¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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Quarta-feira, Dezembro 31, 2008
 
DESDE O FUNDO DO POÇO À
UMA VIDA PLENA DE GRAÇA *



Senhor pastor:

Houve época em que cri em um deus onipotente e salvador e muitas vezes a ele orei por minha salvação, pela salvação de meus próximos e mesmo da humanidade. Foram meus dias de adolescência, pastor. Justo naqueles dias, fui assaltado pelo clamor, não dos povos – como fala o Livro – mas pelo clamor da carne, clamor tirano, imperioso e impossível de ser domado. Por melhores propósitos que fizesse, acabava dominado pelos ditos prazeres da carne. Dizem que a carne é fraca, pastor. Nada disso, a carne é forte. Fraco é o espírito, que sempre acaba cedendo à carne.

Entrava em pânico, via à minha frente as chamas eternas do Hades, onde tudo é choro e ranger de dentes. Me sentia condenado ao convívio com demônios. Arrependia-me, fazia atos de contrição, confessava meus pecados a sacerdotes e recebia a absolvição. Por um dia ou dois, conseguia viver sem pavores. Mas não mais que um dia ou dois. No terceiro, eu já estava pecando de novo. As noites de tempestade eram noites de pavor. Talvez fosse megalomania. Mas cada raio que caía, eu sentia que era dirigido a mim.

Eu era pobre, pastor. Filho de camponeses, nunca tive facilidades em minha infância. Muito menos na adolescência. Fiz minhas universidades mal tendo dinheiro para o restaurante universitário. Vivi em repúblicas abomináveis, pequenos apartamentos, sem grana suficiente para tomar um vinho decente. A bebida mais ao alcance de minha boca era a mais barata, a cachaça. Ainda adolescente, tomei grandes porres de cachaça. Naqueles dias de pouca grana, bebia muito e bebia mal. Em minha juventude, pastor, eu estava no fundo do poço. O senhor Jesuis era um encosto em minha vida, despacho de catimbó feito a Exu, praga rogada por urubu para infernar meus dias.

Foi quando então, pastor, durante três dias e três noites, li atentamente a Bíblia. Foram dias em que quase não comi. À noite, pegava um cavalo em pêlo, sem freio nem buçal, e saía a galopar nas madrugadas, olhando o céu estrelado e esperando ouvir daquele universo magnífico alguma resposta. Não ouvi nada, pastor. Foram três dias e três noites decisivas em minha vida. A partir da leitura do Livro, tornei-me ateu. Aquele deus proposto pelas Escrituras, que se pretendia criador daquele firmamento esplêndido e cravejado de estrelas, que só vemos na pampa ou no deserto, sempre longe das cidades, não me convencia. Aquele deus matava e exterminava, mandava matar e exterminar. Não me servia.

Disse então a mim mesmo: sai de mim, Coisa Ruim! Me larga, ó Espírito Castrador, sai de minha vida, ó Supremo Estraga-prazeres! Desapareçam de minha vida vocês três, o Pai, o Filho e o Paráclito. E a Mãe também, antes que me esqueça. E todos os santos do céu e todos os padres de todas as igrejas. Xô, Espírito Imundo, xô, Assassino de Povos. Ouste, Pai das Doenças e Exterminador de Nações. Rua de minha alma, ó velho Deus castrado!

Então, pastor, tudo mudou em minha vida. Saí do fundo do poço, rumo à luz do bocal. Mulheres começaram a cair-me dos céus, justo daqueles céus mudos aos quais eu pedia perdão por meus pecados. Como perdera a noção de pecado, nunca mais pequei. Tornei-me um santo homem e procurei imitar os bíblicos patriarcas. Curti plenamente os prazeres que tanto apraziam ao rei Davi, ao rei Salomão, à Sulamita. Verdade que nunca consegui sustentar setecentas mulheres e trezentas concubinas. Mas fiz o que estava a meu modesto alcance.

Por mais de quarenta anos, as mulheres me caíram nos braços como o maná caiu do alto por quarenta anos para saciar a fome do Povo Eleito. Comecei minha vida afetiva com duas, às quais muito amei. Por circunstâncias dos dias, perdi uma. Vivi quatro décadas de muito carinho e cumplicidades com a segunda. Fui feliz em meu casamento. Divórcios, separações, o espírito do ciúmes, amargura, traições, nunca rondaram minha existência.

Quando minha amada partiu, não acusei deus algum, afinal não acreditava em nenhum. Estas duas primeiras amadas logo se multiplicaram por dois, cinco, dez, vinte, cinqüenta. Não saberia dizer quantas, nunca contei. Mas digamos que a metade da “listina” de Leporello. Corri atrás delas com a hybris de um fauno grego, para compensar os dias de vacas magras e sem leite de minha juventude. Após deixar de crer no tal de deus, minha vida foi uma profusão de prazeres. Corri nu atrás de valquírias nuas pelos bosques de Estocolmo, em plena luz da meia-noite. Isto, pastor, teu deus não confere aos mortais, exceto se forem majestades apaniguadas pelo Senhor. Isto é ventura só concedida pelos deuses lúbricos do Valhala. Tack tack, Odin!

Uma vez descrente, apesar de pobre consegui educar-me. Fiz duas faculdades, três pós-graduações no Exterior, viajei por todos os países da Europa, por mais alguns do Leste europeu, pela África, Estados Unidos, Canadá e América Latina. Nasci nos peraus do Upamaruty, em um rancho de pau-a-pique e fiz doutorado em Paris. Consegui escapar de meu pequeno mundinho e sai a navegar pela vastidão do anecúmeno. Au bord’elle, la Seine, conheci uma peoniana adorável, a quem dediquei minha tese. Havia também Úrsula, uma polonesa, que me sussurrava: “mon ours tropical”. Música para meus ouvidos.

Não cheguei a amar a filha de Faraó, muito menos moabitas, amonitas, edomitas, sidônias e hetéias, como o sábio rei Salomão. Mas tive namoradas lindas em várias cidades do mundo. Desde suecas a francesas. Desde macedônias até mesmo a turcomenas e usbeques, passando por polonesas e russas. Adorei a turcomena. Era de Achkhabad, palavra que soava deliciosamente à minha fome de exotismo. Uma vez ateu, fascinou-me a idéia de ouvir mulheres gemendo em línguas que desconheço. E as ouvi. Paris sempre foi pródiga em estrangeiras de todos azimutes e não recusei o que a cidade generosamente me oferecia. Tive do bom e do melhor, como dizem suas ovelhas, senhor pastor. Mas só depois que deixei de crer.

Ateu, fui abençoado com dinheiro e vida confortável. De camponês tosco, tive acesso a línguas, à filosofia, à literatura, à música erudita, a óperas, em suma, ao dito mundo da cultura. De Teixeirinha passei a Mozart, de Luiz Gonzaga a Bizet. Abandonei a cachaça e passei a cultivar bons vinhos e bons uísques. Do mondongo fui promovido ao foie gras, do arroz com feijão às andouilletes. Curti a boa gastronomia da Espanha, França, Itália, Alemanha, Portugal. Percorri as cidades mais esplendorosas do Ocidente. Vivi em três prestigiosas capitais da Europa e em quatro grandes capitais de meu país.

Perambulei por paisagens magníficas, que me fizeram chorar. A beleza extrema sempre me provoca lágrimas. Andei pelo deserto, por oueds, montanhas, dunas, fjords, rias e ventisqueros. Chorei nos Andes, chorei nos Alpes, chorei no Saara, chorei nas costas da Noruega, chorei no Estreito de Magalhães. Chorei também em Santorini. De Madri, saí chorando. Eu estava em uma bodega, tudo era cores, dança, música, canções, madriles lindas, muito vinho, odores de assado bom, os sons rascantes de uma língua que adoro.

Quando me dei conta que, dali a duas horas, estaria voltando ao Brasil, chorei como um terneiro desmamado. Fui chorando até o aeroporto. Não porque estivesse voltando ao Brasil. Mas porque estava abandonando a festa. Dentro de pouco eu estaria voando, espremido num assento apertado, rumo a um país sin flamenco ni cante hondo, sin bailaoras ni cantaores, sin cochinillos ni lechales. Na bodega, continuariam todos cantando e dançando, comendo e bebendo. Muito chorei em minha vida, pastor. Raras vezes de tristeza. O mais das vezes, foi por deslumbramento, perplexidade ante a beleza. Felicidade também nos faz chorar. Choro também com certas árias de Nabucco, Carmen, Don Giovanni, Norma.

Depois que abandonei o tal de Deus, senhor pastor, passei a viajar quase todos os anos à Europa. (Quando nele acreditava, só conseguia ir de Dom Pedrito a Ponche Verde). Fiz pelo menos cinco travessias divinas do Atlântico – com perdão pelo trocadilho – de navio. Sabe, pastor? Aqueles navios cheios de Emmas Bovarys sedentas para conhecer o mundo e experimentar emoções outras que não as medíocres emoções proporcionadas pelo Charles. Vivi grandes momentos, “ao quente arfar das vibrações marinhas”, como canta o poeta. Fiz cruzeiros também divinos pelo Mediterrâneo, pelo Báltico, pelo mar do Norte e pelo mar Negro, pelo Egeu, pelo Adriático e pelos Canales Fueguinos.

Durante pelo menos uns trinta anos, sempre celebrei a bona-chira nos mais antigos e acolhedores restaurantes da Europa, com minha Baixinha adorada. Agora que ela partiu, ora a celebro com minha filha, ora com alguma namorada. E com meus amigos. Bastou-me abandonar Deus, pastor, e minha vida se tornou repleta de bênçãos, que me caíam dos céus em catadupas.

Fui salvo por minha descrença, pastor. Quando cria em Deus, era um adolescente fodido e sem nenhum vintém. Não tinha nem como convidar uma amiga para um bom jantar. Bastou-me deixar de crer e a vida se tornou linda. Cheguei aos sessenta jovem e cultivando minhas antigas amadas. Não tenho carro, nem nacional nem importado, como ostentam vossos crentes, é verdade. Mas isto é opção minha. Com carro não se vai longe. Ora, eu gosto de ir longe.

Sem ser rico, vivo bem. Não tenho contas em vermelho, nem nome sujo na praça, nem problemas na justiça. Jamais fiz empréstimos. Não sei o que seja um cheque sem fundo. Muito menos problemas familiares. Hoje, minhas únicas dívidas são luz, água e condomínio. Vivo em bairro bom, prédio ótimo, apartamento confortável. Ano passado, regalei uma antiga namorada com uma viagem a Paris, Barcelona e Madri. Com uma noite em Bruxelas, só para curtir um café que adoro.

À minha filha – doravante designada Primeira Namorada – dei de presente os fjords noruegueses, o sol da meia-noite, Estocolmo e o arquipélago de Estocolmo e de novo Paris. Na próxima primavera européia, estou combinando um giro pela Itália com uma amiga da Finlândia. No outono, penso partir com a Primeira Namorada rumo a Madri e às ilhas Canárias. Madri porque não concebo ir a Espanha sem visitar Madri. Ilhas Canárias, porque quero passear entre os vulcões de Lanzarote e comer carnes assadas no calor das lavas.

Por vários anos vivi soterrado no fundo do poço. O senhor Jesuis sempre foi um atraso em minha vida. Tudo só se tornou lindo, divino e maravilhoso quando o abandonei. Sei que o senhor pastor, por questões de fé, neste ano que começa, não poderá gozar dos prazeres que gozei e gozarei ainda.

Seja como for, bom 2009, senhor pastor.

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* A meus fiéis, solicito reenviar esta crônica a quem interessar possa.

Segunda-feira, Dezembro 29, 2008
 
FRANÇOIS MITTERRAND
SITUA O SANTO GRAAL



Já escrevi algumas linhas sobre O Código da Vinci. Sem jamais ter lido o livro nem visto o filme, considero ser uma obra ridícula. Nunca consegui entender a preocupação da Igreja em contestar uma tese sem pé nem cabeça. Não faltou quem me chamasse de preconceituoso. Que não podia criticar uma obra que não havia lido. Ora, certas obras não precisam ser lidas para serem julgadas. Basta venderem milhões de exemplares mal saem do prelo. Sinal óbvio de que não valem nada.

Hoje, o filme estava passando na Globo e decidi vê-lo até o final. Há décadas não via algo tão medíocre. Pela cena final, temos de concluir que foi François Mitterrand quem situou definitivamente o Santo Graal.

Um de meus interlocutores acha a idéia do livro interessante, por decifrar enigmas. Se os decifrasse, tudo bem. Acontece que não decifra nada. Só confunde. A tese sobre o Santo Graal é tosca. A idéia da Maria Madalena como a discípula mais amada também não se sustenta. Em suma, o que o autor quis foi ganhar dinheiro em cima dos mitos bíblicos.

Aliás, a santificação da madalena está na moda. Deve ser reflexo do feminismo. Ainda há pouco, vi um documentário sobre a Maria de Magdala. Teólogos pretendem que a madalena seja o discípulo amado - assim no masculino - que Jesus cita mas não nomeia. Estaria no masculino porque a época não aceitaria a idéia de uma mulher como apóstolo. De onde se concluiria que o Evangelho de João não foi escrito por João, mas pela madalena. Ora, especulação por especulação, prefiro então Guerra nas Estrelas.

Já um outro leitor alega que se obras que vendem milhões de exemplares não valem nada, então a Bíblia ou Dostoievski não valem nada. Alto lá, companheiro! Uma coisa são bestsellers instantâneos, que surgem do dia para a noite e sempre estão na lista dos mais vendidos. Outra coisa são obras reproduzidas aos milhões... no decorrer dos séculos.

A estes, chamamos clássicos.

 
PORCO AGRADECIDO
NÃO VIRA O COCHO



Um leitor me envia uma crítica feroz de Moacyr Scliar à ditadura cubana, publicada na Zero Hora, de Porto Alegre, no sábado passado.

O máximo que ele se permitiu, na conclusão do artigo, diz o leitor, foi: "... Em outubro de 1958, teve início a vitoriosa Marcha sobre Havana. No dia primeiro de janeiro, Batista deu no pé. Começava assim um dos capítulos mais controversos da história recente. O sonho continuou sonho? O sonho transformou-se em realidade? O sonho virou pesadelo? São perguntas que não querem calar. E ainda bem que não querem calar. Neste caso, como em outros, é da discussão que nascerá a luz. Não a luz dos fogos de artifício que saudaram 1959."

Eu, francamente, não entendi o que ele ainda quer discutir...

Ivo


Ora, meu caro Ivo, a História é um lago que seca. Ao descerem, suas águas trazem à tona monstros insuspeitos. Todos os escritores gaúchos do século passado foram cúmplices da peste marxista, sem exceção. Dyonélio Machado, por exemplo, após a evidência dos gulags, passou a escrever sobre a antiga Grécia. Foi o mesmo movimento espiritual de Sérgio Faraco, que refugiou-se – literariamente - em Urartu, na Armênia, para não ter de falar do que sofreu em Moscou. Josué Guimarães foi caixeiro-viajante a serviço de Pequim e Moscou. Até as pedras da Rua da Praia sabiam que estes senhores eram comunistas, mas ai de quem o dissesse em público. Seria execrado como delator e expulso do rol dos vivos.

Erico Verissimo também. Certa vez, pergunta a Faraco se não pensava escrever sobre sua estada na União Soviética. "Respondi que, de fato, tinha essa intenção, embora minha experiência não fosse edificante. Ele ficou pensativo, depois disse que, se era assim, talvez fosse ainda menos edificante narrá-la, enquanto vivíamos, no Brasil, sob uma ditadura militar. Ele tinha razão" - diz Faraco. Ora, os militares lutavam para que o Brasil não virasse o imenso gulag que o futuro escritor então testemunhara. Em função de um regime que jamais o pôs na prisão, mesmo sendo comunista, Faraco silencia sobre o regime comunista que o internou em um hospital psiquiátrico, mesmo sendo comunista.

Covardes e omissos foram também todos os demais que, sem pertencerem ao Partido, silenciaram sobre os crimes do comunismo. Mário Quintana, por exemplo, refugiava-se em uma frase cômoda: "eu não entendo de problemas sociais". Moacyr Scliar foi premiado pela ditadura de Fidel Castro. É leitão agradecido, que não vira o cocho onde come. Ou seja, desde há muito se preparava para entrar na Academia Brasileira de Letras, aprazível reduto de viúvas do stalinismo. Já que estamos comentando o assunto: filho de Verissimo, Verissiminho é. Luis Fernando, o rebento, apóia toda e qualquer ditadura, desde que de esquerda.

Apenas dois gaúchos, em todos os cem anos do século passado, ousaram escrever contra a barbárie. Um foi o jornalista Orlando Loureiro, que publicou A Sombra do Kremlin. Procure nos sebos: editora Globo, 1954, dez anos antes da viagem do alegretense deslumbrado. O outro é este que vos escreve, que tem denunciado o marxismo desde os dias em que Faraco passeava pelas ruas da nova Jerusalém.

Domingo, Dezembro 28, 2008
 
SURTO DE NOSTALGIA
ACOMETE A IMPRENSA



Lemos no Estadão de hoje uma espécie de editorial disfarçado como notícia, sobre o regime de 64:

“A preocupação com os adversários do governo militar era tão intensa que a Divisão de Segurança e Informações do então Ministério da Educação e Cultura (MEC) publicou, em 1970, uma cartilha específica intitulada Como eles agem. O documento dá a avaliação do regime sobre como, supostamente, os grupos clandestinos procuravam se infiltrar nas áreas da educação, cultura, imprensa e religião para influenciar os brasileiros mais jovens com suas idéias.

"As organizações esquerdistas vêm tentando conquistar o apoio popular através da identificação dos seus fins com as necessidades e aspirações do povo, utilizando-se da propaganda sub-reptícia, através das letras e artes e, muitas vezes, de meios ilegais como os atos de terrorismo e sabotagem", avisa a introdução da cartilha.

O artigo, assinado por Marcelo de Moraes, tem um tom irônico, como que afirmando tal preocupação ser um grosso equívoco do regime. "Supostamente, os grupos clandestinos procuravam se infiltrar..." Supostamente, um catzo! Os marxistas sempre estiveram infiltrados na Igreja, a tal ponto que a Igreja deu cobertura a terroristas como Marighella. Dom Evaristo Arns manifestou apoio público ao ditador Fidel Castro. No Rio de Janeiro, o cardeal Eugenio Sales alugou 80 apartamentos para abrigar apparatchiks de toda a América Latina, que chegaram a acolher grupos de 150, simultaneamente. O total de militantes hospedados, entre 76 e 82, chegou a cinco mil pessoas.

E continuam infiltrados também nas escolas e universidades, preferentemente nas ditas Humanidades, onde os cursos de Letras, História, Filosofia e Sociologia eram escolas de catequese comunista. Eram e ainda são. Embora a imprensa tenha noticiado a Queda do Muro de Berlim, o desmoronamento da URSS e a definitiva desmoralização da doutrina comunista, ao que tudo indica a universidade brasileira ainda não tomou conhecimento disto.

A imprensa contemporânea segue os mesmos rumos. Embora os jornalistas, por obrigação profissional, tenham noticiado tais fatos, parece que já os esqueceram. O mesmo Estadão que ironiza as preocupações dos militares de há quatro décadas, conseguiu um milagre em sua edição deste domingo. Dedicou em seu suplemento “Aliás” oito páginas em memória à Revolução Cubana, sem usar em um só momento a palavra ditador. Pelo menos no que diz respeito a Fidel Castro. Nas oito páginas do suplemento, a palavra ditador é usada quatro vezes... para definir Fulgencio Batista. E mais uma quinta vez, para designar Gerardo Machado, político que subiu ao poder em 1933, antecedendo Batista.

A Folha de São Paulo, por sua vez, dedica oito artigos às bodas de ouro da Revolução em seu caderno "Mundo", e mais um outro na "Ilustrada". Menção nenhuma a ditador ou ditadura. Em um só texto fala-se em ex-ditador. Mas isso na linha fina, e não no corpo do artigo. Por que ex-ditador? O Coma Andante continua ditando em Cuba.

Durante décadas de ditadura, a imprensa brasileira e mesmo a internacional, sempre referiu-se a Castro como presidente. Com a Queda do Muro e o desmoronamento da União Soviética, cá e lá, alguns jornais passaram a chamá-lo de ditador. Até mesmo a Folha e o Estadão. A imprensa parece hoje ter tido uma recaída, uma espécie de surto de nostalgia, na comemoração do meio século de ditadura castrista.

Até mesmo jornais que se pretendem independentes, como o espanhol El País e o francês Libération, não falam na ditadura de Castro. Convalescentinho, Fidelito virou coitadinho. Quando morrer, vai no mínimo virar santo.

A história me absolverá, disse um dia Castro. Pelo jeito, já o absolveu.

Sábado, Dezembro 27, 2008
 
NO PERAU DO TIO ÂNGELO (IX)


Tenho dois aniversários a cada ano. O verdadeiro é em abril. O oficial, em julho. A bem da verdade, não comemoro nenhum dos dois. Prefiro uma boa janta regada a bom vinho com alguma pessoa mais íntima, e nada mais que isso. Por que dois aniversários? Ora, naqueles rincões os cartórios ficavam a léguas de distância. Não tínhamos carro, aliás meus ascendentes jamais o tiveram. Nem pais nem avós. Ou seja, de Adão e Eva para cá, minha estirpe não soube o que é um carro. Eu, muito menos.

Ir até um cartório significava um dia de cavalgada. Que poderia ser dia perdido. Nunca se sabia se a cria iria vingar. Melhor esperar para ver. Três meses após meu nascimento, meus pais consideraram que a cavalgada não seria inútil.

O grupo escolar ficava a uma légua de nosso rancho. Explico aos leitores urbanos: légua são mais ou menos seis quilômetros. Normalmente ia a pé, arrebanhando a piazada pelo caminho. No inverno, devido à geada, íamos de pés nus, para não molhar as alpargatas. Perto da escola, lavávamos os pés numa sanga e só então púnhamos calçados. Nunca me queixei do frio e até hoje sinto alguma vontade de sair quebrando geada pelos pastiçais. Outras vezes, ia na aranha que levava minha mãe, professora, ao colégio. Mas gostava mesmo era de quebrar geada.

CLOTILDE *

Lembras, Clotilde, daquele guri boca suja e sem respeito que fugia para o chircal quando chegavam visitas? E que só voltava do mato para exibir aos visitantes - especialmente se eram moças - seu vasto repertório de nomes feios? Eu já não lembro muito dele. Entre aquela época e hoje se passaram mais de trinta anos, que dão a impressão de trezentos. Mas sei que lembras dele melhor do que eu.

Me dá teu braço. Vamos passear pelos campos de Ponche Verde e Upamaruty. Rever a sanga onde pesquei minhas primeiras joaninhas. Os mundéus para onde mangueei perdizes. A sombra da parreira onde me ensinaste as primeiras letras. A cacimba em que me debrucei para beber a água gelada do manancial. Vamos passear em silêncio, não sou de muito falar. Sabes que no campo não se admite intimidades entre pais e filhos. Se hoje tenho a coragem de te falar, decerto é porque estou longe.

Olhando paras trás, tudo me parece sonho. Lembras de quando escarafunchavas meus pés arrancando rosetas e espinhos de tala e coronilha? Sinto saudades daqueles espinhos. Aquele cascão grosso que protegia meus pés é hoje uma pele fina, sensível até mesmo a grãos de areia. Forçado pelas convenções, ao pôr sapatos me sinto um pouco como cavalo ferrado. Mas a cidade assim o exige.

Me passa um mate. Vamos sentar na frente da Casa, ao lado da pedra onde Canário afiava facas e tesouras. Enquanto o sol vai caindo e as sombras avançam como fantasmas tristes coxilha arriba, vamos corujar a primeira estrela, ouvir a canção dos grilos, ver as ovelhas se aprochegando em fila para o abrigo de uma canhada.

Não sei se imaginaste alguma vez as andanças futuras daquele guri xucro. Eu jamais imaginaria. Se, naquela época, me dissessem que há um país onde o sol não se põe, eu insultaria o mentiroso. E não é que um dia fui parar lá? E à meia-noite o sol ameaçava esconder-se, mas era só ameaça, continuava rodando quase paralelo ao horizonte.

Lembro de ti muitas vezes atrelando o tordilho à aranha. Li há algumas semanas, num jornal, a queixa de umas professoras rurais que tinham de ir à escola a cavalo. Gente boba, não é? Durante trinta anos, alfabetizaste duas gerações, graças ao tordilho. E nunca ouvi de ti queixa alguma.

Devo ter sido bom aluno, não é verdade? Uma das coisas que lembro muito foi daquele quinto ano primário. Tirei o primeiro lugar da aula. Foi barbada. Pra começar, só tinha dois alunos, eu e a Chica do tio Martim. Como viriam fiscais da cidade para os exames e a turma não estava bem preparada, as professoras nos deram a prova num domingo, para decorar em casa. Não sou ruim de memória, respondi tudo em dois minutos.

Lembras da professora que pulou o alambrado atrás de nós, quando a aranha já descia o lançante da coxilha? Dona Ivone Garrido, de Dom Pedrito. "Espera, pára, o teu filho é um gênio, tens de mandar esse guri pra cidade". Pois é! Mandaste o geninho pra cidade. Lá já foi mais difícil continuar sendo o primeiro da classe. As professoras jamais deram a alguém as provas antes do dia do exame. Resultado: no fim do ano, um monte de reprovações. Por isso que o ensino moderno anda em crise.

Mais um chimarrão antes de a gente terminar este passeio! Já está ficando tarde, tenho de voltar ao presente. Só há um lugar no mundo para onde sempre volto com o coração aos pulos: Ponche Verde. Qualquer dia estarei de novo aí. Não é por meu gosto que vivo nos povoados. Sabes, já faz alguns anos que não dou uma boa galopada nem vejo um nascer de sol. Há muito não ouço um galo cantar nem vejo galinhas ciscando o pátio depois de uma chuva. Já nem sei se formigas de asa existem ou são lenda. Esqueci o gosto de um tatu assado na casca. Bebo um leite de sabor desagradável que nada mais tem a ver com um apojo quentinho.

Virei bicho da cidade, mãe. Mas qualquer dia desses, o diabo sai de trás da porta, ato a mala nos tentos e me mando à la cria!

* Porto Alegre, Folha da Manhã, 08/05/76

Sexta-feira, Dezembro 26, 2008
 
TERIA JENNIFER FEITZ
CAÍDO NO MAR DO CARIBE?



Uma mulher de 36 anos desapareceu de um cruzeiro nas proximidades de Cancún (México), nesta sexta-feira, noticia a Associated Press. Tanto a Guarda Costeira mexicana quanto a americana fazem buscas pela mulher, identificada como Jennifer Feitz. A suspeita é que ela tenha caído na água.

O aviso de que Feitz havia desaparecido partiu do marido dela, às 5h desta sexta-feira (8h no horário de Brasília). Os dois estavam a bordo do navio Norwegian Pearl, que saiu no domingo de Miami, nos Estados Unidos, para passar sete dias no Caribe.

Resta mesmo saber se a moça caiu no mar. Já testemunhei caso semelhante, em uma travessia no Eugenio C, desarmado em 80. Um marido, desesperado com o sumiço de sua mulher, estava certo de que ela caíra do navio e intimou o comandante a fazer meia-volta para procurá-la em pleno Atlântico. O comandante, marujo de muitas viagens, tomou melhor providência. Chamou toda a tripulação para uma reunião e a mulher, milagrosamente, ressurgiu das águas.

Vamos ver se a Associated Press dá continuidade à notícia. Por enquanto, aposto na sobrevivência da moça. Faz apenas três horas que a moça sumiu. 36 anos, as tentações de uma viagem marítima, as facilidades de um navio de muitas pontes e mais de mil camarotes, qual Emma Bovary resiste? Muito pouco tempo para preocupar-se. Mal dá para desfrutar com gosto o bom folguedo.

Melhor que tenha caído nos braços de um oficial de bordo. Causa um certo constrangimento, é verdade, mas cruzeiros existem para isso mesmo.

 
CONY E BENTO XVI,
A GRANDE DISPUTA



Em princípio, quando se disputa algo, disputa-se algo meritório. Não parece ser o caso de Bento XVI e Carlos Heitor Cony, ambos empenhados em um estranho combate, o de demonstrar um mais ignorância que o outro. Ontem, foram uníssonos em afirmar uma grande bobagem, o nascimento de Cristo em Belém. Já coincidiram em outra, a de falar em Reis Magos, quando não existe rei mago algum na Bíblia.

Hoje, na Folha de São Paulo, Cony abriu larga vantagem sobre o Bento. Escreve o erudito imortal:

Um autor escandinavo - não lembro o nome dele, é um nome complicado, com seis consoantes, um trema, dois acentos circunflexos e uma única vogal - conta a história do sujeito que ia ser enforcado. Ao sentir que o carrasco botava a corda em seu pescoço, teve um pensamento que o consolou: "Amanhã, não precisarei escovar os dentes".

Sem ser especialista em literatura escandinava, ponho em xeque a afirmação do cronista. Desconheço autor escandinavo cujo nome tenha seis consoantes e uma única vogal. Até concedo: pode ser que exista e eu o desconheça. Mas um nome com uma só vogal não pode ter dois acentos e ainda por cima um trema. Como consoantes não têm acentos nem tremas, não é preciso conhecer literatura escandinava para perceber que Cony disse bobagem.

Segunda besteira, afirmar a existência de acento circunflexo em línguas escandinavas. Este diacrítico - sinal gráfico que se coloca sobre, sob ou através de uma letra para alterar o seu som - existe em onze línguas. Nos idiomas escandinavos, só existe no norueguês, e em apenas três palavras: fôr (do antigo norueguês fóðr, comida de animal), lêr (do antigo norueguês leðr, pele) e vêr (do antigo norueguês veðr, estado atmosférico). É acento em extinção. Até pode ser que o nome do tal de autor seja uma palavra emprestada. Palavras emprestadas existem em todas as línguas. No inglês, por exemplo, usa-se rôle, do francês, no sentido de status, posição social. Mas uma palavra de uma só vogal com dois acentos não é viável. E mais um trema. Não pode.

Em terceiro lugar, não existe trema nas línguas escandinavas. O trema é um outro diacrítico, usado para alterar o som de uma vogal ou para assinalar a independência dessa vogal em relação a uma vogal anterior. Em sueco, existem o ä e o ö, mas no caso não se trata de trema. Os dois pontinhos são constitutivos da própria vogal. Dizer que constituem um acento é a mesma bobagem que afirmar que o tracinho no ø de Tromsø ou a bolinha no å de Luleå ou Umeå são acentos apostos a vogais. Nada disso, fazem parte da vogal.

