¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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Domingo, Agosto 31, 2008
 
POR QUE LEMOS?


Em artigo para El País, o escritor espanhol Luisgé Martín propõe uma questão curiosa: ler serve para algo bom? São menos corruptos, despóticos, coléricos ou violentos aqueles que lêem? Segundo o autor, a leitura tem uma utilidade sensorial e uma utilidade prática, mas talvez não tenha nenhuma utilidade ética, que é a que mais se apregoa. “No setor editorial e no mundo literário – um castelo de homens cultos, de cultivadores desse grande bem espiritual que é a leitura – se encontraria a maior concentração de indivíduos biliosos, astuciosos, hipócritas, vaidosos, desequilibrados e tortuosos que conheço. Inclusive, é claro, eu mesmo”.

O escritor faz algumas perguntas: são menos corruptos os que lêem? São menos despóticos em seus trabalhos ou em suas casas? Respeitam mais os sinais de tráfico? Sentem menos cólera, sabem dominá-la melhor? Têm maior clarividência política? São menos violentos? E conclui que ler nem sempre traz proveito.

Sou leitor compulsivo, daqueles que andam sempre munidos de um livro ou jornal. Sofro de uma enfermidade que certos criadores de palavras chamam de biblioagorafobia, ou seja, medo de estar em um espaço público sem um livro na mão. Certa vez, ao revisitar meus pagos, um pedritense que eu não via há décadas, comentou: “me lembro de ti. Quando guri, sempre andavas com um livro debaixo do braço”. Até hoje ando. Há quem pense que estou sozinho quando estou sozinho em um bar. Nada disso. Estou sempre bem acompanhado, seja com um autor, seja com vários. Assim, na condição de leitor compulsivo, me reservo o direito a algumas considerações.

Por que lemos? Meu estímulo inicial foi o fascínio de conseguir decifrar aqueles sinaisinhos. Eu devorava o que me caísse nas mãos, fosse jornal, revista em quadrinhos ou bula de remédio. Li muito a Reader’s Digest em meus dias de campo. A revista, se alguém dela lembra, tinha artigos em seis colunas. Bom, eu lia na reta, seguindo sempre a mesma linha de uma coluna a outra. Não era fácil entender o texto com este método. Enfim, ao final da página eu acabava pondo ordem no relato. Lia muito rápido e misturava sílabas. Durante muito tempo, contei histórias de fábulos. Só bem mais tarde, me dei conta que eram búfalos.

Até aí, o encantamento pela decifração. À medida que lia, o interesse passava a ter outro foco. A leitura, fosse ficção, fosse jornalismo, me trazia notícias de mundos distantes. Ou de épocas distantes. Aos quinze anos, já estava lendo Platão e o Quixote. Sem sair de casa, eu tinha noções da Grécia de antes de Cristo e da Espanha cervantina. Nunca me ocorreu ler tendo como objetivo o aprimoramento moral. Lia para conhecer o mundo e tentar entendê-lo. Foi graças à leitura que consegui libertar-me do jugo da religião, que me fora enfiada goela abaixo quando adolescente.

Lia muito Tarzan na época. Não apenas a revista em quadrinhos, mas também os livros de Edgar Rice Burroughs. Tarzan, em meio à selva, aprendera a ler sozinho. Descobrira livros em uma casa abandonada na floresta e tentou decifrar aqueles sinais. Dava a cada letra um valor fonético, criando assim um idioma próprio. God, para Tarzan, era Bulutumanu. Como chegou lá, não me lembro. Mas sempre me tocou este gesto, de alguém que consegue aprender a ler sem professor.

No ginásio, líamos muito, eu e um pequeno grupo de alunos. Para desconforto dos padres que eram nossos professores. Se hoje há professores que lamentam que os alunos não lêem, naqueles dias nossos professores preferiam que não lêssemos tanto.

Hoje, sexagenário, continuo lendo, talvez com mais sofreguidão do que quando jovem. Durante muito tempo li ficções. Não só li, como traduzi. As ficções me traziam construções intelectuais que propunham mundos imaginários, mas factíveis. Um belo dia, concluí que as ficções não passavam de contos de fada para adultos. E deixei-as de lado. Claro que sempre vou revisitar o Quixote, Viagens de Gulliver ou 1984. Mas as ficções contemporâneas, nunca mais. Tenho me dedicado atualmente à leitura de ensaios, particularmente sobre história e religiões. São para mim muito mais envolventes que histórias inventadas.

E não estou conseguindo dar conta destas leituras. Deve ter uma boa meia centena de livros em minha cabeceira. Ainda não dei cabo de livros da antepenúltima viagem. Talvez nem os leia. Nas viagens seguintes, encontrei títulos que me atraíram mais. Um livro acaba relegando outro à estante dos não-lidos. Uma das coisas que certamente lamentarei em minha viagem rumo ao Grande Nada, será não ter lido o que me propus ler.

Volto à questão proposta por Luisgé Martín. O articulista não vê a leitura como algo que conduza necessariamente a um patamar mais nobre em nossa existência. Eu também não vejo, nem creio que uma pessoa leia para se tornar mais sublime. O mundo está cheio de canalhas esclarecidos, de pessoas que lêem muito para melhor enganar seus semelhantes. Por exemplo, os padres. Ou os psicanalistas. Mesmo os marxistas. A seu modo, como os judeus, os marxistas eram também homens do Livro. A leitura pode libertar. Mas pode também ser um tóxico poderoso. É faca de dois legumes, como diria Lula.

Pelo menos no que a mim diz respeito, leio para entender o mundo e a mim mesmo. Leio também para curtir a beleza. Um poema de Pessoa ou Hernández, um libreto de Da Ponte, são vinhos que nos inebriam a alma.

Livros aproximam pessoas. Certa vez, em Paris, sentei em um café com Sobre Heroes y Tumbas em punho. Já o havia lido há muito, mas dava mais uma olhadela em Sábato para montar minha tese. A meu lado, sentou-se uma menina com El Túnel. O namoro começou ali mesmo. Martín Fierro é outro ponto de encontro. Fiz grandes amizades mundo afora em torno a José Hernández. Um leitor de Fierro sempre adora conversar com outro leitor de Fierro.

Ainda em Paris, ao sentar-me no Deux Magots, um garçom me abordou:
- C’est vrai, Monsieur. Qu’est ce que vous désirez?
Cerveja, é claro. Mas não entendi bem a abordagem. Só fui dar-me conta quando voltei ao livro. Eu estava lendo Les Hommes ont soif, de Arthur Koestler.

Há leituras e leituras, é claro. Nesta minha última viagem, navegando pela costa norueguesa, fiquei contente em ver pessoas munidas de livros, alguns com calhamaços com cerca de mil páginas. Povo culto, pensei. Ledo engano. Sempre que vejo alguém lendo algo, tento ver o título. Tentei e vi. Melhor não tivesse tentado. Profunda decepção com a Noruega. Não encontrei um título decente. Havia muita gente lendo Paulo Coelho - em norueguês -, outros tantos Harry Potter ou o Código da Vinci. Isso sem falar naqueles best-sellers ianques, de autores que vendem milhões mas de cujo nome nem lembro.

Ou seja: ler pode significar muita coisa. Ou coisa nenhuma.

Sábado, Agosto 30, 2008
 
ASSIM MARCHA A UNIVERSIDADE



Janer, aí vai mais um capítulo da série "Desventuras na Universidade", ocorrido anteontem. Um eminente docente da faculdade de Direito, doutorado na Itália, figura pública que já foi secretário de segurança numa grande cidade do interior de São Paulo e atualmente é candidato a vice-prefeito desta, resolveu enveredar em seu discurso por áreas, digamos, tortuosas.

"Professor, tire-me uma dúvida" pede uma senhora durante a aula, "quando vemos negros usando aquelas camisetas com a frase 100% NEGRO, isso não é também racismo? E se eu usasse uma escrito 100% BRANCO?" Ah sim, quase esqueço um aspecto relevante sobre o ilustre doutor, Janer. A sigla sob a qual se candidata é o PT... Voltemos à história. "Sim, você seria racista" foi a resposta que a pergunta-clichê recebeu. "Os negros têm um passado de repressão, escravidão. Quantos brancos foram escravizados no Brasil? A camiseta é não mais que uma forma de resgatar o orgulho." (...) "Certa feita, tive a oportunidade de lecionar em determinada faculdade para uma turma de futuros engenheiros. Vocês sabem como engenheiros são. Tudo tem de ser exato, dois mais dois serão sempre quatro. Pois bem, a primeira coisa que notei quando entrei na sala? Não havia um único aluno negro. Também não havia um único corintiano, ou seja, a classe era totalmente pura. Opa, pensei." É claro que não posso descrever toda a gesticulação do professor petista, mas em casos como esse, por exemplo, ele sorria, se curvava e levava as mãos à testa. Bastante cativante para boa parte dos discentes em seu discurso e gesticulação. Bem, de volta à história. "Em determinada altura, a propósito de outro assunto, consegui fazer um dos alunos morder minha isca e trouxe a questão racial para a discussão. É evidente que numa sala como aquela, de engenheiros brancos, elites, ninguém conseguiria entender esse problema. Usaram muito o exemplo da camiseta, sabe. Falaram de igualdade real, que as pessoas não podem receber tratamentos diferentes apenas devido sua cor, enfim. Aquela coisa de sempre" Algumas risadinhas agora.

A coisa não ficou por aí. "É por isso que defendo as cotas" (...) "Houve tempos em que militei na Bahia. Chegava 3 da tarde, você não estava mais preocupado em ganhar sua causa. Pô, você ia pra praia. Tomar água de coco. Em alguns países europeus é assim, a hora da "siesta". É por isso que quando os irmãos nordestinos vêm para São Paulo, alguns camaradas dizem que eles são preguiçosos".

O bastante, Janer? Provavelmente você deve estar rindo da história toda, mas ainda tem mais. Meu Q.I que já não é tão alto teve a chance de diminuir em mais alguns pontos. " Por que nós cremos que o roubo é errado? Digam-me, o que faz ele errado? Por que o sujeito rouba?". "Porque precisa?" arrisca um aluno. "Porque o CP assim dispõe" se aventura outra. "Não, caros, não" diz o professor com voz de quem está prestes a revelar um grande segredo, "o roubo existe porque alguém criou a propriedade privada. Entendem? Não existisse esta, o que haveria para se roubar? Suponham que três homens estivessem perdidos numa ilha. Um deles escolhe um coqueiro para dormir naquela noite. Vocês acham que os outros irão reclamar? A fonte de todos os conflitos humanos é a propriedade privada. Isso é tão claro...".

Deu para ter uma idéia? Acho que TGE será uma matéria bacana esse semestre...

Abraço,

Raphael Piaia

 
SENADOR PETISTA RECONHECE SER
BESTEIRA PROJETO DE SUA AUTORIA



Do blog do senador Paulo Paim:

Fim da polêmica

Desde quarta passada tenho recebidas inúmeras mensagens sobre o PLS
235/08, de minha autoria, que foi aprovado na Comissão de Direitos
Humanos. Infelizmente houve um erro de redação em uma das emendas
acatadas. O projeto seria de aplicação opcional e não impositiva.
Mais, a idéia original levava em consideração a proporção da população
negra economicamente ativa de cada região para, aí sim, serem
reservadas uma porcentagem de vagas para negros em empresas com mais
de 200 funcionários. Na proposta que apresentei também eram levados em
conta os requisitos educacionais e de qualificação profissional
necessários ao desempenho de cargos ou atividades. Como esses pontos
foram retirados, e, por erro de redação o projeto acabou ficando
distorcido da vontade originária, solicitei o arquivamento da
matéria."

 
QUEM TE VIU E QUEM TE VÊ!



Na véspera do Dia Nacional de Combate ao Fumo – dizem os jornais – o governador José Serra enviou à Assembléia projeto de lei que bane o cigarro dos ambientes coletivos fechados, públicos ou privados. Se a lei passar, em todo o Estado de São Paulo só será permitido fumar ao ar livre ou em casa. Os deputados devem aprovar a proposta ainda neste ano. A infração à lei pode custar R$ 3,2 milhões aos recintos.

É curioso. Quando andava catando votos para sua candidatura à Presidência da República no Rio Grande do Sul, Serra foi a Santa Cruz do Sul para dar apoio aos produtores de tabaco.

Sexta-feira, Agosto 29, 2008
 
PODEM LEVAR O NOME JUNTO


Vanderlei Vazelesk me escreve:

Meu caro Janer.
Acabei de ler o Ianoblefe. Busquei na internet e realmente está ótimo. Você faz muito bem o contraponto do jornal com os dados, que na verdade mostra aquela noção de que a imprensa faz ou desfaz um presidente, ou um conflito.
Fiquei pensando numa coisa: a essa altura da vida será que não seria melhor desintegrar do território por iniciativa própria as tais nações indígenas?
O que você acha?


Sou indiferente, Vanderlei. Tanto faz como tanto fez. Nunca me senti lá muito brasileiro. Nunca encontrei algo de que pudesse orgulhar-me neste país. Se quiserem separar-se, podem até levar junto o nome Brasil. Não me faz falta.

 
A SEQÜÊNCIA LÓGICA DA ARMADILHA



Há uns bons cinco anos, em artigo intitulado “Armadilha para negros”, escrevi:

“Ao defender os sistemas de cotas na universidade, os negros caíram em uma tosca armadilha. Podem hoje ter facilidades na obtenção de um diploma. Mas quem, amanhã, irá contratar os serviços de profissional que entrou na universidade pela porta dos fundos?”

O senador Paulo Paim, do PT, autor de outros projetos que só promovem o racismo negro, já percebeu a arapuca. Para desviá-la, apresentou projeto de lei que reserva para os negros e mulatos 46% das vagas em empresas com mais de 200 empregados e 20% dos cargos em comissão do grupo de Direção e Assessoramento Superiores (DAS) da Administração Pública. Emenda apresentada pelo relator, senador Papaléo Paes (PSDB-AP), determina o prazo de cinco anos após a promulgação da lei para que as empresas com mais de 200 empregados tenham 46% de afro-brasileiros em seus quadros. Segundo o senador, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 46% da população brasileira é composta por negros.

Ora, segundo o IBGE, a população negra do Brasil, em 99, era de apenas 5,4%. Com o acréscimo de 39,9% do contingente de mulatos, o Brasil estaria perto de ser definido como um país majoritariamente negro, como aliás é hoje considerado por muitos americanos e europeus. Com o projeto do senador, não teremos mais mulatos (ou pardos, no jargão do IBGE), mas apenas afro-brasileiros. O que os ativistas negros esquecem é que o mulato pode denominar-se tanto afro-brasileiro como euro-brasileiro. A tônica no afro tem intenções óbvias: aumentada artificialmente a população negra, torna-se fácil pressionar os legisladores para obter mais vantagens para os que não são brancos. Os ativistas negros no Congresso querem ganhar privilégios no tapetão da semântica.

O projeto do senador previa ainda a identificação racial dos negros em documentos de identidade. Segundo o Estatuto, os negros passarão a ter carteirinha de negro. Curioso observar que nas décadas passadas os movimentos negros haviam concluído que raça não existia. Agora passou a existir e deve constar em documento. Como o branqueamento é bastante generalizado no Brasil, talvez fosse melhor uma tatuagem ou adereço bem visível, como Hitler instituiu na Alemanha para judeus e homossexuais. Se aprovado tal monstrengo, este país onde a miscigenação sempre foi regra passará a discriminar oficialmente por raça. Estamos caminhando a largos passos rumo a um nazismo negro.

Há dois anos, escrevi:

“Boa parte da população negra gostou da idéia de ganhar no tapetão e não percebe a armadilha em que os negros estão caindo: tendo entrado pela porta dos fundos na universidade, serão naturalmente rejeitados no mercado de trabalho. Prevendo isso, o senador já garante em seu projeto a presença de ao menos 20% de atores e figurantes afro-brasileiros em programas e propagandas de TV. A seqüência lógica será impor estas mesmas cotas inclusive às empresas privadas em geral, acabando-se definitivamente com qualquer critério de capacitação”.

A seqüência lógica aí está, o famigerado projeto de lei que cria uma reserva de mercado. O novo projeto racista do senador Paim foi aprovado pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado, quarta-feira passada. Quando os Estados Unidos já perceberam que a idéia de cotas foi uma péssima idéia, o Brasil a assume.

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!

Quinta-feira, Agosto 28, 2008
 
CRISTO NU, NADA CONTRA



Está tendo repercussão internacional a notícia de que um juiz proibiu a revista Playboy de imprimir nova tiragem com a atriz Carol Castro nua com um terço na mão. O juiz acatou uma petição do grupo católico Juventude pela Vida, que exigiu que a edição fosse retirada das bancas por conter um fotografia que, na sua opinião, é ofensiva para os católicos.

A Playboy continua nas bancas. Foi proibida a distribuição de novas revistas com a foto impugnada sob pena de multa diária de mil reais. A proibição se aplica a futuras tiragens e à publicação da foto em outras edições da Playboy.

Ou seja, atriz nua não pode. Mas o Cristo peladão, pregado a um instrumento de tortura, está em todas as igrejas do país e até mesmo em escolas e tribunais.

Contra homens nus, o Juventude pela Vida parece não ter nada contra. Sempre achei que os romanos escolheram o suplício errado. Se o Cristo fosse empalado, duvido que os cristãos andassem por aí ostentando uma estaca.

 
AINDA O ABORTO E A BÍBLIA



Jó 3,1: Depois disso abriu Jó a sua boca, e amaldiçoou o seu dia.
2 E Jó falou, dizendo:
3 Pereça o dia em que nasci, e a noite que se disse: Foi concebido um homem!
4 Converta-se aquele dia em trevas; e Deus, lá de cima, não tenha cuidado dele, nem resplandeça sobre ele a luz.
5 Reclamem-no para si as trevas e a sombra da morte; habitem sobre ele nuvens; espante-o tudo o que escurece o dia.
6 Quanto àquela noite, dela se apodere a escuridão; e não se regozije ela entre os dias do ano; e não entre no número dos meses.
7 Ah! que estéril seja aquela noite, e nela não entre voz de regozijo.
8 Amaldiçoem-na aqueles que amaldiçoam os dias, que são peritos em suscitar o leviatã.
9 As estrelas da alva se lhe escureçam; espere ela em vão a luz, e não veja as pálpebras da manhã;
10 porquanto não fechou as portas do ventre de minha mãe, nem escondeu dos meus olhos a aflição.
11 Por que não morri ao nascer? por que não expirei ao vir à luz?
12 Por que me receberam os joelhos? e por que os seios, para que eu mamasse?
13 Pois agora eu estaria deitado e quieto; teria dormido e estaria em repouso,
14 com os reis e conselheiros da terra, que reedificavam ruínas para si,
15 ou com os príncipes que tinham ouro, que enchiam as suas casas de prata;
16 ou, como aborto oculto, eu não teria existido, como as crianças que nunca viram a luz.
17 Ali os ímpios cessam de perturbar; e ali repousam os cansados. 18 Ali os presos descansam juntos, e não ouvem a voz do exator.
19 O pequeno e o grande ali estão e o servo está livre de seu senhor.
20 Por que se concede luz ao aflito, e vida aos amargurados de alma;
21 que anelam pela morte sem que ela venha, e cavam em procura dela mais do que de tesouros escondidos;
22 que muito se regozijam e exultam, quando acham a sepultura?
23 Sim, por que se concede luz ao homem cujo caminho está escondido, e a quem Deus cercou de todos os lados?

Quarta-feira, Agosto 27, 2008
 
RECÓRTER CHAPA-BRANCA TUCANOPAPISTA
HIDRÓFOBO PERDE ATÉ PARA EDIR MACEDO



Ano passado, quando Bento XVI definiu o segundo casamento como uma praga social, o recórter chapa-branca tucanopapista hifrófobo, mais papista que o papa, definiu o italiano piaga como chaga. Um considerável séquito de carolas regozijou-se, nos comentários do blog, com a tradução de Reinaldo Azevedo. O senso de caridade cristã de Bento XVI estava salvo. Como se chaga tivesse grandes diferenças de praga. Ora, na tradução oficial da bula papal ao português no site oficial do Vaticano, lá estava: praga.

Em entrevista ao Estadão, o bispo d. Karl Josef Romer, - secretário do Pontifício Conselho para a Família, órgão da Cúria Romana e um dos nomes mais influentes do Vaticano - afirmou: "É praga mesmo, é isso que o santo padre quis dizer, pois ele é muito cuidadoso na escolha das palavras."

Hoje, em sua coluna na Veja, o recórter chapa-branca tucanopapista hifrófobo se pretendeu tradutor da Bíblia:

Quanto a Igreja Universal do Reino de Deus, dizer o quê? Vejam o trecho que cita o pastor para dizer que a Bíblia admite o aborto: “Se o homem gerar cem filhos, e viver muitos anos, e os dias dos seus anos forem muitos, e se a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é melhor do que ele".

Trata-se de uma referência estúpida, bucéfala, ignorante, rasteira ao Eclesiastes (6,3). É o que dá ouvir, na condição de “religião”, uma teologia mais jovem do que o uísque que eu bebo. Afirmar que há, no trecho, endosso ao aborto é pura delinqüência teológica e bíblica. O aborto é empregado apenas como um extremo da fealdade. Não há endosso. É o exato oposto. E de onde o pastor tirou essa pérola de interpretação? Das iluminações de autoproclamado "bispo" Edir Macedo, dono da seita.


Um dia antes do pronunciamento do bispo, eu havia citado esse versículo. Longe de mim defender Edir Macedo. Ocorre que, no caso, aborto não é sinônimo de extremo de fealdade. É aborto mesmo. Ou o recórter chapa-branca tucanopapista hifrófobo se excedeu em seu uísque jovem, ou continua tentando ser mais papista que o papa.

Leio na Bíblia de Jerusalém:

“Outro, porém, teve cem filhos e viveu por muitos anos; apesar de ter vivido muitos anos, nunca se saciou de felicidade, e nem sequer teve sepultura. Pois eu digo que um aborto é mais feliz do que ele. Ele chega na vaidade e se vai para as trevas, e as trevas sepultam seu nome. Não viu o sol e nem o conhece: há mais repouso para ele do que para o outro”.

Leio na edição francesa da Alliance Biblique Universelle:

“Un homme peut avoir une centaine d’enfants et vivre de nombreuses années. Que vaut tout cela s’il n’est pas heureux pendant sa longue vie et s’il n’est même pas enterre decemment? A mon avis, la condition de l’enfant mort-né est meilleur que la sienne. En effet, celui-ci est venu comme de la fumée sans lendemain, il disparait dans l’obscurité et personne ne se souvient de lui. Il n’a pas vu le jour et il n’a rien connu de la vie”.

