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¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV
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janercr@terra.com.br
Tiragem
Janer Cristaldo escreve no Página Não-Oficial de Janer Cristaldo Arquivos 10/01/2003 - 11/01/2003 12/01/2003 - 01/01/2004 01/01/2004 - 02/01/2004 02/01/2004 - 03/01/2004 03/01/2004 - 04/01/2004 04/01/2004 - 05/01/2004 05/01/2004 - 06/01/2004 06/01/2004 - 07/01/2004 07/01/2004 - 08/01/2004 08/01/2004 - 09/01/2004 09/01/2004 - 10/01/2004 10/01/2004 - 11/01/2004 11/01/2004 - 12/01/2004 12/01/2004 - 01/01/2005 01/01/2005 - 02/01/2005 02/01/2005 - 03/01/2005 03/01/2005 - 04/01/2005 04/01/2005 - 05/01/2005 05/01/2005 - 06/01/2005 06/01/2005 - 07/01/2005 07/01/2005 - 08/01/2005 08/01/2005 - 09/01/2005 09/01/2005 - 10/01/2005 10/01/2005 - 11/01/2005 11/01/2005 - 12/01/2005 12/01/2005 - 01/01/2006 01/01/2006 - 02/01/2006 02/01/2006 - 03/01/2006 03/01/2006 - 04/01/2006 04/01/2006 - 05/01/2006 05/01/2006 - 06/01/2006 06/01/2006 - 07/01/2006 07/01/2006 - 08/01/2006 08/01/2006 - 09/01/2006 09/01/2006 - 10/01/2006 10/01/2006 - 11/01/2006 11/01/2006 - 12/01/2006 12/01/2006 - 01/01/2007 01/01/2007 - 02/01/2007 02/01/2007 - 03/01/2007 03/01/2007 - 04/01/2007 04/01/2007 - 05/01/2007 05/01/2007 - 06/01/2007 06/01/2007 - 07/01/2007 07/01/2007 - 08/01/2007 08/01/2007 - 09/01/2007 09/01/2007 - 10/01/2007 10/01/2007 - 11/01/2007 11/01/2007 - 12/01/2007 12/01/2007 - 01/01/2008 01/01/2008 - 02/01/2008 02/01/2008 - 03/01/2008 03/01/2008 - 04/01/2008 04/01/2008 - 05/01/2008 05/01/2008 - 06/01/2008 06/01/2008 - 07/01/2008 07/01/2008 - 08/01/2008 08/01/2008 - 09/01/2008 09/01/2008 - 10/01/2008 10/01/2008 - 11/01/2008 11/01/2008 - 12/01/2008 12/01/2008 - 01/01/2009 01/01/2009 - 02/01/2009 02/01/2009 - 03/01/2009 03/01/2009 - 04/01/2009 04/01/2009 - 05/01/2009 05/01/2009 - 06/01/2009 06/01/2009 - 07/01/2009 07/01/2009 - 08/01/2009 08/01/2009 - 09/01/2009 09/01/2009 - 10/01/2009 10/01/2009 - 11/01/2009 11/01/2009 - 12/01/2009 12/01/2009 - 01/01/2010 01/01/2010 - 02/01/2010 |
Domingo, Novembro 30, 2008
NO PERAU DO TIO ÂNGELO (I) A vida é uma caixinha de surpresas, não é verdade? A gente nasce, cresce, adolesce, amadurece e acha que a entendeu. Entendeu coisa nenhuma. Mesmo hoje, já bem longe de minha adolescência, as surpresas se multiplicam. A humana existência é uma longa seqüência de perdas e ganhos e a vida só vale a pena quando os ganhos foram os mais. Sempre me perguntei quantos anos são necessários para que possamos considerar alguém um amigo. Lá pela minha terceira década de vida, achei que dez anos era uma boa cifra. Hoje, na sexta década, vejo que quarenta anos é pouco. Desde meus dias de Dom Pedrito, nutri uma grande amizade por um conterrâneo meu. Nascemos na mesma zona rural, na mesma época, nadamos nos mesmos rios, estudamos nos mesmos colégios, tanto em Dom Pedrito como em Santa Maria, fizemos Filosofia na mesma faculdade, em Porto Alegre. As ideologias nos separaram. Ele foi guerrilheiro urbano, pegou quatro anos de prisão militar. O que para mim pouco importava. Embora eu nada tivesse de marxista, havia entre nós algo maior, um valor que diz muito a gaúchos, a amizade. E nós éramos gaúchos. Nada a ver com esses bobalhões de CTGs. Mas gaúchos lá da pampa, nascidos entre vacas e cavalos. Assim, mesmo professando filosofias opostas, sempre cultivamos aquele supremo valor de gaúchos de boa cepa, a amizade. A vida nos separou geograficamente. Fui para Paris, ele veio para São Paulo. Voltando de Paris, acabei optando pela Paulicéia. De mês em mês, nos reuníamos para um chimarrão e um bom churrasco. Momentos de sumo prazer, quando evocávamos aquela indiada rude do Ponche Verde e Villa Indarte, nossa vida no campo, Martín Fierro e Antônio Chimango, aquele vocabulário que só nós entendíamos. Algo que me orgulhava muito nesta nossa relação era ter como amigo um maoísta, que pensava o oposto de tudo aquilo em que eu acreditava. Mas mesmo assim continuávamos amigos. E isso por quatro décadas. Bueno, vai daí que este companheiro doutorou-se pela USP, com uma tese em Literatura Comparada. Estudava a obra de Croce. Mostrou-me sua tese antes da defesa. Eu a li, com muito esforço. Era um coquetel de várias disciplinas e de Literatura Comparada nada tinha. Disse isto a ele, afinal não cabe mentir entre amigos. Mas que não se preocupasse. Sua tese já tinha passado naquela prévia que a USP faz com os doutorandos, para que nenhuma heresia não-marxista receba, na hora da defesa, o label de doutorado. Ele já estava aprovado. E aprovado foi. Após quarenta anos de boas relações, nunca mais falou comigo. Imaginei que fosse por minha crítica a seu trabalho. Não era. Afastou-se também de nossos amigos comuns de Dom Pedrito. Virou PhDeus. Enfim, coisas da vida. Tudo pode acontecer. Mas minha concepção de vida mudou um pouco. Quarenta anos, penso hoje, não são suficientes para sabermos se uma pessoa é amiga. Y a las pruebas me remito. Nos anos 70, encontrei excelente amigo em Paris. Gaúcho, trabalhava por lá. Pessoa refinada, curtia óperas, viagens, bons vinhos e a bona-xira. Tivemos excelente convívio por trinta anos. Quando ele saía de férias, deixava à minha disposição seu apartamento em Paris. Dele recebi regalo de extremo refinamento. Ciente de meu fascínio por Don Giovanni, de Mozart, trouxe-me certa vez da Itália vinho dos mais nobres. Aquele que Leporello serve a Don Giovanni: Versa il vino! Eccellente marzimino! Pois ele me regalou com o eccellente marzimino. Muitas vezes nos encontramos, tanto em Paris como Madri, São Paulo ou Porto Alegre. Em Madri, tivemos uma noite inolvidável. Convidei-o para um rabo de toro, em um restaurante de Maravillas, bairro onde eu morava. Fomos lá. Já na entrada, recebeu-nos um venenciador. Preciso explicar ao leitor que pouco conhece a Espanha. É um profissional que serve jerez. Está sempre empiriquitado, com uma espécie de “traje de luces”, daqueles que vestem os toureiros durante as lídias. Só que não é revestido de ouro. Bom, o jerez está numa barrica. O venenciador brande com a mão direita uma haste metálica de mais ou menos um metro, ao final da qual está um “fino”, um pequeno copo que colhe o jerez da barrica. Na mão esquerda está um outro “fino”, aquele em que o jerez é servido. Pois bem: o venenciador ergue sua haste até lá em cima, a mais de metro da outra mão. E serve o brandy sem que uma gota caia fora do “fino” que está em sua esquerda. Uma arte, hoje só cultivada na Espanha. Vai daí que na entrada já fomos servidos com dois finos. Um corpo de baile, todas las guapas vestidas a rigor, cantavam sevilhanas. Era uma data especial. Um toureiro amigo da casa matara seis touros e a noite era de comemoração. As guapas cantavam, batiam palmas e castanholas e taconeavam. Mal o venenciador via nossos finos vazios, lá vinha outra dose, servida com toda sua arte peculiar. Eu, que estava pensando no rabo de toro, perguntei a um garçom: “venimos por el rabo de toro”. Me respondeu: “hoy no se come. Hoy es fiesta”. Muy bien! Mas bateu a fome e convidei meu amigo para procurarmos lugar onde nos saciarmos. Fui pagar. O garçom não aceitou: “Hoy no se paga. Hoy es fiesta”. Estas noites são noites que jamais esquecemos e que só consolidam relações. Quando minha Baixinha morreu, este meu amigo veio correndo confortar-me. Em suma, foram três décadas de muita amizade e alegrias mútuas. Bom, vai daí que um dia escrevi artigo mostrando, conforme farta documentação, que Einstein plagiara a tese da relatividade. Inimizade total. Eu imaginava que esses tempos haviam passado. Nos anos 70, criávamos inimigos por coisas que aconteciam no Vietnã, no Camboja, em Pequim ou Moscou. Ele obedecia ao mesmo processo mental que fez um dia Sartre escrever a propósito de Camus: "l'amitié, elle aussi, tend à devenir totalitaire; il faut l'accord en tout ou la brouille, et les sans-parti eux-mêmes se comportent en militants de partis imaginaires". Trinta anos de muitas festas, muitos vinhos e muita alegria foram pras cucuias. Houve mais casos. Comento apenas um último. Nos anos 80, conheci em Florianópolis pessoa admirável, por quem tive grande apreço. Foi meu aluno em Pós-Graduação e já no primeiro dia de aula terminamos a tarde com um porre na Lagoa da Conceição. Ele era uma festa por si só, começava a falar e inundava a mesa de alegria. Sempre o imaginei como alguém que, se estivesse com Aids, começaria a fazer piadas da própria doença e faria rir todos os interlocutores. Foi pessoa que muito estimei. Só havia um problema, eu não conseguia gostar de sua literatura. Seus livros sempre me pareceram péssimos. Um dia, por circunstâncias da vida das quais nem sempre alguém escapa, tive de dizer isto a ele. Perdi o amigo. Perdi aquela presença alegre, que sempre gostei de abraçar. Houve outras perdas. Não foram poucas. Acho que chega. O que queria dizer é que quarenta anos não são suficientes para ratificar uma amizade. Mas não era bem disto que queria falar. E sim do perau do Tio Ângelo. Amanhã falarei dos ganhos.
Sábado, Novembro 29, 2008
Momentos sublimes da Bíblia: SANTO LEVITA PARTE CONCUBINA COM CUTELO EM DOZE PEDAÇOS E OS ENVIA ÀS TRIBOS DE ISRAEL Aconteceu também naqueles dias, quando não havia rei em Israel, que certo levita, habitante das partes remotas da região montanhosa de Efraim, tomou para si uma concubina, de Belém de Judá. Ora, a sua concubina adulterou contra ele e, deixando-o, foi para casa de seu pai em Belém de Judá, e ali ficou uns quatro meses.Seu marido, levantando-se, foi atrás dela para lhe falar bondosamente, a fim de tornar a trazê-la; e levava consigo o seu moço e um par de jumentos. Ela o levou à casa de seu pai, o qual, vendo-o, saiu alegremente a encontrar-se com ele. E seu sogro, o pai da moça, o deteve consigo três dias; assim comeram e beberam, e se alojaram ali. Ao quarto dia madrugaram, e ele se levantou para partir. Então o pai da moça disse a seu genro: Fortalece-te com um bocado de pão, e depois partireis. Sentando-se, pois, ambos juntos, comeram e beberam; e disse o pai da moça ao homem: Peço-te que fiques ainda esta noite aqui, e alegre-se o teu coração. O homem, porém, levantou-se para partir; mas, como seu sogro insistisse, tornou a passar a noite ali.Também ao quinto dia madrugaram para partir; e disse o pai da moça: Ora, conforta o teu coração, e detém-te até o declinar do dia. E ambos juntos comeram. Então o homem se levantou para partir, ele, a sua concubina, e o seu moço; e disse-lhe seu sogro, o pai da moça: Eis que já o dia declina para a tarde; peço-te que aqui passes a noite. O dia já vai acabando; passa aqui a noite, e alegre-se o teu coração: Amanhã de madrugada levanta-te para encetares viagem, e irás para a tua tenda. Entretanto, o homem não quis passar a noite ali, mas, levantando-se, partiu e chegou à altura de Jebus (que é Jerusalém), e com ele o par de jumentos albardados, como também a sua concubina. Quando estavam perto de Jebus, já o dia tinha declinado muito; e disse o moço a seu senhor: Vem, peço-te, retiremo-nos a esta cidade dos jebuseus, e passemos nela a noite. Respondeu-lhe, porém, o seu senhor: Não nos retiraremos a nenhuma cidade estrangeira, que não seja dos filhos de Israel, mas passaremos até Gibeá. Disse mais a seu moço: Vem, cheguemos a um destes lugares, Gibeá ou Ramá, e passemos ali a noite. Passaram, pois, continuando o seu caminho; e o sol se pôs quando estavam perto de Gibeá, que pertence a Benjamim. Pelo que se dirigiram para lá, a fim de passarem ali a noite; e o levita, entrando, sentou-se na praça da cidade, porque não houve quem os recolhesse em casa para ali passarem a noite. Eis que ao anoitecer vinha do seu trabalho no campo um ancião; era ele da região montanhosa de Efraim, mas habitava em Gibeá; os homens deste lugar, porém, eram benjamitas. Levantando ele os olhos, viu na praça da cidade o viajante, e perguntou-lhe: Para onde vais, e donde vens? Respondeu-lhe ele: Estamos de viagem de Belém de Judá para as partes remotas da região montanhosa de Efraim, donde sou. Fui a Belém de Judá, porém agora vou à casa do Senhor; e ninguem há que me recolha em casa. Todavia temos palha e forragem para os nossos jumentos; também há pão e vinho para mim, para a tua serva, e para o moço que vem com os teus servos; de coisa nenhuma há falta. Disse-lhe o ancião: Paz seja contigo; tudo quanto te faltar fique ao meu cargo; tão-somente não passes a noite na praça. Assim o fez entrar em sua casa, e deu ração aos jumentos; e, depois de lavarem os pés, comeram e beberam. Enquanto eles alegravam o seu coração, eis que os homens daquela cidade, filhos de Belial, cercaram a casa, bateram à porta, e disseram ao ancião, dono da casa: Traze cá para fora o homem que entrou em tua casa, para que o conheçamos. O dono da casa saiu a ter com eles, e disse-lhes: Não, irmãos meus, não façais semelhante mal; já que este homem entrou em minha casa, não façais essa loucura. Aqui estão a minha filha virgem e a concubina do homem; fá-las-ei sair; humilhai-as a elas, e fazei delas o que parecer bem aos vossos olhos; porém a este homem não façais tal loucura. Mas esses homens não o quiseram ouvir; então aquele homem pegou da sua concubina, e lha tirou para fora. Eles a conheceram e abusaram dela a noite toda até pela manhã; e ao subir da alva deixaram-na. Ao romper do dia veio a mulher e caiu à porta da casa do homem, onde estava seu senhor, e ficou ali até que se fez claro. Levantando-se pela manhã seu senhor, abriu as portas da casa, e ia sair para seguir o seu caminho; e eis que a mulher, sua concubina, jazia à porta da casa, com as mãos sobre o limiar. Ele lhe disse: Levanta-te, e vamo-nos; porém ela não respondeu. Então a pôs sobre o jumento e, partindo dali, foi para o seu lugar. Quando chegou em casa, tomou um cutelo e, pegando na sua concubina, a dividiu, membro por membro, em doze pedaços, que ele enviou por todo o território de Israel. E sucedeu que cada um que via aquilo dizia: Nunca tal coisa se fez, nem se viu, desde o dia em que os filhos de Israel subiram da terra do Egito até o dia de hoje; ponderai isto, consultai, e dai o vosso parecer.
Sexta-feira, Novembro 28, 2008
OS ÔNIBUS DE LONDRES E O MELHOR MÉTODO “Provavelmente deus não existe. Assim, deixa de preocupar-te e trata de gozar tua vida”. Este slogan estará estampado nos ônibus de Londres em meados de janeiro próximo. Trata-se da primeira campanha ateísta no Reino Unido financiada com doações de contribuintes anônimos. Previa-se coletar 6.500 euros e, em apenas dois dias, foram arrecadados dez vezes mais. A iniciativa não é isolada. Na Espanha, aumentam os pedidos de apostasia. Parece ter chegado a hora dos não-crentes. É o que leio em El País. Estará o ateísmo tomando consciência mais ativa na sociedade? – pergunta-se o jornal. Não sou assim tão otimista. Para começar, a primeira proposição a ser estampada nos ônibus de Londres me parece tímida. Não é que provavelmente deus não exista. O fato é mais singelo: deus não existe. Qualquer pessoa que se dedique ao estudo de história das religiões, concluirá que o tal de deus é criação humana. Primeiro, para tentar entender o mundo. Quando caía um raio, aquele nosso ancestral de clava em punho julgava que aquele estrondo e aquele brilho eram emanações de alguma potestade. Foram necessários alguns milênios para que o Homo sapiens descobrisse que aquele fenômeno não provinha de potestade alguma. Em segundo lugar, a sociedade humana necessitava de algumas regras para bem viver. Voltasse Moisés com duas tabuinhas do Sinai e disse aos hebreus: “olha, gente, eu escrevi umas regrinhas para que possamos viver em paz”, é claro que todos ririam dele. Já a coisa toma outro cariz quando Moisés anuncia: o Todo-Poderoso me confiou estas tábuas, que agora serão nossa lei. Todos os grandes malandros da História souberam usar este recurso. Sócrates, por exemplo, nunca falava em nome próprio. Sabia que convenceria muito mais dizendo; “o meu daimon me disse que...” O biólogo Richard Dawkins, que já é conhecido como o rottweiler de Darwin, por sua férrea defesa da teoria evolucionista, afirma que a situação dos ateus hoje em dia na América é comparável a dos homossexuais há 50 anos. Pode ser, mas lá nos States, certamente um dos países mais fanáticos – do ponto de vista religioso – do mundo contemporâneo. Não me parece que o mesmo ocorra na Europa ou mesmo na América Latina. Verdade que cá entre nós, candidato algum a cargos políticos ousa definir-se como ateu. Mas são vigaristas que mentem à vontade para ter acesso a mordomias. Como mentiu um dia Fernando Henrique, como mentiu Lula e como mentiu, mais recentemente, a terrorista santa Dilma Roussef. Já entre pessoas sem maiores ambições de subir a cargos públicos, não é preciso mentir. Nunca me senti discriminado por ser ateu. Posso provocar eventuais perplexidades, mas nada além disso. Ateu, não simpatizo com militantes do ateísmo. Quando ateus querem criar um clube, estão doidinhos para acreditar num deus qualquer, desde que seja distinto do deus oficial. Ateu sendo, vivo bem com esta minha condição e jamais convidei alguém a participar dela. Ateísmo exige coragem, virtude que nem todos têm. O que prevalece é o medo do Além. As religiões nunca morrerão. A humana covardia as garante. Tenho muitos leitores crentes e é bom que os tenha. Me sentiria um fanático se escrevesse só para ateus. Espanta-me que, entre estes leitores crentes, há muitos acadêmicos. Ora, não consigo conceber um universitário acreditando em deidades. Em algum momento, houve um erro. O ensino da ciência e dos métodos científicos não foi bem ministrado. É por esta, e por outras razões, que descreio totalmente do ensino das ditas ciências humanas. Formam tanto comunistas como papistas. O que dá no mesmo. Entre estes leitores crentes, não poucos acham que minhas leituras da Bíblia ou preocupações com questões de fé denunciam um apóstata que quer voltar a crer. Nada disso. Leio a Bíblia porque adoro as ficções teológicas. Mais do que as literárias. As literárias tratam, de modo geral, de bobas angústias de seus autores. Não são normativas. As ficções teológicas, estas sim o são. Impõem dogmas, comportamentos, ética e mesmo legislação. Se um escritor contemporâneo diz que gosta de deitar com homens, tudo bem. Mas quando lemos no Levítico: “Não te deitarás com varão, como se fosse mulher; é abominação”, aí a coisa toma aspectos mais solenes. Vira lei. E é por isso que gosto de ler a Bíblia. Escritorinhos manifestam suas pequenas angústias. O Livro manda e não pede. É ficção com força de lei. Alguns leitores – curiosamente os crentes, et pour cause – acham que é perda de tempo discutir a Bíblia. Não acho. Perda de tempo é discutir futebol, fórmula 1 e outras que tais. Não leva a nada. No boteco que freqüento aos fins de semana, há uma mesa que só discute isso. Sento-me há uns dez metros de distância. Ouvir estupidez me faz mal. A Bíblia é o livro que formata todo o pensamento ocidental e quem não a conhecer não conhece o Ocidente. Além do mais, é preciso terminar com essa bobagem de que é um livro de amor. Pelo contrário, há ódio, massacre e genocídio em praticamente todas suas páginas. Quando fala em amor, o amor é compulsório: ou me amas ou vais para as profundas do inferno. Nem o Alcorão é tão sanguinário como a Bíblia. Há uns dois meses recebi de um amigo minha nona tradução do Livro, a da Gallimard, a meu ver uma das mais fiéis aos textos antigos. Que aliás, nem mais existem. A Bíblia tem sido traduzida a partir de cópias de cópias de cópias, conforme os interesses de cada igreja. Gosto de cotejar traduções, só para ver como cada fanático puxa brasa para seu assado. Tenho prazer imenso quando encontro pessoas com as quais posso discutir a Bíblia, a história, óperas, línguas, gastronomia e viagens. Felizmente, tenho esses interlocutores aqui em São Paulo e meus fins de semana são sempre ricos de bons papos. Tenho a ventura de ter uma filha intelectualmente ambiciosa, e viajamos longe quando proseamos. Ela ainda não chegou às questões bíblicas - nem às ostras e polvos - mas um dia vai chegar. Cultura e refinamento do palato são coisas que andam juntas e dependem de idade. Nós, ateus, adoramos ler a Bíblia, para xingar os crentes com autoridade. Além disso, lá estão os mitos todos que dominam a cultura ocidental. Como disse, impossível entender o Ocidente e sua cultura sem conhecer a Bíblia. Sem falar que tem dois livros de uma poesia extraordinária, o Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos, que até hoje não sei como foram integrados ao cânone. São livros transgressores e se opõe frontalmente ao espírito do Livro. Quem crê, não precisa ler, basta crer. Quem descrê, tem de ler, para justificar sua descrença. É por isso que um ateu sempre conhecerá melhor a Bíblia do que um crente. Quando alguém tiver dúvidas a respeito do Livro, sugiro consultar este ateu empedernido. Conheço a Bíblia mais do que bispos. É livro extremamente complexo, porque em virtude dos embates entre as várias tendências da Igreja, virou um cajón de sastre, como dizem os espanhóis. Baú de alfaiate, com retalhos de todas as cores. Estou lendo atualmente sobre como foi constituído o baú. Aliás, vou adiante: conheço a Bíblia mais do que o papa. Esse papa tem dito besteiras a respeito da Bíblia que não são aceitáveis nem em párocos de aldeia. Em janeiro passado, por exemplo, ele andou deitando homilia sobre os reis magos. Que reis magos? Não existem reis magos na Bíblia. Como é que o Bento diz uma besteira dessas? Acho que vou oferecer meus serviços ao Vaticano, para assessorá-lo em suas falas e evitar que profira bobagens. Se alguém tem preguiça de ler os textos fundamentais da humanidade, nada posso fazer. Sei que hoje nem mesmo os professores universitários se dedicam a leituras mais profundas. Não falo apenas sobre a Bíblia e Deus. Falo apenas quando leio besteiras sobre o tema. Minhas crônicas se alimentam das besteiras alheias. Ou seja, assunto não me falta. Assim sendo, me parece muito ingênuo esse slogan dos ônibus de Londres. Eu faria diferente. Proporia: “leia a Bíblia”. É o melhor método para deixar de acreditar em bobagens.
Quinta-feira, Novembro 27, 2008
DA INUTILIDADE DOS CURSOS DE LETRAS (Escrevi este texto há uns bons quinze anos. Seguidamente leitores o retomam e o saúdam como algo que os salvou de uma profissão rumo ao inútil. Não me parece redundante republicá-lo). Um mal-estar perpassa os cursos de Ciências Humanas neste final de século. É como se as vagas concêntricas provocadas pela queda do Muro de Berlim começassem a fazer submergir, em ondas tardias, o apoio logístico que a universidade sempre emprestou ao marxismo. Durante décadas, nos cursos mais alinhados com o finado "sentido da História", ai do candidato a mestre ou doutor que não citasse em suas pesquisas Marx ou epígonos menores. Se hoje marxismo não passa de verbete de enciclopédias, para esclarecimento dos mais jovens, até quatro ou cinco anos atrás a "filosofia da praxis" era tida como ciência. Todas as áreas humanísticas da universidade, de Letras a História, passando pela Filosofia e Sociologia, foram contaminadas pela peste. No caso específico da Sociologia, estávamos ante um laboratório de utopias. Os acadêmicos brasileiros parecem ter adotado a receita de José Carlos Mariátegui que, em 1928, em Siete Ensayos de Interpretación de la Realidad Peruana, via a universidade como uma máquina de demolição da sociedade burguesa, uma instituição destinada a formar ativistas e militantes. Com o fim da URSS, as ditas Ciências Humanas perdem seu eixo. A história não era ciência, o marxismo muito menos. Cursos, cátedras, metodologias, teses, bibliografias, bibliotecas, perdem o sentido. Em outras palavras, os próprios professores, antes firmemente ancorados nas certezas da dialética, perdem o pé e soçobram neste maremoto. Em um século em que mesmo - e principalmente - a literatura foi contaminada pela ideologia, os cursos de Letras não permaneceriam ao abrigo da intempérie. O Circo das Letras - Uma lufada deste mal-estar de fin de siècle parece ter atingido o professor Flávio Loureiro Chaves. Em entrevista para Porto e Vírgula, desvelou um segredo de polichinelo ao afirmar que "a área de Letras está morta". Por um lado está cheio de razão e ao mesmo tempo não tem razão alguma. Se sua afirmação acabasse aqui, englobando os cursos de Letras do país todo e do estrangeiro, eu seria o último dos escribas a contraditá-lo. Mas sua afirmação é tímida. Se restringe ao Curso de Letras da UFRGS, onde trabalhou durante 30 anos. Ou seja, onde colaborou por três décadas para levar o curso à condição de área morta. Agora, protegido pelo escudo da aposentadoria, dispara sua artilharia contra seus pares. O professor vai mais longe ao falar do curso que o nutriu e embalou: "é uma área caracterizada por sua absoluta inutilidade social". No que não lhe falta razão. Se o programa nuclear brasileiro se revelou um projeto inútil, de qualquer ponto de vista que se olhe, que dizer dos currículos de um curso de Letras? Mas nosso crítico peca mais uma vez ao restringir sua crítica ao curso da UFRGS, como se o da USP, onde se doutorou, tivesse alguma outra utilidade social fora a de garantir-lhe uma prebenda melhor remunerada na província. Se os cursos de Letras um dia forem encerrados, só serão pranteados pelos professores que deles tiram seu sustento e mordomias, pelo mundo editorial e agências de turismo que os parasitam. Nenhum estudante precisa freqüentá-los para conhecer literatura. Pelo contrário, é melhor deles tomar distância, assim será poupado de carradas de leituras absolutamente chatas, que só servem para afastar um jovem dos bons autores. Esta inutilidade do curso cujas mordomias usufruiu por trinta anos foi muito bem percebida por Loureiro Chaves quando afirma que homens como Erico Verissimo, Maurício Rosenblatt e Paulo Fontoura Gastal, que não pertenciam à academia, lhe ensinaram mais que o curso de Letras inteiro. Precisou de três décadas para perceber isto? Ou preferiu aposentar-se para afirmá-lo? Se lhe sobra razão em sua constatação, faltou-lhe a coragem de dizê-lo em alto e bom som quando militava nos quadros da guilda. Quantas vezes Loureiro Chaves participou, de um lado e de outro da banca - ora como réu, ora como inquisidor - dessa farsa que se chama tese? Quantas vezes participou dessa outra farsa, o concurso para o magistério, em verdade uma ação entre amigos, com cartas previamente marcadas? De quantos espetáculos circenses, chamados simpósios ou congressos, participou o professor Loureiro Chaves? São absolutamente inúteis do ponto de vista social, custam fortunas, e as viagens, hotéis e mordomias outras são pagas, em última instância, pelo contribuinte. Passo Fundo parece ter entendido o espírito da coisa, tanto que costuma organizar o Circo das Letras. Neste circo universal, cujas sessões ocorrem tanto em Florianópolis ou São Paulo, como em Paris ou Londres, acodem professores de todos os quadrantes para desfilar suas vaidades e acrescentar seus ensaiozinhos recitados a uma platéia adormecida a seus currículos chochos. Quando estudava em Paris, tive oportunidade de testemunhar uma dessas sessões de circo. Vi professoras transportadas de Brasília ou São Paulo a Paris - com dinheiro público, evidentemente - para apresentar uma comunicação anódina de vinte minutos, que ninguém estava interessado em ouvir. Imagine-se, por exemplo, o absurdo de uma professora deslocando-se de Porto Alegre a Tóquio, para uma exposição crucial sobre... Literatura Comparada. Mas a comunicação fica nos anais do simpósio, no currículo da professora e nos créditos do curso. Maravilha de país o nosso: crianças morrendo de fome nas ruas e a universidade pública financiando viagens transoceânicas para comunicações literárias - certamente de importância vital para o futuro do continente - de vinte minutos lá nas antípodas. Claro que em Passo Fundo a entrada para o circo é mais barata. Mas o show, salvo o fato de ser em português, em nada difere do exibido em Paris. Mas não era disso que pretendia falar. A quem aproveita o crime? - Para algo hão de servir os cursos de Letras, já que estão disseminados mundo afora e parecem gozar de boa saúde. Bens materiais não produzem, é claro. Espirituais, muitos menos. Aliás, vivem da exploração destes mesmos bens, produzidos por criadores que, muitas vezes, morreram ou vivem na miséria. Para que serve então um curso de Letras? Em primeiro lugar, para dar bom padrão de vida aos professores de Letras. Que outra profissão oferece quatro meses de férias ao ano, isso sem falar nas greves? Não será fácil achar melhor mordomia numa sociedade que se pretende capitalista. Uma vez aceito pela corporação, o professor tem estabilidade e escapa deste cruel mundo competitivo. Isso sem falar em férias vendidas em períodos de recesso universitário, turismo acadêmico, muita viagem ao exterior, tudo isso pago pelo contribuinte, é claro. Não que estas mumunhas sejam exclusivas dos cursos de Letras. Mas a eles são extensivas. Em segundo lugar, para manter a boa saúde da indústria textil. Textil, assim mesmo, sem circunflexo. Não confundir com a têxtil, esta é honesta e necessária. Por indústria textil, entenda-se a do texto universitário, essa fábrica de teses e pesquisas inúteis, que às vezes envergonham o próprio autor e são guardadas como segredo de Estado. Isso sem falar na fantástica máquina editorial acionada pelos cursos de Letras. Ela dá vida a autores de ficção que de outra forma jamais seriam publicados e a teóricos que ninguém leria a não ser sob coação. Se nos primórdios da universidade o livro era um instrumento da vida acadêmica, hoje a universidade se tornou um instrumento do mundo editorial. Se um dia os cursos de Letras fechassem suas portas, nenhum editor seria suficientemente insano para publicar esses elefantes brancos tipo Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, etc. Dou um doce para quem me apresentar um jovem que, espontaneamente, compre um livro qualquer desses autores. Eles só existem porque são empurrados goela abaixo por exigências de vestibular e programas acadêmicos. Depois, a indústria editorial dos teóricos. Nenhum leitor mentalmente sadio compraria autores como Greimas, Kristeva, Lacan ou Saussure. Forçado pelos professores, principalmente na pós-graduação, o coitado do aluno tem de gastar parte de sua bolsa adquirindo essas enfermidades gálicas. Aqui, de cambulhada, ganham também todos os participantes do ciclo do livro: gráficos, distribuidores, livreiros, etc. Em terceiro lugar, não esqueçamos os interesses do turismo. Em Florianópolis, para facilitar o "intercâmbio" acadêmico, uma agência se instalou no prédio da própria reitoria. Cada congresso de Literatura Comparada ou Semiótica em Tóquio, Helsinki ou Amsterdã é uma festa para a indústria do turismo. Ganham as agências, as companhias aéreas, a indústria hoteleira, a restauração local, afinal literatura e gastronomia sempre constituíram boa parceria. Ora, direis, os cursos de Letras formam professores de português. Cantiga para ninar pardais, como dizem os lusos. A formação de professores de português não exige curso superior. Vi quartanistas de Letras escrevendo "eu poço" por "eu posso" e outras analfabetices do gênero. Minha mãe, que só fez o secundário em Dom Pedrito, tinha uma redação impecável, de fazer inveja a muito jornalista egresso dos cursos de Comunicações. Aliás, de minha passagem pelo magistério universitário, cheguei a uma desoladora conclusão: a formação que tive em meus quatro anos de ginásio, lá naquela cidadezinha da Fronteira Oeste gaúcha, que mal tinha na época vinte mil habitantes, nenhum diplomado em Letras a tem hoje. Saí de lá falando espanhol, francês e inglês, arranhando um bom latim e escrevendo um português do qual até hoje não tenho porque envergonhar-me. Em meus dias de UFSC, raros eram meus alunos de final de curso que conseguiam escrever em vernáculo não digo elegante, mas pelo menos correto. Pode-se alegar que os cursos de Letras formam tradutores e intérpretes. Bobagem. Quem quer realmente especializar-se nestes ofícios, vai para o exterior ou busca cursos privados. Sem falar que os grandes tradutores que Porto Alegre produziu, como Erico Verissimo, Mário Quintana, Herbert Caro, jamais passaram por um curso de Letras. Permito-me um testemunho pessoal. Já traduzi vinte títulos, do sueco, francês e espanhol, sem jamais ter passado por um curso de tradução. A encampação da tradução pela universidade é muito suspeita. Ao que tudo indica, a guilda quer regulamentar a profissão, crime de lesa-cultura que já cometeram contra o jornalismo. Quanto aos cursos de línguas fornecidos pela universidade, estes jamais levaram a qualquer lugar. Nestes dias de CDs-ROM, professor de línguas virou peça de museu. Professor que ainda não percebeu isso, em breve será mais um desses tantos malucos que andam falando sozinho nas ruas. Com a diferença de que será bem pago para falar para quatro paredes. Muitos outros setores ganham com esta indústria do inútil. Quem então sai perdendo? No caso das universidades públicas, em primeiro lugar o contribuinte, que ignora a festança que estão fazendo com seu dinheiro. Tudo em nome dos sagrados interesses da cultura, é claro. Em segundo lugar, o estudante de Letras. Caso não encontre colocação no escalões inferiores da Máfia, terá perdido preciosos anos de sua juventude, percorrendo currículos absurdos, teorias estapafúrdias e literaturas insossas. Quando poderia ter-se dedicado a estudar algo mais concreto, que lhe garantisse profissão decente, reservando seu lazer para um estudo sério da boa literatura. Por experiência, tanto de rua como de campus, sei que é muito mais fácil encontrar uma pessoa com boa cultura literária em um bar do que nos cursos de Letras. Sobre meu desencanto - Meu depoimento carrega o desencanto de quem perdeu boa parte de sua vida navegando pelas tais de Ciências Humanas. Estudei Filosofia na UFRGS, de 1965 a 1968. Discutimos, durante quatro anos, essa bosta de religião laica, o marxismo. Ou seja, foram quatro anos jogados ao vento. De minha passagem pela Filosofia me restou um ensinamento, o de que as diferentes visões de mundo se atropelam e se anulam com a passagem dos séculos. E só. Foi importante, eliminou em mim qualquer tentação de dogmatismo. Mas para chegar a essa conclusão, não precisava ficar com o traseiro pregado na universidade por quatro anos. Boas leituras de história me bastariam. Fiz também o curso de Direito em Santa Maria. Mais cinco anos jogados ao lixo. Optei pelo jornalismo, em época em que não existia esta excrescência criada pela ditadura militar, os cursos de jornalismo. Desta opção não me arrependo, embora o jornalismo hoje seja mais ficção que tradução dos fatos. Mas não o aprendi na universidade. Em jornalismo, me formei nos bares e redações. Universidade não forma ninguém em jornalismo. É outro curso inútil: o professor de comunicações, que muitas vezes jamais pisou numa redação, ganha muito mais que o redator ou repórter que sofre a profissão. Sem falar que goza de estabilidade no emprego, sonho que jornalista algum ousa sonhar na empresa privada. Viajei pelo mundo das Letras. Durante quatro anos, estudei Letras Francesas e Comparadas, na Université de la Sorbonne Nouvelle, em Paris. Só não foram mais quatro anos jogados ao vento porque o que menos fiz foi estudar literatura. Dediquei-me a pesquisar Paris, a França e a história deste século. De meus professores de literatura, de meu curso, não recebi nada, mas nada mesmo. Tive um professor de poesia francesa contemporânea que se chamava M. Décaudin. Eu vivia mordendo a língua para não incorrer em um ato falho e chamá-lo de M. Décadent. Tinha um projeto de tese em torno à literatura de Ernesto Sábato. Levei-o a bom termo por respeito a Sábato e ao Ministério de Cultura francês, que me concedera uma bolsa. Defendi minha tese, fui ator bem comportado durante toda a encenação. Mas tinha perfeita consciência de que tudo era farsa. Para que serviu minha tese? Para mim, garantiu quatro anos de Paris. Para meu orientador, abriu novos rumos em suas pesquisas. Mas e daí? Para Sábato, foi mais um título em sua fortuna literária. E só. Meu país não se tornou mais rico com minhas pesquisas, nem econômica nem espiritualmente. Muito menos a França ou a Argentina. Do ponto de vista da construção de uma sociedade, minha tese é uma peça perfeitamente inútil, descartável. Como aliás todas as teses literárias. Outra coisa é uma pesquisa sobre uma proteína mais barata, sobre uma vacina mais urgente, sobre um chip mais rápido. Estima-se em torno de 100 mil dólares ao ano a formação de um doutor. Logo, a França terá gastado uns 400 mil comigo. De minha parte, muito honrado. Mas para quê? Se analisarmos a questão a fundo, para nada. Lecionei mais tarde Literatura Brasileira e Comparada na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, nos cursos de graduação e pós-graduação em Letras. Para isso também serviu minha tese, para dar-me de comer e beber por mais quatro anos. Foi o período mais inútil de minha vida, que só me rendeu uma hipertensão. Cingido a obrigações curriculares, tive de digredir sobre esse suposto movimento literário, o modernismo brasileiro, no fundo uma ficção criada pelos PhDeuses uspianos. Lecionava para alunos que só queriam um papelucho ao final do curso para aumentar seus proventos na função pública. Durante quatro anos fui pago para realizar um trabalho rumo a nada. Como eram, são e continuam sendo pagos, para marchar na mesma direção, as dezenas de colegas que tive no colegiado e os milhares de professores de Letras do país todo. Puta velha - Quem presta este depoimento não é portanto uma virgenzinha que olha espantada para a realidade de um bordel, mas uma puta velha que muito girou bolsinha nos corredores universitários. Se vejo as defesas de tese e concursos como farsas, é porque também participei delas e por isso sei do que estou falando.] Dezenas de professores foram, são e serão enviados ao exterior para mestrados e doutorados. Muitos cumprem seus compromissos. Mas não poucos voltam de mãos abanando e tudo fica por isso mesmo. No caso do curso de Letras, observei que os candidatos a bolsas no exterior eram, em sua quase totalidade, moças mal-amadas, em geral solteiras ou divorciadas, que partiam em busca de maridos ou similares. Ao final de alguns anos, as mal-baisées voltavam sem tese nem marido. Não sei se o mesmo fenômeno ocorrerá na UFRGS. Mas deveria ser capitulado como crime, na legislação sobre a função pública, usar dinheiro do contribuinte para fazer turismo sexual às margens do Sena ou do Tâmisa. Quanto à crítica mais radical, que agora faço, me permito citar Chesterton: "só podemos conhecer uma catedral quando a olhamos de fora". O absurdo do ritmo de tartaruga dos cursos da área humanística me saltaram com força aos olhos quando passei a trabalhar com jornalismo eletrônico em São Paulo. A pesquisa que um professor achava difícil cumprir em cinco meses, um redator da Folha de São Paulo, por exemplo, tem de executá-la em cinco horas. E sem direito a errar. Essa passagem da empresa pública para a privada, do emprego eterno para aquele sob a ameaça diária de um pontapé no traseiro, permite o contraste que evidencia o obsoletismo e a inutilidade de um curso de Letras. Se um professor de uma universidade pública fica quatro, cinco ou dez anos no estrangeiro para defender uma tese e volta de mãos vazias, nada acontece com ele. Não devolve o dinheiro público que lá despendeu nem perde seu emprego. Se um jornalista interpreta mal a declaração de um político - ou pior, se a interpreta com clareza excessiva - no dia seguinte pode estar no olho da rua. O leitão e o cocho - Resumindo: os cursos de Letras constituem uma máquina autofágica, que se alimenta de si mesma. Professores de Letras formam professores de Letras que formarão professores de Letras, ad nauseam. Se a bicicleta pára, o ciclista cai. Loureiro Chaves ouviu o galo cantar, só não soube dizer onde. Intuiu a inutilidade dos cursos de Letras. Em um gesto de auto-defesa, excluiu a si mesmo do projeto do qual participou durante trinta anos. Foi cúmplice de todos os atos e fatos que levaram o curso a ser área morta. Agora acusa seus pares, como se suas mãos fossem imaculadas. Se levar a crítica mais a fundo, terá de constatar a inutilidade de seus ensaios, de sua carreira, de sua tese, de sua vida, tão socialmente improdutiva quanto o curso que critica. Se o curso de Letras da UFRGS se caracteriza, nas palavras do professor, por sua “absoluta inutilidade social”, o mesmo pode se dizer de sua obra. Por que não estender, reitero, esta crítica à USP? Qual a utilidade social do curso de Letras da USP? A meu ver, a mesma de qualquer curso de Letras. Isto é, nenhuma. Em meus dias de campo, tínhamos uma expressão para tal tipo de comportamento. Era o gesto do leitão mal-educado, que costumava virar o cocho onde comia.
