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¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV
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Tiragem
Janer Cristaldo escreve no Página Não-Oficial de Janer Cristaldo Arquivos 10/01/2003 - 11/01/2003 12/01/2003 - 01/01/2004 01/01/2004 - 02/01/2004 02/01/2004 - 03/01/2004 03/01/2004 - 04/01/2004 04/01/2004 - 05/01/2004 05/01/2004 - 06/01/2004 06/01/2004 - 07/01/2004 07/01/2004 - 08/01/2004 08/01/2004 - 09/01/2004 09/01/2004 - 10/01/2004 10/01/2004 - 11/01/2004 11/01/2004 - 12/01/2004 12/01/2004 - 01/01/2005 01/01/2005 - 02/01/2005 02/01/2005 - 03/01/2005 03/01/2005 - 04/01/2005 04/01/2005 - 05/01/2005 05/01/2005 - 06/01/2005 06/01/2005 - 07/01/2005 07/01/2005 - 08/01/2005 08/01/2005 - 09/01/2005 09/01/2005 - 10/01/2005 10/01/2005 - 11/01/2005 11/01/2005 - 12/01/2005 12/01/2005 - 01/01/2006 01/01/2006 - 02/01/2006 02/01/2006 - 03/01/2006 03/01/2006 - 04/01/2006 04/01/2006 - 05/01/2006 05/01/2006 - 06/01/2006 06/01/2006 - 07/01/2006 07/01/2006 - 08/01/2006 08/01/2006 - 09/01/2006 09/01/2006 - 10/01/2006 10/01/2006 - 11/01/2006 11/01/2006 - 12/01/2006 12/01/2006 - 01/01/2007 01/01/2007 - 02/01/2007 02/01/2007 - 03/01/2007 03/01/2007 - 04/01/2007 04/01/2007 - 05/01/2007 05/01/2007 - 06/01/2007 06/01/2007 - 07/01/2007 07/01/2007 - 08/01/2007 08/01/2007 - 09/01/2007 09/01/2007 - 10/01/2007 10/01/2007 - 11/01/2007 11/01/2007 - 12/01/2007 12/01/2007 - 01/01/2008 01/01/2008 - 02/01/2008 02/01/2008 - 03/01/2008 03/01/2008 - 04/01/2008 04/01/2008 - 05/01/2008 05/01/2008 - 06/01/2008 06/01/2008 - 07/01/2008 07/01/2008 - 08/01/2008 08/01/2008 - 09/01/2008 09/01/2008 - 10/01/2008 10/01/2008 - 11/01/2008 11/01/2008 - 12/01/2008 12/01/2008 - 01/01/2009 01/01/2009 - 02/01/2009 02/01/2009 - 03/01/2009 03/01/2009 - 04/01/2009 04/01/2009 - 05/01/2009 05/01/2009 - 06/01/2009 06/01/2009 - 07/01/2009 07/01/2009 - 08/01/2009 08/01/2009 - 09/01/2009 09/01/2009 - 10/01/2009 10/01/2009 - 11/01/2009 11/01/2009 - 12/01/2009 12/01/2009 - 01/01/2010 01/01/2010 - 02/01/2010 |
Sábado, Fevereiro 28, 2009
COMISSÁRIO DO POVO E DEMAIS MINISTROS DESMORALIZAM STF Tarso Genro, doublé de ministro da Justiça e capitão-de-mato, aquele mesmo ministro que deu acolhida a um terrorista italiano e mandou de volta para a ditadura cubana dois boxeadores que jamais assassinaram alguém e buscavam asilo no Brasil, afirmou ontem que, "do ponto de vista do ministério, temos consciência de que essas violações de propriedade privada são questões de ordem pública, de responsabilidade dos Estados, da polícia estadual e da Justiça estadual". Responsabilidade do ministério, pelo jeito, é dar abrigo a terroristas estrangeiros. Comentei ontem que era esperada a manifestação urgente do comissário do povo Tarso Genro. Não se fez esperar muito. Como não podia negar que é crime financiar o crime, saiu pela tangente, como costuma fazer. “Não é de competência da União fazer policiamento ostensivo repressivo" – afirmou. Ou seja, há uma guerrilha católico-comunista organizada, treinada e aguerrida, cometendo crimes país afora, e a União não tem nada a ver com isso. Sobre os repasses de recursos financeiros pela União a movimentos sociais, o ministro disse que cabe a análise da CGU (Controladoria Geral da União) e do Tribunal de Contas. Ou seja, caso de polícia agora é de competência da CGU e do TC. Comentando as declarações do presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Gilmar Mendes, que, ao classificar as invasões de terras públicas e privadas de "ilegais", Tarso disse – serenamente, como se o governo nada tivesse a ver com o assunto - que o governo não pode disponibilizar seus recursos para qualquer entidade ligada a invasões, sob pena de ser responsabilizado por esses atos. "Se tiver alguma irregularidade que envolva órgãos federais, é remetida para a PF realizar o inquérito. Então, nós recebemos com normalidade a manifestação do presidente do Supremo Tribunal Federal, e não temos nenhum comentário de conteúdo a fazer sobre elas", disse o petista. O que encerra o assunto, pelo menos no âmbito do governo. O ministro afirma que é crime financiar o crime, Tarso admite que o governo deve ser responsabilizado por seus atos caso disponibilize recursos para qualquer entidade ligada a invasões e fim de papo. Até parece que o MST jamais invadiu terras no país. Na Folha de São Paulo de hoje, demais vestais do Planalto manifestam veladamente seu desagrado com o ministro que disse que o rei está nu. Mas em momento algum entram no mérito da questão. Em Florianópolis, Dilma Rousseff, da Casa Civil, disse que o governo age dentro da lei ao transferir verbas às organizações e que aguarda manifestação "formal" do Judiciário sobre eventuais entidades que recebem recursos públicos e estão envolvidas em invasões. Eventuais entidades – diz a candidata ao governo em 2010 – que recebam recursos públicos e estejam envolvidas em invasões. Como se a ministra desconhecesse quais são tais entidades. Já para o ministro Guilherme Cassel, do Desenvolvimento Agrário, "não existe ilicitude abstrata. É preciso saber se a ilicitude é referente a qual contrato, a qual convênio, a qual repasse, pra que a gente possa corrigir". Preferiu nem comentar o pronunciamento do ministro do STF, que disse que a ilicitude está em financiar o ilícito. Como se as ilicitudes não fossem absolutamente concretas e de conhecimento geral da nação. Para o ministro Paulo Vanucchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, o MST não deve ser criminalizado em razão das mortes ocorridas após a invasão de uma fazenda em Pernambuco. Seria interessante saber quem deve ser criminalizado. Certamente os proprietários da fazenda invadida, que resolveram matar seus seguranças. "Movimento social tem que ser equacionado sempre com diálogo". Ou seja, basta um grupo de bandoleiros definir-se como movimento social e está ao abrigo de qualquer sanção penal. A afirmação de Gilberto Mendes tem duas premissas. A primeira: é crime financiar o crime. Segunda: invadir terras é crime. A primeira, o governo até pode, teoricamente, aceitar. A segunda, jamais. Neste Brasil incrível, em pleno século XXI, chega a causar escândalo afirmar que invadir terras é crime. O governo Lula sente-se acima da lei, senta-se em cima da lei e desmoraliza o Judiciário ao negar que crime seja crime.
Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009
O TUMOR SUMIU Tenho leitores que adoram ler sobre minhas andanças, leituras, amigas e vinhos. É como se eu vivesse um pouco por eles. A estes, trato com muito carinho e sempre procuro incitá-los a viajar. Mas há também os azedos. Aqueles que, à menor manifestação minha de felicidade, tornam-se ácidos. São ora fanáticos religiosos, ora simples invejosos. Tipo aquele personagem do Pessoa: Toda a alegria me gela, me faz ódio. (...) Sinto em mim que a minha alma não tolera Que seja alguém do que ela mais feliz; O riso insulta-me, por existir; Que eu sinto que não quero que alguém ria Enquanto eu não puder. Curiosamente, estes são meus mais fiéis leitores. Eles adoram curtir aqueles “dois minutos de ódio” diários, dos quais falava Orwell, em 1984. Não perdem uma só de minhas crônicas, nem a mínima ocasião de insultar-me. Como pode aquele ateu ter vida tão boa? Como pode aquele reacionário ter degustado tantos vinhos, freqüentado tantos restaurantes mundo afora? Esquecem que boa vida não depende de crenças e viajar implica freqüentar restaurantes. Não ligo. Não vou passar mal só para que eles se sintam bem. Tenho e tive momentos difíceis em minha vida, momentos que este tipo de leitor adoraria ler. Não vou dar-lhe este prazer. Minhas atribulações não interessam a ninguém. Nestes dias em que escritores exploram a doença dos próprios filhos para ganhar prêmios e páginas na imprensa (a síndrome de Down ainda vai virar gênero literário), em que pacientes terminais expõem suas dores em jornais e vendem suas mortes na televisão, eu até poderia usar mão destes recursos para comover o leitor. Não é de meu feitio. Prefiro cantar a vida. Passado o temporal, posso até falar no assunto. Como falarei agora. Começou no Natal passado. De início parecia uma simples dor de garganta, que me acometia sempre ao amanhecer. Ora, não vou procurar médico por uma dorzinha de garganta, pensei. De meu passado camponês, herdo um vício que pode ser letal: só busco médico quando a dor incomoda muito. Ou quando sinto que estou morrendo. Assim sendo, fui deixando. Mas a dor, apesar de perfeitamente tolerável, persistia. Meio que por milagre, tomei uma decisão. Afinal, não custava nada procurar um otorrino. Fui lá. A moça não soube diagnosticar a coisa. Pensou em pênfigo, palavrinha que eu jamais tinha ouvido. Encaminhou-me a uma estomatóloga. Ela deu o mesmo diagnóstico. Fiz então o que não aconselho a ninguém fazer: fui procurar a palavrinha no Google. Passei por várias variantes da doença e acabei caindo numa, o fogo selvagem. Procurei imagens e quase tive um chilique na frente da telinha. Vi corpos consumidos pelas chagas, pessoas mais em carne viva do que em pele. Não pode, pensei. Isto é uma simples dor de garganta. Melhor fosse câncer. Fiz biópsia. Não deu outra. Carcinoma de palato. Mas no laudo vinham duas palavrinhas mágicas em latim: in situ. Ou seja, localizado. Sem nódulos nem metástases. Mesmo assim minhas médicas não estavam acreditando muito no que viam. Fui enviado a outro profissional do qual também jamais havia ouvido falar: cirurgião de cabeça e pescoço. Ele pediu um segundo exame de laboratório. Conferiu: carcinoma de palato. De novo, in situ. Pouco me abalei. Aquelas duas palavrinhas mágicas me confortavam. Nunca foi tão bom ouvir uma língua morta. Primeira providência: conclamei a Primeira-Namorada para um almoço comme il faut, para comemorar meu presentinho de Natal. Regado com um excelente carménère da Cordilheira. Carménère, a meu ver, combina com carcinoma. Se não rima, pelo menos alitera. Só depois fui tratar de tratar-me. Para o cirurgião de cabeça e pescoço, eu teria de parar de beber por um ano. Um ano, Dr? Um ano é muito. Não dá pra negociar? Bom, cerveja pode. Já melhorou. Mas meu fraco é vinho. Bom, vinho também pode. O que não pode é uísque. Maravilha, pensei. Por uísque, entendi destilados. Ficar sem destilados por um ano não é afinal uma tragédia. Fui então encaminhado a um oncologista. O oncologista foi radical: durante o tratamento, nada de álcool. Como criança pedindo doce, levantei timidamente o dedinho: nem uma cervejinha, Dr? Nem cervejinha. Mas o período de abstinência às boas coisas da vida já era menor: durante o tratamento. Que começaria dali a duas semanas. Bem entendido, isto foi suposição minha. Considerava que, enquanto não começasse a radioterapia, eu não estava em tratamento. Preferi não entrar em detalhes. Certas perguntas, melhor não fazer. Enquanto médicos e físicos estudavam a estratégia das radiações, convoquei a Primeira, mais amigos e amigas, para festejar com carménères, malbecs, neros d’ávola, regalealis. Com esporádicos acenos ao Ballantines. Os melhores amigos, nunca sabemos quando vamos reencontrar. Nos primeiros dez dias, foi um passeio no bosque. A partir daí, começaram os pepinos. Dificuldades iniciais para mastigar até total impossibilidade de mastigar. Sensação constante de ter mordido pimenta das bravas. Por vezes, parecia que um incêndio fora deflagrado em minha boca. Almoço, já nem lembro o que seja. Tenho vivido de sopas, sorvetes, iogurtes, ovos mexidos, suplementos, coisas assim. É também uma boa ocasião para visitar um francês e pedir uma île flottante. A sobremesa cai bem, passa pela garganta sem rasgá-la. Ironias da vida. Eu, que estava deplorando a ausência de bebida, agora não suportava nem mesmo a comida. Fora isso, vida normal. Contei a coisa apenas a meus amigos e amigas mais íntimos. Houve pessoas de vários quadrantes querendo visitar-me. Proibí terminantemente qualquer visita. Só o que faltava visitar-me para me ver tomando sopinhas com Kronenbier. Amigas, de jeito nenhum! Vinho sem mulher passa. Mulher sem vinho não tem graça. Quero todos e todas aqui – afirmei então – para celebrar a cura e a bona-chira. Estou contando tudo isto não para comover platéias, muito menos para agradar aqueles leitores iracundos tipo o personagem de Pessoa. “Com que alegria minha, cairia um raio entre eles!” – dizia a propósito das pessoas que se sentem felizes. Bom, o raio não caiu e a tempestade passou. No início da semana, o médico que coordena a equipe que me trata olhou-me fixamente, não no fundo dos olhos, mas no fundo da garganta. E disse: “A lesão sumiu”. Sem acreditar muito no que ouvia, perguntei: como é mesmo, Dr? Ele repetiu: “o tumor. O tumor sumiu”. Enfim, o tratamento ainda continuará por alguns dias, mas agora as radiações se tornaram bem mais suportáveis. Poderia cacarejar como Paulo: “Ó câncer, onde está tua vitória?” Não cacarejo, não! Sei que meu caso é banal e foi constatado a tempo. Há ainda muita água sob a quilha e nunca se sabe o que vem pela frente. Em suma, escrevo para compartilhar com leitores minha alegria. Há palavras lindas de se ouvir na vida, tipo eu te adoro, te quero bem, me aperta com força, me beija, fica só um pouquinho mais. Mas ouvir algo como “o tumor sumiu” faz mais bem à alma que muita declaração de amor. Em breve volto aos trabalhos de bar. Tim-tim, leitor!
ÓBVIO IRRITA PLANALTO Comentei ontem a insólita afirmação do ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, que afirmou que financiar o ilícito é também uma ilicitude. O ministro classificava ainda como ilegais as invasões do MST. Finalmente uma alta autoridade do Judiciário descobria o óbvio. O primeiro a se coçar foi – et pour cause – o governo, um dos grandes financiadores da guerrilha católico-comunista. Leio no Estadão de hoje que assessores do Planalto consideraram inadequada a atitude do ministro. Qualificaram como descabido o fato de Mendes opinar fora dos autos. Ora, o ministro não estava exatamente opinando fora dos autos. Estava apenas enunciando um princípio geral de Direito. Se financiar o ilícito não é também ilícito, então posso contratar quem quiser para eliminar um desafeto e não estou cometendo crime nenhum. O paralelo pode parecer chocante, mas é isso mesmo. O fato é que, nas esferas do atual poder, há muito deixou-se de considerar crime a invasão de terras ou prédios pelos ditos “movimentos sociais”. Se é movimento social, pode invadir à vontade. O que não pode é invadir por razões individuais. Se você invadir o campo de seu vizinho por achar que precisa de mais espaço para seu gado, é óbvio que estará comentendo um crime. Mas se invadir em nome do MST, está apenas reivindicando o bom direito. Há muitos crimes no Brasil que há muito deixaram de ser crimes. Entre estes, o aborto ou o uso de drogas. Estima-se em um milhão o número anual de abortos no país. Será que a polícia ignora onde se situam as clínicas que praticam um milhão de abortos? Ou uma rave. Todo mundo sabe, desde à polícia até os pais que financiam seus filhos, que não se concebe rave sem drogas. Mas todo mundo faz que não vê e estamos conversados. Se para o Planalto é descabido afirmar que financiar o crime é crime, mais um pouco e não será crime financiar o tráfico de drogas. Passará a ser algo tão simples, justo e legal como investir na Bolsa. Para o governo, contra toda a lógica, não há ilegalidade no repasse de recursos para o Movimento dos Sem-Terra (MST). Assessores palacianos lembram que, no passado, quando houve denúncia semelhante, estudos feitos pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário não detectaram repasses irregulares. Ora, não é que os repasses sejam irregulares. Que eles são regulares, disto sabemos. Mas regular não é sinônimo de legal. Tanto o governo como as ONGs internacionais que financiam o MST estão financiando bandoleiros que fazem do crime uma bandeira. Já a cúpula do Congresso endossou as críticas de Gilberto Mendes ao financiamento público dos sem-terra. Para os presidentes do Senado e da Câmara, José Sarney e Michel Temer , o Poder Judiciário deve coibir ilegalidades quando houver desrespeito à Constituição. Mais duas antas descobrindo a América. Para o advogado Patrick Mariano, porta-voz da Associação Nacional de Cooperação Agrícola (Anca), Mendes "usa o cargo de magistrado para fazer política. Isso é arriscado para a democracia. Afinal, o que se pode esperar de um magistrado que se manifesta politicamente a respeito de uma questão, que mais tarde será julgada por ele? O que se espera de um juiz é imparcialidade e serenidade". Ora, Mendes não estava fazendo política. Tampouco estava se manifestando politicamente a respeito de questão alguma. Estava apenas enunciando um postulado elementar do Direito: é crime financiar o crime. Mariano também lembrou que não foi a primeira vez que Mendes investiu contra o MST. "No discurso de posse ele já havia atacado o movimento". Como afirmei ainda ontem, tudo não passará de um arroubo de retórica, um sonho de uma noite de verão. Ficará o dito pelo não-dito e o governo continuará financiando serenamente a bandidagem. Para poupar o Supremo Apedeuta de um pronunciamento, os áulicos do Planalto já tomaram a iniciativa de desqualificar o ministro. Isto não é coisa que se diga. Ainda mais quando quem a diz é um dos mais altos magistrados da nação. Espera-se a manifestação urgente do comissário do povo Tarso Genro. Mais um pouco, e ilícito será afirmar que é ilícito financiar o ilícito.
Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009
AINDA MOZART NA ÁFRICA (III) De Francisco José de Queiroz Pinheiro, recebo: Boa noite, Janer A associação do subdesenvolvimento geral das nações negras africanas com deficiências da raça é inevitável. O Haiti e o Zimbábue são os exemplos extremos: de colônias razoavelmente produtivas passaram a países caóticos após a independência. Mas não acho que isso demonstre uma inferioridade inata da raça. Stephen Jay Gould dedicou um livro inteiro a esse tema. Nada encontrou. Todas as diferenças podem ser atribuídas inteiramente ao clima. Evolucionariamente, é improvável que os indivíduos mais hábeis da espécie tenham abandonado o continente africano e formado grupos mais evoluídos em outras regiões. O contrário, que os mais fortes e adaptados tenham ficado, é muito mais provável. O que eu acho que explica o subdesenvolvimento congênito das nações negras, Janer, é o isolamento e inclemência extremos do continente africano, com suas secas, doenças e animais selvagens. Na África, até formiga mata. A economia torna-se incapaz de gerar excedentes. Na amena Europa, o animal mais feroz era o lobo, que logo ficou amigo do homem. Mas o isolamento, a falta de contato com outras civilizações, deve ter sido o fator mais determinante. Na Europa, houve a transmissão de diversas culturas antigas, como a egípcia, a mesopotâmica, a semita, que vieram através da Grécia e da Roma antiga. Nada porém chegava à África, que permaneceu tribal e iletrada por séculos. Hoje, na era das comunicações, há sinais razoavelmente fortes de nações viáveis. Angola, Nigéria, África do Sul e outras, certamente. Bom, pelo menos é essa a minha opinião, sem deixar de registrar minha admiração por um articulista que não tem medo de enfrentar o touro só com as unhas. Salve, Francisco! A questão é complicada. De fato, há o fator geografia. Mas também se vê que, numa mesma geografia, o negro continua em inferioridade cultural. Creio que as afirmações de James Watson não podem ser deixadas de lado, sem mais nem menos. O problema é: se algum dia se concluir definitivamente que negro de fato é menos inteligente, isso não pode deixar de ser dito, em nome do politicamente correto. Por isso aventei a hipótese de que se Watson tivesse afirmado, contra todas as evidências: AFRICANO É MAIS INTELIGENTE, ninguém o acusaria de racismo, nem universidades e instituições estariam cancelando suas palestras.
MINISTRO DESCOBRE AMÉRICA Alvíssaras! Finalmente uma alta autoridade do Judiciário reconhece que financiar o crime é crime. Leio nos jornais que o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, se pronunciou ontem sobre a recente onda de invasões de terras deflagrada por movimentos sociais em São Paulo e Pernambuco. Para o ministro, o financiamento de tais movimentos com dinheiro público é crime com sanções previstas na lei. Quem diria! Até hoje os sem-terra têm invadido fazendas com a nonchalance de quem faz um piquenique. Em vários Estados e municípios, contam com a cumplicidade dos governos, que se recusam inclusive a fornecer força policial para cumprir ordens judiciais de desocupação da área invadida. É só chegar, com gadanhos, foices e facões – esses curiosos instrumentos de trabalho da agricultura moderna – e mandar o proprietário passear. Se o proprietário reage, é considerado criminoso. Se contrata seguranças, os seguranças não são seguranças, mas jagunços. Há alguns anos, um investidor estrangeiro que resolveu abandonar a pecuária no Brasil, manifestava seu espanto: “Que país é esse onde alguém invade minha casa e eu tenho de recorrer a um juiz para tirá-lo de lá? “ O que era um mero caso de polícia, tornou-se uma affaire do Judiciário. Onde se viu expulsar um invasor de propriedades com polícia? Primeiro é preciso ouvi-lo, considerar suas razões para a invasão e depois, só depois, pensar em retirá-lo da propriedade invadida. Mesmo assim, há prefeitos e governadores que dão a uma ordem judicial menos importância que a um papel higiênico. O fato é que as invasões do MST só existem no Brasil porque têm, no fundo, a complacência do governo federal. Gilmar Mendes classificou as invasões como "ilegais" e disse que o governo não pode disponibilizar recursos para nenhuma entidade ligada a esse tipo de crime. "Há uma lei que proíbe o governo de subsidiar esse tipo de movimento. Dinheiro público para quem comete ilícito é também uma ilicitude. Aí a responsabilidade é de quem subsidia", afirmou o ministro. Muito bem! Quem tem subsidiado o movimento dos sem-terra? Fora uma miríade de ONGs estrangeiras, o próprio governo federal, que financia até o pagamento de professores de escolas para os filhos dos sem-terra, destinadas à formação de novos guerrilheiros católico-comunistas. A junção desta duas palavras pode parecer paradoxal. Mas o fenômeno existe. Para o magistrado, as recentes invasões em São Paulo e Pernambuco extrapolam o limite da legalidade. "Os movimentos sociais devem ter toda a liberdade para agir, manifestar, protestar, mas respeitando sempre o direito de outrem. É fundamental que não haja invasão da propriedade privada ou pública", ressaltou. Pergunta a quem interessar possa: quem vai denunciar o governo federal? Quem irá acusar os governantes locais que sempre foram lenientes com bandoleiros? Há mais de vinte anos, apoiados pela Igreja Católica e subsidiados pelo governo, os sem-terra têm tomado fazendas, improdutivas ou produtivas, têm invadido e saqueado bancos e delegacias, têm depredado laboratórios de pesquisa e ocupado próprios da União. Apesar dos contínuos apelos à Justiça, por parte dos proprietários lesados, foram necessárias duas décadas para que um ministro do Supremo viesse a público para afirmar que invadir é crime e financiar invasões também. O ministro descobriu a América. Só que de nada servirá tê-la descoberto. Foi apenas um arroubo de retórica, um sonho de uma noite de verão, que amanhã mesmo terá sido esquecido.
Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009
SAUDADES DAS CARNES TOLLENDAS Duvido que o fim do carnaval entristeça alguém mais do que eu. Nem o mais entusiasta dos foliões deve sentir tantas saudades da festa. Explico. Sou obcecado por etimologias. Subscrevo um site espanhol que todos os dias me envia uma palavra. Desta vez foi carnaval. Que já aparece no Diccionario de Nebrija, em 1495, no qual é definido: Carnaval o carnes tollendas: carnis priuium, ou seja, privação da carne. Tollendas, do latim tollere (abandonar). De nada adiantou. Nos carnavais brasileiros, pelo menos o que mais se tem é carne. Não a bovina, por certo, mas uma outra carne também atraente e da qual ninguém se priva. Até aí, nada de novo. Curiosa é a definição proposta para o evento: “Alguns antropólogos disseram que o Carnaval é uma festa de inversão social, na qual os pobres se sentem ricos e os poderosos trabalham ao serviço dos habitantes dos bairros mais pobres. De acordo com esta tese, a inversão social funciona como uma válvula de escape que alivia tensões sociais e permite a manutenção do status quo. Isto é particularmente verdadeiro no carnaval do Rio de Janeiro, onde não é raro ver um empresário ou diplomata empurrando um carro alegórico, do alto do qual um favelado saúda majestosamente o público, vestido de imperador romano ou de um deus grego”. A tese, como toda tese de antropólogos, tem um ranço marxista e é tão antiga quanto o marxismo. Nos carnavais de hoje, pobre nem consegue entrar. No Rio, as fantasias repletas de plumas, paetês e esplendores custam, em média, entre R$ 250 e R$ 800. Um abadá, em Salvador, sai de R$ 60 a 360. Bem entendido, não estamos falando das fantasias dos destaques das escolas, de cujos preços não tenho idéia, mas certamente não estão ao alcance de qualquer mortal. Suponho que seja algo a partir dos sete dígitos. Se antes, do alto de um carro alegórico um favelado saudava majestosamente o público, hoje o alto do carro só é freqüentado por estrelas do show business. O carnaval, como festa popular, há muito tempo morreu. O que existe hoje é uma indústria poderosa, que tem mais em vista o turista endolarado do que o folião nacional. Também nisto não há nada de novo. O curioso é constatar que quem transformou o carnaval em indústria, foi um líder de esquerda, nada mais nada menos que Darcy Ribeiro. Com seu sambódromo no Rio, excluiu do carnaval o povão. O sambódromo carioca fez escola, e hoje cada capital quer ter o seu. Se antes era só seguir o bloco, hoje paga-se para vê-lo passar. O carnaval foi confinado a uma espécie de estádio. Os ingressos podem ser comprados pela Internet. Há blocos com mais suecos e alemães do que com crioulos, afinal eles pagaram seus lugares e fantasias nas escolas. Há navios de cruzeiros atracando na baía. Seus passageiros descem aos magotes, desfilam e voltam ao conforto do barco. Talvez seja o carnaval voltando às suas origens. Porque carnaval não tem suas origens na África negra, como pensa muita gente. Carnaval nasceu em Roma. Originalmente, é festa de brancos. Ok! Você sempre pode sambar no boteco da esquina ou nos blocos de rua. Sem pagar um vintém. Mas lá onde estão as deusas, os carros alegóricos, os grandes desfiles, lá é lugar de quem pode pagar e pagar bem. Resta-lhe também assistir ao carnaval pela televisão. O que, a meu ver, é bem mais inteligente. Tem-se uma visão de conjunto que não se tem em camarote algum em cima da pista. Mas os desfiles tornaram-se uma monótona sucessão de coisas iguais. Aposto que se a televisão transmitir um carnaval de dois ou três anos atrás como se fosse o de hoje, somente os especialistas da área perceberiam a coisa. Em anos passados, por vezes dediquei uns dez minutos para dar uma olhadela nas escolas. Este ano, não vi sequer uma nesga de carne na telinha. Esqueci de ligar. Festa popular ou indústria, nunca gostei de carnaval. Em minhas seis décadas de existência, nunca fui a nenhum baile ou desfile. Não que a festa me desagrade. É meu asco às multidões. Talvez asco não seja a palavra adequada. Mas medo. As multidões me amedrontam. Mas adoro o carnaval de São Paulo. A cidade fica vazia e, pelo menos no bairro em que moro, não se houve som nenhum de batucada. É como se o carnaval não existisse. Foi o Vinícius, creio, que disse que São Paulo é o túmulo do samba. De fato, é. Por isso adoro o carnaval paulistano. Daí porque lamento o fim das carnes tollendas. Hoje, “eles” começam a voltar. Voltam à cidade, que estava tão silenciosa e agradável, 1,7 milhão de carros. O que deve dar, por baixo, uns quatro milhões de pessoas. Acabou a São Paulo aprazível, que emerge a cada feriadão. Nesta quarta-feira de cinzas, o que mais almejo é carnaval de novo.