Leio na Bíblia Hebraica, da Editora e Livraria Sefer:

“Se alguém gerou uma centena de filhos, viveu por muitos anos e não se contentou sua alma com tudo isto, e viu-se, ao fim, sem uma sepultura condigna, posso assegurar que ele está um natimorto, cuja vida foi vã; em escuridão ele partiu e pelo olvido foi encoberto seu nome, além do que não veio a conhecer a luz do sol”.

Ou seja, aborto é aborto mesmo. Qohélet, ao mesmo título que o Cântico dos Cânticos, é um dos livros mais transgressores do Livro, e isto o recórter chapa-branca tucanopapista hifrófobo desconhece, porque jamais leu atentamente a Bíblia. Neste sentido, perde até para Edir Macedo.

É espantoso que tal jornalista medíocre, faccioso e falacioso, tenha coluna na Veja. Bucéfalo, ignorante e rasteiro é o recórter chapa-branca tucanopapista hifrófobo.

 
DE ROSENBURG


De Carlos Vinicius Rosenburg, recebo;

Prezado Janer,

obrigado por ter postado o artigo do magistrado trabalhista. Realmente, o primeiro texto sensato que leio a respeito da celeuma criada pelo caso DD.

Seria de bom tom enviar a peça para o cronista hidrófobo tucanopapista de Veja, que a cada dia vai se tornando mais insuportável.

Um grande abraço,

Vinicius

Terça-feira, Agosto 26, 2008
 
SATYAGRAHA, ‘A RESISTÊNCIA DA VERDADE’ JURÍDICA (I)


Luiz Fernando Cabeda

(magistrado retirado do TRT da 12ª Região com estágio na Escola Nacional da Magistratura da França, Seção Internacional)


Por que uma longa investigação da Polícia Federal sobre lavagem de dinheiro e crime organizado abalou estruturas judiciárias e do Ministério da Justiça, trazendo a sombra da demasiada proximidade do que é corrompido e do que é corruptor sobre a administração pública. Intriga, atentados ao Direito, bodes expiatórios, sacrifícios rituais e o perigo de, pela prepotência e a retórica da indignação, renovar-se o temor de Albert Camus: haverá sempre o risco do retorno da peste para sitiar nossa cidadela novamente.




1. OS ELEMENTOS

Os dias que correm entre os semestres de 2008, quando aconteceram os fatos mais notórios da Operação Satyagraha da Polícia Federal, têm de ficar bem documentados. Não só com os muitos registros na internet, misturando fatos, opiniões técnicas ou nem tanto, e especulações. Os acontecimentos que ultrapassaram os dados formalizados nos processos judiciais, que a referida operação suscitou, são aqueles que importam - no que respeita ao interesse público - restando os demais restritos à perseguição penal. Além do que nos foi apresentado como cidadãos, é preciso fazer os registros interpretativos, que assinalem as posições marcantes, com base no Direito que tem de ser aplicado, por trazer nele próprio seu elemento justificador, sua medida e sua necessidade. Trata-se, em suma, de acessar a verità effetuale percebida por Maquiavel, em sua era inquieta.
Tempos virão em que será observado o quanto as circunstâncias de agora foram emblemáticas, puseram em teste a força das instituições, a ordem das prioridades e a lucidez das políticas públicas. Como temia o poeta Thiago de Mello em relação à liberdade (que, para ele, tinha de ser simplesmente vivida), a invocação no pântano das bocas da palavra “democracia”, ou do compromisso de garanti-la, com o uso de afirmações frementes, serviu muito ou apenas para abjurá-la, diante de um caso concreto, histórico, retumbante, em que a retórica jurídica foi uma veste curta para esconder a desmedida vontade de mandar ou de impor. Quando o Poder Judiciário foi buscado para servir a esse fim, desviou-se da sua legítima investidura para pretender implantar uma “escravatura da toga”. Ó gloria de mandar/ ó vã cobiça... prevenira-nos Camões em seu épico.

Segundo Ortega y Gasset, Galileu Galilei escreveu: aqueles que não acreditam na corrupção deveriam ser transformados em estátuas. Supostamente, o grande físico se referia à transformação dos astros, trajetórias, massas, de tudo o que observava no céu. Mas isso, na época da Inquisição, também era referir-se a outra profunda transformação, a ideológica; mudança literal da visão do mundo. A amplitude da frase até a sua dubiedade (que comoveu Ortega quando escrevia exatamente sobre matéria política, em Mirabeau ou O Político) se justifica a partir do adjetivo latino corruptibilis, que quer dizer transformado, alterado e corrupto. Diferente da Física - que trata da mudança dos corpos e dos estados - tanto no sentido penal como no dos costumes, corrupto é quem altera, pelo seu comportamento, o respeitável em vil, o honesto em fraude, o que é para o coletivo no que é um bem para si próprio. Há, neste último significado de apropriação indevida, mediante atos simulados, um conluio que sempre configura um certo grau de impostura. Na falsa suposição de que manda, pelo seu dever de ofício ou pelo poder de que está investido, o corrompido na verdade obedece, mediante algum tipo torpe de ganho. Aqueles que coonestam tais atos dão curso à aparência de legalidade, que pretende revestir tudo de uma noção repositória do certo-respeitável-absoluto, ícone da moral vitoriana só desfeito com a sistematização da psicanálise. Diante do estratagema, o bem jurídico protegido pela lei ou pelos códigos de conduta – na sua expressão mais técnica e estrita _- foge ao nosso reconhecimento como a estrela cadente no céu. Voltando a Galileu, na dramatização de Bertolt Brecht, seu pedido não era o de que os poderosos da ordem estabelecida acreditassem nele, mas nos seus próprios olhos, mirando pelo telescópio. Então, supunha ele, as “estátuas” não ficariam em pé.

2. A SINOPSE

Por cerca de quatro anos procedeu-se a uma investigação policial, com o acompanhamento do Ministério Público e a autorização judicial para buscas, quebra de sigilos e interceptações, necessários para o descobrimento dos atos ilícitos visados. Tratava-se de um conjunto complexo de movimentações financeiras vultosas, com o uso de paraísos fiscais, para controlar companhias públicas que foram privatizadas; de evasão de divisas, lavagem de dinheiro, fraudes ao fisco, enriquecimento ilícito, tráfico de influência e corrupção ativa ou passiva.
Um banqueiro e sua mulher suspeitos desses crimes ingressaram com habeas corpus perante o Tribunal Regional Federal da 3ª Região, postulando salvo-conduto, pois as investigações autorizadas pela 6ª Vara Federal de São Paulo visavam a seus interesses e pessoas. A pretensão foi denegada. Outro habeas foi interposto com o mesmo sentido no Superior Tribunal de Justiça, tendo a liminar sido negada pelo Ministro Relator. Mais uma ação de mesma natureza deu entrada no Supremo Tribunal Federal, apontando agora como autoridade coatora o Relator no STJ.
Embora a Súmula 691 da Suprema Corte disponha que: “Não compete ao Supremo Tribunal Federal conhecer de habeas corpus impetrado contra decisão do relator que, em habeas corpus requerido a Tribunal Superior, indefere a liminar” , o ministro Eros Grau recebeu a distribuição do processo HC 95009, conheceu do pedido, requisitou informações e postergou o exame da liminar pedida para depois de que fossem prestadas. Com isso, o Supremo descumpriu sua própria jurisprudência sumulada, sem expor nenhuma fundamentação, exatamente quando vem editando rapidamente súmulas vinculantes que submetem as instâncias ordinárias às suas interpretações.
Durante o recesso do STF efetivou-se a prisão temporária de alguns implicados, por cinco dias. O Presidente da Corte, ministro Gilmar Mendes, concedeu a ordem liberatória, mas não tratou da questão do salvo-conduto. Pouco depois, o banqueiro paciente voltou a ser preso, desta vez preventivamente, tendo em conta o fato específico da tentativa de suborno a Delegado da Polícia Federal. Novo pedido adjutório foi formulado e concedido pela mesma autoridade.
Tendo em vista o teor das decisões, mais particularmente da última, a Associação dos Juízes Federais – AJUFE, a Associação dos Magistrados do Brasil – AMB, a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho – ANAMATRA, a Associação Latino-Americana de Juízes do Trabalho – ALJT e a ONG Juízes Para a Democracia emitiram notas públicas de desagravo ao magistrado titular da 6ª Vara de São Paulo, posicionando-se contra qualquer atentado às suas garantias funcionais. O mesmo foi feito em duas listas de juízes nominados, uma no Estado de São Paulo, outra mais abrangente (incluindo procuradores) no Estado de Santa Catarina, totalizando pelo menos trezentos e trinta e um nomes. Também a Associação Nacional do Ministério Público Federal – ANMPF – publicou nota oficial defendendo a atuação e as garantias do Procurador da República e do Juiz Federal que atuam na 6ª Vara de São Paulo. Manifestação crítica sobre os desdobramentos judiciais do caso no STF, com a soltura dos presos, foi divulgada pela Associação dos Delegados da Polícia Federal – ADPF.
De outro lado, um grupo de advogados de São Paulo e a Associação Nacional dos Defensores Públicos pronunciaram-se em apoio às decisões do ministro Gilmar Mendes. A AJUFER – Associação dos Juízes Federais do Rio de Janeiro levou ao STF nota pública completamente anódina, defendendo a competência da Suprema Corte e manifestando-se preocupada com as repercussões. O Presidente do STF concedeu várias entrevistas e fez declarações públicas (há notícia de algumas no site do Tribunal) antes e depois de decidir. Já o Juiz Titular da 6ª Vara, Fausto Martin De Sanctis, divulgou informação à imprensa, através da assessoria do TRF da 3ª Região, no sentido de que as deliberações de instâncias superiores foram sempre acatadas por ele e que nunca existiu ordem para qualquer monitoramento no STF.
Houve, por fim, manifestações incidentais nos meios de comunicação do Presidente da República e várias outras, pateticamente contraditórias, do ministro da Justiça. Muitos falaram, tendo ou não tendo o que dizer; a confusão se instalou; pessoas leigas – que desejavam apenas estar bem informadas como cidadãos - de repente ficaram sem saber o que estava acontecendo. Em dado momento, parecia que o uso de algemas e a cobertura jornalística dos fatos teriam se convertido nos principais focos, passando a ser mais importantes que os próprios fatos. E logo tudo se encaminhou para o propósito de modificar de afogadilho a lei dos crimes de abuso de autoridade, para nela introduzir novos tipos e penas maiores (isso ainda não aconteceu). O Senado tratou de movimentar um projeto para a disciplina do uso de algemas (PLSen, 185/04, Senador Demóstenes Torres); pouco depois, o Supremo apressou-se na elaboração de uma súmula vinculante a respeito, tendo em conta o julgamento do HC 91952 e a nova redação do artigo 474 do CPP, dada pela Lei 11.689/2008, verbis : "Não se permitirá o uso de algemas no acusado durante o período em que permanecer no plenário do juri, salvo se absolutamente necessário à ordem dos trabalhos, à segurança das testemunhas ou à garantia da integridade física dos presentes”. Essa lei foi publicada no DOU em 10.06.2008 e seu artigo 3º determinou a entrada vigor sessenta dias depois. Os atos culminantes da Operação Satyagraha ocorreram em 07.2008.
Ocorreu ainda o afastamento do Delegado Protógenes Queiróz (que chefiou as diligências investigatórias por quatro anos), fato obscuro que é objeto de sindicância administrativa , e de exame pelo Ministério Público da hipótese de obstrução da Justiça, por parte de seus superiores na Polícia Federal.

 
SATYAGRAHA (II)



3. O EXAME EXTERIOR DO CASO

De que trata l’affaire? Certamente é um caso amplo e continuado de corrupção, sob variados tipos penais; mas também da dificuldade do Estado brasileiro em lidar com esse problema, que gera tanta desmoralização social. Seu exame remete à pergunta: há respostas estatais possíveis para conter esse mal, ou ele é de tal modo crônico e ramificado que, ao contrário do esperado, são as pessoas que lhe dão combate as vítimas de alguma degradação?
Não foi levantada nenhuma dúvida a respeito da existência de muitos indícios de crimes e de motivos bastantes para a investigação policial. Logo, considerados os elementos existentes para caracterizar a causa legal, o inquérito policial está justificado. Há fatos e conexões suspeitas. A iniciativa da Polícia Federal não padece de nenhum questionamento de nulidade absoluta, que seja conhecido. O controle da legalidade foi feito pari passu pelo Ministério Público. Os atos de busca e interceptação que dependiam de autorização judicial realizaram-se na forma devida. Há uma suposição segura e geral de que a ampla investigação nunca teve essência de abuso.
Um casal suspeito, levado ao temor da prisão, procurou repetidamente a Justiça.
O habeas corpus visando a um salvo-conduto era o meio processual próprio. O trânsito sucessivo das impetrações no TRF-3ªR e no STJ foi normal. Já na instância extraordinária, o ministro Eros Grau descumpriu a Súmula 691 de sua própria Corte, sem fundamentar porque o fazia, conheceu do pedido, requisitou informações e reservou-se para decidir sobre a liminar após recebê-las.

4. AS DECLARAÇÕES PÚBLICAS

As primeiras declarações públicas, inclusive do Ministro Gilmar Mendes, surgiram quando da efetivação das prisões temporárias. Elas tiveram como alvo de crítica, principalmente (1) o uso abusivo das algemas, tido como distoante do entendimento adotado pelo STF; (2) o caráter “de espetáculo” na cobertura daqueles eventos; (3) o vazamento de informações, de modo a permitir a cobertura instantânea de parte da imprensa e (4) o quadro de “total descontrole de ações constritivas da liberdade” colocando as medidas da tutela judicial (interceptações, apreensão) em choque com as garantias democráticas.
Outras declarações foram feitas quando da segunda ordem de prisão, desta vez preventiva, com base no fato da tentativa de suborno de Delegado da Polícia Federal. Dessa vez foram mencionadas (1) a desobediência por via oblíqua da ordem liberatória do STF; (2) o monitoramento ilegal de autoridades daquela Corte; (3) a existência de juiz, ou juízes, na assessoria do ministro Gilmar Mendes, com quem trataram – em abordagem normal - advogados dos pacientes.

Deveres dos juízes - A Lei Complementar nº. 35/79 (Lei Orgânica da Magistratura Nacional) foi recebida pela Constituição Federal, está em vigor com todos os dispositivos não conflitantes, e assim permanecerá até que seja editado o Estatuto da Magistratura, cujo projeto ainda está em elaboração no STF.
No art. 36, a LOMAN dispõe: “É vedado ao magistrado (...) III – manifestar, por qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente de julgamento, seu ou de outrem, ou juízo depreciativo sobre despachos, votos ou sentenças de órgãos judiciais, ressalvada a crítica nos autos e em obras técnicas ou no exercício do magistério.” O Presidente do Supremo violou frontalmente essa regra. Criticou pelos meios de comunicação a atuação do juiz de primeiro grau e da Polícia Federal, quando esta cumpria mandado ou diligência autorizados judicialmente. Nisso incorreu em injustificável ilegalidade. Ilegalidade essa que afeta a garantia ao direito fundamental do due process of law. E isso leva ao justo temor de crítica pelo jurisdicionado pois, embora seja isso o que os seus olhos vêem, parece que o Direito só emana d’Ele, e ele, erigido em Ele, é quem diz o Direito, por considerar-se a sua fonte.
Caso tivesse ocorrido o contrário (o Juiz De Sanctis criticar publicamente as intervenções do ministro Gilmar Mendes), estaria já em curso o processo administrativo com finalidade punitiva daquele.

Algemas - Não se pode dizer que o STF tivesse firmado posição definitiva a respeito do uso legal das algemas, guardado o permissivo do CPP (art. 474, parágrafo 3º, tanto na antiga como na nova redação), que trata unicamente dos julgamentos no Tribunal do Juri.
Conforme se viu na retrospectiva acima, foi a Operação Satyagraha que despertou polêmica a respeito, dando causa a um surto de promessas e iniciativas sobre o uso adequado de algemas. As prisões realizadas ocorreram antes de entrar em vigor a Lei 11.689/2008 e não se destinavam à apresentação de preso a Tribunal de Juri.
Até então, o julgamento mais completo da Suprema Corte, com a sua exata indexação, fora aquele que se encontra no site do STF, Processo HC/89.429-1, julgado em 22.08.2006. Porém, trata-se de um pronunciamento da Primeira Turma, não do Pleno. Por ser um acórdão bastante completo, era bem previsível que viesse a ser adotado como a interpretação constante do Supremo ao longo do tempo, com a cautela e o cuidado que costumam ser característicos dos tribunais.
Quando daquele julgamento, relativamente recente em termos de jurisprudência, o Ministro Sepúlveda Pertence declarou, ao dar seu voto de acompanhamento, que – pela primeira vez – o Supremo enfrentava a questão do uso das algemas de modo sistemático e completo.
A ementa da ministra Cármen Lucia assim dispôs: “O uso legítimo de algemas não é arbitrário, sendo de natureza excepcional, a ser adotado nos casos e com as finalidades de impedir, prevenir ou dificultar a fuga ou reação indevida do preso, desde que haja fundada suspeita ou justificado receio de que tanto venha a ocorrer, e para evitar agressão do preso contra os próprios policiais, contra terceiros ou contra si mesmo.”
Do ponto de vista da técnica jurídica, não se poderia pressupor, quando das prisões ocorridas na Operação Satyagraha, a tipificação de arbitrariedade no uso universal praticado erga omnes da pulseira de contenção. Tal tipificação não existia. E ainda não existe. A Súmula vinculante que veio a ser agora editada, “Só é lícito o uso de algemas em caso de resistência e de fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros, justificada a excepcionalidade por escrito, sob pena de responsabilidade civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual a que se refere, sem prejuízo da responsabilidade civil do Estado”, é uma orientação jurisprudencial impositiva. Seu texto (por ser posterior às prisões do caso Satyagraha) será examinado em outro artigo. Por ora, não será ocioso lembrar que jurisprudência não é fonte de tipificação penal, matéria reservada à lei. Hoje, o que se tem por assentado em Direito Constitucional, é que o Supremo, como intérprete maior da Carta, reconhece e declara a inconstitucionalidade e a prevalência da declaração de direitos quanto a leis e atos normativos. Não quanto a atitudes e atos infracionais. Estes estão submetido às regras do ordenamento jurídico. Têm de ser determinados à luz do devido processo legal.
O caso do banqueiro preso (e o de um ex-prefeito de São Paulo) suscitou uma repentina, obsessiva e ressentida ira, tudo a impor urgência urgentíssima, como se o fato de algemar tivesse absorvido todo o interesse processual do caso. Convém lembrar que existia um HC no STF com pleito de salvo-conduto. Nele poderia ter sido também pedido, alternativamente, no caso de não ser concedido, que não se usassem as algemas se sobreviesse o aprisionamento. Mas não foi.

Exposição indevida - Com o uso dos meios eletrônicos, inexiste “exposição indevida” de pessoas públicas, dessas que divulgam fatos de seus negócios, de sua vida pessoal, das qualidades de que se julgam portadores, concedem entrevistas narcíseas, etc. O vaticínio de Marshall McLuhan se realizou: os media são a mensagem; o mundo é a global village. Se o fato aconteceu, se há uma situação de existência real de um acontecimento da vida em sociedade, ele pode ser divulgado. Dispositivos legais que resguardam a privacidade, o uso restrito da imagem, as situações internas vividas em família, não se aplicam ao caso aqui examinado. De outro lado, o resguardo da fonte constitui garantia ao exercício do jornalismo. O próprio ministro Gilmar Mendes saudou o fato do pedido de prisão temporária de uma jornalista (flagrada em conversas telefônicas suspeitas com pessoas investigadas) ter sido negado pelo juízo de origem.
A mesma jornalista anunciou no jornal em que trabalha a iminência das prisões. Quem apostou na veracidade da notícia, obteve a cobertura no acompanhamento delas.
É isso o que se tem; nada mais que isso.

Monitoramento - O pretenso monitoramento de ministros do STF não guarda sequer indícios elementares. Foram feitas as chamadas varreduras, sem resultado. Existe um serviço especializado no Supremo para cuidar disso.
Por que, no curso de julgamentos, levantar uma questão dessa ordem, como se o juiz de primeiro grau devesse ser censurado publicamente e sitiado até o grau da paralisia, pelo que fez e pelo que não fez? Não seria essa sim a verdadeira “exposição pública” dolosa?

Competência disciplinar - O Supremo Tribunal Federal não exerce atividade censória, a não ser quanto aos seus próprios integrantes. Mesmo que ocorra o strepitus fori não se encontra na sua legítima e alta competência constitucional censurar publicamente a conduta processual de magistrado dos outros graus de jurisdição. O processo punitivo é da competência estrita dos tribunais aos quais o juiz se vincula.

Juiz assessor? – Em declarações incidentais, houve referência a cargo de juiz assessor do presidente do STF e do CNJ. Se algum juiz em atividade faz isso, está incurso em grave ilegalidade. O magistrado não pode ser afastado do exercício de sua jurisdição, a não ser nos estritos casos previstos na LOMAN, mas nunca para prestar assessoramento. As “coortes” de áulicos desapareceram com o nome barroco. Demais disso, se o juiz-assessor recebe pelo exercício dessa função que não é dele, comete enriquecimento ilícito por acumulação vedada na Carta, a qual permite apenas acumular o cargo judicial com uma função de magistério.
Se o juiz é convocado da inatividade, ainda assim a ilegalidade se faz presente, pois o entendimento (este sim reiterado) do STF é o de que não pode haver na inatividade acumulação que seja vedada na atividade.

O resumo de todos esses tópicos indica, necessariamente, que as censuras públicas do ministro Gilmar Mendes emitidas no caso, apontando o valor ou o desvalor de medidas jurisdicionais tomadas, foram indevidas. Serviriam melhor à justiça se tivessem sustentado teses nos autos, retirando-as “do pântano das bocas” que Thiago de Mello não suportava.


