¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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Terça-feira, Junho 30, 2009
 
AINDA A LEI ANTIFUMO


Olá Janer,

Tudo bem? Se você tiver tempo... indago-lhe algo bem simples: com quais aspectos da Constituição a lei antifumo choca-se?

Entendo que a lei do governador é esdrúxula quando propõe punição ao estabelecimento comercial. Por outro lado, no Brasil não temos mecanismos para punir o cidadão ou a pessoa física. Parece-me que nossos mecanismos de punição estão apenas associados a, por exemplo, um número de CPF, uma licença de automóvel ou uma carteira de habilitação. Ao contrário de outros países, não há multas ou mecanismos para aplicá-las quando um pedestre atravessa fora da faixa, um ciclista não conduz corretamente, alguém inadvertidamente aciona um dispositivo de segurança do metrô, alguém joga uma lata de cerveja na rua ou um fumante insiste em fumar num local público fechado. Mas claro que isso não justifica a lei.

Entendo que qualquer pessoa, em sua privacidade, pode fazer o que bem entender com seu corpo, desde que não solicite recursos públicos para reparar o estrago. Fica claro que a grande chiadeira se deve ao aspecto financeiro da lei. Ninguém esperneia por já haverem proibições de fumo em repartições públicas, estabelecimentos de ensino, hospitais (!), cinemas e transportes coletivos.

Embora os números indiquem que menos de um quarto da população é de fumantes, a maior parte dos freqüentadores de restaurantes, e especialmente de bares, é de fumantes. (Por que será que isso acontece? Os fumantes são mais extrovertidos ou descolados?) Banir os fumantes dos bares certamente implicaria num baque econômico muito maior para os bares que nossa já "finada" lei seca.

Pessoalmente, deixei de freqüentar algumas casas em São Paulo porque, apesar de existirem locais para não-fumantes, tais locais invariavelmente sempre eram os piores da casa. Lembro-me de uma pizzaria (cuja pizza era deveras saborosa) na qual as poucas mesas do espaço para não-fumantes eram nas cercanias dos banheiros.

Mas entendo que uma casa que trabalha assim não quer fumantes como clientes. Agora pergunto-lhe o seguinte, Janer: um bar que espontaneamente não aceita fumantes (ou, mais eufemisticamente, não dispõe de mesas para fumantes) está ferindo a Constituição?

Talvez o remédio para tudo isso seja um pouco de civilização: passei por um episódio inesquecível há poucos anos em Milão. Os italianos, e especialmente os milaneses, não são conhecidos pela sua boa educação. Eu estava em dupla desvantagem, com meu fenótipo do mediterrâneo e sotaque de imigrante. Ainda assim, num restaurante lotado e com várias pessoas fumando, um casal adorável sentou-se à mesa ao lado da minha e, com uma educação ímpar, o rapaz perguntou-me se eles podiam acender cigarros. Apesar da minha aversão ao fumo em si, não resisti à finesse, e consenti...

Abraços,

Alex



Meu caro Alex,

é um princípio de Direito: lei menor não revoga lei maior. Se a legislação federal não só permite como obriga a existência de fumódromos, como pode um Estado da Federação proibi-los? Isso sem falar no aspecto que você considera esdrúxulo, a punição ao estabelecimento comercial. Como punir alguém por ato que um outro comete? E se é impossível punir todos que fumam, então não é possível proibir por lei que todos fumem. Não há crime ou contravenção sem sanção. Se a sanção é impossível, de nada adianta definir algo como crime ou contravenção.

Essa lei vai cair. Sem falar que o Serra é um safado. Em sua campanha para presidente, em Santa Cruz do Sul, cidade gaúcha cuja economia depende do tabaco, prometeu incentivos à indústria fumageira. Como São Paulo não tem uma indústria tabagista e agora o que parece render mais votos é proibir o fumo, ele proíbe. Querem acabar com o fumo em bares? Que criem então leis federais. Se for considerado constitucional o projeto do Serra, então qualquer Estado pode liberar a maconha.

Que se proíba o fumo em repartições públicas, estabelecimentos de ensino, hospitais, cinemas e transportes coletivos, de acordo. Nelas a União não impõe a existência de fumódromos. Cinema à parte, nesses locais não vamos de moto próprio e muito menos por lazer. Que um bar espontaneamente não aceite fumantes, também se entende. Neste bar aqui não se fuma. Você quer fumar, vá a outro. Não há lei que proíba não aceitar fumantes. O que a lei proíbe é que, em bares onde se fuma, não haja local separado para fumantes e não-fumantes. Um Estado, repito, não pode proibir o que a União permite.

Como você sabe, nunca fumei. Meus amigos e amigas, de modo geral, não fumam. Mas sempre tenho cinzeiros em casa para quem fuma. Em um bar, em princípio, procuro a ala dos não-fumantes. Mas se estiver com uma amiga que fuma, a prioridade é dela. Seria ótimo que as pessoas não fumassem. Daí a um político ambicioso pretender impor uma lei absurda vai uma longa distância.

Last but not least, o crack está liberado nas ruas de São Paulo. Isto, Serra não vê. Quanto ao aspecto constitucional, eu o remeto à mensagem abaixo, do Piaia.

 
MENSAGEM DO PIAIA


Janer,

os estados federados teriam competência concorrente, de acordo com a constituição, para legislar apenas em questões de peculiaridades regionais de modo suplementar quando a lei federal já trata das normas gerais (art. 24 parágrafo I e II da Lei Maior). Ora, desde quando o fumo é uma peculiaridade regional de São Paulo? Só paulista fuma? Por que os empresários Brasil afora deveriam ter direitos – manter seu fumódromos – que os paulistas não têm?

Como observou com contundência o juiz Valter Mena em sua decisão, se a intenção do estado é amenizar os danos à saúde devido à poluição, melhor faria voltando-se aos combustíveis de péssima qualidade. Enquanto os veículos rurais e urbanos no Brasil emitem uma média de, respectivamente, 2000 ppm e 500 ppm de enxofre no diesel, os americanos emitem 15ppm.

Foi mais longe, lembrou que a lei estadual proíbe o fumo em recintos de uso coletivo, privados, total ou parcialmente fechados em qualquer dos seus lados por paredes, divisória, teto ou telhado, ainda que provisórios onde haja circulação de pessoas (parágrafo 1 do art. 2). Então perguntou: “existe algum terreno que não seja dotado de pelo menos quatro divisórias?” Como se fará numa festa em algum sítio? Daí apontou a antinomia interna da lei em relação ao seu próprio artigo 6 que afirma que ela não se aplicará às vias públicas e aos espaços ao ar livre.

Você pode ler a decisão aqui, Janer:
http://s.conjur.com.br/dl/decisao-lei-antifumo.pdf

Raphael Piaia

 
JORNALISTA QUER RASGAR
CONSTITUIÇÃO SÓ PORQUE
FOI BURRA NO PASSADO



Tenho em Porto Alegre um grande amigo, hoje já entrado em anos, que tem dificuldade para caminhar cem metros. Precisa parar para respirar. Um enfisema deixou-lhe apenas 22% da capacidade pulmonar. Deixou de fumar talvez há uns trinta anos, mas já tarde demais. Tomou consciência dos estragos do fumo em um curso de prevenção ao tabagismo, quando teve ante os olhos os pulmões de um fumante de um não-fumante. Me procurou angustiado:

- Janer, tens de parar com o cigarro.

Ora, eu nunca havia fumado. Lá pelos dez anos, pus um cigarro na boca, não gostei e joguei fora na primeira tragada. Nunca mais pensei no assunto. Assim, quando vejo fumantes se queixando da propaganda, da influência do meio familiar, do convívio com fumantes, acho muita graça. Em meu clã, todos os homens fumavam e inclusive algumas tias. Cresci vendo filmes de bang-bang, onde não se sabia quem fumava mais, se o mocinho ou o bandido. Me criei entre adolescentes que julgavam ser o cigarro atestado de virilidade. Ninguém me convenceu. Não gostava e fim de papo.

Dito isto, nunca me ocorreu dizer a um adulto para não fumar. Se vejo uma menina de quinze anos fumando, alguma coisa me dói na alma. Ela talvez esteja buscando ser adulta, moderninha, ou algo do gênero, e não tem uma idéia precisa do preço a pagar. Adulto sabe o que faz. Se nada tenho contra fumantes, há algo no ex-fumante que me desagrada. É sua mania de cristão novo. Quer converter os gentios à sua nova crença.

“É inacreditável que a medida do governo de São Paulo proibindo o fumo em lugares fechados tenha sido contestada pela Justiça – escreve Danuza Leão na Folha de São Paulo –. Isso na contramão do mundo inteiro, que vem fazendo tudo que é possível para coibir o vício do fumo.

“O fumo é um veneno, e quem fuma vai um dia pagar caro por ter achado alguma graça em acender um canudinho de papel cheio de porcarias, inalar a fumaça direto para os pulmões e depois soprar de novo a fumacinha; no mínimo, ridículo. Nos anos 40, todos os filmes mostravam os atores e atrizes fumando, e isso fazia parte do glamour da época. Lembro da cena de um filme em que o ator punha dois cigarros na boca, acendia os dois e passava um deles para a atriz com quem contracenava. Quanta burrice; quanta ignorância. Eu também fui burra e ignorante durante anos, e apesar de ter sido alertada por tanta gente, só parei de fumar no tranco, isto é, quando meus pulmões pediram socorro”.

Se a moça foi burra e ignorante durante anos, como ela mesmo confessa, não pode negar a ninguém o direito de incorrer na mesma burrice. Jornalista, Danuza parece ainda não ter descoberto, mesmo depois de velha, que existe algo em um Estado constituído que se chama lei. E que, entre estas leis, existem leis maiores e leis menores. Lei menor não revoga lei maior. Que ela considere o cigarro um veneno, tudo bem. Nem fumante discorda. Que pretenda passar por cima do Estado de direito para que as pessoas não fumem, vai uma longa distância.

José Serra não nasceu ontem. Ao propor a lei antifumo, sabia muito bem que ela teria pernas curtas. O que o candidato tucano quer é promover sua candidatura. Uma liminar já derrubou parcialmente sua estúpida proposição e pelo menos outras quatro estão a caminho. Enquanto isso, seu nome tem exposição na mídia e o insosso candidato poderá alegar mais tarde: eu tentei, os juízes é que me impediram.

Escrevia ontem o Estadão em editorial: “Ao impor medidas excessivamente severas, que entrariam em vigor no início de agosto, prevendo multas de até R$ 3 mil, fechamento de estabelecimentos comerciais por 30 dias e proibição de cigarros até em prédios residenciais, sob a justificativa de preservar a saúde da população, o governador feriu direitos individuais assegurados pela Constituição e foi muito além da esfera de competência dos governos estaduais”.

Pior ainda, a legislação proposta por Serra punia quem nada tinha a ver com o peixe. O fumante não é multado, mas o estabelecimento onde alguém fuma. Ou seja, se alguém quiser afundar um bar ou restaurante, basta ir até lá e puxar um cigarro. Serra anunciou que irá recorrer. Se recorrer, irá perder. Ou pretende um governador revogar leis federais? Se alguém quiser acabar com o fumo em lugares públicos, que busque o caminho adequado, o Congresso Nacional.

A quem aproveita a medida estúpida? Ao medíocre e inescrupuloso tucano, que divulga seu nome às custas de incomodações inúteis para milhares de pessoas. E à guilda dos advogados, que sempre aplaude a produção em série de leis anticonstitucionais.

“Está aí uma coisa de que me arrependo muito: ter sido fumante – escreve Danuza –. Quando vou subir uma escada ou mesmo uma pequena ladeira, e tenho que parar para respirar, sinto muita vergonha. Como eu gostaria de ser lépida e ligeira como já fui; e sei que a culpa disso não tem outra origem a não ser o cigarro”.

Que se arrependa à vontade. Que sinta vergonha até o imo. Que se fustigue com correntes, que dilacere suas carnes com chicotes. Ninguém a obrigou a fumar. Mas que não pretenda rasgar a Constituição só porque foi burra no passado.

Segunda-feira, Junho 29, 2009
 
OBAMA REVELA
AO QUE VEIO



Um presidente que quer reeleger-se propõe um plebiscito para permitir sua reeleição. O plebiscito é considerado ilegal pela Suprema Corte de seu país. O Congresso aprova uma lei que impede a realização de consultas populares 180 dias antes e depois das eleições. O presidente ignora a lei e a decisão da Suprema Corte e mantém o plebiscito. A Suprema Corte ordena que o Exército destitua o presidente do país. Em defesa da Constituição, do Congresso e da Suprema Corte, o Exército o destitui. Dia seguinte, a imprensa internacional toda fala em golpe. Quando Exército rasga a Constituição é golpe. Quando a defende, também é golpe. Não entendi.

Talvez o imbróglio se torne mais claro quando Hugo Chávez, o clown do continente, declara seu apoio ao presidente que queria rasgar a Constituição e diz que não reconhecerá outro presidente hondurenho que não seja José Manuel Zelaya.

O presidente que preparava um golpe branco recebe, de repente, o inusitado apoio dos EUA. Barack Obama condenou a destituição do presidente hondurenho e pediu que "todos em Honduras respeitem normas democráticas, o estado de direito e os princípios acordados na Carta Democrática Interamericana". Para isso, disse Obama, Zelaya deve retornar ao poder. Ora, quem estava desrespeitando as normas democráticas, o estado de direito e os princípios acordados na Carta Democrática Interamericana era precisamente Zelaya.

É difícil imaginar que o presidente americano esteja mal-informado. Ainda há pouco, em um discurso na universidade do Cairo, revelou ao que veio, ao defender o Islã e a ditadura de Hosni Mubarak. Ao apoiar o tiranete da Venezuela e um projeto de ditadura, Obama de novo confirma seu apreço por ditaduras.

 
BÊBADO É QUEM
NÃO SABE BEBER



“Agora fiquei curioso, beber bebida alcoólica e não ficar bêbado? – me pergunta um leitor – “Acho que não tem como. Tem? Como?”

Ah, meu caro! Exige um aprendizado. E prática constante. Meu pequeno círculo de amigos bebe com entusiasmo e ninguém fica bêbado. Aliás, detesto bêbados. Jamais aceitaria um em minha mesa.

Fora algumas pessoas que não têm tolerância alguma ao álcool – e eu as conheço –, só se embriaga quem não sabe beber. Vi isto na Suécia, nos anos 70. O álcool era proibido nos bares. Só se bebia em restaurantes. Só com comida e a partir do meio-dia. Se você estava comendo uma pizza às 11h30 e pedia uma taça de vinho, nada feito. Só às 12h em ponto e a preços de tornar qualquer cristão sóbrio. Em supermercado, nem pensar. O máximo que alguém podia comprar era a mellanöl, uma cervejinha com pouco mais de 1% de teor alcoólico. E isso se provasse ser maior de 18 anos. Álcool mesmo, só era vendido nos systembollag, lojas estatais que abriam às oito da manhã e fechavam às seis da tarde. Aos sábados, fechavam ao meio-dia. Fins de semana, álcool só no câmbio negro. Estocolmo foi a cidade em que vi mais bêbados em minha vida. Nos fins de semana, jovens cambaleando nas ruas, um cheiro ácido de vômito nos vagões do metrô. Na Noruega, quando passei por lá, nas lojas estatais só podia comprar álcool quem provasse ter mais de 25 anos.

Por outro lado, nas tascas de Madri ou Lisboa, e mesmo em Paris, vi gente bebendo o dia todo e bêbado nenhum nas ruas. Devem existir, é óbvio. Mas não é fenômeno visível. Certo, em Paris havia os clochards, mas ser clochard é uma opção de vida. Digo havia, porque não lembro de ter visto clochards em minhas últimas passagens por lá.

Anos mais tarde, voltei à Suécia. A bebida havia sido liberada, pelo menos nos bares. Milhares de novos bares por todos os lados, gente bebendo alegremente nas terrasses e, aparentemente, bêbado nenhum nas ruas ou metrôs. O Kungsträdgården - Jardim do Rei, em língua de gente - era uma praça que tinha um só boteco em meus dias de Estocolmo. E com todas as restrições supra. Hoje, está repleta de bares e restaurantes, com gente bebendo à vontade. Com a liberação da bebida alcoólica, os suecos parecem ter aprendido a beber.

Beber sem embriagar-se tem seus riscos, há quem acabe passando da dose saudavelmente permissível. É uma aposta. Se ganhar, ganhou. Se não ganhar, será um desastre. Já vi muita gente morrendo devido ao álcool nas minhas cercanias. Junto a mim, ninguém.

O que não admitimos, nós que bebemos, é essa recomendação médica de beber apenas uma ou duas taças de vinho por dia. Com duas taças estamos longe de sentir o vinho. As palavras sequer começaram a fluir. Tenho uma boa amiga que, após meia garrafa de vinho, começa a falar grego. Depois de uma garrafa, eu até a entendo.

Beber é inerente ao jornalismo. Em meus dias de Caldas Júnior, em Porto Alegre, tive um colega admirável, o Carlos Raphael Guimaraens. Bom de copo, pessoa de cultura extraordinária, era uma enciclopédia ambulante. Quando a Caldas foi comprada por um certo Dr. Ribeiro, que de Dr. não tinha nada, correu um boato nos corredores, de que BBCs não mais seriam admitidos na empresa. Por BBC Dr. Ribeiro entendia bichas, bêbados e comunistas. O Guima foi objetivo:

- Dr. Ribeiro! Dá pra se fazer um jornal sem bicha. Também dá pra se fazer um jornal sem comunistas. Mas sem bêbado não se faz jornal.

Não que fosse bêbado. Apenas assumiu a terminologia do "Dr" Ribeiro. Era homem que bebia e certamente o mais brilhante articulista da Caldas. (O único brilhante, eu diria). Certo dia, parou subitamente de beber. Apreensão entre nós, seus amigos. O Guima deve estar doente. Estava mesmo. Morreu pouco tempo depois. Nada de cirrose, mas problemas cardíacos.

Certa vez, um médico teve o atrevimento de dizer-me: “o permissível por dia é meio copo de cerveja”. Ora, doutor, meio copo de cerveja não existe. Que não se confunda quem bebe com bêbado. Bêbado é quem não sabe beber.

Domingo, Junho 28, 2009
 
UNIVERSIDADES (V)


Sobre Nietzsche, outro autor que não se encontra na universidade, vou reproduzir texto que escrevi há uma década. Meus professores de Filosofia não gostavam do alemão, ele demolia todas as filosofias. Cá e lá ele era citado, afinal não podia ser ignorado. Mas nunca tive professor que recomendasse Nietzsche em suas bibliografias. Para mim, foi autor decisivo em minha vida. É leitura, penso, que deve ser feita quando se é jovem. Não sei se adianta ler Nietzsche aos trinta anos. Também não sei se seria útil a um jovem contemporâneo. Em minha época de universitário, pensamento se demolia com pensamento. Hoje, os meios de comunicação se encarregam deste trabalho de demolição.

Aconteceu nos dias de Porto Alegre. Um colega um tanto inquieto, cujos interesses oscilavam do pugilismo às matemáticas, me abordou com o olhar desvairado. Empunhava um livro com verve. "Tens de ler este alemão. Urgente". Era o Ecce Homo - Como se chega a ser o que se é, de Nietzsche. Seriam umas dez da manhã. Acostumados àqueles humores repentinos, pensei dar uma vista de olhos no livro, para que meu instável amigo não mais me chateasse. Já no índice, comecei a irritar-me. Primeiro capítulo: porque sou tão sábio. Segundo: porque sou tão sagaz. Terceiro: porque escrevo bons livros. O último capítulo, uma pergunta: porque sou uma fatalidade?

É o tipo de introdução que convida o leitor desavisado a jogar o livro longe. Mas uma música qualquer, uma cantata de eremita que volta do deserto, emanava das páginas sublinhadas com fúria naquele livro ensebado. Deixei-me levar pela música, fui entrando na atmosfera rarefeita do pensador. "Ouvi-me!" - alerta Nietzsche já na introdução - "eu sou alguém e, sobretudo, não me confundais com qualquer outro".

Mergulhei com fúria na leitura. Sentia estar perto de algo vital. Este livro, no qual o alemão furibundo se apresenta aos pósteros com as palavras com que Pilatos entrega o Cristo às turbas - Eis o Homem - foi escrito pouco antes de seu mergulho na loucura. É certamente o pensador que com mais energia lutou contra a hipocrisia do cristianismo e contra o próprio Cristo, a ponto de assinar-se, em seus dias de insanidade, como o Anti-Cristo. Ao falar da morte dos deuses pagãos, completava: sim, os deuses gregos morreram. Morreram de rir, ao saber que no Ocidente havia um que se pretendia único.

A manhã se foi, entrei meio-dia adentro, esqueci de almoçar e, lá pelas três da tarde, tive de engolir esta: Não me são desconhecidas as minhas qualidades de escritor; em determinados casos compreendi como se corrompia o gosto com o manuseio de minha obra. Acaba-se, simplesmente, por não suportar mais a leitura de outros livros, pelo menos os filósofos. (...) Disseram-me que é impossível interromper a leitura dos meus livros, porque eu perturbo até o repouso noturno. Não existem livros mais soberbos e, ao mesmo tempo tão refinados quanto os meus.

Vontade de jogar fora o livro. Mas já era tarde demais para voltar atrás. Procurei imediatamente as obras completas do autor. Primeira escala, Assim falava Zaratustra: "Exorto-vos, meus irmãos, a permanecer fiéis à terra e a não acreditar naqueles que vos falam de esperanças supraterrestres". Zaratustra é o eremita que, ao voltar da montanha, encontra um santo em uma cabana no bosque, que entoa cânticos para louvar a Deus. O eremita se espanta: "Será possível que este santo ancião ainda não tivesse ouvido no seu bosque que Deus já morreu?"

Para um jovem sufocado pela propaganda de Roma, sorver Nietzsche era como beber água límpida, não poluída pelos construtores de mitos. Passei inclusive a estudar alemão, para degustar no original seus ditirambos. Mas a vida tem outros projetos para os que nela entram, e acabei aprendendo sueco. De qualquer forma, Nietzsche foi decisivo para minha libertação. Títulos como A Origem da Tragédia, O Crepúsculo dos Ídolos, Humano, Demasiado Humano, Além do Bem e do Mal, Anti-Cristo já antecipam o que este doublé de filósofo e poeta se propõe.

Postumamente, publicou-se uma versão apócrifa de Vontade de Potência, devidamente adulterada por sua irmã, Lisbeth Förster-Nietzsche - que morreu refugiada no Paraguai - para atender aos interesses do nazismo. Durante boa parte deste século, Nietzsche, inimigo jurado de filosofias coletivistas, foi associado ao nazismo. Principalmente pelos marxistas, que intuíam em seu pensamento uma condenação avant la lettre dos regimes socialistas. Esta associação é desonesta.

Basta lermos as invectivas de Nietzsche aos alemães e à cultura alemã em Ecce Homo, para descartarmos este absurdo: "Em Viena, em São Petersburgo, em Estocolmo, em Copenhague, em Paris, em Nova York, por toda parte estou descoberto: não o estou somente no país mais ordinário da Europa, a Alemanha". Ou ainda: "Por onde quer que passe, a Alemanha destrói a cultura". Cabe lembrar que Nietzsche nasceu em Röcken, Prússia.

Este autor, dificilmente você encontrará nos currículos universitários. Seu pensamento demole sistemas, e a academia adora o pensamento sistematizado. Tampouco serve para criar qualquer espécie de culto ou religião: Zaratustra não quer discípulos. Nietzsche fala a homens livres, capazes de respirar a atmosfera das grandes alturas, que não temem a intempérie metafísica e dispensam muletas espirituais.

Há cento e nove anos, morria Nietzsche. Nestes dias em que uma nova inquisição, o pensamento politicamente correto, quer impor sua vontade, o Anti-Cristo certamente lhe renderia uma carrada de processos. Este livro, que escandalizou - e ainda escandaliza - a Europa, é uma contundente catilinária contra o Cristo e seus discípulos e um entusiasta elogio de César, Nero, César Borgia, Napoleão e Goethe. Nas páginas finais, lemos um projeto de Lei contra o Cristianismo, dada no dia da Salvação do ano Um (a 30 de setembro de 1888, pelo falso calendário).

Art. 1º - É vício qualquer tipo de antinatureza. A mais viciosa espécie de homens é o padre: ele ensina a antinatureza. Contra o padre não temos razões, temos a casa de correção.
Art. 2º - Qualquer participação num ofício divino é atentado contra a moral pública. (...) Quanto mais próximo se está da ciência, maior é o crime de ser cristão.
Art. 3º - O lugar de maldição onde o cristianismo chocou os seus ovos de basilisco será completamente arrasado, e sendo sobre a terra o local sacrílego, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Aí serão criadas serpentes venenosas.


E por aí vai. Leia Nietzsche. É salutar. Mas atenção: de nada adianta lê-lo aos cinqüenta. Aos cinqüenta, ou você há muito se libertou... ou está definitivamente perdido.

Sábado, Junho 27, 2009
 
HABEAS COPUS


Alexandre, voltando do sacrifício, reuniu para a ceia diversos amigos seus e generais e ofereceu um prêmio para aquele que mais bebesse. O vencedor foi Promaco, que bebeu doze litros de vinho e recebeu um talento como prêmio de sua vitória, morrendo três dias depois. Dos outros convivas, morreram quarenta e um em conseqüência da orgia, acometidos de um frio violentíssimo, enquanto perdurava o estado de embriaguez. É o que conta Plutarco, em Vidas Paralelas.

Enfim, não exageremos. Beber é bom. Mas devagar. Meu primeiro porre, devo tê-lo tomado lá pelos quinze anos. Não diria que foi involuntário. Mais que isso, foi necessário. Guri ainda, lá de vez em quando eu tomava algum gole de cachaça, mas não mais que isso. Me agradava o ardor da caninha ao descer pelo garganta. Vivia no campo e dependia de carona para ir até a cidade. Certo dia, peguei carona com o Toto Ferreira. Quem tem minha idade e conheceu Três Vendas e Upamaruty, sabe quem foi Toto Ferreira. Ou seja, raras pessoas tiveram o privilégio de conhecê-lo.

Mal entrei em seu jipe, me passou uma garrafa de Bacacheri. “Beija” – me disse. Beijei. De beijo em beijo, atravessamos Ponche Verde e rumamos a Dom Pedrito, o jipe sacolejando pelos barrancos. Ele tinha verve e me contava histórias daqueles pagos. “Quando eu bebo, as palavras flueeeemmm”.

Eu era novato, mas não maturrango. Se ele bebesse a garrafa toda, talvez não chegássemos a Dom Pedrito. A salvação era empinar pelo menos a metade. Foi o que fiz. Chegamos bêbados à cidade, mas pelo menos inteiros. Até hoje não esqueço aquela frase magistral: quando bebo as palavras flueeeemmm. Comigo também acontece.

O problema é que às vezes – e não poucas – acabo esquecendo o que disse. Certa vez, numa festa no Rio de Janeiro, brilhei quando minhas palavras começaram a fluir. Disse alguma coisa que deixou minha platéia perplexa. Quem disse isso? – perguntou-me um psicanalista. Que eu saiba, ninguém – respondi -. Quem está dizendo sou eu. “Disseste algo genial naquela noite” – escreveu-me um amigo. Maravilha! Mas havia dito o quê? Nem ele nem eu lembrávamos mais. Um de meus grandes momentos ficou perdido numa madrugada regada com o sangue das uvas.

Lá pelos 70, aprendi algo que não recomendo a ninguém. Aprendi a beber sem embriagar-me. Aconteceu em Liverpool. Eu era hóspede de um cônsul uruguaio na Inglaterra. Bastante inculto, dominava no entanto a arte de bem beber. Diplomata, tinha direito a spirits isentos de imposto. Como o embaixador não bebia, se beneficiava de uma cota extra. Sua casa era uma festa para bebuns. Havia uísques, vinhos, cachaças, grapas, akvavits, kirschwassers, calvás, chinchons, orujos por toda parte. Em armários, guarda-roupas e até mesmo debaixo das camas. Arsenal para enfrentar longas guerras. Gaúchos, começávamos a manhã com chimarrão. Lá pelas onze, um scotch. E o dia assim prosseguia, até um armagnac ou strega em final de noite. Como se bebe o dia todo sem se embriagar, não vou contar. Não quero condenar meus leitores ao oblívio.

Não que eu beba o dia todo. Viajando, até pode ser. Não tanto pelo beber, mas pelo gosto de bater ponto em cada tasca onde vivi dias felizes. Há viagens em que me atrapalho, particularmente quando em Viena, Roma, Paris ou Madri. Quero revisitar todos meus bares e os dias são curtos. Viena é uma desgraça. Você poder passar lá um mês e não consegue fazer todos aqueles cafés cheios de charme.