Quarta-feira, Novembro 26, 2008
COMO QUERO SER QUEIMADO O pensamento contemporâneo me confunde. Continuo intrigado com o tal de poliamor. Me sinto obrigado a repetir o que comentei há sete meses. Em maio deste ano, escrevi sobre entrevista com três psicoterapeutas que definiam pessoas com uma sexualidade mais exigente como tarados, pervertidos, ninfomaníacos ou depravados. Ser entusiasta do bom esporte passava a constituir algum tipo de patologia do sexo. “Mais conhecida como compulsão sexual, esse transtorno atinge homens e mulheres, sem distinção de idade”. Segundo a sexóloga Maria Cláudia Lordello, o desejo sexual hiperativo acaba resultando em uma inquietude da pessoa. "Isso a impede de fazer outras coisas importantes da vida. Tarefas cotidianas como trabalho, estudo e vida familiar acabam ficando comprometidas, pois ela deixa de realizá-las para fantasiar ou mesmo para vivenciar esses desejos". Ora, já comentei sobre os dois homens tidos como gênios do amor. Um pertence à história, outro ao mundo da ficção. Para começar, Giacomo Casanova di Seingalt (1725 - 1798). Que, aliás, teve um encontro com Lorenzo da Ponte, o libretista da ópera Don Giovanni, de Mozart. Cidadão da Sereníssima República de Veneza, lista em suas Memórias algo em torno de duas mil mulheres, que perseguiu a cavalo e em diligência, de Madri e Londres a Moscou, na segunda metade do século XVIII. Quem for procurar o verbete na Internet, vai encontrar referência a 122 ou 123 mulheres. Isso é bobagem, cifra de qualquer moleque contemporâneo. Aos sessenta anos, Giacomo Casanova aceita o convite do conde Emanuel de Waldstein para organizar a sua biblioteca e escrever as suas memórias. Os dias do veneziano acabam no palácio de Dux, na Boêmia, ao norte do território checo, onde encontrou teto, alimento e tempo para escrever. “Agora que não posso mais viver, sento e escrevo sobre o que vivi”. Sem jamais ter pretendido fazer literatura, Casanova entra na História da Literatura, em função de sua vida aventureira. Freqüentou cortes e bordéis, prisão e caserna, clérigos e políticos, conventos e salões literários. Quem quiser se debruçar sobre o século XVIII - seja historiador, seja sociólogo, seja mero curioso - terá em Casanova um excelente guia. Na edição brasileira (Rio, Livraria José Olympio Editora, 1957), suas Memórias abrangem dez volumes. “Sei que existi, porque senti; e, dando-me o sentimento este conhecimento, sei igualmente que deixarei de existir quando cessar de sentir. Se me acontecer sentir depois de morto, não duvidarei de mais nada; mas darei um desmentido a todos aqueles que me virão dizer que estou morto”. Apesar de busca frenética de mulheres – que o caracterizaria como tarado, segundo as nossas sexólogas – teve vida intelectual intensa. Hoje, segundo o juiz Adolfo Naujorks , de Rondônia, seria um poliamante. Os tempos mudam. “Cultivar o prazer dos sentidos – escreveu Casanova - foi sempre minha principal preocupação; nunca encontrei outra coisa mais importante. Sentindo-me nascido para o belo sexo, sempre o amei e por ele me fiz amar quanto pude. Apreciei também os bons manjares com transporte, e sempre me apaixonaram todos os objetos capazes de me excitar a curiosidade”. Se Don Giovanni pertence ao território do mito, Casanova faz parte da história. Lenda ou realidade, ambos passaram a ser considerados gênios do amor. Com uma diferença: enquanto Don Giovanni conquista e vence as mulheres, deixando atrás de si um rastro de ódio e despeito, Casanova não quer humilhar ninguém. É uma festa para suas parceiras, que não hesitam em convidar filhas e irmãs para o bom folguedo. Em seus dias em Dux, confessa: “Não me quererão mal quando me virem esvaziar a bolsa de meus amigos para atender aos meus caprichos, pois esses amigos tinham projetos quiméricos, e, fazendo-os esperar o êxito, esperava eu mesmo curá-los desenganando-os. Enganava-os para torná-los prudentes, e não me considerava culpado, pois nunca agia movido por espírito de avareza. Para custear meus prazeres, empregava somas destinadas à obtenção de posses que a natureza não possibilita. Se hoje estivesse rico, sentir-me-ia culpado; mas nada possuo, tudo esbanjei, e isto me consola e me justifica. Era um dinheiro destinado a loucuras: pondo-o a serviço das minhas, não desviei absolutamente seu emprego”. Como é que é? Pervertidos, ninfomaníacos, depravados? Ou poliamoristas? Os tais de psicólogos, ou mesmo os juristas, parecem não ter chegado a uma conclusão. É curioso observar como comportamentos que admiramos no mundo da ficção ou em pessoas famosas viram vício quando cultivados pelo comum dos mortais. Don Giovanni, por exemplo. Vejamos a famosa listina de Leporello, que até hoje fascina multidões em todos os salões de ópera do mundo. Eu e minha Baixinha éramos apaixonados por Don Giovanni. Na cerimônia de sua cremação, além de uma copla de Carmen, outra de nossas paixões, pedi esta: Deh, vieni alla finestra, o mio tesoro, deh, vieni a consolar il pianto mio. Se neghi a me di dar qualche ristoro, davanti agli occhi tuoi morir vogl'io. Tu ch'hai la bocca dolce più che il miele, tu che il zucchero porti in mezzo al core, non esser, gioia mia, con me crudele, lasciati almen veder, mio bell'amore! Assim ela baixou às chamas. Quando passar e rumar ao fogo, já pedi à Primeira Namorada, este outro momento de Da Ponte: Madamina! Il catalogo e questo, Delle belle, che ano il padron mio! Un catalogo egli e ch'ho fatto io: Osservate, leggete con me! In Italia seicento e quaranta, In Allemagna duecento trentuna; Cento in Francia, in Turchia novantuna, Ma, ma in Ispagna, son gia mille e tre! Verdade que Mozart, para satisfazer uma Áustria puritana, acabou jogando Don Giovanni nos infernos. Tudo bem, não me importo de ir para lá. Mas o personagem que nos fascina é o galantuomo ante o qual cedem todas as mulheres e não aquele que o Commendatore manda para os abismos. V'han fra queste contadine. Cameriere cittadine; V'han Contesse, Baronesse, Marchesane, Principesse, Ev'han donne d'ogni grado, D'ogni forma d'ogni eta. Nella bionda, egli ha l'usanza Di lodar la gentilezza,- Nella bruna la costanza, Nella bianca la dolcezza! Vuol d'inverno la grassotta Vuol d'estate la magrotta; E la grande, maestosa; La piccina, ognor vezzosa. Certo, Don Giovanni é um ente de imaginação. Mas se como ente de imaginação nos fascina é porque seus feitos nos fascinam. Così ne consolò mile e ottocento, diz Leporello. Delle vecchie fa conquista Per piacer di porle in lista: Sua passion predominante E la giovin principiante Non si picca, se sia ricca, Se sia brutta, se sia bella! Purche porti la gonnella, Voi sapete quel che fa! Já que a morte é certa, quero ser consumido pelas chamas ao som de Mozart e Da Ponte. Poliamante, tarado, pervertido? Pensem os presentes o que quiserem. Neste momento, nada importa. Se algo importa, é ter vivido bem.
Terça-feira, Novembro 25, 2008
NOVOS ACHADOS SEMÂNTICOS Parece que a reforma da língua, prevista para o próximo ano, não será apenas ortográfica. Mas também semântica. Comentei ontem o tal de poliamorismo, palavrinha safada encontrada por advogados chicaneiros para substituir poligamia. Ontem ainda, a imprensa nos brindou com mais dois eufemismos. Surge uma nova moda entre solteiros de Rio e SP: contratar "esposa de aluguel" – diz um grande jornal de São Paulo. Se você entende os meandros do jornalismo paulistano, já terá deduzido que o jornal em questão é o Estadão. Pois na Folha de São Paulo, a todo redator é proibido grafar a palavra esposa. Enfim, se um entrevistado fala em esposa, será grafado esposa. Mas entre aspas. Não sei quais critérios levaram a Folha a tomar esta decisão, mas concordo com eles. Esposa é palavrinha muito careta, soa à reunião de Lyons Club, culto de evangélicos, coisas do gênero. Conheço até professores universitários que falam em esposas. Horror! Mulher me parece ser palavra mais adequada. Esposa é palavra que nunca pronunciei. Acho que nem mesmo minha mulher. Minha Baixinha, eu preferia chamá-la de minha guria. Realistas são os espanhóis. Esposa tem o nosso mesmo sentido de esposa. Mas também significa algemas. Assim, se um dia você ler algo como “el hombre fué esposado”, não pense que alguém esteve casado. O mais provável é que tenha sido algemado. Vamos à notícia. Cresce número de mulheres que ganham dinheiro cuidando de casas alheias; serviços vão de botão a bolo. Escreve a repórter Mariana Faraco: O anúncio é direto. "Você é solteiro? Sua vida está uma bagunça? Você não precisa de uma esposa, precisa de mim." É assim que Cristiane Passos, carioca de 31 anos, oferece seus préstimos de dona de casa prendada, dessas que se esmeram em pregar botão e fazem bolos em fôrma furada. Ela descobriu uma forma de ganhar dinheiro ao preencher uma lacuna nos lares: a falta de tempo - ou paciência - para cuidados domésticos. Como ela, outras mulheres têm oferecido o serviço sob nomes variados - consultora do lar, governanta por um dia ou, como ela prefere, esposa de aluguel. Os novos lexicógrafos que me perdoem. Mas isso, se a memória não me falha, é o que chamamos de faxineira. Ou empregada doméstica. Cultivo uma Christiane, só que se chama Cristina. É pessoa inteligente, dedicada, vem aos sábados tratar de meu tugúrio e convivo com ela desde fins do século passado. Cuida inclusive de minha biblioteca e exorciza qualquer ameaça de cupins. Mas jamais me ocorreu chamá-la de mulher de aluguel. Muito menos de consultora do lar ou governanta. Prefiro secretária. Outro dia, quando eu lhe passava algumas noções de astronomia, grau de inclinação do planetinha em torno ao sol, surgimento da vida, ao ir um pouco além da galáxia, ela me fez uma pergunta enorme: “quer dizer então que o universo é infinito?” Embatuquei. Se os cientistas ainda nada decidiram de definitivo a este respeito, não será este que vos escreve que dirá a resposta. Falei das dúvidas sobre a questão. Em suma, ela entendeu as dimensões do problema. Mas não era disto que queria falar. Bom, se a nova profissão se chama esposa de aluguel, surge naturalmente a questão: e aqueles serviços inerentes às tais de esposas, como é que ficam? Não se iludam os patrões das esposas de aluguel: E que ninguém confunda os papéis. É que alguns perguntam se estão incluídas "todas" as atribuições de esposa. Educadamente, Christiane diz que não. E nada de discutir relação."Sou esposa, mas sem os problemas de um relacionamento", avisa ela, que é separada. "Costumo dizer: quando a mulher faz tudo isso de bom grado, não tem valor. Se pagarem, valorizam." Tanta dedicação tem preço, de acordo com a exigência do "marido". "Mas não saio de casa por menos de R$ 50." Christiane está falando de R$ 50 por hora. Numa jornada de oito horas, já ganhou 400 reais. Mais de um salário mínimo por dia. Ora, nem professor universitário ganha isso. O que está acontecendo hoje, em São Paulo, é o que aconteceu há muito na Europa. Os serviços domésticos se tornaram extremamente caros, a ponto de só uma pessoa em situação econômica muito boa poder conseguir contratar uma faxineira. Minha Cristina, com suas faxinas diárias, ganha por mês quase o piso de um jornalista. E ganha muito mais que as professoras da rede pública. Ao que tudo indica, moças de classe média descobriram este filão. Para ter uma renda decente ao final do mês, abandonaram veleidades de status. Claro que não faz bem ao ego apresentar-se como faxineira. Melhor esposa de aluguel. Se bem que, cá com meus botões, tivesse eu uma esposa de aluguel, gostaria de ter também aqueles outros serviços inerentes a uma - enfim, vamos lá! - esposa, que Christiane não inclui em sua profissão. Desde os serviços de mesa e cama até cafuné na nuca. Mas aí as coisas se complicam. Surgem obrigações outras e bem mais graves que as trabalhistas. De esposa de aluguel a esposa de fato, basta uma ação na Vara de Família. O que está acontecendo é que juízes e jornalistas estão embaralhando conceitos para legalizar desde a poligamia até profissões dúbias - ou pelo menos mal definidas - para satisfação do ego dessa coisa chamada classe média. Claro que lá embaixo da escala social não existe poliamor. É galinhagem mesmo. Não bastassem as esposas de aluguel, a imprensa está criando uma nova figura, o marido de aluguel. São “maridos” que atendem até homens. Há mais tempo no mercado, os chamados "maridos de aluguel" surgiram para resolver um outro tipo de problema doméstico, historicamente sempre a cargo do "homem da casa": trocar uma lâmpada, consertar o chuveiro, mexer na calha. Há centenas deles em todo o País. E, agora, alguns correm o risco de acumular funções "femininas". "As clientes me perguntam se conheço alguém que organize armários ou que conserte cortinas", conta Valdir José Peres, de 46 anos, que há três criou a Marido de Aluguel, em São Paulo. Ora, ora, de meus dias de jovem, isso se chamava factótum. “Indivíduo cuja função é ocupar-se de todos os afazeres de outrém”, diz o Houaiss. Claro que o conceito vai bem além de trocar torneiras ou antenas parabólicas. Meu factótum poderia ser alguém que se ocupa inclusive de minha vida econômica ou bancária. Felizmente não tenho vida econômica complicada. Vamos ficar então no conceito mais estrito. Lá em Dom Pedrito tinha um famoso. Era o “Faz-se-tudo-menos-forno”. Atendia por Facitudo. Menos forno se explica. É que nunca conseguira construir um forno eficaz. O resto ele traçava. Era homem de talento, talento que foi herdado por seu filho, oboeísta na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Quer dizer, Dom Pedrito produziu um oboeísta. Filho do Facitudo. Na França, é o que se chama de bricoleur, aquele profissional que trata de todos os probleminhas de uma casa. Cobram caro e são muito requisitados. Quem entende de bricolagem em Paris não arrisca passar mal. Mas ninguém falaria de "mari à louer". Bricoleur, tout simplement. Aqui no meu prédio, o factótum chama-se “seu” Irineu. Ele conserta tudo, desde encanamentos a pinturas ou derrubada de paredes. É pedreiro, encanador, chaveiro, pintor. Cobra caro e deve ter ganhar muito bem. Para agendar um conserto com “seu” Irineu, às vezes preciso esperar dez dias. Para os problemas elétricos, um outro profissional atende o condomínio. Mas é óbvio que a ninguém ocorreria chamar o “seu” Irineu – ou o nosso eletricista – de marido de aluguel. Por falar em dicionários, o Houaiss registra bricolagem. Se registra bricolagem, podia muito bem registrar bricoleur. Ou bricoleiro, para ficar no espírito da língua. Define melhor o ofício do que essa impropriedade chamada marido de aluguel. O Brasil é extremamente criativo quando se trata de criar profissões. Mais um pouco, e estarão devidamente regulamentadas por lei as profissões de esposa e marido de aluguel. Teremos quem sabe sindicatos de esposas e de maridos de aluguel, com direito a nomear juízes trabalhistas sem formação alguma em Direito. Cristina e "seu" Irineu que se cuidem. Dentro de pouco, estarão exercendo profissões ilegais. Os dados já foram lançados pela imprensa. Agora é só esperar para ver.
Segunda-feira, Novembro 24, 2008
EU, PROTOPOLIAMANTE Sobre poliamor, me escreve uma terna leitora: Janer... Há tempos não te escrevo, mas leio teu blog diariamente com o maior prazer. Não me contive na reflexão de seus questionamentos, e peço licença para tentar expor o que entendi sobre o conceito de poliamor. Esse tema que mais parece um neologismo foi abordado em uma palestra de Psicologia que assisti. Embora "a palavrinha amor seja parte constitutiva do palavrão", poliamor é o conceito de estar apaixonado por mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Polígamos praticam poliamor, mas poliamoristas não necessariamente praticam poligamia. Podem viver de forma que vários adultos formem uma família, dividam os gastos, cuidem das crianças e façam sexo uns com os outros. No entanto, normalmente não tentam formar um casamento de acordo com a lei. Existe uma linha tênue entre uma família poliamorosa e uma poligamista. Poliamoristas tendem a ter visão comunitária e liberal, enquanto polígamos normalmente vêm de ambientes de religiões conservadoras. Com essa diferenciação, acho que é possível responder a ti: parece que não é preciso que exista o tal amor, mas é imprescindível que exista a paixão. Segundo consta, alguns estudos científicos apontam que a paixão dura apenas 01 ano. Paixões são intensas e arrebatadoras. Talvez por isso sejam tão prazerosas, durem tão pouco e nos deixem tão cegos. rs... Janer...obrigada pelas reflexões, propostas por ti... Beijo. Se assim for, leitora, fui precursor e nem sabia. Comecei minha vida afetiva, há uns bons 40 anos, com duas namoradas, adorava as duas e não queria abrir mão de nenhuma delas. Fui o protopoliamante. Adorava minha Baixinha e adora uma bugra guarani, que me sussurrava com uma voz doce: xemboraihú. Naqueles dias, ninguém falava em poliamor. Não me lembro como se chamava, mas acho que devassidão, infidelidade, luxúria, coisas do gênero. Se chamasse como se chamasse, nunca me senti infiel. Infiel é quem mente, quem esconde e jamais escondi nada de ninguém. Saía com uma e com outra e às vezes com as duas, e ambas se entendiam muito bem. Eu tinha 17, 18 anos na época. A vida acabou me separando da bugra querida e até hoje nutro a esperança de, um dia entre estes dias, receber um e-mail dela. Ainda é tempo. Quanto aos estudos científicos apontarem que uma paixão dura um ano, perdoa, leitora: vou negar toda ciência. Minha paixão durou 38 anos, e mais não durou porque ela partiu. Aquela outra paixão, que já tem mais anos, continua viva. Quando jovem, sempre estive apaixonado por muitas mulheres ao mesmo tempo. Eram lindas, eram amáveis, me adoravam. Que me restava senão adorá-las? Paixão, eu diria, é coisa de jovem. Hoje, até posso me encantar com uma mulher. Mas não seria mais uma paixão daquelas que nos fazem gozar e sofrer ao mesmo tempo. Que nos levam a momentos de enlevamento e também de fiascos. Sofro, hoje, a perda de minha Baixinha. Um dia pensei: a vida pode recomeçar. Encontro outra mulher e ressuscito. Não é verdade. Eu precisaria voltar aos 17, encontrar outra menina com 17, recomeçar tudo de novo e, depois de umas quatro décadas, poderia concluir se valeu a pena. Ora, não tenho mais quatro décadas. Nem voltarei a meus 17. Panta rei. Que se vai fazer? Eu, que tive tantas, te confesso que até hoje não entendo esse troca-troca quotidiano de parceiros. De minha parte, nunca troquei ninguém. Olho para trás, para meus companheiros de geração, meus colegas de universidade. Não encontro um só que não esteja divorciado. Em torno a mim, só vejo destroços de naufrágios, gente se afogando em busca de um outro náufrago para se afogarem juntos. Quanto a mim, o devasso, permaneci fiel por quatro décadas. E por mais décadas permaneceria, não nos visitasse a Indesejada das Gentes. Isso de poliamor é recurso de advogado chicaneiro. Como poligamia é crime, fala-se então em poliamor. Mais dia menos dia ainda vai descobrir-se que todo mundo é poliamantíssimo. Quem sabe um dia chegaremos a uma sociedade em que toda pessoa se aceite como é. Não acredito muito nisso, os seres humanos adoram ficções. Ma... chi lo sa?
Domingo, Novembro 23, 2008
RESPOSTAS ÀS PERGUNTINHAS Um leitor quis saber quais seriam as respostas às singelas perguntinhas sobre os textos sagrados, que fiz em crônica passada. Cá estão: - com quem Caim deu continuidade à espécie humana, se em seus dias as únicas mulheres existentes na terra eram Eva, sua mãe, e suas irmãs? - Ou com sua mãe ou com suas irmãs. - Quem foi mesmo que Jeová mandou Abraão sacrificar numa pira em seu louvor? Qual era o parentesco do menino com Abraão? - Isaac. Era seu filho. - Como se chamava a mulher de Abraão, que Abraão ordenou que se prostituísse a Faraó, para salvar a própria pele e receber mordomias de Faraó? - Sara. - Quem foi mesmo o único justo de Sodoma, que ofereceu as duas filhas virgens para uma turba, para proteger dois anjos do desejo dos sodomitas? E que mais tarde procriou com as próprias filhas? - Ló. - Quantos judeus mandou degolar o líder judeu Moisés? - Três mil. - Quantos meninos o santo homem Eliseu mandou duas ursas estraçalharem, só porque o chamaram de careca? - 42. - Em quantos pedaços o levita de Efraim partiu a concubina que contra ele adulterou? Para quantas tribos foram enviados os pedaços da concubina? - Doze. Foram enviados para doze tribos. - Como se chamava o general que o santo rei Davi mandou matar para ficar com sua mulher? Como se chamava a mulher do general que o santo rei Davi mandou matar? - O general era Urias. A mulher era Betsabá. - Quantos milhões de etíopes o rei Asa, de Judá, massacrou com o apoio de Jeová? - Um milhão. - Qual povo entrou na cidade de Jericó, matando homens e mulheres, crianças e velhos, bois, cordeiros e burros, sob as ordens de Jeová? - O povo de Israel, oras. - Quem despedaçou Agag, na presença de Jeová, em Guilgal? - Samuel. - Quem assassinou todo o povo amalecita, por ordem de Jeová? - O povo de Israel, é claro. - Quem matou todos os reis de Madián - Evi, Requem, Sur, Jur e Rebá - mais Balaam, filho de Beor e todos os varões madianitas? - Moisés. - Quem mandou separar 32 mil virgens madianitas feitas prisioneiras - para uso dos israelitas, é claro - após ter assassinado todas as que não eram virgens? - Jeová, obviamente. - Como se chamava o filho de Davi, que violentou dez mulheres em praça pública, como sinal de enfrentamento com seu pai? - Absalão. - Qual filho de Davi estuprou Tamar, filha de Davi e sua irmã? - Amnon. - Como se chamava o filho de Eleazar, que traspassou com uma lança, de um golpe só, o israelita e a moabita que mantiam relações em uma tenda? - Finjas. - Qual rei forçou à escravidão todos os que não eram israelitas para construir o famoso templo de Jerusalém? - Salomão. - Quantos mil hebreus o Altíssimo permitiu que Josué matasse, só porque um deles ficou com parte do botim saqueado por Josué e sua horda de assassinos? - Três mil. - Quem foi o sábio rei que entregou a vida de setenta mil homens a Jeová, como castigo por ter organizado um censo não aprovado por Jeová? - Davi. - Como se chamava a moça que Jehú mandou jogar de uma janela, cujo sangue salpicou os muros da cidade, e foi pisoteada pelos cavalos que passavam? - Jezabel. - Quantos homens Jehú mandou degolar na cisterna de Bet-Equed? - 42. - Quantos homens matou Jehú na casa de Ahab? - Todos. - Como se chamava a mulher que enterrou uma estaca na face de seu hóspede, Sísera, com tal força que a estaca penetrou a terra? - Yael. - Quantos mil homens de Moab Ehud mandou matar na montanha de Efraim? - Dez mil. - Quando sacerdotes de Baal o santo profeta Elias mandou degolar? - 450. - Quem ordenou a matança de 24 mil israelitas, só porque estes coabitavam com as mulheres de Moab? - Jeová, oras! - Como se chamava o sábio rei que assassinou seu irmão para casar-se com Abisag? - Salomão. O leitor pede mais. Quer que eu situe, versículo a versículo, estes textos na Bíblia. Não vai levar. Não vou roubar-lhe o prazer da leitura e da pesquisa.
Sábado, Novembro 22, 2008
POLIAMOR, A NOVA SAFADEZA SEMÂNTICA Se alguns países na Europa já aceitam a poligamia, desde que praticada por muçulmanos, o mesmo não ocorria no Brasil. Pelo menos até ontem. Em Porto Velho, Rondônia, uma mulher obteve na Justiça o direito de receber parte dos bens do amante com quem conviveu durante quase 30 anos. Ele era casado e morreu no ano passado, aos 71 anos. O juiz Adolfo Naujorks, que concedeu à moça o direito de herança, baseou-se em artigo publicado num site jurídico segundo o qual uma teoria psicológica, denominada "poliamorismo", admite a coexistência de duas ou mais relações afetivas paralelas em que casais se conhecem e se aceitam em uma relação aberta. Apesar de ter vivido muito mais de duas relações paralelas, confesso desconhecer tal teoria. Em meus dias de jovem, chamava-se isto amasiamento, adultério, infidelidade. Mais adiante, anos 70 para cá, começou-se a falar em relação aberta. Tudo dependia do consenso do casal. Conheci casais que viveram unidos a vida toda, mantendo este tipo de relação. Era um relacionamento honesto, sem mentiras. Mas o Direito jamais reconheceu direito à herança por parte de quem não fosse a mulher legítima. Neste sentido, o matrimônio funcionava como proteção. O marido podia ser infiel à vontade, sem precisar dividir seus bens com a Outra, como se dizia então. Poliamorismo soa mais elegante. Procurei a palavrinha nos dicionários. Não encontrei. Nem meu processador de texto reconhece a palavra, sempre a sublinha em vermelho. Fui ao Google. Já está lá, talvez muito em função da sentença do juiz de Rondônia. Escreve um jurista: “As relações interpessoais de cunho amoroso, por vezes destoam do padrão habitual da monogamia entre os casais formados por pessoas de sexos diferentes. Assim, encontramos relacionamentos afetivos que envolvem um casal, vale dizer um dos cônjuges e um parceiro ou parceira, os quais se desenvolvem simultaneamente. Ditas relações são denominadas de poliamorismo ou poliamor, e se constituem na coexistência de duas ou mais relações afetivas paralelas ao matrimônio”. Ah! As palavras... Eu conhecia poligamia, poliandria, até mesmo policromia. Mas o tal de poliamorismo é para mim novidade. Quem diria? Cheguei aos sessenta e ainda descubro palavrinhas exóticas. Me restam no entanto algumas dúvidas. Já que a palavrinha amor é parte constitutiva do novo palavrão, me pergunto: é preciso que exista o tal de amor? Ou sexo puro também serve? O conceito é extensivo a todas as profissionais que curtimos em nossas vidas, ou profissional não vale? Aquela distante namorada, que encontramos de ano em ano, é poliamor? Ou um amorzinho mixuruca, sem direito à herança? Os muçulmanos são mais práticos. Todo crente tem direito a quatro mulheres e estamos conversados. Não se fala em amor nem poliamor. Mas não precisamos ir até o Islã. No livro que embasa a cultura ocidental, temos o rei Salomão. “Tinha ele setecentas mulheres, princesas, e trezentas concubinas; e suas mulheres lhe perverteram o coração”, lemos no I Reis. Poliamantíssimo, o sábio rei. Bem que gostaria de ter meu meigo coração assim pervertido. Após a morte do empresário de Rondônia, a amante, que por lei não teria direito à partilha de bens, entrou na Justiça com uma ação declaratória de união estável, dizendo que dependia financeiramente dele e que compartilhou com ele esforço comum na formação do patrimônio. O pedido foi contestado pelos dois filhos do casamento, que pediram a condenação dela por má-fé e argumentaram que a lei nacional baseia-se no relacionamento monogâmico. Segundo trecho do artigo usado na sentença, "as pessoas podem amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo". Alvíssaras! Novidade na cultura ocidental. Finalmente o Direito reconhece que o tal de amor não precisa ser monogâmico. Mas minhas dúvidas permanecem. A sentença não estabelece quantas pessoas se pode amar ao mesmo tempo. Só duas? Ou vinte também vale? E o harém do rei Salomão? Pode? Tampouco esclarece se uma mulher pode amar dois ou mais homens. Pelo que se deduz da questão, quando um homem ama duas mulheres é poliamor. Já uma mulher amando dois ou mais homens, vai ver que é puta mesmo. Não imagine o leitor que condeno a sentença do juiz Naujorks. Pelo contrário, creio que supre uma lacuna do Direito. Monogamia é moeda rara. As pessoas são – e particularmente os machos – naturalmente polígamas. O Estado finge que a monogamia é regra e o direito de família se alimenta desta ficção. O que me incomoda é a safadeza semântica. Por que criar um nome novo para uma realidade antiga? Por que batizar poligamia de poliamor? Só porque o Direito proíbe a poligamia? Então tudo se torna muito fácil. As esquerdas entendiam bem disto. Roubo não era roubo, mas expropriação. Os terroristas que assaltavam bancos no Brasil não assaltavam bancos. Apenas expropriavam os detentores do capital. Assassinato não era assassinato, mas extinção física. Luís Carlos Prestes não mandou assassinar Elsa Fernandes. Apenas ordenou sua extinção física. Caixa 2 virou recurso não contabilizado. O PT nunca teve caixa 2. Apenas recursos não contabilizados. Poligamia? Que é isso? Afinal, não somos brutos muçulmanos. Diga poliamor. É mais elegante e dá direito a herança.