5. A PRIMEIRA DECISÃO

A decisão liberatória de 9/07/2008, adotada no HC 95.009, teve como base de fato a alteração do estado dos pacientes, de pretendentes a um salvo-conduto, pois eles foram presos. Invocando a base de direito na “inexistência de requisitos”, como queriam os impetrantes; pela ausência de necessidade da prisão para a coleta de mais provas e por inexistir a justa causa, principalmente frente aos direitos e garantias individuais, o ministro concedeu a soltura. Nos fundamentos, há uma breve notícia sobre a carência na individuação das imputações, não repetida na conclusão.
O dispositivo se baseia unicamente na “falta de fundamentos suficientes” e na “ausência de necessidade” para manter a prisão, tendo em conta o efetivo cumprimento dos principais mandados de busca.
A sentença de primeiro grau era minuciosa, estendendo-se por 175 páginas. Retiradas as longas transcrições e citações, a decisão do presidente do STF foi curta. Lamentavelmente não apontou, embora os tenha contado, sequer um dos 88 incisos e 4 parágrafos, instituidores dos direitos individuais, que tenha sido violado em primeiro grau. Igualmente, nenhuma nulidade foi cogitada.
Contudo, a decisão tomada no HC o foi pela autoridade competente e é uma peça de autoria, revela um tipo de entendimento que caberá somente ao coletivo do STF confirmar ou modificar. Não se deve fazer crítica apreciativa de mérito fora dos autos, salvo para a história, que só se constrói no curso do tempo, fora do objetivo visado neste texto.
É muito relevante observar, ao fim, que a liberação dos presos não foi seguida pela concessão de um salvo-conduto, quanto ao prosseguimento das investigações. E a pretensão a este último constituía o pedido originário. Logo, a possibilidade de ser decretada nova prisão, por fatos e fundamentos diversos, nunca teve nenhum impeditivo prévio, fixado judicialmente.

 
SATYAGRAHA (III)



6. A SEGUNDA DECISÃO

Nova ordem de soltura foi concedida em 11.07.2008, depois de decretada a prisão, desta vez preventiva, pela tentativa de suborno de delegado federal.
A decisão do Presidente do STF qualifica como “argumentos especulativos” os motivos adotados para o encarceramento. Entendendo que o magistrado de primeiro grau apenas supõe a possibilidade de interferência do banqueiro na coleta de novas provas, qualificou essa motivação como “rematado absurdo”.
Embora a cena da tentativa de corrupção haja sido filmada, um dos presos tenha indicado em depoimento a intermediação em favor do banqueiro, sobrevindo a apreensão de dinheiro em valor compatível com a propina prometida, o decisum diz que “a própria materialidade do delito se encontra calcada em fatos obscuros, até agora carentes de necessária elucidação”.
A apreensão de documento na casa do paciente (contendo um rol de pagamentos) foi considerada imprestável como prova de autoria, por ser ele apócrifo e conter “lançamentos vagos relativos ao ano de 2004”.
Adiante, a “duvidosa idoneidade e vago significado” da prova documental foi repisado.
A partir daí, a decisão atribui ao juiz de primeiro grau o uso de “nítida via oblíqua de desrespeitar a decisão deste Supremo Tribunal Federal”. Invoca o precedente do HC 94.016, relatado pelo ministro Celso de Mello, para apontar “reiterações de decisões constritivas” daquele magistrado. Afirma que “não é a primeira vez que o Juiz Federal Titular da 6ª Vara Criminal da Subseção Judiciária de São Paulo, Dr. Fausto Martin de Sanctis, insurge-se contra decisão emanada desta Corte”. Determina o envio de cópias para o TRF da 3º Região, a Corregedoria-Geral da Justiça Federal, o Conselho da Justiça Federal e para a Corregedoria Nacional de Justiça.
Diante do verdadeiro levante de juízes e de associações, relatado no início deste texto, o ministro Gilmar Mendes recuou. Encaminhando ofício ao Presidente da AJUFE, afirmou que: “o envio de peças a órgãos jurisdicionais administrativos (sic) objetivou unicamente complementar estudos destinados à regulamentação de medidas constritivas de liberdade, ora em andamento tanto no Conselho Nacional de Justiça quanto no Conselho da Justiça Federal”.

Intervenção autoritária na atividade jurisdicional - As críticas pessoais feitas pelo presidente do Supremo ao Juiz da 6º Vara Federal de São Paulo não se compadecem com a atividade jurisdicional.
Se tivesse havido descumprimento de decisão do STF, o procedimento previsto no Regimento Interno daquela Corte seria o dos artigos 46 e 47, por desobediência. Nem o ministro Celso de Mello, nem o próprio ministro Gilmar Mendes procederam como ali está previsto. O primeiro desses julgadores, ao invés de censurar o Juiz De Sanctis, apenas explicitou a extensão da ordem de HC que havia deferido (de suspensão cautelar de uma ação penal). Dessa forma, não há precedente algum. Não existe nenhuma desobediência documentada.
A desqualificação de um julgador, tentada em peça processual, é ela própria auto-desqualificante; atenta, ela sim, contra o exercício jurisdicional pleno estabelecido na divisão dos Poderes.
Apreciação sumária da prova dando-lhe inidoneidade definitiva - A apreensão de um documento apócrifo não retira a validade como indício. O lugar onde foi encontrado importa. O tempo da datação pode indicar uma linha de continuidade até o presente. A regularidade do auto de apreensão preenche o requisito formal. A prova pericial posterior poderá acrescer a autenticidade e a grafoscopia, a autoria.
O depoimento circunstanciado de preso, filmado na prática de ato ilícito, não pode ser descartado definitivamente em um exame liminar. Tanto mais se o teor não foi impugnado com base em algum vício de manifestação da vontade. Não pode ser descartado definitivamente como res derelicta em um processo.
A suspeita de que o investigado venha a tentar a corrupção ativa, para interferir nas investigações, quando já existe um episódio documentado mostrando isso, não é nenhum “rematado absurdo”. Esse abuso no uso da linguagem não convém à metodologia do processo penal; ele próprio é um deslize.

A retaliação pessoal – O encaminhamento de cópias da decisão do Presidente do STF para duas corregedorias está em desacordo mesmo com a explicação dada pelo ministro Gilmar Mendes ao Presidente da AJUFE. Se o propósito fosse o de colaborar com estudos no Conselho Nacional de Justiça, por que o envio não foi feito para esse órgão. Por que escolher duas Corregedorias como destinatárias ?
O intento de intimidar o juiz de primeiro grau está claro. Essa vontade determinada superou mesmo o princípio da legalidade.
A atividade correicional se destina unicamente a retificar vícios cometidos in procedendo, nunca in judicando. Caso contrário, invadiria a competência recursal dos tribunais. Também só estes detêm poder censório, que exige processo especial e se inicia por representação fundamentada.

Supressão de instância – O banqueiro preso não foi beneficiado com salvo-conduto. Portanto, poderia ser preso novamente, por outro motivo específico não coincidente com o da primeira prisão, ainda que revelado no mesmo procedimento investigatório já deflagrado.
Foi isso o que ocorreu.
Logo, a instância recursal era o TRF da 3ª R. Da decisão dessa Corte, caberia ser formulado pleito perante o STJ. Só então, contra o último órgão, a competência decisória passaria ao STF.
O mediano conhecedor de Direito Processual sabe disso; sabe também que houve supressão de instância na segunda decisão do Presidente do STF.
Como disse bem o procurador da República que atua na 6ª Vara Federal de São Paulo, Rodrigo de Grandi, ao suprimir-se o rito nas instâncias intermediárias, criou-se um foro especial para o banqueiro no STF.
O Brasil ficou mais desigual, pois a desigualdade da sociedade foi introjetada na estrutura do Judiciário. Com soberbo despudor, a igualdade perante a lei foi assassinada.

7. A CORRUPÇÃO SEMPRE OBCECA

É digno de uma nota final o fato de que nenhuma das decisões do ministro Gilmar Mendes tratou da “exposição pública” dos presos, do “caráter espetacular” pelo envolvimento da imprensa e do uso abusivo das algemas. Tudo isso foi embutido no exame do caso como um pano de fundo sem finalidade visível.
Portanto, fica a pergunta: por que fazer repetidas declarações a respeito, como que com um propósito de desestabilizar as carreiras do juiz da causa e do delegado chefe das investigações, se isso nunca fez parte da res in judicio deducta?
O esteio deste texto é marcar um episódio de larga repercussão, muitas implicações já sabidas, outras por saber ou não, conforme ele se desenvolva.
Esta marcação deveria ser feita por todos os que pudessem, em honra a muitos que devem ser repetidamente honrados. Para lembrar um só deles, basta invocar o nome do ministro Ribeiro da Costa, que presidiu o Supremo ao tempo da escalada do estado de exceção. Foi eleito pelos iguais, independente da medida do mandato, até que se esgotasse o tempo da sua jurisdição. Ele manteve a lúcida defesa do direito efetivo de que todos nós precisamos para viver, sem pompas, sem algaravias, mas irrecusável na sua legítima grandeza, que tanto obceca poderosos fugazes, cuja herança é só a das suas mazelas.
O mestre Paulo Rónai lembra-nos a Sátira de Juvenal: concedes licença aos corvos e envergonhas, com as tuas censuras, as pombas.
Do episódio aqui já longamente exposto, foi tudo o que ficou.

 
IANOBLEFE



Amanhã, o Supremo Tribunal Federal deverá julgar a ação civil pública, impetrada pelo Governo do Estado de Roraima contra a demarcação contínua das terras da Reserva Indígena Raposa Serra do Sol. A decisão é grave, pois dela dependerá a demarcação de mais 144 áreas indígenas. Sobre as togas dos ministros recai a decisão de manter o país unido ou dividi-lo em mais de uma centena de "nações", como já são denominadas as tribos.

Para entender melhor o que está em jogo, leia meu ensaio Ianoblefe, em
http://www.scribd.com/doc/2544728/Ianoblefe

Segunda-feira, Agosto 25, 2008
 
QOHÉLET E O ABORTO



Jornalistas católicos, entre eles o recórter tucanopapista hidrófobo, estão preocupados com a próxima decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o aborto em caso de anencefalia. Certamente ainda não leram o Eclesiastes. Aliás, a cada dia que passa, suspeito que os católicos não costumam ler a Bíblia. Aliás, nem suspeito. Tenho certeza.

6:1 Há um mal que tenho visto debaixo do sol, e que pesa muito sobre o homem:
2 um homem a quem Deus deu riquezas, bens e honra, de maneira que nada lhe falta de tudo quanto ele deseja, contudo Deus não lhe dá poder para daí comer, antes o estranho lho come; também isso é vaidade e grande mal.
3 Se o homem gerar cem filhos, e viver muitos anos, de modo que os dias da sua vida sejam muitos, porém se a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é melhor do que ele;
4 porquanto debalde veio, e em trevas se vai, e de trevas se cobre o seu nome;
5 e ainda que nunca viu o sol, nem o conheceu, mais descanso tem do que o tal;
6 e embora vivesse duas vezes mil anos, mas não gozasse o bem, - não vão todos para um mesmo lugar?

 
MENSAGEM DO JOSÉLIO



Olá, Sr. Cristaldo,

o Humberto Quaglio fez a observação que iria fazer sobre a tradução de Almeida, mas ele a fez com muita singularidade. Ademais, as versões mais recentes de Almeida já usam a expressão filhotes em lugar de cachorros.

Josélio Silva

 
QUAGLIO ME CORRIGE



Prezado Janer,

Saudações,

Escrevi “Santos=Dumont e cachorros” no título do e-mail, mas não pretendo falar da cadelinha Fly, que o grande aeronauta criava em Cabangu.

Li seu artigo “Sobre Traduções”, e muito me interessou a obra mencionada, de Jean Soler, que quero ler, tão logo seja traduzida para uma língua que eu conheça, ou tão logo eu aprenda francês. O que vier primeiro. Mas vamos aos cachorros. Você escreveu em seu artigo: “Ora, que história é essa de cachorros de leões, de leoas criando cachorros, de ursa roubada de seus cachorros? É simples. A reputada tradução de João Ferreira de Almeida foi feita a partir do espanhol. Em espanhol, filhote é cachorro. Já o nosso cachorro é perro. Pior ainda, o insigne tradutor da Bíblia ao português desconhece palavrinhas básicas do espanhol.”

Eu posso estar errado, mas acho que não foi um caso de desconhecimento do espanhol. Se eu não estiver enganado, a palavra “cachorro”, em português, significa filhote de qualquer mamífero, assim como no espanhol, e o uso da dita palavra para designar o cão é um brasileirismo. Com o tempo, o uso da palavra “cachorro” com o significado de filhote caiu em desuso na língua portuguesa, mas alguns dicionários ainda informam, no verbete “cachorro”, o significado “cria de leão, tigre, urso etc.”, como em
http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=cachorro.

Fiz apenas uma pesquisa rápida na internet, estou no trabalho e não tenho um bom dicionário por perto. Quando chegar em casa, vou tirar a dúvida.

Eu me lembro ainda, vagamente, que em um romance do Érico Veríssimo, (ou outro autor brasileiro, se não me falha a memória, mas tenho quase certeza que foi em “O Retrato”), eu li um diálogo entre dois personagens, em que um deles se refere a um cão como cachorro, e o outro, pernóstico, corrige o primeiro dizendo que o termo correto para o animal adulto é “cão”, e não “cachorro”.

Então, escrever “cachorro de urso” ou de leão, ou de lobo, não seria um caso de barbarismo, mas sim de arcaísmo, ou pedantismo mesmo. Só que, no caso da tradução do Almeida, feita no século XVII, nem arcaísmo seria. Provavelmente era linguagem corrente mesmo, em bom português, e não um espanholismo. De fato, a tradução de Almeida não é fiel, mas não é reputada sem motivo. Ela é para nossa língua o que a King James Version é para a língua inglesa.

Quanto a Santos=Dumont, em seu artigo “Porque choram nossos bravos” você escreveu que ele é produto da França, e que seria tido como maluco no Brasil da época. Não vou negar que a cultura francesa da época foi forte influência na vida dele. Isto seria absurdo. Nem vou defender a idéia de que a cultura brasileira tenha muitos méritos em relação aos feitos dele. Afinal, por ser Santos=Dumont meu conterrâneo, mineiro da Zona da Mata, ouço esse discurso laudatório que enfatiza seu local de nascimento com muita freqüência. “Grande brasileiro”, “grande mineiro”, “grande sandumonense”, até “grande barbacenense”, vivem dizendo por aqui.

Mas também não penso que ele tenha sido mero produto da França de seu tempo. Se assim fosse, a França teria gerado outros “produtos” tão expressivos quanto ele. É óbvio que ele não teria realizado o que realizou sem ter acesso aos clubes de aeronáutica que por aqui não existiam. Mas a França não teria visto os mesmos feitos em 1906, por uma só pessoa, se aquele indivíduo não estivesse lá. O que quero dizer é que seus contemporâneos franceses não fizeram nada que se comparasse ao que ele fez sozinho, e se o meio fosse o fator mais importante, teríamos, na mesma época e local, diversos engenheiros e aeronautas tão célebres pelo pioneirismo quanto ele. Vale lembrar também que Santos=Dumont só foi viver e estudar na França depois dos vinte e quatro anos, que desde sua juventude ele mostrava aptidão natural para lidar com máquinas e mecânica, e que nunca se graduou em engenharia. O mérito pelos seus feitos não é do Brasil nem da França, nem de Cabangu nem de Paris. É dele.

Um grande abraço de seu leitor,

Humberto Quaglio


Touché, Humberto.

Fui conferir no Houaiss e, de fato, essa acepção existe. Só me resta pedir desculpas ao Almeida. Mais ainda: vou suprimir este trecho da crônica, para evitar que eventualmente seja reproduzido.

Domingo, Agosto 24, 2008
 
SOBRE TRADUÇÕES



Entre os livros que comprei na última viagem está o excelente Aux Origines du Dieu unique, de Jean Soler, ensaísta que foi conselheiro cultural da embaixada da França em Israel. São três volumes que estou devorando com avidez: L’Invention du monotheísme, La Loi de Moïse e Sacrifices et interdits alimentaires dans La Bible. Estou concluindo o segundo volume e já lamentando que só resta um para ler. Soler conhece a fundo tanto o Livro como o judaísmo, e os disseca com a precisão de um cirurgião.

Dito isto, citei em crônica passada um trecho do Gênesis: “Sucedeu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos dos deuses que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram”.

Um leitor atento implicou com os deuses, assim no plural. Que em sua Bíblia está “os filhos de Deus”. De fato, nas traduções ao português que tenho em minha biblioteca, assim consta. Tanto na Bíblia de Jerusalém, quanto na edição pastoral publicada pelas Edições Paulinas. Também na editada pelo Centro Bíblico de São Paulo, a partir da versão francesa dos Monges Beneditinos de Maredsons, Bélgica. O mesmo consta de minha bíblia eletrônica, a reputada tradução de João Ferreira de Almeida.

É que usei a tradução proposta por Jean Soler, “les fils des dieux”. Como os judeus têm mais rigor quando se trata da palavra divina, fui consultar a Torá. Lá está: “os filhos dos senhores”. Melhorou um pouco mas não muito. O plural é mantido. Mas que senhores são esses que se opõem aos homens? Mistério profundo. Fui buscar então em minha tradução francesa da Bíblia, editada pela Alliance Biblique Universelle. Lá está: “les habitants du ciel”, também no plural. Mas quem são esses habitantes do céu cujos filhos acharam belas as filhas dos homens? O mistério persiste.

Como não entendo hebreu, prefiro ficar com a tradução proposta por Soler, que conhece hebreu: “les fils des dieux”. Pois os deuses são muitos na época do Pentateuco. Jeová é apenas um entre eles, o deus de uma tribo, a de Israel. Escreve Soler: “Ora, nem Moisés nem seu povo durante cerca de um milênio depois dele – os autores da Torá incluídos – não acreditavam em Deus, o Único. Nem no Diabo”.

A idéia de um deus único só vai surgir mais adiante, no dito Segundo Isaías. Reiteradas vezes escreve o profeta:

44:6 Assim diz o Senhor, Rei de Israel, seu Redentor, o Senhor dos exércitos: Eu sou o primeiro, e eu sou o último, e fora de mim não há Deus.

Num acesso de egocentrismo, Jeová se proclama o único:

7 Quem há como eu? Que o proclame e o exponha perante mim! Quem tem anunciado desde os tempos antigos as coisas vindouras? Que nos anuncie as que ainda hão de vir. 8 Não vos assombreis, nem temais; porventura não vo-lo declarei há muito tempo, e não vo-lo anunciei? Vós sois as minhas testemunhas! Acaso há outro Deus além de mim?

Ou ainda:

45:5 Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus; eu te cinjo, ainda que tu não me conheças. (...) 21 Porventura não sou eu, o Senhor? Pois não há outro Deus senão eu; Deus justo e Salvador não há além de mim.

Só aí, e tardiamente, surge na Bíblia a idéia de um só Deus. Durante muito tempo, acreditei que a idéia do deus único havia sido contrabandeada do Egito, a partir de Akhenaton. Equívoco meu. Não havia monoteísmo nos dias de Moisés. O que me consola é saber que até Freud incorreu neste equívoco.

Mesmo assim, persistem no mesmo livro de Isaías registros dos deuses de então:

36:18 Guardai-vos, para que não vos engane Ezequias, dizendo: O Senhor nos livrará. Porventura os deuses das nações livraram cada um a sua terra das mãos do rei da Assíria? 19 Onde estão os deuses de Hamate e de Arpade? onde estão os deuses de Sefarvaim? porventura livraram eles a Samária da minha mão? 20 Quais dentre todos os deuses destes países livraram a sua terra das minhas mãos, para que o Senhor possa livrar a Jerusalém das minhas mãos?

Em suma, o deus de uma única tribo, de repente, se proclama o deus único. Soler nota uma safadeza nas traduções contemporâneas da Bíblia: Jeová está sumindo. Fala-se em Deus ou Senhor, em Eterno ou Altíssimo. Como Jeová é apenas o deus de Israel, melhor esquecer o deus tribal. Ao que tudo indica, alguns tradutores fazem um esforço para transformar um livro politeísta em monoteísta.

Sábado, Agosto 23, 2008
 
CIENTISTAS VENDEM FÉ



Leio na Istoé que médicos e hospitais começam a adotar a espiritualidade e a esperança como recursos para o combate de doenças. Que médicos e instituições hospitalares do mundo todo começam a incluir nas suas rotinas de maneira sistemática e definitiva a prática de estimular nos pacientes o fortalecimento da esperança, do otimismo, do bom humor e da espiritualidade. O objetivo é simples: despertar ou fortificar nos indivíduos condições emocionais positivas, já abalizadas pela ciência como recursos eficazes no combate a doenças. Esses elementos funcionariam, na verdade, como remédios para a alma – mas com repercussões benéficas para o corpo.

Sei! É o famoso poder do pensamento positivo. Há uns bons cinqüenta anos, foi moda um livrinho de auto-ajuda, O poder do Pensamento Positivo, de Norman Vincent Peal. "Os covardes nunca tentam, os fracassados nunca terminam, os corajosos nunca desistem. O pensamento positivo pode vir naturalmente, mas também pode ser aprendido e cultivado, mude seus pensamentos e você mudará seu mundo". Ou seja, se você foi premiado com um câncer, pense positivamente e terá cura garantida.

Pelo que diz a reportagem, clínicas de renome estão adotando esta postura. “No Brasil, a nova postura faz parte do cotidiano de instituições do porte do Instituto do Coração (InCor), em São Paulo, da Rede Sarah Kubitschek e do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), no Rio de Janeiro, três referências nacionais na área de reabilitação física. Nos Estados Unidos, o conceito integra a filosofia de trabalho, entre outros centros, do Instituto Nacional do Câncer, um dos mais importantes pólos de pesquisa sobre a enfermidade do planeta, e da renomada Clínica Mayo, conhecida por estudos de grande repercussão e tratamentos de primeira linha”.

Quando minha mulher morria, arautos do pensamento positivo logo se apresentaram. Que era preciso pensar positivamente, que uma postura otimista curava qualquer doença. Muitos tinham um viés católico e organizaram, Brasil afora, um círculo de orações. Tinham certeza de que, dadas as preces ao Todo Poderoso, ela seria salva. Quando ela morreu, adotaram subitamente uma outra postura. Que agora, na outra vida, ela estava sendo feliz. Ora, se só na outra vida seria feliz, que rezassem então para que morresse logo. Houve quem tivesse o desplante de dizer-me: “estamos apostando nossos créditos junto ao Todo Poderoso”. Aqueles abutres, que mal sentem o cheiro da morte vão visitar os moribundos, começaram a chegar ao hospital, padres, freiras e senhoras beneficentes. Pelo jeito, tinham um prazer particular em ver alguém morrer. Expulsei-os com fúria.