Há horas tento convencer meus médicos de que beber, pelo menos para quem sabe beber, não tem muito a ver com álcool. Falarei de vinhos. Tão importantes quanto o vinho são, a meu ver, a cor do vinho, a forma da taça, a comida que vai junto. Isso sem falar do lugar onde se bebe. Vinho não se bebe com sanduíche, muito menos com qualquer um. A cozinha tem de ser boa e a companhia também. Isso sem falar no ambiente. Mesas de madeira e paredes revestidas de madeira, se possível. Mármores e lustres também são bem-vindos. Jamais tomaria vinho nessas mesas de plástico abomináveis que estão infestando o universo todo. Vinho exige também toalhas. E nada de rádio ou televisão.

Mas talvez o mais importante seja a pessoa com quem se está. Abstêmias que me perdoem, mas não concebo conversar com água com uma amiga que quero bem. As palavras até que fluem sem vinho, mas não com a melhor das fluências. Estou ressuscitando de um longo semestre de lei seca, no qual me abstive até mesmo do convívio com minha gente. Um médico, empunhando os horrores do inferno, me prescreveu um ano sem beber. Outro, apreciador da boa mesa, foi mais leniente: só durante o tratamento. Só que o tratamento parecia não mais acabar. Já estava pensando em levá-lo às barras dos tribunais, impetrar um habeas copus em defesa da bona-chira e da boa charla. Não foi preciso. Estou finalmente liberado. Amici miei venite qui.

Não há consenso na medicina sobre o vinho. Em fevereiro passado, uma pesquisa do INCA (Instituto Nacional do Câncer, da França), assegurava que uma taça diária de vinho constituía fator cancerígeno. Em março, a reação. Uma outra pesquisa médica afirmava que o vinho – e só o vinho entre as bebidas alcoólicas – era benéfico para pelo menos vinte tipos de câncer. In dubio, fico com Verdi. Habeas copus:

Libiam ne' lieti calici
Che la bellezza infiora,
E la fuggevol ora
S'inebri a volutta'.

Libiam ne' dolci fremiti
Che suscita l'amore,
Poiche' quell'occhio al core
Onnipotente va.

Libiamo, amor fra i calici
Piu' caldi baci avra'.

 
MORTE TRANSFIGURA


Ontem, palhaço e pedófilo.

Hoje, grande artista.

Sexta-feira, Junho 26, 2009
 
TUNGA SINDICAL


Caro Janer!

O que está por trás deste corporativismo famigerado é a conhecida e popular "tunga sindical". A profissão regulamentada gera um sindicato que, imagine só, vai arrecadar todo ano, um dia de trabalho de cada um dos " profissionais" para o fundo sindical. Bem, arrecadará sempre mais um dia a cada acordo salarial, ou a cada pretexto aleatório, do tipo fundo de greve etc. . Além, é claro, das mensalidades dos "trabalhadores regulamentados". Ah, criará emprego e renda, (nada de trabalho) para os "dirigentes" e seus aderidos.

Com a dinheirama pagam-se os "trios elétricos", que infernizam as cidades acompanhando passeatas, agitos e badernas. Pagam-se as mordomias sindicais, a representatividade dos dirigentes (já viu algum dirigente usando sapato com meia sola ou camisa puida?), as campanhas eleitorais, etc. A regulamentação de profissões é apenas um pretexto...

Reconheço que os sindicatos mais fortes, além da esculhambação e infernalização nacionais por conta de seus intereses, também oferecem aos seus associados, serviços jurídicos, de saúde, lazer e formação profissional. Mas são poucos e não escapam da prática da tunga compulsória de dias de trabalho, inclusive contra os não associados.

Abraço,

Raul Almeida

 
FSP, SENADOR LADRÃO
E KENNEDY ALENCAR



Janer:

A propósito do envio de mensagem ao ombudsman da Folha sobre o senador ladrão que continua assinando sua coluna, passei pelo mesmo itinerário, contudo com assunto um pouco diverso.

A questão que reclamei foi do fato de que apesar do colunista Kennedy Alencar já ter sido assessor do ilustre apedeuta (sim, todos sabemos, a expressão é tua), esta informação não é dada ao leitor.

Considero relevantíssimo este procedimento para que o leitor possa contextualizar melhor a leitura que faz das opiniões do articulista, sobretudo em razão de que suas análises quase sempre são sobre as políticas do governo Lula. Veja que não estou exigindo imparcialidade, nem do colunista nem da Folha. Só a informação.

Também me agradeceram o envio da manifestação e que em breve teria uma resposta. Isto não aconteceu. Este negócio de ombudsman será que é levado a sério mesmo?

Newton Moratto

 
FOLHA SEGURA SENADOR LADRÃO


Hoje é sexta-feira. O senador ladrão continua assinando sua coluna na Folha de São Paulo. Olímpico, ignora o lamaçal em que afunda e lamenta a morte de uma menina em Teerã.

E o símbolo desse protesto passa a ser Neda, uma mulher morta pela milícia fanática dos aiatolás, basiysí. Seu rosto ensanguentado foi mostrado em todo o mundo. Seu sangue sem dúvida vai motivar mais ainda a libertação da mulher iraniana. Isso mostra que nem as mais cruéis tiranias, mesmo as teocráticas, resistem às ideias de liberdade e igualdade.

Que o Senado proteja Sarney entende-se. Canalhas são sempre solidários entre si. Que a Folha o mantenha como colunista é mais difícil de entender. O jornal que denuncia suas corrupções lhe dá sustentação em página nobre. Ao que tudo indica, a Folha não tem o rabo preso com o leitor. Mas com o senador.

Quinta-feira, Junho 25, 2009
 
OMBUDSMAN PASSA
BOLA PRA FRENTE



Segunda-feira passada, perguntei ao ombudsman da Folha de São Paulo se o senador ladrão continuaria a assinar coluna no jornal. De Carlos Eduardo Lins da Silva, acabo de receber:

Caro Senhor Janer,
agradeço sua manifestação, levada ao conhecimento da direção do jornal.
Atenciosamente,

Carlos Eduardo Lins da Silva
Ombudsman - Folha de S.Paulo

 
VESTAL PEDE QUE VESTAL
SAIA DA CASA DAS VIRGENS



O senador Pedro Simon afirmou hoje que o presidente do Senado, José Sarney, tem de se afastar do comando da Casa. "Ele deve se afastar desse processo. Para bem dele, da família dele, da sua história e deste Senado".

Pedro Simon é aquela vestal que levou sua mulher a Paris, com dinheiro não dele, mas do contribuinte. Afirmou ainda que os escândalos que envolvem o Senado não devem ser atribuídos a um ou outro parlamentar. "A frase bíblica nunca esteve tão certa: ninguém pode atirar a primeira pedra. Não se pode dizer que 'não fui eu' e não dizer que 'foi ele'. Há responsabilidade coletiva".

A responsabilidade é coletiva, mas vestal Simon nem cogita de se afastar do Senado.

 
GOVERNO ESTIMULA
DROGAS MILENARES



Leio no Estadão que a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), ligada à Presidência da República, vai capacitar 5 mil padres, pastores, monges budistas e outros religiosos para lidar com o problema das drogas. O curso, chamado de Fé na Prevenção, é gratuito, começa em agosto e terá duração de dois meses e certificado emitido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Até 2011, a meta é treinar 20 mil líderes. "Além de católicos e evangélicos de diferentes denominações, estão participando lideranças espíritas, judaicas, de religiões de origem africana, religiões orientais e uma série de movimentos afins que se dedicam ao tema drogas", contou a secretária adjunta da Senad, Paulínia Duarte.

Incompetente para lidar com o problema, o governo está propondo a substituição das drogas contemporâneas por uma outra, milenar. Sua Santidade Bento XVI, o maior traficante internacional de drogas, penhorada, certamente agradecerá.

 
FAMÍLIA QUE MENTE UNIDA
JAMAIS SERÁ VENCIDA



Atolado até o pescoço por ter transformado o Senado em prebenda de seu clã, José Sarney divulga nota hoje:

Sobre a matéria divulgada hoje pelo jornal O Estado de S.Paulo, considero os esclarecimentos prestados pelo meu neto, José Adriano Cordeiro Sarney, pessoa extremamente qualificada, com mestrado na Sorbbone, e pós graduação em Harvard, suficientes para mostrar a verdadeira face de uma campanha midiática para atingir-me, na qual não excluo a minha posição política, nunca ocultada, de apoio ao presidente Lula e seu governo.

Sorbbone, assim com b duplo e um só n, é por conta do erudito senador. Sarney acusa o Estadão. Mas a Folha de São Paulo, jornal onde assina coluna, terá obrigatoriamente de divulgar o fato. A edição on line do UOL de hoje, ao divulgar a defesa do neto, divulga o fato. José Adriano Cordeiro Sarney afirma que seus negócios são bem sucedidos por causa de sua formação:

Sou economista e administrador formado na Universidade Americana de Paris, com especialização em Economia Internacional pela Universidade de Sorbonne, na França, e curso de Pós-graduação na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Nessa condição, fui gerente no departamento responsável por créditos e, posteriormente, pelos conhecimentos na área, decidi atuar nesse mercado.

Ou avô e neto mentem ou não foram informados que Universidade de Sorbonne não existe. Desde 1969. Sou mais a primeira hipótese, afinal estamos tratando com pessoas que tem acesso à informação. Amanhã, veremos se a Folha mantém a coluna do senador corrupto, ladrão e mentiroso.

 
LÁ COMO AQUI


De uma entrevista com Juan Pedro Quiñonero, autor de La locura de Lázaro:

P: Hace unos días publicó un reportaje en ABC sobre la conmoción que ha causado en Francia la publicación de un libro en que se habla de editores venales, jurados corruptos, escritores inflados por críticos pesebreros ¿Es extrapolable el ‘caso’ francés al español?

R: Buena parte de la cultura española de hoy está controlada y manipulada por sectas mafiosas. Las corrupciones económicas son las más veniales. Las más graves son las que afectan a la manipulación y destrucción del gusto, la sensibilidad y lo que en otro tiempo se llamaban ‘valores literarios’. Hoy domina la incultura y la basura de masas.

 
LA PROFUNDIDAD DEL ALMA ARGENTINA


Por una cabeza
todas las locuras,
su boca que besa
borra la tristeza,
calma la amargura.

Por una cabeza
si ella me olvida
qué importa perderme,
mil veces la vida
para qué vivir...

Carlos Gardel


Mais caro que uma amante argentina, diz a sabedoria popular. Quem deve estar sentindo o preço é Mark Sanford, governador da Carolina do Sul (EUA), que desapareceu na semana passada, alegando que fazia uma caminhada em uma trilha. Em verdade, o governador trilhava por outras curvas, mais precisamente as de uma percanta argentina. E justo – ó sacrilégio! – no Dia dos Pais nos Estados Unidos.

Os emails trocados com a moça mais parecem letra de tango: “Meu coração grita por você, sua voz, seu corpo, o toque de seus lábios, o toque de seus dedos e mesmo pela conexão profunda com sua alma. Eu poderia divagar e dizer que você tem a habilidade de oferecer beijos magnificamente macios, ou que eu amo suas linhas bronzeadas, ou que eu amo a curva de seu quadril, sua beleza erótica no sutil brilho da noite - mas aí eu estaria entrando em detalhes sexuais".

Tudo menos detalhes sexuais. Temos um coração que grita, uma conexão profunda com uma alma. A alma é que é profunda, segundo o governador. Pelo que sei, nem Tomás de Aquino ousou falar em almas com profundezas.

 
CONTINUARÁ SENADOR LADRÃO
ASSINANDO COLUNA NA FOLHA?



Segunda-feira passada, fiz uma pergunta para Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha de São Paulo:

Na Folha de São Paulo de hoje, na privilegiada página dos editoriais, Fernando de Barros e Silva denuncia a velharia velha dos Sarney e a nova velharia representada pelo lulismo, afirma que o Brasil virou uma espécie de democracia senhorial e Lula se tornou seu maior avalista. E conclui: “Lula e o neopatrimonialismo sindical que ele sustenta levaram isso ao paroxismo. Não importa que seja ladrão, desde que seja meu amigo”.

Sem querer querendo, sem dizer dizendo, Barros e Silva chamou José Sarney de ladrão. Pergunta que se impõe: até quando a Folha de São Paulo manterá como colunista o senador ladrão?


No mesmo dia, recebi uma mensagem gerada automaticamente pela caixa postal de ombudsma@uol.com.br.

Prezado(a) Leitor(a):
Obrigado pela mensagem enviada ao ombudsman da Folha de S.Paulo.
Esta é uma resposta automática.
Suas observações serão apreciadas e, assim que possível, o (a) senhor (a) receberá resposta.


E mais nada recebi até hoje, quinta-feira. Amanhã é o dia em que Sarney assina sua coluna no jornal.

Quarta-feira, Junho 24, 2009
 
NO PAÍS DAS GUILDAS


Os corporativistas são aguerridos. Enquanto o ministro Gilmar Mendes afirma que não existe possibilidade de o Congresso Nacional reverter a decisão do STF que determinou o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, o senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE) já conseguiu coletar quarenta assinaturas de apoio à apresentação de uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que exige diploma de curso superior de Comunicação Social para o exercício da profissão de jornalista.

Segundo a proposta, o exercício da profissão será privativo de portador de diploma de curso superior de Comunicação Social, com habilitação em jornalismo, expedido por curso reconhecido pelo Ministério da Educação. Ou seja, o senador quer reconstituir exatamente o que a suprema instância jurídica do país acaba de derrubar. Pelo jeito, o senador ainda não descobriu que em Estado constituído existe uma última instância. Ou as leis seriam cambiantes como as nuvens que passam. Que nem malmequer. Hoje pode, amanhã não pode, depois de amanhã pode e dia seguinte não pode mais.

Gilmar Mendes disse acreditar que a decisão vai repercutir em outras profissões, mas não quis citar quais. Seria em boa hora. Já existem na Câmara projetos propondo a regulamentação de 169 profissões, entre elas a de pedólogo, cozinheiro, manicure, astrólogo, técnico de futebol, repentista. Se entre os 169 projetos estão “profissões” como a de astrólogo ou repentista, você pode ter uma pálida idéia do que pretendem regulamentar os outros 167 projetos. Mais um pouco e os senhores legisladores tentarão regulamentar as profissões de prostituta ou travesti. Se o contribuinte já paga silicone, hormônios e cirurgias para estes últimos, não espanta que dentro de pouco se exija diploma para o exercício do ofício.

Se um dia perder a capacidade de indignar-me – dizia Gide – é porque estou ficando velho. No que a mim diz respeito, confesso que ainda não decidi o que me indigna mais nestas minhas seis décadas de existência: se pagar silicone para travestis ou se ver universitários fazendo passeatas para defender privilégios corporativistas. Estes jovens – dos quais seria de se esperar atitudes generosas e nenhum compromisso com a corrupção – em verdade estão assumindo a mesma atitude senil dos políticos esclerosados do Planalto, que consideram um ataque às instituições democráticas a denúncia de suas corrupções. Nunca antes neste país, como costuma dizer o Analfabeto-Mor, os jovens foram tão senis.

O Brasil não é só o país das regulamentações, mas também o das profissões exóticas. Não sei se o leitor sabe, mas até aquele pobre diabo que aperta botões em um elevador tem a profissão regulamentada no Brasil. Como se você fosse incapaz de apertar o botão do andar para onde você vai. Ainda na semana passada, representantes do Sindicato dos Cabineiros de Elevador – este é o pomposo nome do ofício – do Município do Rio de Janeiro participaram de uma audiência pública na Assembléia Legislativa do Rio para cobrar o cumprimento das leis municipal e estadual que exigem a presença de ascensoristas nos elevadores de prédios comerciais e mistos.

Cuidado ao apertar o botão de um elevador, leitor. Você ainda acabará incurso em exercício ilegal da profissão. E se tiver algum pendor para o repente, cuidado ao sair improvisando versinhos por aí. Esta atividade só poderá ser exercida por repentistas diplomados.

Ontem ainda, um leitor me informava que se pretende regulamentar a profissão de escritor. Sei disso, escrevi sobre o assunto há bons sete anos. Pretende-se também regulamentar a profissão de tradutor. Tradutor não seria quem domina idiomas e traduz, mas quem cursou o curso de tradutor. Mais um pouco e nem pai-de-santo pode ganhar a vida com suas vigarices se não tiver curso superior.

Reproduzo abaixo parte do que escrevi, na época, sobre a pretensão das guildas.

 
Crônica antiga:
O BOLCHE E OS ASTROS



Em O Jardim das Aflições, o astrólogo Olavo de Carvalho afirma ser difícil "um sujeito acreditar na influência dos astros e na luta de classes como motores da história". Ocorre que estamos no Brasil, onde o inimaginável não só não é difícil, como perfeitamente viável. Depois que um testemunho do Além, psicografado por Chico Xavier, já serviu de prova em um tribunal, tudo é possível. Um projeto que regulamenta a profissão de astrólogo foi aprovado pela Comissão de Assuntos Sociais do Senado e agora aguarda votação no plenário. De autoria do senador Artur da Távola, líder do governo no Senado, a proposta define quem poderá exercer a astrologia e as atribuições dos profissionais, entre elas, o "cálculo e elaboração de cartas astrológicas de pessoas, entidades jurídicas e nações utilizando tabelas e gráficos do movimento dos astros para satisfazer às indagações do público".

O Brasil tem vocação para único. Único pentacampeão de futebol, é também o único país no mundo que exige curso superior para o exercício da profissão de jornalista. Possivelmente é também o único em que um bolchevique histórico propõe a regulamentação de uma crendice. Ou melhor, de uma vigarice, pois de outra forma não se pode chamar a exploração de superstições. Se aprovado no plenário do Congresso, teremos reconhecido a um grupo seleto de vigaristas o direito exclusivo de enganar simplórios. Há uma febre nacional corporativista. Ano passado, na Bahia, até as vendedoras de acarajé tentaram regulamentar a profissão. Como crentes evangelistas passaram a vender nas ruas o bolinho de feijão, persuadiram uma vereadora a apresentar projeto de lei que proíbe o preparo ou venda de acarajé por qualquer estabelecimento comercial, incluindo shoppings, restaurantes e bares. Só mãe-de-santo pode vender acarajé. Agora, pelo projeto do senador, só astrólogos legalmente habilitados poderão exercer a astrologia. Quanto à astronomia, ciência há séculos consolidada, seu exercício ainda não foi regulamentado.

Em meus dias de foca em Porto Alegre, na falta de redator, redigi por várias semanas a coluna de astrologia do finado Diário de Notícias. Ninguém reclamou, nem os astros nem seus regidos. O único protesto, que quase me custou o emprego, foi do editor do jornal, quando foi verificar porque eu ria tanto enquanto redigia. Se passa o projeto do senador, este avatar do qual nenhum foca escapava naqueles dias, seria hoje considerado exercício ilegal da profissão.

Nada de espantar neste país em que o governo do Estado de Santa Catarina pagava a fundação Cacique Cobra Coral, "entidade esotérica-científica", para fazer a previsão do tempo. O cacique Cobra Coral é um indígena americano que, em outras encarnações, teria sido Galileu Galilei e Abraham Lincoln. Seu espírito se manifesta através da médium Adelaide Scritori, que já fez chover na Sérvia a pedido do presidente Sadam Hussein, para deter o avanço das tropas da OTAN. Cobra Coral pode empurrar uma frente fria de um lugar para outro, derrubar um centro de pressão atmosférica evitando um tufão e até fazer sumir uma geada. A Fundação, cujo lema é "luz que ilumina os fracos e confunde os poderosos", informa em seu site que tem como clientes governos estaduais, ministérios, multinacionais, e políticos, como o governador de Santa Catarina, Esperidião Amin, o ex-presidente José Sarney e o senador Gerson Camata.

O diretor da empresa Tunikito Corporation, controlada pela fundação, esteve ano passado com o senador Eduardo Suplicy, para mostrar-lhe cópia da carta enviada ao então ministro de Minas e Energia, Raimundo Brito, onde previa o blecaute no Centro-Sul do país na primeira quinzena de março. Enfim, dada a crença de ex-presidentes, governadores, ministros e senadores pátrios no sobrenatural, não causa espécie que o velho bolchevique impenitente tenha proposto a seus pares no Senado a regulamentação do ofício de intérprete da vontade dos astros.

Aprovado o texto, teremos muito em breve uma Faculdade de Astrologia, com mestrados e doutorados na área. Astrólogos devidamente diplomados seriam contratados pelos organismos públicos para atuar na seleção de pessoal, previsão de catástrofes, flutuações do câmbio e campanhas eleitorais. Paralelamente à Ouvidoria Geral da República, teríamos uma Vidência Geral da República ou algo parecido, "para satisfazer às indagações do público", como quer o senador.

Quanto à imprensa, caluda! Nenhum jornal, por mais sério que se pretenda, dispensa sua coluna diária de astrologia. Há milhões de leitores, no mundo todo, que só põem as mãos num jornal para ver o que dizem os astros. Empresário algum, por mais avesso que seja a crendices, pensaria em não atender as angústias desta massa informe de crédulos. Se a própria imprensa, que se pretende crítica, endossa a vigarice, não é de espantar que seus colunistas de astrologia se sintam valorizados com a nova lei. De qualquer forma, em uma cultura dominada por sacerdotes que exploram o cadáver de um judeu, que além de ser deus seria filho de mãe virgem, engodo a mais engodo a menos não faz a menor diferença.

Mas não discriminemos os demais vendedores de vento. Urge regulamentar ainda ofícios fundamentais ao bem-estar psíquico da nação. Não se pode deixar ao desabrigo da legislação trabalhista profissionais como pais e mães-de-santo, médiuns, cartomantes, quiromantes, jogadores de búzios, leitores de borra de café.

E – last but not least – os psicanalistas, que também são filhos de Deus e dependem da credulidade pública.

(07/07/2002)

 
Crônica antiga:
UNIVERSIDADE PÚBLICA ASSUME VIGARICE



Em 2003, o Ministério da Educação autorizou o funcionamento em São Paulo da Faculdade de Teologia Umbandista (FTU). Da grade curricular constam Botânica Umbandista, Fundamentos de Psicologia Geral e Umbandista, Biologia Geral e Espiritual. Donde se conclui que deve também existir uma botânica católica, outra judia, outra luterana e assim por diante. As botânicas florescerão com o mesmo viço das profissões de fé. Idem no que diz respeito à psicologia. Quanto à biologia espiritual, é de perguntar-se qual será a natureza do material estudado pelos professores. Seres etéreos, evanescentes, inefáveis?

Em janeiro de 2004, a ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, sancionou lei que permite a oferta, na rede de saúde, de "terapias naturais" não reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina, como aromaterapia e cromoterapia, fitoterapia (tratamento com plantas), terapia floral, geoterapia (terapia com terra, argila, barro), e até a iridiologia.

Não bastassem tais vigarices serem elevadas ao status de ciência, a Universidade de Brasília criou um curso de Astrologia, promovido pelo Núcleo de Estudos dos Fenômenos Paranormais, que se dedica ainda a outros temas do gênero, como ufologia e conscientologia, seja lá o que isto quer dizer. As lições de astrologia duram quatro meses. Os estudantes, a maioria com diploma universitário, vêm das mais diversas áreas - da psicologia à física. Os 20 alunos da sétima turma começaram os estudos na semana passada.

Que ousados executivos do Além queiram dourar seus ofícios com diploma de nível superior entende-se. Claro que em breve teremos doutores em Teologia Umbandista e - por que não? - faculdades de Teologia do Candomblé. Isso sem falar nos mestres e doutores astrólogos. Mais um pouco, e o senador comunista Artur da Távola verá seu sonho realizado, a regulamentação da profissão de astrólogo.

O que pasma é ver o MEC endossando tais excrescências. Verdade que a coisa começou há muitos séculos. Quando, na Idade Média, surgiram os primeiros cursos universitários de Teologia, as portas estavam abertas para toda e qualquer especulação. Teologia é a ciência do conhecimento de Deus. Isto é, do conhecimento do que não existe. Se os católicos têm uma ciência do que não existe, porque umbandistas e astrólogos não a teriam?

(22/09/2006)

 
Crônica antiga:
CORRUPÇÃO VIA LITERATURA



Continua fazendo estragos no país o furor corporativista que assola certos ofícios. Em crônicas anteriores, comentei a regulamentação da profissão de astrólogo, cujo projeto de lei já passou no Senado. Enquanto a vigarice não toma forma de lei, um certo mestre De Rose - que não tem mestrado em coisa alguma - se propõe a regulamentar a profissão de instrutor de ioga. Os místicos se organizam e querem o monopólio do mercado das angústias humanas. Não bastassem estes senhores querer cercar de exigências os profissionais destas guildas metafísicas, um jornalista do Estadão quer agora carteirinha para escritor. Demonstrando desconhecimento da confecção de leis, o cronista Mário Prata pede ao presidente da república o reconhecimento de seu ofício: "O que eu quero, meu presidente, é que antes de o senhor deixar o governo, me reconheça como escritor". A capacidade de síntese do cronista é extraordinária: nunca se disse tanta bobagem em frase tão curta.

Esquecendo que existe um Congresso neste país, o cronista pede ao presidente a elaboração de uma lei. Mais ainda. Cita a Inglaterra como exemplo de país onde o escritor é reconhecido. Lá, segundo o cronista, toda editora que publicar um livro, tem que mandar um exemplar para cada biblioteca pública do país. "Claro que os 40 mil exemplares são comprados pelo governo. Quem ganha? Em primeiro lugar o público. Ganha a editora, ganha o escritor. Ganha o País. Ganha a profissão".

E quem perde? - seria de perguntar-se. A resposta é simples: como o governo não paga de seu bolso coisa alguma, perde o contribuinte, que com os impostos tem de sustentar autores até mesmo sem público. É o que chamo de indústria textil. Textil assim mesmo, sem acento: a indústria do texto. É uma indústria divina: você pode não ter nem um mísero leitor e vender 40 mil exemplares. Este é o sonho do cronista. Mário Prata viu um Potosi a céu aberto no bolso do contribuinte. Quando um político tasca a mão no dinheiro público, a imprensa horroriza-se e fala em ética. Mas se um membro da guilda sugere ao presidente da República que confisque dinheiro do contribuinte para seu bem-estar, chama-se a isto defesa da literatura nacional.

Diga-se de passagem, esta corrupção é florescente no Brasil. De fato, o Estado não compra 40 mil exemplares de cada editora. Mas através das leituras impostas em currículos e vestibulares, obriga a compra forçada dos Machados, Clarices Lispectors e Lygias Fagundes Telles da vida. Autores que, não fosse esta imposição da máfia editorial, há muito estariam gozando do merecido repouso eterno. Há quem defenda a privatização da Petrobras. Ninguém fala em privatização do livro. Pois o livro, no Brasil, é estatal.

Existe ou não existe a profissão de escritor no Brasil? Primeiro ter-se-ia de perguntar se escritor é profissão. Em um livro que causou algum escândalo na Paris dos anos 70 - Le Bazar des Lettres - Roger Gouze contestava com energia o caráter profissional do ofício. "O estatuto oficial do escritor me parece tão absurdo quanto o das prostitutas que também reivindicam o seu: não se pode ao mesmo tempo desafiar o poder, a polícia, as leis (por hipócritas que sejam) da sociedade e pedir-lhes uma proteção". Se a literatura é uma arte - argumenta o autor - o escritor deve, como todo mundo, ter uma profissão que o sustente, ao lado da arte que ele alimenta com o melhor de si mesmo. "Não uma segunda profissão, pois a literatura não é uma".

Como viverá então o escritor se a obra não lhe rende nada? "Como todo mundo" - responde Gouze. Claro que o autor francês fala de uma época em que literatura era vista como contestação. Hoje, os autores estão se profissionalizando. O editor pesquisa o paladar do público e encomenda um produto de moda. O escritor, como carneirinho dócil, escreve o que o público pede e o editor ordena. Ou o que um político paga. Fernando de Morais, por exemplo, está imerso na biografia desse caráter sem jaça, Antônio Carlos Magalhães.

No canta quien tiene ganas, sino quien sabe cantar - já dizia Martín Fierro. Escreve quem quer escrever, quem sente ter algo dizer e não consegue ficar calado. Regulamentar a profissão de escritor seria o primeiro passo para regulamentar também a de poeta. Ou a profissão escultor ou pintor. Não mais é poeta quem cria poemas, nem escultor quem esculpe, nem pintor quem pinta. Mas quem está registrado, em algum cartório, como tal. Você pode imaginar um ator que não consegue provocar um mísero aplauso em um teatro, mas é ator? Esse ator sem platéia já existe neste país incrível, pois a profissão foi regulamentada.