Sexta-feira, Novembro 21, 2008
ARMADILHA PARA NEGROS (Este debate ocorreu nos meses de março, abril e maio de 2003, na revista Brazzil, de Los Angeles. A resposta de Mark Wells está em www.brazzil.com/p133apr03.htm. Outras contestações estão no fórum da mesma revista, no item Race. Nestes dias em que a Câmara aprovou projeto que oficializa cotas para negros, pardos e índios nas universidades federais e a raça mulata tende a ser extinta com a definição de Obama como negro, julgo oportuno reproduzir o artigo. Abaixo, segue a versão publicada em inglês - um pouco modificada - para eventuais leitores anglófonos) Ainda há pouco, os movimentos negros brasileiros reivindicavam a eliminação do item cor nos documentos de identidade. Com a malsinada lei de cotas que hoje assola o ensino superior, os negros insistem em declarar a cor na inscrição no vestibular. Estes mesmos movimentos negros sempre consideraram que qualquer critério supostamente científico para determinar a cor de alguém é racista. Quem então é negro para efeitos legais? No caso da lei estadual no Rio e do projeto de lei federal, o critério é o da auto-declaração. Pardo ou negro é quem se considera pardo ou negro, mesmo que branco seja. Ora, neste país em que impera a chamada lei de Gérson, não poucos brancos se declararam negros no último vestibular da UERJ, a primeira universidade pública brasileira a estabelecer o sistema de cotas. Grita dos líderes negros: vamos determinar cientificamente quem é branco e quem é negro e processar os brancos que se declaram negros. Ou seja, as palavras de ordem da afrodescendentada são mais cambiantes que as nuvens. Mas mudam num só sentido, na direção de obter vantagens para os negros, não só dispensando méritos como também passando por cima dos eventuais méritos de quem se declara branco. O atual presidente da República está longe de ser o primeiro apedeuta a assumir o poder neste país. Câmara e Senado estão repletos de analfabetos jurídicos, que nada entendem da confecção de leis nem sabem sequer distinguir lei maior de lei menor. Embalados por palavras de ordem estúpidas, em geral oriundas dos Estados Unidos, criam leis irresponsáveis, com a tranqüilidade de quem não precisa prestar contas a ninguém. É o caso da lei de cotas. Só agora, após o vestibular da UERJ e de uma enxurrada de ações judiciais, argutos analistas descobriram que a famigerada lei fere o artigo 5º da Constituição: "todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza." Não bastasse esta tremenda mancada jurídica, que daqui para frente só servirá para entupir ainda mais os já entupidos tribunais - gerando grandes lucros aos advogados, os reais beneficiados pela lei de cotas - o presidente da República, mal assumiu o poder, sancionou lei que obriga a inclusão da temática História e Cultura Afro-brasileira no currículo oficial da rede de ensino Fundamental e Médio. As aulas abordarão desde a história da África e dos africanos até a luta dos negros no Brasil. A medida é de um racismo evidente. E por que não a História de Portugal e a luta dos portugueses no Brasil? Ou a história da Itália e as lutas dos italianos? Ou a história do Japão e a luta dos japoneses? O Brasil é um cadinho de culturas e a contribuição africana a seu desenvolvimento está longe de ser a única ou a mais importante. O estudo da história afro-brasileira tem no entanto suas complicações. Para os próceres do movimento negro, não basta historiar a cultura afro-brasileira. É preciso embelezá-la. É o que se deduz da proibição do livro Banzo, Tronco e Senzala, de Elzi Nascimento e Elzita Melo Quinta, na rede pública do Distrito Federal por ordem do governador Joaquim Roriz, em acatamento ao pedido do senador petista Paulo Paim. Um garoto teria ficado impressionado com as informações contidas no livro dizendo que os "negros perdiam a condição humana assim que eram aprisionados na África para se tornarem simples mercadoria à disposição dos brancos" e que aprisionar os negros não era difícil. "Principalmente, depois que os traficantes passaram a contar com o auxílio de negros traidores que prendiam elementos de sua própria raça em troca de fumo, cachaça, pólvora e armas." "Qual é a auto-estima de uma criança negra quando recebe um livro que diz que, se seu povo um dia foi escravo, os culpados foram os negros, e não os europeus da época, mercadores de escravos?" - pergunta Paim. O deputado parece ignorar - ou propositadamente omite - o fato de que a escravidão não é invenção dos europeus. Ela já está na Bíblia e em momento algum é condenada pelos profetas ou patriarcas. Nem mesmo Paulo, reformador do Livro Antigo, a condena. Foi norma na Grécia antes de a Europa existir. Séculos antes de o primeiro navio negreiro europeu aportar no continente africano, ela lá já existia, sem a interferência do Ocidente. O presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, que o diga. Comentando as reivindicações dos movimentos negros, identificou-se como descendente de uma rica família de senhores de escravos e perguntou se alguém iria pedir-lhe indenização. Ainda bem que não o fez em jornais do Distrito Federal, ou seria censurado pelo governador Joaquim Roriz. Que os chefes tribais negros facilitavam a tarefa dos negreiros, vendendo escravos de outras tribos, isto tampouco é ignorado. Vendiam e continuam vendendo até hoje, em pleno século XXI. Na Mauritânia, Sudão e Gana, no Benin, Burkina Fasso, Mali e Niger, a escravidão ainda persiste como nos tempos dos navios negreiros. Ano passado, a GNT mostrava brancos europeus comprando escravos no Sudão. Não que fossem negreiros. Eram representantes de Ongs européias, que compravam negros para libertá-los. O propósito pode ser nobre. Mas toda procura gera oferta e os dólares dos ongueiros só serviram para estimular o tráfico de escravos. Esta é a história da África. E se algum autor relega a escravidão para tempos passados, o livro está desatualizado. A nova lei assinada pelo presidente da República acrescenta ao calendário escolar o dia da morte de Zumbi (20 de novembro) como o Dia Nacional da Consciência Negra. Esta ambição patrioteira de ter heróis, típica de países subdesenvolvidos, levou políticos negros a elegeram Zumbi como herói da raça. Ora, o herói negro também era proprietário de escravos. Como é que ficamos? Irão as autoridades censurar qualquer livro que ateste esta condição de escravagista de Zumbi? Ao defender os sistemas de cotas na universidade, os negros caíram em uma tosca armadilha. Podem hoje ter facilidades na obtenção de um diploma. Mas quem, amanhã, irá contratar os serviços de profissional que entrou na universidade pela porta dos fundos? Ao exigir a inclusão da história africana nos currículos, caíram em armadilha mais sofisticada. A história da África é a história das guerras tribais e da escravidão, da lapidação por adultério, da mutilação física como punição e da mutilação sexual como costume. Democracia, direitos humanos, liberdade de imprensa, emancipação da mulher, são instituições desconhecidas no continente. Seis mil meninas têm o clitóris extirpado, diariamente, em vinte países do Oriente Médio e da África. Por barbeiros locais ou parteiras, com instrumentos não esterilizados. A África, até hoje, está mais para Idi Amin Dada do que para Mozart. Mais para Bokassa que para Einstein. Estudar sua história, seja a passada, seja a presente, não leva criança alguma a nenhuma auto-estima. Sobre Idi Amin Dada e Mozart Em crônica passada, comentei o sistema de cotas para negros na universidade e o estudo obrigatório da História africana nas escolas brasileiras. O artigo rendeu uma saraivada de mensagens, em geral iradas, nas quais invariavelmente sou acusado de racista. "A doença do racismo é uma invenção européia" - escreve um dos leitores - "Você não pode infetar uma pessoa com a doença sem esperar ficar doente. Seu artigo mostra a doença que você ainda tem". Tantas foram as objeções, que responder a todas é impossível. Atenho-me então a comentar os pontos mais recorrentes, como racismo, sistema de cotas, escravidão e história da África. Deixo de lado minha surpresa ao tomar conhecimento de que os hutus e tutsis que se cortam aos pedaços em Ruanda estão contaminados por uma invenção européia. Comecemos por meu suposto racismo. Nasci no Rio Grande do Sul, Estado que, por sua forte colonização européia, tem a fama de ser o Estado mais racista do Brasil. Apesar de ser constituído por uma expressiva maioria branca, foi o primeiro Estado do país a eleger um governador negro, Alceu Collares. Ora, nem a Bahia, Estado majoritariamente negro, teve um governador negro. Collares não só foi governador, como também prefeito de Porto Alegre, capital também majoritariamente branca. Antes de ser prefeito da capital gaúcha, foi prefeito de Bagé, cidade da fronteira oeste do Rio Grande do Sul, onde os brancos constituem maioria esmagadora. Desde minha infância, de meus estudos primários aos universitários, convivi afavelmente com negros. Em meus anos de Porto Alegre, por noites a fio participei da mesa de Lupicínio Rodrigues, no bar da Adelaide, e por ele sempre nutri admiração. Lupicínio - que compôs os mais belas letras de samba do Brasil - era universalmente querido pelos gaúchos. Hoje, noto que tive entre os negros bons amigos. E por que hoje? Porque na época nem notava que eram negros. Com o acirramento recente da luta racial, passamos a conviver com pessoas que insistem em se definir como negras, quando nem cogitávamos de que o fossem. Entre os mails recebidos, sou acusado de defender a tese de que no Brasil não existe racismo. De certa forma, a defendo. Algum racismo existe entre nós, ou humanos não seríamos. Mas jamais ao nível dos EUA ou países europeus. O negro, quando rico ou bem-sucedido, é estimado e mesmo invejado no Brasil. Milhões de brancos brasileiros se sentiriam sumamente honrados sendo fotografados junto a um Pelé. O rechaço existe em relação ao negro pobre ou miserável. Neste caso, o fator de distanciamento não é a negritude do negro, mas sua miséria. Exceto padres católicos e assistentes sociais, ninguém gosta de miséria. Nem negro gosta de negro pobre. Nunca tivemos, no Brasil, leis proibindo a negros qualquer direito. As chamadas leis Jim Crow, declaradas inconstitucionais pela Suprema Corte americana em 1954, constituíram a partir de 1880 a base legal da discriminação contra negros nos Estados do Sul, proibindo até mesmo um estudante passar um livro escolar a outro que não fosse da mesma raça. No Alabama, nenhum hospital podia contratar uma enfermeira branca se nele estivesse sendo tratado um negro. As estações de ônibus tinham de ter salas de espera e guichês de bilhetes separados para cada raça. Os ônibus tinham assentos também separados. E os restaurantes deveriam providenciar separações de pelo menos sete pés de altura para negros e brancos. No Arizona, eram nulos casamento de qualquer pessoa de sangue caucasiano com outras de sangue negro, mongol, malaio ou hindu. Na Florida, proibia-se o casamento de brancos com negros, mesmo descendentes de quarta geração. Neste mesmo Estado, quando um negro compartilhasse por uma noite o mesmo quarto que uma mulher branca, ambos seriam punidos com prisão que não deveria exceder 12 meses e multa até 500 dólares. Na Geórgia, cerveja ou vinho tinham de ser vendidos exclusivamente a brancos ou a negros, mas jamais às duas raças no mesmo local. No Mississipi, mesmo as prisões tinham refeitórios e dormitórios separados para prisioneiros de cada raça. No Texas, cabia ao Estado providenciar escolas para crianças brancas e para negras. As leis Jim Crow explicam a mauvaise conscience ianque, que se traduziu na ação afirmativa. Brasileiros, desconhecemos este racismo institucionalizado. Negros e brancos casam-se com brancas e negras, bebem e comem nos mesmos restaurantes, estudam e confraternizam nos mesmos bancos escolares. Se há menos negros que brancos na universidade, isto se deve a fatores econômicos, mas jamais legais. O branco pobre - e eles são legião - tem a mesma dificuldade de acesso aos bancos universitários que o negro pobre. O negro rico - e eles também existem - tem a mesma facilidade de acesso que o branco rico. É inteligível o ódio que um negro americano possa sentir por um branco americano. Não há no entanto razão alguma para que este ódio seja exportado ao Brasil. Neste país, do ponto de vista legal, o negro nunca foi discriminado. O Brasil costuma importar as piores práticas do Primeiro Mundo, costumo afirmar. No censo de 2.000, quase sete milhões de norte-americanos, pela primeira vez, foram autorizados a identificar-se como integrantes de mais de uma raça. As categorias inter-raciais mais comuns citadas foram branco e negro, branco e asiático, branco e indígena americano ou nativo do Alasca e branco e "alguma outra raça". Os Estados Unidos deixam de lado a onedrope rule, pela qual um cidadão é considerado negro mesmo que tenha uma única gota de sangue negro em sua ascendência, e descobrem o mestiço. Enquanto os Estados Unidos reconhecem a multi-racialidade, alguns movimentos negros no Brasil pretenderam que até os mulatos se declarassem negros no último censo. O propósito é óbvio, exercer pressão legislativa. A população negra do Brasil, em 99, era de apenas 5,4%. Com o acréscimo de 39,9% do contingente de mulatos, o Brasil estaria perto de ser definido como um país majoritariamente negro, como aliás é hoje considerado por muitos americanos e europeus. O presidente José Inácio Lula da Silva, em sua já proverbial incultura, caiu nesta armadilha, ao afirmar que o Brasil é a segunda nação negra do mundo. Não é. Negro é minoria ínfima no Brasil. A menos que, como fizeram os EUA, se pretenda negar este espécime híbrido, o mulato. Quando os americanos descobrem o mestiço, os ativistas negros brasileiros querem eliminá-lo do panorama nacional. Em uma imitação servil da imprensa ianque, os jornais tupiniquins passam a usar o termo afrodescendente para definir a população que o IBGE classifica como negra ou parda. Mas se um negro é obviamente afrodescendente, o pardo é tanto afro como eurodescendente. A adotar-se a nova nomenclatura, sou forçado a declarar-me eurodescendente. E não vejo nisso nenhum desdouro. A palavra racismo, pouco freqüente na imprensa brasileira em décadas passadas, passou a inundar as páginas dos jornais a partir da queda do Muro de Berlim. Apparatchiks saudosos da Guerra Fria, vendo desmoralizadas suas bandeiras de luta de classes, proletariado versus burguesia, trabalho versus capital, trataram logo de encontrar uma nova dicotomia, para lançar irmãos contra irmãos. Existem negros e brancos no Brasil? Maravilha. Vamos então lançá-los em luta fratricida. Criaram-se leis absurdas que, a pretexto de combater o racismo, só servem para estimulá-lo. Hoje, no Brasil, se você insultar um negro, incorre em crime hediondo, com prisão firme e sem direito à fiança. Mas se matar um negro, a lei é mais leniente. Se você for primário, pode responder ao processo em liberdade. Ou seja: se você, em um momento de ira, insultou um negro e quer escapar de uma prisão imediata, só lhe resta uma saída: mate-o. Segundo a lei absurda, assassinato é menos grave que ofensa verbal. Vamos às cotas. Em virtude deste hábito nosso de importar do Primeiro Mundo seus piores achados, acabamos instituindo as cotas raciais na universidade. Mais uma dessas tantas leis que fabricam racismo. Como pode um jovem pobre e branco encarar sem animosidade um negro que lhe tomou a vaga na universidade, só porque é negro? Quando o juiz federal Bernard Friedman determinou o fim da política de ação afirmativa da faculdade de Direito da Universidade de Michigan, os americanos começaram a perceber que a política de cotas era uma péssima idéia. Em 1977, a estudante branca Barbara Grutter abriu processo depois de não ter sido aceita pela faculdade de Direito. Para Friedman, levar em consideração a raça dos estudantes como fator para decidir se os aceita ou não é inconstitucional. Segundo o juiz, a política de ação afirmativa da faculdade assemelha-se ao sistema de cotas, que determina que uma certa porcentagem de estudantes pertença a grupos minoritários. Ao ordenar que a faculdade deixe de praticar essa política, escreveu: "Aproximadamente 10% das vagas em cada turma são reservadas para membros de uma raça específica, e essas vagas são retiradas da competição". Ano passado, o programa 60 Minutes entrevistou um professor que mostrava a injustiça do sistema. De 51 estudantes brancos candidatos a um programa da faculdade, apenas um foi aceito. Entre dez candidatos negros, foram aceitos os dez. A universidade adota uma espécie de lei Jim Crow às avessas, aceitando qualquer candidato negro e recusando brancos. Quando os americanos descobrem que a política de afirmação positiva não constituiu uma idéia boa ou justa, autoridades brasileiras aderem a esta política infame. Já existe projeto, aprovado Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara Federal, segundo o qual deverão ser escalados 25% de atores negros ou mulatos em peças de teatro, filmes e programas de televisão. Só no teatro, o leitor já pode imaginar as peripécias de um diretor. Se pensa em encenar Ibsen ou Tchekhov, como inserir negros em contextos eslavos ou nórdicos? E se a peça tiver um só personagem? Pelo menos um quarto do monólogo terá de ser feito por um negro? Só mesmo no bestunto de um analfabeto poderia ocorrer esta pérola do politicamente correto. Quando os EUA passam a abandonar o sistema de cotas, deputados brasileiros querem adotá-lo até mesmo no universo do lazer. Quando afirmei que negros capturavam negros na África, para vendê-los como escravos aos brancos europeus, não faltou interlocutor que alegasse que, se escravidão existia, é porque na Europa havia uma procura de escravos. Vários leitores jogaram sobre a Europa a pecha da escravidão. Tal atitude intelectual denota falta de leituras históricas. A escravidão é muito anterior à Europa. Ela já existe na Grécia socrática, quando Europa era apenas o nome de uma virgem raptada por Zeus, travestido em touro. Que mais não seja, a escravidão é vista como algo perfeitamente normal no livro que embasa o Ocidente. Um leitor cita o Eclesiastes, quando Salomão fala de um homem que domina outro homem para arruiná-lo. Considera que esta declaração é universal, não se aplicando a uma raça, mas a todas as raças. E considera ser intelectualmente irresponsável invocar a Bíblia sem realçar este fato. O leitor esqueceu de ler o Êxodo: "Quando comprares um escravo hebreu, seis anos ele servirá; mas no sétimo sairá livre, sem nada pagar. Se veio só, sozinho sairá; se era casado, com ele sairá a esposa. Se o seu senhor lhe der mulher, e esta der à luz filhos e filhas, a mulher e seus filhos serão do senhor, e ele sairá sozinho. Mas se o escravo disser: 'eu amo a meu senhor, minha mulher e meus filhos, não quero ficar livre', o seu senhor falo-á aproximar-se de Deus, e o fará encostar-se à porta e às ombreiras e lhe furará a orelha com uma sovela: e ele ficará seu escravo para sempre". À semelhança de ativistas negros que não gostam de ouvir que chefes tribais africanos vendiam escravos aos brancos europeus, muitos católicos não gostam de ouvir que a Bíblia endossa a escravidão. Mas que se vai fazer? No Livro está escrito: "Se alguém ferir o seu escravo ou a sua serva com uma vara, e o ferido morrer debaixo de sua mão, será punido. Mas, se sobreviver um ou dois, não será punido, porque é dinheiro seu". O Levítico legitima a aquisição de escravos estrangeiros: "Os servos e servas que tiverdes deverão vir das nações que vos circundam; delas podereis adquirir servos e servas. Também podeis adquiri-los dentre os filhos dos hóspedes que habitam entre vós, bem como das suas famílias que vivem conosco e que nasceram na vossa terra: serão vossa propriedade e deixá-los-eis como herança a vossos filhos depois de vós, para que os possuam como propriedade perpétua. Tê-los-eis como escravos; mas sobre os vossos irmãos, os filhos de Israel, pessoa alguma exercerá poder de domínio". Ou seja, não há originalidade alguma no fato de a Europa ter sido escravista. Estava apenas seguindo os ditames do livro que a embasa. A escravidão percorre o Livro de ponta a ponta, só não vê quem não quer ver. Portugal, país bom cristão, não deixaria de dar continuidade à tradição bíblica. Negros brasileiros exigem hoje indenizações milionárias da República, em nome da escravidão passada. Ocorre que o Brasil república não conheceu a instituição da escravatura. A Lei Áurea é de 1888 - coincidentemente da mesma época em que nos EUA vigiam as hediondas leis Jim Crow. A república foi proclamada em 1889. Se os negros querem indenização, a conta deve ser enviada a Portugal. Existe hoje trabalho escravo no Brasil? Sim, existe. Mas nenhuma lei o legitima, pelo contrário. É crime e como tal é punido. Seria insensato de nossa parte negar a existência de nossas mazelas, em nome de um enjolivement da história pátria. E aqui entramos no ponto que mais protestos provocou em meu artigo, a afirmação de que a história da África é a história das guerras tribais e da escravidão, da lapidação por adultério, da mutilação física como punição e da mutilação sexual como costume. Choveram e-mails citando feitos passados, antigas culturas e houve quem empunhasse o Egito como um dos expoentes da cultura negra. Não bastasse a tese furada de que Atenas era negra, vemos agora o Egito inserido no debate afro. De Dakar, um leitor me envia referências sobre Cheikh Anta Diop, estudioso senegalês que parte da idéia de que o antigo Egito faz parte da África negra. Pode ser. Mas tal tese está longe de constituir unanimidade entre historiadores. Mesmo que assim fosse, de nada vale o argumento. Se um dia um hipotético Egito negro teve uma trajetória gloriosa, hoje não mais a tem. Essa trajetória foi em algum momento interrompida, e hoje o Egito vive a hora nada gloriosa do Islã. Que mais não seja, o antigo Egito era escravagista - os hebreus que o digam! - e isto tampouco depõe a favor da África. Não faltou quem me acusasse de ser filho ingrato, afinal nossos ancestrais todos teriam surgido em solo africano. O argumento é contraproducente. Se todos de lá descendemos, foi preciso abandonar Mãe África para que o homem evoluísse. Que mais não seja, apegar-se a passados gloriosos de um país para alimentar auto-estima é doença de nacionalistas tacanhos. Pior ainda quando o apego é ao passado de uma etnia: estamos entrando na estreita fímbria que separa orgulho étnico de racismo. Antes de pertencermos a uma ou outra nação, a esta ou aquela etnia, pertencemos à raça humana. Afirmei que estudar a história africana, seja a passada, seja a presente, não leva criança alguma a nenhuma auto-estima. Vejo que magoei muitos leitores. Inúmeros destes, munidos de um computador, enviaram suas mensagens por modem, em velocidade quase instantânea, via Internet. São pessoas alfabetizadas, o que neste nosso mundo já constitui privilégio. Em geral com curso superior, pelo que entendi. Usufruem das atuais facilidades de comunicação e da liberdade de expressão de pensamento nos países onde vivem. São nutridas por informação via satélite e podem acompanhar quase em tempo real os conflitos no planetinha, confortavelmente sentadas frente a um televisor. Certamente são usuárias de jatos e automóveis em seus deslocamentos, comem em bons restaurantes e foram formados em boas universidades. Ou seja, gozam do melhor do Ocidente. Isto, caríssimos, não é herança africana. Que a África seja uma terna lembrança de um passado imemorial, vá lá. Hoje, não tem lição nenhuma a dar ao Ocidente. Quando na África existir eleições livres e democracia, noções de direitos humanos, imprensa e liberdade de imprensa, mulheres com os mesmos direitos que os homens, quando na África clitóris não mais sejam mutilados nem mulheres lapidadas, voltamos a conversar. A África trouxe contribuições à humanidade? Viva a África. O que não se pode, sob pena de falsificar a história, é ignorar suas mazelas presentes. Por enquanto, repito, a África está mais para Idi Amin Dada que para Mozart. Quando alguém me fala da excelência de certas culturas primitivas, costumo lembrar de A Vida de Brian, dos Monty Python. Reunidos os conspiradores judeus, o líder pergunta: que nos trouxeram os romanos? Estradas, responde alguém. Certo. Mas além das estradas, que nos deram? Hospitais, responde outro. É! Mas que mais além das estradas e hospitais? Aquedutos, sugere um terceiro. E assim continua a discussão, até que sai um manifesto: apesar de nos terem trazido estradas, hospitais, aquedutos, escolas, esgotos, romanos go Rome! Entendo o estudo da história como o estudo do acontecido. Não pode um historiador subtrair fatos só porque tais fatos são desonrosos à história de um povo. Durante todo um século - o passado - os comunistas construíram uma história fictícia para mostrar como paraíso o que em verdade era um inferno aqui na Terra mesmo. Não queiram os ativistas negros repetir esta infâmia. A do século passado ainda nos pesa e está longe de ser extirpada de nossa memória. Luta de classes morta, luta racial posta Em reposta a artigos que publiquei nesta revista, leio uma prolixa contestação de um acadêmico da Universidade de Michigan. Por apreço à síntese e ao leitor, tentarei ser breve. Não vou entrar na discussão de DNA ou fenótipos. Seria cair na armadilha da discussão sobre raça, conceito que até hoje não se conseguiu definir. Minha proposição inicial foi discutir racismo e leis que estimulam o racismo, o que é muito diferente. Se raça é algo impossível de determinar, racismo é algo muito palpável, e contamina tanto brancos como negros. Por um lado, a idéia de fenótipos é o caminho mais curto até sistemas como o nazista. Por outro, em nada me interessa que fenótipos portam as pessoas que me rodeiam. Tampouco vou responder, ponto a ponto, todas as objeções. Doze mil palavras é formato que não condiz com meu estilo. Vou me ater, nesta réplica, a alguns itens sobre este país em que nasci e vivo. Mark Wells, militante da nova ideologia afrobrazilianista ianque, começa citando o doutor e sociológo Raimundo Nina Rodrigues: "the black race of Brazil... will always constitute one of the factors of our inferiority as a people". Para começar, o tenho por etnológo e não sociólogo, mas isto é o de menos. Tal afirmação não corresponde ao que um brasileiro pensa sobre as populações negras no Brasil. Não tendo nunca os negros empunhado o poder político e administrativo da nação, jamais poderiam ter sido responsáveis por qualquer suposta inferioridade do país. Esta tese é de um racismo insólito, só concebível no bestunto de um acadêmico isolado em torre de marfim. O homem do povo, que vive e trabalha ombro a ombro com negros e mulatos, não pensa assim. Se inferioridade há, esta deve ser debitada aos brancos, que sempre tiveram o poder em mãos. Há quem afirme, isto sim, que nossas mazelas decorrem de termos sido colonizados por portugueses, e não por holandeses ou franceses. É possível. Mas história alternativa é disciplina espúria, que nada tem de rigor. Prefiro outra tese: nossas desgraças decorrem de termos sido colonizados por católicos. País protestante ou luterano, de modo geral, é sempre rico. Cabe lembrar que Nina Rodrigues foi influenciado pelas idéias do conde de Gobineau, um dos precursores do racismo nazista, que esteve no Brasil entre 1869 e 1870. Este nobre francês aventou a exótica idéia de que a mistura de raças acabaria levando à pura e simples extinção da população brasileira. O médico baiano deixou-se deslumbrar pelo discurso da aristocracia gálica e considerou que toda e qualquer miscigenação resultaria inevitavelmente em desequilíbrio mental e degenerescência. Nina Rodrigues foi incumbido de analisar o crânio de Antônio Conselheiro. Considerou que, em se tratando de um mestiço, o morto era muito suspeito de ser degenerado. Você não pode, de forma alguma, Mr. Wells, interpretar a realidade brasileira a partir de considerações de um pensador racista influenciado por um precursor do nazismo. Seria como pedir a Hitler um parecer sobre a questão judia. Mr. Wells afirma, citando pesquisa da Fapesp, que "the term pardo was developed as a way for the Brazilian government to hide the fact that it had such a high proportion of African descent people". A afirmação é vaga. Qual governo? Em que época? Quais documentos baseiam tal afirmação? O autor da pesquisa citada não fornece nenhuma base documental à sua tese. É uma afirmação apoiada no vazio, o que depõe contra as qualificações acadêmicas exibidas pelo articulista. Pardo ou mulato quer dizer a mesma coisa e mulato é palavra antiga. Se você apanhar um Larousse, lá está: "Mulâtre, mulâtresse: homme ou femme de couleur, nés d'un d'un Noir et d'une Blanche". A palavra vem do espanhol e data de 1544. Vamos ao dicionário de Marina Moliner: "se aplica al mestizo hijo de blanco y negro". A distinção entre negro e mestiço não foi criada por governo brasileiro algum. Ela já existia há séculos em outras culturas. Machado de Assis, o patrono da literatura brasileira, sempre foi considerado mulato. Estamos no século XIX. Os historiadores da literatura não o situam como negro, por uma simples razão: não era negro. É salutar que esta distinção seja feita, pois a fenômenos diferentes cabem denominações diferentes. Mesmo mulato, Machado conquistou a admiração da intelectualidade branca e universitária, como também um outro seu coetâneo, Lima Barreto. Estranho país racista este nosso, onde o vulto maior da Letras nacionais é um mulato. Mr. Wells tem razão ao citar pesquisa do Censo mostrando que "the state of Bahia is approximately 25 percent white, 20 percent black and 55 percent mulato". Folgo em saber que, pelo menos para efeito de argumentação, você aceita as definições do censo. Penintencio-me por ter afirmado "a definite black majority". Seria mais preciso se dissesse "uma maioria de pretos e mulatos". Mas isto não muda em nada o mérito da questão. O que afirmei é que o Estado da Bahia jamais fez um governador negro. Mesmo com o mais alto percentual de negros do país, com o mais alto contingente de negros e mulatos somados e com uma minoria de 25% de brancos. Ou seja, o eleitorado baiano é composto por três quartos de eleitores de cor. Porque só elege brancos? Para ativistas que tudo vêem sob a ótica do racismo, a resposta é constrangedora. Teriam pretos e mulatos preconceitos contra candidatos pretos e mulatos?Aliás, esta parece ser a característica fundamental dos negros que fizeram sucesso no futebol brasileiro. Tão logo se tornam ricos, escolhem loiras como suas mulheres. Já no Rio Grande do Sul, Estado majoritariamente branco, tivemos o negro Alceu Collares eleito governador, em 1990. Você afirma: "It's also funny that you should mention Alceu Collares being elected governor. In 1993, in Vitória, state of Espírito Santo, a 19-year old black female college student named Ana Flávia Peçanha de Azeredo was assaulted and punched in the face by a 40-year old white woman and her 18-year old son over the use of an elevator in an apartment complex". Ora, você não pode comparar um fait divers da crônica policial com a vontade de um eleitorado de nove milhões de habitantes (na época). Pesquisando melhor, é possível que você encontre mais casos semelhantes. Digamos que encontre dez, ou mesmo vinte. Não podem ser comparados à vontade de uma população de nove milhões, que tinha de escolher entre um candidato negro e dois outros brancos, e escolheu o negro. Collares, diga-se de passagem, tão logo tornou-se governador, teve a mesma atitude dos atletas negros. Trocou a fiel e negra Antônia que o acompanhara nos anos de vacas magras por uma loiríssima secretária. "In Brazil, still today, maids must use the back service elevator while residents use public elevators". Sua afirmação parece provir de quem conhece extensivamente o país todo, e não a de um pesquisador que esteve onze semanas na Bahia. Tivesse saído do gueto, veria por exemplo, que em todos os elevadores de São Paulo está afixada a transcrição de uma lei: "É vedado, sob pena de multa, qualquer discriminação em virtude de raça, sexo, cor, origem, condição social, porte ou presença de deficiência física e doença não contagiosa por contato social no acesso aos elevadores". Você não encontrou este aviso na Bahia? Se não encontrou, é porque a Bahia, com seus 75 % de negros e mulatos, está ainda muito atrasada em matérias de leis contra a discriminação. "With this in mind, let us also remember this when we walk the streets of Bahia (a 75 percent black state) and never see a black face on the cover of a magazine (except for Raça Brasil) or rarely see a black face on Brazilian television (except as criminals, maids, pagodeiros, futebol players). Com esta afirmação, você confirma minha antiga suspeita que a Bahia é um Estado onde o negro é racista em relação ao negro. Venha a São Paulo, onde a proporção negra é bem menor, e verá negros e negras como âncoras de televisão, animadores de programas, repórteres, redatores e colunistas em jornais. São Paulo, com seus mais de dez milhões de habitantes, é, ao lado do México, uma das maiores metrópoles latino-americanas. Ainda recentemente, teve como prefeito Celso Pitta, cidadão negro eleito em concorrência a candidatos brancos. (Saiu do governo com a pecha de corrupto, mas isto é outra história). Mais recentemente, tivemos uma governadora negra no Rio, hoje ministra em Brasília. Você não pode afirmar, de forma alguma, que a televisão brasileira só mostra faces pretas quando se trata de "criminals, maids, pagodeiros, futebol players". Ano passado, eu participava de uma festa em um condomínio de luxo (essas cidadelas fortificadas onde ricos - sejam brancos, sejam negros - se protegem da violência que toma conta do país) e, em dado momento, vi os participantes todos da festa, brancos e negros, se apertando para sair na foto junto a um negro. Como quase não assisto a televisão nacional, não imaginava de quem se tratasse. Soube mais tarde que era Nettinho, um dos mais famosos apresentadores do país. Mas você ainda afirma: "It is truly a shame that in the year 2003 people continue to use Brazilian entertainers and athletes such as Pelé to try and down play the effects of racism in society. Many people use this same logic in the US. Just because you allow a black person to entertain you doesn't necessarily mean you would like for a person who looks like them to be your neighbor, marry your daughter or be president of your country". Pode ser que assim seja nos Estados Unidos. Aqui, não. Os negros estão representados na Câmara de Deputados e no Senado, nas Câmaras de Vereadores e nos Ministérios, na magistratura, na universidade e na imprensa. Constituem minoria? É porque não contam sequer com o voto do grande contingente negro e mulato do país, pois neste país as eleições são livres e negros e mulatos votam. E até é bom que assim seja. A maior desgraça com que poderíamos ser brindados seria ter partidos baseados em raça. A idéia de que negro só vota em negro já roçou as mentes tupiniquins. Por enquanto, pelo menos, esta semente de nazismo foi esconjurada. E os negros são nossos vizinhos e casam com nossas filhas, sim senhor! Ou não teríamos um população de quase 40% de mestiços. Há famílias que têm restrições a casamentos interraciais? E por que não? Alguma lei proíbe que uma família tenha preferências em relação a seus filhos? De qualquer forma, não vivemos em um país feudal, onde a vontade soberana do pater familias determina o destino dos filhos. Quanto a ser presidente da República, nada impede um negro de candidatar-se à suprema magistratura e tenho a firme convicção de que, mais dia menos dia, teremos um presidente negro. A este operário branco de extrema incultura que o país hoje elegeu, eu me sentiria muito melhor servido por um presidente negro que tivesse maiores luzes e experiência administrativa. A cor do presidente não me interessa. Interessa-me sua competência. Você cita a participação de João Batista de Lacerda, em 1911, no I Congresso Universal das Raças, em Londres. Segundo o médico brasileiro, em um século de miscigenação, "black people would ultimately disappear from Brazilian society". Sabemos que Lacerda ilustrou sua tese com o quadro A redenção de Can, de Modesto Brocos y Gomes, que pretendia registrar esse branqueamento mostrando como o cruzamento dos negros e seus mestiços com brancos diluía o sangue africano, gerando descendentes claros. Pela denominação do Congresso, você já pode deduzir que se vivia uma época em que o conceito de raça gozava de estatuto científico, o que hoje não mais se admite. No quadro de Brocos y Gomes, havia uma negra velha em gesto de preito, ao lado de uma mulata clara, mais um homem de traços ibéricos e uma criança, supostamente filha do casal, de pele clara, mostrando a progressão do negro ao branco. Ora, a obra de um pintor não pode ser fundamentação para quem pretende demonstrar uma tese na área de genética. Citar Lacerda é o mesmo que citar o protonazista Nina Rodrigues. Se Gobineau - o guru de Nina Rodrigues - afirmava que a mistura de raças acabaria levando à pura e simples extinção da população brasileira, Lacerda é mais modesto: será extinta apenas a população negra. Não podemos hoje, em pleno século XXI, dar ouvidos a teorias desvairadas do século XIX, que aliás se revelaram em contramão da realidade. Ao afirmar que "Brazil's leaders chose to try and mix the African blood right out of the country" você está aceitando teorias conspiratórias que jamais existiram, exceto talvez na cabeça de algum racista - e estes sim existem. Mas nada, em sã consciência, autoriza alguém a afirmar que sejam os líderes brasileiros os responsáveis por esta teoria. Quem são esses líderes responsáveis por tão maquiavélica estratégia? Eu os desconheço. Quem defendeu quase histericamente a miscigenação, nos últimos anos, foi Darcy Ribeiro. Mas em defesa da negritude e não como instrumento de extinção do negro. Em O Presidente Negro (1926), Monteiro Lobato, ciente das teses de Nina Rodrigues e Batista Lacerda, satiriza uma cientista americana, Miss Jane, que afirma ser o ódio a mais profunda das profilaxias. Impede que uma raça se desnature, descristalize a outra e conserva ambas em um estado de relativa pureza. "O amor matou no Brasil a possibilidade de uma suprema expressão biológica. O ódio criou na América a glória do eugenismo humano". Não por acaso, o autor coloca na boca de uma norte-americana esta tese estapafúrdia. Brasileiros, dispensamos este ódio purificador. Mr. Wells diz ter visto uma única vez uma mulher negra ser coroada Miss Brasil, Deise Nunes de Souza, em 1986. Ocorre que o Brasil não existe a partir de 1986. Em 1964, a carioca Vera Lúcia Couto dos Santos foi a primeira negra a ser eleita Miss Brasil. Verdade que foi bombardeada com telefonemas anônimos, alegando que uma preta não poderia ser Miss Brasil. Isso no Rio de Janeiro, Estado também de predominância negra e mulata. Mas foi eleita e eleita permaneceu. Cabe lembrar que Deise Nunes é gaúcha, pertence àquele mesmo Estado de maioria branca que elegeu Alceu Collares. E cabe ainda lembrar um episódio de flagrante racismo de parte da comunidade negra de Porto Alegre, ocorrido nos anos 80. Porto Alegre elegeu uma rainha do carnaval ... branca, para sua infelicidade. Os movimentos negros protestaram, alegando que o carnaval era uma festa negra e a rainha, portanto, tinha de ser negra. As pressões, que incluíram inclusive apedrejamento à casa da moça, foram tantas, que ela teve de renunciar ao cetro. Curiosamente, ninguém lembrou na época que o carnaval, em suas origens, nada tem a ver com negros ou África. É uma festa branca e romana. "In several books about Brazil, it has been reported that Afro-Brazilians were barred from entering prestigious social clubs even when they had the money for the special membership fees". A afirmativa merece algumas observações. Existiram clubes no Brasil, exclusivamente de negros ou brancos. Se nos clubes de brancos negro não entrava, a recíproca era verdadeira: no de negros, branco não entra. Desses clubes, o que hoje mais se destaca, é o bloco Ilê Aiyê, na Bahia, fundado em 1974, e que até hoje não admite brancos entre seus membros. Que mais não seja, clubes são entidades privadas, onde pessoas se reúnem com as pessoas que gostam de reunir-se. Se britânicos gostam de reunir-se entre britânicos, se homossexuais gostam de reunir-se entre homossexuais, não vamos condená-los por isso. Condenável seria, isto sim, barrar pessoas em lugares públicos por uma questão de cor. A propósito, você afirma: "In the Frances Twine book, we find that black people were often times not allowed to walk on certain sides of the street!" Ora, Twine viveu apenas onze meses em uma pequena comunidade fluminense. (Melhor que onze semanas, é verdade, mesmo assim pouco concludente). Extrair conclusões genéricas a partir de tão curto período em uma comunidade isolada é confundir o universo com o círculo-de-dois-metros-de-diâmetro-em-torno-ao-próprio-nariz. Se por ventura em alguma época isso existiu naquela comunidade, não pode ser estendido ao Brasil, onde negros e brancos andam por onde bem entendem. Nada nem ninguém obriga, hoje, um negro a andar por este ou aquele lado da calçada. Não podemos julgar o Brasil contemporâneo a partir de hipotéticos fatos isolados de comunidades perdidas na geografia. Certos grupos, no Rio de Janeiro, costumam aplaudir o pôr-do-sol. Nem por isso vamos afirmar que no Brasil costuma-se aplaudir o pôr-do-sol. O que existe hoje são territórios inteiros onde nem negro nem branco pode entrar. São as reservas indígenas. Os afrobrazilianistas têm produzido não poucos ensaios, onde o não-branco é automaticamente identificado com o negro. Na recente enxurrada de estudos acadêmicos sobre o Brasil, publicados nos Estados Unidos, talvez o historiador Jeffrey Lesser seja o único a ter uma visão abrangente e não racista da questão. Em Negotiating National Identity: Immigrants, Minorities and the Struggle for Ethnicity in Brazil, Lesser procura mostrar como outros grupos imigrantes não-brancos, em especial japoneses e árabes, participaram da construção de uma identidade brasileira. Segundo o viés racista dos afrobrazilianistas, o universo parece ter apenas duas cores, branco e preto. Não procedem as afirmações de Mr. Wells de que ninguém tenha sido punido por racismo no Brasil. "How many white Brazilians do you know (and can prove) have been actually thrown in jail for racist practices? Most likely NONE! And as far as murder, I can relay several stories I have been told in which a black Brazilian was killed and absolutely NOTHING was done about it!" Você não pode citar um, ou três ou quatro casos como regra geral. Para começar, aqui em São Paulo (falo apenas da cidade de São Paulo), a cada fim-de-semana, são assassinadas entre 50 e 60 pessoas, entre brancos e negros, e assassino algum é punido. Há hoje, só no Estado de São Paulo, nada menos que 127 mil mandados de prisão a cumprir. Que não são cumpridos porque não há vagas nas penitenciárias. Ou seja, há 127 mil condenados - ou pelo menos indiciados - livres como passarinhos. Neste número não estão incluídos as dezenas de milhares de autores de crimes não elucidados. Impunidade não é característica de assassinos de negros, mas prática amplamente disseminada no Brasil. Quanto a delitos raciais, uma rápida pesquisa nos jornais nos mostra casos interessantes. O Tribunal de Alçada de Minas Gerais, por exemplo, condenou uma senhora a indenizar seu vizinho em R$ 5.000,00, a titulo de danos morais. A referida senhora havia chamado seu vizinho, publicamente, de "macaco", "nego fedorento" e "urubu", ferindo a moral do ofendido. No Rio de Janeiro, o juiz da 7a. Vara Criminal condenou a dois anos de detenção, com sursis, uma empresária que teria se referido a uma candidata a emprego como "negrinha maltrapilha e sem modos". O juiz da Infância e Adolescência de Florianópolis condenou menor que, em um jogo de futebol na escola, chamou o colega de "negro feio". O menor foi condenado a seis meses de liberdade assistida. São punições pesadas para uma ofensa verbal, que jamais seria punida se dirigida a um branco. Enquanto isso, um cantor popular fez sucesso nacional no rádio e televisão com uma música intitulada Lôra Burra. Nenhum processo, nenhuma acusação de racismo, nenhuma condenação. Imagine, Mr. Wells, se alguém intitulasse alguma canção de "Nega Burra". Seria imediatamente processado. Foi o que aconteceu com o cantor Tiririca, acusado de crime de racismo por causa da música Veja os Cabelos Dela, que contém os versos "Essa nega fede / Fede de lascar". Sobre o assunto, escreveu Henrique Cunha Júnior, professor titular da Universidade do Ceará: "se não bastassem os insultos e outros vexames impostos, temos ainda um boçal cantando no rádio que a nega fede, e nenhum dizer social de justiça ou de dignidade humana que proíba e puna este racismo". O detalhe caricatural em tudo isto é que a música era dedicada à própria mulher do cantor, que nela não via intenção alguma de insulto, mas sim uma referência bem humorada. O que venho afirmando, desde meu primeiro artigo, é que diplomas legais estão criando lutas raciais no Brasil. A lei nº 7.716, de 1989, que define os crimes resultantes de preconceitos de raça ou de cor, está sendo brandida a torto e a direito não para dirimir, mas para acirrar conflitos. Há cinco anos, numa prova de língua portuguesa no vestibular da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), ocorreu um caso caricatural deste novo tipo de racismo. As frases "ela é bonita, mas é negra" e "embora negra, ela é bonita" provocaram indignação de entidades ligadas aos direitos dos negros no Estado. O Instituto e Casa de Cultura Afro-Brasileira (Icab) ingressou com representação criminal junto ao Ministério Público Federal e registrou queixa na Secretaria da Segurança Pública, pedindo que fosse apurada denúncia de crime de racismo por parte da UFMS. O grupo Trabalhos e Estudo Zumbi (Tez) pediu a anulação da questão e uma retratação pública da UFMS. Para Aparício Xavier, presidente do Icab, a questão era uma aberração, feita para a época medieval. "Se eu estivesse fazendo a prova, a rasgaria e botaria fogo." A partir de duas frases, o candidato deveria indicar as respostas corretas. Uma das respostas considerada certa afirmava que na frase "a" ("Ela é bonita, mas é negra") a cor da moça era argumento desfavorável à sua beleza. Outra resposta considerada correta, na frase "b" ("Embora negra, ela é bonita"), dizia que a cor da moça era uma restrição superável pela beleza. Para o presidente da Comissão Permanente de Vestibular, responsável pela elaboração da prova, Odonias Silva, a questão foi "uma escorregada infeliz". O presidente do Icab pediu ao chefe do Departamento de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, Ivair Augusto dos Santos, que oficializasse a indignação dos negros junto ao Grupo Interministerial da Presidência da República pela Valorização da População Negra, criado pelo presidente Fernando Henrique. Tanto o Icab como o Grupo Tez pediram uma indenização por danos morais. A nenhum representante de entidades ou professor ou reitor ocorreu lembrar que, se alguém quisesse queimar e rasgar a provas em razão da frase, teria de começar rasgando e queimando a Bíblia. Pois lá está, na abertura de seu mais belo livro, o Cântico dos Cânticos: "Eu sou negra, mas formosa, ó filhas de Jerusalém, como as tendas de Quedar, como as cortinas de Salomão". Vamos à Vulgata Latina, tradução da qual deriva a maior parte das traduções atuais. Lá está: nigra sum, sed formosa. A Vulgata, por sua vez, deriva da tradução dos Septuaginta - feita a partir do original hebraico - onde está, em grego: Melaina eimi kai kale. Durante o governo passado, a Associação Brasileira de Negros Progressistas ingressou com uma representação ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a abertura de processo contra o ministro da Saúde, José Serra, por racismo. Questionava-se a escolha de uma atriz negra para a campanha de prevenção à Aids no carnaval, na qual a moça pede que seu último parceiro faça o teste de HIV. Para a entidade, a mulher negra foi ofendida ao ser exposta no anúncio como prostituta. O Ministério da Saúde reage: a atriz foi escolhida entre trinta candidatas, grupo que incluía louras, morenas e negras. Só teria ocorrido racismo se a melhor candidata não pudesse estrelar a campanha pelo fato de ser negra. Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come. Não fosse a modelo negra a escolhida no concurso, este poderia ser contestado por dar preferência a brancas. Curiosamente, não ocorreu aos sedizentes negros progressistas perguntar o que achava do assunto a principal interessada, a atriz Carla Leite. Que de modo algum se sentiu inferiorizada. "Pelo contrário, tenho orgulho de ter passado uma mensagem importante, por mais que haja polêmica", disse Carla. Ao que tudo indica, não existe prostituta negra no Brasil. O diretor de Comunicação da Associação Brasileira de Negros Progressistas, Aguinaldo Triumpho Avellar, alega que os negros deveriam ser consultados sobre o teor do comercial. Assim, cada atriz negra que quiser trabalhar, terá de pedir prévia licença aos negros progressistas para saber se pode ou não candidatar-se a determinado papel. Ainda em Florianópolis, aquela mesma cidade onde um menor foi condenado por chamar um colega de negro feio, ocorreu caso que bem demonstra o absurdo das leis anti-racismo. Uma trintena de funcionários foi demitida de uma empresa para-estatal. Um deles era negro. Entrou com ação por racismo. Foi reintegrado ao cargo e recebeu gorda indenização. Os demais funcionários, pela desgraça de serem brancos, ficaram a ver navios. Mas o caso mais caricatural desta histeria ocorreu em Brasília. Onde um negro já foi para a cadeia por ter chamado outro negro... de negro. Como os conflitos raciais no Brasil jamais foram tão intensos como nos Estados Unidos, os sedizentes negros progressistas tupiniquins estão fazendo o que podem para que possamos atingir os invejáveis níveis de ódio racial de um país de Primeiro Mundo. Para isto, contam com o valioso apoio desta nova geração de ativistas formados nas universidades americanas nas últimas décadas. Em vez dos apparatchiks soviéticos, temos agora uma fábrica acadêmica de racismo, os centros de black studies. Com arrogância típica de cidadãos do império, os afrobrazilianistas ianques pretendem entender melhor o Brasil do que os próprios brasileiros. O país está deslizando em um declive perigoso, criando leis diferentes para diferentes pessoas. Índios já gozam de um estatuto especial. Podem matar à vontade, como Raoni. Ou estuprar com gosto, como Paiakan. Não podem ir para a cadeia, são índios. Negro pode entrar na universidade passando na frente de brancos com melhor habilitação no vestibular. Podem também insultar brancos, isto não é crime. Crime é insultar negro. Luta de classes morta, luta racial posta. Parafraseando os marxistas: o ódio é o fórceps da História.