Segundo a revista, “a adoção desta postura teve origem primeiro na constatação empírica de que atitudes mais positivas traziam benefício aos pacientes. Isso começou a ser observado principalmente em centros de tratamento de doenças graves como câncer e males que exigem do indivíduo uma força monumental. No dia-a-dia, os médicos percebiam que os doentes apoiados em algum tipo de fé e que mantinham a esperança na recuperação de fato apresentavam melhores prognósticos. A partir daí, pesquisadores ligados principalmente a essas instituições iniciaram estudos sobre o tema. (...) O bom humor, por exemplo, é capaz de promover o aumento da produção de hormônios que fortalecem o sistema de defesa, fundamental quando o corpo precisa lutar contra inimigos. Além disso, o riso provoca relaxamento de vários grupos musculares, melhora as funções cardíacas e respiratórias e aumenta a oxigenação dos tecidos”.

Ou seja: se você tiver a desgraça de ser acometido por um câncer, ria. No bom humor ante a doença está a cura. Largue a quimioterapia, a radioterapia, a medicina de ponta. Ria, simplesmente. Que místicos digam besteiras, isto não me espanta. O que me espanta é que a imprensa as reproduza, como se verdade fossem.

Segundo a revista científica (sic!) BMC Câncer, o otimismo é um fator de proteção contra o câncer de mama. “Verificamos que mulheres expostas a eventos negativos têm mais risco de contrair a doença do que aquelas que apresentam maiores sentimentos de felicidade e positivismo”, explicou Ronit Peled, da Universidade de Neguev, de Israel, autor da pesquisa.

Ora, quando otimismo prevenir câncer, os oncólogos morrerão de fome. Estes cientistas, no fundo, são religiosos travestidos, que querem vender fé a quem precisa de medicina.

 
CONO Y COÑO


Para os leitores que não entenderam bem a diferença entre cono e coño, explico. Cono é cone. Quanto a coño, recorro ao antigo cancionero espanhol:

No me jodas en el suelo
como si fuera una perra
que con esos cojonazos
me echas en el coño tierra.

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Un hombre tras otro
así va la vida.
A mí lo mismo me da,
y al lucero del alba.
Cada hombre un voto,
cada mujer un coño;
si esto no es democracia
que venga Dios y lo diga.

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Ven pues, tus faldas levanta,
mi pija en tu coño mete,
y aunque yo apriete y repriete
estate quieta y aguanta,
ven, pues coñito adorado
de buen culo y gordas tetas,
que vales tú más pesetas,
que el tesoro más preciado.

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Do anônimo Don Juan Notório:

Ah! No es verdad ángel de amor
que en esto lecho caliente,
podremos tranquilamente
fornicar mucho mejor?
Esta sala que está llena
de esos cuadros tentadores
donde joden mil señores
ya à una rubia, à una morena;
esta picha tan amena
que está queriendo romper
sin poder contenerse
la tela de mi calzon,
no es cierto tierno pichon
que están diciendo joder?
Ese coño, cuyo aroma
me sube ya à las narices,
esas frases que no dices
pero que tu lengua asoma
à tu boca, dí paloma,
dí, lábios de rosicler,
esas gana de tener
mi picha dentro tu coño,
no es verdad, tierno retoño
que están diciendo joder?

Sexta-feira, Agosto 22, 2008
 
SOBRE VIAJAR



Escrevi outro dia que quem viaja em excursão não viaja. Envolto em uma bolha de brasilidade, leva o Brasil consigo nas viagens. Leio agora no Nouvel Observateur relato de um viajante mais radical, o britânico Colin Thubron. Viajante profissional, já escreveu vários livros sobre o tema e fez recentemente a rota da seda, da Turquia à China. Do que resultou um livro, L’Ombre de la route de la soie. Thubron gosta de viajar sozinho. Acha que a companhia de uma só pessoa pode envolvê-lo em uma bolha de europeidade.

- Quais são as qualidades requeridas para um bom escritor-viajante? A paciência, a vontade, a cultura, um estômago resistente? – pergunta o repórter do Nouvel Obs.

- Antes de tudo, é preciso saber deixar para trás de si sua própria cultura e seus preconceitos. Certo, não se pode jamais nos desfazermos inteiramente da própria educação e de seus reflexos culturais: é uma bagagem que se porta sempre, sobretudo quando pertencemos à tradição do Iluminismo, como ingleses ou franceses. Mas é preciso aprender a refutar esta herança. Daí a necessidade de viajar só: se eu viajo com um amigo francês, apesar de nossa diferença de nacionalidade, nós ficaríamos encerrados em uma bolha de europeidade, com o risco de achar os outros bizarros ou risíveis. Mas se eu viajo só, sou eu que sou bizarro aos olhos dos outros, o que me força a entender mais depressa onde estou. A sensibilidade exacerbada de minha própria singularidade, de minha própria vulnerabilidade, me permite fazer o esforço necessário para compreender a cultura do outro. Nestas condições, o normal, o compreensível, é o que me cerca; a diferença, sou eu que a encarno.

Longe de mim contestar quem faz das viagens profissão. Mas me permito discordar. Ninguém consegue deixar para trás sua própria cultura. Própria cultura não é sinônimo de preconceitos. A propósito, costumo afirmar que não tenho preconceitos, mas pós-conceitos. Se abomino muçulmanos, passei a abominá-los não antes de conhecê-los, mas depois. Brasileiro, sou ocidental e claro que herdeiro do Iluminismo. Não vejo razão alguma para refutar tal herança. Por que razões deveria renunciar à minha cultura para tentar entender as outras? Thubron parece ser mais um desses contestadores da cultura ocidental que só consegue se expressar... dentro da cultura ocidental.

Viajar é comparar. Em cada viagem, carregamos nosso passado como uma mochila nas costas. Não adianta tentar fugir disto. Não que eu veja o mundo como brasileiro. Vivi em outros países e tenho outros parâmetros de comparação. Mas sempre fazem parte de meu passado. Por que despir-me do que vivi? Para entender porque os chineses matam suas filhas? Para entender porque os muçulmanos cortam o clitóris e costuram a vagina de suas crianças? Para entender porque os indianos queimam as viúvas? Thubron que me desculpe. São coisas que não entendo e jamais entenderei. Ocidental, não refuto minha herança. Para viajar, não me dispo. Porto minha cultura e dela não me envergonho. Nas declarações de Thubron há um manifesto repúdio ao Ocidente que o abriga, sustenta e publica seus livros. Conheço a raça. Vivem em Paris ou Londres, mas sempre sonham com Benares ou Calcutá. Claro que jamais viverão lá. Mas sempre proclamam que viver lá é melhor.

Thubron tem um bom hábito, o de aprender as línguas dos países para onde viaja. Claro que os rudimentos, ou então viajar só seria permissível aos grandes poliglotas. É excelente idéia. Com um vocabulário mínimo podemos nos virar em qualquer país. Não custa nada munir-se de um dicionário básico antes da viagem, sem falar que todo conhecimento de línguas nos enriquece.

Thubron gosta de viajar só. É uma opção. Eu não consigo. Não entendo estar em um bom restaurante, degustando um bom prato e um bom vinho... sem ter com quem compartilhar a festa. Há restaurantes em Paris e Madri nos quais jamais entraria se estivesse só. Me sentiria um paria, um intocável. Aliás, nunca vi alguém só nesses restaurantes. Seria um reles glutão. Se eu viajasse só – hipótese que não me ocorre – acho que só comeria sanduíches, discretamente, no mais discreto boteco da esquina.

Não falo só de comer e beber. Seria para mim muito triste percorrer cidades ou paisagens deslumbrantes sem ter com quem dividi-las. Há quem goste de viajar só. Tudo bem, cada um com seu cada qual. Para mim, é deprimente. As coisas boas da vida devem ser divididas ou não têm graça.

Já tive de viajar só, por razões profissionais. Me senti como um fantasma. Vou mais longe: a companhia há de ser feminina. Amigos me convidam para viagens e sempre me recuso. A viagem só é boa quando se tem alguém para fazer cafuné.

Quinta-feira, Agosto 21, 2008
 
COÑO SUR?


Os europeus, olhando do alto a geografia, viram nos anos 70 um cone formado pelas ditaduras do Chile, Brasil e Argentina e criaram a expressão Cono Sur, Cone Sul. Há alguns anos, fiz um trocadilho sobre esta definição política e grafei Coño Sur. Era piada, bem entendido. Coño é algo muito distinto de cono e muito mais interessante que um cone. Mas o impossível acontece. Leio agora na Veja on line, numa coluna sobre vinhos, assinada por Roberto Gerosa, editor executivo da revista.


BRANCOS
Coño Sur Bicicleta Riesling 2006
Produtor: Coño Sur
Região: Bio-Bio
Importador: Wine Premium
R$ 23,80

Assim como a importadora Wine Premium é uma perna operacional da Expand, a Coño Sur é uma empresa da gigante Concha y Toro chilena. Trata-se de um riesling básico, mas já com as características da uva presentes no nariz e na boca, sempre aquele toque um pouco mineral dizendo “presente”! Na temperatura adequada (de 10 a 12º) vai bem com um peixinho leve.


Entender vinhos é também entender línguas. O colunista deve entender tanto de vinhos quanto de espanhol. É espantoso que tal analfabeto ainda não tenha sido demitido.

 
DE PARIS, DO LEONARDO



Olá, prezado Janer,

Aqui é o Leonardo, de Paris... Espero que se lembre de mim... Nós jantamos juntos em Saint-Germain, em maio...

Bem, escrevo-lhe para dizer que continuo acompanhando seu blog com assiduidade. Você continua afiado, bem humorado e nos brindando com sua vasta cultura. Parabéns! É sempre enriquecedor lê-lo. Gosto muito dos seus textos, principalmente aqueles sobre religião.

Dois assuntos que recentemente foram tratados por você lá no seu blog me chamaram a atenção. O primeiro é a questão da nova postura britânica com relação aos brasileiros (texto de 15/08/2008).

Os súditos da rainha estão certíssimos em aumentar o rigor no controle da entrada de brasileiros em seu território, embora estejam fazendo isso atrapalhadamente, como você bem assinalou. Infelizmente, muitos brasileiros vão para lá para desrespeitarem a lei local, à semelhança do que ocorre em outros países europeus. Não me incomodaria se ingleses, espanhóis e outros passassem a exigir o visto. É chato, claro, mas o cidadão de bem (turista, ou quem viaja a trabalho ou a negócios) fica relativamente resguardado de passar o terrível constrangimento de ser confundido com imigrante e ser mandado de volta para o Brasil, como aconteceu com alguns brasileiros na Espanha, no primeiro semestre. Se não dá para entrar só mostrando o passaporte sem o visto, que, ao menos, barrem apenas os imigrantes.

No final de julho, fui a um congresso em Chicago. Como nunca havia ido aos EUA, tive que tirar um visto. Fui muitíssimo bem tratado na Embaixada deles. E, ao desembarcar em Chicago, foi só mostrar o visto, responder a algumas perguntas que me foram educadamente feitas e pronto. Foi chato fazer o visto? Sim, mas foi muito melhor do que pousar nos EUA e ser despachado no vôo seguinte. A obrigatoriedade do visto nos traria certo aborrecimento, mas nos poupa de sermos confundidos com quem vai para se prostituir e viver na ilegalidade.

Quanto à maneira que os diferentes povos enxergam o esporte, concordo com grande parte do que foi escrito (18/08/2008), principalmente no que tange a chineses e a norte-americanos. Mas não concordo que suecos, finlandeses e outros europeus estejam nas Olimpíadas apenas por diletantismo. O atleta olímpico, venha de onde vier, tem um espírito de competitividade borbulhando nas veias. Essa gente não gosta de perder, quer é ganhar uma medalha de qualquer jeito. Não dá para imaginar que um suíço como o Federer não tenha ficado amuadíssimo por ter naufragado no torneio individual de tênis e ter visto seu rival Nadal passá-lo no ranking. Federer não foi a Pequim para passear, por passatempo. Essa não “cola”. Ele foi lá para ganhar.

A TV francesa (por sinal, muito mais ufanista que a brasileira na transmissão dos jogos) tem mostrado que, em matéria de chororô, os atletas gauleses não devem em nada aos brasileiros. Alain Bernard chorou diante das câmeras quando venceu os 100m nado livre. Laure Manadou “abriu a boca” depois de sua participação patética nos Jogos. A equipe de handebol feminino também pranteou a cântaros, em cadeia nacional. Teve uma judoca que chorou convulsivamente quando foi eliminada. Na esgrima e na ginástica, também teve francês chorando no pódio. E por aí vai.

Concordo inteiramente que Santos Dumont foi um subproduto da sociedade parisiense do começo do século XX. Mas não se pode, semelhantemente, dizer que esse menino aí, o Cielo, foi produzido nos EUA. Ele fez toda sua formação de natação no Brasil, aprendeu os fundamentos do esporte no país. Depois, é verdade, foi para os EUA (ao que me consta, há poucos anos). Em entrevista, ele disse que seu treinamento nos EUA é igual ao do Brasil, que as estruturas são as mesmas. O que diferencia são as competições, que são de nível bem mais elevado. Como em todo esporte, é na disputa com gente de alto nível técnico que se aprimora o talento. Sul-americanos se saem bem no futebol e brasileiros brilham no vôlei porque disputam os campeonatos europeus, onde estão reunidos os melhores atletas de todo o planeta. É esse o diferencial. Não é por disputar o campeonato espanhol que o Robinho (brasileiro), o Messi (argentino), o Henri (francês) e o Beckham (inglês, ex- Real Madrid) devam ser todos considerados hispânicos.

Bem, caro Janer, me desculpe pelo tamanho do email, mas é sempre muito bom conversar com você... Aliás, gostaria de lhe fazer uma pergunta: por que não há espaço para comentários no seu blog? Seria muito legal, ao menos para os leitores assíduos, como eu...

Um grande abraço! Espero revê-lo na sua próxima visita a Paris. Do seu leitor e admirador,

Leonardo

 
AL QAEDA TEME PEPINOS


Eles sabem das coisas. Os bravos machos árabes que destruíram as Torres Gêmeas em Nova York, intuíram de onde vem a ameaça ao Islã. Segundo o jornal sueco Aftonbladet, a Al Qaeda está perdendo apoio no Iraque, entre outros fatores, por proibir as mulheres de comprar pepinos. O vegetal só pode ser comprado por homens.

Sábia Al Qaeda. Dado o respeito que os muçulmanos têm pelas mulheres, pepino é concorrência desleal. A propósito, a Al Qaeda está determinando a matança de cabras, porque suas partes privadas são descobertas e suas colas estão sempre erguidas. Certamente uma tentação para os militantes.

Segundo o historiador Lars Hedegaard, em vinte anos os muçulmanos serão maioria na Suécia. Depois que uma ex-ministra e uma provável futura primeira-ministra suecas usaram véus para falar com um cabeça-de-toalha, esta afirmação não surpreende.

Conheça a Suécia antes que seja tarde.

Quarta-feira, Agosto 20, 2008
 
AZALÉIAS DE AGOSTO *



Era agosto. Elas se abriam em meu jardim com essa obscenidade com que sempre se abrem as flores, cumprindo sua missão natural de flores. Quanto mais floresciam, mais fenecias. Todos as manhãs eu atravessava aquele festival orgíaco de vermelho, rosa, branco e roxo, rumo ao amarelo ictérico que começava a envelopar tua pele, essa pele que por tantas décadas acarinhei. "Onde estiver, vou sentir tua falta" - me disseste, com voz que jamais senti tão grave. Querendo afagar-me, suspeitando que pela última vez, te enganavas. Não estarás em parte alguma. Partiste para o grande nada, onde nada existe e ninguém sente falta de ninguém.

Quem vai sentir tua falta, todos os dias até o último deles, é este que fica e que em algum lugar sempre estará. Pelo menos até o dia em que não mais estiver. Quem parte descansa. Sofre quem fica. O que até me consola um pouco. Quem está sofrendo, pelo menos não és tu.

De novo é agosto e elas retomaram seu ritual exibicionista. Paranóicas, escondem-se nas primaveras e agora torturam meus invernos. Não apenas os meus, mas os de tantos outros cujos seres amados escolheram agosto para partir. Certa noite de setembro, eu conversava com jovens já contaminados pela resfeber, enfermidade nórdica que significa febre de viagens. Sedentos de vida, perguntaram a este ser tantas vezes acometido pela doença: qual é a mulher mais linda do mundo? Em que geografias pode ser encontrada?

Caí em prantos. A mulher mais linda do mundo, eu a conheci. E a tive. E agora não mais a tinha. Não a encontrara em distantes longitudes nem em países exóticos. Encontrei-a a meu lado, neste prosaico país, e nunca mais a abandonei. Quis a vida - ou talvez tenha quisto eu - que tivesse centenas de mulheres, algumas muitas queridas, outras nem tanto mas também desejadas, mais uma multidão de rostos mais ou menos anônimos, corpos sempre lembrados. Mentira da vida, mentira minha. Em verdade, tive só uma. Tu, que partiste no auge das azaléias.

"Eu não tenho medo da morte" - me disseste ainda, um pouco antes da passagem rumo ao nada. Mesmo desbotada pelo palor da vida que foge, estavas linda como nunca estiveste. Em tuas quase seis décadas, conservavas ainda aquele eterno rostinho de criança, que a passagem dos anos jamais conseguiu te roubar.

Sedada, já no torpor da morte, chamaste tuas últimas energias, te ergueste no leito. Levantando o dedinho, didática qual professora falando a seus pupilos, sussurraste com o que te restava de voz: "E se fizéssemos assim: eu assino um documento: eu, TKM, em pleno uso de minhas faculdades mentais, declaro que quero ter meus restos cremados no cemitério da Vila Alpina". Reuni minhas forças e consegui balbuciar: não te preocupa, Baixinha adorada, isto há muito está combinado, verme algum sentirá o gosto de tuas carnes. Tuas cinzas, vou jogá-las de alguma ponte em Paris, uma daquelas pontes que tanto amaste, para que saias navegando mares afora.

Passada a mensagem, te reclinaste em paz. Mas descumpri o trato. Não as joguei em Paris. Ficarias muito longe de mim, navegarias talvez por mares gelados e hostis, encalharias em geleiras e te perderias em fiordes, longe de meu calor. Com carinho, te plantei entre os rododendros e todas as manhãs passo entre ti e murmuro: adorada. É bom te cumprimentar. Mas como dói.

A vida nos foi pródiga, e isso é talvez o que mais machuque. Nestes últimos meses, tenho sentido uma secreta inveja de homens que casam com megeras horrendas. Quando elas partem, começa a felicidade. Se morrer feliz é o almejo de todo homem, esta graça não mais está reservada a quem um dia foi feliz. É duro conjugar certos verbos no passado. Dizia Pessoa:

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...

Bobagens de poeta, que tanto influenciaram meus dias de jovem. Verdade que sem ti correrá tudo sem ti. Mas isto vale para as azaléias - seres insensíveis que sequer perceberam a ausência de quem as adorava tanto - e para o resto da humanidade. Para quem perdeu o ser mais lindo da vida, é mero jogo de palavras.

As azaléias em breve irão perdendo seu sorriso orgíaco, suas cores fenecerão e agosto que vem estarão de novo florescendo, despudoradas. Tuas cores feneceram agosto passado e pelo resto de meus agostos não mais te verei florir.


* in memoriam 20 de agosto de 2003

 
STJ ETERNIZA ADOLESCÊNCIA


Filhos com mais de 18 anos que ainda precisem da ajuda dos pais para se manter têm direito de continuar recebendo pensão alimentícia. Com esse entendimento, o Superior Tribunal de Justiça eternizou a adolescência. A súmula 358 – que assim determina – não estabelece nenhuma idade limite para o fim da pensão alimentícia. Teoricamente, marmanjos de 40 anos podem exigir judicialmente serem sustentados pelos pais.

Já aconteceu na Itália. Um menino de 50 anos acionou seus pais para receber mesada. Uma pergunta se impõe: e por que não trabalha? Ora, porque não encontrou trabalho compatível com sua vocação.

Terça-feira, Agosto 19, 2008
 
A REPULSA AO BELO


O que pensávamos ser estupidez de muçulmanos está se difundindo mesmo entre judeus e católicos. Leio em El País que a arquidiocese do México publicou uma “lista de valores” sobre o pudor, na qual recomenda às mulheres católicas que não usem roupas provocativas nem entrem em conversações ou piadas picantes com pessoas de outro sexo. Tudo isto para evitar agressões sexuais, este é o pretexto. Considera-se ainda que a pornografia é uma prostituição mental. Mais um pouco e proíbem o Cântico dos Cânticos, certamente o mais belo livro da Bíblia.

"Não usa roupa provocativa. Cuidado com teus olhares e gestos. Não fica só com um homem, mesmo que seja conhecido. Não permite familiaridades de teus amigos ou parentes. Não admite conversas ou piadas picantes”. Estas edificantes recomendações foram escritas pelo padre Sergio Roman Del Real, como material preparatório para o VI Encontro Mundial das Famílias, a celebrar-se no México em janeiro próximo.

Uma das coisas boas do mundo contemporâneo, a meu ver, é esta nonchalance com que as mulheres se despem, mesmo estando vestidas. Nenhuma mulher anda nua nas ruas, mas tem tantas nesgas de nudez que é quase como se nua estivesse. Ao pudico sacerdote não agrada nem um pouquinho a generosidade com que as mulheres nos brindam com seus encantos. Padre Sérgio considera a exibição do corpo como prostituição: “Quando exibimos nosso corpo sem recato, sem pudor, o prostituímos porque provocamos nos demais sentimentos em relação a nós aos quais não têm direito, a não ser que desejemos ser propriedade pública, isto é, que nos prostituamos mentalmente. Isso é a pornografia: uma prostituição mental”.

Se alguém imagina que isto seja pudor de católico, traduzo outra notícia, do mesmo El País. No assentamento judeu de Betar Illit, na Cisjordânia, onde vivem 40 mil colonos ortodoxos, um jovem de 19 anos, David Biton, teve a cara quebrada pelos “guardiães do recato”, por ter saído na noite de sexta-feira passada com jovens de sua idade. Qualquer semelhança com a polícia dos costumes da Arábia Saudita não é mera coincidência. Um menina de 14 anos teve o rosto queimado por ácido por vestir calças. Qualquer semelhança com os radicais argelinos que jogavam ácido no rosto de universitárias que não portavam véu, tampouco é coincidência. “Não lhes agrada quando vêem um rapaz e uma moça juntos, embora sejam irmãos, ficam muito nervosos”, diz Biton.

