¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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Quarta-feira, Setembro 30, 2009
 
FOLHA PUBLICA DEPUTADO
COMUNISTA E MENTIROSO



O deputado federal Aldo Rebelo (PC do B-SP), presidente do Grupo Parlamentar Brasil-China, ex-presidente da Câmara dos Deputados e ex-ministro da Secretaria de Coordenação Política e Assuntos Institucionais, celebrou hoje na Folha de São Paulo os 60 anos da revolução chinesa, que serão comemorados amanhã.

Segundo o velho comunista, a revolução “mudou a história dessa grande nação asiática e influencia de forma decisiva as estratégias geopolíticas e econômicas da atualidade. Hoje, a contribuição da China para o crescimento mundial é superior à dos EUA e sua economia é considerada mais aberta que a do Japão pelos padrões internacionais. E, se podemos dizer que a China de economia agrária corresponde a um país de passado remoto, vale dizer também que a China dos produtos de baixo valor agregado já pertence ao passado recente, uma vez que se amplia a presença de mercadorias de alta tecnologia na pauta de exportações chinesas”.

E prossegue: “O que chama a atenção na revolução chinesa de 1949 é o fato de a construção da nova China ter se dado sobre base econômica extremamente atrasada, o que tornou desafios e conquistas ainda mais surpreendentes. Nos anos que precederam a conquista do poder pelo Partido Comunista, a atividade industrial moderna representava 10% da produção nacional, contra 90% da agricultura e da indústria artesanal. Era uma base "pobre e inexpressiva", como costumam definir os próprios chineses. A reforma agrária posta em marcha pelo governo revolucionário golpeou a estrutura feudal e dos senhores da guerra e liberou a força produtiva de 300 milhões de camponeses, que puderam ter acesso à terra e dedicar-se com entusiasmo à produção”.

Não bastasse isto, continua: “O Estado aboliu oficialmente atividades consideradas degradantes, como a dos eunucos e a das concubinas, e desenvolveu campanha contra o comércio e o uso do ópio. Em 1952, a produção industrial chinesa já havia aumentado 77,6% em relação a 1949, ano da revolução. Os salários dos trabalhadores tiveram ganho de 70%, e a renda dos agricultores, um aumento de 30% em relação ao período anterior”.

Só esqueceu um pequeno detalhe. O Livro Negro do Comunismo debita a Mao 65 milhões de cadáveres em tempos de paz. Em Mao, a História Desconhecida, de Jung Chang e Jon Halliday, os autores falam em 70 milhões. 65 ou 70, não se tem notícia na História de homem que, sozinho, tenha matado tanto. Entre 58 e 61, no Grande Salto para a Frente, 28 milhões de chineses morreram de fome. Segundo Jung Chang, foi a maior epidemia de fome do século XX - e de toda história registrada da humanidade. A China produzia carne e grãos, mas Mao exportava estes produtos para a União Soviética, em troca de armas e tecnologia nuclear. Segundo o Grande Timoneiro, como era chamado Mao, as pessoas "não estavam sem comida o ano todo - apenas seis ou quatro meses".

Aldo Rebelo é uma flor de eufemismos quando fala do Grande Salto: “A partir daí, a China conheceu uma fase de turbulências marcada por dois movimentos: o primeiro, o Grande Salto à Frente, de caráter voluntarista, buscava alcançar resultados econômicos acima das possibilidades reais e das condições do país. A economia chinesa declinou rapidamente por três anos consecutivos, e o povo viu-se ante grandes dificuldades”. Como militante comunista, informações não lhe hão de faltar. Omitiu acintosamente os 28 milhões de chineses que morreram de fome durante o Grande Salto.

Para Mao, morrer fazia parte da vida. Era preciso que as pessoas partissem para dar lugar às que chegavam. Claro que jamais lhe ocorreu perguntar se alguma pessoa aceita partir antes do devido tempo. "Vamos considerar quantas pessoas morreriam se irrompesse uma guerra - diz Mao -. Há 2,7 bilhões de pessoas no mundo. Um terço poderia se perder; ou um pouco mais, poderia ser a metade. Eu digo que, levando em conta a situação extrema, metade morre, metade fica viva, mas o imperialismo seria arrasado e o mundo inteiro se tornaria socialista."

A partir de 1953, foi imposto o confisco em todo o país, a fim de extrair mais alimentos para financiar o Programa de Superpotência. A estratégia era simples: deixar para a população apenas o suficiente para que permanecesse viva e tomar todo o resto. Segundo Chang, Mao via vantagem práticas nas mortes em massa. "As mortes trazem benefícios", disse em 1958. "Elas podem fertilizar o solo". Os camponeses receberam ordens para plantar sobre os túmulos. Usar luto foi proibido e até mesmo derramar lágrimas, pois segundo Mao a morte deveria ser celebrada.

O homem que brilha sobre o Leste – este é o significado de Tse Tung - não se contentou em matar e torturar. Procurou também humilhar a inteligência. Em 1966, durante o Grande Expurgo, fez arrastar e maltratar professores e funcionários da universidade de Pequim diante da multidão. "Seus rostos foram pintados de preto e puseram chapéus de burros em suas cabeças. Forçaram-nos a ajoelhar-se, alguns foram espancados e as mulheres foram sexualmente molestadas. Episódios semelhantes se repetiram em toda a China, provocando uma cascata de suicídios."

Os Guardas Vermelhos invadiram casas onde queimaram livros, cortaram pinturas, pisotearam discos e instrumentos musicais - conta-nos Yung Chang - destruindo tudo em geral que tivesse a ver com cultura. Confiscaram objetos valiosos e espancaram seus donos. Ataques sangrentos a residências varreram a China, fato que o Diário do Povo saudou como "simplesmente esplêndido". Muitos dos que sofreram os ataques foram torturados até a morte em seus lares. Alguns foram levados para câmaras de tortura improvisadas em antigos cinemas, teatros e estádios. Guardas Vermelhos vagando pelas ruas, fogueiras de destruição e gritos das vítimas: esses eram os sons e as cenas das noites do verão de 1966.

Que um tirano mate, isto nada tem de original. Faz parte de sua estratégia para manter-se no poder. O que mais me causa espécie em Mao foi um episódio de seu regime que bem demonstra a insanidade de homens que se atribuem poderes absolutos. Sigo ainda o relato de Yung Chang. "Um dia, Mao teve a brilhante idéia de que uma boa maneira de manter os alimentos seguros era se livrar dos pardais, pois eles comiam grãos. Então designou esses passarinhos como uma das Quatro Pragas que deveriam ser eliminadas, junto com ratos, mosquitos e moscas, e mobilizou toda a população para sacudir paus e vassouras e fazer uma algazarra gigantesca, a fim de assustar os pardais e impedi-los de pousar, de tal modo que eles cairiam de fadiga, seriam capturados e mortos pelas multidões".