Um leitor aventa a hipótese de que Cony estaria fazendo ironia em relação aos idiomas escandinavos. Se estava, foi infeliz. De qualquer forma, não fazia ironia quando falou dos reis magos e do nascimento de Cristo em Belém. Foi ignorância total do imortal. Vamos ver a próxima jogada do Bento. Aposto que não vamos esperar muito.

Quinta-feira, Dezembro 25, 2008
 
O ETERNO BESTEIROL
DE NATAL SE REPETE



Em uma basílica de São Pedro lotada de fiéis, e com a imagem de Jesus a seu lado, Bento XVI lembrou ontem o nascimento de Cristo e disse que em cada criança há uma "reverberação do menino de Belém". Há horas venho afirmando que há décadas não vejo papa mais inculto que este. Seria de supor-se que o líder máximo da cristandade, o Vice-Deus, o bispo de Roma, soubesse que Cristo não nasceu em Belém. Mas em Nazaré. Ernest Renan o demonstrou definitivamente. Em meu ensaio Como ler jornais, esclareço o fato:

Verdade que Mateus escreve: “Tendo, pois, nascido Jesus em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes ....” E acrescenta: “Ouvindo, porém, que Arquelau reinava na Judéia em lugar de seu pai Herodes, temeu ir para lá; mas avisado em sonho por divina revelação, retirou-se para as regiões da Galiléia, e foi habitar numa cidade chamada Nazaré; para que se cumprisse o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado nazareno”. Pois dissera Miquéias: “Mas tu, Belém Efrata, posto que pequena para estar entre os milhares de Judá, de ti é que me sairá aquele que há de reinar em Israel”. No fundo, Mateus trazia no sangue esta tendência do jornalismo contemporâneo, de adaptar os fatos à visão que se tem do mundo. Quis adaptar o nascimento a antigas profecias. A realidade que se lixasse.

Escreve Renan, em A Vida de Jesus: "Cristo nasceu em Nazaré, pequena cidade da Galiléia, desconhecida até então. Toda sua vida foi designado pelo nome de Nazareno e só por um esforço que não se compreende é que se poderia, segundo a lenda, dá-lo como nascido em Belém. Veremos adiante o motivo dessa suposição, e como ela era conseqüência necessária do papel messiânico que se deu a Jesus".

Segundo Renan, Nazaré não é citada nem no Antigo Testamento, nem por Josefo, nem no Talmude. Enquanto Nazaré da Galiléia era um vilarejo anônimo, Belém da Judéia portava o prestígio de antigas profecias. Que nascesse em Belém, portanto. Mas por mais pontas que tenha a estrela de prata dos franciscanos, simbolizando o nascimento do Cristo na gruta existente na Igreja da Natividade, em Belém, nazarenos nascem em Nazaré.

Lucas também adere à lenda do nascimento em Belém: “Naqueles dias saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todo o mundo fosse recenseado. Este primeiro recenseamento foi feito quando Cirino era governador da Síria. E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. Subiu também José, da Galiléia, da cidade de Nazaré, à cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam ali, chegou o tempo em que ela havia de dar à luz, e teve a seu filho primogênito; envolveu-o em faixas e o deitou em uma manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem”.

Os evangelistas, ao situarem o nascimento de Cristo no reinado de Herodes e evocarem o recenseamento de Cirino, desmontam a própria tese. Diz Renan:

"O recenseamento feito por Cirino, do qual se fez depender a lenda que ajunta a jornada a Belém, é posterior, pelo menos dez anos, ao ano em que, segundo Lucas e Mateus, nascera Jesus. Com efeito, os dois Evangelhos põem o nascimento de Jesus no reinado de Herodes (Mateus,II, 1,19,22; Lucas, I, 5). Ora, o recenseamento de Cirino foi feito só depois da deposição de Arquelau, isto é, dez anos depois da morte de Herodes, no ano 37 da era de Ácio. A inscrição pela qual se pretendia outrora estabelecer que Cirino fizera dois recenseamentos é reconhecida como falsa. O recenseamento em todo caso não teria sido aplicado senão às partes reduzidas à província romana, e não às tetrarquias. Os textos pelos quais se pretende provar que algumas das operações de estatística e registro público, ordenadas por Augusto, chegaram até o reinado de Herodes, ou não têm o alcance que se lhes quer dar, ou são de autores cristãos que colheram esse dado no Evangelho de Lucas".


Este mito do nascimento em Belém está sendo hoje repetido em todos os jornais do mundo. A Folha de São Paulo o anuncia todos os anos. Neste ano, coube a Carlos Heitor Cony, ex-seminarista, imortal da Academia Brasileira de Letras e detentor de uma gorda bolsa-ditadura, insistir na bobagem. Em um artigo de apenas 1400 toques, comete duas asneiras. A primeira é a do nascimento em Belém:

A iconografia cristã tem dois momentos fundamentais: a criança recém-nascida na estalagem de Belém, tendo a aquecê-la o hálito de um burro e de uma vaca; e o corpo nu e maltratado de um homem coberto de chagas e opróbrio.

Mais adiante, erro ainda mais grave:

Houve também a estrela que guiaria os Reis Magos para a oferta do ouro, do incenso e da mirra: "Vimos sua estrela no Oriente e viemos com presentes adorá-lo".

Ora, você pode revirar a Bíblia de ponta a ponta, palavra a palavra, vírgula a vírgula e jamais encontrará qualquer rei mago. Há quatorze referências a magos no Antigo Testamento e apenas quatro no Novo. Não se fala em reis magos em nenhuma delas. A que Cony cita está em Mateus, 2:

1 Tendo, pois, nascido Jesus em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que vieram do oriente a Jerusalém uns magos (o grifo é meu) que perguntavam: 2 Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? Pois do Oriente vimos a sua estrela e viemos adorá-lo.

A verdade é que o próprio Bento, em um seis de janeiro passado, andou falando urbi et orbi dos reis magos. Ou seja, quando o sumo sacerdote da cristandade – aquele que deveria zelar pela interpretação dos livros sagrados – comete erros tão crassos, não causa espanto que um jornalista inculto também os cometa.

Quarta-feira, Dezembro 24, 2008
 
O BOM DEUS DOS ATEUS
NÃO ESQUECE DOS SEUS



Ainda a propósito da crônica “Bíblia vê mulher como imundície e submissão”, onde me restrinjo a citar trechos do Livro – e nada mais que isso – acabo de receber mail de um leitor, que se assina como Gabriel:

Eu era assim, radicalmente contra a religião, na pré-adolescência. Depois cresci. Não adianta empurrar garganta abaixo dos outros as nossas idéias. Tem menos sentido ainda fazê-lo no Brasil, onde as pessoas têm leituras bastante razoáveis sobre a religião. Eu queria saber se o autor segue sua própria linha tão puramente a ponto de ignorar o Natal, por exemplo. Nem um presentinho para os netos ou ceia com a família?

Itinerários opostos, meu caro Gabriel. Eu era radicalmente a favor da religião, na adolescência. A religião me foi enfiada a machado na cabeça. Não fui apenas congregado mariano, como também presidente da Congregação Mariana de Dom Pedrito. Foi quando então fiz meu primeiro trabalho em prol da humanidade. Enterrei a congregação em suas contradições e acabei por dissolvê-la. Depois cresci. Se quando congregado pretendia empurrar garganta abaixo minhas idéias, depois disso nunca mais pretendi que quem quer que fosse seguisse alguma idéia minha. Idéias, adoro discuti-las. Apenas isso. Quem quiser que siga as suas. Ou até mesmo as minhas.

Li Nietzsche muito cedo. Considero que Nietzsche tem de ser lido quando se é jovem, de preferência antes dos vinte. Depois, não adianta muito. Ou somos rebeldes quando jovens, ou nunca mais. Ninguém se torna rebelde aos trinta. Já está bem empregado, família constituída, salário e status a defender. Desde meus verdes anos me imbuí da doutrina do sublime alemão. Zaratustra não queria discípulos. Eu também não. Se por ventura os tenho, paciência. Não posso proibir ninguém de concordar comigo. Muito menos de discordar. Faz parte da vida. E também do escrever.

Mas o leitor faz uma pergunta oportuna, particularmente no dia de hoje. Quer saber se ignoro o Natal. Sempre o ignorei. Nasci em um universo pagão, onde religião não tinha vez. Meu clã cultivava as festas juninas, reminiscências ainda vivas do solstício de verão na Europa, quando a peste cristã ainda não infestava o velho continente. Fazíamos as fogueiras de São Pedro, São João e Santo Antonio. Que nunca foram as fogueiras destes senhores, mas cultos pagãos ao fogo, ao sol e à alegria.

Lá nos meus pagos, logo depois do entardecer, ficávamos olhando rumo ao horizonte, esperando que alguém acendesse a primeira fogueira. Acendida a primeira, pontos luminosos iam surgindo de longe em longe, a léguas de distância uns dos outros. A léguas, mas todos unidos na celebração de algo que ninguém sabia muito bem o que era. Confraternização muda e luminosa, unia as gentes dos mais diferentes rincões. Foi o que sobrou do paganismo naquela pampa.

Quanto ao Natal, é redundante dizer, tornou-se uma festa de consumo. A cada dezembro, jornais recomendam dietas e ao mesmo tempo perus e panetones. Jamais comi um peru num Natal e jamais me preocupei com dietas. Como o que costumo comer todos os dias. Os shoppings e mercados populares estão regurgitando de pessoas angustiadas, preocupadas em dar presentes a outros ou a si mesmas. No que a mim diz respeito, nem penso no assunto. Só há duas datas em me recuso a dar presentes a uma pessoa. É no Natal e no dia de seu aniversário. Fora isto, adoro dar presentes. Sempre de surpresa, sem data alguma. Presente com data não tem graça.

Não haverá ceia com família. Dado meu espírito gaudério, desde há muito vivo longe dos meus. Tenho uma filha, é verdade. Ela está aproveitando sua folga no trabalho para visitar a mãe, que vive longe daqui. Quanto à família, tenho um conceito um pouco distinto dos demais.

Família, para mim, não é aquela oriunda de laços de sangue. Até pode ser, mas não necessariamente. Família é aquela que elegi no decorrer de minha vida. Ao longo dos anos, constitui minha pequena família, juntando amigos e amigas em diversas cidades e países. Esses são os realmente meus. As pessoas que elegemos por amizade, afinidades espirituais, carinho. Minha família, de modo geral, é composta de pessoas solitárias. O que é ótimo. Nos Natais, não temos compromisso algum com aquela outra família, a biológica. Sempre que estamos perto uns dos outros, nos reunimos para celebrar nossa solidão solidária.

Minha filha pertence a esta minha família. Não porque seja sangue de meu sangue, mas porque a adoro. É inteligente, culta, ambiciosa e cheia de vida. Então é da família. Coincidiu que hoje está todo mundo longe. Alguns foram para Paris e Itália, outros estão na Suécia ou Finlândia, os mais próximos estão em Salvador, Rio, Florianópolis ou Porto Alegre. É família naturalmente dispersa. Tanto faz! Qualquer dia nos encontramos. Não está escrito em livro algum do mundo que há data para festar. Festa é o dia em que decido que é festa.

Mas o bom Deus dos ateus nunca esquece dos seus. Ontem, quando comprava meus jornais, tropecei com a mais linda de minhas vizinhas. Estás só? – me perguntou. Estou – respondi feliz. Hoje vamos festar com gosto.

Tim-tim, leitor! Bom solstício!

Terça-feira, Dezembro 23, 2008
 
ESSA MILENAR ESTUPIDEZ


A propósito da crônica “Bíblia vê nas mulheres imundície e submissão”, escreve um leitor:

Agora vc está fazendo o papel de falso moralista, Janer. Você bem sabe que a Bíblia sofreu diversas alterações com o passar dos séculos, de acordo com o pensamento dos líderes da época. Você ao menos sabia que padres foram proibidos de casar para que a igreja não precise sustentar suas famílias? Então não acho que vc deva basear seu texto neste livro cheio de contradições, como é o caso das mulheres. Você, como jornalista, sabe muito bem que os tempos mudam, e desde a "versão final" da Bíblia até hoje, muita coisa mudou. Ninguém, em sã consciência, vive de acordo com a Bíblia ao pé da letra... não nos dias de hoje! Então creio que o senhor deva procurar argumentos mais convincentes ao invés de tentar expôr ao ridículo a opinião dos seus leitores, baseando-se em textos que ninguém mais considera.

Engraçado como, quando nos convém, buscamos no absurdo a base para nossos argumentos (e isso acontece todos os dias).

José


Não é bem assim, meu caro. Que a Bíblia sofreu diversas alterações com o passar dos séculos, isso é verdade. A primeira e mais grave das alterações foi transformar o Pentateuco, livro politeísta, em monoteísta. Substituiu-se a monolatria - culto de um só deus nacional - pelo monoteísmo, culto de um deus único. Já comentei o assunto. Em crônica passada, citei um trecho do Gênesis: “Sucedeu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, viram os filhos dos deuses que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram”.

Um leitor atento implicou com os deuses, assim no plural. Que em sua Bíblia está “os filhos de Deus”. De fato, nas traduções ao português que tenho em minha biblioteca, assim consta. Tanto na Bíblia de Jerusalém, quanto na edição pastoral publicada pelas Edições Paulinas. Também na editada pelo Centro Bíblico de São Paulo, a partir da versão francesa dos Monges Beneditinos de Maredsons, Bélgica. O mesmo consta de minha bíblia eletrônica, a reputada tradução de João Ferreira de Almeida.

É que usei a tradução proposta por Jean Soler, “les fils des dieux”. Como os judeus têm mais rigor quando se trata da palavra divina, fui consultar a Torá. Lá está: “os filhos dos senhores”. Melhorou um pouco mas não muito. O plural é mantido. Mas que senhores são esses que se opõem aos homens? Mistério profundo. Fui buscar então em minha tradução francesa da Bíblia, editada pela Alliance Biblique Universelle. Lá está: “les habitants du ciel”, também no plural. Mas quem são esses habitantes do céu cujos filhos acharam belas as filhas dos homens? O mistério persiste.

Ora, os deuses eram muitos na época do Pentateuco. Jeová é apenas um entre eles, o deus de uma tribo, a de Israel. Escreve Soler: “Ora, nem Moisés nem seu povo durante cerca de um milênio depois dele – os autores da Torá incluídos – não acreditavam em Deus, o Único. Nem no Diabo”.

Esta é uma alteração realmente grave nos textos bíblicos. Quanto às referências à imundície intrínseca das mulheres, estas não foram alteradas desde o Levítico e o Deuteronômio até nossos dias. Pode ser que os católicos não liguem mais para isto. Afinal, divórcio é proibido e os católicos se divorciam. Homossexualismo é pecado e os padres não poupam os menininhos. Aborto é pecado punível com excomunhão e as católicas continuam abortando. Só no Brasil, são mais de milhão de abortos por ano. E por favor, que ninguém pretenda colocar essa cifra na contabilidade dos ateus. Não há tantos assim no Brasil. Nós somos raros. Mesmo assim, os católicos continuam cultuando o Livro. As citações que fiz, a respeito da condição imunda das mulheres, constam das traduções contemporâneas da Bíblia.

Já os judeus levam o Livro mais a sério e se pautam pelas antigas prescrições. Vivo em Higienópolis, bairro judeu, cercado por mais de uma dezena de sinagogas, e observo a raça de perto. Um judeu jamais dá a mão à sua mulher. Ela pode estar imunda, isto é, menstruada. Marta Suplicy, quando prefeita de São Paulo, foi certa vez a uma reunião com rabinos. Como todo político, foi logo estendendo a mão. Os rabinos, polidamente, as conservaram coladas às costas. Vexame total. O único a apertar a mão da petista foi Henry Sobel, o ladrão de gravatas.

Comentei este fato há dois anos. Um judeu, assessorado pelo rabinato de Higienópolis, respondeu-me:

O judaísmo é feito de valores. Um destes é o respeito máximo a mulher, que nada tem a ver com seu ciclo menstrual. Um homem, mesmo tendo 100% de certeza de que uma mulher não está menstruada, e ainda que seja sua esposa; mesmo assim, pelas leis mais estritas judaicas, não pode cumprimentá-la em público. E porque? Por questão de recato. Para preservar carinhos e troca de afagos para os momentos íntimos e particulares com a sua amada. Em uma época onde mulheres reclamam que são tratadas como objetos, onde a propaganda abusa da super-exposição sexual da mulher e etc…., o judaísmo trata a mulher como um ser elevado a ser respeitado e admirado.

Não é bem assim. Para começar, o leitor está acusando de falta de recato toda a mulher que dá sua mão ao amigo, namorado ou marido na rua. O que nada tem a ver com falta de recato. Para responder a meu interlocutor judeu, fui até uma livraria judaica do bairro, a Sêfer, e comprei uma Torá, edição de 1962. Custou caro mas valeu a pena. Lá está, comentado pelo rabino Meir Matzliah Melamed, o trecho do Levítico que considera imunda a mulher menstruada. Escreve o rabino em pé de página:

Dias da impureza de sua indisposição - Essa impureza da mulher, motivo pelo qual ela se afasta do marido por sete dias durante a menstruação, chama-se em hebraico Nidá, o que significa “separação” e nela está proibida toda intimidade com seu marido. As leis da Nidá baseiam-se naquilo que está escrito no Levítico 15:19-24. Além disso existe um tratado completo no Talmud com o mesmo nome, dedicado à amplificação dessas leis.

Os cientistas maravilham-se diante do fato de que os antigos hebreus praticavam o mais alto padrão de higiene sexual reconhecido nos tempos atuais. Tem sido demonstrada também a existência de uma substância tóxica no soro do sangue, na saliva, na transpiração, na urina e em todas as outras exudações da mulher durante o período de menstruação.


Ou seja, até o suor da mulher menstruada é imundo. O sofá onde ela senta se torna imundo, a cama onde ela deita se torna imunda. Quem toca sua mão, torna-se também imundo. Muita coisa mudou, diz meu indignado leitor. Mas não a Bíblia. Nem a cristã, nem a hebraica. Pessoalmente, penso que a Igreja de Roma – como também os judeus – há muito deviam ter abandonado como código normativo o Antigo Testamento, esse livro cheio de ódio, genocídio, massacres e preconceitos. Aliás, os católicos deveriam abandonar também o Novo, onde Cristo e Paulo nos ameaçam com o fogo eterno.

A verdade é que nem judeus abandonam a Torá e a Tanak, nem católicos abandonam o Antigo e Novo Testamento. Então, que assumam suas besteiras. “Ninguém, em sã consciência, vive de acordo com a Bíblia ao pé da letra... não nos dias de hoje!” – escreve meu leitor. Então que a joguem fora, ora bolas!

Em meu artigo, sequer comentei os textos bíblicos. Me ative apenas a reproduzir, ipsis litteris, essa milenar estupidez.

Segunda-feira, Dezembro 22, 2008
 
BENTO XVI SE METE
EM CAMAS ALHEIAS



Confesso que sou um pouco arredio a essa mania de mudança de sexo. O sexo que o bom Deus me deu – essas são as horas em que viro místico! – me satisfaz plenamente. Se tivesse me dado outro, também me satisfaria. Não que me desagrade a idéia de um homem ter as sensações sexuais que uma mulher tem, nada disso. Não sou moralista a esse ponto. Mas, fica a pergunta: se um homem troca de sexo, terá plenamente os prazeres que tem uma mulher? Duvido. E se é para ter menos prazer, não me parece que seja bom negócio. O dito universo gay que me desculpe. Penso que troca de sexo está na faixa da neurose. Sexo é bom, qualquer que seja. Para que trocar?

Seja como for, cada um vive como melhor lhe apraz. Se alguém se sente mal com uma fisiologia masculina – ou feminina – e se a medicina hoje permite cambiá-la, bom proveito e felicidades a todos. Não pensa o mesmo Sua Santidade Bento XVI, que criticou hoje as mudanças de sexo, ao defender que Deus criou o ser humano como homem e mulher. O papa disse que o homem pretende "se auto-emancipar da criação e do Criador".

Isso de Criador é coisa de quem crê. Nós, que não cremos em criador algum, não temos nada a ver com isso. "Não é uma metafísica superada se a Igreja fala da natureza do ser humano como homem e mulher e pede que esta ordem da criação seja respeitada", disse o pontífice perante os cardeais e membros da Cúria romana, aos quais recebeu na tradicional audiência de troca de felicitações por ocasião do Natal. Confesso que, de meus dias de existência, jamais vi papa tão inculto como esse. Para começar, o assunto nada tem a ver com metafísica. Bento pediu que seja escutada a linguagem da criação, "cujo desprezo seria a destruição do homem e, portanto, a destruição da obra de Deus".

Que obra de Deus, companheiro? Obra de Deus para ti, que acreditas nessas potocas. A sociedade laica nada tem a ver com isso. Tu, Bento, estás negando a medicina. Porque o homem nasceu para morrer. Quem o salva, pelo menos por algum tempo, são os médicos. Estes profissionais que Jó não suporta: “Vós, porém, sois forjadores de mentiras, e vós todos, médicos que não valem nada”. Mas quando um papa está morrendo, ele não aceita que “a ordem da criação seja respeitada”. Se mune de medicina de ponta. Se a morte é o encontro com Deus, deveria ser desejo de todo cristão morrer logo. Não é o que vemos por aí.

O homem é um ser antinatural por excelência. Construir uma casa, um automóvel, um avião, um computador, isto não faz parte da natureza. Muito menos da suposta natureza legada pelo tal de deus. Se o Vaticano existe hoje, com toda sua pompa, sua arquitetura e obras de arte, é porque o homem um dia fugiu aos planos de deus e fez pompa, arquitetura e obras de arte. Fosse o homem subserviente aos planos da deidade, continuaria vagando pelado pelo Éden, sem nada conhecer do mundo que o cercava.

Confesso, como disse, que sou arredio à troca de sexo. O meu é ótimo. Se fosse outro, também seria ótimo. Eu o desfrutaria com a mesma gana. Mas se a medicina, assim como consegue adiar a morte, consegue trocar o sexo de alguém, papa nenhum tem nada a ver com isso.

Se trocar de sexo dá prazer, que tem a ver com isso o bispo de Roma? Que pregue suas crenças para seus crentes. E, por favor, que não se meta na cama dos demais.

Domingo, Dezembro 21, 2008
 
SOBRE A VENTURA DE NÃO
TER VIVIDO EM MOSCOU (I)



Leitor me pergunta porque eu, anticomunista ferrenho, pedi um dia bolsa para a universidade Patrice Lumumba, em Moscou. Ora, nada tinha a ver com comunismo. Eu queria era sair do Brasil. Fosse para onde fosse. Quanto mais longe, melhor. Quanto mais estranha a língua, mais me atraía o país. A Patrice me parecia a hipótese mais viável. Além disso, eu convivia na Rua da Praia com o Paulo Silveira, que era diretor do Instituto Brasil-URSS em Porto Alegre. Me matriculei então na PUC, em um curso de russo, com o saudoso professor Sergiei Zhukof, um jovem de 94 anos. Nunca vi tanta jovialidade em pessoa tão idosa. Também pudera: Zhukof era esgrimista e campeão de vela, entre outras coisas.

Pedi bolsa também para a Finlândia, Alemanha e Japão. Curiosamente, a bolsa acabou vindo de onde menos eu esperava, da França. Resultado de minha demanda à Patrice Lumumba: minha candidatura foi interceptada e, no final dos 60, fui preso por um delegado em Dom Pedrito, que me interrogou sobre isso. Em verdade, a questão era outra, era um imbróglio sexual. Eu namorava a mulher mais linda da cidade – uma terna bugra guarani que ainda espero reencontrar antes de partir - e um advogado, interessado na moça, me armou uma armadilha de cunho político.

O curioso é que o delegado sabia tudo sobre minha vida. "No dia tal e tal, o sr. lia uma Veja no banco na praça, em frente à igreja, em cuja capa estava escrito CCCP". O delegado era um afrodescendentão, estudava Direito e, mesmo sem ter terminado o curso, já usava anel no dedo. Não é CCCP, doutor (nestes momentos, melhor apelar ao Dr). Em cirílico, é SSSR, Soyuz Sovetskikh Sotsialisticheskikh Respublik. O que o doutor chama de CCCP estava escrito na foto de capa da revista, na camiseta de um atleta das Olimpíadas.

Depus por quatro ou cinco horas. Minha vida foi revirada, de alto a baixo. Só para concluir: eu usava uma espessa barba naqueles anos, muito antes da existência do PT e de a barba ser usada como crachá. Para demonstrar erudição, o afrodescendentão perguntou-me:

- O senhor sabia que sua barba suscita antipatias?
Sabia.
- E por que não corta?
Ora, era verão, a barba começava a incomodar-me. Mas, diante das circunstâncias, decidi:
- Eu até estava pensando em cortá-la. Mas agora, não corto mesmo.

Tive sorte em não receber a bolsa. Primeiro, é claro que não iria aceitar as regras de disciplina da Lumumba. Pra começar, não podia transar as russas. Fui saber isso bem mais tarde, pelo livro de Sérgio Faraco, Lágrimas na Chuva. Não ia dar pé mesmo. Uma das coisas que sempre me fascinou na vida foi ouvir mulheres gemendo em outras línguas. Ora, ouvir gemidos na língua de Dostoievski e Kuprin era para mim uma antecipação do paraíso. Mas minha primeira decepção com o paraíso surgiu antes mesmo de ter resposta da bolsa.

Numa madrugada na Praça da Alfândega, em Porto Alegre, na lancheria do Matheus, encontrei José Monserrat Filho, que voltava de Moscou, após especializar-se em Direito Espacial. O personagem me fascinava. Eu estava conversando com alguém que falava russo, vivera em um país longínquo e certamente ouvira meninas gemendo em russo. Eu ouvia seus relatos como um cãozinho atento, desejoso de conhecer o mundo.

- Como é que é na Patrice, Monserrat? Cada estudante tem um quarto?

Era meu sonho, um espaço meu para transar as russinhas. Monserrat me jogou um balde de água fria:

- Nada disso. Cada quarto tem três beliches, para seis pessoas.

Ali, meu sonho começou a murchar. Mais tarde, anos 70, quando em Estocolmo, vi do que escapara. Brasileiros que haviam feito curso na Lumumba, após terminar o curso tinham de sair da Rússia. Dada a época, não podiam voltar ao Brasil. Saíam então, de diploma em punho, a lavar pratos na Europa. Eu os chamava, em sueco, de "internationella diskare", lavadores internacionais de pratos.

 
SOBRE A VENTURA DE NÃO
TER VIVIDO EM MOSCOU (II)



Sem jamais ter ido a Moscou, tive outras notícias da cidade. Quando vivia em Paris, uma boa amiga telefonou-me de Porto Alegre. “Podes receber meu namorado? Ele está indo para Moscou, vai fazer escala em Paris”.

Claro que podia. O gaúcho chegou, eu o recebi com meus melhores vinhos. Charlamos por pelo menos duas noites. Que vais fazer em Moscou? – perguntei. “Vou fazer arquitetura, na Patrice. Um curso de cinco anos”. Sabes desenhar caixas de fósforos? – voltei à carga. Ele me olhou com um gesto de que eu não merecia resposta. Bom, meu caro, se sabes desenhar caixas de fósforo, já dominas toda a arquitetura soviética. Nem precisa ir.

Ofendeu-se, o gaúcho. Queria ir embora lá de casa. Instei-o a ficar, eu apenas fazia um comentário. Mas predisse: tu vives boa vida em Porto Alegre. Não vais agüentar nem seis meses em Moscou. Despediu-se de mim irritado.

Mês seguinte, chega sua namorada, advogada trabalhista. Iria visitá-lo em Moscou. Ficou um mês esperando pelo visto. Nesse meio tempo, fui lhe apresentando as delícias do capitalismo. Vai daí que, nesses mesmos dias, chega lá em casa um amigo, doutor em Física de plasmas, pessoa admirável, que quando bêbado citava as quatro aporias de Kant ... em alemão. Os dois se entenderam e saíram a viajar pela Itália. Antes de partir para Moscou, ela tomou um banho de capitalismo, dos pés à cabeça. Estava fascinada com o Ocidente. E vacinada contra o socialismo.

Antes de sua partida, manifestei minha preocupação com sua vida sexual em Moscou. Ofendeu-se. Que queres dizer com isso?

- Minha preocupação é onde vais transar com teu namorado.

- Como onde? No quarto dele, é claro.

- No quarto dele, minha querida, tem mais cinco. Não vai ser fácil.

Antes de concluir, uma pequena peça que preguei à moça. Existe em Paris um ônibus chamado PC. Como qualquer pessoa que está em Paris, seja parisiense ou turista, eu tinha uma carte orange, título de transporte que é mais barato do que comprar bilhetes um a um. Vale por uma semana ou mês, conforme você quiser. Na hora de entrar no ônibus, você apenas a mostra ao motorista. Disse pra moça:

- Este é PC, o ônibus do Partido Comunista. Estudante ou operário não paga nada, é só mostrar carteirinha. Tu vais pagar porque não és estudante nem operária.

Ela achou lindo, um país onde o Partido oferecia transporte de graça a estudantes e operários. Nada a ver. PC significa Petite Ceinture, o ônibus que faz o trajeto dos bulevares interiores de Paris. Eu não pagava pelo simples fato de que comprara a carte orange. Soube que ela voltou a Porto Alegre louvando as virtudes do PC francês.

Bom, vai daí que a moça acabou indo ao paraíso socialista. Voltou um mês depois. Como é que foi? – perguntei. Ela não falou muito. Disse apenas que era uma cidade concebida para gigantes. Antes de voltar ao Brasil, fez-me algumas confidências. “Tudo é escasso lá. E não há escolha. Os absorventes higiênicos são enormes”.

Pois é, minha querida. País de gigantes é assim mesmo. Mas a história não termina aqui. Continuamos a trocar correspondência. Era a época das cartas, que demoravam pelo menos uma semana para chegar. Três meses depois, ela me dá notícias de Porto Alegre e fala que o namorado havia decidido voltar, que não via muito sentido em ficar cinco anos estudando agronomia em Moscou. (Agora, era agronomia. O curso inicial era arquitetura). Continuou escrevendo e, ao final, um PS: “Tche, o Rui chegou ontem”.

O bravo militante comunista, que fora à Rússia para um curso de cinco anos, não agüentou nem seis meses, como eu previra. Nos encontramos mais tarde em Porto Alegre. “Viu?” – perguntei –. “Nem seis meses”.

“Ah! Não vou te explicar. Não vais entender”.

Não iria entender mesmo. Só afirmei que ele não suportaria seis meses em Moscou.

 
EU, REDATOR DO PRAVDA


Pois, caros, virei redator do Pravda, em sua versão brasileira. Quem diria? Logo eu, o anticomunista ferrenho, que já fui tido como agente do imperialismo, do DOPS, do SNI e inclusive da CIA. Isto é, os camaradas reproduziram um artigo meu. Subida honra: http://port.pravda.ru/cplp/brasil/25623-2/. Pravda, em russo, quer dizer verdade. Sou agora um redator da Verdade.

