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¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV
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janercr@terra.com.br
Tiragem
Janer Cristaldo escreve no Página Não-Oficial de Janer Cristaldo Arquivos 10/01/2003 - 11/01/2003 12/01/2003 - 01/01/2004 01/01/2004 - 02/01/2004 02/01/2004 - 03/01/2004 03/01/2004 - 04/01/2004 04/01/2004 - 05/01/2004 05/01/2004 - 06/01/2004 06/01/2004 - 07/01/2004 07/01/2004 - 08/01/2004 08/01/2004 - 09/01/2004 09/01/2004 - 10/01/2004 10/01/2004 - 11/01/2004 11/01/2004 - 12/01/2004 12/01/2004 - 01/01/2005 01/01/2005 - 02/01/2005 02/01/2005 - 03/01/2005 03/01/2005 - 04/01/2005 04/01/2005 - 05/01/2005 05/01/2005 - 06/01/2005 06/01/2005 - 07/01/2005 07/01/2005 - 08/01/2005 08/01/2005 - 09/01/2005 09/01/2005 - 10/01/2005 10/01/2005 - 11/01/2005 11/01/2005 - 12/01/2005 12/01/2005 - 01/01/2006 01/01/2006 - 02/01/2006 02/01/2006 - 03/01/2006 03/01/2006 - 04/01/2006 04/01/2006 - 05/01/2006 05/01/2006 - 06/01/2006 06/01/2006 - 07/01/2006 07/01/2006 - 08/01/2006 08/01/2006 - 09/01/2006 09/01/2006 - 10/01/2006 10/01/2006 - 11/01/2006 11/01/2006 - 12/01/2006 12/01/2006 - 01/01/2007 01/01/2007 - 02/01/2007 02/01/2007 - 03/01/2007 03/01/2007 - 04/01/2007 04/01/2007 - 05/01/2007 05/01/2007 - 06/01/2007 06/01/2007 - 07/01/2007 07/01/2007 - 08/01/2007 08/01/2007 - 09/01/2007 09/01/2007 - 10/01/2007 10/01/2007 - 11/01/2007 11/01/2007 - 12/01/2007 12/01/2007 - 01/01/2008 01/01/2008 - 02/01/2008 02/01/2008 - 03/01/2008 03/01/2008 - 04/01/2008 04/01/2008 - 05/01/2008 05/01/2008 - 06/01/2008 06/01/2008 - 07/01/2008 07/01/2008 - 08/01/2008 08/01/2008 - 09/01/2008 09/01/2008 - 10/01/2008 10/01/2008 - 11/01/2008 11/01/2008 - 12/01/2008 12/01/2008 - 01/01/2009 01/01/2009 - 02/01/2009 02/01/2009 - 03/01/2009 03/01/2009 - 04/01/2009 04/01/2009 - 05/01/2009 05/01/2009 - 06/01/2009 06/01/2009 - 07/01/2009 07/01/2009 - 08/01/2009 08/01/2009 - 09/01/2009 09/01/2009 - 10/01/2009 10/01/2009 - 11/01/2009 11/01/2009 - 12/01/2009 12/01/2009 - 01/01/2010 01/01/2010 - 02/01/2010 |
Domingo, Maio 31, 2009
DE COMO PERDI UMA CAIXA DE CERVEJAS A vida é uma sucessão de perdas e ganhos. EsTes são mais freqüentes no início da caminhada, afinal para um jovem tudo que vem pela frente é lucro. Com o tempo os ganhos vão mermando e as perdas dão o ar da graça. Principalmente de amigos. A propósito, até hoje não consegui definir qual o tempo necessário de convívio para que um conhecido se transforme em amigo. Houve época em que imaginei serem dez anos o suficiente. Pelo menos até o dia em que perdi um amigo de infância, relação de mais de quatro décadas. Ele doutourou-se pela USP e passou a ignorar os antigos companheiros de copo e de mesa. Nem mesmo meu doutorado em Paris salvou-me do ostracismo. Às vezes, a gente perde cervejas. Eu o conheci quando lecionava na Pós-Graduação em Letras, na UFSC. Foi amor à primeira vista. Já na primeira aula, fomos para a Lagoa da Conceição e terminamos a noite bebendo. De um temperamento esfuziante, sua alegria contaminava quem estivesse a seu lado e mesmo as mesas vizinhas. Tento uma definição: era pessoa que, se estivesse com câncer ou Aids, faria piada da própria doença e levaria todos seus interlocutores a rir com ele... dele mesmo. Como aluno, foi daqueles que todo professor quer ter. Um professor não consegue fechar uma boa aula sem bons interlocutores e ele foi dos melhores. Já tinha alguns livros publicados quando chegou à Pós-Grad e era leitor dos bons. Só havia uma sombra em nossa relação, eu não conseguia gostar de sua literatura. Li todos os seus livros já publicados na época – e os tenho até hoje em minha biblioteca, com afetuosas dedicatórias –, mas não conseguia encontrar nada em nenhum deles. Tinha apreço pela pessoa, não pelo que escrevia. Como nunca me ocorreu que meus amigos tivessem de gostar do que escrevo, não via nisto problema algum. Certa vez, fizemos uma aposta. “Em tantos anos (já não lembro quantos) – disse-me –, vou ficar rico com minha literatura”. Duvidei. Disse que para enriquecer com literatura, no Brasil, é preciso satisfazer os baixos instintos do grande público. Ou participar da máfia do livro paradidático. Paulos Coelhos da vida à parte, nenhum escritor faz sucesso no Brasil se não tiver amigos no poder, que impinjam seus livros ao sistema de ensino. Além do mais, ele não vivia no eixo Rio-São Paulo, onde os editores decidem quem vai ser ou não ser best-seller. Apostamos uma caixa de cerveja. A vida nos separou, como se diz. Fui para Madri, ele voltou para sua cidade. Vim depois para São Paulo, onde nos encontramos algumas vezes. Ele doutorou-se pela USP e continuou lecionando e escrevendo. Quando eu trabalhava na Folha de São Paulo, enviou-me seu último romance. Sem que nada me pedisse, me senti tentado à divulgá-lo, afinal era o trabalho de um bom amigo. Passei o livro ao editor do caderno +MAIS! - Olha, este livro acaba de ser lançado por um amigo meu, ele vive isolado lá no Sul, podes dar uma colher de chá? O editor me ofereceu então o cálice do qual eu não esperava beber: - Ele é seu amigo? Então você mesmo escreve. Maldita boca esta minha, disse eu a mim mesmo. Durante dias e noites, olhei o livro por todos os ângulos, queria encontrar nele algo valioso, que sustentasse uma recomendação aos leitores. Não encontrei nada. Falo então do autor, pensei. Não era o caso, a resenha teria de ser sobre o livro. Voltei ao editor. Me desculpa, mas não consigo escrever a resenha. O livro não é bom? Então deixa pra lá. Eu estava entre a cruz e a espada. Dado meu apreço ao autor, não conseguia queimar o livro. Elogiá-lo, muito menos. Seria vender gato por lebre para meus leitores. E meus leitores sempre me cobram. Me senti então na obrigação de comunicar o acontecido a meu amigo. Vivíamos ainda na época pré-internética, escrevi uma carta. Era nossa forma de comunicação. Resumo da ópera: ele nunca mais me escreveu. Respeitei seu silêncio e também permaneci silente. Meus amigos sempre foram escassos. Se for contá-los nos dedos, sobram dedos. Naquele dia, sobrou mais um. Me lembrei da ruptura entre Sartre e Camus. Para Sartre, amizade não admitia discordâncias. "L'amitié, elle aussi, tend à devenir totalitaire; il faut l'accord en tout ou la brouille, et les sans-parti eux-mêmes se comportent en militants de partis imaginaires". Paciência, que se vai fazer? Ele continuou insistindo em sua literatura. Ano passado, recebeu nada menos que cinco prêmios literários. O que, para mim, tornou-o altamente suspeito. Ora, ninguém recebe cinco prêmios literários num ano só por méritos literários. Fosse como fosse, achei que ele deveria estar muito feliz e me senti contente com isso. Leio agora que um de seus livros foi recolhido pela Secretária de Educação de Santa Catarina, da rede de ensino médio, por seu conteúdo erótico. A Folha transcreve o que os donos da cultura catarinense consideram erótico: dois ou três palavrões e uma chupada. Nada que seja estranho a um adolescente. Mas o ensino oficial é isso mesmo. Sempre considera que alunos são castas almas sem sexualidade alguma. Intimamente, me solidarizei com meu ex-companheiro de botecos. Mas havia algo mais na notícia. De acordo com nota oficial da pasta, o recolhimento foi determinado após dois professores lerem o livro antes da utilização em sala e comunicarem aos superiores. Foram recolhidos nas escolas 130 mil exemplares da obra. Ou seja, o homem havia feito contato a máfia e passara a participar da confraria dos autores compulsórios. Interrogado sobre o recolhimento de seus livros, disse: "Eu soube da interdição e fiquei horrorizado com isso". Curiosamente, não se horroriza com o fato de ter 130 mil exemplares de sua obra empurrados goela abaixo de 130 mil alunos. Tinha razão. Vai ficar rico, se já não é. A vida são perdas e ganhos, dizia. Vejo que perdi uma caixa de cervejas.
Sábado, Maio 30, 2009
DITADOR VENEZUELANO DESAUTORIZA FANZOCA Vai mal o jornalismo nacional. Especialmente a Folha de São Paulo. Ainda há pouco, jornalistas experientes como Clóvis Rossi, Elaine Cantanhêde, Barbara Gancia, caíram como patinhos no conto da brasileira atacada por neonazis na Suíça. Em verdade, sobrou até para o Itamaraty e a Presidência da República. O intrépido ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, chegou a pedir ao governo da Suíça transparência nas investigações e rigor na punição dos agressores. O Supremo Apedeuta foi duro: “O que nós queremos é que eles respeitem os brasileiros lá fora como nós os respeitamos aqui e como nós os tratamos bem aqui. Acho que não podemos aceitar e não podemos ficar calados diante de tamanha violência contra uma brasileira no exterior”, afirmou. Terça-feira passada, outra barriga monumental da Folha. Janio de Freitas descobre a presença de “um integrante da alta hierarquia da Al Qaeda” no Brasil. A manchete não durou sequer o que duram as rosas. Desde sexta-feira, não se fala mais no assunto. Hoje, Clóvis Rossi reincidiu. Demonstrando uma insuspeita simpatia sobre o mais recente clown latino-americano, o cronista comenta o desafio do ditador venezuelano aos escritores que, liderados por Vargas Llosa, visitam a Venezuela: “Louve-se, aliás, Chávez por ter seguido essa linha ao propor um debate entre intelectuais de direita e de esquerda. Ideias se combatem com ideias, não com a censura, a prisão ou o banimento de quem as difunde”. Rossi se referia ao debate proposto por Hugo Chávez aos escritores Vargas Llosa, do Peru, Jorge Castañeda, do México, Plinio Apuleyo Mendoza, da Colômbia, e o historiador mexicano Enrique Krauze, que foram a Caracas a convite do fórum Encontro Internacional pela Liberdade e Democracia. Os escritores decidiram que, para maior eficácia e clareza, o debate fosse apenas entre Chávez e Mario Vargas Llosa. Ocorre que Hugo Chávez propôs o debate à tarde. "Eu digo seriamente, senhores da direita (...). Como eles dizem que [o debate] é comigo, eu aceito. Às 11h da manhã, eu lhes espero, portanto. "Alô, Presidente" abre as suas portas. Aí no salão Ayacucho. Venham, serão respeitados, sem evadir nenhum tema, qualquer tema é válido. Transmissão ao vivo." À noite, outra era a disposição de Chávez. Quando a imprensa venezuelana já falava em “o debate do século” – como se o século já estivesse estertorando e tivesse idade suficiente para ser julgado –, Chávez recuou: "Vargas Llosa primeiro deve ganhar as eleições do Peru", afirmou em seu programa de TV”. O escritor foi candidato derrotado às eleições presidenciais peruanas de 1990. Clóvis Rossi – levantando seu bracinho à la Dr. Strangelove antes do tempo – já havia até encontrado um motivo para simpatizar com o mais grotesco dos caudilhos latino-americanos. Só que seu ídolo decidiu que não é exatamente com idéias que se combatem idéias. Como o cronista parece não comunicar-se com a redação da Folha, acabou sendo desautorizado pelo próprio jornal em que escreve, na mesma edição em que escreveu.
MENSAGEM DO QUAGLIO Saudações, Janer! Não posso deixar de comentar seu texto “Einstein na berlinda”. Para começar, devo dizer que não entendo de física e não tenho títulos acadêmicos no campo das ciências naturais. Mas posso dizer que sou um leigo curioso, e gosto muito de ler e conversar sobre o assunto. Aliás, sou casado com uma cientista, e este tipo de assunto faz parte do meu cotidiano. Além do mais, tenho grande interesse em lógica e em filosofia da ciência, especialmente nas idéias de Karl Popper. Se no que vou escrever abaixo houver alguma tolice, por favor, releve, pois foi escrito apenas por um curioso, que não tem formação acadêmica em física ou filosofia. Não pretendo defender o alemão nesta questão “Einstein x Poincaré”. Pelo que eu já li sobre o assunto, me parece que o francês realmente teria grande importância na elaboração da teoria da relatividade restrita, precedendo Einstein, embora este alemão mereça o crédito pela teoria da relatividade geral. Mas não posso concordar, de maneira alguma, com a sua comparação entre Einstein, Marx e Freud. Esta questão já foi elucidada pela brilhante análise comparativa que Popper faz das idéias de Einstein, Freud, Marx, Adler. Entre o final do século XIX e o início do século XX, todos estes tiveram a pretensão de atribuir o status de ciência a suas idéias. Popper demonstrou que as idéias de Einstein, mesmo se se revelassem falsas, diferiam essencialmente das idéias dos demais. Isto porque a teoria da relatividade restrita é passível de refutação. Se suas predições se revelassem erradas, a teoria poderia ser descartada. As idéias de Freud, Marx, Adler, assim como as doutrinas religiosas, ou crendices quejandas, como a astrologia, são impossíveis de serem refutadas, pois seus seguidores sempre poderão elaborar hipóteses ad hoc para garantir sua sobrevida, mesmo que a realidade e a experiência as contradigam. Se o marxismo, o cristianismo, o freudismo, a astrologia, sobrevivem em nossa época, é porque seus seguidores insistem que a realidade ainda não as refutou. O exemplo clássico é a seguinte afirmação: “é errado dizer que o socialismo não deu certo porque nunca houve sociedades verdadeiramente socialistas, mas um dia elas existirão, conforme predito por Marx.” Outro exemplo: “Cristo voltará”. O mesmo não seria possível em relação à teoria de Einstein. Suas predições não são vagas, imprecisas, do tipo “um dia acontecerá tal coisa...” O exemplo clássico é o experimento em Sobral, no Ceará, em 1919. Se os físicos britânicos naquela ocasião, no Nordeste do Brasil, não tivessem observado o desvio da luz provocado pela atração gravitacional do Sol, conforme predito pelas idéias de Einstein, não haveria como dar à teoria da relatividade a mesma sobrevida que é dada à psicanálise e ao socialismo. Popper demonstrou que a irrefutabilidade não é uma virtude, mas sim um defeito de uma idéia, enquanto a refutabilidade de uma hipótese é o melhor critério para enquadrá-la na categoria de científica, pois permite que ela enfrente um confronto com a realidade. Podemos dizer que as idéias da Marx ou de Freud, assim como as dos relativistas, pós-modernistas, religiosos, e demais exploradores da credulidade humana, são idéias “covardes”, pois evitam “comprar briga” com a experiência e com a realidade. São como aqueles sujeitos que apanham, ou que fogem da briga, mas que insistem em manter a pose de valentões, que batem, que não têm medo de ninguém. As idéias de Einstein, bem como as de Newton, Galileu, Darwin ou Mendel não são assim. Ao contrário, são idéias “valentes”, que sobrevivem aos constantes confrontos com a experiência, que entram na briga com a realidade objetiva, e se mantêm de pé. O que o Peter Hayes parece querer fazer é justamente igualar a teoria de Einstein às idéias irrefutáveis, às ideologias políticas marxistas, às crendices religiosas. Mas, francamente, parece que esse tal Hayes quer aparecer. As idéias de Popper, Lakatos, e outros filósofos da ciência seguidores da mesma corrente sustentam (do ponto de vista lógico, formal, e não empírico), que idéias científicas não são como matemática ou lógica, ou seja, não são demonstráveis de forma absoluta, definitiva. Uma teoria científica, que tenta compreender o mundo, é diferente de uma demonstração matemática. Não se pode exigir da teoria da relatividade o mesmo rigor das demonstrações euclideanas. As teorias científicas sempre serão ou provisórias, ou se revelarão um “caso-limite”. A física de Newton, por exemplo, é válida, mas é um caso-limite, descreve a gravitação sem levar em conta aquilo que uma teoria mais abrangente, a de Einstein, pôde abarcar. A teoria de Einstein, por sua vez, poderá se revelar um caso limite de alguma teoria vindoura mais abrangente, e por aí vai (apesar da objeção, interessante, feita por alguns filósofos mais recentes, de que quanto mais abrangente uma teoria se torna, menos poder de previsão ela tem, e menos “científica” ela se torna). Assim, parece que Hayes está querendo dizer que a física de Einstein é ideologia apenas por causa de sua incompletude, sendo que isto nunca impediu outras idéias, como as de Galileu ou de Newton, de serem consideradas científicas. E=mc² está longe da U.T.I. Em suma, pode-se até discutir se o crédito pela relatividade restrita é de Einstein ou de Poincaré, mas a própria teoria, seja de quem for, está longe de agonizar ou de sequer ser comparada com o marxismo ou o freudismo. Aliás, você já ouviu alguém falar em “einsteinismo” ou “galileismo”? Também não concordo com a afirmação de que a glória de Poincaré foi salva por Lorentz. Henri Poincaré foi um matemático tão brilhante, com uma produção intelectual tão vasta e significativa para a matemática, que mesmo que ele não tivesse qualquer participação na teoria da relatividade restrita, seu fama estaria assegurada. Caro Janer, você, no começo do texto, disse que entende menos da relatividade do que de grego. Tenho uma boa dica de leitura sobre o assunto. Há vários livros de divulgação científica que pretendem explicar a relatividade para leigos, mas, recentemente, eu vi em uma livraria (e comprei na hora), uma nova edição (atualizada) que a Zahar lançou do livro ABC da Relatividade, escrito por ninguém menos que Bertrand Russell. Até agora, tudo o que eu li do Russell valeu a pena ler. Um grande abraço do seu leitor, Humberto Quaglio
TESE DA AL QAEDA NO BRASIL NÃO DUROU NEM O QUE DURAM AS ROSAS Terça-feira passada, na Folha de São Paulo, Janio de Freitas revelava a prisão no Brasil de “um integrante da alta hierarquia da Al Qaeda. (...) A importância do preso se revela no grau de sua responsabilidade operacional: o setor de comunicações internacionais da Al Qaeda”. Apressadinho, ainda no mesmo dia, o recórter tucanopapista da Veja já se perguntava, assumindo plenamente a barriga: "Integrante da alta hierarquia da Al Qaeda é preso em SP. Tarso vai protegê-lo?" Dia seguinte, o paroxismo do recórter atingiu o clímax. Levantava suspeitas de que Lula e Tarso Genro pretenderiam acobertar a permanência de um terrorista no país. Até hoje, sábado, nenhum outro jornal assumiu a notícia irresponsável. Nem mesmo a revista do recórter. A Justiça Federal em São Paulo, por sua vez, informou ontem em nota distribuída à imprensa que as investigações contra Khaled Hussein Ali – o misterioso personagem K - foram encerradas e não há prova alguma de que o cidadão libanês faça parte da Al-Qaeda. A hipótese desvairada de um terrorista da Al Qaeda operando no país não durou sequer o que duram as rosas. Quem deve estar feliz são os petistas e, particularmente, Tarso e Lula. Finalmente ficou comprovada a maldade da imprensa, que se dedica a caluniar o governo e o PT. Com seus artigos histéricos, Janio de Freitas e Reinaldo Azevedo prestaram um inestimável serviço a um governo e a um partido corruptos. E conseguiram, de inhapa, desmoralizar os jornais em que trabalham.
Sexta-feira, Maio 29, 2009
AINDA EINSTEIN Mensagem do Eraldo Caro Janer. Em follow-up ao debate sobre a Relatividade, no blog, eu gostaria de dizer que a Relatividade foi, sim, apropriada e ideologizada por diversos setores da intelectualidade, dando origem ao que hoje chamamos de 'Relatividade cultural', que está na base de todos os equívocos ideológicos que vemos ao redor, notadamente questões racias/étnicas, como políticas de cota, etc. Einstein não batizou a teoria, e não se sentia muito à vontade quando ela começou a ser chamada de 'Teoria da Relatividade'. Ele acabou se rendendo mais tarde. Seu trabalho original de 1905 chama-se "Da Eletrodinâmica dos Corpos em Movimento". Einstein era um cientista "clássico", e não se filiava a ideologias. Mesmo sua militância no pacifismo e no movimento Sionista tinha um caráter pessoal e universalista. Ele veio a se decepcionar mais tarde com a agressividade do movimento, e acabou se afastando do 'hard core'. Por fim devo dizer que o Princípio da Relatividade foi primeiramente enunciado por Galileu Galilei em seu tratado "Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo" [Diálogo Sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo], de 1632, sendo conhecido como "Relatividade Galileana", e estabelece que as leis da física devem ser verdadeiras independemente das coordenadas do observador [em inglês 'frame of reference']. Abraço, Eraldo Marques Mensagem do Francisco José Bom dia, Janer, Bravos pelo ceticismo, mas há afirmações bastante questionáveis nos dois textos sobre Einstein. Primeiro, é discutível que Poincaré tenha cunhado o termo Relatividade. Tal primazia cabe, no mínimo, ao físico Ernst Mach, que foi o primeiro a, seriamente, por em cheque os conceitos de tempo e espaço absolutos. Einstein nem usou o termo em seu artigo de 1905. Quando Einstein publicou seu artigo nos Anallen ele era um obscuro funcionário público em Berna, enquanto Poincaré já era conhecido como um dos maiores matemáticos do seu tempo, senão o maior. Quem tinha mais condições de promover lobbies? O autor do E=mc2 foi indubitavelmente Einstein, que, no seu desenvolvimento, aplicou as transformações de Lorentz e o princípio da velocidade-limite da luz. Poincaré jamais, repita-se, jamais, avançou que a velocidade da luz era um limite do universo. Portanto, nem de longe se pode atribuir o E=mc2 a Poincaré. Nem muito menos a Lorentz, que era um físico conhecido e admirado por Einstein. As transformações de Lorentz derivam diretamente de um insight de um fisco escocês chamado Fitzgerald. Este sim, é que poderia ser considerado um precursor realmente efetivo do que ficou conhecido depois como a teoria da relatividade. Supondo que o comitê do Nobel tenha titubeado em atribuir a relatividade restrita exclusivamente a Einstein, o que é altamente questionável, uma vez que o trabalho de Poincaré não contém o principal da teoria, que é a velocidade-limite da luz, o prêmio pela explicação do efeito fotoelétrico não pode ser considerado apenas um pretexto. A explicação é um dos eventos fundadores da mecânica quântica, que responde, em boa parte, pelo que o mundo é na atualidade. Não se esqueça que, além da relatividade restrita, Einstein fez ainda a relatividade geral em 1915, mostrando que o espaço não só não é absoluto como também é uma “coisa”, que sofre a ação da matéria e energia. Ninguém se arrisca a dizer que a Geral foi prenunciada por Rienmann, que foi o matemático cuja geometria foi amplamente utilizada por Einstein para desenvolvê-la. Dizer que Einstein não sabia distinguir uma grandeza de sua medida é de uma enormidade sem tamanho. No seu anno mirabilis, como é conhecido o ano de 1905 para Einstein, ele desenvolveu ainda o instrumento matemático do movimento browniano, que tem aplicações até na economia moderna. Quanto a dizer que a Relatividade é uma ideologia, seja lá o que queira significar isso, as duas teorias de Einstein passaram por todos os testes de comprovação a que foram submetidas. Esse fato talvez seja único na história da física, já que a mecânica quântica ainda não goza de previsibilidade total dos fenômenos. A inconsistência a que o segundo texto se refere, conhecida como o “paradoxo dos gêmeos”, já foi amplamente comprovada aqui mesmo na terra. Dois relógios sincronizados, um deixado na terra e outro a bordo de um avião, registram diferentes passagens dos tempos depois das viagens. Os textos são mais um exemplo daquela convenção de Castela, quando Colombo desafiou os sábios a porem um ovo de pé. Eles também acharam fácil quando Colombo quebrou a casca e conseguiu fazê-lo. Um abraço. Francisco José de Queiroz Pinheiro
LEITORES REAGEM Sobre câncer: Vinícius Arcaro responde: Janer, segue link com evidência da estatística que mencionei em mensagem anterior. Cancer Research UK http://info.cancerresearchuk.org/cancerstats/types/prostate/incidence/ ... It is estimated from post-mortem data, that around half of all men in their fifties have histological evidence of cancer in the prostate, which rises to 80% by age 80 ... Vinícius Sobre Einstein: Ricardo Weber objeta: Prezado Janer, A respeito do texto sobre Peter Hayes reproduzido em seu blog, cumpre observar que não se trata de um cientista da Universidade de North East coisa nenhuma. O sujeito é professor de política em Sunderland. Será que entende mesmo do riscado? Para mais detalhes: http://tinyurl.com/m2pkb4 E como um pouco de ceticismo não faz mal a ninguém... http://tinyurl.com/l4agt4 Cordialmente, Ricardo Weber Luis Claumman escreve: Sintam o drama. Um professor de Política de uma universidade britânica publica um artigo no periódico "Social Epistemology" em que afirma ser a Relatividade, não uma teoria científica, mas uma ideologia. De fato, a tolice é tamanha que tal artigo me passou despercebido até que ele recebeu uma matéria no "Inovação Tecnológica". O Inovação é famoso por ser um berço de bizarrices e má interpretação de artigos científicos - mau Jornalismo Científico, puro e simples - mas não costuma escrever sobre esse tipo de artigo obscuro. Alguém ainda mais insano teria levantado a bola. De fato, o rastro de bosta que segui aponta até o agregador de notícias de ciência europeu AlphaGalileo que publicou, em 12 de maio, um artigo reproduzindo matéria do site da universidade. E qual o problema com o artigo? Além do fato de ter sido reproduzido copiosamente por aí em sites de notícias, supostamente, de ciências sem uma palavra de confronto sequer? Todos! Vou citar trechos da matéria da Ciência Hoje portuguesa (que não tem nenhuma relação com a homônima brasileira), que é praticamente tradução direta do release da universidade. Peter Hayes diz que, "a teoria da relatividade aborda inconsistências elementares, mas quando em 1919 foi popularmente divulgada, o mundo passou por uma guerra terrível e uma gripe pandémica e as ideias de Einstein surgiram como o tónico que a sociedade precisava. Com a confusão estabelecida, as pessoas deixaram de questionar as falhas que transpareciam". Sério isso? A Relatividade foi aceita por causa da Gripe? Calma, tem mais. Hayes deve se achar O desbravador das ciências por dizer que a Relatividade é inconsistente por causa do Paradoxo dos Gêmeos, que ele chama de Paradoxo do Relógio: "O Paradoxo do relógio ilustra de forma evidente as inconsistências da teoria que a tornam cientificamente problemática, mas ideologicamente poderosa". Isso não é mais Paradoxo há muito tempo! Ao que parece, o autor leu um artigo de divulgação pela metade e saiu se achando máximo por ter percebido o furo na Teoria da Relatividade! E ainda parece ter gasto todo o artigo só com esse argumento pífio já que é o único citado nas matérias. Sabe o que é mais irônico? O cara muito provavelmente deve ter um aparelho de GPS, que seria inútil sem as correções relativísticas. Deve ter feito uma Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET), antipartículas essas que foram previstas na formulação relativística de Dirac da Equação de Schrödinger. E por aí vai. Aí você me abre um artigo que se diz tratar de uma crítica à relatividade, e ao invés de encontrar algo, por exemplo, sobre violação de Lorentz, me encontra uma crítica baseada no Paradoxo dos Gêmeos. AHVAPAPUTAQUEPARIU. E essa joça ainda recebe atenção da mídia. Mereço isso? Depois ficam de mimimi quando se fala mal das Ciências Sociais. Taí um representante típico delas. Se esse é o tipo de artigo aceito pela Social Epistemology, deve ter coisa lá muito mais engraçada que o do "Affair Sokal". E com um bônus: assombrosamente sinceros. http://scienceblogs.com.br/dimensional/2009/05/055.php Um abraço, Luis Luiz Felipe Martins escreve: "O LHC (Large Hadron Collider) é o maior experimento científico já feito pelo homem, tendo sido criado para arremessar prótons uns contra os outros em velocidades próximas à da luz, recriando as condições momentos depois do Big Bang. Infelizmente, até agora ele não funcionou. E ele poderá de fato não funcionar, e não por causa de suas falhas elétricas ou mecânicas, mas porque as teorias básicas da física podem estar erradas". Esta é a razão básica por que se faz experimentos: para mostrar que teorias da física podem estar erradas. Como o experimento de Michelson-Morley mostrou que a teoria do éter estava errada, e vários experimentos no início do século 20 mostraram que a mecânica newtoniana não se aplica em pequenas escalas. L. Felipe Martins Department of Mathematics Cleveland State University
ÓDIO AO OCIDENTE Comentando o caso do misterioso cidadão K, libanês que seria um integrante da alta hierarquia da Al Qaeda - segundo Janio de Freitas - diz o desembargador Baptista Pereira: “o paciente está sendo investigado pela Polícia Federal, na denominada Operação Imperador, originada de interceptações telefônicas, com a finalidade de investigar a existência de suposta organização denominada Jihad Media Battalion, que propagaria material de cunho racista e de intolerância e discriminação religiosa pela rede mundial de computadores, internet, visando à incitação do ódio aos ocidentais e o fomento de ideologia anti-semita, colaborando com grupos como Al-Qaeda". Pelo jeito, ódio ao Ocidente virou crime. Ora, legislação alguma tipifica ódio como crime. Ódio é um sentimento personalíssimo, que se esconde no fundo de cada alma. Que me conste, jamais será prova material de qualquer crime. É sentimento que desconheço. Mas me parece ser direito inalienável de qualquer pessoa odiar – ou amar – quem quer que seja. Enquanto este ódio – ou amor - não se transformar em atos tipificados como crime, não é crime. Crime é o ato definido como tal pela lei, não a intenção subjetiva de matar, ferir ou prejudicar alguém. Quanto à incitação ao ódio aos ocidentais, se algum juiz quiser condenar alguém, a nata da intelligentsia brasileira devia estar na cadeia. O ódio ao Ocidente tem, a meu ver, sua mais clara exposição no Manifesto Comunista. "Um fantasma ronda a Europa: o fantasma do comunismo" – esta é a primeira frase do panfleto. Fantasma é algo que ameaça. A ameaça de Marx, no caso, dirige-se ao continente que o gerou, à cultura por excelência ocidental. Ódio ao Ocidente nutriram todos os marxistas de todas as décadas, que jamais aceitaram seus mais importantes achados: democracia, eleições livres, livre expressão do pensamento, liberdade de imprensa, o conceito de indivíduo. Ódio ao Ocidente nutriram Marx, Lênin e Stalin. E também os mais reputados escritores do século passado, desde Sartre e Brecht a Pablo Neruda e Jorge Amado. Ódio ao Ocidente é moeda bastante comum ... no Ocidente. Odiaram o Ocidente todos os intelectuais marxistas que defenderam Lênin, Stalin, Mao, Pol Pot, Castro, e eles foram legião. Filosofia, literatura e artes do século passado – e mesmo deste – estão eivadas deste ódio ao Ocidente. Odeiam o Ocidente todos os intelectuais europeus que defendem o Islã. Todos os defensores da imigração ilegal na Europa. Todos aqueles que julgam ser um direito dos árabes ter tribunais islâmicos para julgar árabes na Europa. Todos aqueles que defendem a infibulação da vagina e a ablação do clitóris em nome da diversidade cultural. Todos os padres que defendem a permanência de mendigos nas ruas, empestando as belas cidades que o Ocidente construiu. Todos os defensores de culturas ágrafas, de tribos que não chegaram à Idade da Pedra, como se estas fossem iguais ou superiores à cultura ocidental. Todos os racistas que defendem a existência de cotas raciais na universidade e no trabalho. Essa gente que acha que negro vale por dois brancos na hora de disputar um lugar ao sol só porque é negro. Que índio tem direito a vastos territórios que sequer conseguiria controlar só porque é índio. Todos os antropólogos, sociólogos e outros oólogos que defendem o sagrado direito de os bugres enterrarem vivas suas crianças, quando as consideram inaptas para a vida. Todos os militantes de qualquer partido que defendam o direito à invasão de propriedades e depredação de laboratórios onde se faz ciência. O ódio ao Ocidente e seus valores, à democracia, à liberdade de expressão, aos direitos iguais para todos - sem distinção de raça, cor ou fortuna – está incrustado nas universidades, nos jornais, nos tribunais... do Ocidente. É redundante buscá-lo em um pobre diabo oriundo do Líbano.
