fazer certas concessões até que os muçulmanos constituam maioria. O grupo tem em torno de 220 mil militantes e dirige cerca de 270 mesquitas na Alemanha. “Ela visa substituir a ordem secular no país em que vivem por uma outra baseada na sharia – a lei islâmica –, primeiramente naquelas regiões em que os muçulmanos são maioria, ou uma minoria representativa, e posteriormente à medida que seu espaço se expanda”.

No livro, Laqueur aventava a possibilidade de regiões binacionais autônomas na França. Os muçulmanos poderiam fazer concessões com relação à sharia, e as autoridades francesas poderiam desistir do velho modelo republicano, com uma clara divisão entre Igreja e Estado.

Aconteceu agora no Reino Unido. Quinta-feira passada, o líder espiritual da Igreja anglicana gerou polêmica ao considerar como "inevitável" a adoção de certos aspectos da sharia, a lei islâmica, pela sociedade britânica. Em uma entrevista veiculada na BBC, o arcebispo de Cantuária, Roman Williams, disse: "O princípio de que existe apenas uma lei para todos é um pilar da nossa identidade como democracia ocidental. Mas acho que é um equívoco supor que as pessoas não tenham outras crenças que conformam e ditam como elas se comportam na sociedade. A lei precisa levar isto em conta”.

Como já afirmei, padre não briga com padre. O arcebispo cristão está fazendo o jogo dos aiatolás e mulás. "Uma abordagem da lei que simplesmente diga que só existe uma lei para todos é um tanto perigosa". Para o arcebispo, o Reino Unido precisa reconhecer que nem todos os seus cidadãos se identificam com o sistema legal britânico. "Existe espaço para encontrar o que seria uma acomodação construtiva com alguns aspectos da lei islâmica, como já existe com alguns aspectos das leis religiosas", declarou o líder anglicano.

Pelo jeito, o Brasil está fazendo escola. Aqui já temos leis específicas para brancos, para índios, para negros e para bandoleiros. Índio, por exemplo, pode matar e estuprar à vontade, pode eliminar crianças indesejáveis, pode fazer reféns e interditar estradas e nada disso constitui crime. Notas de negros em vestibular valem por dois. Os sem-terra, além de terem direito assegurado a invadir propriedades e repartições públicas, contam agora para aposentadoria o tempo em que praticam crimes.

O que está por trás das declarações do arcebispo? Está que muçulmanos têm direito a mutilar suas filhas, mesmo num continente em que mutilação física é crime. Está que muçulmanos têm direito a quatro mulheres, e até aí nada demais. O demais acontece quando a Previdência tem de assegurar os direitos a subsídios pelas quatros mulheres.

Ibrahim Mogra, porta-voz do Conselho Muçulmano do Reino Unido, foi mais longe: "Estamos falando da aplicação de apenas um pequeno aspecto da sharia para famílias muçulmanas, em assuntos como casamento, divórcio, herança, custódia das crianças e daí em diante". Pelo jeito, os árabes estão querendo introduzir no Reino Unido a lei dos três talaks. Basta o marido repetir três vezes o “eu te repudio”, e a mulher está no olho da rua.

Em sua entrevista à BBC, o arcebispo da Cantuária lamentou que cidadãos muçulmanos tenham de escolher entre "a fidelidade cultural e a fidelidade ao Estado", e sugeriu que disputas conjugais e financeiras em comunidades étnicas possam ser resolvidas através de uma corte islâmica. O que o arcebispo quer é duas legislações dentro um mesmo Estado. De certa forma, não está sendo original. Nos dias em que vivi na França, época do governo Giscard d’Estaing, os muçulmanos podiam levar para o país suas quatro mulheres e seus dez ou quinze vinte filhos. Ou seja, a poligamia estava legalizada. Na hora do desemprego, o Estado assumia o sustento de toda a tribo. Acho que dá pra imaginar a revolta de um francês, que mal pode sustentar mulher, amante e cachorro, vendo seus tributos financiando a poligamia dos cabeças-de-toalha.

A poligamia estava legalizada para os muçulmanos. Francês, se tivesse duas mulheres oficiais, respondia a processo e arriscava prisão.

Para o diretor da Fundação Ramadã, Mohammed Shafiq, “os muçulmanos se sentiriam bastante confortáveis se o governo permitisse que seus assuntos civis fossem resolvidos segundo sua fé". Em um continente onde há séculos a Igreja se separou do Estado, Shafiq está propondo nada menos que a volta das teocracias. Regime que hoje, na Europa, só existe naquele arremedo de Estado chamado Vaticano, presenteado pelo fascista Mussolini à Igreja Católica, e dominado por gerontes misóginos.

Baronesa Warsi, responsável da oposição por acompanhar assuntos comunitários, que parece desconhecer o direito já consuetudinário brasileiro, criticou o arcebispo: "O dr. Williams parece sugerir que deveria haver dois sistemas legais funcionando lado a lado, quase em paralelo, e que as pessoas tenham a possibilidade de optar por um ou por outro. Isso é inaceitável".

É espantoso que, na Europa contemporânea, um arcebispo profira tais sandices. O velho continente está se entregando, de pés e mãos atadas, à barbárie muçulmana. A Eurábia já não mais é um elemento de ficção. A Eurábia é amanhã. Sorte que então não mais estarei entre os vivos.

Sábado, Fevereiro 09, 2008
 
ÚLTIMO ESCÂNDALO DESMASCARA RECÓRTER
CHAPA-BRANCA TUCANOPAPISTA HIDRÓFOBO




Neste país nosso, costumo afirmar, pode-se morrer de tudo, menos de tédio. Mal um escândalo deixa as páginas dos jornais – não porque tenha chegado a um desfecho jurídico, mas por exaustão – um outro toma conta das primeiras páginas. Ninguém ainda foi punido pela roubalheira do mensalão e já temos a affaire dos cartões de crédito corporativos. Puxa-se um pequeno fio e vem um novelão junto. A ministra Matilde Ribeiro usou seu cartão escancaradamente em benefício pessoal? Não era só a ministra. Eram todos os ministros do governo.

Todos os ministros do governo? Bom, não eram apenas todos os ministros do governo. Eram também deputados e senadores. Apenas os ministros, deputados e senadores do governo? Nada disso. Havia também mais de 11.510 servidores de segundo escalão que gozavam das mesmas maracutaias. Ora, direis, então eram apenas os ministros, deputados e senadores do governo e mais 11.510 servidores de segundo escalão? Nada disso. Também os parlamentares de oposição. Mas a lista está longe de terminar. Há também os funcionários dos governos estaduais de oposição, reitores e professores de universidades públicas.

No fundo, uma Nomenklatura que, independentemente de cores partidárias, participava do botim pilhado aos contribuintes. Toda uma casta de marajás com um segundo salário, em geral mais gordo que o primeiro. Sem falar nos que têm um terceiro salário. São os ministros e altas autoridades que participam dos conselhos de estatais. Neste escândalo novinho em folha, a imprensa está esquecendo deste detalhe, a obscena participação de ministros em conselhos de estatais.

Divertida está sendo a reação do ministro da Justiça, Tarso Genro, às denúncias da imprensa. Segundo o velho bolchevique de São Borja, as revelações sobre o uso abusivo de cartões de crédito estatais são devidas a uma operação da imprensa mal-intencionada, para dar assunto a uma oposição silenciada pelos êxitos do lulismo. Trata-se de um “escândalo artificial” – disse o ministro – que só veio à tona devido a uma iniciativa moralizadora do presidente Lula - a criação do Portal da Transparência, de livre acesso no site da Controladoria-Geral da União (CGU). Não fosse este portal, a mídia não teria a seu alcance as informações detalhadas dos pagamentos e saques feitos com os 11 mil cartões emitidos pelo governo.