AFROBRAZILIANISTS: SUCH ARROGANCE! (Nestes dias em que a Câmara aprovou projeto que oficializa cotas para negros, pardos e índios nas universidades federais e a raça mulata tende a ser extinta com a definição de Obama como negro, julgo oportuno reproduzir artigo que publiquei nos Estados Unidos, na revista Brazzil, em maio de 2003. Acima, segue o texto em português que deu origem à versão em inglês) Brazilian progressive blacks are doing what they can to allow us to reach the enviable levels of racial hatred of a First World country. They have the valuable support of activists bringing degrees from American universities. We now have academic factories of racism called `centers for black studies'. Following some articles I wrote for Brazzil, a long-winding academic reply from the University of Michigan fell into my hands. Out of my respect for synthesis and my readers, I will try to be brief. I will not get into the discussion of DNA or phenotypes because it would trap us into a discussion about race and race is a concept that still lacks definition. My initial proposition was to discuss racism and laws that encourage racism, which is very different. While it is impossible to determine what race really is, racism is something very palpable that contaminates both whites and blacks. My reasons are two-fold: first, the idea of phenotypes is the shortest path to the advent of systems such as Nazism; second, I have no interest whatsoever in the phenotypes of the people around me. I won't answer all the objections raised by the reader, either. Twelve thousand words is a format that does not fit my writing style. I will limit myself, in this reply, to some considerations about this country where I was born and reside. Mark Wells, a militant of the new Yankee afro-brazilianist ideology, starts by quoting Raimundo Nina Rodrigues, a doctor and sociologist: "the black race of Brazil... will always constitute one of the factors of our inferiority as a people". First of all, I understand that the person mentioned is an ethnologist, not a sociologist, but let's get to the point. This statement does not correspond to what average Brazilians think about black people in their own country. Blacks have never held political and administrative power in the nation, therefore they could never have been responsible for any supposed inferiority of the country. This argument is uncommonly racist and could only be conceived in the brains of a member of academia isolated in his ivory tower. Real people, who live and work shoulder to shoulder with blacks and mulattos, do not think this way. If there is any inferiority, it must be debited to whites, who always held power in their hands. There are, yes, those who state that our ailments derive from the fact that we were colonized by the Portuguese and not by the Dutch, or the French. That is possible. But `alternative history' is a spurious discipline, devoid of any exactness. I prefer another thesis: our ailments result from the fact that we were colonized by Catholics. Protestant or Lutheran countries are, in general, rich countries. The Gobineau Factor It is important to remember that Nina Rodrigues was influenced by the ideas of Count Gobineau, one of the predecessors of nazi racism, who lived in Brazil between 1869 and 1870. This French nobleman came up with the exotic idea that the mixture of races would end up leading to the pure and simple extinction of the Brazilian population. Fascinated by gaelic aristocracy, the physician from Bahia reasoned that any and all miscigenation would inevitably result in mental illness and degeneration. Nina Rodrigues was given the task of analyzing the skull of Antônio Conselheiro, leader of the War of Canudos. He reasoned that, being a mestiço, the deceased would very likely be a degenerate. You absolutely can't interpret the Brazilian case based on considerations made by a racist thinker who was, in turn, influenced by a forerunner of Nazism, Mr. Wells. It would be like asking Hitler an opinion about the Jewish issue. Quoting from a Fapesp poll, Mr. Wells states that "the term pardo was developed as a way for the Brazilian government to hide the fact that it had such a high proportion of African descent people". This statement is vague. Which government? At what time? Which documents sustain this statement? The author of the poll provides no documentary basis to his thesis. It is a statement based on emptiness and it questions the academic qualifications exhibited by the writer. Pardo and mulato mean the same thing in Portuguese and mulato is a very old word. Any Larousse will tell you: "Mulâtre, mulâtresse: homme ou femme de couleur, nés d'un Noir et d'une Blanche" (man or woman or color, born from a black and a white). The word comes from Spanish and dates back to 1544. And let's check Marina Moliner's dictionary: "se aplica al mestizo hijo de blanco y negro" (it applies to the mestizo born of a white and a black). The distinction between black and mestizo was not created by any Brazilian government. It already existed for centuries in other cultures. Machado de Assis, the patron of Brazilian literature, was always considered a mulatto. We are talking 19th century now. Historians of literature do not portray him as black, for a simple reason: he was not black. It is important to make that distinction, because different phenomena deserve different designations. Although he was a mulatto, Machado conquered the admiration of white, university-educated intellectuals, as did another contemporary of his, Lima Barreto. What a strange racist country this is, where the most important figure of the national Letters is a mulatto. Mr. Wells is right to quote a Census poll showing that "the state of Bahia is approximately 25 percent white, 20 percent black and 55 percent mulato". I'm pleased to know, Mr. Wells, that at least for the purposes of argumentation, you accept the census definitions. I regret having stated "a definite black majority". It would have been more precise if I had said "a majority of blacks and mulattos". But this in no way changes the merit of the issue. What I said was that the State of Bahia has never elected a black governor, notwithstanding the fact that it has the highest percentage of blacks in the country, the highest contingent of blacks and mulattos added together, and a minority of 25 percent of whites statewide. Blacks Don't Trust Blacks This means that three-fourths of the baiano electorate are made of colored voters. Why do these voters elect only whites? For the activists who see everything under the light of racism, the answer is very uncomfortable. Could blacks and mulattos be prejudiced against black and mulatto candidates? Actually, this seems to be the fundamental feature of those blacks who became soccer stars, too. As soon as they become rich, they marry blondes. In Rio Grande do Sul, on the other hand, which is a mostly white state, we had Alceu Collares, a black man, elected governor in 1990. You state: "It's also funny that you should mention Alceu Collares being elected governor. In 1993, in Vitória, state of Espírito Santo, a 19-year old black female college student named Ana Flávia Peçanha de Azeredo was assaulted and punched in the face by a 40-year old white woman and her 18-year old son over the use of an elevator in an apartment complex". Well, you can't compare a police news item with the will of nine million voters (at the time). You may find, upon more research, other similar cases. Let's say you find ten, or even twenty of them. They still can't be compared to the will of a population of nine million who had to choose between a black candidate and two white candidates and chose the black one. Collares, we must add, as soon as he became governor, acted just like all the black sports superstars and replaced his faithful and black Antônia, who had endured all the bad years at his side, for an extremely blond secretary. "In Brazil, still today, maids must use the back service elevator while residents use public elevators". Your statement seems to come from someone who knows the whole country extensively and not from a researcher who lived in Bahia for eleven weeks. Had you ventured out of the ghetto, you would have seen, for example, that in all elevators of the city of São Paulo there is a sign quoting the law: "It is forbidden, under penalty of a fine, to discriminate anyone for access to the elevators on the basis of race, gender, color, origin, social status or evidence of physical disability and non-contagious disease". You didn't find such signs in Bahia? That's because Bahia, with its 75 percent of blacks and mulattos, is still very much behind in the area of legislation against discrimination. "With this in mind, let us also remember this when we walk the streets of Bahia (a 75 percent black state) and never see a black face on the cover of a magazine (except for Raça Brasil) or rarely see a black face on Brazilian television (except as criminals, maids, pagodeiros, futebol players)". This statement, Mr. Wells, confirms my old suspicion that Bahia is a state where blacks are racist towards other blacks. Come to São Paulo, where the proportion of blacks is a lot lower, and you will see black men and black women working as television anchors, talk show hosts, reporters, editors and feature writers in all the local newspapers. With its more than ten million people, São Paulo is, with Mexico City, the largest metropolitan area in Latin America. Just recently, we had Celso Pitta as Mayor—a black citizen elected in opposition to all white candidates (Pitta left City Hall with the stain of corruption, but that's another story). Even more recently, we had a black governor in Rio de Janeiro State, who is now a Ministra (head of a federal department) in Brasília. It is absolutely untrue that the only black faces shown in Brazilian television are those of "criminals, maids, pagodeiros, futebol players". Last year, I was at a party in a luxury development, which are those fortified cities where the rich—whites and blacks both—protect themselves from the violence assailing the country. On a given moment, I saw all the guests at the party, white and black both, rushing to gather around a black man in order to be photographed with him. I had no idea who the man was, because I almost never watch Brazilian television. Later, I learned that it was Netinho, one of the most famous TV entertainers in the country. But you still declare: "It is truly a shame that in the year 2003 people continue to use Brazilian entertainers and athletes such as Pelé to try and downplay the effects of racism in society. Many people use this same logic in the US. Just because you allow a black person to entertain, it doesn't necessarily mean you would like for a person who looks like them to be your neighbor, marry your daughter or be president of your country". Maybe this is the way it is in the United States, Mr. Wells, but not here. Blacks are represented in the House and in the Senate in Brazil, as well as in City Councils and Federal Departments. Same thing for the courts, universities and in the press. Do they constitute a minority? Well, this is because they can't even count on the vote of the large black and mulatto segments of the population. Remember, in this country elections are free and blacks and mulattos do vote. And it's actually good for things to be this way. It would be the biggest disgrace for us to have political parties based on race. The idea of blacks voting only for blacks has already crossed some Brazilian minds. For now, at least, this seed of Nazism has been exorcized. And yes, sir, blacks are our neighbors and they do marry our daughters! Otherwise we would not have a population with almost 40% of mestizos. Are there families who have reservations regarding interracial marriage? Sure, and why not? Is there any law saying that a family cannot have preferences concerning their children? In any case, we don't live in a feudal country, where the sovereign will of the pater familias determines the destiny of children. As far as becoming president of the country, any black person can run for the highest office in the nation and I am strongly convinced that we will have a black president very soon. I would feel much better served by a black president with more education and administrative experience than this extremely uncultivated white factory worker that my country has just elected. I don't care about the color of the president. I do care about his or her competence. Whitening Debunked You mention the participation of João Batista de Lacerda, in 1911, at the I Universal Conference on Races, in London. According to the Brazilian physician, a century of miscegenation would mean that "black people would ultimately disappear from Brazilian society". Well, we know that Lacerda illustrated his thesis with a painting entitled "Can's Redemption", by Modesto Brocos y Gomes, whose idea was to record this whitening process by showing how the crossbreeding of blacks and their mestizos with whites diluted the African blood, resulting in fair descendants. According to the denomination used by Congress, one can see that there was a time in which the concept of race enjoyed scientific ordinance, which is no longer acceptable today. In the painting by Brocos y Gomes, there is an old black woman in a gesture of homage, sitting next to a fair mulatto girl, plus a man with Iberian features and a child, supposedly the couple's daughter, of fair complexion, showing the progression from black to white. Well, the work of a painter cannot be used for demonstrating a thesis in the field of genetics. To quote Lacerda amounts to quoting the same protonazist Nina Rodrigues. While Gobineau—Nina Rodrigues's guru—stated that the mixture of races would lead in the end to the pure and simple extinction of the Brazilian population, Lacerda is more modest: only the black population will be extinct. In the 21st century, we can no longer lend our ears to 19th century delirious theories which, by the way, have proved to be in the wrong side of reality. By stating that "Brazil's leaders chose to try and mix the African blood right out of the country", you are accepting conspiratory theories that never existed, except maybe on the mind of some racist—and those, yes, do exist. No one in his sound mind can feel authorized to declare Brazilian leaders responsible for such a theory. Who are these leaders responsible for such a Machiavellian strategy? I don't know who they are. Darcy Ribeiro was someone who defended miscegenation in recent times, almost to the point of hysteria, but always in defense of blackness and not as an instrument for black extinction. In O Presidente Negro (1926) (The Black President), Monteiro Lobato, who was aware of Nina Rodrigues and Batista Lacerda's arguments, satirizes an American scientist, Miss Jane, who defends the idea that hatred is the most profound of all prophylaxies. Hatred prevents one race from perverting itself and/or de-crystallizing the other race and it keeps both in a state of relative purity. "Love has killed in Brazil the possibility of a supreme biological expression. Hatred has created in America the glory of human eugenism." It is not without a purpose that Lobato makes this preposterous thesis come from the lips of an American. We Brazilians don't need this purifying hatred. Mr. Wells tells me that the only black woman to be crowned Miss Brasil was Deise Nunes de Souza, in 1986. Well, Brazil already existed before 1986. In 1964, Vera Lúcia Couto dos Santos, a Carioca, was the first black woman to be elected Miss Brasil. She was bombarded, I grant you, with anonymous telephone calls complaining that no black girl could be Miss Brasil. This happened in Rio de Janeiro, a State with a predominantly black and mulatto population. But she was elected and she stayed elected. Please note that Deise Nunes is a Gaúcha, born in that same predominantly white State that elected Alceu Collares. It's also important to remind readers of an episode of flagrant racism on the part of the black community of Porto Alegre, which took place in the 1980s. Porto Alegre elected a Carnaval Queen who was white... for her own misfortune. Black activists complained, saying that Carnaval was a black celebration and its queen, therefore, had to be black. The pressure included stones thrown at her house and was such that the girl had to resign her title. Curiously, no one remembered at the time that the origins of Carnaval (Mardi Gras) have nothing to do with blacks or with Africa. It is a white and Roman celebration. Exclusive Clubs "In several books about Brazil, it has been reported that Afro-Brazilians were barred from entering prestigious social clubs even when they had the money for the special membership fees". This statement deserves a few observations. There were exclusively black and exclusively white clubs in Brazil. If blacks are barred in whites' clubs, the restriction was reciprocal: in black clubs, whites don't get in. Among these clubs, the most notorious today is the Ilê Aiyê "bloco", in Bahia, founded in 1974, which still does not allow whites among its members. Let's remember that, among other things, clubs are private organizations, where people get together with people they like. If the British enjoy getting together with British people, or if homosexuals enjoy meeting among other homosexuals, is that something for us to condemn? Condemnable, yes, would be to deny access to people in public locations on the basis of their color. By the way, you state: "In the Frances Twine book, we find that black people were often times not allowed to walk on certain sides of the street!" Well, Twine lived for a mere eleven months in a small community in the State of Rio de Janeiro (it's better than eleven weeks, for sure, but still not very conclusive). To extract generic conclusions based on such a short period of time in an isolated community is to confuse the universe with a two-yard-diameter-circle-around-one's-own-nose. If that situation in fact existed in that specific community during a certain time, the same thing cannot be extended to Brazil, where blacks and whites walk around wherever they want. There is nothing and nobody telling any black person today to walk on one or another side of the sidewalk. We cannot judge contemporary Brazil based on hypothetical occurrences in communities lost in its geography. In Rio de Janeiro, there are groups of people who applaud the sunset, which doesn't justify a statement saying that Brazilians clap at the sunset. Afrobrazilianists have been producing quite a few essays in which non-whites are automatically identified with blacks. In the recent torrent of academic studies on Brazil published in the United States, historian Jeffrey Lesser may be the only one with an encompassing and non racist view of the issue. In Negotiating National Identity: Immigrants, Minorities and the Struggle for Ethnicity in Brazil, Lesser tries to show how other immigrant, non-white groups, in particular the Japanese and the Arabs, have participated in building a Brazilian identity. Judging from the racist bias of afrobrazilianists, the universe seems to have only two colors, white and black. Impunity for All There is no validity in Mr. Wells's statements that nobody has ever been punished for racism in Brazil. "How many white Brazilians do you know (and can prove) have been actually thrown in jail for racist practices? Most likely NONE! And as far as murder, I can relay several stories I have been told in which a black Brazilian was killed and absolutely NOTHING was done about it!" You can't relay just one, or three, or four cases, as a general rule. Just for starters, here in São Paulo (I'm talking only about the city of São Paulo), 50 to 60 people are murdered every weekend, among whites and blacks, and none of the murderers are punished. Only within the State of São Paulo today, nothing less than 127 thousand warrants of arrests are waiting to be carried out. They are not carried out because there is no room in the penitentiaries. That means 127 thousand convicted people—or at lest indicted—walking around, free as birds. These numbers do not include the tens of thousands of people who committed crimes that haven't been solved. Impunity is not a characteristic of murderers of black people, but something widely practiced in Brazil. As far as racial offenses, a quick search in the newspapers shows us interesting cases. The Special Jurisdiction Appelate Court of Minas Gerais, for example, has condemned a lady to pay R$ 5,000 (US$ 1,700) to her neighbor for pain and suffering. The lady in question had publicly called her neighbor "monkey", "stinking negro" and "vulture". In Rio de Janeiro, the judge of the 7th Criminal Court sentenced a businesswoman to two years of detention, with probation, because she had referred to a candidate for employment as "little ragged and ill-mannered negro girl". The judge of the Children and Adolescents Court of Florianópolis convicted a minor who, during a soccer game at school, called his buddy "ugly negro". The minor was sentenced to six months of parole. This is heavy punishment for verbal offenses, which would never deserve punishment if they were directed to a white person. Meanwhile, a popular singer scored a hit on the radio and TV with a song called Lôra Burra (Stupid Blonde). There was no lawsuit, no accusation of racism, no condemnation at all. Imagine, Mr. Wells, if someone went in the airwaves with a song called "Nega Burra" (Stupid Black). That person would be immediately sued. That's what happened with singer Tiririca, accused of the crime of racism because of his song Veja os Cabelos Dela (Look at Her Hair), which contains the verses "Essa nega fede / Fede de lascar" (This black woman stinks / Man, how she stinks". About this case, Henrique Cunha Júnior, professor of the University of Ceará, wrote: "as if the insults and other imposed chagrin were not enough, we now have a beast singing on the radio that the black woman stinks and no social statement of justice or human dignity to forbid and to punish this racism". The caricatural aspect of all this is that the song was dedicated to the wife of the singer himself, who didn't see in the lyrics any intention to insult, and instead took it in stride, as a good-humored reference. What I have been stating, since my first article is that law degrees are creating racial strife in Brazil. Law # 7.716, of 1989, for example, which establishes crimes linked to race or color prejudice, has been brandished left and right not to solve, but to incite conflict. Five years ago, during a Portuguese language exam in the vestibular (college entrance exam) at the Federal University of Mato Grosso do Sul (UFMS), an incident occurred that illustrates this new type of racism very well. The phrases "she is pretty, but she's black" and "although black, she is pretty" caused indignation in organizations fighting for black rights in that State. The Instituto e Casa de Cultura Afro-Brasileira (Icab) (Afro-Brazilian Institute and Cultural Center) filed criminal charges with the Department of Justice and a complaint with the Public Safety Secretary's office, asking it to ascertain an accusation of crime of racism on the part of UFMS. The group Trabalhos e Estudo Zumbi (Tez) requested elimination of the question from the exam and a public apology from UFMS. For Aparício Xavier, president of Icab, the issue was an aberration, made for medieval times. "If I were taking the exam, I would tear the sheet and burn it." Based on two phrases, the candidate had to indicate the correct answers. One of the answers considered correct stated that in the phrase (a) ("She is pretty but she's black") the color of the girl was an argument disadvantageous to her beauty. Another answer considered correct, in phrase (b) ("Although black, she is pretty"), said that the color of the girl was a restriction that can be outdone by her beauty. For Odonias Silva, president of the Vestibular Permanent Commission responsible for drafting the exam, the question was "an unfortunate slip". The president of Icab asked the head of the Human Rights Department of the Department of Justice, Ivair Augusto dos Santos, to officially register the indignation of blacks before the Interministerial Group for the Advancement of Black People, created by President Fernando Henrique. Both Icab and Grupo Tez filed for damages claiming pain and suffering. It did not occur to anyone—the organization representatives, the professor or the university president—that in order to burn and tear the evidence for that phrase, one would have to start by tearing and burning something much bigger—the Bible. Because in the Bible, at the opening of its finest book, the Song of Salomon, we find: "I am black, but comely, O ye daughters of Jerusalem, as the tents of Kedar, as the curtains of Solomon". If we go to the Latin Vulgate, which originates most of the translations used today, there it is: nigra sum, sed Formosa. The Vulgate, in turn, comes from the translation of the Septuaginta—drafted from the Hebrew original—where we find the Greek: Melaina eimi kai kale. No-win Situation During the last administration in Brazil, the Associação Brasileira de Negros Progressistas (Brazilian Progressive Black Association) filed a petition with the Supremo Tribunal Federal (STF) (Supreme Court) to sue the Secretary of Health, José Serra, for racism. The issue was the choice of a black actress to appear in the AIDS prevention campaign to air during Carnaval celebrations; it was offensive for the black woman to be exposed in the ad as a prostitute. The Health Department reacted: the actress was selected among thirty candidates, which included blondes, browns and blacks. It would have been racism only if the best candidate were not able to star in the campaign because she was black. You can't win, it seems. If the black model had not been the chosen model in the contest, it could have been disputed because it gave preference to whites. Curiously, it did not occur to any of the insurgent progressive blacks to ask the opinion of the party most interested in the issue, actress Carla Leite. She never felt any inferiority, by the way. "On the contrary, I'm proud to have conveyed an important message, regardless of the controversy", said Carla. If we go by the indications, there are no black prostitutes in Brazil. The Director of Communications of the Associação Brasileira de Negros Progressistas, Aguinaldo Triumpho Avellar, claims that blacks should be consulted about the content of the public announcement. According to his claim, every black actress, if she wants to find work, will have to get prior permission from the progressive blacks in order to know if she can or not audition for certain jobs. Still in Florianópolis, that same city where a minor was convicted for calling a classmate "you ugly black", another case took place which demonstrates very well the absurdity of anti-racist laws. Some 30 employees were fired from a government agency. One of them was black. The black ex-employee sued for racism. He was re-hired and got a fat check for damages. The other employees, because of their misfortune of being white, were left high and dry. But the most caricatural story related to this hysteria took place in Brasília, where a black man was sent to jail because he called another black… black. Because racial conflicts in Brazil were never as intense as in the United States, our local insurgent progressive blacks are doing what they can to allow us to reach the enviable levels of racial hatred of a First World country. For that purpose, they have the valuable support of this new generation of activists bringing degrees from American universities in the past few decades. Instead of the Soviet apparatchiks, we now have academic factories of racism called `centers for black studies'. With the typical arrogance of the citizens of the empire, these Yankee afrobrazilianists aspire to understand Brazil better than Brazilians themselves. Our country is sliding down a dangerous slope by creating different laws for different people. There is already a federal Act protecting Brazilian Indians. They can kill as they please, like Raoni. Or rape at their will, like Paiakan, but they can't go to jail because they are Indians. Blacks can get into universities cutting in front of whites by getting a better ranking in the entrance exam. They can also insult whites, because it's not a crime. Crime is to insult a black person. Off with class warfare, in with racial warfare. To paraphrase the Marxists: hatred is the forceps of History. I will not join your digressions about Africa, Mr. Wells. Obviously, I disagree with them. I will only mention that when I condemn certain African institutions, I am in no way endorsing the atrocities of Christianity or the ailments of Latin America and Brazil. But this subject would require an even longer discussion, with no end in sight. Neither do I want to abuse the patience of my translator, on whom I depend for this dialogue. Janer Cristaldo—he holds a PhD from University of Paris, Sorbonne—is an author, translator, lawyer, philosopher and journalist and suffers São Paulo. His e-mail address is janercr@terra.com.br Translated by Tereza Braga, email: tbragaling@cs.com
DEPOIS DA ELEIÇÃO DE OBAMA, MULATO É RAÇA EM EXTINÇÃO De Aender dos Santos, recebo: Saudações, Janer! Olha só o que me aconteceu no dia 20/11, Dia da Consciência Negra: Estava no centro de Belo Horizonte comprando uma apostila numa banca, logo do lado, a menos de vinte metros, havia uma manifestação do movimento negro. Enquanto eu estava pagando o que comprei, vai que um senhor lá pega o microfone e grita: "pois não existe esse negócio de pardo, no Brasil ou é preto ou é branco". O pior é que, de repente, gritei dentro da banca: "Epa, 'olha eu aqui', quer dizer que eu deixei de existir, que não existo mais... absurdo...", e outras coisas de que não me lembro. Falei meio alto, mas o microfone era mais alto, ou seja, o som alto me salvou de um possível linchamento! Do meu lado, dentro da banca, bem colada, havia uma senhora negra ao celular, acho que me olhou com uma cara estranha, mas nem percebi. Na hora que pronunciei as palavras, logo me veio à cabeça o seu texto sobre a extinção do mulato, pois é, extinguiu-se mesmo. Agora com Obama foi a tacada final. Cafuzo, mameluco, mulato, pardo vão equivaler a coisas que se estudam como folclore, como saci ou mula-sem-cabeça. T+, e um viva à sua lucidez e clarividência! Pois, Aender, depois da eleição do Obama, vai ser difícil provar que mulato existe. A imprensa toda - salvo raros articulistas - assumiu Obama como negro. Do jeito em que vão as coisas, qualquer dia destes será processado por racismo quem se declarar mulato. Abraço.
Quinta-feira, Novembro 20, 2008
PERGUNTINHAS PARA O SHOW DA BIBLÍA O colégio Santo Américo, de São Paulo, instituiu um jogo educativo, chamado Show do Biblião, inspirado no Show do Milhão, programa exibido pelo SBT. A brincadeira consiste em uma gincana. A sala, de cerca de 30 alunos, é dividida em grupos de cinco, que têm de responder às questões que aparecem no telão. Se um aluno souber a resposta, a equipe ganha dois pontos. "Normalmente, faço perguntas que levem os alunos à Bíblia mesmo, para que eles se familiarizem com ela", diz a professora de religião da escola, Marina Brancher. "Com o jogo, mostramos que religião é para ser alegre", afirma Regina Célia Tocci Di Giuseppe, coordenadora de religião do Santo Américo. "Eles levam a atividade a sério e adoram." Perguntas típicas da gincana: a sogra de quem foi curada em Cafarnaum? O que Simão foi obrigado a fazer enquanto os soldados levavam Jesus ao Gólgota? Meus aplausos ao colégio Santo Américo. Sempre considerei edificante o estudo do Livro Sagrado. Me permito inclusive propor algumas singelas perguntinhas para as próximas edições da gincana. - com quem Caim deu continuidade à espécie humana, se em seus dias as únicas mulheres existentes na terra eram Eva, sua mãe, e suas irmãs? - Quem foi mesmo que Jeová mandou Abraão sacrificar numa pira em seu louvor? Qual era o parentesco do menino com Abraão? - Como se chamava a mulher de Abraão, que Abraão ordenou que se prostituísse a Faraó, para salvar a própria pele e receber mordomias de Faraó? - Quem foi mesmo o único justo de Sodoma, que ofereceu as duas filhas virgens para uma turba, para proteger dois anjos do desejo dos sodomitas? E que mais tarde procriou com as próprias filhas? - Quantos judeus mandou degolar o líder judeu Moisés? - Quantos meninos o santo homem Eliseu mandou duas ursas estraçalharem, só porque o chamaram de careca? - Em quantos pedaços o levita de Efraim partiu a concubina que contra ele adulterou? Para quantas tribos foram enviados os pedaços da concubina? - Como se chamava o general que o santo rei Davi mandou matar para ficar com sua mulher? Como se chamava a mulher do general que o santo rei Davi mandou matar? - Quantos milhões de etíopes o rei Asa, de Judá, massacrou com o apoio de Jeová? - Qual povo entrou na cidade de Jericó, matando homens e mulheres, crianças e velhos, bois, cordeiros e burros, sob as ordens de Jeová? - Quem despedaçou Agag, na presença de Jeová, em Guilgal? - Quem assassinou todo o povo amalecita, por ordem de Jeová? - Quem matou todos os reis de Madián – Evi, Requem, Sur, Jur e Rebá – mais Balaam, filho de Beor e todos os varões madianitas? - Quem mandou separar 32 mil virgens madianitas feitas prisioneiras – para uso dos israelitas, é claro - após ter assassinado todas as que não eram virgens? - Como se chamava o filho de Davi, que violentou dez mulheres em praça pública, como sinal de enfrentamento com seu pai? - Qual filho de Davi estuprou Tamar, filha de Davi e sua irmã? - Como se chamava o filho de Eleazar, que traspassou com uma lança, de um golpe só, o israelita e a moabita que mantiam relações em uma tenda? - Qual rei forçou à escravidão todos os que não eram israelitas para construir o famoso templo de Jerusalém? - Quantos mil hebreus o Altíssimo permitiu que Josué matasse, só porque um deles ficou com parte do botim saqueado por Josué e sua horda de assassinos? - Quem foi o sábio rei que entregou a vida de setenta mil homens a Jeová, como castigo por ter organizado um censo não aprovado por Jeová? - Como se chamava a moça que Jehú mandou jogar de uma janela, cujo sangue salpicou os muros da cidade, e foi pisoteada pelos cavalos que passavam? - Quantos homens Jehú mandou degolar na cisterna de Bet-Equed? - Quantos homens matou Jehú na casa de Ahab? - Como se chamava a mulher que enterrou uma estaca na face de seu hóspede, Sísera, com tal força que a estaca penetrou o chão? - Quantos mil homens de Moab Ehud mandou matar na montanha de Efraim? - Quando sacerdotes de Baal o santo profeta Elias mandou degolar? - Quem ordenou a matança de 24 mil israelitas, só porque estes coabitavam com as mulheres de Moab? - Como se chamava o sábio rei que assassinou seu irmão para casar-se com Abisag? Esta é minha colaboração à gincana do Biblião. Se mais tarde lembrar de outras perguntinhas, volto ao assunto.
O autor esquecido: OCTAVE MIRBEAU * Uma tarde depois do jantar, encontramo-nos todos reunidos na ponte à volta de Clara, deliciosamente estendida numa rocking-chair. Uns fumavam, outros sonhavam... Todos tínhamos no coração o mesmo desejo de Clara; e todos, com o mesmo pensamento de posse ardente, seguíamos o vaivém dos dois pezinhos, calçados de chinelitas rosa que, com o balanço da cadeira, saíam do cálice perfumado das salas, como pistilos de flores... Não dizíamos nada... E a noite era de uma doçura feérica, o barco deslizava voluptuosamente no mar como sobre seda. Clara dirigiu-se ao explorador... - Então! – disse, com uma voz maliciosa. – Isso não é brincadeira? ... Comeu mesmo carne humana? - Claro que sim! – respondeu orgulhosamente e num tom que lhe conferia uma indiscutível superioridade sobre nós – come-se o que aparece... - Sabe a quê? – perguntou ela, um pouco enjoada. Ele pensou um instante... Depois, esboçando um gesto vago: - Meu Deus! – disse – como lhe hei-de explicar? Imagine, adorável miss. Imagine um porco um pouco marinado em óleo de noz... Negligente e resignado, acrescentou: - Não sabe lá muito bem... de resto não se come por gulodice... Prefiro uma perna de carneiro ou bife... - Claro – anuiu Clara. E como se quisesse, por delicadeza, diminuir o horror dessa antropofagia, quis precisar: - Porque com certeza só comiam carne de negro!... - De negro? Pf!... Felizmente, querida miss, nunca fiquei reduzido a essa dura necessidade... Nunca nos faltavam brancos, graças a Deus. O nosso séquito era numeroso e em grande parte constituído por europeus... marselheses, alemães, italianos... um pouco de tudo... Quando tínhamos muita fome abatia-se um da escolta... de preferência um alemão... O alemão, divina miss, tem mais gordura que as outras raças... e alimenta mais... E depois, sempre era um alemão a menos para nós, franceses!... O italiano, esse, é seco e duro, cheio de nervos... - E o marselhês? - Pf! o marselhês é elogiado exageradamente... cheira a alho... e também, não sei porquê, a suarda... Dizer que não satisfaz?... não... é comestível, nada mais. Voltando-se para Clara, com gestos de protesto, insistiu: - Mas negro... nunca!... creio que teria vomitado... Conheci pessoas que tinham comido... Adoeceram... O negro não é comestível... Há até alguns, asseguro-vos, que são venenosos... * O Jardim dos Suplícios, Lisboa, Editorial Estampa, 1972
Quarta-feira, Novembro 19, 2008
SOBRE ESPELHOS E BICICLETAS Uma boa amiga me envia poema que faz pensar: The Mirror I look in the mirror And what do I see? A strange looking person That cannot be me. For I am much younger And not nearly so fat As that face in the mirror I am looking at. Oh, where are the mirrors That I used to know Like the ones which were made Thirty years ago? Now all things have changed And I'm sure you'll agree Mirrors are not as good As they used to be. So never be concerned If the wrinkles appear For one thing I've learned Which is very clear: Should your complexion Be less than perfection, It is really the mirror That needs correction. Eu diria que o mesmo ocorre com as bicicletas. As contemporâneas são pesadíssimas. Em meus quinze anos, as bicicletas eram bem mais leves. Não se fazem mais bicicletas como dantanho.