Vi certa vez um documentário sobre esta insânia. Milhares de chineses perseguiam pardais por ruas, árvores e telhados, businando, batendo latas e tambores. Que Mao matasse, até que se entende. O mais difícil de entender é ver um líder levando milhões de chineses a matar pássaros... no grito. O problema é que estes pássaros, além de comer grãos, eliminavam muitas pragas, "e não é preciso dizer que muitas outras aves morreram na farra da matança. Pragas que eram mantidas sob controle pelos pardais e outros pássaros floresceram, com resultados catastróficos. Os argumentos dos cientistas de que o equilíbrio ecológico seria afetado foram ignorados".

Resultado da Grande Matança de Pardais: o governo chinês acabou pedindo, em nome do internacionalismo socialista, que os russos enviassem 200 mil pardais do leste da União Soviética assim que possível. E durante anos houve quem cultuasse no mundo todo - e principalmente entre nós - como salvador da humanidade, este assassino ridículo.

A Folha de São Paulo – jornal onde gostei de trabalhar – já não é mais o que era. Além de dar colunas a um senador corrupto, a um deputado corrupto e a um jornalista bolsa-ditadura, publica hoje esta excrescência de um deputado comunista e mentiroso.

O que não deixa de ser uma redundância. Ou alguém conhece algum comunista que não seja mentiroso?

Terça-feira, Setembro 29, 2009
 
AMBIENTALISTAS SENSATOS? ONDE?

Prezado Janer,

O homem destrói muito a natureza, e isso é fato! Quando o Sr. insiste em provocar os ambientalistas acredito que não perceba que ataca a todos, os sensatos e os não sensatos. É uma guerra burra. Temos que nos desenvolver enquanto nação, sem nos descuidarmos de ações que protejam ao meio ambiente. Sinceramente, acho essa discussão sem um propósito claro e bem definido.

E olha, esse é o primeiro tema no qual divergimos muito. Entendo sua posição. É clara e bem definida. Porém, acho que ajudaria muito mais com idéias pra recuperar o Meio Ambiente, para daqui cem anos ainda exista o Planeta Terra.

Atenciosamente
Jean Rodrigo Pituco


Que o homem destrói a natureza é óbvio, Pituco. Como expandir-se sem ocupar espaços? Quantos milhares de quilômetros quadrados de floresta destroem uma grande cidade? Poderia o homem viver sem suas megalópoles? Vamos devolver São Paulo à Mata Atlântica? Ou quem sabe aos selvagens que aqui habitavam?

Todo ser vivo destrói algo para viver. Não há espécie viva que viva sem a morte de outra. Qualquer rancho toma algum espaço da natureza. Imagine milhões de moradias, umas sobre as outras, ocupando milhares de quilômetros. Onde o homem se instala, tem de dar um chega-pra-lá pra natureza.

Animais também. Búfalos, elefantes, leões ou tigres, matam e devastam territórios para sobreviver. Quantos milhões de peixes uma baleia engole por ano? Quantos milhões de espécies menores engolem os peixes que a baleia engole? Quantos milhões de microorganismos morrem quando uma onda bate na praia? Vida é luta pela vida, meu caro. Só o homem não pode lutar pela sua? Um dos poucos animais que contribui com algo é, paradoxalmente, o urubu, que pelo menos limpa a superfície do planeta.

Nunca ataquei ambientalistas sensatos. Ataco esses vivaldinos que ganham gordas verbas de ONGs internacionais para brandir bagres e bugres, micos e curiós, gralhas e pererecas contra a construção de barragens, usinas e rodovias, essenciais ao desenvolvimento do país. São todos ecologistas, denunciam a poluição derivada dos automóveis, mas nenhum deles renuncia a seu carro. A filosofia é: “todos os carros poluem, menos o meu”. Eu, que não me pretendo ecologista, nunca tive carro e para essa poluição jamais contribui.

Mas onde estão os tais de ambientalistas sensatos? Se existem, não os ouço. Só leio nos jornais pronunciamentos de malucos querendo barrar barragens em nome de micos ou passarinhos. O ofício rende muita grana e turismo. Há anos, comentei o absurdo de tentar se proibir uma represa no Paraná em nome de um tal de macuquinho-do-banhado. De um leitor paranaense, recebi este depoimento:

"Felizmente, para Curitiba, o macuquinho só serviu mesmo para atrasar um pouco as obras da Barragem do Iraí, que já a mesma está concluída e em operação. Mas que foi uma picaretagem das grossas, foi. Depois, descobriu-se que o tal passarinho, além de não sofrer qualquer ameaça, é também muito comum, pelo menos nos campos de Paraná e Mato Grosso do Sul. O resultado, além de render viagens aos EUA para os ornitólogos e elevá-los ao cargo de consultores (se bem me recordo, foram a Washington expor o caso ao banco financiador) só serviu mesmo para atrasar a obra e, acredito que isto deve tê-los deixado felizes, diminuir o lucro do malvado do empreiteiro que a executou”.

Por outro lado, jamais vi ambientalistas condenando a proliferação de favelas, que inundam mares, rios e esgotos com seus dejetos. Favelado pode poluir à vontade. Morador de rua – essa nova condição de cidadania criada pela Igreja Católica – também. Rua também é meio ambiente. Mas seus “moradores” podem sujá-las à vontade, que nenhum ambientalista irá reclamar. Quem não pode poluir é o capital que serve para dar melhores condições de vida ao país. Os ecologistas hoje são o novo disfarce das viúvas do Kremlin, que encontraram uma bandeira nova para lutar contra o antigo inimigo, o capitalismo.

Ainda hoje, leio no Estadão, que um helicóptero da Prefeitura de Santo André flagrou um pedreiro construindo uma casa às margens da represa Billings, área de preservação e recuperação de mananciais. Um pedreiro? Uma casa? Há mais de três mil construções irregulares de moradias, de comércio e de outros usos em áreas cuja proibição para construir está prevista em lei. Recente projeto, a Lei da Billings, vai regularizar 200 mil imóveis localizados às margens do manancial que abastece 1,6 milhão de pessoas na região metropolitana de São Paulo.

Onde estão os ambientalistas sensatos, que não os ouço? O que tenho ouvido na imprensa são vigaristas a serviço de empresas internacionais, em geral ianques ou britânicas, muito bem pagos, que não admitem a hipótese de um Brasil desenvolvido.

Segunda-feira, Setembro 28, 2009
 
HÁ ALGO DE PODRE NA
SECRETARIA DO VERDE



Enquanto nestes dias os judeus praticam um galinocídio, os vegans insistem em sua campanha da segunda sem carne. Pelo jeito, matar galinhas para expiar os pecados da raça pode. O que não pode é comer carne. É espantoso como jornais de prestígio assumem, talvez por ímpetos de algum redator alucinado, bobagens que ofendem a inteligência dos leitores. Ou de alguns leitores, porque leitor, afinal, não é sinônimo de inteligência. No Estadão de hoje, lemos uma seqüência da campanha estúpida da Segunda sem Carne, que será lançada no Parque do Ibirapuera no próximo sábado.