Quer dizer: se o escândalo veio à tona graças a um portal que o governo criou, então o governo está absolvido. Não precisa sequer ser investigado. Mas o governo não está muito convicto desta convicção de seu ministro da Justiça. Tanto que vai retirar do portal os gastos de Lula – o capo dei tutti capi – e de seus familiares. Ou seja, os asseclas continuam expostos à execração pública. O chefe da quadrilha, sob pretextos de segurança nacional, não tem mais revelados sequer seus gastos com picanha argentina. Em país decente, teríamos um impeachment. Ocorre que estamos no Brasil.

No meio da semana, Dilma Roussef, da Casa Civil, Franklin Martins, ministro de Comunicações, e o general Jorge Félix, do Gabinete de Segurança Institucional deram uma entrevista coletiva, numa tentativa de blindar o capo dei tutti capi. Em nome da segurança nacional, os dados relativos à Presidência da República serão omitidos. Para o general Félix, a divulgação de determinadas informações pode comprometer a segurança do presidente e de seus familiares.

- Do ponto de vista do GSI, quanto menor a transparência, maior o grau de segurança. Em relação às informações de gastos, tem de ter limite - disse o general -. Estamos reavaliando as informações, e aquelas que trouxerem algum tipo de prejuízo (à segurança) não mais estarão no Portal da Transparência.

O general considera, no entanto, que a restrição não significa falta de transparência do governo. Ou seja, a tropa de choque do planalto sentiu que o rei corria risco de xeque-mate e apressou-se a retirar do portal o que Tarso Genro, o ministro da Justiça, chama de iniciativa moralizadora. Tipo de prejuízo à segurança, na boca do general, é eufemismo para risco ao governo do meliante que garante o bem-estar da quadrilha toda.

Até aí, as ditas oposições - que de oposição só têm o nome, afinal não passam de canalhas do mesmo estofo – estavam vibrando. O PT caíra em sua própria armadilha. Ocorre que, dia seguinte, o governo tucano de São Paulo foi flagrado com gastos de 108,4 milhões de reais nas despesas com cartões, só no ano passado.

Em meio a isto, estou me divertindo muito com as desesperadas tentativas de Reinaldo Azevedo, de justificar as roubalheiras do governo Serra. O governo tucano não teria cartões de crédito. E sim cartões de débito.

“Um cartão de débito supõe, necessariamente, a existência de um dinheiro previamente depositado; o de crédito, não: é uma despesa que se faz, a ser paga com um dinheiro futuro” – escreve em seu blog louvaminheiro o recórter chapa-branca tucanopapista hidrófobo. Em suas louvaminhices, pretende que haja alguma diferença entre o dinheiro roubado ao contribuinte, conforme seja dinheiro previamente depositado ou dinheiro futuro. Ora, para quem rouba, tanto faz. Patética, a argumentação do recórter. Dinheiro presente ou futuro sempre é dinheiro.

Adoro estes escândalos. No final, a súcia toda permanece impune. Mas pelo menos caem as máscaras de jornalistas que pretendem denunciar corrupção, como pretende o recórter chapa-branca tucanopapista hidrófobo.

Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008
 
QUESTÕES TEOLÓGICAS



Contradizendo seu antecessor, o papa João Paulo II, que afirmou em 1999 que o inferno não é um lugar, mas “a situação de quem se afasta de Deus”, Sua Santidade Bento XVI afirmou hoje que “o inferno, do qual pouco se fala nestes tempos, existe e é eterno”. É o que nos informa o jornal italiano La Repubblica.

Cisão no Vaticano? Talvez sim, talvez não. Mas se João Paulo não via o inferno como um lugar, tinha robusta crença no demônio. O papa polaco alertou durante anos seu rebanho para a realidade da existência deste personagem fascinante, que contracena com Jeová na história da criação. Lúcifer, para começar, é o mais brilhante dos anjos e o mais amado por Deus. Literalmente, é o "portador da luz". Segundo certas seitas gnósticas, ditas luciferistas, Lúcifer seria o verdadeiro Deus da Luz, que pretende revelar aos homens a incompetência do Deus do Antigo Testamento. Isaías, porta-voz insuspeito, pergunta: "Como caíste do céu, ó estrela d'alva, filho da aurora? Como foste atirado à terra, vencedor das nações?" O gesto satânico - o "non serviam" - é a bandeira de todos os rebeldes. No evangelho de João, Satanás é o príncipe deste mundo. No Apocalipse, segundo boas fontes, no caso uma voz forte provinda do céu, é uma espécie de ombudsman, "acusador de nossos irmãos".

Mesmo depois da expulsão do céu, permaneceram cordiais as relações entre o Senhor e o Insurgente. No Livro de Jó, Satanás participa de um coletivo de anjos que marcou audiência com o Senhor. "De onde vens?", quer saber Jeová. "Venho de dar uma volta pela terra, andando a esmo", responde o príncipe deste mundo. Jeová dá carta branca a Satanás: que faça o que quiser com o santo homem Jó, desde que lhe poupe a vida.

O demônio, mais que real, é necessário, ou o Senhor não teria como testar a devoção de seu rebanho. Satanás é personagem fundamental na História da Criação, ao mesmo título que Jeová. Tentou Adão, Jó e Jesus. Cristo com ele conviveu quarenta dias e nada nos indica que tenha se entediado. Em Il Diavolo, Giovanni Papini faz três observações interessantes sobre este convívio: "Jesus não quis rechaçar o Diabo; Jesus tolerou e suportou as repetidas tentações do Inimigo; em sua solidão, Jesus aceitou uma única e só companhia, a do Diabo". Suportar durante quarenta dias a mesma companhia no deserto exige um escroto ecumênico. Deve ter sido interlocutor no mínimo interessante ou Jesus - que tinha poderes para tanto – o teria mandado de volta aos infernos.

Segundo o cardeal Jorge Arturo Medina Estevez, chefe da Congregação para o Rebanho Divino e Disciplina Sacramental, “o Diabo entende latim". O que nos revela uma qualidade insuspeita do Príncipe: tem mais erudição que muito acadêmico de nossos dias.

Satanás sempre gozou de um charme do qual jamais pode gabar-se Jeová. Se Deus manda, o Diabo sugere. Enquanto o Supremo se comporta como um autocrata arrogante, que impõe e dispõe do traçado de seu plano de obras, o Insurgente é o public-relations sedutor, que insinua modificações no rígido projeto divino: "quem sabe não poderia ser assim?" Desta forma, sempre foi caitituado por artistas e literatos. Em Valéry, o demônio só tinha uma queixa, a dificuldade em seduzir os curtos de espírito. Diz o Diabo: "Aquele homem não tinha inteligência suficiente para que eu desse conta dele. Não tinha bastante espírito. Que problema seduzir um imbecil! Não entendia patavina de minhas intenções".

Divago. Comecei falando na crença de Bento no inferno. É que adoro ler teologia e acabo me deixando levar pelo assunto. O inferno sempre me intrigou. Principalmente por sua eternidade. A primeira menção a inferno na Bíblia, como algo associado a fogo, está em Mateus 5:22:

“Eu, porém, vos digo que todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e quem disser a seu irmão: Raca, será réu diante do sinédrio; e quem lhe disser: Tolo, será réu do fogo do inferno”.

E, logo adiante:

“29 Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno.
30 E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que vá todo o teu corpo para o inferno".

Mais ainda. Mateus 10:28:

“E não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo”.