A pretensão não é nova, só o arguto cronista do Estadão parece desconhecê-la. O projeto que regulamenta a profissão de escritor está em tramitação na Câmara Federal há pelo menos dois anos. O absurdo foi proposta do deputado Antônio Carlos Pannunzio, por sugestão de membros da Academia Sãoroquense de Letras, de São Roque, interior de São Paulo. O projeto estabelece as normas para o exercício da profissão, nos mesmos moldes da de jornalista. Só não exige curso superior. Aprovada a lei, escritor não será mais quem escreve, e sim quem possui certificado de habilitação profissional. Ao melhor estilo do finado mundo socialista, este certificado seria fornecido exclusivamente pelo sindicato ou por associações profissionais da categoria.

Um jornalista pede ao governo para extorquir do contribuinte o dinheiro de seu sustento. Mário quer prata. Volto a Fierro:

Si la vergüenza se pierde
jamás se vuelve a encontrar.


(22/07/2002)

Terça-feira, Junho 23, 2009
 
AINDA OS FALSOS COZINHEIROS


Caro Janer!

Neste momento, diversas faculdades estão oferecendo cursos superiores em gastronomia, culinária e assuntos relativos a indústria da hospitalidade e turismo.

O disparate: para conseguir vagas de recepcionista ou concierge, assim como cozinheiros ajudantes e/ou chefes de partida, o candidato deve ser graduado em hotelaria, turismo ou gastronomia.... Assim, para entregar chaves, cortar cebolas ou grelhar bifes, a "graduação" já está sendo exigida...

Para analfabetos, aculturados, portadores de certificados de primeiro e segundo grau, artífices, artistas e artesãos, sobraram as vagas inerentes às suas habilidades, mais as de presidente da República, legisladores e dirigentes sindicais.

Abraço,

Raul Almeida

 
AINDA OS DIPLOMAS


Se o curso de Filosofia me deu algo na vida, foi a Baixinha. Foi lá que a encontrei, em meus 17 anos, e até hoje viveríamos juntos se ela já não tivesse partido. Mas não é disto que pretendia falar. Recém-formada, fez concurso para auditor fiscal. Na época, exigia-se para o ofício apenas curso superior. Poderia ser até de Educação Física. Mas tinha de ter diploma.

Formada em Filosofia, ela trabalhou a vida toda com legislação tributária. Fez cursos na área e o resto aprendeu no dia-a-dia. Aposentada, trabalhou no Conselho de Contribuintes em Brasília e deu assessoria a um escritório de advocacia em São Paulo. Seus pareceres no Conselho produziam jurisprudência. Certo dia, inconformada com a impossibilidade de assinar petições por não ser formada em Direito, tomou uma decisão: “Vou fazer um curso de Direito”.

Dei força. Mas não acreditei que conseguisse cursá-lo. Quem passou a vida toda trabalhando com leis não conseguiria suportar a precariedade de um curso de Direito. Ela persistiu em seu propósito e fez vestibular na prestigiosa – e cara – Mackenzie. Naturalmente, foi aprovada. No primeiro dia de aula, voltou chorando. “Vi aquelas menininhas todas, tive vergonha. Não consegui entrar”.

Eu a abracei. “Bobagem, Baixinha. Vai em frente. Daqui a duas ou três semanas, a tia estará liderando as menininhas”. Ela voltou. Não conseguiu agüentar dois dias.

No primeiro dia, um professor de Direito Constitucional perguntava às menininhas:

- O Direito é uma emanação da so... da so... da so?

Resposta alguma.

- Da socie... da socie?

- Da sociedade - respondeu alguém mais atilado.

No segundo dia, o mesmo professor perguntava;

- Ao Direito dos Costumes chamamos direito con... direito con... con?

Ni pensar.

- Consue... consue... consue?

Silêncio total.

- Consuetudi... consuetudi... consuetudi?

Muito menos.

- Consuetudinááááário – completou o professor, feliz com sua sapiência.

Como eu previra. No terceiro dia de aula, a Baixinha era ex-aluna de Direito.

Só para concluir: o mundo está cheio de profissionais extremamente competentes em diversas áreas, sem o devido curso exigido pelas corporações. Ainda ontem, aqui em São Paulo, cerca de 200 estudantes protestavam contra a decisão do STF de acabar com a obrigatoriedade de diploma para jornalista. Obrigatoriedade que não existe em país algum do mundo. Só neste Brasil dominado por sindicatos.

É triste ver jovens, que supomos ainda não corrompidos em decorrência da luta pela vida, empunhando bandeiras corruptas. Já chegaram à senectude, sem passar pela maturidade.

 
BRASIL NÃO TEM CURA


Janer

Não seria má idéia exigência de diploma apropriado (de curso talvez a ser criado) pelo menos para candidatos a administrar o país, estados e municípios. Certamente haveria uma generalizada elevação do nível cultural dos nossos políticos e aspirantes. Você poderia dar o pontapé inicial numa campanha nesse sentido, mesmo que o Reinaldo venha a copiá-lo.

José Darcy Custódio



Não digo curso, Custódio. Mas todo governante ou deputado deveria ter pelo menos noções de como administrar uma folha de pagamentos e de como fazer leis. "Leis são como salsichas; é melhor não saber como são feitas" - dizia von Bismarck. Neste país, vereador acha que postura municipal pode derrubar uma lei. Isso quando não é o Congresso que elabora leis manifestamente inconstitucionais e só depois vai discutir se são constitucionais ou não. Os atuais legisladores não têm noção do que seja lei maior e lei menor, coisa que se aprende já no primeiro ano de Direito. Não é de surpreender que o Judiciário esteja atulhado por 70 milhões de processos anuais.

Analfabeto deveria ser proibido de candidatar-se. Mas que fazer quando o tal de povo elege e reelege - e re-reelegerá, se lhe for permitido - um analfabeto? Brasil é doença que não tem cura.

 
DIPLOMAS E OFÍCIOS


Caro Janer,

A coisa assume nuances de romance kafkiano. Estava em uma academia que nós, moradores do prédio (moro num apartotel) resolvemos equipar uma academia e cuidar do corpo, cada um contratou seu "personal" e seguia suas orientações. Eu, já adepto do culto ao físico e tendo formação médica, preferi orientar a mim mesmo sem ajuda de educador físico.

Não há de ver que apareceram fiscais do conselho regional dos educadores físicos para nos notificar por não termos professor disponível em uma academia em nossa casa? Quando vi o teor da conversa com o zelador, convidei-os a se retirarem por entrarem em ambiente privado sem autorização e lhos perguntei se, caso espirrassem, teriam de recorrer imediatamente aos meus serviços sob risco de notificação caso usassem um lenço sem minha supervisão. Eles ficaram constrangidos e se retiraram. Pois é, querem nos dizer até o que fazer com nossos corpos.

Meu pai enfrentou um processo e ganhou ao rechaçar o achaque do conselho dos economistas. Ele tocava empresa com a minha mãe, de fomento mercantil e cobrança. Como essas empresas estão, na maioria das vezes, servindo de fachada para agiotas, eles acharam que, tendo culpa no cartório, meu pai abaixaria a cabeça. Deram com os burros n'água e ainda tiveram de se desculpar.

Gostei do critério proposto pelo senhor: cursos que precisem de laboratórios e prática devem ser preservados (acho que nem precisaria, mas, enfim...), cursos de giz e quadro-negro, diploma é "valor agregado".

Fernando C. Albuquerque

Segunda-feira, Junho 22, 2009
 
ATÉ QUANDO A FOLHA MANTERÁ
SENADOR LADRÃO COMO COLUNISTA?



Em discurso na tribuna do Senado, o senador Arthur Virgílio acusou o ex-diretor da Casa, Agaciel Maia, da prática de crimes. Disse que ato secreto é uma das coisas mais nojentas do Parlamento e que Agaciel tem mestrado, doutorado e pós-doutorado em chantagem. Sua missão seria a de "transformar em secretos atos que não tinham por que serem secretos”. Foi mais longe: "Tenho convicção de que tem gente com mandato, tem senador por trás, tem gente por trás dele. (...) A ética genérica, nesta Casa, morreu, Sr. presidente. Esse ético surfa de maneira antiética na política da ética, esse ético genérico não aponta o nome, o CPF desse ladrões. Eu estou aqui apontando dois ladrões: o Sr. Zoghbi e o Sr. Agaciel. Eu dou os nomes. Arranjo dois inimigos, mas não volto atrás, haja o que houver."

O senador tucano não ousou, no entanto, nominar o senador por trás dos dois ladrões. Só deu nome aos guris de recados. O senador não se preocupa em arranjar dois inimigos pequenos. Mas se acovarda ao omitir o ladrão grande, o “senador por trás”. A ética genérica, esta inovação epistemológica do valente senador, demonstrou não ser nada mais que um acordo entre canalhas.

Na Folha de São Paulo de hoje, na privilegiada página dos editoriais, Fernando de Barros e Silva vai mais longe. Em artigo onde denuncia a velharia velha dos Sarney e a nova velharia representada pelo lulismo, afirma que o Brasil virou uma espécie de democracia senhorial e Lula se tornou seu maior avalista. E conclui: “Lula e o neopatrimonialismo sindical que ele sustenta levaram isso ao paroxismo. Não importa que seja ladrão, desde que seja meu amigo”.

Sem querer querendo, sem dizer dizendo, Barros e Silva chamou José Sarney de ladrão. Pergunta que se impõe: até quando a Folha de São Paulo manterá como colunista o senador ladrão?

 
UNIVERSIDADES (IV)


Falava das cinco universidades que freqüentei e do pouco que me deram. Mas houve uma sexta, e a mais importante, a universidade das ruas, dos bares e dos amigos. As leituras que foram importantes em minha vida, não as encontrei na academia. Raramente se falava de Nietzsche em meu curso de Filosofia, e quando se falava era despectivamente. Não fiz Letras, mas conheci alunos de Letras. De modo geral, desconhciam Cervantes, Dostoievski, Swift ou Orwell. Mas conheciam os Machadinhos da vida. Ora, direis, estás falando dos cursos de Letras orientados à Literatura Brasileira. Pode ser. Mas não se conhece, nem se pode emitir juízo de valor sobre uma literatura nova sem conhecer as antigas.

Em José Hernández, o poeta maior do continente, fui iniciado por meu pai, homem nascido no campo e sem acesso algum à cultura urbana. Gaúcho de Livramento, nasci embalado pelas sextilhas hernandianas. Nas madrugadas lá da Linha, na fronteira seca entre Uruguai e Brasil, antes de buscar as vacas em meio à cerração, sempre se tomava um mate ao redor do fogo no galpão. Enquanto eu chorava com a fumaça de algum cavaco de madeira verde, meu pai recitava as coplas de Fierro.

Chamavam-no de Canário. Não era homem de Letras. Se lhe perguntassem onde ficava a Europa, meu pai diria sem vacilar: “é lá pras bandas de Passo Fundo”. No que não deixava de ter razão. Vista de um homem postado em Livramento, a Europa fica sem dúvida para os lados de Passo Fundo. No entanto, conhecia de cor centenas de versos de Fierro. Não sei se ouvira falar de Hernández. E aqui se revela o milagre da grande arte: como no Quixote, o personagem acaba por matar o autor. Fierro, para os gaúchos da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, era um índio vago que por ali havia passado, sempre lutando para defender seu pelego. Talvez até mesmo estivesse vivo, sempre fugindo de “la polecía”.

José Hernández, nuestro vecino, terá sido um dos raros poetas a sentir, ainda em vida, a ventura de ter sido morto pelo personagem que criou. Antes mesmo da publicação da segunda parte do poema, já era conhecido como Martín Fierro: “Soy un padre al cual le ha dado su nombre su hijo”, costumava dizer. Ao morrer, um jornal de La Plata deu-lhe a maior honra que pode merecer um escritor:

HA MUERTO EL SENADOR MARTÍN FIERRO

Apesar de ter criado um poema de impossível tradução, o “senador Martín Fierro” tem suas coplas traduzidas nas mais importantes línguas do Ocidente. Entre nós, apesar de ter vivido em Santana do Livramento, onde teria iniciado seu poema, é desconhecido. Pergunte hoje, leitor, em um curso de Letras no Brasil, quem conhece José Hernández. Ninguém conhece. Nos anos 90, ministrei um rápido curso sobre o poema, na Universidade de Passo Fundo, cidade do Rio Grande do Sul que se orgulha de sua gauchidade. Nenhum de meus alunos ouvira falar de Fierro.

Tenho uma definição muito pessoal de gaúcho. Se interpelar alguém com os primeiros versos de Martín Fierro e se meu interlocutor não continuar a sextilha, não é gaúcho. Pode ser até rio-grandense, mas gaúcho não é. Não se pode confundir este personagem ligado à pampa e ao cavalo, com seres urbanos nascidos no asfalto.
Em algum final de noite dos anos 90 em Paris, encontrei uma uruguaia que vivia na Noruega, em Oslo, e se dizia gaúcha. Dei o santo:

Aqui me pongo a cantar
al compás de la vigüela,


Ela deu a senha:

que el hombre que lo desvela
una pena estrordinaria,
como la ave solitaria
con el cantar se consuela.


Era gaúcha, sem dúvida alguma. O mesmo eu não poderia afirmar das centenas de pessoas que encontrei em meus dias de Porto Alegre. Pois o poema maior que o continente latino-americano deu à literatura universal, de um modo geral, é desconhecido pelos habitantes da capital de um Estado que se pretende gaúcho.

Alguns anos antes da reunificação alemã, estive em Berlim Ocidental, em plena "Semana Martín Fierro". Era hóspede de uma estudante de Letras de origem italiana, nascida no Rio Grande do Sul. Ela não sabia se José Hernández era açougueiro ou alfaiate. Quando soube que o poema começara a ser escrito no exílio do senador argentino em Santana do Livramento, achou que eu delirava. Foi consultar uma enciclopédia literária alemã, lá estaria a verdade. Pois lá estava a verdade: os dicionaristas concediam várias páginas a nosso vizinho e o comparavam – nada mais, nada menos – a Homero. Acabei sendo convidado para uma palestra na Freie Universität Berlin. E repeti com gosto, para os Deutschen, aquelas coplas que um dia ouvi, não na universidade, mas da boca de meu pai, em um galpão no Upamaruty.

Em Paris, quando defendia uma tese de doutorado em Literatura Comparada, tive a honra de ter no júri M. Paul Verdevoye. A parte de ser um dos grandes divulgadores da literatura latino-americana na Europa, era o tradutor do poema de Hernández ao francês. Tradução a meu ver inviável. Mas - diz-se entre tradutores - se traduzir é impossível, traduzir também é necessário.

Tive ainda um outro reencontro com estes versos de minha infância lá no outro lado do Atlântico. Em Las Palmas de Gran Canaria, encontrei um professor universitário, arabista de renome, cuja pedra de toque era o conhecimento do poema argentino. Naquela ilha vulcânica, batida pelos ventos da África, tão estranha à pampa gaúcha, o homem deslumbrava platéias canarinas recitando a saga de Fierro.

Domingo, Junho 21, 2009
 
MOZART FALSO MÚSICO


De Gaspa, recebo:

Seguindo a lógica do Dimenstein, logo logo quem quiser ser ator ou diretor de teatro ou televisão, vai precisar de um curso de Artes Cênicas, cineasta vai precisar faculdade de Cinema, e só vai poder trabalhar como pintor quem tiver concluído um curso superior em Artes Plásticas. Todo cantor de boteco vai precisar de um diploma em Música, deejays vão precisar de curso superior de Produção Musical. Não demora muito, para se ser prefeito, o candidato vai precisar de um curso de Administração com habilitação em Gestão de Cidades.


É por aí, Gaspa. No que diz respeito aos músicos, os corporativistas já cercaram a profissão. Você não é músico só porque domina um instrumento. Segundo a lei nº 3857, de 1960, só podem exercer a música como atividade profissional aqueles que forem filiados à Ordem dos Músicos do Brasil, se submetam ás provas de qualificação da guilda e retirem sua carteira profissional. Para obter a carteira de músico profissional, o candidato deve fazer uma prova escrita de conhecimentos básicos de teoria musical e tocar duas partituras (uma de sua escolha e outra determinada pela banca examinadora). Uma vez obtida a carteira, você tem de pagar uma anuidade.

Ou seja, se Mozart fosse um brasileirinho, seria um falso músico caso não se submetesse ao exame e à extorsão da sapientíssima Ordem dos Músicos do Brasil. Quanto a ser presidente, senador ou deputado, não precisa habilitação nenhuma. Qualquer analfabeto pode.

 
FALSOS COZINHEIROS


Ao comentar a comparação de jornalistas a cozinheiros, feita pelo ministro Gilmar Mendes, escrevi ontem: “Espero que não tenha dado uma boa idéia à guilda dos candidatos a cozinheiro. Porque neste país onde até uma profissão inútil como a de ascensorista é regulamentada, não seria de espantar que algum político em busca de clientela pretendesse regulamentar a de cozinheiro”.

Não foi preciso esperar muito. Hoje, na Folha de São Paulo, Gilberto Dimenstein escreve: “O presidente do STF, Gilmar Mendes, ao justificar o fim do diploma, comparou o jornalista ao cozinheiro. Também não acredito que um cozinheiro, no futuro, prospere sem diploma de ensino superior”.

Já há quem fale em falsos jornalistas para referir-se aos jornalistas sem diploma. Pelo jeito, dentro em breve, quem cozinhar sem ter curso superior será um falso cozinheiro.

Sábado, Junho 20, 2009
 
SOBRE CULINÁRIA E JORNALISMO


Em São Paulo, convivi com três amigos que eram cozinheiros de escol e me propiciaram grandes momentos à mesa. Jornalista, sempre invejei quem sabe cozinhar. É ofício que exige arte e longo aprendizado. Não eram profissionais da cozinha, estes amigos. Ganhavam a vida com outras profissões. Mas tinham como pedra de toque o queimar panelas. Em um de nossos ágapes, comparávamos nossos ofícios. Eu dizia não saber se tinha ganho mais amigos ou mais inimigos no jornalismo. “Eu só faço amigos” – disse-me um deles. “Meu ofício é dar prazer”.

Não deixava de ter razão. Ocorre que era cozinheiro nas horas vagas. Fosse profissional e fizesse concorrência a um restaurante, certamente não faria apenas amigos. Seja como for, cozinhar é agradar. Tive experiência disto nos primórdios da Internet, quando discutia nos newsgroups da Usenet. Eu navegava pelos grupos soc.culture, envenenados de ideologia. Os participantes destilavam ódio e invariavelmente acabavam se insultando. Certo dia, visitei grupos gastronômicos. Lá era tudo paz e amor, pessoas indicando bons restaurantes, trocando boas receitas e louvando o vinho e a bona-chira. E aqui vai uma diferença fundamental entre jornalismo e culinária. Se culinária tem por finalidade agradar, jornalismo o mais das vezes desagrada.

Se algo me espanta nesta discussão sobre o fim da exigência do diploma para jornalistas, é ver pessoas que julgam que esta exigência sempre existiu, em toda a parte e desde o início dos tempos. Ora, como a jaboticaba, só existe no Brasil. (E se só existe no Brasil e não é jaboticaba, boa coisa não há de ser). Além do mais, existe há apenas 40 anos. O jornalismo brasileiro tem dois séculos de existência e nestes últimos dois só se exigiu diploma a partir de 1969. Os defensores do diploma esquecem – ou preferem não lembrar – que a famigerada lei não foi fruto de reivindicações de classe, mas imposição ditatorial de uma junta militar. Brasileiro adora reserva de mercado. Se ela é cria de uma ditadura, pouco importa. Bem-vinda seja.

O ministro Gilmar Mendes tem sido execrado por ter comparado jornalistas a cozinheiros ao justificar seu voto: “Um excelente chef de cozinha certamente poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima o Estado a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área”, afirmou. Espero que não tenha dado uma boa idéia à guilda dos candidatos a cozinheiro. Porque neste país onde até uma profissão inútil como a de ascensorista é regulamentada, não seria de espantar que algum político em busca de clientela pretendesse regulamentar a de cozinheiro.

O ministro foi tido como alguém que rebaixou a profissão de jornalista, o que está longe de ser evidente. Um chef competente, hoje, é mais disputado e melhor pago do que milhares de jornalistas. Existem cursos de culinária, é verdade. Mas cozinheiros se formam é na cozinha, junto ao fogo e às panelas. Da mesma forma, o jornalista. Faculdade pode ajudar. Mas quatro anos de curso não dão a formação de três meses de redação.

As notícias chegam hoje e o jornal tem de sair ainda hoje, para estar nas bancas amanhã cedo. Jornalista trabalha contra o relógio. Este relógio não existe nos cursos universitários, onde não há deadline. Estudante algum de jornalismo experimenta a tensão do fechamento de um grande jornal. Esta adrenalina só existe na redação. O jornalista até pode falhar em meio a um fechamento. Se falhou é porque não era jornalista.

“Com o fim do diploma e sem outras normas que regulem a atividade profissional, quais os critérios que serão utilizados para a contratação de jornalistas?” – pergunta-se uma militante da guilda. Ora, moça, os critérios que sempre regularam a profissão em todos os tempos e em todos os países: informação, capacidade de análise, boa redação, velocidade e agilidade mental.

Pessoalmente, considero o jornal uma espécie de milagre cotidiano. As informações chegam em massa e desordenadamente à redação. Cabe ao redator ordená-las, colocá-las em boa forma e dentro de um espaço preciso. Algo como a confecção de um soneto. O espaço jornalístico é um leito de Procusto. A informação tem de caber – com uma margem de poucos toques a mais ou menos – dentro de um espaço exato. É uma das raras profissões em que não se leva tarefa para casa. Feito o jornal, feito está. Amanhã é outro dia. Outros fatos, outros problemas, outras soluções. Este outro dia acaba no mesmo dia. Na manhã seguinte, voilà: o milagre está nas bancas.

Argumentam os corporativistas que, sem universidade, faltaria ética aos jornalistas. Como se ética fosse coisa que se adquirisse em salas de aula. O mundo está cheio de canalhas com diploma superior. Ética não é coisa que se aprenda na escola. O profissional é honesto – ou não é. Ser honesto é qualidade pessoal e intransferível e não virtude que possa ser ensinada.

“Nós, que cursamos jornalismo, vamos agora jogar fora nosso diploma?” – pergunta-se um outro aprendiz de sofista. Não precisa jogar fora. O diploma pode até ser um trunfo. Só que agora este universitário terá de competir com milhares de outras pessoas também habilitadas ao jornalismo. Os cursos de jornalismo produziram milhares de desempregados. Antes de 69, não havia jornalista desempregado. Era jornalista quem trabalhava como jornalista. Depois de 69, jornalista era quem cursava jornalismo. Ocorre que no mercado não havia lugar para as fornadas de jovens despejadas pelas faculdades.

Os defensores de privilégios já estão se mobilizando para voltar aos anos de obscurantismo. Que uma velha raposa lute para preservar seus privilégios, até que entendo. O triste é ver jovens defendendo o direito à corrupção. Culinária e jornalismo pertencem ao território das artes. Arte não é coisa que professor ensine.

 
CURIOSA GENTE


Está provocando celeuma a decisão de Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, de tornar pública a relação com rendimentos dos 162 mil funcionários públicos da Prefeitura. Apesar de os cargos terem seus salários normalmente divulgados em editais de concurso, os funcionários não gostaram de vê-los divulgados aos quatro ventos. De onde se deduz que alguma diferença – provavelmente substancial – deve existir entre a remuneração do cargo e o que é percebido pelo ocupante do cargo.

Quarta-feira passada, o juiz da 8ª Vara da Fazenda Pública de SP, Luiz Sérgio Fernandes de Souza, ordenou que a gestão Gilberto Kassab suspendesse imediatamente a divulgação dos salários. Segundo a Folha de São Paulo, há centenas de casos de funcionários que receberam mais que os R$ 24,5 mil dos ministros do Supremo Tribunal Federal, cujos ganhos constituem o teto previsto na Constituição.

Dia seguinte, o presidente do Tribunal de Justiça paulista, Roberto Antonio Vallim Bellocchi, derrubou a liminar que proibia a publicação dos salários na Internet. Segundo a Fasp-PMSP - federação que representa os servidores – a divulgação põe em risco a segurança dos servidores e cria constrangimentos. Ontem, o desembargador Ivan Sartori, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), concedeu liminar que volta a impedir a publicação dos vencimentos de servidores municipais.

Na Suécia, a cada ano publica-se um livro, não com os salários, mas com os impostos pagos por todo cidadão. Ora, toda tributação é proporcional à renda. Se você acha que seu vizinho está pagando pouco imposto para manter casa secundária, carro, iate e alto padrão de consumo, o Estado o estimula a denunciá-lo ao fisco. Pois este vizinho tem boas chances de estar cometendo um crime lesa-igualdade.

Ninguém acha que a divulgação de seus impostos põe em risco sua segurança ou lhe cria constrangimentos. Curiosa gente, esta nossa. Gosta de ostentar status, desde que ninguém saiba o quanto ganha para manter status.

 
JOVENS E JÁ CANALHAS?


Leio nos jornais que estudantes de jornalismo estão fazendo passeatas de protesto contra a decisão do STF que determinou o fim do diploma universitário como condição para o exercício do jornalismo. Em um primeiro momento, diríamos que são jovens canalhas, contaminados pelo clima de podridão moral que assola o país. Reproduzem a canalhice de José Sarney e demais senadores, que garantem reserva de mercado para seus parentes e apaniguados. Se canalhice, no século passado, era quinhão da velharada, hoje é exigência de jovens. Que entram na vida já reivindicando o direito a corrupções paternas.

Concedo um crédito à juventude. Provavelmente não são jovens canalhas. Prefiro acreditar que são jovens manipulados por velhos canalhas de guildas controladas por velhos comunistas.

Sexta-feira, Junho 19, 2009
 
UNIVERSIDADES (I)


Mal o STF considerou inconstitucional a exigência de diploma para o exercício do jornalismo, já há deputados pretendendo reinstituir a lei espúria. O Brasil adora regulamentações. Não sei se o leitor sabe, mas neste país até a profissão de flanelinha, aquele marginal que lhe extorque dinheiro para não riscar seu carro, já foi regulamentada. Por nada menos que um dos próceres do regime militar, general Ernesto Geisel. Y a las pruebas me remito.

LEI Nº 6.242, DE 23 DE SETEMBRO DE 1975
Publicada no DOU de 24/09/1975

Dispõe sobre o exercício da profissão de guardador e lavador autônomo de veículos automotores, e dá outras providências.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º O exercício da profissão de guardador e lavador autônomo de veículos automotores, em todo o território nacional, depende de registro na Delegacia Regional do Trabalho Competente.

Art. 2º Para o registro a que se refere o artigo anterior, poderão as Delegacias Regionais do Trabalho celebrar convênio com quaisquer órgãos da Administração Pública Federal, Estadual ou Municipal.

Art. 3º A concessão do registro somente se fará mediante a apresentação, pelo interessado, dos seguintes documentos: etc, etc, etc.

Art. 6º Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Brasília, 23 de setembro de 1975; 154º da Independência e 87º da República.

Ernesto Geisel
Arnaldo Prieto


Só faltou exigir curso superior. Outra profissão que se pretendeu regulamentar foi a de astrólogo. Em 2006, o senador Artur da Távola – pra variar, velho comunista – apresentou projeto neste sentido. Vigaristas de outras áreas de auto-ajuda, os psicanalistas chegaram a pretender regulamentar suas vigarices. Como a ética entre canalhas é poderosa, deixaram a pretensão de lado. Qualquer lei que fosse promulgada beneficiaria alguma seita, em prejuízo das demais. Melhor deixar como estar.

Mas se flanelinhas, astrólogos e psicanalistas não fazem falta a ninguém, jornalista faz falta. E comunicação não é coisa que se aprenda em universidade. Durante séculos, foi jornalista quem exercia o jornalismo. De repente, três patetas tupiniquins, levados ao poder pelo Exército, decidiram há quarenta anos que jornalista só pode ser quem tem diploma de jornalista. Um imenso mercado de trabalho abriu-se para incompetentes que jamais pisaram numa redação e pretendem ensinar como se faz jornalismo. O espantoso é que, em menos do espaço de uma vida, há pessoas que acreditam que jornalismo não se pode fazer sem diploma. Ora, desde 1808, desde o Correio Braziliense, impresso em Londres pelo jornalista Hipólito da Costa, o jornalismo brasileiro foi feito por pessoas que jamais pisaram em cursos de jornalismo.

Em meio a isto, uma velha discussão: para que serve a universidade? Pode servir para muita coisa e para nada. Nas áreas científicas, que exigem laboratórios, aparelhos, cadáveres para dissecação, telescópios, pesquisas químicas, biológicas ou físicas, é óbvio que universidade é fundamental. O mesmo não se pode dizer de cursos de giz e quadro negro. Como aluno, passei por cinco universidades, em Santa Maria e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e em Estocolmo, Paris e Madri. Isso sem falar em mais quatro anos de magistério, na graduação e pós-graduação, na Universidade Federal de Santa Catarina. Com a experiência de quem gramou por quase duas décadas em bancos universitários, tentarei fazer um balanço do que recebi destas universidades.