Lidar com números é uma das melhores fórmulas de mentir. Filipe Vilicic, o redator, pergunta: ‘Sabia que a indústria da pecuária é responsável por 18% das emissões globais de gases causadores do efeito estufa e por 80% do desmatamento do bioma amazônico? E que para produzir um quilo de carne são gastos 15 mil litros de água? Esses são três dos argumentos usados pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) para convencer as pessoas a abandonar o consumo desse tipo de alimento”.

Mas em que dados se baseia a afirmativa de que a indústria da pecuária é responsável por 18% das emissões globais de gases causadores do efeito estufa e por 80% do desmatamento do bioma amazônico? De que para produzir um quilo de carne são gastos 15 mil litros de água? Isto o jornal não explica. É questão de fé. Você acredita ou não acredita. Continua a reportagem:

“São justificativas que estão por trás da nova campanha desse grupo, a Segunda sem Carne. O movimento tenta convencer carnívoros a se tornarem vegetarianos ao menos uma vez por semana. 'Além de preservar a natureza, essa atitude é benéfica para a saúde, porque previne, por exemplo, diabete e problemas cardiovasculares', prega a socióloga Marly Winckler, presidente da SVB e "vegan" há 14 anos (o tipo de vegetariano mais radical, que não come ovos, não toma leite nem usa roupas de lã ou de seda). 'O ideal seria que deixassem de consumir qualquer derivado de animais todos os dias. Mas adotar esse hábito na segunda já é um começo', acrescenta".

Desde quando socióloga vegan é autoridade para falar de medicina? Desde quando abstenção de carne preveniu diabetes ou problemas cardiovasculares? No fundo, a questão é religiosa. Não por acaso, nos destaques da campanha, há palestras sobre ioga e shivaísmo. Que é o shivaísmo? É uma derivação do hinduísmo, que consiste em ensinamentos transmitidos em diálogos entre Shiva e sua mulher, Shakti, chamada de Parvati, Durga ou Kali. Shiva é o Imutável e Shakti seu poder de criação, proteção e transformação.

Após o evento do próximo sábado, a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente pretende divulgar o projeto em escolas, empresas, bares, restaurantes, mercados e consultórios de médicos e nutricionistas. Os empresários que aderirem assinarão um termo em que se comprometem a incentivar seus funcionários a reduzir o consumo de carne.

Mas que temos nós a ver com Shiva, Shakti, Parvati, Durga ou Kali? Que temos a ver com âgamas e tantras? Ao que tudo indica, um grupo de mascadores de vegetais tomou posse de uma secretaria da Prefeitura e agora pretende impor aos paulistanos o hábito de pastar. Não bastasse a Igreja de Roma proibir o consumo de carne às sextas-feiras, agora fanáticos budistas querem proibi-la nas segundas-feiras. Ironicamente em um país onde para boa parte da população o consumo de carne é utopia.

Nada contra vegetarianos, já disse. Que cada um coma o que quiser. Mas pretender impor o vegetarianismo através de uma secretária municipal é abuso de poder religioso. Não bastasse a ditadura do Vaticano, que bem ou mal exerce sua influência neste país inculto, impõe-se agora aos paulistanos um autoritarismo oriundo do Oriente.

Há algo de podre na Secretaria do Verde. Para bem celebrar a campanha, fui hoje a um restaurante francês na Vilaboim, o bistrô Le Vin, onde regalei-me com um boeuf bourguignon.

Domingo, Setembro 27, 2009
 
AS KAPAROT, O GALINOCÍDIO JUDEU


Começa amanhã o Yom Kippur, o dia mais santo e solene do calendário judeu, em língua nossa o Grande Perdão, fixado no 19 Tichri, ponto culminante dos dez dias de penitência que começam no Rosh Hashaná, literalmente “cabeça do ano”. A propósito, foi um dia de sufoco para mim. Meu bairro é fundamentalmente judeu. No Rosh Hashaná, fui até meu provedor de vinhos, que também fornece comidas e bebidas kasher. Nossa! Filas imensas, toda a judiada se provendo dos alimentos e vinhos permissíveis à raça. Tive de esperar na fila por uma boa meia hora para comprar meus vinhos profanos.

Segundo meu Dictionnaire Encyclopédique du Judaïsme, a importância deste dia e a fonte de seu ritual provêm dos mandamentos bíblicos de fazer propiciação e de humilhar-se. A humilhação de si mesmo era interpretada pelos sábios como a abstinência de comida e bebida. A propiciação implica três atos que, em conjunto, devem aliviar do fardo do pecado: reconhecer suas transgressões, declarar seu arrependimento por um processo de confissão e depois fazer sua expiação ante Deus para obter o perdão.

Mas atenção: os rabinos insistem sobre o fato que o Yom Kippur permite ao homem de expiar seus pecados contra Deus, mas não os cometidos contra seu próximo. (Por próximo, entenda-se um outro judeu. Goy não conta). Sem pedir perdão a quem foi ofendido, a expiação não tem efeito e ninguém deve cometer transgressões esperando que seus pecados lhe sejam perdoados nesse dia. Até aí, nada demais. Mas que têm a ver as galinhas com isto?

Nos tempos bíblicos, havia o Azazel, lugar no deserto para o qual era enviado pelo Grande Sacerdote um entre dois bodes, durante o Yom Kippur celebrado no templo de Jerusalém. Este bode devia portar consigo todos os pecados de Israel, daí o conceito de bode expiatório. Nenhum dos dois bodes tinha alguma chance. Um era sacrificado e o outro enviado a Azazel, onde seria morto. Tudo muito confortável: você peca e debita seus pecados ao bode. Segundo os sábios do Talmude, a lei de Azazel pertence à categoria dos houqquim, as leis que o intelecto humano não pode compreender.

Mas Israel um dia abandonou o deserto e invadiu as urbes do Ocidente. Como não é fácil criar bodes na cidades, sobrou para os galináceos. Nas vésperas do Yom Kippur, todo judeu adulto deve pegar pelo pescoço uma galinha (para as mulheres) ou um galo (para os homens), girar a ave três vezes em torno à sua cabeça, dizendo: “Esta é minha expiação, esta é minha redenção, esta é minha substituição. Este galo (esta galinha) será morta, enquanto eu terei uma vida longa e feliz”. Logo após degola-se a ave que é dada aos pobres, a menos que seu valor seja dado a uma obra de caridade. Para uma mulher grávida, sacrifica-se um galo e uma galinha. As entranhas são jogadas aos pássaros, o que também é considerado uma obra de caridade. Os pecados do penitente são assim transferidos simbolicamente à ave, salvando o judeu de um eventual julgamento negativo no Yom Kippur. A galinha, que nada tinha a ver com o peixe, faz o papel do bode.

As kaparot, assim se chama esta cerimônia, sempre observada nos meios ortodoxos. Embora tenha sido combatida por numerosas autoridades, que a consideravam pagã e supersticiosa, hoje tem o aval dos rabinos, que consideram ser bem melhor do que expiar seus pecados diretamente: a cerimônia permite que neles se reflita e que deles se possa arrepender sinceramente. Sem dúvida alguma é bem melhor. Azar das galinhas.