Quinta-feira, Maio 28, 2009
EINSTEIN NA BERLINDA Em 2005, quando a imprensa toda celebrava Albert Einstein como o autor da mais famosa teoria do século passado, comentei algumas objeções feitas à sua teoria da relatividade. Não que as objeções fossem minhas. Entendo tanto da teoria da relatividade quanto de grego. Ou melhor, de grego até que entendo um pouco. Sem entender do riscado, reproduzi declarações de cientistas da área. Como o físico brasileiro César Lattes, para quem “Einstein é uma fraude, uma besta! Ele não sabia a diferença entre uma grandeza física e uma medida de grandeza, uma falha elementar”. Mais ainda, Lattes fazia uma grave acusação ao físico alemão: - Ele plagiou a Teoria da Relatividade do físico e matemático francês Henri Poincaré, em 1905. A Teoria da Relatividade não é invenção dele. Já existe há séculos. Vem da Renascença, de Leonardo Da Vinci, Galileu e Giordano Bruno. Ele não inventou a relatividade. Quem realizou os cálculos corretos para a relatividade foi Poincaré. A fama de Einstein é mais fruto do lobby dele na física do que de seus méritos como cientista. Ele plagiou a Teoria da Relatividade. Se você pegar o livro de história da física de Whittaker, você verá que a Teoria da Relatividade é atribuída a Henri Poincaré e Hawdrik Lawrence. Na primeira edição da Teoria da Relatividade de Einstein, que ele chamou de Teoria da Relatividade Restrita, ele confundiu medida com grandeza. Na segunda edição, a Teoria da Relatividade Geral, ele confundiu o número com a medida. Uma grande bobagem. Einstein sempre foi uma pessoa dúbia. Ele foi o pacifista que influenciou Roosevelt a fazer a bomba atômica. Além disso, ele não gostava de tomar banho... Entrevistado pelo Diário do Povo, de Campinas, Lattes dizia que a fama de Einstein era fruto de um lobby: DP - Então o senhor considera a Teoria da Relatividade errada? Aquela famosa equação E=MC² está errada? César Lattes - A equação está certa. É do Henri Poincaré. Já a teoria da relatividade do Einstein está errada. E há vários indícios que comprovam esse ponto de vista. DP - Mas, professor, periodicamente lemos que mais uma teoria de Einstein foi comprovada... César Lattes - É coisa da galera dele, do lobby dele, que alimenta essa lenda. Ele não era tudo isso. Tem muita gente ganhando a vida ensinando as teorias do Einstein. Outros pesquisadores chegaram à mesma conclusão. Segundo o engenheiro Christian Marchal, Henri Poincaré apresentou o princípio da relatividade no congresso científico mundial de Saint-Louis, no Missouri, em setembro de 1904. Em 5 de junho de 1905, reapresentou-o à Académie des Sciences de Paris, e o trabalho foi publicado em 9 de junho do mesmo ano. Segundo Marchal, o trabalho de Einstein sobre a relatividade em 1905 contém os mesmos resultados que o de Poincaré. Para Marchal, a morte precoce de Poincaré por câncer em 1912 e a ausência no trabalho de Einstein sobre a relatividade em 1905 não seriam as únicas razões pelas quais o matemático francês é tão ignorado e Einstein tão célebre. Se Poincaré tivesse a possibilidade de publicar em uma grande revista de física, como os Annalen der Physik de Einstein, ele teria uma grande audiência. Mas ele só encontrou a Rendiconti del Circolo Matematico di Palermo para publicar seu trabalho maior de 1905, uma pequena revista de matemática que não era conhecida pelos físicos. A glória de Poincaré acabou sendo salva por seu amigo holandês Hendrik Antoon Lorentz, prêmio Nobel de Física (1902). Em 1921, após o triunfo do eclipse do sol de 1919, o comitê Nobel se reuniu com um primeiro pensamento: "Nós devemos dar o prêmio Nobel a Einstein, pela relatividade". Lorentz protestou: "Não é justo!". E publicou um ensaio sobre a vida de Poincaré que ele havia escrito em 1914. "Poincaré obteve uma invariante perfeita das equações da eletrodinâmica e formulou o 'postulado da relatividade', termos que ele foi o primeiro a empregar". Constrangido, o comitê Nobel pensou melhor e, após alguns meses de reflexão, decidiu dar o prêmio Nobel a Einstein, não pela relatividade... mas pelo efeito fotoelétrico. Marchal não cede: Poincaré é o pai do princípio da relatividade e o fundador da relatividade restrita. Em Comment je suis devenu Einstein – La véritable histoire de E=mc2 (Paris, Carnot, 2005), Jean-Paul Aufray mostra definitivamente como foi montada toda a farsa. A imprensa – não só a brasileira, como também a internacional – não gosta de comentar tais fatos, afinal seria soterrar mais um mito, criado em boa parte pela mídia. Comentei estas declarações na época. Cheguei a perder um bom amigo, com quem convivia há cerca de trinta anos. Coisas da época. Houve um tempo em que relações eram cortadas em função de fatos ocorridos na Rússia. Foi o que afastou Sartre de Camus, para lembrarmos dois vultos das Letras. Mais adiante, amizades foram destruídas por fatos ocorridos no Vietnã e Camboja. Mais alguns anos, e pessoas cortavam relações por divergências a respeito de Cuba. Sempre a ideologia. Que parece ter contaminado inclusive a teoria da relatividade. O leitor Luís Bonow me envia novas revelações sobre a polêmica. Marx já morreu, Freud está agonizando. Ao que tudo indica, Einstein já entrou na U.T.I. Desta vez, o que se discute não é a autoria do E=mc2, mas a própria teoria. Para discussão de quem entende do riscado, reproduzo o texto.
TEORIA DA RELATIVIDADE E IDEOLOGIA Teoria da Relatividade é ideologia, e não ciência, defende pesquisador Redação do Site Inovação Tecnológica (http://www.inovacaotecnologica.com.br) 27/05/2009 O LHC (Large Hadron Collider) é o maior experimento científico já feito pelo homem, tendo sido criado para arremessar prótons uns contra os outros em velocidades próximas à da luz, recriando as condições momentos depois do Big Bang. Infelizmente, até agora ele não funcionou. E ele poderá de fato não funcionar, e não por causa de suas falhas elétricas ou mecânicas, mas porque as teorias básicas da física podem estar erradas. Voz dissonante Esta idéia quase maluca, absolutamente dissonante no mundo científico, acaba de ser defendida pelo Dr. Peter Hayes, um cientista da Universidade North East, no Reino Unido. "Os físicos teóricos têm colhido da árvore errada nos últimos 100 anos - porque a Teoria da Relatividade de Albert Einstein é inconsistente," afirma Hayes. "Ao longo dos anos, muitos têm apontado que há falhas lógicas na teoria. Já nos anos 1960 o professor Herbert Dingle alertou que experimentos de larga escala baseados na Teoria da Relatividade poderiam acabar destruindo o mundo. Talvez tenha sido uma sorte para nós que o LHC simplesmente quebrou," vaticina o pesquisador. A Ideologia da Relatividade Em seu último artigo, "A Ideologia da Relatividade", o Dr. Hayes argumenta que a Teoria da Relatividade de Albert Einstein - provavelmente a teoria científica mais famosa da história - deveria ser vista como uma ideologia, não como ciência. Ele argumenta que seus impactos na ciência e na cultura popular foram tão grandes precisamente porque, como uma teoria científica, ela de fato não faz sentido. "A teoria de Einstein contém inconsistências elementares, mas em 1919, quando a teoria se tornou conhecida popularmente, o mundo estava saindo de uma guerra terrível, seguida por uma pandemia de gripe. As ideias de Einstein eram tudo o que 'eles' precisavam. Na pressa de divulgá-la, poucas pessoas pararam para questionar as falhas lógicas óbvias da teoria," diz Hayes, traçando um quadro típico de uma teoria da conspiração - ele não aponta quem eram os "eles" que precisavam de tal ideologia. Críticos de Einstein "Alguns dos primeiros críticos de Einstein assumiram posições de direita e antissemíticas e isso tendeu a desacreditar suas objeções técnicas à relatividade como sendo cientificamente superficial. Meu artigo investiga uma possibilidade alternativa: que os críticos estavam certos e que o sucesso da teoria de Einstein em suplantá-los deve-se à sua força como uma ideologia e não como uma ciência," propõe o pesquisador. O Paradoxo do Relógio Uma falha famosa na teoria de Einstein é o chamado Paradoxo do Relógio. Ele estabelece que se um relógio viaja a bordo de uma espaçonave, enquanto outro fica na Terra, quando o relógio da espaçonave retornar ele irá mostrar que se passou menos tempo do que o relógio que ficou na Terra. Essa previsão viola o próprio "princípio da relatividade" de Einstein, que estabelece que, se você está na espaçonave deverá ser o relógio que ficou na Terra que andará mais devagar. Esta é uma crítica que a ciência nunca foi capaz de resolver satisfatoriamente. "O Paradoxo do Relógio ilustra como a Teoria da Relatividade de fato contém inconsistências que a tornam cientificamente problemática. Essas inconsistências, contudo, tornam a teoria ideologicamente poderosa. Precisamente porque a teoria de Einstein é inconsistente, seus defensores têm se baseado em princípios contraditórios de uma forma que expande enormemente sua aparente capacidade de explicar o Universo," diz Hayes. Como o Marxismo "O mais incrível sobre a Teoria da Relatividade de Einstein é que ela continua se mantendo. Ela é construída sobre contradições, mas exatamente essas contradições significam que quase tudo 'prova' que ela está correta. É mais ou menos como uma teoria onde você diz que 1 + 1 = 2, mas também que 1 + 1 = 3," defende Hayes. Contudo, o pesquisador não acredita que descrever a teoria de Einstein como uma ideologia, em vez de ciência, é o mesmo que dizer que a teoria não tem valor. "O Marxismo é uma ideologia, não uma ciência, mas Karl Marx continua dando insights valiosos sobre o funcionamento do capitalismo. Uma vez que a Teoria da Relatividade seja entendida dentro do que ela realmente é, uma ideologia, nós poderemos entender onde a Teoria da Relatividade pode oferecer insights para a ciência e onde ela não pode. "O triunfo da Teoria da Relatividade representa o triunfo de uma ideologia não apenas na profissão de físico, mas também na filosofia da ciência," conclui Hayes.
A CHISPA DA FERRADURA Na terça-feira, reproduzi uma entrevista com o deputado Aldo Rebelo, do PCdoB de São Paulo. A lucidez e propriedade com que analisa a questão indígena me surpreenderam na boca de um comunista. Algo parecia estar errado no universo. Ontem, diante da Justiça Federal, o deputado afirmou que jamais soube da existência do mensalão. Que o Estadão já está definindo como “suposto esquema de pagamento de propina a parlamentares para influenciar votações no Congresso a favor do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”. Ou seja, o que ainda há pouco era evidente, agora já é suposto. "A partir do que pude testemunhar, eu não tive conhecimento nem vi esse esquema funcionando", disse Rebelo, após depor como testemunha de defesa dessa pérola sem jaça, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. "Para mim, não existiu”. Algo estava mesmo errado no universo. O deputado – após uma fugaz crise de lucidez – voltou a seu estado normal. Em um comunista, a mentira é uma segunda natureza. De nada adianta expulsar a natureza pela porta, ela volta à galope pela janela. Era apenas a chispa da ferradura quando bate na calçada, como gostava de dizer Agripino Grieco.
Quarta-feira, Maio 27, 2009
RECÓRTER TUCANOPAPISTA HIDRÓFOBO EX-BOLCHEVIQUE CAI NO CONTO DA AL QAEDA Costumo afirmar que o melhor serviço que um jornalista pode prestar a Lula e ao PT é atribuir a Lula e ao PT fatos ou falsas intenções. Na Veja on line de hoje, um velho bolchevique da escola de outro velho bolchevique, o astrólogo Olavo de Carvalho, em seu afã de redimir-se dos pecados de juventude, vergasta qual xiita as próprias costelas com as correntes do antipetismo. Se Janio de Freitas não ousou responsabilizar Lula e o PT pela existência de “um integrante da alta hierarquia da Al Qaeda” no Brasil, Reinaldo de Azevedo ousa. Pois é… Essa história só piora a cada hora. Informações que partem da cúpula da Polícia Federal e que circulam entre procuradores, transmitidas a jornalistas e a parlamentares, asseguram que surgiram, sim, os vínculos entre o tal indivíduo e a Al Qaeda. O dito-cujo, que já está solto, tem atividade regular em São Paulo, o que, por si, não quer dizer nada. Simpatizantes e militantes terroristas buscam sempre uma fachada legal para a sua atividade. Há tergiversação para todo lado. A nota do Ministério Público dá o que pensar. Seria necessário haver um “conteúdo criptografado” para ficar caracterizado o vínculo? Por quê? Uma coisa é certa: setores da PF e do próprio MP não gostaram do desfecho do episódio e reafirmam a ligação do agora ex-detido com a rede terrorista chefiada por Osama Bin Laden. O recórter fala de “informações que partem da cúpula da Polícia Federal e que circulam entre procuradores”. Fala de "setores da PF e do próprio MP". Que informações são essas que jornal algum possui e que só ele, o bem informado, possui? Poderia citar algo mais concreto que “cúpula”, "setores da PF e do próprio MP" ou “entre procuradores”? Pelo jeito, não pode. Ontem ainda, o recórter assumia plenamente a barriga de Janio de Freitas: "Integrante da alta hierarquia da Al Qaeda é preso em SP. Tarso vai protegê-lo?" Hoje, diante dos fatos, aventa que tudo pode não passar de um engano, para tirar o seu da reta no momento oportuno. Mas deixa no ar a insinuação: Ainda que tudo não passasse de um engano — mas gente muito próxima do caso assegura que é fato —, as reações de Lula e Tarso Genro não poderiam ser piores. O presidente acusou interferência estrangeira no caso. Ora, segundo a procuradoria, “o FBI apenas pediu para receber informações sobre o caso para fins de inteligência”, cumprindo-se, diga-se, o seu papel. E peço que vocês atentem para o fato de que, em sua nota oficial, a Polícia Federal NÃO NEGOU os vínculos entre a pessoa que foi presa e a Al Qaeda. A investigação, é fato, se dá sob sigilo de Justiça, mas poderia ter havido um genérico “até agora, nada foi encontrado”. Não houve. Quem é essa “gente muito próxima do caso”, que “assegura que é fato”? O recórter não as nomina. Em suas insinuações histéricas, está desmoralizando a revista em que escreve e entregando de bandeja, a Lula e a Tarso, argumentos para acusarem a imprensa de conspiração contra o PT.
YES! NÓS TAMBÉM TEMOS AL QAEDA O desejo de furar os demais jornais, a ambição de ser o primeiro a descobrir um fato de relevância, é um dos males que assolam o jornalismo. Não faz muito tempo, tivemos o caso da brasileira grávida atacada por neonazis na Suíça. Não estava grávida nem fora atacada. Mutilara a si mesma para obter vantagens do governo suíço. A “barriga” – não da moça – mas do jornalismo, foi obra de Ricardo Noblat. A Suíça foi caluniada nos jornais de todo mundo, como país que acolhe e tolera neonazistas, e o Noblat continua escrevendo como se nada tivesse escrito sobre a farsa. Desta vez, foi Janio de Freitas. Na edição de ontem da Folha de São Paulo, revelou, com manchete sensacionalista: AL QAEDA NO BRASIL ESTÁ PRESO no Brasil, sob sigilo rigoroso, um integrante da alta hierarquia da Al Qaeda. A prisão foi feita pela Polícia Federal em São Paulo, onde o terrorista estava fixado e em operações de âmbito internacional. Não consta, porém, que desenvolvesse alguma atividade relacionada a ações de terror no Brasil. A importância do preso se revela no grau de sua responsabilidade operacional: o setor de comunicações internacionais da Al Qaeda. Já estava demorando. Finalmente! Nós também temos Al Qaeda. Sem citar fonte alguma, o jornalista inclusive deduz que o “terrorista” pertence à alta hierarquia da organização. Que, a meu ver, virou franquia. Qualquer atentado, se atribuído à Al Qaeda, adquire maiores dimensões. Quanto à Al Qaeda, esta não tem preocupação alguma em desmentir “sua” autoria. Toda notícia, mesmo falsa, só serve para prestigiá-la. Da mesma forma, a ninguém interessa noticiar a morte de Osama Bin Laden. Difícil acreditar que a maior potência do planeta, com todos seus recursos de espionagem, não tenha ainda encontrado um bandoleiro - que depende de diálise, pelo que se sabe - em fuga pelo deserto. Vivo, Bin Laden rende tanto aos americanos, que assim têm como justificar a base de Guantánamo e torturas, como aos muçulmanos, que mantém uma ameaça constante e letal sobre o Ocidente. Nenhum jornal nacional assumiu o “furo” de Janio de Freitas. Nem mesmo o seu. Na edição de hoje, a Folha desvia o foco da notícia: PF INVESTIGA ESTRANGEIRO POR RACISMO NA INTERNET A Polícia Federal manteve preso por 21 dias o libanês K, comerciante de equipamentos de informática que mora em São Paulo, sob suspeita de que ele propagava na internet material com conteúdo racista. Na edição de ontem da Folha, o colunista Janio de Freitas informou que um integrante da alta hierarquia da Al Qaeda tinha sido preso no Brasil. O jornal menciona o colunista, mas logo dá uma nova versão da prisão. Trata-se em verdade de um libanês, que goza da condição "estrangeiro permanente" no Brasil e foi investigado por participação em um fórum na Internet. Segundo o desembargador do TRF (Tribunal Regional Federal) Baptista Pereira “o paciente está sendo investigado pela Polícia Federal, na denominada Operação Imperador, originada de interceptações telefônicas, com a finalidade de investigar a existência de suposta organização denominada "Jihad Media Battalion", que propagaria material de cunho racista e de intolerância e discriminação religiosa pela rede mundial de computadores, internet, visando à incitação do ódio aos ocidentais e o fomento de ideologia antissemita, colaborando com grupos como Al-Qaeda". Ao que tudo indica, o Judiciário está assumindo os cacoetes do jornalismo. O desembargador, como qualquer repórter malandro, já fala em “suposta organização”. Triste país este nosso, em que “supostas organizações” constituem motivo para prender um cidadão. Se nem as tais de organizações têm existência comprovada, que se pode dizer de eventuais crimes por elas cometidos? Segundo a procuradora federal Ana Letícia Absy, as investigações "não comprovaram que o preso em São Paulo é membro da Al Qaeda". Ainda segundo Absy, o libanês foi alvo de um inquérito aberto pela PF com base em informações do FBI, "sobre a existência de um fórum fechado da internet, publicado em língua árabe, com mensagens discriminatórias e antiamericanas". Segundo a Folha, o Jihad Media Battalion “é uma organização virtual que propaga na internet um islã radical baseado na nostalgia de uma suposta idade de ouro que precisa ser revivida. Os responsáveis defendem a volta do califado que sucedeu Maomé, no qual, segundo eles, prosperava uma sociedade pura e honrosa. Os inimigos a serem combatidos são os EUA, Israel e os governos árabes aliados das grandes potências”. Que mais se pode esperar de uma organização que combate EUA e Israel? O site é amplamente divulgado na rede. Pelo jeito, o Judiciário e a PF, por uma questão de comodidade, estão investigando no Google. O "suposto" Jihad Media Battalion – uso o adjetivo do desembargador – é acusado de divulgar vídeos com discursos de clérigos radicais e imagens de ataques antiamericanos no Iraque e no Afeganistão. Seria isto alguma novidade no mundo árabe? É o que faz a TV Al Jazeera Enghish, canal internacional da TV árabe com sede em Washington e acordo de parceria com o Grupo Bandeirantes, na Band News. Mais um pouco e os argutos investigadores e jornalistas concluírão que a Al Jazeera é o braço midiático da Al Qaeda. Digamos que o cidadão K, como vem sendo chamado o misterioso libanês, tenha participado de fóruns fechados em língua árabe, com mensagens discriminatórias e antiamericanas, visando à incitação do ódio aos ocidentais e o fomento de ideologia antissemita. Ora, no universo muçulmano existem milhares – senão milhões – de fóruns antiamericanos, antiocidentais e anti-semitas. Ou alguém pretende que muçulmanos tomem a defesa do Grande Satã, do Ocidente ou de Israel? Na imprensa nacional, só um antigo bolche que virou cristão novo assumiu a barriga de Janio de Freitas.
FALSO CURANDEIRO? Leio no Globo, edição on line: FALSO CURANDEIRO É DETIDO POR APLICAR GOLPES EM MG Na linha fina: Segundo a polícia, suspeito enganava vítimas com ajuda de mulher. Ambos já haviam sido presos pelo mesmo motivo há cerca de um mês. Pergunta que se impõe: existem verdadeiros curandeiros? A profissão já foi regulamentada? Falar em falso curandeiro é o mesmo que falar de falso psicanalista. Todo curandeiro é legítimo. Psicanalistas também.
Terça-feira, Maio 26, 2009
DEPUTADO COMUNISTA TEM UM MOMENTO DE LUCIDEZ É muito raro ouvir-se um depoimento sensato sobre a questão indígena no Brasil. Para minha surpresa, encontro ontem no Estadão, um depoimento lúcido e sensato... de um comunista. Falo do deputado do PC do B, Aldo Rebelo. O mesmo que teve a idéia nada feliz de proibir estrangeirismos no português falado no Brasil, como se as línguas fossem estanques. O mesmo que propôs a adição da farinha de mandioca à farinha de trigo, o que nos levaria a encomendar por amigos que fossem a Europa um mero pãozinho de farinha de trigo. Com a entrevista de ontem, concedida ao repórter Roldão Arruda, Rebelo denuncia os desmandos da Funai, as pretensões das ONGs e antropólogos em construir Estados-fantoche, mostra o absurdo da expulsão dos arrozeiros de Roraima e a demarcação em área contínua da reserva Raposa Serra do Sol. O deputado comunista se redime de bobagens passadas. Merece transcrição. ''QUEREM QUE ÍNDIO CONTINUE TUTELADO'' Os índios brasileiros não são ouvidos pelas autoridades nos processos de demarcação de suas terras. O pior é que as demarcações ocorrem a partir de laudos antropológicos nem sempre confiáveis e sob pressão de organizações não-governamentais que insistem em tutelar os índios e apontar o Estado como ameaça à sua cultura. No conjunto isso estimula propostas secessionistas e põe em risco a integridade territorial do Brasil. Em linhas gerais, esse foi o raciocínio que levou o deputado comunista Aldo Rebelo (PC do B) a apresentar na Câmara, em conjunto com seu colega Ibsen Pinheiro (PMDB-RS), um polêmico projeto de lei que, se aprovado, obrigará o Executivo a submeter ao Congresso todos os processos de demarcação de terras indígenas. Na semana passada, em seu escritório político em São Paulo, o deputado, que já ocupou as cadeiras de ministro da Articulação Política e de presidente da Câmara, falou ao Estado, sobre o projeto e suas razões. A seguir, os principais trechos da conversa. O que o levou a esse projeto, que transfere as demarcações do Executivo para o Legislativo? O projeto não subtrai do Executivo a prerrogativa de demarcação das terras indígenas. Apenas o obriga a enviar a proposta ao Congresso, que analisa, promove as discussões, as negociações necessárias com as partes envolvidas. Depois a proposta é devolvida ao Executivo, na forma original ou modificada. É uma instância de negociação para todas as partes envolvidas, incluindo os índios, que não são ouvidos. O processo demarcatório é uma decisão unilateral da Funai (Fundação Nacional do Índio), que colhe o laudo - nem sempre rigoroso - de antropólogos e o submete ao Ministério da Justiça, que prepara o decreto de demarcação e encaminha ao presidente da República, que homologa. Está mesmo dizendo que o governo não ouve os índios? Não ouve. O caso da Raposa Serra do Sol é patente. Ali, um grupo grande de indígenas contestou a demarcação proposta pela Funai, mas não foi levado em conta. A maioria dos índios era favorável à demarcação em área contínua. Não creio. Pelo que apurei, em visitas à região, não havia maioria favorável. A relação entre os grupos de índios que vivem ali não é das mais amistosas e eles preferiam que a demarcação fosse em ilhas, onde cada tribo teria sua área demarcada, sem ser obrigada a conviver com outras. Isso também levava em conta as diferenças no estágio de evolução. Em Roraima existem indígenas que estão num estágio ainda próximo da coleta, da caça, e outros que são formados por pequenos fazendeiros, comerciantes. O senhor falou que os laudos antropológicos que norteiam as demarcações nem sempre são rigorosos. Ainda usando o exemplo da Raposa Serra do Sol, o laudo que deu origem àquela terra é eivado de fraudes. As mais diversas. Há fraude no censo que contabilizou a população indígena, na coleta de testemunhas, na contabilidade das malocas usadas como referência para a demarcação. Malocas localizadas na Guiana foram contabilizadas como se estivessem no Brasil. Tudo isso demonstra que é preciso uma autoridade que faça a mediação, para que não se cometam injustiças. Falando em mediação, acha que os arrozeiros poderiam ter ficado na terra indígena? Mas é evidente que sim. Já vi de tudo na vida. Já vi entrarem numa propriedade para desapropriá-la e trocá-la de mãos, como faz o socialismo, como fez Fidel Castro em Cuba. Mas destruir e imobilizar a capacidade produtiva, isso eu nunca vi. Como é possível transformar em crime a produção de arroz? Crime é contrabando, é narcotráfico. Os arrozeiros não tinham títulos legais das terras. Isso podia ser resolvido. Era só chegar e estabelecer um preço para eles. Aliás, porque os próprios índios não podiam arrendar aquelas terras? Obter algum tipo de benefício? Por que isso não aconteceu? Porque querem que o índio continue tutelado. Afirma-se que, se seu projeto for aprovado, não haverá mais demarcação: serão todas barradas pela bancada ruralista do Congresso. Acredito que o Congresso vai agir como tem agido, considerando em primeiro lugar a defesa da população indígena. Tudo que está sendo feito hoje decorre de uma autorização do Congresso - o Congresso Constituinte, que incluiu na Constituição a garantia e a defesa dos direitos indígenas. Eles sofrem de fato ameaças na sobrevivência física e na sobrevivência de suas culturas - daí a necessidade de demarcar suas terras, protegê-los. Mas ao mesmo tempo há necessidade de integrá-los; e não de estimular qualquer sentimento secessionista. Acha que os antropólogos estimulam sentimentos secessionistas? A antropologia, um ramo das ciências sociais, foi muito desenvolvida no auge do império britânico. O império estimulava, porque, por meio da ciência conhecia melhor os povos a serem subjugados. Em seus primeiros momentos, ela procurava convencer os chamados povos tribais, na África e em outros continentes, a se submeterem aos padrões da sociedade ocidental - porque isso interessava ao domínio britânico. Quando os impérios coloniais se desintegraram e essas sociedades tribais passaram a integrar embriões de Estados nacionais, a antropologia passou a aconselhá-los a permanecerem em seu estágio tribal, afirmando que os Estados nacionais eram uma ameaça. E é isso que, em resumo, vejo acontecer no Brasil. Dizem para os índios: continuem no seu estágio, o Estado nacional é uma ameaça a vocês. Eu acho que não há futuro para essas populações fora do Estado nacional brasileiro. O que vão constituir? Estados fantoches? Pelo que diz, existe uma ameaça à segurança nacional. No ano 2000, Orlando Villas Boas, que dedicou a vida aos indígenas, deu um depoimento a uma emissora de TV, hoje acessível pela internet, no qual fez uma advertência que é quase uma profecia. Disse que jovens ianomâmis estavam sendo levados para os Estados Unidos, onde iam ser treinados e aprender inglês. Depois retornariam ao Brasil para pedir a criação de um território próprio, um Estado. Nesse momento receberiam a proteção da ONU, que transferiria a tutela dessa população a uma grande nação. Ele dizia: "Eles não estão interessados nos ianomâmis, mas nas riquezas que há no subsolo." Não acha isso fantasioso? Não. No início do século 20 o Brasil perdeu 20 mil quilômetros quadrados do antigo Território de Roraima, em área consagrada, já demarcada como parte do território brasileiro. Inicialmente a Inglaterra enviou uma missão geográfica à região. Depois apareceu uma missão religiosa, que catequizou os índios, que, por sua vez, pediram a proteção da Inglaterra. Foi aí que os ingleses impuseram o litígio sobre a área. Ele foi submetido à arbitragem do rei da Itália, que dividiu o que era nosso: deu 20 mil quilômetros quadrados para a Inglaterra e deixou 20 mil para o Brasil. O território brasileiro sempre foi cobiçado. O Brasil é signatário de convenções internacionais que tratam da questão indígena. Acha que podem constituir risco para a segurança nacional? Sim. Principalmente a convenção da ONU que reconhece a soberania das populações indígenas. Como vê a ação das ONGs? O problema das ONGs é que veem os índios como instrumentos para estudos de caso de antropologia. Os índios dentro da reserva têm quase o status de uma cutia, uma paca, um bicho. Eles não têm direitos. São duplamente tutelados, pelas ONGs e pelo Estado. Organizações envolvidas com questões indígenas dizem que a prioridade do Congresso deveria ser a votação do Estatuto do Índio. Nós devemos votar o estatuto, demarcar as áreas indígenas, assegurar os direitos dos índios, garantir a presença do Estado no meio deles. Nós temos uma sub-Funai terceirizada, que praticamente entrega às ONGs a assistência aos índios. Queremos uma Funai forte, com uma política própria, que reconheça as dificuldades dessas populações. Como a sociedade nacional deve se comportar diante do índio? Segregando ou integrando? Eu defendo a integração. Mesmo para os índios isolados, sem contato com outras culturas? A nossa política sempre foi de fazer contato. Como é que o Estado vai prestar assistência a esses índios? Como vai levar assistência médica? Não sente receio de ser identificado com grupos conservadores? Não. Minha posição sempre foi em defesa da democracia, do socialismo e do Brasil.