BALTASAR GARZÓN ENCETA VOLTA À HIGIDEZ MENTAL Quando o procurador espanhol Baltasar Garzón pediu a detenção do general Augusto Pinochet na Inglaterra, para que respondesse na Espanha por crimes cometidos no Chile, ninguém imaginaria que, naquele momento, estava sendo criado um grande quebra-cabeça para os teóricos desta ficção que se chama Direito Internacional. Ficção porque Direito Internacional não existe. O que continua existindo é o antigo e brutal direito do mais forte. Se o Paraguai, sem ir mais longe, pedisse a detenção no Brasil de Bill Clinton por crimes cometidos na Iugoslávia, uma grande gargalhada reboaria nas redações dos jornais do mundo todo. Seria algo tão ridículo como um magistrado espanhol pedir a detenção de Bush em função da guerra no Iraque. Pois Garzón pensou no assunto. Ano passado, declarou: "Aqueles que aderiram ao presidente dos EUA na guerra contra o Iraque têm tanta ou mais responsabilidade do que ele, porque apesar de ter dúvidas e informação tendenciosa, eles se colocam nas mãos do agressor para realizar um ato ignóbil de morte e destruição até hoje". Mas ficou na declaração. Não chegou à ousadia de pedir a detenção de Bush e seus asseclas. Pedir a detenção de um presidente da ex-colônia está na órbita da coragem de Gazón. Pedir a detenção do presidente da maior potência contemporânea talvez até estivesse em suas ambições. Faltaram-lhe dídimos. Garzón autonomeou-se juiz universal. Como Don Alonso Quijana, pretendeu desfazer os tortos do mundo. Ocorre que o personagem de Cervantes pertence ao mundo do imaginário. Que mais não fosse, Don Quixote jamais pretendeu desfazer tortos fora de sua Espanha. Em seu delírio, é mentalmente menos enfermo que Garzón. Mês passado, comentei a pretensão do juiz universal de investigar a desaparição de vítimas do franquismo. Garzón assumiu para si a competência da investigação, por estarem implicadas pessoas relacionadas com instituições do Estado, entre elas Francisco Franco e outros 34 acusados, em desaparições ilegais, dentro do contexto de crimes contra a Humanidade. Foi mais longe que o Tarso Genro: pretendeu desenterrar cadáveres de sete décadas atrás. Considerando-se que os 35 acusados já estão mortos, perguntei-me então sobre a real intenção do juiz. Quem sabe obter, ao melhor estilo tupiniquim, gordas indenizações para os herdeiros dos desaparecidos? Perguntei-me também porque Baltasar Garzón não demonstrou nenhum interesse em investigar o massacre de religiosos pelos comunistas na Espanha. Estima-se que 6.832 religiosos, entre os quais 4.184 padres e 13 bispos foram assassinados na Guerra Civil. Freiras foram violadas e mais de 160 igrejas incendiadas e depredadas. Segundo Paul Johnson, alguns padres foram queimados vivos e outros alguns tiveram suas orelhas decepadas. Freiras tiveram os tímpanos perfurados por rosários enfiados à força em seus ouvidos. Em sua megalomania, Garzón chegou a pedir o atestado de óbito de Francisco Franco e de uma trintena de generais, entre estes os generais Emilio Mola e Gonzalo Queipo de Llano. Segundo o juiz, tratava-se de um mero trâmite judicial já que "é certo e notório que a participação nos fatos daqueles que estão falecidos ficará extinta uma vez constatada sua morte". Pelo jeito, Garzón desconhecia que Franco, Mola e Queipo de Llano estão mortos e bem mortos. Como disse alguém, é o mesmo que pedir o atestado de óbito de Napoleão. O juiz universal parece ter-se dado conta de seu ridículo. Leio nos jornais de hoje que Garzón desistiu de investigar o paradeiro dos desaparecidos da Guerra Civil (1936-1939) e do franquismo (1939-1977) e passou o caso aos tribunais provinciais, como pedia a Audiência Nacional. Desistiu também de pedir o atestado de óbito de Francisco Franco. É possível que alguma alma generosa o tenha informado que Franco já morreu. Mais algumas décadas, e talvez Garzón volte à higidez mental.
Terça-feira, Novembro 18, 2008
HALTEROCOPISMO E SUCESSO O Supremo Apedeuta afirmou ontem que a televisão, em muitos casos, contribui para a degradação da estrutura da família. "Qual o processo de educação que nós aprendemos quando ligamos uma televisão neste país? Pelo contrário. Eu diria que, em muitos casos, o que nós assistimos é um processo de degradação da estrutura da família", disse, no Clube Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Para começar, liga a televisão quem quer. E se o público dá grande audiência aos canais que degradam a tal de estrutura da família, é porque tal desestruturação lhes apraz. De minha parte, não observei até hoje o processo denunciado por Lula. Primeiro, porque quase não assisto televisão. Segundo, porque quando assisto, de modo geral não assisto aos canais nacionais. Procuro sempre catar algum bom filme na madrugada. Se tais filmes servem para degradar a estrutura familiar, nem notei. Filme para mim é mera ficção, jamais orientação para a vida. Por outro lado, onde está escrito que a televisão tem por função tornar coesas as famílias? Esta função talvez se atribuam as televisões estatais. Que só servem para defender os governos corruptos que as financiam. Se a família se degrada, a culpa não será da televisão. E sim de um modelo arcaico, que não mais serve em nossa época. A mentira, como suporte da família, não é coisa dos tempos hodiernos. Vem de muito mais longe. Mas a melhor do Supremo foi sua declaração sobre esportes. "A coisa que mais ajuda pobre a vencer na vida é o esporte. De vez em quando tem um milagre e um deles chega à Presidência da República", disse Lula aludindo à sua trajetória e arrancando aplausos do público. Sua trajetória? Que me conste, o único esporte que Lula pratica é o halterocopismo. Mas este não é exatamente uma modalidade olímpica.
ZUMBI E SPARTACUS De um leitor, recebo extenso mail, do qual reproduzo o ponto principal: Penso que a figura de Zumbi homenageado não é na condição de ´libertador´ dos escravos mas na figura de quem liderou e lutou contra o sistema escravista vigente no século XVII e, ao contrário do vosso entendimento, considero legítima a homenagem. A escravidão imposta aos africanos no Brasil não era equivalente às demais formas de escravidão conhecidas até então e aquele sistema violava sim a condição humana das vítimas. Em O Homem Revoltado, Albert Camus faz uma distinção entre revolta histórica e rebelião. Spartacus não aspira à revolução, ele não quer senão direitos iguais aos do senhor, ele quer ser senhor no lugar do senhor. Nos encontramos face a uma rebelião. Se a rebelião mata homens, a revolução mata homens e princípios. Spartacus não é um revolucionário, ele não quer mudar os princípios da sociedade romana. Ele se bate para que o escravo tenha direitos iguais aos do senhor, recusa a servidão e quer a igualdade com seu amo. Esta vontade de igualdade o conduzirá ao desejo de tomar o lugar do amo. A revolução, por sua vez, é a mudança total. A partir da concepção astronômica de revolução – movimento que fecha um ciclo, que passa de um regime a outro após uma translação completa – Camus precisa sua definição. A revolução implica uma mudança do regime de governo. Para que uma mudança econômica seja uma revolução econômica é preciso que ela seja ao mesmo tempo política. Sejam seus meios sangrentos ou pacíficos, é a mudança política, a mudança de governo, que distinguirá a revolução da revolta. Esta dicotomia fundamental é posta em relevo pela frase célebre, citada por Camus: "Não, Sir, não se trata de uma revolta, mas de uma revolução". Ora, ao instituir o regime de escravidão em seu quilombo, o novel herói da afrodescendentada tupiniquim nada faz senão repetir o papel de Spartacus. Zumbi quer a liberdade para si. Não para os seus, aos quais escraviza. A escolha de Zumbi como combatente contra o sistema escravista então vigente não passa de uma frágil manobra dos ativistas negros que se recusam a aceitar uma verdade histórica: os responsáveis pela abolição da escravidão no Brasil foram líderes brancos. A comemoração da próxima quinta-feira não passa de uma farsa grotesca. Bem que os apparatchiks do movimento negro podiam ser menos preguiçosos e pesquisar um pouco mais para encontrar um campeão que pelo menos não fosse senhor de escravos.
A FAVOR NÃO TEM GRAÇA Do leitor Luiz Brasileiro, recebo: Sr. Janer Cristaldo, já faz uns dias que mandei uma mensagem comentando um texto seu sobre os que resistiram à ditadura pela luta armada, fui duríssimo, mas acredito que não fui injusto. Agora, depois de ler outros textos seus, quero parabenizá-lo pela coragem - em tempos de democracia, mas ainda assim muita coragem -, de dizer o que pensa. Com algumas coisas concordo, com outras não, o que é natural. Mas o que quero afirmar mesmo é que o senhor, pelo que pude perceber, faz uma coisa preciosa: escreve sem medo de navegar contra a corrente, sem medo da opinião alheia, e isto é bom para a liberdade, sua e dos outros.Parabéns. Mas não retiro o que escrevi no comentário aos que se insurgiram contra a ditadura pela luta armada. A vida segue. Grato, Luiz! Tenho especial prazer em nadar contra a corrente. A favor, não tem graça. Muito fácil.
Segunda-feira, Novembro 17, 2008
EUROPA ABANDONA FORMAS E LIBERA CURVATURA DO PEPINO Adoro a França. Mas há horas em que ela exibe sua face abominável, a burocracia. Quando fui estudar Literatura Comparada em Paris, o C.R.O.U.S, organismo que me recepcionava, me ofereceu também um curso de francês. Ora, se a língua eu já dominava, um aperfeiçoamento vinha bem. O curso era caríssimo. Mas como BGF – Boursier du Gouvernement Français – eu pagaria apenas zero franco. Claro que eu não dispensaria o curso, que mais não fosse precisava redigir minha tese em bom francês. Ora, meus problemas de chegada eram outros. Precisava resolver meu permis de séjour junto à Polícia, precisava encontrar apartamento, decidir quais disciplinas cursaria. Considerei que zero franco não faria falta ao caixa da universidade e fui tratando das coisas mais vitais. Resolvidas estas, fui até a universidade pagar meu zero franco. A moça do caixa objetou: - Monsieur, vous êtes en retard. Ou seja, eu estava atrasado. Tentei objetar: mas se trata de zero franco, moça. - C’est pas une question de quantité. C’est une question de délai. Não era uma questão de quantidade. Mas de prazo. Foi inflexível. Aleguei que perderia o curso de francês, fundamental para uma boa redação de minha tese. - Tant pis pour vous, Monsieur! Tanto pior para você. Mas me abriu uma porta. Fale com a madame Lallande, no C.R.O.U.S. Entre com uma demande de dérogation. Ou seja, um pedido de postergamento. Fui lá, entrei com a famosa demande. Madame Lallande indignou-se: não vou fazer uma demande de dérogation por zero franco. Dei toda razão à madame. Mas a moça do caixa continuava inflexível: “c’est pas une question de quantité”. Me recolhi a um café para pensar. Podia entrar com queixa no ministério da Educação. Seria ainda mais burocracia. Tomei uma atitude de risco. Rubriquei em baixo do papelucho: Dérogation acordée. Signé Mme. Lallande. Estava arriscando minha rica bolsinha. Milagrosamente, passou. A moça do caixa, perplexa: “Je n’ai jamais vu ça”. E quando um burocrata francês diz isso, melhor sair de perto. Se jamais viu, é porque não existe em seu ecúmeno. Soube mais tarde que outro bolsista fora cobrado por seu banco, pois de sua conta constava zero franco negativo. Ele pagou para ver. Passou um cheque de zero fraco. Et.... miracle: ficou com zero franco positivo. Mas não era disto que pretendia falar. E sim de pepinos. (O que não deixa de dar no mesmo). Lá pelo ano 2000, escrevi que a comunidade européia se fortalecia com o euro e unificava tanto a moeda como a curvatura do pepino. Leitores céticos achavam que eu exagerava. Bom, consegui agora encontrar a lei que regulamenta a curvatura do pepino. É o Règlement (CEE) No 1677/88 de la Comission Européenne, segundo o qual há quatro categorias de pepinos, a Extra, a I, a II e III. Além de uma série de outros requisitos, os pepinos devem ser bem formados e praticamente retos. Altura máxima do arco: 10 milímetros por 10 centímetros de comprimento do pepino, para as três primeiras categorias. Assim não sendo, pepinos só servem para o lixo. Para a quarta categoria – no caso, a III – os pepinos ligeiramente curvos podem ter um altura máxima de arco de 20 milímetros por 10 centímetros de comprimento. Mas devem ser condicionados à parte. Fossem só os pepinos, o absurdo seria restrito a um só vegetal. Os europeus parecem ter um modelo arquetípico de cada vegetal. Qualquer fuga ao arquétipo impede à comercialização do produto. Isto vale para 26 legumes diferentes, desde o aspargo ao pepino, passando pela cenoura, pelo pêssego, pela ameixa e mesmo por uma chicória denominada Witloof, que agora poderão apresentar-se sob formas nodosas, curvas e mesmo bizarras. Ora, isto significava jogar ao lixo pelo menos 20% de produtos perfeitamente comestíveis, pelo simples motivo de que tinham formas irregulares. Durante decênios, os produtores – e um exército de inspetores bem pagos – tiveram de munir-se de réguas e compassos para verificar a geometria das frutas e legumes. Segundo o Libération, o 12 de novembro passado vai entrar na história. Pois foi a data escolhida pela Comissão Européia para abolir suas normas absurdas, concernentes ao comércio de legumes. Já não cometerá ilícito quem vende pepinos mais curvos do que a Comunidade. Mesmo assim, nem todos os produtores estão liberados. Os tomates e as batatas continuam submetidos às normas de Bruxelas. A Europa do Iluminismo e dos Direitos Humanos parece ter-se finalmente rendido aos Direitos Vegetais. O pepino curvo está liberado. Talvez um dia o Velho Continente descubra que zero franco não vale nada.
Domingo, Novembro 16, 2008
NEGROS CULTUAM UM SENHOR DE ESCRAVOS Numa atitude eminentemente racista, os ativistas negros conseguiram pespegar mais um feriado a este país tão pródigo em folganças, o dia da Consciência Negra, data que evoca a morte do novel herói nacional, Zumbi dos Palmares, tido como líder da luta contra a escravidão. O objetivo da nova data é claro: relegar ao esquecimento o 13 de maio de 1888, quando a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que extinguiu a escravidão no Brasil. Onde se viu uma branca – e ainda mais européia – ser a responsável pelo fim da escravidão dos negros? Já em 1823, José Bonifácio de Andrada e Silva propunha que o Brasil, como os Estados Unidos, substituísse os escravos por imigrantes europeus. Sete anos depois, o governo brasileiro assinou tratado imposto pela Inglaterra, transformado em lei que obrigava a extinção do trabalho escravo no prazo de 15 anos. Embora o tráfico negreiro continuasse, em 1851, o chefe do Gabinete Ministerial, senador Euzebio de Queiroz Mattozo da Câmara, ordenou à polícia que localizasse negros importados ilegalmente e prendesse os negreiros e fazendeiros infratores, cessando o tráfico de escravos. Em 28 de setembro de 1871, o visconde do Rio Branco, do Partido Conservador, promulga uma primeira lei abolicionista, a Lei do Ventre Livre. Tinha poucos efeitos práticos, mas já era mais um passo para o fim da escravatura. Os filhos de escravos nascidos a partir daquela data eram livres, embora permanecessem sob a tutela de seus proprietários até os 21 anos. Ao apresentar a lei, o visconde do Rio Branco considerava a escravidão como uma instituição injuriosa, que prejudicava a imagem externa do país. A Sociedade Brasileira contra a Escravidão, inaugurada em 7 de setembro de 1880, foi criada não por um negro, mas por um aristocrata da mais pura cepa branca, Joaquim Nabuco. Outro dos fundadores da instituição, José do Patrocínio, era filho de padre – com uma negra alforriada, é verdade – mas passou sua infância como liberto, cursou Faculdade de Medicina, foi jornalista e escritor de prestígio. Castro Alves, outro vigoroso defensor da abolição da escravatura, era branco, filho de médico e freqüentou escolas de elite, tendo sido colega de Rui Barbosa. A abolição da escravatura no Brasil foi obra de brancos e não de negros. Os negros da época sequer tinham voz para tanto. Ora, nestes dias em que a luta racial substituiu a velha e desprestigiada luta de classes, os negros não conseguem atribuir a brancos o fim da escravidão. Foram então buscar nos confins da História uma figura nebulosa, mais envolta em lenda que na realidade, de cuja existência só se tem oito escassos registros históricos. O que se sabe, isto sim, é que o suposto herói da libertação dos escravos também tinha seus escravos. Escrevi isto há uns bons cinco anos, em artigo publicado nos Estados Unidos, para escândalo dessa nova raça acadêmica que por lá viceja, os afrobrazilianists. Recebi centenas de mails de protesto. Ora, sempre foi de conhecimento de historiadores que os quilombos reproduziam os modelos de escravidão das tribos africanas e mais ainda: escravizavam brancas raptadas das cidades. Da mesma forma, sempre se soube que se os europeus traficavam escravos, estes escravos eram comprados de chefes tribais na África. Assim sendo, é com satisfação que leio na Veja desta semana, reportagem intitulada “O Enigma de Zumbi”. Segundo o repórter Leandro Narloch, estudos recentes sobre o herói da luta contra a escravidão mostram que ele próprio pode ter sido dono de escravos no quilombo dos Palmares. “Os novos estudos sobre Palmares concluem que o quilombo, situado onde hoje é o estado de Alagoas, não era um paraíso de liberdade, não lutava contra o sistema de escravidão nem era tão isolado da sociedade colonial quanto se pensava. O retrato que emerge de Zumbi é o de um rei guerreiro que, como muitos líderes africanos do século XVII, tinha um séquito de escravos para uso próprio. "É uma mistificação dizer que havia igualdade em Palmares", afirma o historiador Ronaldo Vainfas, professor da Universidade Federal Fluminense e autor do Dicionário do Brasil Colonial. "Zumbi e os grandes generais do quilombo lutavam contra a escravidão de si próprios, mas também possuíam escravos", ele completa. Não faz muito sentido falar em igualdade e liberdade numa sociedade do século XVII porque, nessa época, esses conceitos não estavam consolidados entre os europeus. Nas culturas africanas, eram impensáveis. Desde a Antiguidade e principalmente depois da conquista árabe no norte da África, a partir do século VII, os africanos vendiam escravos em grandes caravanas que cruzavam o Deserto do Saara. Na época de Zumbi, a região do Congo e de Angola, de onde veio a maioria dos escravos de Palmares, tinha reis venerados como se fossem divinos. Muitos desses monarcas se aliavam aos portugueses e enriqueciam com a venda de súditos destinados à escravidão. Brilhante monumento encontraram os agitprops negros para cultuar! É claro que hoje mesmo já devem estar chegando irados e-mails à redação da revista, denunciando-a como racista. As esquerdas costumam manipular a História a seu gosto para transformar celerados em heróis. O mundo comunista internacional já reverenciou como libertadores assassinos tremendos como Lênin, Stalin, Mao, Pol Pot, Fidel Castro, Che Guevara. Este, aliás, já virou santo. Na Bolívia, é cultuado como San Ernesto de la Higuera. Logo após a morte do terrorista, começaram a surgir velas e flores na desativada lavanderia do hospital, onde seu corpo foi apresentado ao público. Hoje, o local é ponto de peregrinação dos devotos de San Ernesto. Aqui no Brasil, antes mesmo de lembrarem Zumbi, as esquerdas quiseram entronizar como herói um cruel bandoleiro nordestino, o “capitão” Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião. Na Europa, hoje, não é raro encontrar-se quem veja em um reles bandido um paladino na luta em favor dos pobres. Outro herói que se tentou criar foi o desastrado e testarudo apparatchik comunista, Luís Carlos Prestes, o assassino de Elza Fernandes e responsável pela Intentona de 35, onde dezenas de oficiais e soldados foram assassinados pelas costas na calada da noite. Diga-se de passagem, o atual ministro da Justiça, Tarso Genro, é um de seus fiéis devotos. Isto sem falar na recente extração de novos campeões da liberdade, como São Marighella, São Carlos Lamarca, Santa Dilma Roussef. Mas Zumbi tem pernas curtas. Não será fácil, por mais que se minta, coroar com auréola de libertador dos negros quem foi senhor de escravos.
Sábado, Novembro 15, 2008
68, UMA FICÇÃO Sempre entendi Maio de 68 como um fenômeno de mídia. Diferentes rebeliões, com diferentes motivações, explodiram em Pequim, Praga e Paris. Como ocorreram mais ou menos na mesma época, os jornais juntaram as notícias num mesmo caderno e daí surgiu a tal de Revolução de 1968. Segundo Henrique Carneiro, PhDeus uspiano, “o ano de 1968 foi um fenômeno de massa em vários países, com uma referência comum: a de fazer parte de um movimento internacional”. Ou seja, não disse nada. Para Daniel Cohn-Bendit, um dos líderes da rebelião na França, “o espírito de 68 é o desejo de liberdade. Essa foi a matriz do movimento, o espírito da liberdade”. Ou seja, também não disse. Talvez as inscrições de muros e cartazes da época digam melhor sobre o movimento: “Quanto mais amor eu faço, mais vontade tenho de fazer a revolução. Quanto mais revolução faço, maior vontade eu tenho de fazer amor”. No que diz respeito à França, pelo menos, 68 esteve mais para partouse que para revolução. Como disse alguém: pas de sang, trop de sperme. Nada de sangue, muito esperma. Não creio em Deus nem em 68. Sempre vi 68 como uma criação das redações de jornais. Em entrevista ao El País de hoje, o pensador, sociólogo, filósofo – y otras cositas más – Edgar Morin, confirma minha convicção. “Expressaram uma aspiração que percorre a história da humanidade desde o anarquismo (liberdade), o socialismo (justiça) e o comunismo (igualdade)”. Ou seja, o ilustre filosofante das margens do Sena, em pleno 2008, ainda associa anarquismo com liberdade, socialismo com justiça e comunismo com igualdade. Vai ver que de tanto contemplar a torre Eiffel, não viu que em Berlim caíra um muro. Prossegue Morin: “Além de uma explosão adolescente, houve algo especial: as pessoas se falavam na ruas de Paris, coisa que nunca faziam, e as consultas aos psiquiatras se esvaziaram. Logo, a revolução degenerou e as pessoas voltaram aos psiquiatras”. Ora, me parece muito pouco para caracterizar uma revolução. Em momentos de comoção social, é normal que as pessoas se falem nas ruas, que mais não seja para informar-se do que está acontecendo. No 11 de setembro de 2001, os nova-iorquinos também conversaram nas ruas. Na primavera de Praga, os tchecos também conversaram. Como se vai conversar sempre, quando qualquer coisa de insólito estiver acontecendo em algum lugar. Quanto aos consultórios de psiquiatras vazios, nada de surpreender. O PC francês havia decretado uma greve nos transportes públicos e nada menos surpreendente que os consultórios – não só de psiquiatras mas também de médicos ou dentistas – se esvaziassem. Quanto mais os anos passam, mais se evidencia que 68 não passou de uma ficção coletiva criada por jornalistas e escritores.
Momentos sublimes do Livro: PROFETA CARECA CHAMA URSAS PARA DESPEDAÇAR 42 MENINOS II Reis, 2, 19: Os homens da cidade disseram a Eliseu: Eis que a situação desta cidade é agradável, como vê o meu senhor; porém as águas são péssimas, e a terra é estéril. E ele disse: Trazei-me um jarro novo, e ponde nele sal. E lho trouxeram. Então saiu ele ao manancial das águas e, deitando sal nele, disse: Assim diz o Senhor: Sarei estas águas; não mais sairá delas morte nem esterilidade. E aquelas águas ficaram sãs, até o dia de hoje, conforme a palavra que Eliseu disse. Então subiu dali a Betel; e, subindo ele pelo caminho, uns meninos saíram da cidade, e zombavam dele, dizendo: Sobe, calvo; sobe, calvo! E, virando-se ele para trás, os viu, e os amaldiçoou em nome do Senhor. Então duas ursas saíram do bosque, e despedaçaram quarenta e dois daqueles meninos. E dali foi para o monte Carmelo, de onde voltou para Samária.
Sexta-feira, Novembro 14, 2008
TERRORISTA CONFIRMA CANDIDATURA Disse Santa Dilma Roussef, a terrorista recebida por Bento XVI no Vaticano, sobre a existência de Deus: - "Eu me equilibro nessa questão. Será que há? Será que não há? Eu me equilibro nela". Ou seja, é candidatíssima para 2010. Candidato algum à presidência no Brasil ousa dizer que não acredita em Deus. Mesmo que seja materialista histórico. Na hora de pedir votos, mesmo o mais empedernido marxista vira equilibrista.
STRULDBRUGGS Comentei ontem a tragédia de Vilcabamba, cujos habitantes atingem facilmente os cem anos. Em As Viagens de Gulliver, Swift nos leva à ilha de Luggnagg, onde existe uma raça de imortais, os struldbruggs. O capitão Lemuel Gulliver se entusiasma com o fenômeno e exclama entusiasmado: — Feliz nação, cujos filhos ao nascer podem alcançar a imortalidade! Feliz região, em que os exemplos dos tempos passados se mantém sempre, em que a virtude dos primeiros séculos subsiste ainda, e em que os primeiros homens vivem ainda e viverão eternamente, para dar lições de prudência a todos os seus descendentes! Felizes os sublimes struldbruggs, que têm o privilégio de não morrer e a quem, por conseguinte, a idéia da morte não intimida, não enfraquece, não quebra. Foi preciso que um dos habitantes da ilha o esclarecesse sobre a desgraça de ser eterno: Em seguida, descreveu-me os struldbruggs, dizendo que eram semelhantes aos mortais e como eles viviam até aos trinta anos; que, depois dessa idade, caíam a pouco e pouco em negra melancolia, que aumentava sempre até atingirem os oitenta; que, por então, não eram apenas sujeitos a todas as enfermidades, a todas as misérias e a todas as fraquezas dos velhos dessa idade, mas a aflitiva idéia da eterna duração da sua miserável caducidade os atormentava a tal ponto que nada podia consolá-los; que não eram simplesmente, como todos os outros velhos, cabeçudos, rabugentos, avarentos, carrancudos, linguareiros, mas gostavam de si próprios, renunciavam às doçuras da amizade, não dispensavam ternura a seus filhos e que, além da terceira geração, já não reconheciam a posteridade; que a inveja e a raiva os devoravam continuamente; e que a vista dos sensíveis prazeres de que usufruem os juvenis mortais, os seus divertimentos, os seus amores, os seus exercícios os faziam de certo modo morrer a cada momento; que tudo, até a própria morte dos velhos que pagavam o tributo à natureza, lhes excitava a raiva e os mergulhava no desespero; que, por essa razão, todas as vezes que viam realizar-se um enterro, maldiziam a sua sorte e se queixavam amargamente da natureza, que lhes recusara a doçura de morrer, de acabar a sua aborrecida carreira para entrar num eterno repouso; que já não se encontravam em estado de cultivar o espírito; que a memória enfraquecia; que mal se lembravam do que tinham visto e aprendido na sua mocidade e na idade madura; que os menos miseráveis eram os que tinham entontecido, que tinham perdido completamente a memória e estavam reduzidos ao estado infantil; esses, ao menos, encontravam quem se condoesse deles, dando-lhes todos os recursos de que necessitavam. — Quando um struldbrugg — acrescentou — se casa com uma struldbrugg, o casamento, conforme as leis do Estado, é dissolvido logo que o mais novo dos dois chegue aos oitenta anos. É justo que desgraçados entes humanos, condenados, contra a vontade e sem o haverem merecido, a viver eternamente, não sejam ainda, para acréscimo de desgraça, obrigados a viver com uma mulher eterna. O que é mais triste ainda é que, depois de ter atingido esta idade fatal, são olhados como mortos civilmente. Os seus herdeiros apoderam-se dos seus bens; são-lhes dados tutores, ou antes, são despojados de tudo e reduzidos a uma simples pensão alimentícia (lei muito justa em virtude da sórdida avareza comum aos velhos). Os velhos são mantidos por custeio público numa casa chamada: hospital dos imortais pobres. Um imortal de oitenta anos já não pode exercer um emprego ou função alguma; não pode negociar, não pode contratar, não pode comprar nem vender e o seu próprio testemunho não é reconhecido em justiça. Quando, porém, atingem noventa anos, ainda é pior: todos os dentes e cabelos caem; perdem o paladar e bebem e comem sem prazer algum; perdem a noção das coisas mais fáceis de reter, e esquecem o nome dos amigos e às vezes o próprio. Torna-se-lhes por este motivo inútil entreterem-se com a leitura, pois que, quando querem ler uma frase de quatro palavras, esquecem as duas primeiras, enquanto lêem as duas últimas. Pelo mesmo motivo lhes é impossível conversar com alguém. Além disto, como a língua deste país está sujeita a freqüentes mudanças, os struldbruggs nascidos num século têm muito trabalho em compreender a linguagem dos homens nascidos noutro século, e são sempre estrangeiros na sua pátria. Tais foram os pormenores que me forneceu a respeito dos imortais desse país, pormenores que me surpreenderam em extremo. Em seguida, mostrou-me uns seis, e confesso que nunca vi nada mais feio e mais desagradável; as mulheres, sobretudo, eram horrorosas; imaginei ver espectros. O leitor decerto compreenderá que perdi, então, toda a vontade de tornar-me imortal por semelhante preço. Fiquei vexadíssimo com as loucas imaginações a que me entregara sobre o sistema de uma vida eterna neste baixo mundo.
Quinta-feira, Novembro 13, 2008
A TRAGÉDIA DE VILCABAMBA Fui outro dia testar um restaurante italiano recém-inaugurado no bairro. Menu baratinho, pratos originais e caprichados, boa carta de vinhos. Na mesa a meu lado, um outro cliente fazia o mesmo. Viera conhecer a nova casa. Pessoa de idade provecta, mas muito bem posto. Nem magro nem gordo, aparência saudável, um rosto radiante sem as faces chupadas da velhice. Mal sentei, puxou conversa. Lera no Estadão sobre o restaurante – me exibiu a página – e queria ver como era. Conversa vai conversa vem, começou a queixar-se da idade. Tinha oitenta anos. Duas décadas à minha frente. Você parece estar muito bem, respondi. Quisera eu chegar assim aos oitenta. Foi direto ao cerne da questão: - O problema é o pinto. Ora, companheiro, nem sempre se come pão quente. Chega um dia em que a casa cai. Há muitos prazeres ainda a curtir. Você está degustando um deles, a boa cozinha e o bom vinho. Restam ainda os amigos, a boa charla, as viagens, as boas leituras e a boa música. Esqueça o pinto. Falei de Buñuel. Em seu relato biográfico, Meu Último Suspiro, lá pelas tantas ele afirma que gostaria de chegar logo à impotência. As mulheres deixariam então de ser um problema. Sou mais Santo Agostinho, que rezava: “Dai-me a castidade, Senhor! Mas não já”. Em todo caso, Buñuel não deixa de ter certa razão. Mulheres sempre podem constituir um problema, pelo menos para quem não consegue entendê-las. - Mas o problema ainda não é esse – respondeu-me. É a memória. A lembrança do bem-bom. A questão era então mais grave. Memória pode ser muito aprazível. Mas também machuca. Que se vai fazer? Chega um momento em que não podemos aspirar mais a tesões tipo aquelas cláusulas da Constituição, as pétreas. Espero não chegar lá tão cedo. Mas quando chegar – e vou chegar, se não partir antes – não vou me queixar. A vida continua. Há países que ainda não conheço e óperas que ainda não ouvi. Restam muitos livros a ler e amigos a curtir. Chegasse eu na idade dele, naquela boa forma, me daria por contente. Despediu-se de mim com certa irritação. O que eu dissera não era o que ele queria ouvir. Me ocorre este diálogo ao ler reportagem na Folha de São Paulo sobre o livro Eterna Juventud - Vivir 120 Años, do médico e escritor argentino Ricardo Coler, sem previsão de lançamento no Brasil. Coler fala de Vilcabamba, um povoado com cerca de quatro mil pessoas no interior do Equador, onde encontrou Don José Medina, que parou de beber aos 106 anos. De vez em quando, ainda toma uma aguardente, mas não mais de uma por dia. Fuma, mas muito menos do que quando "era jovem" - lá pelos 70 anos. Aos 112, não conseguiu largar o chamico, cigarro feito com uma erva alucinógena. Segundo o autor, as condições sanitárias do local são um desastre - na maioria das casas, não há esgoto nem água encanada. Seus habitantes fumam, bebem álcool, comem muito sal, tomam muito café, usam drogas. E são um dos povos com maior proporção de pessoas centenárias no mundo – cerca de dez vezes mais do que a média. Centenários e saudáveis. Lá é comum encontrar idosos de 110, 120 anos. Lêem sem óculos, conservam os dentes originais. A maioria ainda trabalha e tem vida sexual ativa. Os cabelos ficam brancos quando chega a idade, mas depois voltam à cor natural, sem explicação. E, ao contrário da maioria dos lugares do mundo, os homens vivem mais do que as mulheres. Cá entre nós, 106 anos é uma boa idade para deixar de beber. De minha parte, penso deixar antes, pois até lá estou certo de que não vou chegar. E se a condição para lá chegar é viver num lugarejo de quatro mil habitantes, sem esgoto nem água encanada, por favor, ó Senhor, leva-me bem antes para o seio de Abraão. Melhor partir mais cedo, em meio ao fervor das grandes cidades. Considero que cidade viável deve ter pelo menos um milhão de habitantes. É a quantidade mínima de seres pensantes, a meu ver, para que ocorram trocas de idéias, diferentes visões de mundo, comportamentos diversificados, gastronomias. Em cidade de quatro mil habitantes, eu sufoco em menos de uma semana. Por outro lado, vida sexual ativa aos cem anos é filme de horror. Que corpo pode apresentar a uma mulher um homem centenário? Conheci, há uns cinco anos, pessoa que muito admirei. Tinha 93 anos e bebia uma garrafa de vinho todo santo dia. Ainda dirigia e, na ocasião, planejava uma viagem de turismo a Recife. Nome do personagem, sem trocadilhos: Étilo. Vontade imensa de arrastar “seu” Étilo ao consultório de minhas médicas e apresentá-lo: é assim que se chega bem aos noventa, uma garrafinha de vinho por dia. Morreu há pouco, com 97 anos. Não penso chegar lá. Mas se chegar, reivindico minha dose diária. "O século 19 foi o século dos antibióticos, o século 20, o das doenças cardiovasculares e do câncer, e o 21 é o da longevidade", diz Coler, ao justificar por que crê que Vilcabamba é a meca desta época em que ser saudável é fundamental. O médico acha que “os 120 anos que até agora são um limite podem se converter em 150. Velhice e morte deixarão de ser palavras absolutas". Dr. Coler que me desculpe. Rumo a essa Meca não pretendo peregrinar. O que ele louva como ideal de vida saudável não é vida. É tragédia. Velhice e morte sempre serão palavras absolutas, por mais que se espiche o limiar da vida. Setenta, no máximo oitenta, para mim está muito bom. O máximo que almejo é o que pede Buñuel ao final de suas memórias: “Um pesar: já não saber o que irá ocorrer. Abandonar o mundo em pleno movimento, como que no meio de um folhetim. Creio que esta curiosidade em relação ao após-morte não existia antigamente, ou existia menos, num mundo que pouco mudava. Uma confissão: apesar de meu ódio pela informação, gostaria de poder erguer-me entre os mortos, a cada dez anos, caminhar até uma banca de jornais e comprar alguns. Não pediria mais nada. Com os jornais debaixo do braço, lívido, esbarrando nos muros, retornaria ao cemitério e leria os desastres do mundo, antes de tornar a dormir, satisfeito na proteção tranqüilizadora da sepultura”. E mais não quero.
SUA SANTIDADE RECEBE SANTA DILMA ROUSSEF Depois que um assassino de gatilho fácil como Che Guevara é cultuado como santo na Bolívia – San Ernesto de la Higuera – nada mais surpreende. Leio no noticiário on-line que Sua Santidade Bento XVI recebeu, no Vaticano, ao lado do Supremo Apedeuta, a terrorista Dilma Roussef, hoje ministra da Casa Civil. Que papas recebam terroristas, isto é normal. O insólito é um papa receber uma terrorista tupiniquim. Alvíssaras, patrioteiros! Sua Santidade avaliza o terrorismo pátrio. Roussef, na década de 60, participou das organizações terroristas Política Operária (Polop) e Comando de Libertação Nacional (Colina). O gesto de Bento não significa necessariamente canonização. Mas já é um primeiro passo. Resta saber se algum cronista tucanopapista vai denunciar o heresiarca da Santa Sé. Ou se vai lamber humildemente as sandálias do bispo de Roma.
Quarta-feira, Novembro 12, 2008
UM AUTOR DE FATO BOM “E ainda tenta sujar o nome de autores de fato bons, como Jorge Amado, comprovando que também é um invejoso” – escrevia um de meus contestadores na mensagem anterior. De fato, era ótimo. Leiamos por exemplo este trechinho de O Mundo da Paz: “Vós sabeis, amigos, o ódio que eles têm - os homens de dinheiro, os donos da vida, os opressores dos povos, os exploradores do trabalho humano - a Stalin. Esse nome os faz tremer, esse nome os inquieta, enche de fantasmas suas noites, impede-lhes o sono e transforma seus sonhos em pesadelos. Sobre esse nome as mais vis calúnias, as infâmias maiores, as mais sórdidas mentiras. ‘O Tzar Vermelho’, leio na manchete de um jornal. E sorrio porque penso que, no Kremlin, ele trabalha incansavelmente para seu povo soviético e para todos nós, para toda a humanidade, pela felicidade de todos os povos. Mestre, guia e pai, o maior cientista do mundo de hoje, o maior estadista, o maior general, aquilo que de melhor a humanidade produziu. Sim, eles caluniam, insultam e rangem os dentes. Mas até Stalin se eleva o amor de milhões, de dezenas e centenas de milhões de seres humanos. Não há muito ele completou 70 anos. Foi uma festa mundial, seu nome foi saudado na China e no Líbano, na Rumânia e no Equador, em Nicarágua e na África do Sul. Para o rumo do leste se voltaram nesse dia de dezembro os olhos e as esperanças de centenas de milhões de homens. E os operários brasileiros escreveram sobre a montanha o seu nome luminoso”.