No Cântico dos Cânticos, livro transgressor, encontramos situação semelhante. Sulamita - finalmente uma voz feminina na Bíblia - sai pelas ruas da cidade em busca de seu amado. "Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o seu amor do que o vinho". De onde deduzimos que gostava tanto dos beijos como do vinho. É bom lembrar que Sulamita, além de ser mulher, não é casada.

“De noite, em meu leito, busquei aquele a quem ama a minha alma; busquei-o, porém não o achei. Levantar-me-ei, pois, e rodearei a cidade; pelas ruas e pelas praças buscarei aquele a quem ama a minha alma. Busquei-o, porém não o achei. Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade; eu lhes perguntei: Vistes, porventura, aquele a quem ama a minha alma?”

Mais adiante, se revela a verdadeira face de Jerusalém. Sulamita é espancada:

“Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade; espancaram-me, feriram-me; tiraram-me o manto os guardas dos muros. Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, se encontrardes o meu amado, que lhe digais que estou enferma de amor”.

Enferma de amor. A expressão é belíssima. Mas o universo predominantemente masculino de Israel não pode aceitar uma mulher enferma de amor. Os bravos filhos de Davi – aquele outro – conseguiram superar até mesmo seus primos sauditas. Se na Arábia da família Saud uma mulher não pode sair nas ruas sem a companhia de um macho da família, pelo menos pode sair com o irmão.

Em Betar Illit vivem os haredis, judeus ortodoxos que cumprem estritamente com as normas do “recato”, sempre lembradas em imensos cartazes distribuídos pela cidade: saia longa e camisa de manga longa para as mulheres. Para os homens, calças pretas, camisa branca e chapéu preto ou quipá, em função da seita à qual pertençam. Quem se desviar destas normas terá a ver-se com a polícia – clandestina – do recato.

Muitos rabinos endossam estas normas. Um outro haredi de Betar Illit, que teme revelar sua identidade, tenta explicar: “O mundo haredi não sabe muito bem como reagir. A Internet e os celulares derrubaram muros que nunca antes haviam sido ultrapassados em nossa comunidade, por isso agora os extremistas tentam levantá-los de novo. E por isso alguns rabinos legitimam a violência”.

A menina que teve o rosto queimado, de medo já nem sai de casa. Em junho passado, um desconhecido a abordou em um parque jogou-lhe o conteúdo de uma garrafa que só mais tarde ela descobriu ser ácido. “Teu rosto é lindo demais para esta cidade”, disse antes de atacá-la. Teve o rosto deformado e por sorte o ácido não lhe atingiu os olhos. O pecado da menina foi passear pela cidade de calças.

Segundo Moshe, um judeu ortodoxo de Beit Shemesh – cidade de 90 mil habitantes - que também não se atreve a dar seu sobrenome, em quase todas as cidades israelitas existe esta polícia do recato, o que varia é a intensidade da violência. “Em alguns lugares atacam e em outros intimidam. Não é um corpo oficial, atuam clandestinamente, mas todos sabemos quem são”.

Segundo Moshe, em Jerusalém há um grupo que joga ácido na roupa das mulheres quando a saia ou a manga das camisas são demasiado curtas. Outros sobem nos ônibus para assegurar-se de que as mulheres estão bem vestidas e não se misturam nos assentos com os homens. Tampouco hesitam em intimidar quem ouse organizar um concerto ou outras atividades de ócio.

Os judeus são hostis à beleza. Como também os cristãos, que surripiaram para si o Livro. Me reporto ao primeiro livro da Bíblia. Lá está, em Gênesis 6, 1:

"Sucedeu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos dos deuses que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. (...) Viu o Senhor que era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração. E disse o Senhor: Destruirei da face da terra o homem que criei, tanto o homem como o animal, os répteis e as aves do céu; porque me arrependo de os haver feito".

Daí o dilúvio. Porque as filhas dos homens eram belas, Jeová extermina homens, animais, répteis e aves do céu. É de supor-se que os peixes, que nadavam, tenham sobrevivido. O Livro nada nos diz sobre esta grave questão teológica. Assim como torna o trabalho uma obrigação maldita, o primeiro livro da Torá amaldiçoa também a beleza.

O padre mexicano, os haredis e demais israelitas estão sendo apenas coerentes.

Segunda-feira, Agosto 18, 2008
 
SUBMISSÃO TOTAL



A palavra Islã significa submissão. Mas submissão do crente muçulmano a Alá. O Islã é intransigente. Todas as demais crenças são inimigas e seus seguidores devem ser exterminados. Diz o Corão:

"E matai-os onde quer que os encontreis. E expulsai-os... matai-os (cristãos e judeus). Tal é o castigo dos descrentes" (Sura 2.191).

"...Não tomeis amigos entre eles até que emigrem para Deus. Se virarem as costas e se afastarem, capturai-os e matai-os onde quer que os acheis. E não tomeis nenhum deles por confidente ou aliado... capturai-os e matai-os onde quer que os encontreis, porque sobre eles vos concedemos poder absoluto" (Sura 4.89,91).

"Mas quando os meses sagrados tiverem transcorrido, matai os idólatras onde quer que os encontreis, e capturai-os e cercai-os e usai de emboscadas contra eles" (Sura 9.5).

De Estocolmo, minha boa amiga Déia me envia uma reportagem insólita do Aftonbladet. Numa foto (http://blogg.aftonbladet.se/24685/perma/918894), Mohmoud Aldebe, porta-voz do Conselho Muçulmano da Suécia, conversa com Lena Hjelm-Vallen - ex-primeira-ministra substituta e ex-ministra de Relações Internacionais e com Mona Sahlin, provável futura primeira-ministra. Até nada demais. O insólito é que as duas líderes suecas usam véus para falar com o muçulmano.

No que também não há nada de novo. Desde há décadas o Ocidente começou a render-se ao Islã. Nos anos 80, Simone de Beauvoir e um grupo de feministas foram a Teerã, defender as mulheres persas junto ao aiatolá Khomeiny. Para falar com o padre, todas botaram véu.

Mais surpreendente ainda é a razão do encontro. Mohmoud está pedindo ao governo sueco 300 mil coroas para instalar um escritório de intermediação para famílias muçulmana. O cabeça-de-toalha defende a introdução das leis da sharia na Suécia, no que diz respeito a casamentos e divórcios. Isto significa que todo divórcio deve ser aprovado por um imã e que as crianças muçulmanas que freqüentam as escolas comunais terão aulas de idioma nativo e de religião separadas por sexo.

O Islã não exige a submissão dos não-muçulmanos. Mas, pelo que vemos, a Suécia já se rendeu aos bárbaros. Submissão total.

 
PORQUE CHORAM NOSSOS BRAVOS



Não acompanho as Olímpiadas. Mas sempre vejo alguma manchete nos jornais. Brasileiros chorando quando ganham medalhas e chorando quando as perdem. O que não se vê é americano, sueco ou francês chorando. De Ricardo Donizetti, recebo:

Janer,

tenho uma intuição - portanto sem qualquer valor de relevância - de que países como Suíça, Suécia, Áustria, Canadá, Holanda, Noruega conquistam tão poucas medalhas em olimpíadas, porque consideram o esporte apenas um hobby, uma diversão e que não merece ser levado tão a sério. Também não significa para eles uma esperança de vida melhor, nem trampolim para ascensão social de pobretões. Creio que atribuem aos jogos olímpicos a seguinte conotação: uma festividade com remotas referências históricas, uma lúdica atividade, um passatempo.

Já os EUA encaram como um fator de negócios, de vendas, patrocínios, ou seja, pragmáticos como sempre entendem que é sinônimo de dinheiro. China encara como propaganda de um regime anacrônico e como dinheiro. Brasil, na idiotia que nos acompanha, encaramos como um momento de redenção de “mostrar ao mundo como nós sofridinhos, coitadinhos, pobrezinhos podemos fazer algo que só o primeiro mundo poderia". E pelas emissoras de TV como forma de ganhar dinheiro.

Gostaria muito de saber o pensas a respeito.

Abraços.


Assino embaixo, Donizetti, e vou mais longe. Essa exagerada importância dada pelo Brasil às Olimpíadas é típica de país subdesenvolvido. Para os atletas dos países que você cita, perder uma competição não é tão grave. A vida continua. Já no caso do Brasil, como você diz, o esporte sempre foi um meio de ascensão social para gente pobre. Quando um atleta perde o lugar mais alto no pódio, ele não está perdendo apenas uma medalha. Está perdendo um futuro pleno de posses, dinheiro, luxo e facilidades. É o caso do futebol. Atletas de países ricos não perdem grande coisa quando suas seleções perdem. No Brasil, é um desastre. Há pelo menos 22 jogadores perdendo milhões. Se bem que, quando chegam à seleção, já não são mais pobres coitados. Mas sempre é uma perda considerável.

É o caso das touradas na Espanha. Os toureiros geralmente são geralmente oriundos de famílias pobres. O sucesso é vital para ascenderem socialmente. Cansei de ver toureiros chorando porque mataram mal um touro. O mesmo ocorre com sacerdotes, é outro meio de ascensão social do pobrerio. Como neste caso não há competição – a criança é enfiada no seminário – também não há lágrimas.

O caso do César Cielo é emblemático. Segundo a imprensa tupiniquim, tornou-se o primeiro campeão olímpico da natação brasileira por ter conquistado o ouro nos 50 m livre em Pequim. Ora, o rapaz é atleta produzido nos Estados Unidos. É o mesmo que afirmar que o avião é invenção brasileira. Ocorre que Dumont é produto da França. No Brasil da época, seria tido como maluco.

Pelo jeito, teremos ainda muito choro e ranger de dentes pela frente.

Domingo, Agosto 17, 2008
 
ESTRELAS CADENTES DO MICHELIN



Parece existir uma campanha para promover o hambúrguer a alta gastronomia, comentei outro dia. A cada dia surgem novos textos na imprensa promovendo o sanduíche. Nesta última sexta-feira, o prestigioso The New York Times publicava artigo assinado por Jane Sigal, que mancheteava:

HAMBÚRGUERES E CHEESEBURGUERS INVADIRAM RESTAURANTES DE PARIS

Segundo a jornalista, os famigerados sanduichinhos invadiram Paris. “Em qualquer lugar que os turistas visitam no verão – os cafés de Saint German, as paradas obrigatórias do mundinho da moda, até restaurantes administrados por chefs três estrelas – eles possivelmente irão encontrar um bom pedaço de carne suculento, quase invariavelmente acompanhado de um pãozinho com gergelim”.

Devagar nas pedras, moça. Acabo de chegar de lá. Hospedei-me no coração do Saint Germain, em hotel colado ao Café de Flore, tendo em frente o Chez Lipp e a cem metros o Deux Magots. Duzentos metros mais adiante, um de meus restaurantes preferidos em Paris, o Aux Charpentiers. Confesso que jamais me hospedei em local tão estratégico, bastava descer do hotel e escolher onde sentar. Meu problema era o que os franceses chamam de l’embarras du choix, o drama da escolha.

Cafés sempre tiveram sanduíches em Paris. Cafés oferecem cafés e um sanduíche sempre pode ser um bom complemento a um café ou a uma cerveja. Os predominantes, em Paris, são o croque-messieur e o croque-madame, singelos sanduíches com presunto, queijo e manteiga. Um deles, não lembro agora se o madame ou o messieur, leva dois ovos em cima. Mas isto, pelo que sei, existe desde o início do século. Que os cafés sirvam hambúrgueres, nisso não vai nada de novo.

Quanto a restaurantes, a afirmação da jornalista deve ser vista com reserva. Nos últimos anos, só tenho ido a Paris para visitar restaurantes. Em minhas duas últimas viagens, fiz o Chez Lipp, o Charpentier, Polidor, Bofinger, Chartier, Tire-bouchon, Julien, Procope, La Taverne du Sergeant Recruteur, Nos Ancêtres les Gaulois, La Périgourdine, restaurantes que não são três estrelas Michelin, mas que oferecem boa ambiência e culinária excelente. Nestes você não vai encontrar hambúrgueres. Talvez os encontre no Select Latin, no Rélais de l’Odéon, no Danton, Zimmer. Quem sabe até mesmo no solene Café de la Paix, em frente à Ópera. São cafés muito simpáticos, onde se come muito bem. Mas são cafés. No Café de la Paix, certamente só na terrasse. No restaurante mesmo, seria um insulto ao garçom pedir um hambúrguer.

Escreve Jane Sigal que o consumo de hambúrgueres é uma “reviravolta surpreendente em um país onde um chef uma vez já processou o McDonald's, exigindo 2,7 milhões de dólares por danos resultantes de um cartaz que sugeria que ele estava sonhando com um Big Mac. Hambúrgueres são tudo aquilo que o jantar francês não é: informal, bagunçado, rápido e estrangeiro”.

Exato. Bagunçado, rápido e estrangeiro. Nisto tem toda razão. Posso até gostar de um hambúrguer de vez em quando. Mas jamais iria a Paris para comer um. (Contei outro dia que cortei relações com uma colega de magistério que foi a Madri e só freqüentou Mcdonalds). Mas reviravolta não é. Desde há muito na França também se come sanduíche. Não há muita diferença entre pôr presunto e queijo ou carne picada entre duas fatias de pão. É uma questão de ocasião. Você está sozinho, tem pressa e precisa comer algo. Um sanduíche é uma boa idéia. Mas se quiser almoçar ou jantar sem pressa, o sanduíche é um sacrilégio.

A articulista cita vários restaurantes três estrelas, tocados por chefs conceituados. “Yannick Alléno, que ganhou três estrelas no guia Michelin em 2007 por sua cozinha precisa e rarefeita no Le Meurice, serve um hambúrguer grande e suculento em seu restaurante casual, o Le Dali. O padeiro de Alléno, Frédéric Lalos, ganhador de um dos mais disputados concursos de culinária, prepara os pães. Com bacon defumado, alface, picles, mostarda, maionese e fritas, o hambúrguer no Le Dali custa 25 euros. Já o L'Atelier, de Joël Robuchon, oferece o Le Burger, que na verdade são dois hambúrgueres pequenos cobertos com fatias de foie gras quase do mesmo tamanho”.

Breguice de caipira americano, é a única coisa que me ocorre para definir isso de comer foie gras com carne. Os ianques sempre foram bárbaros em matéria de gastronomia, e este é um dos fatores que me afasta dos EUA. Não freqüentei, disse, restaurantes três estrelas. Jamais pagaria 25 euros por um sanduíche, nem jamais comeria foie gras junto com carne picada. Tais restaurantes são caríssimos, esnobes e você não paga exatamente pelo que come, mas pelas estrelas. Muitas vezes estão às moscas. Os chefs os mantém em Paris por uma questão de reputação, para melhor vender-se como chefs no exterior. Assim sendo, não vou questionar a afirmação da moça de que restaurantes de três estrelas estão servindo hambúrgueres.

Seja como for, mais um motivo para não freqüentá-los. É a decadência das três estrelas do Michelin. Os tais de chefs, pelo que tenho visto, servem mais como attrape-nigauds de turistas burros. A expressão, em tradução livre, seria mais ou menos “bonitinho mas ordinário”. Ou melhor, “caça-panacas”. Existe um tipo de americano – como também de brasileiro – que se sente muito importante consumindo uma cozinha assinada. Já os franceses, estes buscam um restaurante, não um chef. O pior é que a moda está pegando no Brasil. Há vinte anos, o único chefe que existia no Brasil era o chefe de polícia. Hoje, os chefs brotam como cogumelos após a chuva e se pretendem mais importantes que o restaurante. Em São Paulo, estão virando praga. Outro dia, aqui ao lado de casa, no shopping Higienópolis, vi o que considero o supra-sumo da breguice: um cavalete na rua anunciava o nome do chef.

A imprensa americana – pois você não vai encontrar loas ao hambúrguer na imprensa francesa – parece estar pretendendo ianquizar a gastronomia gaulesa. Deposito minha confiança nos galos. Hambúrguer, só por cima de meu cadáver.

Sábado, Agosto 16, 2008
 
ABIN IMPÕE IMPERATIVO CATEGÓRICO KANTIANO



Ainda da Veja de hoje. Escreve uma leitora gaúcha:

“Em face da ampla disseminação do grampo telefônico no Brasil, uma nova regra de etiqueta se coloca: ao falar ao telefone, aja como se estivesse conversando, ao vivo , no telejornal de maior audiência do país”.

Alguém ainda lembra de Kant? "Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, por tua vontade, lei universal da natureza”. Pelo jeito, a Abin introduziu definitivamente o imperativo categórico no Brasil.

 
QUI PRODEST?


A quem beneficia a definição de classe média da Fundação Getúlio Vargas? Se alguém ainda tiver alguma dúvida, pode ler o que diz hoje, em entrevista para Veja, o vice-presidente José Alencar:

“Outra coisa importante é a acuidade com que Lula trata os problemas sociais. Ele tem uma marca de alta responsabilidade social. Isso vai ficar para o futuro. Uma das coisas que mais o realizam é essa melhora na distribuição de renda do Brasil. Esse crescimento da classe média brasileira, resgatando pessoas que estavam abaixo da linha de pobreza”.

Os áulicos de Lula já o fizeram acreditar ter sido ele quem debelou a inflação no país. A FGV forneceu-lhe outra lenda para inflar seu ego.

 
MARTA NA CABEÇA


Pesquisa Ibope divulgada ontem mostra que Marta Suplicy, candidata à prefeitura de São Paulo pelo PT, lidera a campanha eleitoral com 41% das intenções dos votos. O ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) é o segundo colocado, com 26%. Em seguida, aparecem os candidatos Paulo Maluf (PP), com 9%, e o atual prefeito, Gilberto Kassab (DEM), que caiu para 8%.

O racha do PSDB e a teimosia de dois medíocres, Alckmin e Kassab, vai entregar de novo – e inexoravelmente – a prefeitura de São Paulo ao PT e a uma perua que fez uma gestão desastrosa. Enfim...

Medíocre por medíocre, tanto faz como tanto fez.

Sexta-feira, Agosto 15, 2008
 
O NOTÁVEL ESFORÇO BRITÂNICO


Comentei em crônica passada que os brasileiros estavam se tornando os árabes da Europa. Nunca vi maiores restrições a brasileiros em minhas primeiras viagens, há quase 40 anos. Hoje, a palavra brasileiro está se tornando sinônima de vigarista, quadrilheiro e traficante de migrantes. Leio hoje no Diário de Notícias, de Lisboa, que a polícia espanhola acaba de desmantelar uma rede que falsificava carimbos de entrada e de saída do espaço Schengen em passaportes que depois vendia a prostitutas por valores que iam dos 300 aos 500 euros. Este esquema permitia às mulheres que entraram como turistas permanecerem em território da UE. Em verdade, en lo vá de año - como dizem os espanhóis - a polícia daquele país tem desmantelado uma quadrilha por mês.

Segundo fontes da polícia, a organização operava no aeroporto internacional de Barajas, em Madri, e era composta por um grupo de brasileiros, que vendia os carimbos de passaporte a mulheres da mesma nacionalidade. Oitenta e quatro pessoas foram detidas, metade das quais acusadas de falsificação de documentos, quer por colaborarem com a organização como intermediários em casas de prostituição, quer por terem carimbos falsos nos passaportes. A outra metade é acusada de violar a Lei da Imigração, pois, a cada três meses, compravam os carimbos falsos para provar a passagem turística por Espanha.

Não por acaso, nossos patrícios vêm sendo devolvidos aos magotes, de países como Espanha, Portugal, Grã-Bretanha e Estados Unidos. Em meio a isso, noticia hoje a imprensa brasileira que o governo britânico quer impor aos brasileiros a necessidade de visto de entrada, a partir do próximo ano. Há dois meses, o Brasil foi colocado na lista de países "suspeitos" - pelo alto índice de imigrantes ilegais ou de outros crimes -, ao lado de Bolívia, Malásia, África do Sul, Botsuana, Namíbia, Venezuela, Trinidad e Tobago, Lesoto, Suazilândia e Ilhas Maurício.

Até aí, nada de novo. A novidade reside nas propostas dos britânicos, como colocar um policial britânico na imigração do Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos. Esse "oficial de ligação internacional" daria treinamento às companhias aéreas sobre passaportes e identificação de fraudes. Também foi sugerido que as agências de turismo, para que não funcionem como "facilitadoras" de ilegais, entrevistem os clientes e não vendam passagens a quem apresentar indícios de que não seja um "visitante genuíno" - empresário, turista ou estudante.

Além de arrogante, a proposta é inútil. O tal de oficial de ligação internacional fiscalizaria apenas os brasileiros que se dirigissem à Grã-Bretanha? Seria como enxugar gelo, pois alguém sempre poderia sair daqui rumo ao Uruguai, Argentina, Portugal, Espanha ou Itália e depois seguir para a Grã-Bretanha. Ou pretenderia este oficial determinar quem é um “visitante genuíno” em qualquer país do mundo? Quanto a recomendação às agências de turismo, o absurdo é total. Pretenderão os britânicos que as agências de viagem assumam um papel de polícia e saíam a investigar as condições econômicas de seus clientes? Que mais não seja, como fariam esta investigação? Contratando detetives para furungar a vida de quem compra passagens?

Os ingleses já raciocinaram com mais tirocínio. A medida mais eficaz é exigir visto de entrada, ora bolas. Como fazem México e Estados Unidos. Como fez um dia o espaço Schengen. Em algum de meus passaportes, tenho um vistoso carimbo que me permitia entrar e transitar pelo espaço Schengen. Curiosamente, esta exigência foi abolida, pois nos anos seguintes não se falou mais no assunto.

Segundo o Estadão, a Grã-Bretanha já chegou a pensar em simplesmente estabelecer visto para brasileiros. "Mas interesses econômicos da Inglaterra prevaleceram e, temendo receber reciprocidade e dificuldades para entrar no Brasil, o governo inglês optou por debater o assunto antes com as autoridades de Brasília", explicou um funcionário do governo britânico.

Outra perguntinha que se impõe: a Grã-Bretanha pretende também instalar oficiais de ligação na Bolívia, Malásia, África do Sul, Botsuana, Namíbia, Venezuela, Trinidad e Tobago, Lesoto, Suazilândia e Ilhas Maurício? Continuando: por que não na Somália, Uganda, Rwanda, Nigéria, Marrocos, Argélia, Rússia, Romênia, Albânia et caterva?