Ou Marcos 9:43:

“E se a tua mão te fizer tropeçar, corta-a; melhor é entrares na vida aleijado, do que, tendo duas mãos, ires para o inferno, para o fogo que nunca se apaga”.

Este fogo que nunca se apaga é o que me deixa perplexo. Significa que a matéria comburente jamais se extingue. Para que o fogo do inferno nunca se apague, precisaria de uma alimentação contínua e em grande profusão. Haja pecadores na terra para manter a eternamente acesas as chamas do inferno. Outro mistério é que o pecador queima pela eternidade toda sem virar cinzas.

Outro ponto que sempre me intrigou é a localização do inferno. Neste nosso planetinha não deve ser, ou os geólogos e exploradores já o teriam situado. Estará no fundo dos mares? Hipótese improvável, aí a combustão eterna se torna mais inviável. Nalgum outro planeta? Sabe-se lá. O problema é que, fora da Terra, os demais planetas são muito frios para abrigar um fogo eterno. Ou quentes demais para receber corpos dos mortais. Já na chegada, as pobres alminhas estariam incineradas.

A questão é complexa. Mas a Bíblia nos dá uma dica. Fica no mínimo perto do purgatório. Está em Lucas, 16:19:

“Ora, havia um homem rico que se vestia de púrpura e de linho finíssimo, e todos os dias se regalava esplendidamente. 20 Ao seu portão fora deitado um mendigo, chamado Lázaro, todo coberto de úlceras; 21 o qual desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as úlceras. 22 Veio a morrer o mendigo, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico, e foi sepultado. 23 No Hades, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe a Abraão, e a Lázaro no seu seio. 24 E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e envia-me Lázaro, para que molhe na água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. 25 Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que em tua vida recebeste os teus bens, e Lázaro de igual modo os males; agora, porém, ele aqui é consolado, e tu atormentado. 26 E além disso, entre nós e vós está posto um grande abismo, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem os de lá passar para nós”.

Por seio de Abraão, na Bíblia, entende-se o que depois veio a chamar-se de purgatório. O texto nos informa que no Hades há chamas mas não tem água. No purgatório, alguma água há. Já é um refrigério. Do Hades, o homem rico consegue ver Lázaro. Um não deve estar muito longe do outro. Já é um indício.

Mas o mistério persiste. Onde fica o purgatório?

Quinta-feira, Fevereiro 07, 2008
 
GENTALHA ABOMINÁVEL



Sob o lema “Escolhe, pois, a vida”, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou ontem sua maior ofensiva contra a proposta de legalização do aborto no País. Também estão sendo combatidas quaisquer intenções de se permitir eutanásia e pesquisas com embriões humanos.

Que a Igreja seja contra aborto, eutanásia ou pesquisas com embriões humanos é perfeitamente admissível. O que a Igreja não pode é pretender que todas as sociedades pensem da mesma forma. A Igreja um dia ameaçou com a fogueira o homem que disse não ser a Terra o centro do universo. Que a Igreja ache que a Terra é o centro do universo é um direito seu. Pode até achar que o Cristo nasceu de uma virgem e subiu aos tais de céus, que ninguém sabe onde ficam. O que a Igreja não pode é pretender que a humanidade toda participe de tais crendices.

Nossos purpurados parecem esquecer que a Igreja, durante séculos, admitiu o aborto. Que dois de seus campeões, são Tomás e santo Agostinho, eram favoráveis ao aborto. Segundo o aquinata, só haveria aborto pecaminoso quando o feto tivesse alma humana o que só aconteceria depois de o feto ter uma forma humana reconhecível. Para o Doutor Angélico, como o chamam os católicos, a chegada da alma ao corpo só ocorre no 40º dia de gravidez. A posição de Aquino sobre o assunto foi aceita pela igreja no Concílio de Viena, em 1312. Foi apenas em pleno século XIX, em 1869 mais precisamente, que o Papa Pio IX declarou que o aborto constitui um pecado em qualquer situação e em qualquer momento que se realize. O que me espanta neste debate é que não vemos, na grande imprensa, um mísero jornalista que contraponha a este episcopado analfabeto a doutrina clara dos santos da Igreja. Se os católicos se pretendem contra o aborto, deveriam começar destituindo seus santos da condição de sapiência e santidade.

Seja como for, pecado é conceito que diz respeito apenas aos crentes. A Igreja pretende hoje que o aborto seja crime. Ora, crime é o que a lei define como crime. Não é a Igreja quem elabora as leis de um Estado laico. Que a Igreja defina o que é pecado, é direito seu. Lei é outro departamento. Se no Brasil o aborto hoje é crime, não o é na Itália, França, Espanha, Alemanha, Suíça, Reino Unido, Finlândia, Suécia, Dinamarca, Grécia, Portugal, Estados Unidos, Canadá, etc. E se amanhã o legislador brasileiro decidir que aborto não é crime, aborto não mais será crime. Quanto aos padres, que enfiem suas violas no saco. Brasil não é Irã ou Arábia Saudita, onde os religiosos fazem a lei.

Para dom Dimas Lara Barbosa, secretário-geral da CNBB, o aborto é questão ética e não de saúde pública. Ora, se é questão ética, é questão de cada um. Só o Direito é coercitivo. Não há sanções penais para questões éticas. Segundo o prelado, em eventual plebiscito, o povo se posicionaria contra o aborto, “se esclarecido sobre o tema com isenção e honestidade”. Mas dom Dimas não confia muito no que afirma, pois é contra a realização da consulta. “A defesa da vida é inegociável para nós. Não é minoria ou maioria que mudará um valor universal dos cristãos".

Valor universal dos cristãos? Desde quando? Desde o século XIX para cá? E se é valor universal dos cristãos, o universo é muito maior que a cristandade. Mas a campanha da CNBB não é apenas contra o plebiscito. Vai mais longe. “Está no nosso horizonte, num segundo momento, lutar para revogar a permissão legal do aborto nos casos já permitidos”, disse o aiatolá de Roma, citando o exemplo de uma santa canonizada por ter preferido morrer para permitir que o filho nascesse.

Santos são heróis da Igreja, não os nossos. Mas o pior de tudo, no obscurantismo católico, não é nem esta oposição ao aborto. E sim a recusa à eutanásia. O que pretendem estes senhores? Que um homem, exaurido pelo sofrimento, não tenha o direito de querer partir? Que não possa exercer seu direito de morrer? Que pessoas vivam anos e anos entubadas, em condição vegetal, sem poder morrer? Que os católicos legislem sobre suas próprias mortes. Nada contra. Mas que não pretendam determinar quando e como nós, não-católicos, devemos ou queremos morrer.

Abominável, esta gentalha!

 
SOBRE A PERICULOSIDADE
DO SCYTALOPUS IRAIENSIS



A revoada de ornitólogos que se abateu sobre minha cabeça ainda não cessou de bicar-me. Parece que toquei fundo nessas ternas alminhas. Mais que os ornitólogos, só os católicos se irritam tanto com minhas crônicas. E nisto católicos e ornitólogos, embora sendo raças distintas, em muito se parecem. De leitor que se assina Lucas, recebo:

Com relação à coluna intitulada “sobre a periculosidade dos ornitólogos” postada pelo autor Janer Cristaldo em 15/01/2007: Que grande idiotice. Vejo mais periculosidade nesse autor que veicula tais opiniões retrógradas sem considerar as conseqüências. Conheço vários ornitólogos e posso dizer, são pessoas muito boas, com boas intenções e que tem uma causa nobre: a sustentabilidade.