Em geral, atribuímos os sacrifícios sanguinolentos de animais a bárbaros como africanos, em seus cultos animistas, ou aos árabes, durante a Eid al-Adha, a Festa do Sacrifício, quando milhões de animais são degolados, enquanto os peregrinos começam o apedrejamento do diabo em Meca.

Nestes dias, em pleno século XXI, os judeus, cosmopolitas e supostamente civilizados, continuam matando inocentes galinhas para purgar seus pecados.

Sábado, Setembro 26, 2009
 
ECOLOGISTA BEM QUE PODERIA
COMEÇAR DANDO UM EXEMPLO


Existem malucos para tudo neste mundo, não é verdade? O leitor Kenyo Rossas me envia um documento extraordinário, uma entrevista com Les U Knight, o ecologista que quer varrer a vida humana da face da terra, fundador, líder e mentor teórico da ONG Voluntary Human Extinction Movement. Segundo este senhor, nosso planeta está à beira do fim e a única maneira de salvá-lo é extinguindo a raça humana. De acordo com ele, depois de poluir o ar, envenenar rios, abrir buracos na camada de ozono, condenar populações inteiras à fome e à pobreza, o mínimo que a Humanidade poderia fazer era ter a decência de abandonar o barco e deixar este pedaço de rocha flutuante para a sua verdadeira dona: a Mãe Natureza. Reproduzo alguns trechos de uma entrevista sua.

- Acha realmente que a vida animal e os vegetais são tão importantes ao ponto de justificar a extinção da raça humana?
- Num ecossistema equilibrado todas as espécies são importantes e nenhuma é melhor que a outra. De uma forma geral, quanto mais alta a posição que uma espécie ocupa na cadeia alimentar menos ela importante ela é para aquele sistema. O homem já não faz mais parte da cadeia alimentar. Por outro lado, as bactérias presentes nos intestinos dos seres vivos são importantíssimas para a sobrevivência de toda a biosfera terrestre. Se levarmos isso em conta, chegaremos à conclusão que o homem vale menos do que uma bactéria.

- Então a raça humana não tem valor algum?
- Nós só temos valor para as pessoas com quem nos relacionamos. Mas, para a natureza e o ecossistema, nós não fazemos a menor falta.

- Nem se levarmos em conta o legado cultural e intelectual da humanidade?
- Talvez as traças achem os nossos livros um tanto quanto deliciosos, mas eu creio que elas não vão saber diferenciar o Pablo Neruda das Seleções do Reader's Digest. Pegue a maior criação literária já feita pelo homem e compare com qualquer forma de vida, mesmo a mais insignificante, e me diga: qual delas possui mais beleza, complexidade e potencial?


E por aí vai. Leitor do Reader’s Digest desde criança, consigo diferenciar muito bem a revista dos poemas de Neruda. O Reader’s Digest, apesar de medíocre, é muito mais interessante que o poeta chileno. Quanto a extinguir a raça humana, o fato é que se esta raça for extinta, não sobrará ninguém para dela sentir falta. Só o homem tem consciência de que existe. As demais espécies existem sem sequer saber que existem. Só o homem faz História e escreve História. Os bugres, por exemplo, ainda não chegaram lá. Eu não afirmaria incondicionalmente que o homem é um ser angelical. A humanidade produziu degenerados como Josué, o patriarca bíblico, Átila, Timur Leng – Timur, o Coxo, mais conhecido como Tamerlão -, Maomé, Hitler, Lenin, Stalin, Mao, Pol Pot. Mas também teve seus momentos sublimes, como Sócrates, Alexandre, Cervantes, Dante, Schliemann, Champollion, Fernão de Magalhães, Mozart, Vivaldi, Scriabin e tantos outros.

Estes arautos da extinção da espécie humana são uma decorrência lógica desses movimentos ecológicos histéricos, que interditam estradas e barragens em nome de bagres e bugres, curiós, micos e pererecas. Mais importante que o ser humano são os seres incientes que jamais conseguiram escapar de sua condição animal. Não nego inteligência aos animais. Mas é uma inteligência limitada, que não consegue construir uma civilização. Tanto o joão-de-barro como o jacu são habilíssimos na construção de seus ninhos. Mas não conseguem ir adiante. O mesmo diga-se dos castores ou ratões-do-banhado. E de todas as demais espécies. Até mesmo os vírus são inteligentíssimos, tanto que não é fácil derrotá-los. Mas só ao homem foi dada – ou adquirida – a consciência de que existe.

Interrogado sobre quantas pessoas fazem parte de seu movimento, Knight acha que seis bilhões e 50 milhões. “Na verdade eu falo isso porque é impossível dizer quantas pessoas já devem ter chegado a conclusão de que o mundo seria melhor sem a raça humana. Mas, baseado na quantidade de pessoas que entram em contacto comigo, posso dizer que temos por volta de uns três milhões de pessoas interessadas no nosso movimento. São pessoas que, embora não sejam membros da nossa organização e não tenham uma militância, apóiam as nossas ideias e gostariam de ver os nossos objectivos alcançados”.

A meu ver, não é tarefa impossível alcançar tais objetivos. Os militantes do Voluntary Human Extinction Movement bem que poderiam começar se extinguindo a si mesmos. Não sem antes entronizar como salvadores do universo esses beneméritos como Hitler, Mao, Stalin, Pol Pot, Fidel Castro, responsáveis por fantásticas contribuições à extinção dessa espécie daninha que assola o planeta.

“A extinção humana e a melhor saída para a Humanidade. A partir do momento que pararmos de procriar as brigas por territórios e recursos naturais irão cessar. Poderemos, inclusive, experimentar um período de saúde, felicidade e abundância de recursos a partir do momento em que formos desaparecendo da face da Terra. É a sociedade utópica com a qual temos sonhado desde que o homem passou a dominar este planeta”.

Que sociedade, cara pálida? Sem ser humano não existe sociedade. Existem bandos e – à la limite – tribos. Esse est percipi, já dizia Berkeley. Ser é ser percebido. Um planeta, sem quem o perceba, não existe. “Condenar alguém a viver neste mundo é como vender passagens para um navio que está afundando”, diz Knight. Grande descoberta. A vida é um navio que afunda. Mas enquanto não afunda, sempre podemos celebrá-la. É o que chamo de confraternização no naufrágio. Enquanto o barco navega, sempre podemos comer, beber, amar, trocar idéias, construir nações, filosofias, fazer história, literatura, música, arte. O que este bobalhão não entendeu é que o homem se extingue naturalmente, não precisa de nenhum estímulo para isso.

Se permanece como espécie é bom que assim seja, ou não teríamos ninguém para admirar este universo desprovido de humanidade que o celerado propõe.

Sexta-feira, Setembro 25, 2009
 
COMIDAS NATURALES


Pois, meu caro Augusto,

há uma evidente conspiração internacional contra a carne vermelha. Pelo jeito, vem do Norte e pretende condenar o Sul. Quase todas as restrições à carne vermelha, pelo que leio, têm suas fontes nos Estados Unidos. Logo aquele país em que metade ou mais da metade da população é obesa ou tem sobrepeso, de tanto beber refrigerantes ou comer em Mcdonalds.