AINDA MOZART NA ÁFRICA (II) Do Humberto Quaglio, recebo: Olá Janer, Acompanhando em seu blog o tema inteligência, raça e cultura, lembrei-me de um artigo muito interessante publicado na Scientific American de 28 de novembro de 2007: http://www.sciam.com/article.cfm?id=the-secret-to-raising-smart-kids . A idéia central deste artigo, que se baseia em uma pesquisa, é a de que a ênfase no esforço é mais determinante para o bom desempenho intelectual do que a inteligência inata, ou QI. Se uma criança é estimulada a pensar que deve sempre se esforçar por aprender mais, por se aprimorar, por desenvolcer a própria inteligência, ela pode vir a ter mais sucesso nos estudos, na vida escolar ou acadêmica, do que uma criança cuja inteligência superior inata é apenas elogiada, ou mencionada, mas que não é estimulada a dar importância ao esforço intelectual. Acho que isto é razoável. Se colocarmos uma criança muito inteligente para ser criada em um lar no qual os adultos só dão atenção a novela e futebol, só ouvem "funk" e outros ruídos desagradáveis do mesmo gênero, e onde a única leitura existente é anúncio de oferta de supermercado, não creio que tal criança terá um desenvolvimento mental significativo. Igualmente, se colocarmos uma criança de inteligência mediana em um lar onde a boa cultura é estimulada, onde se dá importância à boa leitura e aos estudos, possivelmente seu desenvolvimento intelectual será bom. Na minha limitada cosmovisão, a idéia de que o meio não possui nenhuma influência sobre a inteligência é tola. Mais que isso, asinina. Da mesma forma, a idéia de que apenas o meio determina a inteligência ou o desenvolvimento intelectual de uma pessoa é igualmente tola. Para mim, é bastante óbvio que há pessoas que nascem mais inteligentes que outras, há crianças que, recebendo o mesmo estímulo, a mesma criação, possuem inteligências desiguais, capacidades cognitivas diferentes. Há quem aprenda com mais facilidade. Mas pensar que apenas um ou outro fator é absoluto, ou seja, que apenas a inteligência inata, a genética, ou o meio, vão determinar a inteligência de um indivíduo, é tolice. Tomemos como exemplo as crianças orientais desnutridas criadas por pais americanos, mencionadas em seu blog. Se separarmos tais crianças em dois grupos, e sanarmos a desnutrição em um deles, será que as médias de inteligência permanecerão as mesmas? Penso que isso seria pouco provável, e que as mais bem nutridas teriam uma média de inteligência superior. Desnutrição prejudica a inteligência. Isto me parece bastante óbvio e uma boa alimentação é um fator ambiental, não um fator genético. Quanto à questão das raças, e das pesquisas sobre a inteligência média de cada uma delas, também desprezo essa sandice politicamente correta de que não se deve fazer pesquisa sobre o assunto. Considero o conhecimento da natureza importante, sem estas limitações tolas de caráter político. Assim, se a ciência corroborar a idéia de que é um fato natural a desigualdade de inteligência média entre as raças, mentir sobre isto por causa de ideologias políticas me parece besteira. Porém penso que uma coisa deve ser levada em conta: o que se mede nestas pesquisas é a média de inteligência entre raças. A média! Ou seja, pode-se concluir que, independentemente da raça, é possível haver indivíduos mais ou menos inteligentes. Suponhamos que constate-se que a inteligência média dos brancos é inferior à dos asiáticos. Isto não significa que todos os indivíduos brancos são menos inteligentes que os asiáticos. Pelo contrário, significa que, mesmo que seja uma minoria, pode haver alguns indivíduos brancos mais inteligentes que alguns indivíduos asiáticos. O mesmo com qualquer outra raça. Assim, pode-se concluir que há negros mais inteligentes que brancos ou asiáticos, mesmo que a inteligência média da população seja diferente. Para mim, isto basta para fundamentar outro aspecto da minha cosmovisão, ou seja, minha opinião de que não se deve prejulgar a inteligência de uma pessoa com base em sua raça, mas sim em seus méritos individuais, mesmo que a raça à qual ele pertença tenha uma inteligência média inferior. Outro coisa que percebo quando me deparo com este assuntro é a confusão que muita gente faz quando discute a idéia de igualdade. Na maioria das vezes, percebo que pouca gente compreende a diferença entre os conceitos de igualdade formal e igualdade material, o que leva as pessoas a um equívoco (no sentido estrito da palavra equívoco, ou seja, chamar, ou considerar, igualmente, coisas diferentes). Muita gente acha que, se é óbvio que as pessoas nascem diferentes, que suas capacidades, seus méritos, suas habilidades, suas virtudes e vícios, bem como suas fortunas, são diferentes, então toda idéia de igualdade é tola. De fato, penso que a idéia de igualdade material é ingênua, tola. Aliás, a idéia de igualdade material é festejada entre os esquerdistas de todo tipo, sejam relativistas, pós-modernistas, socialistas, enfim, esta cambada de gente tola ou desonesta. No entanto, ainda considero a igualdade formal entre os indivíduos um dos princípios fundamentais para a boa convivência em sociedade e para a própria justiça. Acho estas cotas universitárias um exemplo perfeito de algo que subverte a igualdade formal e estabelece uma injustiça em nome de uma igualdade material impossível e inexistente. As cotas não levam em conta o mérito do indivíduo, qualquer que seja sua raça, destroem a oportunidade que um indivíduo tem de, com o próprio esforço, obter sucesso, em nome de um privilégio de um grupo. Gostaria também de fazer uma observação sobre uma afirmação que você fez no artigo anterior: "O que afirmo é que as culturas negras são inferiores às culturas brancas. Atenção: não estou falando de raça, estou falando de cultura." Concordo plenamente. Aliás, isto me parece bastante óbvio. Mas, atualmente, fazer esta afirmação óbvia nos meios acadêmicos brasileiros, dominados pela praga do "politicamente correto", do relativismo pós-modernista, do marxismo cultural (tão bem explicado por Ernest Gellner em sua obra "Pós-modernismo, Razão e Religião"), é anátema, é considerado escandaloso. Por defender um idéia tão óbvia, a da desigualdade cultural entre os povos, eu já fui chamado na faculdade de nazista, racista, preconceituoso, entre outras ofensas. Recentemente, tive um debate acalorado com uma pessoa que ostenta o título de doutor, sobre um assunto que você costuma expor às vezes em seu blog. Esta pessoa insistia em me convencer que a cultura dos índios que matam seus filhos, que vivem como viveram outros povos no neolítico, não pode ser considerada inferior à nossa cultura ocidental. Eu, um modesto bacharel em Direito e acadêmico de História, tive de ouvir de um Doutor, ao final do debate, um argumento de autoridade ridículo, quando meu interlocutor não tinha mais outros argumentos para sustentar aquela idéia absurda. Disse o doutor ao final de nosso debate que eu estava errado em afirmar que uma cultura pode ser inferior a outra, pois minha afirmação contradizia a idéia de quase todos os antropólogos brasileiros contemporâneos. A isto, respondi que se danem os antropólogos, e que meu ateísmo também contradiz a idéia da maioria dos meus contemporâneos, e que nem por isso eu vou renunciar ao meu ateísmo. E por falar em ateísmo e QI, lembrei-me ainda de uma outra notícia recente, que é pertinente: http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u415923.shtml . Um grande abraço de seu leitor Humberto Quaglio
Terça-feira, Fevereiro 24, 2009
AINDA MOZART NA ÁFRICA (I) Do leitor Luiz Bonow, recebo: Cristaldo, com relação ao texto "Mozart não pode nascer na África", acredito que tu não tomaste conhecimento da pesquisa publicada na revista Slate: http://www.slate.com/id/2178122/entry/2178123/, que poderia acrescentar ao teu texto. Na época, eu havia comentado esse assunto no meu blog: http://bonow.blogspot.com/2007/12/e-agora.html. A questão é que existem diferenças entre raças que não são meramente culturais, como apregoa o politicamente correto, isso é que faltou ser colocado. Saudações. Segue o texto de Bonow: E AGORA? Recentemente, citando profundos estudos, a revista Slate publicou um artigo sobre as novas pesquisas científicas que incluem diferenças de QI entre diversas raças humanas. Depois da descoberta que o sol não anda ao redor da terra e de que o homem não foi feito de barro, talvez essa seja a descoberta científica que maior dano criará ao pensamento cristão e suas conseqüências, o rousseauísmo e o socialismo. E agora? Como afirmar que todos os homens são iguais se a genética interfere na inteligência. A sociedade é que nos corrompe? Esta bobagem foi recentemente coberta com a pá de cal dos avanços do conhecimento científico. Rousseau foi definitivamente superado, hoje em dia ninguém, a não ser alguns de nossos governantes obtusos, pode afirmar e pretender igualdade social, pois as pessoas são intrinsecamente diferentes. Crianças orientais subnutridas criadas por pais americanos têm em média mais inteligência do que os seus irmãos brancos e bem alimentados. A teoria do ambiente foi posta a terra por estudos como esse. “Racismo é elitismo menos informação”, diz lá pelas tantas a reportagem da Slate. A grande lição desses novos conhecimentos não é o de fomentar uma corrida pela desinformação, mas o de pretender valorizar o indivíduo. A média de QI de uma raça é maior do que a de outras. As mulheres de ancas largas normalmente são mais inteligentes do que as de ancas estreitas. Os primogênitos são mais inteligentes do que os caçulas. Como será que fica uma judia (povo considerado pelas pesquisas como o mais inteligente) caçula e de ancas estreitas se casar com americano de origem latina e primogênito? Como serão os descendentes? Será que a matemática é tão simples assim? Por tudo isso, eu vou contra as oposições da dita direita brasileira quando contesta o sistema de cota para negros nas universidades brasileiras. Normalmente se fala que é uma lei que fomenta o racismo, mas o buraco é bem mais embaixo. A questão não é essa, mas a de que é uma proposição racista em si, o fato de a longo prazo fomentar o racismo é o de menos. A lei pressupõe que em igualdade de condições, os negros não têm a mesma capacidade intelectual dos brancos. Esse é racismo implícito. Por que não estabelecer cotas para brancos em relação a nipo-brasileiros, uma vez que proporcional à população, têm presença maciça nas universidades de São Paulo e Paraná? E de caçulas em relação a primogênitos? Aliás, nessa eu entro, pois sou o caçula da família! Já passei em vários vestibulares, sendo dois em universidades públicas, com meu próprio esforço e capacidade. Será que uma cota para filhos caçulas não iria me inferiorizar perante os meus colegas? Será que se eu quisesse entrar hoje em uma universidade seria mais importante uma lei que me protegesse ou debruçar-me por sobre os livros e estudar arduamente? Grupos sociais têm diferenças entre si? E daí? Será que somos indivíduos ou apenas uma colônia de formigas?
Segunda-feira, Fevereiro 23, 2009
O ANTROPOCENTRISMO DO DEUS DOS CRISTÃOS Há quem ache que me preocupo demais com religiões e, pior ainda, há quem ache que ando à procura de uma fé. Nada disso. O fato é que o tal de Deus é de fato onipresente. Para onde quer que a gente se vire, lá está ele. É o personagem mais universal da literatura. Um mendigo certamente não sabe quem foram o Quixote ou Pantagruel ou Raskolnikov. Mas Deus, ele o conhece desde sempre. Não por acaso, a todo momento o invocam: “Pelo amor de Deus...” Todo escritor, sem dúvida alguma, deve invejar os hagiógrafos. Nunca alguém, nem mesmo um gênio, criou personagem tão popular como aquele criado por astutos sacerdotes de milênios atrás. Em outras palavras, é o que afirma Steven Weinberg, físico teórico e prêmio Nobel, em reportagem do El País de hoje: “Há quem tenha conceito tão amplo de Deus que não há forma de evitar que o acabe encontrando em qualquer parte. Se queres dizer que Deus é energia, podes achá-lo em um monte de carvão”. É o que acontece em nossos dias. Reencontrou-me, outro dia, uma antiga profissional da noite, que eu não via há uns bons trinta anos. A última vez que a vi foi em um de seus aniversários, em Porto Alegre. Terá sido em abril ou maio de 77. Ela estava linda, toda em patchwork. Levei-lhe um ramalhete de flores, ela se desatou em lágrimas. Também estava lá todo o bordel e boa parte de minhas diletas. De repente, surgiu um fotógrafo. Os machos presentes, salvo um ou dois, começaram a perguntar “que horas são?” e foram dando no pé. Eu fiquei. Ela desafiou-me: tiramos uma foto cortando o bolo? Claro, por que não? Mais uma foto abraçadinho comigo? Vamos lá. Me dá um beijo? Dou. Eu tinha outros compromissos naquela noite, mas não houve como sair de lá. Ela não permitiu. Chorou comigo quase toda a noite, nunca se sentira tão respeitada, o jornalista conhecido aceitando ser fotografado com uma mulher da noite. Ora, aquilo só me honrava. Até hoje guardo com carinho aquelas fotos. Um grupo de clientes lhe financiava um curso de Direito. Formou-se em Direito, advogou, já fez duas viagens à Europa e uma aos Estados Unidos, viagens daquelas tipo conhecer 15 cidades em dez dias, é verdade. Mas, enfim, viagem. Melhor que nada. Mas não era disto que pretendia falar. A moça, de repente, tornou-se crente. Daquelas fanáticas. Que vê Deus até atrás da porta. Saiu da noite, entrou na universidade e mergulhou naquela outra noite, a do obscurantismo. Depois de nosso reencontro, tenho recebido longas pregações via telefônica. Pergunto a ela: mas como é esse deus do qual falas? Ela não sabe definir, apenas o sente. De cambulhada, acredita também em espiritismo, psicanálise, testemunhas de Jeová, feng shui, florais de Bach, crença que passar por perto ela traça. Vê deus em toda a parte e cerca o jogo por todos os lados, aposta uma fichinha em cada número. Quer dizer, impossível argumentar com a moça. Por outro lado, Deus só tem qualidades boas. Quando lhe conto sobre os massacres perpetrados ou estimulados por Jeová, ela não acredita. De onde tiraste isso? Da Bíblia, oras. Ah, mas então ele deve ter tido suas razões. Confesso que preferia aquela moça em cujo aniversário estive, há uns bons trinta anos. Até hoje não entendo como um universitário pode acreditar em potocas metafísicas. Isto significa que a universidade, no fundo, não serve para grande coisa. Enfim, se ela se sente bem assim, louvado seja seu Deus, seja lá qual for. Outro dia, sem saber como definir seu deus, tascou: Deus é energia. Voilà o personagem do qual Steven Weinberg fala. E eles são muito mais encontradiços do que você possa imaginar. Nos espantamos com o fato de que no Oriente existam milhões de deuses. Em verdade, no Ocidente também. Conheço um professor universitário que criou um deus para si e a ele reza todas as noites. Aposto que é deus-cúmplice, camaradão, sempre disposto a avalizar qualquer gesto do professor. È o deus-à-la-carte, como já comentei em crônicas passadas. Cada um constrói um deus para si próprio, à sua imagem e semelhança. Segundo o repórter, Javier Sampedro, a investigação recente em psicologia cognitiva, neurobiologia e antropologia revelou que a maioria dos crentes, seja qual for seu culto, têm interiorizado um modelo extremadamente antropocêntrico de Deus. Ora, não me parece necessário recorrer a ciências (?) exóticas e contemporâneas para chegarmos a esta brilhante conclusão. Basta ler a Bíblia, livro velho de dois milênios. Jeová é, sem tirar nem pôr, um retrato das piores qualidades do ser humano. Nutre ódio por quem não é do povo eleito, massacra tribos inteiras, exerce a vingança, protege os seus, perdoa os crimes dos patriarcas que o adoram, é vaidoso e ciumento. “Eu sou um Deus ciumento”, diz no Êxodo. “Eu sou Jeová, teu Deus”, proclama ao final de cada palavra que dirige aos seus. Exige ser adorado. Por que precisaria um deus exigir adoração? Mais ainda: porque precisa de adoração? O modelito do deus cristão, pelo menos, é extremamente antropocêntrico. Mas este antropocentrismo não se refere ao comum dos mortais, que só desejam viver bem e morrer em paz. Jeová quer mais. O modelo, em verdade, parece ter sido inspirado – ou talvez ter inspirado – homens ilustres como Hitler, Stalin, Mao, Pol Pot, Ceaucescu, Envers Hodja.
POPULAR, MAS TODO CUIDADO É POUCO! Leio no noticiário online que Lula tomou as devidas precauções para não ser vaiado na Marquês de Sapucaí: 1. Diferentemente do que ocorrera na abertura dos Jogos Panamericanos, em 2007, o locutor oficial do Sambódromo não anunciou a chegada do presidente; 2. Escolheu-se uma hora estratégia para o deslocamento de Lula até o camarote do governador Sérgio Cabral (PMDB); 3. O presidente aguardou até que a Império Serrano, primeira escola a desfilar, já estivesse evoluindo na avenida, sob aplausos das arquibancadas; 4. De resto, o carro que conduzia Lula estacionou ao pé do camarote, em área protegida por grades e tapumes, a salvo dos olhares do público. Não entendi. Afinal o homem não conta com 84% da preferência nacional?
Domingo, Fevereiro 22, 2009
MOZART NÃO PODE NASCER NA ÁFRICA Uma das vantagens de um blog é que seus textos permanecem o tempo todo na Internet. Na imprensa em papel, um texto só tem permanência se recortado ou se o jornal permanecer arquivado. E é claro que leitor algum vai criar um arquivo em sua casa. Cássius Bertoni me interpela sobre crônica que publiquei em outubro de 2007: Caro Janer, meus cumprimentos: Venho lendo atentamente teu blog ha uns três meses. Em geral concordo com todas as tuas opiniões que já vi até agora, mas fiquei com algumas dúvidas que me levam a escrever esta mensagem. Primeiramente, fiquei um tanto chocado com o artigo "E se africano fosse mais inteligente". Por favor, não pense que se isso trata-se de um teórico pudor politicamente correto da minha parte, até porque concordo contigo no que diz respeito ao desenvolvimento europeu em comparação à África e com tua opinião de que fosse a alegação de Watson contrária e ele não teria sofrido represálias; alem disso, concordo que ele tem o direito de dizer o que pensa. O que pergunto aqui é se para você todo indivíduo negro seria deterministicamente menos inteligente do que qualquer indivíduo branco. Pergunto isso pois talvez seja impressão minha, mas foi isso que aquele artigo pareceu sugerir como opinião tua, principalmente com tal frase: "É claro que o branco europeu é mais inteligente que o negro africano" naquele artigo. Meu caro Cássius: não serei eu quem vai responder se branco é mais inteligente que negro, ou vice-versa, ou que ambos são igualmente inteligentes. Isso vai depender muito da biologia, antropologia e outra ciências que não domino. Em todo caso, acho que se deve pelo menos levar em consideração a opinião de um prêmio Nobel em Medicina. O que afirmo é que as culturas negras são inferiores às culturas brancas. Atenção: não estou falando de raça, estou falando de cultura. Não gosto muito de teorias. Prefiro fatos. Qual é o país mais desenvolvido da África negra? É a África do Sul. Quem criou este país desenvolvido? Foram os afrikaners, brancos descendentes de europeus. A Libéria - Terra Livre, em latim - surge no século XIX, criada pela American Colonization Society, que pretendia levar para a África negros livres ou negros que tinham sido libertos da escravatura. Os primeiros colonos oriundos dos Estados Unidos passaram a se fixar em uma parcela de terra comprada pela American Colonization Society, perto do Cabo Mesurado. Que aconteceu quando os Estados Unidos concederam aos negros libertos um território na África? Dados atuais: expectativa de vida, 39,65 anos. PIB per capita: 1.003 dólares. Os mesmos dados naquele país racista, os Estados Unidos, onde ficaram os negros que não quiseram embarcar para a Terra Livre: expectativa de vida, 78,14 anos. PIB per capita, 46.000 mil dólares. Ou seja: um negro vive melhor naquele país que há apenas cinqüenta anos não permitia que negros freqüentassem escolas de brancos, do que na uni-racial Libéria, entregue aos negros para seu uso e governança. Façamos uma comparação com este Brasil pobre e bagunçado, mas dirigido majoritariamente por brancos. Expectativa de vida, 72,3 anos. PIB per capita, dados do ano passado: 9.700 dólares. Deixando de lado os números. Em Salvador, uma amiga minha, gaúcha, tem um restaurante. A maior parte de seus funcionários são negros. "Eles não aprendem" - me dizia a gaúcha. "Eu ensino como dobrar guardanapos e pôr talheres. Ele fazem corretamente na primeira vez, na segunda vez. Na terceira, já nem sabem como se faz”. Um outro fator a influir na capacidade intelectual dos negros é, a meu ver, o ambiente cultural em que são criados. Em meus dias de Suécia, observei um caso interessante. Já o relatei, ao comentar o caso do prêmio Nobel James Watson, que afirmava serem os africanos menos inteligentes que os ocidentais. Em Lidingö, ilha chique de Estocolmo, conheci dois negrinhos brasileiros, que haviam feito uma ponta em Orfeu Negro, filme de 1959, de Marcel Camus. Eram o que hoje chamaríamos de meninos de rua e o cineasta, sem querer, salvou-os da miséria e da violência. Um casal sueco viu o filme, se comoveu com os meninos e os adotou. Encontrei-os em 71, já com quase 20 anos, cosmopolitas e poliglotas, falando sueco, inglês e português com aisance, jogando tênis e esquiando. Lembro que um deles cursava economia. O outro, vim reencontrar mais tarde, como alto funcionário da SAS no Rio de Janeiro. Ou seja, tivessem ficado atirados nas ruas, é óbvio que teríamos prováveis trombadinhas, soldados do tráfico, futuros assassinos. Uma vez acolhidos por uma sociedade que lhes deu educação, oportunidades de trabalho e um futuro, diferiam dos suecos apenas na altura e cor da pele. Resgatados do ambiente miserável, demonstravam a mesma inteligência e cultura dos hiperbóreos Sveas. Pessoalmente, penso que um Mozart até pode ser negro. O que não pode é ser africano.
Sábado, Fevereiro 21, 2009
RATO RENDE DUAS CAPAS PARA VEJA A entrevista do senador Jarbas Vasconcelos, do PMBD, concedida à Veja da semana passada, na qual acusa seu próprio partido e demais políticos de corrupção, foi vista como uma atitude extremamente corajosa, que parecia ameaçar as bases do poder. A entrevista foi valorizada a tal ponto, que a edição desta semana retoma o assunto. Assim é introduzida a matéria: A entrevista do senador Jarbas Vasconcelos, recebida com silêncio pelo PMDB, entrará para a história como um marco na luta contra a corrupção. Ele deu as coordenadas do bom combate. Mas que marco é esse na história da luta contra a corrupção? Vejamos o que disse, em síntese, o senador. Ele afirma que “o Senado virou um teatro de mediocridades e que seus colegas de partido, com raríssimas exceções, só pensam em ocupar cargos no governo para fazer negócios e ganhar comissões”. Ora, disso há muito sabemos. Grande novidade. Diz que “a maioria dos peemedebistas se especializou nessas coisas pelas quais os governos são denunciados: manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral. A corrupção está impregnada em todos os partidos. Boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção". Alguém duvida disto? Considerou que a eleição de Sarney para a presidência do Senado é um completo retrocesso, “foi um processo tortuoso e conservador”. Ora isto é conhecido urbi et orbi. A revista britânica The Economist, em reportagem intitulada “Onde dinossauros ainda vagam", foi bem mais contundente. Classificou a eleição do senador maranhense como "vitória para o semifeudalismo". Nada de novo sob sol. Afirmou que Renan Calheiros “não tem nenhuma condição moral ou política para ser senador, quanto mais para liderar qualquer partido. Renan é o maior beneficiário desse quadro político de mediocridade em que os escândalos não incomodam mais e acabam se incorporando à paisagem”. Ora, disto até os cisnes do lago do Congresso estão fartos de saber. De seu partido, afirma: “hoje, o PMDB é um partido sem bandeiras, sem propostas, sem um norte. É uma confederação de líderes regionais, cada um com seu interesse, sendo que mais de 90% deles praticam o clientelismo, de olho principalmente nos cargos”. Ora, ninguém ignora isto. Nem mesmo os eleitores do PMDB, que por isso mesmo nele votam. Em seu Antonio Chimango, de 1915, Amaro Juvenal já dizia: Quem tem doce pra dar, Fica logo popular, Todo mundo aponta a dedo. Não há político nem eleitor neste Brasil que não saiba disto desde há muito. O eleitor pode parecer ingênuo, pelo menos para quem acredita que nele reside alguma nobreza. Não é ingênuo. É oportunista. Ou não teríamos no poder um demagogo oportunista como o que temos. Quantos políticos, apesar de notórios corruptos, recuperaram o mandato após terem sido denunciados e mesmo condenados por corrupção? São legião. Por que o senhor continua no PMDB? – pergunta a revista. “Se eu sair daqui irei para onde? É melhor ficar como dissidente, lutando por uma reforma política para fazer um partido novo, ao lado das poucas pessoas sérias que ainda existem hoje na política”. O senador pareceu esquecer que, permanecendo no partido, avaliza todas as corrupções que denuncia. Vasconcelos, que apoiou Lula, defendia em 2002 que o PMDB apoiasse o governo. Agora tenta se redimir. “Era essencial o apoio a Lula, pois ele havia se comprometido com a sociedade a promover reformas e governar com ética. Com o desenrolar do primeiro mandato, diante dos sucessivos escândalos, percebi que Lula não tinha nenhum compromisso com reformas ou com ética. Também não fez reforma tributária, não completou a reforma da Previdência nem a reforma trabalhista. Então eu acho que já foram seis anos perdidos. O mundo passou por uma fase áurea, de bonança, de desenvolvimento, e Lula não conseguiu tirar proveito disso”. Ora, o Lula candidato não conseguia sequer explicar convincentemente como conseguira adquirir uma cobertura em São Bernardo. Passou décadas vadiando, sustentado por um compadre empresário. Como pode uma puta velha do Senado imaginar que este senhor governaria com ética? Segundo Vasconcelos, neste governo, “o país não tem infraestrutura, as estradas são ruins, os aeroportos acanhados, os portos estão estrangulados, o setor elétrico vem se arrastando. A política externa do governo é outra piada de mau gosto. Um governo que deixou a ética de lado, que não fez as reformas nem fez nada pela infraestrutura agora tem como bandeira o PAC, que é um amontoado de projetos velhos reunidos em um pacote eleitoreiro. É um governo medíocre. E o mais grave é que essa mediocridade contamina vários setores do país. Não é à toa que o Senado e a Câmara estão piores. Lula não é o único responsável, mas é óbvio que a mediocridade do governo dele leva a isso”. O que só demonstra que o senador é um leitor inveterado de jornais. Pois é o que a imprensa denuncia todos os dias. Do programa Bolsa Família, diz ser “o maior programa oficial de compra de votos do mundo". Como se alguém não soubesse. Afirma ainda o que todo analista lúcido da política nacional há muito vem afirmando: “Há um benefício imediato e uma conseqüência futura nefasta, pois o programa não tem compromisso com a educação, com a qualificação, com a formação de quadros para o trabalho. Em algumas regiões de Pernambuco, como a Zona da Mata e o agreste, já há uma grande carência de mão-de-obra. Famílias com dois ou três beneficiados pelo programa deixam o trabalho de lado, preferem viver de assistencialismo. Há um restaurante que eu freqüento há mais de trinta anos no bairro de Brasília Teimosa, no Recife. Na semana passada cheguei lá e não encontrei o garçom que sempre me atendeu. Perguntei ao gerente e descobri que ele conseguiu uma bolsa para ele e outra para o filho e desistiu de trabalhar. Esse é um retrato do Bolsa Família. A situação imediata do nordestino melhorou, mas a miséria social permanece”. E por aí vai. Não há uma única declaração que nos traga algo novo. Fala o tempo todo sobre o óbvio. Não dá nome aos bois. Fala em corrupção, mas não nomina nenhum corrupto. Porta-se, na verdade, como um adolescente brincando no Orkut. Acusa Deus e todo mundo, mas não denuncia ninguém, nem traz à tona provas da corrupção. É muito fácil acusar um governo ou partido de corrupto. Provar é que são elas. Muitas vezes, nem a máquina policial e judiciária o conseguem. Evidentemente, não cabe a um senador da República fazer trabalho de policial. Mas se pelo menos nomeasse publicamente os corruptos, obrigaria o Judiciário e a Polícia a tomar iniciativas. Nem isso fez. O sentido de sua entrevista parece surgir no último parágrafo: “Não tenho mais nenhuma vontade de disputar cargos. Acredito muito em Serra e me empenharei em sua candidatura à Presidência. Se ele ganhar, vou me dedicar a reformas essenciais, principalmente a política, que é a mãe de todas as reformas”. Ou seja: o senador impoluto, “corajoso” a ponto de denunciar as mazelas de seu próprio partido, aponta seu candidato. Que naturalmente há de ser também impoluto. A reportagem parece ter sido plantada para apoiar a candidatura de Serra em 2010. A Veja pariu um rato. O rato rendeu duas capas.
Sexta-feira, Fevereiro 20, 2009
RECÓRTER TUCANOPAPISTA TENTA TIRAR O SEU DA RETA Escreve hoje o recórter tucanopapista hidrófobo, em seu blog na Veja: HÁ TROUXA PRA TUDO. OU: OS MARQUETEIROS DO VITIMISMO Eu não sei as motivações da tal Paula Oliveira para ter mentido. O que é certo é que foi uma mentira meticulosamente construída, não?, com as fotos exibindo a sua suposta gravidez enviadas a todo mundo. Gravidez que ela exibia por fora, com a barriga estufada, e por dentro, com o falso ultrassom, colhido na Internet. Parece que ela estava plantando indícios, até chegar à falsa agressão, propagandeada no Brasil por certos ramos da imprensa — ou quase isso — chegados no marketing do vitimismo. Os bocós vestiram a camisa verde-amarela e saíram por aí. Também seu namorado suíço sustentava a gravidez. Quem é ele? Trabalha em quê? Como ganha a vida? Certo, certo, o povo da antiga Helvécia, vocês sabem, é frio como a neve lá fora, mas o será a ponto de não se interessar minimamente em ver os exames médicos que provam uma gravidez? Ou muito me engano, ou este rapaz lamentou a perda das duas “menininhas”, enquanto os vitimistas brasileiros suavam seu nacionalismo ofendido por todos os poros, e Celso Amorim, o Gigante, prometia vingança. E alguns gritavam por aqui: “Sim, é a xenofobia! Agora vão culpar o Terceiro Mundo pela crise! Eles não querem saber de nós!” (...) O que realmente me fascina é que, até agora, ninguém admite que errou: nem Celso Amorim nem os que superestimaram o caso. Já escrevi aqui que compreendo o sofrimento da família, mas tal compreensão tem um limite. Paulo, o pai de Paula, precisa mudar o discurso e parar de afirmar que acredita na versão da filha. Ou deixará a imagem até agora cultivada de pai extremoso para se confundir com um pai ou licencioso ou comprometido com as mentiras contadas pela moça. E os motivos ainda são obscuros. QUE ELA TENTOU DAR CONOTAÇÃO POLÍTICA AO CASO, ISSO É EVIDENTE. “Delírio motivado pelo lúpus”, dizem agora... É, então foi um delírio metódico, continuado, até com sotaque ideológico (dada a realidade política da Suíça). Os mercadores do vitimismo também deveriam estar envergonhados e se desculpar com os leitores. Mas não vai acontecer. Afinal, sabem existir trouxa pra tudo. É no mínimo curioso ver um trouxa chamar os demais trouxas de trouxa. Santa e tardia indignação para quem já escreveu: REPÚDIO E CUIDADO Tendo tudo acontecido segundo o que foi relatado, a brasileira Paula Oliveira foi vítima da mais odienta manifestação de racismo — que não partiu da “sociedade suíça”, é bom deixar claro, mas de um bando de delinqüentes. Nesse caso, não basta uma simples reação de repúdio. O governo brasileiro, de fato, precisará fazer mais, deixando claro que o empenho dos suíços em encontrar os culpados passa a ser fundamental na relação entre os dois países. Se o governo da Suíça não pode, e não pode, ser responsabilizado pelo que aconteceu, o empenho na investigação é, sim, uma obrigação. O relato que se tem indica que a brasileira foi exposta a extremos de brutalidade, ainda mais chocantes consideradas as conseqüências: o aborto de gêmeos. Tudo, mas tudo mesmo, nesse caso, escandaliza e causa estranheza. E ainda mais chocante é o fato de que os agressores não fizeram nenhuma questão de disfarçar o seu propósito, não é? A sigla de um partido político que a oposição acusa de ser racista — atenção: não se trata de um partido clandestino, neonazista, mas de uma legenda legalmente constituída — foi gravada no corpo de Paula. E se deve notar: mesmo no escuro, num ato apressado, sob o temor óbvio de serem vistos por alguém, ainda não se descuidaram da simetria, procurando distribuir com equilíbrio as marcas da selvageria. As letras obedecem a um traçado cuidadoso, firme, sem aparente variações de profundidade. Tanta perversidade requer uma apuração rigorosa. Na hipótese de os agressores serem mesmo simpatizantes do Partido do Povo Suíço (SVP, sigla da legenda em alemão), esperam que isso aumente a simpatia da população pela legenda, por mais que os suíços fossem, como se diz aqui e ali, indiferentes a agressões a estrangeiros? Fazem-no para chegar ao poder por meio do terror? Mas o partido já está no poder. E governa o país segundo as regras da democracia. Aqui e ali vejo certa contraposição porque a polícia suíça não teria “confirmado” a agressão e evite falar em “xenofobia e racismo”. Bem, antes da investigação, o que se espera que a polícia faça? Celso Amorim até pode dizer um "tudo indica" que é isso. Quem investiga não pode fazê-lo. Mas que cuidado não seja confundido com descaso. Que o governo brasileiro, com efeito, fique atento aos desdobramentos desse caso e que se exija o máximo rigor na investigação.