Ao que tudo indica, as autoridades britânicas estão fazendo um esforço notável para superar as brasileiras em matéria de incompetência.

Quinta-feira, Agosto 14, 2008
 
FEIRA DAS VAIDADES


Começa hoje em São Paulo a 20ª Bienal Internacional do Livro. Nos próximos dez dias, o Anhembi abrigará 900 editoras, que expõem mais de 200 mil títulos, sendo 4.000 lançamentos. Ao todo, serão mais de 2 milhões de livros à venda, contra 1,5 milhão na última edição, em 2006. Um leitor quer saber o que penso da Bienal.

Não penso nada. Não me interessa e não perderei meu tempo indo até lá. Os paulistanos adoram esses grandes eventos e há quem se sinta out se não os freqüenta. Até mesmo livrarias como a FNAC ou a nova Cultura são grandes demais para mim. Tenho particular apreço por livrarias menores, onde fazer a ronda das lombadas não é exercício tão aleatório. Ainda este ano, estive na Feira de Madri. Cansei de tanto caminhar e acabei comprando um mísero livrinho.

Há uns bons vinte anos, visitei a Bienal de São Paulo. Queria ver como era. Se arrependimento matasse, eu não estaria aqui escrevendo sobre esta Bienal. Quilômetros de livros expostos, tomados geralmente por crianças, adolescentes e gente que nada tem a ver com livros. Vão lá apenas passear, afinal visitar tais feiras confere sempre um ar intelectual a quem as visita. As crianças e adolescentes são empurrados pelas escolas, para inflar o número de visitantes. Isso sem falar que a profusão de luminárias me fez suar a cântaros. Sufocante. Na Feira em que estive, havia milhares de pessoas numa fila para receber autógrafos ... de Jô Soares. Ora, não freqüento tais ambientes.

Quem vive no universo do livro não visita feiras. Os livros estão aí, em todas as livrarias o ano todo. Não bastasse isto, encontramos na Internet qualquer título. Por outro lado, minha biblioteca de cabeceira está cada vez mais assustadora. Devo estar com uns 40 volumes, livros que quero ler e não sei quando vou dar conta deles. Estou inclusive tomando distância de livrarias em minhas viagens. De nada adianta você comprar livros que não consegue ler. Certo, alguns são de referência. Mas a maior parte não. Nesta última viagem, só ousei entrar na Compagnie des Lettres, uma simpática e acolhedora livraria na Rue des Écoles, em Paris. Comprei uns seis quilos de livrinhos e dei por concluído meu consumo literário.

As Bienais são sucursais da indústria do livro, essa indústria que só quer vender, não importa o quê. Ora, numa época em que os bons livros – apesar da época – são muitos e sequer temos tempo de lê-los, é bobagem procurá-los numa bienal. Visitá-la é vaidade de consumidores sem critério, que querem ser tidos como cultos. Vaidade também de escritores medíocres, que se sentem grandes só porque sob holofotes. Proponho um teste ao leitor mais sofisticado: ao final da Bienal, dê uma olhadela na lista dos mais vendidos.

Você não vai encontrar coisa que preste.

Quarta-feira, Agosto 13, 2008
 
AO APEDEUTA, TODA HONRA E TODA GLÓRIA!


Pois, Humberto,

um amigo me aventava uma hipótese. Que alguém, mesmo sendo pobre, não gosta de ser chamado de pobre. Define-se como classe média. Até pode ser. Mas uma instituição de pesquisa não precisa - nem deve - se submeter às idiossincrasias dos pobres. O que me espanta em tudo isto é que, os grandes jornais brasileiros, sempre tão críticos em relação às mentiras oficiais, em sua maioria engoliram esta. Raros foram os jornalistas que denunciaram o embuste. Entre estes, está Elvira Lobato, da Folha de São Paulo, cuja reportagem não resisti a transcrever neste blog.

Salta aos olhos que a definição de classe média não pode ser a mesma para um país com tanta disparidade de preços e salários. Acredito que se possa viver com uma renda individual de 1.064 reais nalguma pequena cidade do interior. Ocorre que as pessoas, além de habitar, precisam comer e vestir, isso sem falar em gastos com saúde e educação. Além disso, ninguém pretenderá definir como classe média quem não tem geladeira, freezer, telefone e televisão em casa. Isso sem falar na Internet. Ora, o patamar proposto pela FGV é uma renda familiar. Mesmo numa cidade do interior, uma família não irá muito longe com 1.064 reais.

Conheço não pouca gente que faz das tripas coração para dar a um filho um diploma universitário. Provenho de um enorme clã rural, que hoje vive na cidade. Tenho familiares que se privam até mesmo de habitar decentemente para realizar este sonho. Se o filho não consegue entrar na universidade pública, a solução é a privada. Mensalidades? Qualquer universidadinha de fundo de quintal cobra de 600 a 800 reais por mês. Sobra então o quê para a sedizente classe média?

De vez em quando, por curiosidade, faço esses testes que pretendem definir as classes sociais. Nunca consigo me situar em nenhuma. Ora não tenho carro nem sítio nem casa de praia. Ora sou elite: tenho curso superior, educação no Exterior e viajo a cada ano. No que depende dos critérios da FGV, devo ser um bilionário, um parasita das elites. A pesquisa foi demagógica. Promove quem ganha mal e sataniza quem apenas ganha bem. Isto, a meu ver, só serve para glorificar o governo do Supremo Analfabeto. Lula seria o líder que levou a classe baixa ao paraíso. Daí a um terceiro mandato para o Apedeuta só falta um passo.

Alguns leitores me xingam, alegando que não podemos comparar as definições de classe média do Primeiro Mundo com as definições do Terceiro. Não estou comparando. Apenas constato que o patamar proposto pela FGV é de um absurdo hiante. É deplorável que a imprensa tenha assumido este embuste que só serve ao PT.

Abraço!

 
AINDA A CLASSE MÉDIA



Prezado Janer,

Saudações,

Tenho acompanhado seus textos comentando a polêmica sobre a FGV ter classificado como classe média quem ganha pouco mais de mil reais por mês. Ao ler seus comentários sobre o assunto, não pude deixar de me lembrar de seus textos de janeiro deste ano, “Porque voltei” e “Sobre a volta”, em que você comentou o baixo custo de vida no terceiro mundo, principalmente da habitação, em comparação com o custo de vida na Europa.

Penso que o mesmo raciocínio pode se aplicar a um país territorialmente extenso com padrões de desenvolvimento diferentes entre diversas regiões. Não sou geógrafo ou economista, mas não me parece ser muito inteligente fazer como a FGV, ao estabelecer um patamar de renda, dizer que acima ou abaixo dele alguém pertence a tal ou tal classe, e afirmar que isso vale para o Brasil inteiro.

A maior parte de seus textos sobre o assunto faz referência ao absurdo de se afirmar que alguém com renda de R$1.064,00 é classe média em São Paulo. De fato, conheço pessoas que moraram aí na capital, conheço um pouco o interior do Estado de São Paulo, e sei que o custo de vida aí é altíssimo, pelo menos a partir do meu ponto de vista de morador de uma cidade de porte médio do interior de Minas. Com certeza, viver com essa renda na maior cidade do país deve ser muito difícil.

No entanto, em outros lugares do Brasil, mil reais mensais podem proporcionar um padrão de vida bem melhor do que em cidade de grande porte, principalmente em relação à habitação. Há pouco mais de dez anos, eu vivi por algum tempo em uma cidade de menos de vinte mil habitantes aqui em Minas. Não gastava com transporte, pois tudo era perto de onde eu morava. O aluguel era baixíssimo, e eu morava em um apartamento antigo, grande, muito espaçoso. O IPTU e condomínio eram insignificantes. Os preços em padarias, supermercados, quitandas, bares, eram mais baixos. Em lugares assim, alguém pode ser realmente considerado classe média, talvez não com mil reais (se tiver família para sustentar), mas com dois mil certamente.

Algo que me impressionou também foi uma viagem que fiz em 1997 ao Nordeste. Não sei como as são as coisas por lá hoje, mas naquele ano, percebi que o custo de vida em Fortaleza, cidade grande e capital de estado nordestino, era bem menor do que o custo de vida em minha Juiz de Fora, cidade média do interior de estado do Sudeste.

Digo tudo isso, pois acho que uma pesquisa como aquela deveria ser feita regionalmente, com faixas de renda e classe específicas para casos diferentes, tais como número de habitantes da cidade, se é capital ou interior, em que região está situada. Sou capaz de apostar que, em uma cidade pequena qualquer no interior de qualquer estado mais pobre, onde não há nem em que gastar dinheiro, mil reais mensais fazem de alguém um membro “das elites”.

Grande abraço,

Humberto Quaglio

 
DR. STRANGELOVE RIDES AGAIN


No Brasil, pelo jeito, basta morrer para virar herói. Pelo menos é o que se deduz das declarações do Supremo Apedeuta, proferidas ontem em um evento no Aterro do Flamengo. Disse o Supremo que é preciso "transformar os mortos em heróis e não em vítimas. Todas as vezes que falamos dos estudantes e operários que morreram, falamos mal de alguém que os matou". Com uma lógica obtusa que não se sustenta, isso significaria tratar os mortos como vítimas, e não como heróis.

Ao que tudo indica, ainda não avisaram Lula de que o Muro de Berlim caiu em 89, a União Soviética desmoronou em 91 e os comunistas são hoje vistos como os celerados que sempre foram. Houve nos anos 60 um inequívoco ataque comunista ao poder, uma repetição da tentativa frustrada de 35. Quem empunhou armas contra o Estado não poderia esperar ser tratado com flores. No fragor dos combates, é verdade, morreram pessoas que nada tinham a ver com o assalto ao poder. Ora, inocência nunca foi sinônimo de heroísmo.

Enfim, em um governo cujos ministérios foram tomados pelos guerrilheiros dos anos 60, não é de espantar que prevaleça tal ponto de vista. Mas pretenderá Lula que um Lamarca, desertor, terrorista e assassino, seja tratado como herói, só porque foi morto pelo Exército? Melhor então ser coerente e apoiar o revanchismo de Tarso Genro, que só aceita anistia para as esquerdas.

Lula, devo admitir, tem um mérito: traiu o programa do PT. De quando em quando, no entusiasmo do verbo, tem uma recidiva e volta aos dias da Guerra Fria. É quando se ergue aquele braço que o Dr. Strangelove, no filme de Kubrick, não conseguia conter.

Terça-feira, Agosto 12, 2008
 
FÓRMULAS DE VIAJAR BARATO


Você já ouviu falar do Bancotel? Certamente não. É uma rede de mais de mil hotéis no mundo, a maioria deles na Espanha e Portugal, a preços de banana. Não que os hotéis sejam baratos. Se você fizer reserva através do Bancotel, você arrisca hospedar-se num quatro estrelas, eventualmente cinco, por 50 euros. Mas se chegar na portaria do mesmo hotel de malas na mão, sem antes ter comprado bônus no Bancotel, pagará uma fortuna. É uma fórmula inteligente e pragmática de manter os hotéis sempre lotados.

Já pesquisei em várias agências em São Paulo e nenhuma delas ouviu falar do Bancotel. As agências não têm maior interesse em oferecer-lhe viagens baratas. Para quem dispõe de tempo, a melhor maneira de viajar barato é estar na Europa, sempre de olho nas ofertas. Mas não caia no conto do Motta.

Houve épocas em que se podia explorar as vantagens de câmbio entre um país e outro. Em 1990, creio, passei uma semana com a Baixinha em Buenos Aires, comendo e bebendo comme il faut, pelo preço de uma janta em Porto Alegre. Incluindo nisso o valor da passagem. Eram aqueles dias de uma defasagem muito grande entre o dólar oficial e o dólar-turismo. Para viajar ao Exterior, podia-se comprar mil dólares baratinho. Compramos dois mil, os enviamos para um banco em Montevidéu – onde podíamos sacar em dólares –, trocamos dólares no câmbio negro na Argentina e com o que sobrou fizemos o mesmo no Brasil. Já nem lembro qual a moeda da época. Mas nossa semana nos custou o que hoje equivaleria a uns 150 reais.

Na época, até as profissionais da noite foram tentadas a trocar de ofício. Havia empresários que fretavam aviões para Montevidéu e botavam vinte ou trinta moças em cada. Elas tinham apenas de sair do aeroporto, ir até o banco e apanhar os mil dólares que haviam enviado previamente. Houve também muitos aposentados que aproveitaram seu ócio, indo e vindo entre Porto Alegre e Montevidéu, para fazer um pé-de-meia.

Na Europa, durante muitas décadas, houve uma disparidade de câmbio muito conveniente – para economias de moeda forte - entre os países nórdicos, por exemplo, e os do sul da Europa. Sair de Estocolmo e se espichar ao sol das ilhas canárias ou gregas era como economizar dinheiro. Com o euro, essas diferenças foram atenuadas.

Mas é claro que uma boa janta com um bom vinho sempre custará mais barato em Madri ou Paris do que em Oslo ou Estocolmo.

 
UMA AVENTURA BURRA


Em uma lista de discussões, Charles Pilger, um de meus interlocutores, faz referência a um livro de viagens, Uma aventura legal, de Sérgio Motta (Ediouro). A editora assim apresenta o livro:

Uma Aventura Legal é o relato emocionante e divertido de uma viagem por 75 cidades, na Europa e África. Foram 3 meses vivendo o dia-a-dia das pessoas comuns em 24 países de culturas diferentes.

Suas aventuras são contadas com tanta emoção e riqueza de detalhes que fazem com que o leitor se sinta protagonista de cada experiência, compartilhando peripécias, descobertas e sensações, como se estivesse lá.

A viagem saiu por apenas 2.800 dólares, incluída a parte aérea - gasto muito abaixo do padrão dos turistas convencionais. Na segunda parte do livro, há uma infinidade de informações e dicas de hospedagem, restaurantes e transportes baratos, para quem sonha ou planeja uma viagem econômica.


Ou seja, não perca tempo nem dinheiro com tal absurdo. Que você pode ver de uma cidade, percorrendo em 90 dias 75 cidades? Cidades como Roma, Londres, Madri, Paris, Berlim, exigem pelo menos uns dez dias para serem minimamente exploradas. Por outro lado, 2.800 dólares em 90 dias significa 31 dólares por dia. Incluída a parte aérea, insistem os editores. Isso não existe. Hoje você não consegue comer e dormir em cidade alguma da Europa por 30 dólares ao dia. Nem mesmo em Cuba, onde o salário – mensal – de um cubano é de 15 dólares. Os cubanos encontram seu jeitinho para continuar vegetando. Mas para um turista, segundo me contam amigos que já foram à Disneylândia das esquerdas, Cuba é tão ou mais cara quanto as capitais européias.

Minha primeira viagem à Europa, em 1971, foi de dois meses. Viajei de Lisboa a Londres, segui pela Bélgica, Holanda, Dinamarca e Suécia. Voltei por Paris e Roma e fui acabar em Madri. Era jovem, tinha energias e queria ter uma idéia geral do continente. Me detive só em capitais. Levava comigo um guia do Arthur Frommer, Europe U$ 5 a Day. Em lugar algum consegui nem mesmo hospedar-me por cinco dólares. Verdade que havia dicas interessantes para se economizar dinheiro, além de os hotéis recomendados pelo Frommer serem corretos e relativamente baratos. Mas uma das últimas edições do guia, que tive em mãos há uns bons dez anos, tinha já um outro título: Europe U$ 50 a Day. A edição mais recente já não fixava preço algum.

Há fórmulas para viagens baratas. Por exemplo, o Guide du routard. Ou o Guide du fauché, se você não vê nenhum inconveniente em ser tido como fauché. São guias que você pode encomendar pela Amazon ou FNAC. Melhor ainda, busque seus sites na rede. Por outro lado, é possível encontrar vôos muito baratos na Europa. E se você quiser ir para ilhas gregas ou canárias fora da saison, vai encontrar surpresas muito agradáveis. As redes hoteleiras consideram que um hotel meio vazio é bem mais interessante que um hotel vazio.

Mas para isso, é preciso estar lá. As agências brasileiras não oferecem estas mordomias.

Segunda-feira, Agosto 11, 2008
 
LEITURAS QUE TRANSFORMAM



El País perguntou a cem escritores de fala hispânica quais os dez livros que haviam mudado suas vidas.

Sem dúvida, as votações deram resultados curiosos, ou em alguns casos, incríveis: que faz o Manifesto Comunista, por exemplo, em 82º lugar, adiante dos sonetos de Quevedo e do Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald? Claro que o pior foi para a Divina Comédia e a Ilíada, que estão em 60° e 77°, respectivamente. (...) Dante está no fundo da lista, mas bem acompanhado, pois tem logo acima Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez, e justo sob La Regenta, de Clarín. A verdade é que, no âmbito da literatura latino-americana, Jorge Luis Borges dá uma surra em todos, de Gabo a Vargas Llosa, passando por Rulfo, Cortázar e Onetti. Ficciones é o número dez da lista; o Aleph, o 26°; El Hacedor, o 58°.

Confesso que não me reconheço nesta lista. Onde fica a Bíblia? Se há uma leitura que me transformou, foi a leitura do Livro. Tornei-me ateu, e este foi um dos grandes contributos da Bíblia à minha vida. O Manifesto Comunista não é literatura, mas panfleto. Só convence quem já quer ser convencido. Quevedo? Pode ser, mas não diz muito em nossos dias. Fitzgerald, confesso que desconheço. Divina Comédia, gosto do que todo mundo gosta, o Inferno. Paraíso e Purgatório são entediantes. A Ilíada, até hoje não consegui ler. Cem Anos de Solidão me fascinou, de início. Na segunda leitura, achei uma bobagem. Clarín está em minha biblioteca. Também não consegui ler. Rulfo, Cortázar e Onetti sempre me foram eméticos. Gostei das ficções de Borges, mas nada que mudasse minha vida. Não entendo muito bem a idéia de que a ficção possa mudar a vida de alguém.

Já Fernando Pessoa e José Hernández, tudo bem. Foram os dois livros que me ampararam nos dias de Suécia, o Martín Fierro, do argentino, e Poesias Completas, do luso. Não sei até que ponto me transformaram, no sentido de que uma obra poética não visa transformar ninguém. Poesia não fala à razão. Mas Pessoa e Hernández sempre foram – e ainda são – momentos de reconforto.

O que fala à razão são os ensaios. Neste sentido, foi importante para mim ler Porque não sou cristão, de Bertrand Russel. Como também Hacia una moral sin dogmas, de um obscuro pensador argentino, José Ingenieros. Este último, ao relê-lo há uns dez anos, não me disse muita coisa. Mas foi muito importante em minha adolescência.

Para Russel, os três impulsos humanos que a religião representa são o medo, a vaidade e o ódio. "O propósito da religião, poderia dizer-se, é dar uma certa respeitabilidade a estas paixões, desde que sigam por certos canais. Como estas três paixões constituem em geral a miséria humana, a religião é uma força do mal, já que permite aos homens entregar-se a estas paixões sem restrições, enquanto que, não fosse pela sanção da Igreja, poderiam tratar de dominá-las em certo grau".

Para quem andava em conflito com a ética católica, o pensador inglês era um apoio caído dos céus. Russel pecava pelo otimismo, acreditava que a humanidade já possuía os conhecimentos necessários para assegurar a felicidade universal. Sua vontade de crer no homem punha entre parênteses o fator estupidez. De qualquer forma, era reconfortante ouvir que o principal obstáculo para a utilização daqueles conhecimentos na obtenção da felicidade era o ensino da religião.

"A religião impede que nossos filhos tenham uma educação racional; a religião impede suprimir as principais causas da guerra; a religião nos impede ensinar a ética da cooperação científica em lugar das antigas doutrinas do pecado e do castigo. Possivelmente a humanidade se encontra no umbral de uma idade de ouro; mas, se assim for, primeiro será necessário matar o dragão que guarda a porta, e este dragão é a religião". Muitos outros trechos sublinhei em Russel. Embora não participe de seu otimismo em relação ao bicho-homem, acredito que dentro em breve as nações mais desenvolvidas, ou pelo menos as camadas mais cultas destas nações, terão reduzido as religiões a meros verbetes de enciclopédias.

Se hoje os professores se queixam de que os alunos lêem pouco ou coisa nenhuma, em Dom Pedrito, os oblatos do colégio Nossa Senhora do Patrocínio e as irmãs do colégio Nossa Senhora do Horto, com as quais mantínhamos algum diálogo, viviam um drama inverso: nós líamos demais. (Por nós, entenda-se um grupo de cinco ou seis ginasianos, desconfiados com a cultura oficial e ávidos de idéias novas). O livro de Ingenieros, encomendamos de Montevidéu, através da irmã Helena, do Horto. Quando fui apanhá-lo, a coitada se consumia em dilemas, não sabia se nos entregava ou nos subtraía o livro, se o jogava no fogo ou se o guardava. "Este livro é diabólico, me queima nas mãos, não posso entregá-lo a vocês". Não há outra saída, ponderei, agora mesmo é que queremos o livro. Se não nos entregasse, criava um atrito inútil, sem falar que Montevidéu não era assim tão longe. O livro finalmente foi entregue, não sem mais algumas trecheadas angustiadas da irmã Helena. Soube, alguns anos depois, que ela renunciara ao hábito. Em parte terá sido em função de Ingenieros, o que me envaidece. Ainda adolescente, dei uma mãozinha para salvar alguém do ranço vaticano e do dogmatismo.

Por boa leitura entendo a leitura que nos transforma. Ficção pode dar prazer, mas não tem esse poder. A última ficção que li foi a última que traduzi, e isso já deve fazer mais de 25 anos. Sempre faço a ronda das livrarias em minhas viagens, mas não dirijo sequer um olhar aos rayons de ficção. Claro que sempre é bom reler o Quixote ou As Viagens de Gulliver. Ou 1984.

Ocorre que estes livros, antes de serem ficções, são ensaios sobre a condição humana.

Domingo, Agosto 10, 2008
 
BAIXARIA


Não sou muito de reproduzir textos. Mas não resisto a este da Folha de São Paulo:

CLASSE MÉDIA EMERGENTE SE ACHA POBRE

Famílias com renda superior a R$ 1.064 não aceitam classificação da FGV, mas confirmam melhora no padrão de vida


Para moradores de bairro da periferia do Rio, qualidade de vida deveria ser levada em conta tanto quanto a renda para definir padrão

ELVIRA LOBATO
DA SUCURSAL DO RIO

Poucas notícias provocaram mais reação em Vila Kennedy -bairro de 200 mil habitantes, na zona oeste do Rio- do que a pesquisa da Fundação Getulio Vargas que classificou como classe média as famílias com renda mensal a partir de R$ 1.064. Até moradores com rendimento acima desse patamar se vêem como pobres e rejeitam serem chamados de classe média.