Pero no pasarán.

Não tenho nada contra vegetarianos, até já convivi com alguns deles. Lembro que, nos tempos de universidade em Porto Alegre, uma menina conseguiu levar-me a um restaurante herbívoro. Comi umas gororobas esquisitas. Se não me falha a memória, cada bocado tinha de ser mastigado quarenta vezes. Em torno a mim, comensais esquálidos e pálidos ruminavam lentamente aqueles pastos, quais bois no campo, enquanto ela me fazia uma preleção sobre comida ying e comida yang. Fiz alguma piada sobre o assunto e quase levei um prato em pleno rosto, agora não lembro se de ying ou se de yang. A moça optara pelo budismo e considerava um crime comer subprodutos de seres vivos. Saí de lá faminto. Fui direto ao Chalé da Praça XV e me regalei com um suculento filé.

Vez que outra, surge uma vegetariana em minha vida. Falo assim no feminino, porque em geral são mulheres. Varões, somos mais omnívoros. A solução é buscar um restaurante italiano, onde além de carnes há pastas e pizzas. As restrições a alimentos de modo geral têm origens religiosas. Judeus e muçulmanos, por exemplo, se proíbem da carne suína. Tant pis pour eux! Jamais conhecerão as delícias de um cochinillo. Os judeus vão mais longe. Não comem nem mesmo frutos do mar. Das carnes bovinas, não comem a picanha.

E por quê? Porque lá no Gênesis, Jacó lutou contra um homem – ou contra um anjo, segundo algumas versões, ou contra o próprio Deus segundo outras – e seu adversário, ao ver que não prevalecia contra ele, tocou-lhe a juntura da coxa, e se deslocou a juntura da coxa de Jacó. “Por isso os filhos de Israel não comem até o dia de hoje o nervo do quadril, que está sobre a juntura da coxa, porquanto o homem tocou a juntura da coxa de Jacó no nervo do quadril”.

Quanto aos vermelhos, eles até podem detestar os produtores rurais. Está no DNA dos comunistas abominar o capital. Mas não desdenham a bona-chira. Já contei mas conto de novo. Em meus dias de Paris, eu tinha um amigo gaúcho, médico cheio da grana e comunista, que seguidamente passava por lá. Chamava-se Walter Simm e já morreu. Convidava-me para restaurantes caros nos quais, na condição de estudante, eu não tinha muito como ir. Que não me inquietasse, ele pagava tudo. Degustamos gigots e filés, steaks tartar e boeufs bourguignons, sem preocupação nenhuma com o efeito estufa. Naqueles dias, ainda não fora descoberto o novo apocalipse. Assim, foi graças a um defensor incondicional do proletariado que conheci a mais sofisticada cozinha francesa. A meu ver, como bom militante devotado à causa, ele pesquisava qual seria a cozinha ideal à qual um dia os affamés de la terre teriam acesso. Se você quiser conhecer os melhores restaurantes do mundo, consulte um comunista.

O que me espanta em tudo isto, repito, é ver uma secretaria de município assumir uma filosofia oriental e propor aos munícipes uma dieta vegetariana. Isso é impor princípios religiosos em um país que se pretende laico. Minha restrição a tal medida não é pessoal. Eu até que gosto de comidas naturais. Em meus dias de Madri, freqüentei muito um restaurante chamado Comidas Naturales. Lá tudo era natural, tanto o boi como o porco ou o cordeiro.

Nada contra.

 
OS VERDES E VERMELHOS
CONTRA CARNE VERMELHA



De Augusto Oliveira, recebo:

Olá, Janer

No assunto carne, tenho que agradecer, você faz melhor do que muitos representantes de classe que não sabem defender o produto que vendem. Uns dois meses atrás na Veja saiu uma matéria muito boa acho que o título era: "Vaca, a melhor amiga do homem". Mas os vegans sao insistentes. Vou te mandar um texto que mostra bem como o consumo de carne foi importante no nosso desenvolvimento:

http://meavels.blogspot.com/2008/07/o-que-aconteceria-se-o-homem-fosse.html

Vagando pela net encontrei as informações que resumi abaixo:

Diversos estudos mostram a correlação entre o ferro e o zinco na capacidade de cognição, ou seja, na inteligência. A carne vermelha é uma das fontes mais ricas e que apresentam maior biodisponibilidade nesses dois minerais.

Um trabalho com 544 garotos realizado ao longo de dois anos por cientistas do Serviço de Pesquisa Agrícola do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos concluiu o seguinte: aquelas que comiam carne vermelha cresciam mais e apresentavam melhor desempenho escolar quando comparadas com a meninada vegetariana.

O consumo de carne, como vimos, foi primordial na evolução de nossa espécie e ainda é fundamental no bom desenvolvimento dos indivíduos. A carne vermelha, entretanto, é especialmente mais mal-vista, ou difamada, do que a carne branca. Qual a razão da coloração avermelhada? Devido ao maior índice de mioglobina contida nela. A mioglobina é uma proteína que serve como reserva de oxigênio, e que possui Ferro na sua estrutura molecular.

A carne é vermelha essencialmente por isso. Ou seja, é mais nutritiva. Quanto à atual perseguição já escrevi a respeito também:

Nas páginas amarelas da Veja passada uma ambientalista declarou algo como 20% do efeito estufa é causado pela produção de carne vermelha e quem tem consciência ecológica deve diminuir o consumo de carne. Ai minha picanha, minha ponta de costela, lá vem eles de novo.

Não sei qual a acurácia desse dado que ela colocou, se for igual à história de que um quilo de carne para ser produzido consome 15 mil litros de água, então dá licença, é uma mentira, é uma besteirada pura. Vamos fazer uma conta simples da recria nesse caso dos 15 mil litros de água:

Engorda bovina média anual: 120 quilos de peso vivo = 62,5 quilos de carcaça = 48 quilos de carne. Consumo médio de água anual: 35 litros dia = 12775 litros ano. Portanto: 12775 litros/ 48 quilos de carne= 266 litros pra cada quilo de carne produzida.

Isto sem falar na reciclagem de água pela urina, transpiração, excrementos, etc. Quem chamou atenção pra esta reciclagem foi o Xico Graziano, se depender dos representantes de classe - da CNA que arrecada milhões anuais dos produtores - a carne, a soja e todos os produtos rurais podem ser vilipendiados à vontade, embora a Kátia Abreu esteja mudando um pouco isso agora. A falta de um midia watch nesse caso é de dar nojo. (...) O que acontece é que a pecuária, pelas suas caracteristícas, é uma atividade desbravadora, então os verdinhos detestam ela, assim como os vermelhinhos detestam os produtores rurais. Pronto! Juntou a fome com a vontade de comer.