As aves são utilizadas como espécies bandeira. Elas representam o topo de um sistema ecológico equilibrado. A preservação de uma ave representa a preservação de todo um ecossistema associado. E, por outro lado, as aves ameaçadas são protegidas por LEI. Todas as espécies ameaçadas são, e qualquer ambientalista responsável, que registrasse, por exemplo de maneira hipotética, uma espécie de crustáceo planctônico que habita águas correntes que seja ameaçada, em uma área onde será instalada uma barragem, tem o dever de interromper o projeto temporariamente, até que se tenha uma maneira alternativa e segura de conduzir a construção da barragem sem prejudicar o crustáceo, ou permanentemente. Caso não o faça, estará agindo de maneira antiética e nada profissional.

Não se pode simplesmente postar de maneira inescrupulosa, irresponsável e ignorante que é mais importante o desenvolvimento ilimitado, e que se danem as espécies ameaçadas. Que se danem as aves. Vamos ignorar a opinião dos cientistas, seguir o modelo de desenvolvimento econômico dos países desenvolvidos, extinguir todas as espécies e condenar a humanidade num futuro próximo. Grandes problemáticas que estamos enfrentando agora, e enfrentaremos em breve, advém de pensamentos como esse. O aquecimento global, o derretimento das geleiras, o desmatamento na Amazônia, a conversão dos pampas em plantações de arroz, batata, pinus...

A própria pobreza enfrentada nos países em desenvolvimento é conseqüência desse pensamento. Consumir além dos limites que o ambiente suporta. Consumir inescrupulosamente. Foram os europeus que colonizaram o mundo inteiro e impuseram aos habitantes nativos que se encontravam em maior equilíbrio com a natureza, o seu modo destrutivo de se relacionar com o ambiente. Por que os índios brasileiros não poderiam estar até hoje coexistindo com um ambiente saudável através de costumes menos “civilizados”?

Não podemos ser radicais. Temos de encontrar alternativas de forma que as pessoas possam usufruir de um bem natural, sem por em risco a biodiversidade.
O macuquinho da várzea, ou Scytalopus iraiensis, por exemplo, é um passarinho endêmico que só ocorre em locais esparsos no Paraná e no Rio Grande do Sul. É exclusivo de banhados ciliares. Não irá migrar para outro lugar e para outro ambiente caso esse seja perturbado ou perdido. Creio que deva haver outros pontos onde a instalação de uma barragem seja possível, em outro local onde não imponha riscos á espécies.

Os tigres estão entre os felinos mais ameaçados, e como predadores topo de cadeia são essenciais para a manutenção da diversidade dos ecossistemas em que habitam. A manutenção da biodiversidade é que vai garantir a disponibilidade e qualidade de uma série de recursos que os ambientes naturais nos oferecem. Não devemos condenar as pessoas que habitam cantos remotos da índia a beberem estrume de boi, mas devemos preservar os tigres. Não devemos agir como nossos antepassados agiram, não podemos nos prender à tradições atávicas ultrapassadas e estúpidas. As espécies tem que ser conservadas, novas soluções têm de ser elaboradas para as problemáticas do desenvolvimento sustentável. Ou isso, ou quem poderá prever o que será?
A ciência está aí para isso. Crescer sem expandir. Desenvolver sem levar o planeta a um colapso. Os biólogos, dentre eles os Ornitólogos, são os profissionais que estam aí para encontrar alternativas de SUSTENTABILIDADE. Não creio que este conceito figure no vocabulário do autor.


O que só confirma minha tese sobre a periculosidade dos ornitólogos. Pelo jeito, já há um macuquinho da várzea ameaçando uma barragem. 99% das espécies que um dia habitaram o planeta já foram extintas. Pelo jeito, se o Scytalopus iraiensis se extinguir, terá chegado o final dos tempos. Quanto a ter água potável e energia ao alcance de centenas de milhares de pessoas, isso é secundário. Scytalopus iraiensis ou o apocalipse - eis o dilema com o qual se defronta a humanidade.

Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008
 
AINDA A NOMENKLATURA



Caro Janer,

A rigor, a nomenklatura soviética não morreu com a URSS. Parte da nomenklatura transformou-se na chamada "máfia russa", hoje a maior e mais poderosa organização internacional dedicada ao tráfico de armas e drogas. Outra parte veio a dar na estirpe de biliardários sobre cujas fortunas de origem misteriosa lemos todos os dias nos jornais. A tanto chegaram - mafiosos e milionários - graças aos privilégios de que desfrutavam na antiga URSS, especialmente contatos internacionais e informações secretas (sobre a situação das empresas, compra e venda de armas, riquezas do subsolo, etc.). A passagem do comunismo para o capitalismo significou, na verdade, excelente oportunidade para os dirigentes mais espertos do Partido se apropriarem das riquezas nacionais. A falecida URSS nos ensinou como agem, no poder, os "defensores do proletariado": enquanto lhes é permitido se refestelar legalmente, locupletam-se de acordo com a lei. Quando pressentem que a mamata vai acabar, saqueiam o que podem, com os meios que tiverem às mãos. E o proletariado que se ....

Abraço.

Odilon Toledo



Tens razão, Odilon. Mas pelo menos hoje não é instituição oficial. Virou máfia. Neste sentido, a Rússia está bem mais adiante do Brasil. Aqui, o PT recém está montando sua Nomenklatura.

Terça-feira, Fevereiro 05, 2008
 
NOMENKLATURA REDIVIVA



Alguém ainda lembra da Nomenklatura? Com o desmoronamento da União Soviética, a palavrinha talvez tenha ruído junto. Era como se designava a burocracia, a casta dirigente comunista. Era composta por altos funcionários do PCUS, trabalhadores com cargos técnicos, artistas e outras pessoas que gozavam de privilégios e vantagens inacessíveis para o restante da população do país.

O conceito de Nomenklatura, em verdade, foi antecipado pelo montenegrino Milovan Djilas, em seu livro A Nova Classe. Publicado em 1957, seu ensaio fazia uma análise do sistema comunista iugoslavo, denunciando-o como um regime não igualitário, que estabelecera uma "nova classe" privilegiada do partido, que gozava de benefícios materiais a partir de suas posições. Djilas sabia do que falava: “Eu fiz todo o caminho que pode fazer um comunista, do baixo da escada até o topo, de funções locais a funções nacionais, depois internacionais, da fundação do Partido até a instauração disso que se chama sociedade socialista”. Embora se declarasse abertamente marxista, o autor fazia um requisitório contra a “nova classe”.

Djilas, que foi vice-presidente da ex-Iugoslávia, incompatibilizou-se com o presidente – isto é, ditador – do país, Josip Broz Tito. Foi expulso do governo, despojado de todas suas posições no Partido e condenado a nove anos de prisão. Após a publicação de sua obra no Ocidente, sua sentença foi aumentada.

O livro inspirou o russo Mikhail Voslenski, que em 1970 escreveu Nomenklatura, traduzido no Brasil pela editora Record, como A nomenklatura, como vivem as classes privilegiadas na União Soviética. Se você tem ainda algum interesse pelo finado comunismo, pode encontrar o livro em algum sebo. Mas se você procurar A Revolução dos Bichos, de George Orwell, que narra o nascimento de uma sociedade socialista real, terá também uma boa idéia da Nomenklatura. Este livro foi proibido em todos os países comunistas.

Segundo Voslenski, Lênin inventou a organização dos revolucionários profissionais. O apparatchik Stalin inventou a Nomenklatura. Se a invenção de Lênin foi a alavanca que lhe permitiu transformar a Rússia, ela logo entrou para o museu da Revolução. A invenção de Stalin foi o aparelho que lhe permitiu dirigir a Rússia e se revelou infinitamente mais durável. “Na língua burocrática corrente soviética, Nomenklatura significa: 1º Lista dos postos de direção de competência das autoridades superiores. 2º Lista de pessoas que ocupam esses postos ou que são mantidas na reserva para ocupá-los”.