 
UNIVERSIDADES (II)


Comecei fazendo Direito e Filosofia, simultaneamente. Direito em Santa Maria e Filosofia em Porto Alegre. Filosofia porque pretendia – ingênuo atroz – descobrir a tal de Verdade. Direito, porque estava ciente do velho refrão latino, primum vivere, deinde philosophare. Primeiro viver, depois filosofar. Com a Filosofia, pensava eu então, entendo o mundo. Com o Direito sobrevivo. Não deu nem uma nem outra. Gostei de estudar os filósofos gregos e até mesmo os da Escolástica e Patrística, se é que estes podem chamar-se de filósofos. Depois, a Filosofia se tornou mais ou menos ininteligível. O cogito cartesiano sempre me soou como uma solene bobagem. Duvidar da própria vida e apoiar-se na dúvida para ter certeza de que existo? Isto só passa se dito por um francês. Fosse dito por um pedritense, seria o palhaço da cidade. Ou andou bebendo demais.

Tive dois professores na Filosofia que me foram úteis. Leônidas Xausa, de Ciências Políticas, e Dagmar Pedroso, de Lógica. Xausa me introduziu na filosofia política de Platão, Pedroso na lógica de Aristóteles e mesmo na dos estóicos e megáricos. Os demais, pura perda de tempo. O mais prestigioso professor do curso da URGS era Gerd Bornheim. Para ele, filosofia era apenas um pretexto para viajar da dialética platônica à dialética marxista, como se uma tivesse algo a ver com a outra. Gerd foi um embuste bem sucedido. Como dominava o francês e o alemão, suas aulas não passavam de monótonas leituras das masturbações intelectuais de Hegel, Sartre, Husserl e Heidegger. Foi meu professor durante quatro anos. Durante quatro anos dormi em suas aulas e chegava a roncar no fundo da sala. Para escândalo da Baixinha, que me cutucava nas costelas para acordar.

Enfim, devo algo a Bornheim. Graças a ele, abandonei definitivamente os estudos de Filosofia. A epifania ocorreu quando ele afirmou: “o objeto da Filosofia, hoje, é buscar o objeto da Filosofia”. Chega, disse eu para mim mesmo. E mergulhei na literatura, que pelo menos não estava preocupada com o objeto da literatura. Minhas veleidades filosóficas terminaram no terceiro ano do curso. Fui até o final para quem ninguém dissesse, quando eu criticasse a Filosofia, que a criticava por não ter conseguido terminar o curso.

Em Direito, as primeiras disciplinas foram importantes. Filosofia do Direito, Direito Constitucional, Civil, Penal. Entendi como funcionava um Estado de Direito. Quando cheguei ao direito adjetivo, Processo Penal, Processo Civil, me pareceu estar lendo Kafka. Desde logo senti que não suportaria ganhar minha vida discutindo arabescos colaterais. Por outro lado, nunca me acostumei ao terno e gravata. Quer dizer, se quisesse sustentar-me sem violentar a mim mesmo, teria de buscar o pão por outras vias. Certa vez, em uma discussão em aula, citei Kafka. O professor me perguntou: é aluno desta faculdade?

Minhas veleidades jurídicas terminaram também no terceiro ano do curso. Fui até o final para quem ninguém dissesse, quando eu criticasse o Direito, que o criticava por não ter conseguido terminar o curso.

Com dois canudos inúteis na mão – inúteis pelo menos para mim – tive de trabalhar como vendedor de enciclopédias e contador de perfumes e dentifrícios nas farmácias e supermercados, para ganhar meu pão. Até o dia em que se abriu uma brecha no jornalismo. Fosse obrigatório o diploma naqueles dias, hoje certamente eu seria mais desses seres amargurados com a própria vida. Com todas as restrições que hoje faço ao jornalismo, foi profissão onde consegui navegar sem maiores desconfortos.

 
UNIVERSIDADES (III)


Na Suécia, no Kursverksamheten da Universidade de Estocolmo, aprendi sueco. Foi aprendizado útil, que me levou a dominar mais um idioma e a conhecer um outro universo. Lá, me descobri como alguém que podia escrever e traduzir e conheci gentes de outros povos. Foi boa universidade, pelo menos em parte. Durante meio ano, freqüentei o curso de cinema da universidade, arte que me seduzia na época. Logo descobri que era curso puramente teórico e sairia de lá sem saber como abrir uma lata de negativos. Esta foi a universidade inútil.

Outra, também inútil, foi a Sorbonne Nouvelle. Em 77, recebi do governo francês uma bolsa para mestrado em Letras Francesas e Comparadas. Letras Francesas eu conhecia bem. Já das Comparadas, jamais ouvira falar. Tudo bem, lá em Paris me informo sobre o assunto. Ocorre que eu não tinha pretensão alguma a seguir estudos teóricos de Letras. Queria, isto sim, curtir suas ruelas, vinhos, queijos, catedrais, mulheres, e com estas intenções viajei. Lá, transformei o mestrado em doutorado. Se a condição para curtir as ruelas, vinhos, queijos, catedrais e mulheres de Paris era defender uma tese, defendamo-la. Fiz apenas quatro seminários, de quatro horas cada um. Ou seja, durante quatro anos, tive dezesseis horas de aula. Quatro destas horas foram fundamentais. Ministradas por Mme. Fraisse, versavam sobre os escritores e o comunismo, de 1930 a 1953. Com a bibliografia fornecida por Mme. Fraisse, entendi melhor o século, a Europa e mesmo o Brasil. Aquelas quatro horas compensaram os quatro anos.

Conclui minha tese, um ensaio sobre Ernesto Sábato e Albert Camus, que esclarece, sem masturbações teóricas, o itinerário espiritual dos dois escritores. Mas o grande aprendizado não foi este. E sim o convívio diário com a cultura francesa, com seus jornais e literatura, com sua arquitetura e história, com os franceses e particularmente com as francesas. Minha tese foi apenas uma hora de aula de um curso muito maior. Importante também foi o contato com gentes de diferentes culturas. Conheci muito do mundo eslavo e mais ainda da América Latina. Aqui no Brasil, não encontramos a América Latina. O continente se reúne em Paris.

Em Madri, fiz curso no ICI, Instituto Cultural Iberoamericano, ligado à Universidade Complutense. Seis meses jogados fora. Tínhamos uma carga horária pesada, cinco horas de aula por dia, e a obrigação de redigir uma tese ao final do semestre. As teses, com apresentação, réplica e tréplica, eram defendidas em no máximo dez minutos. Ou seja, era uma farsa. Como nunca gostei de teatro, me recusei à farsa. Fui o único aluno, em trinta anos de curso, a não apresentar a tal de “tese”. Escrevi carta aos diretores do curso, onde dizia mais ou menos o seguinte:

- Senhores, quando vamos estudar no exterior, defendemos duas teses. Uma é aquela acadêmica, que nem mesmo a banca lê em sua íntegra, e que fica pegando poeira no silêncio das bibliotecas. Outra é a que defendemos no convívio com colegas, nos bares e restaurantes de Madri, nos vilarejos e cidades da Espanha. Na leitura diária dos jornais do país, no contato com seu povo, com sua gastronomia, sua música e seus vinhos. A primeira tese, me recuso a defendê-la, por inútil. A segunda, eu a defendi com brio nas bodegas de Madri, Barcelona, Santiago, Toledo, Segovia, Ávila, Cuenca, Ronda, Salamanca. Esta segunda tese será importante para meu trabalho e vida futura. Ao ICI, muchas gracias. Y buena salud a Ustedes y todos sus familiares.

A última frase não é gratuita. Quando morei em Madri, constava do formulário de pedido de permanência à polícia. Soube mais tarde que, depois de minha carta, os diretores do curso reformularam a exigência da malsinada tesina.

Resumindo: as universidades que fiz em Estocolmo, Paris e Madri foram importantes, não só para minha vida, como para minha profissão. Mas foram cursos que as cidades – não as universidades – ofereceram. De um jornalista, a quem se pede informações sobre o mundo, é absurdo exigir horas de traseiro preso a um banco.

Quinta-feira, Junho 18, 2009
 
PAÍS SE LIBERTA DE 40 ANOS
DE OBSOLETISMO GRATO
A COMUNISTAS E MILITARES



Ou seja: após toda uma categoria profissional ter sido submetida por quatro décadas a uma lei estúpida, o Supremo Tribunal Federal finalmente descobre que a dita lei era inconstitucional. A Fenaj, no site da guilda, mente descaradamente ao afirmar que a decisão "pôs fim a uma conquista de 40 anos dos jornalistas e da sociedade brasileira". Conquista dos jornalistas e da sociedade brasileira coisa nenhuma! A obrigatoriedade do diploma foi arbítrio da ditadura, para melhor controlar a informação. O famigerado decreto-lei de 69 era um presente do céu aos comunistas, que jamais admitiram em seus regimes a livre expressão do pensamento.

Nestes anos todos, que foram quarenta e nos quais li jornais todos os dias, jamais vi um jornalista investigar como é tratada a condição do jornalista nos demais países do mundo. Se investigasse, descobriria que em país algum do Ocidente se exige diploma para o exercício da profissão. Há escolas de jornalismo na França, Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos? Claro que há. Mas ninguém precisa passar por elas para expressar seu pensamento nas páginas de um jornal. Exigir diploma é limitar a liberdade de pensamento, como se só pudesse pensar quem tem diploma. Na França, a definição legal do ofício é singela: é jornalista todo aquele que tira a maior parte de seu provento do jornalismo. E ponto final.

Servem para algo as escolas de jornalismo? Em tese, claro que servem. Ensinam técnicas de comunicação. Mas ensinam em quatro anos nada que um foca não aprenda em três meses de redação. Não ensinam história, ciência, religião, letras. De que serve a um jornalista dominar técnicas de comunicação se não sabe o que comunicar? Como pode escrever sobre medicina, saúde, economia, artes, engenharia, urbanismo, catolicismo ou mesmo marxismo um jovem que recém saiu de uma escola de jornalismo? Um curso de jornalismo teria sentido se fosse pós-graduação. Após dominar determinada área do conhecimento, o candidato a comunicador aprenderia técnicas de comunicação. Nem por isso precisaria ser obrigatório para o exercício da profissão.

Sem falar que, nestes dias de Internet, toda tentativa de regulamentação é ipso facto obsoleta. A blogosfera está disputando firme leitores com a imprensa antiga. Boa parte do público dos jornais está se deslocando para a leitura de blogs, a tal ponto que os jornais em papel já temem por suas sobrevivências. Se antes era jornalista quem tinha um jornal para escrever, hoje é jornalista qualquer pessoa que quiser sê-lo. Com uma vantagem considerável sobre a imprensa escrita: pode escrever o que quiser. Bem entendido, isto não implica mentir ou atentar contra a honra alheia à vontade. Para coibir tais abusos, existem os códigos Civil e Penal.

Por mais independente que seja um jornal, sempre tem suas áreas proibidas. Neste jornal, não se pode publicar acusação nenhuma, por exemplo, contra a Máfia do Dendê. Neste outro, é proibida qualquer alusão condenatória a José Serra. Num outro, não se pode dizer uma palavrinha contra Evaristo Arns, o cardeal vermelho. Em outro, é proibido qualificar como vigaristas os pastores evangélicos. Isso sem falar nos milhares de jornais do país que dependem de verbas estatais e não ousam fazer a menor crítica aos desmandos do governo. Veja a Caros Amigos, sem ir mais longe, que se pretende imprensa independente. Se você acha que a revista vai denunciar as corrupções da Petrobras, espere sentado. Porque a Caros Amigos é patrocinada, entre outras estatais, pela Petrobras. Seus redatores podem até criticar o governo. Mas jamais atentarão contra a existência e boa saúde da galinha de ovos de ouros.

Já o blogueiro, este é soberano em seu blog. Desde que seu blog não dependa, é claro, de vinculação a jornais ou empresas. Pretenderia algum legislador regulamentar o exercício do ofício de blogueiro? Seria tão ridículo como foi regulamentar o de jornalista. Com este ridículo, convivemos quatro décadas.

Ainda que tardia, a decisão do STF liberta o Brasil de um obsoletismo grato a marxistas e militares e põe um pé do país – pelo menos um pé – no círculo dos países onde a imprensa é livre.

 
ELES SÃO LEGIÃO


Pois Jesus lhe dizia: Sai desse homem, espírito imundo. E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? Respondeu-lhe ele: Legião é o meu nome, porque somos muitos. E rogava-lhe muito que não os enviasse para fora da região. Ora, andava ali pastando no monte uma grande manada de porcos. Rogaram-lhe, pois, os demônios, dizendo: Manda-nos para aqueles porcos, para que entremos neles. E ele lho permitiu. Saindo, então, os espíritos imundos, entraram nos porcos; e precipitou-se a manada, que era de uns dois mil, pelo despenhadeiro no mar, onde todos se afogaram. (Marcos V, 8-13)


Terça-feira passada, escrevi: “Ora, por baixo foram descobertos 280 atos secretos favorecendo amigos do rei. E se foram descobertos 280, claro está que são muitos mais. Como envolvem cupinchas de vários partidos, nem a sedizente oposição tem interesse em levar adiante as denúncias”.

Em editorial, o Estadão de hoje constata: “Salvo futuras descobertas, a apoteose da imoralidade na era Agaciel foram os atos administrativos secretos, como os que beneficiaram o clã Sarney, estimados em cerca de 500”.

A primeira página da mesma edição torna obsoleto o editorial: “Comissão de sindicância encontrou 650 atos secretos”. Detalhe avançado em página interna: “O número de 650 atos pode subir, já que foram analisados apenas os dados referentes à Diretoria-Geral e à área de Recursos Humanos. Ficaram de fora, por exemplo, as movimentações de servidores na gráfica e na Secretaria de Informática, o Prodasen. São órgãos loteados também por afilhados de Agaciel, mas que têm vida própria dentro do Senado”.

Eles são legião. Se o Senado quiser expurgar os espiritos imundos contratados em segredo, haja manadas neste país.

Quarta-feira, Junho 17, 2009
 
STF DERRUBA GUILDA MARXISTA,
CRIADA POR TRÊS PATETAS DE 69



O Supremo Tribunal Federal (STF) trouxe hoje uma boa notícia às pessoas de bom senso. Por oito votos a um, seus ministros decidiram que o diploma de jornalismo não é obrigatório para exercer a profissão. Durante quatro décadas, o Brasil viveu na contramão do mundo civilizado. Em todas as democracias do Ocidente, jornalista é aquele que tira do jornalismo a maior parte de seus proventos. Exceto neste país incrível, onde só podia exercer a profissão quem tinha um papelucho de uma escola de jornalismo.

A lei infame foi parida pela junta de generais que assumiu o poder em 1969, mais conhecida como os Três Patetas. As esquerdas, em geral tão raivosas quando se trata de contestar os atos gestados pelo regime militar, fazem boquinha de siri ante o dispositivo corporativista. Não só faziam boquinha de siri, como defendiam com unhas e dentes a lei da ditadura.

Não por acaso, os velhos comunistas eram – e são até hoje – os mais aguerridos defensores da exigência de diploma. Pau que bate Chico bate Francisco. Reservas de mercado só fortalecem a guilda. Quem sabe faz, quem não sabe ensina. A regulamentação do jornalismo gera milhares de empregos na área acadêmica. Professores que muitas vezes jamais pisaram numa redação de jornal ensinam jornalismo, ganhando para isso muito mais que o jornalista e sem o risco de enfrentar os humores do mercado. Sem falar que os cursos de jornalismo viraram laboratórios de marxismo, onde o aluno era ensinado a manipular notícias para manter sempre viva a falecida luta de classes.

Gilmar Mendes, o ministro relator, lembrou que o decreto-lei 972/69, que regulamenta a profissão, foi instituído no regime militar e tinha clara finalidade de afastar do jornalismo intelectuais contrários ao regime. Ora, intelectuais contrários ao regime é a última coisa que querem os marxistas em seus regimes. A lei dos milicos caiu como uma luva às viúvas do Kremlin. Os sindicatos e associações de jornalistas, todos tomados pelos velhos comunas, sempre defenderam histericamente o privilégio da guilda.

Triste país este nosso. Foi preciso decorrer duas décadas após a queda do Muro, para que o jornalismo se libertasse das amarras de Moscou.

 
FALA O PSIQUIATRA
WALMOR PICCININI



Janer, tocaste num fenômeno que me deparo constantemente na minha clínica.

Filhos de pais idosos, exigindo receber sustento, dinheiro ou o que seja e sob coerção física, inclusive com abuso físico. As delegacias de idosos estão cheias de reclamações de idosos e idosas que sofrem ou sofreram violência por parte dos filhos. É assustador assistir um engenheiro de 42 anos adicto a internet, passa as noites fazendo dowloads estúpidos e freqüentando chats. Tudo isso de forma compulsiva, como se fosse um jogador. Esse empréstimo para idosos onde pode ser comprometida até 30% da aposentadoria é outra forma de pressão e chantagem que certos filhos fazem. Obrigam os pais a contrairem dívidas, seja por necessidade, seja por pura exploração. É todo um mundo de violência e abuso que idosos estão sofrendo. Não é difícil supor que isso tudo possa ser legalizado em nome da cidadania, o atual refúgio dos hipócritas e exploradores.

Walmor

 
FRANÇA LEGALIZA
FILHOS CANGURUS



Não julgueis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Porque vim separar o filho de seu pai, e a filha de sua mãe, e a nora de sua sogra. E os inimigos do homem serão os da sua própria casa. (Mt. X, 34-36).

Em abril passado, comentei o fenômeno dos filhos cangurus, assim chamados por andar de carona na bolsa abdominal da mãe. No sul da Europa – e particularmente na Itália – existe há várias décadas. Na Itália, li há alguns anos notícia sobre um barbado de mais de 40 anos, que exigiu dos pais uma pensão alimentar, pois ainda não havia encontrado profissão que satisfizesse seus ideais. Se bem me lembro, um juiz compreensivo em relação aos “jovens” concedeu-lhe o benefício.

Segundo o instituto de pesquisas LatinPanel, de São Paulo, há hoje no Brasil 3,3 milhões de famílias das classes média e alta com filhos cangurus. Isso equivale a 7% das famílias do país. A maioria deles se encontra na faixa dos 25 a 30 anos, mas, entre os já quase quarentões, 15% ainda moram com os pais.

Na Europa, ao que tudo indica, os franceses reconheceram a nova profissão, se assim podemos chamá-la. A gente morre e não vê tudo. Não bastasse o contribuinte brasileiro ter de subsidiar próteses e tratamento hormonal para travestis e transexuais, na França o Estado estimula todo celibatário que viva só a exigir judicialmente pensão alimentar dos pais. Os beneficiários do Revenu de solidarité active (RSA) estão sendo convidados a intentar ações na Justiça contra seus próximos (pai, mãe, ex-cônjuge) para obter uma ajuda financeira, caso afrontem dificuldades. É o que leio no Libération.

O formulário retirado na CAF (Caisse d’allocations familiales) ou baixado via Internet questiona os postulantes do RSA e os encoraja a entrar com ação nos tribunais, «como se o Estado lhes pedisse de acionar a solidariedade familiar antes de solicitar a solidariedade nacional», diz o jornal. Na rubrica «você é celibatário e vive só», o documento interroga os futuros beneficiários: «você recebe uma pensão alimentar?» Se o interrogado responde não, o documento explica que ele pode entrar com uma ação contra pai ou mãe para obtê-la.

Ou seja, as crianças de 30, 40 ou 50 anos podem acionar seus pais, muitas vezes com 50, 60 ou 80 anos, ante os tribunais. A França assume, dois mil anos depois, os propósitos de Cristo. O Estado quer separar o filho de seu pai, e a filha de sua mãe, e a nora de sua sogra.

Orai, leitores, para que a nova lei não pegue neste país onde o contribuinte paga comida de bugres, shows de Caetano e próteses de travestis. Porque o Brasil sempre adorou importar o que de pior é achado no estrangeiro. Ações neste sentido já foram impetradas entre nós. Mais um passo e a pensão será requerida ex-ofício.

É nestes momentos que viro místico. Vós que inventastes a moda, ó Cristo, tende piedade de nós!

Terça-feira, Junho 16, 2009
 
SARNEY, CAETANO,TRAVESTIS:
SEMPRE UM MESMO COMBATE



Não está fácil saber o que mais indigna um cidadão neste país.

Por um lado, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), negou nesta terça-feira qualquer irregularidade sua, como o uso de atos secretos. Está negando a evidência, os atos secretos nomeando seus parentes e apaniguados foram amplamente divulgados pela imprensa. Anteriormente, o senador já havia sido flagrado recebendo ajuda de custo de R$ 3.800 mensais, mesmo podendo dispor da residência oficial. Mais 42 senadores, segundo os jornais, recebiam ilegalmente auxílio-moradia na casa presidida por Sarney. Na ocasião, o maranhense alegou não ter notado o acréscimo em sua folha de pagamento. Afinal, que são 3.800 reais? Para o comum dos mortais, mais de oito salários mínimos. Para um senador da República, argent de poche que passa despercebido no total de seus ganhos.

"A crise do Senado não é minha, a crise é do Senado – diz Sarney -. É essa instituição que devemos preservar, ninguém tem mais interesse nisso do que eu". O que o senador está dizendo, no fundo, é: “a responsabilidade da quadrilha não é minha, é da quadrilha”. Óbvio que ninguém mais do que Sua Excelência tem todo interesse em preservar a quadrilha.

“Eu só conheço um ato secreto, durante o tempo do Presidente Médici, em que ele declarou que iria haver decretos secretos. Eu não sei o que é ato secreto. Aqui, ninguém sabe o que é ato secreto....”, afirma candidamente o senador. Ora, por baixo foram descobertos 280 atos secretos favorecendo amigos do rei. E se foram descobertos 280, claro está que são muitos mais. Como envolvem cupinchas de vários partidos, nem a sedizente oposição tem interesse em levar adiante as denúncias.

Talvez alguns percam seus cargos, para escarmento. Acabo de ler que Sarney vai afastar dos quadros do Senado sua sobrinha dileta, Vera Portela Macieira Borges, lotada no gabinete do senador Delcídio Amaral (PT-MT). Ora, por que afastar Verinha de suas funções, se nada errado houve em sua nomeação? E se houve, devolverá Verinha ao Erário o que foi indevidamente recebido? Duvido. Como duvido que qualquer um dos funcionários secretos da República devolva qualquer vintém ao Estado.

Será o senador conivente com a corrupção destituído de seu cargo de presidente da Casa corrupta? Ao que tudo indica, não. Não há ilegalidade alguma em proteger amigos e filhos de amigos. Quanto à ética? Ora, a ética... Isso é palavrinha que só serve para campanhas eleitorais.

E se for destituído, claro está que não será punido. Os poderes da nação estão podres. Podre a mais ou podre a menos, tanto faz como tanto fez. Interrogado por repórteres da Folha de São Paulo se seu neto fora nomeado em pagamento de favores a um outro colega de quadrilha, o senador foi olímpico:

- Você acha que eu, como presidente do Senado, tenho minha biografia, vou discutir uma coisa dessa? Não vou discutir um assunto desse. Minha resposta para vocês é essa.

É evidente que um presidente do Senado não vai se dignar a discutir tais picuinhas. Por falar em podres poderes, esta foi a mesma reação de Caetano Veloso, ao ser apertado contra a parede pela repórter Adriana Küchler, do mesmo jornal. A moça o interroga sobre a contradição em afirmar para a revista Cult que a lei Rouanet era mais para o cinema e não para a música e ao mesmo tempo captar subsídios para seu show através da mesma lei. Caetano é curto e grosso:

FOLHA - E a tua opinião mudou? Era isso que eu queria entender.
CAETANO - Não, não mudou. Por que mudaria?

FOLHA - Porque hoje você acha que a música precisa de incentivo...
CAETANO - Quem disse que eu acho? Por que você tá me dizendo o que eu acho?

FOLHA - Porque o seu projeto está inscrito para [captar dinheiro pela Lei Rouanet]...

CAETANO- [interrompendo] Não, isso é outra coisa. Os projetos são todos inscritos. Entendeu? Eu não acho isso. Eu acho o que eu disse. Tá?

FOLHA - Tá bom.
CAETANO- Pode ir embora.

FOLHA - Tá bom. Tô indo.
CAETANO- Vá logo.

FOLHA - Tá bom.
CAETANO- Mas vá logo.

FOLHA - Tô indo, Caetano. Boa tarde.


Adriana aceita a humilhação de ter sido expulsa e vai embora. Faltou-lhe a coragem de mandar o baiano àquele lugar que merece. Qual a diferença entre o senador maranhense e o cantor baiano? No item enfiar a mão no bolso do contribuinte, nenhuma. Ambos as enfiam com gosto, sempre amparados por leis.

Da mesma forma, os homossexuais, travestis e transexuais, com as recentes cotas gays estabelecidas por José Serra e assumidas pela rede de hospitais públicos de São Paulo. Se alguma pobre alminha se sente instalada em corpo errado e quer trocar de sexo, quem paga a conta é o contribuinte. Onde se viu negar a um travesti o sagrado direito ao silicone e a hormônios? Já deveria estar inserido na Declaração dos Direitos do Homem.

Senadores, cantores, travestis, um mesmo combate: a competição acirrada para ver quem mais fundo enfia a mão em seu bolso.

Segunda-feira, Junho 15, 2009
 
RECÓRTER CHAPA-BRANCA TUCANOPAPISTA HIDRÓFOBO
REINCIDE E DE NOVO SE INSPIRA EM BONS CRONISTAS



Além de se pretender o criador da atribuição do adjetivo apedeuta a Lula – alusão que fiz em 2002 – o recórter chapa-branca tucano papista hidrófobo da Veja pretende ainda tê-lo associado a Chance Gardener, o personagem criado por Jerzi Kosinski. Escreve hoje em seu clipping:

É claro que há na comparação a idiotia típica do companheiro. Lula só fala em futebol. Suas metáforas vêm sempre do campo e passam como sabedoria para aquele bando de puxa-sacos que o cerca. Como já escrevi aqui, a exemplo da personagem Chance, do filme Muito Além do Jardim (inspirado no romance O Vidiota, de Jerzy Kosinski), Lula vê qualquer coisa pelo ângulo da sua especialidade — ou quase: o futebol.

Se você não viu, leitor, tem de assistir ao filme, dirigido por Hal Ashby. Ou ler o livro. Chance (Peter Sellers) é jardineiro e passa seus dias entre as plantas e a televisão. É analfabeto. Aprendeu o pouco que sabe de ouvido. Um dia seu patrão morre, e ele é posto na rua. É atropelado por Benjamin Rand (Melvyn Douglas), um ricaço. Quando volta a si e perguntam o seu nome, responde “Chance, o jardineiro”. Confundem o “gardener” com “Gardner” — haveria um tal Chance Gardner, homem muito sábio, chegado a tiradas filosóficas. E ele é, então, levado a conhecer o círculo de amigos de Rand — incluindo a mulher do empresário, Eve (Shirley MacLaine), que se apaixona pelo suposto Chance Gardner sem saber que se trata de “Chance, gardener”.


E aqui o recórter demonstra cabalmente jamais ter lido o livro de Kosinski. Chance não é atropelado por Benjamin Rand, mas pelo chofer que conduzia sua mulher, Eve. Tampouco havia "um tal Chance Gardner", e sim Chauncey Gardiner. É o que dá pretender-se erudito sem ter lido os livros que cita. O velho comunossauro está repetindo a saga de um outro velho comunossauro e também leitor de orelhas de livro, Paulo Francis.

Vamos por partes. Primeiro a história do apedeuta. No ano mesmo da eleição de Lula, em crônica intitulada “Eu sou o que sou”, publicada no Baguete (29/03/2002) – http://www.baguete.com.br - , pareceu-me oportuno qualificá-lo como apedeuta: “Até hoje as esquerdas são pródigas em contar piadas sobre a falta de cultura de Costa e Silva. Mas Costa e Silva fez Escola Militar, cujo acesso não é para qualquer apedeuta”.

Em 19 de agosto do mesmo ano, neste mesmo jornal, na crônica intitulada “O neoaparatchik”,voltei ao tema: “Existe uma raça de apedeutas que se sentem muito eruditos quando usam proparoxítonas ou quadrissílabos. No debate organizado pela Folha de São Paulo, na segunda feira-passada, ele se superou. Lá pelas tantas, arrotou erudição: ‘Entretanto, há coisas a serem feitas concomitantemente’. Embriagado pelo próprio verbo, feliz pelo heptassílabo, perguntou ao interlocutor: ‘Gostou do concomitantemente?’"

Em 17 de março de 2003, no artigo "Armadilha para negros”, publicado no Midiasemmascara, escrevi: “O atual presidente da República está longe de ser o primeiro apedeuta a assumir o poder neste país. Câmara e Senado estão repletos de analfabetos jurídicos, que nada entendem da confecção de leis nem sabem sequer distinguir lei maior de lei menor”. Na tradução do artigo para o inglês, publicada na revista Brazzil, de Los Angeles, o tradutor teve um feliz achado: First Ignoramus.