Quinta-feira, Setembro 24, 2009
 
BOLCHE DESMENTE BOLCHE


Uma mentira, quando envolve vários mentirosos, tem de ser bem combinada. Ou então acontece o que está acontecendo. Interrogado pela Folha de São Paulo se foi Hugo Chávez quem planejou a volta de Zelaya a Honduras, diz o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia:

- Não acredito. Escuta, um sujeito que foi presidente da República, que tem o prestígio que ele tem em Honduras... Pela madrugada! Se não tiver esquema, é melhor ficar em casa. Ele certamente tem um esquema suficientemente forte para mobilizar pelo menos metade dos hondurenhos. Que esquema teria o Chávez? Não, não, isso foi obra dos próprios hondurenhos.

O repórter da Folha insiste: não é difícil de acreditar que o Zelaya fez tudo sozinho, chegou lá, bateu na porta da embaixada e foi entrando? Garcia não abre mão de sua tese:
- Zelaya é muito mais esperto do que alguns querem fazer pensar, com muita independência, com muita personalidade.

Hoje mesmo, Hugo Chávez sentiu necessidade de desmentir seu fanzoca incondicional. Em reportagem do Estadão, o presidente venezuelano afirma que "sabia de tudo" sobre a volta do presidente deposto de Honduras ao país e, mais ainda, afirmou ter ajudado a "despistar" as autoridades sobre o paradeiro de Zelaya, enquanto o hondurenho realizava a viagem de retorno a Honduras. Para ajudá-lo, Chávez disse ter telefonado para o hondurenho em um telefone que estaria grampeado. "Eu liguei, como sei que estão nos gravando por satélite, e disse: Zelaya, nos vemos em Nova York".

Ainda segundo o jornal, uma fonte da chancelaria da Venezuela confirmou à BBC Brasil que era um avião venezuelano que transportava Zelaya. De El Salvador, segundo Chávez, Zelaya teria entrado em Honduras "por terra" dentro do porta-malas de um carro, acompanhado por outros três homens.

Como fica o assessor internacional da Presidência, desmentido pelo próprio parceiro que defende? A mentira sempre foi uma segunda natureza nos comunistas, disto todos sabemos. Garcia deve ter saudades daqueles bons tempos em que os camaradas eram bem mais unidos. A mentira era previamente combinada e bolche não desmentia bolche. Os tempos mudaram.

 
IMPRENSA FAZ CORO COM
AS VIÚVAS DO KREMLIN



Da França, recebo:

Caro Janer,

vendo de longe, daqui da França, o que me parece é que houve uma tremenda barriga da imprensa e dos governos nesta questão (excetuando, claro, os bolivarianos e outros mal-intencionados de sempre, acho que não preciso nomeá-los). Guiando-se unicamente pelo fato de que o Exército de Honduras protagonizou o movimento, imprensa e governos acusaram um golpe de estado no pais, quando o que aparentemente houve foi que se seguiu o rito constitucional: um presidente que desrespeitou a Constituição do seu pais foi legalmente deposto, como não poderia ser diferente. Agora não querem assumir que se precipitaram, fazer o "mea culpa", e se for preciso uma guerra civil para dizerem, no final, que estavam certos desde o princípio (mas continuarão errados, evidentemente), oras, que venha a guerra civil!

Obama é uma figura patética, é um individuo que a cada dia demonstra mais e mais despreparo para o cargo que ocupa. Depois de oito anos de Bush, era tudo de que os EUA não precisavam. Agora só falta eles elegerem a Sarah Palin em 2012 pra acabar de vez com o país.

Um abraço,

Roberto Veiga


Meu caro Roberto:

Não consigo acreditar em barriga. Jornalista sabe ler e os fatos eram claros desde o início. A meu ver, foi o pronunciamento desastrado de Obama que orientou a imprensa. Obama, apesar de alguma queda em popularidade, ainda goza da condição de salvador do mundo e os jornalistas não ousaram contestar o Messias.

Por outro lado, numa época em que não dá mais para segurar Castro nem Kim Il Sung, as esquerdas precisam de outros gurus. Seguem então Chávez e Morales. Não por acaso, os quatro presidenciáveis no Brasil para 2010 são de extração marxista. O eleitor terá de escolher entre seis e meia dúzia.

Que o jornalismo brasileiro tenha afinado com este coral, até que se entende. No Brasil um fato histórico só é assimilado uns dez ou mais anos depois de acontecido, principalmente se este fato põe em xeque os dogmas das esquerdas.

O que me espanta é que a imprensa européia ainda faça coro com as viúvas do Kremlin.

Quarta-feira, Setembro 23, 2009
 
O NOVO MANDALETE DE OBAMA
APÓIA ESCÓRIA DO CONTINENTE



Há três meses, escrevi:

“Um presidente que quer reeleger-se propõe um plebiscito para permitir sua reeleição. O plebiscito é considerado ilegal pela Suprema Corte de seu país. É uma das cláusulas pétreas de sua Constituição. O Congresso aprova uma lei que impede a realização de consultas populares 180 dias antes e depois das eleições. O presidente ignora a lei e a decisão da Suprema Corte e mantém o plebiscito. A Suprema Corte ordena que o Exército destitua o presidente do país. Em defesa da Constituição, do Congresso e da Suprema Corte, o Exército o destitui. Dia seguinte, a imprensa internacional toda fala em golpe. Quando Exército rasga a Constituição é golpe. Quando a defende, também é golpe. Não entendi”.

Manuel Zelaya, o presidente de Honduras, legalmente deposto pela Suprema Corte de seu país, está de volta a Tegucigalpa, sob as asas cúmplices da embaixada brasileira. Isto é, por obra de Lula e Celso Amorim, que ninguém é ingênuo para acreditar que Zelaya bateu no portão da embaixada, assim de surpresa, e pediu para entrar. Protegido pela representação diplomática, Zelaya conclama seus partidários à luta armada. Não solicitou o estatuto de exilado político. Sabe que se o solicitar, pelas normas diplomáticas, não pode manifestar-se politicamente. Sua condição é a de um bandoleiro procurado pela Justiça hondurenha, que se refugia em território brasileiro para conclamar seus sequazes a tentar uma guerra civil.

A imprensa internacional, unanimemente, passou a defender o presidente que pretendia dar um golpe branco e colocou na condição de golpistas a Corte Suprema e o Exército que defendem a Constituição. A imprensa brasileira, obviamente, não poderia deixar de fazer coro. Na Folha de São Paulo de hoje, Clóvis Rossi ergue o famoso bracinho do Dr. Strangelove:

“Quando o chanceler Celso Amorim diz que o Brasil não tolerará nenhuma ação contra a sua embaixada em Tegucigalpa está apenas dizendo o óbvio. País algum tolera violações de sua soberania - e não custa lembrar que a embaixada é tecnicamente território brasileiro”.

Esquece Rossi, ou propositadamente omite, que o Brasil está violando a soberania hondurenha, ao dar abrigo a um presidente legalmente deposto e permitir-lhe que conclame os hondurenhos à revolta contra suas instituições.