O CURTO CAMINHO DE STALINISTA A SANTO Comentei, em crônica anterior, que os comunistas, imbuídos da idéia de serem os detentores da verdade e do sentido da História, jamais aceitaram a idéia de serem terroristas a serviço de uma utopia sangrenta. Esta mesma certeza os leva a não aceitar a idéia de anistia para seus adversários. Para um comunista, anistia é sempre unilateral. “Anistia é para mim, que lutei do lado do Bem. Nós, comunistas, temos de ser perdoados por nossos crimes. Para eles, que lutaram nas hostes do Mal, anistia nenhuma”. Vários foram os mails de protesto. Seleciono alguns: 1) O autor do texto é um tremendo cínico; quer por força das palavras descaracterizar o que é uma ditadura: um regime criminoso e arbitrário que prende, tortura, persegue e mata, o oposto do Estado de Direito, onde os governantes estão sob o jugo das leis. O infeliz quer justificar a ditadura caluniando as vítimas como terroristas, quando na forma pessoas que não aceitaram ser vergados e intimidados pelo regime criminoso e muitos foram mortos na tortura, covardemente, isto é, depois de presas. Devia ter vergonha; mas não é um homem, é um rato. 2) Devo discordar de que o autor seja um cínico. Muitas pessoas têm a ilusão de que havia um complô comunista para dominar o país. A fantasia é ainda maior, porque qualquer um que conheça a realidade nacional sabe que não é possível fazê-lo numa sociedade tão conservadora. O que ele é, isso sim, é um pedante, que tenta nos embromar usando um vocabulário barroco. E ainda tenta sujar o nome de autores de fato bons, como Jorge Amado, comprovando que também é um invejoso. Agora, cínico, penso que não. 3) O conceito de terrorismo não é o mesmo em diferentes países do mundo. Acho que seria bom o autor dar uma estudada nisso antes de falar. No site da Abin tem esta informação. O conceito de terrorismo usado pelo autor não é o oficial, vigente no Brasil, mas sim sua opinião sobre o tema. 4) O autor está certo: os crimes tornam-se mais graves quanto mais limpinha a vítima. Mesmo assim, nem todos os mortos ou torturados pela ditadura eram comunistas ou tinham levantado armas. Alguns sofreram simplesmente porque ousaram manifestar sua insatisfação. Além disso, a tese de que os comunistas estavam querendo dominar o país é ridícula: quem tomou o poder à força foram os militares. E derrubaram um governo perfeitamente legítimo e eleito democraticamente. Eu, o rato, respondo. Em momento algum neguei a ocorrência de uma ditadura no país. Existiu, matou e torturou. Da mesma forma como a guerrilha existiu, matou e torturou. Quem pega em armas contra um Estado, não pode pretender uma reação com flores. Terroristas e militares mataram, de parte a parte. O Exército matou mais? É normal. Exército não existe apenas para desfilar em paradas. Por definição, é uma força treinada para matar. Além do mais, tinha superioridade numérica, superioridade em armas e uma infra-estrutura nacional. A guerrilha perdeu a luta armada. Verdade que mais tarde ganhou a luta administrativa, revelando-se um excelente investimento, pelo menos para os sobreviventes. Enquanto milhares de brasileiros morrem sem receber os precatórios que o Estado lhes deve, os militantes da guerrilha têm sido recompensados com indenizações e aposentadorias milionárias. Isentas de imposto. Os leitores, seguindo a ladainha de Tarso Genro, o ministro da Justiça, pretendem que a luta armada das esquerdas não pode ser definida como terror. Isto é, seqüestrar diplomatas, assaltar bancos, matar pessoas que nada têm a ver com o embate político, executar colegas de armas, elaborar manuais de terrorismo, isto não é terrorismo. Os militantes das esquerdas viajavam para a União Soviética, China, Cuba e Argélia não para treinar guerrilha, mas para exercitar-se em paintball. Os fuzis que Fidel mandou para as Ligas Operárias do Julião não eram para matar pessoas, e sim para espantar caturritas. Celerados como José Genoíno, Zé Dirceu, Dilma Roussef, Franklin Martins, Fernando Gabeira, Apolônio de Carvalho, Joaquim Câmara Ferreira, frei Tito de Alencar, Mário Alves de Souza Vieira, Carlos Lamarca, Carlos Marighella eram cidadãos beneméritos que só apelaram ao terror para introduzir a democracia neste Brasil dominado por militares. Claro que não houve um assalto comunista ao poder. Cuba, China e União Soviética estavam financiando a guerrilha apenas com o exclusivo intuito de fortalecer as instituições democráticas no país. A Aliança Libertadora Nacional (ALN), a Ação Popular (AP), a Ação Popular Marxista-Leninista (AP-ML), o Comando de Libertação Nacional (Colina), as Forças Armadas da Libertação Nacional (FALN), a Frente de Libertação Nacional (FLN), o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), a Organização Revolucionária Marxista – Política Operária (ORM-POLOP), o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partido Comunista do Brasil (PC do B), o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (Val-Palmares), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) – todas estas organizações nada tinham a ver com comunismo. Eram, singelamente, instituições beneficentes que pretendiam salvar o Brasil de uma ditadura militar. Os comunistas não dominaram o país porque os militares tomaram o poder à força. No que dependesse de Jango, estaríamos vivendo até hoje numa republiqueta soviética. Quando militar toma o poder é crime. Quando comunista toma o poder, é revolução. Espantoso constatar que, apenas passadas quatro décadas, os bandoleiros que tentaram tomar o poder para instalar uma ditadura stalinista, de repente assumiram a auréola de santos.
Terça-feira, Novembro 11, 2008
AFRODESCENDENTE SUMIU E NEGRO VOLTOU À MODA Pois... se a memória não me falha – e acho que não me falha – até bem poucos dias atrás falar em negro, referindo-se a pessoas, era politicamente incorreto. Mesmo jornais da grande imprensa, que normalmente não se submetiam ao novo jargão, grafavam afrodescendente. Agora, miracolo! Temos um presidente negro nos Estados Unidos. Que aliás nem negro é, mas mulato. Ora, se os americanos não aceitam a definição de mulato, este não é nosso caso. Mas a imprensa tupiniquim aderiu: presidente negro. Depois de Obama, está definitivamente extinta no Brasil a raça mulata. E o afrodescendente, para onde foi? Até hoje não li em jornal algum nada sobre presidente afrodescendente. São caprichosas, as palavras.
SOBRE A ILHA E OS ILHÉUS Escreve-me um leitor: Prezado Janer Cristaldo, Li seu artigo "Pragas Urbanas" e me identifiquei com a sua triste experiência de ter morado em Florianópolis. Infelizmente, eu morei em Nossa Senhora do Desterro durante um ano e detestei os ilhéus. Fui seduzido pela beleza das praias e me mudei para a ilha. Somente morando lá foi que comecei a conviver com os ilhéus e tomei ojeriza desse povo. Mas o que se poderia esperar dos descendentes de portugueses que foram desterrados naquela ilha? Fugi de Desterro assim que surgiu a primeira oportunidade. Abração, Luís Meu caro Luís: eu não diria que o problema reside na descendência de portugueses. Afinal, Portugal produziu tanto o padre Vieira como Camões, Eça de Queirós e Fernando Pessoa, o infante Dom Henrique e Fernão de Magalhães. O buraco é mais embaixo. Os ilhéus descendem de açorianos, o que é um pouco diferente. Daí sua incultura. Abandonei a ilha em 89. Mas creio que o ambiente mudou um pouco de lá para cá, graças justamente à contribuição daqueles que os ilhéus chamam de "gente de fora". Segue crônica que escrevi na época.
ZELOTISMO ILHÉU* Três são os males que acometem um gaúcho em visita às praias de Santa Catarina: Tunga penetrans, Larva migrans e encatarinamento. O primeiro é o bicho-do-pé e tem cura fácil, basta comprar uma pomadinha na farmácia. O segundo também atende por bicho geográfico e parece querer desenhar, sob a pele do hospedeiro, o mapa da ilha em alto relevo. A terapia é a mesma. Pior é o encatarinamento: desencatarinar-se sai bem mais caro. Em geral, exige cinco ou mais anos de residência no local de contágio. Encatarinamento é aquela sensação de paz e bem-estar que inunda o gaúcho, já cansado do asfalto e concreto de Porto Alegre, quando se deixa contaminar pelo verde e azul da ilha, pelo recortes suaves da Lagoa da Conceição e de suas praias. Para quem nasceu na pampa, um mar ondulado sempre lembrará o lento vai-e-vem dos alhos-bravos, batidos pelo minuano que vergasta as coxilhas. O encatarinamento se instala quando o gaúcho decide: “A ilha é linda. Ainda volto para ficar”. Se tiver passado pela ilha em turismo rápido, voltará com o vírus incrustado na alma. Se um dia cometer o desatino de voltar para ficar, terá percepções insólitas sobre a nova geografia. Ao atravessar a ponte, não mais será visto como cidadão de um mesmo país. Se rio-grandenses e catarinenses são brasileiros, do ponto de vista legal e político, na ilha criou-se uma sutil distinção. Os que nela moram são definidos pelos ilhéus como “gente nossa” e “gente de fora”. Gente nossa é o nativo descendente de açorianos, que lá vive há décadas, fala um português chiado e vive em geral da pesca, turismo ou cabides estatais. A mídia local criou uma palavra para designá-los, portada com orgulho: manezinhos da ilha. Gente de fora não é exatamente todo não-ilhéu. Se o visitante ficar por lá uns quinze dias, chama-se turista. Quanto mais gastar será melhor visto. Mas ai do turista se decide ficar. Vira automaticamente gente de fora. Esta rejeição, tive ocasião de constatá-la onde menos seria de se esperar. Em meus dias de UFSC, em uma reunião do Departamento de Letras, cogitou-se da contratação de um professor com doutorado, vindo de São Paulo. Do fundo da sala, alguém estrilou: “Já vão trazer mais gente de fora”. Expliquei pacientemente que uma universidade, por definição, jamais se faz com “gente nossa”. Toda universidade, desde a Sorbonne até a USP, é erguida com gente de fora, e esta é sua vocação. “Se a gente de fora abandonar esta ilha, professora, a universidade desmorona”. A xenofobia insular assume laivos hidrófobos quando a gente de fora é o gaúcho. Apaixonados pela ilha, não somos correspondidos. Qual é o menor circo do mundo? — costumam perguntar os ilhéus. São as bombachas: só cabe um palhaço dentro. No que até teríamos de concordar, caso se referissem às figuras circenses dos CTGs. Mas não é o caso. Com esta piada, que julgam espirituosa, querem referir-se a rio-grandenses que jamais usaram bombachas e lá estão para dar seu contributo à comunidade local. Em Um Estudo de História, Arnold Toynbee investiga os contatos entre civilizações no espaço e os conflitos daí decorrentes. Segundo o historiador, as civilizações "agressivas" tendem a estigmatizar suas vítimas como inferiores em cultura, religião ou raça. A parte ofendida reage, seja tentando forçar-se a um alinhamento com a cultura estrangeira, seja adotando uma postura exageradamente defensiva. Estas duas reações, insensatas para o autor, são definidas como zelotismo e herodianismo, atitudes assumidas pelos judeus ante à violenta pressão do helenismo. "A facção zelota — diz Toynbee — foi formada por pessoas cujo impulso, em face dos ataques lançados por uma civilização alheia e vigorosa, foi assumir a posição negativa de destruir o formidável agressor. A fé que animava os zelotas era a convicção de que, se mantivesssem sua tradição ancestral e a preservassem intacta e inalterada, seriam recompensados, recebendo a força e a graça divinas para resistirem à agressão alheia, por mais hegemônica que parecesse a superioridade material do opressor. A postura dos zelotas foi a de uma tartaruga que se recolhe ao casco, a de um ouriço que se enrola dentro de uma espinhenta bola defensiva". Interrogado sobre o que seria necessário para despoluir Florianópolis, disse o governador Espiridião Amin: “mandar embora alguns gaúchos”. Nada de novo sob o sol. Sem o significado maior do embate na Galiléia, em Santa Catarina a história se repete como piada sem graça. Os gaúchos sempre tiveram uma influência benéfica no desenvolvimento econômico e cultural do Estado, construíram as bases de sua universidade e dinamizaram a imprensa catarinense. Em um acesso de zelotismo, Amin assumiu a postura suicida do ouriço. Que o Manezinho da Ilha tenha vontade de ver o gaúcho pelas costas, entende-se. É sua forma de reagir a uma cultura forte e invasora. No fundo, gostaria de exigir passaporte e visto de entrada a todo gaúcho que atravessa a ponte. Que um governador assuma este estado de espírito já é mais grave. Cultor da poesia gauchesca, político que costuma recitar os preceitos do Antônio Chimango para administração da estância, Amin deve conhecer também as coplas de Fierro: Los hermanos sean unidos, porque esa es la ley primera; tengan unión verdadera en cualquier tiempo que sea, porque si entre ellos pelean los devoran los de ajuera. * Crônica escrita nos anos 80, já em minha fase de desencatarinamento.
Segunda-feira, Novembro 10, 2008
PRAGAS URBANAS Há países e governos tentando proibir o consumo de cigarros em lugares públicos. É uma opção. Se bem que, se alguém quer destruir-se, não vejo como isto possa ser impedido. As campanhas antitabagistas alegam a proteção dos fumantes passivos. Que estes estariam expostos aos mesmos riscos do fumante ativo. As estatísticas são fartas. Não sei. Em primeiro lugar, sempre fico com um pé atrás quando me falam de estatísticas. Em segundo, desde que nasci – e isso já faz seis décadas – sou um fumante passivo. Meu coração e pulmões estão ótimos. Adoro fazer exames de coração e pulmões, só para ouvir elogios dos médicos. Não é sempre que, aos sessenta anos, a gente tem órgãos a serem louvados. Nunca fumei em minha vida. Quando adolescente, certa vez pus um cigarro na boca. Não gostei, joguei-o fora. Nasci entre fumantes, vivi toda minha entre fumantes, passei minha adolescência vendo filmes onde era difícil saber quem fumava mais, se o mocinho ou o bandido, e jamais me ocorreu fumar. Em minha casa, sempre tenho cinzeiros para quem fuma. Mas – afinidades eletivas obligent – praticamente ninguém fuma em meu pequeno círculo de amigos. Ah! De modo geral, também não dirigem. Tenho vivido, ultimamente, entre pedestres inveterados e não-fumantes. Não me queixo de pessoas que fumam em bares. Verdade que há alguns bares muito fechados e com excesso de fumantes onde é difícil ficar por muito tempo. O Hawelka, em Viena, por exemplo. Ali a barra é pesada. Uma hora de permanência e no outro dia você tem de mandar lavar a roupa. Na Europa, estive em mais alguns, principalmente na França e Espanha, onde o fumo era excessivo. Mas são exceções. Hoje, não existem mais. Nunca vi no entanto autoridades ou ONGs se manifestarem contra uma das piores pragas urbanas que estão invadindo todos os espaços públicos, a televisão. Há lugares em vamos espontaneamente, como bares ou restaurantes. Teoricamente – e apenas teoricamente – podemos escolher ambientes sem a maldita telinha. Mas há lugares em que temos de ir compulsoriamente. Consultórios médicos, sem ir mais longe. Quando vivia em Florianópolis, anos 80, tive um problema no cotovelo. Ficou roxo e escamado. Fui procurar um ortopedista. Primeira providência, escolher um médico cujo nome me garantisse que não era ilhéu. Achei. Dr. Panagiottis. Deve ser grego, pensei. Então vamos lá. Na exígua sala do consultório, quase me batia na cara uma televisão mostrando desenhos animados japoneses, em alto volume. Eu era o único cliente do consultório. Pedi pra moça desligar. "De jeito nenhum. E tem mais. Se o senhor fizer tratamento aqui, na sala de fisioterapia tem mais duas". Considerei um atrevimento, mas relevei. Falo com o médico, pensei, e faço essa analfabeta desligar a televisão. Ledo engano. Panagiottis me recebeu e fui logo dizendo: - Dr., estou com um problema, não sei o que é, mas antes de falar de meu problema, quero falar de um outro, aquela televisão na recepção. - Que é que tem a televisão? - Bom, é que eu não gosto de televisão, acho um insulto televisão na cara do cliente. Se a moça não desligar a televisão, não volto mais aqui. - Gozado, o sr. é o primeiro cliente que reclama. - Então é a primeira vez que chegou vida inteligente a seu consultório. Ele ficou perplexo. Pedi que me indicasse algum outro médico. - Posso indicar. Mas todos têm televisão no consultório. - Pois então vou a Porto Alegre. Imaginei que estava tratando com alguém, no mínimo, oriundo da Grécia. Depois descobri a história. Por ocasião da construção da ponte Hercílio Luz, no início do século, o governo andou contratando escafandristas gregos. Os descendentes de Ulisses, Homero, Platão, Sócrates e Aristóteles gostaram da ilha e acabaram ficando por lá. As novas gerações se catarinizaram irremediavelmente. Em verdade, eu estava falando com um ilhéu abominável. Assim sendo, ó hipotético leitor de Santa Catarina, muito cuidado ao escolher um médico de sobrenome grego. Provavelmente é um ilhéu atroz. Vai daí que a mancha sumiu e não precisei ir a Porto Alegre. Mas fiquei sabendo que consultórios médicos em Florianópolis sempre terão o maldito aparelhinho na sala de espera. Aqui em São Paulo, ao chegar, fiz outro escândalo. Fui consultar um alergologista, de novo a maldita televisão. Pedi pra moça desligar. Ela disse que não desligava. "A questão é muito simples, moça. Vai lá falar com o médico. Se não desligar, vou buscar outro". Ela foi lá, o médico mandou desligar. Furiosa, saiu e me deixou sozinho na sala. O silêncio a levava ao pânico. Mas isso faz quase vinte anos. Tive de me render. A clientela é quem exige televisão. O mundo contemporâneo está repleto de brutos que não suportam o silêncio. Hoje, peço apenas pra baixar o volume. De preferência, me sento embaixo da televisão. Pois os movimentos na tela acabam atraindo o olhar. Fiz ainda uma lista dos restaurantes que não têm televisão. São os meus diletos, embora às vezes caia nalgum que tem. Sem som, até que passa. Merencória conclusão: paga-se muito caro em São Paulo para freqüentar um restaurante sem televisão. Depois me acusam de eurocêntrico. Ora, é bastante raro encontrar televisão em bares europeus. Embora já existam. Lembro que, em 2000, em minha primeira viagem à Noruega, desembarquei em Oslo em um feriadão. Busquei um grande restaurante, em meio a um parque. Não conseguia acreditar no que via. Eu, que abominava os bares brasileiros por sua mania de televisões, me deparei com um bar com oito telões imensos, todos transmitindo futebol. Havia um campeonato europeu naqueles dias e os hiperbóreos noruegueses haviam-se rendido à estupidez do Terceiro Mundo. A crônica gastronômica paulistana sempre indica se um restaurante tem ou não estacionamento, se aceita este ou aquele cartão de crédito, se tem áreas para fumantes e não-fumantes. Jamais vi jornal que informe quais casas têm ou não têm televisão. Seria uma informação importante, que inclusive selecionaria clientes. Os brutos optariam pelos restaurantes com tela e nos que não a tivessem sempre teríamos chance de privar com pessoas inteligentes. Ocorre que o mundo está se manifestando cada vez mais hostil a quem prefere o silêncio. O nível de ruído que uma pessoa suporta, dizia Schopenhauer, é inversamente proporcional à sua inteligência. Assino embaixo. E vou freqüentando, enquanto existem, aqueles restaurantes onde o silêncio só é quebrado por vozes humanas e tinir de talheres.
Domingo, Novembro 09, 2008
SUPER-OBAMA? Algo que sempre achei curioso nas histórias em quadrinhos americanas é que o herói geralmente está preocupado não só com a salvação da nação, mas também com a salvação do mundo. Isso quando não está em jogo a salvação do universo. É megalomania tipicamente americana, que se reflete inclusive no cinema. Você consegue imaginar um super-herói brasileiro, por exemplo, preocupado com a galáxia? Aposto que não consegue. No máximo, nosso herói quer restabelecer a ordem na favela. O recentemente eleito primeiro presidente negro americano – que nem é negro, mas mulato – parece ter herdado este legado ianque. Pergunta-se, na capa, uma revista brasileira: PODE ESTE HOMEM SALVAR A AMÉRICA E O MUNDO? A chamada merece algumas considerações. Em primeiro lugar, será que a mais poderosa potência contemporânea está precisando ser salva? Em segundo, Obama foi eleito para presidir o país ou para salvá-lo? Foi eleito como presidente ou como messias? Concluindo: foi por acaso eleito para salvar o mundo? Há uns bons vinte séculos, um judeu pretendeu isto. Deu no que deu.
INIMIGOS DO BEM-ESTAR DA HUMANIDADE QUEREM PROIBIR AQUECIMENTO DE BARES Os ecochatos são certamente uma das piores seqüelas oriundas da morte do comunismo. Como já não se pode combater o Ocidente e o capitalismo em nome de ideais proletários, a nova bandeira é a salvação do planeta. Mas o alvo continua o mesmo, os confortos que o mundo capitalista produziu. Nas últimas duas ou três décadas, surgiu na França e outros países europeus uma forma inteligente de combater o frio nos invernos. Em suas terrasses, cafés e restaurantes instalaram estufas elétricas ou a gás, que protegem o cliente da intempérie, mesmo que este esteja do lado de fora do café. Pode estar nevando além do toldo do bar. Mas embaixo do toldo, sob os chamados braseros, faz calor. Aliás, estas estufas já surgiram há alguns anos aqui em São Paulo. É uma maneira de se estar na rua, em pleno inverno, sem sentir frio. Os braseros tiveram uma grande expansão na França a partir do ano passado, quando fumar tornou-se proibido em qualquer ambiente fechado. A solução encontrada foi instalar mais estufas nas terrasses, para não perder a clientela fumante. Ora, para a infame raça das esquerdas, pessoas felizes constituem um insulto. Três deputados verdes depositaram no Parlamento um projeto de lei visando interditar o aquecimento das terrasses, símbolo – para estes estraga-prazeres – de “um desperdício ocidental estúpido”. A idéia não é nova. Em fevereiro passado, três outros deputados europeus haviam pedido à Comissão Européia que estabelecesse um calendário de retirada do mercado de todos os materiais energívoros, particularmente os famosos braseros que floresciam na frente dos cafés nos invernos. Como se o ser humano pudesse viver sem consumir energia. Os inimigos do bem-estar da humanidade alegam que o rendimento energético destes equipamentos é forçosamente mau, já que o essencial do calor produzido serve para aquecer a rua. Como se aquecer uma rua fosse pecado. Argumentam que um aquecedor à gás queima um quilo de propano por hora e lança, no mesmo tempo, três quilos de dióxido de carbono na atmosfera. Como se alguma fonte energética não produzisse resíduos. As idéias de jerico, que tanto nos assolam, estão ameaçando o conforto dos europeus. Mais um pouco e os ecochatos pedirão a interdição dos fornos à lenha, afinal são fatores de desflorestamento. No fundo, uma tentativa de satanização de tudo que é bom e confortável. Os verdes já fazem terrorismo contra as pessoas que usam casacos de pele. Como se a humanidade pudesse ter sobrevivido aos rigores do clima sem usar a pele de animais. Pretendem proibir os prazeres do foie gras. Isso sem falar nos celerados que julgam todo consumo de carne animal um crime. Como se a humanidade pudesse ter chegado até aqui sem consumir carne animal. “Nós já nos submetemos ao jogo aceitando a proibição de fumar em lugares públicos” – diz Didier Chenet, presidente do Sindicato de Hoteleiros e Restauradores. – “Mas agora chega. Querem nos impedir de trabalhar”. Para Bernard Quartier, presidente da Federação Nacional de Bares e Brasseries, “estão matando nossos comércios. Os bistrôs já sofreram demais. A medida é ridícula e inapropriada”. Para os novos apparatchiks do meio-ambiente, a humanidade ideal deveria comer verduras em recintos gelados, preferentemente com água de torneira. O pior é que as péssimas idéias viajam com a velocidade de moeda ruim. Dentro de pouco, inevitáveis como o amanhecer, teremos no Brasil idiotas propondo o fim do aquecimento nos bares. Os ecochatos pregam, nada mais nada menos, a volta da temperatura das cavernas. Coisa que o homem havia conjurado, desde a construção das cidades.
Sábado, Novembro 08, 2008
O ERRO DE WANDERSON O leitor Matheus Carvalho compara a atitude do ladrão que reivindica o direito de assaltar sem que sua vítima reaja com o que o MST vem fazendo há muito. A lembrança é pertinente. Com uma diferença: Wanderson advoga em causa própria. Causas próprias não são bem vistas nestes dias de direitos coletivos. Estivesse Wanderson integrado a uma quadrilha dos sem-terra, dificilmente um juiz falaria em indubitável deboche. O mais provável é que garantisse aos quadrilheiros a posse da propriedade roubada. Ai do proprietário que ousar reagir à invasão de suas terras. Ou se fosse índio. Neste caso, poderia reivindicar até mesmo o direito de matar, em nome de antigas tradições tribais. O fato é que a pretensão do assaltante – de garantir seu direito a assaltar – não é insólita neste país em que a certas pessoas é permitido invadir terras, prédios, fechar estradas, roubar bancos, estuprar – remember Paiakan! – e até mesmo matar. A FUNAI, por exemplo, não considera crime a prática indígena de enterrar vivas crianças indesejadas. Quem mais não fosse, ainda nesta semana, Tarso Genro, o ministro da Justiça, defendia o sagrado direito daqueles que um dia pegaram em armas contra o Estado, assaltaram bancos, seqüestraram diplomatas e assassinaram pessoas inocentes. O erro de Wanderson foi não pertencer a uma tribo. Ou a um movimento social. Ou a um grupo terrorista.
Ó TEMPORA, Ó MORES: JUIZ ABSOLVE VÍTIMA Em Belo Horizonte, um sórdido comerciante teve o desplante de impedir a legítima ação de um assaltante que assaltava sua padaria. Wanderson Rodrigues de Freitas, o assaltante, apresentou queixa-crime contra o comerciante na 2ª Vara Criminal do Fórum Lafayette, alegando que "a ninguém é dado o direito de fazer justiça com as próprias mãos". O juiz Jayme Silvestre Corrêa Camargo, que julgou o pedido, considerou uma "afronta ao Judiciário" a intenção do suposto criminoso em passar de autor para vítima. O suspeito alegou que foi "ofendido na sua integridade corporal" e por isso pediu à Justiça que o comerciante, Márcio Madureira Vieira, fosse enquadrado no artigo 129 do Código Penal. "Após longos anos no exercício da magistratura, talvez seja o caso de maior aberração postulatória. A pretensão do indivíduo, criminoso confesso nos termos da própria inicial, apresenta-se como um indubitável deboche", disse Camargo. Pode soar como piada, mas nem tanto. Nestes dias em que só criminosos têm direito de andarem armados, em que a própria polícia recomenda à vítima submeter-se à vontade da bandidagem, a pretensão do cidadão Wanderson Rodrigues de Freitas não deixa de ser coerente. E isso não é de hoje. Há uns bons vinte anos, numa cidade do interior de São Paulo, uma senhora já avançada em idade teve sua cada invadida por um ladrão. Tinha um revólver em casa, atirou e... milagre, acertou o bandido. Quase foi linchada pelos defensores dos tais de direitos humanos. Não conseguiram colocar a velhota na cadeia. Mas conseguiram desarmá-la. O juiz Camargo rejeitou a queixa-crime por considerar que o comerciante agiu em legítima defesa. Na decisão, alegou que não vislumbrou nenhum excesso por parte da vítima, que "teria apenas buscado garantir a integridade física de sua funcionária e, por desdobramento, seu próprio patrimônio". Nadando contra a corrente do direito contemporâneo, mandou o cidadão Wanderson Rodrigues de Freitas para a cadeia. Como a decisão é de primeira instância, ele ainda poderá recorrer a instâncias superiores. Não se surpreenda o juiz se sua sentença for reformada pelos magnânimos juízes das supremas cortes nacionais.
Sexta-feira, Novembro 07, 2008
LULA SANCIONA BOLSA-GRAVIDEZ Namorar já é complicado. O legislador, que parece não gostar de namoro, criou a figura de união estável, que gera direitos e deveres de casados para quem pretendia apenas namorar. Digamos que você seja hostil à idéia de casamento e queira manter-se livre dos grilhões que esta condição impõe. Se namorar por algum tempo uma moça, estará automaticamente enquadrado na figura da união estável, com todas as seqüelas dela decorrentes. Assim, cuidado com o namoro. Quando você menos espera, estará casado. Comentei em crônica anterior, que não passa dia neste país em que uma idéia de jerico venha a público. Não passa mesmo. Ontem, foi publicada no Diário Oficial da União e sancionada pelo Supremo Apedeuta lei que torna todo cidadão um pai potencial, mesmo que não tenha filho algum. Segundo a mais recente monstruosidade jurídica, toda mulher grávida pode pedir que o suposto pai de seu filho contribua durante toda a gestação com as despesas de alimentação, exames, medicamentos e o parto. Até aí, não se sabe se o suposto pai é de fato pai. Basta que a grávida o indique como pai. Você poderia pedir um exame de DNA, seria o mais sensato. Mas não pode. Sob alegação de risco à criança, foi vetado o artigo que possibilitava a realização do "exame pericial pertinente" na gravidez. Assim, se você foi “eleito” pai por uma funcionária sua, colega de trabalho ou simplesmente por pessoa que o conhece, você terá inexoravelmente de marchar com as despesas decorrentes da gravidez, desde alimentação, exames, medicamentos e o parto. O exame de DNA, só depois de nascida a criança. Descobre-se então que você não era o pai da dita cuja. Se você acha que terá seu dinheiro de volta, está redondamente enganado. Terá de entrar com ação na Justiça e, talvez daqui a cinco ou dez anos, tenha algum ressarcimento. Você não precisa fazer nada para ser penalizado. Basta que uma grávida o eleja como pai. Estão de parabéns todas as sirigaitas do país que reproduzem irresponsavelmente e não têm como sustentar uma gravidez. Basta indicar alguém próximo e terá pelo menos nove meses de sombra e água fresca. Se não era o pai, tanto faz. Não precisará devolver o que recebeu. Digamos que a Justiça determine, daqui a cinco ou dez anos, essa devolução. Se a mãe não tiver como devolver, não devolve e estamos conversados. Punida certamente não será. Pelo texto que passou no Congresso a mãe responderia judicialmente por danos morais e materiais caso o resultado do exame de DNA desse negativo. Mas esse artigo também foi vetado por ter sido considerado "intimidador". Está instituído o direito à calúnia, de exercício exclusivo das gestantes. Não bastasse o Bolsa-Família e o Bolsa-Ditadura, o governo institui agora o Bolsa-Gravidez. Para fazer jus ao benefício é simples. Basta a moça engravidar e apontar como pai o patrão, um amigo, um vizinho, um colega de trabalho, um morador do mesmo prédio, um professor. Se não era o pai, paciência. Depois tenta-se encontrar um outro.
NO PAÍS DO FAZ-DE-C0NTA Há grupos no país todo lutando pela descriminalização do aborto e das drogas. Esta gente está vivendo no país do faz-de-conta. Fingem que o aborto e consumo de drogas é crime. Ora, desde há muito tanto o aborto como as drogas foram legalizados no Brasil. Dados do ministério da Saúde falam em um milhão de abortos por ano. Há um milhão de mães que abortam sendo encarceradas a cada ano? Claro que não. Isso sem falar nos médicos, enfermeiras ou açougueiras responsáveis pelos abortos. Lá de vez em quando, prende-se um médico, para escarmento. Para fingir que aborto é crime. Nem poderia ser diferente. Há 250 mil criminosos no país, com prisão decretada, que vivem livres como passarinhos. Porque não há vagas nas prisões. Onde encontrar então vagas para outros tantos milhões de presidiários? O mesmo diga-se das drogas. O porte de drogas não mais constitui crime, mas contravenção penal. E se é contravenção penal, deixa pra lá. Pune-se o traficante, lá de vez em quando. É a mesma hipocrisia típica de suecos e americanos. A prostituição é legal. Mas se um cliente procura os serviços de uma profissional, está incurso em crime. Seja como for, a maconha e outras drogas correm soltas nos campi universitários, nas escolas e ai de quem denunciar um traficante. Todas as raves – todas – são festivais de consumo de drogas. Não há raves sem drogas. As autoridades sabem disto, a polícia idem, os pais também. Mas é mais fácil o céu cair sobre nossas cabeças do que a polícia invadir uma rave. Ciente desta condição de país do faz-de-conta, o juiz-corregedor dos presídios de Tupã (SP), Gerdinaldo Quichaba Costa, liberou o uso de drogas em sua jurisdição, que abrange quatro penitenciárias, em Pacaembu, Junqueirópolis e Jucélia, com cerca de cinco mil detentos. Preso que usar maconha, cocaína e demais drogas não comete falta disciplinar. Dezenas de suas sentenças absolvem os usuários de drogas nos presídios, pois, segundo o juiz, “a posse de entorpecente, tendo em conta a nova concepção social as drogas, não permite punição com encarceramento”. Os presos do PCC já estão providenciando suas transferências para a jurisdição do juiz Gerdinaldo. Os advogados estão pedindo R$ 20 mil para começar a trabalhar nos pedidos de transferência. Depois dos campi e das raves, surge no país mais um território livre para o consumo de drogas, os presídios. Já que o consumo é permissível, seria interessante instalar – talvez mediante licitação – bocas-de-fumo em cada estabelecimento penitenciário. E se são permissíveis em presídios, por que não instalá-las junto a universidades e escolas? Os traficantes, comovidos, agradecem.
TODA HONRA A QUEM MERECE Sou leitor de livreta de Jarbas Passarinho. Quando vejo sua assinatura, sempre leio seu texto. Passarinho é, a meu ver, um dos raros e lúcidos articulistas de sua geração. Quando ele assina um artigo, normalmente assino embaixo. Mas desta vez meu articulista escorregou. Ao comentar a pretensão de alguns ministros comunistas do atual governo, de excluir da anistia militares responsáveis por tortura e ao mesmo tempo isentar desta exclusão os terroristas que se levantaram em armas contra o Estado, escreve Passarinho na Folha de São Paulo de hoje: “Vannuchi, arrogante, exibe o vezo do totalitarismo de que foi militante: ameaça demitir-se (que perda para o país!) se o parecer da AGU, reconhecendo a anistia para os crimes conexos, for mantido. Aprendeu de Lênin e seu centralismo democrático: "quem não estiver comigo é contra mim". É comum atribuir esta frase a todo e qualquer dirigente político ao qual se quer definir como totalitário. Já li textos que a atribuem a Bush. Ora, as honras devem ser atribuídas a quem as merece. A frase não é de Lênin nem de Bush. Mas daquele judeu deslumbrado e intolerante, que a pronunciou há uns bons vinte séculos. Está em Mateus 12, 30, e também em Lucas 2,23: “Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha”.
Quinta-feira, Novembro 06, 2008
CELERADOS QUEREM MAIS Os comunistas, imbuídos da idéia de serem os detentores da verdade e do sentido da História, jamais aceitaram a idéia de serem terroristas a serviço de uma utopia sangrenta. Esta mesma certeza os leva a não aceitar a idéia de anistia para seus adversários. Para um comunista, anistia é sempre unilateral. “Anistia é para mim, que lutei do lado do Bem. Nós, comunistas, temos de ser perdoados por nossos crimes. Para eles, que lutaram nas hostes do Mal, anistia nenhuma”. Eu estava em Paris, em agosto de 1979, quando João Figueiredo assinou a anistia “ampla, geral e irrestrita”. As esquerdas brasileiras, entrincheiradas na Maison du Brésil, se preparavam para ir a um congresso na Itália, para exigir a anistia. O decreto pegou todos de surpresa. Em primeiro lugar, esvaziava o congresso. Em segundo, significava o fim das mordomias que a França e demais países da Europa ofereciam aos guerrilheiros e sedizentes guerrilheiros. Tendo sido decretada a anistia no Brasil, asilo político não tinha mais razão de ser. Adeus vida mansa, regalias de moradia e universidade, subsídios do governo. Anistia era tudo o que as esquerdas não queriam. Significava ter de voltar e abandonar o dolce farniente em Paris, Berlim, Londres, Estocolmo. Adeus congressos, adeus viagens internacionais, adeus bons vinhos e bona-xira, adeus amadas, adeus! “É golpe da direita” – diziam alguns mais esperançosos. Acontece que não era. Era anistia mesmo, para desespero dos bons vivants. Passados trinta anos, Dilma Roussef, Tarso Genro, Paulo Vanucchi e outros celerados de 64, levantam a tese de que tortura é crime imprescritível e portanto seus autores devem ser punidos. Para sustentar a exótica idéia, alegam que tortura é crime comum, não é crime político, e portanto não está coberta pela Lei da Anistia. Ora, salta aos olhos que a tortura, na ocasião, teve razões políticas. Tortura como crime comum é esta tortura praticada cotidianamente em praticamente todas as prisões do país e que não merece a preocupação de ninguém. Aliás, a preocupação com a tortura só surgiu no Brasil quando os meninos da classe média entraram no pau. Quando só os pobres eram torturados, não víamos ninguém falar em direitos humanos. Ao que tudo indica, os ilustres celerados, no afã do revanchismo, esqueceram de examinar com mais cuidado a Constituição, que reza em seu artigo XLIII: - a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem. E no XLIV: - constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático. Foi preciso que o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, refrescasse a memória dos sedentos ministros de Lula. "Essa discussão sobre imprescritibilidade tem dupla face. O texto constitucional também diz que o crime de terrorismo é imprescritível", disse Mendes. E emendou: "Tenho uma posição muito clara em relação a isso. Repudio qualquer manipulação ou tentativa de tratar unilateralmente casos de direitos humanos. Direitos humanos valem para todos: presos, ativistas políticos. Não é possível dar prioridade a determinadas pessoas que tenham determinada atuação política. Direitos humanos não podem ser ideologizados, é bom que isso fique claro". Tarso Genro, ministro da Justiça, apressou-se em pôr o bigodinho stalinista de molho. Em recente declaração à Folha de São Paulo, afirmou que os grupos de esquerda que adotaram a luta armada contra a ditadura militar "não podem ser classificados como terroristas". O ministro vai precisar de muito malabarismo verbal para provar que seqüestros de diplomatas, assassinatos de pessoas inocentes, assaltos a bancos e execuções sumárias de colegas de armas não constituem terrorismo. Para sustentar sua tese esdrúxula, Tarso afirma que "o terrorismo é sempre uma ação bélica que atinge uma comunidade indeterminada de inocentes que estão fora do conflito". O ministro aceita as leis internacionais e a Constituição, que "tornam o crime de terrorismo perfeitamente enquadrável" como imprescritível. Mas reitera que as organizações de esquerda contrárias à ditadura não se guiaram por esse princípio. "Houve atos isolados." Quantos atos isolados? Se os militares mataram 376 pessoas, os gentis militantes das esquerdas mataram 116. Não são atos tão isolados assim. Sem falar que a guerrilha não foi uma resposta à ditadura. A ditadura é que foi, isto sim, uma resposta à guerrilha. O palavroso ministro parece esquecer que antes de 64 Francisco Julião já montava a guerrilha comunista, com armas recebidas de seu bom amigo Fidel Castro. Derrotados em 1935, os comunistas tentaram tomar de novo o poder em 64. Não por acaso, um dos ídolos de Tarso Genro é o assassino Luís Carlos Prestes. Derrotados em 64, apelaram a uma vendeta administrativa, que concedeu a cada terrorista indenizações milionárias. E não só aos terroristas. Destas indenizações milionárias, participaram inclusive vagabundos menores, como Carlos Heitor Cony e Ziraldo, que nada tiveram a ver com a luta armada. Mas parece que a vendeta administrativa não saciou a sede dos celerados. Querem mais. Querem mandar para a cadeia quem já recebeu os benefícios da anistia. Curioso que façam estas reivindicações trinta anos após a anistia. Pelo jeito, foram acometidos pela síndrome Baltasar Garzón, que quer desenterrar os cadáveres de 1936.