Esta casta seria constituída, na União Soviética, por 250 mil funcionários. Levadas em conta suas famílias – mulheres, filhos, sogras, genros – teríamos três milhões de pessoas. A estes, todos os privilégios: boa moradia, datchas (casas de campo), carros, telefonia, viagens, acesso privilegiado a gêneros alimentícios, em suma, a todas aquelas coisas que tornam a vida agradável. O resto da sociedade que se lixasse.

Longe de mim afirmar que o governo Lula está tentando introduzir um regime comunista no Brasil. Lula pode ser analfabeto, mas burro não é. Esta tese de que o governo petista quer montar um sistema comunista é paranóia de um astrólogo confuso que, paradoxalmente, lidera uma caterva de católicos fundamentalistas. Se Lula tem alguma virtude, esta foi trair o ideário do PT. Por que pensar em comunismo quando se tem eleitorado até mesmo para um eventual terceiro mandato?

Por que pensar em comunismo, quando se pode utilizar seus sistemas de controle do poder, sem necessariamente aderir a um pensamento obsoleto e desprestigiado? Do comunismo, Lula e os seus preservam apenas o que lhes é mais conveniente. Os privilégios da casta dirigente. Da “classe dominante”, como os petistas então chamavam quem estava no poder.

Com os tais de cartões de crédito corporativos, a gangue petista se outorga um segundo salário. Mais gordo inclusive que o primeiro. Ou um terceiro salário: vários ministros ganham também como “conselheiros” de estatais. Isto sem falar em apartamentos funcionais, transporte pessoal garantido, seja por carro ou avião, viagens facilitadas, turismo a pretexto de trabalho e mordomias outras. Claro que disto só participam os “companheiros”.

O problema é que alguma alma estouvada teve a infeliz idéia de criar um tal de Portal da Transparência, onde os gastos com os divinos cartões são divulgados. Pior ainda: foram divulgados os gastos do Supremo Apedeuta e da filha do Supremo Apedeuta. Mas já surgiu a tese salvífica, enunciada pelo chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Jorge Félix, segundo o qual os gastos para a proteção da família presidencial não deveriam ser divulgados no incômodo Portal. Ou seja: não importa que a gastança dos quadrilheiros seja pública. O que não pode ser divulgado são os gastos do chefe da quadrilha.

A Nomenklatura soviética morreu com o regime soviético. Ressuscita, no Brasil, com o PT.

Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008
 
À GUISA DE APERITIVO



Embora acreditar firmemente em algo, sem ter provas, seja considerado um sinal de loucura ou estupidez em qualquer outra área de nossa vida, a fé em Deus continua mantendo imenso prestígio na nossa sociedade. A religião é a única área do nosso discurso na qual se considera nobre fingir ter certeza - certeza acerca de coisas das quais nenhum ser humano pode ter certeza. É significativo que essa aura de nobreza alcance apenas aquelas religiões que continuam tendo muitos adeptos. Qualquer pessoa que for surpreendida adorando Poseidon, mesmo no meio do oceanos, será considerada insana.

Carta a uma nação cristã, Sam Harris, Companhia das Letras.

 
IDI AMIN DADA E A
NOMENKLATURA PETISTA




Em uma de suas novelas da época do comunismo, Jerzy Kosinski nos fala de um personagem que traz à Europa de cá uma menina polonesa. Ao vê-lo comprar coisas com um cartão de crédito, a polaquinha pensa tratar-se de pura magia. Seu acompanhante comprava o que bem entendia, recebia o que comprava e não se via dinheiro algum na transação. Aquele cartãozinho mágico a fascinava. Eu, que tive em Paris namoradas do Leste, fui testemunha de seus deslumbramentos ao trocarem suas calcinhas de pelúcia pela lingerie parisiense. Não as vi reagirem a um cartão de crédito, já que naqueles dias brasileiro não tinha direito a cartão. Mas suponho que todo cidadão egresso do mundo socialista, naquela época, o via como um amuleto de poderes mágicos.

Foi o que pensou Idi Amin Dada ao ganhar um do governo inglês. Para quem é jovem, explico. Idi Amin foi o grotesco ditador de Uganda, entre 1971 e 1979. Analfabeto, foi campeão de boxe e teve cinco mulheres e algo entre 20 e 25 filhos. Autoproclamou-se Sua Excelência o Presidente Vitalício, Marechal de Campo Al Hadji Doctor Idi Amin, VC, DSO, MC, Senhor de todas as bestas da Terra e dos peixes do mar e Conquistador do Império Britânico na África em geral e Uganda em particular e Rei da Escócia. Uma frase sua foi muito comentada na época: “homem algum corre mais depressa que uma bala de fuzil”.

Com seu cartão de crédito, Idi Amin foi às compras. Maravilha! Comprava um carro, levava o carro e não pagava nada. O mesmo com televisadores, geladeiras, em suma, o que quisesse. O cartãozinho era mesmo dotado de poderes mágicos. Até que seu crédito estourou. Os ingleses passaram então a autorizar o uso do cartão só quando tivesse a assinatura conjunta de um adido militar britânico.

Os cartões de crédito são de fato objetos mágicos, pelo menos quando pagos por terceiros. É o que deve ter pensado dona Matilde Ribeiro, ex-titular da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. O mesmo devem pensar os demais 42 quadros do alto escalão da Presidência da República. O mesmo deve pensar Lula e dona Mariza, como também Lurian da Silva. O mesmo pensarão os demais 11.510 funcionários da Nomenklatura petista com direito ao cartãzinho mágico.

Se bem que alguns vivaldinos, que chegaram à extraordinária percepção do que realmente significa um cartão corporativo, nomearam assessores especiais para usá-los. O Tarso Genro, o ministro da Justiça, por exemplo, jamais poderá ser acusado de uso indevido do cartão. Quem o usa é um seu subalterno. Ante qualquer suspeita, o crime – ou melhor, o erro, como preferem os petistas – será de responsabilidade do funcionário. Consta que outros nove ministros adotaram a sábia precaução do congênere da Justiça.

Estranhos canais subterrâneos unem o governo petista e o ditador analfabeto de Uganda. Com uma diferença: Idi Amin desconhecia como funciona um cartão de crédito. Não é o caso da Nomenklatura petista.

Domingo, Fevereiro 03, 2008
 
PORQUE ADORO O CARNAVAL



Estou cada vez mais apaixonado pelo carnaval de São Paulo. É data que espero com ansiedade. Hoje, pulei o carnaval com uma amiga. Explico. Ontem, telefonei para ela:

- Que vais fazer nestes dias?
- Vou pular o carnaval. Isto é, vou pular a data. É como se não existisse.
- Maravilha. Vamos então pular juntos?

Pulamos. Passeamos hoje por uma cidade deserta, parecia Dom Pedrito num domingo chuvoso. Almoçamos em um simpático restaurante francês, também deserto. Relembramos nossos dias de Paris, discutimos francês e grego, clássico e contemporâneo, continental e cretense, analisamos as traduções de Kazantzakis ao português, repassamos uma antiga leitura de meus dias de universidade, o Quarteto de Alexandria, do Lawrence Durrel, evocamos Henry Miller e ilhas gregas, Alexandria e Corfu, rimos com as mancadas de tradutores, confrontamos as obras de Borges e Lobato, revisamos etimologias, colocamos em xeque ênclises e mesóclises.