O Estadão, em editorial, curiosamente fica em cima do muro. O editorialista começa dando razão aos hondurenhos:

“A aparição do deposto presidente hondurenho Manuel Zelaya na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa foi - sem jogo de palavras - um golpe para o regime que se instalou no país em 28 de junho. Na madrugada daquele domingo em que pretendia realizar uma consulta popular considerada ilegal pelo Congresso e pela Justiça, Zelaya foi preso e despachado, ainda de pijama, para a Costa Rica. No dia seguinte, o então presidente do Legislativo, Roberto Micheletti, assumiu o governo. O plebiscito se destinava a abrir caminho a uma mudança constitucional que permitiria a Zelaya disputar um segundo mandato. Refletindo a preocupação dos seus autores com o passado de quarteladas, violência política e perpetuação no poder dos dirigentes de turno, a Constituição hondurenha considera cláusula pétrea o mandato presidencial único. Era, portanto, uma ameaça à democracia instalada no país a manobra chavista de Zelaya, um abastado político de origens conservadoras que, depois de eleito em 2006, se deixou levar pela lábia bolivariana e o petróleo subsidiado do caudilho de Caracas”.

No período seguinte, temendo passar por herege e cedendo à pressão das esquerdas internacionais, o articulista deixa por não dito tudo que disse:

“No entanto, a comunidade interamericana não poderia, a esta altura da história do Hemisfério, resignar-se à violação consumada da Carta Democrática adotada em 2001 pela OEA. A entidade foi coerente com os seus princípios ao condenar de imediato, sem meios tons, o ato de força em Tegucigalpa, repudiado igualmente pela União Europeia e a Assembleia-Geral da ONU. O chamado governo de facto de Roberto Micheletti ficou completamente isolado e assim permanece. Os EUA e organismos internacionais congelaram cerca de US$ 300 milhões em ajuda ao país”.

Uma no cravo e outra na ferradura. O que já é muito para quem antes só batia no cravo. Em suas reportagens, no entanto, o jornal continua chamando de golpistas os hondurenhos que se opuseram ao golpe tentado por Zelaya.

Ontem, em Nova York, Lula, o mais entusiasta mandalete de Obama, foi incisivo: "O que deveria acontecer agora é os golpistas darem um lugar a quem tem direito a este lugar, que é o presidente democraticamente eleito pelo povo".

Deve ter sido acometido mais uma vez de amnésia. Já não lembra que, há 17 anos, ele e seu partido pediram o impeachment de Collor de Mello, presidente democraticamente eleito pelo povo. Se não conseguiram o impeachment, conseguiram a renúncia. Mas tapa de amor não dói. Hoje Collor e Lula estão abraçados na defesa do mais corrupto dos senadores.

Lula tampouco deve lembrar que há onze anos, seu atual ministro da Justiça, após ter derrotadas suas pretensões eleitorais no Rio Grande do Sul, pedia o impeachment de Fernando Henrique Cardoso, presidente também democraticamente eleito pelo povo.

Honduras é que não pode. Zelaya foi eleito com uma plataforma nitidamente de direita e virou a casaca durante seu mandato, tornando-se aliado da escória latinoamericana, Hugo Chávez, Evo Morales e Daniel Ortega. A escória tupiniquim não se furtaria a apoiar a escória amiga do continente.

Terça-feira, Setembro 22, 2009
 
AÇÚCAR COMO VENENO:
UMA HISTÓRIA ANTIGA
QUE PASSA POR NOVA



Todo jornal deveria ter, em sua redação, um jornalista antigo de plantão. Seria uma espécie de guardião da memória, cuja função seria alertar os jovens de que a América já foi descoberta. Pois não passa dia em um jornal sem que fatos antigos passem por notícia nova. Exemplo disto citei em crônica recente. Jornalista algum lembrou que o projeto de lei de um número de identidade pessoal único, agora aprovado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), já havia sido aprovado em 1996.

A Veja desta semana apresenta como grande novidade o livro Sugar, a Bittersweet History, da historiadora canadense Elizabeth Abbott. Segundo a escritora, o açúcar redesenhou o mapa demográfico, econômico, ambiental, político, cultural e moral do mundo. “Em séculos de tragédia e glória, o açúcar transformou a alimentação do Ocidente, escravizou gerações de africanos nas Américas, foi combustível da Revolução Industrial, promoveu guerras e impérios, dizimou paraísos ecológicos, ergueu e pulverizou fortunas – e, nos trópicos, moldou a identidade brasileira. Movido pela sua energia calórica, o mundo segue girando rápido, tão rápido que estamos agora na soleira de outra mudança vertiginosa: o açúcar começa a ser considerado um vilão da saúde humana, um veneno tão prejudicial que merece ser tratado com o mesmo rigor empregado contra – suprema decadência! – o tabaco. Está mais perto o dia em que um pacote de açúcar trará a inscrição: O Ministério da Saúde adverte: este produto é prejudicial à saúde".

Já comentei o assunto em 1989, no século passado, quando caía o Muro de Berlim. Não que a descoberta fosse minha. Mas de Carson Ritchie, cujo ensaio Food in Civilization - How History Has Been Affected by Human Tastes alerta para os efeitos danosos do açúcar. O livro foi publicado em 1981. Ou seja, há quase três décadas.

Ritchie um dia convidou alguns amigos a um bom restaurante. Jantaram à la farta e tudo transcorreu muito bem, pelo menos até o momento da dolorosa. Ritchie puxou a carteira e nela não encontrou dinheiro suficiente. Teve de apelar aos amigos que convidara para jantar. Passado o episódio, considerou que a história da alimentação em algo se parece com esta anedota: quando chega o momento de pagar o banquete, podemos descobrir que aquilo que desfrutamos custa bem mais do que estávamos dispostos a pagar quando nos sentamos à mesa. Terá sido talvez esta gafe o que deu origem a seu livro.

"O açúcar para adoçar o chá e o café europeu - escreve Ritchie - foi cultivado às custas da escravidão negra. Os peles vermelhas foram expulsos sem piedade das pradarias onde caçavam para que o homem branco pudesse cultivar trigo e milho, e seus búfalos foram exterminados para dar lugar a grandes rebanhos vacuns. Os escritores norte-americanos responsabilizaram as grandes multinacionais fruticultoras pelo caos das economias centro-americanas, construindo ferrovias ilegais, sonegando impostos, manipulando os baixos salários da mão-de-obra não qualificada (já por si suficientemente baixos), expropriando as terras dos camponeses e exaurindo a fertilidade do solo. E tudo isso para que os norte-americanos tivessem bananas como sobremesa!"

Ao debruçar-se sobre os efeitos dos alimentos na História, Ritchie descobre que foram os conceitos errôneos de alimentação e não os corretos, os que demonstraram ter maior influência. "Crenças em que as especiarias aumentavam a virilidade, que o açúcar era essencial para a saúde, ou que para ser forte devia-se beber muita cerveja, condicionaram mais os destinos da humanidade que as autênticas e consolidadas leis da ciência da alimentação".

Mas como convencer minha Cristina de que seu vício não passa de um hidrato de carbono sem nenhum valor alimentício? Se os europeus, para açucarar suas tardes, destruíram homens e culturas, na África e nas ditas Índias Ocidentais, como queixar-me de minha faxineira?