Quarta-feira, Novembro 05, 2008
BLACK DEAD END It is the 23rd century in America. For the first time in history, Blacks are going to elect one of their own to the presidency of the United States. The new President decides to divide the country in two: the South for the Blacks and the North for the Whites. The White majority, however, is not ready to give up its power and concocts a diabolical plan. This futuristic scenario, which includes plans of mass expatriation of American Blacks to the Amazon, was written in 1926 by Brazilian author Monteiro Lobato. Janer Cristaldo We're in the year 2228. In the United States, an elite government is alarmed: statistics show a population of 108 million Blacks vs. 206 million Whites. As the black birth rate continues to rise, the white preservation instinct rises up in legitimate defense. There is talk about a "white solution" and a "black solution". The white solution is, obviously, to expatriate the Blacks. This vision is proposed by Miss Jane, character of the Brazilian writer Monteiro Lobato (1882-1948) in O Presidente Negro ou o Choque das Raças (The Black President or the Racial Shock). At the same time, the old Brazil is separated into two countries, one that centralizes all the South American grandeur, child of the immense industrial focus that emerged along the banks of the Paraná River and the other, a tropical republic, still having fits in political and philosophical debates, discussing voting methods and pronoun placement in the semi-dead Portuguese language. The sociologists of the time "saw in this the reflex of the bloody unbalance as a consequence of the fusion of four distinct races, white, black, red and yellow, the last one predominantly in the Amazon River valley". Miss Jane is the daughter of an American scientist living in Brazil, Professor Benson, who can obtain an anatomical cut of the future via a type of crystal globe called a porviroscópio (futurescope) . Through this device, Jane analyzes the world of the 23rd century. (The action of the novel takes place in 1926). Sir Ayrton, her Brazilian interlocutor, displays sadness about the future of the country. "I don't see any reason for your sadness," Jane responds. "I even think that the division of the country constitutes an excellent solution, the best possible, given the initial error of racial mixing. The hot part remained to suffer the error and its consequences; but the temperate part was saved and can follow the right path. Your sadness comes from a territorial illusion. But consider that a lot of land isn't what makes a people great, but the quality of its inhabitants. Temperate Brazil, besides this, continued to be one of the biggest countries in the world in territory, since it united in the same block Argentina, Uruguay and Paraguay. This idea of a territorial fragmentation of Brazil isn't new in Lobato's time. In Cartas Inéditas de Fradique Mendes (Fradique Mendes' Unpublished Letters), written at the very end of the last century, the Portuguese novelist, Eça de Queiroz was already anticipating this possibility, in a text called "A Revolution in Brazil": "With the empire, according to all probability, Brazil also comes to an end. "This name of Brazil, that in the beginning had grandeur, and for us Portuguese represented a glorious endeavor, becomes an antiquated name of old political geography. A little while from now, the Empire will be breaking up into different independent republics, of greater or lesser importance. This is the result of the historic division of the provinces, the rivalries that exist among them, the diversity of the climate, of character and of the interests and the force of local ambitions. Already, more than one time the provinces have made energetic separation attempts: and separatism becomes in these times, one of the most powerful factors of politics. (...) "The states, once separated, will not be able to keep peace among themselves, being abundant the reasons for conflict —the border disputes, hydrographic questions and Customs since all will naturally want to create income. Each state, left to itself, will develop its own history, under its own flag, according to its climate, the specialty of its agricultural area, its interests, its men, its education and its immigration. Some will prosper, others will falter. Maybe there will be rich Chiles and certainly they will be grotesque Nicaraguas. South America will be covered with the broken pieces of a great Empire!" If Brazil still didn't divide—in spite of suggestions every year of "indigenous nations" with pretensions of autonomy —there already are the rich Chiles and the grotesque Nicaraguas, confirming Eça's intuition. But returning to O Presidente Negro. Senhor Ayrton doesn't understand the reasoning of Miss Jane. Why divide Brazil? Just populate the north the same way as the south.... —A country isn't inhabited as you like, Senhor Ayrton, nor as idealists would like. A country is settled as it can. In our case, it was the climate that established the separation. From the Europeans, the Portuguese got accustomed to the hot part, where, thanks to affinities with the black man, they continued the old process of crossbreeding, ending up creating a people mentally incompatible with the people in the south. The inflation of pigment In order that Senhor Ayrton understand the United States of the 23rd Century, Miss Jane explains the ethnic composition of the country. America would be the privileged region that would attract the most eugenic elements of the best European races. Who were the people on the Mayflower? — Men of such temperament, characters so Shakespearean, that between renouncing their convictions and emigrating to a wild and empty land, where everything was inhospitable and difficult, they didn't waiver. Emigrating, even today, requires much daring, a heightened tonus vital. To leave your country, your home, your friends, your language, to cut all the roots you have had since infancy that tie us to our one homeland, is there a greater heroism? Who does this is someone strong, and just this fact, is a great indicator of courage. But emigrate to an uninhabited land, leave your homeland for the unknown, this is amazing! Immigration laws became selective and the masses that yearned for America, already good in themselves, are sifted through. Europe is drained of its best elements and in the New World, the cream of the immigrants is left over. Then what Miss Jane calls the "initial error" takes place: the black man is plucked out of Africa. Senhor Ayrton notes that the same mistake took place in Brazil, but our solution was admirable: — Within one hundred or two hundred years, our black man will have completely disappeared in virtue of successive cross-breeding with the white man. Don't you think we were happy in our solution? Miss Jane doesn't think so. She regards such a solution as mediocre, since it destroys the two races while fusing them. She prefers that both evolve parallel within the same territory, separated by a barrier of hate, the deepest prophylaxis. Hate stops a race from denaturing, decrystalizing the other, conserving both in a relatively pure state. Ayrton doesn't understand how such an angel of goodness can defend such evil. With the coldness of a scientist, Jane decrees: — There isn't good or bad in the game of cosmic force. Hate loosens as many marvels as love. In Brazil, love killed the possibility of a supreme biological expression. In America, hate created the glory of the human eugenics... The most beautiful examples, strong and intelligent, were discovered where they would have been found and attracted by the American Canaan. Being that the country is fairly populated, it closes its doors to the European flux and the nation begins to grow vegetatively. This is when "pigment inflation" appears. The elite thinkers had convinced themselves that the restriction of the birth rate it is a must, since quality is worth more than quantity. The balance was then broken: "The Whites had quality while the Blacks continued with quantity. Later, when the eugenics completely took over and the Department of Artificial Selection was created, the black boom was tremendous." There is the urge to get rid of the Blacks. The white solution is simple: —All white Americans only want one thing: to export, to oust the one hundred million Black Americans to the Amazon. This, meanwhile, would constitute a formidable task, or rather, impracticable, not only in virtue of tremendous material difficulties, but by wronging the American Constitution. Monteiro Lobato wrote his novel,—or analysis—in 1926. By transporting the action of his work to three centuries later, the author was creating fiction. But, an expert in the history of the United States, he relied on non-fictional projects already fed by the Americans. A country for Black Americans Between 1840 and 1860, an obscure lieutenant in the United States Navy, a mixture of "scientist, visionary and businessman", Matthew Fontaine Maury, employee of the Letters and Instruments Department of the navy in Washington, thought seriously about the subject. The project of the American officer was simple and pragmatic: once the black slaves of his country were released from slavery, they would be sent to colonize the Brazilian Amazon. The Republic of Liberia, in Africa, was a result of one of these projects. And why not colonize the area with Whites? Maury grasped at arguments about geographic order: "The Amazon valley is a region for slaves. The European and the Indian were fighting its jungle for 300 years and didn't make the slightest mark. If one day, its vegetation has to be tamed and made use of, if one day the soil would have to be recaptured from the jungle, as well as the reptiles and wild animals, and subjected to the plow and spade, it will be done by the African. It is the land of parrots and monkeys and only the African is capable of the work that man has to accomplish there". In truth, Maury's project only originality had to do with the insistence on colonizing the Amazon with freed Blacks. From the end of the 1830s, the United States had aimed to open navigation of the Amazon River to all nations. Before the military dreamer, a certain Joshua Dodge proposed establishing 20,000 American immigrants along the Amazon. All promising to recognize Brazilian sovereignty, at least during the first years of colonization. Deep down, there was a similarity with what was done with Texas, aspiring to annex the region to the United States. The strategy was simple. Just "buy" some Brazilians in Manaus that would become "legitimate representatives" of an "Amazon Republic", which would declare itself independent from Brazil, including disagreeing with the way the country was governed, by monarchy." In case the Brazilian government would have sent ships and troops to reestablish its sovereignty, the citizens of the new independent Amazon state would appeal for American protection. And a force of armed men would go to the Amazon to "protect the life and threatened possessions of the American citizens". Who tells us this almost unknown American expansion project is Professor Nícia Vilela Luz, in A Amazônia para os Negros Americanos (Amazon for Black Americans). In this work, the author shows that many Americans, well before the Civil War, thought it would be more attractive to free all the slaves and send them out of America. The greatest interpreter of this desire is Lieutenant Maury: "He was worried about the problem of the black man in the United States, since the abolition of slavery was close at hand. Convinced of the white man's superiority, he could only accept the Black in a condition of servitude and never in an equal position with the white man. What to do then with this black population once liberated and whose multiplication could still overwhelm the white race?" — The institution of slavery such as it exists in this country — mused Maury—fills the thoughts of its statesmen with anxious concern. What will be its destiny? If abolished, how would so many people be discharged? If maintained, what to do to control it? But, "God himself, his all knowing providence, will dictate the destiny to be fulfilled by the black and white races, whatever it may be". "And God had preserved the Amazon solitary and uninhabited in order that the problems of the South could be resolved—continues Vilela Luz. Cornered in the North where they would not find more "Mississippis to cultivate" nor more "cotton fields to pick", the Southerners, to free themselves of their excess Black population, saving at the same time their economy and their "strange" institution would find a "safety valve" to the south, in the Amazon valley. It was the "only ray of hope" to shine on them in that dramatic moment in which the American regime of slavery was debated". Let's return to the fiction of Lobato. For Miss Jane, the Blacks talked of a more viable solution: they wanted the country divided in two, the South for the Blacks and the North for the Whites, since America emerged from the efforts of both races. If it wasn't possible to enjoy together the work done together, it would be reasonable to divide the land into two pieces. We have then, at the beginning of the century, a Brazilian writer anticipating the proposals of contemporary leaders like Farrakhan. It's important to remember that at this time Lobato still had not traveled to the United States. The Whites didn't want to give up their status-quo and the problem became threatening. This is when a candidate capable of uniting the black electorate came forth: Jim Roy, with a slightly copper complexion, appearing to be a mixture of Senegalese and redskin. The color of his skin was nothing like the color of today's Blacks (this is 1926, the year in which the author situates his story). — No — Miss Jane responds. This wasn't influence from the middle, nor something particular of Jim Roy's. Almost all the black population of America had the same skin as he had. Science had resolved the case of color by destroying the pigment. So if Jim Roy should appear in front of us today, it would be a more disconcerting surprise, since this pure black man, without a drop of white blood in his veins, was, in spite of having frizzy hair, horribly whitish. The visionary spirit of Lobato anticipates, en passant, the Black American tendency that spawned Michael Jackson. Sr. Ayrton says astonished: — Peeling cockroach, I know... — But not even eliminating with the means of science the essential characteristic of race, did Blacks stop being black in America—Miss Jane continued. Instead they aggravated their social situation, because the Whites, proud of their ethnic purity and the privilege of the white color, wouldn't forgive that camouflage of depigmentation. Jim Roy, leader of the Black Association party, wasn't even a threat to power. He represented 100 million Blacks, against 200 million Whites. It just happened that among the Whites, a serious dissension was taking place, a party of women. The old Democratic and Republic parties had fused into a strong block called the Masculine party, led by Kerlog, the incumbent President who was running for reelection. This block wasn't certain of victory, since the opposition party, the Feminine, possessed a larger number of voices, led by Miss Evelyn Astor. Statistics gave the Masculine Party 51 million votes, the Feminine 51.5 and the Black Association, 54 million. The election depended, therefore, on the posture of Jim Roy. The election was getting close. In 2228, elections occurred within a few minutes, due to technological advances predicted by Lobato. Lobato predicts the Internet Through Miss Jane, the writer of Taubaté begins to describe the future society of America: — By today's system—Lobato refers to 1926—man goes to work, to the theater to a concert, in a coming and going that constitutes an enormous loss of energy and is the creator of millions of vehicles cluttering up space, streetcars, cars, bicycles, trains, planes and others. With the fecund discovery of Hertzian waves and similar findings and its consequent use in the interests of man, coming and going was reduced to a minimum. Work, theater, concerts started to come to peoples' place. The transformation of the world was fabulous when the larger part of industrial and commercial work began to be done from a distance via radio-transport." For the less attentive reader, the text could be a production of some more or less contemporary utopian, planning for the near future a society where every citizen would depend on public transportation either a little or not at all. Utopian, perhaps. Contemporary, not so much. Clairvoyant, without a doubt. Let's go! Let's see his journalistic vision, in the eyes of Miss Jane: "With today's system, the journalist writes his topic at home or he goes to write it in the editorial room; after writing, he gives it to the typesetter; he typesets it, gives it to the form maker, who puts it in a form and gives it to the proofer, he make a proof and sends it to the proofreader; he proofreads it and sends it to the corrector, he makes the corrections and..... it never ends! It's a chain of uncountable links, this inside the offices, since the newspaper on the street starts a whole new chain on the way to the reader—mail, agents, delivery men, vendors, the devil". "I was in a newspaper office and I know what you are talking about. Pure hell...", Ayrton responds. According to Miss Jane, "all these complications disappeared. Every writer of Remember transmitted from his house, at a certain time, his article, and immediately his written ideas appeared in shining characters in the house of the subscriber." "How marvelous!... "Yes, there wasn't an industry, like that of the newspaper, that wouldn't undergo a simplifying influence from radio-transport—and that took from daily living the old trait of being trampled and agitated." At a time in which the computer, fiber optics and satellites belonged to the mental universe of visionaries, Lobato speaks of radio-transport. If we would substitute this expression for fax/modem, we have the creator of Bentinho and Jeca Tatu anticipating, seven decades beforehand, a newspaper business that only exists today. The correspondents of any of today's leading newspapers for some time have sent their "shining characters" to their editorial offices. The reader at the end of this century already receives on a screen practically all the newspapers on the planet. When the great quantity of universal literature is digitized, you will be able to consult, from your house, all the libraries in the world. "The streets became friendly, clean and with little traffic"—Lobato continues. "Vehicles still glided along on them, but rarely, like in the long ago, old, provincial cities that had little commercial life. Man delighted in walking and lost his old habits of haste. He found out that haste is just an index of a defective organization and anti-natural. Nature doesn't hurry. Everything in it is calm." This prediction, better to credit it to the utopian disposition of the writer, who didn't manage to glimpse this Brazilian provincial side, who feels naked and humiliated if he doesn't have a four-wheels carriage. After all, you don't have to pay taxes to dream. But Lobato goes even further. Miss Jane considers old-fashioned the revolution of the wheel. According to the girl, "man took the first giant step in transportation with the invention of the wheel. But it ended there. Note that our industrial civilization developed the wheel and now wants to extract all the possibilities from it. Centuries from now, when man can see a vast version of his history, all of this period that comes from the dawn of history and that is going to continue for many generations will be called the Age of the Wheel". "Radio will kill the wheel", Miss Jane concludes. "The wheel, which was the greatest mechanical invention of man, and today reigns supreme, will have its end and man will walk again. What will happen is the following: radio-transport will make today's rush useless. Instead of the employee going to work every day in a street car that glides over noisy steel wheels, he will do his work at home and transmit it to the office. In summary: long distance work". Lobato speaks of radio, the must of the 1920s. If he couldn't have predicted the clouds of terabytes transmitted daily from one end of the planet to the other by the WEB, he perceived very well its consequences. Long distance "telework" —work "transmitted" to the office, as Lobato would say—is already a phenomenon in expansion. Today, any intellectual worker, as long as he has a telephone nearby, can send his product to any corner of the world, fugitive in a chalet in Itatiaia or in search of solitude and wilderness in Tamanrasset. Printed newspapers thousands of kilometers from their offices aren't a novelty anymore. According to the French historian Roger Chartier, the revolution taking place today is much bigger than Gutenberg's of 1455, "since it transforms the very forms of written transmission. The passing of a book, newspaper or magazine, as we know them today, to the computer screen, breaks the structural materials of written text. The only possible historical comparison is the beginning of Christianity, in the second and third century when the book of Antiquity, in the form of a scroll, gave way to the book bequeathed by Gutenberg, the ancient manuscript, with sheets and pages united in notebooks.". Inhabitants of the end of this millennium, we are privileged witnesses of the revolution predicted by Lobato. A good revolution, without blood and without return. Without even imagining the existence of computers, the writer from São Paulo heralded the coming of the Internet. Remember that in 1996, Brazil was one of the first countries to institute electronic voting, an institution already functioning in this work of fiction done seven decades ago. The black victory It is this possibility of "radio-transport" of information that produces an about-face in the elections of 2228 in the United States. Jim Roy is going to cleverly exploit this new element, speed. The elections had been scheduled for 11 a.m. and would last just 30 minutes. The candidate of the Black Association advised his district agents that only at 10 a.m. he would announce the name in which the Blacks should vote. Upon his announcement, the uncomfortable surprise came: it wasn't Evelyn Astor, the leader of the Feminine Party. Much less Kerlog, President and aspiring to be reelected by the Masculine Party. — The candidate of the black race is Jim Roy—Jim Roy announced. To the amazement of everyone, after 87 white presidents, the first black would come, elected by 54 million blood brothers. The Masculine and Feminine parties had more or less tied, with somewhere around 50 million and a half votes. "The astonishment of the defeated Whites wasn't any less than the black winners. They had acted automatically; they gave their vote to Roy like they would have given it to Kerlog, or Miss Astor, or they wouldn't have given it to any of the three if they were told. And now they looked at each other in a bewildering victory absolutely unprecedented for them". The perplexity passing, Blacks and Whites were hit with reality the following day. "The old racial contempt of the White for the Black transformed itself into rage, and restrained hate of the Black for the White, baring its teeth, showed a monstrous smile of revenge. (...) Slowly, the black mass woke up from its long, lethargic submission and its nostrils quivered in the wind, like a tiger loose in the jungle. All the atavistic barbarism, all the appetites in repression, impotent rancor, long suffered injustices, all the skin lacerated by whips until the advent of Lincoln, and after Lincoln, all the humiliations of unequal treatment—this legion of ghosts burst forth from the black soul like snakes from under a slab that an imprudent hand raises up". For Kerlog, 87th president of the United States and a defeated candidate, there comes a historic headache: he sees in the black victory America transformed into a volcano and threatened by death. Considering that the reins of the two monsters—black inebriation and white pride—weren't held in check, the massacre would be terrible. Jim explains his project: — America is as much yours as it is mine—Jim says. I have it in my hands. I'm going to divide it. — Justice is with you, Jim. Order justice to divide America. But Blood is above justice. Blood has its justice. And for the justice of White Blood, it is a crime to divide America. Summing up the story: Six white leaders meet together and discuss a solution for the impasse. The solution, kept secret, is unanimously accepted. At the time, John Dudley, an inventor and one of the members of the group, had just discovered Omega rays, that had the miraculous ability to change African hair. With the treatment, the most rebel curly hair became not only smooth, but also fine and silky, like the most refined hair of a White. Omega rays flowed in the follicle and eliminated the kinkiness, the last stigma of the black race, which had already solved its pigmentation problem. The White Solution For Senhor Ayrton everything was becoming clear. He hit his hand on his forehead and said to Miss Jane: — I can guess the real solution of the black problem in America! Not sending the Blacks out of the country, not the division of the country. Just whitening the Black, making him equal with the White! But the strategy wasn't so simple. Like in a game of chess—Miss Jane explains—a humble move of the peon has as much importance for a check-mate as a spectacular move by the queen. The capillary episode should be seen as a move of the peon. Still not recuperated from the emotions of victory, 100 million individuals thanked the heavens for the new discovery, that would result in the physical betterment of the race. The pigment was destroyed, but the whitening of the skin didn't manifest an agreeable color on sight. With the Omega rays, there was hope of obtaining, with time, the perfect similarity in skin. In all neighborhoods in all cities, the Dudley Uncurling Company established unkinking posts, posts that multiplied without stopping, as if a hidden force was pushing the business of the inventor of Omega rays to unkink Black America in the least amount of time possible. It was one of the most simple processes. Just three applications, each one lasting three minutes, at a cost of ten cents a head, made Blacks run to the posts like hungry dogs. Whites, initially irritated with what they called the "second camouflage of the Blacks" ended up enjoying the spectacle of the subtle hair transformation of 100 million individuals. "The manufacturing plants of combs, barrettes, lotions, shampoos, pomades, hair colorings, etc., worked day and night without managing to meet the sudden demand of such products. New barbers and hairdressers appeared on every corner and no matter how much they worked, they couldn't keep up. Black women, above all, lived perpetually smiling at themselves, as if in paradise. They spent days in front of the mirror, enraptured, pleasurably combing and uncombing. Their enchantment at running their hands through their soft, "Omega-rayed" hair made them forget the humiliating past of curly hair. They were White! Finally free from the horrible stigma!" On the eve of his inauguration, Jim Roy, in his private residence, dreamed the biggest dream dreamed on the continent, when his servant announced to him the visit of a "natural white man". It was President Kerlog, the defeated adversary. He approached the black leader and placed himself against his shoulder in a gesture of compassion: — Yes, President Kerlog, the White that comes to assassinate you, Jim... Jim thinks it is a gag. Mercifully, Kerlog announces a new fact: — You won't go up the steps of the White House, Jim... — Why? By any chance are the Whites conspiring against the Constitution? Do they want to commit a crime? — Nothing like that—Kerlog answers softly.— You won't enter the White House because there's no room there for a Samson with his hair cut. Your presidency will be useless. Everything is useless when the future doesn't exist... The black man is becoming impatient with Kerlog's mysterious tone. — Your race was victim of what you will call the white's betrayal and what I will call the white's good sense. Kerlog explains to Jim that there aren't morals between races, just like there aren't morals between peoples. There is victory or defeat. — Your race died, Jim... Kerlog then tells him that the Omega rays of John Dudley have a double virtue: at the same time that they straighten hair, they sterilize men. On the day that the 88th president of the United States would take office, the first black president of America, Jim Roy, was found dead in his study. The Blacks immediately thought about a crime having taken place and there was almost a rebellion. But ancestral fatalism rose above the hate and the large body without a head pulled back instinctively and put itself in its humble place from where Roy's victory had taken it. New elections took place and Kerlog was reelected by 100 million votes. American life returned to normal. "For the first time in the history of people, a surgical operation took place on a large scale. The cold scalpel of a human group ablated the future of another group of 108 million without the patient realizing anything. The white race, used to war as the last motive of its majesty, wandered from the old path and imposed a peaceful final ethnic end to the group that helped to create America, but with which it could no longer live in common. It had it as an obstacle to the ideal of an Aryan super-civilization that in that land was beginning to bloom and it wasn't going to give up to weak feelings, noxious to the splendid bloom of the white man." Blood circulation strangulated, the race extinguished itself in a painless crepuscule. "Decades later, in the marvelous American garden where only camellias bloomed with petals slightly coppered by the mysterious force of the environment, there was at the top of the monument in homage to the black partner, the bust of the old magician who in 2228 cured the historic headache of the 87th President..." Not exportation to Amazônia, nor whitening with the elimination of pigment and curly hair. But pure and simple extinction of a race for the full flowering of the Aryan super-civilization... In his autobiography, Nikos Kazantzakis tell us of certain sensitive lips and fingertips that tingle when a storm is coming. "The lips and fingertips of the author are of this type"—the mystic Crete writes. "When the author speaks with such certainty, what he says isn't his imagination, but his lips and fingertips that have already begun to receive the initial sparks of the storm". Monteiro Lobato, highly sensitive author, felt close to catastrophe, the most colossal undertaking of mass extermination dared in history. Before dying, he saw the German scalpel trying to annihilate an ethnic group. He was only wrong with respect to the geography. ---------- Translated by Barbara Maglio, who can be reached at bjmaglio@compuserve.com
Terça-feira, Novembro 04, 2008
O VISIONÁRIO DE TAUBATÉ (artigo publicado em junho de 1998, na Revista de Literatura da Universidade de São Carlos, São Paulo) Quando nos deparamos com algum evento insólito na sociedade ou na área da tecnologia, logo saímos à busca de precursores ou anunciadores. Em geral os buscamos entre os ficcionistas anglo-saxões ou germânicos, afinal toda literatura de antecipação tem suas raízes nos Estados Unidos ou Europa. No entanto, nestas terras de Pindorama, já em 1926, um visionário de Taubaté antevia nada menos que a radicalização da questão negra nos Estados Unidos, a discussão separatista no Brasil, o voto eletrônico, o teletrabalho, a Internet e suas conseqüências. Falamos de Monteiro Lobato, é claro, e de sua obra mais premonitória, O Presidente Negro ou O Choque das Raças. Como este livro hoje só pode ser encontrado em sebos ou bibliotecas, não seremos mesquinhos em citações.(*) Estamos no ano 2.228. Nos Estados Unidos, a elite governante está alarmada: as estatísticas apontam uma população de 108 milhões de negros para 206 milhões de brancos. Como o coeficiente de natalidade negra continua subindo, o instinto de preservação dos brancos se eriça em legítima defesa. Fala-se em uma “solução branca” e uma “solução negra”. A solução branca é, obviamente, expatriar os negros. Quem propõe este panorama é Miss Jane, personagem de Lobato na ficção já citada. Na mesma época, o antigo Brasil está cindido em dois países, um centralizador de toda a grandeza sul-americana, filho que era do imenso foco industrial surgido às margens do rio Paraná e o outro, uma república tropical, agitando-se ainda em velhas convulsões políticas e filológicas, discutindo sistemas de voto e a colocação dos pronomes da semimorta língua portuguesa. De clima temperado, o Brasil branco fundia no mesmo bloco a Argentina, o Uruguai e o Paraguai. Os portugueses, aclimatados na zona quente, haviam-se mesclado com o negro, formando um povo de mentalidade incompatível com a do sul. Miss Jane é filha de um cientista de origem americana radicado no Brasil, o professor Benson, que pode obter um corte anatômico do futuro através de uma espécie de globo cristalino chamado porviroscópio. (Esta idéia será retomada por Jorge Luís Borges, como veremos adiante). Através deste aparelho Jane perscruta o mundo do século 23. A ação do romance transcorre em 1926. O Sr. Ayrton, seu interlocutor brasileiro, manifesta tristeza ante o futuro do país. Jane, pelo contrário, considera um erro inicial a mistura de raças e acha que a divisão do país constituí uma solução ótima, a melhor possível. Pois “a muita terra não é o que faz a grandeza de um povo e sim a qualidade de seus habitantes”. Esta idéia de um fracionamento territorial do Brasil não é nova nos dias de Lobato. Em Cartas Inéditas de Fradique Mendes, escritas nos estertores do século passado, Eça de Queiroz já antecipava esta possibilidade, em texto intitulado “A Revolução no Brasil”. Para o escritor português, com o Império acaba também o Brasil, que ficaria fragmentado em Repúblicas independentes, em virtude da divisão histórica das províncias, das rivalidades entre elas, da diversidade do clima, do carácter e dos interesses e a força das ambições locais. Uma vez separados, os estados não poderão manter paz entre si, em função das delimitações de fronteira, questões hidrográficas e alfândegas. “Cada estado, abandonado a si, desenvolverá uma história própria, sob uma bandeira própria, segundo o seu clima, a especialidade de sua zona agrícola, os seus interesses, os seus homens, a sua educação e a sua imigração. Uns prosperarão, outros deperecerão. Haverá talvez Chiles ricos e haverá certamente Nicaráguas grotescos. A América do Sul ficará toda coberta com os cacos dum grande Império!” Se o Brasil ainda não se dividiu – apesar de todos os anos surgirem “nações” indígenas, com pretensões de autonomia –, aí estão os Chiles ricos e os Nicaráguas grotescos, confirmando a aguda intuição de Eça. Mas voltemos a O Presidente Negro. (*)Recentemente, a editora Globo relançou a obra.
O visionário de Taubaté (1): A INFLAÇÃO DO PIGMENTO Para Miss Jane, a América seria a privilegiada zona que havia atraído os elementos mais eugênicos das melhores raças européias. O Mayflower trouxera homens de uma têmpera superior que não hesitaram um segundo “entre abjurar das convicções e emigrar para o deserto”. As leis de imigração se tornam seletivas e as massas que procuravam a América, já em si boas, são peneiradas. A Europa é drenada de seus melhores elementos e no novo mundo resta a flor dos imigrantes. Ocorre então o que Miss Jane chama de “o erro inicial”: entra no país, à força, o negro arrancado da África. O Sr. Ayrton observa que o mesmo erro foi cometido no Brasil, mas nossa solução foi admirável: em cem ou duzentos anos teria desaparecido o nosso negro em virtude de cruzamentos sucessivos com o branco. Miss Jane não julga admirável tal solução, mas medíocre, pois estraga as duas raças ao fundi-las. Prefere que ambas se desenvolvam paralelas dentro do mesmo território, separadas por uma barreira de ódio, a mais profunda das profilaxias. Para ela, o ódio impede a miscigenização mantém as raças em estado de relativa pureza. – Não há mal nem bem no jogo das forças cósmicas. O ódio desabrocha tantas maravilhas quanto o amor. O amor matou no Brasil a possibilidade de uma suprema expressão biológica. O ódio criou na América a glória do eugenismo humano... Os exemplares mais belos, fortes e inteligentes eram descobertos onde quer que se encontrassem e atraídos para a Canaã americana. Estando o país bastante povoado, fecha-se as portas ao fluxo europeu e a nação passa a crescer apenas vegetativamente. É quando surge a inflação do pigmento. As elites pensantes haviam-se convencido que a restrição da natalidade se impunha, pois qualidade vale mais que quantidade. Rompe-se então o equilíbrio: “Os brancos entraram a primar em qualidade, enquanto os negros persistiam em avultar em quantidade. Mais tarde, quando a eugenia venceu em toda a linha e se criou o Ministério da Seleção Artificial, o surto negro já era imenso”. Urge desembaraçar-se dos negros. A solução branca é simples: exportar, despejar os cem milhões de negros americanos no Vale do Amazonas. O que não era fácil “não só em virtude de tremendas dificuldades materiais como por ferir de face a Constituição Americana”. Monteiro Lobato escreveu seu romance – ou ensaio, como quisermos – no início deste século. Ao transportar a ação da obra para três séculos depois, fazia ficção. Mas, bom conhecedor da história dos Estados Unidos, escorava-se em projetos nada ficcionais já alimentados pelos americanos.
O visionário de Taubaté (2): UM PAÍS PARA OS NEGROS AMERICANOS Entre 1840 e 1860, um obscuro tenente da Marinha dos Estados Unidos, Matthew Fontaine Maury, funcionário do Departamento de Cartas e Instrumentos do Departamento da Marinha de Washington, pensou seriamente no assunto. O projeto do oficial americano era simples e pragmático: uma vez alforriados os escravos negros de seu país, estes seriam enviados para colonizar a Amazônia brasileira. A república da Libéria, na África, resultou de um destes projetos. E por que não colonizar a região amazônica com brancos? Maury empunhava argumentos de ordem geográfica, Se o europeu e o índio haviam lutado com suas florestas por 300 anos sem imprimir-lhe a menor marca, sua vegetação só poderia ser subjugada e aproveitada, seu solo só poderia ser retomado à floresta, aos répteis e aos animais selvagens e submetido ao arado e à enxada, pela mão-de-obra do africano. “É a terra dos papagaios e macacos e só o africano está à altura da tarefa que o homem aí tem de realizar". O projeto de Maury, em verdade, só tinha de original a insistência em colonizar a Amazônia com os negros libertos. Desde os últimos anos da década de 1830, os Estados Unidos pretendiam a abertura da navegação do rio Amazonas a todas as nações. Antes do oficial sonhador, um certo Joshua Dodge pretendia estabelecer 20 mil imigrantes norte-americanos nas margens do Amazonas. Todos se comprometendo a reconhecer a soberania brasileira, pelo menos nos primeiros anos de colonização. No fundo, à semelhança do que foi feito com o Texas, pretendia-se anexar a região aos Estados Unidos. A estratégia era simples. Bastaria comprar alguns brasileiros em Manaus, que passariam a ser "legítimos representantes de uma República da Amazônia, que se declararia estado independente do Império do Brasil, inclusive por discordar da forma como o país era governado, com sua monarquia". Caso o governo brasileiro enviasse navios e tropas para restabelecer sua soberania, os cidadãos do novo estado amazônico independente apelariam para a proteção norte-americana. E uma força de proto-capacetes azuis se apresentaria na foz do Amazonas para "proteger a vida e os bens ameaçados dos cidadãos americanos". Quem nos conta este quase desconhecido projeto de expansão americana é a professora Nícia Vilela Luz, em A Amazônia para os Negros Americanos. Neste ensaio, a autora mostra que muitos americanos, bem antes da eclosão da Guerra Civil, achavam ser mais interessante libertar todos os escravos e enviá-los para fora da América. O intérprete maior desta vontade é o tenente Maury: "Preocupava-o o problema do negro nos Estados Unidos, tendo em vista a abolição da escravidão que se aproximava inexoravelmente. Convencido da superioridade do branco, só podia admitir o negro na condição de escravo e nunca numa posição de igualdade com o branco. Que fazer então com essa população negra uma vez posta em liberdade e cuja multiplicação ainda poderia submergir a raça branca?" Para Maury, "Deus em Sua própria e sábia providência ditará o destino a ser cumprido pelas raças preta e branca, seja ele qual for". "E Deus preservara a Amazônia deserta e desocupada para que os problemas do Sul pudessem ser resolvidos – prossegue Vilela Luz –. Acuados ao Norte onde não encontrariam mais terras do Mississipi por desbravar nem mais campos de algodão por subjugar, os sulistas, para se livrarem do seu excesso de população negra, salvando ao mesmo tempo sua economia e sua "peculiar" instituição, encontrariam a safety valve mais ao Sul, no vale amazônico. Era "o único raio de esperança" a iluminá-los naquele momento dramático em que se discutia o destino do regime da escravidão nos Estados Unidos".
O visionário de Taubaté (3): ESTADOS DESUNIDOS Voltemos à ficção de Lobato. Para Miss Jane, os negros se batiam por uma solução muito mais viável: queriam a divisão do país em dois, o sul para os negros e o norte para os brancos, já que a América surgira do esforço conjunto de ambas as raças. Se não era possível gozar juntas da obra feita em comum, o razoável seria dividir o território em dois pedaços. Temos então, já no início deste século, um escritor brasileiro antecipando as propostas de líderes negros contemporâneos como Farrakhan. É bom lembrar que nessa época Lobato ainda não havia viajado para os Estados Unidos. Os brancos nada queriam ceder de seu status quo e o problema tornava-se ameaçador. É quando surge um candidato capaz de unir o eleitorado negro: Jim Roy, de tez levemente acobreada, parecendo um mestiço de senegalês e pele-vermelha. A cor de sua pele em nada lembrava os negros de hoje (isto é, 1926). Na época, a ciência havia resolvido o caso de cor pela destruição do pigmento. Jim Roy, negro de raça puríssima e cabelo carapinha, era “horrivelmente esbranquiçado”. O espírito visionário de Lobato antecipa, en passant, a tendência negra americana que gerou um Michael Jackson, por exemplo. Inaugurando, já no início do século, a atual categoria do “politicamente incorreto”, diz o estupefato sr. Ayrton: – Barata descascada, sei... No entanto, nem os recursos da ciência faziam os negros deixarem de ser negros na América. Os brancos não lhes perdoavam aquela camouflage da despigmentação. Jim Roy, líder do partido Associação Negra, não chega a ser uma ameaça para o poder. Representa cem milhões de negros, contra 200 milhões de brancos. Ocorre que entre os brancos surge uma séria dissidência, um partido de mulheres. Os velhos partidos Democrático e Republicano haviam-se fundido num forte bloco sob a denominação de Partido Masculino, liderado por Kerlog, presidente em exercício e candidato à reeleição. Este bloco não tinha certeza da vitória, pois o partido contrário, o Feminino, dispunha de maior número de vozes, lideradas por miss Evelyn Astor. As estatísticas davam ao Partido Masculino 51 milhões de votos; ao Feminino 51,5 milhões e à Associação Negra, 54 milhões. A eleição dependia pois da atitude de Jim Roy. Aproximam-se as eleições. Que, no ano da graça de 2.228, ocorrem em poucos minutos, em função de avanços tecnológicos previstos por Lobato, que anunciam nosso mundo de hoje, 1998.