LEITOR CONTESTA ESTATÍSTICAS AVANÇADAS POR VINÍCIUS Caro Janer Achei interessante os números sobre o câncer de próstata porque levam a implicações de ordem econômica relevantes a todos. Apesar da probabilidade de se ter câncer iniciar em 50% e aumentar a partir dos 50 anos, vamos considerá-la invariável e igual a 50% a partir dos 50 anos e ver o que se pode esperar quanto ao número de casos (independentemente de terem sido diagnosticados) no ano passado. As informações sobre a população do Brasil para 2008 estão disponíveis no site di IBGE. A tabela parcial abaixo mostra dados relativos à distribuição da população brasileira por faixa etária: 2008 Total Homens Faixa de Idade 189.612.814 93.084.588 0-4 - 16.203.241 8.226.630 ... 50-54 - 9.399.046 4.420.875 55-59 - 7.346.875 3.426.929 60-64 - 5.607.072 2.587.151 65-69 - 4.380.518 1.984.726 70-74 - 3.332.984 1.481.208 75-79 - 2.254.242 959.210 80 + - 2.410.106 991.003 15.851.102 (total da população a partir de 50 anos) Assim era de se esperar que houvesse 7.925.551 novos casos (diagnosticados ou não) somente para a faixa etária a partir dos 50 anos se os 50% de chance de ter câncer passassem a valer a partir de 2008, o que representa uma verdadeira pandemia digna da abertura da caixa de Pandora ou de um Armagedon. Neste ritmo, em um futuro próximo esse câncer certamente concorrerá com a peste negra ou a febre espanhola pelo menos quanto ao número de casos. No INCA (Instituto Nacional do Câncer) do governo o número total de casos de câncer de próstata esperados para 2008 é de singelos 49.530 (taxa de incidência de 52 por 100.000 pessoas) para toda a população. Para se ter uma idéia da diferença, se aplicarmos cem vezes essa taxa de incidência na população a partir de 50 anos obteríamos 824.257 casos para essa faixa, valor bem distante dos 7.925.551 casos anteriores. Infelizmente no site governamental não há dados sobre como varia a incidência com a idade. As implicações financeiras decorrem da dificuldade de se chegar a certa idade a partir dos 50 sem ter contraído câncer. Como a cada ano que se envelhece a chance de não contrair esse câncer é de 50%, a probabilidade de se chegar sem ele aos 55 anos, por exemplo, é de 1,56% (1/2*1/2*1/2*1/2*1/2*1/2). Assim sendo, os planos de saúde teriam que passar a diluir obrigatoriamente o custo da futura doença proporcionalmente ao tempo necessário para o assegurado chegar aos 55 anos. Já para a saúde pública, o tratamento desse câncer poderia começar automaticamente depois dos 55 anos. Em caso de dúvidas, o mero toque retal seria suficiente para confirmar o diagnostico, quase não havendo necessidade do teste sangüíneo para PSA. P.S.: Democratização perigosa – Depois da febre do déficit de atenção e do transtorno bipolar em crianças e adultos parece que uma nova doença psiquiátrica passa a nos assolar de modo ainda mais perigoso que as duas anteriores. Pelo menos é isso o que deduz do título de um novo livro de uma médica que apareceu recentemente: “Mentes Perigosas - O psicopata mora ao lado”. Que o diga o Hitchcock. Parece que finalmente todas as mulheres podem esperar pelo seu Normann Bates quando estiverem tomando banho... Emerson Schimdt
Segunda-feira, Maio 25, 2009
MENSAGEM DO ALBUQUERQUE Caro Sr. Janer, Leio vosso blog há muito tempo, tenho muita satisfação em ler textos que instigam, concordando ou discordando deles, discordando principalmente no que se refere à sua verve algo misantrópica. Emocionou-me a citação do Eclesiático, pois como médico e "cristão de idéia, não de fé", não praticante há muitos anos, conheço esta passagem e uso um estratagema, todo Hospital tem uma capela, naqueles em que eu trabalho não se foge à regra, pois ateus são os que menos resistem a uma prece no momento de desespero pela iminência do inexorável, da inefável - os deístas, ao contrário, tendem a perder a fé quando não são correspondidos, como se Deus, onipresente e onisciente, estivesse muito preocupado com a situação de fulano ou cicrano, individualmente. Eu abro estrategicamente nesta passagem toda vez que passo na porta delas, e persistem, por muitos dias seguidos, as páginas abertas neste trecho, sinal de que as pessoas se interessam. Toda vez que me vêm com essas baboseiras cretino-religiosas, mando lerem a passagem bíblica do Eclesiástico e comento: Quando morre, foi o médico; quando salva, foi Deus." Acaba aí a conversa. A religiosidade nestes momentos pode até ser um consolo ou fortalecer um espírito desamparado num momento trágico, mas em nada interfere no prognóstico do paciente. Espero que tenhamos pela frente mais artigos de vosso teclado, que fazem brilhar meus momentos de navegação na rede mundial. Abraços, Fernando Carreiro Albuquerque
O BRAVO BISPO PARAGUAIO E NOSSOS BRAVOS GENERAIS Recebo seguidamente e-mails furibundos, atacando o governo Lula, denunciando os desmandos do PT e defendendo o regime militar de 64, geralmente assinados por generais ou coronéis de pijama. São valentes, estes senhores, agora que reformados e sem voz na tropa. Quando exerciam seus comandos e detinham poder nas mãos, cães covardes com o rabo entre as pernas, permaneceram calados e subservientes ao governo. Hoje, isentos de punição por insubordinação e com soldo garantido, são modelos de bravura e indignação cívica. Lembram-me o bispo emérito Don Fernando Lugo, hoje presidente do Paraguai, acusado por três mulheres de ser o pai de seus filhos. Três, por enquanto. Em entrevista ao jornal argentino Clarín, disse Don Fernando: "O celibato é uma opção pessoal de fé requerida pela Igreja Católica, mas tudo que o homem faz é sujeito a falhas. Acredito que apenas Deus é infalível. Tudo que o homem faz está sujeito a falhas. É o caso do celibato". Como nossos generais de pijama, o emérito reprodutor considera-se um bravo: "O fato do presidente reconhecer seu filho apesar de todo poder que tem é considerado por muitos um ato de bravura”. Ou talvez de DNA. Atolado nas areias movediças da hipocrisia episcopal, quando mais esperneia, mais Don Fernando afunda. Por que não falou quando ainda tinha voz na Igreja? Sua confissão de “homem sujeito a falhas” seria um testemunho de vital importância ante uma igreja muda e insensível à sexualidade de seus pastores. Defroqué, seu discurso vale menos que um guarani. Ocorre que, se falasse enquanto bispo, estaria perdendo as regalias de Roma. Hoje, embalado pelas regalias do poder laico, se dá ao luxo de renunciar às antigas. Esta é a razão da existência de tantos sacerdotes fornicadores na Igreja. Fora do generoso seio da Santa Madre, sentem-se como bezerros desmamados. Preservam então a batina, que além de fetiche para muitas mulheres, é garantia de sigilo de suas escapadelas. Mulher que dorme com padre está tranqüila: jamais será difamada no bar da esquina. Mas Don Fernando, mesmo quando pretende parecer humilde, continua sofismando. O que está em jogo já nem é mais o celibato, mas o harém. Macho alfa dominante, o semental da pátria vai espalhando filhos por onde passa. Seria mais honesto se admitisse: “A monogamia é uma opção pessoal de fé requerida pela Igreja Católica, mas tudo que o homem faz é sujeito a falhas. Acredito que apenas Deus é infalível. Tudo que o homem faz esta sujeito a falhas. É o caso da monogamia". Pois monogamia também é exigência de fé da Igreja de Roma, tão opressiva e castradora como o celibato. Que o diga o sábio rei Salomão, do tálamo de suas setecentas mulheres e trezentas concubinas. Bispos e generais, que por ofício têm de renunciar a um pensamento próprio em obediência a um poder maior, em muito se parecem.
Domingo, Maio 24, 2009
BÍBLIA, MEDICINA E LESBIANISMO Escreve o leitor Antônio Augusto Silveira Escobar: Prezado Cristaldo Tu declaraste, em teu blog, que, na Bíblia, o lesbianismo não é condenado. No entanto, em Rm 1: 26,27 está escrito: "Por isso Deus os entregou a paixões aviltantes: suas mulheres mudaram as relações naturais por relações contra a natureza; igualmente os homens, deixando a relação natural com a mulher, arderam em desejo uns para com os outros, praticando torpezas homens com homens e recebendo em si mesmos a paga da sua aberração". Meu caro Antônio: traduzir "relações contra a natureza" por lesbianismo me parece ser um tour de force exagerado. Além disso, é coisa do Paulo que, como se sabe, é bastante perturbado pelas questões sexuais. No Levítico 20:13 lemos: "Se um homem se deitar com outro homem, como se fosse com mulher, ambos terão praticado abominação; certamente serão mortos; o seu sangue será sobre eles". As relações entre mulheres não são evocadas, porque aos olhos dos hebreus só há transgressão sexual quando há penetração. Ainda no Levítico 20:15: "Se um homem se ajuntar com um animal, certamente será morto;também matareis o animal. Se uma mulher se chegar a algum animal, para ajuntar-se com ele, matarás a mulher e bem assim o animal; certamente serão mortos; o seu sangue será sobre eles". É porque houve penetração. Um dos expoentes do judaísmo rabínico, Maimônides, considera o lesbianismo proibido. Mas não prevê punição alguma para este comportamento, nem mesmo de açoitamento, porque nada existe contra na Torá. Por precaução, aconselha os maridos a vigiar rigorosamente suas mulheres, para que não recebem visitas com tais hábitos. É de supor-se que Rambam, o bom rabino, temesse que as moças descobrissem o bem bom. A meu ver, nada autoriza interpetrar as "relações contra a natureza" paulinas com lesbianismo. Relações contra a natureza é expressão bem mais abrangente que lesbianismo. Na Suma Teológica, Tomás de Aquino enumera os “vícios contra a natureza”: a masturbação, a bestialidade, o homossexualismo (entendido como conjunção carnal entre duas pessoas do mesmo sexo) e a prática antinatural do coito, mesmo entre pessoas de sexo oposto e inclusive casadas. O Aquinata está falando de sexo oral ou anal. Não visam à reprodução. São, portanto, práticas proibidas. Aliás, o texto varia de tradução para tradução. Na de João Ferreira de Almeida, por exemplo, lemos: "Pelo que Deus os entregou a paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural no que é contrário à natureza", o que é bem diferente. Considerando-se que Paulo sempre foi um inimigo declarado do prazer carnal, é óbvio que condenaria também as relações entre mulheres. Mas não chegou a falar de torpezas de mulheres com mulheres. Talvez tenha esquecido. O texto é ambíguo e não se pode afirmar com certeza se Paulo se refere ao lesbianismo. Continua o leitor: Aproveito o ensejo para contestar, também, as tuas repetidas críticas a respeito de cristãos que procuram ajuda médica de alta qualidade e que atribuem a Deus o sucesso das terapias às quais são submetidos. Em Eclesiástico 38: 1 - 9; 12 -15, está escrito: "Honra o médico por seus serviços, pois também ele o Senhor criou. Pois é do Altíssimo que vem a cura, como presente que se recebe do rei. A ciência do médico o faz trazer a fronte erguida, ele é admirado pelos grandes. Da terra o Senhor criou os remédios, o homem sensato não os despreza. As águas não foram adoçadas com um lenho para mostrar assim a sua virtude? Ele é quem deu a ciência aos homens, para ser glorificado em suas obras poderosas. Por eles, Ele curou e aliviou, o farmacêutico fez com eles misturas. E assim Suas obras não têm fim, e por Ele o bem-estar se difunde sobre a terra. Filho, não te revoltes na tua doença, mas reza ao Senhor e ele te curará.(...)Depois dá lugar ao médico, porque o Senhor também o criou, não o afastes de ti, porque dele tens necessidade. Há ocasião em que o êxito está entre suas mãos. Pois eles também rezam ao Senhor, para que lhes conceda o favor de um alívio e a cura para salvar-te a vida. O que peca contra o seu Criador, que caia nas mãos do médico". Segundo a Bíblia de Jerusalém (3.ed., editora Paulus, 2004), esta última frase citada não é uma descortesia em relação aos médicos, e talvez seja necessário adaptá-la desse modo: "Peca diante do seu Criador aquele que quer mostrar-se valente ou soberbo diante do médico". Grato pela atenção. Quem agradece é o cronista, Antônio. Quanto aos médicos, duvido que essa gente toda que atribui o sucesso de suas terapias a Deus tenha lido a Bíblia. São milhares, senão milhões, o número de pessoas que consulta médicos e atribui suas curas a uma instância superior. São raríssimos os católicos que sabem da existência do Eclesiástico, como é seu caso. O que tenho visto, no universo que freqüento, são pessoas que atribuem à Bíblia suas idiossincrasias e mesmo concepções contemporâneas de humanismo, afinal Deus não poderia ser o oposto daquilo que hoje se entende como humanismo. Acontece que geralmente o é. Além do mais, o Eclesiástico é um livro controvertido. Não consta da TaNaK, a Bíblia hebraica. Considerado apócrifo até o século XVI, foi acrescido ao cânone bíblico pelos católicos no Concílio de Trento, com mais dez outros livros. Lutero também o considerava apócrifo e não existe nas bíblias protestantes. Que mais não seja, o vice-presidente José Alencar – o caso que citei na crônica - não pode brandir este texto. Ele é evangélico e os evangélicos, que derivam do protestantismo, não aceitam o Eclesiástico. Como afirmei, coerência é bom, mas pode matar. José Alencar sabe disso.
MENSAGEM DO VINÍCIUS Janer, No atual estágio da medicina, a estatística indica que 50% das pessoas terá algum tipo de câncer durante a vida e 25% morrerá em decorrência da doença. Depois de 50 anos de idade, a probabilidade de câncer de próstata é numéricamente igual à idade. Logo, quem chegar aos 100 anos certamente terá câncer de próstata. Vinicius Arcaro
Sábado, Maio 23, 2009
CÂNCER: FUMO, ÁLCOOL E PETROBRAS Não sei se é a idade, não sei se é a época. Mas, de repente, não mais que de repente, me senti cercado de cânceres por todo lado. Do pequeno grupo de seis pessoas que constituímos nos anos 70, em Paris, fui o quarto acometido pela peste. É muita gente para um universo de meia dúzia. Dois partiram, entre estes minha Baixinha. Dois sobreviveram, entres estes este que vos escreve. Mas, para onde quer que me vire, me deparo com a doença. Ouço falar de casos distantes de Aids, cá e lá um enfisema ou cirrose, um de meus amigos tem problemas cardíacos. Nada que me cerque com a insistência do câncer. Outro dia, ao reencontrar um amigo que há tempos não vi, saudei-o: - Faz um câncer que não nos vemos. Ele ficou perplexo. - Quem te contou? Ninguém me havia contado nada. Eu falava do meu. Ele se referia ao dele, mais precisamente ao de sua companheira. Uma amiga de três décadas vem visitar-me. Mas não vinha exatamente por isso. Vinha para ver o irmão, que acabou morrendo de câncer. Em Porto Alegre, um bom amigo luta como pode para conjurar o mal. Isso sem falar que viveremos sob o signo do câncer nos próximos meses, já que de um câncer dependem as manobras sucessórias para 2010. Um vice com câncer não é tão grave. Vice é vice. Já uma candidata, é diferente. De repente, a eleição do vice se torna mais importante que a do titular. O número de casos de câncer na cidade de São Paulo aumentou em 25% em cinco anos, diz uma pesquisa feita pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Pelo menos um entre cada 20 casos de câncer é causado pela ação de poluentes. Nestes dias em que se fala de CPI da Petrobras, é bom lembrar que a jóia da coroa não é inocente neste massacre. No suplemento Megacidades, lançado pelo Estado de São Paulo, leio que o diesel produzido pela estatal, que abastece caminhões e ônibus do país, tem altíssimas concentrações de enxofre, elemento cancerígeno. O padrão usado na Europa é de 50 ppm (partes por milhão). No Brasil, as concentrações variam de 500 ppm a 2 mil ppm. A empresa teria se comprometido a produzir o combustível com 50 ppm a partir deste ano. Nada li nos jornais sobre esta nobre intenção. Enquanto isso, na Europa, o teor máximo será reduzido para 10 ppm. Não é só fumo e álcool que produzem câncer. A Petrobras também faz sua parte. O governador de São Paulo proíbe o cigarro em todos os lugares públicos do Estado. Claro que jamais proibirá o diesel da Petrobras. Ora, do cigarro você consegue fugir. Do diesel, só se mudando para o campo. Confira com seus interlocutores. Difícil encontrar um só que não tenha um caso em família ou em seu círculo. É câncer demais para meu gosto. Fala-se em uma pandemia da gripe suína. A imprensa que me desculpe, mas de meu posto de observação, a pandemia é outra. Comentei outro dia a profunda incoerência – para não dizer falta de reconhecimento – dos pacientes que são curados por medicina de ponta e atribuem sua cura a Deus. Propus inclusive que os hospitais fizessem duas perguntinhas antes de receber um paciente. Você crê no poder de Deus para curar doenças? Acredita em cirurgia espiritual? Se a resposta for sim a estas duas perguntas, que o crente seja entregue incontinenti a Deus e à cirurgia espiritual. Se Deus cura, pra que hospital e boa medicina? É redundante e só faz sofrer. Se você vai usar de toda nossa ciência para depois atribuir a cura ao Dr. Fritz, então consulte logo o Dr. Fritz e não perca tempo com médicos. Anteontem ainda, o vice-presidente da República, José Alencar, que vem lutando contra a peste há mais de dez anos, chorou durante um discurso na Universidade Federal de Minas Gerais. "Eu estou aguardando primeiro que Deus me cure, porque, se eu não estiver curado, não posso levar nenhuma proposta ao eleitor", disse à Folha de São Paulo. Nosso vice pede a Deus que o cure. Na hora de extirpar tumores, voa para o Sírio-Libanês. Se curar-se, a quem atribuirá a cura? A Deus, evidentemente. Se morrer, a culpa será do hospital e de seus médicos. Mas não era disto que pretendia falar. E sim de coerência.
DANIEL NA COVA DOS NEMENHAH Em meio a isso, encontro crentes coerentes nas páginas internacionais. Mais precisamente, nos Estados Unidos. Trata-se de Colleen Hauser, cujo filho, Daniel, 13 anos, tem linfoma de Hodgkin. O menino poderia ser curado com quimioterapia, mas a família pertence a um grupo religioso chamado Nemenhah, que acredita em terapias “naturais” praticadas por índios e recusou o tratamento quimioterápico. Um juiz mandou prender Colleen e hoje mãe e filho estão foragidos e são procurados pelas autoridades de vários Estados. Colleen Hauser e Daniel teriam deixado sua casa em New Ulm, no Estado de Minnesota, na segunda-feira, pouco após uma consulta médica na qual exames indicavam que o tumor estava crescendo. A doença, diagnosticada em janeiro, é considerada curável com quimioterapia e radiação, mas Daniel abandonou o tratamento após a primeira sessão. É o que leio nos jornais. A isto se chama coerência. Nada de crer em terapias naturais e ao mesmo tempo buscar tecnologia de ponta. Um juiz decretou a prisão dos pais de Daniel e ordenou que o menino seja colocado sob a tutela do Estado. O pai da criança criticou as autoridades. "Não sei porque eles provocaram esta situação. Por que eles pensam que têm direitos sobre meu filho?" Boa pergunta, em um país em que os Testemunhas de Jeová se recusam a qualquer transfusão de sangue, mesmo que corram risco de vida. Afinal, está escrito em Atos 15:28,29: “Com efeito, parecem bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro peso além do seguinte indispensável: que vos abstenhais das carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, da carne sufocada e da impureza. Dessas coisas fareis bem de vos guardar conscienciosamente”. Segundo a advogada Fabiana Costa Lima de Sá, para precaver-se contra cirurgias com sangue, os crentes carregam um cartão intitulado “Documento Para Uso Médico”, renovado anualmente e assinado pela portador e testemunhas, com freqüência, parentes próximos, que hoje é considerado documento legal. A maioria deles também assina um termo de responsabilidade que isenta os hospitais e médicos de qualquer responsabilidade civil ao proverem o solicitado tratamento sem sangue. Foram criadas Comissões De Ligação com Hospitais, com o fim de amparar as Testemunhas na sua determinação de não aceitar infusões de sangue e firmar um espírito de cooperação entre pacientes e instituições médicas, que mantém contato, só no Brasil, com quase 1.300 médicos. No mundo todo, existem 40 mil médicos dispostos a tratar e operar Testemunhas de Jeová sem sangue. Entre nós, esta postura encontra abrigo no artigo 46 do Código de Ética Médica: “(É vedado ao médico) efetuar qualquer procedimento médico sem o esclarecimento e o consentimento prévios do paciente ou de seu responsável legal, salvo em iminente risco de vida”. Com uma ressalva, a do artigo 56: “(É vedado ao médico) desrespeitar o direito do paciente de decidir livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas, salvo e, caso de iminente risco de vida”. Ocorre que os Testemunhas são mais de sete milhões no mundo todo, e só nos Estados Unidos há mais de meio milhão deles. Quanto aos crentes em Nemenhah, parecem não constituir massa crítica suficiente para produzir legislação. Se os pais de Daniel conseguirem fugir à ordem judicial de prisão, é claro que Daniel vai morrer. Se forem presos e Daniel for submetido ao devido tratamento, poderá salvar-se. Mas terá sido desrespeitada a liberdade de crença de seus pais. Pelo menos em um país que dá mais valor a crenças religiosas que à vida de um ser humano. Na Bíblia, mesmo jogado na cova dos leões, Daniel foi salvo: “O meu Deus enviou o seu anjo, e fechou a boca dos leões, e eles não me fizeram mal algum; porque foi achada em mim inocência diante dele; e também diante de ti, ó rei, não tenho cometido delito algum”. Foram então jogados na cova os homens que haviam acusado Daniel, suas mulheres e seus filhos, e foram destroçados pelos leões. Na cova dos Nemenhah, Daniel não tem chance alguma. Coerência é bom. Mas também mata. Nosso vice sabe disso.
Sexta-feira, Maio 22, 2009
MUSEU DA CORRUPÇÃO Só uma memória enciclopédica seria capaz de abarcar o panorama da corrupção no Brasil, dadas suas dimensões e ramificações. Está na hora de surgir uma compilação geral dos desmandos do governo, partidos e empresas, uma espécie de dicionário, para a consulta de leitores perdidos nos meandros do pantanal. Enquanto este dicionário não surge, almas abnegadas fizeram um esforço de síntese. De minha sobrinha dileta, recebo este mapinha: http://www.dcomercio.com.br/especiais/2009/museu/index.htm Vale uma visita. Divulgue-o, para que bem se entenda o país.