Mudaram os tempos ou mudei eu? Certamente foram os tempos. No que diz respeito a anticomunismo, não mudei nada desde que me conheço por gente. Enfim, nestes dias de Internet, impossível impedir a reprodução de um artigo em outros sites. Nem tenho interesse em impedir. Meu interesse, ao contrário, é que meus artigos sejam divulgados.

Mas que estou perplexo, estou! Do jeito em que marcha a humanidade, qualquer dia sou publicado no Última Hora, do MR-8.

Sábado, Dezembro 20, 2008
 
LA MÉTHODE CRISTALDESQUE


Dia 26 de março de 1981 foi o último dia em que usei gravata em minha vida. Há 27 anos, portanto. Já não a usava há muito, tanto que já nem lembrava como se dá um nó. Usei-a porque iria defender uma tese na Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III) e meu orientador julgou conveniente que eu fosse de gravata. Então tá! Mas o problema não foi a gravata. E sim o tal de método.

Não usei teoria alguma para fundamentar minha tese. Apenas raciocinei, livre pensei, como quiserem. Um de meus inquisidores era Madame Brahimi, especialista em literatura do Maghreb. O que ela estava fazendo lá, não sei. A tese era sobre as literaturas Ernesto Sábato e Albert Camus e alguém entendeu que Camus, por ser argeliano, era um autor magrebino. Ora, pode ser que Camus tenha nascido em Mondovi, na Argélia. Mas sua literatura nada tem a ver com a Argélia. É, antes de tudo, um escritor francês.

Falava do método. Lá pelas tantas, Me. Brahimi encrencou: “Je n’ai jamais vu ça! Oú est la méthode?” (Jamais vi algo assim. Onde está o método?) E quando um burocrata francês diz “je n’ai jamais vu ça!”, saia da frente. Ele está querendo dizer que a coisa vista não existe.

- Ma méthode c’est la cristaldesque! – respondi, arriscando jogar fora, com aquela resposta, quatro anos de pesquisa. Meu método é o cristaldesco. Não vim aqui para analisar a obra de dois autores pedindo emprestado o cérebro de um terceiro. Estou usando o meu mesmo. Milagrosamente, minha tese passou. Acho que um pouco devido à platéia. Havia entre cinqüenta e sessenta meninas na salle Bourjac, na velha Sorbonne, e um só rapaz. Seria uma ofensa a tão seleto público reprovar-me. Minha Baixinha, que viera do Brasil para assistir a defesa, estava perplexa. Nossa! Como conseguiste isto? Sei lá! Conversei, namorei, amei. Consegui.

Desconheço algo mais precário, no mundo acadêmico, que o tal de método. Método significa o seguinte: você usa o pensamento de um teórico qualquer, de preferência alemão ou francês – paraguaio ou boliviano não vale, é claro! – para embasar suas reflexões. Ou seja: você não pode pensar. Quem pensa é o teórico. Que isso tenha importância na área científica, entendo. Só não sei quem importou o tal de método para a área das ditas ciências humanas. Método é um freio ao livre pensar. Você quer um galão que o habilite ao ensino universitário? Então renuncie a seu próprio pensamento e pense como nós, da Academia, pensamos. Você não está aqui para ser original. Pense como pensamos todos.

Escreveu Lígia Chiappini Moraes Leite – por sinal minha conterrânea e hoje professora na Freie Universität de Berlim – em A Invasão da Catedral: “É por isso que os seminários da pós-graduação continuam a ser, na sua maior parte, aulas ou conferências dadas pelo professor ou por um aluno, e as teses, exercícios escolares sem grandes audácias, onde a invenção é mal vista e a submissão aos métodos do orientador, predominante. O que interessa não é entrar na aventura da pesquisa, mas seguir a trilha bem comportada e segura que levará aos títulos”.

Conversando com a Lígia, disse-me ela um dia: “Não existe legislação alguma que obrigue um doutorando a utilizar teorias em sua pesquisa”. Ora, numa instituição esclerosada como a universidade, isto soa como heresia. Na Idade Média, seria fogueira na hora.

No entanto, algo parece estar mudando nos dias que correm. Leio no Estadão de hoje:

Universidades aceitam dissertações e teses fora do formato convencional

Desafiando a tradição de formatos e metodologias quase sagradas e abençoadas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), universidades brasileiras têm aceitado dissertações de mestrado e teses de doutorado na forma de romances, ensaios autobiográficos, roteiros e textos experimentais que resvalam na ficção e na criação literária. A repercussão aparece em extremos: há os entusiastas da flexibilização e os que defendem como imprescindível a manutenção dos moldes acadêmicos tradicionais.


Bom... nem tanto ao mar nem tanto à terra. Um romance pode exigir muita pesquisa. Como jurado de uma banca, eu não teria problema algum de consciência a conferir grau de doutor a Dostoievski, caso me apresentasse como tese Os Irmãos Karamazov. Ou a Swift, se me propusesse As Viagens de Gulliver. Ou a Orwell, se brandisse 1984. Daí a aceitar os desvarios de uma Clarice Lispector ou Lygia Fagundes Telles vai uma longa distância.

Tese, a meu ver, é um ensaio em que se discute uma determinada visão de mundo. Esta visão de mundo existe nas obras de Dostoievski, Swift ou Orwell. Mas não necessariamente na obra de escritores medíocres que tiram seu sustento da contemplação do próprio umbigo. É possível discutir, comentar, contestar, a obra dos autores que citei. São autores que afirmam algo. Suas ficções são, no fundo, ensaios sobre a condição humana. Já não é possível contestar a obra de quem não afirma coisa alguma.

Enfim, a universidade parece estar se abrindo à sensatez. Talvez um dia aceite la méthode cristaldesque. Desde que não confira o título de doutor ao Paulo Coelho ou à Bruna Surfistinha, vá lá! O que não me surpreenderia, conhecendo os bois com que lavro.

Sexta-feira, Dezembro 19, 2008
 
CORRUPÇÃO NA CONCESSÃO DE
PRÊMIOS NOBEL NOS CONFORTA



Em meu ensaio Como ler jornais, relacionei uma série de vigaristas, que vão de plagiários a terroristas, contemplados com o prêmio Nobel. Comecei com o santo homem Martin Luther King, que plagiou sua tese de doutorado e, mesmo tendo cometido este crime de lesa-academia, recebeu o Nobel da Paz em 64. Isso sem falar que desviou verbas de suas campanhas em prol da igualdade racial para orgias com profissionais do sexo. Yasser Arafat, que defendeu na ONU, em 74, a tese de que um povo que luta pela própria independência tem o direito de apelar para atos terroristas, foi brindado com o prêmio da Paz em 94. Esta tolerância norueguesa a condutas criminosas não foi estranha aos suecos. Em 1965, no auge da Guerra Fria, o escritor russo Mikahil Aleksandrovich Sholokhov recebeu o Nobel de Literatura por sua obra Don Silencioso, epopéia em torno à vida, aspirações e tragédia dos cossacos do Don durante a guerra e a revolução.

E aqui começam os problemas. Considerada uma das obras primas da literatura universal, Don Silencioso é um romance telúrico que exige um vasto conhecimento de sua geografia, de seu povo e de sua história. Foi publicado em 1928 e logo traduzido a todas as línguas de cultura do mundo. “O autor conhece a fundo a história dos cossacos do Don – escreve o dissidente russo Roy Medvedev, em Qui a écrit le “Don Paisible”? – em particular o final do século XIX e o início do XX. Tudo o que se refere à participação dos cossacos nos combates da primeira guerra mundial revela uma notável compreensão da situação estratégica e do desenvolvimento das operações. Quanto à guerra civil sobre o Don e, particularmente a insurreição de Viochenskaïa, o autor demonstra dispor de informações que nem os historiadores soviéticos dos anos 20 dispunham. (...) O autor conhece enfim à perfeição não somente o mapa das cidades mais importantes (Moscou, Petrogrado, Novotcherkassk, Rostov) mas também a exata topografia da região do Don, com todas suas aldeias, stanitsas e suas pequenas estações”.

Detalhe: Sholokhov nascera em 1905. Não era cossaco, tinha escassa instrução e pouco conhecia a região do Don. No momento da concessão do prêmio, a ninguém ocorreu que um jovem de 23 anos não poderia ter acumulado a necessária bagagem de cultura cossaca exigida para tal empreitada. O livro de Medvedev, que só pôde ser publicado na França, demonstra definitivamente o que até então apenas se murmurava no fechado universo soviético. O livro foi publicado em 1975, coincidentemente o mesmo ano em que Sholokhov, cercado de glórias, comemorava na ex-URSS seu septuagésimo aniversário.

O autor do Don foi em verdade o escritor Fédor Dimitrievitch Krioukov, diretor do jornal Donskié Viédomosti, com o qual colaborava Sholokhov. Cossaco de origem e de coração, Krioukov esteve no front nas épocas descritas no romance, juntou-se à contra-revolução e conheceu de perto seus chefes. Seus manuscritos desapareceram com sua morte, por tifo, em 1920. Na ocasião, estava acompanhado por Piotr Gromoslavski, futuro sogro de Sholokhov, cuja atividade literária tem início quando começa a freqüentar a casa do sogro. Krioukov, obviamente, foi banido dos anais da literatura russa. Sholokhov é hoje conhecido como o primeiro grande escritor russo a ter introduzido o tema dos cossacos na literatura. Em dezembro de 1965, recebeu das mãos do rei Gustavo Adolfo a láurea máxima da literatura ocidental.

Em 1971, foi a vez de Pablo Neruda, um dos mais repulsivos stalinistas do século passado, que passou toda sua vida louvando Marx, Lênin e Stalin e insultando o Ocidente. Na hora do Nobel, láurea máxima da literatura concedida pelo Ocidente, foi correndo a Estocolmo recebê-lo, como um cachorrinho sacudindo o rabo.

Stalin construía,
de suas mãos nasceram
os cereais
os tratores
os ensinamentos
as estradas...


Assim poetou Neruda. Em ver de ir para a cadeia, recebeu o galardão da Kungliga Academie. Sobre o grande poeta, escreveu Ricardo Paseyro, em Le Mythe Neruda, pequeno e contundente ensaio sobre o óbvio: “seus livros são um monumento à infâmia. Neruda, como certos pássaros, faz seu ninho de bosta, se compraz na imundície da frase, na vulgaridade da sensação primária e nela refocila com volúpia”. O mito nada tem de misterioso. Para Alberto Baeza Flores, “à força de repetir durante trinta anos que Neruda era genial, o Partido Comunista conseguiu que todo mundo acreditasse nesse refrão”.

De minha parte, aventei outra hipótese. Em Elegi för Pablo Neruda, Artur Lundkvist, nada menos que o falecido presidente da Real Academia Sueca, parceiro de Neruda nos Congressos pela Paz financiados por Moscou, sempre recebido pelo aparatchik chileno em suas embaixadas e mansões diplomáticas, faz uma elegia ao pinto do poeta. En blek sparris som blott gav vatten. Traduzindo: “um pálido aspargo que apenas jorrava água”. Estranha ode à anatomia do vate. Como também são estranhos os sendeiros que conduzem ao Nobel.

Mistificação semelhante ocorreu com Rigoberta Menchú Tum, Nobel da Paz de 1992, porta-voz e símbolo dos direitos dos povos indígenas, premiada em boa parte por sua biografia, Me llamo Rigoberta Menchú y así me nació la Conciencia. Apresentando-se como uma índia sem instrução e militante dos Direitos Humanos, a guatemalteca comoveu gregos e troianos com sua infância miserável. Daí ao galardão recebido em Oslo foi um passo. A data escolhida é emblemática: nos 500 anos do descobrimento da América outorga-se, pela primeira vez na História, o Nobel a uma indígena. Mas ninguém sai diretamente de Tegucigalpa para aterrissar em Oslo. A biografia de Menchú Tum não é obra de Menchú Tum. Foi criada em Paris, pela venezuelana Elisabeth Burgos-Debray, mulher de Régis Debray.

Ocorre que entre os criadores de mitos sempre surge um estraga-prazeres para desmontar relatos tão edificantes, no caso, o antropólogo americano David Stoll. Em seu livro Rigoberta Menchú and the Story of All Poor Guatemalans, o autor mostra que a prestigiada militante em pouco ou nada difere de outros ilustres nomes já galardoados com os prêmios Nobel da Literatura ou da Paz, essas duas láureas jogadas de vez em quando pelos louros nórdicos aos nativos e mestiços do Terceiro Mundo.

Segundo Stoll, a premiada com o Nobel descreve com freqüência experiências pelas quais nunca passou. Em seu livro, afirma nunca ter freqüentado escola, nem saber ler, escrever ou falar espanhol até a época em que ditou sua autobiografia. Mas sua incultura era postiça: recebeu o equivalente à instrução ginasial em internatos particulares mantidos por freiras católicas. A luta de Menchú e outros indígenas pela terra, contra latifundiários de origem européia, era em verdade uma antiga rixa familiar de seu pai contra parentes próximos. O irmão mais jovem que dizia ter visto morrer de fome nunca existiu. Um outro, que dizia ter visto morrer queimado, não morreu queimado nem ela viu sua morte. A prêmio Nobel ignora solenemente as acusações: "Foram escritas quinze mil teses sobre mim no mundo todo por pessoas que leram o livro", afirma. "Não me dedico a conferir dados, não nego nem desminto o que é dito nos livros a meu respeito. Não é problema meu."

De fato, o problema é dos louros hiperbóreos. Ao premiar Menchú Tum, só conseguiram desmoralizar ainda mais um título já enxovalhado por Mikahil Sholokhov, Martin Luther King e Pablo Neruda.

E por aí vai. José Saramago, prêmio Nobel de Literatura em 1998, que defendeu, em artigo para a Folha de São Paulo, os terroristas que explodiram as torres do World Trade Center e os atentados suicidas palestinos. Tenzin Gyatso, o Dalai-Lama - palavrinha que modestamente quer dizer Oceano de Sabedoria - que se pretende a 14ª reencarnação do Buda da Compaixão, mereceu em 1989 o prêmio Nobel da Paz. Pois o Oceano de Sabedoria, financiado pelo ator americano Richard Gere, vive correndo mundo com seus parangolés, reivindicando a volta do Tibet a um regime teocrático. Teocracia é palavra que arrepia o Ocidente. Menos quando se fala do Vaticano e do Oceano de Sabedoria.

Agnes Gonxha Bojaxhiu, mais conhecida como Madre Teresa de Calcutá, morta em 97, prêmio Nobel da Paz de 1979, como boa albanesa não se furtou a depositar flores na tumba de seu conterrâneo, Enver Hoxha, um dos mais sanguinários ditadores comunistas deste século. No Haiti, durante a tirania de Jean-Claude Duvalier, mais conhecido como Baby Doc, recebeu de suas mãos uma comenda pouco recomendável para quem morreu em odor de santidade, a “Légion d’honneur” haitiana. Não bastassem estas homenagens que conspurcam qualquer auréola, Madre Teresa intercedeu junto à Suprema Corte dos Estados Unidos, pedindo clemência para Charles Keating, vigarista condenado a dez anos de prisão por lesar os contribuintes americanos em 252 milhões de dólares. Deste senhor, Madre Teresa recebeu a simpática quantia de 1,25 milhão de dólares e a oferta de um jato privado para suas viagens. Em agradecimento, a religiosa presenteou Keating com um crucifixo personalizado.

Mohammad Abdel Rauf Arafat al-Qudwa al-Husseini, mais conhecido como Yasser Arafat, mereceu o prêmio Nobel da Paz em 1994. Responsável pelo bárbaro massacre dos atletas israelenses nas Olimpíadas de 1972 em Munique, pela morte de milhares de cidadãos inocentes em Israel, pelo assassinato em massa de cristãos no Líbano, pela morte de uma centena de cidadãos norte-americanos, entre eles dois diplomatas, pelo assassinato de um número desconhecido de árabes e patrocinador de seqüestros de aviões, Yasser Arafat, morreu em 11 de novembro de 2004 em odor de santidade.

Corrupto até os ossos, o terrorista egípcio – que sequer era palestino – tinha oculta nos bancos e empresas do Ocidente uma fortuna avaliada, por baixo, entre 300 e 700 milhões de dólares. Por cima, em três e cinco bilhões de dólares, conforme acusava um dos ex-ministros de Finanças da OLP, Yawid al-Gussein, em declarações à Associated Press. Para a revista Forbes, Arafat está em sexto lugar, em uma lista publicada ano passado dos reis, rainhas e déspotas mais ricos do mundo.

Não bastassem os nórdicos conferirem estes prêmios prestigiosos a vigaristas notórios, em 2004 Oslo concedeu o Nobel da Paz à bióloga e ativista queniana Wangari Maathai. Após a entrega do Nobel, a bióloga reiterou sua opinião, muito divulgada na África subsaariana, de que o vírus da Aids foi criado por cientistas para a guerra biológica, para dizimar os negros africanos, como se alguma nação no mundo ganhasse algo com dizimar negros na África. Afirmou também que o uso do preservativo não é eficaz contra a transmissão do vírus. A Aids está consumindo a África, e os católicos, onde têm maioria, condenam o uso do preservativo e as demais práticas anticoncepcionais e insistem na função reprodutiva do ato sexual.

O continente negro está perdendo aceleradamente sua juventude e força de trabalho em virtude de uma visão dogmática do mundo de parte do Vaticano. Para esta política só há um adjetivo: genocida. Esta é a política defendida por Wangari Maathai, prêmio Nobel da Paz 2004.

Notícia nos jornais de hoje nos esclarecem melhor os critérios usados pelos homens que concedem o prêmio Nobel. Um grupo de jurados que aceitou viagens para a China com despesas pagas está sendo investigado por suspeita de suborno, afirmou ontem a promotoria anticorrupção da Suécia. Se venda de sentenças por juízes brasileiros faz parte da normalidade tupiniquim, esta denúncia é bem mais grave. Envolve os incorruptíveis hiperbóreos.

Segundo a Folha de São Paulo, o promotor Nils-Erik Schultz anunciou ter aberto uma investigação para determinar se as viagens, realizadas em 2006 e 2008, tinham como intenção influenciar as decisões do comitê que escolhe os premiados. A promotoria, contudo, não informou os nomes dos jurados investigados nem disse quantos são.

A investigação foi desencadeada pela reportagem de uma rádio sueca sobre as viagens de três jurados - dos prêmios de física, química e medicina. A visita à China teria como objetivo mostrar a autoridades chinesas como é o processo de seleção do prêmio e explicar o que é preciso atingir para ganhá-lo. O convite incluía as despesas com aviões, hotéis e refeições, afirmava a reportagem.

Caso os cientistas sejam formalmente acusados e condenados, os jurados terão de pagar multas e cumprir pena de até dois anos de prisão. Gunnar Oquist, secretário permanente da Academia Real de Ciências da Suécia - que define os prêmios de física, química e economia - reconheceu que a excursão dos jurados foi feita em condições inapropriadas.

"Devemos ter muito cuidado para não nos colocarmos em situações em que o trabalho do comitê do Nobel possa ser questionado", afirmou. "Acredito que deveríamos ter pensado sobre aquilo. Se nós soubéssemos que o Prêmio Nobel seria um dos assuntos principais dessa viagem, provavelmente teríamos desencorajado a ida de nossos integrantes."

São revelações que confortam um pouco a nós, habitantes do sul do Equador. A corrupção não é exclusivamente quinhão nosso. É também nórdica. Se é que isto consola.

Quinta-feira, Dezembro 18, 2008
 
FANATISMO IANQUE INVADE
UNIVERSIDADES NO BRASIL



Comentando o livro Deus, um Delírio, de Richard Dawkins, escrevi ano passado que sua argumentação, opondo a ciência à fé, é inútil. Pois os crentes são infensos à razão. Continuando a leitura do livro, encontrei um caso exemplar que confirma minha afirmação. Dawkins fala de Kurt Wise, um geólogo americano que hoje dirige o Centro para Pesquisas no Brian College, em Dayton, Tenesse. Falei outro dia também do filme E o vento será tua herança, de 1960, dirigido por Stanley Kramer, que retoma uma discussão - em verdade, um processo - de 1925, quando o promotor William Jennings Bryan, na mesma cidade de Dayton, acusou de darwinismo o professor de ciências John Scopes, que foi preso por ensinar esta hipótese. O Bryan College deriva do promotor Bryan.

Era de imaginar-se que a questão estivesse sepultada já no início do século passado. Não está. Os Estados Unidos, ao lado de Israel, Arábia Saudita e Vaticano, é um dos Estados contemporâneos que mais gera fanáticos. O pior é que exporta fanatismo. Não só fanatismo, como estupidezes outras. O Brasil adora importá-las. Já caímos no engodo das cotas raciais, equívoco ao qual os ianques já estão renunciando. Colonizados culturalmente, achamos salutar, digno e justo privilegiar negros em universidades e mesmo no mercado de trabalho. O último besteirol importado é a discussão entre darwinismo e creacionismo.

Wise era um cientista altamente qualificado e promissor e sua educação religiosa exigia que ele acreditasse que a Terra tinha menos de 10 mil anos de idade. O conflito entre sua religião e sua ciência fez com que tomasse uma decisão. Sem conseguir suportar a tensão, atacou o problema com uma tesoura. Pegou uma Bíblia e a percorreu, retirando literalmente todos os versículos que teriam de ser eliminados se a visão científica do mundo fosse verdadeira. Concluiu então:

"Por mais que eu tentasse, e mesmo com o benefício das margens intactas ao longo das páginas das Escrituras, vi que era impossível pegar a Bíblia sem que ela se partisse ao meio. Tive de tomar uma decisão entre a evolução e as Escrituras. Ou as Escrituras eram verdade e a evolução estava errada ou a evolução era verdade e eu tinha de jogar a Bíblia fora. Foi ali, naquela noite, que aceitei a Palavra de Deus e rejeitei tudo que a contradissesse, incluindo a evolução. Assim, com grande tristeza, lancei ao fogo todos os meus sonhos e as minhas esperanças na ciência.

"Embora existam razões científicas para aceitar uma terra jovem, sou criacionista porque essa é a minha compreensão das Escrituras. Como disse para meus professores, anos atrás, quando estava na faculdade, se todas as evidências do universo se voltarem contra o criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, mas continuarei sendo criacionista, porque é isso que a palavra de Deus parece indicar. Essa é a minha posição".

Temos então um cientista que larga mão da razão e da lógica e aceita as potocas de um livro mítico. Era em verdade um crente, não um cientista. O Instituto Presbiteriano Mackenzie, de São Paulo, aqui ao lado de onde vivo, abrange uma universidade e uma escola com mais de 1.800 alunos. Ponto de referência na cidade, o Mackenzie acaba de adotar a doutrina criacionista.

Segundo o criacionismo, Deus criou o mundo com todas as espécies que existem hoje. Isto é, pra começar você tem de acreditar em Deus. É normal que escolas confessionais assim pensem. O que não é normal é que uma universidade, onde deveriam imperar métodos científicos, assuma oficialmente questões que pertencem ao campo da fé. A direção do Mackenzie não nega os avanços da biologia trazidos pelo darwinismo, mas acredita que é preciso opor-lhe o contraditório. Em outras palavras: ensinar a seus alunos que há outra explicação, de fundo religioso, para a origem das espécies.

A discussão de 1925, nos Estados Unidos, chegou finalmente ao Brasil. Com quase um século de atraso, é verdade, mas colônia é assim mesmo. Quase 200 anos depois de Charles Darwin (1809-1882) e 150 após a publicação de sua grande obra, “Origem das Espécies”, os educadores do Mackenzie aceitam só o que chamam de “microevolução” (organismos se adaptam a novas condições do meio). Mas não aceitam a “macroevolução”, já que as novas espécies seriam criadas por Deus. A doutrina criacionista não é apresentada somente nas aulas de religião, mas igualmente nas de ciências.

Os jornais assumiram o debate e não poucos articulistas consideram ser normal que o creacionismo seja ensinado em aulas de religião, enquanto o darwinismo seria aceitável em aulas de ciência. Grossa bobagem. Não vejo nada demais que em uma aula de ciências alguém levante a hipótese do design inteligente – eufemismo criado para insinuar que na Bíblia existe algo de científico – como também não vejo nada demais que, em uma aula de religião, alguém avente a hipótese do darwinismo. Segundo a teoria do design inteligente, a natureza é tão complexa e os organismos tão perfeitos que só o desígnio de um arquiteto (Deus) pode ter sido responsável por sua criação. O que resta saber é se um aluno, numa escola confessional, será reprovado em um exame ao afirmar que não aceita o creacionismo.

É deplorável que o fanatismo ianque esteja invadindo universidades no Brasil. Considero que se alguém passa por uma universidade – instituição que deveria se pautar pelo pensamento científico – e dela sai acreditando em Deus, é porque a universidade falhou em sua missão, a de ensinar o que não é falso.

E nisto estamos em São Paulo, a cidade mais informada do país. Em pleno século XXI, ministrando ensino a partir dos mitos do Gênesis.

Quarta-feira, Dezembro 17, 2008
 
PLANHAB DESMENTE FARSA DA FGV


Em agosto passado, quando a Fundação Getúlio Vargas estabeleceu a renda mensal de 1.064 reais como parâmetro inicial para definir a classe média, devo ter sido uma das raras vozes a denunciar o absurdo de tal critério. A imprensa, como um todo, engoliu a potoca. Mesmo jornais estrangeiros se deixaram levar pelo blefe e saudaram o Supremo Apedeuta como o homem que havia ampliado a classe média no país. Na grande imprensa nacional, só li um artigo denunciando a farsa, intitulado "Classe média que ainda não é", assinado por José Aristodemo Pinotti, onde o deputado se pergunta:

Não consegui deglutir essa euforia acrítica de classe média majoritária. Outro dia, contou-me um amigo que alguém lhe perguntara: "Como faço para entrar na classe média, se ganho R$ 980?" Respondeu-lhe esse amigo: "É muito fácil, peça ao seu patrão um aumento na Carteira de Trabalho de R$ 84 e, mesmo que não os receba, você passará a ser mais um feliz integrante dessa classe, o que certamente mudará a sua vida."

Dito isto, desde o ano passado o governo vem falando de um Plano Nacional de Habitação (PlanHab), que seria lançado no mês que vem, cuja meta é erguer 12 milhões de moradias de até 25 mil reais para famílias de baixa renda. O investimento total pode chegar a R$ 300 bilhões em recursos orçamentários, incluindo União, Estados e municípios. Curvem-se as nações ante o Brasil. Desconheço país rico que dê esmola tão gorda aos pobres.

Até aí tudo muito lógico, faz parte da política demagógica do governo, de dar peixes em vez de ensinar a pescar. As tais de famílias de baixa renda terão daqui para a frente um excelente instrumento para aumentarem seus patrimônios, o ventre de cada mãe de família. Quanto mais filhos tiverem, mais moradias acabarão acumulando, quando os rebentos chegarem à idade de acasalamento. O contribuinte - eu, você, nós todos que pagamos impostos por nossos rendimentos - seremos os garantes do bem-estar de famílias que procriam como coelhos.

O fato novo, fui lê-lo hoje no jornal espanhol El País:

Las familias brasileñas que ganen hasta 1.500 reales (455 euros) al mes podrán aspirar a una de las 12 millones de viviendas previstas en el gigantesco Plan Nacional de Vivienda que el Gobierno del presidente Luiz Inácio Lula da Silva lanzará después de año nuevo y que prevé una inversión de 300.000 millones de reales (más de 90.000 millones de euros) durante los próximos 15 años. (Atenção: 300.000 millones, em espanhol, quer dizer 300 bilhões).

Se bem entendi, então a classe média nacional não tinha onde morar, já que a FGV fixava em 1.064 reais a renda familiar para ingresso no conceito de classe média. Curiosa definição de classe média. São mentiras como essa que elevam a popularidade do Apedeuta a níveis próximos da popularidade de um Envers Hodja. Que Lula se valha de mentiras para inflar sua popularidade não é de espantar, isto é próprio de políticos. O espantoso é ver alguém acreditar que, com uma renda familiar de 1.064 merrecas, já entrou no panteão da classe média.

Pior que isso, é ver a imprensa toda endossando a farsa.

Terça-feira, Dezembro 16, 2008
 
BÍBLIA VÊ NAS MULHERES
IMUNDÍCIE E SUBMISSÃO



Uma leitora de Porto Alegre ofendeu-se com uma de minhas crônicas. E escreve-me:

Sr. Cristaldo,

Li sua coluna "Vaticano e Islã, mesmo combate" no site Baguete. Sou mulher e católica e me senti ofendida com sua argumentação. Graças a Deus vivemos em um país com liberdade de expressão, e o senhor tem direito a expressar a sua. Apenas gostaria de dizer que, pela minha experiência de vida na Igreja Católica, não concordo.

Aliás, achei o texto bem ofensivo quanto aos católicos. Realmente há um radicalismo quanto à questão homossexual, mas quanto às mulheres, acho que o colunista não deve entrar em alguma igreja há muito tempo ou não deve conhecer diversos movimentos em que a mulher assume funções importantes, como palestrante e, em algumas comunidades, dirige cultos dominicais. Uma mulher de destaque, só para dar um exemplo, é mundialmente conhecida, a italiana Chiara Lubich, fundadora e presidente do movimento Focolares.

Atenciosamente,

Adriana


Na crônica em questão, afirmei sempre ter visto uma forte simpatia entre católicos e muçulmanos, entre o papa, mulás e aiatolás. Ambas as religiões são totalitárias, oprimem a mulher e são inimigas do prazer. Sinta-se ofendida à vontade, Adriana. A Bíblia é o livro que embasa a doutrina católica, não é verdade? Quem escreveu o que segue não fui eu.

Levítico 12

1 Disse mais o Senhor a Moisés:
2 Fala aos filhos de Israel, dizendo: Se uma mulher conceber e tiver um menino, será imunda sete dias; assim como nos dias da impureza da sua enfermidade, será imunda.
3 E no dia oitavo se circuncidará ao menino a carne do seu prepúcio.
4 Depois permanecerá ela trinta e três dias no sangue da sua purificação; em nenhuma coisa sagrada tocará, nem entrará no santuário até que se cumpram os dias da sua purificação.
5 Mas, se tiver uma menina, então será imunda duas semanas, como na sua impureza; depois permanecerá sessenta e seis dias no sangue da sua purificação.