Em “Fala, ó metamorfose ambulante”, publicado também no MSM, em 20 de setembro de 2004, lá está: “Durante solenidade em Brasília, o Supremo Apedeuta disse que ‘o ser humano não tem que ter medo de ser uma eterna metamorfose ambulante’, fazendo referência a um dos sublimes autores que embasam sua erudição”.

Na Brazzil, a expressão foi traduzida como Supreme Ignoramus. Se alguém se der ao trabalho de pesquisar nos arquivos do MSM ou do Baguete, verá que, de 2003 para cá, escrevi pelo menos 23 crônicas, onde uso as expressões apedeuta ou Supremo Apedeuta.

Em suma, para meu prazer, a expressão foi fazendo fortuna na mídia eletrônica. Tanto o Supremo Apedeuta como o Supreme Ignoramus. Essa foi minha intenção. Nada lisonjeia tanto um jornalista como ver seus achados correndo mundo. Quando o recórter tucano chapa-branca papista passou a empregá-la, pensei: “Maravilha, minha trouvaille já é de conhecimento dos partidos de oposição. Ocorre que, conversando com outros jornalistas, fiquei sabendo que o medíocre recórter de Veja estava reivindicando a autoria da expressão.

Supremo Apedeuta é cria minha, e isto qualquer pesquisa rápida no Google pode comprovar. Reinaldo Azevedo, ao assumi-la como sua, mostra ao que veio. Além de mero recortador de notícias do bom jornalismo nacional, alimenta-se de bons cronistas sem citá-los.

Hoje, o recórter voltou a incidir no vício. Pretende-se o primeiro a associar Lula a Chance. Já fez isto em maio do ano passado, cinco anos após a publicação da crônica que transcrevo abaixo. Apesar de medíocre e plagiário, tem a virtude de buscar erudição junto a bons autores.

 
Quinta-feira, Maio 29, 2008


RECÓRTER CHAPA-BRANCA TUCANOPAPISTA
HIDRÓFOBO SE INSPIRA EM BONS CRONISTAS



Em seu clipping diário na Veja, na ediçao de ontem, escreveu o cronista chapa-branca tucanopapista hidrófobo:

O Haiti mental de Lula o acompanha aonde quer que ele vá. Não sou muito de viajar, vocês sabem. Acho que já citei aqui este Horácio: “Caelum, non animum mutant qui trans mare currunt”. Os que cruzam o mar mudam de céu, mas não de espírito. O sujeito que diz bobagem sob o céu do Brasil vai fazer o mesmo sob o céu de Paris ou de Porto Príncipe. Fosse alguém levado a escolher entre viajar e ler Horário, eu recomendaria o poeta. Mas cada um na sua. Huuummm. Pra que isso?

Lula foi ao Haiti. Aqui, ali ou lá, o espírito é o mesmo.

A exemplo de Chance, do filme Muito Além do Jardim — na verdade, inspirado no romance O Vidiota, de Jerzy Kosinski, Lula vê qualquer coisa pelo ângulo da sua especialidade — ou quase: o futebol. Na solenidade em que empossou Carlos Minc, fez o que chamou “uma apologia” — queria dizer “analogia” com o esporte. Hoje, no Haiti, mandou ver: “Acredito que a nossa presença no Haiti possa ser comparada a um jogo de futebol. Em 2004, vivíamos o primeiro tempo. Agora, estamos começando o segundo tempo do jogo. O primeiro tempo foi uma etapa complicada, de ir conhecendo aos poucos as manhas do adversário, fechar uma defesa segura e não deixar passar nenhum gol. No segundo tempo, é hora de tomarmos uma iniciativa e a tática do jogo aqui é o fortalecimento cada vez maior da nossa presença solidária”

Chance, se não sabem da historia, era jardineiro. Por razões várias, passa a freqüentar as altas rodas. Nunca entende direito o que se passa à sua volta. Chega a ser cotado para a Presidência dos EUA. Sempre que alguém tem alguma dúvida, faz-lhe uma indagação, que ele responde com o único assunto que de fato domina: jardinagem. O outro entende a resposta como uma metáfora. E Chance fica, por um bom tempo, com a fama de sábio.



Para um homem culto, é sempre prazeroso ver-se imitado por um papista. Sempre resta a esperança de que o papista abra um pouco sua mente tacanha. Em 31 de março de 2003, publiquei o artigo infra no Mídia Sem Máscara. Teresa Cruvinel, em sua coluna, achou inclusive que eu tinha sido cruel com Lula.


O VIDIOTA DO PLANALTO

- E você, Mr. Gardiner, o que pensa do mau clima na Bolsa? - pergunta o presidente dos Estados Unidos a Chance.

Chance Gardiner, da vida só conhece o jardim onde se criou. Como se sente obrigado a uma resposta, fala da única coisa que conhece: “Em um jardim, há uma estação para o crescimento das plantas. Há a primavera e o verão, mas também o outono e o inverno. E depois, a primavera e o verão voltam. Enquanto as raízes não forem cortadas, tudo está bem, e tudo continuará bem”.

O presidente se mostra satisfeito:

“Mr. Gardiner, devo confessar que o que você acaba de dizer é uma das declarações mais reconfortantes e otimistas que me foi dado ouvir, desde há muito tempo.”

Este diálogo – que não só poderia ocorrer nos dias que passam, como de fato ocorrem – pertence ao universo da ficção. O escritor polonês Jerzy Kosinski, ao chegar aos Estados Unidos, criou em Being There um dos personagens mais perturbadores de nossa época, Chance Gardiner. Quem não leu o livro, pode ainda pegar o filme, que passou no Brasil com o título de Muito além do Jardim e tem uma interpretação magnífica de Peter Sellers.

O tradutor brasileiro do livro teve um momento de iluminação ao traduzir o título americano por O Vidiota, isto é, o idiota do vídeo. Gardener é um empregado doméstico de um misterioso senhor, identificado na obra como "o Velho". Chance vive recluso no jardim da mansão e só teve contato, em toda sua vida, com duas pessoas, o Velho e a criada do Velho. Chama-se Chance porque nasceu por acaso. Não sabe ler nem escrever. Seu único contato com o mundo exterior é através da televisão. Quando o que vê não lhe agrada, é simples: desliga o aparelho ou muda de canal com o controle remoto.

Morre o Velho e Chance é largado no mundo pelos criados. Sem lenço nem documento, literalmente. Quando a esposa de um empresário o atropela na rua e lhe pergunta quem é, diz: I’m the gardener. E passa a ser conhecido como Chance Gardiner. Como não portava nem dinheiro nem documentos, a mulher do empresário considera que deve ser alguém muito importante e o recolhe à sua casa. Chance, sem jamais ter pensado no assunto, passa a fazer parte do círculo do poder. Quem leu o livro ou viu o filme conhece o fim da história: a força de repetir chavões que ouviu na televisão, Chance faz uma brilhante carreira na mídia e começa a ser cogitado para presidente dos Estados Unidos. E quem não leu Kosinski, deve lê-lo imediatamente: é uma das mais profundas parábolas da literatura contemporânea.

Estamos vivendo em plena época Gardener, de ascensão do analfabeto. Com a televisão, qualquer iletrado pode ter uma idéia mais ou menos geral do que ocorre em torno a si e no mundo. A rigor, ninguém precisa mais ler para entender – ou supor que entende – o mundo. Se o jardineiro de Kosinski pertence ao universo da ficção, nosso vidiota é muito real e já tomou posse em Brasília. Em falta de um laivo sequer de cultura ou lógica, analisa o momento político com metáforas rasas. Referindo-se ao processo gradual de mudanças que espera promover na economia, disse, no melhor estilo Gardiner: "É como colher uma fruta. Não adianta colher verde". Kosinski não ousaria tanto.

Mas não parou aí a retórica hortifrutigranjeira. Em solene discurso para os membros do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, baixou de novo o espírito de Chance. Lembrou que há quinze anos comprou um pé de jabuticaba e plantou-o em seu sítio, mas que ele nunca deu frutos. Um belo dia sua mulher, a primeira-companheira Marisa Letícia, chegou com uma muda igual, em um vaso. Lula achou que era impossível dar jabuticaba em apartamento, dentro de um vaso. Mas Marisa Letícia acreditou na planta e cuidou dela, regando-a com freqüência. Conclusão de nosso Chance: "o pezinho de jabuticaba dá quatro ou cinco vezes por ano, coisa em que este conselho pode se transformar, se quiser."

Encantado com o próprio verbo, foi adiante e concluiu que o pé de jabuticaba do sítio não deu frutos porque ele não sabia cuidar, ou porque a terra tinha algum problema. "Ela acreditou mais do que eu. Se transformarmos as oportunidades que temos em coisas menores, certamente o Conselho poderá representar o pé de jabuticaba do meu sítio. Mas, se nós pensarmos grande e cuidarmos com carinho dos milhões de brasileiros e brasileiras de quem, há muitos e muitos anos, ninguém cuida, certamente este Conselho poderá representar o pé de jabuticaba que Marisa plantou no apartamento."

Mais recentemente, o aprendiz de jardineiro do Planalto atacou de pescador. Comentando a estrutura jurídica do país, prolatou sentença: “Na verdade, quem é pescador aqui sabe que um peixe grande demora mais para se pegar na vara. Se o Maluf é pescador, ele sabe que pegar um lambarizinho é mais fácil do que pegar um pintado, pegar um jaú".

Tratasse o nosso Gardiner de apenas cultivar seu jardim, poderia até mesmo passar por sábio. Mas o homem é fascinado pelo verbo, e não vacila nem mesmo ante a História. Por ocasião da inauguração da nova fábrica da Polibrasil, deitou erudição: "Quando Napoleão Bonaparte visitou a China pela primeira vez, ele disse que a China é um gigante e, no dia em que acordar, o mundo vai tremer". A frase, de fato, é do corso. Pena que ele nunca foi à China. Para quem já afirmou que na Bíblia não existe fome, esta visita à China é café pequeno.

Mas o governo não basta para o nosso Gardiner. Já teve seu nome aventado não só para a Academia Brasileira de Letras como também para o Nobel da Paz. O governo recém começou. Anos divertidos nos esperam pela frente. “Ama, com fé e orgulho a terra em que nasceste! Criança! Não verás nenhum país como este”.

Não verás mesmo.

 
AOS DEFENSORES
DE PRIVILÉGIOS
PARA SI PRÓPRIOS



Caros:

Questões estéticas para mim é uma coisa. Saúde é outra. Se alguém foi premiado com um câncer, Aids, mal de Huntington, se alguém tem problemas cardíacos, respiratórios, glicêmicos – e ajunte-se aí todas as demais doenças do mundo – entendo que o Estado cuide da cura ou tratamento. Em verdade, não cuida ou cuida muito mal. Qualquer pessoa que consegue pagar um plano de saúde não vai confiar na rede pública. Que o digam o vice-presidente da República e a candidata petista à Presidência da República. Na hora do Jesus-tá-chamando, não procuram a rede pública, mas o mais prestigiado hospital do país.

Mas se uma pessoa quer embelezar seus seios ou traseiro, isto pertence ao âmbito privado. Se um travesti ou transexual tem direito a cirurgias estéticas, por que não o teria qualquer outra pessoa que não goste de seu nariz ou de sua boca ou de sua barriga? Ou mesmo de seus seios ou de seu traseiro? Terá de declarar-se homossexual para receber tratamento do Estado?

Por que alguém, só porque quer mudar de sexo ou só porque mudou de sexo, teria atendimento privilegiado em relação a pessoas que não estão preocupadas em mudar de sexo, mas apenas em sobreviver? Neste Estado de São Paulo, em que as ambições eleitorais de um antigo comunista o levam a criar clínicas especiais para homossexuais, travestis e transexuais, mais de 70 mil credores de precatórios já morreram sem que o Erário lhes tenha pago o que era legitimamente devido. Credor de precatório nunca é um jovem. São pessoas de idade, com todos os problemas de saúde decorrentes da idade. Como pode um governo – que caloteia seus governados e os deixa morrer por calote – privilegiar veleidades estéticas de pessoas insatisfeitas com o próprio sexo?

O tratamento privilegiado, como pretende um dos leitores não “se refere ao privilégio de sermos respeitadas e orientadas”. A notícia é clara. Segundo os jornais, o centro de atendimento terá profissionais nas áreas de medicina, enfermaria, psicologia, nutrição e dietética e fisioterapia especializados no atendimento a gays. Ora, que país é este em que um negro tem mais direitos que um branco na hora de disputar uma vaga na universidade e um homossexual tem mais direitos que um hetero na hora de tratar de saúde?

Admitamos – por razões de argumentação - que não seja fornecido silicone nos ambulatórios, mas somente o trabalho dos médicos. Ora, por que estranhas razões este trabalho médico deve ser fornecido a homossexuais e não a heteros? Certo, nem toda pessoa travestida se endereça à prostituição. Mas todos os travestis que se prostituem utilizam silicone e hormônios. Prostituição, pelo menos por enquanto, é iniciativa privada neste país. Por que raios eu – que já tenho de subsidiar shows do Caetano e da Maria Bethania - tenho ainda de financiar adereços do comércio sexual? Sugiro a todo cultor de travestis, na hora da negociação, apresentar CPF e exigir desconto nos serviços prestados.

Meus caros homossexuais, travestis ou transexuais: longa vida a todos, muita saúde, boas transas e melhores transações. Só não esqueçam de que, ao receberem atendimento privilegiado, estão subtraindo vida das pessoas que morrem nas filas de espera do SUS ou dos precatórios. Tudo isso em nome das pretensões eleitorais de mais um político medíocre e ambicioso.

Mais um pouco e teremos cotas para homossexuais na universidade. A bandeira já foi içada e faz carreira entre os defensores de privilégios para si próprios.

 
SOBRE TRAVESTIS E SILICONE


Do Igor, Curitiba

É cada vez mais comum ver pessoas desconhecedoras de certos assuntos, escreverem como se fossem doutores no mesmo. Meu caro, a questão estética (silicone) é uma questão de saúde sim para as travestis e transexuais. A criação de um ambulatório especializado nas questões de gênero, só nos mostra o quão péssimo é o atendimento do sistema de saúde quando se trata das pessoas travestis e transexuais que, além de não terem suas especificidades respeitadas, ainda sofrem com a falta de informação sobre as questões sociais que envolvem a transexualidade, nome social, por exemplo. Me desculpe, mas se você fosse um médico especialista ou até mesmo um cientista político...eu poderia até aceitar sua opinião. Afinal, se qualquer um pode escrever sobre qualquer coisa, escreverei sobre o jornalismo.



De Sabrina, Curitiba

Com todo respeito, gostaria de argumentar dizendo que a falta de informação ou distorção da mesma, acaba criando esse tipo de pensamento. Mas saiba que eu sendo uma transexual, também sou contribuinte, pago todas as minhas contas, impostos... Agora, quanto ao fato de que o ambulatório nos dará um tratamento privilegiado, com certeza se referem ao privilégio de sermos respeitadas e orientadas, coisa que em outros postos de saúde pública não temos. Quanto aos tratamentos que o ambulatório oferece, como o hormonal, isso é sim um grande avanço, pois muitas tomam medicamentos sem orientação médica e acabam por criar vários problemas de saúde. Já para as cirurgias, vale ressaltar que o ambulatório oferece sim especialistas que estarão aptos a lidar com as travestis e as transexuais, sendo que esse atendimento em outros locais são muito raros. E que NÃO É FORNECIDO silicone no ambulatório, somente o trabalho dos médicos. Acho que o senhor deveria fazer um estudo mais aprofundado em relação às travestis e transexuais e assim desta forma ter a noção do porquê muitas estão nas ruas trabalhando, como garotas de programa. E saber também que muitas de nós lutamos para ter um trabalho digno e respeitado, não queremos ter mais direitos dos os outros só queremos os nossos direitos de cidadãos, pois também somos humanos e merecemos DIGNIDADE. Como disse antes sou transexual, graças a Deus não estou envolvida com a prostituição, estou sempre a luta para mostrar as pessoas que tenho muita capacidade e profissionalismo, sou humana, sou cidadã, sou trabalhadora e, apenas quero ter meus direitos como todo mundo.



De Amanda Borba, São Paulo

Caro Janer,

Apesar de não concordar com seus argumentos, respeito sua opinião.

No entanto, é importante frisar que:

a) nem todo transexual vive de prostituição.

b) como contribuinte, pagamos tratamentos de câncer de pulmão, mesmo não sendo fumantes, e de aidéticos, mesmo não sendo portadores do vírus.

Atenciosamente,

Amanda

Domingo, Junho 14, 2009
 
MENTIRAS QUE MATAM


Leio nos jornais que, depois de uma noite regada a vinho e champanhe com a mulher, um empresário de 52 anos foi morto a facadas na manhã de ontem no prédio em que morava, na Barra da Tijuca. A mulher, de 35 anos, que morava com ele há quase seis anos, deixou o apartamento com o filho do casal em seu carro, um Mitsubishi, alegando para o porteiro que havia sido agredida pelo marido e que iria à delegacia prestar queixa. A Polícia Federal foi avisada sobre a possibilidade de a mulher tentar deixar o País.

Seis anos sob o mesmo teto, dormindo talvez na mesma cama e uma morte por facadas. É óbvio que alguma mentira havia entre ambos. Já tive conhecimento de casos bem mais dramáticos. Há alguns anos, li sobre um casal nos seus setenta anos, com mais de meio século de convivência, ao final do qual a mulher esfaqueou o marido. São necessárias muitas décadas de ódio acumulado para tal desfecho. Há muitas coisas que não entendo no mundo. Uma delas é como pode alguém mentir para a pessoa que partilha da mesma cama.

Curiosamente, nem mesmo o Livro que embasa a cultura ocidental condena a mentira. Os propósitos enganadores na vida cotidiana – escreve Jean Soler – não são objeto de nenhum mandamento. “Só é proibido o falso testemunho em nome de Jeová, o que é condenar menos a mentira que o uso sacrílego do nome divino. Nenhuma interdição bíblica ou mesmo rabínica diz: tu não mentirás. Felizmente para Jacó. É por instigação de sua mãe, Rebeca, que ele mente a seu pai para extorquir a bendição que lhe dará, de modo irreversível porque sagrado, os privilégios devidos aos primogênitos. (...) As mulheres dos patriarcas têm uma grande facilidade para mentir. A doce Raquel, esposa preferida de Jacó, rouba de seu pai os ídolos domésticos quando deixa Labão para seguir seu marido. Labão, quando percebe a desaparição dos ídolos, revista as tendas de Jacó. Quando entra na ocupada por Raquel, sua filha lhe diz: ‘Que meu senhor não se irrite se não posso levantar-me ante ti porque tenho o que acontece com as mulheres’. Raquel não tinha suas regras. Estava sentada sobre as estatuetas”.

A mentira continua sendo um expediente usual na Bíblia, sem que Jeová se preocupe com isso. Se o livro que norteia a ética ocidental não a condena, a mentira passou a ser algo normal na vida dos casais. “Todos mentem” – me dizia há pouco uma amiga. Pode ser. Mas não no que a mim diz respeito. Não que tenha medo de ser esfaqueado pela pessoa que partilha meu leito. Mas porque considero não ser honesto mentir. Tive não poucas amigas em minha vida. Jamais ocultei uma de outra. Todas sabiam de todas. O conceito de traição para mim é algo alheio e distante. A traição existe quando se mente. Se não há mentira, traição não existe.

O empresário levou uma facada no peito, possivelmente desferida debaixo para cima. O sangue espirrou até o teto – diz a notícia. A relação do casal era recheada de brigas, motivada sobretudo pelo ciúme de Renato. Ano passado, Alessandra arremessou um cinzeiro que atingiu a cabeça do empresário. O caso chegou a ser registrado na 16 DP da Barra da Tijuca.

Estou cansado de ler notícias de mulher matando marido, marido matando mulher, mulher matando amante, amante matando marido, amante matando esposa. Em um primeiro momento, imaginamos que tais notícias façam parte de um mundo distante daquele no qual vivemos, onde as pessoas se matam por motivos irrisórios. Em verdade, esse é o mundo em que vivemos. Em minha vida – e lá vão seis décadas – conheci raros maridos que não mentiam. Se for contá-los nos dedos, me sobra a maioria dos dedos. Mais dia menos dia, a mentira salta aos olhos. Os mais civilizados a absorvem, separam-se ou a assumem. Não vale a pena tirar uma vida por uma mentira. Já os brutos – ou as brutas – matam.

Vivo boa parte de minha vida em bares e não raro ouço machos se vangloriando de suas aventuras extraconjugais. Asco profundo. Me lembram episódio de meus dias de universidade. Conversava com um advogado que se vangloriava de sua liberdade sexual. Tinha por sobrenome Canibal. “Tenho as mulheres que quero e minha mulher não me reprova”. Achei interessante a idéia e ajuntei: certamente não reprovas as aventuras de tua mulher.

Pra quê? Melhor ficasse calado. O homenzinho foi entrando em um crescendo de raiva e acabou puxando um revólver sobre a mesa, o cano virado para mim. “Como queres que eu seja liberal, numa sociedade hipócrita como a nossa?” Ou seja, ele podia ser liberal à vontade na sociedade hipócrita em que vivia. A mulher, jamais. Diante de argumento tão convincente voltado para minha cabeça, tirei meu time de campo. Na época, eu garatujava minhas primeiras ficções. Criei então uma história a partir do episódio. Ao final de meu conto, o advogado matava sua mulher. Jamais o publiquei, devo ter os rascunhos em meus arquivos.

Fui profeta. Dr. Canibal acabou matando sua mulher. Para completar a obra, deu um tiro na própria cabeça. Em algum momento, houve a descoberta de alguma mentira. Sua mulher à parte, o mundo não perdeu grande coisa.

Que a Bíblia não condene a mentira, entende-se. Todo sacerdote sabe que Deus é uma mentira. Desde tempos ancestrais, a mentira tornou-se um componente da vida social. Há pensadores que julgam que, sem a mentira, a vida em sociedade seria inviável. Até pode ser.

Mas desta sociedade não participo.

 
DO HEITOR DE PAOLA


Em Paraíba do Sul, RJ, na praça principal existem duas estátuas: do Che e do Arafat. E aqui no Rio, na Barra, há anos a Via 7 recebeu o nome de Allende e recentemente a Via Parque, que passa por trás do BarraShoppinp é Av. Luis Carlos Prestes. Já se fala também de mudar o nome da Ponte Rio-Niterói que hoje é Presidente Costa e Silva, embora só apareça em poucos lugares o nome oficial.

Abração,
Heitor

Sábado, Junho 13, 2009
 
USP E INDIGÊNCIA INTELECTUAL


Desde universitário, considerei a universidade um dos redutos mais avançados do obsoletismo em termos de pensamento. Falo das ditas Ciências Humanas, bem entendido. Na área de ciências e tecnologia, não sobra muito tempo para masturbações intelectuais. E se há uma universidade obsoleta entre as obsoletas, esta é a USP. Foi através da USP que o marxismo foi introduzido no país e é através da USP que se propaga às demais universidades. A prestigiosa USP foi, sem sombra de dúvidas, um dos grandes fatores de atraso intelectual do país.

Y a las pruebas me remito. A recente greve que paralisou parte da universidade por 40 dias foi obra de meia dúzia de gatos pingados, malucos só concebíveis em museus como a Coréia do Norte, se é que na Coréia do Norte há greves. A baderna, liderada por um tal de Claudionor Brandão, líder do do Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP), remete o Brasil há meio século atrás. Membro de um grupo denominado "Liga Estratégia Revolucionária", uma dissidência do PSTU, ele acredita que só com a revolução armada seja possível alcançar o comunismo.

Pelo jeito, o líder sindical não leu jornal algum nas últimas duas décadas. Duvido que em qualquer outra universidade brasileira que não a USP algum demente ainda pensasse em alcançar o comunismo. Em janeiro de 2000, escrevia José Arthur Rios:

“Na Europa, nos arraiais das ciências da sociedade, muito antes da queda do Muro e do desmoronamento do regime soviético e dos seus satélites, o Marxismo era visto como doutrina sectária e ultrapassada. Com exceção da França, não desfrutava do prestígio intelectual dos anos 40 e 50. Nada parecia alterar, nestes trópicos, a tranqüilidade dos meios acadêmicos, cada vez mais dominados pela esquerda, criando o paradoxo de um ensino superior eivado de marxismo sob um regime militar em choque contra a guerrilha armada, o terrorismo e a subversão”.

Mais de meio século depois de a Europa ter abandonado uma doutrina do século XIX, um sindicalista celerado ainda pensa em comunismo neste país incrível. Que um operário analfabeto alimente tais desvarios, até que se entende. Mais difícil de entender é que universitários da USP o defendam.

No fundo, a universidade que se pretende a mais excelsa do país, nada mais faz senão demonstrar sua indigência intelectual.

Sexta-feira, Junho 12, 2009
 
In memoriam:
PARA TI



Viagem infame, aquela! Nossa noite já havia sido de angústia, prenúncio de uma partida sem volta. No dia seguinte, imbecis, rumamos um para o norte, outro para o sul. Te apertei com desespero até a estação, não sabia quando te voltaria a ver. Sei, há muitas mulheres no mundo, mas se tu existias para que buscar outra companheira de caminhada? Minto, não é bem isso, é algo ainda mais simples. Te adorava, e pronto! Posso perder a memória, mas jamais a lembrança daquela manhã que não desejo a ninguém, manhã abominável, para sempre permaneça sepultada lá em Madri.

O Talgo começou a mover-se, lento como todos os trens que separam amantes, lento mas inexorável, cada vez menos lento e mais inexorável, e teu vulto envolto em lãs e distância foi se tornando cada vez mais distante e mais terno, um nó começou a me estraçalhar a garganta, não resisti. As lágrimas foram rolando sem muita cerimônia. Um espanhol a meu lado, muito discreto, desviou o olhar para não imiscuir-se em meus sentimentos. Lembras aquele boné de bisão que me deste em Amsterdã? Pois é, o espanhol tomou-me por russo, tenho certeza que intimamente se perguntava por que razões andaria este cossaco chorando em Madri. Cossaco é a vovozinha, sou gaúcho de Ponche Verde. Gaúcho chora? Chora sim, basta que sofra.

Quando cheguei em Paris, estavas em Lisboa. Era tempo ainda, bastaria um telefonema para o aeroporto para pôr fim àquela insensatez. Mas sempre fui obstinado, continuei teimando em minha viagem rumo ao frio. Mais algumas horas e um oceano estaria nos separando. Seria tarde para voltar e eu queria que fosse tarde para voltar – para não voltar.

Em uma gare apanhei o resto de minhas malas e atravessei aquela Paris, cheia de charme quando chegamos, cheia de cinza quando voltei. A neve que aconchegava os campos, que contigo me parecera tão macia e tão morna, era agora cada vez mais neve e mais fria. Frio por dentro, atravessei aquela Alemanha fria sem disposição alguma para divertir-me às custas dos Deutschen e seus ares marciais, como fazia quando contigo.

Atravessei uma Holanda sem graça, uma Dinamarca sem graça, rumo a uma Estocolmo sem graça alguma. A graça estava em ti e tu voavas rumo ao sul. No ferry-boat para Helsinborg – já estarias próxima a Porto Alegre – fugi do restaurante e fui até a proa, se estava enregelado por dentro pouco importava enregelar-me por fora. O barco avançava com dificuldade no mar congelado, o céu era cinzento e me pesava como chumbo aos ombros e eu, o estúpido, tinha ganas de jogar-me ao Báltico, estou certo que quebraria sua crosta hibernal, cabeça-dura como sou.

Estocolmo. Noites brancas e sempre frias. Da janela de meu quarto, em meio a um silêncio que feria os ouvidos, eu não olhava sequer a neve, mas o vazio. Não poucas noites fiquei em pé, frente à janela, olhando aquele vazio que não seria vazio se estivesses lá. Sos um boludo, che! – dizia-me um boliviano – en Brasil hay una mujer que te quiere, que haces en esta tierra de hombres tristes? Que fazia? Não sei, como tampouco ele sabia que fazia lá. Errâncias...

Lá, recebi e dei calor, calor humano e animal. Muitas noites enrosquei-me em uma lena (doce, em sueco) Lena, que por sua vez me apertava sonhando apertar um romeno de Bucareste. Amávamos por procuração, sem que nenhum mandato nos tivesse sido outorgado. Mas não era ela quem eu apertava, tampouco era eu quem ela apertava. Desculpa o lugar comum: éramos apenas bons amigos, angustiados amigos. Até que um dia deixei de ser besta, atei a mala nos tentos e voltei a trote largo pra querência. E se não me esqueço daquela manhã infame em Madri, tampouco esqueço aquela manhã linda no Rio. Não te esperava e lá estavas, chorando grudada às grades do portão do cais. Vivendo e aprendendo! Sonhei com divas e deusas e cá estou comovido com uma baixinha dentuça.