BINGO! No domingo passado, publiquei a tese da Primeira-Namorada sobre a farsa montada em Zurique pela advogada pernambucana Paula Oliveira. Segundo a Primeira, ela anunciou uma gravidez de gêmeos para fisgar um noivo suíço. Como a gravidez não ocorria, de alguma forma tinha de ser "interrompida". A moça então fez alguns cortes na barriga e nas pernas, jogou três neonazis no meio e justificou o "aborto". Leio na Folha Online: O jornal suíço Tages Anzeiger publicou uma reportagem hoje afirmando que Paula inventou a gravidez para forçar o noivo Marco Trepp a se casar com ela e, assim, conseguir o visto de permanência na Suíça. De acordo com a reportagem, o visto de permanência de Paula, que permite a ela trabalhar no escritório em Zurique da multinacional dinamarquesa Maersk, acaba no final deste ano. Sem o visto, ela precisaria deixar o país. Cherchez l'homme, dizia eu na crônica. A Primeira-Namorada, em seus 25 aninhos, está se revelando mais intuitiva que ilustres e antigos nomes da imprensa nacional. Bem que poderia oferecer seus préstimos para assessorar a polícia suíça.
SUPOSTA FARSA? Para a Folha de São Paulo, pelo jeito ainda não caiu a ficha. Ainda ontem, dias depois de revelada e esmiuçada a armação da advogada Paula Oliveira na Suíça, o jornal ainda mancheteava: REVISTA QUE CITA SUPOSTA FARSA É LIGADA A PARTIDO
Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009
MIRACOLO! GOVERNO CORTA SUBSÍDIOS PARA A GUERRILHA CATÓLICO-MAOÍSTA É muito raro, no noticiário nacional, ler-se algum relato de alguma atitude sensata neste país. Hoje, no entanto, o Estadão nos traz uma notícia que sugere um fio de esperança em nossos administradores. Segundo o jornal, a secretária da Educação do Rio Grande do Sul, Mariza Abreu, disse ontem que a rede de ensino pública está pronta para receber os 640 filhos de sem-terra que deixarão de ter aulas de educadores itinerantes neste ano. "Estão asseguradas as matrículas em escolas fixas próximas aos acampamentos, com transporte gratuito", declarou. "Vamos oferecer educação de qualidade e melhor formação para a cidadania para crianças que passarão a estudar com outros brasileiros da mesma idade e não mais separadas (em acampamentos)", enumerou, como vantagens do novo sistema, que passa a vigorar com o novo ano letivo, a partir de 2 de março. Vá um pai pretender subtrair um filho ao ensino oficial, por achar que esse filho pode ser melhor educado em casa. Escândalo! Mas a guerrilha católica-maoísta adquiriu, desde 1996, o direito de educar os filhos dos guerrilheiros em escolas próprias. Sob a orientação de mestres sublimes como Marx, Lênin, Mao, Fidel Castro. Os bandoleiros que invadem propriedades no país, sob o olhar complacente do governo, estão montando legiões de novos guerrilheiros. E com financiamento do Estado. Ou seja, com financiamento nosso, contribuintes. Uma organização não-governamental – dessas que não existem sem o dinheiro do governo -, o Instituto Preservar, recebia R$ 16 mil mensais para manter 13 educadores entre os sem-terra, num sistema denominado de "escola itinerante". Segundo o Estadão, no final do ano passado, a Secretaria da Educação assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público Estadual (MPE) se comprometendo a romper o acordo com a ONG e oferecer ensino aos filhos dos sem-terra em suas escolas fixas. A decisão é tardia, ou melhor, nem deveria ter sido tomado. No sentido em que jamais deveria ter sido permitido ao sem-terra criar escolas ideológicas para incutir marxismo na cabeça das crianças. Enfim, antes tarde do que nunca. Mesmo assim, se subtrai verbas para estas escolas confessionais, o governo continua financiando a guerrilha católico-maoísta. Por outro lado, é preciso esperar para ver quantos dias vigerá a determinação da secretária de Educação. Os bons propósitos, no Brasil, duram o que duram as rosas.
PARA ENTENDER A BÍBLIA A Bíblia é um livro extremamente complexo, dada a quantidade de livros que a compõem, a época em que foram escritos, o número de personagens e as contradições de um livro a outro. A meu ver, sempre foi uma antologia de textos muito mal-costurados. Isso sem falar nas diferentes traduções, nas quais cada seita que se apossa do Livro propõe uma versão diferente. É o livro mais publicado do mundo, mas certamente o menos lido. É também o livro mais deturpado por tradutores. Como não temos hoje nenhum texto original, mas apenas cópias de cópias de cópias, qualquer tentativa de consultar a edição princeps é inviável, porque a princeps não existe. Assim, para quem quer entrar no escasso clube de leitores do livro, sempre é bom ter alguém como guia. Da Alemanha, uma súbita amiga enviou-me link para um site excelente, construído por um brasileiro que entende de fato do assunto, que situa a Bíblia em sua época e a compara a livros anteriores, http://biblianua.vilabol.uol.com.br/index.htm. Recomendo vivamente. É site para ler e reler.
Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009
PARADOXO DO PÉRIGORD E OUTROS PARADOXOS Há cerca de um ano, comentei algo sobre o paradoxo do Périgord. Como ninguém mais deve lembrar do que seja, volto ao assunto. Lá pelos 80, quando viajaria para a França, recomendou-me um médico de Florianópolis: cuidado com o vinho. Seja moderado. E muito cuidado com os queijos e foie gras. Ora, considero que prescrições médicas devem ser levadas a sério. Era no mês de meu aniversário. Amigos me receberam com muito vinho, champanhe, queijos e foie gras. Eu, beliscando como um tico-tico. Bebendo pouco e comendo menos ainda. Vai daí que, ao tomar o avião de volta, comprei um Nouvel Observateur. A reportagem de capa era sobre o “paradoxe du Périgord”, algo que até hoje perturba a medicina politicamente correta. Por este paradoxo entende-se o estranho fenômeno de o Périgord ser uma região de alto consumo de patês, queijos e vinhos e, no entanto, seus habitantes gozarem de excelente saúde cardíaca e vascular. Um médico declarava, na reportagem, que inclusive um pouco de boudin no leite das crianças era muito saudável. Boudin é a versão francesa da nossa morcilha. Mais suave e um de meus pratos prediletos. Me senti roubado. Ao voltar a Santa Catarina, busquei meu médico. De Nouvel em punho. Doutor, o senhor ouviu falar disto, o paradoxo do Périgord? Não, não havia ouvido falar. Então leia esta reportagem. Não leio em francês, disse-me. Tudo bem – respondi – eu traduzo. E traduzi. Ele fez marcha à ré. Bom... meia garrafa de vinho por dia é sempre bom para o coração. Ou duas doses de uísque. Entende-se que o boudin seja saudável às crianças, contém ferro. Mas nós, médicos, não podemos admitir isto. Seria estimular o alcoolismo. Não acho. Sempre discordei do conceito médico de alcoolismo. Com o tempo, descobri que médicos formados nos Estados Unidos são sempre mais intolerantes em relação ao álcool que os formados na Europa. Coisa de puritanos. Na Espanha, França, Itália ou Portugal, o vinho faz parte de qualquer refeição. Antes do final do século passado, uma médica me proibiu qualquer gota de álcool. Consulente disciplinado, passei dois anos sem beber. Minha vida se tornou um inferno. Meus amigos bebiam e eu só tomava cerveja sem álcool. Em alguns bares, fui apelidado de Kronenbier. Meus amigos entravam em uma outra fase e eu restava sóbrio. Horror. Troquei de médica. De início, já fui claro: Doutora, eu estou trocando de médica porque a anterior me proibiu o álcool. Estou buscando uma que o libere. Ela topou e eu voltei ao mundo dos vivos. Ainda no ano passado, li que o vinho tinto pode ser muito mais potente do que se imaginava no prolongamento da vida humana, segundo cientistas que pesquisam drogas para a longevidade. O estudo se baseava em doses dadas a camundongos de resveratrol, um ingrediente de alguns vinhos tintos. Alguns cientistas já estariam tomando resveratrol em forma de cápsula, mas outros acreditam que é cedo demais para tomar a droga, especialmente usando vinho como sua fonte, até que haja melhores dados sobre sua segurança e eficácia. Isso foi no ano passado. Neste ano da graça – ou da desgraça – houve um revertério na opinião dos cientistas. Em despacho da France Press, leio: ESTUDO FRANCÊS PROÍBE TAÇA DE VINHO DIÁRIA Segundo um estudo, publicado ontem pelo Instituto Nacional Francês do Câncer (INCA), na relação entre o que comemos e bebemos e as possibilidades de vir a ter um câncer, o álcool é o primeiro a sentar-se nos banco dos réus. Na referência álcool-câncer não existiria "dose protetora". Com seus efeitos invisíveis, "as pequenas e repetidas doses são as mais nocivas", destaca o presidente do INCA, Dominique Maraninchi. Para Paule Martel, diretora de pesquisa do Instituto de Investigação Agrônoma (INRA), "é desaconselhado todo o consumo diário de vinho". Me soa insólito ouvir isto de um francês. Segundo o estudo, "o consumo de bebidas alcoólicas está associado a um aumento do risco de se sofrer câncer de boca, faringe, laringe, esôfago, cólon e reto, mama e fígado". O risco aumenta 9%, no caso de câncer de cólon e reto, se for consumida uma taça ao dia. E esse risco chega inclusive a 168% para os cânceres de boca, faringe e laringe. Isso se deveria, sobretudo, à transformação do etanol em acetaldeído; além disso, o etanol aumenta a permeabilidade da mucosa a elementos cancerígenos como o tabaco. O consumo crônico de álcool produz, também, uma deficiência de ácido fólico, algo que favorece o câncer colorretal. O estudo vai mais longe. Na França, o consumo de álcool é, atrás do tabaco, a segunda causa evitável de morte por câncer (10,8% dos falecimentos por patologias cancerígenas entre homens e 4,5% entre mulheres). Me lembrei de um personagem que conheci há cinco anos. Tinha 93 anos e bebia, religiosamente, uma garrafa de vinho por dia. Chama-se Étilo e fazia jus ao nome. Pena que morreu ano passado. Aos 97 anos. Gostaria de levar “seu” Étilo até o INCA, para ver o que diriam os pesquisadores sobre sua longevidade. Ora, direis, a exceção não justifica a regra. De acordo. Mas proibir uma tacinha diária do sangue das uvas, como diz a Bíblia, me parece um exagero que aos céus clama desmentido. Se fosse só o vinho... Mas, sempre segundo o famigerado estudo, o consumo de carne vermelha e frios pode produzir câncer de cólon e reto. Mas não há razões, também, para alarmismos: o limiar para que esses produtos comecem a ser perigosos é 500 gramas de carne vermelha por semana. Ora, cá chez nous, o peso médio de um filé é de 250 gramas. Os cientistas nos permitem então apenas dois filés por semana. De preferência sem sal, pois o sal parece estar relacionado ao câncer de estômago. Os alimentos à base de betacaroteno – que até ontem há pouco tempo salvavam de câncer e doenças do coração – agora aumentam significativamente o risco de câncer de pulmão nos fumantes. Terá o informe dos cientistas força suficiente para coibir, já não digo a taça diária de vinho que os franceses geralmente tomam durante o almoço, mas o pichet, que pode ser de meio litro ou de litro? Isso sem falar no que bebem espanhóis, portugueses e italianos. Anni e bicchieri di vino non si contano mai – diz-se na Itália. Onde fica a sabedoria popular? E o paradoxo do Périgord? Seria uma perversa conspiração de médicos para defender a indústria vinícola francesa? O que antes era saudável, de repente, vira letal? Isto me lembra um gastroenterologista que consultei em Curitiba. Segundo ele, a dose diária permissível de cerveja é meio copo. Ora, Dr. – objetei – não existe meio copo de cerveja. Outro dia, trabalhava eu aqui em casa com a televisão ligada. Subitamente ouço a expressão “meio copo de cerveja”. Só pode ser aquele cretino de Curitiba, pensei. Fui até a televisão. Era. Sem ser cientista, observo o mundo que me cerca. Ora, se uma taça de vinho por dia é fator cancerígeno, França, Alemanha e península ibérica já teriam sido devastadas pelo câncer. Em meus dias de Espanha, constava de todo menu – e ainda hoje consta – meia garrafa de vinho. O garçom sempre me trazia garrafa inteira. Eu reclamava: mas não é meia garrafa? Invariavelmente, ouvia como resposta: beba lo que quiera, caballero! Terá a Europa, durante séculos, mantido em seu passadio um elemento letal, o vinho? Que faziam os cientistas em décadas passadas, que só agora, em 2009, chegam a tal descoberta? Será talvez fruto da islamização da Europa? Para um muçulmano, deve ser reconfortante ouvir que vinho dá câncer. Isto está me parecendo um pouco à trajetória do ovo. Durante décadas, foi visto como um vilão absoluto. Ainda hoje, comentava Ruy Castro na Folha de São Paulo: “Durante quase toda a segunda metade do século 20, médicos e cientistas dedicaram-se a acusar o ovo dos piores crimes contra o coração e a responsabilizá-lo pela elevação dos níveis de colesterol a placares de basquete americano. Quem fosse cardíaco, não chegasse perto; quem não fosse, idem, para prevenir. Às galinhas só restava submeter-se ao holocausto reservado à sua espécie e ao opróbrio para o seu produto. “Pois, desde algum tempo, depois de pesquisas mais sérias e profundas, esses mesmos médicos e cientistas começaram a emitir sinais de que talvez tivessem sido injustos com o ovo. E, na semana passada, saiu o relatório definitivo da Universidade de Surrey, na Inglaterra: o ovo não faz o menor mal à saúde - ao contrário, é riquíssimo em nutrientes - e pode ser comido na legalidade e em qualquer quantidade. Só faltam dar-lhe a medalha de alimento do ano”. Os cientistas do INCA que me desculpem. Vou esperar pelos próximos estudos. Sem vinho, a vida não tem muita graça. Voltando ao estudo, parece só ter graça o que não tem sabor. O informe destaca as excelências das frutas e dos legumes, ricos em antioxidantes e vitamina B9 (ácido fólico), com um consumo diário recomendado de, no mínimo, 400 gramas. Sei lá! Não acredito em teorias conspiratórias, mas isto está me parecendo lobby da indústria hortifrutigranjeira. Conceber a Espanha sem a media botellita de cada almoço? Sem os cochinillos e lechales? É o mesmo que imaginar uma Espanha sem flamenco nem touradas. Ver a França sem direito a seu demi-pichet rouge? É Paris sem a torre Eiffel. Imaginar a Itália senza il vino? Seria como ir a Roma e não ver o Bento. Desde há muito não acredito em Deus. Mais uma dessas e deixarei de acreditar na ciência. Decidam-se, senhores cientistas. Ou me tornarei ateu em dose dupla.
Terça-feira, Fevereiro 17, 2009
COMO SE NADA TIVESSE ESCRITO SOBRE O NEONAZISMO SUÍÇO... Sábado passado, transcrevi artigo do lúcido jornalista Gilles Lapouge, no Estado de São Paulo. Indignado com a agressão dos neonazis suíços a advogada brasileira em Zurique, Lapouge fechava dramaticamente seu texto: "A única coisa certa é que as marcas do horror, mesmo que desapareçam da carne da moça, dificilmente se apagarão no profundo de suas noites. Como poderá ela esquecer que esteve cara a cara com o mal?" Hoje, como se jamais tivesse escrito este libelo contra o nazismo suíço, Lapouge escreve: CASO DA BRASILEIRA NA SUÍÇA É REPLETO DE CONTRADIÇÕES Advogada afirma que foi agredida por neonazistas; polícia trabalha com hipótese de autoflagelo PARIS - Reviravolta dramática no caso da jovem advogada brasileira atacada, na noite de segunda-feira, perto de Zurique, por três jovens em trajes pretos e armados de estiletes. A rádio Suisse Romande divulgou o testemunho do médico que examinou a vítima. E seu veredicto parece não conter ambiguidades: aparentemente, foi uma encenação, montada pela própria jovem. Segundo este médico, Paula Oliveira não estava grávida, o que anula a tese de que ela teria abortado as filhas gêmeas. Quanto aos cortes sobre os braços e a barriga, reproduzindo a sigla do partido extremista e xenófobo SVP, o médico não os levou a sério. São demasiado regulares para que possam ter sido feitos numa pessoa em pânico, debatendo-se como louca. Além disso, não são profundos, afirma. Estas dúvidas somam-se às que os policiais suíços haviam manifestado. Eles notaram contradições no testemunho da jovem. Numa primeira declaração, o ataque teria acontecido em um lugar próximo de Zurique chamado Dudendorf; posteriormente, teria ocorrido em um outro bairro perto de Zurique, Stettbach. Neste relato, permanecem partes nebulosas. Na quinta-feira, falava-se do namorado suíço da jovem, que não estaria no local do drama, e sim nas proximidades. Depois, não se falava mais nele. As rádios suíças e os internautas levantam alguns questionamentos. Foi ressuscitada uma antiga expressão da "clínica psiquiátrica", o termo "histeria", que levaria algumas pessoas a inventar doenças ou perigos para fazer frente à própria angústia ou aos seus terrores. A histeria tinha efeitos absolutamente incompreensíveis, inexplicáveis no corpo de suas vítimas, como mostraram Charcot e Freud. Os histéricos colocavam frequentemente no centro de seu próprio teatro poderes nocivos como Satã, o diabo. Relatórios médicos recentes sobre casos de histeria mostram que, hoje, o diabo intervém menos frequentemente do que na Idade Média, do que na Renascença ou mesmo do que no início do século XX, na época de Freud. Satã teria sido substituído por outras figuras "do mal", e evidentemente, por cerimoniais nazistas ou neonazistas. No ano passado, uma jovem alemã portadora de deficiência física contou ter sofrido ataques de nazistas. Em seu corpo foram constatados ferimentos com a forma da cruz gamada. Toda a Alemanha se comoveu com o fato. Os médicos especialistas estabeleceram que a própria jovem infligira a si mesma as feridas. Em Paris, há dois anos, uma condutora de ônibus afirmou ter sido estuprada e espancada por jovens imigrados. Também neste caso, seu corpo apresentou as marcas. Estas também falsas. É claro que não se pode considerar como totalmente certo o testemunho de um único médico, ainda mais que o reflexo natural dos suíços é minimizar a presença de extremistas em seu território. A Suíça é um Paraíso terrestre. Ela não pode abrigar tais torpezas. Portanto, teremos de aguardar as novas conclusões da polícia e da Justiça antes de podermos nos pronunciar de maneira definitiva. Pedido algum de desculpas aos leitores, admissão alguma de sua barriga jornalística. Foi como se jamais tivesse escrito algo admitindo o ataque à moça. Encontro cara a cara com o mal? Quem foi mesmo que escreveu isso? – deve estar se perguntando Lapouge. Clóvis Rossi e Eliane Cantanhêde pelo menos deram uma de madalenas arrependidas. Lapouge não se arrepende de nada.
ITAMARATY SUGERE À PAULA SAÍDA SAFADA: FUGIR DA LEI Alguém ainda lembra daquele intrépido chanceler que via claras evidências de xenofobia no caso da brasileira atacada por neonazis em Zurique e chegou a dizer que levaria o caso à ONU? Falo do Celso Amorim. Pois bem, pelo menos no Itamaraty já caiu a ficha. Segundo o Estadão, o Itamaraty quer que a família de Paula Oliveira decida rapidamente se a brasileira deixará Zurique antes da abertura de um eventual processo penal por fraude, ou se enfrentará as investigações até o fim, mantendo sua versão. Em uma longa conversa com a família de Paula, a consulesa do Brasil em Zurique, Vitória Clever, afirmou que poderia organizar a saída de Paula antes que a investigação fosse concluída e o possível processo penal, instaurado. Mas se caiu a ficha no Itamaraty, ainda não caiu para o pai da moça, Paulo Oliveira. Embora já tenha dado sinais de que deseja voltar para casa ainda esta semana, continua acreditando na versão da filha, apesar de todas as evidências em contrário. Tanto que Paula ainda não foi informada de que a polícia suíça nega sua alegada gravidez que teria sido interrompida pelo ataque dos neonazis. A sugestão do Itamaraty já é, em si, safada. Pretende subtrair da justiça suíça uma brasileira que cometeu uma grave fraude, com conseqüências nefastas para o relacionamento entre dois países. Em outros termos, o Brasil quer proteger um criminoso, já que este é brasileiro. O episódio serviu ainda para difamar internacionalmente a Suíça, como país que abriga e protege neonazis. Isso sem falar nos prejuízos causados à imagem do Brasil, cuja imprensa é agora vista como facciosa, caluniadora e patrioteira. Digamos que a família decida trazer a moça de volta, como recomendam tanto a safadeza como o bom senso. Imaginemos o diálogo de surdos: - Minha filha, tua mãe e eu decidimos que deves voltar ao Brasil. - Voltar ao Brasil? Sem punir aqueles nazistas que me fizeram abortar? Não há justiça neste país? - Não, filha, ocorre que seria mais conveniente esperar o desfecho disto tudo lá em casa... - Mas eu não quero ir. Pelo menos antes de ver aqueles bandidos na cadeia. A situação lembra um pouco Adeus Lênin, o belo filme de Wolfgang Becker, raridade nestes dias de salas inundadas por bestsellers para consumo de pobres de espírito. O drama gira em torno de uma cidadã da antiga Berlim Oriental, que caiu em coma um pouco antes da queda do Muro. Só sai do coma alguns meses depois, quando Berlim é uma cidade só. Para evitar que a mãe tenha algum infarto com a nova realidade, seu filho remonta o apartamento com os trastes da era socialista, que nesta altura já haviam sido jogados a um depósito. Toma o cuidado de fechar janelas e eliminar rádio e televisão. Dada a insistência da mãe em ter um aparelho de TV, o rapaz passa a produzir noticiários com um amigo cineasta, no melhor estilo da finada Alemanha Oriental. Ele produz uma RDA que não mais existe, para consumo da mãe em convalescença. Com a decisão de não comunicar a filha um fato do qual ela precisa ter ciência, os pais de Paula terão de recorrer a recursos semelhantes aos do filme de Becker. Pra começar, a moça não poderá ouvir rádio nem assistir televisão. Muito menos ler jornais. E se sair à rua, talvez tenha surpresas nada agradáveis. Assim como Paula mentiu às autoridades, os pais de Paula estão alimentando uma mentira piedosa. Que vai ser desta moça quando descobrir que ninguém mais, nem a polícia suíça, nem o jornalismo brasileiro, nem o Itamaraty acreditam em sua farsa? Continuará a sustentá-la? Seus pais continuarão sendo cúmplices da mentira? Ou tomará a atitude mais sensata, a de confessar que tudo foi uma fraude? Doerá, é verdade, mas ainda é a melhor maneira de chegar à saúde mental. Quanto ao pai de Paula, que em verdade foi o responsável por todo este desastre, ao passar à televisão informações das quais não tinha prova nenhuma, este jamais se sentirá um fraudador. Permanecerá encerrado na condição de pai amoroso, que tudo fez a seu alcance para auxiliar a filha vitimada por bárbaros. Quanto aos jornais e jornalistas de gatilho fácil, que sem checar fatos logo acusaram a Suíça de proteger neonazistas, com estes nada acontecerá. Algumas desculpas esfarrapadas, mais a sólida confiança na memória curta dos leitores, farão com que em poucos meses readquiram a credibilidade arranhada. Quanto a Paula, sejam quais forem as razões que a levaram a tal insanidade, admita ou não admita a farsa, tem sua vida já mais ou menos destruída, pelo menos na Suíça. Qual empresário dará emprego a uma maluca que, com uma simples mentira, difamou o país urbe et orbi? Melhor voltar. Aqui no Brasil, sempre terá o apoio de algum patrioteiro que acredita na imprensa nacional e considera que a justiça suíça é uma fortaleza protetora de nazistas. De última hora, leio que o pai da advogada parece não ter gostado da sugestão malandra do Itamaraty. Declarou ao Jornal Nacional que a filha não pretende fugir da Suíça. "Fugir de quê? Há alguma vítima? Minha filha vitimou alguém?", questionou Paulo Oliveira. "Ela quebrou alguma coisa? Ela deu algum prejuízo? Ela fez alguma perturbação da ordem? Não." Santo e ingênuo pai. A moça quebrou muitas coisas, a começar pela reputação do país que generosamente a acolheu. E deu muitos prejuízos sim, prejuízos difíceis de serem ressarcidos. Uma mentira, uma vez divulgada pela imprensa, assume ares de verdade, por mais que seja desmentida. E perturbou também a ordem de uma forma quem nem imaginaria perturbar. Caluniou um país inteiro e conseguiu abalar mais um pouco a já frágil reputação do Brasil no Exterior. Um advogado deveria ter suficiente bom senso para avaliar estes estragos. Estou curioso para assistir ao desfecho. De alguma maneira, esse furúnculo terá de ser purgado.
Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009
VENEZUELA E PAPEL HIGIÊNICO Desde há muito escrevo sobre essa estranha incompatibilidade entre socialismo e papel higiênico. Mesmo antes de viajar para países socialistas, eu ouvia relatos de turistas sobre o assunto. Não era fácil encontrar o artigo nos hotéis. Muitas agências recomendavam que o turista se munisse de um bom estoque de rolos, antes de viajar para a União Soviética. O pior ocorreu na Romênia, em 1981. Em qualquer hotel que chegasse, a primeira coisa que tinha a fazer era pedir papel higiênico na portaria. Lembro que em Mangália, cidade litorânea do mar Negro, quando fui reclamar a uma moça da portaria com cara de sargento, ela me perguntou: "quantos dias o senhor vai ficar aqui?". Neste hotel, dois dias. Olhou-me então de alto a baixo, avaliou meu metabolismo, rasgou uns dois metros de um rolo e passou-me as tiras. Em outras viagens a outros países socialistas, o problema não era tão grave, foram feitas perto da Queda do Muro ou depois. Mesmo assim, em 2000, nove anos após o desmoronamento da URSS, em São Petersburgo, tive de voltar a implorar papel higiênico na portaria do hotel. De Cledson Ramos, amigo e leitor, recebo: Oi Janer, Sua tese da incompatibilidade entre Socialismo e papel higiênico continua válida: "Neste ano, a Venezuela só conseguirá importar metade do que precisa, agravando o racionamento de produtos de primeira necessidade. Na semana passada, a venda de papel higiênico em alguns supermercados estava limitada a quatro rolos por consumidor." *FONTE: http://veja.abril.com.br/180209/p_074.shtml Um abraço, Cledson Assim, entende-se as altas tiragens do Pravda.