Crônica antiga: MEUS DOIS TURCOS (29/6/2001) Em meus vinte e poucos anos, eu julgava que o bem-estar europeu era fruto de trabalho exclusivo dos europeus. Em Estocolmo, quando meus professores de sueco me perguntaram em que diska eu trabalhava, achei que havia um mal-entendido. Tinha eu cara de diskare (lavador de pratos)? Já nas primeiras semanas de Suécia, entendi que era visto não como um jornalista que estava lá para observar a vida no paraíso, e sim como mão-de-obra potencial. Observei meus colegas de curso: polacos, gregos, iugoslavos, turcos, árabes. Todos estavam ali tentando adquirir um conhecimento mínimo do idioma ... para trabalhar. Quanto a mim, que buscava apenas conhecer um idioma e um país novo, me sentia peixe fora d'água naquelas aulas. Quando descobri que dificilmente teria chances de trabalhar em minha área, fiz minhas malas... e voltei. Quando alguém me fala que mobilidade social não existe no Brasil, costumo puxar da memória dois turcos de minha infância. Aconteceu há mais de quarenta anos, quando eu ainda vivia nos campos de Upamaruty. Eles chegaram de Dom Pedrito, cidade que eu ainda não conhecia, aliás não conhecia cidade nenhuma. Vinham em duas precárias bicicletas, enfrentando estradas de areia e barro, os porta-cargas repletos de espelhos, pentes, isqueiros, carretéis, agulhas, alfinetes, baralhos. Uma orgia de consumo para aqueles camponeses, separados da cidade por léguas de solidão. As mulheres da região recebiam os turcos com festa, eram as coisas da cidade que chegavam até seus modestos desejos. Ainda piá, eu os observava com espanto. Entre si, usavam uma algaravia incompreensível. Conosco, falavam com sotaque carregado. Hospitalidade oblige, sempre encontravam pernoite e comida em nosso rancho. À noite, me ensinavam, com o auxílio de grãos de feijão e milho, mistérios da matemática. Se mal se conseguiam fazer entender com palavras, eram exímios nesta linguagem universal, a dos números. Os dois turcos voltaram muitas vezes em suas bicicletas àqueles pagos inóspitos. Até o dia em que chegaram de jipe, desta vez com tecidos, colchas, cobertores, toalhas e utensílios de cozinha, uma orgia aos olhos do mulherio lá da campanha. Voltaram muitas outras vezes, até o dia em que não voltaram mais. Quando fui conhecer cidade, encontrei-os em Dom Pedrito. Descobri então que sequer eram turcos, mas sírios. Tinham uma loja de tecidos, com três ou quatro funcionários. Quando abandonei a cidade, já tinham duas lojas e o dobro de funcionários. Bem mais tarde, quando me dei conta do que significava ser sírio, meus dois turcos me voltaram à lembrança. Haja pertinácia para sair de longínquos desertos das Arábias, atravessar um oceano, viver em país novo, outra língua, cultura distinta, e enfrentá-lo com duas bicicletas e algumas bugigangas de mascate no cargueiro. Nasci entre gente pobre, que trabalhava na lavoura de sol a sol, fazendo uma agricultura de mão pra boca. Não tenho notícias de que alguém tenha prosperado como os dois "turcos" de minha infância. Claro que nenhum brasileiro de cepa se disporia a sair pedalando pampa afora, como os sírios, para juntar algum pecúlio de centavo em centavo. Na Suécia, reencontrei os turcos — estes turcos de verdade — mais árabes, eslavos e mesmo latinos, encarregando-se do trabalho pesado ou sujo, que os hiperbóreos Svensons não se dignavam a enfrentar. Fui reencontrá-los mais tarde em Paris, nas mesmas tarefas. Certa noite, voltando para o Grand Hotel Saint Michel, aquele conhecido hotelzinho da folclórica madame Salvage, que abrigou brasileiros e latinos durante décadas e de grand só tinha o nome, tive surpresa insólita. Pedi minha chave ao porteiro da noite. Do catre instalado na portaria ergueu-se uma calva ilustre, inconfundível, a solene calva de um de meus professores de filosofia em Porto Alegre. Para ele, naquele momento, era melhor ser porteiro de hotel em Paris que catedrático no Brasil. Destas andanças, algo aprendi sobre eles: imigrantes não se enganam. Só rumam rumo ao melhor. Um árabe que quebra pedras ou junta lixo em Berlim ou Estocolmo, vive evidentemente melhor que em sua villaya na Argélia. E ainda manda algum dinheiro aos que ficaram no deserto. Na época em que Giscard d'Estaing ofereceu passagem e mais dez mil francos aos migrantes que quisessem voltar a seus países, Slimane, um amigo argelino, me dizia: "Não volto. Podem me dar a França inteira. Não posso levá-la no bolso". Imigrantes são seres diferenciados. Ousam deixar para trás pátria, família, passado, em busca de um futuro melhor. Nestes dias que correm, há pessoas morrendo no mar ou sufocadas em furgões, tentando entrar clandestinamente na Europa, via Itália, Espanha ou Inglaterra. Mas não vemos hoje — nem vimos em dias passados — alguém arriscando a vida para entrar em Angola, Cuba, Congo ou países da finada União Soviética. O Brasil pode ser pesado de carregar-se às costas. Pessoalmente, nunca encontrei motivos para orgulhar-me deste país. Mas horrível também não é. Estes seres que não se enganam, os imigrantes, vêm para cá de todos os continentes, e inclusive do nosso. Isto atesta que o país é viável. Os italianos e alemães que um dia chegaram de mãos abanando no Brasil, construíram as cidades mais prósperas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Japoneses e coreanos que aportam nesta São Paulo vão muito bem. O mesmo diga-se de árabes e judeus. Você conhece nome e sobrenome de algum mendigo? Eu não. Deles só tomo conhecimento nos meses de inverno, quando repórteres saem a entrevistar moradores de ruas. Só tenho lido sobrenomes como Vieira, Soares, Santos, Silva, Silveira e por aí afora. Jamais ouvi falar de algum mendigo chamado Isaac ou Jacó, Abdul ou Tanako, Gert ou Salvatore. Assim, quando intelectuais de classe média afirmam que este nosso sistema capitalista — que aliás nem chegou ao capitalismo — não dá chances a ninguém, costumo evocar meus dois turcos. Trabalhando, dá. Estendendo a mão para pedir, não dá.
APEDEUTA DA VEJA CRITICA O APEDEUTA DO PLANALTO Considero que maior desserviço não pode prestar um jornalista ao país do que fazer acusações falsas ou indevidas a Lula ou ao PT. Isto dá oportunidade aos petistas para posar como vítimas e desacreditar a imprensa. Pior ainda, com razão. Foi o que fez ontem o recórter tucanopapista serrista hidrófobo em seu blog na Veja. Em Istambul, Lula andou dizendo que no Brasil todo vendedor de roupa ou de qualquer outro produto que passe casa por casa é conhecido como "turco". Ainda tentou explicar: - Qualquer vendedor que for vender um produto na casa das pessoas, prontamente ele é chamado de turco. Eu não sei se é o turco nascido em Istambul ou no tempo do Império Otomano, nascido na Arábia Saudita ou no Líbano. Com sua antiética forma de fazer jornalismo, que consiste em reproduzir textos de outros jornais e apor um outro título, geralmente raivoso, escreve o apedeuta da Abril: Num dia clássico, Apedeuta mistura turco com árabe — na Turquia!!! — e diz outra formidável batatada Após transcrever um texto de Jamil Chade, do Estadão, comenta o recórter tucanopapista serrista hidrófobo: Já comentei aqui outras vezes que Lula aprende pelo método indígena: com as orelhas. É notavelmente inteligente, mas espantosamente ignorante. E olhe que não lhe faltou tempo para aprender. Mas tem uma indisposição com a leitura conhecida e reconhecida. Ele deve pensar: “Para quê? Esse gente toda leu bastante é agora é minha subordinada”. É, faz sentido... É por isso que, suponho, Celso Amorim também tenha parado de ler. O apedeuta de Veja crítica Lula por um de seus raros acertos. No interior do país, os mascates árabes sempre foram chamados de turcos. Assim como os imigrantes italianos, no Rio Grande do Sul, são chamados de gringos. Houve uma imprecisão, é verdade, na afirmação do apedeuta do Planalto. Eram chamados de turcos os sírios e libaneses, jamais os sauditas. Diga-se de passagem, não me consta que sauditas viessem mascatear no Brasil. Se é polido ou diplomático fazer esta alusão pejorativa junto aos anfitriões turcos, isto é outro assunto. Mas condenar Lula quando Lula, por acaso, acerta, é demonstrar ignorância ainda maior que a de Lula.
DITO E FEITO Escrevia ontem que, para a imprensa nossa, traficante é sempre suposto traficante. Não deu outra. Hoje, no portal Terra, leio: STF APROVA EXTRADIÇÃO DE SUPOSTO TRAFICANTE AOS EUA O Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou a extradição do suposto narcotraficante colombiano Pablo Joaquín Rayo Montaño aos Estados Unidos. Ele é acusado pelo governo americano de conspiração para o tráfico internacional de drogas e para a lavagem de ativos, mas a decisão do STF autorizou a extradição para que Montaño responda apenas pelo primeiro crime. (...) Os magistrados do STF destacaram que para que Montaño seja entregue ao governo americano, os Estados Unidos devem se comprometer a não condená-lo a mais de 30 anos de prisão, pena máxima prevista na legislação brasileira. O suposto narcotraficante foi detido no dia 16 de maio de 2006 em São Paulo, como parte da operação Oceanos Gêmeos, coordenada por Estados Unidos e com a participação de Brasil, Panamá, Colômbia, Costa Rica, Venezuela, Equador e México. O homem está preso há três anos por tráfico internacional de drogas, foi detido em uma operação coordenada por oito países e arrisca a ser condenado a mais de 30 anos de prisão nos Estados Unidos. Para os jornalistas, continua sendo um “suposto traficante”.
Quinta-feira, Maio 21, 2009
SOBRE SUPOSTOS E ASPAS Você deve ter notado, Aender, que o “suposto” é mais usado nas páginas nacionais e locais. É uma atitude de auto-defesa não só do jornalista como também do jornal. Assim, se alguém escreve sobre “as contas de Maluf no Exterior”, está arriscando a ser processado por calúnia. Prefere então “as supostas contas de Maluf”. O adjetivo é uma prudente salvaguarda para evitar processos por parte de um suspeito ou indiciado em qualquer crime. Já no noticiário internacional, onde o risco de processo é igual a zero, é recurso utilizado para preservar antigas crenças do redator. Ou para não ferir ideologias mortas e sepultadas. Nos dias em que trabalhei no Estadão, eu li - juro que li -, esta manchete: SUPOSTOS TERRORISTAS EXPLODEM CARRO-BOMBA NO PERU Uma ressalva é sempre oportuna. Poderia ocorrer que o carro-bomba tivesse sido montado por uma equipe de carmelitas descalças. Perguntei ao redator: supostos terroristas, companheiro? Ele releu o texto e justificou: força de hábito. Claro que ninguém vai grafar "suposto nazista". Quando se trata de nazistas, não há aspas nem supostos. O cachimbo entorta a boca. De tanto usar a palavrinha, ela virou cacoete. Hoje, os jornalistas a grafam quase automaticamente. Se um traficante da favela é morto enfrentando a polícia com um AK-47 em punho, provavelmente teremos uma manchete como POLÍCIA MATA SUPOSTO TRAFICANTE NA FAVELA Enquanto não for condenado pela justiça como traficante, um traficante armado com um AK-47 será sempre um suposto traficante. Fica entendido, é claro, que um traficante jamais matará um suposto policial. O suposto é mais um dos subterfúgios do politicamente correto. Serve para inocentar, ainda que provisoriamente, os “excluidos”. Outro sinal de tráfego são as aspas. Têm múltiplas funções. Servem geralmente para marcar uma citação. Mas também para deixar clara a posição do editor. Os acontecimentos pós-queda do Muro geraram uma intensa batalha de aspas nas redações. Certa vez, na Folha de S. Paulo, recebi um despacho que falava dos crimes do comunismo durante o regime dos Ceaucescu, na Romênia. Traduzi o texto, coloquei-o no bom tamanho e dei meu trabalho por feito. Dia seguinte, lá estava a notícia. Mas falava de "crimes" do comunismo. Com crimes entre aspas, para deixar bem claro que a redação não assumia a idéia de que comunistas pudessem cometer crimes. Trabalhei mais tarde no Estadão. Um belo dia, recebo um telefonema de um colega da Folha: — Janer, aquela nota sobre a Finlândia, foste tu que a redigiste, não foi? De fato, fora eu. Mas como é que ele sabia? — Pelas aspas. No texto se falava em "política de neutralidade", assim entre aspas. Só podiam ser tuas. Me senti lisonjeado. Já era reconhecido até pelas aspas. Estas, na época, eu as assumia serenamente.
MENSAGEM DO AENDER Kháire, ô Janer! O seu texto me lembrou duas citações, lá vão: "O pobre inteligente é um observador bem mais fino que o rico inteligente. O pobre olha em redor, a cada passo; examina, desconfiado, cada palavra das pessoas que vai encontrando; cada passo que ele próprio dá impõe a seu espírito e a seu coração uma tarefa, um dever. Tem o ouvido fino, é impressionável, experiente, leva queimaduras na alma..." Knut Hamsum, Fome. "290. A ignorância só degrada a pessoa quando é acompanhada de riqueza. O pobre é limitado por sua pobreza e por suas necessidades; no seu caso o trabalho substitui o saber e ocupa seus pensamentos. Por outro lado, os ricos que são ignorantes vivem apenas para seus prazeres e se parecem ao gado, como podemos notar diariamente. Isto é ainda mais censurável porque não usaram a riqueza e o ócio para aquilo que lhes empresta o mais alto valor." Schopenhauer. Interessante ler esse texto. Hoje estava aqui nas minhas elucubrações tentando imaginar um mundo onde o modelo greco-romano não tivesse chegado ao esgotamento, dando brecha ao cristianismo, e tendo chegado até hoje. Que mundo seria esse? Talvez menos doentio e mais realista, mas como vamos saber... Outra coisa, você que é jornalista poderia comentar, se é que ainda não comentou, a respeito da palavra-muleta "suposto". Tudo em jornal hoje é suposto, nada se afirma. Com certeza para se evitar processos. Hoje estava ouvindo a BandNews e a repórter carioca disse que "supostos" traficantes haviam sequestrado um ônibus. Supostos traficantes poderiam até ser, mas que com certeza eram bandidos, eram. Mas, do jeito que andam as coisas, até se ela fosse usar o vocábulo bandido, a muleta do suposto estaria lá para escorá-lo. Daqui há pouco frases como 'o corredor teve uma suposta lesão a nível de joelho e não vai estar correndo na próxima maratona' serão supostamente (rs) a nova realidade da língua. Aender dos Santos
Quarta-feira, Maio 20, 2009
SAUDADES DA OSMAZOMA Há palavras que desaparecem da língua como por encanto. Osmazoma é uma delas. Você pode procurá-la no Houaiss ou Aurélio ou demais dicionários contemporâneos. Não vai encontrar. Se quiser encontrá-la, terá de voltar no tempo, ao dicionário de Candido de Figueiredo. Ou ao Caldas Aulete. Apesar da origem francesa, não consta nem mesmo do Petit Robert. Em meus dias de Paris, para inveja de meus leitores gourmands, morei na Rue Brillat-Savarin. Nome indissociável da cultura francesa, Jean Anthelme Brillat-Savarin é autor de um clássico da gastronomia, La Physiologie du Goût. Mas inveja sem nenhuma razão de ser. A rua onde vivi meus dias, apesar de sugerir festança e bona-chira, não tinha sequer um restaurante. Foi rua insípida, que sempre evitava, saindo pelos fundos de meu prédio para cair em uma outra, sem a fama do gastrônomo, mas cheia de vida e odores, a Amiral Mouchez. Minha relação com Brillat-Savarin é outra. Foi nele que encontrei, pela primeira vez, a osmazona. Que tanta falta me fez nos últimos meses. Quem nunca teve um carcinoma, jamais terá idéia do que seja sentir falta da osmazoma. Em A Fisiologia do Gosto, Brillat-Savarin considera – e apropriadamente – ter a língua uma grande função no mecanismo da degustação. Devido às suas numerosas papilas, ela se impregna das partículas sápidas e solúveis dos corpos com os quais tem contato. Mas não só a língua é responsável pelo paladar. Também participam da degustação as bochechas, o palato e as fossas nasais. As bochechas – segundo o autor – fornecem a saliva, igualmente necessária à mastigação e à formação do bolo alimentar. Sem a odorização que se opera no fundo da boca, a sensação do gosto seria obtusa e totalmente imperfeita. O gastrônomo conta ter encontrado em Amsterdã um “pobre diabo” ao qual os argelianos haviam cortado a língua, com o qual se comunicou por escrito. Tendo visto que lhe haviam cortado toda sua parte anterior, perguntou-lhe se ainda encontrava alguma sabor no que comia. Respondeu-lhe o argeliano que ainda sentia o gosto daquilo que era um pouco sápido. Mas que as coisas fortemente ácidas ou amargas lhe causavam dores insuportáveis. Vivi um pouco a condição do pobre diabo de Amsterdã nos últimos meses. Mais que um pouco, diria. Com o tratamento radioativo, a salivação desapareceu. Saliva parece ser algo desagradável, mas desagradável mesmo se torna quando some. A mastigação se torna inviável e dolorosa. Por outro lado, fora a sensação do doce, cujas papilas respectivas se encontram na ponta da língua, perdi toda e qualquer sensação de sabor. Para os glutões, Dante reserva o terceiro círculo do inferno, onde ficam atolados na lama e são fustigados por uma chuva fortíssima com granizo, ouvindo sempre os latidos de Cérbero, o cão de três cabeças e cabelo de serpentes que guardava as portas do Inferno. Faltou imaginação ao vate. Mais cruel teria sido se privasse de saliva e de paladar os que gostam de comer. Pois comer sem sentir o gosto do que se come me parece castigo mais que adequado ao mais infame dos condenados. Criado no campo, os sabores básicos de minha infância foram arroz, feijão e charque. Osmazoma, só em dias de carneação. Dia seguinte, a carne virava charque. Vivi depois em cidades do interior gaúcho, cuja culinária é um breve contra o paladar. Sabores mesmo, comecei a curti-los em Porto Alegre, onde já havia alternativas de uma cozinha italiana, alemã, árabe, japonesa ou chinesa. Mas diversidade de sabores, festa para o palato, só encontramos viajando. Culinária é coisa do terrunho. Acho muito estranho quando alguém me fala de cozinha internacional. Toda cozinha depende de geografia. Cozinha internacional, para mim, deve ser um prato cozido em um vôo entre um país e outro. Gastronomia foi algo que não curti em minha juventude. Só bem mais tarde entrei neste universo. Passei então a dar valor à restauração. Restaurantes, a meu ver, são um dos mais geniais achados do Ocidente. Chego a uma cidade estranha na qual nunca estive e lá está, à minha espera, uma equipe de profissionais que irão brindar-me com o que de melhor seu país oferece. Cardápio é outro grande avanço. Numa mesma mesa, quatro pessoas podem degustar quatro cozinhas distintas. Sabores são relativos. Não consegui até hoje convencer a Primeira-Namorada a comer ostras ou camembert. Andouilletes ou tête de veau, ni pensar. Não a recrimino. Ano passado ainda, em Paris, ofereci a uma amiga um tequinho do prato que busco correndo tão logo chego a Paris, as andouilletes, um embutido de tripa com tripas dentro. Mal o pôs na boca, teve de fazer força para não vomitar. Era marinheira de primeira viagem e gostar de andouilletes exige certa quilometragem. O primeiro homem a comer uma ostra deve ter sido pessoa de grande coragem intelectual. Quanto a camembert, sempre que compro algum, recebo um alerta de minha faxineira: “Professor, tem algo podre na geladeira”. Podre nada, Cristina. É queijo dos melhores. Gastronomia exige um certo destemor ante o desconhecido. Exige também idade, diria. Jovem não é muito afeito a emoções fortes. Mas falava da osmazoma. Nestes meus dias de inferno astral, em que perdi praticamente todos os sabores, o que mais me faltava era o sabor dela. Degustar uma picanha e sentir gosto de borracha é tortura que não desejo a ninguém. Mas minhas sensações palatais ressuscitaram. Voltei ao mundo dos vivos. Antes que me esqueça: osmazoma, para Brillat-Savarin, é a molécula odorante das carnes. Em verdade, se enganava. Hoje se sabe que o gosto das carnes resulta da presença de numerosas moléculas e não decorre de um princípio único. Só sabe o que é paladar quem um dia o perdeu. Foi nestes dias que lembrei Fierro: Solo queda al desgracio, lamentar el bien perdido. Se saí do inferno, ainda não voltei ao Éden. Se já lambuzo o que me restou de bigodes com uma picanha, falta ainda o sangue das uvas, proibido pelos homens de branco. Mais dia menos dia vou à forra. PS - Leitores francófonos podem encontrar a obra de Brillat-Savarin em http://www.gutenberg.org/files/22741/22741-h/22741-h.htm
Terça-feira, Maio 19, 2009
SOBRE ARETE E ARISTOCRACIA Em função de minhas elucubrações sobre o lixar-se, houve leitores que me consideraram um aristocrata, ser superior. Em parte, não deixam de ter razão. - Parabéns, ser superior! – ironizava uma de minhas interlocutoras, a propósito de minha crônica sobre lixar-se -. Mas como sabes que tudo isso não presta se não experimentaste também? De ouvir falar? De quem? Ora, não sou cego nem surdo. “Tudo isso” está a meu lado, me cerca e me envolve. Está nas ruas que percorro, nos bares que freqüento, nos jornais que leio. Às vezes, espiono esse universo hostil através da televisão. Não vou dar-me ao trabalho de ir a um programa de auditório ou a um templo evangélico para ter notícias da humana estupidez. A televisão me permite observá-la, confortavelmente sentado em meu sofá. Ser superior nunca me considerei. Diria apenas que cheguei a um nível de conhecimento que me satisfaz. Consigo entender o mundo e a mim mesmo, o que já e algo. Isto tem seu preço. Boa parte de minha vida, passei-a debruçado sobre livros. Fora da leitura não há salvação. Quando entro na casa de alguém e não vejo livros, me sinto no deserto. Dá para conversar com quem não lê? Claro que dá. Mas com que lê é melhor. Antes de ir adiante, faço uma distinção. Há aqueles que não lêem por não terem tido condições de praticar a leitura em suas vidas. A estes, minha compreensão. Já não consigo entender quem teve na vida condições de ler e instruir-se e no entanto não lê. Destes, mantenho distância. Converso com eles, posso até tomar um trago junto. Mas não fazem parte de meu mundo. Tenho amigos, que não são muitos. E conhecidos, que não são poucos. São territórios lindeiros, mas distintos. Quanto a ser aristocrata, sempre o fui. Mas, por favor, não confundir com as definições de aristocracia do Houaiss: “organização sociopolítica baseada em privilégios de uma classe social formada por nobres que detém, geralmente por herança, o monopólio do poder. Grupo ou classe dos que, por berço ou por concessão, detém o prestígio dos títulos nobiliárquicos que outrora significavam poder político, nobreza, classe nobre, fidalguia”. Nada disso. Não nasci entre nobres, mas entre pobres. A herança maior que meu pai me deixou é aquela da qual fala Lupicínio, a vergonha. Nunca tive privilégios nem os tenho, se entendermos por privilégio vantagem obtida sem mérito algum. Sou aristocrata, isto sim, no antigo sentido grego de arete, palavra que significa excelência, o mérito ou qualidade pelo qual algo ou alguém se mostra excelente. De arete deriva aristocracia. Segundo a helenista Gilda Naécia Maciel de Barros, esta qualidade pode referir-se ao corpo e aplicar-se a coisas, como terra, vasos, móveis; pode referir-se à alma. Pode ter o sentido particular de coragem ou atos de coragem ou o sentido moral de virtude. Vamos ao clássico de Werner Jaeger, a Paideia, cuja leitura recomendo a quem quer que pretenda entender a Grécia antiga: “Os gregos entendiam por arete sobretudo uma força, uma capacidade. Às vezes definem-na diretamente. Vigor e saúde são a arete do corpo; sagacidade e penetração, a arete do espírito”. Na República, Platão fala inclusive da arete dos cães e cavalos. Qual é a função do cavalo? “Aquela que apenas ele pode fazer, ou, pelo menos, que apenas ele pode fazer do modo mais perfeito (árista). A saber, mostrar força, velocidade, firmeza na batalha”. Ou seja, originalmente a palavra nada tem a ver com classe social ou privilégios. Homero entende por arete as qualidades morais ou espirituais. Em caso de guerra, é a força e a destreza dos guerreiros, a heroicidade. Vivendo em tempos de paz, retenho a primeira acepção do vate. Respeito, antes de mais nada, o homem honesto e culto. Riqueza ou poder para mim são palavras que não dizem muito. Um homem rico ou detentor do poder pode fazer muito pela humanidade. Mas não é a regra. O que vemos, o mais das vezes, são ricos acumulando doentiamente mais riqueza e poderosos exercendo a vaidade do poder. Sucesso, muito menos. Conheço inúmeras pessoas que admiram um analfabeto conhecido nosso, não por razões políticas ou ideológicas, mas só porque foi bem-sucedido. Para mim, o sucesso de Lula e uma moeda de cinco centavos jogada na rua têm o mesmo valor. Ou seja, nenhum. Não me curvo para apanhar uma moeda de cinco centavos. De arete deriva aristocrata, dizia. Aristocrata é quem possui a arete - dizia um de meus bons professores de Ciências Políticas, Leônidas Xausa. Neste sentido, aristocracia é para mim um valor. Meus heróis não são os Paulos Coelhos ou Lulas da vida. Muito menos Buda, Cristo ou Marx. Mas autores ou aventureiros cujos nomes talvez não digam muito ao leitor: Alexandre, Schliemann, Champollion, Fernão de Magalhães, Casanova. Ou Renan, Le Goff, Delumeau, Paul Veyne. Ou outros mais conhecidos: Platão, Cervantes, Swift, Dostoievski, Orwell, José Hernández, Fernando Pessoa. Galileu, Giordano Bruno, Johannes Kleper, William Harvey. Mozart, Verdi, Bizet. Voltando um pouco atrás: em relação a Platão, mesmo tendo nascido três séculos depois dele, Cristo é um bobalhão que papagueia antigos textos rabínicos. Não há raciocínio original algum em Cristo, criatividade nenhuma. Mas repetição dos profetas bíblicos. Encerrou-se na Torá e ignorou solenemente a riquíssima cultura que o precedera. Neste sentido, Paulo era de fato o homem culto e cosmopolita da época. Sem ele, não existiria o cristianismo. Mas falava de arete. Neste sentido, sou de fato aristocrata. O mundo do futebol, automóvel, show business, televisão, política, nada me diz. Não que considere política atividade inútil. Mas do modo como atualmente é feita, melhor nem fosse feita. Particularmente neste Brasil. Vivo longe do consumo e do supérfluo. Uns bons 99% do que ocorre em torno a mim não me interessam. Mas o que sobra dá pra ocupar mais de uma vida. Tenho certeza que partirei sem ter lido o que gostaria de ter lido, sem ter conhecido os países que gostaria de conhecer, sem ter bebido os vinhos que gostaria de beber. Há quem me julgue difícil. Outro dia, conversando pela primeira vez com uma leitora, ela me perguntava como havia sido a tortura. Que tortura? A tortura de encontrá-la. Por que tortura? Porque pensavámos de forma distinta um do outro. Ora, isto para mim nunca foi tortura. É o mar em que navego. Tortura seria ter do outro lado do copo uma pessoa dizendo amém a tudo que digo. Há leitores que se dirigem a mim com um tímido “desculpa discordar”. Ora, não há nada do que desculpar-se. É para discordar que existimos. Aceito a diversidade deste mundinho em que vivo. Bebo e convivo com católicos, comunistas, espíritas e crentes outros. Convivo até mesmo com pessoas que fazem psicanálise, votam no PT ou lambem vitrines em shoppings. Que se vai fazer, quando a espírita ou a lambedora de vitrines são adoráveis? Bem entendido, não participo de suas idiossincrasias. O que não impede outros comércios. As coisas que me aprazem na vida são as que aprazem quase todo mortal: amigos, amigas, vinho, música, viagens, leituras. Digo quase todo mortal, já que uma boa parcela deles está mais ocupada em acumular poder ou dinheiro. A estes, meus sinceros pêsames. Aristocrata? Diria que sim. Mas então somos todos aristocratas.
Segunda-feira, Maio 18, 2009
DEPUTADO QUE SE LIXA ATIRA NO QUE VIU E ACERTA NO QUE NÃO VIU Ainda o “deputado que se lixa”, como ficou conhecido o gaúcho Sérgio Moraes, de Santa Cruz do Sul. Uma só frase, em questão de duas semanas, o tirou do anonimato em que vegetava. É séria candidata à frase do ano, embora o ano esteja ainda longe de acabar. Por ter interpretado o que normalmente sentem os eleitos por seus eleitores, o deputado foi inapelavelmente linchado pela mídia. Longe de mim pretender defender um deputado. Mas vejo um equívoco semântico na polêmica. Um deputado jamais se lixa para a opinião pública, pois dela depende, já que é parte dessa opinião que o elege. Vamos à frase, dita em uma discussão com repórteres: “Estou me lixando para a opinião pública. Até porque parte da opinião pública não acredita no que vocês escrevem. Vocês batem, mas a gente se reelege”. Fica óbvio que o lixar-se se endereçava à mídia. O deputado lixa-se para “o que vocês escrevem”. No entusiasmo do verbo, usou a expressão opinião pública. Não deixa de ter razões para isto, já que a mídia se assume como intérprete da dita opinião pública. Quando um jornalista emprega esta expressão, em vez de nominar o que seria uma hipotética opinião pública, está designando o que os jornais acham que seja a opinião pública. Assim como a Igreja diz “em nome de Deus” para falar em nome dela, assim como os ditadores usam “em nome do povo” para falar no próprio nome, os jornalistas usam a expressão opinião pública para dizer “nós, a imprensa”. Daí, a meu ver, a confusão. O deputado faz uma nítida distinção entre as duas coisas, ao afirmar: “parte da opinião pública não acredita no que vocês escrevem”. Os jornalistas, ofendidos por tabela, ignoram esta distinção. Retiveram a primeira parte do que foi dito e debitaram na conta do deputado todo o suposto horror contido no “estou me lixando para a opinião pública”. A imprensa atribui à tal de opinião pública, ipso facto, a posse e usufruto da razão. A opinião pública está sempre eivada de bom senso, critérios de justiça, nobres sentimentos. Na edição de ontem do Estadão, escrevia o professor de Lingüística Sírio Possenti: “A opinião pública é sempre decente. Nunca é invocada em defesa de uma causa injusta (do ponto de vista de quem a julga): a opinião pública abomina o mensalão, as maracutaias e já abominou o comunismo. São sempre os males, os erros, a imoralidade. A opinião pública funciona como instância superior, ao lado da beleza, da razão, da moral. Entidades intocáveis, inatacáveis. Quem as contestaria? E mesmo os filósofos que o fizeram não defenderiam esse deputado”. De fato, a tal de opinião pública é contra a farra das passagens no Congresso, contra a corrupção em geral, contra os abusos do Judiciário, contra o uso de dinheiro público para fins privados. Mas sempre tem um mas. Curiosamente, não é contra as invasões e depredações do MST, nem contra entregar parte do território nacional a um punhado de brutos que não chegaram à Idade da Pedra, muito menos contra a ditadura dos irmãos Castro em Cuba. A opinião pública, conforme a imprensa a define, jamais é contra bandeiras de esquerda. Opinião pública, hoje, foi transformada pela imprensa em sinônimo de politicamente correto. Ocorre que politicamente correto é uma coisa e o que o povo pensa é outra completamente distinta. O Zé da Silva pode ser contra as bandalheiras do Congresso, mas dificilmente recusaria uma vantagem indevida que lhe fosse oferecida. Turismo com dinheiro público é um escândalo. Mas uma bolsinha-família – mesmo que a ela não tenha direito – sempre é bem-vinda. Deputados pagando prostitutas de alto bordo com dinheiro do contribuinte é um crime que aos céus clama vingança. Mas sonegar imposto de renda é perfeitamente permissível. Ter um castelo sem ter meios que justifiquem sua posse é um atentado de lesa-igualdade. Mas morar em um condomínio sem ter condições de pagar o condomínio faz parte da vida. Tráfico de drogas é crime horrendo. Mas cheirar um pó, fumar maconha – consumo que financia o tráfico – é um inocente hobby da classe média. Prostituição é comércio execrável. Mas quem fornece carnes jovens aos clientes da prostituição é um benemérito da comunidade. Jogo do bicho é contravenção penal. Mas Zé da Silva jamais se furta a fazer uma fezinha. Em nome da opinião pública, a imprensa denuncia deputados como corruptos. Estes renunciam para não perder o mandato e se reelegem pela mesma opinião pública em cujo nome a imprensa falava. Há uma perplexidade geral em torno à frase do deputado, e certamente o próprio deputado deve estar também perplexo com a repercussão de seu achado. De maneira canhestra, sem pretender dizer o que disse, o deputado atirou no que viu e acertou no que não viu. No fundo, no fundo mesmo, o que Sérgio Moraes disse é que opinião pública, hoje, é uma ficção criada por jornalistas para ocultar ideologia.