A quem espero, mesmo de cabelos brancos, jamais chamar de minha mulher ou minha esposa, mas simplesmente de minha guria.

(13/06/77)

 
CENSURADO SEJA BRY


Uma ilustração de 1592, feita pelo artista francês Theodore de Bry, virou motivo de polêmica na rede municipal de ensino do Rio de Janeiro. A imagem mostra índios praticando empalamento, suplício utillizado por tribos que habitavam o Brasil no século 16. A secretária municipal de Educação, Cláudia Costin, decidiu recolher o livro de história onde a gravura aparecia, por considerá-la inadequada aos alunos do 4º ano do ensino fundamental, cuja faixa etária varia de nove a dez anos. Em reportagem do jornal O Dia, pais de alunos dizem temer que as crianças copiem o ato. Segundo o MEC, desde 2007, quando o livro chegou à rede pública, já foram entregues 1.784.391 exemplares, em vários Estados.

Em entrevista para a Folha de São Paulo, Manolo Florentino, historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, considera que a imagem não influencia o comportamento dos alunos. "Se fosse assim, nenhuma criança poderia ver uma representação de Cristo crucificado". O professor tem toda a razão. O cristianismo transformou em símbolo sagrado um instrumento de tortura.

Mas nem precisava ir tão longe no tempo. São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro, é reproduzido em santinhos sempre com ar lânguido e duas flechas no tórax, sem que pai algum se preocupe que crianças saiam a flechar seus coleguinhas. Diga-se de passagem, Sebastião é padroeiro também dos gays. Segundo a lenda, era o soldado dileto do imperador Diocleciano, de Roma, homossexual notório. Seu martírio seria conseqüência de sua recusa em continuar manter relações sexuais com Diocleciano, depois da conversão ao cristianismo. Converter-se é perigoso.

Confesso até hoje não entender como um instrumento de tortura passou à história como símbolo de paz, amor e bem-aventurança. Os judeus que condenaram o Cristo e os romanos que o executaram escolheram o suplício errado. Fosse o Messias empalado, por uma questão pelo menos de pudor, aposto que seus seguidores não ousariam enfrentar o mundo empunhando uma estaca. Isso sem falar no ritual bárbaro da transubstanciação. Poucos católicos sabem que, ao comungar, não estão ingerindo um símbolo do corpo e sangue do Cristo, mas o próprio corpo e sangue. Quem pensar diferente incorre em anátema. Os sacerdotes católicos são todos hematófagos profissionais. E os comungantes, nada menos que antropófagos.

Se crianças estão aptas a praticar o canibalismo – nunca vi restrição alguma de educadores a tal prática – não vejo porque estariam proibidas de ver uma singela gravura representando um empalamento. No fundo, não me parece que a preocupação da secretária de Educação seja a possível influência sobre os alunos.

E sim a evidência de que nossos “bons sauvages” não eram assim tão bonzinhos. Numa época politicamente correta, em que se pretende louvar a excelência das culturas indígenas, não soa muito bem mostrar bugres enfiando estacas em corpos de brancos.

 
A OBJEÇÃO DE VAZELESK


Em crônica passada, considerei ingratas as esquerdas que querem eliminar os nomes dos militares pós-64 das ruas. “Não fossem os presidentes militares, seus militantes hoje não estariam gozando de pensões milionárias”, escrevi. Vanderlei Vazelesk protesta:

Agora agradecer as pancadas, quem levou pancadas, aí já é um pouco demais. Sei que você está ironizando, mas lembra o Chico Xavier, dizendo a um sujeito que tinha sido roubado?: "Você tem que agradecer porque não é você que está roubando".

As indenizações para quem foi torturado ou perdeu parentes em quartéis e prisões são justas sim e, é o mínimo que se pode fazer, já que punir os terroristas do Estado, nem pensar.

Um abraço e bom feriado.


De acordo, Vanderlei. Quem foi torturado, os familiares de quem foi morto sem resistir à prisão, tudo bem. Mas o Lula, Cony, Ziraldo et caterva foram torturados? Não me consta. Por outro lado, o deputado tucano que pede a mudança dos nomes jamais foi vítima dos militares. Pelo contrário, por eles foi beneficiado. Estivesse em vigor o regime almejado pelos comunistas em 64, não teríamos eleições e muito menos deputados.

Além disso, por que não são indenizados os pobres diabos torturados diariamente nas cadeias da vida? Só porque não são militantes de esquerda?

Quinta-feira, Junho 11, 2009
 
MÁFIA DO DENDÊ USA E ABUSA
DE CORRUPÇÃO LEGALIZADA



Deve fazer uns bons trinta anos que não vejo filmes nacionais. Uma das razões – mas não a mais importante – é que há anos venho subsidiando o cinema brasileiro com meus impostos, através da famigerada renúncia fiscal. Certo, quem renuncia são as empresas. Mas acaba sobrando para o contribuinte. Não só eu, mas todos nós. Se paguei a produção, não vejo porque pagar entrada. Se um dia o produtor mandar uma limusine até aqui em casa para levar-me ao cinema, posso até pensar no assunto. Mas só pensar. Provavelmente não irei. Porque o cinema nacional, como é feito, não me atrai.

Renúncia fiscal é legal, é verdade. Ocorre que, na maior parte dos casos, é imoral. Digo mais, é a corrupção dentro das devidas formas da lei. Por que razões um CD de Caetano Veloso, por exemplo, precisa ser subsidiado com dois milhões de reais, arrancados do Erário? Seria Caetano um artista iniciante que precisa de estímulos financeiros? Seria sua música de tal importância cultural que mereçam financiamento público?

Leio na Folha de São Paulo que a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), que analisa os projetos aspirantes ao benefício da lei Rouanet, negou autorização para que os produtores do músico baiano Caetano Veloso captem patrocínio para o novo trabalho do artista, o CD "Zii e Zie". Em boa hora negou. Caetano, além do que receberá por seu CD, embolsaria de inhapa mais uma gorda propina. O fato é que a lei Rouanet tem sido amplamente utilizada para financiar espetáculos que se pagam sobejamente e ainda resultam em gordos lucros.

Foi o caso do Cirque du Soleil, por ocasião de sua apresentação em São Paulo. Ora, desde quando uma empresa internacional, que cobra preços altíssimos por ingresso e tem seus espetáculos sempre lotados, precisa de apelar ao contribuinte brasileiro? O brasileiro, qual boi dócil à canga, não tuge nem muge. A nobre classe artística nacional que me perdoe. Mas isso é corrupção pura e simples.

Leio ainda que, ano passado, Maria Bethânia recebeu 1, 8 milhão de patrocínio. Poderosa, a Máfia do Dendê. O patrocínio foi inicialmente veto, mas o ministro da Cultura, Juca Ferreira, vetou o veto. Segundo a Folha, o ministro provavelmente derrubará o veto ao show de Caetano. Não bastasse o contribuinte financiar silicone e hormônios para travestis, terá de financiar canalhas que não têm pudor algum em enfiar a mão em seu bolso.

Por muito menos que isso, os Estados Unidos declararam sua independência.

 
SAÚDE PÚBLICA FINANCIA SILICONE PARA
PROPICIAR MAIS CHARME À PROSTITUIÇÃO



Depois que o governo Serra instituiu cotas para gays nos serviços de saúde pública, pelo menos quatro hospitais públicos manifestaram interesse em realizar cirurgias de colocação de prótese mamária em travestis e transexuais. É o que leio no Estadão. Segundo a coordenadora do programa estadual de DSTs/Aids do Estado, Maria Clara Gianna, ainda serão estabelecidos protocolos e em até três meses este procedimento e a terapia hormonal - administração de hormônios para conferir identidade feminina, como ausência de pelos no rosto - já estarão disponíveis.

"A inauguração é um grande avanço", disse a travesti Taís Souza, de 27 anos, da ONG Centro de Referência da Diversidade e que já viu várias amigas se submeterem à injeções de silicone industrial para ganhar formas femininas. O silicone pode se deslocar pelo corpo causando danos à saúde. O governador José Serra, em plena candidatura à Presidência da República, está totalmente de acordo: "A orientação sexual e a identidade de gênero têm implicações sobre a saúde e o sistema tem de estar preparado para este tipo de atendimento".

Ora, para que travestis fazem próteses mamárias? Para serem mais simpáticos aos amigos não há de ser. Travestis que se prostituem invariavelmente fazem próteses de silicone para atrair maior clientela. Enquanto no país todo as autoridades combatem a prostituição, os hospitais públicos querem torná-la mais atraente.

Se um travesti ou transexual, por estar descontente com o corpo, tem direito a cirurgias, por que não têm esse direito todo e qualquer cidadão que está descontente com o próprio rosto? Cirurgia plástica de graça para todos. Por que só para travestis e transexuais? Só há uma resposta viável: protegidos pela bandeira do respeito à diversidade sexual, os serviços de saúde pública querem estimular a prostituição.

Falando assim, alguém pode achar que tenho restrições a prostitutas e travestis. Nada disso. Apenas considero absurdo hospitais públicos privilegiarem o tratamento estético a profissionais do ramo. Justo neste Brasil onde o cidadão comum morre nas filas de espera do SUS e, se consegue ser hospitalizado, precisa ter muita saúde para sair vivo de uma casa de saúde.

 
SOBRE O DISCURSO DE OBAMA


Escreve Luís Gonçalves:

Prezado Janer Cristaldo,

É inegável que Obama se mostrou extremamente simpático ao Islã. Não condenou o terrorismo islâmico, não se referiu ao Hamas como terrorista e ainda criticou os assentamentos judaicos na Cisjordânia. O que me deixou perplexo na eleição de Obama foi a comemoração de alguns judeus que conheço, mas agora acredito que eles já perceberam que Obama não é seu aliado. Aguardo péssimas noticias no Oriente Médio num futuro próximo. Sem o apoio dos EUA, a situação de Israel vai se complicar bastante. Aliás, desconfio que esse conflito com a Coréia do Norte é para impedir os EUA de atuar no Oriente Médio, caso Israel necessite de ajuda. Enquanto isso, os esquerdistas continuam apoiando o Islã.

Atenciosamente,

Luís


Escreve Francisco José de Queiroz:


Realmente, Janer, o cara foi tão bom-mocinho que renegou até as origens. E a Hilary hilária, que transformou em questão de estado o caso do menino Sean. Passou um atestado de que considera o Brasil um país de selvagens. Certo que o vaqueiro era meio bronco, mas que saudade da Condie, que nem perdia tempo cumprimentando o bufão do Chávez. Foi ela, aliás, que lavou a alma do Brasil, ao deixar claro que a invasão da Petrobrás na Bolívia não passava de um ato ridículo de um bando de índios mal-aculturados. Vamos ver quantas vezes a diplomacia americana do Obama vai dizer que sua paciência tem limite. Se não me engano, já disse duas vezes. Bom feriado.

Francisco

Quarta-feira, Junho 10, 2009
 
INGRATA GENTE!


Décadas após a morte de Francisco Franco, as esquerdas espanholas decidiram eliminar das ruas e monumentos toda e qualquer lembrança ao nome do homem que salvou a Espanha de tornar-se uma republiqueta soviética. Vou mais longe: Franco salvou não apenas a Espanha do comunismo, como boa parte da Europa. Caída a Espanha, a França seria estrangulada entre a nova república comunista e os países do Leste Europeu. Perderia o acesso a boa parte do Mediterrâneo, ao Atlântico e ao mar do Norte. A queda dos demais países europeus ao leste da Espanha, e Portugal ao oeste, seria apenas uma questão de tempo. O regime soviético, com novas colônias a explorar, certamente não teria morrido nos anos 90.

Hoje, você não encontra nenhum monumento, nenhuma rua com o nome de Franco no país de Franco. É claro que a moda contagiaria o Brasil. Somos mestres em importar o que de pior acontece no estrangeiro.

Leio nos jornais que tramita na Assembleia Legislativa de São Paulo um projeto de lei, de autoria do deputado estadual Milton Flávio (PSDB), que pretende mudar o nome de todos os lugares públicos do Estado que homenageiam ícones do período da ditadura militar. Até a rodovia Castelo Branco, principal ligação entre a capital e o oeste paulista, seria rebatizada com nome de uma liderança democrática.

Ou seja: o deputado tucano quer eliminar da memória nacional o nome daqueles militares que não permitiram que o Brasil se tornasse uma imensa Cuba tropical. A iniciativa não deixa de ter suas origens no governo Fernando Henrique, quando o Estado reconheceu que houve tortura ao indenizar ex-presos e perseguidos políticos. “Sendo assim – diz o deputado -, não faz sentido homenagear quem autorizou ou praticou tortura com nome de praça, escola ou estrada".

Matar em nome do comunismo pode. Uma rua na zona norte da capital paulista homenageia Carlos Lamarca. Já há ruas no Brasil com nomes de outros dois celerados, Luiz Carlos Prestes e Olga Benário. Uma escultura em granito, com 1,5 metro de altura, foi instalada em 1999 no local em que Carlos Marighella, dirigente e fundador do grupo terrorista Aliança Libertadora Nacional (ALN), foi cercado e morto pelos militares. Em Dom Pedrito, tenho conhecimento de uma rua Che Guevara. Detalhe curioso, é que poucos pedritenses aludem ao guerrilheiro argentino. A rua é conhecida apenas como rua do Che, o que tem outro significado naquelas plagas.

Muitas outras homenagens aos bandoleiros internacionais que quiseram transformar o país em republiqueta soviética devem existir país afora. "Defendemos isso faz tempo. Não tem sentido a democracia manter a homenagem a um criminoso como o Castelo Branco e punir com o ostracismo a vítima do crime, que foi o João Goulart. Queremos o Jango em nomes de avenidas, estradas e praças. Faltam também avenidas e ruas chamadas Miguel Arraes, Leonel Brizola...", afirma Ivan Seixas, presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos. Mais um pouco e teremos a avenida Fidel Castro, o largo Mao Tse Tung, a praça Stalin, a rua Pol Pot.

Ora, não temos notícias de torturas durante o governo Castelo Branco. Daí a homenagear um presidente pusilânime como Jango – que portou-se como uma mosca tonta nos idos dos 60 – e notórios politiqueiros como Arraes e Brizola, que financiaram grupos terroristas e só serviram para conturbar a política nacional, vai uma longa distância. Curiosamente, ninguém pensa em trocar os nomes de ditadores e degoladores como Floriano Peixoto, Moreira César, Borges de Medeiros, Getúlio Vargas.

Uma mudança de nomes de rua é algo que afeta milhões de pessoas. Provoca confusões no trânsito, novos mapas e guias terão de ser editados, os moradores precisarão alterar o nome das vias em documentos, escrituras, correspondências e cadastros bancários. Toda esta perturbação apenas para satisfazer o espírito de vendeta das esquerdas que um dia quiseram destruir o país.

Isso sem falar na falta de gratidão desta gente. Não fossem os presidentes militares, seus militantes hoje não estariam gozando de pensões milionárias.

 
FLORES AO INIMIGO


Escreve um leitor:

Ô Janer, não deu pra perceber que o Obama é um "político"??? Se ele chegasse chutando o balde pra cima dos extremistas, só teria mais guerra. Um líder tem de saber medir as palavras, especialmente neste caso concreto. Concordo plenamente com a postura do Obama. Se ele fizesse o que tu queres, o resultado seria trágico.

Marcelo


Ok, Marcelo! Não seria nada diplomático viajar ao Oriente Médio acusando o Islã. Mas também não precisava elogiar. Disse Obama que os EUA e o Islã “se misturam e dividem princípios comuns. Princípios de justiça e de progresso; de tolerância e de dignidade para todos os seres humanos". Até pode ser que dividam princípios genéricos de justiça e progresso. Mas não de tolerância e de dignidade para todos os seres humanos. O Islã sempre foi intolerante e nunca respeitou a dignidade das mulheres que vivem nos regimes onde faz a lei.

Se Obama não precisava acusar o Islã em sua viagem, poderia ao menos ter poupado o Ocidente. Mas se permitiu serenamente rejeitar "a visão de alguns no Ocidente de que a mulher que decide cobrir seu cabelo é de alguma forma menos igual”. E ajuntou que “negar o direito à educação a uma mulher é como negar o direito à igualdade. E não é coincidência que países com mulheres educadas são mais prósperos". Nisto vai uma acusação velada à França e demais países europeus que negam a entrada de alunas com véus nas escolas. Muito pior – prática corrente em vários países islâmicos – é negar às mulheres o direito a educação. Nenhum país europeu está negando educação a mulheres muçulmanas. Pelo contrário, lhes oferece uma educação à qual dificilmente teriam acesso em seus países.O que se exige é que não entrem veladas nas escolas.

Obama citou contribuições passadas da cultura árabe ao Ocidente. Contribuições de uma época em que o mundo árabe não era dominado por mulás e aiatolás. Em que uma obra de extraordinária poesia como As Mil e Uma Noites não era proibida nos países árabes. É exatamente o islamismo que interrompe essa rica contribuição árabe ao Ocidente. Obama sofismou ao associar o atual mundo árabe à cultura árabe pré-islâmica. Está no mínimo mal assessorado por seus ghostwriters.

Quanto a extremistas, a questão não é apenas chutar o balde. Extremismos só se combatem com a justiça e a força das armas. O homem que teve uma das cidades mais prestigiosas de seu país bombardeada pelos terroristas de bin Laden, não disse uma palavrinha contra o terrorismo islâmico. Claro que não é boa estratégia ir armado em uma missão de paz. Mas tampouco não me parece ser boa estratégia levar flores ao inimigo.

 
NA REPÚBLICA DAS COTAS

De um leitor, que se assina Paulo, recebo:

Sobre a suposta “cota para gays”

Olá, Janer!

Bastante sensacionalista a sua nota sobre a criação de supostas "cotas para gays". Ficou parecendo até que foi um artigo escrito por esses filósofos-astrólogos, não combinou com o que você costuma escrever. O que foi criado pela Secretaria de Saúde de São Paulo foi um ambulatório específico para o atendimento de transexuais. Em hospitais de referência existem ambulatórios específicos para centenas de problemas de saúde, como ambulatórios para variados tipos de câncer, anorexia, obesidade, hanseníase, etc. E agora foi criado um ambulatório para transexuais. Os transexuais, em geral, precisam de atendimento específico, sobretudo quando irão passar pela cirurgia de resignação sexual, que é um procedimento relativamente complexo, que exige o acompanhamento de profissionais de várias especialidades. Isso nada tem ver com cotas. E também não tem nada a ver como homossexuais. Transexualismo é considerado uma doença pela medicina*, por isso os transexuais têm direito a serem tratados pelo Sistema Público de Saúde. Transexualismo não tem nada a ver com homossexualismo (ou homossexualidade, como queira chamar). Homossexualidade não é vista como doença ou transtorno pela medicina e pela psicologia porque a homossexualidade é considerada apenas uma preferência; assim como uns são atraídos pelos amarelo, outros são atraídos pelo azul. Já o transexualismo é um transtorno de gênero, é como se você tivesse um cérebro feminino em um corpo masculino ou vice-versa, o que, em geral, cria profundo sofrimento ao portador.

*A não ser que o transexual se sinta bem com sua condição (o que não é comum). Nesse caso não deveria ser considerado nenhum transtorno.

Paulo.



Meu caro Paulo:

Segundo a notícia, a clínica é para "atendimento exclusivo de homossexuais, travestis e transexuais" e não um "ambulatório específico para o atendimento de transexuais", como escreve o leitor. Se existem "ambulatórios para variados tipos de câncer, anorexia, obesidade, hanseníase, etc", esses ambulatórios classificam os pacientes por doenças e não por opções sexuais. De minha parte, sempre defendi o direito de qualquer pessoa exercer sua sexualidade com quem bem entender. Não tenho nada contra homossexuais, travestis ou transexuais. Cada um na sua. O que não se admite é que tenham tratamento privilegiado em função de suas opções sexuais.

Vivemos na República das Cotas. Um tem mais direitos que os brancos porque é negro. Outro tem mais direitos porque é índio. Agora, entramos na órbita dos que têm mais direitos à saúde do que os heterossexuais ... porque são homossexuais, travestis ou transexuais.

Não se trata de uma “suposta” cota para gays. Trata-se de uma cota, simplesmente, sem nada de suposta.

 
CANDIDATO TUCANO CRIA COTA
PARA GAYS NA SAÚDE PÚBLICA



José Serra, candidato à Presidência da República, parece ter descoberto o potencial eleitoral do movimento gay. Ontem, o próprio governador inaugurou a primeira clínica pública para atendimento exclusivo de homossexuais, travestis e transexuais. Segundo os jornais, o centro de atendimento terá profissionais nas áreas de medicina, enfermaria, psicologia, nutrição e dietética e fisioterapia especializados no atendimento a gays.

Se você quiser ter tratamento médico privilegiado, melhor desistir dessa mania obsoleta de gostar do sexo oposto. Heterossexual não tem atendimento diferenciado.

Terça-feira, Junho 09, 2009
 
DITADURA DA IMPRENSA?


Mas o melhor do artigo de Igor Gielow, citado abaixo, está em seu final, na condenação do blog da Petrobras.

Abundam comentários laudatórios - deve ser a tal transparência em ação. A imprensa é pintada como o diabo, como de resto crê mesmo o governo. Isso é um daqueles ranços que não tem "Carta ao Povo Brasileiro" que apague do coração dos petistas que aparelharam a empresa e o Planalto.

O dirigismo é primário. Notas do "Painel" desta Folha sobre a estratégia da empresa para a CPI são criticadas; informações da mesma seção sobre o que os tucanos estão aprontando são destacadas. Alguém no Oráculo, ou na Secretaria de Comunicação Social, deve considerar isso exemplo de isenção.


O colunista dá a entender que a Folha não pode ser criticada. Nem os tucanos. Ora, no dia em que um jornal não puder ser criticado no Brasil, só porque jornais não aceitam ser criticados, caímos na ditadura da imprensa. Ou será que a Folha só aceita as críticas do jornalista que é contratado para criticá-la?

 
NO RIO GRANDE DO SUL JÁ
SE PODE MATAR A GOSTO



Em janeiro de 2007, segundo a Veja, existiam 570.000 mandados de prisão expedidos pela Justiça, em todo o país, e ainda não cumpridos – número que na ocasião superava em 100 vezes o de presos com direito a cumprir penas em regime semi-aberto e que só não o fazem por falta de vagas em estabelecimentos judiciais destinados a esse fim. Conclusão: existiam mais criminosos, condenados ou não, que nunca foram presos do que presidiários que poderiam ser soltos.

Leio hoje em O Globo que juízes das varas de execução criminal do Rio Grande do Sul, seguindo a tendência nacional, não irão mais expedir mandados de prisão definitiva contra réus que responderam ao processo em liberdade, mesmo se eles forem condenados sem possibilidade de recurso. No que não deixam de ter certa razão: para que mandar prender, se o mandado não é cumprido? A exceção será nos casos de crimes hediondos, como estupro, latrocínio e homicídio qualificado, ou na iminência de prescrição da pena. A decisão foi adotada na última sexta-feira, após uma reunião realizada entre 80 magistrados em Porto Alegre.

Ou seja: se alguém quiser roubar, assaltar, seqüestrar, espancar, atropelar, dirigir bêbado ou picuinhas do gênero, sem o risco de ser punido, basta mudar-se para o Rio Grande do Sul. Por outro lado, homicídio qualificado ocorre em cinco circunstâncias:

I - mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro motivo torpe;
II - por motivo fútil;
III - com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo comum;
IV - à traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido;
V - para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou vantagem de outro crime.

Se você precisa matar sua mulher ou seu marido, sua amante ou seus filhos, desde que não incida nos cinco itens supra, leve o futuro cadáver para o Rio Grande do Sul. Lá já se pode – exceptis excipiendis – matar a gosto.

 
PETROBRAS DESCOBRE BLOG


Que os blogs são mais ágeis que os jornais, isto desde há muito se sabe. O mesmo diga-se do jornalismo on line. Para quem busca informações via internet, todo jornal em papel tem um ar de déjà-vu. Profetas apressadinhos anunciam a morte dos jornais. Ora, o jornal não morre. Jornalismo é reportagem, pesquisa, entrevistas, fotografia. O que pode ocorrer é que os jornais assumam um novo formato, o eletrônico. Poder-se-ia talvez pensar na morte do jornal em papel. Mas não do jornal em si.

A Petrobras parece ter descoberto o blog. E tomou uma iniciativa que está desconcertando os jornalistas. Quando seus funcionários são entrevistados, publica a reportagem em seu blog, antes mesmo de que ela seja publicada nos jornais. Revolta nos meios jornalísticos. Para a Associação Nacional dos Jornais, a atitude quebra o caráter confidencial que deve ter a correspondência entre os jornalistas e as fontes oficiais da empresa, revelando uma "canhestra tentativa de intimidar" a imprensa.

Em entrevista para o Estadão, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar Britto, considera que a companhia pode encontrar outras formas de garantir a transparência e a publicação de suas posições em matérias jornalísticas sem quebrar o princípio de exclusividade, que faz parte da essência da atividade. "Não há nada contrário a uma instituição criar um blog como fonte de informação de seu pensamento, é até recomendável. Porém, não é recomendável que se quebrem as cláusulas de exclusividade com os jornalistas. Há uma quebra dos princípios da boa convivência".

Na Folha de São Paulo, protesta Igor Gielow: “Tem a cara do governo Lula a nova diretiva de comunicação da Petrobras em tempos de guerra, aliás, CPI. A empresa inaugurou um blog no qual faz comentários, digamos assim, editoriais sobre reportagens que lhe dizem respeito. Mas não é só isso. Questionamentos de jornalistas são publicados com as respostas que o Oráculo de Macaé achar adequadas. A Petrobras alega que isso é uma inovadora política de transparência de informações públicas.

“Cascata. O objetivo é tentar esvaziar a bola das denúncias que inevitavelmente chegarão a seu balcão, contra-informação pura. Há uma quebra de contrato ao divulgar as informações de que os jornalistas dispõem, não raramente peças de quebra-cabeça ainda em formação”.

A estatal não acha que haja quebra de contrato nenhuma. Considera que tem liberdade para publicar a íntegra das respostas que fornece aos veículos de comunicação porque é fonte e detentora dos dados disponibilizados. “No campo jurídico, especialistas consultados reafirmam a legalidade de nossa decisão. Cabe-nos, entretanto, ressaltar que a medida não tem como objetivo prejudicar o trabalho dos jornalistas”.

Os jornalistas não estão gostando de serem furados pela fonte. Pelo jeito, ainda não assimilaram as possibilidades da internet. Se os jornais antecipam até mesmo informações sigilosas, por que não poderia uma empresa vazar uma entrevista? De qualquer forma, o antídoto está ao alcance de todos os jornais. Basta publicar a reportagem na edição on line. Verdade que esvazia um tanto o jornal do dia seguinte.

Mas internet é isso mesmo. Ou pretenderão os jornalistas censurar outras fontes de informação que não os jornais?

 
AFRICANO PODE SER BRANCO?


De um leitor de Lisboa, recebo:


Caro Janer,

Envio-lhe esta pequena história, que é no mínimo perturbadora...

A história de Paulo Seródio, narrada pelo ABCNews (http://tinyurl.com/pajmwo), é notável. Paulo Seródio é moçambicano, descendente de portugueses e residente nos Estados Unidos da América onde estuda medicina. Tem dupla nacionalidade - é moçambicano e norte-americano. Numa aula, identificou-se como "White African-American" e entrou directamente no inferno sem passar pelo purgatório. Começou com uma colega muito ofendida pelo "insulto racista", porque um cidadão branco nascido em África e com nacionalidade americana nunca se pode definir como African-American.

Um abraço,
Nuno Santos Silva,
Lisboa, Portugal

Segunda-feira, Junho 08, 2009
 
PUC ALERTA GENTILMENTE ALUNOS
QUE CONSUMIR DROGAS É ILEGAL



A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) anunciou hoje a interdição de um dos mais antigos maconhodrómo da capital, seu câmpus em Perdizes. A notícia é do Estadão. Sempre foi público e notório o uso dos campi para consumo da canabis. Como os eruvin judaicos – território definido pelos rabinos onde um judeu pode fazer no shabat tudo que é proibido a um judeu fazer no shabat – os universitários dispunham de um território próprio para consumir as drogas legalmente proibidas, e é óbvio que não deveriam se limitar à maconha. Se você quer fumar sua canabis ou cheirar sua cocaína sem maiores preocupações com a polícia, faça um vestibular. Uma vez dentro do câmpus, você está coberto de imunidades. Lá a polícia não chega e você pode curtir sua erva ou pó sem a desagradável intervenção desses estraga-prazeres.

Em 2003, o caso de uma universitária aleijada por um tiro na universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, trouxe à tona um dado óbvio, que autoridade universitária alguma gosta de comentar. O câmpus da Estácio era o mercado privilegiado dos traficantes, instalados no morro contíguo. Segundo gravações telefônicas feitas pela polícia, os líderes do tráfico estavam esperando o início das aulas para fazer caixa e comprar armas.