Levítico 15

19 Mas a mulher, quando tiver fluxo, e o fluxo na sua carne for sangue, ficará na sua impureza por sete dias, e qualquer que nela tocar será imundo até a tarde.
20 E tudo aquilo sobre o que ela se deitar durante a sua impureza, será imundo; e tudo sobre o que se sentar, será imundo.
21 Também qualquer que tocar na sua cama, lavará as suas vestes, e se banhará em água, e será imundo até a tarde.
22 E quem tocar em alguma coisa, sobre o que ela se tiver sentado, lavará as suas vestes, e se banhará em água, e será imundo até a tarde.
23 Se o sangue estiver sobre a cama, ou sobre alguma coisa em que ela se sentar, quando alguém tocar nele, será imundo até a tarde.
24 E se, com efeito, qualquer homem se deitar com ela, e a sua imundícia ficar sobre ele, imundo será por sete dias; também toda cama, sobre que ele se deitar, será imunda.
25 Se uma mulher tiver um fluxo de sangue por muitos dias fora do tempo da sua impureza, ou quando tiver fluxo de sangue por mais tempo do que a sua impureza, por todos os dias do fluxo da sua imundícia será como nos dias da sua impureza; imunda será.
26 Toda cama sobre que ela se deitar durante todos os dias do seu fluxo ser-lhe-á como a cama da sua impureza; e toda coisa sobre que se sentar será imunda, conforme a imundícia da sua impureza.
27 E qualquer que tocar nessas coisas será imundo; portanto lavará as suas vestes, e se banhará em água, e será imundo até a tarde.

Deuteronômio, 22

20 Se, porém, esta acusação for confirmada, não se achando na moça os sinais da virgindade,
21 levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão até que morra; porque fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai. Assim exterminarás o mal do meio de ti.
22 Se um homem for encontrado deitado com mulher que tenha marido, morrerão ambos, o homem que se tiver deitado com a mulher, e a mulher. Assim exterminarás o mal de Israel.
23 Se houver moça virgem desposada e um homem a achar na cidade, e se deitar com ela,
24 trareis ambos à porta daquela cidade, e os apedrejareis até que morram: a moça, porquanto não gritou na cidade, e o homem, porquanto humilhou a mulher do seu próximo. Assim exterminarás o mal do meio de ti.

Ou ainda:

Efésios 5

22 Vós, mulheres, submetei-vos a vossos maridos, como ao Senhor;
23 porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o Salvador do corpo.
24 Mas, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres o sejam em tudo a seus maridos.

Ou ainda:

Colossenses, 3

18 Vós, mulheres, sede submissas a vossos maridos, como convém no Senhor.

Estes são apenas alguns dos momentos da Bíblia onde a mulher é vilipendiada. Há inúmeros outros. Mais ainda: em todos os países do Ocidente, a Igreja vive metendo o bedelho nos assuntos do Estado. Quer proibir a introdução nas legislações do aborto, do divórcio e do homossexualismo. Ora, é simples: se quiser proibir aborto, divórcio e homossexualismo para seus fiéis, proíba-os à vontade. Mas que não se meta na vida de quem não crê em seus preceitos. Os Testemunhas de Jeová, por exemplo, não aceitam transfusões de sangue. Mas nunca pretenderam que quem não pertence à sua religião as recuse.

Repito: o mal das religiões é pretender que o universo todo se comporte como se comportam eles, os religiosos. Ora, se católicos e muçulmanos abominam o homossexualismo, que se abstenham do bom esporte. Se são contra o divórcio e o aborto, que não abortem nem se divorciem. Mas, por favor, não se metam na vida de quem não crê em suas bobagens. Aqui no Ocidente, só existe uma teocracia, o Vaticano. Estado misógino e exclusivamente masculino, é claro que lá não se pratica aborto nem divórcio. Quanto ao homossexualismo, sei não!

Atenciosamente,

o cronista.

Segunda-feira, Dezembro 15, 2008
 
RUMO AO EX-BRASIL (VII e última)


Em meio a isso, talvez o leitor imagine que estou angustiado com a iminente desintegração territorial do país. Nada disso. Apenas constato. O que está acontecendo hoje em Roraima é uma exigência da Organização das Nações Unidas. Em 18 de agosto do ano passado, a ONU aceitou apelo feito por grupos indígenas - leia-se CIR e CIMI, entidades a serviço de fundações americanas e Igreja Católica - e passou a exigir que o Governo brasileiro garantisse a retirada dos ocupantes da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. De acordo com o Comitê de Combate ao Racismo da ONU, ao qual os índios recorreram, o assunto deveria ser classificado como “urgente”.

Os eméritos magistrados do Supremo Tribunal Federal apressaram-se em cumprir servilmente as ordens da ONU. Pouco mais de um ano depois, entregaram a 17 mil índios 17 mil quilômetros quadrados de território. Milhares de aposentados estão morrendo sem ver sequer a sombra dos precatórios devidos pela União e pelos Estados e já julgados em última instância há mais de década. Quanto aos indígenas, em um ano e quatro meses após o pleito junto à ONU, já tiveram sua “nação” reconhecida.

Um mês depois, mais precisamente em 13 de setembro de 2007, a ONU proclamou a Declaração de Direitos dos Povos Indígenas, que deve proteger os mais de 370 milhões de pessoas que integram estas comunidades no mundo todo. O texto, ratificado por 143 votos a favor, 4 contra e 11 abstenções, constituiu um marco histórico para os movimentos indígenas. No que depender da ONU, balcanização não vale só para os Bálcãs, mas para todos os países do mundo. Os quatro votos contrários foram dos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, todos ex-colônias britânicas. Nesses países, as populações nativas como os inuit (esquimós), maoris e aborígenes têm movimentos organizados de resistência política e cultural.

Segundo o Estado de São Paulo, a declaração, de 46 artigos, estabelece os padrões básicos de respeito aos direitos dos povos indígenas do mundo, que incluem a propriedade de suas terras, acesso aos recursos naturais de seus territórios, preservação de seus conhecimentos tradicionais e autodeterminação. O problema é esta última palavrinha. Autodeterminação significa a constituição de um novo país.

Se os países querem dividir-se, que se dividam. Hoje há fortes movimentos separatistas no Canadá, na Bélgica, na Itália e na Espanha, isso para falar só de Ocidente. O Canadá francófono não quer mais dormir junto com o anglófono, os valões não estão gostando de dividir o mesmo teto com os flamengos, a Padania quer distância de uma Itália pobre (Lega lombarda, Roma bastarda) e bascos e catalães querem independência da Espanha. Mas que a divisão seja iniciativa de cada país, e não imposição de uma entidade inoperante, inútil tribuna de discursos vazios e cabide de empregos milionários. Se estes países resolverem cindir-se, cada pedaço saberá como gerir seus destinos. Outra coisa é conferir territórios imensos a selvagens que não conseguem sequer administrar uma horta. E que passarão a onerar os contribuintes do país ao qual pertenciam.

Se o Brasil quer dividir-se, que se divida. O deplorável é ver que esta divisão, se acontecer, será em função de interesses internacionais e inconfessáveis, e não uma decisão dos brasileiros. É uma luta pelo subsolo, e não defesa de direitos indígenas. Espantoso ver um governo que se pretende de esquerda dobrando-se à vontade de fundações e ONGs americanas e européias. Humilhante ver uma Suprema Corte curvando-se a uma determinação da ONU.

De minha parte, não tenho objeção alguma a que o país se parta em cacos como previu Eça. Nasci na fronteira seca com o Uruguai e nunca me senti muito brasileiro. Sou mais platino. Me sinto mais em casa em Montevidéu, Buenos Aires ou mesmo Madri, do que em Porto Alegre ou São Paulo. Desde há muito defendo a divisão do Brasil em três ou quatro partes. Seriam mais administráveis. Um norte, um nordeste, um sul. E mais o Rio de Janeiro, que poderia ser logo entregue a quem de fato detém o poder, os traficantes de drogas. Para o PCC, um bantustão. Eles que o administrem.

Houve época em que me sentia brasileiro. Aliás, mais gaúcho que brasileiro. Comecei então a bater pernas pelo planetinha. Vi países mais lindos e mais organizados, sociedades mais cultas e menos corruptas, povos mais laboriosos e mais honestos. Por que raios ficaria então louvando as virtudes do caos em que nasci? O homem é o homem e suas circunstâncias, escreveu Ortega y Gasset. Hoje, dadas minhas circunstâncias – idade, posses, filha, círculo de amigos – o Brasil é para mim o melhor país para viver. Não me queixo. Mas se minha pátria for reduzida ao bairro onde hoje resido, já está de bom tamanho.

Me tornei cidadão do mundo e hoje viveria bem em praticamente todos os países do Ocidente. (Menos nos Estados Unidos, não gosto da cultura deles. Paraguai também não, é claro). Houve época em que, mesmo já não me sentindo muito brasileiro, eu torcia pelo Brasil, queria ver o país deslanchar. Este meu entusiasmo murchou em 2002, quando o país elegeu para a Presidência um analfabeto. E morreu definitivamente em 2006, quando o país reelegeu o analfabeto. Tornei-me egoísta. Me imbuí daquele “egoísmo natural das pedras”, do qual falava Fernando Pessoa. Como Candide, vou cuidar de meu jardim. O futuro do país não me interessa mais. Quiseram? Que levem. Com a devida vênia do Apedeuta, vou repetir seu discurso: que “sifu”.

Ex-Brasil? Será um processo um pouco lento. Talvez para daqui a meio século. Em Porto Alegre, já há caingangues reivindicando um morro dentro da cidade. Até hoje não entendi como as tribos que viviam onde hoje é São Paulo ainda não exigiram seus direitos de autóctones. São Paulo – tanto o Estado como a cidade - estão inundados de topônimos tupis. Todo branco que habita hoje a cidade está usurpando direitos imemoriais dos bugres. Pela lógica, todos nós deveríamos ser mandados de volta para a Europa. Eu iria voando.

Processo lento mas, a meu ver, inexorável. Eu, certamente, não o verei. Nenhum lobo come o cordeiro sem uma prévia conversa. Esta conversa será longa. A Suprema Corte do país já se conformou à idéia. As 227 áreas indígenas em litígio serão beneficiadas com o desvario do STF. Amanhã, serão os militares a aceitar a hipótese. Tem ainda os quilombolas, conflito que recém começou.

Não estou deplorando a dissolução do país. Lavro apenas minha constatação.

 
RUMO AO EX-BRASIL (VI)


O Território Já Está Dividido *


A idéia de independência dos Estados do sul brasileiro é vista como um sonho separatista de gaúchos saudosos da República do Piratini. O Ministério do Exército afirma que separatismo é barbárie, anomalia cívica, ruptura da unidade nacional. A finada URSS se parte em cacos, a antiga Iugoslávia também, a própria Rússia tem sua unidade questionada: Estônia, Letônia e Lituânia se independentizaram praticamente sem sangue. A Tchecoslováquia cindiu-se em paz, o Canadá quer divorciar-se de si mesmo, a Itália também. Mas esse nosso dinossauro informe, cujo cérebro verde-amarelo nunca conseguiu comandar os próprios membros em nome de uma identidade nacional que jamais foi definida, deve permanecer um só. É o que dizem os que militam pela preservação dos fósseis. Esta tarefa típica de ecologistas está sendo assumida agora por militares, que começam a ranger os dentes ante a uma pacífica iniciativa dos gaúchos. Que também já foi projeto de paulistas, diga-se de passagem.

O que ninguém manifesta – ou prefere não manifestar – é que o Brasil já deixou de constituir uma unidade territorial. Por um punhado de linhas na imprensa internacional, Collor de Mello entregou a dez mil aborígenes que, existindo há milênios, não conseguiram emergir de uma cultura ágrafa, um território equivalente a três Bélgicas, uma para cada três mil índios. Uma recente edição da revista Geografia já tem um chamado de capa sobre “o país dos ianomâmis”. Que ninguém se iluda: os latifúndios entregues de mão beijada àqueles autóctones que sequer chegaram aos preâmbulos de uma gramática, não pertencem mais ao Brasil. Os ianomâmis, que vivem do ócio e da devastação da floresta amazônica, podem ter um país para uso próprio. Gaúcho, catarinense, paulista, gente que trabalha e produz, não pode sequer pensar no assunto. É crime contra a segurança nacional.

Estupro também é crime, exceto quando cometido por índios. Paulinho Paiakan, o cacique caiapó, saudado pela imprensa americana como “o homem que pode salvar a humanidade” estuprou uma menina com a cumplicidade de sua mulher e permanece livre como um passarinho em seu feudo. O processo se arrasta há quase um ano e Paulinho – são simpáticos os diminutivos! – avisou: se for condenado, não sai de sua reserva. Ameaçou inclusive fazer rolar o sangue dos brancos, em caso de condenação. E pensávamos que limpeza étnica é estratégia de sérvios.

A “nação” caiapó, que já faturou US$ 10 milhões nos últimos dez anos exportando madeira de mogno para a Europa, não só não aceita o sistema judiciário nacional, como ainda alberga e protege o estuprador. Se bem me recordo de minhas aulas de Direito, albergar criminoso também constitui crime. Exceto no país caiapó, onde as leis são outras e estupro não é crime. O grave em tudo isto não é propriamente o estupro, crime comum capitulado no Código Penal. Temos agora um cidadão brasileiro, com carisma de salvador da humanidade, que diz com todas as letras que não aceita a lei do país onde vive. Jamais ouvi pronunciamento de autoridade nenhuma condenando esta rebelião civil. Não tenho notícias de que o Ministério do Exército tenha se preocupado com estes senhores que, com todas as letras, negam os sistemas legislativo e judiciário nacionais.

Mal surge a idéia do separatismo, que está longe de ser nova no Rio Grande do Sul, não falta quem fale em racismo e preconceito. Por alusão, evidentemente, aos nordestinos e nortistas, indesejados na nova comunidade. Aliás, depois das exéquias da finada luta de classes, racista é o novo insulto que substitui burguês. O que, no caso brasileiro, é duplo equívoco. Em primeiro lugar, nordestino jamais constituiu raça diferente da branca. Segundo, se constituísse, a ninguém se pode obrigar a dela gostar. O mínimo – e também o máximo – eticamente exigível é respeitá-la. Gostar ou não de alguém é questão de foro íntimo. Respeito é obrigação de todo ser humano em relação ao outro, ou voltamos à lei da selva. O bíblico “amai-vos uns aos outros” pode ser uma ordem para os cristãos. Ocorre que vivemos em país que não deve obediência nenhuma a Roma. Curiosamente, ninguém acusa de racismo tchecos ou eslovacos, lituanos, letônios ou estônios.

Quanto a preconceito, é mais uma dessas palavras manipuladas pela mídia sem respeito nenhum a seu significado. Se, sem jamais ter visto ou ouvido falar de nordestinos, em relação a eles tenho uma atitude adversa, trata-se evidentemente de um “pré-conceito”. (Exemplo cabal de preconceito é o nutrido em relação ao Iéti. Jamais foi visto de perto e já recebeu a pecha de “abominável homem das neves”). Mas depois de um Collor de Mello, P.C. Farias ou de um Inocêncio Poços de Oliveira Artesiano, temos um pós-conceito. Ao ser acusado de escavar poços em suas terras utilizando serviços de uma instituição pública, o presidente do Congresso, eventual presidente da República, declarou que isto é normal e que muitos outros deputados fazem o mesmo. Sulistas, nada temos contra o Nordeste que trabalha. Nosso rechaço é contra o Nordeste dos aguatenentes, estes gordos carrapatos que sugam o magro dorso do país.

Em bom português: quando autoridades civis e militares se dizem preocupadas com a unidade do território nacional, este há muito já está dividido. Um país para cada tribo indígena é bom, digno e justo. Um projeto de país para os sulistas é um atentado à Constituição. A chancelaria brasileira endossou a fragmentação da União Soviética, Iugoslávia e Tchecoslováquia. Mas Brasil não pode.

Militares não são pagos para mandar, mas para servir. As Forças Armadas devem atender aos desejos nacionais. Quando militares se opõem às aspirações civis, temos ditadura, e da última ninguém tem saudades. Em país civilizado, militar não manda. Obedece. Se o país quer cindir-se, faça-se um plebiscito. A menos que alguém prefira o método iugoslavo.


* Publicado em 26/06/93, no jornal Zero Hora, Porto Alegre

Domingo, Dezembro 14, 2008
 
RUMO AO EX-BRASIL (V)


No dia 19 de agosto de 1993, uma manchete invadiu as páginas de todos os jornais do país:

IANOMÂMIS SÃO CHACINADOS EM RORAIMA

Falou-se inicialmente em 19 mortos. Dia seguinte, eram 40. Logo depois, chegaram a 73. Os assassinos, é claro, eram os garimpeiros. No decorrer dos dias, como nenhum cadáver havia sido achado, o número de chacinados foi diminuindo. Foi fixado finalmente em 16. A única prova da chacina foi... um dente, encontrado pela Polícia Federal e exibido em grandes fotos pela imprensa, na ponta do dedo de um policial. Em verdade, não foi encontrado um só cadáver.

No dia seguinte ao "massacre", ficou clara a intenção da farsa: "O presidente Itamar Franco anunciou ontem a decisão do governo em homologar a demarcação de uma área de 4.900 hectares no sul do Pará, habitada por 600 índios caiapós, em duas aldeias. O anúncio foi feito pouco mais de 24 horas após a divulgação da chacina dos ianomâmis em Roraima".

Relato toda essa farsa em Ianoblefe - o jornalismo como ficção. O livro foi recusado por cerca de vinte editoras. "Não podemos nos indispor contra todos os jornais do país", resumiu um editor. Mas foi aceito pela Ebooksbrasil, tocada por Teotonio Simões, e pode ser baixado de http://www.ebooksbrasil.org. Recomendo.

Dia 19 de dezembro de 1996, o juiz federal Itagiba Catta Preta, de Boa Vista, Roraima, fechou com chave de ouro a ficção alimentada durante três anos pela imprensa: condenou a vinte anos de prisão cinco garimpeiros, por genocídio praticado contra ianomâmis em 93. Dois garimpeiros responderam o processo em liberdade e três à revelia.

Cadáveres, nenhum. Mas o juiz Catta Preta não tem dúvidas de que houve o massacre. Como prova do crime, aceitou laudos de antropólogos sobre os hábitos culturais dos ianomâmis — a história das cinzas, formulada por Bruce Albert —, além do depoimento de sobreviventes. “Pelos depoimentos colhidos, não tenho dúvida de que pelo menos doze índios foram mortos”. Se morreram na Venezuela, para Catta Preta tanto faz. Segundo ele, o código penal prevê que o genocídio, quando praticado por brasileiros, fica sujeito à lei brasileira. Seria interessante sabermos o que pensam disto os venezuelanos.

Sem cadáver não há crime, diz a boa doutrina jurídica. Os garimpeiros foram condenados por um crime que não houve. Pior ainda, pelo assassinato de índios de uma tribo que não existe. Naquele dia, em Roraima, foi atada com nó de tope a maior farsa jornalística, política e jurídica jamais ocorrida no Brasil, com sérias conseqüências para a integridade territorial do país.

A imprensa registrou alguns sinais de violência na aldeia venezuelana onde teria ocorrido o massacre, várias panelas perfuradas por tiros. E só. Teríamos então um panelocídio, figura que jamais foi contemplada por qualquer código penal.

A ficção da fotógrafa — Se o antropólogo Napoleon Chagnon constatou a existência de uma tribo de ianomâmis na Venezuela, a extensão desta etnia a territórios brasileiros está longe de ser uma evidência. O blefe do massacre de ianomâmis em 93 repousa sobre um blefe anterior, ou seja, a existência de uma tribo ianomâmi no Brasil. Quem faz esta denúncia é o coronel Carlos Alberto Lima Menna Barreto, em A Farsa Ianomâmi (Rio, Biblioteca do Exército Editora, 1995). Em função de seu ofício, o militar gaúcho trabalhou em Roraima desde 1969, onde teve estreito contato com a população da região e jamais ouviu falar em ianomâmis, palavra que invade a imprensa brasileira e internacional somente a partir de 1973.

Segundo Menna Barreto, Manoel da Gama Lobo D’Almada, Alexandre Rodrigues Ferreira, os irmãos Richard e Robert Schomburgk, Philip von Martius, Alexander von Humboldt, João Barbosa Rodrigues, Henri Coudreau, Jahn Chaffanjon, Francisco Xavier de Araújo, Walter Brett, Theodor Koch-Grünberg, Hamilton Rice, Jacques Ourique, Cândido Rondon e milhares de exploradores anônimos que cruzaram, antes disso, os vales do Uraricoera e do Orenoco, jamais identificaram quaisquer índios com esse nome”.

Tampouco o leitor que hoje tenha 40 ou 50 anos jamais terá ouvido falar, em seus bancos escolares, da tal de tribo, que recebeu um território equivalente a três Bélgicas, como sendo suas “terras imemoriais”. Imemoriais desde quando? Desde há duas décadas?

Para o coronel Menna Barreto, nada melhor que o idioma para definir a linhagem e contar a história dos grupos humanos. Em suas primeiras missões na região, encontrou os maiongongues — classificados no grupo Caribe — e os xirianás, uaicás e macus, falando línguas isoladas. Como os primeiros exploradores e cientistas estrangeiros, jamais ouviu falar de ianomâmis.

“É preciso ficar claro antes de tudo que os índios supostamente encontrados por Claudia Andujar são os mesmos de quando estive lá, em 1969, 1970 e 1971. Pode ser que, seduzidos com promessas, tenham concordado em renegar o próprio nome, deixando de ser os valentes que sempre foram, para se prestarem agora a esse triste papel. Ou, quem sabe, podem ter sido convencidos a vestir o apelido de “ianomâmis” por cima dos antigos nomes, numa forma de fantasia menos nociva aos valores e tradições indígenas... Entretanto, não é de se duvidar que, para cúmulo do desprezo pelos antropólogos nacionais, nada tenha sido feito para disfarçar a mentira e que, com exceção dos mais sabidos, eles continuem a ser os xirianás, os uaicás, os macus e os maiongongues de sempre, ficando essa história de “ianomâmis” só para brasileiros e venezuelanos”.

“Mas os índios tidos como ianomâmis são os mesmos que lá estavam de 1969 a 1971. Tenho certeza porque voltei à região em 1985, 1986, 1987 e 1988, como Secretário de Segurança, e vi as malocas nos mesmos lugares e os índios com as mesmas caras de antes. E, muito embora essa afirmação possa parecer temerária, pela dificuldade de distinguir-se um índio do outro na mesma tribo, é fácil de ver que, se nesses vinte anos não se registrou nenhuma ampliação de malocas, nem há notícia da ocorrência de epidemias ou guerras entre eles, os atuais habitantes são os mesmos visitados por mim, quando Comandante da Fronteira ou, então, são descendentes deles”.

Para este gaúcho que conheceu de perto — e de longa data — as tribos de Roraima, não é permissível enquadrar grupos tão distintos em uma única nação, “apagando-lhes as diferenças e variações culturais, quando a Antropologia tem como objetivo, ao contrário, salientá-las”. Segundo Menna Barreto, as diferentes tribos hoje designadas genericamente pelo gentílico ianomâmi, são bem definidas e distintas entre si.

Ianomamização — Prossegue Menna Barreto: “os uaicás, por exemplo, têm conseguido, ao contrário dos demais, manter-se praticamente imunes a influências estranhas, seja pelo terror que sua ferocidade infunde, seja pela precaução instintiva de se retraírem para evitar a própria degeneração e o ocaso no convívio com culturas mais avançadas. Os xirianás, no entanto, não puderam evitá-las em suas tribos do Alto Uraricaá, do Motomotó e do Matacuni, mais sujeitas à força do gregarismo humano nas condições singulares que viveram. Os primeiros mantém estreito relacionamento com seus vassalos auaqués e um rudimentar comércio com vizinhos do grupo caribe. Os do Matacuni, por sua vez, vinculam-se cultural e comercialmente aos iecuanás do Alto Auari”.

Os xirianás do Matacuni e do Uraricaá, segundo o autor, após terem exterminados os maracanãs, os purucotós e os auaqués, tornaram-se mansos e sedentários. Já seus irmãos do Motomotó, em sua limitada parceria com os macus, só alcançaram uma certa habilidade artesanal e uma relativa moderação da brutalidade primitiva. Outra parcela da tribo, das nascentes do Orenoco e do Médio Mucajaí, conservam o nomadismo e hábitos selvagens, sendo incapazes de construir malocas com troncos fazer canoas ou plantar roças. Ainda na mesma reserva ianomâmi, estariam os iecuanás-caribe, apelidados de maiongongues pelos macuxis e de maquiritares pelos venezuelanos, mais os remanescentes das tribos guinaú e iauaraná.

“Com tamanha profusão de línguas, raças e culturas, é indevido e absurdo” — escreve Menna Barreto — “classificar-se todos de ianomâmis. Fechar os olhos a esta evidente farsa para favorecer interesses escusos de outros países, em detrimento do Brasil, mais do que escândalo é traição”.

Claudia Andujar, em verdade, ianomamizou uma babel de tribos que pouco ou nada tinham a ver entre si. A ficção tomou força na imprensa internacional e os “ianomâmis” passaram a “existir”. Quando Brasília se deu conta de que o reconhecimento de grupos indígenas requeria capacitação em Antropologia, o mal já estava feito: a fotógrafa havia criado uma nação. Cabe lembrar que a profissão de antropólogo, como a de prostituta ou psicanalista, não estão regulamentadas por lei no Brasil.

Mesmo assim, em 1992, por um punhado de linhas na mídia internacional, o então presidente Fernando Collor de Mello avalizou a ficção de Andujar, entregando três Bélgicas a dez mil índios (ou talvez menos da metade disso), que só passaram a ser ianomâmis a partir de 1973. Milagre do jornalismo eletrônico: jamais se construiu uma nação em tão pouco tempo.

Imemorialidade posta em xeque – Se Menna Barreto não aceita a classificação de ianomâmis a toda uma profusão de línguas, raças e culturas, os defensores incondicionais de uma nação para a nova tribo não só insistem em sua existência como ainda em seu caráter imemorial em território brasileiro. A própria CCPY (Comissão Pró-Yanomami) parece não crer muito na imemorialidade desta posse. Em documento interno da comissão, A Prática do Yanomami, de autoria do lingüista Henri Ramirez, lemos que "não se sabe absolutamente nada sobre o passado remoto do povo yanomami". Para quem falava em povos imemoriais, já é um avanço. A única certeza que o lingüista encontra é que, no século XVIII, viviam confinados nas florestas montanhosas na fronteira entre o Brasil e a Venezuela. Ao dar a descrição da região ocupada, o autor cita vários rios, todos eles situados na Venezuela.

Segundo Ramirez, uma primeira vaga de ianomâmis invade o Brasil em 1915, alcançando o Marauiá e o Cauburi, no norte do Estado do Amazonas, fronteira com a Venezuela. Ou seja, os ianomâmis no Brasil são menos imemoriais que meus avós, que aqui chegaram em fins do século XIX.

Ainda segundo Ramirez, uma segunda leva de ianomâmis teria chegado aqui em 1945, fixando-se no Marari, nas cabeceiras do Padauari e no Demini. Ou seja, são tão imemoriais quanto eu, que nasci em 47. Em nome desta curtíssima imemorialidade, Andujar e seus asseclas isolaram do Brasil 10 milhões de hectares.

Uma Cuba para latifundiários — Os uaicás, xirianás, iecuanás, macus e maiongongues, segundo Menna Barreto — ou ianomâmis, como os rebatizou Andujar — têm hoje a posse de 9,4 milhões de hectares, uma extensão territorial que jamais conseguirão controlar. Não bastasse esta imensidão de terras entregue por Collor de Mello a um punhado de seres primitivos, incapazes de constituir ou gerir um Estado, o presidente Fernando Henrique Cardoso acaba de demarcar uma área ainda maior, de 10,6 milhões de hectares (território equivalente a Cuba) na região conhecida como Cabeça do Cachorro, no noroeste do Amazonas. A demarcação, feita com patrocínio do G-7 (grupo formado por EUA, Japão, Canadá, Alemanha, França, Grã-Bretanha e Itália) revoga e engloba 14 "ilhas" descontínuas, criadas durante o governo Sarney (1985-90). Antes da nova demarcação, as 14 "ilhas" tinham apenas 2,6 milhões de hectares. Esta Cuba será entregue a cerca de 30 mil índios, quase 10% da população indígena do Brasil, espalhados em 600 comunidades de 23 etnias, como baré, suriana, maku, baniwa e tucano, entre outras.

Detentores de 11% do território nacional, os 325 mil índios brasileiros se candidatam fortemente à condição de maiores latifundiários do planeta. Ironicamente, habitam o mesmo país em que o Movimento dos Sem-terra (grupos armados de fuzis, foices e facões, organizados pela Igreja Católica) invade e desmonta propriedades produtivas, com técnicas de guerrilha e sob as bandeiras de Mao Tse Tung e Che Guevara. Alegam os defensores dos “povos da floresta” que todo o território brasileiro lhes pertencia, antes da chegada dos portugueses. Ocorre que os nativos não pediram passaporte a Cabral, nem lhe exigiram visto de entrada. Ora, sem Estado constituído, povo algum pode pretender a posse de qualquer território.

Postos em quarentena pela antropologia militante, isolados deste século por uma política oficial de Brasília, uma merencória opção é deixada aos autóctones de Pindorama: morrer de fome ou depender da caridade pública. Integrar-se ao século XX, jamais: os antropólogos precisam preservar, congelados no tempo, seus objetos de estudo.

E assim prepara-se o Brasil para entrar no terceiro milênio. Deixando para trás, perdidos no passado, seus primeiros habitantes.

 
RUMO AO EX-BRASIL (IV)


Vacinação define território – Em setembro, a CCPY assume a responsabilidade de dirigir a política indígena na área ianomâmi e solicita à Funai a implantação de um programa sistemático de imunização dos ianomâmis. O maior incentivador das vastas reservas é o antropólogo Kenneth Taylor, contratado pela Funai para atuar na área ianomâmi.

Em fevereiro de 1980, a Funai forma um grupo de trabalho para reestudar a área ianomâmi, com a participação de Cláudia Andujar. Este grupo deveria a estudar a proposta oficial (ilhas) e a da CCPY (área contínua). Uma terceira proposta de bloqueio de dez milhões de hectares foi apresentada e aprovada pelo grupo de trabalho. Em setembro, é descoberto o garimpo Santa Rosa. Em dezembro, é feito um levantamento da área ianomâmi e, ao mesmo tempo, uma campanha de vacinação, com a participação de Cláudia Andujar.

Uma expedição, patrocinada pelo Antropolog Resource Center (ARC), da Noruega, e pelo International Workgroup for Indigenous Affairs (IWGLA), da Dinamarca –com permissão da Funai– consegue vacinar e contar 8.402 ianomâmis, entre 20 de dezembro de 1980 e 02 de março de 1981. Da expedição participam Cláudia Andujar e dois médicos brasileiros. Consideradas as dimensões da reserva ianomâmi, correspondente a três Bélgicas, isso sem falar nas dificuldades de locomoção na selva, é no mínimo espantoso que três pessoas tenham conseguido vacinar tanta gente em apenas 71 dias.