Domingo, Maio 17, 2009
VELHO BOLCHEVIQUE NOBEL SE PREOCUPA COM HONRADEZ José Saramago, velho bolche e prêmio Nobel de Literatura, não perde oportunidade de atacar o Grande Satã americano. Em artigo para a Folha de São Paulo, chegou a defender os terroristas que explodiram as torres do World Trade Center e os atentados suicidas palestinos. Em janeiro de 2005, no Fórum Social Mundial realizado em Porto Alegre, dizia estar mais do que na hora de romper com essa falsa questão que coloca a democracia como “santa de altar”. É em nome dela que os Estados Unidos fazem a guerra, por exemplo, ou que o capital financeiro governa o mundo. "Não foram os povos que decidiram isso. Então, que democracia é essa?", inquiria então o escritor português. Para o Nobel luso, a democracia há tempos foi seqüestrada e amputada pelo capital financeiro que governa o mundo. Leia-se Estados Unidos. Claro que jamais foi seqüestrada ou amputada pelas repúblicas democráticas soviéticas. A atual gripe suína, para o escritor comunista, só pode ser decorrência do capitalismo. Sem citar o autor (Mike Davis, do The Guardian), Saramago repete, em artigo publicado em seu blog e difundido em espanhol na Web: “Em 1965, por exemplo, havia nos Estados Unidos 53 milhões de porcos espalhados entre mais de um milhão de granjas. Hoje, 65 milhões de porcos concentram-se em 65 mil instalações. Isso significou passar das antiquadas pocilgas a gigantescos infernos fecais nos quais, entre esterco e sob um calor sufocante, prontos a intercambiar agentes patógenos à velocidade de um raio, amontoam-se dezenas de milhares de animais com sistemas imunológicos muito debilitados”. (Em nota ao pé do artigo, o blogueiro Nobel reconhece não ter ficado convenientemente reconhecido o trabalho de Mike Davis. “Como quer que seja, José Saramago está consciente de que deve desculpas a Mike Davis. Espera que elas lhe sejam aceites”). Não se tem ainda nenhuma evidência das origens do vírus e os Estados Unidos já são culpados de uma gripe que surgiu... no México. A partir de um boato que circula na Internet, a de que o epicentro da gripe teria sido situado em uma gigantesca filial da Smithfield Farms, no Estado de Veracruz, Saramago faz uma dramática pergunta: - Como se observa, os contágios são muito mais complicados que entrar um vírus presumivelmente mortal nos pulmões de um cidadão apanhado na teia dos interesses materiais e da falta de escrúpulos das grandes empresas. Tudo está contagiando tudo. A primeira morte, há longo tempo, foi a da honradez. Mas poderá, realmente, pedir-se honradez a uma transnacional? Quem nos acode? De fato, a honradez morreu já faz bastante tempo. A meu ver, no início do século passado, quando intelectuais do mundo todo aderiram entusiasticamente à mais sangrenta mentira contemporânea, o comunismo. Saramago foi um deles. Hoje, condena com verve os Estados Unidos pelo surgimento de um vírus que ainda ninguém sabe como surgiu. Curiosamente, dele não ouvimos uma palavrinha sequer contra o desastre soviético de Chernobyl, em 1986, que até hoje continua fazendo mortos. Tampouco o ouvimos comentar um dos grandes feitos da gloriosa revolução soviética, a destruição de nada menos que um mar, o de Aral, para beneficiar a produção de algodão na Ásia Central. Muito menos contra os cem milhões de cadáveres que sua ideologia produziu ao longo do século. O velho bolche só acha que a honradez se perdeu com a morte de alguns gatos pingados por uma gripe pintada pela imprensa como pandemia, mas, ao que tudo indica, não passa de mais uma gripe.
Sábado, Maio 16, 2009
EU TAMBÉM O deputado gaúcho Sérgio Moraes pronunciou a frase do mês, senão do ano: “estou me lixando para a opinião pública”. Gesto típico de gaúcho, que diz o que pensa. Um mineiro, sem ir mais longe, jamais diria isso. É óbvio que um Aécio Neves jamais seria assim tão franco. Não, não estou tomando a defesa do deputado. Considero apenas que, com sua franqueza, interpretou o que a imensa maioria dos políticos pensa de seu eleitorado, mas não ousa dizer. Se opinião pública é essa gente que ... - elege Erundinas, Malufs, Martas Suplicys, Celsos Pittas, Yedas Crusius, Lulas et caterva - assiste novelas da Globo e Big Brothers da vida - lê Paulos Coelhos, Dans Browns, Harry Potters, Stephens Kings - ouve Robertos Carlos, Gilbertos Gis, Caetanos e Chicos - acha que Machado de Assis é um grande escritor - curte shows de bate-estaca - liga televisão para fugir ao silêncio - lota estádios e conhece a seleção de cada time de futebol - acredita em Deus e inunda templos - vai a Disneylândias e Hopis Haris - viaja de excursão para Europa e Estados Unidos - visita dez países em quinze dias - leva trinta quilos de bagagem - faz cruzeiros pela CVC - não se sente gente se não tem um automóvel - infesta restaurantes no Dia das Mães - compra ovos de chocolate na Páscoa - canta "Parabéns pra você" nos aniversários - busca medicina de ponta e atribui sua salvação a Deus - faz quimioterapia e credita sua cura a uma cirurgia espiritual - faz psicanálise - vota no PT - lê as colunas de astrologia dos jornais - lê livros de auto-ajuda - curte florais de Bach e Feng Shui - acredita na vida eterna e aposta uma fichinha em cada religião - acha que quem critica o Brasil tem de mudar de país - ao sentar no bar, joga na mesa celular, maço de cigarros e chaves do carro - vive no vermelho e ostenta o que não pode - toma refrigerantes e come batatas fritas - paga cafezinho com cartão de crédito - bebe vinho em tetrapak - toma cerveja em copos de plástico - compra vinhos de garrafa azul ou de tampa com rosca - lambe vitrines nos shoppings ... eu também me lixo para a opinião pública. Aliás, sempre me lixei. Vivo tão afastado dessa gente que já nem tenho uma idéia precisa do que seja a tal de opinião pública. Montei um pequeno universo para meu convívio, no qual estão ausentes os supracitados. A opinião destes poucos amigos, esta eu respeito muito. Como dizia Beethoven, em um mundo que não poupa nada nem ninguém, vou poupar ao menos a mim mesmo.
Sexta-feira, Maio 15, 2009
1) NA BÍBLIA, AS ORIGENS DO RACISMO Em artigo para o Estado de São Paulo, no qual define como charlatanismo acadêmico o conceito de raça, escreve Demétrio Magnoli: “Esquece-se com frequência que a pedra fundamental dos Estados baseados no princípio da raça é a proibição legal da miscigenação. A Lei Antimiscigenação da Virginia, de 1924, que sintetizava o sentido geral da legislação segregacionista nos EUA, definiu como "negros" todos os que tinham uma gota de "sangue negro". A Lei para a Proteção do Sangue Germânico, de 1935, na Alemanha nazista, criminalizava casamentos e relações sexuais entre judeus e arianos. A Lei de Proibição de Casamentos Mistos, de 1949, na África do Sul do apartheid, proibiu uniões e relações sexuais entre brancos e não-brancos. Raça é um empreendimento de higiene social: a busca da pureza”. Magnoli, ensaísta de excelente formação acadêmica, não consegue no entanto escapar à armadilha do politicamente correto. É recurso fácil atribuir racismo aos segregacionistas americanos, aos nazistas alemães ou aos defensores do apartheid na África do Sul. Mais complicado é voltar atrás no tempo e buscar nos textos antigos a emergência do racismo na História. Ao afirmar que “a pedra fundamental dos Estados baseados no princípio da raça é a proibição legal da miscigenação”, Demétrio Magnoli está fazendo, talvez sem dar-se conta, uma grave acusação aos judeus. Pois se há uma nação que desde há cinco mil anos até hoje condena as uniões mistas, esta nação se chama Israel. A condenação é tão imperiosa que, em Números, Finéias, o filho de Eleazar, traspassa com uma lança, de um golpe só, o israelita e uma moabita que mantinham relações em uma tenda. Já no Pentateuco, que resume toda a legislação do judaísmo, está proibido o casamento entre um israelita e um membro das sete tribos cananéias. Em Deuteronômio, 7:1, lemos: Quando o Senhor teu Deus te houver introduzido na terra a que vais a fim de possuí-la, e tiver lançado fora de diante de ti muitas nações, a saber, os heteus, os girgaseus, os amorreus, os cananeus, os perizeus, os heveus e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu; 2 e quando o Senhor teu Deus tas tiver entregue, e as ferires, totalmente as destruirás; não farás com elas pacto algum, nem terás piedade delas; 3 não contrairás com elas matrimônios; não darás tuas filhas a seus filhos, e não tomarás suas filhas para teus filhos; 4 pois fariam teus filhos desviarem-se de mim, para servirem a outros deuses; e a ira do Senhor se acenderia contra vós, e depressa vos consumiria. Milênios antes de Hitler, segregacionistas americanos ou racistas sul-africanos, lá está, nos primeiros livros da Bíblia, a proibição dos casamentos mistos. Mesmo assim, tais casamentos ocorriam na época, em geral determinados por alianças e conveniências políticas. O primeiro ocorre justamente com Moisés, que tomou uma cuchita por mulher. O segundo foi Abrão. Não podendo ter filhos com Sarai, sua mulher, é-lhe permitido gerar progênie com uma escrava egípcia. Gênesis, 16:1 - Ora, Sarai, mulher de Abrão, não lhe dava filhos. Tinha ela uma serva egípcia, que se chamava Agar. 2 Disse Sarai a Abrão: Eis que o Senhor me tem impedido de ter filhos; toma, pois, a minha serva; porventura terei filhos por meio dela. E ouviu Abrão a voz de Sarai. 3 Assim Sarai, mulher de Abrão, tomou a Agar a egípcia, sua serva, e a deu por mulher a Abrão seu marido, depois de Abrão ter habitado dez anos na terra de Canaã. 4 E ele conheceu a Agar, e ela concebeu; e vendo ela que concebera, foi sua senhora desprezada aos seus olhos. Segundo o Dictionnaire Encyclopedique du Judaïsme, (Paris, Cerf, 1993), o livro de Esdras oferece um exemplo particularmente chocante da freqüência dos casamentos mistos, o que provocou uma reação das mais extremadas. Descobrindo que os Israelitas que voltavam do exílio na Babilônia tinham esposado pagãs, Esdras persuadiu o povo a aceitar que todas as mulheres, assim como seus filhos, fossem banidos. Depois desta época, um casamento com um não-judeu não tem valor algum aos olhos da Halakhah, ramo da literatura rabínica que trata das obrigações às quais devem se submeter os judeus, como também suas relações com o próximo e com Deus. “Um rabino não pode celebrá-lo e, quando tais casamentos são dissolvidos, não há como entregar o get (atestado de divórcio). Como, segundo a religião judia, a criança segue a religião de sua mãe, as crianças nascidas de tais uniões são judias se a mãe é judia e, neste caso, nada as distingue, aos olhos da Halakhah, dos outros judeus; no entanto, se só o pai é judeu, as crianças não são judias”. Quer dizer: racismo vem de bem mais longe do que pensa a vã erudição de Magnoli.
2) NAPOLEÃO DECRETA FIM DA IDÉIA RABÍNICA DE RAÇA - Mestiçagem se faz na cama e na cultura – escreve Magnoli -. É troca entre corpos e intercâmbio de ideias. Os arautos brasileiros do mito da raça talvez gostassem de ter uma lei antimiscigenação, mas concentram-se na missão mais realista de higienizar as mentes, expurgando de nossa consciência a imagem de uma nação misturada. Ora, se quisermos falar de expurgo da imagem de uma nação misturada, temos de recorrer não ao Mein Kampf nem às leis Jim Crow, mas ao Livro antigo. Mais ainda: esta higienização das mentes não morreu no fundo dos tempos, mas persiste até hoje. Até um período recente a união exogâmica era condenada no seio da comunidade judia e os pais de um filho que houvesse contraído um matrimônio misto observavam freqüentemente os ritos do luto. Se hoje os judeus toleram – ainda que rangendo os dentes – os casamentos mistos, tal tolerância não decorre de uma iniciativa rabínica, mas foi forçada pela legislação de Estados laicos. Continuo citando o excelente Dictionnaire Enciclopédique du Judaïsme. Foi somente com a Emancipação – reconhecimento dos direitos civis dos judeus, ocorrida nos Estados Unidos, quase ao final do século XVIII – e os movimentos não-ortodoxos no decorrer dos últimos 150 anos, que o poder rabínico sobre a maior parte das comunidades perdeu força e as opções individuais se tornaram possíveis. Em 1776, a nova Constituição da Virginia estatuía que “todo homem pode beneficiar do livre exercício da religião segundo sua consciência". Por outro lado, o ato que estabelecia a liberdade religiosa em 1786 foi formulado de maneira a incluir os judeus. Mesmo assim, a maior parte dos rabinos não celebra tais uniões. Nos Estados Unidos, uma percentagem significativa de rabinos reformistas aceita fazê-lo, desde que convencidos que o parceiro não-judeu esteja de fato interessado por uma eventual conversão. Outro insuspeito promotor da miscigenação e dos casamentos mistos foi... Napoleão. Em 1806, o imperador convocou uma assembléia de notáveis que deveria definir as questões sobre o dever de lealdade ao Estado e a observância do judaísmo. Os judeus podiam casar-se com cristãos? Como a lei judia considerava os cristãos franceses? “Os notáveis trouxeram respostas convincentes que lembravam que a autoridade rabínica não era senão espiritual. No que dizia respeito às uniões mistas, responderam que tais casamentos eram considerados válidos civilmente, mas não podiam revestir-se de formas religiosas. Napoleão convocou então, em 1807, um grande Sinédrio, no qual tinha assento uma maioria de rabinos que tinham por missão sancionar oficialmente as respostas dos notáveis, que ele endossou em sua maior parte. Napoleão recebeu então garantias sobre as questões fundamentais: os rabinos não tinham mais jurisdição civil e judiciária, os judeus não se consideravam mais como uma nação à parte e não almejavam mais abandonar o país de residência para retornar a Sion”. Mesmo assim, apesar de todos estes esforços históricos no sentido de extirpar a idéia de raça das relações entre pessoas, neste nosso país onde existe plena liberdade religiosa, os rabinos continuam torcendo o narizinho ante casamentos mistos. Se os arautos brasileiros do mito da raça talvez gostassem de ter uma lei antimiscigenação – como afirma Magnoli –, os rabinos a cultivam discretamente.
Quinta-feira, Maio 14, 2009
UN CERTO CARDINALE De farra em farra, chegamos à farra da Igreja. Leio no Estadão de hoje que a Arquidiocese do Rio gastou pelo menos R$ 15 milhões no período de 16 meses em que seus bens foram administrados pelo padre Edvino Alexandre Steckel, afastado na semana passada. Sua saída foi anunciada após a divulgação da compra, por 2,2 milhões, de um apartamento no Flamengo, que seria usado pelo ex-arcebispo Dom Eusébio Oscar Scheid. O apartamento está mobiliado com móveis de grifes, cadeiras e sofás recheados de penas de ganso. O maior sofá da sala custou R$ 21,3 mil, o outro 17,2 mil e cada cadeira 6,8 mil. Do despilfarro, constam ainda três carros da Volkswagen, um Polo e dois Jettas importados, sendo um destes blindado. As informações são do monsenhor Abílio Ferreira da Nova, reconduzido ao cargo de ecônomo da arquidiocese, que ocupara antes da gestão do padre Edvino. Segundo Dom Abílio, “foi uma ofensa ao povo de Deus. São compras que não precisavam ser feitas, um verdadeiro desperdício. A gente vive e trabalha para os pobres. Temos de voltar à austeridade de antigamente. Vamos voltar”. Uma residência sem dúvida bem mais imponente que a modesta casinha em estilo inglês da governadora gaúcha, que lhe custou três vezes menos, uns míseros 700 mil reais, e talvez ainda lhe custe o cargo. Mas, afinal, uma governadora não pode morar como qualquer um, como diria – e disse - dona Yeda Crusius. Imagine um príncipe da Igreja. - Para que carro blindado? Por que o padre tem de ser diferente? – pergunta-se Dom Abílio -. Qual é a razão disto? É evidente que isso tudo é uma contradição para a Igreja. Agora estou aqui em um bunker, com paredes e portas à prova de som e, dizem, de bala. Não sei para que. Dom Abílio começa a trilhar um pensamento no mínimo perigoso. Em Roma, conheço un certo cardinale que vive em um modesto palácio cuja manutenção custa bem mais de quinze milhões de reais por mês. Este cardeal senta-se em uma modesta cadeira de bronze dourado, dentro da qual se encerra, como em um relicário a milenar cadeira de São Pedro. Para realçar o móvel, em 1657 o arquiteto Bernini construiu em torno dela o Altar da Cátedra de São Pedro, ornado de mármore da Aquitânia e jaspe da Sicília. É de supor-se que a cadeira onde hoje senta Bento custe sensivelmente mais caro que o sofazinho de 21 mil reais de Dom Eusébio. Além de viver em um bunker com paredes e portas à prova de som, este cardeal, hoje bispo de Roma – eufemismo para papa – dispõe de uma singela guarda especial, criada há mais de 500 anos. Verdadeiro exército particular, é constituída por 110 homens, cinco deles oficiais, encarregados de defender até com a própria vida o chefe. Que, por sua vez, só se desloca em um carro blindado, concebido especialmente para seus desfiles espetaculosos em meio a multidões. Se o bispo de Roma voa para países distantes, seu modesto carrinho de grife exclusiva - o papamóvel - vai junto no avião. Não seria isto uma ofensa ao povo de Deus, como acusa Dom Abílio? Dom Eusébio não ousou tanto.
MEIO MILHÃO Leio no Comunique-se que o site VG Notícias, de Várzea Grande, MT, e a jornalista Edina Araújo estão proibidos de veicular entrevistas e matérias sobre o prefeito licenciado da cidade, Murilo Domingos. O juiz titular da segunda Vara Cível do município, Marcos José Martins de Siqueira, aceitou pedido liminar de remoção do ilícito e de antecipação de tutela. Além de não poder publicar novas matérias, o site terá que remover reportagens postadas nos dias 14 e 22/04. Em caso de descumprimento das determinações, tanto o site como a jornalista estarão sujeitos a multa diária de R$ 5 mil. O VG Notícias, por meio de editorial, defende que as matérias publicadas são verídicas e embasadas em documentos públicos. “Todas as matérias veiculadas pelo site www.vgnoticias.com.br foram baseadas em documentos públicos que podem ser conferidos na 1ª Vara Especializada em Fazenda Pública, de Várzea Grande, ou ainda no Tribunal de Justiça”, diz o editorial. A notícia é deplorável e ao mesmo tempo alvissareira. Por um lado, temos o arbítrio de um juiz que aplica a um jornal eletrônico a censura – não só prévia como também posterior – quando a Constituição de 1988 diz, com todas as letras, em seu Art.220 § 2º: é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística. Ocorre que neste país qualquer juiz pode mais que Deus. Revoga a Constituição quando bem entende e o réu que se vire junto a instâncias superiores para ver reconhecido seu direito. Mas ao mesmo tempo alvissareira. Multiplica-se cada vez mais a censura a sites e blogs, o que só evidencia que esta mídia, até pouco vista com desconfiança, torna-se cada vez mais poderosa e fere cada vez mais os interesses do poder. Censurar um site é reconhecer sua importância, conferir à mídia eletrônica o mesmo poder de fogo que antes se conferia apenas à mídia impressa. O VG Notícias, de Várzea Grande, faz jus a parabéns. Dito isto, noto – quase sem notar – que esta bitácora ultrapassou meio milhão de acessos. Meus cumprimentos a mim mesmo. Comecei-a sem maiores pretensões há cinco anos, hesitante e sem muita confiança nesta mídia, postando alguma coisa lá de vez em quando. Os leitores foram chegando e pedindo mais. Sem ter assinado compromisso com ninguém, de repente me senti obrigado a oferecer o que era de mim esperado. Para um site que não está escorado pela grande mídia, nem depende de patrocinadores, meio milhão de acessos em cinco anos é colírio para meus olhos. Tenho cerca de 500 acessos individuais diários e para mim este número de leitores está ótimo. São poucos e bons. Tivesse cem mil acessos por dia, teria de perguntar-me o que ando escrevendo de errado. Não tenho idéia de como se multiplicam meus textos, mas sei que eles são replicados em outros sites e discutidos em listas. O que só me alegra. Escrevi vários livros em minhas décadas de percurso, tanto em papel como eletrônicos. Nenhum deles me dá o retorno de uma só crônica. Estou constantemente dialogando com meus fiéis, e isto é muito melhor que livro. Já expliquei porque não abro o blog a comentários. Se por um lado dou voz a leitores inteligentes, tenho certeza de que meus desafetos serão maioria. Já vivi esta experiência em outro site. Ou aceitava sofismas, mentiras e calúnias calado, ou tinha de perder meu tempo respondendo a bobagens. Melhor então manter o blog fechado. Meu e-mail está lá, para quem quiser comunicar-se comigo. Afetos ou desafetos, todos têm resposta. Desde meus tempos de jornal-papel, quando tinha de escrever cartas, envelopá-las, pÕr selo e postar no correio, nunca deixei leitor sem resposta. Hoje é mais fácil. Amigos me sugeriram inscrever-me no Ad Sense e aceitar publicidade no blog. A cada acesso de leitores a um link, ganharia alguns centavos de dólar, que no total poderiam ser atrativos. Quando notei que, se desancasse a Igreja, acabaria tendo ao lado de meu texto biografias de papas ou santos, livros de auto-ajuda ou best-sellers, desisti da idéia. Não tenho premências econômicas e não vou vender minha pluma por um punhado de dólares, mesmo que fosse um punhado significativo. O universo blogueiro, apesar de muita abobrinha e mesmo de páginas repulsivas, está disputando firme com a imprensa em papel. Em meus dias de jornal convencional, corria uma historinha nas redações. Que um jornalista reclamara a Assis Chateaubriand o direito de expressar suas opiniões nos jornais dele. Chateaubriand foi curso e grosso: se você quer ter opinião, crie seu jornal. O que, na época, era missão inviável para quem não dispusesse de bom capital para investimento. Hoje, criar um jornal não custa um vintém. Melhor ainda, o jornalista não tem censor, muito menos pauteiro. Escreve o que quer, quando quer e como quer. Se tiver de responder por calúnia ou difamação, para isso existe o Código Penal. Estamos vivendo a alvorada de uma época nova, que ainda não mostrou seu potencial. Me faz bem viver este início de século. Visse ainda na era do papel, andaria irritado pelas ruas, chutando pedrinhas, sem poder expressar-me. Vivemos dias em que finalmente a liberdade de imprensa tornou-se realidade. Claro que muita gente não gosta disto. Mas juiz algum consegue impedir o amanhecer. O juizeco de Várzea Grande sabe muito bem disto. A lâmpada do gênio foi esfregada. Uma vez esfregada, não se manda mais o gênio de volta pra dentro. A meus fiéis, meus agradecimentos. Não serão decepcionados.
Quarta-feira, Maio 13, 2009
NOVA PRAGA VIRA ITEM DOS DIREITOS HUMANOS A Orange, uma das marcas-chave da France Telecom, está oferecendo celulares bloqueados a dez euros por mês, destinados unicamente aos “despossuídos” da França. Podem acessar esta oferta os beneficiários do RMI (programa de renda mínima) e do API (gratificação de parente isolado, isto é, celibatários, viúvos, divorciados, separados ou abandonados, mulheres grávidas e sozinhas) que constituem, segundo o governo francês, 3,8 milhões de pessoas. A nova modalidade de telefonia dá direito a 40 minutos de chamadas a telefones fixos e celulares e 40 SMS. Esgotados estes, o celular é bloqueado. Em entrevista para o Libération, a socióloga Catherine Lejealle considera que possuir um celular constitui um direito, o direito de ser acessível. “Pois uma das dimensões centrais do celular repousa sobre esta noção de individualidade. Associa-se o número de um celular a um nome. Já uma linha fixa faz referência a um lugar. (...) Hoje, o celular tornou-se essencial para estar integrado na sociedade”. De onde deduzo que eu – e não só eu, mas também amigos meus – somos pessoas completamente marginalizadas da sociedade. Pois jamais nos ocorreu usar celular. No que a mim diz respeito, até que possuo um, herança da Baixinha. Deve ter mais de dez anos de idade. Só serve para falar e praticamente não o uso. Se estou em um bar conversando com amigos, não quero ser interrompido por uma chamada sei lá de onde. Se estou fora de casa, não vejo urgência alguma em ser acessado. Isso pode ser feito em meu telefone fixo. Ou por e-mail. Lejealle fala em direito de ser acessível. Vejo a questão de outro ângulo. Se esse direito existe, existe também um outro, o direito à privacidade. Este é constantemente violado pelo celular. Você está no melhor do papo com uma amiga, ou em meio a uma digressão sobre a humana estupidez, e um intruso o interrompe com algo completamente alheio ao assunto. Você perde o fio da meada. Como dizia Beethoven, numa época que não poupa nada nem ninguém, vou pelo menos poupar a mim mesmo. Em verdade, até que o uso. Aos sábados e domingos, das 13h às 15h. É quando estou lendo em meu boteco, esperando ou fazendo contatos para saber onde vou almoçar. Só três pessoas têm meu número. Acho que já são muitas. Às 15h, já sei onde e com quem vou almoçar. Desligo o aparelho. Não que seja neoludita. Reconheço as vantagens do “mobile”, como dizem os franceses. Daí a sentir-me marginalizado por não usar um, vai uma longa distância. Há profissionais hoje que se tornaram dependentes do celular, temos de admitir. Toda pessoa cujo trabalho depender de locomoção, sem ir mais longe. Mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Se celular é obviamente útil, mesmo necessário, também virou praga. Nada mais irritante estar assistindo a um filme quando toca o maldito aparelhinho. Mesmo em bares, consegue irritar. As pessoas sempre falam em tonalidade mais alta quando ao celular e ficamos submetidos a ouvir desde piadas bestas a confidências íntimas. Isso sem falar daqueles que o usam para jactar-se publicamente de posses ou status. Estes são legião. Nos primórdios da era do celular, conheci um afrodescendentão que ordenava à sua secretária que o chamasse seguidamente. Sentia-se importante sendo buscado a toda hora. Sem falar nas dondocas que insistem em comunicar ao mundo: “querido, estás vindo no blindado ou na Pajero?” Não estou criando. Esta, juro que ouvi. Sou da era do celular e acompanhei sua trajetória. O primeiro surgiu no Rio de Janeiro. O aparelho parecia um acessório de rádios militares, era imenso e custava 20 mil dólares. Exatamente, dólares. Prova evidente de que quem o possuía tinha cacife para pagar 20 mil dólares por um tijolo daqueles. Apesar de o preço diminuir, durante um bom tempo os celulares foram símbolos de status. Quem possuía um era pessoa de posses, se não rico pelo menos bem de vida. Vivi aqueles dias em que solenes bestas, ao chegar a um bar, esparramavam na mesa três sinais de seus padrões de consumo: as chaves do carro, o maço de cigarros e o celular. Na época, não havia a atual diversidade de tons de chamada. Quando um soava, todos corriam a empunhar o seu. Naquela época, um fenômeno curioso ocorreu no Chile. Motoristas que eram multados por estar falando ao celular, não estavam falando em celular nenhum. Usavam objetos que simulavam o celular, para aparentar status. O celular foi barateando. Quando até mesmo prostitutazinhas de rua passaram a andar com um na cintura, escassearam os celulares nas mesas de bar. Já não constituíam mais distintivos de classe social. Mesmo assim, o ridículo persiste. Seguidamente vejo três ou quatro pessoas, sentadas em uma mesa, cada uma conversando com alguém distante em algum outro lugar da cidade ou do país. Ora, não me passa pela cabeça ver pessoas reunidas para falar com pessoas distantes. Tampouco entendo ver pessoas que não conseguem falar ao telefone sem estar caminhando. Mal o telefone toca, saem a andar em círculos como moscas tontas. Que procurem uma posição melhor para ouvir, até que entendo. Para que caminhar? Já vi gente caminhando inclusive dentro de casa. Isso sem falar no absurdo de gesticular, gestos que o interlocutor não vê. Interrogada sobre a relação que as pessoas mantém com seus celulares, diz a socióloga francesa: - Quando se coloca a questão “você prefere perder sua carteira ou seu celular?” a grande maioria responde: a carteira. Porque se perco meu celular, estou morto. No fundo, o celular tornou-se nossa memória íntima. Mais útil que um canivete suíço, ele faz tudo: despertador, caderno de endereços, álbum de fotos... Ele serve também de cofre para jogos com as novas aplicações. Veja nos transportes: quando as pessoas se entediam, elas teclam no celular, como uma criança brinca com seus brinquedos. Ora, a humanidade viveu milênios sem celular. Agora, de repente, o aparelhinho virou complemento sem o qual você não existe. Uma espécie de extensão de sua personalidade. A decisão da Orange, pelo jeito, vai acabar constituindo item da Declaração dos Direitos Humanos. Mais um pouco e até clochard terá direito a um mobile. Me espanta que a Igreja Católica, eterna defensora dos tais de excluídos, ainda não tenha reivindicado celulares para os sem-teto. Mais dia menos dia, chegaremos lá.