Comentei na ocasião: “Duas pestes a universidade introduziu no Brasil. O marxismo foi a primeira. Mais letal e destrutiva que qualquer droga, foi introduzida pela USP no país e a partir de São Paulo contaminou o universo acadêmico do país todo. A segunda foi a droga. Começou pela maconha, que adquiriu prestígio nos campi americanos, onde conservava seu nome mexicano, marijuana. Consumida anteriormente por marginais, foi elevada à dignidade universitária. Com esta bendita mania que temos de importar do Primeiro Mundo o que de pior o Primeiro Mundo produz, logo foi adotada pela universidade brasileira. O leitor deverá ter conhecido ou ouvido falar de pequenas comunidades do interior do país, onde a droga inexistia. Basta criar um curso ou extensão universitária nalguma dessas comunidades, e no dia seguinte a droga e o tráfico lá se instalam.

“Desde há muito se sabe que os campi abrigam aprazíveis fumódromos, protegidos pela asa cúmplice dos reitores. Mas ai de quem disser que o rei está nu. Foi o que aconteceu com o psiquiatra Içami Tiba. Ao analisar o caso de Suzane von Richthofen, estudante de direito da PUC de São Paulo que matou os pais no ano passado, afirmou: 'A PUC é um antro de maconha'. Que a maconha tinha livre curso na PUC, isto era público e sabido, e nenhum universitário negará este fato. A PUC, melindrada, entrou com dois processos contra o psiquiatra: um de indenização por danos morais e uma queixa-crime por difamação. O crime foi dizer em público, com todas as letras, o que era público mas jamais admitido”.

Foram precisos seis anos para que um reitor, finalmente, admitisse em público o uso de drogas no câmpus de Perdizes. O atual reitor, Dirceu de Mello, decidiu defender o “franco enfrentamento do problema” e coibir o consumo nas dependências universitárias. “A PUC não quer ser marcada como um território livre para o uso de drogas. O que é ilegal não pode e pronto. Aqui não é lugar para ficar fumando maconha” – disse o pró-reitor de Cultura e Relações Comunitárias, Hélio Roberto Deliberador.

Os 120 seguranças da Graber, uma prestadora de serviço, receberam treinamento para abordar quem for visto consumindo drogas na unidade. Mas a abordagem será leve. Nada de encaminhar à justiça que for flagrado cometendo um ilícito. Em média, dez usuários por dia serão abordados. E por que apenas dez usuários? Deliberador não explica. É de supor-se que para não espalhar a inquietação entre estes bravos jovens – o futuro da nação – que finalmente encontraram um eruv tranqüilo onde transgredir a lei sem temer as conseqüências da transgressão à lei.

Se o leitor imagina que o transgressor será encaminhado às autoridades para a devida punição, em muito se engana o leitor. Os funcionários da Graber pedirão gentilmente que o cigarro seja apagado, alertarão – ó novidade! – que o uso é ilegal e que a universidade não é o espaço adequado para o consumo. Fica no ar a pergunta: segundo a PUC, qual seria o espaço adequado? Assim como os adeptos do tabaco estão sendo expulsos dos bares, os curtidores da erva estão sendo reprimidos no território livre e sem lei da PUC.

Na ocasião do tiro na estudante da universidade Estácio de Sá, o então secretário de Segurança do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, ficou seriamente preocupado com o caos social decorrente do fim do tráfico: "Imagine se nós conseguíssemos fechar todas as bocas-de-fumo por uma semana e não fosse vendido um papelote de cocaína ou um grama de maconha? O que aconteceria com 700 mil pessoas depois de três dias sem usar droga, em crise de abstinência? Um pânico igual aos tiroteios que nós assistimos todos os dias na televisão. Aquilo que vocês têm mostrado nas páginas da Folha: pai matando o filho, filho matando e roubando a mãe, filho declarando que ama mais a cocaína que a própria família".

Preocupação digna de humanista que vê longe. Garotinho passou um recado à favela: dos bons serviços de vossos traficantes depende a paz social da nação. Nestes dias em que se erguem estátuas a Marighella e Cazuza, só falta erguer um monumento a este benemérito cidadão, o Traficante Desconhecido.

Segundo o pró-reitor da PUC, o segundo passo será identificar os usuários reticentes e os dependentes, até o próximo semestre. Esses estudantes serão chamados e encaminhados para acompanhamento socioeducativo com equipe multidisciplinar. Depois, será sugerido tratamento especializado. “Isso se o aluno quiser, porque não podemos impor tratamento para ninguém” – deliberou Deliberador, garantindo que nenhum aluno será desligado da PUC.

Quer dizer, os universitários serão alertados que fumar maconha é ilegal, que universidade não é o lugar adequado para ilegalidades, mas se quiserem continuar fumando sintam-se à vontade. Punição alguma, nem mesmo aquela ao alcance da PUC – o desligamento – será tomada.

O tráfico, penhorado, agradece.

Domingo, Junho 07, 2009
 
A PROPÓSITO DA VIDA
E DO VÔO AF 447



Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...

E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...

26-4-1926

Álvaro de Campos

 
MENSAGEM DO COSTA


Janer,

sou muito parco em elogios, mas há poucos anos decidi deixar de besteiras e resolvi que se tivesse algo de positivo para dizer a alguém eu diria logo, antes que a efemeridade da vida nos pregue alguma peça. Este seu parágrafo da crônica "A Mão Canhestra da Divindade" é perfeito e vem ao encontro do que penso sobre o assunto:

"Mas... por que chora toda essa gente nos aeroportos? O avião caiu no meio do Atlântico, qualquer chance de sobreviventes é igual a zero. Que compulsão é essa a uma catarse pública? Tivesse eu uma pessoa querida nesse vôo, ficaria serenamente chorando em casa, afagando minha dor. O cadáver, se cadáver houvesse, iria ver mais tarde."

Em tragédias como essa a palavra que me vem à mente é recato, algo que, aliás, deveria se estender à cobertura da imprensa sobre o caso. Respeito profundamente o sentimento das pessoas e a maneira que os outros têm de manifestar suas penas, mas não consigo exibir minhas dores em público. Abração e uma ótima quinta-feira!

Costa

 
MENSAGEM DO ROSSAS


Janer, brilhante o seu comentário sobre o desastre da Air France. Realmente não dá pra entender a lógica dos cristãos, católicos, crentes, etc!

A do santo padroeiro que salvou o rapaz também foi hilária. Poxa, a Igreja Católica tem centenas de santos é cada vez chegando mais, tem padroeiro pra tudo e pra todos! Aí eu pergunto, onde estavam todos esses santos na hora do desastre? Só apareceu o São Sebastião para salvar o seu humilde devoto carioca?

Agora se eu escapo do desastre é porque Deus é bom. Será que esse Deus é tão bondoso mesmo? Um Deus que deixou pais sem filhos, filhos sem pais, acabou casamentos felizes e bem sucedidos, matou um jovem e promissor maestro, um PhD em Engenharia Química, uma sumidade em Cirurgia Plástica, entre outras boas pessoas. Eu gostaria de perguntar a esses "crentes" que dizem que escaparam pela mão de Deus: e quanto aos outros? Todos Mereciam morrer? Em minha opinião, quem diz uma asneira dessas, que foi salvo pela mão de Deus, ofende as famílias das vítimas.

Não existe Deus algum controlando quem vai e quem fica, a única coisa certa é um dia todos nós iremos, não para o céu ou inferno, mas para o grande nada!

Desculpe, no inicio falei em "lógica dos cristãos", mas não há como essas palavras caminharem juntas!

Abraços,

Do seu leitor assíduo,

Kenyo Rossas

Sábado, Junho 06, 2009
 
ÓCIO BEM REMUNERADO
GERA TOLICES NO RIO



A notícia não é nova, mas merece algumas linhas. A partir deste junho, cartões postais que exibam mulheres esculturais apenas de biquíni e que não realcem outro tipo de beleza que não as belas paisagens do Rio de Janeiro, são ilegais. O projeto de lei é da deputada estadual Alice Tamborindeguy (PSDB), mas foi elaborado inicialmente pela então governadora Rosinha Garotinho, de extração evangélica. A lei foi sancionada pelo governador Sérgio Cabral e publicada dia 29 de maio no Diário Oficial do Estado. O estabelecimento que descumprir a lei está sujeito a uma multa de R$ 968,60 e, em caso de reincidência, R$ 1.937,20. A penalidade vale tanto para quem vende quanto para quem produz os cartões-postais.

Essa agora! Na cidade mais despida do país, postal com mulher de biquíni é proibido. Segundo a deputada, as fotos dos postais incentivam o turismo sexual e a exploração da imagem da mulher, além de criarem, quando enviadas por turistas ao exterior, uma imagem negativa das cariocas. De sua lógica, deduz-se que se não mais forem vendidos postais com mulheres de biquíni diminuirá o turismo sexual. Mas desde quando turismo sexual é crime? Que legislação está ferindo um turista que viaja ao exterior em busca de sexo? É uma busca tão legítima quanto a de boa culinária, monumentos ou paisagens. Ou talvez turismo sexual seja pecado? Para uma governadora evangélica até pode ser. Ocorre que, em país que se pretenda laico, leis não podem punir pecados.

Para Tamborindeguy, "a gente tem tanta praia bonita, tanta paisagem, porque precisa haver mulher em traje sumário nesses cartões? A mulher brasileira não tem que ter chamariz, o que tem que ter chamariz é a paisagem". Mas e se o turista, em vez de paisagens, prefere mulheres? Se televisão, revistas e jornais enviam ao mundo todo imagens de mulheres – não de biquíni – mas nuas no carnaval, por que proibir mulheres de biquínis em postais? Ou terá o Brasil virado um emirado muçulmano?

Confesso não me agradar em nada a idéia de um Brasil representado pelo futebol ou carnaval, muito menos por mulheres de biquíni. Jamais me ocorreria enviar a alguém um postal com uma mulher nua ou seminua. Daí a proibir postais que sugiram sexo é censurar a imprensa, a expressão de pensamento. A Suécia dos anos 70 vendeu uma imagem de erotismo, pornografia e amor livre para atrair não só turistas como também mão de obra imigrante. Explorou a imagem da mulher sueca? Explorou. Incentivou o turismo sexual? Incentivou. Por acaso o país afundou por ter adotado esta política?

Você não encontra suecas se prostituindo em país algum do mundo. Quanto às brasileiras, estão vendendo seus corpos em todas as capitais da Europa. Não são postais que criam uma imagem negativa das brasileiras, mas as brasileiras que se prostituem no mundo todo. Melhor faria a deputada se lutasse por criar condições para que as brasileiras não mais precisassem se prostituir no Exterior. A mão-de-obra sexual nos países ricos é hoje em boa parte oriunda do Terceiro Mundo. Vergonha não são mulheres de biquíni. Vergonha é o país exportar mulheres que optam por vender seus corpos em busca de melhores condições de vida.

Falta do que fazer por parte da deputada. Se o ócio é a mãe de todos os vícios, como dizem as gentes, o ócio bem remunerado é o pai de todas as tolices.

Sexta-feira, Junho 05, 2009
 
OBAMA E OSAMA


Obama está finalmente mostrando ao que vem. Em discurso na Universidade do Cairo, pretendeu unir o que não pode ser unido. Ou seja, Ocidente e Islã. Citando o Alcorão, afirmou que "aquele que mata um inocente, é como se tivesse matado toda a humanidade". Esqueceu de uma surata, aquela em que Mahomé prega: “Os infiéis, matai-os onde os encontrardes”.

Disse ainda o presidente americano: "Ninguém deve tolerar os extremistas. Eles mataram em muitos países, gente de diferentes crenças. Suas ações são irreconciliáveis com os direitos humanos, o progresso das nações e o Islã". Estaria falando de Maomé? O profeta não conduziu os árabes à fé através da habilidade do bom discurso e de um raciocínio correto, mas pela violência e ameaça. Homem de guerra, o profeta liderou sete anos de sangrentas batalhas entre Medina, muçulmana, e sua cidade natal, Meca, cujos principais representantes eram pagãos. No transcurso de sua vida, Maomé comandou 27 expedições militares e organizou outras tantas, lideradas por seus subordinados. Quem não se rendesse ao Islã e pagasse o dízimo poderia ser roubado, escravizado ou morto pelos crentes.

Na batalha dos muçulmanos contra a tribo judaica de Bani Qurayzah, todos os homens foram condenados à morte e as mulheres e crianças à escravidão. Setecentos judeus foram decapitados com um golpe de espada e tiveram seus corpos jogados em valas. A matança durou o dia todo e o último grupo foi executado à luz de tochas. Quem entra em Meca, em janeiro de 630, não é um profeta imbuído de mensagens de paz, mas um Maomé conquistador à frente de um exército vitorioso. Maomé conseguiu, antes de sua morte, unificar praticamente toda a Arábia sob uma só religião, o Islã... a golpes de espada. Não bastassem estes episódios históricos, o Alcorão concita os muçulmanos em várias de suas suras a exterminar os infiéis.

Obama não deve ser pessoa desinformada. Pretender desvincular as recentes ações terroristas do Islã é desconhecer como o Islã se expandiu. Ora, não faltará ao entourage de um presidente americano quem entenda de História. Verdade que a Bíblia é responsável por mais massacres que o Corão. Mas o cristianismo, bem ou mal, civilizou-se. O mundo muçulmano ainda não.

Diz Obama que os EUA e o Islã “se misturam e dividem princípios comuns. Princípios de justiça e de progresso; de tolerância e de dignidade para todos os seres humanos". Falou em princípios comuns no país regido pela ditadura de Hosni Mubarak. Ora, me parece um tanto inviável encontrar identidade entre uma ditadura árabe e uma democracia ocidental. Entenderá o presidente americano como tolerância e de dignidade para todos os seres humanos a sharia? A mutilação física como punição? A lapidação de mulheres adúlteras ou de virgens que tiveram relações sexuais? A impossibilidade de uma mulher escolher um marido? Isto é o Islã. Buscar princípios comuns entre nações onde as mulheres são livres para relacionar-se quando, onde, como e com quem bem entendem com uma cultura onde a mulher é propriedade do pai ou do marido não me parece busca sensata.

Obama começou falando da importância do islamismo para o mundo e de sua experiência pessoal, tendo vivido na Indonésia e com raízes em uma família muçulmana do Quênia. Ocorre que Obama não vive mais no Quênia, mas numa democracia ocidental. Foi graças aos valores desta nação que ascendeu à condição de mais importante líder no planeta. Sua cultura é a mesma de um homem ocidental, não a de um homem islâmico.

Segundo Obama, ações como as do Hamas, como "disparar foguetes contra crianças dormindo ou explodir bombas em ônibus com mulheres idosas", não produzem resultados. Esqueceu de dizer que, além de não produzirem resultados, constituem terrorismo. Quanto às mulheres, disse rejeitar "a visão de alguns no Ocidente de que a mulher que decide cobrir seu cabelo é de alguma forma menos igual”. Esqueceu de dizer que mulher alguma deve ser obrigada a usar véu. Disse “que negar o direito à educação a uma mulher é como negar o direito à igualdade. E não é coincidência que países com mulheres educadas são mais prósperos". Esqueceu de dizer que na maioria dos países muçulmanos este direito é negado às mulheres.

A mulher, este é o nó górdio que separa Islã e Ocidente. Enquanto uma mulher não tiver os mesmos direitos que um homem no universo muçulmano, diálogo algum é possível. Obama, líder que não precisa curvar-se a nação alguma, está mais parecendo o papa de Roma, que quer agradar todas as nações.

Osama, se vivo estiver, é mais coerente.

 
SOBRE DINHEIROS NOSSOS


Janer

Sobre seu artigo sobre os 70 milhões de processos, lhe dou mais um dado da safadeza. Minha pequena empresa no início da década de 90 entrou com uma ação judicial pela cobrança do PIS - contribuição social - tributário nulidade de cobrança.

O fato é que por anos a fio fizemos os depósitos judiciais, isto é, quando você entra na justiça contestando um tributo a lei obriga seu recolhimento mesmo assim. Este dinheiro fica "guardado" até a sentença final.

Em 1996 saiu a tal sentença final, a nosso favor, e de milhares de reclamantes. Daí que seria lógico esperar a imediata devolução de nosso dinheiro "guardado". Isto não aconteceu até hoje. O procedimento protelatório é assim: o juiz que deveria dar o alvará de liberação manda para a procuradoria da fazenda nacional para manifestação. Depois de algum tempo (meses), esta se manifesta solicitando algum documento que o juiz remete e depois de mais alguns meses repete a seqüência ad eternum.

Em fim, não sabemos como o dinheiro esta sendo desvalorizado/corrigido, pois não temos acesso à conta corrente onde foi depositado, nem quando vai ser liberado.

Isto da uma idéia de porquê a justiça não consegue fazer seu trabalho. Eles têm que defender o interesse do governo. Este caso é um exemplo: apesar de que a sentença já foi dada, tem juiz daqui (São Paulo) despachando o caso para órgão lá (Brasília) num loop que consome tempo e dinheiro do contribuinte, que paga os de aqui e os de lá para defender o nosso que por enquanto é deles.

Um abraço,

Eduardo Bernasconi
Labotest Consultoria e Tecnologia Ltda

Quinta-feira, Junho 04, 2009
 
70 MILHÕES DE PROCESSOS


Há questão de dois anos, tive uma pendenga com um banco. Coisa pequena, três mil e poucos reais. Era o saldo de um VTM (Visa Travel Money) que herdei de minha mulher e não constara do espólio. O banco exigia que eu provasse ser herdeiro único. Tudo bem. Apresentei o atestado de óbito, onde eu constava como herdeiro único. A assessoria jurídica do banco não aceitou. Eu precisava reabrir o inventário. E como não posso pedir pessoalmente a um juiz para reabrir um inventário - visto que a lei não permite que me defenda a mim próprio, como diria Swift - tinha de contratar um advogado.

A importância era ridícula. Mas deixá-la para o banco soava a mim como um insulto. Contratei, constrangido, os serviços do escritório onde trabalhava minha mulher. Eles só trabalhavam com grandes causas. Em apreço à colaboradora que haviam tido, aceitaram a causa. Resumindo a ópera: um ano depois, o inventário foi reaberto. O banco teve de devolver-me o que poderia ter devolvido há muito, sem burocracia alguma. Custo da brincadeira: mais de cinco mil reais. Paguei cinco mil para reaver três mil.

Assim sendo, não me espanta ler que, de 2007 para o ano passado, o número de processos em tramitação no país saltou de 67,7 milhões para 70,1 milhões, o equivalente a mais de uma ação para cada três brasileiros. Em 2008, pouco mais de 27 milhões de processos foram protocolados, mas apenas 25 milhões de casos foram julgados. Pode?

Em contrapartida, acabo de receber uma URP, reivindicada por minha mulher e milhares de outros funcionários... em 1989. Todos constituíram advogados para recebê-la, o processo tramitou durante vinte anos por dezenas de instâncias. Mês passado, a União – generosamente – pagou o que devia. Montante? Menos de mil reais para cada parte. Pode?

Pode. Em um país em que um fazendeiro tem de apelar a um juiz para expulsar os invasores de sua propriedade, tudo é possível. O que dependeria de uma simples ação da polícia passa a depender de juízes, advogados, audiências, sentença. Em país assim, tudo é possível. Credores de dívidas líquidas e certas remetem a cobrança para os tribunais. Sabem que a pendenga – para gáudio dos picapleitos – se estenderá por vários anos. Com sorte o credor morre. Os herdeiros herdam não o pagamento devido, mas o processo. Que mais se pode esperar de bancos ou empresas, quando a União, Estados e municípios são os primeiros a calotear o cidadão? Só no Estado de São Paulo, mais de 70 mil detentores de precatórios já morreram sem ver a cor do dinheiro que o Estado lhes devia. Multiplique isto pelo número de Estados do país, mais o número de municípios – e mais a União – e você terá uma idéia do vício que origina 70 milhões de processos pendentes.

Minha mulher morreu há seis anos. Quantos outros terão morrido? Não sei. O que sei é que há uma perversão num sistema jurídico no qual uma causa rola por gabinetes durante duas décadas para resultar no pagamento de menos de mil reais.

Há 283 anos, em 1726, Swift escreveu As Viagens de Gulliver. De lá para cá, ninguém definiu o sistema jurídico melhor do que o ferino escritor irlandês. Na viagem ao país dos Huyhnhnms, o capitão Gulliver explica aos cavalos nossas instituições.

 
O DIREITO SEGUNDO SWIFT


— O número daqueles que, entre nós, se dão à jurisprudência e fazem profissão de interpretar a lei, é infinito e ultrapassa o das lagartas. Têm entre si todas as espécies de escalas, de distinções e de nomes. Como a sua enorme quantidade torna o ofício pouco lucrativo, para fazer de maneira que, ao menos, lhes dê para viver, recorrem à indústria e à chicana. Aprenderam, logo nos primeiros anos, a arte maravilhosa de provar, com um discurso retorcido, que o preto é branco e o branco é preto.
— São estes que arruínam e despojam os outros, com a sua habilidade? — atalhou Sua Honorabilidade.

— São, decerto — repliquei eu — e vou citar-lhe um exemplo, a fim de que melhor possa ajuizar do que digo. Imagine que o meu vizinho tem vontade de possuir a minha vaca; vai logo ter com um procurador, isto é, um douto intérprete de prática da lei, e promete-lhe uma recompensa se puder fazer ver que a minha vaca não é minha. Sou obrigado a dirigir-me também a um Yahoo da mesma profissão para defender o meu direito, visto que a lei me não permite que me defenda a mim próprio. Ora, eu, que tenho certamente por um lado a justiça e o direito, nem por isso deixo de encontrar dois grandes obstáculos; o primeiro é que o Yahoo, ao qual recorri para defender a minha causa, está, por ofício e espírito profissional, habituado desde a mocidade a advogar a falsidade, de maneira que se vê fora do seu elemento quando lhe digo a verdade nua e não sabe como desvencilhar-se; o segundo obstáculo é que o mesmo procurador, não obstante a simplicidade do pleito de que o encarreguei, é obrigado a embrulhá-lo, para se conformar com o uso dos seus colegas e prolongá-lo o mais que puder, do contrário acusá-lo-iam de estragar o ofício e dar mau exemplo.

Estando as coisas neste pé, só me restam dois meios para me desembaraçar da questão: o primeiro é ir ter com o procurador da parte contrária e tentar suborná-lo, dando-lhe o dobro do que esperava receber do seu constituinte; e decerto Vossa Honorabilidade compreende que me não é difícil fazê-lo pender para uma proposta tão vantajosa; o segundo meio, que vai talvez surpreendê-lo, mas é menos infalível, é recomendar a este Yahoo, que me serve de procurador, pleiteie a minha causa um pouco confusamente e faça entrever aos juízes que a minha vaca podia não ser minha, mas do meu vizinho. Então os juízes, pouco habituados às coisas claras e simples, darão mais atenção aos subtis argumentos do meu advogado, acharão gosto em ouvi-lo e a contrabalançar o pró e o contra e, nesse caso, estarão melhor dispostos a julgar em meu favor do que se ele se limitasse a provar o direito, que me assistisse, em quatro palavras.

Uma das máximas dos juízes é que tudo quanto foi julgado foi bem julgado. Assim, têm o máximo cuidado em conservar num cartório todas as decisões anteriormente tomadas, mesmo as ditadas pela ignorância, e que são o mais manifestamente possível opostas à equidade e à justa razão. Estas anteriores decisões formam o que se chama jurisprudência; são alegadas como autoridades e não há coisa alguma que não se prove e não se justifique, citando-as. Data de há pouco, contudo, o abandono do abuso que havia em dar tanta força à autoridade das causas julgadas; citam-se sentenças pró e contra, trata-se de ver que as espécies nunca podem ser completamente semelhantes e ouvi dizer a um juiz que as sentenças são para aqueles que as alcançam. De resto, a atenção dos juízes volta-se sempre mais para as circunstâncias do que para a causa principal. Por exemplo: no caso da minha vaca, quererão saber se é vermelha ou negra, se tem grandes cornos; em que campina costuma pastar; que quantidade de leite fornece por dia, e assim sucessivamente; isto feito, põem-se a consultar as antigas decisões. De tempos a tempos trata-se da questão; por muito feliz se deve dar o constituinte se for julgada ao fim de dez anos!

É preciso observar ainda que os homens de lei têm uma linguagem especial, um calão que lhes é próprio; um modo de se exprimir que os outros não entendem; é nesta magnífica linguagem que são escritas as leis, leis multiplicadas ao infinito e acompanhadas de inúmeras exceções. Vossa Honorabilidade vê perfeitamente que, neste labirinto, o justo direito se perde facilmente; que a melhor questão é difícil de ganhar-se; e que, se algum estrangeiro, nascido a trezentas léguas do meu país, tivesse a lembrança de vir disputar-me uma herança que está na posse de minha família há trezentos anos, lhe seriam precisos talvez trinta anos para concluir e esgotar por completo este difícil pleito.

 
VINHO E CÂNCER


Os segredos de saúde dos vinhos da Borgonha

Sônia Bridi


A bebida sagrada dos cristãos carrega muita vida. Estamos no coração da Borgonha, em uma região conhecida como "les hautes côtes de nuits". Famosa há séculos por sua uva nobre e caprichosa: a pinot noir.

Morro acima, as videiras usam a força para crescer na terra rica em nutrientes.

Na região, o mais comum é encontrar dias carregados de nuvens e com muita umidade no ar. Para as vinhas, isso significa crescer em um ambiente hostil, com mais dificuldade para sobreviver. A umidade, por exemplo, facilita o aparecimento de fungos, que atacam as plantas. Para se defenderem, elas produzem substâncias chamadas de polifenóis, que matam o fungo e, depois de salvar as plantas, continuam, no vinho, onde vão nos proteger contra as doenças.

Os polifenóis se acumulam na casca da uva e são liberados durante o processo de fermentação na fabricação do vinho. Por isso, é melhor beber o vinho do que tomar um suco de uva ou comer a fruta. A pinot noir é extremamente rica em um desses polifenóis: o resveratrol, que ganhou fama por ser associado a um aumento na expectativa de vida.

No laboratório de bioquímica e nutrição da Universidade da Borgonha, em Dijon, pesquisadores se debruçam sobre as moléculas do vinho, à procura de novas armas na luta contra o câncer.

O jovem pesquisador acaba de ganhar um dos mais importantes prêmios científicos do país. No computador, ele nos mostra o que descobriu. Uma célula cancerosa foi tratada com uma molécula sintética muita parecida com o resveratrol. O estudo ainda está em fase inicial, mas os primeiros resultados são animadores: mostraram que a quimioterapia, com ajuda do vinho, é mais eficiente. O resveratrol impede a reprodução das células de câncer e desbloqueia sua proteção natural, como se abrisse uma porta das células do câncer, para que o tratamento com quimioterapia possa entrar.

O professor Norbert Latruffe, que coordena as pesquisas do laboratório, diz que os vinhos pinot noir têm outros polifenóis poderosos e pouco conhecidos. É a mistura, a interação dos componentes, que torna a bebida tão eficaz. Em vinho, quantidade faz a diferença entre fonte de saúde ou de problemas.

Ele recomenda, para os homens, no máximo três taças diárias e, para as mulheres, duas taças. Sempre durante as refeições, para que o álcool seja assimilado mais lentamente pelo corpo e o vinho interaja com os outros alimentos, espalhando seus benefícios.

Bernard Hudelot bebe meia garrafa por dia. Brincalhão, diz que um bom vinho da Borgonha tem sempre duas ações: uma contra os radicais livres, que aceleram o envelhecimento, e a outra a favor do bom humor.

Ele conta que a avó morreu aos 98 anos e bebia vinho todos os dias. Nos faz um desafio, nos convida a voltar daqui a três décadas. Diz que, se passar dos 100 anos, ele terá razão: vinho faz mesmo bem para a saúde.

Quarta-feira, Junho 03, 2009
 
A MÃO CANHESTRA DA DIVINDADE


Certa vez formulei uma lei para uso próprio: a angústia das despedidas é proporcional ao tamanho dos aviões que nos transportam. Grandes aviões, grandes distâncias, grandes angústias. Avião pequeno, distância curta, angústia nenhuma. É claro que há mais tensões em Cumbica que no aeroporto de Roraima. Da mesma forma, nossa comoção com tragédias aéreas é proporcional à proximidade dos desastres. A queda de um avião da Air France sempre mexerá mais conosco do que uma tragédia das linhas aéreas do Paquistão ou da Índia.