Em suma, foi um dia daqueles que, ao chegar ao fim, nos deixa uma agradabilíssima sensação de paz interior. Não é todos os dias que encontramos pessoa sensível e culta para conversar, e hoje foi um deles. Ela é rato de sebos e voltei para casa com a promessa de um cadeau que vou gostar muito de ler, um estudo sobre os anacoretas do deserto do século IV d.C.

Carnaval? Ouvi até mesmo dizer que existe em São Paulo. Parece que acontece lá pras bandas da Paulista. É o que os jornais e a televisão me informam. Até acredito que seja verdade. Mas não vi. É divino viver numa grande cidade brasileira onde se pode ter a sensação de que carnaval não existe.

São Paulo é o túmulo do samba, dizia Vinicius de Moraes. Este, a meu ver, é um dos encantos da cidade. Meus amigos ocasionais – garçons, garçonetes, taxistas, a moça da banca de jornais, meu barbeiro – sempre me perguntam onde vou passar o carnaval. Aqui, respondo. Daqui não saio, daqui ninguém me tira, como dizia uma antiga marchinha. Ninguém me arranca de São Paulo em um carnaval. Nem em feriadões. Nessas datas a cidade adquire um ar de província, pode-se andar de bicicleta sem medo nas grandes avenidas, freqüentar aqueles bons restaurantes onde normalmente há filas de espera, curtir livrarias e cinemas sem o estorvo da multidão. O silêncio é extraordinário. Nestes dias, acordo como se estivesse no paraíso, sem ruído algum de motores. (Enfim, estou supondo que no paraíso não existam carros). Moro aqui há quase vinte anos e jamais ouvi, pelo menos em meu bairro, aquele ronco estúpido de cuícas e tamborins. Ontem começou o shabbat. Higienópolis, sem carros, parece hoje uma cidade do deserto percorrida por sisudos rabinos e aldeãs com vestes cheias de cores.

Fosse São Paulo um eterno carnaval, seria uma das cidades mais aprazíveis do mundo. Saíram ontem quase dois milhões de carros da cidade. Contando por baixo, são uns quatro milhões de paulistanos a menos. É quando a cidade se torna habitável. Conclusão que se impõe: há um excesso de quatro milhões de habitantes nesta cidade. Fariam um grande favor aos homens sensatos – sim, eles ainda existem – se ficassem no litoral pelo resto de suas vidas.

Tudo que é bom dura pouco, dizem as gentes. Mais três dias e a cidade volta à sua normalidade hostil. Só me resta esperar pelo próximo carnaval. Ou feriadão. Feriadão também é muito bom em São Paulo.

Nestes dias de paz que ainda restam, vou buscar outras amigas que também gostem de pular o carnaval. Quero pular junto.

 
PARA ENTENDER CAMBALACHE


Leitores que desconhecem o lunfardo buenairense, reclamam por não terem entendido a letra do tango de Discépolo. Republico então um pequeno glossário, que postei há bastante tempo neste blog.

Stavisky - O vigarista Alexander Stavisky, que se suicidou em uma prisão de Bayona em 1934.

Don Bosco - fundador da Ordem dos salesianos, canonizado pelo Papa Pio XI também em 1934.

Don Chicho - apelido do chefe da máfia argentiana, Juan Galiffi, detido e processado em 1932.

Carnera - Primo Carnera, boxeador italiano que manteve o título de campeão mundial de peso completo no biênio 1933-1934.

Quanto a La Mignon, parece referir-se à voz francesa mignone, com o sentido de "amante" ou "manteúda".

Chorros - ladrões, em lunfardo. Gil - ingênuos, bobos. Estafaos - roubados, enganados.

 
SIGLO VEINTE Y UNO CAMBALACHE



Em artigo para o Estadão de ontem, o advogado, professor e acadêmico Miguel Reale Júnior escreve contundente catilinária contra a mídia contemporânea, mais precisamente contra a televisão e a Internet. “O gosto do mal e o mau gosto” é o título de seu artigo.

“O horror vira espetáculo. Hoje se multiplicam as filmagens ou fotografias com celular de cenas de brutalidade contra as pessoas, para puro e simples divertimento. O enforcamento de Saddam Hussein, com o corpo balançando no vazio, correu a internet. Um site francês, “Vídeos de Decapitação”, revela Marzano, instalou fórum de discussão acerca da decapitação de Nicholas Berg no Iraque. As reações dos internautas transitaram entre o fascínio e a indiferente discussão sobre a qualidade da filmagem. A tragédia do Iraque tornou-se distração”.

Vai adiante o professor: “O Big Brother Brasil, a Baixaria Brega do Brasil, faz de todos os telespectadores voyeurs de cenas protagonizadas na realidade de uma casa ocupada por pessoas que expõem publicamente suas zonas de vida mais íntima, em busca de dinheiro e sucesso. Tentei acompanhar o programa. Suportei apenas dez minutos: o suficiente para notar que estes violadores da própria privacidade falam em péssimo português obviedades com pretenso ar pascaliano, com jeito ansioso de serem engraçadamente profundos”.

Reale Júnior suportou o Big Brother dez minutos. Me superou. Eu não consegui suportar cinco. Quanto a vídeos de decapitação, parece que estão na moda. Recebi um, com a decapitação do jornalista Daniel Pearl, no Paquistão. É de uma brutalidade insólita. Como jornalista, me sinto mais ou menos obrigado a ver tais barbaridades. Recebi também fotos dos cadáveres de presidiários - mortos por presidiários - em uma rebelião no Carandiru. Eméticas. Como também recebi fotos de hospitais de Cuba. Repelentes. Mas se você quiser entender o mundo que o cerca, é bom que veja tais fotos. Para ter uma idéia do que o ser humano é capaz. Depois, melhor deletá-las.

É curioso que o professor não arrole em seu circo de horrores os pastores televisivos. Para mim, constituem caso de polícia. Aquilo não é religião, é extorsão de pobres coitados. Tanto a televisão como a Internet têm seus momentos abomináveis. Prossegue Reale Júnior:

“Mas o público concede elevadas audiências de 35 pontos e aciona, mediante pagamento da ligação, 18 milhões de telefonemas para participar do chamado “paredão”, quando um dos protagonistas há de ser eliminado. Por sites da internet se pode saber do dia-a-dia desse reino do despudor e do mau gosto. As moças ensinam a dança do bumbum para cima. As festas abrem espaço para a sacanagem geral. Uma das moças no baile funk bebe sem parar. Embriagada, levanta a blusa, a mostrar os seios. Depois, no banheiro, se põe a fazer depilação. Uma das participantes acorda com sangue nos lençóis, a revelar ter tido menstruação durante a noite. (...) É possível conjunto mais significativo de vulgaridade chocante?”

Reale Júnior parece não ter entendido a natureza humana. Dezoito milhões de néscios telefonam, mediante pagamento da ligação, para participar do tal de paredão? Brasileiro é isso mesmo. Na França ou Alemanha não teríamos tais abominações. (O que não exclui que haja outras). Não houvesse o Big Brother, estes dezoito milhões estariam empenhados em participar de besteiróis outros, tipo carnaval ou futebol. Não vejo muita diferença entre um espectador que curte Big Brother e outro que curte futebol. O analfabetismo é o mesmo. Ou talvez haja uma: o torcedor de futebol é capaz de matar por seu time. O de Big Brother, aparentemente, não.

Seja como for, surpreendeu-me a erudição do acadêmico em matéria de baixarias. Tudo isso existe mesmo na Internet e na televisão? Acredito piamente que sim. Mas disso não tomo conhecimento. Verdade que às vezes dou uma zapeada para auscultar a imbecilidade geral do mundo. Considero isto um exercício interessante. Serve para constatarmos que o universo que nos rodeia é bastante distinto daquele que cultivamos em nossas casas. Mas não consigo me demorar muito em tais sites ou programas. Como disse, já tentei ver o Big Brother, para ter uma idéia da mediocridade nacional. Mas não consegui agüentar cinco minutos.