Em novembro de 1981, após denúncias na imprensa nacional e internacional de sucessivos massacres de ianomâmis, é interditada a pista do garimpo Santa Rosa, que no entanto continuou funcionando, com acesso pelo rio Uraricoera. Em março de 1982, uma portaria ministerial interdita 7,7 milhões de hectares para estudo e demarcação da área ianomâmi.

Em dezembro de 1982, reúnem-se na Vila Surumu o bispo de Roraima, dois padres venezuelanos, um jornalista estrangeiro e vários índios. Define-se então que a reivindicação de áreas contínuas teria um comando único, o padre Giorgio Dalbem, dada a necessidade de maior pressão, tendo em vista a indefinição da Funai. Em 1983, entre os meses de agosto e outubro, a diocese de Roraima promove reuniões sucessivas com índios do Brasil, Guiana e Venezuela para reivindicar áreas contínuas em cada país, visando uma área única englobando terras desses três países.

Em 1984, a Funai cria outro grupo de trabalho para nova identificação da área Raposa/Serra do Sol. O relatório deste grupo concluí que "pelo levantamento foi identificada uma área indígena de aproximadamente 1.577.850 hectares, ignorando a proposta feita pela própria Funai em outubro de 1977. Em agosto deste mesmo ano, o jornal El Universal, da Venezuela, publica uma matéria sob título "Setores de ultra-esquerda pretendem internacionalizar a Amazônia", baseada em documento confidencial do governo venezuelano. Em dezembro, realiza-se na Vila Surumu, a 9ª Assembléia Geral dos Índios de Roraima, patrocinada pela Diocese de Roraima. Nela foi aprovada uma carta ao presidente recém-eleito, Tancredo Neves, pedindo a demarcação urgente de reservas em áreas contínuas, como única forma de preservar física e culturalmente os índios da região.

Ainda no mesmo mês, realiza-se em Boa Vista a 9ª Assembléia do CIMI Norte 1, com a participação dos bispos de Roraima, Araguaia, tuxauas, sociólogos, antropólogos, funcionários da Funai e de Nelly Arruela Giménez e seu marido, ambos vinculados aos projetos da biosfera ianomâmi, desenvolvidos na Venezuela. Nesta assembléia, além da defesa das áreas contínuas, foi aprovada uma nota de repúdio à política indigenista do governo brasileiro, por ter criado um grupo de trabalho interministerial, com poderes decisórios na demarcação de áreas indígenas. Para os participantes da assembléia, tal grupo "vem barrando sistematicamente a demarcação das terras indígenas".

Em 1985, a Secretaria de Segurança de Roraima registra o primeiro atrito envolvendo índios e não-índios no Uiramutã, tendo a Igreja Católica sido acusada por moradores da região como responsável pelo tumulto. Em vista da acusação, a Diocese de Roraima alega que "a Igreja Católica não tem criado o problema indígena, ele surgiu com a chegada do europeu no Brasil e em Roraima". Em 1987, o oeste do Estado é invadido por 45 mil garimpeiros com a construção de cerca de 100 pistas para pequenas aeronaves. No ano seguinte, através de decretos presidenciais, a reserva ianomâmi é definida com a constituição de dez "ilhas", nos estados de Amazonas e Roraima, em um total de 1.533.452 hectares.

Em 1990, um levantamento feito pelo CPRM detecta um corpo com provável mineralização de fosfato, na bacia do rio Ajarani. A companhia faz o requerimento da área e as pesquisas são iniciadas. A Funai impõe obstáculos à continuidade dos trabalhos, incluindo aquela área em uma nova configuração do Parque Yanomâmi. As pesquisas são paralisadas. Em outubro, o presidente da Funai pede ao ministro da Justiça a demarcação do Parque Yanomami em área contínua, com uma proposta diferente daquelas até então apresentadas, englobando a área da CPRM, embora nela não se verifique a presença de índios.

Em 1991, oito senadores americanos, inclusive o então vice-presidente dos EUA, Albert Gore Jr., encaminham uma carta ao presidente George Bush, pedindo que o governo americano pressione o governo brasileiro para demarcar o Parque Yanomâmi. Em abril deste ano, após chegar dos Estados Unidos, o então presidente Fernando Collor de Mello, através de um decreto sem número, torna sem efeito a demarcação administrativa das "ilhas" e revoga as reservas garimpeiras propostas em 1989 pelo presidente José Sarney. Collor vai a Surucucus e dinamita várias pistas garimpeiras.

Em novembro, o Ministério da Justiça declara como posse permanente dos ianomâmis uma área de 9.419.108 hectares, nos estados de Roraima e Amazonas. Inicia-se a retirada dos garimpeiros, até hoje não concluída. Está armado o cenário para um genocídio que jamais ocorreu, a farsa do massacre dos ianomâmis, em agosto de 1993.

Sábado, Dezembro 13, 2008
 
RUMO AO EX-BRASIL (III)


Cronologia da invasão – Nestes dias em que os Estados Unidos estabelecem aeroportos, bases militares e estações de radar em torno às fronteiras da Amazônia brasileira - na Bolívia, Colômbia, Venezuela e Guiana -, cabe lembrar os litígios que envolvem Roraima. Salomão Afonso de Souza Cruz e Haroldo Amoras dos Santos, no relatório intitulado O Dilema de Roraima: Terra de Índios e Minérios, nos dão uma cronologia desta invasão, que começa em 1957, com a chegada na atual área ianomâmi dos missionários da Missão Evangélica da Amazônia (MEVA), entidade missionária interdenominacional especializada no trabalho indígena.

Em 1973, o projeto RADAM individualiza mais de 37 corpos de granitos circulares, todos favoráveis à mineralização da cassiterita. Dois anos depois é descoberto o garimpo de cassiterita de Surucucus. No ano seguinte, 1976, este garimpo é fechado. Em dezembro de 1977, uma portaria da Funai cria quatro áreas ianomâmis.

Nesta década de 70, chega em Roraima o bispo Aldo Mongiano, egresso de Moçambique onde militou junto à guerrilha de esquerda, e aí começam os conflitos na região. Em 1977, a Secretaria de Segurança do então território de Roraima recebe as primeiras denúncias contra o padre Giorgio Dalbem, feitas pelos próprios índios, que o acusam de estar pregando a demarcação de áreas contínuas na região das serras e a expulsão de todos os índios. Em janeiro, é realizada uma reunião na Vila Surumu, promovida pela Diocese de Roraima, com a presença de 40 tuxauas, do CIMI e de jornalistas do Pará e Amazonas. Nesta reunião foi discutida a necessidade da demarcação de reservas indígenas em faixas contínuas.

Em 07 de março, Dinarte Madeira, então delegado da Funai, e depois presidente da entidade, comunica à Brasília que vários tuxauas reunidos no posto indígena de Raposa fizeram proposta de "áreas envolvendo várias malocas". No documento, o delegado diz que na mesma reunião havia advertido os índios de que "uma área desmesurada seria indeferida, devido à grande quantidade de não-índios nas terras de Raposa e Serra do Sol".

Em 17 de março, o diretor substituto do DGO (departamento da Funai) informa ao presidente do órgão que "as numerosas aldeias espalhadas por todo o território de Roraima desaconselham, a nosso ver, a criação de reservas indígenas que as englobem, pois seria assim abarcada quase toda a superfície daquela unidade federada". Em 21 de outubro, a Funai cria um grupo de trabalho para identificar e delimitar as áreas indígenas em Roraima. Para a área Raposa/Serra do Sol o grupo define uma superfície de 1.347.810 hectares, recenseando 8.500 índios, contrariando parecer do Departamento Fundiário, ficando clara a divergência interna da Funai, entre antropólogos e funcionários de setores administrativos. Nas questões indígenas, segundo os autores do relatório, os antropólogos são aliados da Igreja.

Em maio de 1978, outra portaria da mesma entidade cria quinze reservas ianomâmis. Nove em Roraima e seis no Amazonas – uma extensão das ilhas, segundo a proposta oficial. Ainda neste mesmo ano, em 07 de julho, outra portaria da Funai cria uma reserva ianomâmi em Roraima. Três dias depois, outra portaria cria outra reserva ianomâmi em Roraima. A Companhia de Pesquisas e Recursos Mineirais (CPRM) inicia então o projeto Catrimani-Uraricoera, visando o mapeamento básico e a prospecção aluvionar para sedimentos pesados.

Em 1979, a CPRM acaba encerrando os trabalhos de campo, por não ter conseguido autorização da Funai, após terem sido detectadas mais de 30 ocorrências de ouro e cassiterita, além de outros minerais. Neste mesmo ano, é formada a Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), presidida por Cláudia Andujar. Pretender que tal nome seja de origem suíça é no mínimo estranho. Segundo me consta, a moça é romena. De qualquer forma, esta senhora cuja câmera capta momentos angelicais de seres que sequer chegaram ao neolítico, vai desempenhar um papel fundamental no projeto de destruição da Rondônia e dissolução territorial do país.

Em julho deste mesmo ano, a CCPY apresenta proposta para a criação do Parque Yanomami, protocolada na Presidência da República, com cópia para o ministro da Justiça e para o presidente da Funai. A proposta da Funai é de cerca de 5,5 milhões de hectares, nos estados de Roraima e Amazonas. No mês seguinte, a proposta recebe parecer favorável do Conselho Indigenista da Funai.

 
RUMO AO EX-BRASIL (II)


Eça, em seu senso premonitório, só não previu como se operaria este processo. Seria não o fim do império que determinaria o fim do Brasil. Mas entidades internacionais que, com o pretexto de defender causas indígenas, acabarão partindo o país em cacos. Embora o julgamento da demarcação e homologação de uma área contínua de 17 mil quilômetros quadrados para dezessete mil índios em Raposa/Serra do Sol ainda não tenha sido concluído, os oitos votos já pronunciados pelos juízes do Supremo Tribunal Federal a favor da demarcação fizeram da decisão um fato consumado. Quarta-feira passada, 10 de dezembro do ano da graça de 2008, passará à história como a data em que o Brasil começa a ser ex-Brasil.

O território entregue aos índios pode ser relativamente pequeno. Mas há mais 227 áreas em conflito que se beneficiarão desta decisão, constituindo um território das dimensões de Santa Catarina. Dentro em breve o mapa do Brasil terá o mesmo formato do mapa de Israel, um país judeu salpicado de encraves palestinos.

Na imprensa internacional, há muito se fala em uma autoridade supranacional para proteger a Amazônia. A edição brasileira da revista Geografia, em edição de 1993, já falava na capa do "país ianomâmi". Os jornais, não só do Brasil como do mundo todo, estão publicando fotos de mães ianomâmis e crianças ianomâmis, sinais premonitórios de independência à vista. Como vimos, antes da separação da Eslovênia da ex-Iugoslávia, os jornais foram inundados de mães eslovenas, crianças eslovenas, anciões eslovenos. Com a Croácia ocorreu o mesmo, fomos fartamente servidos de mães croatas, meninos croatas, anciões croatas. Idem com a Bósnia.

Comentando a criação desta entidade supranacional, tanto o general Zenildo de Lucena como o ministro do Estado-Maior das Forças Armadas (Emfa), almirante Arnaldo Leite Pereira, rechaçaram o debate sobre o assunto. "Isto não existe", disse o Lucena. "É inaceitável", disse Leite Pereira. "Seria ferir a nossa soberania e isso nós não admitimos, da mesma forma que nenhum outro país admitiria". Quando um roqueiro inglês veio ao Brasil determinar as fronteiras da "nação" ianomâmi, nossos militares permaneceram silentes. Agora, depois do fato consumado, quando elas existem e lá branco não entra, os militares rugem em defesa da integridade do país.

O comandante interino da 1a. Brigada de Infantaria de Selva, coronel João Paulo Saboya Burnier, já citado, diz que a reserva dos ianomâmis representa uma ameaça à integridade do território nacional. "Tenho certeza absoluta. Há a possibilidade da criação de uma nação indígena, em uma área do território nacional e outra de território venezuelano. Ora, uma nação não sobrevive dentro do território de outra. Isso ameaça nossa integridade".

Ocorre que o Brasil está há muito separado. Um cidadão brasileiro pode perambular por Santiago do Chile, Buenos Aires, Paris ou Nova York, mas está proibido de entrar naquele território equivalente a um Portugal que foi entregue a dez mil ianomâmis. E ninguém sabe se são dez mil. No último censo, foi impossível recenseá-los, por uma simples razão: eles não queriam ser contados. Ou seja, o poder federal já não pode ser exercido naquela área. Numa época em que as fronteiras externas tendem a cair na Europa, no Brasil são criadas fronteiras internas.

A revista Time deu com precisão espantosa o número de indígenas que existiam no Brasil no ano de 1500, quando aqui chegou Cabral: cinco milhões. Os portugueses deveriam ter um serviço de recenseamento de uma eficácia fantástica, pois cinco séculos depois não se sabe se os ianomâmis são de fato dez mil. A intenção da cifra é óbvia: associar a descoberta ao holocausto judeu.

Prova de que já existe uma república autônoma ianomâmi, é que nem mesmo um diplomata canadense conseguiu lá entrar, mesmo portando um passaporte diplomático que lhe permite viajar não só pelo Brasil como pelo mundo todo. Se um funcionário daquele poderoso país - que dobrou o Congresso nacional fazendo nossos representantes aprovar uma lei para libertar dois seqüestradores canadenses condenados pelo Judiciário - não consegue entrar naquela nova nação, que esperança pode ter de por lá viajar um mero cidadão brasileiro, que sequer tem a garantia de punição de terroristas internacionais que seqüestram seus conterrâneos ou de índios que massacram operários? Enquanto nossos militares começam a preocupar-se pela integridade nacional, há mais de século Eça de Queiroz já escrevera seu epitáfio.

As noções de distância de uma pessoa, pelo menos antes da era informática, correspondiam ao território em que habitava. Para um brasileiro, ir de Lisboa a Estocolmo não constitui exatamente uma longa viagem, afinal é como dar um pulo de Porto Alegre a Manaus. O mesmo não passa pela cabeça de um nicaragüense, por exemplo, ao qual parecerá uma aventura ir de Paris a Amsterdã. Esta amplitude mental geográfica, os brasileiros já podem começar a deixá-la de lado. Aquele mapa que a escola nos fixa na mente não mais existe.

Nestes dias de ex-URSS, ex-Iugoslávia, ex-Tchecoslováquia, o ex-Brasil é apenas uma questão de tempo. O país já está separado. Só nos resta optar por uma fórmula para dar andamento ao processo: vamos nos separar à la tchecoslovaca ou tentar o método iugoslavo?

Sexta-feira, Dezembro 12, 2008
 
RUMO AO EX-BRASIL (I)


Em 1890, em Cartas Inéditas de Fradique Mendes, Eça de Queiroz escrevia:

"Com o império, segundo todas as probabilidades, acaba também o Brasil.

"Este nome de Brasil, que começava a ter grandeza, e para nós portugueses representava um tão glorioso esforço, passa a ser um antigo nome da velha Geografia Política. Daqui a pouco, o que foi o Império, estará fraccionado em Repúblicas independentes, de maior ou menor importância. Impelem a este resultado a divisão histórica das províncias, as rivalidades que entre elas existem, a diversidade do clima, do caracter e dos interesses, e a força das ambições locais. Já mais de uma vez as províncias têm feito enérgicas tentativas de separação: e o separatismo tornara-se, nestes derradeiros tempos, um dos mais poderosos factores da Política.

"O Brasil, além disso, não está forçado a conservar-se unido pelo receio de ataques ou represálias duma metrópole forte, de que acabasse de se emancipar, nem tem possibilidades algumas de aspirar, como os Estados Unidos, a uma supremacia política ou econômica de que a unidade seria a inevitável condição. Nenhuma das razões que impuseram a união aos Americanos do Norte, se dão no Brasil. Por outro lado, há absoluta impossibilidade que de que S. Paulo, a Baía, o Pará, queiram ficar sob a autoridade do general fulano ou do bacharel sicrano, Presidente, com uma corte presidencial no Rio de Janeiro. Para que isso se realizasse, mesmo por alguns meses, seria necessário que surgisse um homem (que não há) de popularidade universal, incontestada e irresistível em todo o Império, como a de um Washington. Os Deodoros da Fonseca vão-se reproduzir por todas as províncias. Já decerto em Mato Grosso há um Deodoro que afivela a espada. Ora, a condição de popularidade, para estes ambiciosos, será proclamar o exclusivismo dos interesses provinciais; e já disto mostra sintomas o presidente do Pará, querendo fechar a navegação do Amazonas.

"Os Estados, uma vez separados, não poderão manter paz entre si, sendo abundantes os motivos de conflitos - as delimitações de fronteiras, as questões hidrográficas e as alfândegas com que todos, naturalmente, se hão-de querer criar rendimentos. Cada Estado, abandonado a si, desenvolverá uma história própria, sob uma bandeira própria, segundo o seu clima, a especialidade da sua zona agrícola, os seus interesses, os seus homens, a sua educação e a sua imigração. Uns prosperarão, outros deperecerão. Haverá talvez Chiles ricos e haverá certamente Nicaráguas grotescos. A América do Sul ficará toda coberta com os cacos dum grande Império!"

 
JUÍZES DO STF SE DOBRAM A DIRETRIZES
DO CHRISTIAN CHURCH WORLD COUNCIL



Genebra, julho de 1981
Exposição 03/81

DIRETRIZES BRASIL Nº 4 - Ano "0"

Para: Organizações Sociais Missionárias no Brasil

1 - Como resultado dos congressos realizados neste ano e no ano passado, englobando 12 organismos científicos dedicados ao estudo das populações minoritárias no mundo, emitimos estas diretrizes, por delegação de poderes, com total unanimidade de votos menos um dos presentes no "1º Simposium Mundial sobre Divergências Interétnicas na América do Sul".
2 - São líderes deste movimento: a) Le Comité International de la Défense de l'Amazonie; b) Inter-American Indian Institute; c) The International Ethnical Survival; d) The International Cultural Survival; e) Workgroup for Indigenous Affairs; f) The Berna-Geneve Ethnical Institute e este Conselho Coordenador.
3 - Foram contemplados com diretrizes específicas os seguintes países: Venezuela nº 1; Colômbia nº 2; Peru nº 3; Brasil nº 4, cabendo a Diretriz nº 5 aos demais países da América do Sul.

DIRETRIZES

A - A Amazônia Total, cuja maior área fica no Brasil, mas compreendendo também parte dos territórios venezuelano, colombiano e peruano, é considerada por nós como um patrimônio da humanidade. A posse dessa imensa área pelos países mencionados é meramente circunstancial, não só por decisão de todos os organismos presentes ao Simpósio como também por decisão filosófica dos mais de mil membros que compõem os diversos Conselhos de Defesa dos Índios e do Meio Ambiente.

B - É nosso dever defender, prevenir, impedir, lutar, insistir, convencer, enfim, esgotar todos os recursos que, devida ou indevidamente, possam redundar na defesa, na segurança, na preservação desse imenso território e dos seres humanos que o habitam e que são patrimônio da humanidade e não patrimônio dos países cujos territórios, pretensamente, dizem lhes pertencer.

C - É nosso dever impedir em qualquer caso a agressão contra toda a área amazônica, quando essa se caracterizar pela construção de estradas, campos de pouso, principalmente quando destinados a atividades de garimpo, barragens de qualquer tipo ou tamanho, obras de fronteira, civis ou militares, tais como quartéis, estradas, limpeza de faixas, campos de pouso militares e outros que signifiquem a tentativa de modificações ou do que a civilização chama de progresso.

D - É nosso dever: manter a floresta amazônica e os seres que nela vivem, como os índios, os animais silvestres e os elementos ecológicos, no estado em que a natureza os deixou antes da chegada dos europeus. Para tanto, é nosso dever evitar a formação de pastagens, fazendas, plantações e culturas de qualquer tipo que possam ser consideradas como agressão ao meio.

E - É nosso principal dever preservar a unidade das várias nações indígenas que vivem no território amazônico, provavelmente há milênios. É nosso dever evitar o fracionamento do território dessas nações, principalmente por meio de obras de qualquer natureza, tais como estradas públicas ou privadas, ou ainda alargamento, por limpeza ou desmatamento, de faixas de fronteira, construção de campos de pouso em seus territórios. É nosso dever considerar como meio natural de locomoção em tais áreas apenas os cursos de água em geral, desde que navegáveis. É nosso dever permitir apenas o tráfego com animais de carga, por trilhas na floresta, de preferência as formadas pelos silvícolas.

F - É nosso dever definir, marcar, medir, unir, expandir, consolidar, independentizar por restrição de soberania, as áreas ocupadas pelos indígenas, considerando as suas nações, dando-lhes forma jurídica definida. A forma jurídica a ser dada a tais nações incluirá a propriedade da terra, que deverá compreender o solo, o subsolo e tudo que neles existir, tanto em forma de recursos naturais renováveis como não-renováveis. É nosso dever preservar e evitar, em caráter de urgência, até que as novas nações estejam estruturadas, qualquer ação de mineração, garimpagem, construção de de estradas, formação de vilas, fazendas, plantações de qualquer natureza, enfim, qualquer ação dos governos das nações compreendidas no item 3 desta.

G - É nosso dever: a pesquisa, a identificação e a formação de líderes que se unam à nossa causa, que é a sua causa. É nosso dever principal transformar tais líderes em líderes nacionais dessas nações. É nosso dever identificar personalidades poderosas, aptas a defender os seus direitos a qualquer preço e que possam ao mesmo tempo liderar os seus comandos, sem restrições.

H - É nosso dever exercer forte pressão junto às autoridades locais desse país, para que não só respeitem o nosso objetivo, mas o compreendam, apoiando-nos em todas as nossas diretrizes. É nosso dever conseguir o mais rápido possível emendas constitucionais no Brasil, Venezuela e Colômbia, para que os objetivos destas diretrizes sejam garantidas por preceitos constitucionais.

I - É nosso dever garantir a preservação do território da Amazônia e de seus habitantes aborígenes, para o seu desfrute pelas grandes civilizações européias, cujas áreas naturais estejam reduzidas a um limite crítico. Para que as diretrizes aqui estabelecidas sejam concretizadas e cumpridas, com base no acordo geral de julho passado, é preciso ter sempre em mente o seguinte:

a) Angariar o maior número possível de simpatizantes, principalmente entre pessoas ilustres, como é o caso de Gilberto Freire no Brasil, bem como principalmente entre políticos, sociólogos, antropólogos, geólogos, autoridades governamentais, indigenistas e outros de importante influência, como é o caso de jornalistas e seus veículos de imprensa. Cada simpatizante deve ser instruído para que consiga mais 10, esses 10 e cada um deles mais 10 e assim sucessivamente, até formarmos um corpo de simpatizantes de grande valor.

b) Maximizar, na medida do possível, a carga de informações, aperfeiçoar o Centro Ecumênico de Documentação e, a partir dele, alimentar os países e seus veículos de divulgação com toda sorte de informações.

c) Enfatizar o lado humano, sensível das comunicações, permitindo que o objetivo básico permaneça embutido no bojo da comunicação, evitando discussões em torno do tema. No caso dos países abrangidos por estas diretrizes, é preciso levar em consideração a pouca cultura de seus povos, a pouca perspicácia de seus políticos ávidos por votos que a Igreja prometerá em abundância.

d) Criticar todos os atos governamentais e de autoridades em geral, de tal modo que nosso ideal continue presente em todos os veículos de comunicação dos países amazônicos, principalmente no Brasil, sempre que ocorra uma agressão à Amazônia e às suas populações indígenas.

e) Educar e ensinar a ler os povos indígenas, em suas línguas maternas, incutindo-lhes coragem, determinação, audácia, valentia e até um pouco de espírito agressivo, para que aprendam a defender os seus direitos. É preciso levar em consideração que os indígenas desses países são apáticos, subnutridos e preguiçosos. É preciso que eles vejam o homem branco como um inimigo permanente, não somente dele, índio, mas também do sistema ecológico da Amazônia. É preciso despertar algum orgulho que o índio tenha dentro de si. É preciso que o índio veja e tenha consciência de que o missionário é a única salvação.

f) É preciso infiltrar missionários e contratados, inclusive não-religiosos, em todas as nações indígenas. Aplicar o Plano de Base das Missões, que se coaduna com a presente Diretriz e, dentro do mesmo, a posição de nossos homens em todos os setores da atividade pública, é muito importante para viabilizar estas diretrizes.

g) É preciso reunir as associações de antropologia, sociologia e outras em torno do problema, de tal maneira que sempre que necessitemos de assessoria, tenhamos essas associações ao nosso lado.

h) É preciso insistir no conceito de etnia, para que desse modo seja despertado o instinto natural de segregação, do orgulho de pertencer a uma nobreza étnica, da consciência de ser melhor que o homem branco.

i) É preciso confeccionar mapas para delimitar as nações dos indígenas, sempre maximizando as áreas, sempre pedindo três ou quatro vezes mais, sempre reivindicando a devolução da terra do índio, pois tudo pertencia a ele. Dentro dos territórios dos índios deverão permanecer todos os recursos que provoquem o desmatamento, buracos, a presença de máquinas pertencentes ao homem branco. Dentre esses recursos, os mais importantes são riquezas minerais que devem ser consideradas como reservas estratégicas das nações, a serem exploradas oportunamente.

j) É preciso lutar com todas as forças pelo retorno da Justiça. O que pertenceu ao índio deve ser devolvido ao índio, para que o esbulho seja compensado com pesadas indenizações. Uma estrada desativada já ocasionou prejuízos com desmatamento e morte de animais. Uma mina já causou prejuízos com buracos e poluição, porém o prejuízo maior foi com o mineral que foi furtado do índio. Os índios não devem aceitar construções civis feitas pelo homem branco: eles devem preservar a sua cultura, tradição e seus costumes a qualquer preço.

k) É preciso defender os índios dos órgãos públicos ou privados, criados para defendê-los ou administrar as suas vidas. Tais órgãos, tanto os existentes no Brasil - Serviço de Proteção ao Índio - como em outros países, não defendem os interesses dos índios.

i) É preciso manter as autoridades em geral sobre pressão crítica, para finalmente evitar que os seus atos, aparentemente simples, não se transformem em desgraça para os índios. Nunca se deve deixar de protestar contra qualquer ato que contrarie as diretrizes aqui compreendidas.

SUPORTE E EXPLICAÇÕES

I - As verbas para o início do cumprimento desta etapa já se acham depositadas, cabendo a distribuição ao Conselho de Curadores definir e avaliar a distribuição. Da verba SA 4-81, 60% serão destinadas ao Brasil, 25% à Venezuela e 15% à Colômbia. Ficarão sem verbas até 1988 o Peru e os demais países da América do Sul.

II - Os contratados serão de inteira responsabilidade dos organismos encarregados da operação.

III - Os relatórios serão enviados mensalmente e o sistema de arquivo não deverá ser liberado para o normativo do arquivo ecumênico, pelo fato de existirem etapas que não integram o convênio com a Igreja Católica desses países.

IV - É vedado e proibido aos Conselhos regionais instalados em tais países dirigir-se diretamente aos nossos provedores, para fim de requisição de verbas, sob qualquer pretexto que seja. Todas as doações serão centralizadas em Berna.

V - Será permitido estipular pequenas verbas, distintas da verba principal, para fins de dar suporte a operações paralelas, não compreendidas nestas diretrizes. As quantias representativas dessas pequenas verbas devem ser devidamente especificadas, tanto quanto à sua origem como em relação à sua destinação.

VI - No que concerne à transmissão e tramitação de documentos e informações, são válidas de modo geral as seguintes instruções: para verbas, o Gen. 79-3; para assuntos políticos, o Gen. 80-12; para assuntos de sigilo máximo, o Gen. 79-7 em toda sua gama e em todos os seus aspectos, sem exceção. O expediente do acordo sobre a presente diretriz deverá chegar aqui ao mais tardar dentro de 30 dias da data do recebimento desta e estará sujeito à Norma Gen. 79-7.

VII - O endereço continuará sendo mantido sob a senha "GOTLIEB", principalmente por causa dos colombianos.

É o que foi decidido. (ass. ileg.) - H. V. Hobberg (ass. ileg.) - S.B. Samuelson

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NADA MAIS constava do documento acima, que devolvo junto com esta tradução, que conferi, achei conforme e assino. DOU FÉ.

São Paulo, 22 de julho de 1987
Walter H. R. Frank
Tradutor Público

Quinta-feira, Dezembro 11, 2008
 
RECÓRTER TUCANOPAPISTA TECE
LOAS A ESCRITOR STALINISTA (II)



Para o escritor alagoano, Stalin é o “estadista que passou a vida a trabalhar para o povo, nunca o enganou. Não poderia enganá-lo. Esforçou-se por vencer o explorador, viu-o morto - e seria idiota supor que, alcançada a vitória, desejasse a ressurreição dele. É, desde a juventude, um defensor da classe trabalhadora. Esta expressão, razoável há trinta e cinco anos, tornou-se desarrazoada, pois aqui já não existem classes”.

Graciliano está há poucos dias em Moscou, não fala o russo, tem roteiros rígidos de passeios e visitas, e já afirma peremptoriamente que não mais existe na Rússia uma sociedade de classes. Vista de nossos dias, sua afirmação é de uma ingenuidade atroz. Independentemente desta distância crítica, nada permite a um homem que pensa, fazer tais ilações generalizantes a partir de tão parca experiência do povo soviético. Sem falar que Graciliano nada entendia da línguas russa.

O seco criador de Paulo Honório, inimigo de adjetivações supérfluas, passa a cultivar os adjetivos:

“Não admitimos nenhum culto a pessoas vivas, perfeitamente: a carne é falível, corruptível, inadequada à fabricação de estátuas. Mas não se trata de nenhum culto, suponho: esse tremendo condutor de povos não está imóvel, de nenhum modo se resigna à condição de estátua. Homens embotados, afeitos à corrupção e à fraude, percebemos isto: a massa tem confiança absoluta nele e manifesta a confiança impondo-lhe a obrigação de admitir as ruidosas aclamações e os retratos. (...) Agradecimentos e louvores palpitam na alma da multidão, e recusá-los seria uma ofensa, um erro que nenhum político bisonho cometeria”.

Stalin, modesto dirigente, é coagido a aceitar a religiosa adoração das massas agradecidas. E Graciliano, que sequer pode olhar para Stalin com binóculos, chega à conclusão que “este tremendo condutor de povos” não é o monstro que o Ocidente imagina: “Deixavam-me passar. E deixavam-me subir a escadaria, galgar as insignificantes barreiras de meio metro, avizinhar-me do homem que a burguesia odeia com razão. Stalin não vive numa toca, defendida por metralhadoras e canhões”.