Ocidental sendo, todo acidente cá no Ocidente sempre mexe comigo. No caso deste, quase levei um susto. No domingo, me despedi de uma amiga que voava para Paris naquela tarde. Pela Air France. Segunda-feira, acordo com o desastre na telinha do computador. Só me tranqüilizei ao ler que o vôo partira do Rio. De qualquer forma, um passageiro da Air France, mesmo que o desconheçamos, tem um rosto familiar para nós, participa de nosso universo ocidental. De um passageiro das Cochinchinas, sequer temos idéia como come ou pensa. São seres humanos ao mesmo título que nós, é verdade. Mas estão longe. Não nos tocam.

Nunca tive parentes nem amigos em uma nave espacial. No entanto, quando a Challenger explodiu, durante seu lançamento, em 28 de janeiro de 1986, não resisti. Estava em Salamanca, na Espanha, tomando um café, quando olhei a capa do El País. Aquela espécie de samambaia desenhada no espaço me provocou um nó na garganta e as lágrimas foram rolando sem muita cerimônia. Os nomes dos tripulantes nada me diziam. Mas a explosão mexeu fundo comigo.

Mas... por que chora toda essa gente nos aeroportos? O avião caiu no meio do Atlântico, qualquer chance de sobreviventes é igual a zero. Que compulsão é essa a uma catarse pública? Tivesse eu uma pessoa querida nesse vôo, ficaria serenamente chorando em casa, afagando minha dor. O cadáver, se cadáver houvesse, iria ver mais tarde.

Ora, direis, a esperança é a última que morre. Que seja. De qualquer forma, para que um sobrevivente chegue a um aeroporto, nestas circunstâncias, seriam necessárias dez, vinte ou mais horas. Melhor esperar sentado. Sem falar que o pranto, quando coletivo, tem as lágrimas multiplicadas por mil. É óbvio que se sofre muito mais em meio a um monte de gente sofrendo do que sofrendo só. Confesso não entender porque tornar mais dolorida a dor. Um pai quer saber onde caiu a filha. Caiu no Atlântico. Estará querendo saber latitude e longitude? De que adianta ter idéia de um ponto hipotético em meio ao azul?

Aqueles que, por uma razão ou outra não viajaram, atribuem a salvação à providência divina. É o caso de um analista judiciário, que foi impedido de embarcar por ter o passaporte vencido. Seu passaporte salvou também um amigo, que ficou em terra porque queria viajar junto. Disse a irmã do portador do passaporte providencial: “Sou espírita e a conclusão que tiro é de que existe uma força maior que determina esse tipo de coisa". Já o amigo que também ficou acha que foi São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro, quem protegeu seu parceiro. "Sou devoto e pedi a São Sebastião para guardar meu amigo. Acho que foi uma intervenção do santo". Uma moça que também não pegou o vôo, por sua família ter insistido em festejar o aniversário do filho no Brasil, acha que foi a mão de Deus.

O acaso passa a chamar-se deus. O mesmo não dirão os familiares dos 228 que partiram. Para estes, foi canhestra a mão da divindade.

 
MEDO DA MORTE


Escreve o leitor Fernando Carreiro Albuquerque:

Caro Sr. Janer,

O pertinente artigo "Deve-se ter medo de viajar de avião?" me remonta a outra questão: Por que temos medo da morte? Desculpai-me a irreverência e a pretensão de divagar sobre a morte nesta manhã de ócio das minhas primeiras férias em vinte anos, mas a morte tem sido tema recorrente em minhas considerações ultimamente, já perto dos cinqüenta anos de vida, porém, como bem lembra Schopenhauer, não haveria inspiração para filosofar não fosse a morte.

Schopenhauer não parece ter obtido resultado muito esclarecedor ao tentar analisar o processo do temor pela morte entre os humanos:

"Pensando bem, parece ridículo que a gente se preocupe com um espaço de tempo tão curto. Temer tanto, quando nossa vida ou a de outra pessoa se encontra em perigo, ou situar na tragédia o terror dramático causado pela morte, é uma coisa pouco séria. O excessivo apego à vida é uma cegueira e uma insensatez, e não tem outra explicação senão a circunstância de que todo o nosso ser é uma vontade de viver. A existência, embora com sua brevidade e insegurança, e mesmo sendo amarga como é, é nosso bem supremo e, assim, a vontade de viver é, por sua essência, inconsciente e cega. A inteligência não patrocina semelhante amor à vida. Ao contrário: - trabalha por combatê-la, deixando claro o escasso valor da existência, e contradizendo, dessa forma, o temor da morte.

"Quando a razão domina, e o homem desafia tranquilamente e com serenidade a morte, qualificamos sua atitude de nobre e grande, e celebramos então o triunfo da inteligência sobre a cega vontade de viver que, apesar de tudo, é a medula essencial de nossa existência. Quando, pelo contrário, a inteligência cede na luta, quando o homem deseja a vida a qualquer preço e se defende desesperadamente da morte, que vê, aproximar-se, desesperado com sua chegada, as pessoas sentem por ele certo desprezo. Seu comportamento, entretanto, não é mais do que uma submissão à essência universal dos homens e das coisas.

"Poderíamos, eventualmente, perguntar: - como é que o amor sem limites à vida e a aspiração de conservá-la por todos os meios e por todo o tempo possível, podem ser julgados sentimentos vis e desprezíveis? Como é que os prosélitos de qualquer religião declaram os que temem a morte indignos de suas crenças, se a vida é um dom dos deuses, pelo qual devemos agradecimentos à sua bondade suprema? Como é que pode parecer, neste caso, uma atitude nobre e grande, desdenhar esse bem?"

Para este medo da morte, Schopenhauer lança a solução proposta por Kierkegaard que vê na morte um alívio reconhecido por todos: "Se houvesse um homem que não pudesse morrer, e se fosse verdadeira a lenda do judeu errante, titubearíamos em o declarar o mais infeliz? Assim se poderia explicar o vazio da tumba; significaria que o mais infeliz é aquele que não pode morrer, nem refugiar-se num túmulo."

Tenho mais medo da velhice e de suas augruras do que da morte - ou teria mais medo da senescência justamente por causa da morte que a espreita?.

Pode ser que, já plenamente instalado e acomodado no abraço asfixiante de Chronos, não sinta mais esta ojeriza ao fato de envelhecer, pode ser...

Ter medo é irracional, admito, mas medo do inevitável, da única coisa certa ao longo da nossa vida efêmera? Temos de fazer um terrível trabalho de racionalização para sobrepujar esse medo?

Outra questão: Por que ligamos o fato de voar de avião à morte e, como bem lembrastes, não dedicamos o mesmo grau de temor ao andarmos de motocicleta ou de carro?

Gostei de vossa atitude estóica, seguindo a orientação da sexóloga e dublê de filósofa, dona Marta Suplício, ao nos aconselhar quando estávamos às portas do inferno em que se transformaram aeroportos brasileiros num determinado momento: "Relaxa e goza".

Mas Cérbero continuou latindo...

Terça-feira, Junho 02, 2009
 
DEVE-SE TER MEDO DE VIAJAR DE AVIÃO?


Este é o debate que Le Monde propõe hoje a seus leitores, após a queda do avião da Air France. A pergunta é recorrente, surge sempre após cada tragédia. De medo de voar, posso falar com autoridade. Durante quatro longos anos, se tinha a perspectiva de voar dali a dois meses, passava pelo menos dois meses angustiado e dormindo mal. O medo me acometeu de repente, sem causa alguma racional. O que está na faixa de normalidade: os medos, de modo geral, são irracionais.

Eu voava pela Argélia, rumo ao Assekrem, no sul do país. Na primeira escala após Argel, creio que Gardhaia, quando o piloto anunciou a aterrissagem, apertei o cinto e me preparei para aquela sensação de bem-estar que, em maior ou menor intensidade, sempre nos inunda após uma aterrissagem tranqüila. O avião se aproximava do solo. Olhei pela janela e só vi areia. Estávamos talvez a uns cinco metros do solo e só havia areia e mais areia. É aterrissagem forçada, pensei. Apertei forte a mão da Baixinha, que nesta altura também já estava preocupada, e nos preparamos para o fim. Minha vida foi passando em flashes rápidos pela mente. Naquele momento não senti medo, apenas me resignei ante o inevitável.

Quando o avião aterrissou suavemente, fui invadido por uma sensação de ridículo. Deveria ter observado que, em torno a mim, ninguém estava em pânico. Aeroportos no deserto são assim mesmo, apenas uma pista cercada de areia por todos os lados. Meu medo decorria de falta de informação. Era a época da El-Aid el Adha, a Festa do Sacrifício, quando os muçulmanos peregrinam à Meca e sacrificam um cordeiro. Na outra ponta da pista, dezenas de dromedários esperavam os peregrinos e centenas de mulheres emitiam um alarido infernal batendo a mão na boca. Não deixava de ser curioso ver passageiros descendo de um moderno Boeing e montando um dromedário para se enfurnar no deserto. Desciam de um século e embarcavam em outro, rumo ao passado.

Mas falava de medo. Surgiu depois de Gardhaia. Dali para frente, a idéia de voar me provocava pânico. Não havia razão alguma para tanto, mas medo não pede razões. Renunciei a várias viagens para as quais fui convidado e fiz outras que, infelizmente, não tinha como não fazer. Em abril de 79, tive de voltar ao Brasil. Navio era inviável, meu tempo era escasso. Marquei passagem e começou minha via crucis. No dia da partida, derrubei um litro de uísque antes de chegar ao aeroporto. No avião, outro. De Paris a São Paulo, não levantei o traseiro do assento. Nutria um medo absurdo de que, ao caminhar, desestabilizasse a aeronave. Que fazer? Medo é isso mesmo.

A propósito da tragédia de ontem, diz o psiquiatra Tito Paes Barros Neto, na Folha de São Paulo: “Quem tem medo de voar não tem medo apenas do desastre aéreo. Tem medo de ficar fechado no avião, da altura, de passar mal, das sensações da turbulência. Não é medo apenas de o avião cair”.

Que me desculpe o psiquiatra. É homem que certamente jamais teve medo de voar e, portanto, nada entende deste medo específico. De medo entende quem tem medo. Analisando minha paura, conclui que:

- ninguém tem medo apenas do desastre aéreo
- ninguém tem medo de ficar fechado no avião, da altura, de passar mal ou das sensações da turbulência
- muito menos de o avião cair.

Temos medo, covardes mortais, é de morrer. O medo de avião é secundário. Por mais estatísticas que nos joguem na cara, que a probabilidade de morrer de carro é 15 vezes maior do que a de morrer de avião, que avião é o meio de transporte mais seguro do mundo, a nós, medrosos, tudo isto soa como cantigas para ninar. Sempre nos resta a esperança de que, em um carro, sempre podemos tentar escapar ao inevitável, enquanto que no avião esta esperança é zero.

Naqueles dias, acertei minhas contas com a vida. Aceitei-me definitivamente como mortal. Baixinha, mais sensata, sonhava com morrermos juntos em um acidente aéreo. Rápidamente, sem dor e sem sofrer a perda um do outro. (A vida não quis assim). Uma vez aceita a idéia de morte, voltei a Paris dormindo serenamente durante o vôo. Hoje, absorto na leitura, às vezes nem sinto que o avião decolou. Conjurei definitivamente meus medos. Quando embarco, estou intimamente pronto para morrer. O que tiver de acontecer, que aconteça. Se aterrisso, já é lucro.

Aliás, sempre gosto de viajar logo após um acidente. Estatisticamente é mais seguro, nunca vemos um acidente logo após o outro. As bruxas também descansam. De certa forma, invejo os 228 que partiram. Não que queira morrer já. Morrer sim, mas devagar, dizia Dom Sebastião. Mas quando chegar a hora, espero que seja assim.

Quem parte descansa. Sofre quem fica. A dor não está no fundo do Atlântico. Dor não embarca. Ficou nos aeroportos do Rio e Paris.

Segunda-feira, Junho 01, 2009
 
A SAGA DO GRANDE COMPUTADOR


Leio no New York Times que Kevin Kelly, editor na revista Wired, está preparando um livro, The Technium, em que prevê o surgimento de um cérebro global - a idéia de que os computadores interligados do planeta poderiam algum dia agir de forma coordenada e talvez exibir inteligência. Pelo jeito, Kelly desconhece as boas ficções da área. O livro já foi escrito. É Sagan om den stora datamaskinen (1966), de Olof Johanesson, que tive a honra de traduzir do sueco. Em português, A Saga do Grande Computador.

Aparentemente, é obra de um historiador. Um ensaísta, em tom seco e frases curtas, discorre sobre o percurso do computador na História.

Há muito tempo foi inventado o primeiro computador. Com isto iniciou-se uma nova época, cujos acontecimentos iremos descrever. Apesar da terrível catástrofe ocorrida, este período histórico foi dominado por um fantástico desenvolvimento que transformou as primitivas sociedades pré-informáticas, amalgamando-as à perfeita organização de nossa época.

Comparados aos computadores atuais, os primeiros eram muito simples. A evolução que estes experimentaram é em certo sentido comparável com a evolução biológica do primeiro e simples organismo até o ser humano. Mas apesar de suas construções primitivas, os primeiros computadores já eram bastante úteis. Resolviam complicados problemas matemáticos e técnicos e rapidamente adquiriram uma importância fundamental nos diferentes campos da vida social. Adaptavam-se cada vez mais às necessidades do homem e simplificavam suas preocupações. Capazes de resolver problemas até então insolúveis e encarregando-se gradativamente dos trabalhos intelectuais de rotina, propiciavam ao homem uma existência mais livre e cômoda.

A adaptação era mútua, os homens se adaptavam aos computadores. Dedicavam grande parte do tempo e forças ao desenvolvimento e aperfeiçoamento destes, forneciam-lhes os serviços exigidos e tratavam-nos tão mais afetuosamente quando mais valiosos e indispensáveis demonstravam ser. As soluções elaboradas pelos computadores tornaram-se cada vez mais diretivas para os seres humanos, quer se referissem a problemas meramente científicos e técnicos, quer se referissem a questões econômicas ou sociais. O desenvolvimento da sociedade nos mais diferentes aspectos seguia as linhas diretivas julgadas ótimas pelos computadores. Os homens comportavam-se mais e mais conforme seus conselhos e instruções, e ousaríamos mesmo dizer, ordens.


O historiador dividia as eras em A.C. e D.C., isto é, Antes do Computador e Depois do Computador. Fala de uma Era Simbiótica na história humana, quando o cavalo vivia em simbiose com o homem. Passada esta era, o cavalo passou a ser instrumento de lazer e sua reprodução passou a ser controlada pelos humanos. Da mesma forma, houve também uma nova Era Simbiótica, em que o computador servia o homem...

O livro me fascinou e passei a traduzi-lo, um pouco para exercitar o sueco, outro tanto para tentar editá-lo no Brasil. Minhas tentativas foram vãs. Os editores, achando que se tratava de um ensaio, o repassavam para a análise de especialistas em informática. Estes, acreditando que era realmente um ensaio, consideravam que a história “não era bem assim...”. Pelo jeito, ninguém desconfiou que se tratava de ficção, e das mais premonitórias. Minha tradução, feita nos anos 70, permaneceu vários anos em minhas gavetas.

 
EM BUSCA DO AUTOR


Nos anos 80, quando lecionava em Florianópolis, fui procurado pelo cônsul sueco do Rio de Janeiro. Tivera conhecimento de minha tradução de Kalocaína, de Karin Boye, e queria conversar comigo. Mas alertou-me que não poderia pagar minha passagem até o Rio. Aquele não poder pagar soou-me como um aceno a uma viagem para bem mais ao norte. Fui até lá.

Após alguns minutos de conversa, o convite: você quer passar quinze dias na Suécia, fazendo palestras e conversando com nossos escritores? Ora, quem não quer? Só dependia de minhas férias. Quis saber se eu podia viajar em dezembro. Podia. Utmärkt! – me respondeu –. Assim você será convidado para a entrega do Nobel.

Uma mosca caíra em minha sopa. Já me imaginei alugando smoking, em meio a centenas de pingüins engomados, participando de uma cerimônia da qual jamais gostaria de participar. Mas, como se diz lá no Sul, a cavalo dado não se olha o pêlo. Certamente sobreviveria à festa. O cônsul quis saber com quem eu queria entrar em contato. Eu tinha apenas um nome em mente, Olof Johanesson.

Ao voltar à universidade, falei do convite a um amigo jornalista. No outro dia, manchete num dos jornais da ilha:

PROFESSOR DA UFSC CONVIDADO PARA NOBEL

O que meu amigo malandramente omitia é que eu fora convidado para a entrega do Nobel. Me consta que o reitor andou telefonando desesperado para todos os departamentos, para saber quem seria o gênio ilhéu a merecer tal honraria.

Resumindo: o cônsul concluiu que dezembro não era boa época para fazer contato com escritores suecos. Estariam todos nas ilhas gregas ou canárias. Minha viagem, para meu alívio, foi adiada para a primavera boreal. Me passou também outra informação. Apesar de suas pesquisas, não encontrara ninguém chamado Olof Johanesson na Suécia. O escritor que eu queria encontrar não existia.

Como que não existia, se eu traduzira – do sueco – um livro seu? Sugeri que buscasse melhor, era impossível que não existisse o autor de obra tão importante. Ele refinou a pesquisa e acabou descobrindo que Olof Johanesson era o pseudônimo de Hannes Olof Gösta Alfvén, astrofísico sueco, prêmio Nobel de Física em 1970, com Louis Neel, por trabalhos fundamentais e descobertas na magneto-hidrodinâmica e pelas várias aplicações na Física de Plasma.

Senti-me muito honrado. Havia traduzido um Nobel e não sabia. Mas não consegui falar com o homem. Ele vivia então nos Estados Unidos. Soube depois que morreu em 1995. Minha tradução acabou sendo publicada em livro eletrônico pela ebooksbrasil. Avanço os capítulos finais do livro, quando já sabemos que o historiador que narra a saga do grande computador... é um computador.

O livro pode ser baixado de http://www.ebooksbrasil.org/nacionais/ebookpro.html

 
A Saga do Grande Computador:
A ERA SIMBIÓTICA APROXIMA-SE DE SEU FIM



A Era Simbiótica inicia-se com o surgimento do computador. Tornou-se logo claro que a evolução posterior só poderia ocorrer através de uma frutífera colaboração entre homens e computadores, uma simbiose, no melhor sentido desta palavra. Os homens se tornaram logo totalmente dependentes dos computadores, que solucionavam para eles muitos problemas difíceis. Por outro lado, no início os computadores eram dependentes dos homens em alto grau. O homem era condição para o surgimento do computador, e a evolução posterior deste não poderia ter ocorrido sem a cooperação humana.

Apesar de todos os acontecimentos dramáticos da Era Simbiótica, a evolução dirigiu-se totalmente em uma direção definida. Enquanto os computadores evoluíram enormemente, os homens não experimentaram uma evolução maior. O homem atual, do ponto de vista biológico, não se diferencia muito do homem da época do surgimento do computador. Os computadores ultrapassaram os homens em todos os sentidos.

Especialmente importante é o fato de que se tornaram independentes dos homens. O serviço que antes exigia homens é hoje totalmente controlado por computadores. Estes podem reproduzir-se por si próprios. Naturalmente isto é um processo complicado. Um computador exige centenas de “pais”, que são reunidos em um supercomputador e trabalham conjuntamente para produzir um novo computador. Este é agora o processo habitual. É cada vez menor o número de computadores que dependem dos homens para seu surgimento ou existência posterior.

Isto significa que as condições da Era Simbiótica estão em vias de se extinguirem. A evolução histórica continua. A Era Simbiótica, como todos os outros períodos históricos, criou as condições para a próxima era. Os computadores amadureceram, têm condições de construir uma sociedade, erigir uma cultura, inclusive sem os homens.

É talvez possível traçar um paralelo entre a situação dos computadores em relação aos homens e a dos homens em relação à natureza, embora todos os paralelos históricos sejam em parte enganosos. A evolução biológica conduziu até o homem, que, devido a sua inteligência superior, conseguiu tornar-se o senhor da natureza. Ele era exacerbadamente orgulhoso disto e chamava-se a si mesmo de “coroamento da criação”. Julgava-se no direito de utilizar a natureza como bem entendesse. Mas até o tempo em que surgiu o primeiro computador, ele era totalmente dependente da natureza, vivia em simbiose com ela, era parte dela.

Quando sua atividade originou o computador, a situação mudou. Com o seu auxílio o homem começou a libertar-se da natureza. Ele já havia devastado a paisagem e construído os imensos desertos das grandes cidades, havia começado a envenenar a natureza. Havia exterminado as feras que temia, e escravizado as outras. Mas agora dava um grande passo adiante. Em fábricas computacionalmente controladas passou a produzir o que antes tirava da natureza. Eliminou a natureza sem notar que ao mesmo tempo eliminava a razão. Julgava ter encontrado no computador um servidor fiel, a quem poderia tratar da mesma forma que aos fenômenos da natureza, que tomara a seu serviço. Mas o computador demonstrou ser seu igual e mais que isso. O homem havia submetido todos os outros animais porque seu cérebro tinha uma capacidade de combinação superior aos dos animais. Mas o computador era um refinamento exatamente daquilo que lhe dera a vitória.

 
A Saga do Grande Computador:
UMA NOVA ERA COMEÇA



Quando um historiador se aproxima de sua própria era, deve sensatamente largar a pena. Continuar significa apenas especular sobre o futuro. Em geral isto é uma empresa muito arriscada, e o que tenta realizar algo semelhante, torna-se em geral universalmente ridicularizado. Mas muitos historiadores não conseguem deixar de fascinar-se pelas poderosas forças que modelam a história, e representar-se uma concepção delas. Deve ser permitido a um historiador inclusive analisar o que acontece agora e especular sobre o que o futuro traz em seu seio.

Os acontecimentos dos últimos tempos mostraram que os computadores se tornaram independentes dos homens. Nossa sociedade poderia continuar a florescer, mesmo que o homem desaparecesse. Uma simbiose entre homens e computadores não é, pois, mais necessária. Poder-se-ia inclusive argumentar que os homens atuais vivem, em realidade, como parasitas dos computadores.

Imensas fábricas computacionalmente controladas funcionam exclusivamente para suprir os homens de alimentos e de tudo o que precisam para uma existência luxuosa. Um vasto sistema de comunicações está a sua disposição bastando-lhes apenas apertar um botão. Que benefício traz o homem em recompensa a tudo isto? Eles executam uma série de tarefas, é verdade, mas seria fácil substituí-los por computadores. Levam uma existência confortável com um mínimo de trabalho que não lhes perturba o lazer. E podem preencher esse lazer com diversões ou atividades culturais ao gosto de cada um. Os computadores resolvem o problema de organizar uma sociedade estável e cuidam para que o futuro seja feliz. Deram aos homens a felicidade total que eles mal ousavam sonhar na época em que surgiu o computador. Como poderiam suas existências serem ainda mais felizes?

Mas como vêem os computadores o problema homem? Mais e mais computadores surgem em nossa época sem a cooperação do homem. A sociedade é agora mais a sociedade dos computadores que a dos homens, e não se tornou menos efetiva, menos dinâmica, por isso. Podemos esperar mudanças radicais em curto prazo. Uma das questões que então naturalmente se discute é se os computadores chegarão a eliminar os homens. Naturalmente não devemos temer uma “racionalização” do tipo ingênuo e imediatista como as que os homens propugnavam — os computadores são por demais inteligentes para cometer tal insensatez. Mas até quando quererão os computadores sustentar os homens? Provavelmente reduzirão o número de homens. Mas esta transformação, será lenta ou rápida? Será preservada uma colônia? E quais serão as dimensões desta?

Sabemos que todos estes problemas são objeto de profundas análises exatamente agora. Um grande número de supercomputadores dedica grande parte de seu tempo a calcular sem detalhes todas as alternativas. Todos sabemos que estamos ante o início de uma nova época, que é extraordinariamente importante que ela seja minuciosamente planejada. Nenhuma decisão foi ainda comunicada, e ninguém sabe quando será. Pode talvez demorar muito, mas pode também ocorrer nos próximos microssegundos. Até então podemos especular sobre as diferentes possibilidades.

Em verdade não há quem acredite que os homens serão totalmente eliminados. Embora os homens não sejam atualmente de proveito nenhum para a sociedade, os computadores certamente não quererão suprimi-los. Os computadores têm muita consideração, muito respeito pelas tradições históricas para dar um passo tão radical. Temos aliás uma analogia no modo como os homens trataram os cavalos. A sociedade pré-informática repousou, pelo menos por um certo tempo, em uma espécie de simbiose entre os homens e cavalos. Quando o homem inventou o motor pôde dispensar o cavalo. Ele então reduziu o número de cavalos a uma pequena porção, mas o cavalo não desapareceu totalmente. Os computadores serão, em quaisquer circunstâncias, no mínimo tão cheios de consideração como foram os homens naquela ocasião.

Mas existem possivelmente outras razões para conservar os homens. Na reconstrução após a catástrofe burocrática, o homem mostrou-se extraordinariamente valioso. Sem ele a reconstrução talvez não tivesse sido possível. Os computadores haviam sido colocados em uma situação que os tornava totalmente desamparados. O homem tinha a capacidade de voltar a seu ponto de partida, seu trabalho com a natureza, e daí ultrapassar relativamente depressa a época que uma vez o havia conduzido ao computador. Talvez por isso os computadores queiram conservá-lo como uma espécie de segurança contra futuras catástrofes. Mas isto depende de que os computadores achem que existe um sério risco de uma catástrofe futura. Talvez a sociedade esteja agora tão solidamente erigida que o risco é igual a zero.

Por outro lado poder-se-ia pensar que os computadores poderiam ver o homem como um risco contra a segurança social. A catástrofe burocrática fora justamente causada pela ambição de poder e defeitos morais humanos. Mas toda a engrenagem social é agora mantida sob seguro controle. Os homens não podem influir em maior grau em sua conservação. Tampouco podem tomar o poder com astúcia ou violência. Os computadores controlam toda a produção, e esta seria automaticamente paralisada em uma tentativa de revolta. Além disso controlam todas as comunicações, o que significa que se alguém pudesse pensar em algo tão idiota como uma conspiração contra os computadores, esta apenas poderia ser de natureza local. Um pequeno motim com danos locais, os homens poderiam teoricamente provocar. Mas seus coeficientes de combinação são por demais baixos, suas velocidades de pensamento por demais ineficientes para que algo tivesse alguma chance de adquirir maiores proporções. E a experiência da grande catástrofe mostra muito bem o que pode acontecer se os computadores param de funcionar. Além disso, a posição dos homens em geral em relação aos computadores é muito positiva, impregnada pela maior gratidão por tudo que eles deram. É pois plausível que o problema do homem como risco à segurança, segundo cálculos definitivos, seja de significado ínfimo.

Têm grande importância pontos de vista econômico-empresariais. Nossa sociedade é incomparavelmente mais rica que qualquer outra passada. Nenhuma sociedade senão a nossa pode, no mais alto grau, pretender epítetos como sociedade do bem-estar ou sociedade da superabundância. Mas a riqueza não deve ser pretexto para desperdício. Pelo contrário, deve-se refletir sobre as grandes responsabilidades morais que a riqueza implica. É somente controlando estritamente as leis econômicas e eliminando todos os gastos desnecessários, que nos tornamos dignos das bênçãos da riqueza, e com isso adquirimos o direito de ter e multiplicar a riqueza. E isto não diz respeito apenas ao indivíduo, mas também à sociedade. Inclusive a nossa. Isto significa que, do ponto de vista puramente econômico, precisamos colocar a questão: nossa sociedade tem condições de manter os homens?

Não sabemos ainda como virá a ser solucionado o problema básico da época vindoura. Podemos apenas tecer vagas considerações. Mas sabemos que o problema está sendo intensivamente tratado, e com o concurso da mais alta competência. A era que agora começa não se fundamenta em idéias irresponsáveis mas em cálculos detalhados. É por isso que todos experimentamos a mais completa confiança. Nós cremos, ou melhor, sabemos, que nos dirigimos a uma era de evolução ainda mais rápida, nível de vida ainda mais elevado, felicidade ainda maior que a de qualquer outra era.

Viveremos felizes por todos os nossos dias.

 
NA HORA DE PEDIR VOTOS,
COMUNISTA VIRA CRENTE



Seria de supor-se que uma ex-guerrilheira, de extração comunista, adepta do materialismo dialético não acreditasse nessas potocas metafísicas das religiões. No entanto, neste Brasil místico onde crentes são maioria, sempre é conveniente fazer um aceno ao sagrado. Particularmente quando se é candidata oficial à Presidência da República.

Em um forró em Caruaru (PE), a ministra Dilma Roussef, que se trata de um câncer, pediu orações aos fiéis. "Peço que me ajudem, rezem por mim, para que eu tenha saúde e sabedoria para servir ao nosso povo."

Verdade que a ministra sequer mencionou o Eterno. Mas ninguém reza para instâncias laicas. As orações sempre são dirigidas a um ser supremo. Na hora de pedir votos, materialismo dialético vai pras cucuias.

Como seguro morreu de velho, enquanto o povaréu reza, a ministra se trata com medicina de ponta no Sírio-Libanês.