Tanto a televisão como a Internet não o obrigam a assistir suas baixarias. Você vê o que quer. Toda TV tem um controle, on e off. Vê TV quem quer ver TV. Vê baixaria quem quer ver baixaria. Busca sites estúpidos na Internet quem gosta de sites estúpidos. Em meus primeiros dias de internauta, confesso que os acessei. Queria ter uma idéia global da rede. Uma vez ciente do que existia na Web, não mais voltei a eles.

Melhor voltarmos a um dos mais geniais tangos já concebidos, Siglo veinte, cambalache, de Enrique Santos Discépolo. Para quem não entende espanhol: cambalache significa brechó, bric-a-brac. Nosso século, o XXI, também é cambalache.

Que el mundo fue y será una porquería,
Ya lo sé;
En el quinientos seis
Y en el dos mil también;
Que siempre ha habido chorros,
Maquiavelos y estafaos,
Contentos y amargaos,
Valores y dubles,
Pero que el siglo veinte es un despliegue
De malda' insolente
Ya no hay quien lo niegue;
Vivimos revolcaos en un merengue
Y en un mismo lodo todos manoseaos.

Hoy resulta que es lo mismo
Ser derecho que traidor,
Ignorante, sabio, chorro,
Generoso, estafador.
Todo es igual; nada es mejor;
Lo mismo un burro que un gran profesor.
No hay aplazaos, ni escalafón;
Los inmorales nos han igualao.
Si uno vive en la impostura
Y otro roba en su ambición,
Da lo mismo que si es cura,
Colchonero, rey de bastos,
Caradura o polizón.

Que falta de respeto,
Que atropello a la razón;
Cualquiera es un señor,
Cualquiera es un ladrón.
Mezclaos con stavisky,
Van don bosco y la mignón,
Don chicho y napoleón,
Carnera y san martín.
Igual que en la vidriera irrespetuosa
De los cambalaches
Se ha mezclao la vida,
Y herida por un sable sin remaches
Ves llorar la biblia contra un calefón.

Siglo veinte, cambalache
Problematico y febril;
El que no llora, no mama,
Y el que no afana es un gil.
Dale nomás, dale que vá,
Que allá en el horno nos vamo a encontrar.
No pienses mas, echate a un lao,
Que a nadie importa si naciste honrao.
Que es lo mismo el que labura
Noche y día como un buey,
Que el que vive de los otros,
Que el que mata o el que cura
O esta fuera de la ley.

Sábado, Fevereiro 02, 2008
 
Última hora:

PROBÍSSIMO BOLCHEVIQUE VAI
DEVOLVER MAIS QUE R$ 8,10




O velho e probíssimo bolchevique Orlando Silva, em súbita crise de integridade, acaba de anunciar que, além de ter devolvido – integralmente – ao Erário os R$ 8,10 gastos numa tapiocaria em Brasília, decidiu agora recolher aos cofres públicos todo o dinheiro utilizado no cartão corporativo desde que assumi o Ministério do Esporte". Ou seja, R$ 30.870,38.

Dona Matilde já deve estar pondo as barbas de molho. Já imaginou se a moda pega? Para Dona Matilde sairá bem mais salgado.

Mas atenção: a probidade do velho bolche tem limites. A devolução dos 30 mil reais é só para inglês ver. Ela será questionada junto à administração. Silva vai reivindicar a volta desta grana a seus bolsos. Quanto aos R$ 8,10, a União pode ficar com eles.

 
VELHO E PROBO BOLCHEVIQUE
DEVOLVE 8,10 REAIS AO ERÁRIO




O caso mais caricato foi o do ministro dos Esportes, Orlando Silva. Tendo torrado 20.100 reais no ano passado – uma micharia comparado com os gastos da ministra da Igualdade Racial – está sendo estigmatizado, o coitado, por ter gasto 8,10 reais em uma tapiocaria em Brasília. O velho bolchevique pensou pequeno e se ferrou. Homem probo, já declarou ter devolvido integralmente a quantia ao Erário.

Entre os gastos do velho bolchevique, constam 217 reais no Le Vin Bistrô, de São Paulo. Quem diria que eu e o ministro comunista freqüentamos o mesmo restaurante. Almoço lá pelo menos uma vez por semana. Com uma caipira introdutória, couvert, mais um prato e meia garrafa de bom vinho, pago de 60 a 80 reais. Mesmo quando convido uma amiga, sequer chego aos 200 reais. Com uma diferença. Pago de meu bolso, sem onerar o contribuinte.

 
A IGUALDADE RACIAL E O
DESPILFARRO DA MINISTRA




Em meus dias de universidade, certa vez distribui um colar de zeros a minhas aluninhas. Falo assim no feminino porque quase não havia varões na aula. Eram alunas de último ano de Letras. Lá pelas tantas, uma negrinha pulou em seus tamancos e, chorando, começou a gritar:

- Racismo, professor, racismo. Eu nunca tirei zero neste curso.
- Então nunca leram tuas provas. No que dependesse de mim, tu nem entravas na universidade.

As meninas tinham um português deplorável, inadmissível em um acadêmico, e dali a alguns meses estariam lecionando na rede pública. Minha salvação foi que eu havia zerado mais treze alunas, e estas eram todas brancas. A acusação da moça não se sustentava. Se, por acaso, fosse só ela a merecer zero, certamente eu responderia processo por racismo.

Minha aluninha analfabetinha voltou-me à memória com a affaire da ex-ministra Matilde Ribeiro, titular da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Flagrada pelo uso indevido dos tais de cartões corporativos – um convite praticamente irresistível à corrupção - dona Matilde já foi exibindo a cor da pele. Em entrevista coletiva, questionada se via preconceito na cobertura da imprensa sobre o uso irregular de seu cartão, ela disse que "o histórico do Brasil não permitiu que fosse reconhecido o peso da escravidão e o peso da não inclusão de negros e negras. Isso vale para a sociedade como um todo".

O Supremo Apedeuta não deixou por menos. Disse que ela fez "um trabalho extraordinário" à frente da pasta e declarou conhecer as "imensas dificuldades, arraigadas por séculos de preconceito, que Vossa Excelência teve de enfrentar".

Matilde Ribeiro, se alguém não lembra, foi aquela senhora que declarou, no ano passado, considerar natural a discriminação dos negros contra os brancos. Em entrevista à BBC Brasil para lembrar os 200 anos da proibição do comércio de escravos pelo Império Britânico, ela disse que "não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, eu acho uma reação natural. Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou", afirmou na ocasião.

A frase caiu pesada nos meios de comunicação. Como era proferida por uma negra, ficou por isso mesmo. Negro pode insultar branco à vontade, não é racismo. Mas se um branco dissesse o inverso, seria imediatamente enquadrado por crime de racismo. De minha parte, até que concordo com um trecho da afirmação da ex-ministra. Não vejo porque negros tenham de gostar de conviver com brancos. Mas também não vejo porque brancos tenham de gostar de conviver com negros. O gostar não pode ser obrigatório. Respeito, sim. Mais do que isso é dogma de papistas. Uma das frases mais abomináveis da História que conheço é o “amai-vos uns aos outros”. Eu amo quem acho amável, ora bolas. E a verdade é que o mundo está cheio de pessoas detestáveis.