"É uma baixaria. Fiquei revoltado quando vi a notícia na TV. A classificação é vazia e mentirosa", reagiu o aposentado João Galdino de Melo, presidente da Associação dos Moradores de Vila Progresso. Pai de três filhos, que estudam e trabalham, Galdino diz não ter dúvida de que sua família é pobre, embora a renda familiar atinja R$ 2.400.

Segundo a FGV, 32% dos trabalhadores das regiões metropolitanas de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife que estavam em situação de miséria em janeiro deste ano aumentaram de renda e subiram na escala social. A pesquisa, divulgada na terça-feira, classifica 52% da população dessas regiões como classe média, entendendo-se como tal as famílias com rendimento mensal de R$ 1.064 a R$ 4.591.

Mara Martins, 32, cinco filhos, tem renda familiar mensal de R$ 1.800, somando a pensão de R$ 200 que recebe do pai de um dos filhos; o salário do filho mais velho (vendedor em um shopping na zona oeste) e o que ela fatura com uma barraca de doces, pizza e bebidas e com outra de roupas. A primeira barraca funciona à noite, e a de roupas, durante o dia. Ainda recebe ajuda financeira de uma irmã que mora no Maranhão.

Ela diz que ficou "doente" ao saber da notícia sobre a classe média, da qual, agora, seria parte. "A única roupa que comprei para mim neste ano foi um vestido, de R$ 10. Nunca fui a um cinema. Trabalho todos os dias e não tenho lazer. Classe média, para mim, tem de ter lazer."

O que é classe média?

O grau de indignação com a pesquisa varia segundo a concepção de cada um sobre classe média. Para a aposentada Luiza Oliveira Vieira, 65, a qualidade de vida do bairro deveria pesar tanto quanto a renda. Com aposentadoria de R$ 1.100 por mês, e sem dependentes, ela é parte da classe média, pela pesquisa da FGV. Mas diz que não se sente como tal morando de frente para um valão, numa rua chamada de Etiópia.

As ruas de Vila Kennedy foram batizadas com nomes de países africanos. O ex-funcionário da Petrobras José Camilo Neves, 57, mora na Sudão. Como taifeiro aposentado, tem pensão de R$ 3.400 por mês, mas nem ele se considera classe média, pois cinco pessoas dependem de sua renda, não tem lazer e mora em rua sem calçamento, que há até pouco tempo tinha esgoto a céu aberto.

A posse de bens de consumo não foi considerada pelos entrevistados de Vila Kennedy como indicador de classe média, porque mesmo os que se definem como pobres possuem televisão, geladeira, fogão, DVD, aparelho de som e pelo menos um telefone celular.

"Isso é o básico", diz Valcinéia dos Santos, 28, artesã, que mora com o marido e uma filha. A renda familiar é em torno de R$ 1.200, mas considera "uma piada" dizer que ela é classe média, porque depende da ajuda financeira da mãe, que é gari.

Na avaliação do aposentado João Galdino de Melo, 51, a renda familiar mínima para definir classe média deveria ser de R$ 4.000 por mês. Isso porque ele e os filhos têm rendimento conjunto de R$ 2.400 e a família se considera pobre, morando na periferia da cidade, onde o Estado é ausente.

Os salários dos filhos não são suficientes para pagar as despesas deles, e o pai, cuja pensão é de R$ 1.200, paga parte delas. Os três estudam em faculdade particular.

Galdino leva a reportagem da Folha até sua casa, para mostrar o padrão de vida da família. Na garagem, um Fiat Prêmio de 18 anos. A casa tem TV, geladeira, fogão, aparelho de som, DVD e computador. A TV por assinatura e a internet rápida são oferecidos por operador clandestino.

Como líder comunitário, ele enumera as deficiências de Vila Kennedy: não tem um curso profissionalizante para os jovens; não tem linha de ônibus para o centro com estação final no bairro - os ônibus existentes vêm de outros bairros e passam lotados; faltam professores nas escolas municipais, falta emprego. As opções de trabalho são informais, como o serviço de mototáxi.

Sábado, Agosto 09, 2008
 
PEDOFILIA E IDADE



Júlia Aidar me escreve:

Caro Janer,

Concordo com sua afirmação de que o Ocidente, por medo ou político-corretismo idiota, está se dobrando ao Islã. Só discordo da comparação entre Aisha e Maria, afinal, mesmo hoje, em muitos países ocidentais uma menina de 13 anos pode ser considerada mulher (apta a ter relações sexuais, perante a lei), e a grande maioria das meninas já menstruou e é fisicamente uma mulher com essa idade. Meninas que menstruam aos nove anos podem ser relativamente fáceis de encontrar nos dias de hoje, com alimentação abundante e cheia de hormônios, mas até poucas décadas atrás eram praticamente uma aberração, que dirá há um milênio e meio, no meio do deserto. Uma menina de nove anos sempre foi uma criança e, aliás, mesmo que menstrue, continua a sê-lo. Por isso, não vejo como hipocrisia reclamar de pedofilia com uma menina de 9 anos enquanto se glorifica a concepção de uma de 13.

Abraço,
Julia


De acordo, Júlia. Ocorre que Maria, segundo os padrões atuais, estaria incursa no crime de pedofilia. Discordo dessa legislação, creio que uma menina de 13 anos, em nossos dias, conhece mais de sexo que sua avó. Na Espanha, a idade de consenso sexual é 12 anos. Nos Estados Unidos, se estabelece uma diferença de idade de cinco anos, creio, entre um e outro parceiros, para que a pedofilia seja configurada. A meu ver, um absurdo jurídico. Desde quando a tipificação de um crime decorre da idade?

Por outro lado, só adultos de certa idade são incriminados como pedófilos. Há mais de milhão de adolescentes grávidas no Brasil, e muitas delas com dez ou doze anos. Os meninos que as engravidaram jamais foram condenados como pedófilos.

Sexta-feira, Agosto 08, 2008
 
CLASSE MÉDIA VIRTUAL



Um dos jornais que gosto de ler é o espanhol El País. O que não quer dizer que assuma como verdades eternas o que publica. É o caso desta reportagem sobre a suposta ascensão da classe média brasileira. Deixo o texto em espanhol, afinal é obrigação de todo brasileiro conhecer o idioma de nossos vizinhos:

Licenciado en Ciencias Actuariales (un estudios similares a contabilidad) en el segundo semestre de 2006, otro joven brasileño, Lúcio Sartori, "vivía para pagar los estudios y la habitación". Hasta julio de 2002, su sueldo era de 600 reales (255 euros). Ascendido en la oficina, con un sueldo de 2.500 reales (1.039 euros) pudo viajar a España, Francia, Holanda, Alemania, Suiza e Italia el año pasado. La próxima meta es un nuevo viaje en abril, esta vez a Dinamarca, República Checa y Austria. Sartori, como Becker, también se se ha hecho adicto a lo que es un símbolo para esta nueva clase media brasileña, la comida oriental: "Siempre me gustó la comida japonesa, pero no podía darme al lujo. Ahora voy con frecuencia a japoneses y tailandeses". En Porto Alegre, la capital de Rio Grande do Sul, con 1,4 millón de habitantes, el restaurante especializado en comida japonesa de bufet libre (una institución en Brasil) más barato, cobra 35 reales por persona (unos 14 euros). Un menu básico, semejante al español, puede costar 2 euros.

Comida japonesa à parte, dedico-me às viagens do Sartori. É de supor-se que gaste algo em seu sustento em Porto Alegre. Pode alguém habitar e comer decentemente na capital gaúcha por 2.500 reais? Pagar estudos e habitação? Duvido. Deixo a resposta aos gaúchos. Enfim, in dubio pro reo. Vamos admitir – e com muita benevolência – que o Sartori consiga viver com 1.500 reais por mês. Sobram 1.000. Ou seja, 387 euros. Não paga nem a metade do custo da travessia do Atlântico.

Sem falar que você não consegue viajar pela Espanha, França, Holanda, Alemanha e Suíça – vou deixar por baixo, comendo mal e se hospedando em albergues – por menos de 50 euros e estou sendo muito condescendente. Suíça e Itália estão hoje entre os países mais caros da Europa. Na Itália, em função dos preços, houve uma retração do turismo. Para uma viagem de 30 dias – es un suponer – dá 1.500 euros. Câmbio de hoje, 3.871 reais. Mais, digamos, mil euros de passagens. São mais 2.581 reais. Somando – e sempre por baixo – 6.452. Ora, me contem outra.

Ou seja, a tal de classe média só pode estar pendurada no cartão de crédito. Ou vive como parasita junto aos pais, com casa, comida e roupa lavada. Temos então uma classe média virtual.

O autor da reportagem se assina como Rodrigo Cavalheiro. Esse Cavalheiro nada tem de espanhol. O que explica muita coisa.

 
ISLÃ CENSURA HISTÓRIA



Não é de hoje que o Islã vem exercendo seu poder sobre o Ocidente. Começou em 1988 com a censura ao livro Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie - e a condenação do autor à morte por uma fatwa do aiatolá Khomeiny - continuou com o assassinato do cineasta holandês Theo van Gogh, em 2004, avançou com a condenação às charges sobre Maomé de um jornal dinamarquês em 2005 e já está contaminando o universo jurídico, a ponto de a França ter anulado o casamento entre dois muçulmanos, há dois meses, ante o argumento do marido que sua mulher não era virgem conforme afirmara. Imagine se um francês alegasse isso. Seria tido como insano.

Agora é o Reino Unido que se dobra aos muçulmanos. A prestigiosa editora Random House decidiu não publicar o livro The jewel of Medina, primeira novela da jornalista Sherry Jones, sobre a qual já estava programada uma campanha publicitária em oito cidades. Motivo? O livro trata da vida de Aisha, uma das quinze mulheres de Maomé, que se tornou sua noiva aos seis anos de idade e teria sido deflorada aos nove. Neste Ocidente que denuncia a pedofilia, esta menção em nada prestigia o profeta. No que vai muito de hipocrisia, afinal Maria teria 13 anos quando concebeu o Cristo. A crer-se no relato bíblico, o filho não era de José. Ou seja, o pedófilo era o Paráclito, o Espírito Santo.

Thomas Perry, editor-adjunto da Random House, declarou que a empresa havia recebido a advertência de que a publicação poderia ser ofensiva não só junto à comunidade islâmica, mas que também poderia incitar atos violentos da parte de um pequeno segmento radical. Então não se publica mais o livro.

O Islã, na Europa, não está apenas censurando um livro. Está censurando a História.

 
STF ROUBA ALEGRIA DO POVO



Depois que banqueiros e políticos começaram a surgir algemados na televisão e jornais, o Supremo Tribunal Federal decidiu, por unanimidade, que algemas só devem ser usadas em casos "excepcionais" e de "evidente perigo de fuga ou agressão".

"Na prática, o que a corte observou é que o uso de algemas se tornou uma forma de se execrar um cidadão aos olhos da população", afirmou Marco Aurélio Mello, relator do tema. "O que afirmamos hoje é que, em regra, as algemas não devem ser usadas."

De fato, soava um tanto estranho ver algemadas pessoas que, por idade ou condição física, não teriam como reagir nem correr dez metros para fugir da polícia. No entanto, neste país onde rico não vai para a cadeia, era sempre reconfortante ver figurões escondendo as algemas com casacos sobre os braços.

Estes momentos de alegria em meio ao triste panorama nacional foram roubados ao público pelo STF.

 
CAMELÔ É CLASSE MÉDIA?


De Marcelo Constantino, recebo:

Janer,

Nos acostumamos a chamar de classe "média" - a classe B - uma classe relativamente mais abastada que a real média brasileira.

A real classe média, para fins de estudos econômicos, é a classe C. Afinal, entre as classes A até E, a C tem mesmo de ser a média. B não fica na média, fica acima.

Daí o conflito entre o popularmente dito e o conceitualmente estudado.

Abraço.


Bom, Marcelo, se por razões de simetria a classe C tem de ser a média, isto é problema de quem gosta de simetria. Se aceitarmos este critério, temos de admitir que a tal de classe média está fazendo faxina para sobreviver. O que me parece exagerado, em qualquer conceito que tenhamos de classe média. 1.064 reais é coisa que um camelô tira fácil no mês. Estaria a classe média exercendo a camelotagem?

Quinta-feira, Agosto 07, 2008
 
ESTUPIDEZ BRITÂNICA CONTURBA AEROPORTOS



O El País de hoje dedica um longo artigo a uma das pragas que perturbam a vida de quem viaja, as restrições à bagagem de mão nos vôos. Tudo começou com um anexo ao regulamento 1.546 de 2006, que, entre outras coisas, proíbe levar líquidos em recipientes de mais de 100 ml. O anexo, além do mais, é secreto, o que contraria o artigo 254 do Tratado da União, que exige a publicação de todas as normas no Diário Oficial das comunidades européias. Segundo especialistas, as exigências não são apenas inúteis para garantir a segurança de vôo, como também ilegais.

Há uns dois anos, quando embarcava em Barcelona, uma de minhas amigas foi barrada pelos seguranças do aeroporto. Levava uma garrafa de Chivas pela metade. Ante a perspectiva de ver a bebida jogada num cesto de lixo, fui rápido no gatilho. “Me passa essa garrafa”. Não suporto a idéia de beber no bico, mas o guardinha não ia nos oferecer copos. Empinei a botella, bebi com gosto e repassei-a a ela. Em duas ou três bicadas para cada um, estava extinta a ameaça à segurança de vôo. Entregamos a garrafa vazia ao funcionário que, pela cara que fez, não gostou de nossa solução. Mas passamos.

A coisa se complica se você precisa de remédios líquidos. O jornal espanhol relata o caso de David Raya, catalão de 28 anos, que costuma viajar com uma maleta cheia de medicamentos, que no total somam mais de um litro. Padece de fibrose cística e diabetes. A cada vez que voa, tem de justificar sua farmácia. “Mas por que todo mundo tem de saber que sou doente?” – pergunta-se Raya.

Além do mais, segundo peritos, estas medidas são inúteis. Explosivos podem ser montados com menos de 50 ml. Segundo José Luis García Fierro, químico, a peroxiacetona pode ser fabricada facilmente com quantidades da ordem de 50 ml de três componentes: água oxigenada, acetona e um ácido. Com uma pequena chispa, o composto entraria em combustão e a onda poderia quebrar vidros.

Isso sem falar nas bebidas alcoólicas servidas a bordo, com as quais se poderia armar coquetéis Molotov. Vou mais longe. Qualquer conhecedor de artes marciais pode matar com as mãos. Dois ou três caratecas, de mãos limpas, podem ser tão perigosos a um vôo quanto os terroristas do 11 de setembro. Passarão os aeroportos a exigir dos passageiros que provem não conhecer artes marciais?

Já tive de jogar fora até uma minúscula tesourinha que levo em viagens para aparar o bigode. Ainda não tive de tirar os sapatos, mas já tive de tirar o cinto, como se nele houvessem armas capazes de derrubar um avião. Também vi muita mulher tendo de tirar as botas para passar os controles. Aliás, esta é mais uma razão para não ir aos Estados Unidos. Só o que faltava tirar os sapatos para entrar em um país. Nos aeroportos, o viajante é tratado como potencial terrorista. Ao ser revistado pelos controladores, tem de pôr as mãos ao alto, como qualquer bandido de favela.

Brasileiros, vemos com certo fatalismo essas exigências estúpidas. Como se fossem decorrências naturais da ameaça de terrorismo. Quanto aos europeus, já estão chiando. Que história é essa de cumprirmos determinações legais que desconhecemos?

O regulamento, segundo o El País, considerado um desatino pelos especialistas em Direito, foi redigido e aprovado pela Comissão Européia, após agosto de 2006, quando o Reino Unido desbaratou uma suposta trama para explodir com líquidos vários aviões com destino aos Estados Unidos. Londres aplicou então uma série de medidas restritivas aos líquidos e enviou um informe à Comissão. O Comitê de Segurança da Aviação Civil, integrado por experts dos 25 Estados membros, se reuniu a portas fechadas no 27 de setembro e adotou as medidas britânicas. Apenas três países se opuseram, por considerá-las desproporcionais: Itália, Irlanda e a República Checa.

O sigilo da medida provoca outro incômodo, a arbitrariedade. As normas são aplicadas de maneira diferente em cada país e mesmo em cada aeroporto. Assim, um recipiente com creme pode voar de Mallorca a Berlim, mas não de Berlim a Paris. Há vôos que não aceitam o foie gras e o queijo cremoso. Nos aeroportos brasileiros, você é alertado de que não pode transportar alimentos. Quer dizer que não posso mais trazer meus potinhos de foie gras ou camembert? Mesmo assim, os tenho trazido e o alerta das autoridades é letra morta.

Seja como for, as normas são secretas. Você só sabe o que não pode levar na hora de embarcar. Segundo Juan José Solozábal, catedrático de Direito Constitucional da Universidad Autónoma de Madrid, isto é contrário ao Estado de Direito. "O cidadão tem que saber o que não pode fazer. A publicação das normas é fundamental para que estas possam ser cumpridas”.

Se esta regulamentação é inútil e ilegal, porque não é eliminada? "Suprimir hoje uma medida de segurança seria reconhecer que é estúpida e inadequada”, diz Christophe Naudin, pesquisador do departamento de Ameaças criminais contemporâneas, da universidade París 2, e autor do ensaio La sûreté aérienne.

Por insistir em não reconhecer que a medida é estúpida, os aeroportos do mundo todo a adotam.

Quarta-feira, Agosto 06, 2008
 
FGV PROMOVE CRISTINA


Cristina, minha secretária de assuntos domésticos, recebe 85 reais a cada faxina que faz aqui em casa. É diarista e faz outros apartamentos durante a semana. Suponhamos que cobre uma média de 80 reais por faxina. Sem trabalhar aos sábados e domingos, tira 1.600 reais por mês. Ontem, a Fundação Getúlio Vargas promoveu Cristina à classe média.

Leio na Folha de São Paulo que, “de cada cem trabalhadores das seis maiores regiões metropolitanas que estavam em situação de miséria em janeiro deste ano, 32 aumentaram sua renda e mudaram de classe social após quatro meses. Essa maior mobilidade ajudou a reduzir a desigualdade e encorpou a classe média. É o que mostra estudo divulgado ontem pelo economista Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da FGV. A pesquisa identifica que esses movimentos de aumento da classe média e de redução da desigualdade, que começaram a ser detectados nesta década, continuam fortes neste ano. (...) O estudo da FGV definiu como classe média a população cuja renda domiciliar total se situava entre R$ 1.064 e R$ 4.591”.

Ou seja, estou contratando a classe média para fazer minha faxina e ainda não me dei conta disto. Ou, por outro lado, a tal de classe média está tendo de fazer faxina para sustentar-se como classe média. Ora, contem outra. Moro em Higienópolis, bairro tido como de classe média. Só de condomínio, pago 650 reais. (Devo confessar que, comparado com demais condomínios do bairro, não está caro). Tivesse de pagar aluguel, lá se iriam mais uns dois mil reais. Que classe média é essa cujo salário chega sequer à metade do que se exige para morar em um bairro de classe média, conforme os parâmetros mínimos da FGV? Estou falando só no morar. Comer, vestir, saúde, educação, energia, telefonia e lazer custam bem mais. Mesmo se pensarmos em 4.500 reais, esta renda domiciliar vira zero quando se tem um filho adolescente.

Conheço uma jornalista, solteira e sem filhos, que mora na Consolação, bairro longe de ser considerado de classe média. Por um mero quarto e sala paga 1.200 reais. São os preços do bairro. Já os teóricos da FGV nos acenam com uma renda – familiar – menor que isso para definir classe média. É mentira hiante! Que a FGV sofisme, isto se entende. Terá seus interesses a defender.

O que é difícil de entender é que a imprensa engula tal sofisma, sem tugir nem mugir.

Terça-feira, Agosto 05, 2008
 
PERVERSÕES DA GASTRONOMIA


Leio na Veja que o hambúrguer mais caro de Nova York é vendido em Wall Street e acaba de subir de preço. A refeição, servida com grãos de ouro comestíveis, custava 150 dólares, e agora sai por 175 dólares (cerca de 290 reais). Haja estupidez. Pois é preciso ser muito idiota para, primeiro, pagar 175 dólares por um hambúrguer. Segundo, para comer grãos de ouro.

Pelo jeito, os sanduíches estão em franca campanha para serem promovidos a alta gastronomia. Na semana passada, o Estadão dedicava quase um suplemento inteiro à promoção do hambúrguer. Uma jornalista americana pretendia que este bifinho picado era o must dos restaurantes franceses, onde chegaria a custar 35 euros. Ora, acabo de voltar de Paris e o que mais fiz por lá foi visitar restaurantes. Nos meus diletos, não encontrei nem sombra de hambúrgueres. Você pode encontrá-los nos cafés, onde se pode fazer um repasto sem maiores requintes. Mas não em restaurante que se preze. Hambúrguer não é cozinha. É fast food.

Por 35 euros, você pode consumir grandes pratos da gastronomia francesa. Aliás, por bem menos que isso. Os ianques, sempre os considerei como bárbaros na hora de comer e beber. Que sabor tem o ouro? Isso de comer sanduíches recheados com ouro é coisa de novo rico, que acha que está comendo bem só porque come caro. Em Roma, encontrei certa vez um café que vendia uma taça com essências de perfumes a 50 euros. Você cheira... e bom proveito. Finito. O inacreditável é que há quem os consuma.

Nada contra os sanduíches. Mas pagar 175 dólares – ou mesmo 35 euros – por um deles é insânia. Confesso que tenho até alguma predileção por comida de rua. Em Paris, costumo dedicar uma refeição ao merguez com chili, uma espécie de cachorro-quente com uma lingüiça árabe, que queima como brasa na boca. Curiosamente, nesta São Paulo que tem tantos restaurantes árabes, nunca vi nem sombra de merguez. Seja como for, não custa mais de cinco euros. Alerta aos navegantes: se algum leitor quiser degustá-lo, é altamente recomendável que tenha água por perto. Nas primeiras dentadas, o chili mal se revela. Na terceira ou quarta, começa a queimar.