IMPRENSA BRASILEIRA IMPORTA NEONAZIS Se há neonazistas na Europa, tem de existir também no Brasil. Assim, quando ocorre qualquer incidente nalgum país europeu, preferentemente em países germânicos ou nórdicos, os editores saem a catar nos arquivos grupos equivalentes no Brasil. Basta achar um careca, branco e preferentemente parrudo, vestido com couro e correntes, e lá está a ameaça nazista. Ocorreu na década dos 90. Locais de reunião de nordestinos em São Paulo foram pichados com frases agressivas, tipo "nordestinos go home", “morte aos nordestinos” e outras que tais. A polícia conseguiu identificar o líder dos pichadores: era um baixinho retaco, por sorte branco, halterofilista. E careca, para alegria dos editores. Estava configurado o neonazista tupiniquim. Nós também temos neonazis. O inimigo está entre nós. Durante alguns dias, foi feita a farra do neonazi. Que durou até sua volta... para o Ceará. O neonazi era nordestino. Para não atrapalhar o delicado trabalho feito durante décadas no cérebro do leitor, o personagem foi expulso das manchetes. Nordestino não pode ser neonazi. Nordestino é sempre vítima. E não mais se falou naquele paradoxo ambulante, que só servia para confundir as mentes. Mas era preciso criar neonazistas. A tarefa foi assumida por um militante da Anistia Internacional. No dia 06 de setembro de 2000, a Folha de S. Paulo mancheteava: ANISTIA SOFRE NOVO ATENTADO A BOMBA EM SP Uma bomba de fabricação caseira foi entregue pelo correio na casa de um funcionário da Anistia Internacional em São Paulo. O alvo era o apartamento do professor de educação física José Eduardo Bernardes da Silva, 40, militante da entidade e que vinha recebendo ameaças pelo telefone. É o segundo atentado em menos de um ano contra a Anistia no Estado, que fechou sua sede na capital, em março passado, em razão de sucessivos incidentes com grupos neonazistas. Neonazis atentam contra um funcionário da Anistia. Se em países desenvolvidos há neonazistas, o Brasil tem de ter os seus. Se não existe, se fabrica. Ainda segundo a Folha, Bernardes da Silva, professor de educação física com mais de 130 quilos de massa, é o mesmo funcionário que encontrara, em setembro de 99, uma bomba de fabricação caseira no escritório da Anistia em São Paulo. Na época, a entidade recebera uma carta com a foto de um travesti nu com a mensagem: "Vocês defendem homossexuais e negros, nós os matamos. Vocês são nossos inimigos. Morte a vocês". O jornal registra depoimento do rabino Henry Sobel, aquele das gravatas, lembram? "A covardia demonstrada pelo remetente que se manteve anônimo, e se escondeu indicando um endereço fictício, é tão deplorável quanto o ódio e o preconceito que motivaram o ato". No dia seguinte, lemos que a Justiça Global Ação e Capacitação em Direitos Humanos irá levar o caso das ameaças à ONU. Em Londres, a Anistia Internacional anuncia que há quase um ano a polícia de São Paulo sabe das ameaças contra Bernardes da Silva, mas não resolveram o problema. Uma outra carta de ameaça foi entregue no escritório da Anistia em Porto Alegre, onde Silva refugiou-se, depois de ser ameaçado em São Paulo. Poucas pessoas sabiam de sua transferência, uma tentativa de escapar da perseguição dos neonazistas. Vemos então que os neonazistas têm uma organização de âmbito nacional, muito bem informada, que persegue suas vítimas onde quer que elas se escondam. Ainda no dia 07, os neonazis continuam agindo. Diz a Folha: GRUPO GAY RECEBE PACOTE-BOMBA EM SP O artefato, similar ao enviado dois dias antes à Anistia, poderia matar; diz o jornal. Bernardes da Silva, que diz ter escapado de três emboscadas nos últimos doze meses, descreve os agressores: bem arianos, pele e olhos claros, andam em carros bons e têm conhecimento de tecnologia. Fazem as ameaças por telefone e desligam antes de o número de origem ser rastreado. O grupo que faz ameaças por telefone também fala inglês, alemão e francês, além do português. Eles afirmam que têm ligações internacionais muito fortes e que, aqui no Brasil, têm gente muito poderosa que os patrocina, afirmou Silva. Os neonazistas são poliglotas e falam línguas européias. Sob o título "Ameaças Covardes", a Folha faz incisivo editorial contra o perigo neonazista: Não poderia ser mais trágica a aplicação da tese das idéias fora de lugar a que tem sido levada a termo por autoproclamados grupos neonazistas na cidade de São Paulo. Anteontem, José Eduardo Bernardes da Silva, da Anistia Internacional, recebeu em sua casa uma carta-bomba, que só não lhe causou danos porque, calejado por outras ameaças inclusive de mesmo porte, Silva teve o cuidado de não destampar o pacote e de chamar a polícia. O professor de educação física manifesta medo: Eu ando nas ruas olhando para os lados, não faço o mesmo caminho para chegar em casa, evito freqüentar os mesmos lugares e sair com minha família. O medo me faz ser mais cauteloso. Dia 09 de setembro, o atentado assume proporções internacionais: ANISTIA FAZ CAMPANHA MUNDIAL CONTRA ATENTADOS DE SKINHEADS EM SÃO PAULO A Anistia Internacional deu início ontem a uma campanha mundial contra os atentados de grupos que se autodenominam skinheads em São Paulo. Um comunicado do secretariado da entidade, em Londres, foi enviado às sedes nacionais da Anistia, espalhadas pelo mundo, onde as mensagens serão traduzidas e redistribuídas. Dia 10, a Folha faz uma sinopse sobre A ESCALADA DO RACISMO Ainda no mesmo dia: PARA O MINISTÉRIO PÚBLICO DE SÃO PAULO,CRIMES DE GRUPOS NEONAZISTAS ERAM TRATADOS DE FORMA BUROCRÁTICA O cientista político Paulo Sérgio Pinheiro, da USP, é taxativo: as duas bombas deveriam ser interpretadas como atentados à democracia. A Alemanha só conseguiu desbaratar os grupos neonazistas nos últimos dez anos quando começou a ter uma coordenação nacional. Enquanto cada Estado agia por conta, foi um fracasso. Dia 15, a aposta aumenta: ENTIDADES VÃO À ONU CONTRA ATENTADOS Nove entidades de defesa dos direitos humanos e de minorias encaminharam ontem um documento a Asma Jahangir, relatora especial da ONU (Organização das Nações Unidas), pedindo que a entidade pressione o governo brasileiro a esclarecer os atentados a bomba em São Paulo. Para fugir aos atentados neonazis, o professor Bernardes da Silva refugiou-se na Espanha. Desde então, os movimentos negros ou gays não receberam mais bombas. Fevereiro de 2001: a caligrafia de Bernardes da Silva bate com a dos bilhetes enviados para entidades de direitos humanos na primeira semana de setembro. O professor, funcionário da Anistia, é indiciado pelos atentados ocorridos no ano passado. E desaparece, providencialmente, do noticiário.
FIÚZA, O PATRIOTÃO EMÉRITO Só não vou pedir perdão ao leitor por estar-me alongando nesta novela da brasileira na Suíça, porque acredito que o leitor esteja também interessado. O caso é emblemático e além de desvelar uma faceta importante da imprensa contemporânea, mostra a verdadeira personalidade de muitos cronistas e os ressentimentos nutridos seja em relação à Europa, seja em relação à falência da ideologia marxista. A affaire é extremamente didática e mereceria um sólido ensaio sobre as reações suscitadas. Sem falar, que a história toda me diverte. Um leitor atento enviou-me o artigo infra, escrito pelo jornalista Guilherme Fiúza e publicado no Globo de ontem. Mesmo três dias depois de evidenciado o embuste, mesmo depois da súbita retração de Lula após suas bravatas iniciais, mesmo depois das desculpas esfarrapadas de Clóvis Rossi e Elaine Cantanhêde, ainda há quem pretenda que a imprensa nacional só publica verdades e que Paula Oliveira é uma pobre vítima. O que me lembra aquele polêmico astrólogo, que sempre provou por A + B que existiam armas de destruição massiva no Iraque. Depois que Bush admitiu seu engano e admitiu que tudo não passara de uma grossa mentira, ele deve estar acreditando ainda que Bush é quem se engana ao admitir que se engana. Voilà a pérola: NÓIS É COLÔNIA DOM, 15/02/09 POR GMFIUZA Paula Oliveira não escapará do linchamento. Se for culpada, os anjinhos nazistas da Suíça estão prontos para pendurá-la na cruz da xenofobia. Se for inocente, terá de conviver com o fato de que seu país se envergonhou de lhe dar solidariedade. É por isso que o Brasil é (e para sempre será) uma colônia. Apesar dos ganidos terceiromundistas, continua subalterno. Na alma. Só uma alma subalterna poderia, ao ouvir a polícia suíça acusar Paula de golpe, passar a desconfiar imediatamente da brasileira. Até prova em contrário, os suíços estão certos. Afinal, eles são… Suíços. Se não fosse covarde, o Brasil jamais adotaria o silêncio oficial sobre o caso Paula. Ao contrário, reforçaria seu discurso público exigindo investigação rigorosa. Mas o Brasil, a princípio, duvida dos brasileiros. Paula Oliveira é uma advogada bem formada, mora legalmente na Suíça, trabalha numa empresa conhecida e estável, é noiva de um cidadão suíço que, como ela, não tem delitos no currículo. Paula pode ter pirado. Mas se não merece crédito a priori, quem vai merecer? A polícia suíça afirmou que a brasileira provavelmente se auto-flagelou, porque as marcas de navalha estão todas ao alcance de suas mãos. Seja qual for a verdade, essa afirmação, tecnicamente ridícula, é um show de leviandade e prepotência. O Brasil, se não fosse uma colônia, deveria repudiá-la. Mas a vida segue, e você deve torcer para não ter seus olhos furados por vândalos nas ruas de Zurique. Os suíços poderão acusá-lo de tentar ganhar uma pensão para deficientes físicos. Afinal, seus olhos estão ao alcance das suas mãos. Paula pode não ter sido atacada. Pode ter sido atacada e abortado. Pode ter sido atacada e, transtornada, ter fantasiado o aborto. É o que as investigações vão esclarecer, se forem isentas. E não há nem meio indício de isenção na postura sôfrega das autoridades suíças. Começa a se formar uma onda contra a imprensa brasileira nos jornais europeus. Como ousam esses periféricos de segunda classe afrontar desta maneira uma nobre cidadela do Primeiro Mundo? Vamos deixar claro, pelo menos aqui neste espaço: a Suíça, além das inclinações totalitárias, é o paraíso mundial da corrupção. Seus bancos, como se sabe, lavam mais branco. Portanto, devagar com esses arroubos virtuosos. E eles construirão a verdade que quiserem sobre Paula. Porque o Brasil, para variar, está botando o rabo entre as pernas.
Domingo, Fevereiro 15, 2009
JORNALISTAS SE EXPLICAM SEM MUITO CONVENCER Dois dias após a tremenda barriga sobre a brasileira que se automutilou em Zurique e alegou um ataque de skinheads para simular um aborto, as estrelas da Folha de São Paulo começam a apresentar suas desculpas esfarrapadas. Escreve Clóvis Rossi: “Três ou quatro coisas que ainda é preciso dizer sobre o caso da brasileira Paula Oliveira, atacada ou automutilada nas imediações de Zurique: 1 - Se aceitei, precipitadamente, a versão dela sobre a agressão foi por absoluta falta de razões para duvidar. Afinal, ela não é clandestina nem tem ficha policial nem antecedentes comprometedores. Para que inventaria a história?” Puta velha do jornalismo, decano dos cronistas da Folha, pelo jeito em toda sua vida de jornalista Rossi nunca viu ninguém inventando histórias. Até parece que nunca ouviu falar da Escola Base, em 1994, onde a partir de histórias inventadas – por crianças que não tinham razão alguma para inventar histórias – seis profissionais do ensino tiveram de fugir para o interior do Estado para escapar a um linchamento e suas vidas profissionais foram destruídas. O caso aconteceu sob as barbas de Rossi. “2 - Mesmo que tenha se automutilado, não há razões para, ao contrário do que diz certa mídia suíça, o país ficar ofendido pelas críticas à xenofobia. O Partido do Povo Suíço e seu líder, Christoph Blocher, são um embaraço para boa parte do establishment político local, exatamente pela xenofobia. Blocher é da mesmíssima família política de outros líderes da extrema-direita, como o francês Jean-Marie Le Pen e o austríaco Jörg Haider, recentemente morto, para não falar da Liga Norte italiana. O embaraço é tamanho que a União Europeia chegou a impor sanções à Áustria quando o partido de Haider entrou para a coalizão governante. Portanto, a hipótese de um atentado racista era verossímil. Nem seria o primeiro, aliás”. Se existe xenofobia na Suíça – como aliás em qualquer país do mundo – isto não tem nada a ver com a simulação de um atentado que não houve. Rossi cita líderes da extrema-direita, como Jean-Marie Le Pen e Jörg Haider. Sintomaticamente, não diz uma palavrinha sobre o presidente francês François Mitterrand, que foi colaborador nazista e foi condecorado com o galardão máximo da República de Vichy, a Francisque, por seus bons serviços prestados ao Reich. Mitterrand virou a casaca e passou a militar nas esquerdas. Está acima do bem e do mal. Rossi cita o embaraço causado à Áustria quando o partido de Haider entrou para a coalizão governante, a ponto de a União Européia ter imposto sanções ao país. Correspondente internacional tarimbado, parece ter esquecido o embaraço causado à França quando a francesa Marie-Léonie Leblanc, que viajava com seu bebê de 13 meses no metrô de Paris, apresentou queixa à polícia de ter sido agredida por um grupo de jovens desconhecidos com idades entre 15 e 20 anos. Os agressores seriam negros e africanos do norte. Rasgaram sua roupa, cortaram seus cabelos, atiraram seu bebê no chão e pintaram suásticas em sua barriga por acreditar que ela fosse judia. Ainda segundo Marie, cerca de vinte pessoas assistiram à agressão passivamente, sem sequer prestar-lhe auxílio. O embaraço foi tamanho que o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, exortou os judeus da França a viajar imediatamente a Israel. "Proponho a todos os judeus que venham a Israel, mas para os judeus da França é absolutamente necessário, e eles devem partir imediatamente", disse Sharon. Como se a França tivesse declarado guerra a Israel. Alguns dias mais tarde, a investigação mostrava que a moça era mitômana. Pegou quatro meses de prisão com sursis. Segundo a imprensa, ao ser interrogada porque havia descrito seus agressores como quatro magrebinos e dois negros, respondeu tranqüilamente: "Quando eu assisto televisão, é sempre eles que são os acusados". “3 - Mas, se a versão da polícia for a verdadeira, só vai reforçar a desconfiança com que os brasileiros são vistos em parte da opinião pública europeia. Por mais que a maioria se mate de trabalhar, clandestinos ou não, os escândalos provocados por uma minoria de vigaristas contaminam todos, a ponto de ter ouvido, uma vez, de uma brasileira residente em Portugal, que todas as brasileiras são tratadas como prostitutas”. Se a versão da polícia suíça for a verdadeira – como ao que tudo indica é – Rossi terá prestado um grande serviço à desconfiança da Europa em relação aos brasileiros, já que os europeus não podem mais nem mesmo confiar em seus jornais e jornalistas mais prestigiosos. “4 - Presidente da República e chanceler não deveriam tratar publicamente de assuntos policiais, menos ainda antes de ter todas as informações. Devem, sim, criar as condições para a proteção de brasileiros, em vez de comentar os episódios que os envolvam". Jornalistas também não deveriam tratar publicamente de assuntos policiais – aliás de assunto algum, antes de ter – não digo todas – mas pelo menos as informações necessárias para não difamar um país. Eliane Cantanhêde, por sua vez, distribui volontiers a todos – não sei se brasileiros ou apenas jornalistas - a responsabilidade de sua irresponsabilidade: “Estamos todos morrendo de vergonha com a reviravolta do caso Paula Oliveira: ninguém viu skinhead nenhum, há possibilidade de automutilação, e a moça nem sequer estava grávida”. Estamos quem, cara-pálida? Eu não estou morrendo de vergonha. Nem todos os demais jornalistas e leitores que ficaram com um pé atrás após os primeiros relatos. Toda notícia falsa traz em seu bojo elementos de inverossimilhança. Onde estavam os fetos decorrentes do aborto? Cortes na pele provocam aborto? Como pode ser atacada uma moça, às 19h30 da tarde, em uma estação de trem por três marmanjos, sem que nenhum usuário da estação testemunhasse a agressão? Cantanhêde, jornalista também com não poucos anos de carreira, se jogou às cegas nas primeiras versões da notícia, sem a mínima preocupação de checar os fatos. “Lula chegou a berrar contra "tamanha violência", Amorim acusou "evidências de xenofobia", Marcondes Gadelha, da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, protestou na embaixada da Suíça, TVs e jornais encheram-se de indignação, e grupos brasileiros estavam prontos para ir às ruas, hoje, em Zurique. Um vexame! O que seria selvageria neonazista está confluindo para uma patologia individual, em que a vítima é também tristemente ré. “ Um vexame – diz Cantanhêde. Como se ela mesmo não fizesse parte do vexame. Todos cometeram vexame, menos a jornalista. Como se não tivesse escrito, dois dias antes, estas dramáticas palavras: "Globalização remete a livre mercado e a portas abertas, mas o que se vê são os mercados e as portas dos ricos batendo na cara dos outros. Não de todos, só de uns, seletivamente. Se a Paula fosse de Washington, Chicago, São Francisco ou Boston, seria vítima desse absurdo? Não. Então... se a história foi como foi, a Paula somos todos e cada um de nós”. Nenhum pedido de desculpas, nem aos suíços nem aos leitores de seu jornal. Nenhuma admissão de inépcia. Cantanhêde concluí suas esfarrapadas escusas apelando ao atual tratamento dispensado por alguns países europeus a candidatos a trabalhos clandestinos na Europa: “Se os cortes em Paula são superficiais, lineares e femininos demais para terem sido feitos por brutais skinheads, eles não eliminam as dores dos brasileiros humilhados em aeroportos espanhóis, sem banho, sem ressarcimentos e até sem dentes, perdidos a socos policiais. Paula pode ter sido um erro, mas o erro maior está lá. Por que foi tão fácil inventar e acreditar num ataque de skinheads? Porque há quem não creia em xenofobia, mas que ela existe, existe. E tende a piorar”. Mas que tem a ver uma palhaçada inventada por uma maluca na Suíça com o barramento de brasileiros nos aeroportos espanhóis? Por que foi tão fácil inventar e acreditar num ataque de skinheads? A pergunta é oportuna. Porque as esquerdas alimentam um wishful thinking da constatação da veracidade de tais episódios. Todo racismo, toda xenofobia, deve ser atribuído a brancos, ricos e preferentemente europeus. Oriundos do Terceiro Mundo, imigrantes, árabes, negros, estes não são xenófobos nem racistas. Nunca foram nem jamais o serão. O ódio ao Ocidente – aquele visceral ódio de Marx à Europa – dormido no meigo coração das viúvas, ainda não se apagou. Que ele existe, existe. E tende a piorar.
Pausa para pau na Igreja: CARDEAL-ARCEBISPO OMITE BENEFACTOR DO VATICANO Em celebração aos 80 anos de existência do Vaticano, Dom Odilo P. Scherer, cardeal-arcebispo de São Paulo, escreveu ontem no Estadão: No dia 11 de fevereiro de 1929, sendo o papa Pio XI e o rei da Itália, Vítor Manuel III, chegou-se à solução concordada do Tratado de Latrão, que deu origem ao Estado do Vaticano na sua configuração atual e estabeleceu os parâmetros da convivência com o Estado Italiano. Trata-se de um Estado sui generis, cuja pretensão ao reconhecimento no concerto político internacional não se relaciona com um eventual poder econômico nem com uma força militar, que não possui. Sua importância decorre da sua autoridade moral, enquanto representa uma instituição milenar dedicada à defesa da dignidade humana, da justiça e da paz na convivência entre os povos. Essa autoridade é bem reconhecida e prestigiada pelas representações diplomáticas (Nunciaturas e Delegações Apostólicas) presentes em mais de 190 países e pelos representantes ou observadores que mantém em cerca de 20 Organismos Governamentais Internacionais, que vão desde a Organização das Nações Unidas (ONU) até a Organização da Liga dos Estados Árabes. O que Dom Odilo não conta é que a concordata de 29 foi assinada entre Pio XI e Benito Mussolini. Os termos do tratado de reconciliação (La Conciliazione) renderam à Igreja uma enorme quantia de dinheiro, isenção de impostos e um papel constitucional que levou a uma importante e contínua influência moral sobre a futura legislação de questões sociais, tais como educação e divórcio. Estes eram os três pontos chaves da Concordata: 1) o Estado Fascista reconhecia a autonomia da hierarquia eclesiástica como uma sociedade auto-regulada e privilegiada dentro da sociedade nacional; 2) transferia do Estado para a Igreja o controle dos casamentos entre católicos; 3) Impunha o ensino obrigatório da doutrina católica em todos os centros de ensino secundários e nas escolas elementares. De inhapa, o Vaticano foi beneficiado com 750 milhões de liras a título de indenização pela perda dos estados pontifícios, ocorrida em 1861-62, bem como teve direito a usufruir de títulos de renda correspondentes a um bilhão de liras ao interesse de 5%. Quem visita Roma, hoje, ao passar pela Via della Conciliazione, estará testemunhando a destruição de uma parte particularmente pitoresca do burgo medieval. Em comemoração ao acordo histórico com Pio XII, Mussolini destruiu boa parte da Roma antiga, para ter acesso mais “moderno” à basílica de São Pedro. O ditador é visto pelo papa como o “homem da Providência”, e Pio XI lhe concede a Ordem da Espora de Ouro, que é a mais alta distinção concedida pelo Estado do Vaticano. De Mussolini, disse o papa: "Il più grande uomo da me conosciuto, e senz’altro tra i più profondamente buoni (Me foi dado a conhecer um grande homem sem reparos e profundamente bom)". Na ocasião, Sua Santidade aproveita o azo para tentar resolver uma velha pendenga da Santa Sé, que não gosta nem um pouquinho da estátua de Giordano Bruno, erigida em 1889 em Campo dei Fiori. Pede ao novo aliado que a derrube. Mussolini, que tem um filho com o nome de Bruno, toma a defesa do pensador e declara, com todas as letras, à Câmara dos Deputados, que “a estátua de Giordano Bruno, melancólica como o destino desse monge, ficará onde ela está. Tenho a impressão que seria se encarniçar contra esse filósofo que, se equivocado e persistiu no erro, no entanto já pagou”. Em represália, a Igreja canoniza então Roberto Bellarmino, o acusador de G. Bruno, nomeando-o “Doutor da Igreja”. Ao celebrar a magna data, Dom Odilo P. Scherer nos omite estes saborosos detalhes, que tornam mais emocionante a trajetória da nau de Pedro no mar da História. Para quem gosta de imagens, cá estão as celebrações da assinatura do tratado: http://ingoldwetrustt.blogspot.com/2008/09/vaticano-e-mussolini-1929.html
CHERCHEZ L'HOMME... Tudo o que o homem faz tem sentido. Secreto ou público, ciente ou inconsciente, mas sentido. É claro que alguma razão houve para que Paula Oliveira inventasse a história furada do ataque dos neonazis e da interrupção de uma gravidez que não existia. Almocei ontem com a Primeira-Namorada. Sua hipótese: ela anunciou uma gravidez de gêmeos para fisgar um noivo suíço. Como a gravidez não ocorria, de alguma forma tinha de ser "interrompida". A moça então fez alguns cortes na barriga e nas pernas, jogou três neonazis no meio e justificou o "aborto". A hipótese não me parece inviável. O pai da moça declarou ontem que não tem como provar a gravidez da filha. A mãe diz que dispõe de documentos, mas afirma não ter porque apresentá-los à imprensa. De qualquer forma, onde estão os fetos? A moça deu descarga após o "aborto"? Isto ela não declarou. Nem jornalista algum perguntou. Um leitor apresenta uma outra dúvida: não terá sobrado nenhuma calcinha ensangüentada como peça de convicção? Um dos fatores que me intrigou na primeira nota publicada na Folha de São Paulo, foi a ausência de fonte. DA REDAÇÃO, dizia a notícia, e nada mais. Acabei descobrindo que a fonte da notícia do ocorrido em Zurique estava no Brasil: fora o pai da moça que comunicara o fato à Rede Globo. Se ante um imbróglio como este, antes se dizia "cherchez la femme", acho que está na hora de "chercher l'homme". O tempo logo nos dirá. Mentira assim tosca não vai muito longe.
O FANTASMA NEONAZI * Um dos casos mais perturbadores de manipulação dos fatos ocorreu no verão europeu de 93, na Holanda. A reunião de pauta da Folha de S. Paulo foi excitada naquele dia. Uma menina marroquina, Naima Quaghmiri, nove anos, morrera ao cair em um lago em Roterdã. Duzentas pessoas teriam assistido seu afogamento, sem prestar-lhe socorro. O pauteiro brandia o telex com fúria. A idéia era produzir uma manchete como RACISTAS HOLANDESES DEIXAM MORRER FILHA DE IMIGRANTES A notícia era absurda. Duas centenas de pessoas não observam, passivamente, uma criança se afogando. O lago, uma espécie de açude, como mostrava a foto, era raso. No meio dele, havia um bombeiro com água pela cintura. Dois dias depois, novo despacho retificava o anterior. Não havia uma menina se afogando e duzentos holandeses assistindo. Naima se afogara horas antes. Policiais e bombeiros haviam pedido aos veranistas que formassem um semicírculo, de mãos dadas, e percorressem o lago em busca do cadáver. Os veranistas se recusaram. Perguntei ao editor se a reportagem seria retificada. "Não precisa" — disse — “Amanhã ninguém mais lembra disso”. Mas jornalismo é o registro da história, é nos arquivos do passado que os pesquisadores do alegado amanhã buscam dados para seus ensaios, aleguei. "O que de fato acontece" — disse o editor — "só vamos saber meses depois. Jornalismo é assim mesmo". Ao remexer os arquivos de jornais, os pesquisadores do futuro ficarão sabendo que a Holanda era um pequeno país europeu, habitado no século passado por cruéis racistas brancos, capazes de negar auxílio a uma criança marroquina que se afogava. Isto foi confirmado pela própria Folha. Em 94, um de seus redatores, em artigo sobre racismo, retoma o fato como verdadeiro. O jornalismo contemporâneo, para atingir o maior número de leitores, baliza o texto com fotos ou grafismos de modo a tornar o mais esquemática possível a mais complexa das realidades. Como a mente do leitor já vem alimentada por um imaginário do cinema e da TV, os ícones do século são preciosos sinais de tráfego para orientação da leitura. As reportagens assumem a estrutura romanesca e os personagens são apresentados de forma que o leitor perceba onde está o bem e o mal, quem é herói e quem é vilão, vítima ou algoz. De uns tempos para cá, a mídia foi invadida pela figura do neonazi. Se um grupo de jovens, brancos e preferentemente europeus ou de origem européia, sai a fazer balbúrdias e agride imigrantes, negros ou árabes, está configurado o neonazismo. Podem até mesmo jamais ter ouvido falar de nazismo, Hitler ou Segunda Guerra. Mas são evidentes neonazis. Se o grupo de agressores é composto por negros, não são neonazis. Negro, por definição, não pode ser nazista. Se não há agressão alguma, cria-se pelo menos atos criminosos por omissão. Foi o que aconteceu em Sebnitz, na Alemanha, em dezembro de 2000. O Estadão titulou com gosto: MORTE DE CRIANÇA POR NEONAZISTAS ENVERGONHA ALEMANHA Vamos à notícia: Berlim — No dia seguinte à revelação do assassinato do garoto Joseph, de seis anos, do qual um grupo neonazista é o principal suspeito, surgiram vozes em toda a Alemanha pedindo justiça. Enquanto isso, no local do crime, o povoado de Sebnitz, na Saxônia, vivem-se momentos de vergonha após a cumplicidade silenciosa de seus habitantes. O jornal Bild denunciou a história de Joseph, filho de pai iraquiano e mãe alemã, que, perante a indiferença de 300 banhistas, foi espancado, torturado e afogado por um grupo de neonazistas em uma piscina pública. Na época, o caso foi encerrado como um acidente normal e, graças apenas à tenacidade da mãe da criança, a promotoria reabriu agora o caso. A história da morte do menino ocupou, hoje, a capa de todos os principais jornais do país e o Bild reproduziu, também na primeira página, uma fotografia do garoto morto, junto com a mãe. Esta é a notícia. Mesmo fractal do episódio em Roterdã: filho de imigrante se afogando, uma multidão de banhistas assistindo. Se a notícia sai no ano 2000, é bom lembrar que o fato teria ocorrido em 1997. Detalhes novos: criança espancada, torturada e assassinada. Os banhistas, desta vez são trezentos. Este tipo de notícia tende a aumentar nos próximos anos. É fácil acusar uma multidão. Como ninguém é acusado individualmente, ninguém reclama. Mais difícil é acusar uma ou duas pessoas. Pode dar processo. Vamos aos fatos, em tudo semelhantes ao episódio de Roterdã. No dia 13 de Junho de 1997, uma criança de 6 anos, Joseph Abdulla, morrera afogada numa piscina pública cheia de gente. Quando bombeiros e médicos chegaram, era tarde demais: o corpo boiava há dez minutos sem vida. A polícia fez um inquérito e concluiu que tudo foi um lamentável acidente. O caso foi arquivado e esquecido. Ocorre que a mãe, a farmacêutica Renate Kantelberg-Abdulla, se convenceu de que Joseph fora morto por neonazis por ser filho de um iraquiano. Os assassinos tê-lo-iam previamente drogado e depois lançado à água. Para comprovar esta tese, foi contratado um dos advogados mais conhecido da Alemanha, Rolf Bossi. Renate conseguiu também o testemunho de 23 pessoas, adultos e crianças, cujas versões levavam a pensar que poderia não se ter tratado de um acidente. O Bild do dia 23 de novembro recoseu a matéria com o título NEONAZIS AFOGAM CRIANÇA Sebnitz passou para a primeira página da imprensa internacional e foi invadida pela televisão. A família teve de fugir para a Baviera e trancou-se em casa de familiares. Kurt Biedenkopf, o ministro presidente da Saxónia, foi a Sebnitz participar numa cerimônia religiosa em memória da «vítima». Edmund Stoiber, ministro presidente da Baviera, se disse horrorizado. «Não apetece viver num país onde uma criança de seis anos é assassinada por criminosos, por causa de motivos políticos, e onde ninguém mexe um dedo para impedir o crime», escreveu o jornal Tagesspiegel, de Berlim. Soube-se depois que Renate dera dinheiro às 23 testemunhas para influenciar as suas versões. Uma das crianças interrogadas confessou ter dito “aquilo que a senhora queria ouvir, para ela me deixar voltar para casa». Tampouco foram confirmadas as ligações com grupos neonazis. O próprio Bossi, advogado de Renate, escrevera uma carta à sua cliente, duvidando da tese de uma conspiração racista e dizendo-lhe que ela «insistia em travar uma luta contra o resto do mundo». O desmentido no Estadão veio alguns dias depois: NEONAZISMO É DESCARTADO EM MORTE DE MENINO Berlim — Autoridades da província alemã da Saxônia descartaram nesta quarta-feira a hipótese de um garoto de seis anos de idade, encontrado morto em uma piscina, em 1997, ter sido vítima de violência neonazista. (...) O chefe de gabinete civil da Saxônia informava nesta quarta-feira sobre a inexistência de evidências convincentes de que neonazistas foram responsáveis pela morte do garoto. (...)Promotores informaram ontem que nenhuma das testemunhas viu realmente como Joseph morreu. A principal testemunha tinha apenas 12 anos quando ocorreu o incidente, em junho de 1997. Ou seja: não havia criança alguma sendo morta por neonazistas, nem a Alemanha tinha porque se envergonhar de coisa alguma. Enquanto isso, Sebnitz, mais a Alemanha toda — e por extensão a Europa — foram difamadas, como geografias onde grupos neonazistas afogam filhos de imigrantes, como lazer. ----- * Estes episódios – e outros – você encontra em meu ensaio Como ler jornais, que pode ser baixado gratuitamente de http://www.ebooksbrasil.org.