O visionário de Taubaté (4): A VITÓRIA NEGRA É esta possibilidade de “radio-transportar” os dados que opera uma reviravolta nas eleições de 2.228, nos Estados Unidos. Jim Roy vai explorar com habilidade este dado novo, a velocidade. As eleições haviam sido marcadas para as 11h da manhã e durariam apenas 30 minutos. O candidato da Associação Negra avisa os agentes distritais que só às 10h anunciará o nome em que os negros devem votar. Ao anunciá-lo, a desconfortável surpresa: Jim Roy se anuncia como candidato. Para pasmo de todos, depois de 87 presidentes brancos, surgia o primeiro presidente negro, eleito por 54 milhões de irmãos de sangue. Os partidos Masculino e Feminino haviam mais ou menos empatado, com algo em torno de 50 milhões e meio de votos. Passada a perplexidade, negros e brancos caem na realidade do dia seguinte. Para Kerlog, 87º presidente dos Estados Unidos e candidato derrotado, surge uma dor de cabeça histórica: ele vê na vitória negra a América transformada num vulcão e ameaçada de morte. Considera que se não forem mantidas presas as rédeas dos dois monstros – a ebriedade negra e o orgulho branco –, a chacina será espantosa. Seis líderes brancos reúnem-se em convenção e discutem uma solução para o impasse. A solução, mantida em sigilo, é aceita por unanimidade. Na época, John Dudley, inventor e um dos membros da convenção, descobrira os raios Omega, que tinham a propriedade miraculosa de modificar o cabelo africano. Com o tratamento, o mais rebelde pixaim se tornava não só liso, mas também fino e sedoso como o cabelo do mais apurado tipo de branco. Os raios Omega influíam no folículo e eliminavam o encarapinhamento, último estigma da raça negra, que já havia resolvido o problema da pigmentação.
O visionário de Taubaté (5): A SOLUÇÃO BRANCA Ainda não recuperados das emoções da vitória, cem milhões de criaturas agradeciam aos céus a nova descoberta, que redundaria em um aperfeiçoamento físico da raça. O pigmento fora destruído mas o esbranquiçamento da pele não revelava cor agradável à vista. Com os raios Omega, tinham esperança de obter com o tempo a perfeita equiparação cutânea. Em todos os bairros de todas as cidades, a Dudley Uncurling Company estabeleceu Postos Desencarapinhantes, que se multiplicaram ao infinito, como se uma força oculta empurrasse a empresa do inventor dos raios Ômega ao desencarapinhamento da América Negra no menor espaço de tempo possível. Era dos mais simples o processo. Três aplicações apenas, de três minutos cada uma, ao custo de dez centavos por cabeça, faziam com que os negros acorressem aos postos como cães famintos. Os brancos, inicialmente irritados com o que chamavam de “a segunda camouflage do negro”, acabaram se divertindo com o espetáculo da súbita transformação capilar de cem milhões de criaturas. Na véspera do dia da posse, Jim Roy, em sua residência particular, sonhava o maior sonho já sonhado no continente, quando seu criado lhe anuncia a visita de “um homem branco natural”. Era o presidente Kerlog, o adversário derrotado. Que anuncia ao líder negro não existir moral entre raças, como não há moral entre povos. Há vitória ou derrota. – Tua raça morreu, Jim... Os raios Omega de John Dudley tinham uma dupla virtude: ao mesmo tempo que alisam os cabelos, esterilizavam o homem. No dia em que seria empossado o 88º presidente dos Estados Unidos, o primeiro presidente negro da América, Jim Roy aparece morto em seu gabinete de trabalho. Os negros pensaram imediatamente em crime e chegou a haver um movimento de revolta. Mas o fatalismo ancestral superou o ódio e o imenso corpo sem cabeça recuou instintivamente e repôs-se no humilde lugar de onde a vitória de Roy o tirara. Procederam-se novas eleições e Kerlog foi reeleito por 100 milhões de votos. A vida da América voltou à normalidade. Estrangulada a circulação da seiva, a raça extinguiu-se num crepúsculo indolor. Nem exportação para a Amazônia, nem divisão do país, nem esbranquiçamento com a eliminação do pigmento e da carapinha. Mas extinção pura e simples de uma raça para o pleno desabrochar da Super-Civilização Ariana... Em sua autobiografia, Testamento para El Greco, Nikos Kazantzakis nos fala de certos lábios e pontas de dedos sensíveis que sentem um formigamento ao aproximar-se a tempestade. Monteiro Lobato, criador sensível, sentia aproximar-se a catástrofe, o mais colossal empreendimento de extermínio em massa já ousado na História. Antes de morrer, ainda viu o bisturi germânico tentando extirpar uma etnia. Só enganou-se quanto à geografia. Nestes dias de junho de 98, a imprensa internacional nos traz uma espantosa confirmação da hipótese de Lobato. Dan Goosen, cientista responsável por um laboratório secreto durante o apartheid na África do Sul, revela que o governo daquele país tentou desenvolver uma bactéria que poderia ser mortal ou causar infertilidade somente em pessoas com pigmentação de pele escura. Em declarações à Comissão da Verdade e Reconciliação para a África do Sul (CVR), disse um outro pesquisador, o dr. Daan Jordan: “Meu trabalho era desenvolver um produto que reduzisse a taxa de natalidade da população negra”. Este produto, que não chegou a ser desenvolvido, seria distribuído entre os negros, possivelmente misturado à cerveja de sorgo ou à farinha de milho (consumidos basicamente pela população negra) ou usado em uma campanha de vacinação. Por pouco, a vida não imitou a arte.
O visionário de Taubaté (6): TAUBATEANO ANTECIPA A INTERNET Além de aventar uma possível evolução da questão negra nos Estados Unidos, Lobato angustiava-se com o desperdício de energia e “os milhões de veículos atravancadores de espaço” - e isso nos primórdios do século - necessários para o deslocamento do homem até o trabalho ou lazer. Via a salvação na “fecunda descoberta das ondas hertzianas e afins”. O trabalho, o teatro, o concerto passam então a vir ao encontro do homem. As condições do mundo se transformam quando a maior parte das tarefas, industriais e comerciais começam a ser feitas de longe pelo que Lobato chama de “rádio-transporte". Há três quartos de século, antes mesmo de sua viagem aos Estados Unidos, Lobato antevia o fim da maneira de fazer jornalismo da época e antecipava o que hoje é rotina em qualquer redação deste final de milênio. Através de miss Jane, o escritor de Taubaté começa a descrever a sociedade americana do futuro: “Pelo sistema atual – Lobato refere-se a 1926 – o colaborador ou escreve em casa o seu tópico ou vai escrevê-lo na redação; depois de escrito, passa-o ao compositor; este o compõe, passa-o ao formista, este o enforma e passa-o ao tirador de provas; este tira as provas e manda-o ao revisor; este o revê e envia-o ao corretor; este faz as emendas e... e a coisa não acaba mais! É uma cadeia de incontáveis elos, isto dentro das oficinas, pois que o jornal na rua dá início à nova cadeia que desfecha no leitor - correio, agentes, entregadores, vendedores, o diabo". Toda essa complicação desapareceria. Cada colaborador do Remember, jornal criado na ficção lobatiana, "radiava" de sua casa, numa certa hora, o seu artigo, e imediatamente suas idéias surgiam impressas em caracteres luminosos na casa dos assinantes. Numa época em que computador, fibras óticas e satélites pertenciam ao universo mental de visionários, Lobato fala de rádio-transporte. Se substituirmos esta expressão por fax/modem, temos o criador de Bentinho e Jeca Tatu antecipando, há sete décadas, um jornal que já existe. Seus correspondentes há muito enviam seus "caracteres luminosos" para suas redações. Daí ao leitor recebê-los numa tela em sua casa, basta uma decisão administrativa, já tomada por centenas de empresas no Brasil e no mundo ocidental. E quando o acervo da literatura universal estiver digitalizado, poderá consultar, de sua casa, todas as bibliotecas do mundo.
O visionário de Taubaté (7): ALÉM DA ERA DA RODA "As ruas tornaram-se amáveis, limpas e muito mansas de tráfego" – continua Lobato –. "Por elas deslizavam ainda veículos, mas raros, como outrora nas velhas cidades provincianas de pouca vida comercial. O homem tomou gosto no andar a pé e perdeu os seus hábitos antigos de pressa. Verificou que a pressa é índice apenas de uma organização defeituosa e anti-natural. A natureza não criou a pressa. Tudo nela é sossegado." Esta previsão, melhor creditá-la ao pendor utópico do escritor, que não chegou a vislumbrar este lado provinciano do brasileiro, que se sente despido e humilhado se não tiver uma carroça sobre quatro rodas. Enfim, para sonhar não se paga imposto. Mas Lobato vai mais longe. Miss Jane considera superada a revolução da roda. Segundo a moça, "o homem deu o primeiro grande passo em matéria de transporte com a invenção da roda. Mas ficou nisso. Repare que a nossa civilização industrial se cifra em desenvolver a roda e extrair dela todas as possibilidades. Daqui a séculos, quando for possível ao homem uma ampla visão de seu panorama histórico, todo este período que vem do albor da história e ainda vai prolongar-se por muitas gerações receberá o nome de Era da Roda". O rádio matará a roda, segundo Miss Jane. "A roda, que foi a maior invenção mecânica do homem e hoje domina soberana, terá seu fim. Voltará o homem a andar a pé. O que se dará é o seguinte: o rádio-transporte tornará inútil o corre-corre atual. Em vez de ir todos os dias o empregado para o escritório e voltar pendurado num bonde que desliza sobre barulhentas rodas de aço, fará ele o seu serviço em casa e o radiará para o escritório. Em suma: trabalhar-se-á à distância". Lobato fala em rádio, o must dos anos 20. Se não podia prever as nuvens de terabytes diariamente transmitidas de um ponto a outro do planeta pela WEB, intuiu muito bem suas conseqüências. O teletrabalho – trabalho "radiado" para o escritório, como diria Lobato – já é um fenômeno em expansão. Hoje, qualquer trabalhador intelectual, desde que tenha um telefone por perto, pode enviar sua produção para qualquer canto do mundo, refugiado num chalé no Itatiaia ou em busca de solidão e deserto em Tamanrasset. Jornais impressos a milhares de quilômetros de suas redações há muito não constituem mais novidade. Segundo o historiador francês Roger Chartier, a revolução hoje em curso é muito mais ampla que a de Gutenberg, de 1455, "pois transforma as próprias formas de transmissão do escrito. A passagem do livro, do jornal ou do periódico, como os conhecemos hoje, para a tela de computador, rompe com as estruturas materiais do texto escrito. A única comparação histórica possível é a revolução no início do cristianismo, nos séculos II e III, quando o livro da Antiguidade, em forma de rolo, deu lugar ao livro herdado por Gutenberg, o códice, com folhas e páginas reunidas em cadernos". Habitantes deste final de milênio, somos testemunhas privilegiados da revolução intuída por Lobato. Revolução das boas, sem sangue e sem volta. Sem sequer imaginar a existência de computadores, o escritor paulista anuncia a Internet. Cabe lembrar que, em 1996, o Brasil foi um dos primeiros países do mundo a instituir o voto informatizado, instituição já em funcionamento nesta ficção escrita há sete décadas.
O visionário de Taubaté (8): A BIBLIOTECA DE BORGES Também ao sul do Equador, um vizinho nosso, situado às margens do Prata, imaginava um acervo que hoje começa a tomar corpo com a Internet. Falava de uma biblioteca em forma de esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono. Sua circunferência é inacessível. Existe ab aeterno e nela não há dois livros idênticos. É ilimitada e periódica. Assim definia o Jorge Luis Borges, em um conto datado de 1941, Biblioteca de Babel. Em alguma prateleira de algum hexágono existiria um livro que era a chave e o compêndio de todos os demais. "Algum bibliotecário o terá percorrido e é análogo a um deus". Na Babel de Borges, há um grave problema de comunicação. A Biblioteca abarca todos os livros. Todo conhecimento humano está disperso pelos hexágonos. O problema é encontrar o que se busca. Milhares de funcionários lutam, se estrangulam e morrem em busca dos livros nos corredores da biblioteca, muitas vezes derrubados por homens de hexágonos remotos. Outros enlouquecem. O autor exagera, o que é direito de todo ficcionista. Mas em muitas bibliotecas contemporâneas os funcionários já usam bicicletas ou patins para buscar os livros. Em 41, estávamos a meio século da Internet. Hoje, aos buscadores desta ficção de Borges bastaria digitar um endereço eletrônico e teriam em segundos os livros desejados, sem a necessidade de estrangular-se ou enlouquecer, pedalar ou patinar, subir escadas ou cair em poços sem fundo. Hoje, um leitor de qualquer parte do mundo, com uma placa modem em seu computador, pode acessar a Congress Library em Washington, a Bibliothèque Nationale em Paris ou a Biblioteca Nacional de Madri. Ou as bibliotecas da USP, Unesp e Unicamp em São Paulo. Por enquanto, apenas bibliografia, é bom salientar. Mas a tendência é colocar o próprio livro à disposição do usuário, o que está sendo feito pelo projeto Gutenberg - http://promo.net/pg - e a ABU - http://cedric.cnam.fr/ABU -, entre outros sites. Nestes últimos, estão a seu alcance, desde Plutarco e Platão, até Descartes ou Marx, passando pela Bíblia, Voltaire ou Dostoievski. Por enquanto em francês e inglês, mas já estão sendo digitalizados acervos em português e espanhol. Teoricamente, já se pode pensar na biblioteca total de Borges. Chegar lá é uma questão de tempo. A biblioteca faraônica iniciada por François Mitterrand - Tontonkhamon, para os inimigos íntimos - em Paris, concebida para armazenar acervos futuros, com seus quatro prédios mastodônticos em forma de livro, já nasce mais ou menos obsoleta. Seu design pertence ao passado. A pergunta “quantos livros tem sua biblioteca?” inclusive perdeu o sentido e não mais permite uma resposta precisa. Vivemos uma época em que ninguém sabe de quantos livros dispõe em seu gabinete de trabalho. Os livros ao alcance de sua mão - ou de seu mouse - são tantos quanto os que estão digitalizados e disponíveis na grande rede, esteja você morando em qualquer aldeia do fim do mundo. Desde, é claro, que tenha uma linha telefônica por perto.
O visionário de Taubaté (9) ALEPH, PORVIROSCÓPIO E WEBCAMS Borges, sonhador irrecuperável, antecipa em suas ficções a biblioteca sonhada por todo bibliófilo, hoje em construção. Mas o autor vai mais longe em seu desejo de futuro. Em Aleph, conto publicado em 1949, Borges nos fala do peculiar poeta Carlos Argentino, que se propõe nada menos que “versificar toda a redondez do planeta”. Carlos, que está construindo sua obra a partir de seu quarto, entra em pânico quando lhe noticiam a demolição de sua velha casa na Calle Garay. Pois nela, em algum ponto de uma escada no porão, existe um aleph, “o lugar onde estão, sem confundir-se, todos os lugares do mundo”. A partir daquela pequena esfera, de dois ou três centímetros de diâmetro, Carlos Argentino perscrutava o mundo, a fonte de seu poema colossal. Vejamos a descrição do aleph, feita por Borges em 1949. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava ali, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (a face do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu claramente a via desde todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a alba e vi a tarde, vi as multidões da América, vi uma teia prateada no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto rompido (era Londres), vi intermináveis olhos imediatos perscrutando-se em mim como em um espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, vi em um pátio da rua Soller os mesmos ladrilhos que há trinta anos vi no saguão de uma casa em Fray Bentos, vi racimos, neve, tabaco, veios de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, vi o altivo corpo, vi um câncer no peito, vi um círculo de terra seca em uma vereda, onde antes houve uma árvore, vi um sítio em Adrogué, um exemplar da primeira versão inglesa de Plínio, a de Philemon Holland, vi ao mesmo tempo cada letra de um volume (quando criança, eu me maravilhava com o fato de que as letras de um volume fechado não se misturassem e se perdessem no transcurso da noite), vi a noite e o dia contemporâneo, vi um pôr-de-sol em Querétaro que parecia refletir a cor de uma rosa em Bengala, vi meu dormitório sem ninguém, vi em um gabinete de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos que o multiplicavam ao infinito, vi cavalos de crinas enredadas. Em uma praia do mar Cáspio vi a alba, vi a delicada ossadura de uma mão, vi os sobreviventes de uma batalha, enviando cartões postais, vi em uma vitrine de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de fetos no chão de uma estufa, vi tigres, êmbolos, bisões, maremotos e exércitos, vi todas as formigas que há na terra, vi um astrolábio persa, vi em uma caixa do escritório (e a letra me fez tremer) cartas obscenas, incríveis, precisas, que Beatriz havia dirigido a Carlos Argentino, vi um adorado monumento em La Chacarita, vi a relíquia atroz do que deliciosamente havia sido Beatriz Viterbo, vi a circulação da morte, vi o Aleph, desde todos os lados, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetural, cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem mirou: o inconcebível universo. Contemporaneamente, não falaríamos em aleph, mas em webcams*, a rede incipiente de câmeras onde, se não podemos ver o universo em sua totalidade, podemos bisbilhotar cada vez mais seus pontos mais longínquos. Hoje, de minha mesa de trabalho, posso ver o quarto de Jennifer e a praça do Kremlin, uma ponte em Liljestrom, na Suécia, e a faina diária de uma formiga, uma universidade imersa na escuridão no norte da Noruega e um papagaio na Austrália, a torre Eiffel e as lavas candentes de um vulcão. Sem falar, é claro, nos livros da biblioteca de Babel em construção. Monteiro Lobato, para consultar o futuro, cria em O Presidente Negro um aparelho semelhante, o porviroscópio, uma espécie de globo cristalino, através do qual Miss Jane perscruta o mundo do século 23. O professor Benson obtem, neste aparelho, (...) uma corrente contínua, que é o presente. Tudo se acha impresso em tal corrente. Os cardumes de peixe que neste momento agonizam no seio do oceano ao serem apanhados pela água tépida do Golfo, o juiz bolchevista que neste momento assina a condenação de um mujik relapso num tribunal de Arkangel; a palavra que, em Zorn, neste momento, o kronprinz dirige ao ex-imperador da Alemanha, a flor do pessego que no sopé do Fushiama recebe a visita de uma abelha; o leucócito a envolver um micróbio malévolo que penetrou no sangue dum fakir da Índia; a gota d’água que espirra do Niágara e cai num líquen de certa pedra marginal; a matriz de linotipo que em certa tipografia de Calcutá acaba de cair no molde; a formiguinha que no pampa argentino foi esmagada pelo casco do potro que passou a galope; o beijo que num estudio de Los Angeles Gloria Swanson começa a receber de Valentino... A forma como o visionário de Taubaté descreve o universo vislumbrado no porviroscópio é quase idêntica à descrição do Aleph, publicada 23 anos mais tarde. O achado de Borges revela-se uma paráfrase do texto lobatiano. Se considerarmos que Borges conhecia a literatura de Lobato, e que este viveu em Buenos Aires em 1946, três anos antes da publicação de El Aleph, é bastante pertinente supormos que o autor argentino andou bebendo na cacimba de nosso taubateano. Enquanto os sedizentes modernistas de 22 papagueavam Marinetti, Marx e outros doutrinadores totalitários europeus, Lobato, o escritor excluído do universo intelectual pelos seus contemporâneos, olhava meio século adiante. (*) Em 1998, data de publicação deste artigo, ainda não tínhamos o Google Earth. Seria hoje a mais fiel tradução do ponto Aleph ou do porviroscópio.
Segunda-feira, Novembro 03, 2008
BENTO APOSTA NA GEOGRAFIA DO ALÉM E CONDENA ÚNICO HORIZONTE TERRENO Bento XVI perguntou ontem aos fiéis que assistiam à homilia do Dia de Finados, no Vaticano, se "os homens e as mulheres de nossa época desejam a vida eterna ou se a existência terrena se converteu em seu único horizonte". Em meus verdes anos, minha maior angústia ao deixar de crer em Deus foi a ausência de vida eterna. Quer dizer que tudo terminaria após a morte? Era angústia que me corroía por dentro. Mas não corroeu-me por muito tempo. Em primeiro lugar, era muito cedo para alimentar tais preocupações. Depois, com a passagem dos anos, comecei a perguntar-me se vida eterna era uma boa idéia. Concluí que não. Talvez tenha contribuído para isso a leitura de Tous les hommes sont mortels, de Simone de Beauvoir. O livro narra a vida de Fosca, conde do século XIII, da cidade de Carmona, que em algum momento de sua vida bebeu um elixir da vida eterna. Longe de torná-lo feliz, a imortalidade o entedia. Fosca não suporta mais ver a história repetir-se, as revoluções se sucedendo às tiranias e depois voltando a instituir tiranias. “Todos os dias o sol levantou-se e deitou-se. Entrei no hospício, saí do hospício. Houve guerras: depois da guerra, a paz; depois da paz, outra guerra. Todos os dias homens nascem e homens morrem”. O conde busca a morte e não consegue morrer. Isso que Fosca vivia na História, onde existem passado e presente, como também a perspectiva de um futuro. Para Bento XVI, a vida eterna é “uma imersão no oceano do amor infinito no qual o tempo, o passado e o futuro não existem". Nesta geografia sem graça do além desenhada por Sua Santidade, o conde certamente enlouqueceria. Viver sem passado é renunciar à memória. Sem futuro, é renunciar à esperança. Viver em eterno presente é não ter amigos nem amores nem lembranças. Nem mesmo conhecimento, pois conhecimento depende do passado. Sua Santidade parece não perceber as dimensões das bobagens que profere. Como Fosca, eu também enlouqueceria. Além do mais, segundo o Cristo, lá não existe a matéria, a boa carne que tantos prazeres nos dá. Dores também, é verdade, mas diria que o saldo é positivo. Em Marcos, os saduceus tentam confundir Jesus, ao propor-lhe um enigma: uma mulher fora casada com sete diferentes maridos, tendo todos morrido antes dela. Na ressurreição, de qual deles ela será mulher, “quando todos ressuscitarem?” Cristo não se aperta. Não há casamento depois da ressurreição. Os ressuscitados seriam como anjos no céu. Isto é, imateriais. Foi pergunta que me fiz, quando ainda não estava totalmente curado da angústia da ausência de vida eterna. E minhas amadas? Eu as reencontrarei nalguma curva do paraíso? Voltarão a mim ou terão compromissos outros com outros amados? Enfim, se ressuscitam sem a boa e antiga carne, tanto faz como tanto fez. Não tem graça. Não interessa. Nestes dias, acabei de ler o segundo volume de Os Monoteístas, de F. E. Peters, um belo ensaio sobre as crenças fundamentais dos três grandes monoteísmos contemporâneos, judaísmo, cristianismo e islamismo, de onde extraí as informações supra. Para quem gosta do assunto, recomendo vivamente a leitura. Segundo o autor, “desde o começo a Bíblia parece ter muito pouca idéia ou interesse a respeito daquilo que se segue à morte. A aniquilação total é uma noção difícil, de fato até sofisticada, e os israelitas antigos preferiam a ausência de vida, uma existência, mas exatamente sem vida, num lugar chamado Xeol. Embora as descrições e a localização sejam vagas, e sua conceitualização não tenha sido plenamente elaborada, o Xeol é em geral um lugar escuro, silencioso, subterrâneo – seus outros nomes são sepulcro ou abismo – e, onde são especificados, seus principais habitantes parecem ser que aqueles que morreram de modo violento ou não tiveram um enterro apropriado ou, segundo outro modo de ver, todos os mortos. ‘Lá os ímpios cessam de perturbar’, diz Jó do Xeol, ‘lá repousam os exaustos de forças. Lá os presos estão tranqüilos, sem ouvir a voz do capataz. Lá estão tanto o pequeno como o grande, e o escravo fica livre de seu senhor”. Para Peters, somente após o Novo Testamento surge a idéia de uma ressurreição com carne. Era uma idéia necessária: como era possível punir a alma desincorporada com os castigos notoriamente físicos do inferno, onde, segundo Marcos, “o verme não morre e o fogo não se apaga?” Não era fácil. A concepção de Agostinho é bem mais atraente. Agostinho foi aquele bispo de Hipona que aspirava a castidade, mas com ressalvas. “Dai-me a castidade, Senhor, mas não já!” Malandro, o santo homem. Para este pensador, o corpo ressuscitado deveria ser incorrupto, mas também deveria estar afastado de toda mudança. O corpo seria reagrupado, sem faltar nada, no seu estado mais belo, que Agostinho situa por volta dos trinta anos. Já melhorou. Voltar aos trinta, sem as seqüelas da idade provecta, sem preocupações com glicemia, colesterol ou triglicérides, não deixa de ser tentador. Mais ainda, provavelmente com a experiência dos sessenta e com o pleno vigor da meia idade. Interessante. Pelo menos por algum tempo. Se for pela eternidade, creio que me entediaria mais que o conde Fosca. Em sua homilia, Bento XVI condena explicitamente aqueles cuja “existência terrena se converteu em seu único horizonte”. É a mesma filosofia aquela, manifestada há poucas semanas, de considerar melhor apostar na palavra divina que nas ações da Bolsa. Que ele diga isto a seu rebanho, até que se entende. Quem não entende é o rebanho. Por mais que os católicos acreditem na vida eterna, sempre acabam privilegiando esta nossa vidinha terrena. Quando chega a hora de optar pelas belezas da vida eterna – como diz Bento – seu redil busca medicina de ponta. Seguro morreu de velho. Melhor apostar no único horizonte.
COMENTÁRIO DO EMERSON Caro Janer, É pouco a instalação das delegacias especializadas. O governo pensa timidamente, pois deveria fazer como o canal musical aberto TV Mundial e assumir de uma vez que todos têm implicitamente alguma cota de racismo oculto. É o que se depreende da campanha contra o racismo feita no canal, onde em nenhuma das respostas que foram ao ar sobre “Onde você guarda o seu racismo?” aparece e nem aparecerá “Em nenhum lugar”. Há ainda outras opções muito promissoras, como estimular a delação premiada ou então a criação de Comitês Anti-Racismo à exemplo dos Comitês de Defesa da Revolução (CDR) de Cuba que monitoram a vida da população. A primeira opção teria como vantagens transformar todos em possíveis fiscais, o que garantiria uma penetração maior na vida da população, além de ter um custo menor devido a não contratação de mão-de-obra fixa. A delação poderia ser paga através da devolução de algum imposto, à exemplo do que ocorre em São Paulo onde quem quiser virar fiscal do governo basta pedir o CPF na nota fiscal, recebendo pelo serviço alguns centavos de crédito. A mesma tecnologia propiciaria um desconto em algum imposto para cada denúncia comprovada. Mais tarde, o governo poderia propor uma outra campanha para prevenir que se seja delatado, onde aqueles que se sentissem culpados e se acusassem poderiam receber pleno perdão ou ainda penas afiançáveis, como na campanha pelo desarmamento, onde o governo pagava pelo menos R$100,00 a cada arma entregue. Esses delitos lingüísticos lembram evidentemente Orwell e muitos outras situações históricos conhecidas, mas pode-se citar aqui casos menos conhecidos e que foram descritos no recém reeditado “Confissões da Bahia”, onde se transcreve as atas de alguns casos de auto-delação obtidas “no tempo da graça” pelo visitador da Santa Inquisição em 1534. Dois casos emblemáticos (quinto e décimo - sétimo casos) mostram ao que se é levado a fazer quando o clima de delação impera, mesmo que seja em torno de coisas absolutamente insignificantes. Na primeira confissão, um tal de Pedro Teixeira fôra preso a mando do bispo local por três ou quatro dias e teve que pagar quatro cruzados a Confraria do Santississimo Sacramento. Tudo isso porque “algumas testemunhas disseram que ele confessante tinha dito, havia dois ou três anos, que uma bula que estava em uma Igreja com os selos pendentes parecia carta de éditos com chocalhos pendurados”. Na segunda, um tal de Roque Garcia após ouvir sobre o descrédito do capitão sobre o relato de alguns negros que alguns gentios haviam matado quatro ou cinco homens em um barco no rio São Franciso, disse que “cria ele no que diziam aqueles negros como nos Evangelhos de São João”, sendo repreendido na ocasião por um outro soldado. Mais tarde, se a moda delatória vingar entre nós, talvez se poderia promover também alguns autos-de–fé para que os culpados se penitenciem publicamente. Como as escolas de samba volta e meia gostam de apresentar alas ou enredos para polemizar e obter audiência (da última vez a Viradouro tentou mostrar um carro do holocausto com várias esculturas de cadáveres esqueléticos), certamente algumas delas não se oporiam em aproveitar a ocasião do carnaval e colocar em alguma escola a Ala dos Penitentes para esses infratores, tudo em nome do desagravo ou de outra motivação cartática qualquer que seja aceitável... Um abraço. Emerson Schmidt.
Domingo, Novembro 02, 2008
SOBRE CORRENTES Leitores querem saber o que tenho contra casamentos homossexuais. Bom, não é que tenha algo contra casamentos homossexuais. Sou contra, isto sim, o casamento. Desde muito novo acreditei que as relações entre duas pessoas deviam depender de sentimentos, não de registro em cartório. Sempre fui hostil à organização familiar e raras vezes freqüentei uma casa de família em minha vida. Preferia encontrar-me, com amigos e amigas, preferentemente em bares ou nas ruas. Sempre vi o casamento como grihões e jamais gostei de portar grilhões. Durante doze anos, mantive uma excelente relação com minha mulher, sem que nenhum de nós dois pensasse em casamento. Mas ninguém é dono de seu destino. Um belo dia, fui contemplado com uma bolsa em Paris. Mal o cônsul comunicou-me a boa nova, ergui o fone e chamei a Baixinha: - Queres casar? Ela quase teve um chilique do outro lado da linha. Achava que eu havia pirado. Nada disso. Queria levá-la comigo e a fórmula mais prática de levá-la era casar. Como eu não dava importância alguma a papéis passados, tanto fazia – como tanto fez – assiná-los. Soube mais tarde que a concessão de bolsas é um grande fator de casamentos. Casei discretamente, num cartório da Riachuelo em Porto Alegre. Convidei apenas os mais interessados no assunto, pais e mães e dois ou três amigos que serviram como testemunhas. Ora, o cartório ficava justo ao lado de um de meus bares, a Rotîsserie Pelotense, que por muito tempo foi bebedouro de jornalistas. Combinei com os convivas – e com a “noiva”, é claro – reunião no cartório, às 11h30 da manhã. Que ficassem tranqüilos, eu não faltaria ao encontro. Lá pelas 10h30, fui pro bar. Lá estava o Carlos Coelho, bom amigo daqueles dias, colunista da Zero Hora, empinando seu uisquinho matutino. Pedi uma caipira e ficamos comentando as notícias do dia. Na hora fatídica, disse ao Coelho: - Segura minha caipira. Vou comprar um jornal e já volto. E fui para o cartório. Lá, um juiz com cara de óbvio me perguntou se eu queria casar com a moça. - Claro que quero. É por isso que estamos aqui. Bom, daí o funcionário da obviedade pronunciou as palavras rituais e assinamos os papeluchos. Em frente ao cartório havia a Churrasquita. Combinei com todos um churrasco. Que me esperassem lá. Eu ia comprar um jornal e já voltava. Voltei à Pelotense, para terminar minha caipira. O Coelho nem sonhava que, naqueles poucos minutos, eu havia trocado de estado civil. Ocorre que meu companheiro de trago tinha o péssimo hábito de ler o Diário Oficial. E viu os proclamas. Fui vilmente delatado à toda imprensa gaúcha. Meus coleguinhas se apressaram a anunciar, urbi et orbi, o que jamais me passara pela cabeça anunciar. Ora, eu tinha cinco namoradas firmes na época. Não havia mentira em nossos relacionamentos, todas sabiam de todas. Mas eu não chegara a falar do casamento. Dia seguinte, tive de dar entrevista à Folha da Manhã. Sim, havia casado. Por razões burocráticas, para levar minha companheira a Paris. Mas continuava sendo o mesmo homem solteiro de sempre. Continuei sendo mesmo. O casamento me foi perdoado. Mas não o fato de não levá-las para Paris. Fosse xeque árabe, casava com todas, levava todas para Paris e dava um studio para cada uma. Ocorre que eu não era xeque árabe. Precisava optar por uma companheira de viagem. Optei pela que mais queria. Me concederam os deuses ter vivido um casamento sem grilhões. Continuei levando minha vidinha de sempre, mas sempre cada vez mais apaixonado pela Baixinha. Vivemos mais 26 anos – 38 ao todo – e mais viveríamos se ela não tivesse partido. Hoje ainda conservo uma certa distância das famílias. Meus pequenos círculos de amigos – em São Paulo, Paris, Florianópolis, Porto Alegre e Dom Pedrito – de modo geral são constituídos por pessoas solteiras. Eventualmente, divorciadas. Só em Santa Maria tenho relações com famílias, isto muito em função dos parentes de minha Baixinha. Não me queixo. São pessoas que prezo muito e respeito suas opções. Família, nos anos de minha juventude, era sinônimo de repressão. Particularmente sobre as filhas. Ao filho macho, toda libidinagem era permissível. A mulher tinha de se manter virgem. Claro que nem todas se mantinham virgens. Mas tinham de aparentar que eram. Foi a época das chamadas demi-vierges, meninas que se entregavam a todos os prazeres de cama, tendo o cuidado de preservar intacto o hímem. Solteiro era leproso. Mesmo na capital gaúcha, em plenos anos 60, era muito difícil para um solteiro alugar apartamento. Solteiro, estado civil suspeito. Neste sentido, eu admirava a liberdade dos homossexuais. Eram pessoas que renunciavam ao convívio familiar e faziam suas vidas com diversos parceiros. Muitos prazeres e ciúmes nenhum. Hoje, homossexual quer grilhões. Quer submeter-se à monotonia do casamento e a obrigações de fidelidade. Foi na Alemanha, se bem me lembro, que ocorreu o primeiro divórcio homossexual. Por infidelidade. Logo ocorrerão entre nós. O difícil de suportar no casamento sempre foi a monogamia. Os homossexuais contemporâneos estão renunciando à liberdade da qual sempre gozaram e embarcando na prisão do matrimônio. Assim sendo, sou contra o casamento homossexual. Não por moralismo. Mas por constituir uma volta a um modelo que não deu certo. Conheço raros casais que são fiéis um ao outro. Raríssimos. De modo geral, casamento é um festival de mentiras. Dos casais que conheci em minhas universidades, não conheço nenhum que permaneça unido hoje. Por uma razão simples: casaram mentindo um ao outro que a monogamia é possível. Mas, enfim, se alguém gosta de correntes, que case e felicidades!
O autor esquecido: LEI CONTRA O CRISTIANISMO Datada do dia da Salvação: primeiro dia do ano Um (em 30 de Setembro de 1888, pelo falso calendário). Guerra de morte contra o vício: o vício é o cristianismo Artigo Primeiro — Qualquer espécie de antinatureza é vício. O tipo de homem mais vicioso é o padre: ele ensina a antinatureza. Contra o padre não há razões: há cadeia. Artigo Segundo — Qualquer tipo de colaboração a um ofício divino é um atentado contra a moral pública. Seremos mais ríspidos com protestantes que com católicos, e mais ríspidos com os protestantes liberais que com os ortodoxos. Quanto mais próximo se está da ciência, maior o crime de ser cristão. Conseqüentemente, o maior dos criminosos é filósofo. Artigo Terceiro — O local amaldiçoado onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco deve ser demolido e transformado no lugar mais infame da Terra, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Lá devem ser criadas cobras venenosas. Artigo Quarto — Pregar a castidade é uma incitação pública à antinatureza. Qualquer desprezo à vida sexual, qualquer tentativa de maculá-la através do conceito de “impureza” é o maior pecado contra o Espírito Santo da Vida. Artigo Quinto — Comer na mesma mesa que um padre é proibido: quem o fizer será excomungado da sociedade honesta. O padre é o nosso chandala — ele será proscrito, lhe deixaremos morrer de fome, jogá-lo-emos em qualquer espécie de deserto. Artigo Sexto — A história “sagrada” será chamada pelo nome que merece: história maldita; as palavras “Deus”, “salvador”, “redentor”, “santo” serão usadas como insultos, como alcunhas para criminosos. Artigo Sétimo — O resto nasce a partir daqui. Nietzsche, O Anticristo
Sábado, Novembro 01, 2008
RACISMO NEGRO AVANÇA Essa agora! Edson Santos, ministro da Igualdade Racial – como se isso comportasse um ministério - está propondo a criação de delegacias especializadas no combate a crimes raciais. Não bastassem as cotas raciais para ingresso na universidade, teremos agora delegacias de negros. Logo nestes dias em que doutos intelectuais negam a existência de raças. Segundo Santos, que pretende liberar R$ 100 mil aos governos estaduais que aderirem à proposta, a "delegacia do negro" funcionará nos moldes das delegacias da mulher. Além disso, ele espera que essas delegacias possam investigar crimes contra integrantes de outras minorias étnicas, como ciganos, judeus e participantes de cultos afro-brasileiros. Para o ministro, eles enfrentam dificuldades para denunciar ofensas racistas e pedir a abertura de boletins de ocorrência, nas delegacias convencionais, por causa do despreparo e da má vontade dos policiais civis. "A possibilidade de a denúncia dar em alguma coisa é pequena. A impunidade é a regra". O racismo, hoje, é definido como crime inafiançável e imprescritível. Já houve no Brasil negro indo para a cadeia por chamar negro... de negro. Jamais faça isto. Se fizer, melhor matar logo o negro. Pois assassinato é afiançável. Do jeito em que vão as coisas nesta era do politicamente correto, logo teremos delegacias especiais para bugres, que afinal já gozam de legislação especial. Mais delegacias para travestis e transexuais. Quem sabe para lésbicas e similares. O racismo negro avança a largos passos no país.
UMA VOZ SENSATA Em agosto passado, quando a Fundação Getúlio Vargas estabeleceu a renda mensal de R$ 1.064 como parâmetro inicial para definir a classe média, devo ter sido uma das raras vozes a denunciar o absurdo de tal critério. Assim, é com satisfação que leio no Estadão de hoje artigo "Classe média que ainda não é", assinado por José Aristodemo Pinotti, onde o deputado se pergunta: Não consegui deglutir essa euforia acrítica de classe média majoritária. Outro dia, contou-me um amigo que alguém lhe perguntara: "Como faço para entrar na classe média, se ganho R$ 980?" Respondeu-lhe esse amigo: "É muito fácil, peça ao seu patrão um aumento na Carteira de Trabalho de R$ 84 e, mesmo que não os receba, você passará a ser mais um feliz integrante dessa classe, o que certamente mudará a sua vida." Não se brinca assim, por atacado, com o povo de um país. Um mínimo de análise é necessário, por isso pergunto: R$ 1.064 são suficientes para prover uma família, mesmo com apenas dois filhos, e manter uma casa com oferta de boa alimentação? E os gastos com transporte, telefone, água, luz, cultura, lazer? É só pela renda familiar que se define a classe média? É tão simples assim? Quem estabeleceu esses limites respondeu às perguntas anteriores?
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