Ano passado, por curiosidade, experimentei uma dessas extravagâncias. Estava no Rubaiyat, churrascaria próxima à Avenida Paulista, e o cardápio tinha o tal de bife Kobe. Leio ainda na Veja, que “para a maioria dos gastrônomos, não há carne bovina igual à produzida na província japonesa de Kobe. O famoso bife de Kobe, garantem os principais especialistas em carne vermelha, é o que de melhor se pode comer em termos de proteína. Mas aí é golpe baixo porque os boizinhos de Kobe são tratados com aveia e cerveja, recebem três sessões diárias de massagem, descansam sobre tapetes térmicos, são tratados com acupuntura e ouvem música erudita o dia todo, para se distrair. Resultado: um quilo dessa carne chega a custar 1 000 dólares. Existe um restaurante em Nova York, o Nello, que já chegou a cobrar 750 dólares por um bife de Kobe acompanhado de batatas fritas”.

Bom, não paguei – nem jamais pagaria – tanto. Na época, a suposta iguaria custou-me 110 reais. O garçom quis saber se eu queria o filé gorduroso ou sem gorduras. Pedi sem gordura. Veio um filé branco de tanta gordura. A gordura não é como na picanha, concentrada fora da carne. Fica espalhada entre as fibras musculares, dando à carne uma aparência de mármore. Daí a denominação de carne marmorizada. Macia, é verdade. Mas nada de especial além disso. Esqueci de perguntar ao garçom que compositor o boi ouvia quando foi abatido. Certamente não era Brahms nem Beethoven. Talvez Chopin ou Liszt.

Há muita gente pagando caro para comer mal.

Segunda-feira, Agosto 04, 2008
 
SUMMA AV KARDEMMUMAN



Leitores sempre me consultam sobre viagens. Primeira cautela: não faça o que eu fiz. Isto é, não viaje em julho. É certamente o pior mês para viajar. É estação alta, o que significa quase o dobro do preço em passagens. Como coincide com o período de férias no Brasil, você vai tropeçar com essa brasileirada abominável, cheia de malas enormes. Os hotéis são mais caros, os aeroportos estão repletos de gente, museus e monumentos também. Isso sem falar do calor. Viajei em julho porque queria mostrar o sol da meia-noite à Primeira-Namorada. Não fosse isso, jamais viajaria no verão europeu.

Há gente demais viajando no planetinha. Os grandes aeroportos, como os de Paris, Madri ou Londres, estão se tornando extremamente desconfortáveis. Ao voltar de Paris, acordei às seis da manhã. Embarquei lá pelas onze e não tive tempo nem mesmo de tomar um café. Uma hora até o Charles de Gaulle. Mais de hora no check-in. Mais outra percorrendo esteiras e corredores. Os aeroportos centralizaram o check-in num terminal só e depois o enviam para os de embarque. Para ir de um terminal a outro, você percorre quilômetros por esteiras. Quando pensa que chegou ao destino, cai em um trem. O trem o leva até outra ponta do aeroporto e se você pensa que chegou está enganado: há mais esteiras. Heathrow, então, é uma cidade, talvez maior que Londres. Nesta viagem, pensei em viajar pela Ibéria e despedir-me da Europa em Madri. Quando soube que o vôo tinha escala em Londres, desisti. Topo tudo em uma viagem. Menos uma escala em Heathrow.

Difícil visitar monumentos. Em maio passado, quando viajava com uma amiga, pensei em mostrar-lhe a Notre Dame. Era feriadão na França e uma fila quilométrica me esperava diante da catedral. Desisti. La Sainte Chapelle, nem pensar. Nesta viagem, a Primeira-Namorada quis ver Versailles. Fui até lá. Uma multidão assustadora formava um mar humano para entrar no palácio. Ela enfrentou o mar. Quanto a mim, fiquei na praia, num boteco próximo. Não há monumento no mundo que me faça esperar uma hora em uma fila. Por sorte, os monumentos sempre têm um boteco nas proximidades.

Há gente demais viajando, dizia. Fala-se que em 2.020 teremos cem milhões de chineses fazendo turismo. Isto é, não vai sobrar espaço nem para fotos. A Europa está tentando controlar a entrada de migrantes. No que a mim diz respeito, acho que precisava controlar a entrada de turistas. Especialmente dos que viajam em excursões. Nada mais antipático que uma malta de brasileiros ou japoneses atopetando as ruas de uma cidade.

Excursões até podem ser uma solução, para gente idosa que tem dificuldades de locomoção e mal consegue carregar malas. Fora disso, é estupidez digna de analfabetos. Para começar, você não está no estrangeiro, mas envolto por uma bolha de conterrâneos. Todos falando a mesma língua. Ora, se todos falam português à sua volta, isto significa que você não saiu do Brasil. Pensa que viajou mas não viajou.

Numa excursão, o viajante não consegue fazer a viagem que quer. Faz a viagem que a agência propõe. Isto significa acordar de madrugada, tomar café às pressas e visitar às vezes três ou quatro cidades num dia. Você paga caro e não vê nada. E ainda perde a suprema ventura de sentir-se perdido em uma cidade desconhecida. A meu ver, um dos grandes prazeres de uma viagem.

O que leva uma pessoa a optar por uma excursão, a meu ver, é o medo. Neste medo reside o lucro das agências de turismo. Medo de enfrentar geografia desconhecida, medo de não falar o idioma do país. Ora, para geografias desconhecidas existem mapas. A primeira providência que se toma ao chegar a uma cidade é comprar um mapa. Quanto ao idioma, por favor: se o desconhece, faça um cursinho rápido antes de viajar. Além de facilitar sua viagem, você terá adquirido um pouco mais de cultura.

Em meus dias de universidade, uma colega de magistério viajou à Espanha. Passei a ela os endereços dos melhores restaurantes de Madri. Na volta, perguntei se havia gostado de minhas dicas. Ela não fora a nenhum. Comeu apenas em Mcdonalds. Era o medo de enfrentar o cardápio, de comer algo estranho ao palato. Num Mcdonald, ela sempre sabia o que iria comer. Claro que cortei relações com a pessoa. Não cultivo amizades com quem come em Mcdonalds.

Uma outra colega, professora de francês, foi a Paris. Repassei-lhe os bons endereços. Ao voltar, me contou que tomou um táxi para ir da Rue Cujas, em frente à Sorbonne, até a Notre Dame. Ora, é um trajeto curto, que não toma vinte minutos a pé. Sem falar que é um dos mais belos passeios de Paris, você percorre o boulevard Saint Michel, atravessa o Sena e chega à catedral. A analfabeta atroz tomou um táxi.

Claro que também cortei relações com ela. Tolerância tem limites.

Domingo, Agosto 03, 2008
 
A RAPOSA E O GALINHEIRO



Por Sandra Cavalcanti,
professora e jornalista

Meio milhão de brasileiros continuam a ser caloteados pelos mais variados escalões governamentais. Cidadãos e cidadãs que, após anos de lutas no universo judiciário, conseguiram ver reconhecido o seu direito de receber indenizações do poder público. Poucas pessoas fazem idéia da soma dessas dívidas. Federais, estaduais, municipais e de outros órgãos públicos, somadas, já atingem a fantástica soma de mais de R$ 100 bilhões!

Estudos recentes feitos por especialistas informam que a maioria dessas dívidas corresponde ao não-pagamento de valores de natureza alimentar. São as dívidas relativas a vencimentos, salários, aposentadorias, pensões, promoções, férias, enfim, tudo o que diz respeito à remuneração de pessoas por serviços prestados às autoridades públicas.

Injustiçados, preteridos nos seus direitos, reduzidos em seus vencimentos, diminuídos em suas aposentadorias, calculadas de forma errada as suas pensões, os cidadãos esgotam as reclamações na área administrativa e partem para os tribunais. Normalmente, a luta é dura. Os poderes públicos usam e abusam de mil formas de recursos, diligências, pesquisas de dados, contestações, embargos, enfim, uma parafernália que só com muita paciência e bons advogados consegue ser derrubada. Os prazos médios dessas ações são escandalosos. Nunca menos de dez anos!

Transitada a ação em julgado, só então o cidadão parte para a outra etapa de sua via-crúcis: conseguir que o poder público pague o que lhe deve! Essa é a parte mais dramática de toda essa inacreditável novela de calotes. Ele terá em mãos uma certidão que lhe garante o direito de receber. Essa certidão é uma promissória, assinada pelo poder público, reconhecida pelos mais altos cartórios do País. De posse dela, o cidadão passa a ter o imediato direito de receber a indenização. Esse papel recebe o lindo nome de precatório.

É um papel muito valioso. Deve ser incluído na relação de bens na declaração à Receita Federal! Se o titular morrer, os herdeiros têm direito ao valor do título, acrescido de todos os juros e multas cabíveis pela demora.

O tempo médio, bastante otimista, para que qualquer precatório seja honrado pelo poder público anda pela casa dos 15 a 20 anos! Ou seja, além dos dez anos nos tribunais, mais 15 nas chicanas do mau pagador!

No Brasil, sempre ouvimos falar de dívida externa. Era uma espécie de vergonha nacional. O País devia muito dinheiro lá fora e estava com fama de caloteiro. Aproveitando a boa maré da economia mundial, chegamos até a resgatar as dívidas com o FMI. Mas a dívida interna ficou.

Acho que o aumento de recursos que o progresso econômico produziu deveria ter sido aplicado aqui dentro, não só para melhorar a infra-estrutura de transportes e a rede de educação, mas, principalmente, para pagar as dívidas internas que tanto fazem o povo sofrer. Nelas estão os precatórios.

Infelizmente, as autoridades públicas não gostam de pagar as indenizações determinadas pela Justiça. Não gostam e não pagam. É grande o clamor popular diante de tal injustiça. Mas a pressão política dos caloteiros devedores é muito mais forte e eficaz. As autoridades simplesmente encontram todo um universo de razões para não pagar. Usam sistematicamente a desculpa de que, em seus orçamentos, não há sobras para isso... Argumentam que essas dívidas não são de sua responsabilidade, uma vez que, em sua maioria, decorrem de administrações anteriores...

A Constituição de 1988 deu a esta questão um tratamento leniente. E a própria Lei de Responsabilidade Fiscal não veio em socorro dos credores, como seria de desejar.

Recentemente, na Comissão de Justiça no Senado foi aprovado projeto que pretende modificar a forma de pagamento desses precatórios. Mas, em vez de criar condições mais enérgicas para que os devedores sejam obrigados a incluir, de fato, nos seus orçamentos os recursos para esse fim, o projeto trata de aliviar essa obrigação legal. Embora mantenha a exigência de que haja uma reserva de receita para esse fim nos orçamentos, abre um caminho tortuoso para que os pagamentos possam ser feitos com prejuízo para os credores. Estabelece que 50% dos precatórios podem ser leiloados com deságio de até 80%! Inacreditável!

Além disso, o projeto estabelece que 30% dos precatórios serão pagos em ordem crescente, do menor para o maior, e os demais 20% seguiriam a ordem cronológica...

A proposta do projeto é absolutamente imoral. Não cabe ao Poder Legislativo criar condições para que, entre o poder público devedor e o cidadão credor, venha a ser estabelecida, em texto de lei, uma negociação em que a decisão do Poder Judiciário é desrespeitada.

O Legislativo pode, isso sim, legislar para o Executivo, permitindo que ele receba precatórios para pagamento de tributos. Se o titular encontrar quem queira comprar a sua certidão para pagar tributos, essa solução pode ser aceita. Mas, ainda assim, o Estado devedor não pode ficar liberado da obrigatoriedade de saldar suas dívidas com os cidadãos credores. O pagamento tem de ser efetuado. Não é nenhum favor.

No momento em que a Nação acompanha, estarrecida, o espetáculo deprimente de conluio, conivência, cumplicidade e despudor revelado nas relações espúrias entre o público e o privado, entre a política financeira e os financeiros políticos, entre credores generosos e descansados devedores, vale a pena levantar, de novo, a vergonhosa questão dos precatórios neste país!

Uma boa campanha, agora, seria a de exigir que, nos orçamentos municipais a serem elaborados pelos novos vereadores, figure a receita necessária para pagar essas dívidas. Imperdoável será permitir que, nesse novo período de administração, seja mantida a triste condição de ver as raposas tomando conta do galinheiro. Como pode um devedor exibir moral para agir como um cobrador?

Sábado, Agosto 02, 2008
 
AINDA O BATEAU IVRE


De Estocolmo, recebo de minha gentilíssima anfitriã:

Aquele dia, estranhamente, o passeio foi super tranqüilo com uma maioria de famílias, muitas crianças e idosos, o que não é o normal. Como eram férias, os jovens ou viajam ou trabalham. Fora deste época, o normal é ver muita gente caindo de bêbada, brigando e até tentando suicídio.

Ainda bem que foi tranqüilo. Não suporto gente que não sabe beber. Mas suponho que, com a explosão de bares em Estocolmo, os Svensons já tenham aprendido algo sobre como beber sem se embriagar. Em meus primeiros dias de Estocolmo, em 71, tive uma experiência significativa. Eu tentava decifrar o que era leite numas Tetra Pak num supermercado, quando fui abordado por uma conterrânea, negra e linda. Conversa daqui, conversa dali, me convidou para visitá-la. Morava nos arredores de Estocolmo, em meio à floresta, mas onde se podia chegar por metrô. Fui lá.

Seu marido, piloto de corridas, me recebeu com uma mesa imensa, repleta de toda espécie de bebidas. Começou me oferecendo cerveja. Eu não falava sueco na ocasião. Como pensava em vinhos, tentei objetar: “first wine”. Não me permitiu. Insistiu que o vinho era para mais tarde. E foi me empurrando os mais diversos alcoóis, desde uísque até ponche, até que finalmente chegamos ao vinho. Isto é não saber beber. Fiquei de porre e tinha de voltar, em meio à floresta e à neve. Disse à negra linda: “vocês me desculpem, não tenho condições de voltar. Mesmo que me levem até o metrô, não saberei como chegar a meu hotel. Posso ficar?”

Ficamos, eu e minha Baixinha adorada. Em virtude das restrições ao álcool na Suécia, aquele Svenson não sabia beber. Só se embriaga quem não sabe beber. Era o caso dos suecos naqueles dias. Nas noites de fim de semana, no metrô, um odor ácido de vômito impregnava o ambiente. Adolescentes conseguiam embebedar-se com latinhas de cerveja.

Naquela primeira viagem, percorri os países do sul da Europa, onde se bebe o tempo e dificilmente se vê alguém embriagado. Na Itália, Espanha, França ou Portugal, as pessoas bebem a cântaros e com sabedoria, sem embriagar-se. Nos dias que vivi em Paris, vi gente empinando um Calvados às sete da matina. Claro que bêbados sempre os há. Mas eram muito mais encontradiços nos países onde havia restrições ao álcool.

Minha anfitriã insiste:

Se aprenderam, não o demonstram nestes navios e veja que vou nestes passeios com bastante freqüência. Mas que bom que foi tranqüilo just naquele dia. Beijos.

Não vou discordar de quem conhece o pedaço. Seja como for, foi muito bom navegar naquele bateau ivre. Beber sem skatt faz bem à alma.

Sexta-feira, Agosto 01, 2008
 
BRASIL MERECE


Uma leitora me escreve:

Veja a incoerência daqueles que querem fomentar o revanchismo. O senhor Tarso Herz Genro busca torturadores? Pois bem, comece por aqueles seus comparsas terroristas que torturaram e mataram, com requintes de sadismo, o Capitão Mendes Junior. Von Herz cuide dos assuntos que o senhor vêm negligenciando, tais como combate aos amiguinhos dos narcoterroristas das FARC, infiltrados no Governo Federal. Será que o senhor é um deles???

A leitora, ao acrescentar um Von, o associa ao nazismo. Ora, Tarso nunca foi nazista. Mas comunista. O que no fundo dá no mesmo. Mas é bom chamar as coisas pelo nome. Isso de catalogar canalhas como nazistas é coisa de comunista. Há uma condenação do canalha, mas a Idéia – como se dizia no século passado – é preservada. Além do mais, Tarso é judeu.

O que já escrevi contra o Tarso Genro, nos anos 70, antes que qualquer jornalista o denunciasse, daria uma bela antologia. Em uma de minhas crônicas, eu comentava sua retórica vazia. “Leio Platão e o entendo. Leio Tarso e não entendo nada. Talvez porque Platão é Platão e o Tarso é Genro". Isto escrevi há três décadas. Tenho escrito também ultimamente. Como a imprensa toda está denunciando não só as relações das Farc com o PT (isto foi levantado pelos jornais em 2005), considero que o público está bem informado sobre o assunto. Prefiro falar sobre coisas que a imprensa não fala. Mas certamente voltarei ao assunto. Leia melhor meus artigos, leitora, e você verá que, antes mesmo de o PT existir, antes de 80, eu já denunciava, no Correio do Povo e na Folha da Manhã, de Porto Alegre, os atuais líderes do PT: Tarso Genro, Flávio Koutzii, Pilla Vares, Marco Aurélio Garcia.

Há exatamente um ano, eu escrevia:

Não se fazem mais Tarsos como antigamente. O Genro, pelo que sabemos, continua fiel a sua filosofia de juventude. Nunca soube que tenha caído do cavalo, nem que tenha percorrido sua estrada de Damasco. Há alguns anos, eu li - juro que li - um artigo assinado por Genro no caderno "Mais" da Folha de São Paulo, onde ele falava da "ventura do stalinismo". Assim sendo, me parece totalmente despropositado falar de ex-marxista-leninista.

É curioso ver como as velhas raposas comunistas detestam ouvir esta palavrinha, sem jamais terem renegado a doutrina. Outro dia, eu escrevia sobre o deputado comunista Roberto Freire. Uma leitora, indignada, dizia que Roberto Freire nunca foi comunista. "Sempre foi socialista", jurava a moça. Num país de memória curta, as raposas simulam ter trocado de ideologia e não falta crédulo para acreditar na nova face. Esquecendo inclusive a antiga.

Com o desmoronamento da União Soviética, os velhos comunistas da Polônia, para marcar sua renúncia à antiga filosofia, eram submetidos a uma crucificação por uma hora. Crucificação sem pregos, é verdade, pulsos atados por cordinhas, que ninguém está aí para ser mártir. O gesto era simbólico, mas pelo menos trazia a público a decisão de renunciar ao comunismo. Não que eu queira ver o Tarso Genro ou o Roberto Freire atados por cordinhas numa cruz de mentirinha, nada disso. Mas o que se pede a um homem público que repudia uma doutrina é que manifeste este repúdio publicamente. Ora, não ouvi um só pio, seja de Tarso, seja de Freire, seja dos velhos comunistas herdeiros de Marx, Lênin e Stalin, manifestando sua renúncia à doutrina assassina. Para mim, continuam sendo comunistas.

Tanto que Tarso não hesitou em defender a deportação para Cuba, feudo do colega e dileto amigo Fidel Castro, de dois pobres diabos cubanos que queriam aproveitar o Pan no Brasil para pedir asilo na Alemanha. Não só defendeu como seu dedo ministerial deve estar por trás da deportação. É impossível que um ministro da Justiça não tenha tido ciência de uma operação assim delicada da Polícia Federal. A alegação esfarrapada é que os dois pugilistas estavam sem documentos e em situação irregular no Brasil. Foram presos em dois ou três dias e empacotados expressamente para Cuba. Ora, o Brasil tem centenas de milhares de colombianos, bolivianos, paraguaios, argentinos, uruguaios, coreanos, chineses e até mesmo europeus em situação irregular no Brasil e nenhuma Polícia Federal demonstrou tanto zelo em deportá-los com tanta rapidez.

Para justificar a volta dos cubanos a Cuba, Tarso, o ministro stalinista, declarou à Folha de São Paulo que quando foi exilado político optou por regressar ao Brasil, mesmo na ditadura, "porque queria voltar para minha pátria. Saí do meu país um dia e no outro queria voltar".

Leitor desmemoriado que lê esta declaração é capaz de imaginar que Tarso, o de São Borja e não o da Cilícia, esteve exilado em países distantes, de línguas estranhas e povo hostil, com oceanos de permeio. Ora, o exílio de Tarso foi bem mais singelo. E pragmático. Exilou-se... em Rivera, no Uruguai. Coitado do jovem poeta. Deve ter-se sentido terrivelmente dépaysé, assim longe da pátria que o viu nascer, a léguas de distância da São Borja natal e da Santa Maria que o acolheu. Para quem desconhece Rivera, esclareço que é uma cidade colada a Santana do Livramento, onde nasci. Apenas uma avenida, a calle Internacional, sem aduana nem controle algum, separa uma cidade da outra. Deve ser extremamente doloroso para um exilado sentar-se em um café em Rivera, olhando saudoso para a pátria longínqua e inacessível... no outro lado da rua.


Isso de denunciar monocordiamente o PT eu deixo para o cronista chapa-branca tucanopapista hidrófobo, que repete todos os dias o noticiário nacional. Além de fazer sistematicamente cut and paste, ele precisa purgar seu passado como esquerdista. Nunca fui de esquerda, não preciso purgar pecado nenhum. Considero que as denúncias da imprensa toda são mais que suficientes e não tenho vocação para menino de coral.

Em todo caso, estão sendo muito divertidas as afirmações dos ministros petistas de que nada têm a ver com as FARC. A denúncia nada tem de novo. É apenas comprovação do que a imprensa brasileira noticiava em 2005. Diga-se de passagem, o governo petista, ao arrepio da opinião internacional, sempre se recusou a qualificar as FARC como organização terrorista. Recebeu com tapete vermelho o chanceler das FARC, o tal de padre Olivério Medina, e não aceitou extraditá-lo para a Colômbia. Sem falar que presenteou a mulher do padre com uma prebenda. Agora, diante das evidências, quer retirar o seu da estaca.

Esta mania de malhar o PT o tempo todo, obsessivamente, tem algo de consciência suja. É óbvio que o PT, hoje, é uma quadrilha que tomou o poder e o exerce em benefício próprio. Mas há coisas mais interessantes para se escrever sobre do que os desmandos da quadrilha. Passei boa parte de minha vida denunciando as mazelas do PT e não pretendo cair na monotonia. Como a imprensa toda o denuncia, acho dispensável cantar no coral. O que não impede que, cá e lá, eu volte ao assunto. Mas não será o PT que pautará minhas crônicas.

Tem mais. Os brasileiros elegeram e reelegeram o Supremo Apedeuta. Merecem.