EXTERMINADOR DO FUTURO REVOLUCIONA O SISTEMA DE ENSINO NA CALIFÓRNIA Teotônio Simões, editor e entusiasta do livro eletrônico, companheiro de trago e de charlas, há alguns anos me falava de um ambicioso projeto, a introdução do ebook no ensino secundário. Sua estratégia era tão simples como eficaz. A todo aluno seria dado um ebook. Dado o número de alunos do país, o custo do aparelho poderia ser insignificante para o governo. Os livros didáticos, em formato eletrônico, seriam distribuídos gratuitamente pela Internet. Caso o aluno não dispusesse de computador para baixá-los, poderia fazer download no computador de um colega, da escola ou mesmo das prefeituras. De quantos exemplares constituiria uma edição desde livro? Apenas um exemplar, aquele que seria distribuído pela rede. Custos mínimos de editoração, custo nenhum de papel, nem de distribuidores ou livrarias, muito menos de transporte. Seria a falência da máfia do livro didático, é claro. Mas solução definitiva para um país onde o livro em papel custa caro e a distribuição é complexa, muitos livros chegando às escolas às vezes com um mês de atraso. Lembro-me que apresentou seu projeto ao ministério da Educação e obviamente não teve retorno algum. Cá entre nós, me espanta que Teotônio continue vivo e em liberdade. Seu projeto subvertia completamente o mercado. O austríaco Arnold Schwarzenegger, ator de cinema e fisiculturista, Mr. Universo aos 22 anos e hoje governador da Califórnia, certamente veria com bons olhos o projeto de meu companheiro de bar. Leio no El País que a Califórnia lançou um plano revolucionário para encher as bibliotecas públicas de institutos e colégios com livros digitais gratuitos. - À medida que a crise orçamentária persiste devemos buscar formas inovadoras de economizar dinheiro e melhorar serviços – diz o Exterminador do Futuro -. A Califórnia foi construída sobre a inovação e estou orgulhoso da contínua liderança do Estado no desenvolvimento de tecnologias da educação. Esta iniciativa pioneira reduzirá custos, favorecerá a colaboração entre distintos centros e ajudará todo estudante californiano a ter acesso a uma educação de primeira classe. Segundo o jornal, há uma grande quantidade de travas políticas e burocráticas para iniciativas como esta. Atualmente já existe muito material gratuito em forma de texto digital na Internet. O principal desafio é compilá-lo, ordená-lo e editá-lo de modo a ser aprovado pelas exigências mínimas do Estado, já que a Califórnia possui uma das leis mais exigentes na hora de avaliar conteúdos para livros de texto. Por tais razões, Schwartzenegger decidiu limitar seu projeto ao setor de ciências e matemáticas. O que já é um início. Os livros eletrônicos devem estar disponíveis antes do outono deste ano. Em alguns países, as boas idéias vingam. No Brasil, morrem em uma mesa de bar.
Terça-feira, Maio 12, 2009
BEM-ESTAR PSICOLÓGICO NO REINO DO BUTÃO IGUAL 1-(0,25+0,03125+0,000625+0) = 1-0,281875 = 0,718 Nos anos 70, o isolado reino do Butão, espremido entre a China e a Índia, com apenas 47 mil km2 de extensão e 700 mil habitantes, conseguiu surpreender o mundo com a fórmula da Felicidade Interna Bruta, o FIB, que substituiria esse obsoleto índice de bem-estar do Ocidente, o Produto Interno Bruto, PIB. Na ocasião, o economista britânico Richard Layard, em Happiness: Lessons From a New Science, situou a felicidade no reino de Jigme Singye Wangchuck. Senhor de quatro mulheres, todas irmãs, Sua Majestade certamente desfrutava de um alto FIB. Em 2006, Sua Majestade renunciou unilateralmente ao poder, mas não pregou prego sem estopa. Cedeu o trono a seu filho, Jigme Khesar Namgyel Wangchuck, que foi coroado em novembro no novo papel de monarca constitucional. Sem poder executivo, mas monarca, com todas as regalias que isto implica. Vão-se os anéis, ficam os dedos. Três décadas depois, as autoridades butanesas voltam a calcar na tecla do FIB, idéia das mais simpáticas às esquerdas, que sempre detestaram a idéia do PIB, já que os mais altos PIBs estavam sempre no Ocidente capitalista e os mais baixos eram características do paraíso socialista. Coube ao New York Times recozer a matéria: “Enquanto o resto do mundo não consegue compreender esses tempos de infelicidade, um pequeno reino budista no alto das montanhas do Himalaia diz estar trabalhando em uma resposta. "Ganância, a insaciável ganância humana", disse o primeiro-ministro do Butão Jigme Thinley, descrevendo o que considera a causa da catástrofe econômica do mundo além das montanhas cobertas de neve. "O que precisamos é de mudança", ele disse na fortaleza branca onde trabalha. "Precisamos de felicidade interna bruta." Segundo o jornal, com a nova Constituição adotada no ano passado, programas do governo - da agricultura ao transporte e ao comércio exterior - devem ser julgados não só pelos benefícios econômicos que podem oferecer, mas também pela felicidade que produzem. O novo modelo de bem-estar butanês conta com quatro pilares, nove domínios e 72 indicadores de felicidade e pode ser expresso com precisão através de fórmulas matemáticas. O índice de FIB para bem-estar psicológico, por exemplo, inclui o seguinte: "uma soma das distâncias ao quadrado entre o índice ideal e o real de quatro indicadores de bem-estar psicológico. Aqui, ao invés da média, a soma das distâncias ao quadrado é calculada porque os pesos somam 1 em cada dimensão." O que dá: bem-estar psicológico = 1-(0,25+0,03125+0,000625+0) = 1-0,281875 = 0,718. Simples assim. Neste domínio, os indicadores incluem a freqüência das preces e da meditação, e de sentimentos de egoísmo, inveja, calma, compaixão, generosidade e frustração, bem como pensamentos suicidas. "Estamos até mesmo decompondo as horas do dia: quanto tempo uma pessoa passa com a família, no trabalho e assim por diante", disse Kinley Dorji, secretário da Informação e Comunicação. O pequeno reino se dá inclusive ao luxo de ter uma Comissão da Felicidade Interna Bruta. Segundo seu secretário, Karma Tshiteem, a cada dois anos esses indicadores são reavaliados através de um questionário nacional. O Ocidente materialista se preocupa demais em comer bem, morar decentemente, viajar, com educação, boa saúde, bem-estar social. Daí a crise que assola o planeta. Para os economistas butaneses, o que realmente importa é a avaliação de realidades inefáveis, como preces e meditação, sentimentos de egoísmo, inveja, calma, compaixão, generosidade e frustração, bem como pensamentos suicidas. A fórmula é paradisíaca. Mas não se entusiasme. Não é fácil visitar o país onde a felicidade mora. Se você quiser constatar in loco o 0,718 de bem-estar psicológico, lembre-se que só é permitida a entrada de pessoas autorizadas por Sua Majestade ou pelo ministério de Turismo. Essas pessoas devem efetuar o depósito de cerca de US$ 200 por dia a favor do governo. (A prefeitura de uma cidade decadente como Paris, por exemplo, cobra 1 euro por dia para a cidade ser visitada). Meditação e preces diárias são recomendáveis. Mas dólares capitalistas melhor ainda. Felicidade mesmo custa caro.
Segunda-feira, Maio 11, 2009
BOTOTERAPIA, NOVA VIGARICE MANAUARA Em janeiro de 2004, a ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, sancionou lei que permitia a oferta, na rede de saúde, de "terapias naturais" não reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina, como aromaterapia e cromoterapia, fitoterapia (tratamento com plantas), terapia floral, geoterapia (terapia com terra, argila, barro), e até a iridiologia. O doente – e especialmente o doente em estado grave – é pessoa fragilizada, disposta a apostar em qualquer fio de esperança. Ainda há pouco, comentei o caso da atriz Mara Mazan, que fazia quimioterapia no hospital Sírio-Libanês para tratar de um câncer de pulmão. Apesar de usufruir de medicina de ponta, talvez a mais avançada do continente, e de uma equipe médica altamente especializada, atribuía sua cura a uma cirurgia espiritual. - Fui curada somente com oração. O nódulo desapareceu do meu peito (...). Antes de eu tirar o tumor de meu pulmão, eu já havia sido operada espiritualmente pelo Doutor Fritz (incorporado por Edson Queiroz), indicado pela minha amiga e cantora Alcione. Os tumores que existiam em meu pulmão diminuíram consideravelmente e, quando a equipe do médico Riad Yunis fez a retirada do tumor maligno, não houve nenhum tipo de complicação. Quanto mais inculto o doente, mais apela a crendices inócuas. Se bem que disto não escapam nem mesmo pessoas que, por dever de ofício, deveriam ser cultas. Conheço professores universitários que acreditam em florais de Bach e até mesmo um doutor em Física que já apelou às tais de cirurgias espirituais. Tenho uma amiga, por exemplo, com dois cursos universitários, que acredita no PT, na psicanálise e no Feng Shui. Quer dizer, universidade não vacina ninguém contra vigarice alguma. Por falar em vigarices, ao que tudo indica surgiu mais uma, desta vez no Estado de Amazonas, que chegou a merecer reportagem de página inteira, com ares de ciência, ontem, no Estado de São Paulo. É a bototerapia, indicada para cânceres, leucemia, síndrome de Down, hidrocefalia ou más formações genéticas. De repente, vai ver que cura até gripe suína. A nova – como direi? - terapia é um achado do fisioterapeuta Igor Simões, de um veterinário especialista em animais amazônicos, Anselmo Da Fonseca, de uma bióloga especialista em botos, Vera da Silva, ambos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e de uma médica hematologista do Instituto de Hematoterapia do Amazonas (Hemoan), Socorro Sampaio, que acompanha mensalmente à bototerapia pelo menos dez crianças em tratamento de graves problemas, como leucemia. Já tínhamos a equinoterapia, técnicas orientadas para o tratamento de pessoas com incapacitações, nas quais o elemento central é o cavalo. É também denifida como uma “psicoterapia integrativa supraparadigmática, com estrito rigor sistêmico, ao integrar a equipes interdisciplinares familiares, voluntários e o cavalo como agentes de câmbio, sob um contexto humanista, no qual a característica principal será a mudança de setting terapêutico e os princípios do humanismo (…) junto à participação ativa de um cavalo, que intervirá sob o paradigma inconsciente como figura transicional de apego e arquetípica como tal”. Ante tal palavreado, não há leigo que duvide tratar-se de boa ciência. A nova terapia cavalar tem diversos ramos, entre eles a equinoterapia social, “disciplina eqüestre que aproveita a relação afetiva que se estabelece com o cavalo, para ajudar pessoas com problemas de adaptação social a superar seus conflitos e assim integrar-se de forma normal na sociedade”. Dizer que fiz equinoterapia durante toda minha infância e não sabia! Terá sido devido a tal prática que hoje sou um homem saudável e perfeitamente integrado de forma normal à sociedade. Mas falava da bototerapia. O projeto tem parceria com o hotel de selva Ariaú, que uma vez por mês banca a viagem de mais de uma hora até o local onde vivem os botos, além das refeições do grupo. "O problema é que não temos como trazer mais do que dez crianças e só uma vez por mês", diz Simões. Segundo a hematologista Socorro Sampaio, "depois que começam a participar do projeto, as crianças passam a se alimentar melhor, ficam mais alegres, confiantes e com mais auto-estima. Isso tudo ativa seu sistema imunológico". Ora, que crianças se alegrem brincando com botos é perfeitamente prevísivel. Quem não se alegra ao nadar com aqueles bichinhos afáveis e brincalhões? Daí a auto-estima curar câncer vai uma longa distância. Não está longe o dia em que pacientes atribuirão suas curas aos botos e não à quimioterapia. O que os “botólogos” estão fazendo, no fundo, é promover o turismo ao habitat natural dos botos, os rios amazônicos. E turismo de luxo, pois bototerapia não será para o bolso de qualquer mortal. Precisamos valorizar o produto nacional. Se a Disneylândia tem golfinhos, em falta de golfinhos vamos vender nosso peixe. E com uma aura de cura médica. Mais um pouco e pais de crianças deficientes estarão exigindo de seus Estados, via Ministério Público, o pagamento de terapias no hotel Ariaú. Os chineses ainda não abriram seus olhinhos, mas bem que poderiam desenvolver uma pandoterapia para promover o turismo nacional. Qual criança não se tornaria mais alegre brincando com pandas? Não é de duvidar que dentro em breve tenhamos também um pinguinoterapia, promovida pela Argentina e Chile. Fé sempre dá lucro, os sacerdotes que o digam. Só falta o Conselho Federal de Medicina cair nessa.
Domingo, Maio 10, 2009
DIFERENÇA MORAL ENTRE RAPOSA VELHA CATARINENSE E SENADORA HELOISINHA DOS AGRESTES IGUAL A SETE Há uns bons três anos, o capitão-de-mato Tarso Genro, então ministro das Relações Institucionais, comparou o comportamento político da senadora Heloísa Helena, então candidata do PSOL a presidente da República, ao do também senador Jorge Bornhausen, então presidente nacional do PFL, hoje DEM. A notícia é do jornal O Globo. Como se opunham ao ProUni, o velho bolchevique afirmou que ambos senadores representavam uma mesma posição, sendo que o senador catarinense era de direita e a senadora de Alagoas, da ultra-esquerda do país. Ele, Tarso Genro, o defensor de terroristas e mandalete de Fidel Castro, assumia a clássica posição aristotélica do in medium virtus. — O debate que está se processando sobre o ProUni demonstra uma identidade muito grande do PFL coligado com o PSDB, representado pelo senador Bornhausen, com a senadora Heloísa Helena. Heloísa Helena é radicalmente contra o ProUni e quer terminar com ele, um programa que vem favorecendo 220 mil jovens originários dos setores mais pobres da população. E o senador Bornhausen tem uma ação no STF de inconstitucionalidade, para terminar com o ProUni — disse Tarso. A reação da senadora foi fulminante. O velho bolchevique foi chamado de moleque de recados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Perguntada se não temia chamar um ministro de empregadinho, como já fizera antes, Heloísa Helena respondeu que tem muito respeito pelos serviçais do Congresso Nacional. — Eu chamo os serviçais do Congresso Nacional de excelência. Dou beijo neles, que são meus amigos queridos. Respeito muito e tenho carinho por eles, que limpam os banheiros. Não vou bater boca com moleque de recado do presidente. Tarso que vá arranjar um trabalho para fazer e me tirar da cabeça dele porque ele está com idéia fixa com Heloisinha — disse. Os extremos se tocam. A intuição de Tarso Genro vem agora à tona com a farra das passagens aéreas. Corrupção é vício mais forte que o tabagismo, persiste mesmo após o exercício do poder. No último desdobramento do festival de imoralidades do Congresso, descobriu-se que a cota de passagens aéreas de pelo menos 11 senadores foi usada após o término de seus respectivos mandatos. A Casa bancou nada menos que 291 vôos para ex-parlamentares, seus familiares, amigos e colaboradores entre fevereiro de 2007 e novembro de 2008. Mesmo depois de mortos, os mandatários continuaram financiando vôos. Bilhetes foram retirados após a morte de dois deles: Ramez Tebet (PMDB-MS) e Jefferson Péres (PDT-AM). Entre estes impolutos próceres estão a velha raposa catarinense, o ex-senador Bornhausen, com 13 vôos, e a ex-senadora de Pão de Açúcar, Alagoas, a Heloisinha, com seis vôos, sendo que três destes foram usados pelo filho da mãe alagoana. Depois das vestais Pedro Simon, Fernando Gabeira e Eduardo Suplicy, o cordão dos impolutos cada vez aumenta mais. Entrou agora na roda a integérrima presidente nacional do integérrimo PSOL. Que hoje reagiu com fúria inusitada, em texto cheio de maiúsculas e caixas-altas - para enfatizar sua indignação? -, no site do partido: “Tenho a minha CONSCIÊNCIA ABSOLUTAMENTE TRANQUILA pois TUDO que foi feito durante o meu HONRADO Mandato de Senadora está TOTALMENTE de acordo com a Legalidade Institucional vigente. NUNCA fiz nenhuma Ilegalidade ou Imoralidade na minha vida Pública ou Privada. Repito NUNCA!! NÃO faço parte de nenhum dos Bandos Políticos de Alagoas e Brasília que fazem orgias, políticas e sexuais, com dinheiro público roubado. NUNCA patrocinei passagens aereas para Marginais que viajam para articular o Propinódromo da Roubalheira do Eixo Alagoas/Brasília. “USEI as passagens TOTALMENTE de acordo com o que estabelecia a Legislação Vigente. Repito TOTALMENTE de acordo com a Legislação vigente! SE eu gostasse de safadeza política eu teria uma Aposentadoria Parlamentar de 8 mil reais, e abri mão sem pestanejar por não reconhecer legalidade no fato. NUNCA usei o Plano de Saúde de Ex-Senadora como tenho direito exatamente por não reconhecer legalidade no fato. E para encerrar, Desafio o Jornal que deu manchete com o meu nome a publicar como foram utilizadas TODAS as passagens de TODOS os Deputados Federais e SENADORES de Alagoas". Em verdade, ninguém está contestando a legalidade institucional vigente. Todos os senadores e deputados voadores sempre consideraram “abissolutamente” - como costuma dizer a alagoana - legal voar, não apenas sozinhos como também com seus familiares, às custas do contribuinte. Uma outra vestal do PSOL, a gaúcha Luciana Genro, por sinal filha do moleque de recados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, patrocinou passagens para o também integérrimo delegado de polícia Protógenes Queiroz. As alegres revoadas para Paris, Madri, Nova York ou Miami foram consideradas tão legais que todos os ilustres turistas e seus queridos foram anistiados pela Casa ... da Mãe Joana. O que se questiona, em verdade, é a moralidade de tais turismos. É curioso constatar que a senadora, que nunca usou o Plano de Saúde a que tem direito exatamente por não reconhecer legalidade no fato, reconhece tranqüilamente a legalidade do uso de passagens após o término de seu mandato, inclusive para o filhinho adorado. Mais do que imaginava o moleque de recados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, outras obscuras coincidências unem a senadora dos Agrestes à velha raposa barriga-verde. Mas há sutil diferença moral entre ambos. O ex-senador usou 13 passagens. A ex-senadora, seis. A diferença é sete. No afã de responder às acusações que a equiparam aos demais senadores voadores, Heloisinha talvez não tenha percebido que, ao afirmar ter usado as passagens para o filho totalmente de acordo com o que estabelecia a Legislação Vigente - "Repito TOTALMENTE de acordo com a Legislação Vigente!" -, está absolvendo todos seus demais pares ou ímpares que usaram suas cotas para turismo familiar. Ou, em suas palavras, "que fazem orgias, políticas e sexuais, com dinheiro público roubado".
Sábado, Maio 09, 2009
PAPA PUSILÂNIME VISITA JORDÂNIA De novo, Sua Santidade. Quanto mais tenta desculpar-se de uma bobagem passada, mais bobagens comete. A barca de Pedro, em seu papado, está sendo conduzida por uma espécie de capitão ébrio e de passo incerto. Seu comportamento não é de homem maduro, mas de menino que cometeu travessura e agora quer redimir-se ante a autoridade paterna. Pelo jeito, até agora não superou o trauma de ter pronunciado uma verdade inconveniente em setembro de 2006, quando citou uma frase dirigida a um estudioso persa do imperador bizantino Manuel II Paleólogo, (1391-1425): "Mostre-me então, o que Maomé trouxe de novo, e ali só encontrará coisas más e desumanas, como esta, de que ele determinou, que se propague através da espada a fé que ele prega". Seis séculos depois, a frase ainda mexe com a sensibilidade dos brutos. Os protestos do mundo muçulmano não se fizeram esperar na mídia internacional. Não contra o autor da frase, que afinal está morto e bem morto. Sem falar que tinha toda razão. Mas contra Bento XVI, como se fosse crime citar um personagem histórico. Para o Islã é simples: se a História é inconveniente, apague-se a História. O papa engoliu a reprimenda e até hoje não perde ocasião de converter-se ao politicamente correto. Em sua primeira viagem ao Oriente Médio, antes mesmo de desembarcar na Jordânia, afirmou nutrir profundo respeito pelo Islã e esperar que o poder da Igreja Católica possa contribuir para os esforços de paz entre israelenses e palestinos. "Minha visita à Jordânia me dá a oportunidade de expressar meu profundo respeito pela comunidade muçulmana", afirmou. Em um breve discurso, também elogiou o governo moderado de Abdullah II pela "promoção de um melhor entendimento das virtudes proclamadas no Islã". Quais virtudes? A sharia, a ausência de liberdade de expressão, a poligamia, a lapidação de virgens e adúlteras, a mutilação física como punição penal, a ablação do clitóris e infibulação da vagina, a opressão da mulher? Ou a ditadura como forma de governo e a guerra como método de expansão? Respeitar o Islã significa também respeitar a doutrina de um cameleiro analfabeto e guerreiro, que tinha onze mulheres, entre elas uma criança de nove anos. Respeitar também seu livro, que afirma com todas as letras: “Quando encontrardes com os infiéis, matai-os”. Ou ainda: “Fazei guerra, com sangue e extermínio, a todos que não crêem em Deus”. Se bem que esta última prescrição deve ser muito simpática a uma Igreja que por séculos massacrou e queimou na fogueira os que não criam em seu deus. Todos estes “valores” Sua Santidade aceita, para escusar-se de ter dito, há apenas três anos e pouco, a propósito de Manuel Paleólogo: “Após ter atacado deste jeito, o imperador argumenta, então, pormenorizadamente, porque a propagação da fé através da violência é absurda. Ela está em contradição com a essência de Deus e da alma. ‘Deus não tem prazer no sangue’, diz ele, e agir de forma irracional contraria a essência de Deus. A fé é fruto da alma, não do corpo. Quem, portanto, pretende conduzir alguém à fé, precisa da habilidade do bom discurso e de um raciocínio correto, mas não de violência e ameaça... Para convencer uma alma sensata, necessita-se não de seu braço, não de instrumentos de agressão nem de outros meios pelos quais se pode ameaçar alguém de morte ..." Na ocasião, o porta-voz da Irmandade Muçulmana da Jordânia, Jamil Abu-Bakr, afirmou que a bancada do grupo no Parlamento boicotaria a visita pelo fato de o papa não ter atendido sua exigência de desculpar-se publicamente pelo episódio. Hoje, milhares de pessoas entoam o refrão "Benedetto, benvenutto en Jordania" . Como Bento XVI agora admite tacitamente que a propagação da fé através da violência não é absurda, nem contradiz a essência de Deus e da alma, tudo são flores em sua visita à Jordânia. Padres, não importa a qual religião pertençam, sempre se entendem entre si. No altar, com a mesma nonchalance que Lula recebe um boné da guerriha católicomaoísta do MST, Bento recebeu uma kefia vermelha e branca, um dos símbolos do país. Mas também símbolo da intifada e marca registrada de Yasser Arafat. O público aplaudiu quando o papa encobriu brevemente seus ombros com o lenço emblemático do terror. Mais dignidade tiveram seus anfitriões, que pelo menos não se submeteram a empunhar o símbolo da tortura que para os cristãos é sagrado, a cruz. Hoje, em Amã, Bento disse que sua visita ao Oriente Médio era uma lembrança do "vínculo inseparável" que existe entre a Igreja Católica e o povo judeu, uma relação que está estremecida durante o seu pontificado. Foi gentil. Esta relação está estremecida há quase dois mil anos, quando os judeus mandaram Cristo para a cruz. Apesar de o fato estar expresso com todas as letras nos Evangelhos, João Paulo II, em seu papado, inocentou os judeus pela morte do deus encarnado. Os judeus, pelo menos, foram mais coerentes. Jamais se desculparam pelo fato de os sacerdotes do Sinédrio terem enviado o judeu herético para o Calvário. O rígido pastor alemão, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – eufemismo contemporâneo para Inquisição -, com fama de possuir forte personalidade, começou sua peregrinação demonstrando pusilanimidade e falta de nortes. Nos próximos dias, mais mancadas nos aguardam nas primeiras páginas dos jornais.
Sexta-feira, Maio 08, 2009
SERRA MOSTRA OS DENTES Entrou ontem em vigor a lei antifumo, lei que começa ferindo as disposições de uma lei maior, a Constituição, mas que servirá para manter nas primeiras páginas dos jornais o nome de José Serra, neste ano pré-eleitoral. A lei bane o tabaco de bares, restaurantes, casas noturnas, empresas e salões de festa de condomínios e acaba com os fumódromos. No primeiro flagrante, o estabelecimento terá que pagar uma multa de R$ 792,50. Se reincidir, R$ 1.585. Na terceira vez, a casa ficará fechada por dois dias. O estabelecimento será interditado por 30 dias caso ocorra uma quarta autuação. As multas contra os proprietários infratores começarão a ser aplicadas em 5 de agosto. Mas atenção: nenhum fumante será punido. Só serão multados os proprietários dos locais onde alguém fuma. Quer dizer, você comete a infração e quem paga o pato é o dono da casa que você freqüenta. Bares e restaurantes poderão ser multados se forem verificados cinzeiros ou tocos de cigarro jogadas no chão, no lixo ou em vasos sanitários. O que propiciará um oportuno expediente a quem quer que tenha alguma desavença com um proprietário de bar. Ou mesmo a moleques que queiram levar uma casa à falência. Basta chegar lá e jogar discretamente algumas bitucas no chão, no lixo ou nos vasos sanitários e a casa será multada. Na quarta ocorrência, fechamento por um mês, o que leva qualquer estabelecimento à falência. Pergunta que fica no ar: caso deputados insistam em fumar na Assembléia e reincidam na transgressão, a Casa será fechada por 30 dias? Infelizmente, creio que esta benção não nos será dada. Segundo os jornais, a multa poderá chegar a R$ 3 milhões. O governo espera que as penas fiquem entre R$ 790 e R$ 3 mil. Tudo dependerá de "análises sobre a saúde financeira dos locais". O valor dobra em caso de reincidência e varia segundo "o faturamento da empresa". Na prática, isso significa que bares de esquina terão multas diferentes das baladas de grande porte. Numa rave, por exemplo, se forem encontrados indícios de tabaco, a casa poderá sofrer multas significativas. Quanto à maconha, ecstasy, cocaína, sinta-se à vontade que o governo nada tem a ver com isso. Tampouco temam ser multados os que fumam crack a céu aberto, todos os dias, na Cracolândia. O que não pode é fumar em ambientes fechados. Associações e sindicatos do ramo já se mobilizam para contestar juridicamente a lei antifumo. Há quem julgue ser o candidato tucano à Presidência uma alternativa aos desmandos e arbítrio do PT. O governador, tido como um democrata, acaba de mostrar ao que vem: "Alguns espíritos de porco vão fazer isso (recorrer). Não tenha dúvida", disse Serra, após cerimônia para assinatura da lei, no Hospital do Câncer. Preparem-se os brasileiros para o que está por vir. Para Serra, velho bolche que ainda não perdeu seus reflexos stalinistas, constitui espírito de porco recorrer contra uma lei. Que me lembre, nem a ditadura militar ousou tanto.
Quinta-feira, Maio 07, 2009
CONTRIBUINTE PAGA CARNES JOVENS PARA BODES VELHOS Mulher que namora deputado ou senador deveria ser marcada na testa com ferro em brasa com aquela palavrinha infamante que mulher só gosta de ouvir na cama – escrevi na crônica anterior. Sem querer, deixei no ar um mal-entendido. Tanto que um leitor, que me conhece de outras andanças, objetou: - Por que tanto rancor neste teu coração? "Mulher que namora deputado ou senador deveria ser marcada ...". Tu sempre defendeu as putas. Por que cuspir no prato que comeste? Da minha parte, tenho uma outra sugestão: fazer como na Segunda Guerra, quando as amantes dos oficiais e soldados alemães tiveram suas cabeças raspadas. Perdão, leitores! Sempre defendi as profissionais que exercem honestamente a profissão. E continuarei defendendo. Foram meu refrigério em meus dias de juventude, sempre as tratei com carinho e fiz entre elas boas amigas. Comentei inclusive há alguns meses o reencontro com uma delas, uma de minhas diletas, que eu não via há uns bons trinta anos. A última vez que a vi foi em um de seus aniversários, em Porto Alegre. Terá sido em abril ou maio de 77. Ela estava linda, toda em patchwork. Levei-lhe um ramalhete de flores, ela se desatou em lágrimas. Também estava lá todo o bordel e boa parte de minhas diletas. De repente, surgiu um fotógrafo. Os machos presentes, salvo um ou dois, começaram a perguntar “que horas são?” e foram dando no pé. Eu fiquei. Ela desafiou-me: tiramos uma foto cortando o bolo? Claro, por que não? Mais uma foto abraçadinho comigo? Vamos lá. Me dá um beijo? Dou. Eu tinha outros compromissos naquela noite, mas não houve como sair de lá. Ela não permitiu. Chorou comigo quase toda a noite, nunca se sentira tão respeitada, o jornalista conhecido aceitando ser fotografado com uma mulher da noite. Ora, aquilo só me honrava. Até hoje guardo com carinho aquelas fotos. Um grupo de clientes lhe financiava um curso de Direito. Formou-se em Direito, advogou, já fez duas viagens à Europa e uma aos Estados Unidos, viagens daquelas tipo conhecer 15 cidades em dez dias, é verdade. Mas, enfim, viagem. Melhor que nada. Por estas, que ganham honestamente suas vidas, sempre tive respeito. Quanto ao que chamo de putas de Estado, minha mais profunda repulsa. Elas são pagas não com o dinheiro do cliente, mas com dinheiro do contribuinte. Mais ainda, ficariam ofendidíssimas se as considerássemos como tais. Estão em todas as repartições públicas, em geral próximas às chefias. Quanto mais alto o nível de poder, maior a aglomeração delas. Amigos que freqüentam Brasília me contam que um traseiro bem feito é moeda de alta liquidez nos corredores do Planalto. Mais ainda, há muitos macróbios endinheirados que – não dando mais conta do recado - as usam apenas como ornamento. Sempre dá prestígio estar ao lado de uma mulher bonita. Para estas profissionais, até que é um conforto. São bem pagas para não fazer nada, sequer precisam manter contato com corpos já flácidos. Há também as que se prostituem pelo casamento. Se o marido é rico, pouco importa o afeto. Também é algo que abomino, é como se fosse exercício irregular da profissão. Mas passa, afinal quem está pagando é o marido. No caso do impoluto senador, quem pagou as mordomias de sua querida fomos nós. Já não basta sustentarmos suas mordomias, temos ainda de financiar carne jovem para bodes velhos.