Sábado, Fevereiro 14, 2009
A FARSA DE MARIE-LÉONIE Já aconteceu na França e pode ser lido, junto com outros casos, em meu livro Como ler jornais, que pode ser baixado de http://www.ebooksbrasil.org. Dia 10 de julho de 2004, a máquina de produzir racismo voltou a funcionar. Uma jovem de 23 anos, Marie-Léonie Leblanc, que viajava com seu bebê de 13 meses no metrô de Paris, apresentou queixa à polícia de ter sido agredida por um grupo de jovens desconhecidos com idades entre 15 e 20 anos. Os agressores seriam negros e africanos do norte. Rasgaram sua roupa, cortaram seus cabelos, atiraram seu bebê no chão e pintaram suásticas em sua barriga por acreditar que ela fosse judia. Ainda segundo Marie, cerca de vinte pessoas assistiram à agressão passivamente, sem sequer prestar-lhe auxílio. Escândalo na França, horror na Europa. Os jornais do continente deram suas primeiras páginas ao fato abominável. Jacques Chirac manifestou seu susto ao tomar conhecimento "desta odiosa agressão" e pediu que seus autores fossem "julgados e condenados com severidade e responsabilidade". Organizações religiosas e de direitos humanos condenaram com veemência não tanto a agressão dos árabes e negros, mas principalmente a omissão e passividade dos demais passageiros. Um clima de progrom perpassou a Europa. Neste domingo passado, o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, exortou os judeus da França a viajar imediatamente a Israel. "Proponho a todos os judeus que venham a Israel, mas para os judeus da França é absolutamente necessário, e eles devem partir imediatamente", disse Sharon. Como se a França tivesse declarado guerra a Israel. Por 48 horas, o país foi tido como uma reencarnação da Alemanha nazista. Logo se descobriu que a denunciante era uma moça com problemas mentais, que já apresentara queixas semelhantes no passado. Um exame das imagens das câmeras de segurança da estação de metrô não mostraram agressão alguma. Eventuais testemunhas foram chamadas a depor e nenhuma se apresentou. Diante das evidências, a moça acabou “quebrando” e admitiu a farsa. Jornal algum, nem mesmo o sisudo Le Monde, teve a preocupação de checar a notícia, que tinha todos os componentes para ser um blefe. E blefe dos mais perigosos, pois joga com ressentimentos de duas comunidades que nutrem ódios milenares. A prefeitura de Lyon chegou a programar uma passeata contra o anti-semitismo, cancelada após a confissão de Marie L. Os muçulmanos, por sua vez, tiraram sua casquinha, denunciando uma "islamofobia reinante, acentuada pelos meios de comunicação e as autoridades, que se lançaram a denunciar os fatos sem esperar para verificá-los". É fácil acusar uma multidão. Os fabricantes de racismo desde há muito intuíram isto. Como ninguém é acusado individualmente, ninguém reclama. Mais difícil é acusar uma ou duas pessoas. O acusado se vê forçado a defender-se e o acusador arrisca um processo. Como a luta de classes está fora de moda, o racismo tornou-se o novo motor da história. Multidões serão novamente denunciadas por crimes que não foram cometidos nem podem ser provados. Mesmo desmentidos, comunidades e países inteiros herdarão a pecha de racistas. O alvo é a Europa. Como o fantasma do comunismo não conseguiu dobrá-la, como previa Marx já no Manifesto, suas viúvas brandem um outro, o da luta racial.
REPÓRTER DO ESTADÃO TRANSUDA HUMANISMO Prometi relembrar mais dois ou três embustes da imprensa, semelhantes ao caso de Zurique. E vou cumprir minha promessa. Mas não resisto, antes de disso, a registrar a santa indignação de Gilles Lapouge, correspondente do Estadão em Paris. Do alto de sua poltrona às margens do Sena, o renomado repórter comenta o horror às margens do Limmat. O texto do lúcido jornalista transuda humanismo. Fecha com uma chave de ouro metafísica: "A única coisa certa é que as marcas do horror, mesmo que desapareçam da carne da moça, dificilmente se apagarão no profundo de suas noites. Como poderá ela esquecer que esteve cara a cara com o mal?" Estado de São Paulo Sexta-Feira, 13 de Fevereiro de 2009 MARCA DO HORROR DIFICILMENTE SE APAGARÁ Gilles Lapouge A seção de tortura da qual foi vítima a advogada brasileira Paula Oliveira nas proximidades de Zurique é de arrebentar o coração. Uma noite de horror. Voltando para casa em Stattbach, a jovem é capturada por três homens vestidos de preto. É então torturada durante quinze minutos, quinze eternidades, marcada com estilete na barriga, nos braços, nas pernas. Enquanto a polícia investiga, devemos interpretar com prudência a agressão. Mas a lentidão policial surpreende. E quando ela finalmente se move, parece duvidar do testemunho da jovem. É algo chocante, principalmente por se tratar de uma jovem tão selvagemente marcada. Ontem de manhã, a polícia suíça, um pouco envergonhada, explica a lentidão e suas suspeitas: no ano passado, uma jovem alemã teria contado uma história semelhante e posteriormente descobriu-se que ela havia mentido. Ela própria se infligira as feridas. É possível. Mas isso não é uma desculpa. Diante de uma jovem nessas condições, não se pode começar pondo em dúvida sua palavra. Ela deve ser socorrida, ajudada. Se for o caso, verifica-se mais tarde. A maior parte das polícias europeias mostra a mesma desconfiança, a mesma má vontade em reconhecer a barbárie, principalmente quando dela emana certo odor nazista. Se acrescentarmos à inércia oficial o medo de muitas vítimas de apresentar queixa, pode-se concluir que as agressões são muito mais numerosas do que as estatísticas afirmam. E se se tratar de um bando de jovens cretinos, drogados ou de desempregados, de vândalos? Aparentemente, Paula não foi roubada. As suspeitas então dirigem-se para os grupelhos neonazistas que fazem estragos na Europa. No domingo, por exemplo, são esperados em Dresden 6 mil neonazistas para a realização da "marcha fúnebre" que, anualmente, lembra os bombardeios que destruíram essa cidade alemã em 1944. Os bárbaros gravaram com estiletes na carne da jovem a sigla SVP. O SVP (Partido Popular Suíço, em alemão) é promovido por um político talentoso, grosseiro, agressivo e demagogo, Christoph Blocher, que é um riquíssimo empreendedor. Blocher corresponde aproximadamente ao que é na França Jean-Marie Le Pen ou, na Áustria, ao que foi Jorg Haider - agitadores populistas que não conseguem esconder sua atração pela lenda nazista. A marca neonazista pode ser detectada na maneira como o ataque ocorreu: à noite, em uma atmosfera gótica, as longas vestes negras e as siglas inscritas em desenhos de sangue na carne das vítimas. A "sacralização do sangue", o sangue como "rito de passagem" são temas obsessivos dos fanáticos do "nada", sejam eles inspirados pela Al-Qaeda ou pelo nazismo. "Sangue e honra", intitula-se uma das gangues neonazistas. Por ocasião de um concerto clandestino realizado em Brig, na Suíça, em dia 23 de janeiro, foi repetidamente gritado o slogan "O sangue deve correr". Impossível citar todas as torpezas da Europa, são demasiadamente numerosas. Na região de Flandres, Bélgica, os extremistas obtêm regularmente nas eleições 25% dos votos. Eles são financiados por uma dezena de pequenas agremiações misteriosas. Na Inglaterra, também existem inúmeras células neonazistas. Ao mesmo tempo, multiplicam-se bandos desprovidos de qualquer ideologia, adeptos da baderna, da violência pura, indiferente e cega. As vítimas são escolhidas ao acaso e torturadas até o insuportável. Há dois anos, em Bagneux, em um bairro de Paris, uma "gangue de bárbaros", entre 16 e 32 anos, sequestrou um jovem; seus membros bateram nele durante três semanas, até matá-lo. A vítima era um judeu. Mas também em Israel há xenofobia. Há algumas semanas circulou na Internet uma palavra de ordem: "Se você quiser arrebentar um árabe, apareça hoje à noite com um cassetete porque a violência é o meio legítimo de restaurar a hegemonia judaica no Norte de Jerusalém." Posteriormente, dois jovens árabes que passavam pelo local foram encontrados, vivos, mas banhados em sangue. Na Rússia, onde são enumerados oficialmente 141 grupos próximos dos neonazistas, o alvo único é o "estrangeiro". As gangues saem à noite e batem em todos que não tenham uma "fisionomia" russa: árabes, caucasianos, negros, chechenos, asiáticos. A brutalidade é repugnante. Cair em suas mãos significa morrer. Na Eslováquia, as gangues são ecléticas. Elas visam todas as minorias: a prioridade cabe aos judeus (à "sujeira", dizem). Do mesmo modo, um cigano que cai em suas garras precisa encomendar a alma a Deus. O mesmo ocorre com os sem-teto e com os drogados. Por quê? Mistério. Este breve e aleatório "tour da vergonha" não esclarece o calvário da jovem brasileira torturada no país mais civilizado do planeta. Terá ela esbarrado em verdadeiros neonazistas, como sugere o estilo da agressão? Terá sido simples objeto de divertimento de três idiotas que camuflam sua nulidade mórbida sob o disfarce neonazista? Será que algum dia saberemos? A única coisa certa é que as marcas do horror, mesmo que desapareçam da carne da moça, dificilmente se apagarão no profundo de suas noites. Como poderá ela esquecer que esteve cara a cara com o mal?
ESPECIALISTAS EMÉRITOS EM CONTOS-DO-VIGÁRIO CAEM NO CONTO DA VIGÁRIA AGRESSÃO A BRASILEIRA NA SUÍÇA FOI 'ATO BÁRBARO', DIZ CNBB 13 de fevereiro de 2009 • 17h10 • atualizado às 17h17 LARYSSA BORGES Direto de Brasília A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) criticou nesta sexta-feira o suposto ataque de skinheads contra a brasileira Paula Oliveira na Suíça. Na visão da confederação, o ato é preocupante, pois aponta uma postura de intolerância que parece ter tomado conta de quase todos os países na Europa. "O que foi cometido é um ato bárbaro, é isso que a polícia tem que investigar", afirmou o presidente da CNBB, d. Geraldo Lyrio Rocha. O bispo considerou inadmissível o fato de a polícia suíça ter tentado insinuar que a brasileira poderia ter forjado o ataque se automutilando. D. Geraldo lembrou que no ano passado diversos estrangeiros, entre eles muitos brasileiros, foram impedidos de entrar na Espanha por causa do aumento de exigências naquele país, que é considerado como a porta de entrada para a União Européia. "Manifestamos indignação diante do fato e preocupação com os desdobramentos que situações como essa venham a se multiplicar, especialmente na Europa", disse
COMO OS JORNAIS CRIAM BARRIGAS A crônica fácil é uma tentação irresistível, particularmente para quem escreve todos os dias. Uma menina jovem, bonita, oriunda de país subdesenvolvido, além disso advogada, vivendo longe dos seus e tentando construir sua vida em país rico e hostil, é retalhada a faca por jovens nazistas na Europa. Mais ainda: estava grávida – de gêmeos – e abortou. A vítima já nem é só uma, mas três. Contraposição perfeita e simétrica, o bem e o mal absolutos. A fêmea indefesa e os machos prepotentes. A inocência dos trópicos e a perversidade do norte. A crônica está feita. Só falta encher a lingüiça com uma série enfadonha de lugares-comuns humanísticos. A pergunta retórica eivada de batida erudição literária: “Lembra, nobre leitor, quando tudo indicava que o prazo de validade de "1984", de Orwell, havia expirado? Com Fukuyama, nós não chegamos a achar que a luta de ideologias e de classes e tudo o que delas emanava havia chegado ao fim? Pois a atual crise econômica é como um bafo rançoso no cangote. Com ela, a intolerância e a xenofobia que estavam dormentes na Europa acordaram. E de mau humor”. O espanto sagrado ante a maldade que impera no coração dos homens: “O atentado contra a advogada brasileira Paula Oliveira nas imediações de Zurique é um desses episódios tão bestiais que dá vontade de passar ao largo, fingir que não leu, para não ter que aceitar que a humanidade ainda oferece tal grau de selvageria”. A desumanidade intrínseca ao capitalismo, mesclada a um dorido aceno ao saudoso socialismo: "Globalização remete a livre mercado e a portas abertas, mas o que se vê são os mercados e as portas dos ricos batendo na cara dos outros. Não de todos, só de uns, seletivamente. Se a Paula fosse de Washington, Chicago, São Francisco ou Boston, seria vítima desse absurdo? Não. Então... se a história foi como foi, a Paula somos todos e cada um de nós”. E por aí vai. Os ingredientes para a confecção da lingüiça são muitos e estão disponíveis no vasto mercado do pret-à-penser. Não precisa nem comprar, é só escolher e pegar. Um episódio como o de Zurique estabelece uma competição feroz entre cronistas e colunistas, cada um querendo mostrar mais rapidamente maior indignação do que o outro. Esperar doze horas para checar melhor os fatos? De jeito nenhum! Se eu, que sou o decano dos cronistas desta Folha, não escrevo agora, aquela deslumbrada com nome de vermute vai passar por mais humanista que eu. Se eu, a cronista lúcida e cosmopolita, não escrevo agora, aquele bode velho de barbas brancas vai passar por mais ágil do que eu. Se eu, a colunista linda, jovem e equilibrada, espero mais doze horas, aqueles dois medíocres decrépitos me roubam a crônica. E assim se constrói uma barriga internacional, que só serve para duas ou três coisas: - diminuir ainda mais a credibilidade já escassa da imprensa - ressuscitar a finada luta de classes – lembram? – aquele eterno combate entre a classe dominante e os oprimidos - perturbar a boa – ainda que distante – vizinhança entre dois países - e ridicularizar ainda mais o presidente da República, se é que ele ainda é passível de ser mais ridículo. Esta emulação perversa que permeia a imprensa toda, antes de ser dos cronistas ou colunistas, é dos próprios jornais. Se nós não damos, o Estadão dá, pensa a Folha. Se nós não publicamos, a Folha nos fura, pensa o Estadão. Estão dados todos os elementos para o desastre. Depois... bom, depois se remenda como for possível. Além do que a memória do leitor é curta. Daqui a um mês ninguém fala mais no assunto. Exceto esses cronistas independentes e deselegantes, que teimam em lembrar o passado em nome de ultrapassados princípios que o jornalismo contemporâneo não mais cultiva. Eu sou um destes cronistas irritantes, e vou lembrar mais dois ou três embustes coletivos de nossa imprensa. Poderia lembrar dez, cem, mil. Mas dois ou três já são suficientes para mostrar ao leitor que quem acredita em tudo que lê, melhor faria se não tivesse aprendido a ler.
Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009
IMPRENSA BRASILEIRA CAI NO CONTO DA XENOFOBIA (I) Ontem ainda, a Folha de São Paulo mancheteava: BRASILEIRA É ATACADA NA SUÍÇA POR SKINHEADS E PERDE BEBÊS Paula Oliveira estava grávida de gêmeas; ela foi agredida em cidade perto de Zurique Cortes a estilete feitos nas pernas da advogada formam a sigla do SVP, partido suíço que apoia política anti-imigrante (O texto é assinado pela reportagem local. Duas fotos frontais, da barriga e das pernas da moça, mostram escoriações onde se vê nitidamente a sigla SVP. Reproduzo a notícia na íntegra): Uma advogada brasileira de 26 anos foi espancada e teve boa parte do corpo retalhado por estilete na Suíça por três homens brancos e carecas que pareciam skinheads, na noite de segunda-feira. Grávida de três meses de gêmeas, Paula Oliveira sofreu aborto na mesma noite, quando foi socorrida e internada em hospital universitário de Zurique. Ela continua em repouso, mas já não corre mais risco de morte. De acordo com informações do Itamaraty, Paula é funcionária do grupo controlador dinamarquês A. P. Moller - Maersk. O ataque aconteceu quando ela estava na estação de trem de Dubendorf, pequena cidade a cerca de cinco quilômetros de Zurique, onde trabalha. A brasileira foi arrastada pelo grupo até uma área cercada por árvores e atacada pelos homens por cerca de 10 minutos. Quando foi abordada, a advogada, que é branca, falava ao celular em português com a mãe, que mora no Brasil, o que faz aumentar a suspeita de que o grupo que a atacou é composto por simpatizantes nazistas. Um dos agressores tinha uma suástica na cabeça. Algumas das marcas de estilete que atingem especialmente as pernas e a barriga da advogada formam a sigla SVP, do Partido do Povo Suíço, que defende políticas anti-imigrantes consideradas, muitas vezes, racistas pela oposição. Em eleição parlamentar de 2007, um cartaz do partido exibia uma ovelha negra sendo expulsa por três brancas da bandeira da Suíça com os dizeres "Por mais segurança". Em resposta, simpatizantes da oposição social-democrata picharam peças de propaganda do SVP com suásticas e imagens de Adolf Hitler. Uma das principais queixas do SVP é que imigrantes, mesmo europeus, são contratados para postos de trabalho que poderiam ser ocupados por suíços. Paula é noiva de um suíço, que soube da agressão por telefone. Segundo o Itamaraty, ela mora no país legalmente. O pai da advogada, o assessor parlamentar Paulo Oliveira, viajou na terça-feira para o país. Ele disse ao "Jornal Nacional" que espera trazê-la de volta para o Brasil assim que ela estiver em melhores condições de saúde, o que pode levar cerca de 10 dias.
IMPRENSA BRASILEIRA CAI NO CONTO DA XENOFOBIA (II) Hoje, sexta-feira, indignação nacional. Bárbara Gancia dramatiza e aproveita para demonstrar seu conhecimento de Europa e sua erudição em Orwell. Não vou resistir, vou de novo citar na íntegra: EMMANUEL GOLDSTEIN VOLTOU ________________________________________ Em "1984", Goldstein é uma criação do Partido, um inimigo comum que serve para canalizar a insatisfação ________________________________________ VAI COMEÇAR tudo de novo. A Europa não digere bem o diferente, não gosta nem mesmo dos seus. Na Itália, e também na Suíça, cidades separadas por coisa de 40, 50 quilômetros falam dialetos ou línguas completamente diferentes e, muitas vezes, se odeiam. Na Inglaterra, ainda predomina um sistema de castas. Literalmente até ontem, os filhos da nobreza não precisavam ser eleitos para fazer parte do Parlamento. Para obter uma cadeira na Câmara dos Lordes, bastava que eles se dessem ao trabalho de nascer. As diferenças sociais entre uma casta e outra começam pela maneira de falar. Cada colégio tradicional tem seu próprio sotaque e qualquer inglês sabe reconhecer o ex-aluno de Eton pela maneira como ele fala. Da mesma forma, a tradição diz que quem nasce na área em que os sinos da igreja St. Mary-le-Bow podem ser ouvidos irá falar cockney, o sotaque predominante entre a classe trabalhadora. Já imaginou ser definido social e culturalmente por toda a sua vida pela maneira como você fala? Na semana passada, os italianos aprovaram uma lei permitindo que os médicos da rede pública de saúde exerçam com naturalidade o ódio aos estrangeiros. De agora em diante, eles podem denunciar quem vive ilegalmente no país assim que o imigrante ilegal pisar no consultório buscando atendimento médico. Lembra, nobre leitor, quando tudo indicava que o prazo de validade de "1984", de Orwell, havia expirado? Com Fukuyama, nós não chegamos a achar que a luta de ideologias e de classes e tudo o que delas emanava havia chegado ao fim? Pois a atual crise econômica é como um bafo rançoso no cangote. Com ela, a intolerância e a xenofobia que estavam dormentes na Europa acordaram. E de mau humor. Em "1984", Emmanuel Goldstein é uma criação do Partido, um inimigo comum que serve para canalizar o descontentamento da população. Ele é uma espécie de Guerra das Malvinas, que foi confeccionada pelos generais argentinos para distrair a população de suas reais aflições. Parece incrível que, a esta altura, Emmanuel Goldstein possa ter ressuscitado na Europa. Mas ele voltou na pele de um africano, um sul-americano ou um árabe, sem permissão de residência, que ameaça o emprego do europeu. E está prestes a ser linchado em praça pública. Na noite da última segunda-feira, em Zurique, na Suíça, a advogada pernambucana Paula Oliveira, de 26 anos, teve a infelicidade de ser confundida com Emmanuel Goldstein por supostos skinheads. Paula foi espancada e cortada a estiletadas. Grávida de gêmeas, ela sofreu aborto na noite da agressão e acabou internada em estado grave. Depois de vê-la no hospital, seu pai disse: "Paula recebeu uma centena de ferimentos e teve o corpo todo retalhado; sempre achamos que essas coisas só acontecem no cinema...". Apesar da pouca idade durante a Segunda Guerra, minha mãe colaborou com os "partigiani" levando e trazendo encomendas em uma cesta de piquenique. E viu um primo adolescente ser morto a sangue frio pelos nazistas. Assistimos juntas à queda do Muro de Berlim pela TV. Ela não parecia muito animada. Perguntei o que havia e ela disse: "Vai começar tudo de novo". Minha mãe pode ter errado o timing, mas nunca se engana sobre o fundamental. Está começando tudo de novo.
IMPRENSA BRASILEIRA CAI NO CONTO DA XENOFOBIA (III) Clóvis Rossi não deixa por menos e evoca o holocausto. De novo não resisto. Segue a íntegra: O GALOPE DA SELVAGERIA SÃO PAULO - O atentado contra a advogada brasileira Paula Oliveira nas imediações de Zurique é um desses episódios tão bestiais que dá vontade de passar ao largo, fingir que não leu, para não ter que aceitar que a humanidade ainda oferece tal grau de selvageria. Há dois aspectos no crime. Primeiro, o nítido avanço nos últimos muitos anos da xenofobia, do racismo, do repúdio ao "outro", seja qual for o "outro" da vez. Esse avanço faz com que partidos xenófobos, como o Partido do Povo Suíço, ao qual suspeita-se que pertença ao menos um dos agressores de Paula, acabem entrando no "mainstream", quando eram marginais até faz relativamente pouco tempo. O caso de Israel talvez seja o mais emblemático: é assustador que a tribo que sofreu a mais cruel perseguição do século 20 ponha no "mainstream", no início do século 21, o partido de Avigdor Lieberman, que prega a limpeza étnica (no caso, dos árabes). Mas a xenofobia/racismo não explica tudo. Há casos de bestialidade que não têm coloração ideológica. O Brasil é um repositório formidável de episódios do gênero. O diabo -e aí não é força de expressão- é quando se soma ao racismo a violência que impregna a sociedade. Durante muito tempo, recusei-me a crer na tese de que a televisão estimula a violência de tanta violência que leva ao ar. Achava que a TV não inventa a violência; mostra o que já aconteceu na vida real. Hoje, não tenho tanta segurança. Banalizou-se a violência, na TV, no cinema, nos videojogos, até em raças de cães que, nos meus tempos de inocência, nem existiam. A violência, em grau exacerbado, passou a ser, digamos, natural. O que ainda me choca, em certos videojogos, é o normal para meu neto. Que a adolescência da geração dele é mais rica, do ponto de vista material, que a minha, parece óbvio. Mas, do ponto de vista cultural, será que evoluímos?
IMPRENSA BRASILEIRA CAI NO CONTO DA XENOFOBIA (IV) Eliane Cantanhêde também dá seu pitaco. A culpa é da globalização: A PAULA SOMOS NÓS BRASÍLIA - Não houve roubo nem estupro. Logo, até ordem em contrário, só há uma explicação plausível para a selvageria de três homens contra a advogada brasileira Paula Oliveira, de 26 anos, que perdeu bebês gêmeos depois de espancada e cortada com estilete por três skinheads na Suíça: xenofobia. Os skinheads não nasceram com a crise internacional, e a covardia contra Paula não foi a primeira nem será a última. Apesar disso, o episódio só reforça a sensação, ou o temor, de que as dificuldades econômicas e o crescente desemprego exacerbem o protecionismo e a xenofobia nos países ricos. A agressão a Paula ocorre quando a Suíça aprova referendo ratificando que estrangeiros da União Europeia podem morar, trabalhar e circular livremente por suas fronteiras. O "sim" teve 60%. Ou seja: 40% são contra a livre circulação - e os próprios imigrantes. No Rio, em São Paulo, em Recife e em qualquer metrópole brasileira, o risco do turista estrangeiro é ser assaltado por pivetes com um trezoitão na orelha. Vive acontecendo. De vez em quando morre um, dois ou três. A violência é crônica. Em pequenas, médias e grandes cidades europeias, os riscos de violência contra turistas, estudantes ou imigrantes de nacionalidades consideradas "menos nobres" por xenófobos são outros: vexames em aeroportos, dias sem tomar banho até serem despachados de volta, perder os dentes a socos policiais e, agora, voltar com siglas de partidos de direita ou grupos nazistas marcadas a sangue no corpo. É uma violência aguda. Até quando? "Globalização" remete a livre mercado e a portas abertas, mas o que se vê são os mercados e as portas dos ricos batendo na cara dos outros. Não de todos, só de uns, seletivamente. Se a Paula fosse de Washington, Chicago, São Francisco ou Boston, seria vítima desse absurdo? Não. Então... se a história foi como foi, a Paula somos todos e cada um de nós.
IMPRENSA BRASILEIRA CAI NO CONTO DA XENOFOBIA (V) Marco Trepp, economista suíço noivo da moça, acha tudo muito triste: - Ela está numa fase de pós-trauma, com muito medo de tudo, especialmente de andar na rua. Tivemos que levá-la de volta ao hospital devido a infecções, mas não parece nada tão grave. O problema é a cabeça dela. À noite, ela está tendo muitos pesadelos. Não consegue dormir direito. Acorda suada, gritando. Estamos cercados não só de médicos, mas de psicólogos, para que ela fique mais tranquila. É uma situação muito triste. O assessor parlamentar Paulo Oliveira, pai de Paula, se diz "revoltado" com o relacionamento da Polícia da Cidade de Zurique que, segundo ele, tem fornecido poucas informações aos parentes a respeito do caso e cogita a possibilidade de armação. "A conduta da polícia é injustificável. Como podem colocar em dúvida o que aconteceu? É só ver as marcas que ficaram na minha filha", disse ele à Folha, por telefone, enquanto acompanha a jovem no hospital. Em Recife, a família de Paula Oliveira também critica a Polícia da Cidade de Zurique por levantar a hipótese de que a própria jovem tenha se cortado com estilete e se ferido propositalmente. "Eles insistem na tese da automutilação. Ela teria de ter feito as marcas de letras [SVP, que formam a sigla de partido suíço nacionalista] de ponta-cabeça. É um absurdo", diz Silvio Oliveira, 54, tio de Paula.
IMPRENSA BRASILEIRA CAI NO CONTO DA XENOFOBIA (VI) Segundo a imprensa nossa, as autoridades brasileiras estão cobrando explicações da Embaixada da Suíça e mais empenho da polícia daquele país. Para autoridades em Brasília, há evidências de xenofobia, preconceito e intolerância contra a brasileira. O intrépido ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, pediu ao governo da Suíça transparência nas investigações e rigor na punição dos agressores. Ainda ontem, Amorim disse que há claras evidências de xenofobia na agressão contra a advogada brasileira Paula Oliveira, 26, na Suíça. "A moça não foi assaltada, aparentemente não houve estupro. Não que essas outras coisas diminuíssem o caso, apenas denotam outra motivação." Sobrou até para o Apedeuta: "O presidente Lula reagiu indignado à agressão à brasileira. “O que nós queremos é que eles respeitem os brasileiros lá fora como nós os respeitamos aqui e como nós os tratamos bem aqui. Acho que não podemos aceitar e não podemos ficar calados diante de tamanha violência contra uma brasileira no exterior”, afirmou". Leiamos agora notícia do portal Terra, datada de hoje, 12h28, e atualizada às 15h17: BRASILEIRA AGREDIDA NÃO ESTAVA GRÁVIDA, DIZ PERITO SUÍÇO O diretor do Instituto de Medicina Forense da Universidade de Zurique, Walter Bär, afirmou nesta sexta-feira que, a partir de exames de legistas e ginecologistas, sua conclusão é de que a brasileira Paula Oliveira não estava grávida e teria ela mesma feito os ferimentos em seu corpo. Em entrevista coletiva na sede da polícia de Zurique, Bär afirmou que resultados laboratoriais de exames realizados na brasileira pelos ginecologistas do Hospital da Universidade de Zurique apontaram que Paula Oliveira não apresentava gravidez no momento do suposto ataque. "Constatamos que os cortes encontrados no corpo dela foram realizados em locais que podem ser alcançados por ela mesma", afirmou Bär. "Além disso, as partes mais sensíveis do corpo feminino, como genitais e seios, não foram atingidos pelos ferimentos", acrescentou. "Minha conclusão é que ela mesma fez os ferimentos." "Vou tirar aqui uma conclusão, mas, como em todas as conclusões, existe o risco de uma interpretação errônea", acrescentou o perito. "Um médico legista experiente tem que presumir que uma autoflagelação (ato com as próprias mãos) está bastante em evidência." "Quero ressaltar que o Instituto de Medicina Forense da Universidade de Zurique é uma entidade independente, sem ligação com a polícia nem com as autoridades de Justiça", observou Bär. De acordo com a polícia suíça, as investigações sobre o caso ainda não foram concluídas e seguem em andamento em todas as direções.