Entre estas, a ex-ministra. Gastou à tripa forra em transporte e restaurantes de luxo. Só no ano passado, torrou R$ 171,5 mil em viagens, todas pagas com o cartão corporativo. O que corresponde a R$ 14,3 mil mensais, valor superior ao seu salário, que é de R$ 10,7 mil. Dona Matilde encontrou uma maneira confortabilíssima de mais que duplicar seu salário. O curioso em tudo isto é que este despilfarro – como dizem os espanhóis – parece não ter causado espécie aos catões do Planalto. O que escandalizou foi uma continha de 461 merrecas em um free shop. Argent de poche.

São 42 os membros do alto escalão do governo a usarem os simpáticos cartões corporativos. Nos baixos escalões, são 11.510. Isto dá uma idéia da farra toda com o dinheiro do contribuinte. Pelo que noticiam os jornais, boa parte da gastança foi para restaurantes de luxo.

O que só confirma minha tese. São Paulo está sendo gradativamente tomada por restaurantes para pessoas jurídicas. Você é mera pessoa física e tem de pagar de seu bolso? Melhor evitá-los. Nesses restaurantes, uma mesa de cinco ou seis pessoas gasta às vezes 50 ou 60 mil reais e os comensais chegam a brigar para decidir quem paga. Afinal, quem paga é você.

Enfim, tudo muito coerente. A ministra ocupava a pasta da Igualdade Racial e sempre foi combativa agitprop dos ditos movimentos negros. Se as “elites brancas” – expressão de um mentecapto branco do governo bandeirante – se corrompem alegremente com os tais cartões, em nome da propalada Igualdade Racial, a ministra também atribuiu-se o direito de corromper-se.

Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008
 
MANDANDO VER



Leio em despacho da France Presse que uma freira de 79 anos, de Wisconsin, norte dos EUA, passará um ano atrás das grades por abusos sexuais de dois adolescentes de 12 e 13 anos na década de 1960. Norma Giannani aceitou a acusação de ter tido relações sexuais com os dois rapazes, quando era diretora de seu colégio. Quando o júri lhe perguntou o que achava que os meninos sentiam sobre os encontros sexuais com ela, respondeu: "eles estavam mandando ver. Quantos adolescentes teriam perdido esta oportunidade?".

Invejo esses dois meninos. Uma freira foi obsessão que sempre tive. Cheguei a estabelecer uma relação muito afetiva com uma, mas nunca chegamos às vias de fato. Eu era muito imaturo. E ela, excessivamente tímida. Só num país de fanáticos religiosos como os Estados Unidos uma mulher pode ser punida por ter proporcionado, há quase meio século, momentos de sumo prazer a dois adolescentes.

Durante o julgamento, ocorrido hoje, uma das vítimas – reproduzo os termos da notícia - disse que os atos de Giannani torturaram-no durante muito tempo e fizeram com que ele perdesse a fé religiosa. "Estava convencido de que iria para o inferno por macular uma freira", declarou, no tribunal. "Que pecado pior poderia haver? Passei muitos anos tentando esquecer isso, apelei para as drogas e o álcool, tive pensamentos suicidas", afirmou.

Quem devia então ocupar a cadeira da ré não era a generosa e pedagógica Norma Giannani. Mas a igreja estúpida que lhe incutiu no bestunto que ter relações com uma freirinha podia levar ao inferno. Criminosos são os moralistas que prometem inferno a quem quer prazer.

 
LABORATÓRIOS DE RACISMO



Do Alexandre Kich, recebo:


Olá Janer

Já queria ter compartilhado uma coisa tempos atrás, mas acabei não tendo tempo. Por conta da tua escrita de hoje, exponho a coisa.

Eu tinha uma professora na época da minha inútil faculdade de História que estava louca para ver o circo pegar fogo na questão racial. Ela era branca como a maioria dos alunos do Planalto Médio gaúcho, mas tinha abraçado a defesa dos negros de uma forma meio doentia.

Em uma certa aula, em que se discutia a tal da miscigenação no Brasil, ela falou "Esse Brasil está ficando negro né pessoal, basta ver as estaítistica dos negros, que aumentam, ano a ano, qualquer tipo de racismo é horroroso". Mais ou menos naquela época me chegou nas mãos uma estatística da revista Isto É, que dizia que a única região do Brasil que ficaria completamente branca com o passar dos anos seria o Sul, devido a forte presença européia e que, tecnicamente, não era correto chamar mulato de negro.

Eu expus isso em sala e não é que a mulher desandou em me destratar? Disse que eu estava equivocado sobre isso tudo, uma vez que essas estatísticas deviam ser forjadas ou construídas segundo critérios racistas. Que o Brasil estava pagando a devida dívida aos negros classificando-os não segundo o critério eurocêntrico de "mulato", que lhe tirava seu sentido de negritude, mas sim de "negro" que era sua verdadeira categoria e que em nossa região não conhecíamos a cultura negra e mesmo negros suficientemente para discutir sobre o assunto.

Infelizmente, na Universidade, ainda somos reféns da ignorância da juventude e daquele medo "por notas" que evita desafiar essas peças de forma mais forte. De qualquer forma, meio timidamente, reagi dizendo que entendia que quem estava equivocada duvidando de uma pesquisa era ela e que, entre os meus melhores amigos, estavam muitos negros que se opunham ao "coitadismo" para alcançar qualquer coisa na vida, e isto enfraquecia o argumento dela em dizer que não conhecíamos os negros.

Ela me fuzilou com os olhos e disse "É tua opinião, mas lamento".

Eis as nossas universidades esquerdopatas, laboratório do racismo às avessas.

Abraço

Alexandre Kich - Panambi - RS

 
COTA NA TESTA



Escândalo! Segundo a Universidade Federal de Santa Catarina, um hacker invadiu o sistema do Núcleo de Processamento de Dados (NPD) e teve acesso a uma lista com nome, nota e classificação de todos os candidatos no concurso vestibular de 2008. A lista foi divulgada no início desta semana no Orkut, na comunidade "Vestibular UFSC 2008". O documento, publicado por um usuário anônimo, traz a relação detalhada — em ordem alfabética — dos mais de 30 mil candidatos que prestaram o concurso, com o nome completo dos candidatos, o número da inscrição, a classificação geral, as notas em todas as provas, o total de pontos obtidos e diz ainda se ele foi ou não aprovado.

Com o vazamento da lista, ficam identificados os vestibulandos que foram beneficiados pelo sistema de cotas, por raça ou origem escolar. Segundo a Polícia Federal, se a universidade enviar um ofício informando sobre o problema, poderá fazer perícia no sistema e tentar identificar o suspeito. Caso ele seja condenado, poderá pegar até três anos de prisão.

Ora, a meu ver este hacker deveria ser condecorado por este bom serviço prestado à comunidade. Se a universidade julga perfeitamente legítimo o sistema de cotas, por que ocultar a identidade dos beneficiados? Quanto a nós, precisamos saber quem é profissional honesto e quem é incompetente. Quem entrou pela porta dos fundos no vestibular e quem entrou pela porta da frente. A relação de cotistas normalmente não é divulgada pelas universidades para evitar que os aprovados pelo sistema sejam estigmatizados – diz a notícia.

Ora, precisamos desta relação. Para estigmatizá-los, sim senhor! A meu ver, já no diploma deveria constar quem entrou por cotas e quem jogou limpo. A omissão deste dado só serve para estigmatizar, isto sim, o candidato que não entrou por cotas. Que fica, injustamente, sob suspeição. Melhor ainda se este dado constasse na testa do candidato. Gravado com ferro em brasa. Como fazemos com gado. Assim, saberíamos de cara quais profissionais evitar.

Toda honra e toda glória ao benemérito hacker catarinense!