Ao visitar o Kremlin, o espírito de Graciliano é tomado por sensações místicas (os itálicos são meus):

“...pisamos o núcleo de Moscou, a cidadela venerável exposta de longe ao mundo com júbilo ou furor, conforme as circunstâncias. Sim senhores. Estamos dentro dela - e as pedras santas das muralhas não caíram em cima de nós para esmagar-nos, estorvar a profanação”.
“É verdade: miseráveis sapatos americanos, brasileiros, pezunham na terra sagrada por diversas razões. Estamos no Kremlin”.

Ante a guia que lhe narra a história do castelo, Graciliano sente-se “aluno chinfrim, seguro o lápis e o caderno, abro os olhos e os ouvidos, quero aprender”.
“Andamos noutros refúgios de religião, transformados em museus, vemos riquezas semelhantes às do primeiro, ouvimos datas, noções peregrinas, toda uma santa arqueologia que a revolução guardou com zelo piedoso”.
Sala de São Jorge: “o Deus dele não podia equiparar-se ao Deus existente na Catedral de S. Basílio, fora do Kremlin”.

Iríamos muito longe se enumerássemos as evocações religiosas suscitadas em Graciliano por sua visita ao Kremlin. Passemos então à visita do escritor ao berço em que nasceu o novo Deus, a cidade de Gori: “o monumento a que nos referimos é apenas uma casa miúda, de tijolos nus, sem reboco”.

Nos dois quartos que perfazem apenas dois metros, morava o velho Djugatchivili, sapateiro. Joseph nasce em 1879 e destinava-se à profissão religiosa, já que o ofício de sapateiro rendia pouco. Troque-se o sapateiro por marceneiro, a cabana por manjedoura, coloque-se uma nova no firmamento, adicione-se mais três magos, e essa história já conhecemos. Olhando o ambiente, inconscientemente, o Velho Graça - como era chamado por seus amigos - chega a trair-se: “Onde estava a cama do menino?”

Perseguir em Viagem este preito stalinista até o fim, tornar-se-ia monótono. Passemos a uma consideração final do autor:

“Meses depois, no meu país, homens sagazes e verbosos censurar-me-iam a ignorância a respeito da União Soviética. Tinham-me os guias exibido coisas necessárias à propaganda e eu, ingênuo, acreditara nelas. Indispensável aceitar verdades ocultas abaixo das aparências brilhantes. E, sem nunca ter ido à URSS, explicar-me-iam, generosos, horrores medonhos, trabalhos forçados, enxovias horríveis, fuzilamentos diários. Seria preciso admitir que as moças do Teatro Paliachivili e a menina do Instituto Marx-Engels estavam nesses lugares para enganar-me. Os transeuntes eram impostores, a serviço da polícia. As fábricas, as escolas, os palácios de pioneiros, tudo logro. Venenos do socialismo”.

Por ironia, esta irônica hipótese de Graciliano é a que acaba se configurando como a realidade da época stalinista. No XX Congresso, três anos após a morte do escritor e de seu deus, Kruschev abre as cortinas do grande teatro e revela a face do mais operoso assassino do século. Como pode Graciliano ter-se deixado embarcar em tal canoa? Wilson Martins, ao analisar suas contradições, em O Modernismo, parece tê-lo entendido:

“Uma análise pormenorizada dessas contradições não poderia ignorar um tema que, por enquanto, deixo de lado: esse individualista e esse clássico tornou-se militante do Partido Comunista, no qual via, bem entendido, apenas os aspectos idealísticos e programáticos. O seu livro de turismo à União Soviética é, nesse particular, extremamente revelador: não me parece temerário supor que a realidade comunista, uma vez instalada no Brasil, causar-lhe-ia a mesma repugnância que a realidade republicana (no sentido radicalista da palavra). Viagem é, do começo ao fim, um livro de evasão: não de evasão do Brasil, mas de evasão da própria viagem que o escritor realizava. Não será preciso grande acuidade psicológica para perceber que Graciliano Ramos esforça-se subconscientemente, não apenas para aceitar o que lhe contam e o que lhe mostram, mas para sufocar qualquer veleidade de espírito crítico ou de curiosidade inoportuna. Tocando a Terra Prometida, ele eliminou, por um processo muito simples de sublimação psicológica, qualquer contato com o mundo imediato e com ele próprio: Graciliano Ramos não via a URSS da geografia, da política ou da sociologia, viu a URSS tal como ela se configura no mito mental que os comunistas do mundo inteiro e nomeadamente os do Brasil elaboraram pouco a pouco em anos e anos de diáspora imaginária”.

Não é difícil entender este movimento psicológico. Imaginemos um escritor de talento, isolado em um obscuro rincão de qualquer país, em nosso caso, o Brasil. Seu talento não é reconhecido em nível merecido e sua recompensa é o cárcere. Um belo dia, é convidado pelos dirigentes de uma prestigiosa revolução a visitar o paraíso terrestre. Neste éden ignoto, onde é recebido com tapetes vermelhos, mal chega já lhe perguntam quais de seus livros devem ser traduzidos na sociedade ideal. A qual escritor não comoveria tal convite?

Em Viagem, vemos quão amargas são as marcas deixadas pelo Brasil em Graciliano. De que jeito vivem em sua terra? - pergunta-lhe uma advogada. O alagoano não se furta a explicar:

“Caí num monólogo triste, falando interiormente às deliciosas vizinhas erguidas no fim da platéia. Isso mesmo. Entalam-nos o crânio, somos coagidos a não pensar direito: as nossas idéias se esfarelam, espalham-se em torno de pequenas misérias. E nem só os pensamentos se reduzem. Os corpos também se aniquilam, nas prisões e fora delas. Uma prensa invisível nos comprime. O ar em nossa terra é denso, pesado; às vezes necessitamos esforço para respirar. E até isso nos roubam, estragando-nos os pulmões: ao sair da cadeia, estamos tuberculosos. Como vivemos? Propriamente não vivemos: aquilo não é vida. Quando entramos na Colônia Correcional, dizem-nos - “Não vêm corrigir-se. Vêm morrer. E ninguém tem direitos. Nenhum direito”. Espanta-nos a franqueza. Numa existência de animais, ficamos semanas em jejum completo. Descerram-se enfim as grades, vemos o Sol. Não realizaram, pois a ameaça? Não nos mataram? Em parte, realizaram: estamos na verdade quase mortos. Ganhamos cabelos brancos e rugas. Assim tão fracos, tão velhos, não conseguiremos trabalhar. Arrasaram-nos”.

Segunda ironia na viagem do Velho Graça: tentando descrever o Brasil a partir de sua experiência pessoal, na verdade descreve a sociedade dos gulags, da qual é hóspede privilegiado. Tão intensa é sua vontade de crer, que vê como grande avanço do socialismo a aniquilação das diferenças individuais. Em Moscou, pergunta à sua guia se uma transeunte próxima seria empregada em oficina ou repartição pública. A senhora Nikolskaya, moscovita, não consegue satisfazer-lhe a curiosidade: “É impossível saber. Não achamos distinção”. O viajante cede então ao utópico sonho de Lênin, o da sociedade em que o pedreiro seria também engenheiro:

“Um ofício não é superior a outro - e os homens tendem a uniformizar-se. Essa idéia choca o nosso individualismo pequeno-burguês: achamos vantagens nas discrepâncias, receamos tornar-nos rebanho. E nem vemos que somos um rebanho heterogêneo, medíocre, dócil ao proprietário. Queremos guardar o privilégio imbecil de não nos assemelhar-nos ao vizinho. Enfraquecendo-nos, julgamo-nos fortes. Realmente, somos bestas”.

O gesto é de contrição. O supostamente lúcido escritor alagoano curvou-se com gosto ao stalinismo. Ironia dos tempos: hoje é louvado pelo crítico raivoso de comunistas e stalinistas. Vai ver que Reinaldo Azevedo jamais se deu ao trabalho de ler Viagem.

Ou então está servindo a dois senhores.

Quarta-feira, Dezembro 10, 2008
 
MADONNA, O VIDRO E O VENTO


Há pessoas ilustradas – e não são poucas – segundo as quais os Beatles transformaram culturalmente o mundo. Que estes senhores ilustrados me desculpem: não notei. Sou contemporâneo destes rapazes e não vi transformação alguma promovida por eles. Um amigo me interpela:

- E “Imagine”? Não revolucionou a cultura? Conheces “Imagine”?

Conhecia. Aos leitores para quem os Beatles são inofensivos fantasmas do passado, reproduzo a letra. Em português.

Imagine que não exista nenhum paraíso,
É fácil se você tentar.
Nenhum inferno abaixo de nós,
Sobre nós apenas o firmamento.
Imagine todas as pessoas
Vivendo pelo hoje...

Imagine que não exista nenhum país,
Não é difícil de fazer.
Nada porque matar ou porque morrer,
Nenhuma religião também.
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz...

Imagine nenhuma propriedade,
Eu me pergunto se você consegue.
Nenhuma necessidade de ganância ou fome,
Uma fraternidade de homens.
Imagine todas as pessoas
Compartilhando o mundo todo.

Você talvez diga que sou um sonhador,
Mas eu não o único.
Eu espero que algum dia você junte-se a nós,
E o mundo viverá como um único.


Ora, é muita ingenuidade imaginar que uma letra utópica e infantil, com leves laivos de ateísmo e anarquismo, possa transformar o mundo. O que transforma o mundo é o pensamento, a filosofia, a tecnologia, as revoluções. Se me afirmarem que a descoberta de algo hoje tão corriqueiro como o vidro transformou o mundo, concordo plenamente. Não fosse o vidro, nossas casas seriam tugúrios fechados e sombrios, o pensamento seria prejudicado pela miopia de escritores e leitores e pouco ou nada conheceríamos do universo. Todas as descobertas espaciais de nossos dias dependem fundamentalmente dessa prosaica descoberta.

Segundo alguns historiadores, o vidro teria sido descoberto acidentalmente por mercadores fenícios, há mais de quatro mil anos. Quando atravessavam o deserto, utilizavam placas de nitrato de sódio sob as panelas durante o preparo dos alimentos. Começaram então a perceber no solo, a formação de um material desconhecido: o vidro. Já segundo outros historiadores, seriam navegadores fenícios os autores do achado. Ao acenderem fogueiras em praias onde havia as duas matérias-primas básicas (a areia e o calcário de conchas), observaram que após sofrerem a ação do calor, o solo abaixo da fogueira resultava em um líquido transparente: o vidro.

Que o vidro constitua uma revolução, não há sombra de dúvidas. Que uma cançoneta boba oriunda do universo do show business possa revolucionar o mundo, isto está fora de cogitação. A única revolução – se de revolução se pode chamar – que atribuo aos Beatles foi o incentivo público ao consumo das drogas. Os grandes cartéis, penhorados, agradecem. Essa juventude drogada de nossos dias, que vive entre a delinqüência e a morte, este sim é o grande legado daqueles meninos condecorados pela rainha da Inglaterra.

Platão, Aristóteles, Cristo, Maomé produziram profundas modificações na cultura. Alexandre ou Napoleão também. Sem entrar no mérito da questão, é óbvio que Hitler, Lênin, Stalin ou Mao provocaram grandes mutações na história e na geografia. Hitler terá sido o mais operoso deles. Em cerca de 15 anos de poder, mudou o mapa de um continente.

Mas não era de história que pretendia falar. E sim de uma frase proferida por Madonna em uma entrevista, agora há pouco, na televisão. Cito de memória: “Eu chacoalho as pessoas e provoco mudanças na cultura”. Talvez a frase não fosse bem esta, mas este era o sentido.

Que mudanças na cultura produz esta senhora? Seus shows são performances mais ou menos eróticas, mais para o gênero sadomasoquista do que para outras formas de erotismo. Ora, a pornografia vai bem mais longe. A moça alimenta-se também de coreografias heréticas que, ao provocar a ira de religiosos, só lhe rendem mais dólares. Para começar, seu nome artístico já é uma blasfêmia. É uma maneira boba de criticar as religiões. Religião se critica com pensamento, com tecnologia, não com provocações eróticas. Muito menos com as cançonetas bobas da banda inglesa. A descoberta da pílula, por exemplo, foi muito mais eficaz que cem mil discursos contra o obscurantismo.

Ao que tudo indica, o sucesso subiu-lhe à cabeça. Como nunca falta jornalista venal – ou talvez babaca, o que é mais provável – para afirmar que Madonna provoca transformações culturais, a moça acabou acreditando que provoca transformações culturais. Um dos atouts de Maddona é sua juventude e seu corpo. Mas a juventude morre e o corpo fenece. Mais dez ou vinte anos e Madonna será figura de museu de cera, merencória lembrança de uma época fútil.

De seu pensamento – mas que pensamento? – não restará nada. Talvez reste sua interpretação de Evita Perón, no musical Evita, que, tenho de admitir, é soberba.

E o resto é vento.

 
ANTROPÓLOGA LUSA INSISTE EM
PRESERVAR BARBÁRIE EM JAULAS
EM TERRITÓRIOS BRASILEIROS




O Supremo Tribunal Federal (STF) retoma hoje a discussão sobre a demarcação em faixa contínua da reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, tal como pensada pelo governo Fernando Henrique Cardoso e homologada por Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo o Estadão, em reportagem de Ivan Marsiglia, “a demarcação em ilhas, que permitiria a fixação do homem branco no local, interessa a um grupo de seis grandes rizicultores - ou "arrozeiros" - que ocuparam nos últimos anos parte do território pertencente à União. Ao lado deles, está a bancada de Roraima no Congresso, para quem os índios têm terra demais e inviabilizam economicamente o Estado”.

Marsiglia mente. A demarcação em ilhas não interessa apenas a um grupo de seis rizicultores. Interessa também a milhares de indígenas, que não querem renunciar às vantagens da proximidade com o branco, tais como emprego, medicina, farmácias, escolas, comércio. Quem quer isolar os indígenas dos brancos são brancos com interesses inconfessáveis, que dirigem entidades como o Conselho Indígena de Roraima (CIR) - financiado por fundações americanas e européias - e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que trabalha junto aos assim chamados povos da floresta.

Para fundamentar sua mentira, o repórter do Estadão entrevista a antropóloga portuguesa Manuela Carneiro da Cunha que, do alto de sua cátedra na Universidade de Chicago, deita falação sobre questões que deveriam dizer respeito apenas às autoridades brasileiras. Para a antropóloga, "demarcar em ilhas tem duas conseqüências: a destruição de uma etnia ou a perpetuação de um conflito".

A lusa mente. Contato com branco não destrói etnia alguma. Se assim fosse, há muito não existiriam as etnias africanas que hoje vivem no país. E conflito não há. Conflito existirá daqui para a frente, conforme for a decisão do STF. Nenhum homem gosta de ser expulso de suas terras. Se os brancos, que trabalham e produzem, forem expulsos de um território que será entregue a bugres que não trabalham nem produzem, aí sim se estabelecerá o conflito. O que os antropólogos querem, na verdade, é manter os índios em jaulas atemporais, em estado de selvageria, para contemplação dos turistas do futuro. O que querem estes senhores é negar o acesso dos índios às benesses do mundo contemporâneo.

Mas o cerne do problema não é a preservação do índio e suas tradições. Nas últimas discussões sobre a questão no Brasil, geralmente omite-se um item, nada menos que o essencial: os protochanceleres da suposta "nação" ianomâmi, por exemplo - já irremediavelmente demarcada - reivindicaram para seus protegidos um território de subsolo riquíssimo em ouro, diamantes, nióbio e cassiterita. Um naco do país, eqüivalente a três Bélgicas, foi entregue a dez mil índios. Nenhuma ONG se preocuparia tão enfaticamente com as culturas dos miskitos na Nicarágua ou dos ashaninkas no Peru.

Manuela evoca, como exemplos antagônicos, a demarcação contínua do Parque Nacional do Xingu - "uma ilha de floresta dentro de um oceano de soja" - e a descontínua, oferecida aos xavantes, do Alto Rio Negro, e aos guaranis-caiouás, de Mato Grosso do Sul: que resultou em degradação, mortalidade infantil e suicídios entre os índios. Ora, há um alto indíce de suicídios entre policiais militares no Brasil, que só tende a aumentar. As informações constam de uma tese desenvolvida por um psicólogo da Polícia Militar de São Paulo, intitulada Uma cultura suicida, e divulgada pela revista Isto É(19/11/1994). A constatação é de que o número de suicídios naquela corporação havia aumentado 50% em 1994 e que era crescente desde 1979, tendo sido considerado excessivo em 1989, com 19 mortes, e alcançado seu pico em 1992, com 35 mortes. Não nos consta que estes policiais tenham sido expulsos de suas reservas de demarcação contínua. Por outro lado, suicídio de branco não interessa a antropólogo algum.

Para Manuela, “as terras e as sociedades indígenas são preciosas para o mundo por serem modelos de uso, de sociabilidade e de visões de mundo diferentes. São um reservatório de soluções, de outras formas humanas de se viver”.

São formas humanas muito interessantes de se viver. O antropólogo Napoleon Changnon, que estuda o problema há 40 anos e viveu 60 meses em aldeias ianomâmis na Venezuela, nos relata estas formas humanas de se viver em seu livro Yanomamö, a Fierce People. Neste ensaio, onde estuda grupos ianomâmis na Venezuela, Chagnon descreve um povo primitivo que faz a guerra para obter as mulheres do inimigo morto. Seu estudo em nada fecha com as imagens idílicas da fotógrafa Claudia Andujar. Falando de sua experiência junto ao grupo do ianomâmi Kaobawa, diz o antropólogo:

"Entre os mais significativos resultados de minha análise estão os seguintes fatos, que demonstram a natureza e a extensão da violência entre o povo de Kaobawa dentro de uma perspectiva regional:
"1. Aproximadamente 40% dos machos adultos participaram do assassinato de outro ianomâmi. A maioria destes (60%) matou só uma pessoa, mas alguns homens foram muitas vezes guerreiros bem-sucedidos e participaram do assassinato de mais de 16 outras pessoas.
"2. Aproximadamente 25% de todas as mortes entre machos adultos são devidas à violência.
"3. Aproximadamente dois terços das pessoas de 40 ou mais anos perdeu, devido à violência, pelo menos um dos seguintes tipos de parentes biologicamente próximos: pai, irmão ou filho. A maioria deles (57%) perdeu dois ou mais parentes próximos. Isto ajuda a explicar porque um grande número de indivíduos são motivados à vingança.

"A mais insólita e impressionante descoberta, que foi discutida e debatida na imprensa e nos jornais acadêmicos, é a relação entre o sucesso militar e o sucesso reprodutivo entre os ianomâmis. Unokais (homens que mataram) têm mais sucesso em obter esposas e, conseqüentemente, têm maior descendência que os homens de sua própria idade que não são unokais.

"A explicação mais plausível para esta relação parece ser que os unokais são socialmente recompensados e têm mais prestígio que os outros homens e, por estas razões, são geralmente mais aptos a obter esposas-extras através das quais têm número de filhos além da média".

Chagnon nos mostra um agrupamento de indivíduos no qual a violência física, o assassinato e mesmo o infanticídio fazem parte do cotidiano. A criança não desejada é morta após o parto. As mulheres são continuamente espancadas e mesmo cortadas com facões e machados e inclusive recebem flechadas em áreas não vitais, como as nádegas ou pernas. Isso quando não são assassinadas. O autor nos narra o diálogo entre duas mulheres, que discutem suas cicatrizes no couro cabeludo. Uma considera que o marido da outra deve gostar muito dela, já que a espanca tão freqüentemente.

Os ataques a aldeias vizinhas para matar um ou mais habitantes e raptar mulheres constituem práticas normais para os guerreiros. No decorrer do livro de Chagnon, temos um desfile de assassinatos e massacres de índios por índios, narrados ao autor com a naturalidade de quem faz uma crônica social da oca.

Manuela Carneiro da Cunha foi defensora incondicional da demarcação da reserva ianomâmi. Estas são as formas humanas de se viver que a lusa quer preservar. Enquanto a humanidade ruma a níveis superiores de vida, conforto e convivência, que os bugres “sifu”, conforme a fina prosódia de nosso presidente.

Terça-feira, Dezembro 09, 2008
 
MI TAPERA

Elías Regules *


Entre los pastos tirada
como una prenda perdida
y en el silencio escondida
como caricia robada,
completamente rodeada
por el cardo y la flechilla
que como larga golilla
van bajando a la ladera
está una triste tapera
descansando en la cuchilla.

Alli, en ese suelo fué
donde mi rancho se alzaba,
donde contento jugaba,
donde a vivir empecé,
donde cantando ensillé
mil veces al pingo mio,
en esas horas de frío
en que la mañana llora,
cuando se moja la aurora
con el vapor del rocío.

Donde mi vida pasaba
entre goces verdaderos,
donde en los años primeros
satisfecho retozaba,
donde el ombú conversaba
con la calandria cantora,
donde noche sedutora
cuidó el sueño de mi cuna,
con un beso de la luna
sobre el techo de totora.

Donde resurgen valientes,
mezcladas con los terrones,
las rosadas ilusiones
de mis horas inocentes,
donde delirios sonrientes
brotar a millares ví,
donde palpitar sentí,
llenas de afecto profundo,
cosas chicas para el mundo
pero grandes para mí.

Donde el aire perfumado
está de risas escrito,
y donde en cada pastito
hay un recuerdo clavado:
tapera que mi pasado
con colores de amapola
entusiasmada enarbola,
y que siempre que la miro
dejo sobre ella un suspiro
para que no esté tan sola.


*(1861, Sarandí del Yí - 1929, Montevidéu). Médico, docente, poeta e político uruguaio. Além de Mi Tapera (1894), publicou ainda Pasto de cuchilla (1904), Renglones sobre postales (1908), Veinte centésimos de versos (1911), Mi pago (1924) e Versitos criollos (1924).

 
NO PERAU DO TIO ÂNGELO (VIII)


Tempos rudes, aqueles, tempos que não voltam mais. Meu clã andava sempre armado e muitos tinham um mosquete Mauser de seis tiros e uma Winchester 44 (pente de 12 balas, mais uma no cano), geralmente enroladas em lençóis e escondidas nalgum baú. Minha parentada nasceu no início do século. Na Revolução de 23, estavam todos em idade de guerrear e não seria de duvidar que entre meus tios alguns tenham atado a gravata colorada no pescoço de algum chimango. Como isto é assunto que não se fala na frente de crianças, nunca fiquei sabendo se tive entre os meus algum degolador. Era muito comum, em meus dias de guri, encontrarmos centenas de cápsulas e mesmo balas de mosquetão nos barrancos do Ponche Verde.

Há uma expressão lá naqueles pagos, "não se gasta chumbo em chimango". Ora, chimango é um rapace. Mas quando se usava esta expressão, o significado era outro. Referia-se aos chimangos, partidários de Borges de Medeiros, por oposição aos maragatos, aliados de Assis Brasil. Para os chimangos, a gravata colorada.

E por que Ponche Verde? Era o poncho preferido da indiada. Confundia-se com o verde da pampa, com os alhos-bravos e flexilhas. Ou seja, servia como camuflagem. Tornava a guerrilha invisível. Canário, meu pai, tinha um. Certa vez lhe foi roubado numa viagem a Livramento. Moveu mundos e fundos, investigou junto à vizinhança, mobilizou a Polícia Rural Montada e finalmente o teve de volta. “Não é pelo valor” – dizia – “mas pelo desaforo”. Mas tampouco era pelo desaforo. Era como se lhe houvessem roubado a alma.

De tempos em tempos, a Moreirada azeitava as armas e íamos praticar “tiro ao blanco”, às vezes num umbu frente à Casa, às vezes mais adiante, no perau. A piazada também participava dos exercícios. Nesses dias, nós, criançolas, tínhamos direito a sair a caçar armados. E saímos, campo afora, com uma agradável sensação de adultez, a matar lebres, preás e perdizes... com armas de guerra. Olhando de hoje aqueles pagos, não tenho dúvida que vivia em um provisório acampamento de guerra, pronto a levantar-se em armas ao menor grito de um caudilho.

Entre homens sempre armados, qualquer palavra impensada é um risco de vida. Assim morreu Ivo, o que matara seu sogro na Linha Divisória. Numa manhã de domingo, chegou a um bolicho, creio que do lado do Brasil. O bolicheiro, que carneava uma vaca, pediu-lhe para dar uma mão. “Me ajudas a coreá esta vaca, Ivo?” Meu primo foi descuidado com a própria vida: “Se não for roubada, te ajudo”. Morreu ali mesmo, de um balaço. São perigosas, as palavras.

Meus avôs paternos, pelos mapas que tenho comigo, eram grandes proprietários. Morreram com a gripe espanhola, em 1918, deixando um rebanho enorme de crianças sem experiência alguma da vida. Metade da propriedade foi tomada pelos picapleitos do “povoado”. A outra metade, que permaneceu indivisa, foi aos poucos mermando e, daquele meu clã todo, hoje só devem resistir um ou dois nos campos. De um lado, os estancieiros vizinhos iam comprando os campos, de braça em braça, ora para expandir as plantações de trigo ou a criação de gado, ora para ter um corredor seguro de contrabando para a Banda Oriental.

De outro lado, todos sabiam que não havia futuro no campo. O futuro estava na cidade: saúde, educação, trabalho decente. Minha geração toda migrou. Os primeiros a abandonarem o campo foram o tio Favorino e a tia Enilda, pais da René, a prima que agora me evoca aqueles dias longínquos de um passado que não volta mais. E a quem dedico estas crônicas.

“Lembras de nossas cavalgadas no perau do tio Ângelo”? Esta singela pergunta me tocou fundo. O rancho do Favorino foi a primeira tapera da sucessão. Para quem não sabe o que é uma tapera, conto daqui a pouco.

Gente sem nenhum senso de produção, os Moreiras faziam uma pequena agricultura de mão-pra-boca, plantavam aveia, milho e feijão, cultivavam hortas e pomares e criavam algumas vacas, cavalos e ovelhas. As vacas, para o leite das crianças. Cavalos para transporte e trabalho. Quanto às ovelhas, sempre rendiam alguns trocados nas safras de lã, para comprar aquilo que só se encontrava no bolicho: açúcar, farinha, sal, cachaça, bolachas e rapaduras. (Mais ou menos uma vez por mês, um churrasco). Todo cliente tinha uma livreta, onde seu consumo era anotado para ser pago quando Deus permitisse. O caixeiro era um profissional respeitado. Bom de contas, sempre com um lápis atrás da orelha, era invejado por não ter de “pegar no pesado”.

Meu dia começava com a estrela d’alva, quando ia com meu pai para o galpão do tio Ângelo, onde tomávamos em torno ao fogo os primeiros mates do dia. Foi aquecido por este fogo de chão que ouvi as primeiras coplas de Fierro. O mulherio também já estava de pé, preparando o pão na cozinha. Minha missão era recolher os terneiros ao entardecer - para que não nos roubassem o leite das vacas - à mangueira de pedra, construída por escravos e comum às duas casas. Na madrugada, vendo ainda a boieira no horizonte, eu juntava as vacas. Aí vinha o melhor do dia: esperar sentado, na cerca de pedras, que o pai me estendesse um caneco com o primeiro apojo.

Depois, o café na cozinha. A cozinha é o centro social da casa. Sala é só para bailes ou para quando se tem visita, e isso se a visita for de cerimônia. Algum leitor mais antigo já deve ter ouvido a expressão: “bom como namoro de prima em cozinha”. Nossa, como é bom! Eu procurava sempre sentar-me ao lado de uma, no banco grande da cozinha. Bastava os rostos se aproximarem um palmo e um calor intenso – como se fosse do fogão – nos queimava a pele.

Começava então a parte dura do dia. Cortar árvores, rachar lenha, lides de galpão, trabalhar a lavoura. Nada de tratores. Trator era luxo de estancieiro. Era no rabo do arado mesmo. A colheita era manual. Uma das piores lembranças que tenho daqueles dias era o corte de aveia. Com uma foice, vai-se ceifando a aveia, acocorado, de uma ponta a outra da lavoura. Ao final de um eito, uma dor intensa nos quadris me fazia pedir água. Os adultos, devido ao exercício continuado, pareciam não sentir nada.

Volta ao rancho para o almoço, uma siesta curta ou larga conforme a estação. No inverno, a siesta era curta, frio é bom para trabalhar. No verão, mais longa, para fugir à canícula. À noitinha, volta à Casa para mais um chimarrão, sob a copa de um cinamomo “que já não mais tinha idade”. A Casa senhorial era sempre o centro escolhido de reunião. Tinha rádio. Depois da janta, rádio e mais chimarrão. E os causos de assombração, que tantos calafrios me provocavam naquelas noites enluaradas.

Segunda-feira, Dezembro 08, 2008
 
BUSH DESMENTE ASTRÓLOGO


Olavo de Carvalho é um homem privilegiado. Não é todos os dias que o presidente da maior potência internacional ergue sua voz para desmentir um astrólogo. Mais ainda, um astrólogo abaixo da linha do Equador. Que, em artigo eivado de extraordinária lucidez, escreveu em 2005:

O auto-engano coletivo que, partindo da grande mídia americana, penetra nos cérebros brasileiros como uma carga maciça de cocaína, chega ao ponto de abafar, com renitência obstinada e criminosa, os fatos mais essenciais da época, substituindo-os por frases-feitas que, depois de umas quantas repetições, se tornam dogmas da opinião pública e premissas incumbidas de sustentar com sua solidez inabalável as conclusões mais bobocas e mecânicas que um cérebro galináceo poderia produzir.

Exemplo de silogismo:
Premissa maior : Não havia armas de destruição em massa no Iraque.
Premissa menor: Bush disse que havia.
Conclusão : Logo, Bush mentiu para matar criancinhas e encher a Halliburton de dinheiro iraquiano.

Bem, quem disse que não havia armas de destruição em massa no Iraque? A côrte dos iluminados. Os relatórios militares dizem que foram encontrados até agora:
- 1,77 toneladas métricas de urânio enriquecido;
- 1.500 galões de agentes químicos usados em armas;
- 17 ogivas químicas com ciclosarina, um agente venenoso cinco vezes mais mortal que o gás sarin;
- Mil materiais radiativos em pó, prontos para dispersão sobre áreas populosas.
- Bombas com gás de mostarda e gás sarin.

Se essas coisas não são armas de destruição em massa, são o quê? Peças do estojo “O Pequeno Químico”?