IMPRENSA BRASILEIRA CAI NO CONTO DA XENOFOBIA (VII) O orgulho nacional ergueu-se como as cerdas bravas do javali, como diria Nelson Rodrigues. Após tantas humilhações nos aeroportos de Nova York, Londres e Madri, os brasileiros tinham agora uma vítima tangível da sanha nazista adormecida dos europeus. Vítima pra leitor algum botar defeito. Advogada, jovem, bonita e – segundo as primeiras notícias – em situação legal na Suíça. Só podia ser xenofobia. Nem o arguto chanceler, nem o astuto presidente, nem os lúcidos jornalistas, se preocuparam em saber onde estariam os dois fetos. Segundo a moça, o aborto ocorreu no banheiro de uma estação. Sumiram pelo ralo? Jornalista algum parece ter notado que as fotos da vítima são sempre frontais e os ferimentos estão localizados em partes ao alcance das mãos. Seria de supor-se que uma moça, quando atacada, se debata. Ora, se se debatesse, as letras riscadas nas pernas e na barriga não teriam a regularidade que apresentam. Nunca foi tão fácil despertar o Afonso Celso que reside no meigo coração de pomba mansa dos mais ilustres nomes da imprensa tupiniquim. A atitude apressada dos coleguinhas de imprensa parece ter sido uma espécie de desagravo ao que se diz hoje do Brasil na Europa, por ter dado generosa acolhida a um terrorista e assassino italiano. Era chegada a vez de colocar o velho continente no banco dos réus e reduzi-lo à sua condição intrínseca de continente racista. Acontece que, nestes dias de Internet, uma farsa mal consegue manter-se em pé por 24 horas.
Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009
EUA E ISLÃ, UM MESMO COMBATE: QUANDO OS EXTREMOS SE TOCAM Esta controvérsia é tão localmente determinada, tão norte-americana, como a apple pie ou o Oncle Sam. Em nenhuma outra nação ocidental se poderia considerar tal monstruosidade como um movimento político sério: ele apareceria à evidência como o fato de quaisquer bêbados sem importância e totalmente marginais. (Stephen Jay Gould, 1999, à propósito do debate entre evolucionismo e criacionismo). Sempre considerei este debate uma idiossincrasia de ianques. De repente, Charles Darwin tornou-se o grande inimigo de Deus. Como se para negar Deus fosse preciso recorrer à teoria da Evolução. Para negar Deus basta a Bíblia. Desconheço melhor arma contra o cristianismo. Curiosamente, é uma briga de evangélicos. Onde existirem evangélicos, eles levam Darwin consigo. No Brasil, o debate começou em 2000, quando o então governador do Estado do Rio de Janeiro, Antony Garotinho, sancionou lei que previa que o ensino religioso fizesse parte do currículo das escolas públicas. Dois anos depois, Garotinho assinava decreto que regulamentava o ensino religioso confessional. Em 2004, soube-se a que vinha o casal: Rosinha Matheus, integrante da Igreja Presbiteriana Luz do Mundo, diz que é criacionista e que não aceita a tese da evolução das espécies. Os decretos de seu marido apontavam para algo muito preciso, a introdução do criacionismo no currículo escolar. Ainda em 2004, a Secretaria de Estado da Educação do Rio define que o tema anual para as aulas de religião será a “criação”, e que o criacionismo será discutido de forma superficial. O criacionismo é a tese de que a criação do Universo e da vida é resultado da intervenção divina, como está na Bíblia. Em São Paulo, não por acaso, coube ao Instituto Presbiteriano Mackenzie, que abrange uma universidade e uma das escolas mais tradicionais da cidade, assumir oficialmente a posição criacionista. A direção do Mackenzie não nega os avanços da biologia trazidos pelo darwinismo, mas acredita que é preciso ensinar a seus alunos que há outra explicação, de fundo religioso, para a origem das espécies. E cá estamos nós, brasileiros, importando mais uma vez o que há de pior nos Estados Unidos. Quase 200 anos depois de Charles Darwin (1809-1882) e 150 após a publicação de sua grande obra, Origem das Espécies, os educadores do Mackenzie aceitam só o que chamam de “microevolução” (organismos se adaptam a novas condições do meio). Segundo Marcelo Leite, da Folha de São Paulo, o Mackenzie não aceita "a macroevolução (tal adaptação não seria suficiente para originar novas espécies, em verdade criadas por Deus). Na escola, a doutrina criacionista é apresentada nas aulas de religião e nas de ciências. Ano passado, uma série de apostilas adaptadas de material da Associação Internacional das Escolas Cristãs foi usada nos três primeiros anos do ensino fundamental 1". Ingenuamente, eu imaginava que o debate se havia encerrado em 1925, quando o promotor William Jennings Bryan, da cidade de Dayton, acusou de darwinismo o professor de ciências John Scopes. Deste debate, surgiu o E o vento será tua herança, de 1960, dirigido por Stanley Kramer. Paradoxalmente, os evangélicos americanos encontraram um aliado de peso... entre os muçulmanos. Leio na última edição do Nouvel Observateur, que muçulmanos e evangélicos estão fazendo causa comum do combate ao darwinismo. Surgiu na Turquia uma espécie de Edir Macedo mediterrâneo, Harun Yahya (pseudônimo de Adnan Oktar), líder dos neocriacionistas muçulmanos que pretende nada menos que converter a Europa. Oktar está distribuindo aos milhões em todas as escolas e instituições da Europa – e particularmente na França – uma estranha obra de sete quilos e 800 páginas, intitulada O Atlas da Criação, que acusa o darwinismo de todos os males de nossas sociedades: racismo, eugenismo, fascismo, nazismo, comunismo, ateísmo, materialismo e mesmo o atentado às Torres Gêmeas. Alguém ainda lembra daquele astrólogo boca suja, que vive de caridade pública, na Virginia, Estados Unidos? Ele defendia a idéia de que o ateísmo e o comunismo eram decorrências do darwinismo. Voilà les sources! No Brasil nada se cria. Tudo se copia. Okar, o profeta turco em cruzada contra Darwin, já foi suspeito de detenção ilegal de armas, uso de cocaína, relações sexuais com menores e de assédio à topmodel Ebru Simsek. Segundo Ali Bayramoglu, sociólogo e editorialista do jornal Yeni Çafak, o grupo de Oktar funciona como uma seita mafiosa. “Ele tem certamente apoios bem colocados, suportes financeiros importantes e não hesita em comprar ou intimidar todos aqueles que se opõem a seu empreendimento. Ultimamente, conseguiu proibir três sites na Internet que o contestavam. Hoje, na Turquia, ousa-se mais facilmente criticar o Exército do que criticar Oktar”. Embora seu “tijolo” de sete quilos tenha sido enviado aos Estados Unidos, à Grã-Bretanha, à Suíça, à Itália e à Suécia, seu principal alvo é a França, o país das Luzes. Seu cálculo é simples. Se as idéias criacionistas conquistam esta terra de filosofia laica, o combate estará ganho. A erradicação do darwinismo seria uma primeira etapa. Seu grande sonho de uma Europa piedosa seria realizado e a população voltaria a ser crente. Suspeita-se que Oktar seja financiado por seus homólogos protestantes dos Estados Unidos. Os livros do guru turco são quase cópias-colagens de obras americanas. Em seu ódio ao conhecimento científico, os evangélicos ianques não hesitam em unir forças com o inimigo figadal do cristianismo, o Islã.
Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009
BENTO XVI RESSUSCITA O MENSALÃO DA IGREJA Indulgência volta à voga na Igreja Católica – mancheteia o New York Times-. Para atrair fiéis ao confessionário, Bento XVI aumenta oferta de perdão dos pecados, restituída por seu antecessor. Leitores de minha idade terão uma idéia do que seja a indulgência. O mesmo não ocorre com as gerações mais novas. Tentarei ser didático. Segundo Henry Charles Lea, autor do clássico Histoire de l’Inquisition au Moyen Âge (1458 ps), a indulgência, em suas origens era simplesmente o resgate de uma penitência, a substituição de qualquer obra pia – como uma liberalidade para com a Igreja – pelos enormes período de penitência que os Penitenciais impunham para o resgate de qualquer pecado individual. Era, em realidade, uma indulgência, quando Guido, arcebispo de Milão, se impôs em 1509 uma penitência de um século, para expiar uma rebelião contra a Santa Sé, e a resgatou pelo pagamento de uma soma anual. A indulgência plenária, ou a remissão de todos os pecados, tem por protótipo a promessa feita por Urbano II, no concílio de Clermont em 1095, quando, para inflamar o entusiasmo da Cristandade em vista da Primeira Cruzada, declarou que a peregrinagem armada à Terra Santa serviria como penitência para todos os pecados que os peregrinos tivessem confessado e dos quais se houvessem arrependidos. A avidez com que esta oferta do papa foi recebida mostra o quanto era apreciado um favor que libertava do temor do Inferno sem entristecer a vida inteira pelas austeridades da penitência. Trocando em miúdos: em vez de pagar sua salvação em prestações, o crente a pagava à vista. Daí à criação do Purgatório, bastou apenas um passo. A simplicidade desta fórmula desapareceu no século XII – escreve Lea – época em que os Escolásticos elaboraram a teoria sacramental e quando a crença no Purgatório se tornou generalziada. Distinguia-se, no perdão dos pecados, a remissão da culpa e também da pena. A absolvição dada pelo padre conferia a primeira, que salvava do Inferno, enquanto que o cumprimento da penitência, ou o resgate desta por uma indulgência, conferia a segunda, que isentava o pecador do Purgatório. Segundo os teólogos da época, a fonte das indulgências seria o tesouro dos méritos e Jesus e dos santos, que a Igreja poderia oferecer a Deus em troca da penitência devida pelo pecador. Uma indulgência plenária continha uma parcela suficientemente grande deste tesouro para apagar a pena; uma indulgência parcial precisa o número de dias ou de anos e a penitência à qual ela equivale. Inicialmente, a indulgência podia ser conferida por padres, bispos e mesmo abades. O concílio de Latrão (1216) tentou pôr um limite a abusos. Quando a indulgência tornava-se um pagamento feito a Deus e era tirada do tesouro inesgotável dos méritos de Jesus, considerou-se que esse tesouro deveria ter um tesoureiro, que era naturalmente o papa. Ele tornou-se assim o dispensador único das indulgências, função que aumentou sua autoridade e reduziu os bispos ao papel de delegados do pontífice. Do ponto de vista temporal, resultou para o papado uma enorme vantagem – a faculdade de erguer exércitos para exterminar seus inimigos e estender seus domínios. Pois a promessa de uma indulgência plenária a ser merecida por uma cruzada atraía sob suas bandeiras milhares e milhares de campeões. Ou seja: em suas origens, as indulgências tiveram uma poderosa função bélica. Mais adiante, foram conferidas aos Inquisidores, o que só atiçava sua sanha em encontrar hereges. Longa é a história das indulgências, mas seu momento mais crítico ocorreu em 1517, mais precisamente no dia 31 de outubro, quando Lutero pregou sobre a porta da igreja de Wittenberg suas 95 teses, que acabaram originando a Reforma Protestante, um movimento legítimo de denúncia da corrupção da Igreja romana. O ponto mais contundente destas teses é a denúncia do comércio das indulgências, o golpe utilizado pela Igreja para manter e aumentar seu fausto e a fortuna dos papas, cardeais, bispos e vigaristas menores. Me permito reproduzir algumas das teses, para refrescar memórias enferrujadas. 17. Parece desnecessário, para as almas no purgatório, que o horror diminua na medida em que cresce o amor. 18. Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontrem fora do estado de mérito ou de crescimento no amor. 19. Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza disso. 20. Portanto, por remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs. 21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa. 22. Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida. 23. Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos. 24. Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena. Lutero acabou com o mensalão da Igreja. A data da afixação de suas teses é tida por alguns historiadores como o fim da Idade Média. Bento XVI quer agora restaurar a instituição medieval, que chegou a provocar um cisma em seu rebanho. "Por que estamos trazendo a indulgência de volta?", indagou o bispo Nicholas A. DiMarzio, do bairro do Brooklyn (Nova York), que aderiu à ideia. "Porque existe pecado no mundo." Não se pode mais comprar indulgências. A Igreja proibiu suas vendas em 1567, meio século após as denúncias de Lutero. Mas não se furta a aceitar contribuições caridosas. Ou seja, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. A volta das indulgências começou com o papa João Paulo II, que em 2000 autorizou os bispos a oferecê-las como parte das celebrações do terceiro milênio da igreja – diz o New York Times. Fazer os católicos voltarem ao confessionário foi uma das motivações que levou à reintrodução das indulgências. Segundo o jesuíta Tom Reese, ex-editor do semanário Catholic Magazine America, "a igreja quer pôr a idéia do "pecado pessoal" de volta na equação. As indulgências são uma maneira de lembrar aos fiéis a importância da penitência". A Igreja romana retoma superstições medievais e depois se pergunta porque está perdendo fiéis. Quer voltar às idéias de penitência, indulgência, pecado e confissão. Transmito meus sinceros votos ao Sumo Pontífice: tomara que volte logo. Terá encontrado a fórmula mais rápida de afundar de vez.
Terça-feira, Fevereiro 10, 2009
PRECONCEITO CONTRA KULINAS A palavra antropofagia foi cunhada no século V A.C., pelo historiador grego Heródoto, como uma fusão de antropos (homem) e phagein (comer). Já o termo canibal, segundo os historiadores, surge no século XVI. Cristóvão Colombo, ao passar pelas Pequenas Antilhas, conhecidas hoje como Caribe, encontrou índios que tinham o hábito de comer carne humana em rituais religiosos e se designavam “cariba”, adjetivo que significava bravo, “corajoso”. Um erro de pronúncia dos europeus criou a palavra “caniba”, que rapidamente passou a descrever toda e qualquer cultura, invariavelmente inferior, que consumisse indivíduos da mesma espécie. Segundo Nahlah Saimeh, médica especialista em medicina legal e diretora do Centro de Psiquiatria Forense da Vestfália, Alemanha, “os hábitos dos índios caribenhos espantaram os colonizadores espanhóis, mas nada que se compare ao que eles viram quando chegaram ao antigo México. Ao entrar em território asteca, a expedição do conquistador Hernán Cortez encontrou corpos semidevorados espalhados ao longo de estradas e homens enjaulados aguardando serem consumidos. Durante a conquista daquelas terras, Cortez testemunhou muitos de seus homens serem capturados, sacrificados e devorados. “O primeiro relato objetivo de canibalismo foi feito no Brasil pelo navegador alemão Hans Staden. Depois de naufragar na costa brasileira, Staden foi capturado por uma tribo tupinambá, na qual presenciou diversos rituais canibais. De volta à Europa, descreveu a experiência no livro Duas viagens ao Brasil (Edusp, 1974). Em uma das histórias, Staden conta que as crianças para as quais ele ensinava música acabaram assassinadas e usadas numa sopa que ele consumiu sem saber dos ingredientes. O alemão só se deu conta do que havia ocorrido quando viu, no fundo do caldeirão, os pequenos crânios”. Em 16 de junho de 1556, os caetés honraram as antigas tradições, devorando o primeiro bispo do Brasil, dom Pedro Fernandes de Sardinha, e 90 tripulantes que naufragaram com ele na região. Historiadores divergem. Há quem considere que Sardinha – de tão saboroso nome – tenha sido devorado pelos tupinambás, em Sergipe. Caribas ou astecas, caetés ou tupinambás, o hábito do canibalismo foi adotado pela Igreja Católica, desde os seus primórdios e tomou o nome de transubstanciação. Desde há muito venho explicando que na santa missa come-se a carne de Cristo e não um símbolo da carne de Cristo. Bebe-se o sangue de Cristo e não um símbolo do sangue de Cristo. E quem nisto não crer é herege. Vamos aos textos do magistério da Santa Madre. O dogma da transubstanciação, se foi aventado no concílio de Latrão (1215), só toma corpo no concílio de Trento (1551). Na encíclica Ecclesia de Eucharistia, no capítulo 1 § 15, lemos: “Pela consagração do pão e do vinho se opera a transformação de toda substância do pão na substância do corpo do Cristo nosso Senhor e de toda a substância do vinho na substância de seu sangue; esta transformação, a Igreja católica a chamou justa e exatamente de transubstanciação”. Que mais não seja, o cânon 1° da 13ª sessão do concílio assim proclama: “Se alguém nega que o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, com sua Alma, e a Divindade, e conseqüentemente Jesus Cristo todo inteiro, estão contidos verdadeiramente, realmente, e substancialmente no Sacramento da Muito Santa Eucaristia; mas diz que eles lá estão somente como em símbolo, ou ainda em forma, ou em virtude: seja anátema.” Ou seja, fogueira para quem acreditar que está ingerindo um símbolo da carne e do sangue e não a própria e o próprio sangue. Leio hoje na Folha Online que índios são acusados de comer uma pessoa no Amazonas. Segundo o noticiário, índios da etnia Kulina são suspeitos de esquartejar e comer os restos de um jovem em um ritual de canibalismo na cidade de Envira (AM), próxima à fronteira com o Peru. Em entrevista à rede de TV CNN, o policial Maronilton da Silva Clementino afirmou que ao menos cinco índios estão foragidos. A vítima foi identificada como Océlio Alves de Carvalho, 19, morto na semana passada. De acordo com a CNN, os quatro índios fugiram após passarem algumas horas detidos. Pela lei, a polícia não pode entrar na tribo para investigar o caso. Clementino afirmou que a vítima, que conhecia a tribo, havia sido convidado para visitar a aldeia indígena na sexta-feira passada. "Eles se conheciam e às vezes eles se ajudavam. Os índios o convidaram para a reserva na sexta-feira e ele [Océlio Carvalho] não foi mais visto. A família decidiu entrar na reserva para procurar o jovem e encontrou o corpo dele esquartejado e a cabeça pendurada em uma árvore", contou o policial. A notícia me espanta. Por que deter índios só porque se dedicaram à prática de tradições ancestrais? FUNAI, CIMI, antropólogos e outros óologos aceitam perfeitamente que indígenas enterrem crianças vivas, em nome de suas tradições milenares. Autoridade alguma no Brasil pune tais práticas, que são de conhecimento público. Por que impedir os coitados dos kulinas de voltar às práticas de seus ancestrais? Sinto cheiro de discriminação. Será que só ianomâmis, tapirapés, madihas, kamaiurás, amalés e kamirus podem preservar antigos hábitos, como enterrar criancinhas vivas? Por que não podem os kulinas, que obedecem a práticas ainda mais antigas? Sem falar que preservam uma tradição católica, que se repete todos os dias, em quase todas as cidades e rincões do mundo. Puro preconceito.
Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009
CNPq QUER COBRAR BOLSISTAS INADIMPLENTES. NÃO ACREDITO! Durante décadas, obter uma bolsa no Exterior significou, para um estudante universitário, duas coisas: oportunidade de especialização e ascensão profissional... ou turismo regiamente pago pelo contribuinte. Entre 82 e 86, lecionei na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), na graduação e pós-graduação em Letras, e pude observar de perto o lado obsceno da coisa, a farra universitária. Tanto que criei o conceito de UFSCTUR, a mais conveniente das agências de turismo do país. Você não despendia um só vintém, e passava quatro anos gozando do bom e do melhor nas mais prestigiosas cidades americanas ou européias. Esta é uma história que gosto de contar e recontar. Principalmente, porque nenhum jornal a conta. Para os jornais, a universidade é o sacro dos sacros e não rima com corrupção. Ora, é uma das instituições nacionais onde a corrupção corre mais solta, sem peias, e sob o pseudônimo de intercâmbio universitário, especialização no exterior, pós-graduação. Corrupção? Jamais. Não existe corrupção na academia. Devo ter sido o único professor universitário no Brasil a denunciar publicamente a corrupção vigente em sua própria universidade. Desconheço outros. Em minha curta passagem pela UFSC, vi poucas e boas. Professores com bolsas para mestrado e doutorado, no Brasil e no Exterior, que passavam quatro ou mais anos longe da sala de aula e voltavam de mãos abanando. Professores com dedicação exclusiva que mantinham seus escritórios ou consultórios sem que a universidade com isto se importasse. Um dos casos mais patéticos que presenciei, foi de uma professora que fora fazer mestrado em Curitiba. Quatro anos depois, não conseguira fazer mestrado. Espichou sua bolsa para um doutorado na USP. Mais quatro anos e nada feito. Numa daquelas reuniões de Departamento – que prefiro chamar de aquelarres – estava sendo votado mais dois anos para uma bolsa em Lisboa, para a professora inadimplente. Interpelei o chefe do Departamento: “Escuta, essa moça passou oito anos fora, não conseguiu concluir trabalho nenhum. E agora vai ser premiada com dois anos em Lisboa?” “É um problema humano” – me esclareceu o professor –. “Ela se divorciou há pouco e outro dia apareceu com um olho roxo. Não pode ficar em Florianópolis”. Entendi as humanísticas preocupações de meu colega. E sugeri: vamos fazer o seguinte. Eu peço pra minha mulher me dar duas taponas na cara e vocês me dão quatro anos em Lisboa. Solicitação indeferida. A irmã desta moça, também professora, também conseguiu bolsa em Lisboa. Passando por lá, fui conversar com ela. Já havia encontrado um Joaquim – o Quim, como o chamava – mas não o tema de sua tese. Acabou casando com um espanhol. Pelas últimas notícias que tive, vivia em Valladollid. Sem dar satisfação alguma à universidade. Caso ainda mais patético. Uma professora, já cinqüentona, recebeu bolsa para estudar Lingüística em Paris. Encontrei-a por lá. A coitada era uma míope atroz e tinha dificuldades até para atravessar ruas, não conseguia ver os sinais de trânsito. Claro que não concluiu tese alguma. Surgiu então um qüiproquó. A Reitoria quis cortar-lhe a bolsa. Mas para isso, sei lá porque razões, ela tinha de ser comunicada em território nacional. Ou seja, se ela voltasse ao Brasil perderia a bolsa. Simples: não voltou. Enquanto isto, continuava recebendo a bolsa. Houve ainda o caso de dois chilenos, marido e mulher. Eram conhecidos como o Casal. Bueno, o Casal conseguiu bolsa para a Inglaterra. E nunca mais voltou. E deles nada mais se soube. Teve ainda um outro caso mais emblemático. Um professor conseguiu uma bolsa para a Bélgica. Sem mesmo ir até lá, criou uma conta bancária em Bruxelas. E acabava remetendo sua bolsa para Florianópolis. Salvou sua lavoura. Com a grana da bolsa, construiu casa em Itapema. Em setembro do ano passado, o Supremo Tribunal Federal determinou que uma professora universitária devolvesse R$ 160 mil ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Ela estudara no exterior com bolsa e não voltou ao país logo após a conclusão do curso. O processo foi iniciado em 1987. A professora tinha bolsa integral para estudar na University of Essex (Inglaterra) e ficou morando no exterior após terminar o curso. Para o STF, ao aceitar a bolsa, a professora assumiu compromisso contratual de retornar ao Brasil ao término do curso. Miracolo! – exclamei na época. A atitude do STF era insólita. Mas pensei melhor com meus botões. Se o processo começou em 1987, na época a professora já deveria ser entrada em anos, pois jovens não conseguem tais mordomias. Digamos que tivesse uns trinta anos. Es un suponer, como dizem os espanhóis. Estávamos em 2008. Quer dizer, a discussão sobre a elementar obrigação de devolver a bolsa durou apenas... 21 anos. Se a professora conseguir retardar o pagamento por mais uns vinte, morrerá envolta pela paz dos justos. Leio hoje no Estadão que o CNPq irá cobrar os bolsistas que não voltaram para o Brasil. Os casos analisados em 2008 somam R$ 22 milhões. Alguns estudantes desistiram do curso. O CNPq pretende reaver cerca de R$ 22 milhões referentes a 65 bolsas de estudo concedidas a bolsistas que estudaram em outros países, mas que não concluíram a pós-graduação ou não voltaram ao Brasil. Muitos dos processos são de bolsas concedidas há anos, no entanto, só em 2008 foram finalizados e encaminhados ao Tribunal de Contas da União. Desde 2002, a CGU recebeu processos do CNPq que totalizam cerca de R$ 71 milhões (valor corrigido). Com o recurso, seria possível pagar 300 bolsas no exterior. Segundo o jornal, ao cursar pós-graduação em outros países, o bolsista assina um termo de compromisso que o obriga a permanecer no Brasil depois de voltar do Exterior por um período igual ao da vigência da bolsa. Ele também precisa terminar o curso e apresentar dissertação ou tese. Em caso de desobediência a essa cláusula, o contrato prevê o ressarcimento integral das despesas, corrigidas e acrescidas de juros de 1%. Ora, em meus mais de quarenta anos de contato com a universidade, seja como estudante, seja como professor, não tive a ventura de sequer ouvir falar sobre ressarcimento de despesas. Se um bolsista, tendo concluído seu doutorado, recebe boa oferta de trabalho no Exterior, qual instância, humana ou divina, o obrigará a ressarcir a União? Terá seus bens executados no Exterior? Será pedida sua extradição? Qualquer destes processos custará bem mais caro que o valor da bolsa. O jornal cita o caso do advogado Cláudio Rollemberg, de quem estão sendo cobrados R$ 608 mil (em valores corrigidos). O advogado está recorrendo da cobrança. Formado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP), ele foi para a França em 1991 fazer um mestrado em direito internacional. Em no máximo quatro anos deveria voltar e apresentar a dissertação ao CNPq - o que não aconteceu até hoje. Ou seja, 18 anos após a obtenção da bolsa, o advogado ainda não conseguiu elaborar um ensaiozinho de 400 ou 500 páginas. "Você vai com o objetivo de fazer, mas podem ocorrer mil coisas e você não conseguir entregar a dissertação ou a tese", diz. De fato, em Paris ocorrem milhares de coisas, como restaurantes, cafés, bistrôs, teatro, cinema, shows, namoradas – francesas ou de outras terras – viagens às ilhas gregas ou Canárias, escapadelas a Bruxelas e Amsterdã, viagens baratinhas ao Marrocos ou à Tunísia. Em suma, l’embarras du choix, o problema da escolha. É duro viver em Paris. O bolsista quase entra em parafuso, tantos são os lazeres pelos quais optar. Só tem uma certeza: se voltar de mãos abanando, não terá de dar satisfação alguma ao CNPq, CAPES ou universidade. "O dia que eu conseguir, vou entregá-la" – diz serenamente Rollemberg. Hoje morando em São José do Rio Preto, ele questiona a cobrança, afirmando que quando assinou o contrato não foi avisado de que poderia ser obrigado a devolver os valores caso não cumprisse as obrigações. "Todo mundo entendia que era gratuito, que era uma questão ideológica", diz. O advogado diz ter uma série de colegas na mesma situação, todos questionando a cobrança. Com toda a razão. Se a impunidade sempre foi a regra, por que só agora vai se instituir essa antipática medida de exigir ressarcimento pelos anos de lazer no Exterior? Finalmente o CNPq desperta para esta corrupção universitária, que jamais foi considerada corrupção, mas condição normal da vida acadêmica. Pago para ver. Ir para o Exterior com bolsa paga pelo contribuinte, voltar de mãos abanando e nada devolver ao Erário já se tornou direito adquirido no Brasil. Duvido que um só bon vivant devolva um centavo sequer aos cofres do Estado. Os dirigentes do CNPq devem ter sido acometidos por um perturbador surto de honestidade. Mas isto passa logo.