Quarta-feira, Maio 06, 2009
RÉQUIEM PARA UMA DEUSA Mais uma vestal é flagrada na farra das passagens aéreas. Desta vez foi o impoluto senador Eduardo Suplicy, aquele mesmo que durante longos meses foi publicamente humilhado por um Don Juan arrabalero, que seduziu sua mulher, usou-a como quis, conseguiu uma prebenda no governo por obra do PT e, ao vê-la derrotada na candidatura à prefeitura de São Paulo, jogou-a ao lixo como um bagaço chupado. Yo no creo en cuernos, pero que los hay, hay! Os cornos – costumo afirmar - são como os deuses, só existem para os que neles crêem. Mas quem neles creia é o que não falta, como também não falta quem creia em deuses. Charles Fourier, por exemplo, pensador utópico do século XVIII, em sua crítica à família monogâmica, vê a cornificação como conseqüência natural e necessária do casamento. Enumera os 64 tipos de corno que conhece, relação que chegará a 144 em obra posterior, abrangendo, pela ordem do coroamento, desde o corno potencial ao corno póstumo. Se em um casamento há consenso sobre relações paralelas, o conceito perde o sentido. Aparentemente, este era o caso do casal. Mas a árdega sexóloga, dadas as posições que ambos ocupavam no poder, bem que podia pelo menos esperar o divórcio para cortar tangos com o compadrito argentino. Seja como for, o senador foi cordato e representou com brio aquele papel que Camilo José Cela, em seu Rol de Cornudos, define como corno amansado. Não confundir com o manso. Também atende por catequizado ou convertido. É o que começou carreira esbravejando, mas acabou se acalmando com o andar da carroça. Ao chegar à maturidade, costuma ser encantador. Ou talvez se tratasse do corno luminoso. Ou fosforescente. É aquele que tem luz própria, como as estrelas e, diferentemente dos astros, nele a cornadura brilha como a auréola dos santos mártires. É espécie decorativa, mas de escassa utilidade pública. Independentemente de tais ornamentos, o senador – apesar de seu raciocínio lento – sempre gozou da fama de homem probo. Pelo menos até hoje, quando a Folha de São Paulo noticia que o probo homem não resistiu às tentações da PLANALTUR e cedeu cota aérea à namorada em viagens pelo país e a Paris, Meca predileta de nossos representantes no Congresso. Ela era linda, e suponho que ainda seja. Desfilava como uma deusa nas madrugadas de trabalho pelos corredores da Folha de São Paulo. Além de linda, redatora ágil e inteligente, a prova definitiva de que mulher bonita pode também ser competente. Tinha um jeito de andar insólito, era como se caminhasse na ponta dos pés, o que lhe conferia estranho charme. Colírio para nossos olhos cansados nas noites de pescoção, era cultuada em silêncio pelos redatores da noite. Antes de ir adiante, explico o que é pescoção. É a noite de sexta para sábado, quando os jornalistas entram madrugada adentro trabalhando, para adiantar o jornal de domingo. Quem mereceria seus encantos? – nos perguntávamos. Sua demissão provocou uma cólera surda na redação. Foi despedida após um pescoção, lá pelas quatro da matina. Seu sangue foi sugado até a última gota. A suposição que correu por entre os computadores foi que talvez tivesse resistido às propostas de algum chefete do jornal. Por incompetência não poderia ter sido. Minha frustração surgiu com seu anunciado namoro com o fosforescente senador. Como podia nossa musa unir-se a um mortal a quem os deuses haviam sido tão avaros? Correu na época a versão de que tudo seria uma jogada política do Supremo Apedeuta, para levantar o moral abalado do senador com a perfídia da percanta paulistana. Mesmo assim sendo, ficava no ar a pergunta: por que teria uma mulher independente de submeter-se a um teatrinho ridículo para preservar a vaidade de um marido humilhado? O poder não perdoa, corrompe até mesmo os incorruptíveis. Se todos fazem, se sempre se fez – como disse o presidente da República – por que não faria eu? O senador não deve ter visto mal algum em fazer o que faziam tanto o presidente da Câmara, Michel Temer, como os impolutos Pedro Simon e Fernando Gabeira. Nada mais adequado como presente à amada do que alguns dias na Cidade Luz. Suplicy informou à Folha que "a passagem por Paris fazia parte de uma viagem maior, para a China, feita a convite do governo daquele país. O trecho Paris-Pequim foi pago pelas autoridades chinesas. "Mônica cumpriu atividades relacionadas ao meu trabalho: ajudou na elaboração de documentos, acompanhou minhas entrevistas e tirou as fotos que foram publicadas no meu livro, Eduardo Matarazzo Suplicy - Um Notável Aprendizado - A Busca da Verdade e da Justiça do Boxe ao Senado." Indagado por que devolveu o dinheiro que bancou a viagem, se Mônica o ajudara no evento oficial na China, ele disse: "É verdade que ela ajudou e ajudou muito. Não precisaria, mas fiz a restituição". Generoso, o senador. Com o dinheiro do contribuinte, é verdade, mas generoso. Sem falar que considera perfeitamente normal que “o meu, o seu, o nosso” sirva para financiar uma ode a seu ego. Em setembro de 1968, em um exaltado discurso no Congresso, o deputado Márcio Moreira Alves pediu o boicote aos militares, em protesto à repressão de estudantes na Universidade de Brasília. Entre outras coisas, conclamou as mulheres do país a uma greve de sexo, ao melhor estilo de Lisístrata: “Este boicote pode passar também — sempre falando de mulheres — às moças, àquelas que dançam com os cadetes e namoram os jovens oficiais. Seria preciso fazer hoje no Brasil, com que as mulheres de 1968 repetissem as paulistas da Guerra dos Emboabas e recusassem a entrada à porta de sua casa àqueles que vilipendiam a Nação. Recusassem em aceitar aqueles que silenciam e, portanto, se acumpliciam. Discordar em silêncio pouco adianta. Necessário se torna agir contra os que abusam das Forças Armadas, falando e agindo em seu nome”. Seu discurso gerou uma crise que redundou no AI-5. Necessário se torna agir hoje contra aqueles que usam e abusam do dinheiro público para fazer turismo nas prestigiosas capitais da Europa e Estados Unidos com suas piguanchas. Redunde no que redunde. Mulher que namora deputado ou senador deveria ser marcada na testa com ferro em brasa com aquela palavrinha infamante que mulher só gosta de ouvir na cama. No que a mim diz respeito, a musa da Folha morreu. Requiescat in pace, dona Mônica.
MAHMOUD AHMADINEJAD, O RACISTA Êxodo 23:23 - Porque o meu anjo irá adiante de ti, e te introduzirá na terra dos amorreus, dos heteus, dos perizeus, dos cananeus, dos heveus e dos jebuseus; e eu os aniquilarei. (...) Enviarei o meu terror adiante de ti, pondo em confusão todo povo em cujas terras entrares, e farei que todos os teus inimigos te voltem as costas. Também enviarei na tua frente vespas, que expulsarão de diante de ti os heveus, os cananeus e os heteus. Levítico, 26:29 - E comereis a carne de vossos filhos e a carne de vossas filhas. Destruirei os vossos altos lugares, derrubarei as vossas imagens do sol, e lançarei os vossos cadáveres sobre os destroços dos vossos ídolos; e a minha alma vos abominará. Reduzirei as vossas cidades a deserto, e assolarei os vossos santuários, e não cheirarei o vosso cheiro suave. Assolarei a terra, e sobre ela pasmarão os vossos inimigos que nela habitam. Espalhar-vos-ei por entre as nações e, desembainhando a espada, vos perseguirei; a vossa terra será assolada, e as vossas cidades se tornarão em deserto. Números 31:7 - E pelejaram contra Midiã, como o senhor ordenara a Moisés; e mataram a todos os homens. Com eles mataram também os reis de Midiã, a saber, Evi, Requem, Zur, Hur e Reba, cinco reis de Midiã; igualmente mataram à espada a Balaão, filho de Beor. Também os filhos de Israel levaram presas as mulheres dos midianitas e os seus pequeninos; e despojaram-nos de todo o seu gado, e de todos os seus rebanhos, enfim, de todos os seus bens; queimaram a fogo todas as cidades em que eles habitavam e todos os seus acampamentos; tomaram todo o despojo e toda a presa, tanto de homens como de animais; e trouxeram os cativos e a presa e o despojo a Moisés, a Eleazar, o sacerdote, e à congregação dos filhos de Israel, ao arraial, nas planícies de Moabe, que estão junto do Jordão, na altura de Jericó. Saíram, pois, Moisés e Eleazar, o sacerdote, e todos os príncipes da congregação, ao encontro deles fora do arraial. E indignou-se Moisés contra os oficiais do exército, chefes dos milhares e chefes das centenas, que vinham do serviço da guerra, e lhes disse: Deixastes viver todas as mulheres? Eis que estas foram as que, por conselho de Balaão, fizeram que os filhos de Israel pecassem contra o Senhor no caso de Peor, pelo que houve a praga entre a congregação do Senhor. Agora, pois, matai todos os meninos entre as crianças, e todas as mulheres que conheceram homem, deitando-se com ele. Mas todas as meninas, que não conheceram homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós. Números 31:25 - Disse mais o Senhor a Moisés: Faze a soma da presa que foi tomada, tanto de homens como de animais, tu e Eleazar, o sacerdote, e os cabeças das casas paternas da congregação; e divide-a em duas partes iguais, entre os que, hábeis na guerra, saíram à peleja, e toda a congregação. E tomarás para o Senhor um tributo dos homens de guerra, que saíram à peleja; um em quinhentos, assim dos homens, como dos bois, dos jumentos e dos rebanhos; da sua metade o tomareis, e o dareis a Eleazar, o sacerdote, para a oferta alçada do Senhor. Mas da metade que pertence aos filhos de Israel tomarás um de cada cinqüenta, tanto dos homens, como dos bois, dos jumentos, dos rebanhos, enfim, de todos os animais, e os darás aos levitas, que estão encarregados do serviço do tabernáculo do Senhor. Fizeram, pois, Moisés e Eleazar, o sacerdote, como o Senhor ordenara a Moisés. Ora, a presa, o restante do despojo que os homens de guerra tomaram, foi de seiscentas e setenta e cinco mil ovelhas, setenta e dois mil bois,e sessenta e um mil jumentos;e trinta e duas mil pessoas, ao todo, do sexo feminino, que ainda se conservavam virgens. Deuteronômio 32:19 - Vendo isto, o Senhor os desprezou, por causa da provocação que lhe fizeram seus filhos e suas filhas;(...) Males amontoarei sobre eles, esgotarei contra eles as minhas setas. Consumidos serão de fome, devorados de raios e de amarga destruição; e contra eles enviarei dentes de feras, juntamente com o veneno dos que se arrastam no pó. Por fora devastará a espada, e por dentro o pavor, tanto ao mancebo como à virgem, assim à criança de peito como ao homem encanecido. Josué 6:20 - Gritou, pois, o povo, e os sacerdotes tocaram as trombetas; ouvindo o povo o sonido da trombeta, deu um grande brado, e o muro caiu rente com o chão, e o povo subiu à cidade, cada qual para o lugar que lhe ficava defronte, e tomaram a cidade. E destruíram totalmente, ao fio da espada, tudo quanto havia na cidade, homem e mulher, menino e velho, bois, ovelhas e jumentos. Juízes 21:10 - Pelo que a congregação enviou para lá doze mil homens dos mais valorosos e lhes ordenou, dizendo: Ide, e passai ao fio da espada os habitantes de Jabes-Gileade, juntamente com as mulheres e os pequeninos. Mas isto é o que haveis de fazer: A todo homem e a toda mulher que tiver conhecido homem, totalmente destruireis. E acharam entre os moradores de Jabes-Gileade quatrocentas moças virgens, que não tinham conhecido homem, e as trouxeram ao arraial em Siló, que está na terra de Canaã. I Reis 18:22 - Então disse Elias ao povo: Só eu fiquei dos profetas do Senhor; mas os profetas de Baal são quatrocentos e cinqüenta homens. (...) Disse-lhes Elias: Agarrai os profetas de Baal! que nenhum deles escape: Agarraram-nos; e Elias os fez descer ao ribeiro de Quisom, onde os matou. II Crônicas 14:12 - E o Senhor desbaratou os etíopes diante de Asa e diante de Judá; e os etíopes fugiram. Asa e o povo que estava com ele os perseguiram até Gerar; e caíram tantos dos etíopes que já não havia neles resistência alguma; porque foram quebrantados diante do Senhor, e diante do seu exército. Os homens de Judá levaram dali mui grande despojo. Feriram todas as cidades nos arredores de Gerar, porque veio sobre elas o terror da parte do Senhor; e saquearam todas as cidades, pois havia nelas muito despojo. Também feriram as malhadas do gado, e levaram ovelhas em abundância, e camelos, e voltaram para Jerusalém. Esdras 9:1 - Ora, logo que essas coisas foram terminadas, vieram ter comigo os príncipes, dizendo: O povo de Israel, e os sacerdotes, e os levitas, não se têm separado dos povos destas terras, das abominações dos cananeus, dos heteus, dos perizeus, dos jebuseus, dos amonitas, dos moabitas, dos epípcios e dos amorreus; pois tomaram das suas filhas para si e para seus filhos; de maneira que a raça santa se tem misturado com os povos de outras terras; e até os oficiais e magistrados foram os primeiros nesta transgressão. Ezequiel 6:4 - E serão assolados os vossos altares, e quebrados os vossos altares de incenso; e arrojarei os vossos mortos diante dos vossos ídolos. E porei os cadáveres dos filhos de Israel diante dos seus ídolos, e espalharei os vossos ossos em redor dos vossos altares. (...) Em todos os vossos lugares habitáveis as cidades serão destruídas, e os altos assolados; para que os vossos altares sejam destruídos e assolados, e os vossos ídolos se quebrem e sejam destruídos, e os altares de incenso sejam cortados, e desfeitas as vossas obras. Ezequiel 6:13 - Então sabereis que eu sou o Senhor, quando os seus mortos estiverem estendidos no meio dos seus ídolos, em redor dos seus altares, em todo outeiro alto, em todos os cumes dos montes, e debaixo de toda árvore verde, e debaixo de todo carvalho frondoso, lugares onde ofereciam suave cheiro a todos os seus ídolos. E estenderei a minha mão sobre eles, e farei a terra desolada e erma, em todas as suas habitações; desde o deserto até Dibla; e saberão que eu sou o Senhor. Ezequiel 9:4 - E disse-lhe o Senhor: Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e marca com um sinal as testas dos homens que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela. E aos outros disse ele, ouvindo eu: Passai pela cidade após ele, e feri; não poupe o vosso olho, nem vos compadeçais. Matai velhos, mancebos e virgens, criancinhas e mulheres, até exterminá-los; mas não vos chegueis a qualquer sobre quem estiver o sinal; e começai pelo meu santuário. Então começaram pelos anciãos que estavam diante da casa. E disse-lhes: Profanai a casa, e enchei os átrios de mortos; saí. E saíram, e feriram na cidade. Ezequiel, 30:13 - Também destruirei os ídolos, e farei cessar de Mênfis as imagens; e não mais haverá um príncipe na terra do Egito; e porei o temor na terra do Egito. E assolarei a Patros, e porei fogo a Zoã, e executarei juízos em Tebas; e derramarei o meu furor sobre Pelúsio, a fortaleza do Egito, e exterminarei a multidão de Tebas; também atearei um fogo no Egito; Pelúsio terá angústia, Tebas será destruída, e Mênfis terá adversários em pleno dia. Os mancebos de Om e Pi-Besete cairão à espada, e estas cidades irão ao cativeiro. E em Tapanes se escurecerá o dia, quando eu quebrar ali os jugos do Egito, e nela cessar a soberba do seu poder; quanto a ela, uma nuvem a cobrirá, e suas filhas irão ao cativeiro. Assim executarei juízos no Egito, e saberão que eu sou o Senhor. Etc., etc., etc.
Terça-feira, Maio 05, 2009
LA MÉTHODE CRISTALDESQUE Tudo isto para dizer que nunca pensei em magistério, muito menos em doutorado. Estava tão por fora do assunto que nem sabia – juro! – que um DR servia para lecionar. A idéia só me ocorreu quando colegas me perguntavam para qual universidade voltaria no Brasil. O que foi muito oportuno, pois estava desempregado e sem jornal nenhum em vista. Se penso em profissão, o tal de doutorado me foi de pouca valia. Garantiu-me o pão por mais quatro anos, o tempo máximo que a universidade conseguiu suportar-me. Foram certamente os anos mais inúteis de minha vida. Em Florianópolis, lecionei literatura para alunos que da literatura só queriam distância. Estavam ali por não terem conseguido entrar em outro curso, para conseguir um diploma que lhes renderia um salarinho melhor na função pública. Passaram oito turmas de graduação pelo meu magistério. Se disser que encontrei cinco alunos interessados em literatura, talvez esteja exagerando. Na pós-graduação, onde devo ter tido uns vinte alunos, encontrei algum interesse. Mas não muito. Pós-graduação, de modo geral, é fuga ao desemprego. Enquanto o emprego não surge, os trocados de uma bolsinha são sempre bem-vindos. Se penso em vida, o doutorado em Paris foi fundamental. Conheci de perto uma outra cultura, viajei pelo continente todo e por outros continentes e passei a conhecer melhor meu país, pela distância com que o contemplava. Dei à minha Baixinha um presente que nem todo homem consegue dar. Vivi dias plenos com ela au bord’elle, la Seine. Não só às margens do Sena, como também às margens de outros rios e mares. Namorei meninas de vários países. Através delas, os conheci melhor do que se para lá viajasse. Minha soutenance foi gloriosa e duvido que tenha ocorrido outra igual na Sorbonne. Na sala Bourjac, quando defendi minha tese, havia algo entre 50 e 60 mulheres, e um só varão, um ator de teatro gaúcho. Não que eu as tenha contado. É que a sala tinha cinco filas de doze cadeiras. E só havia quatro ou cinco vazias. Os membros da banca estavam perplexos e não duvido que deva àquelas amigas meu “Très Bien”. Os membros do júri relutavam em aceitar meu trabalho, um tanto irreverente para acadêmicos bem-pensantes: não usei método algum. - Quelle est votre méthode? – perguntava-me escandalizada uma professora do júri. Não há método, respondi. Não vim aqui para pensar com a cabeça de terceiros. “Ma méthode c’est la cristaldesque”. Com meu atrevimento, arrisquei meu pescoço. Risco que pouco me preocupava. O que eu fora fazer em Paris, já fizera. O resto era lucro. Suponho que a banca não quis melindrar platéia tão florida e isto deve ter pesado na concessão do título. Quanto à França, ganhou bastante ao apostar em mim. Durante mais de três anos, seis vezes por semana, divulguei sua cultura no sul do Brasil, suas artes, seu cinema, sua literatura, seus dramas e debates. Traduzi três de seus melhores autores. De 77 a 80, diariamente os gaúchos tiveram informações sobre o que ocorria em Paris, na França e na Europa. Meu orientador, que desconhecia Sábato, acabou escrevendo um livro sobre o autor argentino e saiu a fazer palestras sobre sua obra por diversos países do continente. No que diz respeito à literatura, não fui lá para aprender. Fui para ensinar. Leitor que tenha lido estas crônicas deve estar imaginando que usei a bolsa para entregar-me à farra. De fato, fiz a festa. Mas trabalhei como um mouro. Festa não exclui trabalho, basta saber dosar. O trabalho que desenvolvi em Paris, divulgando a cultura francesa para um grande número de leitores, foi a meu ver muito mais importante que uma tese que – apesar de traduzida ao brasileiro e publicada – foi lida apenas por um punhado de jovens interessados em Sábato. Sem falar que traduzi toda sua obra de ficção e a maior parte de seus ensaios. Que se faz após concluir um doutorado? Apanha-se o diploma. Quando fui buscá-lo na Sorbonne, tropecei na incontornável burocracia dos galos. Mais non, Monsieur, c’est pas comme ça! Eu estava na sala onde, em alguma gaveta, estaria o papelucho. Mas não podia apanhá-lo. Tinha de escrever uma carta à universidade e esperá-lo em meu endereço. Ora, naqueles dias, eu já entregara o apartamento e não tinha endereço em lugar algum do mundo. Considerei um desaforo aquela burocracia estúpida e desisti do assunto. Devo ser o único doutor no planeta que não tem o diploma em suas gavetas. Qualquer dia, conto sobre meu “doutorado” em Madri.
PESQUISANDO LETRAS PELO EGITO, SAARA ARGELINO E ILHAS CANÁRIAS Paris está perto do mundo. Os anos seguintes foram de mais viagens ainda. Para começar, descobri que como jornalista poderia credenciar-me para cobertura de festivais de cinema. Fiz dois festivais de Berlim, dois de Cannes e o de Cartago, na Tunísia. No Eugênio C, quando vinha para a Europa, encontrei um poeta canarino, Chano Sosa, que vivia em Agaete, Gran Canária. Era o gancho que faltava para conhecer as ilhas Canárias. Fiz quatro delas: Gran Canária, Tenerife, Fuerteventura e a insólita Lanzarote, com seus 300 vulcões, metade deles em atividade. É ilha tão ou mais deslumbrante que Santorini. Nos dias de Estocolmo, conhecera uma adorável suissesse, Federica de Cesco, que na ocasião já havia escrito cerca de 50 livros. Era escritora profissional, no sentido mais estrito do termo. Não escrevia por veleidades literárias, mas para ganhar dinheiro. Emprestou-me o que considerava o melhor de seus livros, Touareg: nomades du Sahara. Apaixonei-me pelo deserto. Estava em Paris, a Argélia ficava do outro lado do Mediterrâneo, tinha grana e companheira, não resisti. Passei quinze dias comendo areia nas noites gélidas do Assekrem, dormindo ao relento sob 15 graus negativos, ouvindo histórias dos guias tuaregues e o silente estridente daquelas noites escandalosamente estreladas das montanhas. Foi uma das mais belas viagens que fiz. A outra foi pelos fjordes noruegueses e até hoje não sei dizer qual mais me fascinou. Mais o Egito. Nunca estivera tão perto do Egito. Fizemos nossas malas e subimos o Nilo, do Cairo até Assuã. Pirâmides, esfinge, Saqqara, Karnak, Vale dos Reis são monumentos que homem algum devia morrer sem ver. Quanto ao Cairo, melhor seguir o conselho de Kavafis: “olha e passa”. Nunca vi cidade tão suja, tão barulhenta e tão desconfortável para um ocidental. Devem existir, certamente. Mas felizmente não as vi. Na época, enamorei-me de uma árdega peoniana e fui visitá-la na Macedônia. Marcamos encontro em Veneza, na Piazza San Marco, mais precisamente no café Florian. Era um domingo ensolarado, seriam dez da manhã. Mal sentei-me na imensa terrasse deserta, uma orquestra ergueu-se atrás de mim, com todas suas cordas e metais. Estou fodido, pensei com meus botões. Estava mesmo, devo ter pago dez dólares por cafezinho. Mas, como dizem os castelhanos, más vale un gusto que cien pesos. De Veneza, me resta uma lembrança estranha e das mais fascinantes. Nos perdíamos pelas vielas desertas entre os canais e só ouvíamos o chiado de nossos passos na noite silente. Outros viajores me confessaram terem sido estes momentos os que mais os marcaram na Sereníssima República. De lá, partimos para Dubrovnik, a antiga Ragusa romana, dita a pérola do Adriático, e com toda razão. A cidade, deitada sobre um rochedo, mais parece um imenso restaurante ao ar livre. Dali fui abduzido para Skopje, a capital da Macedônia e de Skopje seguimos para um monastério na ilha de Mljet, que o camarada Tito havia transformado em centro de nudismo. Senti-me no Éden, nos dias anteriores à tentação da serpente. Minha tese, que por enquanto jazia no limbo, eu a dediquei a esta adorável Eva iugoslava. Lá de vez em quando, um seminário no prédio da velha Sorbonne. O C.R.O.U.S continuava oferecendo tours baratos e irresistíveis. Viajei, viajamos, eu e a Baixinha, a preço de banana, pela Normandia e pela Alsace-Lorraine. Bruxelas e Amsterdã estavam a poucas de horas de trem. Não dava para não ir. Visitamos castelos pela Baviera, particularmente os de Ludwig, entre eles o soberbo Neuschwanstein. Vez que outra, uma esticada a Roma ou Madri, para matar saudades. E assim foram meus dias de doutorado. Enquanto isso, escrevia minha crônica diária para Porto Alegre e passei a traduzir Sábato, o que me obrigou a uma leitura vírgula a vírgula de toda sua obra. Reli Camus e lia também sobre Literatura Comparada. Percorria também a geografia etilogastronômica de Paris. Culinária também é cultura. Como correspondente, não pagava entrada em cinemas, o que ocupou boa parte de meu tempo. A tese não perdia por esperar. Era jornalista e confiava em meu taco. No momento em que começasse a redigi-la, eu a teria pronta em poucos meses. Nada nem ninguém me obrigava a defender uma tese. Se não a defendesse, o Ministério de Educação francês pouco se importaria. Desconfio aliás que as bolsas não visavam à defesa de tese alguma, mas vender a imagem do país, a língua e cultura francesas. Bastava que os bolsistas voltassem imbuídos de galicidade e o Estado francês se dava por satisfeito com o despendido por candidato. Não tinha compromisso algum com nenhuma universidade brasileira. Se voltasse de mãos abanando, instância alguma me cobraria qualquer coisa. Tinha apenas um compromisso comigo mesmo. E com Ernesto Sábato. Em meados de 80, após três anos de muitas viagens, boa gastronomia, namoradas e lazer, encarei a tese de frente. Três meses para organização de leituras e mais outros três para redação. Nessa altura, a Folha da Manhã entrara em falência, o que me deixava tempo integral para redigir. Foi o que fiz. Entreguei o trabalho já praticamente concluído a meu orientador, não lhe dei oportunidade de emitir palpites furados. Em todos os anos de doutorado, tive quatro aulas com ele e talvez o tenha encontrado outras quatro vezes antes da soutenance. Foi orientador que não atrapalhou, que é o que mais fazem os orientadores. Ofereceu-me mais um ano de Paris. Agradeci. Paris se tornara rotina e eu queria mudar um pouco de ares. Sem falar que não tinha mais o salário do jornal, o que encurtaria minhas viagens.