Não há no Pentágono quem as ignore. Mas o Pentágono, na guerra de mídia, é nada. Só fiquei sabendo dessas descobertas porque as li no livro de Richard Miniter, Disinformation: 22 Media Myths That Undermine the War on Terror . Miniter, veterano jornalista investigativo, foi colunista do Wall Street Journal e do Washington Post. Escreveu também no New York Times, que hoje pode não gostar muito do que ele diz mas não pode tirá-lo da sua lista de best-sellers , onde ele está entrando pela terceira vez (as duas anteriores foram com Shadow War: The Untold Story of How Bush Is Winning the War on Terror e Losing Bin Laden: How Bill Clinton's Failures Unleashed Global Terror).


Os iluminados, Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 7 de novembro de 2005


Noticiário da semana passada:

Bush admite erro sobre armas nucleares no Iraque

O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, disse que o fato mais lamentável de seu governo foi a informação equivocada de que havia armas de destruição em massa no Iraque, que ele não estava preparado para uma guerra quando assumiu o poder.

Bush fez a afirmação ao ABC World News, em uma entrevista que será transmitida na segunda-feira. Ele deixa a Casa Branca no dia 20 de janeiro com índices de desaprovação próximos de um recorde, em parte pela impopular guerra no Iraque, que derrubou o líder Saddam Hussein depois de uma invasão liderada pelos EUA em março de 2003. Mais de 4,2 mil soldados morreram no Iraque.

"O fato mais lamentável de toda a presidência tem que ser a falha de inteligência no Iraque. Muitas pessoas colocaram suas reputações à prova e disseram que armas de destruição em massa eram um motivo para retirar Saddam Hussein", disse Bush.


Enfim, sempre resta a hipótese de que Bush esteja rotundamente enganado a respeito da admissão de seu erro. Vai ver que equivocou-se quando afirmou que lamentava estar equivocado. Confira no vibrante matutino do astrólogo, o Mídia Sem Máscara.

 
A BARBÁRIE FILMADA


Em setembro passado, eu escrevia:

"Ora, a prática do infanticídio – e mesmo o sepultamento com vida de crianças - já foi detectada em pelo menos 13 etnias no Brasil, como os ianomâmis, os tapirapés e os madihas. Só os ianomâmis, em 2004, mataram 98 crianças. Os kamaiurás matam entre 20 e 30 por ano. E tudo isto sob os olhares complacentes da Funai, que considera que os brancos não devem interferir nas culturas indígenas. Mesmo entre os sacerdotes católicos que vociferam contra o aborto, não encontramos um só que denuncie estes assassinatos. Muito menos supostos humanistas da organização Human Rights Watch (HRW)se escandalizem com tais práticas".

A denúncia não é minha, bem entendido. Há horas estes fatos vêm sendo divulgados na imprensa nacional. Divulgados discretamente, é verdade, e sem que as autoridades nacionais tomem qualquer providência. FUNAI, ONGs defensoras de indígenas e mesmo setores da Igreja Católica defendem a prática do infantícidio, em nome das tradições culturais dos bugres.

As primeiras denúncias desta e de outras violências dos ianomâmis foram feitas no livro Yanomamö: The Fierce People, (CBS College Publishing, New York, NY, 1983), do antropólogo americano Napoleon Chagnon. Em seu ensaio, Chagnon, que viveu 60 meses em aldeias ianomâmis na Venezuela, nos mostra um agrupamento de indivíduos no qual a violência física, o assassinato e mesmo o infanticídio fazem parte do cotidiano. A criança não desejada é morta após o parto. As mulheres são continuamente espancadas e mesmo cortadas com facões e machados e inclusive recebem flechadas em áreas não vitais, como as nádegas ou pernas. Isso quando não são assassinadas. O autor nos narra o diálogo entre duas mulheres, que discutem suas cicatrizes no couro cabeludo. Uma considera que o marido da outra deve gostar muito dela, já que a espanca tão freqüentemente. Por esta heresia, Chagnon foi praticamente banido do mundo da antropologia.

Reproduzi estas denúncias em Ianoblefe, 2000, edição eletrônica que pode ser baixada em http://www.ebooksbrasil.org/nacionais/ebookpro.html. Um leitor me envia este filme brutal - http://jp.youtube.com/watch?v=zd9JpVxiz9E - divulgado pelo Youtube, que documenta estes atos bárbaros cometidos pelos anjinhos defendidos por Cláudia Andujar, Manuela Carneiro da Cunha, Mércio Gomes e tantos outros cúmplices de assassinos.

Domingo, Dezembro 07, 2008
 
VATICANO E ISLÃ,
MESMO COMBATE



Sempre vi uma forte simpatia entre católicos e muçulmanos, entre o papa, mulás e aiatolás. Ambas as religiões são totalitárias, oprimem a mulher e são inimigas do prazer. Y a las pruebas me remito. A ONU está tentando despenalizar o homossexualismo. Há ainda noventa países no mundo que punem a homossexualidade. Em oito deles, as relações homossexuais são punidas com a morte. Arábia Saudita, Emirados Árabes, Irã, Mauritânia, Sudão, Iêmen e alguns Estados do norte da Nigéria.

O que demonstra imensa hipocrisia. Sempre considerei os muçulmanos homossexuais de carteirinha. Quem me acompanha, sabe que nada tenho contra isto. O deplorável é a hipocrisia. O Islã é ginecófobo. O mundo árabe, que um dia deu à humanidade um livro cheio de sensualidade como As mil e uma noites, hoje tem medo da mulher. A saga de Sherazade é hoje proibida em muitos países árabes. Fosse só medo, não era nada. Têm nojo. O status da mulher no universo muçulmano fica um pouco abaixo do rabo do camelo. E é óbvio que quando os machos detestam as fêmeas, isto significa que, na hora do bem bom, os machos preferem os machos.

Vi isto na Argélia, na Tunísia e no Egito. À noite, as mulheres são praticamente expulsas das ruas, que se tornam território exclusivamente masculino. Cá e lá, algum vulto embuçado e fugidio, que se atrasou na volta para casa, percorre como um discreto fantasma as ruas das casbás. No Cairo, naqueles invernos tórridos nos quais a temperatura pode chegar a 40 graus, dezenas de milhares de machos percorrem as ruas de mãozinhas dadas, dedinhos trançados, braços abraçando ombros, olhos grudados nos olhos. Mulher nas ruas, nem pra remédio.

Os cabeças-de-toalha que me desculpem. Se isto não é homossexualismo, como então se chamará? Os católicos descobriram um eufemismo tranqüilizador, homofilia, para maquiar sua misoginia. Seria algo como gostar da companhia masculina, sem necessariamente chegar às vias de fato. Me desculpem também os papistas. Quem não gosta de mulher, é claro que gosta de homem.

Em meus dias no Egito, tive a infeliz idéia de tomar um ônibus para ir até as pirâmides. O projeto aliás não foi meu, mas da minha Baixinha, que queria ter uma vivência das práticas locais. Não sei se o leitor consegue imaginar o que seja um ônibus árabe. É um coletivo superlotado de gente, muitos com pés ou bundas fora das janelas, e uma boa metade instalada sobre o capô. Entrei com certo medo, não por mim, mas pela minha mulher.

Lá dentro, miracolo! A arabada se afastou da Baixinha como se ela estivesse leprosa. Em compensação, este escriba que vos escreve fez um baita sucesso. Fui cercado e bolinado pelos bravos machos egípcios. A Baixinha ficou um pouco à frente, no corredor do ônibus, um semicírculo se formou em torno a ela, com respeitosa distância, como se não quisessem tocá-la para não contaminar-se de alguma grave enfermidade.

Consegui sentar. Mal sentei, um árdego filho de Alá postou-se à minha frente e praticamente tentava enfiar-me o pênis na boca. Eu, constrangido, recuava a cabeça, com um ar de “muito obrigado, já estou servido”. No fundo, o que mais queria ver, era a silhueta das pirâmides. Tornei-me místico: Deus, ó Deus da cristandade, e mesmo tu, meu bom Alá, onde estão Quéops, Quéfren e Miquerinos?

Que acabaram surgindo no horizonte, para meu alívio. Quando levantei-me para sair, meu fã pegou-me pelas mãos e tentou puxar-me para o banco. Consegui safar-me. Baixinha ria divertida, isolada em seu círculo de castidade. Passei por situações semelhantes em Argel, no Sahara argelino e mesmo na Tunísia. No Assekrem, maciço montanhoso a 2.000 quilômetros ao sul de Argel, os tuaregues - os chamados homens azuis - do alto de seus turbantes me olhavam no fundo dos olhos. Com um bafo de alho milenar, parecia bafo de múmia. Ah, não, com bafo de múmia não! Nas cidades, sentia-me como um efebo eleito dos deuses. Todos os homens eram meus.

Como disse, nada tenho contra. Desde que me conheço por gente, tenho defendido o direito a qualquer preferência sexual. Mas há algo profundamente doentio nessa mania de ser homossexual à socapa e mandar decapitar quem se assume. O Vaticano, ao repelir este projeto da ONU, tornou-se cúmplice da barbárie muçulmana. Os papistas se opõem a esta declaração porque ela acaba acrescentando uma “nova categoria” aos protegidos contra a discriminação. E porque também temem que seja criada uma reação em cadeia a favor das uniões entre pessoas do mesmo sexo. Ora, nestes dias em que as pessoas tentam se libertar dos grilhões do casamento, se alguém quiser casar, seja deste ou daquele sexo, que “sifu”, como diz o presidente brasileiro em seu requintado e fino linguajar.

O mal das religiões é pretender que o universo todo se comporte como se comportam eles, os religiosos. Ora, se católicos e muçulmanos abominam o homossexualismo, que se abstenham do bom esporte. Mas, por favor, não se metam na vida de quem não crê em suas bobagens. Vaticano e Islã, mesmo combate. Um lambendo o rabo do outro. E sempre se pretendendo refinados humanistas.

Ora, vão...

Sábado, Dezembro 06, 2008
 
A HISTÓRIA, ESSA SENHORA INCONVENIENTE


Leio na Folha que a Secretaria Estadual da Educação de São Paulo decidiu diminuir a carga horária de história no ensino médio, como forma de compensar a inclusão de sociologia no currículo e a ampliação de filosofia, exigências previstas em lei federal.

Com a medida, os alunos do ensino público diurno terão 80 aulas a menos de história, considerando os três anos letivos (redução de 22,2%). No noturno, serão 120 aulas a menos (redução de 37,5%). O cálculo da Folha tem base no mínimo de 200 dias letivos ao ano (40 semanas), previsto em lei.

Nada do que o homem faz deixa de ter sentido. O estudo de história andou se tornando muito inconveniente nas últimas décadas. Deixava claro que Lênin e Stalin fizeram vinte milhões de cadáveres. Mao, 65 milhões. No Vietnã, os comunistas mataram um milhão de vietnamitas. Na Coréia do Norte e Camboja, dois milhões em cada país. Na Europa do Leste, um milhão. Na África, 1,7 milhão. Afeganistão, 1,5 milhão. América Latina, 150 mil mortos.

Ou seja, cadáveres demais para os salvadores da humanidade. Melhor não estudar história. História são fatos. Já sociologia e filosofia tratam de teorias. No ensino atual, ambas as disciplinas pouco tratam de sociologia e filosofia. São marxismo na veia. Todo o ensino nacional, ainda neste século XXI, está contaminado por esta teoria assassina do século XIX. Estudei tanto sociologia como filosofia. De sociologia, fiz duas cadeiras. Filosofia, quatro anos. Era marxismo puro. No caso da filosofia, meus professores começavam com a dialética em Platão para, obviamente, terminar com a dialética de Hegel e Marx. Este último, que não passou de um economista que jamais soube ver o que acontecia num raio de dois palmos em torno a seu nariz, até hoje é visto como filósofo.

Mais ainda: Marx era visto, por meus professores, como a culminância da filosofia. A história contemporânea o desmentiu de cabo a rabo. Mas continua sendo estrela e guia dos intelectuais latino-americanos. Digo latino-americanos, porque na Europa este sarampo já foi extinto.

Sempre vi a sociologia, pelo menos como é atualmente ensinada, como um repertório de teorias malucas a respeito do homem e do mundo. Ninho perfeito para albergar os comunossauros. Já a filosofia, se em seus primórdios nada tinha a ver com marxismo, hoje virou marxismo puro. Pelo menos na América Latina, repito. Lembro que, ao chegar em São Paulo, quando dizia ter estudado filosofia, uspianos me perguntavam: qual filosofia? Como qual filosofia? Filosofia, tout carrement. Aquela filosofia perene, da qual falava Huxley. Mas este conceito já não mais existia entre os PhDeuses uspianos. Filosofia era marxismo ou não era filosofia.

O estudo da filosofia é ilusório. Não existe filosofia. Existem filosofias. Isto é, a história da filosofia. Que não deixa de ser um saco de gatos hidrófobos. Chega um filósofo e diz: o homem vai para lá. Suas teorias são abafadas pelos filósofos que o sucedem, que estão absolutamente convictos que o homem não vai para lá, mas para cá. Na filosofia busquei respostas a certas angústias e na filosofia só encontrei abstrações que me conduziam a becos sem saída. As filosofias se fundamentam na razão e acabam se derrubando umas às outras. Propõem o conceito de um Homem ideal, com H maiúsculo – como escrevia Ernesto Sábato – mas este homem é uma abstração, não existe. O que existe, ainda segundo Sábato, é aquele homenzinho com h minúsculo, que será objeto da literatura.

Por mais gênio que tenham tido Platão ou Sócrates, certas concepções suas hoje nos soam ridículas. Mas não são ridículos os personagens de Dostoievski, Victor Hugo ou Flaubert. Estes são nossos contemporâneos, chamem-se Ivan Karamazov, Jean Valjean ou Emma Bovary. Quando estudei filosofia, fascinei-me pelos gregos antigos, li com avidez os Diálogos de Platão e acompanhei com certo entusiasmo a filosofia até os dias da Idade Média, quando, serva da teologia - ancilla Theologiae, como se dizia então – tornou-se, além de ridícula, totalitária. Mas era pelo menos compreensível. À medida que me aproximava da filosofia contemporânea, meu interesse ia mermando. Com Heidegger, Husserl e Sartre, morreu por completo. Abandonei os estudos filosóficos quando Gerd Bornheim, meu professor e um dos expoentes da filosofia tupiniquim, afirmou: “o objeto da filosofia, hoje, é encontrar o objeto da filosofia”. Basta, disse eu a mim mesmo, e tratei de buscar outros caminhos.

O acréscimo de sociologia e o aumento de filosofia são exigências de uma lei sancionada pelo PT, em junho passado, dizem os jornais. Só podia ser. Não passa dia em que o PT não tenha um reflexo nazista, erguendo aquele bracinho do Dr. Strangelove – do filme de Kubrick – em saudação ao totalitarismo. A lei prevê que as duas disciplinas sejam dadas nos três anos do ensino médio. São Paulo não possuía sociologia na grade e não havia filosofia no terceiro ano. O que o PT quer, como os católicos sempre quiseram, é evangelizar. Não por acaso o PT nasceu do bestunto dos uspianos e igrejeiros.

Fiz várias opções erradas em minha vida. Duas delas foram estudar Direito e Filosofia. Se bem que não foram totalmente erradas, no sentido em que o Direito me deu uma noção jurídica de Estado. E com a Filosofia tomei consciência que as concepções de mundo são cambiantes e se destroem umas às outras. Mas não precisava ter perdido quatro ou cinco anos para chegar a estas percepções. Dois ou três livros sobre Filosofia do Direito, mais outros dois ou três sobre História da Filosofia, teriam sido suficientes. Neste caso, não falo dos dicionários de Ferrater Mora ou Abbagnano.

Se você quiser estudar filosofia, compre uma singela História da Filosofia, pode ser tanto a de Julián Marías como a de Will Durant. Eleja então os pensadores que mais despertaram sua curiosidade e busque suas obras. Não perca seu tempo esfregando o traseiro nos bancos universitários. A menos que seu interesse seja levar meninas para a cama. Para isto, a universidade é ótima. E até mesmo a filosofia adquire um certo sentido.

O que eu gostaria de ter estudado desde o início, descubro hoje, é História, esta disciplina que São Paulo quer abolir. Mas também de pouco me teria adiantado, já que desde a fundação da USP, nos anos 30, história é marxismo na veia. Em meus dias de UFSC, ouvi uma professora de História afirmar: "a cronologia é reacionária"!

Só podia ser. Atrapalhava a visão marxista de mundo. Os alunos podiam ficar sabendo que Lênin mandou fuzilar os Romanoff em 1917. Que os gulags já existiam nos anos 20. Que Stalin começou suas purgas em 35. Que a affaire Kravchenko, em 49, eliminou qualquer veleidade de algum intelectual apoiar o comunismo. Que Kruschev, em 56, no XX Congresso do PCUS, denunciou oficialmente todos os crimes de Stalin. Assim, ficaria muito difícil, hoje, para os Oscar Niemeyers, Arianos Suassunas e Manuelinhas d'Ávila da vida defenderem a tirania. Melhor esquecer essa coisa inconveniente que se chama História.

O que precisa ser abolido do ensino não é o estudo da História. Mas a catequese marxista, que hoje manda e não pede na área dita humanística das universidades. Fora disto, não há como escaparmos ao subdesenvolvimento mental que até hoje contamina a intelectuália deste "continente puñetero", como escreveu Roa Bastos.

Sexta-feira, Dezembro 05, 2008
 
NO PERAU DO TIO ÂNGELO (VII)


Jag längtar hem sen åtta långa år.
I själva sömnen har jag längtan känt.
Jag längtar hem.
Jag längtar var jag går - men ej till människor!
Jag längtar marken,
Jag längtar stenarna där barn jag lekt!



Descobri grandes autores em meus dias de Suécia. Um deles foi Verner von Heidenstam, prêmio Nobel 1916. O excerto acima é de um de seus mais comoventes poemas. Traduzindo:

Tenho saudade de minha terra há oito longos anos.
Mesmo em sonhos saudades senti.
Tenho saudades por onde vou - mas não dos homens.
Tenho saudades do chão,
Tenho saudades das pedras onde criança brinquei.

Saudades do chão. Em 77, quando fui despedir-me daqueles pagos, minha primeira providência foi tirar os sapatos. Foi num inverno de muito aguaceiro e afundei os pés no barro. Fui hospedado na casa da Dona Maria, a mais antiga matriarca lá da Linha, mulher do finado “seu” Martim. A casa ficava no Uruguai e era o marco de uma tragédia. Houve uma desavença qualquer entre “seu” Martim e seu genro, que era meu primo. Vinham os dois pela Linha, meu primo com uma filha de poucos anos no lombilho, e ambos armados. O tiroteio foi ali mesmo. Coisas lá da Fronteira. Ivo, meu primo, atirou do Brasil. Martim caiu no Uruguai. Qual o foro adequado? Meu primo preferiu entregar-se no Brasil, onde se achava mais protegido.

Certa vez fui visitar meus pais em Dom Pedrito e coincidiu que naquele dia Ivo enfrentava o tribunal do júri. Chegou lá em casa de madrugada, feliz da vida e com a alma leve. Foi logo anunciando a meu pai:

- Fui absolvido, Canário. Por unanimidade, tche! Quatro a três.

Em sua insciência de homem do campo, nem tinha idéia de que se salvara quase por milagre. E por sua filha, a que ia na garupa na hora do confronto:

- Guria boa, Canário. Foi ela que me salvou. Olhou firme para o juiz e disse: “o vô puxou primeiro”.

Saudades do chão, dizia. Dona Maria cedeu a mim e à Baixinha sua cama conjugal, a mais solene do rancho. Para protestos da Baixinha, que não conseguia entender aquele senso de hospitalidade. Após o jantar, Nilza, minha prima, entrou na sala com uma bacia e quis lavar-me os pés. De jeito nenhum – protestou a Baixinha. Ela não entendia que, naqueles rincões, lavar os pés do hóspede é uma honra para o anfitrião. Não permitiu honra alguma à minha prima. "Só o que faltava" - refunfuñava. No que dela dependesse, nem a Madalena lavava os pés do Cristo.

Do outro lado da Linha, no Brasil, estava a casa do finado Solano. Onde cometi talvez o maior vexame de minha vida. Quando guri, já vivendo em Dom Pedrito, mas sempre voltando ao terrunho no período de férias, invadimos a cavalo, bêbados, eu e meus primos, o pátio do rancho do Solano. Eu conhecia umas marchinhas de carnaval lá do povoado e já cheguei cantando:

Solano amigo,
Vem beber comigo.
Quem bebe morre,
Quem não bebe morre também.
Não tem jeito,
Não tem solução,
Vamos beber até cair no chão.


Era tarde da noite. As Solanas – e eram uma safra – não acreditavam no que ouviam. O que eu não sabia era que o Solano morrera no mês anterior.

Bueno – como se dice allá – dia seguinte pegamos o Fusca e rumamos para meu rancho, há umas três léguas dali. Foi quando atolamos frente ao rancho do Hilário. Deixamos o carro no meio do barro e seguimos a pé. Era dia de vento e os alhos-bravos ondulavam como um mar verde, verde e revolto, até se perder de vista no horizonte. Pampa semper virens – pensei. Sei lá como, o latim me brotou espontâneo. E saí cortando campo rumo à Casa e ao Pau Vermelho, que já se divisava ao longe.

Antes de chegar à Casa e à sanga onde eu ia pescar joaninhas - só para espiar aquela coisa misteriosa da Corininha – havia o Cerro da Tala. Era uma coxilha de porte, teria talvez uns trezentos metros de altura, medidos desde a beira da sanga. De minha lembrança de piá, era um Himalaia. Em seu topo, havia uma tala solitária, eternamente fustigada pelo minuano, mas sempre rija e sempre em pé. Justo debaixo da tala, a Toca da Onça, caverna onde celebrávamos nossos rituais de guris.

Caverna coisa nenhuma. Era apenas um empedrado com um buraco sob a superfície. Em meus dias de criança, aquela grota me parecia imensa. Cabia quatro ou cinco piás lá dentro. Nunca faltava uma prima que subisse à tala, apesar dos espinhos. Lá do fundo da terra, eu continuava a olhar intrigado aquela coisa escura entrevista sob as saias. Minha meta suprema, naqueles dias, era descobrir o que era aquilo. Bom, mais dia menos dia a gente acaba descobrindo. É muito bom. E não deixa de ter seus mistérios.

Em minha volta ao Cerro da Tala, decepção total. A caverna profunda e misteriosa não passava de um buraquinho sob o pedregal, onde eu, adulto, já nem conseguia entrar. Eram apenas as pedras, onde criança brinquei. Stenarna där barn jag lekt! – como cantou Heidenstam. O que um dia me pareceu um Himalaia, na verdade não passava de uma coxilhazinha discreta. De onde eu já avistava, com o coração aos pulos, do outro lado da sanga, a Casa do tio Ângelo.

 
A CHISPA DA FERRADURA


Carlos Heitor Cony, escritor e jornalista bafejado pela imortalidade da Academia Brasileira de Letras e pelas pensões milionárias que Fernando Henrique Cardoso instituiu para os celerados que um dia quiseram transformar o Brasil em uma republiqueta soviética, escreveu hoje na Folha de São Paulo artigo que não deixa de ser interessante.

Para o cronista, “não adiantou aos romanos encarcerar Paulo de Tarso nem decapitá-lo: ele tornou o cristianismo universal. Não adiantou prender Fidel Castro na ilha de Pinos, depois do fracassado ataque ao quartel de Moncada. Ele foi solto e liderou uma revolução que dizimou seus adversários. Bem verdade que Fidel abriu outro capítulo na repressão e encheu cemitérios e prisões com os seus adversários”.

Sintomática a comparação que o cronista faz entre Paulo – antes chamado Saulo -, o grande perseguidor dos seguidores de Cristo quando ainda nem existia o que passou a chamar-se cristianismo, e o tiranete do Caribe, grande assassino de seus próprios conterrâneos. Considero Paulo o primeiro stalinista da história, mesmo tendo vivido dois mil anos antes de Joseph Vissarionovich Djugashvili, mais conhecido como Stalin, ou seja, “o de aço”. Como bom ex-seminarista - como também o foi Stalin - Cony entende muito bem os grandes criminosos. Mas no parágrafo seguinte, o ex-seminarista já incorre em bobagens.

“Se a repressão é inútil, se não adianta encarcerar presos políticos, pois na maioria dos casos eles saem da prisão diretamente para o poder (e os exemplos são numerosos ao longo do tempo), o que deve ser feito, desde que alguma coisa precisa ser feita? O ideal, evidentemente, seria a não existência de repressão, de prisões, de execuções. Nem degolas, nem guilhotinas, nem "paredons". Mas os tiranos que periodicamente aparecem no cenário mundial vão pouco a pouco aprendendo a lição. Ou seja, que é inútil a prisão política. Dez, 20, 40 anos depois, o carcereiro está coberto de ignomínia e o encarcerado é catapultado para a glória e para o núcleo da história de seu tempo”.

Ora, Paulo não saiu da prisão para o poder. Saiu da prisão – que aliás foi suave, domiciliar, com direito até mesmo a secretários para escrever suas cartas e fazer seu proselitismo – para o cadafalso. É bom lembrar que quem mandou o judeu Paulo para a prisão não foram os romanos, mas os próprios judeus. Por uma questão de ortodoxia. Surgiram boatos de que Paulo levara seu amigo Trófimo – que não era circuncidado – ao templo. Sacrilégio! E o denunciaram aos ocupantes romanos.

Quanto à difusão do cristianismo, sim, ela se deve em boa parte a Paulo. Cristo morreu como uma mosca tonta, sem saber porque foi enviado para a cruz. Aliás, foi enviado também pelos judeus. Pilatos até que tentou salvá-lo. Mas os sacerdotes do Sinédrio queriam mesmo era a cabeça do Cristo. O cristianismo deve seu sucesso histórico não a Paulo, e sim ao imperador Constantino. É graças à formidável máquina de propaganda criada durante o império de Constantino que os papas gozam hoje de seus faustos e mordomias. A nova crença foi assumida pela grande potência da época e até hoje estamos ouvindo as besteiras proferidas pelos papistas.

O que fazer? – pergunta-se o cronista – repetindo a pergunta de um de seus mestres, Lênin. Que aliás tampouco se chamava Lênin, mas Vladimir Illitch Ulianov. (Curiosa esta tendência de grandes assassinos, desde Paulo a Stalin, de trocar de nome).

“A primeira idéia que me vem à cabeça -como disse acima- é cruel e selvagem. É também cínica e até certo ponto inútil, uma vez que é freqüentemente praticada. Ao inaugurar a tirania, nenhum tirano deve manter seus adversários na prisão: deve fuzilá-los imediatamente, sem julgamento nem processo, tal como na guerra: o soldado do exército azul vê o soldado do exército vermelho e não lhe pergunta o que pensa, por que pensa: vai logo matando”.

Foi o que fizeram tanto Lênin como Stalin, Mao, Pol Pot ou Castro. Cony está em boa companhia. No que a mim diz respeito, não só discordo como também concordo com o apaniguado imortal. Discordo porque o assassinato gera mártires. A sorte, não só do Cristo como de Che Guevara, foi terem sido assassinados. Cristo teve a ventura da cruz. Fosse empalado, duvido que os cristãos andassem por aí brandindo uma estaca como símbolo de sua fé.

Guevara foi outro afortunado. Morreu jovem e imortalizado numa foto de Korda, que o assemelhava a Cristo. Estivesse hoje vivo e de barbas brancas, não seria venerado como santo, como é venerado no mundo todo e também na Bolívia, onde passou a ser conhecido como San Ernesto de la Higuera.

Esta é minha discordância com Cony. Mas ao mesmo tempo concordo com o cronista. Se tivesse sido fuzilado nos anos 70 – não só ele como também os demais comunistas que queriam transformar o país numa grande Cuba – esta canalha não estaria hoje onerando os contribuintes com suas pensões milionárias.

Os militares de 64 ficaram devendo este favor à nação. Quem diz isto não sou eu. É o Cony. Stalinistas senis e caducos às vezes têm boas idéias. É a chispa da ferradura quando bate na calçada.

Quinta-feira, Dezembro 04, 2008
 
NO PERAU DO TIO ÂNGELO (VI)


Falava do tio Ângelo e seu perau. Mas ainda há tempo para chegar lá. Melhor antes falar um pouco daquele ambiente onde tive meus dias de guri. Há fatos que na infância nos marcam a memória e só depois de muito viver lhes conferimos a verdadeira dimensão. Ocorreu ali no Upamaruty, distrito rural de Livramento, na fronteira com o Uruguai, onde vivi minha infância. Torrão de gente rude, onde qualquer adulto tinha de cuidar-se com a língua. Lá na Linha Divisória - como era mais conhecida a região - uma palavra mal empregada, ou mal entendida, podia custar uma vida. Lá, conheci Seu Alvarino.

Pequena pausa. Acabo de receber mail de um bom amigo de Porto Alegre, meu colega de Caldas Júnior, que me comoveu fundo. Diz Jomar:

Tenho acompanhado as reminiscências do perau do Tio Ângelo. No último post, quase caí da cadeira. Creio que identifiquei dois antepassados, se for vero o que diz minha mãe, que nasceu ''nas Três Vendas''.

Hilário (falecido em agosto de 1982) seria Hilário Soares de Freitas, meu avô. A mãe dele, e, portanto, minha bisavó, seria Siá Cantilha. Ou Cantidiana Postiglioni de Freitas, parteira de mão cheia, conhecida como ''Mãe Cantilha''. E também professora afamada naquela região, pelo menos para as primeiras letras.

A história da família do Hilário, se conhecida, renderia um filme de Hollywood com direito à Oscar. O pouco que sei já me arrepia.
Abs forte!!...


Eu também me arrepio. Alegria imensa ter como amigo um neto dos personagens de minha infância. Hilário era um ferreiro que morava perto do boliche do Peixoto, ali numa curva da Linha. Não tenho idéia do sobrenome dele. Para mim, era apenas o Hilário. A Siá Cantilha morava no campo lindeiro. Meia légua adiante, meu rancho. Pouco sei do Hilário. Sei que, em meus dias de guri, era proibido chegar lá. Aquela charla que tive com ele, ao voltar aos pagos, foi um dos bons momentos de minha vida. A Baixinha, alemoa de São Pedro do Sul, não conseguia acreditar muito no que ouvia. Eram Weltanschauungen distintas. Minha alemoa vinha de uma cultura dinâmica, onde prosperar era um imperativo. Hilário pertencia a um universo contemplativo, onde tudo era fatalidade. Escorado no moirão, ele estava certo que o Fusca ia atolar. Atolou mesmo.