Domingo, Fevereiro 08, 2009
DEIXEM ELUANA PARTIR Não tinha nem braços nem pernas. Atirou a cabeça para trás e começou a gritar de medo. Mas apenas começou porque não tinha boca com que gritar. Ficou tão surpreso de não gritar quanto tentou fazê-lo que começou a mexer as mandíbulas como um homem que descobriu algo interessante e quer experimentar. Estava tão seguro de que a idéia de não ter boca era um sonho que se sentia capaz de investigar a coisa calmamente. Tentou mexer as mandíbulas e não tinha mandíbulas. Tentou passar a língua do lado de dentro dos dentes e por sobre o céu da boca como se estivesse buscando uma semente de framboesa. Mas não tinha língua nem dentes. Não tinha céu da boca nem boca. Tentou engolir mas não podia porque não tinha palato e não lhe restavam músculos com que engolir. Começou a sufocar e a arquejar. Era como se alguém lhe tivesse empurrado um colchão sobre o rosto e o estivesse mantendo ali. Respirava agora forte e depressa mas não estava realmente respirando porque nenhum ar passava pelo nariz. Não tinha nariz. Podia sentir o peito subir e descer mas nenhuma respiração passava pelo lugar onde era o nariz. Experimentou o desejo furioso e aterrorizante de morrer, de se matar. Nestes dias em que a Igreja romana exibe publicamente sua face horrenda, se encarniçando – junto com Berlusconi – a prolongar a vida de uma menina que vive vida de vegetal há 17 anos, fui correndo até minha biblioteca em busca de um livro que li nos anos 70, Uma arma para Johnny, de Dalton Trumbo. Não o achei, deve ter sido extraviado em alguma de minhas mudanças. Buscando na Internet, tive a sorte de achar o trecho supra, publicado pela Gazeta de Alagoas, edição de hoje. O livro foi publicado em 1939 e o próprio autor o filmou em 1971, quando recebeu o prêmio especial da crítica no Festival de Cannes. Boas notícias para os catadores de obras esgotadas: o livro será relançado pela Relume Dumará, no próximo sábado. O ressurgimento da obra pretende ser um protesto à política belicista de George Bush. Tanto o livro como o filme são sufocantes. Você entra no cinema e já se sente deprimido nos primeiros minutos. E sai arrasado. Lembro-me que ao sair, ocorreu-me mover os dedos e quase chorei de felicidade ao sentir que podia mover um dedo. O filme é duro, mas não deixa de ser um hino à vida. Talvez a memória me traia um pouco. O filme abre com um quirófano – ou talvez quarto de hospital, não lembro – onde vemos um vulto sobre uma cama, coberto por um lençol. Ainda não sabemos, mas é o corpo de um soldado – Joe Bonham – que lutou na Primeira Guerra. Ao jogar-se em uma trincheira, uma granada caiu junto. O que restou é o que está sob o lençol. Ironicamente, seu sexo foi preservado. A narrativa é feita através de um monólogo interior. Johnny acorda. Tenta rememorar seus últimos momentos. Ao tentar mover um braço, descobre que não tem mais braço. Revolta-se. Absurdo cortarem um braço sem sequer consultar o dono do braço. Tenta mover o outro. Também foi cortado. Ele não acredita. Me cortam dois braços sem sequer me perguntar se quero viver sem braços? Tenta mover uma perna. Não tem mais perna. Tenta mover a outra. Também foi cortada. Já nos primeiros minutos, não só Johnny, mas também o espectador, estão com o moral profundamente abalado. Tenta mover as mandíbulas. Não tem mais mandíbulas. Tenta tatear as mandíbulas com a língua. Não tem mais língua. Mais adiante descobrirá que não tem olhos nem ouvidos. Johnny foi condenado à mais terrível das prisões, a prisão do próprio corpo. E não tem maneira alguma de comunicar-se com o exterior. É apenas um cérebro – vivo e pensante – encarcerado em um tronco. Em meio a seu desespero, Johnny descobre que conhece código Morse. Batendo com a cabeça na cabeceira da cama, tentar enviar uma mensagem: S.O.S, S.O.S, S.O.S. Um médico que ia passando, toma seu gesto como convulsões e lhe administra um calmante. Johnny, que julgara ter encontrado uma fórmula para comunicar-se, se apaga. Mas não desiste de tentar comunicar-se. Uma enfermeira, compadecida, o masturba. Johnny se desespera, não era isso o que esperava. Algum tempo depois, uma equipe de médicos e militares vai visitá-lo. Obstinadamente, Johnny continua batendo sua cabeça na cabeceira da cama. É quando um militar, assustado, descobre: isso é Morse e este homem está pedindo socorro. Finalmente, a comunicação se estabelece. O militar responde em Morse, batendo com os dedos em sua testa. Johnny pede para morrer. Negativo. Segundo um general presente, o regulamento proíbe tirar a vida de um soldado ferido. Para concluir: a enfermeira, num gesto de generosidade, acaba por desligá-lo. Do fundo do coração, Johnny exulta: obrigado, obrigado. Obviamente, não estou escrevendo sobre a obra de Trumbo em protesto à política de Bush no Iraque. Se a Relume Dumará o republica por estas razões, eu o evoco por uma outra, essa obstinada vontade do Vaticano e de Berlusconi de não permitir que seja interrompida a alimentação de Eluana Englaro, que há 17 anos vive como um vegetal. Testemunhei de perto, em minha família, essa condição. Minha sogra entrou em coma irreversível. Quando os médicos disseram ser a boa hora para interromper a alimentação, a família não aceitou a sugestão. A coitada viveu quatro anos como um nabo, sem reação alguma a nada, sem poder expressar coisa alguma. Johnny tinha mais recursos: conhecia código Morse e estava consciente. O pior destas circunstâncias é que a pessoa chega a um estado em que não tem condições nem mesmo de pedir que a desliguem. Eluana não manifestou vontade de suicidar-se, dizem alguns sádicos que adoram assistir ao sofrimento alheio. Nem poderia manifestar. Quem a manifesta é sua família, com todo direito e por amor. Terá o Estado ou Igreja o direito de impedir que morra quem já não mais vive? Quando João Paulo II agonizava, eu – que não tenho simpatia alguma por papas – fiquei condoído e considerei que o melhor a ser feito era deixá-lo partir. Fui chamado de nazista para cima. Mais tarde, um cardeal confessou que João Paulo chegou a pedir para morrer. “Deixem-me ir ao encontro do Pai” – disse o papa. É sadismo, desumanidade absoluta, tentar preservar viva pessoa que já não mais vive. Não conseguimos sequer saber se essa pessoa está sofrendo, pois nem o sofrimento consegue expressar. Todo ser humano tem o direito de decidir quando quer partir. Particularmente quando se encontra nessas condições terminais. Quando manifestei meu contentamento com a morte de Mariana Bridi, a modelo que perdeu pés e mãos, não faltou quem me chamasse de nazista, afinal todo defensor da eutanásia só pode ser nazista. Isso sem falar no sofrimento da família, que tem de conviver por anos e anos com aquele vegetal que um dia foi sua filha. Sem falar também em uma outra questão bem menos metafísica, mas nem por isso menos importante. Uma pessoa nessas condições, dilapida rapidamente todas as posses de uma família. Para início de conversa, precisa da assistência de pelo menos três enfermeiras. Mais os gastos de manutenção do semi-cadáver. A pessoa não está mais viva e a família vai afundando junto com aquele ser em condição vegetal. Estes senhores contrários à eutanásia, são em geral devotos daquele Deus que deixou o Filho morrer em condições cruentas. Faz sentido.
Sábado, Fevereiro 07, 2009
COTAS PARA DOUTORES Idéias de jerico rides again. Revoltado com o sistema eleitoral brasileiro, o juiz eleitoral Mateus Milhomem de Sousa, 37, da cidade de Aurilândia, Goiás, deu sugestões para melhorias no modelo político do país em plena sentença sobre a cassação de um prefeito. Sua proposta inclui uma fórmula para diminuir o peso político de eleitores com baixa escolaridade nas eleições. Também defendeu a proibição de políticos sem estudo de se candidatar a cargos públicos. Os pontos seguiriam uma escala entre o eleitor analfabeto (um ponto) até o com doutorado (sete pontos). Para Sousa, a pontuação seria benéfica porque estimularia o eleitor a estudar e a exigir mais do governo. A proibição de candidatura de políticos sem estudos não deixa de ser oportuna. Mas aí o atual salvador da Pátria não teria chance nenhuma. Quanto ao mais, em um país cujo presidente é um analfabeto funcional, o meritíssimo juiz eleitoral desqualifica o voto do analfabeto. Se analfabeto pode ser presidente, porque seu voto valeria menos do que o de um doutor? Por outro lado, boa parcela das desgraças do país se deve exatamente às teorias malucas de doutores formados na Europa e Estados Unidos. Previdente era o príncipe Norodom Sihanouk, do Camboja: “se os jovens quiserem estudar no exterior, eu jamais os mandaria para Paris. De lá eles voltam comunistas. Eu os mandaria para Moscou". O governo Lula está repleto de celerados com curso superior: Tarso Genro, Marco Aurélio Garcia, Carlos Minc, Franklin Martins, Dilma Roussef e tantos outros cujos nomes me escapam. Por que razões o voto destes senhores valeria mais do que o de meu barbeiro ou o de meu taxista? A meu barbeiro e a meu taxista, cujos votos teriam peso um, jamais ocorreria eleger um analfabeto para presidente da República. Quanto aos ilustres acadêmicos que citei, e a imensa maioria que não citei, votariam - e votaram - de olhos fechados no analfabeto. O meritíssimo juiz eleitoral preferiu não opinar sobre a falta de curso superior do presidente Lula. Também, pudera! Teria de recorrer a muitos arabescos colaterais para explicar porque o Apedeuta está lá. Não bastasse termos cotas para negros, não bastassem os homossexuais estarem reivindicando cotas na universidade, um juiz agora reivindica cotas para doutores. Ama com fé e orgulho, a terra em que nasceste! Criança! Não verás nenhum país como este! Olha que céu! que mar! que rios! que floresta! A Natureza aqui, perpetuamente em festa. É um seio de mãe, a transbordar carinhos.
Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009
RESPOSTA AO MARC Meu caro Marc: Há mais de 35 anos, escrevi artigo na Zero Hora, de Porto Alegre, intitulado “O Direito a Paris”. Nele, defendia a idéia de que o direito de todo ser humano visitar Paris deveria ser um dos itens da Declaração dos Direitos Humanos. O texto foi muito elogiado e fui visto como um jovem e lúcido jornalista. O que só prova que um jovem, irremediavelmente, mais dia menos dia, acaba escrevendo besteira. Hoje, defendo tese contrária: à maioria dos seres humanos deveria ser proibida a entrada em Paris. A Paris – ou a Roma ou a Madri – só deveriam ter acesso aqueles que têm sensibilidade suficiente para apreciar as boas coisas da vida, desde a arte, história, literatura, arquitetura, gastronomia. Conheci de perto brasileiros que, mal chegados a Paris, querem descobrir um restaurante onde se possa comer uma boa feijoadinha. Este turista deveria ser repatriado incontinenti. Há aqueles que não falam francês – e nem mesmo inglês – e se julgam no direito de falar português em qualquer loja ou restaurante. Tive certa vez em minha mesa uma senhora que pedia ao garçom: “Eu quero galinha”. Como o garçom não entendia, escandiu lentamente as sílabas: “Eu-que-ro-ga-li-nha”. Juro que vi. Esta deveria ser lançada às oubliettes que ainda restam às margens do Sena. Oubliettes eram cubículos escuros escavados na rocha de castelos e fortalezas, onde os prisioneiros eram esquecidos (oubliés, daí oubliettes) e não tinham vocação alguma para dali sair vivos. Há multidões de turistas – e não só brasileiros – correndo desesperados, como formigas antes de um temporal, para tirar rapidamente uma foto em frente à Torre Eiffel, ao Arco do Triunfo, ao Louvre, ao Pompidou, enfim, posando ao lado de cada ícone de Paris, ou de outras cidades. Os ângulos para fotos são disputados ombro a ombro. A correria é grande e não permite sequer curtir com vagar um bom restaurante. Fazem Paris em dois dias, Roma em três, Bruxelas e Amsterdã num dia só, acabam visitando 10 países em quinze dias e voltam orgulhosos: “eu conheci a Europa”. As fotos da viagem constituirão uma prova de que lá estiveram e só servem para aborrecer amigos e parentes. Vou discordar apenas em algo de tua mensagem, Marc. Em Paris ou Madri não me sinto turista, mas quase residente. Sem pertencer a este espécime abominável de turista, volto quase sempre aos mesmos restaurantes. São restaurantes que escolhi a dedo nos anos que lá vivi e que me fazem falta. Pior ainda: como sou de pouco comer, geralmente não janto. Para conseguir freqüentar dois por dia – e assim mesmo ficam faltando restaurantes a visitar - tenho de enfrentar o sacrifício de comer duas vezes por dia. Quando o restaurante permite apenas beliscar, me restrinjo então a algumas tapas e um bom vinho. Ou seja, não me sobra tempo para descobrir outras casas. Não consigo sequer completar o tour daquelas que adoro. Viena, então, é um desastre. Seria preciso no mínimo um mês para passar pelo menos uma vez em cada um daqueles cafés divinos. Assisti a cenas horripilantes em minhas viagens. Em Madri, vi um grupo de uns trinta japoneses, entrando entusiasticamente... em um restaurante japonês. Como pode uma excursão partir das antípodas para comer exatamente a mesma comida que comem em casa? Vi grupo de brasileiros, todos de verde e amarelo ou enrolados na bandeira nacional, desfilando pelas ruas de Roma, como se algum orgulho houvesse em portar a bandeira de um país que elegeu e reelegeu como presidente um analfabeto. Vi milhares de pessoas em Bruxelas, rumando em grupos para tirar uma foto junto aquele bonequinho ridículo, o Manneken Pis. Vi gente se perguntando, na Plaza España, em Madri, diante da estátua do Quixote e do Sancho: “quem são aqueles dois?” Isso sem falar naqueles que querem ver a Bastilha, em Paris. “Mais Monsieur, nous l’avons tombée dépuis belle lurette”, ouvi uma verdureira, espantada, responder. “Senhor, nós a derrubamos já faz muito tempo”. Isso sem falar nas multidões que irrompem nos grandes magazines, para comprar perfumes e lingerie. Como se Paris se resumisse a perfumes e lingerie. Se você encontrar em uma fila de aeroporto um casal com um carrinho com quatro ou cinco malas imensas, pode apostar: são brasileiros. Turista inteligente viaja com pouca bagagem. Mais ainda: se você vir alguém em uma loja, tentando pagar suas compras em dólares, pode apostar: são brasileiros. Acostumados a viver num país que mendiga dólares, não entendem que estão em país que se orgulha de sua própria moeda. A esta gente, a Europa deveria ser proibida. Deveriam ficar aqui no Brasil mesmo, discutindo futebol e as novelas da Globo.
MENSAGEM DO MARC AUBERT Caro, O Gerson botou o dedo na ferida; a grande, enorme, maioria das pessoas se enquadram no perfil do casal. Tudo bem que não se converse a respeito de Aristoteles, Tomás de Aquino, Bach, Hegel, o tempo todo: um pouco de besteirol também faz bem à alma, de vez em quando (futebol não!). A atrofia intelectual dessas pessoas é estarrecedora; conheço um bom número delas e tenho,por motivos vários, o desprazer de privar de sua companhia. Pior, formados, pós-graduados, doutorados (e fora do país, o que não é pouca porcaria). Viajam para fora do Brasil pelo menos uma vez por ano para quê? Frequentar o mesmo restaurante em Praga, a mesma tratoria em Florença, comer a mesma fondue em Saint Moritz; passear pelas ruas, visitar museus, uma ópera no coliseu de Verona, nem pensar: dá azia. E haja fotos para encher o saco! E votaram, duas vezes, no apedeuta. Uma das boas coisas da vida é um bom grupo de amigos e uma boa conversa, com divergencias ou não (unanimidade é burra) com alguns petiscos e um bom vinho, não é mesmo? Agora, sobre o patriotão: sou suiço de nascimento e vivo no Brasil desde 1952; vim para cá porque tinha dez anos e não apitava em nada em assuntos familiares; meus pais e outros parentes vieram para cá pois acreditavam que aqui era o país do futuro. Era e ainda é: um presidente do conselho federal da Suíça disse, há tempos: "Le Brésil est le pays du futur et il le restera". Meu pai, que era naturalizado, adorava esse tipo de gente e tinha uma resposta curta e grossa quando era interpelado por algum (e olha que são muitos) deles: "eu posso criticar o que acho de errado e com mais autoridade que você: sou mais brasileiro que você pois sou brasileiro por opção; você não, você nasceu aqui e não tem mais o que fazer." Meu pai era jornalista, correspondente de alguns jornais da Suíça, escritor e poeta, recitava Shakespeare de cor, gostava de um bom vinho e era um mau caráter de primeira. De família tradicional de Genève, foi calvinista, converteu-se ao catolicismo (virou a ovelha negra da família) freqüentava a missa na catedral Ortodoxa Russa em Genève e, graças ao bom Deus, terminou seus dias como um ateu, e vive hoje em Olinda, no cemitério de Guadalupe. De volta ao patriotão: vivo no Brasil, sou casado com minha baixinha brasileira (perdão pela apropriação, mas sempre a chamei assim), tenho filhas maravilhosas e netos pestinhas. Pago meus impostos, sem receber nada em troca, e adoro esse país que, contra a opinião de alguns, não é melhor lugar do mundo. Tive uma recaida de helveticidade em 1990, logo que o saudoso Collor assumiu o governo, e fui tentar a vida na Pátria; fui escorraçado e voltei com a cauda entre as pernas. Por isso, me acho no direito de criticar os erros, contra tudo e contra todas os patriotões que só se lembram da Pátria por ocasião da copa do mundo de (eca) futebol. Falando em futebol, todo mundo me olha torto se falo que o Sr. Blatter é um corrupto (afinal é meu compatriota) e me xingam quando digo o mesmo do pupilo dele, Sr. Ricardo Teixeira; esse aí é um coroinha, se comparado ao outro. Naõ sou naturalizado e só o serei se puder ser presidente da República. Se o Sr.Obama é queniano (apud your friend Olavo de Carvalho) porque não eu? Eram só algumas linhas e veja no que deu... Um abraço, Marc
Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009
DO UNIVERSO ENTRE AS NAÇÕES RESPLANDECE A DO BRASIL O bom de escrever na rede, é que temos leitores atentos. De Chico Aragão, recebo estas observações. Recentemente você falou sobre uma suposta despesa de 40 milhões de reais que o governo teria realizado na compra de 15 milhões de sachês de gel lubrificante. Conhecedor do valor desse artigo, fiquei bastante intrigado com esse valor, que seria o cúmulo do superfaturamento. Ora, com 40 milhões de reais daria para comprar milhões de tubos grandes de gel. E justiça seja feita às licitações do Ministério da Saúde, que as compras de camisinhas feitas por eles sempre redundam em pagamentos ínfimos por cada um dos preservativos. Pesquisando direto pelo Google sobre a tal compra, descobri que a maior parte das referências aos tais "40 milhões" vinham de sites de religiosos radicais, que por sinal odeiam o Temporão por conta da sensibilidade dele às questões de saúde da comunidade homossexual e outros assuntos, como o aborto. Aliás, se me permite o comentário, nessas questões os seus pontos de vista vem sendo bastante similares aos dele. Uma coisa que me intrigou foi a repetição nesses sites da seguinte frase: "O Erário deve gastar cerca de R$ 40 milhões, calcula o funcionário do Ministério da Saúde que me forneceu o edital." (...) Por isso fui pesquisar, primeiramente examinando o Edital completo disponibilizado num dos sites religiosos que mencionei e lá descobri que as informações sobre o tal Edital 142/2008 estão no http://www.comprasnet.gov.br Não sem alguma dificuldade, porque a navegação naquele lugar é um bocado confusa, consegui encontrar o desfecho (ao menos oficial) da tal licitação. E nele descubro que o valor total da compra foi de R$ 1.160.000,00 - o que pode parecer ser absurdo para quem considera um absurdo que o governo se ocupe de políticas de prevenção a DSTs entre homossexuais, mas está longe de ser o valor absurdo de 40 milhões por 15 milhões de sachês divulgado por aí. Segue em anexo um print screen da tela do site mostrando os valores. Bom, fui ao site citado e comprovei que de fato o valor foi R$ 1.160.000,00. Grato pela informação, Chico. Mas não pesquisei em sites de religiosos radicais. Furunguei textos de blogueiros laicos e não lembro de ter passado por nenhum site religioso. Outra coisa boa da Internet, é que não se precisa fazer um recall das edições para corrigir um erro. Dois ou toques de tecla e a correção está feita. É o que farei nas crônicas em que citei a cifra de 40 milhões. Quarenta ou 1,1 milhão, minha posição não muda um milímetro sobre a questão. Considero um absurdo um ministério da Saúde fornecer lubrificante anal aos cultores da prática. Como dizem as gentes, se dá só no Brasil e não é jaboticaba, não pode ser coisa que preste. Cada vez que me deparo com o fator jaboticaba, procuro na memória outros países onde tal prática possa estar ocorrendo. E não os encontro. Mesmo em países liberais, onde o aborto é assumido pelo Estado, não ocorreu a nenhum ministro oferecer lubrificante anal aos cidadãos. Já considero a distribuição de camisinhas um solene despautério. Mas vá lá! Melhor prevenir que arcar com os custos sociais de um aidético. De qualquer forma, o Estado está tratando o cidadão como uma criancinha que não sabe que cuidados tomar para não machucar-se. Parabéns, oh Brasileiros, Já com garbo varonil Do Universo entre as Nações Resplandece a do Brasil. Do Universo entre as Nações Do Universo entre as Nações Resplandece a do Brasil. Meu leitor vai mais longe: “O fato é que sem o uso de gel nas relações anais o risco de rompimento do preservativo aumenta consideravelmente”. Enfim, mais longe sempre se pode ir. O ministério da Educação bem que poderia oferecer todo um kit, com Viagra, papel higiênico, sabonetes e mesmo toalhas, tudo para o conforto sexual dos cidadãos. Quem sabe dildos, para os que são avessos a contatos humanos e preferem a solidão. Para aqueles que, por questões estéticas ou deficiências físicas, tivessem dificuldades para relacionar-se, o Estado ofereceria até mesmo um parceiro, uma espécie de assistente social, com estômago suficiente para atender todo e qualquer cliente. Se o Estado contempla as carências dos sem-terra, por que não seria da mesma forma generoso com os sem-sexo? Sempre fui – e disto todos sabem – a favor de todas as manifestações sexuais, desde que sem constrangimento ou violência. Mas sexo é questão privada. Não admito que as Igrejas se imiscuam nas relações entre os indivíduos. E muito menos o Estado. O Estado só pode intervir em questões sexuais em caso de crime. Fora disto, que mantenha distância. De qualquer forma, sou grato à correção do Chico Aragão.
INTELECTUAIS NEGAM EXISTÊNCIA DE RAÇAS Há uma crise de cronistas e articulistas na imprensa nacional. Praticamente nenhum que proporcione prazer ao ser lido. Eu leio quase todos, pois cultivo um prazer perverso, o de ler cronistas medíocres. Verdade que alguns são medíocres a tal ponto que nem consigo sequer exercer esse meu prazerzinho. Cá e lá, um articulista interessante. Na Veja, o André Petry sempre merece uma olhadela. Na Folha, se vejo um artigo de Dráusio Varella, não deixo de lê-lo. No Estadão, encontro dois articulistas que trazem informações realmente importantes quando escrevem: Xico Graziano e Demétrio Magnoli, doutor em Geografia Humana pela USP. Com Magnoli, só tenho um diferendo. Não entendo como pessoa com sua lucidez se entregue à esta convenção politicamente correta de que raça não existe. Em artigo para o Estadão de hoje, escreve Magnoli: A ciência a serviço da expansão imperial europeia inventou a raça no século 19. A ciência do pós-Guerra a desinventou, provando que a cor da pele é uma adaptação evolutiva superficial a níveis diferentes de exposição à luz solar. Mas a questão de saber se a raça existe não pode ser solucionada em definitivo pelos cientistas, pois o Estado tem o poder de fabricar raças na esfera política. Nos EUA e na África do Sul, leis raciais incutiram na sociedade a noção de que uma fronteira natural divide as pessoas em grupos fechados. O que o articulista está dizendo é que o conceito de raça, além de ter sido inventado no século XIX, depende do poder do Estado de fabricasr raças na esfera política. Ora, sempre que ouço esta conversa, tenho de repetir-me: Se raça não existe – comentei já há algum tempo - vamos então parar de falar em dálmatas, buldogs, bassets, beagles, dobermanns, filas, chihuahuas, chowchows, cockers, malteses, pequineses, pitbulls, poodles, yorkshires, São Bernardos, rottweilers. Nem nas mais de 400 raças caninas. Tampouco se fale mais, quando se trata de cavalos, em raças árabe, crioula, Holsteiner, manga larga, puros sangues ingleses, espanhóis e lusitanos, lipizzaners, appaloosa e quartos de milha, percherons, paint horses, campolinas, favacho, JB, Bela Cruz. Nem nas mais de 100 outras raças conhecidas. Abominável racismo falar em bois zebu, Aberdeen-Angus, Nelore, Hereford, Limousine, Brahman, Gir, Guzerá, holandês, charolês. Ou em ovinos merino, Texel, Île-de-France, Suffolk, Hampshire Down, Poli Dorset, Corriedale, Ideal, Laucane, Bordaleira. Tenha também respeito pelos galináceos. Elimine de seu vocabulário palavras como Legorne, D’Angola, Conchinchina, Hamburguesa, Brahma e Plymouth. Ou alguém pretende que raça só exista no reino animal? Quando surge o Homo sapiens, este ser excelso, tocado pela graça divina, raça deixa de existir? Se o conceito de raça foi inventado no século XIX, que podemos dizer destas referências com dois ou três mil anos de idade? Pois o conceito de raças já está lá, no livro mais antigo do Ocidente. Senão vejamos Atos, 17, 24, quando Paulo, em Atenas, em pé no meio do Areópago, afirma: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há (...) de um só fez todas as raças dos homens, para habitarem sobre toda a face da terra, determinando-lhes os tempos já dantes ordenados e os limites da sua habitação.” Ou Esdras, 9, 1 – “Ora, logo que essas coisas foram terminadas, vieram ter comigo os príncipes, dizendo: O povo de Israel, e os sacerdotes, e os levitas, não se têm separado dos povos destas terras, das abominações dos cananeus, dos heteus, dos perizeus, dos jebuseus, dos amonitas, dos moabitas, dos epípcios e dos amorreus; pois tomaram das suas filhas para si e para seus filhos; de maneira que a raça santa se tem misturado com os povos de outras terras; e até os oficiais e magistrados foram os primeiros nesta transgressão”. Há uma raça santa, a dos filhos de Israel. É bom lembrar que Jeová, antes de ser um deus nacional, é um deus étnico. Existe a raça eleita, os judeus. E o resto é o resto. São os goyim. Ainda em Atos, 7, 17 – “Enquanto se aproximava o tempo da promessa que Deus tinha feito a Abraão, o povo crescia e se multiplicava no Egito; até que se levantou ali outro rei, que não tinha conhecido José. Usando esse de astúcia contra a nossa raça, maltratou a nossos pais, ao ponto de fazê-los enjeitar seus filhos, para que não vivessem. Nesse tempo nasceu Moisés, e era mui formoso, e foi criado três meses em casa de seu pai”. Nossa raça, diz o hagiógrafo. Não é um goy que confere aos judeus a característica de raça. É Lucas, narrador judeu. Ainda em Romanos, 2, 13, diz Paulo: “Mas é a vós, gentios, que falo; e, porquanto sou apóstolo dos gentios, glorifico o meu ministério, para ver se de algum modo posso incitar à emulação os da minha raça e salvar alguns deles”. Em II Coríntios, 2, 25, ainda é Paulo quem fala: “Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo; em viagens muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha raça”. De novo, não é um goy quem fala, mas o judeu Paulo de Tarso. Saulo, antes de sua conversão. Magnoli parece receber influência do doutor em genética humana Sérgio Pena, através do livro Humanidade sem Raças. O autor, da mesma forma que o articulista do Estadão, defende a tese de que as raças e o racismo são uma invenção recente na história da humanidade. E o conceito de "raças humanas" surgiu e ganhou força com base em interesses de determinados grupos humanos, que necessitavam de justificativas para a dominação sobre outros grupos. Estes senhores precisam urgentemente ler a Bíblia.
SEXO ANAL DERRUBA CAPITAL Neste incrível país nosso, é perigoso fazer piada. Quando pensamos que estamos fazendo piada, não é piada não, é realidade. Em junho de 2004, eu escrevia, comentando o casamento entre homossexuais: Mais um pouco e estarão exigindo fidelidade do parceiro. Muito em breve, teremos tédio conjugal e divórcio, males que antes não afetavam os homos. Em vez de fugir ao modelo que está se revelando inadequado ao mundo contemporâneo, os gays nele buscam proteção. Como se núpcias de véu e grinalda os redimissem de um hipotético pecado original. O que um dia foi transgressão e libertação, está virando instituição. Homossexualismo está perdendo a graça. Mais um pouco, os homos - da mesma forma que os negros - estarão exigindo cotas na universidade. O que para mim era piada, para Luís Mott, Secretário de Direitos Humanos do Grupo Gay da Bahia, virou projeto. Ele defende a introdução de cotas para homossexuais na universidade. Preciso tomar mais cuidado ao fazer piadas. Nas últimas crônicas, falei sobre a necessidade de fornecer gel lubrificante aos participantes do Fórum Social em Belém. Minha intenção era dupla. Primeiro, ridicularizar um encontro onde se pretende encontrar a fórmula de um mundo melhor, desde que o Estado forneça 600 mil preservativos aos árdegos militantes. Segundo, evidenciar o absurdo de um ministério da Saúde, que despende 1.160.000 de reais na aquisição de 15 milhões de sachês de gel lubrificante, para tornar mais confortável o relacionamento anal, em um país onde faltam leitos e aparelhos nos hospitais, faltam medicamentos nas farmácias populares e pessoas morrem nas filas do SUS antes de serem atendidas. Em país decente, há muito o senhor José Gomes Temporão teria limpado suas gavetas no ministério. Eis senão quando recebo esse mail de Porto Alegre: Caro: com relação ao teu artigo sobre gel lubrificante, na última edição do FSM em Porto Alegre (até deves te lembrar), conforme noticiado por várias fontes, houve o dia em que um grupo marchou pelado entoando o grito de guerra: "Sexo anal derruba o capital!” "Criança, não verás...". Abraços. Marco Loss Confesso que esta eu desconhecia. Provavelmente não estava no país quando o insólito aconteceu. Com esta intrepidez da brava gauchada Marx não contava. Vai ver que se empunhasse esta bandeira, ao invés da anódina palavra de ordem “Proletários de todo mundo, uni-vos!”, o marxismo teria maior sobrevida. Só para conferir, fui dar uma olhadela na rede. Só no Google, encontro 3.610 ocorrências. Por exemplo: O Fórum Social Mundial começou em passeata pelas ruas de Porto Alegre. Mais de 200 mil pessoas. Vieram para Porto Alegre cerca de 120 mil pessoas. Todos querendo “a construção de um outro modelo de globalização”. Números expressivos e ambições desmedidas. Feira de ilusões.. A esquerda marxista marcou presença: “Marcha anticapitalista!”. Não foi hegemônica. A esquerda petista fez mais barulho: “Fora, fora daqui, Palocci, Meirelles e o FMI!”. Feministas de todas as tradições: “A nossa luta é por respeito. Mulher não é só bunda e peito”. Todas as tribos reunidas. Os gays saltitantes: “O sexo anal derruba o capital!”. Militantes petistas de todas as tendências estiveram desfilando bandeiras vermelhas à beira do Guaíba... Esta luta renhida por um mundo melhor resultou em uma dissertação de mestrado em Antropologia Social defendida na Unicamp, em 2002, o livro Sopa de Letrinhas - Movimento homossexual e produção de identidades coletivas nos anos 90, de Regina Facchini, que reconstitui a trajetória do movimento homossexual no Brasil, sobretudo de meados dos anos 80, buscando situar este movimento no interior das abordagens teóricas sobre movimentos sociais e terceiro setor. A obra foi lançada pelo CLAM e pela Editora Garamond, em São Paulo, na mesma semana da 9ª Parada do Orgulho GLBT, evento que levou mais de dois milhões de pessoas à Avenida Paulista. Em entrevista publicada na rede, a autora fala de lutas e conquistas do movimento e da importância das paradas para a visibilidade homossexual. Os grupos mais influentes no período se apresentavam como grupos de afirmação homossexual ou de ação em favor dos homossexuais. Nas passeatas era possível ouvir palavras de ordem como “o sexo anal derruba o capital”. Eu pensava que fosse piada. Não era. Ora, que tem o dito com o capital? Na ânsia de criar um slogan de fácil memorização, as doidivanas se enganaram rotundamente. Sexo anal só favorece o capital. O movimento tomou tais proporções no mundo, que hoje movimenta desde redes hoteleiras, agências de turismo, cruzeiros, sistemas de transporte, vôos fretados, restauração, turismo especializado, até a indústria da indumentária, particularmente do couro. Os Estados Unidos, pragmáticos como todo país capitalista, há muito descobriram este mercado fabuloso e nele investem fortunas. Os homossexuais são em geral solteiros, têm alto padrão econômico e não têm filhos nem mulher a sustentar. Ou seja, constituem excelente alvo para a indústria do lazer. Não era pois, de todo descabida, minha proposta de fornecer gel lubrificante a esta brava moçada que luta por um mundo melhor, livre das imposições do capital. A causa pode ser errada. Mas o propósito dos jovens era sublime. O que me lembra frase do genial Roberto Arlt, escritor argentino que gosto de citar: - A revolução, a faremos com os jovens. São estúpidos e entusiastas.
Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009
MENSAGEM DO GERSON Caro Janer Queria cumprimentá-lo pela demonstração de infinita paciência nas respostas aos "intelectuais" que defenderam o "grande evento de Belém". Estive pensando sobre tudo o que está acontecendo. Na semana passada fiquei dez dias no Nordeste junto com um casal amigo e passei a observá-los. Marido e mulher (um casal jovem) simplesmente não conseguem conversar nada mais profundo que: "o que vamos comer amanhã" ou "sua filha está chorando" ou "o sol está quente" e mais um punhado de frases de pobre conteúdo. Quando arriscam alguma opinião sobre qualquer assunto é sempre algo baseado em "achismo pessoal" mas com uma autoridade inqüestionável que elimina qualquer argumentação. Cheguei a conclusão que o brasileiro em geral está caindo rapidamente num sono profundo de ignorância promovida pelos "esquerdopatas" no Comando do País. São ações de cartilha amplamente descritas há mais de 20 anos, com clareza cristalina, pelo ex-kgb Yuri Bezmenov. Trinta anos ou mais de exclusão cultural formou uma geração de zumbis altamente controláveis.Daí a minha triste conclusão: Não se trata de "se" mas de "quando" seremos apresentados oficialmente ao diabo vermelho.O padrão das respostas de seus leitores indignados são uma pequena amostra de que poucos terão condições de reagir diante de tudo que virá, e, mesmo estes, neste momento, provavelmente já estão se preparando para deixar este pobre país. Quanto a mim, estou separando um bom vinho para tomar na viagem. Grande abraço, Gerson Grato, Gerson! É o que eu chamo de nível zero da fala. "Sabe, eu ia fazendo a curva e um outro carro me fechou". "Levei um choque quando fui consertar o chuveiro". "Pedi uma cerveja e ela não estava gelada". "Cheguei em casa e não conseguia achar a chave da porta". O discurso deles termina aí. Não conseguem formular uma idéia e muito menos relacionar uma idéia com outra. Eu os conheço bem, eles pululam no boteco onde, aos sábados e domingos, vou ler meus jornais e tomar uns tragos introdutórios ao vinho do almoço. Há uma mesa, da qual sempre tomo distância, onde o assunto é exclusivamente futebol. Não discutem política, corrupção, problemas da cidade, coisas da vida, nada. Só futebol. Abstrações como literatura, amizade, arte, ou mesmo coisas bem mais concretas como culinária ou viagens, ni pensar. São em geral pessoas que jamais saíram do país e não têm, portanto, elementos de comparação. Certo dia, numa mesa, eu tecia algumas críticas a instituições nossas, quando do outro lado da mesa ergueu-se o patriotão: "Então, o que você está fazendo aqui?" Ora, estou aqui porque neste momento o Brasil é o país que mais me convém. Tenho passaporte brasileiro, posso transitar por todo o território nacional, posso habitar onde quiser e me reservo totalmente o direito de criticar meu país. Tenho mais condições de criticar o Brasil do que qualquer outro país do qual pouco ou nada conheço. O animal levantou-se, foi até seu carro, trouxe um monte de bandeirinhas brasileiras e as espalhou pela mesa. Pelo jeito, era o argumento que ele tinha sempre à mão, para responder a toda e qualquer crítica a seu lindo país. Claro que abandonei aquela mesa. Com meu pequeno círculo de amigos, já o papo é outro. São pessoas que falam várias línguas e viveram em vários países. O tema viagem é preferencial. Falar em viagens é falar em culinária e literatura. Falar em literatura é falar do amor e das mulheres. Gostamos também de discutir história, música e teologia. São pessoas que estão sempre lendo e portanto sempre se renovando. Fora da leitura não há salvação. Toma distância, meu caro Gerson, dos homens da fala zero. Não nos dão nada e nos roubam o tempo de estar lendo ou ouvindo alguma pessoa interessante.
ARGUTOS LEITORES DEMOLEM CRONISTA Recebi algumas críticas arrasadoras a meu artigo sobre o Woodstock das esquerdas, isto é, o recente Fórum Social Mundial, realizado em Belém. “Salvo algumas frases, que foram bem colocadas, no geral nunca li um texto tão idiota na minha vida, escreve Leonardo Korndorfer. “Frase nenhuma se salva. Idiota é pouco, muito pouco” – diz Sofia. “Se o autor despreza tanto o MST, deve ser porque acredita que os latifúndios do Brasil foram havidos de forma legal. Certamente, o autor não mora numa grande cidade, onde sofreria com a violência causada pela êxodo rural caótico que ocorreu no Brasil. O autor deve ser daquelas 200 famílias que possuem uma área igual a duas vezes o estado de São Paulo e que devem rir a toa quando a classe média treme de medo de perder seu apartamento porque um trabalhador vai ser presidente”, escreve Gabriel. “Pelo texto, parece que o Janer tem algum problema com sexo anal, afinal ele "mete o pau" no pessoal que lá estava, e no final diz que a "revolução" está nessa forma de sexo... hehehehe acho que o Janer tá precisando sair do armário e segurar firme na "bandeira" do MST!” – diz Henrique Klein Filho. Esta foi definitiva. Não sobrou nada de meus arrazoados. Estou envergonhado, leitores. Vontade de sumir terra adentro. Minha argumentação foi desmontada, ponto a ponto. Não sobrou pedra sobre pedra. Meus críticos foram ao cerne do artigo e o contestaram com virtuosismo. “No geral nunca vi um texto tão idiota na minha vida”. Que posso contestar após tão brilhante argumento? A crônica toda foi destruída com uma só frase de gênio. “Frase nenhuma se salva. Idiota é pouco, muito pouco.” Sinto-me de novo acachapado sob argumentação tão contundente. Nem tenho palavras para responder. Os leitores acabaram me convencendo que fui um embuste minha vida toda. Estou pensando, ao final de minha existência, abandonar definitivamente o jornalismo. O Gabriel também faz tabula rasa de meu artigo. Verdade que também não entra no mérito de questão alguma, mas tem certeza de que não vivo em cidade grande e que devo pertencer àquelas “200 famílias que possuem uma área igual a duas vezes o estado de São Paulo e que devem rir a toa quando a classe média treme de medo de perder seu apartamento porque um trabalhador vai ser presidente”. O leitor fez pelo menos algumas observações relevantes à condição do autor. Pena que se equivoca completamente. Vivo em São Paulo, meu caro, a maior cidade do país e não sofro violência alguma causada pelo êxodo rural. O banditismo de São Paulo é essencialmente urbano, resultante inclusive da migração de outras cidades, mas não do campo. Não pertenço àquelas “200 famílias que possuem uma área igual a duas vezes o estado de São Paulo” e sim aquelas centenas de milhares de famílias que possuíam algumas bracinhas de terra e foram empurradas para a cidade pela expansão do latifúndio. Da mesma forma, todo meu clã, que não é pequeno. Graças ao bom Deus dos ateus fomos expulsos do campo. Não fosse isso, lá teríamos permanecido, semi-analfabetos, longe das trocas culturais, da comunicação, da educação e das demais benesses da cidade. O MST não luta mais por assentamentos. Luta pelo poder. É guerrilha criada pela Igreja Católica e seus líderes deviam estar na cadeia. Esta condição de movimento armado em luta pelo poder ficou amplamente demonstrado em reportagem de Veja da semana passada. Com uns vinte anos de atraso, é verdade, mas antes tarde do que nunca. O MST já nem encontra mais camponeses para seus acampamentos. Precisa buscar sem-terra nos cinturões de ódio constituídos pelas periferias urbanas. E está poluindo os campos com suas favelas rurais. Há alguns anos, passei por um desses assentamentos, entre Dom Pedrito e Livramento. São ranchos tristes e nus, sem uma árvore sequer no pátio, sem uma só horta no terreno. Pasto algum, cereal algum, plantado em torno às casas ou nos terrenos que medeiam as casas. Os sem-terra, hoje, são favelados e pobres diabos urbanos, sem relação nenhuma com a terra. Não são pessoas expulsas da terra. São sem-terra no sentido mais radical da palavra. Nunca as tiveram, delas nada conhecem e por elas não têm interesse algum. São apenas massa de manobra de apparatchiks inescrupulosos, que declaram abertamente, em alto e bom som, pretender instaurar um regime comunista no país. Logo aquele regime que nasceu obsoleto e morreu nos estertores do século passado. Este é o cerne da questão. O cerne, as esquerdas não gostam de discutir. Preferem os arabescos colaterais. Mas o argumento definitivamente arrasador, que demole sem piedade minha argumentação, é o de Henrique Klein. Acha que o cronista precisa sair do armário. Com esta singela frasezinha, demoliu toda minha construção intelectual. Ora, caro, nunca entrei em armários. Desde meus tenros anos, sempre defendi o exercício de toda e qualquer sexualidade, desde que não implique coação nem violência. O que tenho criticado é o estímulo oficial do Estado ao homossexualismo. Ora, não é função do Estado estimular sexualidade alguma. A menos, talvez, no caso de decréscimo populacional, o que absolutamente não é o nosso caso. A alusão ao gel lubrificante se deve ao fato – nunca antes visto na história deste país – de o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, ter aberto edital para comprar 15 milhões de sachês de lubrificantes KY para distribuir aos gays. Se o governo do Pará forneceu 600 mil preservativos para uso dos bravos buscadores de um mundo melhor, Temporão bem que podia dar uma mãozinha para tornar ainda mais melhor o mundo melhor pelo qual lutam os participantes gays do Woodstock das esquerdas.
Terça-feira, Fevereiro 03, 2009
MEC QUER ANALFABETIZAR BRASIL COM LITERATURA EM QUADRINHOS Devo confessar que boa parte de minha alfabetização passou pelas revistas em quadrinhos. Não que nelas tenham aprendido a ler. Aprendi em cartilhas. Revista em quadrinhos nunca fez parte De meu currículo escolar. Era nosso momento de prazer. E, obviamente, desenvolvia a capacidade de ler. Em meus dias de guri, fui cultor de Pato Donald, Superman, Batman, Cavaleiro Negro, Zorro, Mandrake e mais alguns “clássicos” que meus contemporâneos talvez já nem lembrem: Davi Crocket, Tim Holt, Hopalong Cassidy, Nyoka, Diana, a Rainha das Selvas, etc. Sou de uma época em que havia cinemas nas cidades do interior. Aos sábados e domingos, havia matinés com seriados. Na última cena, o mocinho era deixado amarrado, entregue a víboras ou leões, ou atado a uma tábua que seria cortada por uma serra elétrica. Mas isto não nos angustiava. Sabíamos que no episódio ele encontraria uma forma de safar-se. Após a matiné, havia um mercado de gibis. Cada piá trazia parte de seu acervo de casa e fazia seus negócios. Trocava-se revistas, emprestava-se ou vendia-se. Os quadrinhos fizeram parte de minha infância e de minha alfabetização. Cumpriram sua função. Me acompanharam até a adolescência e depois perderam a graça. Passei a preferir a narração escrita. Claro que não estou falando de Mafalda nem de Asterix, revistas que curto até hoje. Leio no Estadão de ontem: QUADRINHOS CONQUISTAM ESPAÇO NA LITERATURA ESCOLAR Em 2007, 14 HQs entraram na lista e, desde então, número de vem aumentando A adaptação de O Alienista, de Machado de Assis, vencedor do último Prêmio Jabuti de melhor livro didático e paradidático do ensino fundamental ou médio, é uma das 23 histórias em quadrinhos (HQs) que o Ministério da Educação (MEC) distribuirá neste ano para escolas públicas do País. Criado em 1997, o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) ignorou HQs por dez anos. Em 2007, 14 obras entraram na lista. Desde então, o número de HQs vem aumentando. Foram 16 em 2008 e, em 2009, a participação chega a 4,2% dos 540 títulos que deverão chegar às escolas até março. Bom, aí a história muda de cariz. Quadrinhos para crianças e adolescentes, como lazer para horas vagas, entendo. Quadrinhos como adaptação de literatura para ensino fundamental ou médio, o Ministério da Educação que me desculpe. Isto não é alfabetização, mas analfabetização. Ler é interpretar sinais e palavras. Ver quadrinhos é ver desenhos. Há uma profunda distância intelectual entre ver quadrinhos e ler um livro. Ver qualquer um vê. Ler nem todos lêem. Em meus dias de magistério, minhas aluninhas de Letras adoravam ler Graciliano Ramos e Clarice Lispector. Não que tivessem especial preferência por estes autores. O que neles gostavam era que seus livros eram fininhos. É óbvio que estas prefeririam ler versões em quadrinhos. Mais fácil de assimilar, para quem não adquiriu o gosto pela leitura. Ocorre que eu ensinava em um curso de Letras, não em um curso de Quadrinhos. E reprovei minhas pupilas em massa. Este terá sido um – entre outros motivos – para minha ejeção do Curso de Letras. Onde se viu um professor de Letras exigir leituras de estudantes de Letras? Aqui em São Paulo, descobri certa vez uma ruela com um teatro que encenava ad aeternum romances adaptados de Machado. “Não é possível que aquele chato tenha público cativo nos dias de hoje”, pensei com meus botões. De fato, não era possível. As peças eram destinadas a essa massa informe de estudantes que se recusa a ler. Mas eram obrigados, pelos interesses da indústria editorial e das universidades, a ler o Machadinho. Assim, se tinham de prestar provas ou mesmo um vestibular, era só ir ao teatro. Em hora e meia matavam a questão. Quem assim resolve o problema da leitura, assistindo recitais de autores, está definitivamente perdido para a grande literatura. Jamais será capaz de enfrentar um Cervantes, um Eça de Queirós, um Platão ou um Swift, um Orwell ou Arthur Kloester, um Edgar Allan Poe ou um Fernando Pessoa. Fora da leitura não há salvação. Quem não lê – e não estou falando de literatura técnica – é pessoa desinteressante, que nada entende do mundo e que, a meu ver, sequer deveria abrir a boca. Mais importante do que a ampliação numérica foi a valorização da linguagem das HQs na última seleção oficial, avalia Waldomiro Vergueiro, coordenador do Núcleo de Pesquisa de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Ele também elogia a inclusão do ensino médio na relação das escolas que vão receber HQs. Este senhor, Waldomiro Vergueiro, merece a comenda de Analfabetizador Geral da Nação, o quanto antes. Não conheço país que tenha chegado a um estágio altamente desenvolvido sem a leitura. Se o Ministério da Cultura quer acelerar o afundamento da nação, está agindo no rumo certo. São homens de visão, que sabem como chegar onde querem.
Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009
BÍBLICAS CONTRADIÇÕES: CORAÇÃO OU ENTRANHAS, PORTA, BURACO OU FRESTA? Escrevia há pouco um leitor que “o Autor da Bíblia é o mesmo Autor da Criação”. De que Bíblia fala o leitor? Da Tanak, da Bíblia católica, da evangélica? Porque há várias bíblias, e cada uma difere da outra. Isso sem falar nos textos de Qumran e dos Pseudoepígrafos do Antigo Testamento. É preciso também saber a qual tradução você se refere, pois há uma diferença substancial entre a King James, a Bíblia de Jerusalém, a de João Ferreira de Almeida ou a editada pelas Irmãs Paulinas. Esta última tradução, transformou a Bíblia num livro marxista. Por outro lado, os autores dos livros bíblicos são em geral desconhecidos, mesmo que tenham sua autoria atribuída a este ou aquele rei, patriarca ou apóstolo. Moisés é tido como o autor dos cinco livros do Pentateuco. Mas como poderia um homem rude do deserto discorrer abundantemente sobre história, legislação, organização das cidades, regimes alimentares, construção de templos, liturgia? Além do mais, Moisés narra sua própria morte. Pode? Cada religião ligada ao Livro montou seu cânone. O da Tanak foi coligido pelos rabinos, o da Igreja Católica pelos padres de Roma, o da Bíblia luterana por Lutero. Cada religião puxou brasa para seu assado. Cabe lembrar que há vários cristianismos derrotados ao longo da História. Os seguidores de Cristo que denunciavam o fausto do Vaticano ou que – de uma forma ou outra – não convinham a Roma, eram tidos como hereges e devidamente enviados à fogueira. Não há duas traduções iguais da Bíblia. Se duas traduções fossem iguais, não seriam traduções, mas plágio. Sem falar nos textos que a Igreja recusou. Testemunhos da época sobre o Cristo – particularmente os que pregavam uma relação direta com Deus, dispensando assim o sacerdote - foram tidos como apócrifos e não constam do cânone oficial. Tenho nove bíblias em minha biblioteca e uma no computador. Para comparar os cânones e as traduções. Tenho inclusive a Bíblia da Galllimard, em três volumes, considerada a mais fiel das traduções. O segundo volume, intitulado Écrits intertestamentaires (1906 pgs), dá acolhida aos textos de Qumran e aos Pseudoepígrafos, tão ou mais legítimos que os acolhidos pelo cânone católico. Como lazer, me dedico à comparação da tradução de versículos. Outro dia, apontei um grave desvio nas traduções, que transformaram um livro politeísta em monoteísta. Ainda há pouco, citei um trecho do poema maior da Bíblia, o Cântico dos Cânticos. E tive o prazer de receber esta mensagem do Alex, pessoa também preocupada com traduções: Prezado Janer (se me permite a intimidade), Em dezembro, descobri seus escritos. (...) Assim como a Lia, e ao contrário do Rodrigo, seus leitores, gosto muito dos "momentos sublimes da Bíblia". Acredito que eles vão muito além do banho de sangue dos textos. Eles demonstram o quanto os cristão típicos desconhecem seu material de culto, o quanto o "Deus é amor" pode ser algo terrivelmente falacioso... Posso sugerir-lhe um momento sublime para o Blog? Acho "moralmente edificante" o relato sobre a velhice do rei David. Como o rei não "aquecia", seus servos resolveram buscar no reino uma jovem e formosa virgem. E ainda assim, apesar da moça servir ao rei e dormir com ele, o grande David continuou não "aquecendo". (1 Reis 1:1-4) Aliás, essa moça, Abishag, a Shunamita, deve ter sido um estouro, já que ela é comparada ao reino de Israel. Quando Adoniah tem de entregar o reino ao seu irmão Salomão, ele quis ao menos ficar com Abishag. Impertinência grande demais para o futuro mais sábio dos homens, que ficou famoso, ou nem tanto, pelas suas 700 esposas e 300 concubinas. Por causa da ousadia do seu irmão, Salomão mandou matá-lo! Posso fazer um adendo à sua citação do Shir Ha-shirim, no blog da última quarta-feira? Inicialmente, também acho estranhíssimo tanto este quanto o Koheleth estarem no cânone. Pior são as desculpas para justificarem a presença deles nos escritos santos. No caso do cântico dos cânticos, o que ele seria? O amor entre Javeh e os judeus, o amor entre Cristo e a Igreja ou entre deus e a alma humana? Ainda sobre os cânticos de Salomão, o trecho que você citou é um dos meus prediletos. Mas acredito que a tradução que você utilizou está muito "amaciada". Não me parece que foi o coração que estremeceu pelo amor do amado. A palavra hebraica em questão, vmjy, pode ser traduzida como entranha, e não coração. Além do mais, o texto hebraico não cita porta, e nem dá pistas disso. Então, talvez, uma tradução mais próxima do original, mas com muito menos poesia e ainda mais erotismo seria: "Meu amor meteu a mão pelo buraco, e minhas entranhas estremeceram por ele." Curiosamente, é semelhante à tradução da minha bíblia católica, tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, que diz: "Meu amado meteu a mão pela fresta, e as minhas entranhas estremeceram ao estrondo que ele fez." É isso. Abraços calorosos (mas sem aquecimento, ok?) Alex Em mail posterior, intrigado com o assunto, Alex expande suas pesquisas e aumenta sua perplexidade: A Santa Sé, muito bondosa, disponibiliza em www.vatican.va a Nova Vulgata. O trecho em questão aparece assim (cap. 5, v.v. 4): "Dilectus meus misit manum suam per foramen, et venter meus ilico intremuit." Janer, diga-me você que, na sua meninice, aprendeu latim com os padres! Dá para render "venter" como "coração"? Na mesma página vaticanista que contém o "link" para a Nova Vulgata, há também "links" para traduções em inglês, espanhol e italiano. Vejamos em espanhol: "Mi amado pasó la mano por la abertura de la puerta, y se estremecieron mis entrañas." Em italiano: "Il mio diletto ha messo la mano nello spiraglio e un fremito mi ha sconvolta." Não entendi esse texto. Será que houve algum erro quando ele foi compilado para a web? Em inglês: "My lover put his hand through the opening; my heart trembled within me." Minhas entranhas estremecem-se, Janer. O texto em inglês está muito mais consoante com a versão que você usou. O que acontece? Será que os cristãos estão nas mãos de tradutores incompetentes? Será que agendas divergentes, mesmo dentro do universo católico, são tão poderosas a ponto de influenciarem traduções? Será que há um grupo de conspiradores que buscam a "suavização" dos textos santos? Ou será que alguns tradutores, bem intencionados, procuram mudar os textos com o objetivo apenas de deixarem tudo mais poético? Meu caro Alex: Eu já havia comentado rapidamente sobre Abisag. Vou acatar sua sugestão. Qualquer hora reproduzo a singular técnica de aquecimento do sábio rei Davi. Quanto ao Cântico dos Cânticos, já li uma interpretação rabínica segundo a qual, quando se fala do umbigo da Sulamita, não se trata do umbigo da Sulamita. E sim do Sinédrio. Assim como o umbigo é o centro do corpo, o Sinédrio é o centro do mundo. Os católicos, por sua vez, vêm no poema uma busca da Igreja por seu amado, o Cristo. Confesso que nunca imaginei que a Igreja pudesse perambular pelas ruas de Jerusalém, possuída por tanta tesão. Quanto às traduções que você propõe dos calores da Sulamita, me parecem muito procedentes. Porque as entranhas da moça estremeceriam só porque o amado meteu sua mão pela fresta de uma porta? Quanto a spiraglio, vejo em meu dicionário De Agostini: piccola fesura in un muro, in una finestra, in una porta, da dove passano l’aria e la luce. De novo a idéia de fresta. Como dizia, cada tradutor puxa brasa para seu assado. Israel, quando se tornou mais poderoso, quis tornar seu deus único e procurou, através dos tradutores, eliminar a idéia de deuses. Deus seria um só. Quanto ao Cântico dos Cânticos, a idéia era retirar todo erotismo de um livro erótico e transformá-lo em uma metáfora das relações da Igreja, a noiva, com seu amado, o Cristo. A Bíblia é certamente o livro mais deturpado por tradutores através dos séculos. Como não temos em mãos os manuscritos originais, mas apenas cópias de cópias de cópias, permanecemos no escuro e podemos apenas apresentar hipóteses plausíveis sobre as traduções.
Domingo, Fevereiro 01, 2009
SÓ FALTOU GEL LUBRIFICANTE NO WOODSTOCK DAS ESQUERDAS ¿Qué hacemos con el capitalismo? – este é título que o espanhol El País dá a uma reportagem sobre o Fórum Social Mundial, que se desenrola nestes dias em Belém. E continua: Las izquierdas presentes en el encuentro alternativo de Belém certifican la muerte del neoliberalismo, al que responsabilizan de la crisis mundial. De una forma u otra, los 120.000 activistas llegados de todo el mundo al Foro Social Mundial (FSM) que se celebra en la ciudad brasileña de Belém son de izquierdas. De todas las izquierdas: antiguas y modernas. Unas izquierdas sin horizontes en las que se dan cita viejos leninistas, nuevos ecologistas, anarquistas con banderas negras, curas progresistas e incluso asociaciones de prostitutas. Muchas izquierdas con una sola pregunta: ¿qué hacer con el capitalismo? O Fórum Social Mundial, como sabemos, nasceu na esteira do Fórum Econômico Mundial de Davos. Nem nisto as esquerdas são originais. Organizam-se sob a batuta do capitalismo que, de repente, sei lá por que razões, passou a chamar-se neoliberalismo. Não sei se o leitor notou, mas as esquerdas abandonaram a antiga nomenclatura, quando o demônio se chamava capitalismo. Outros demônios também mudaram de nome. Latifúndio virou agronegócio. Burguesia é outra palavrinha que também deixou de existir. Sobre comunismo, quase ninguém mais quer falar. Os antigos PCs, de modo geral, mudaram de nome e já encontrei leitores, por exemplo, que me juraram de pés juntos que Roberto Freire nunca foi comunista. Chamar hoje um comunista de comunista é grossa ofensa. No entanto, já foi motivo de orgulho. Suponho que a nova nomenclatura seja reflexo das ondas concêntricas decorrentes da Queda do Muro e do desmoronamento da União Soviética. Boa parte dos velhos comunossauros são hoje ecologistas. É sempre uma maneira de continuar lutando contra o velho inimigo, o capitalismo – perdão, o neoliberalismo – sem precisar usar desgastadas palavras como luta de classes, proletariado, imperialismo. A nova bandeira é a defesa do planeta, ameaçado pelo efeito estufa, decorrência do consumo dos insensíveis capitalistas – perdão, neoliberais. Continua El País: Sin embargo, aunque la pregunta sobre el futuro del capitalismo es el denominador común de los debates y conferencias del foro, no existe consenso acerca de cómo o con qué sustituirlo. En las discusiones se perfilan dos tendencias: por un lado, la de quienes quieren sustituir el capitalismo por otro sistema económico, sin especificar cuál. Algunos, como el Movimiento de los Sin Tierra (MST), abogan por una vuelta al socialismo. ¿Pero qué socialismo? A pergunta é ingênua. Pelo jeito, o correspondente do jornal espanhol não viu as efígies dos ícones do MST, Lênin, Mao, Castro, Che Guevara. Se as demais esquerdas estão mais perdidas que cego em tiroteio, o MST sabe muito bem para onde quer ir. É não é rumo à social-democracia. Enquanto Aiatolavo de Carvalho via a grande ameaça no mítico Fórum de São Paulo, a guerrilha católico-maoísta do MST avança a largos passos no Brasil. Financiada pelo governo. Isto é, por nós, contribuintes. O tal de Fórum Social Mundial começou repelindo a presença de qualquer governante em seus aquelarres. Hoje, já as aceita. Mas só de ditadores ou governos similares. Desde que de esquerda. Presidente analfabeto também serve. Quem não pode freqüentá-los são os dirigentes de democracias sólidas e de alto nível cultural. Uma segunda tendência, segundo o jornal, é a defendida por um dos criadores do Fórum, o brasileiro Oded Grajev, quien propone como alternativa al sistema que se ha roto lo que califica de "capitalismo socialmente responsable". En vez de mercado libre, pide un "mercado socialmente responsable, con una democracia más participativa". No rechaza la existencia de empresas privadas, pero siempre, puntualiza, "que sean controladas socialmente". Por que não pronunciar então a palavrinha? Social-democracia, oras. Ocorre que a social-democracia foi demonizada pelos antigos leninistas, como revisionismo. Da mesma forma como o Dr. Strangelove, de Kubrick, não perdera os reflexos nazistas, Grajev parece não ter perdido ainda seus reflexos bolcheviques. Mas o melhor vem agora. O FSM, que não sabe o que quer mas sabe muito bem o que não quer, isto é, o capitalismo – perdão, neoliberalismo – aceita volontiers gordas contribuições de empresas capitalistas. Segundo a Folha de São Paulo, quatro estatais brasileiras marcharam alegremente com R$ 850 mil para a organização do encontro deste ano. A Petrobras pôs R$ 200 mil no balaio, o Banco do Brasil R$ 150 mil, a Caixa Econômica R$ 400 mil e a Eletronorte R$ 100 mil. Todas as quatro controladas pelo PT, bem entendido. Dinheiro não tem cheiro. Agora você entende o alto preço da gasolina e porque o "spread" bancário no Brasil é o maior do mundo e 11 vezes o dos países desenvolvidos. É preciso investir no sonho. Ainda segundo a Folha, a prática não é de hoje. Em 2003, o evento já conseguira arrecadar R$ 1,8 milhão com Petrobras e Banco do Brasil. Para as edições de 2004 e 2005 do fórum, a Abong (Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais) recebeu, em valor também corrigido, cerca de R$ 640 mil dos Correios por meio da SMPB Comunicação, agência de publicidade de Marcos Valério. O publicitário, se alguém ainda não lembra, é aquele ousado marqueteiro que foi operador do mensalão. Foi preso recentemente, acusado de integrar uma quadrilha que praticava extorsão, fraudes fiscais e corrupção. Graças ao coração de mãe do presidente do Supremo, o ministro Gilmar Mendes, já está livre como um passarinho. Além dos valores das estatais, o Fórum Social atraiu para cidade de Belém investimentos públicos - dos governos federal e estadual - recordes, de aproximadamente R$ 145,3 milhões para as áreas de infraestrutura, segurança e saúde. Para Cândido Grzybowski, do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), fundador do evento, "não haveria fórum no Brasil" se não houvesse apoio de estatais. “Ditosa idade e século ditoso” este nosso – como diria o Quixote - idade de ouro das esquerdas, em que os contestadores do capitalismo são financiados pelo capitalismo para contestá-lo. Nunca foi tão fácil. Mas a contribuição mais insólita ao Fórum foi a do governo do Pará, que distribuiu 600 mil camisinhas aos participantes desta 9ª edição do FSM. Mas afinal, os bravos salvadores do mundo estão em Belém para quê? Para salvar o mundo ou satisfazer a libido dos salvadores do mundo? Ontem à noite, perguntava eu isto a uma árdega participante do aquelarre e ela respondeu-me indignada: “Ué, a gente trabalha durante o dia e de noite faz o que bem entende”. Totalmente de acordo. Só o que não entendo é porque o contribuinte tem de contribuir para as trepadas dos salvadores da humanidade. Só faltou o ministro Temporão oferecer alguns milhares de sachês de gel lubrificante para o encontro. Afinal, nesta reunião de fundamental importância para os destinos da humanidade, todas as tendências sexuais têm de ser contempladas. Sexo anal também é revolução.
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