Segunda-feira, Maio 04, 2009
DOUTORADO CONTINUA POR ATENAS E ILHAS GREGAS De volta dos castelos, fui matricular-me na Sorbonne. Quando digo Sorbonne, me refiro ao antigo prédio da Sorbonne. É importante salientar, pois mesmo hoje, quarenta anos após sua morte, ainda há quem pense que a Sorbonne existe. Ora, a Sorbonne deixou de existir em 1968. Foi uma das exigências dos “revolucionários”. A partir de então, passou existir a Université de Paris e suas distintas unidades: Paris 1, Paris 2, Paris 3, até Paris 13. Assim, se você encontrar hoje alguém que se intitula Dr pela Sorbonne, a menos que seja um octogenário, você está diante de um vigarista. Da mesma forma, se alguém se intitula Dr pela Université de Paris, sem especificar qual, também tem boas chances de ser vigarista. Em geral são universitários formados pela famigerada Université de Vincennes, a Paris 8 – que hoje mudou de localização e chama-se Université Saint Denis. Esta universidade é filha de 68. Devido a seu baixo nível de ensino e suas poucas exigências para admissão, foi chamada por uma ministra francesa de “poubelle du Tiers Monde”. Isto é, lata de lixo do Terceiro Mundo. O que não exclui que tenha tido bons professores em seu corpo docente. Mas ninguém gosta de intitular-se Dr por Paris 8. Em meu caso, a bolsa foi concedida na Université Paris 3. Que, coincidentemente, herdou o título de Université de la Sorbonne Nouvelle. Funciona no Censier, centro próximo à antiga Sorbonne. Volto à questão da matrícula. Entrei no rabo de uma fila onde, pacientemente, esperava M. Raymond Cantel, doyen de la Sorbonne, a legítima. Nos trâmites da candidatura, eu pedira que ele me aceitasse como aluno. Surpreendeu-se ao me ver por lá. Que fazes aqui, meu filho? Estava lá para matricular-me. Conseguira bolsa para mestrado e... Ele interrompeu-me. - Mestrado? Você não merece isso. Vai se incomodar muito. Você tem titulação e publicações suficientes para postular um doutorado. Inscreva-se em doutorado. - Mas professor... a bolsa é de mestrado. - Não importa. Peça inscrição em doutorado. Apresente seu currículo e você será aceito em ano de doutorado. Um encontro ocasional numa fila e meu mestrado virou doutorado. Na hora. M. Cantel – responsável pela introdução dos estudos da literatura de cordel do Nordeste na França e, conseqüentemente, nas demais universidades européias – sabia do que falava. Se cursasse mestrado, seria pressionado por professores jovens e intolerantes e provavelmente desistiria do curso antes do fim. No curso de doutorado, tive total autonomia para redigir meu trabalho. Inscrevi-me em quatro disciplinas, de quatro horas/aula cada uma. Assim, em quatro anos, tive apenas 16 horas de aula. Tinha tempo total para pesquisa. Como também para minha crônica diária, que continuava sendo publicada na Folha da Manhã. Além do mais, me permitia viajar a qualquer hora para onde quisesse. Bastava levar minha Lettera 22 e ter uma agência da Varig por perto. Antes de ir adiante, quero registrar minha admiração por M. Cantel, já falecido. Professor dos mais reputados da Sorbonne, esperava humildemente ao final de uma fila de alunos para tratar de um assunto burocrático qualquer na universidade. Aquele gesto até hoje me toca. Foi quando começaram a surgir os pepinos. Tratei também de inscrever-me em um curso paralelo de francês. Se a língua eu já dominava, um aperfeiçoamento vinha bem. O curso era caríssimo. Como BGF – Boursier du Gouvernement Français – eu pagaria apenas zero franco. Claro que eu não dispensaria o curso, que mais não fosse precisava redigir minha tese em bom francês. Meus problemas de chegada eram outros. Precisava resolver meu permis de séjour junto à Polícia, precisava encontrar apartamento, decidir quais disciplinas cursaria. Considerei que zero franco não faria falta ao caixa da universidade e fui tratando das coisas mais vitais. Resolvidas estas, fui até a universidade pagar meu zero franco. A moça do caixa objetou: - Monsieur, vous êtes en retard. Ou seja, eu estava atrasado. Tentei objetar: mas se trata de zero franco, mademoiselle. - C’est pas une question de quantité. C’est une question de délai. Não era uma questão de quantidade. Mas de prazo. Foi inflexível. Aleguei que perderia o curso de francês, fundamental para uma boa redação de minha tese. - Tant pis pour vous, Monsieur! – disse gentilmente a burocrata. Tanto pior para você. Mas me abriu uma porta. Fale com Madame Lallande, no C.R.O.U.S. Entre com uma demande de dérogation. Ou seja, um pedido de postergamento. Fui lá, entrei com a famosa demande. Madame Lallande indignou-se: não vou fazer uma demande de dérogation por zero franco. Dei toda razão à madame. Mas a moça do caixa continuava inflexível: “c’est pas une question de quantité”. Me recolhi a um café para pensar. Podia entrar com queixa no ministério da Educação. Seria ainda mais burocracia. Tomei uma atitude de risco. Rubriquei em baixo do papelucho: Dérogation acordée. Signé Mme. Lallande. Estava arriscando minha rica bolsinha. Milagrosamente, passou. A moça do caixa, perplexa: “Je n’ai jamais vu ça”. E quando um francês diz isso, melhor sair de perto. Se jamais viu, é porque não existe em seu ecúmeno. Segundo problema, meu orientador. Se eu era brasileiro, por que não escolhera como sujet um autor brasileiro? Ora, professor, não há autor nenhum que me fascine na literatura brasileira. Não quero trabalhar sobre uma obra que me desagrada. Mas por que Sábato? Porque gosto de sua literatura. Ele não tinha a mínima idéia de quem fosse Sábato. Sugeriu-me estudar a obra de Camilo José Cela que – maktub! – acabei traduzindo mais tarde. Não posso, professor. Antes de viajar, visitei Sábato e disse-lhe que vinha a Paris para estudar sua obra. Meu orientador foi até a Bibliothèque Nationale e pesquisou a bibliografia do escritor argentino. Descobriu uma fortuna literária considerável. Aceitou meu projeto. Terceiro problema, não tinha a mínima idéia do que fosse Literatura Comparada. Essa foi fácil. Entrei numa livraria e comprei uma dúzia de ensaios sobre a disciplina, mais algumas teses que haviam merecido edição. Em poucos meses, estava apto para redigir meu trabalho. Mas sequer comecei a redigi-lo. Paris absorve. De chegada, se revelaram as vantagens dos sagrados laços do matrimônio. Estamos em 1978. Além do permis de séjour para a Baixinha, recebíamos uma aide familiale (ajuda familiar), que cobria metade do aluguel. Era concedida para que o bolsista habitasse decentemente: o apartamento não podia ser um cortiço, tinha de ter um espaço mínimo, sala de banho e privada. Estas últimas exigências podem surpreender quem não conhece Paris. Na dita Cidade Luz, ainda hoje é comum encontrar-se pequenos apartamentos que não têm ducha nem vaso sanitário ou apenas um deles. Na ausência do último, há banheiros coletivos no palier, ou seja entre um piso e outro. Banho, só em banhos públicos. A cada início de mês, o carteiro tocava a campainha, abria sua sacola e contava o auxílio, nota a nota, todas estalando de novinhas, e moeda a moeda, até o último centime. Nunca foi tão agradável ouvir um toque de campainha. Como os primeiros pagamentos, por questões burocráticas, demoraram seis meses, na primeira entrega recebemos uma quantia em francos das mais simpáticas. Os alugueres estavam em dia. Investimos tudo nas ilhas gregas: Delos, Paros, Antiparos, Santorini, Mikonos, Lesbos, Creta e mais algumas que já nem lembro. E Atenas, é claro. Uma bolsa em Paris tem suas vantagens.
DOUTORADO COMEÇA PELOS CASTELOS DO VAL DE LOIRE Primeira providência para cumprir a bolsa: casar. Sempre fui hostil ao casamento e sempre manifestei esta hostilidade em minhas crônicas. Como não dava importância alguma a papéis passados, tanto fazia – como tanto fez – assiná-los. Casei discretamente, num cartório da Riachuelo em Porto Alegre. Convidei apenas os mais interessados no assunto, pais, mães e dois ou três amigos que serviram como testemunhas. Ora, o cartório ficava justo ao lado de um de meus bares, a Rotîsserie Pelotense, que por muito tempo foi bebedouro de jornalistas. Combinei com os convivas – e com a “noiva”, é claro – reunião no cartório, às 11h30. Que ficassem tranqüilos, eu não faltaria ao encontro. Lá pelas 10h30, fui pro bar. Lá estava o Carlos Coelho, bom amigo daqueles dias, colunista da Zero Hora, empinando seu uisquinho matutino. Pedi uma caipira e ficamos comentando as notícias do dia. Na hora fatídica, disse ao Coelho: - Segura minha caipira. Vou comprar um jornal e já volto. E fui para o cartório. Lá, um juiz com cara de óbvio me perguntou se eu queria casar com a moça. - Claro que quero. É por isso que estamos aqui. O funcionário da obviedade pronunciou as palavras rituais, assinamos os papeluchos. Em frente ao cartório havia a Churrasquita. Combinei com todos um churrasco. Que me esperassem lá. Eu ia comprar um jornal e já voltava. Voltei à Pelotense, para terminar minha caipira. O Coelho nem sonhava que, naqueles poucos minutos, eu havia trocado de estado civil. Ocorre que meu companheiro de trago tinha o péssimo hábito de ler o Diário Oficial e viu os proclamas. Fui vilmente dedurado à toda imprensa gaúcha. Meus coleguinhas se apressaram a anunciar, urbi et orbi, o que jamais me passara pela cabeça anunciar. Ora, eu tinha cinco namoradas firmes na época. Mais as não tão firmes. Não havia mentira em nossos relacionamentos, todas sabiam de todas. Mas eu não chegara a falar do casamento. Dia seguinte, tive de dar entrevista à Folha da Manhã. Sim, havia casado. Por razões burocráticas, para levar minha companheira a Paris. Mas continuava sendo o mesmo homem solteiro de sempre. Continuei sendo mesmo. O casamento me foi perdoado. Mas não o fato de não levá-las para Paris. Fosse xeque árabe, casava com todas, levava todas e dava um studio para cada uma. Ocorre que eu não era xeque árabe. Nunca tive pretensão de seguir o magistério, nem tinha a mais vaga idéia de para que servia um doutorado. Para mim significava apenas uma coisa, viver em Paris, com tudo que isto implicava: acesso à cultura francesa e européia, à imprensa, ao mundo editorial, aos cafés, à gastronomia, a seus cinemas e museus (na época, eu visitava museus), aos bons vinhos e – last but not least – àquelas mulheres lindas, francesas e estrangeiras que inundavam Paris, como os filmes nos mostravam. Pensando bem, elas não eram last nem least. Eram first e more important. Pior ainda, a bolsa me foi concedida na área de Letras Francesas e Comparadas. As francesas, eu conhecia e até que bastante bem. De Literatura Comparada, jamais ouvira falar. Em minhas primeiras tratativas em Porto Alegre, o adido cultural francês me sugeriu pedir bolsa em outra área, quem sabe em Direito, já que eram escassas as bolsas em Literatura. Eu acabara de me formar em Direito, poderia tentar. Mas não queria relação alguma com Direito. Seria Literatura ou nada. Solicitei bolsa de mestrado, como me parecia ser o caminho normal. Fascinado na época pela literatura de Ernesto Sábato e tendo conhecido pessoalmente o autor, decidi que estudaria sua obra. Para justificar o estudo na França, busquei um paralelo, que encontrei em Albert Camus. Mesmo itinerário espiritual, mesmas preocupações intelectuais, a denúncia de todo e qualquer totalitarismo (inclusive o soviético, que era proibido criticar na época) e uma forte coincidência na temática de seus dois primeiros livros, El Túnel e L’Étranger: assassinato, questionamento do valor da existência e luz nenhuma ao final do túnel. Além do mais, a literatura de Camus me agradava. O Ministério da Educação francês pôs à minha disposição um vôo pela Air France. Recusei-o polidamente. Viajava com a Baixinha, já havia feito duas travessias marítimas pelo Eugênio C (não existe mais, foi desarmado em 1980) e queria oferecer-lhe a aventura de uma semana navegando pelo Atlântico. Foi uma de nossas melhores viagens. Na outra ponta, nos esperava Paris. Cabe salientar uma diferença fundamental entre uma viagem de travessia e uma viagem de cruzeiro. Tanto os passageiros como os objetivos são distintos. Na viagem de travessia, simplesmente vai-se de um ponto a outro. Quem viaja são pessoas trocando de país, ou voltando a seus países, em suma, rumando a uma outra vida. Ou voltando ao passado. São viagens tensas, perpassadas de uma alta dose de angústia, afinal nunca se sabe bem o que nos espera no porto de chegada. Já o cruzeiro é viagem de lazer, com ida e com volta ao ponto de partida. No cruzeiro inexiste o senso de aventura. Ocorre então algo curioso: ninguém quer chegar. Enquanto se está no barco, os grandes problemas da existência são optar por este ou aquele menu, decidir-se por um vinho italiano ou francês, português ou espanhol, ir à piscina ou tirar uma siesta. Não havia, na época, Internet. O mundo podia vir abaixo e ninguém ficava sabendo. Apenas um serviço de imprensa a bordo, que distribuía um prospectozinho com as notícias do dia. Só notícias boas, leves, divinas. Nada de greves, massacres, terremotos, tsunamis. Se a Europa tivesse afundado, só saberíamos disso chegando lá. Chegar, por outro lado, é sinônimo de desprazeres. Os problemas estão todos nos esperando em terra. Inexoravelmente, mais dia menos, acabamos chegando. Os portos não perdoam, estão sempre à nossa espera. Recomeça então a luta pela vida. Descemos em Barcelona e tomamos trem para Paris. Os problemas estavam todos lá, implacáveis. Na época, para obter-se o permis de séjour (permissão de estada) era necessário estar matriculado em uma universidade. Só que para matricular-se numa universidade, era necessário o permis de séjour. Não sei como os estudantes sem bolsa resolviam o impasse. Eu, com a carta do Ministério de Educação, não tive problema algum. Depois, achar apartamento. Escolher o bairro, ler classificados, visitar prédios. Foi quando descobri algo insólito. Enquanto no Brasil eu levava semanas para preparar os papéis de um aluguel, em Paris aluga-se um apartamento... em cinco minutos. Combinar horário e chegar pontualmente no endereço a ser alugado era inútil. O apartamento já fora alugado há meia hora. Aí então o bolsista vai tratar da bolsa. Éramos recebidos por uma entidade encarregada do assunto, o C.R.O.U.S. Estou tratando de meus papéis, quando uma gentil funcionária me oferece um tour de uma semana pelos castelos do Val de Loire. Baratinho, promoção especial para os bárbaros que chegam à civilização, questão de conhecer um pouco da história do país onde passariam a viver. Mas, madame – balbucio timidamente – recém estou chegando, estou cheio de problemas a resolver... - Des problèmes, vous en aurez toujours, Monsieur. Problemas, você os terá sempre. O argumento foi definitivo. Deixei meus livros encaixotados no studio recém-alugado – mas longe de estar montado – e assim comecei meu doutorado, perambulando pelos castelos do Val de Loire. Como as navegações, estes tours também acabam um dia acabando. Estou ainda em 77, ano de minha chegada a Paris.
Domingo, Maio 03, 2009
A GÊNESE DE UM DOUTORADO Claro que a pergunta não demoraria a surgir: se julgo o doutorado uma perversão universitária, por que defendi uma tese de doutorado? Ora, já devo ter contado várias vezes que jamais pensei em magistério e que adoro levar a vida ao sabor dos ventos, destes venturosos ventos que me levaram, sem que eu planejasse, ao doutorado, a Paris e ao magistério. Meu ímpeto inicial era viajar, viver em outros países. Como viajar e viver no estrangeiro sem ter dinheiro? Só com bolsa. Desde a universidade, pedi bolsa para vários lugares do mundo: Japão, Suécia, Finlândia, Alemanha e até mesmo, pasmem, para a União Soviética. Deve ter sido uma das primeiras bolsas que postulei. Eu queria ir para longe, tão longe quanto possível. De preferência, para as antípodas. Quanto mais estranho o país, quando mais ininteligível a língua, melhor. Nos anos 70, as bolsas mais à mão eram as oferecidas pela Patrice Lumumba. Então é para lá que eu vou, pensei. E já me imaginava chilreando em russo com as moscovitas. Mas não era comunista e muito menos pertencia ao Partido. Graças ao bom deus dos ateus. Se me fosse concedida a bolsa, dado meu temperamento, em pouco tempo seria expulso do paraíso proletário. Na época, ir a Moscou para estudar e depois voltar ao Brasil não era nada saudável. Provavelmente teria de perder-me na Europa, integrar-me na confraria internacional de lavadores de prato e fazer, de país em país, aqueles trabalhos que os nacionais detestam fazer. Com muitas probabilidades, teria optado pelo suicídio. Aliás, mesmo sem ir a Moscou, sofri as conseqüências de meu pedido. Minha aplicação foi interceptada pelos serviços de segurança e um belo dia me vi frente a um delegado explicando porque queria ir para Moscou. Pior ainda, eu fazia um curso de russo na PUC de Porto Alegre, com o saudoso professor Sergei Zhukov, um jovem de mais de 90 anos. Por que o Sr. estuda russo? – quis saber o delegado. Porque quero ir para a Rússia, oras! Por que o Sr. quer ir para a Rússia? Porque a Rússia oferece bolsas, nada mais que isso. Na época, pretender viajar para país socialista era grave indício de periculosidade social. Tive bolsas negadas em todos esses países. Pudera! Por um lado, meu currículo era escasso. Meus projetos de pesquisa eram ingênuos, extraídos de índices de histórias da literatura. Estava desvinculado da universidade e não tinha contato com professor algum de universidades estrangeiras. Em suma, eu não conseguia provar a meus interlocutores lá fora que tinha uma idéia precisa do que pretendia pesquisar. Obviamente, fiquei a ver navios. Navios que partiam com amigos meus, que pouco se importavam com bolsa e se aventuravam com alguns centavos no bolso, dispostos a lavar pratos ou latrinas no primeiro restaurante ou hotel que os aceitasse. Assim não vou – pensava. Se não lavo meus pratos, não vou lavar pratos alheios. Latrinas, ni pensar. Ante meus fracassos, desisti de bolsas e resolvi viajar por conta própria. Perambulei pela Europa e acabei aterrissando em Estocolmo. Um ano depois, tomei uma das atitudes mais sensatas de minha vida. Voltei ao Brasil e à mulher que aqui me esperava e que compartilhou meus dias por quase quatro décadas. Na Suécia, me descobri escritor. Publiquei dois ou três livros e voltei a trabalhar em jornalismo. Certo dia, passo os olhos pelo jornal e vejo ofertas de bolsas na França. Bom, já tinha algum currículo na área literária e jornalística, falava bem o francês, tentar não custava senão o trabalho de montar um dossiê. Foi o que fiz. Em 1975, trabalhava na Caldas Júnior e o consulado francês ficava a três ou quatro quadras do jornal. Sem esperança alguma, fui até lá e entreguei minha candidatura. Fui chamado para um teste de conhecimento do idioma. O adido cultural ficou fortemente impressionado com meu domínio da língua. Da qual eu estudara apenas quatro anos, no ginásio de uma cidadezinha da Fronteira Oeste gaúcha, Dom Pedrito. Tive a ventura de estudar com a Maria Veiga, a mais importante das professoras de minha vida. Estudava pelo prazer de estudar uma língua diferente, não tinha a mínima idéia para onde um dia ela poderia me levar. Mais ainda: tive a ventura de estudar em época em que o ensino secundário tinha mais nível que o ensino universitário atual. Esqueci o dossiê. Um belo dia, tropeço com o cônsul no centro da cidade. “Prepare-se para partir” – me disse -. "Você é o nosso candidato aqui no Rio Grande do Sul”. Eu, que não esperava nada, passei a esperar tudo. Mas me alertou: “não dou 100% de certeza. Sua candidatura passará por uma comissão franco-brasileira em Brasília. Você é o nosso candidato, mas não sei se o dos brasileiros”. Dito e feito. Nas proximidades do Natal, recebi uma gentil cartinha do consulado, agradecendo minha participação no concurso e lamentando que, devido ao número de candidatos, meu nome não havia sido escolhido. Os brasileiros haviam vetado meu nome. Voltei então à minha desesperança inicial, da qual fora ilusão ter-me afastado. Seria bom demais para ser verdade. Ano seguinte, 1976, de novo vejo nos jornais novo chamado de candidaturas. Meu dossiê estava pronto, bastava acrescentar algumas publicações mais. O consulado ficava ali ao lado. Não me custaria esforço maior tentar de novo. Tentei. Desta vez com uma expectativa bem abaixo de zero. Dias de Natal, de novo. Estou na redação da Folha da Manhã, alguém me chama ao telefone. Era o cônsul. Eu havia sido escolhido. A França conseguira impor sua opção aos brasileiros de Brasília. Quando você quer partir? – perguntou. Tão logo faça as malas, respondi. Mal pus o telefone na base, levantei-o de novo. Telefonei para a Baixinha. Fui curso e grosso: “queres casar?” Do outro lado da linha, perplexidade. A idéia de casamento me provocava brotoejas. Mas era a melhor fórmula de levá-la comigo. Sem casamento, ela não teria permissão de estada. Esta é a gênese de meu doutorado. Não tive recomendação nenhuma, pistolão algum. Não lecionava, não estava integrado em universidade alguma. Apenas escrevia em um jornal. Não recebi um vintém da CAPES, muito menos do CNPq. Aliás, jamais recorreria a estas entidades. Candidato algum obtém bolsa através delas sem uma pilha de recomendações. A bolsa em Paris, eu a ganhei exclusivamente por meu currículo. Me foi concedida por pessoas que não me conheciam e o julgaram bom. Mas a história não termina aqui. Continua em 77, quando fui para Paris.
Sábado, Maio 02, 2009
CNBB CRIA HOMOSSEXUAL TEÓRICO Confusão e desorientação intelectual nas hostes vaticanas. No início desta semana, um bispo emérito brasileiro, Dom Tomás Balduíno, cumprimentava um bispo emérito paraguaio, Don Fernando Lugo, por seus dotes de emérito reprodutor: “Continue assim, caro Irmão, coerente com a inspiração evangélica, ao testemunhar, com clarividência e humanidade, o inestimável valor do relacionamento entre o homem e a mulher”. O que deve ter causado certa perplexidade na Santa Sé. E isso que o Vaticano ainda não ouvira tudo. Segundo os jornais, o documento Diretrizes para a Formação dos Presbíteros, aprovado quarta-feira passada na 47.ª Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dá ênfase à dimensão humano-afetiva dos seminaristas, ressalta que o celibato é exigência da Igreja e reafirma que, por orientação da Congregação para a Educação Católica, do Vaticano, homossexuais não devem ser ordenados padres. A CNBB se refere evidentemente à definição bíblica de homossexualismo, quando a palavra se referia a relações ilícitas entre homens. Hoje a acepção é mais ampla. A partir da partícula grega homo (mesmo), homossexualismo implica também lesbianismo. Atenção, cultoras de Safo: o Livro não tem nada contra o bom esporte. As restrições existentes no judaísmo são elucubrações de rabinos. Já as relações entre homens, no Levítico, são consideradas como uma abominação, passível de condenação à morte. Voltemos ao Vaticano, segundo o qual homossexuais não devem ser ordenados padres. Ou não deviam. O vice-presidente da CNBB, bispo Dom Luís Soares Vieira, afirmou ontem, no encerramento da mesma assembléia, em franca hostilidade à congregação vaticana, que homossexuais podem ser padres desde que sejam celibatários. E durma-se com um barulho destes. Pode ou não pode? Para o prelado, tanto os heterossexuais quanto os homossexuais que desejam ser padres devem respeitar a lei de disciplina do celibato e da castidade. Logo estas duas palavrinhas que sequer existem na Bíblia. Pedro, o primeiro papa da Igreja, tinha sogra. Ora, se tinha sogra celibatário não seria. Casto, muito menos. Como tampouco se pode dizer o mesmo de Alexandre VI. Don Luís, eivado pelos bons eflúvios do encontro episcopal, descobre a América: os homossexuais são pessoas humanas. “Eles têm, vamos dizer, essa constituição, então devem ser tratados com respeito. O que se exige do heterossexual, o celibato, por ser padre, se exige também do homossexual. Se ele for entrar no celibato, tem que viver a castidade", disse Dom Luís, ao ser questionado sobre a posição da entidade sobre o tema. Ó, fatalidade atroz que a mente esmaga, como poetava o poeta. Em outros termos, embora não tenha dito com todas as letras, o arcebispo quis dizer com todas as letras que homossexual também pode ser padre. Sua Eminência começando embaralhando os termos. Exige que os homossexuais sejam celibatários. Até aí, farta é a messe. Mas condiciona o celibato, que é apenas o estado ou condição de pessoa solteira, com a castidade, que nada tem a ver – muito antes pelo contrário – com a condição de pessoa solteira. Sua Eminência quer não apenas um homossexual não casado, mas também casto. Depois do homossexual assumido e do homossexual enrustido, Don Luís cria uma terceira categoria, o homossexual teórico. Um homossexual que é homossexual, mas não pratica o homossexualismo. Isto é, gostar de homem pode. É de supor-se que possa até ultrapassar o amor das mulheres, como lemos na Bíblia. O que não pode é ir às vias de fato. Querer sim, praticar jamais. O que Sua Eminência propõe é um homem dividido entre seus desejos e sua vida. Ora, bom padre não há de ser quem ainda não resolveu o conflito entre querer e ser. Que dirá este sacerdote a um confidente que lhe confessa desejos por um outro homem? “Gostar de doce não é pecado. O que não pode é comer”.
TERIAM MOMENTOS SUBLIMES DE SAMUEL INSPIRADO A CONFERÊNCIA DOS BISPOS? Samuel 18:1 Ora, acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jônatas ligou-se com a alma de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma. Quando Jônatas morre, Davi se desespera: II Samuel 1:27 Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; muito querido me eras! Maravilhoso me era o teu amor, ultrapassando o amor de mulheres.
Sexta-feira, Maio 01, 2009
SE CÂNCER RENDE VOTOS, BEM-VINDO SEJA O CÂNCER Câncer influi ou não influi em uma candidatura presidencial? O governo jura que não, afinal ainda não tem plano B. Se bem que os pretendentes pululam como moscas, desde o impoluto Antonio Palocci ao velho bolchevique Tarso Genro. De qualquer forma, se a candidatura de Dona Dilma emplacar, a disputa pela vice-presidência será também acirrada. Nunca se sabe... As oposições, temendo serem tachadas de oportunistas, também rezam pela recuperação da ministra. Ninguém ousa dizer que um câncer possa ser determinante na trajetória do eventual presidente da nação. De um lado e de outro, as moscas são uníssonas. O tumor foi pego no início, a ministra já está curada, a quimioterapia é mera precaução. Neste momento delicado, ninguém ousa aventar que câncer é doença traiçoeira e que recidiva é sempre uma hipótese. Não fosse isso, os sobreviventes não seriam controlados por um prazo de cinco anos. Depois da síndrome de Tancredo Neves, os políticos decidiram que não mentir sobre doenças é a melhor política. O PT está inclusive apostando no câncer como fator de dividendos políticos e as discussões sobre as vantagens ou desvantagens da doença já são discutidas abertamente. Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência da República e chanceler honorário, é de um realismo atroz: “Tenho a impressão de que deve ter impactado favoravelmente na opinião pública”. Se câncer rende votos, quanto mais quimioterapias sofrer a ministra, melhor para a felicidade geral da nação. Isto é, do PT. Não por acaso, o governo decidiu tornar pública a doença. Mas escondeu a quimioterapia. No Estado de São Paulo, uma mulher com um esgar de profundo sofrimento foi anunciada, em manchete, como sorridente. O jornal parece confiar naquela teoria de que o texto retifica a foto. Há quem fale que o tratamento será leve. Ora, quem quer que tenha sofrido ou assistido de perto uma quimio, sabe que os efeitos são devastadores. Poderá manter uma candidatura uma candidata periodicamente derrubada pelo tratamento? As moscas se assanham. Mas isto é o de menos. Eles que são políticos que se entendam. Ninguém é insubstituível e, no caso de agravamento da enfermidade, moscas esvoaçantes é o que não falta para substituir a mosca abatida. José Serra, apesar de seus pronunciamentos contidos, deve regozijar-se com a situação. Ou político não seria. O grave em tudo isto não é a enfermidade da ministra. De cânceres ninguém está livre, eu que o diga. O grave, a meu ver, foi a declaração inicial da candidata, quando deu entrevista sobre a doença: “Obviamente o tratamento de quimioterapia é sempre algo muito desagradável. Mas assim como tantas mulheres e homens brasileiros que enfrentam esse desafio, [...] tenho certeza também que vou ter um processo de superação dessa doença. Aliás, nós, brasileiros, temos esse hábito de sermos capazes de enfrentar obstáculos, de transpô-los e de sair inteiros do lado de lá. Acho que essa é a questão que está na pauta hoje para mim: enfrentar essa doença, que os médicos garantem que foi extirpada, e sair mais forte do lado lá", disse Dilma, que destacou a importância da prevenção. Pelo jeito, a ministra acha que todos os brasileiros e brasileiras que enfrentam este desafio podem se internar no Sírio-Libanês e receber tratamento imediato. Ainda no mês passado, segundo o Ministério da Saúde, 90 mil pessoas esperavam na fila por uma radioterapia, espera que pode significar a morte. A ministra, como também o vice-presidente, como também a mulher do vice-presidente, não tiveram espera nenhuma. Os preciosos instrumentos do poder não esperam em fila nem para embarcar para a Europa em turismo. Há 90 mil pessoas lutando desesperadas para salvar-se? Que lutem. A prioridade é de quem tem posses ou tem poder. Os demais que morram na fila do SUS. Se há dezenas de milhares de pessoas morrendo sem ver a cor do que o governo lhes deve, pouco importa se morram ou não sem ter o tratamento que, em país decente, lhes seria devido. Se a ministra acha que “nós, brasileiros, temos esse hábito de sermos capazes de enfrentar obstáculos, de transpô-los e de sair inteiros do lado de lá”, pelo jeito não tem idéia alguma deste “nós” coletivo, que morre na fila antes de chegar perto de um hospital.
A propósito: LAS MOSCAS Antonio Machado Vosotras, las familiares, inevitables golosas, vosotras, moscas vulgares, me evocáis todas las cosas. ¡Oh, viejas moscas voraces, como abejas en abril, viejas moscas pertinaces sobre mi calva infantil! ¡Moscas del primer hastío en el salón familiar, las claras tardes de estío en que yo empecé a soñar! Y en la aborrecida escuela, raudas moscas divertidas, perseguidas por amor de lo que vuela, - que todo es volar -, sonoras rebotando en los cristales en los días otoñales... Moscas de todas las horas, de infancia y adolescencia, de mi juventud dorada; de esta segunda inocencia, que da en no creer en nada, de siempre... Moscas vulgares, que de puro familiares no tendréis digno cantor: yo sé que os habéis posado sobre el juguete encantado, sobre el librote cerrado, sobre la carta de amor, sobre los párpados yertos de los muertos. Inevitables golosas, que ni labráis como abejas, ni brilláis cual mariposas; pequeñitas, revoltosas, vosotras, amigas viejas, me evocáis todas las cosas.
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