Antes do perau, prefiro falar de seu Alvarino, para dar uma idéia melhor de meus pagos. Já falei dele. Falo de novo. Fora trazido da cidade, como cozinheiro do Peixoto, um bolicheiro local. Negro, enorme, espadaúdo, durante o dia cuidava da cozinha e das coisas do Peixoto. Nas tardes de domingo, cumpridas suas tarefas caseiras, vestia uma blusinha de rendas cor-de-rosa, punha sua mais rodada saia longa e sentava na porta do bolicho do Zeto, munido de agulhas e novelos. A gauchada ia chegando, boleando a perna e atando os cavalos no alambrado. Em meio àquela gente armada, revólveres e facões pendendo da guaiaca, seu Alvarino, indiferente às charlas e ruídos de esporas, permanecia absorto em seu crochê, como se ali estivesse tricotando desde o início dos tempos.

Jamais ouvi qualquer piada a respeito das prendas domésticas de Seu Alvarino. Também, pudera! Seria uma empreitada um tanto arriscada dirigir qualquer comentário desairoso àquele par de munhecas. Seria homossexual? Ou o travestir-se seria apenas uma prosopopéia que o acometia aos domingos? Fosse como fosse, se gostava de usar saias e fazer crochê, isto era algo que só a ele dizia respeito.

Sou filho de camponeses, o leitor já deve ter percebido. Vivi meus primeiros dez anos no campo, sem conhecer cidade. Até hoje me sinto um pouco camponês. Ocorre que eu vivia junto a uma fronteira. Nasci a uns quinhentos metros do Uruguai, junto à Linha Divisória, perto do boliche do Zeto, onde marcos de concreto marcavam os limites do país. A Linha coincidia com o horizonte. Desde criança, tive a noção que depois do horizonte estava o desconhecido. Ou, melhor dizendo, o Uruguai.

De légua em légua, havia um marco maior, o Marco Grande. No caso, o Marco Grande dos Moreiras, meu clã. Meu pai me erguia nos ombros e fazia-me subir no topo do marco. Me virava para o oriente e dizia: “Meu filho, fala para os homens do Uruguai”. Aí eu dava meia-volta e a ordem era outra: “Fala, meu filho, com os homens do Brasil”.

Me criei olhando para o anecúmeno. As fronteiras geram dois tipos de homem. Um, o nacionalista atroz, que sempre acha que seu país é o melhor. Outro, aquele que acha que não é bem assim e quer olhar o outro lado do mundo. Pertenço a esta segunda estirpe e nada do que é humano a mim alheio reputo, como dizia Terêncio.

Volto em breve ao perau. Não sem antes passar pela Toca da Onça, no Cerro da Tala. Bem entendido, não havia onça alguma naquelas plagas. Era apenas uma forma de nominar uma toca onde, piás, celebrávamos nossas orgias pagãs.

 
MORTE AOS REFRIGERANTES!


Se tem algo que sempre detestei em minha vida, são os refrigerantes. Não suporto. Claro que se estiver morrendo de sede no Sahara e encontrar um Mac nalgum oásis – não duvido que já estejam lá – até que topo. Se bem que, ao pensar nisso, lembro de um filme de 1966, Modesty Blaise, dirigido por Joseph Losey, com Monica Vitti, Terence Stamp e Dirk Bogarde. Lá pelas tantas, Bogarde é estaqueado sobre as areias do deserto. Sedento e desesperado, pede: “Champagne, champagne”.

Talvez por afinidades eletivas, em meu pequeno círculo não há ninguém que tome refrigerante. Aliás, nem fumantes. Não condeno quem gosta de refrigerantes. Cada um na sua. Mas também não endosso. Quando vejo alguém pedindo uma coca ou guaraná, tomo distância. Daquela boca não podem sair palavras que prestem. Assim, é com certo reconforto que leio hoje no noticiário on line, que o consumo diário de refrigerantes provoca sérios males. Bem que eu desconfiava. Vamos à notícia:

Vilões das dietas, os refrigerantes são alguns dos maiores responsáveis pela grande ingestão de açúcar. O que todas nós sabemos mais tentamos ignorar é que refrigerante favorece o aparecimento de celulite sim!

Segundo a medica, especializada em Nutrologia, doutora Jane Corona, qualquer carboidrato em excesso aumenta a quantidade de açúcar e congestiona a rede linfática. “A linfa é um liquido que retira as toxinas do organismo. Se estiver sobrecarregada, acumula triglicerídios (gorduras) e gera as depressões aparentes na pele”.


As mais espertinhas tentam recorrer aos diets e lights. Mas a doutora explica que esses são piores ainda. “Esses vêm com adoçantes que são substâncias tóxicas, são como medicamentos e viciam o cérebro no gosto doce. O problema é que o cérebro pede a energia do doce e não o sabor. Como os adoçantes não possuem as calorias do açúcar simples, o cérebro continua pedindo mais doce durante todo o dia, por isso as pessoas que ingerem adoçantes acabam comendo mais”, detalha a nutróloga.

Bingo. Além do sabor abominável, faz mal à saúde. A nutróloga sugere a quem quer se livrar do açúcar não ingerir nenhum tipo de doce, porque o cérebro passa a não solicitar mais a substância. Mas quem não quiser radicalizar tem uma alternativa. “Essa é uma bebida de final de semana, para ser consumida socialmente, não substitui de forma nenhuma a água e o suco. A água e o suco hidratam o corpo e o organismo consegue quebrar essas substâncias para aproveitar seus nutrientes. Já os refrigerantes não têm nenhum valor nutricional”, explica.

Doces, também não gosto muito. De doce, basta a vida. Mas há duas sobremesas que não resisto: îlle flottante e baba au rhum. São sobremesas tipicamente parisienses, embora já se encontre a îlle flottante aqui em São Paulo. É um creme batido de clara de ovos. Eu a reencontrei em Paris, embora seja coisa de minha infância, lá no Upamaruty. Só que, mais prosaicamente, a chamávamos de escuma de sapo.

Já o baba au rhum é um pudim embebido em rum. Embriagante. Para leitores de Asterix é familiar. Babaorum é uma das guarnições romanas sediadas na Gália.

Além de não trazerem benefício, alerta a doutora, os refrigerantes ainda podem iniciar processos degenerativos como a osteoporose, a alteração de sono e do sistema nervoso. “Refrigerantes têm muito fósforo e o excesso dessa substância no organismo provoca descalcificação podendo até causar osteoporose. Os lights podem provocar alterações neurológicas como a perda de memória por conta dos estimulantes e adoçantes”.

Alvíssaras! A ciência concorda comigo. Morte à coca e similares. Quem os vende, deveria estar na cadeia. E quem os toma, nalgum desses institutos que recuperam drogados. Perdão, leitores, se ofendi alguém.

Quarta-feira, Dezembro 03, 2008
 
NO PERAU DO TIO ÂNGELO (V)


Antes do perau, um pouco mais de tio Ângelo. Camponês, solteirão, creio que jamais conheceu cidade. Herdou a casa senhorial da sucessão e era para lá que os irmãos e primos rumavam, à noite, para chimarrear, ouvir causos e – o mais importante – ouvir rádio. Até hoje lembro o prefixo de uma rádio argentina, CLRX – CLR1 (traduzindo: ce ele erre equis ce ele erre uno) – Rádio Belgrano de Buenos Aires, para el mundo. A Casa – como chamávamos – ficava mais ou menos a um quilômetro de meu rancho. Lá pelo fim da noite, começavam os causos de cemitério, almas penadas, mulas sem cabeça. E eu tinha de voltar para casa, naquelas noites enluaradas. Voltava voando pelas canhadas, apavorado, com um ser qualquer – sei lá o que era – colado a mim e respirando junto a meu pescoço. Pânico total, que só cessava quando eu entrava em casa. O que me assustava mesmo, creio, era minha sombra, que não se desgrudava de mim e corria com minha mesma velocidade.

Naqueles dias, sempre tive problemas em passar à noite por cemitérios. Vivia em Upamaruty. Quando voltava a cavalo da casa meus tios em Ponche Verde, tarde da noite, ao aproximar-me de um cemitério começava a suar frio. Pior ainda, o cavalo começava a bufar, assustado. Ou assustado estava eu e achava que era o cavalo. A pior das horas era a meia-noite. Juro que sentia uma alma penada em minha garupa. Sentava o rebenque no coitado do pilungo e aquela sensação gelada na nuca só sumia quando me afastava do cemitério. Vivi noites e noites de terror, assombrado pelos causos do tio Ângelo. Foram necessários alguns anos para conjurar este medo a cemitérios. Hoje, os visito com muito prazer. Fácil criar divindades. Basta incutir numa criança o medo ao sobrenatural.

Em 77, quando ia para a França, levei minha Baixinha para conhecer aquele meu universo. Pegamos um Fusca em Dom Pedrito e rumamos até a Linha Divisória entre Uruguai e Brasil. Uma légua além do obelisco que marca a assinatura da humilhação farroupilha nos campos de Ponche Verde, olhando ao longe o vulto da Casa, coração num ritmo esquisito, o Fusca atolou num barral. Justo em frente à casa do Hilário da Siá Cantilha, que há uns trinta ou mais anos estava doente e às portas da morte. Era tuberculose. Em meus dias de colégio primário, as professoras me recomendavam passar de longe pelo rancho do Hilário e jamais beber água de seu poço, mesmo que a sede apertasse. Pois lá estava o Hilário, eterno, apoiado em um moirão, em carne e osso, mais osso do que carne, era verdade, mas mais rijo que o moirão.

Abandonamos o Fusca no lamaçal. Debrucei-me no alambrado e me dispus a alguns dedos de prosa. Eu havia abandonado há cerca de trinta anos aqueles pagos e tinha a impressão que Hilário jamais se afastara daquele poste. Falou de sua doença. Que quase havia batido as botas no ano anterior, fora até mesmo levado para um hospital em Dom Pedrito.

— Mas eu senti que iam me matá naquele hospital. Mal senti por perto o bafo da Moira Torta, peguei meus trapo e saí como quem roba daqueles quarto branco. Se não fujo, tava morto.

E estaria morto mesmo, pensei. No entanto, ali estávamos charlando, contando as novidades do Ponche Verde, quem havia casado ou morrido. Em minha pressa urbana, me senti definitivamente expulso daquele universo primitivo onde o tempo corria com o vagar de uma lesma, se é que corria. Hilário não entendia porque eu consultava tanto o relógio. Tentei explicar que estava voltando das Europas, onde tudo tinha horário. Hilário era homem informado:

— Já me falaro das Oropa. Fica meio pras banda de Passo Fundo, segundo me contaram.

E ficava mesmo naquele rumo. Deixei Hilário escorado no moirão e fui revisitar minha infância. Mas já era um intruso naquele mundo de tempo infinitamente lento, preguiçoso. À medida que me aproximava do Cerro da Tala, onde estava a Toca da Onça, um nó foi me estrangulando a garganta. Lá adiante, ao oeste, a Casa e o Pau Vermelho. Ao sul, o perau e seus mistérios.

Cheguei à porta da Casa, acocorei-me em uma pedra de amolar facas, e gritei: “Ô de casa!”. Corina, minha prima, veio lá dos fundos. Não me reconheceu, é claro. “O senhor, quem é?” Balbuciei: “Vim ver o tio Ângelo”. Ele não mais vivia. Eu sabia disso. Falei para identificar-me. Ela me reconheceu: “Negrinho!”. Nos abraçamos chorando.

Corininha. Quando ela ia lavar roupas na sanga, eu pegava um caniço de bambu e ia pescar joaninhas. Pescar joaninhas umas ovas. O que queria mesmo era acocorar-me do outro lado do riachinho e ficar olhando, não para as joaninhas, mas para aquela coisa escura e cheia de mistérios, meio que entreaberta, entre as coxas da priminha. Ela sabia que as joaninhas pouco me interessavam e sentia-se muito bem esfregando as roupas no pedregal, frente a meus olhos arregalados.

Terça-feira, Dezembro 02, 2008
 
NO PERAU DO TIO ÂNGELO (IV)


Tio Ângelo era um precursor. Lá no meio do deserto verde da pampa, ouvira falar no tal de rádio e tomara a decisão de ter o seu. (Em meu romance, Ponche Verde, eu o chamo de Canário).

Em um raio de léguas em torno ao rancho, nos bolichos de Ponche Verde, Três Vendas, Villa Indarte, Upamaruty, Puntas de Jaguary, Cerrilhada, enfim, onde chegasse a notícia de seu projeto, era visto como louco ou mentiroso, onde se havia visto um pobre diabo com tais luxos da cidade? Mas o homem falava sério e fazia repetidas viagens a Livramento e a Dom Pedrito, de onde voltava sempre de mãos vazias, mas com um jeitão pensativo, de quem pesa as conveniências e inconveniências de um gasto absurdo.

Um belo dia, cortou o mais retilíneo e mais alto dos eucaliptos, despiu-lhe os galhos, falquejou-o de forma a deixá-lo quadrado e o pintou de vermelho, enquanto se avolumavam nas imediações o boato de que estava enlouquecendo. Não lhe foi fácil reunir vizinhos para erguê-lo, mediante um complexo sistema de máquinas de alambrar, e os que conseguiu reunir o ajudaram com certa piedade, o homem estava louco mesmo, seria pior contrariá-lo: onde se viu derrubar um eucalipto, pintá-lo de vermelho e tornar a plantá-lo na terra?

Mantenho ainda viva a lembrança da operação. Levara um dia todo, o poste colossal fora erguido com quatro fios de arame puxados de árvores próximas pelas máquinas de alambrar. Havia o risco de que algum fio rebentasse, e adeus rancho! Erguido o poste, Tio Ângelo, contente, carneou uma ovelha e, em meio ao churrasco e à cachaça, a vizinhança até mesmo esqueceu aquela torre absurda.

Semana seguinte, atrelou um matungo a uma aranha e se tocou para Villa Indarte, no Uruguai. Voltou tarde da noite e à meia-guampa, com um imenso volume quadrado no pescante da aranha. Ainda não era o rádio, apenas duas baterias e um aerodínamo. Instalado o catavento no poste, seu conceito mudou nos bolichos da região, parece que o homem vai mesmo trazer o tal de rádio, dizia-se. O que de fato ocorreu no domingo seguinte, quando tio Ângelo voltou mais uma vez da Villa Indarte, agora com um volume um pouco menor, um imenso Telefunken, e num porre federal.

Descera a coxilha cantando, mal pulou da aranha gritou feliz: “agora não preciso cantar mais, tenho quem cante pra mim. E esses hijos de la gran puta china de mierda vão ver o que é rádio”.

A notícia correra como um raio na redondeza. Nos dias seguintes não houve tardinha em que não chegassem dois, três vizinhos a cavalo, com um ar meio sem jeito, com o pretexto esfarrapado de uma visita, “onde se viu visita em dia de semana, dia de trabalho”, resmungava feliz tio Ângelo. E judiava dos curiosos, lhes oferecia mate, perguntava sobre as novidades, sempre embaixo do cinamomo antiquíssimo, ao lado do catavento, cujas pás se moviam impelidas pela brisa do entardecer. O sol se escondia, as visitas hesitavam em dizer ao que vinham e tio Ângelo, num misto de desprendimento e vingança, convidava: “o compadre quer passar pra sala, escutar um pouco de rádio?”

Com o tempo atenuara-se aquele ímpeto de desforra, como também o complexo de culpa dos vizinhos - por vizinhos entendia-se pessoas que moravam a léguas de distância - e a cada noite tio Ângelo recebia gente vinda de longe para escutar rádio. Ao chegar, já iam desencilhando os matungos, pois a sessão de escuta só terminava lá pela meia-noite. Orgulhoso, tio Ângelo não permitia a ninguém, nem mesmo a mim, mexer nos botões do Telefunken. Qual sacerdote oficiando sua liturgia, solenemente ligava o rádio e girava o dial, perguntando à roda, com picardia, se queriam escutar brasileiro ou castelhano, tangos ou rancheiras, música ou notícias.

Tarde da noite, alegava ter de madrugar para o trabalho, a indiada se despedia, encilhava os cavalos e saía perfurando a noite na pampa com vozes que aos poucos morriam nas canhadas. Tio Ângelo então me chamava, “vem cá, guri, o melhor vem agora”. E mudava de onda. Ouvíamos então, silentes, ruídos que pareciam vir de estrelas distantes, línguas estranhas que escutávamos durante horas tentando entender ao menos uma palavra, notícias de outros povos e costumes, canções de outras gentes. A mim, na época, parecia-me impossível que um ser humano pudesse falar outra língua que não os dois únicos idiomas existentes no mundo, o brasileiro e o castelhano. Com o tempo, quando o rádio já não mais constituía milagre, os vizinhos, se passavam por Dom Pedrito, lhe enviavam um chasque pela rádio Ponche Verde, endereçado à Estância do Pau Vermelho, o que fazia tio Ângelo sorrir divertido, não pelo duplo sentido do nome, mas pelo fato de chamarem de estância suas poucas braças de terra.

Dele guardo minha primeira lembrança histórica. Na manhã do dia 25 de agosto de 1954, eu atrelava o tordilho à aranha que nos levaria, minha mãe e eu, ao colégio, a uma boa légua dali. Ele repechou a coxilha à galope, sofrenou o cavalo na frente de nosso rancho e gritou a meu pai: “Mataram o home”. Não era preciso dizer o nome do homem. Naquele deserto de escassa comunicação, todos sabíamos – até mesmo eu em meus sete anos – de quem se tratava. Duvido que hoje um político consiga aquela adesão universal que teve Getúlio Vargas. Isso em rincões onde a comunicação era quase igual a zero.

Vivíamos em uma sucessão, herdada de meus avós paternos. Meus tios, se bem me lembro, eram 25. Como a sucessão não fora dividida por alambrados, embora a propriedade de cada um fosse curta, tínhamos a sensação de viver em quadras de sesmaria. Tio Ângelo cercara seu pedaço com capões de eucaliptos, talas, coronilhas e sina-sinas. Lá no fundo daquele retângulo arborizado, ficava o perau.

Mas havia também a Toca da Onça. Volto amanhã ao causo.

 
NO PERAU DO TIO ÂNGELO (III)


Continuo a discorrer sobre os ganhos. Cheguei no tempo das avós, dizia. Lindas, exuberantes, na plenitude de seus sessenta. Sexappealgenárias. Nos dias de meus antepassados, aos quarenta uma mulher já era um caco. Hoje, não mais. Com um surplus. Aos sessenta, uma mulher imagina que está dando a última. E capricha mais do que qualquer jovenzinha.

Sempre graças à Internet, os reencontros foram se multiplicando. Acho que já contei. Ainda este ano, retomei contato com uma namorada de Porto Alegre que não via... há 28 anos. Vem me ver, convidei. E levei-a para Paris, Bruxelas, Barcelona e Madri. Foram dias de muita folgança com a vovó, em todos os sentidos. Curtimos meus restaurantes prediletos naquelas cidades, fui a Bruxelas por só uma noite, só para apresentar-lhe o Metropole, o restaurante que considero talvez o mais lindo da Europa. Muito vinho, muito foie gras, cochinillos y lechales e mais o que vem depois.

Há uns bons dez ou mais anos, eu tivera um reencontro dramático com ela. Fui até aquele bar na casa Mário Quintana, em Porto Alegre. Havia apenas três pessoas no recinto. Eu, ela e mais alguém que não reconheci. Aconteceu então o pior que pode acontecer a um mortal. Lembrava dela, de seus olhos, de seu sorriso cativante, de nossos enlevos. Me deu um branco: não lembrava de seu nome. Não posso abordar essa moça que tanto quis – pensei – e confessar que não lembro como se chama.

Aproximei-me da mesa dela. Vai ver que ela me reconhece e me chama. Mas meus cabelos já não eram negros como as asas da graúna, aliás já nem eram muitos. Uma calva fazia uma ravina em minha cabeça, na testa só restavam alguns fios, que chamo de resistência organizada. Minha barba, antes azeviche, fora branqueada pelas geadas das décadas. Me detive alguns segundos ante a mesa. Ela me olhou com certa curiosidade, mas não me reconheceu. Saí do bar com um sentimento de profunda desolação. Ela não lembrava mais de mim. Eu poderia ter dito: “não lembro teu nome”. Mas tive vergonha. Tudo bem. Em maio passado, fomos à desforra.

Vai daí que, ao voltar da Europa, sempre graças à Internet, reencontro outra amiga, também de Porto Alegre, que também não via... há 28 anos. Vem me ver, convidei. Festa de novo. Ela vive hoje em Salvador. Eu, que tenho ojeriza à Bahia, mais dia menos dia irei para lá. Tivemos intensa correspondência quando vivi em Paris. Em uma de suas cartas – era na época das cartas – me escreveu: “quando estás por perto, sinto menos medo”. É frase que jamais esqueci. É bom saber que uma pessoa não sente medo quando estamos por perto.

Quando julguei que não encontraria pessoa mais longe no tempo, sempre graças à providencial Internet, recebo mail de uma moça de Dom Pedrito. Não cheguei a conhecê-la. Quando fui expulso da cidade, teria uns dezessete anos. Ela tinha nove anos a menos. Mas tinha notícias de mim. Pelo sobrenome, logo a identifiquei. Só podia ser irmã de uma filha de Maria, que eu paquerava quando era presidente da Congregação Mariana. Pasma, leitor: fui presidente de Congregação Mariana. Até hoje tenho aquela fita azul de congregado. Não a fininha, de candidato a congregado. Mas a larga, de congregado mesmo. Confissões e missas todo final de semana. Mais a novena dos cinco sábados e a das nove sextas-feiras. Que me garantem a redenção no momento final. Por mais que eu peque, no último de meus dias estarei salvo. Seguro morreu de velho.

A menina que me escreveu, não cheguei a conhecê-la. Nos conheceremos em breve. Através dela, cheguei à sua irmã, que não via ... há 45 anos. E que vivia, sem que eu soubesse, um pouco em Paris, um pouco no Rio. Passamos a conversar e tem sido muito bom reviver aquela época de adolescência.

Não sei se meus contemporâneos ainda lembram, mas naqueles dias em que não havia televisão, o lazer das cidades do interior gaúcho era o footing na praça. Formavam-se duas correntes de pessoas, girando em sentido contrário. Sei lá porquê, me ocorreu um palíndromo romano: in girum imus nocte et consumimur igni. Se o leitor jovem não sabe o que é palíndromo, basta ler a frase de trás para a frente e entenderá. Traduzindo: giramos pela noite e nos consumimos no fogo. No fogo daqueles olhares ardentes, que se repetiam a cada volta da praça, quando os deambulantes cruzavam de novo uns pelos outros. Como o ritmo da caminhada era sempre o mesmo, o reencontro era sempre previsível. Um pouco antes de rever aqueles olhos, já sabíamos que eles estavam próximos. Todos mantinham uma certa ordem no passeio. Depois de alguns rostos familiares que se repetiam, sabíamos que logo adiante estava o rosto luminoso que queríamos rever.

Eram dias de colégios separados, mulheres em um, rapazes em outro. Éramos espécimes que não nos conhecíamos uns aos outros. Para nós, varões, havia um desafio: “se tens coragem, vai falar com ela”. Certa noite, muni-me de minha escassa coragem e a abordei. Desastre total. Dita a primeira palavra, não encontrei mais assunto. Nem ela. Giramos na noite pela praça, mudos, consumidos pelo fogo, sem dizer sequer uma palavra um ao outro. Terá sido, certamente, a última vez que a encontrei. Hoje, senhores da palavra, retomamos aquele diálogo mudo, que devia ter existido, mas não existiu. Koelet esqueceu de escrever, mas a época das vovós é ótima.

Bueno, quando não esperava encontrar alguém mais longe no tempo, recebo recado de uma terna priminha, a Renée. “Lembras quando cavalgávamos no perau do tio Ângelo?”. Nossa, já lá vai mais de meio século. Mas antes de falar do perau, preciso situar tio Ângelo em sua época e circunstância.

 
BUSH E O ASTRÓLOGO


O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, disse ontem que o fato mais lamentável de seu governo foi a informação equivocada de que havia armas de destruição em massa no Iraque. Agora, falta só convencer o astrólogo Olavo de Carvalho e os redatores do Mídia sem Máscara de que não havia armas de destruição em massa no Iraque. Não vai ser fácil.

Segunda-feira, Dezembro 01, 2008
 
NO PERAU DO TIO ÂNGELO (II)


Falava ontem de perdas. Vamos aos ganhos. Vida não é só perdas. A história é um pouco longa e o perau do tio Ângelo fica pra mais adiante. Bueno – como decímos allá en la frontera – um dia saímos a gauderiar pelo planetinha e os encontros mais insólitos são inevitáveis.

Por onde começar? Acho que por uma sabra muito querida. Encontrei-a em minha primeira viagem rumo à Europa. Eu navegava pelo Eugênio C – que foi desarmado em 1980 – e ela também. O navio tinha três imensos salões de baile, que ficavam desertos durante as tardes. Num deles, o Salone Opala, sempre havia dois leitores, eu e ela. O que ela lia, não lembro. Eu lia Pessoa. Ela a estibordo, eu a bombordo. Com a embardée do barco – aquela oscilação transversal – ela ora estava a dez metros acima de mim, ora a dez metros abaixo. Só uma linha se mantinha fixa, a reta entre nossos olhos. Era linda e mignone. Conversávamos em espanhol, o castelhano dela era áspero, eivado das guturais do hebraico. Quando despediu-se de mim em meu camarote, tive de rir: precisei abaixar-me para beijá-la.

Trocamos correspondência por algum tempo. Mais de três décadas se passaram. Já vivíamos dias de Internet. Eis que em um belo dia entre os dias recebo uma mensagem sua. Relembramos nossos dias de Eugenio C. Veio visitar-me há uns quatro anos. Sempre baixinha, mas ainda mais linda. Judia, mas não fanática. Conversando com ela, parecia-me estar conversando com Israel e toda sua história. "Não sou ortodoxa, gosto de tudo que é bom na vida". Eu também.

Numa dessas travessias, encontrei um excelente amigo, o poeta canarino Chano Sosa. Falou-me tanto de sua ilha, a Gran Canária, que não resisti. Fui um dia até lá conhecê-la. Não tinha o endereço dele, só sabia que vivia em Agaete. Fui – fomos, eu e minha Baixinha – até Agaete. Como encontrar o homem? Simples. Fui até a praça da aldeia e abordei um chofer de táxi: “y Chano, donde vive?”

- Pues – me respondeu o taxista – después de viejo el hombre decidió estudiar. Vive ahora em Laguna, en Tenerife. Ora, meu rumo era outro. Fui para Lanzarote, a mais fascinante das Canárias. Trezentos vulcões e metade deles ativos. Há um restaurante – juro! – onde a carne é assada ao calor das lavas. Escolhi um hotel numa praia que me pareceu simpática. Mal cheguei no hotel, já havia um recado para mim. O taxista de Agaete se comunicara com o padre da aldeia, em cuja paróquia trabalhava uma sobrinha do poeta, ela falou com Laguna, em Tenerife, Chano intuiu que eu cairia naquele hotel e retornou para Lanzarote. Assim nos encontramos. Tomamos muito vinho de Lanzarote em Laguna e alguns anos depois mais alguns Riojas em Barcelona. Perdi o Chano por algum tempo. Aí de novo entra a Internet. Ele me achou e continuamos um diálogo há décadas interrompido.

Com Chano encontrei outro canarino, de profissão insólita. Era escultor de montanhas. Via uma montanha sem formas muito definidas, a enchia de dinamite e esculpia rostos de guanches. Com este, perdi contato. Havia sido sacerdote e soldado da Legião Estrangeira. Outro poeta, a seu modo. Encontrei ainda um professor universitário e arabista refinado, cuja pança proeminente lembrava o Teide, vulcão que sobe como um furúnculo sobre Tenerife. Arabista, mas sua pedra de toque era o Martín Fierro. Encantava platéias naquelas ilhas recitando as coplas de Hernández. Mas não foi isto o que me impactou no professor. E sim quatro jovenzinhas universitárias, debruçadas sobre aquele Teide rotundo. O que me fez concluir: o homem não é apenas carne. O que conta é o espírito. Sempre que sobrevôo Tenerife durante o dia, sinto um nó na garganta ao divisar o Teide. E lembro de meu amigo arabista e daquelas quatro meninas lindas.

Lembro também do sancocho. Mas isto fica para mais adiante.

Quem mais? Ah, uma amiga peoniana, da terra de Alexandre, o Grande, e tão árdega quanto Alexandre. Estudava literatura comigo na Sorbonne Nouvelle e nossos olhos estabeleceram aquela mesma reta que eu mantinha com a sabra no Eugenio C. Era líder das Juventudes Comunistas na Iugoslávia. Eu, anticomunista ferrenho. Mas que se vai fazer diante de uma comunista adorável? Havia entre nós um problema de linguagem. As eslavas, quando querem dizer não, balançam verticalmente o rosto. Quando querem sim, balançam o rosto horizontalmente. Ora, eu fazia as mais excitantes propostas e só recebia um sinal, aquela boca e aqueles olhos lindos balançando horizontalmente. Ela não quer, pensava eu. Nada disso. Ela queria. Longa é a jornada de um gaúcho até o entendimento.

Certo dia, a desafiei: “és uma catolicona”. Não era. Eu é que entendia mal seus sinais. Ela vivia na Cité Universitaire. “Então vem cá, vou te mostrar quem é catolicona". Fui. Só então entendi a gesticulação dos eslavos. O que me foi de muita valia, mais tarde, na Rússia. Mas isto já é outra história.

Ela voltou para sua terra, eu para a minha. Antes disso, fui visitá-la em Skopje. Dali partimos para Mljet, uma ilha de nudismo na costa croata. Alguns anos mais tarde, marcamos um encontro em Veneza, no Florián, na Piazza San Marco. Era um domingo glorioso, seriam umas dez da manhã. Sentei na terrasse do café deserto. Mal sentei, uma orquestra de cordas e metais ergueu-se atrás de mim e atacou Vivaldi. Estou fodido, pensei. Estava mesmo. Paguei, há mais de vinte anos atrás, dez dólares por um cafezinho. Mas valeu. Ela chegou, radiosa e cheia de sol.

Passamos dias divinos em Veneza. À noite, nos perdíamos na cidade, caíamos a toda hora à borda de um canal, sem encontrar nosso hotel, muito menos viva alma para pedir uma informação. Daquelas deambulações rumo ao desconhecido, ficou-me uma lembrança marcante, o chiado de nossos passos na noite silente. Conversando mais tarde com pessoas que por lá andaram, soube que este chiado também as marcou.

Bom, ela casou, teve filhos, perdemos contato. Ainda há pouco, graças à divina Internet, recebo e-mail de minha peoniana. “Estou aqui”. Eu também. Qualquer dia volto àquelas plagas.

“Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu” – diz o Eclesiastes. - "Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar; tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar; tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar; tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora; tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar; tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz”.

Parafraseando o Koelet, ajunto: há o tempo das filhas e há o tempo das mães. Depois do tempo das mães, advém o tempo das avós. Estou chegando lá. Está sendo ótimo. Mais adiante volto ao perau.