Já vi universitários e professores universitários se lambuzando com sorvetes, que além de açúcar contém algo mais nocivo, o sal. (Isso até que não é tão grave: há universitários que acreditam em Deus). Pior ainda, já vi muitos destes senhores que, por uma questão de ofício possuem, ou deveriam possuir, noções de bem comer, dando sorvetes a seus filhos. Assim sendo, sempre tenho em casa um açucareiro cheio para saciar os instintos primários de Cristina e de eventuais formigas que já descobriram o mapa da mina. Sem falar que, quando o café é forte, tipo exportação, não me furto a ajuntar-lhe uma colherinha de veneno.

Pois este hidrato tão prestigiado, que no fundo só serve para produzir cáries, obesidade e doenças cardíacas, produziu mais estragos na trajetória do ser humano do que o próprio sal, que pelo menos tem a virtude de conservar as carnes, fator aparentemente banal mas decisivo na caminhada do Homo Sapiens, seja rumo ao combate, seja rumo a descobertas. E já fez levas de jovens do mundo todo partirem em revoadas rumo àquela ilha tanto amada por Paulo, Cardeal Arns, para cortar cana em prol da revolução.

Pois a cana-de-açúcar deve ser colhida rapidamente quando madura e Castro, preocupado em seguir as diretrizes de Moscou, mandou para Angola a juventude cubana, onde, em vez de ceifar cana, ceifaram vidas alheias e muitas vezes perderam as suas. Mas Estados Unidos, Europa, América Latina e mesmo o Brasil, pronto supriram a falta de mão-de-obra. Milhares de jovens, que jamais haviam visto de perto um canavial, bravamente acorreram, de machete em punho, em apoio à ditadura cubana.

O açúcar foi introduzido no mundo mediterrâneo por Dario, o rei dos persas, trazido da Índia após suas conquistas por lá. Difundiu-se pela Europa e passou ao Novo Mundo graças aos colonizadores espanhóis. Hernán Cortez introduziu a cana-de-açúcar no México. O Caribe proporcionava ao açúcar o clima mais adequado que seu próprio lugar de origem, a Índia, pois lá chovia muito mais. Acontece que os espanhóis jamais iriam trabalhar se encontrassem alguém que o fizesse por eles.

A tarefa foi delegada, se assim se pode dizer, aos índios caribes e arawaks, culturas que logo foram exterminadas. Tendo de buscar mão-de-obra em outra parte, os colonizadores das "Índias Ocidentais" deram uma piscadela de olhos aos portugueses. Estes, tendo observado que os índios, não se adaptando ao trabalho duro, morriam na colheita de açúcar, os deixaram de lado e foram buscar escravos na África.

"Já que espanhóis e portugueses haviam começado a desenvolver suas plantações de cana com a colaboração dos escravos negros, todos os demais pensaram que tinham de seguir seu exemplo. Se assim não faziam, expunham-se a produzir um açúcar mais caro, sem saída no mercado. Resulta irônico comprovar a que ponto haviam chegado os primeiros colonos franceses e ingleses no Caribe: homens idealistas, freqüentemente perseguidos por suas crenças religiosas, e muitas vezes indivíduos de princípios elevados que queriam viver de uma forma mais livre da qual lhes era permitido viver na Europa". Pois estes senhores, diz-nos Ritchie, tornaram-se escravocratas nas Índias Ocidentais. Para satisfazer o paladar europeu.

Outro subproduto da cana, o rum, serviu para incrementar o tráfico de escravos. Quando surgem as primeiras campanhas abolicionistas, seus líderes implantam o primeiro boicote ao comércio infame, adoçando o café com nata em vez de açúcar, e pedindo conhaque francês em lugar de rum. Para ajudá-los a propagar suas idéias, lady Henderson, comerciante em Londres, vende açucareiros com gravado em letras douradas: "Açúcar das Índias Orientais, não produzido por escravos".

Ritchie considera que se o açúcar fosse descoberto hoje seria classificado como droga. Droga que já produziu mais estragos em sua trajetória – acrescentemos – do que a maconha ou cocaína. Em suma, o livro de Elizabeth Abbott nada tem de novo. Apenas repete antigas denúncias sobre este veneno que as pessoas ingerem prazerosamente todos os dias.

Segunda-feira, Setembro 21, 2009
 
PERGUNTAS DO EDUARDO


Caro Janer

Algumas perguntas aos coordenadores da campanha:

- Sendo a superpopulação de gado uma conseqüência direta da superpopulação humana, por que será que ninguém fala da causa do problema abertamente?

- A digestão dos humanos não provoca gases estufa também?

- A geração de gases estufa de um vegetariano é menor que a de um carnívoro? Quanto?

- Será que se virarmos vegetarianos o plantio de tais alimentos não iria contribuir da mesma forma com o desmatamento da Amazônia?

- Quantas toneladas de vegetais correspondem a uma tonelada de carne em termos calóricos?

- Uma vez estabelecida a relação acima, quantos hectares de terra seriam necessários para substituir a produção de carne por vegetais?

- Poderíamos eliminar a carne da alimentação básica das crianças para que no futuro ninguém precisasse mais deste tipo de alimento?

- Já foi provada a longevidade dos vegetarianos?

- Temos que deixar de comer peixes e aves também?

- Será que Kassab e Sir Paul McCartney vão deixar de comer carne?

Agora algumas afirmações (minhas):

- A grande maioria da população mundial não come carne todos os dias.

- Ingleses e paulistanos pode ser que comam. Todos os brasileiros, não.

- A superpopulação de animais não é “gerada artificialmente” é gerada por demanda real crescente. Não vai parar com campanhas nem chicotes. Todos os subdesenvolvidos querem e vão exigir sua picanha, cachaça, TV, carro poluidor, etc, ao quadrado. O problema é quantidade de gente precisando comer.

- As ONGs ao invés de contratar ex-Beatles e aliciar prefeitos para controlar e proibir isto e aquilo deveriam bolar métodos aceitáveis para controlar e reduzir o crescimento populacional, desta forma todos os problemas vão se resolver naturalmente. Verba para começar eles têm.

- As ONG vomitam números e não mostram as contas, a população embarca por que não pára para pensar.

- Eles são aproveitadores e quem acredita em este tipo de campanha: estúpido!

- A secretaria do verde e do meio ambiente da PMSP deveria cuidar do cocô humano que polui a água do Tieté mais que a atmosfera.

Eduardo Bernasconi

 
SOBRE COMO ACEITAR SÃO PAULO


A Folha de São Paulo de hoje traz, em sua primeira página, foto para mim muito significativa. Dez remadores, equipados com máscaras, óculos e luvas de borracha, enfrentando 25 km do trecho metropolitano do rio Tietê. Além de agüentar o cheiro, os atletas tiveram se esforçar nos trechos mais rasos, por causa do assoreamento. Alguns remadores foram vacinados contra hepatite A e febre tifóide.

Esta foi a primeira imagem que tive de São Paulo. Creio que foi em 61, quando eu vinha para um congresso estudantil em Campinas. Eu passava de ônibus pela marginal do Tietê. Não adiantava fechar a janela, o mau cheiro atravessava o vidro. Olhei para o rio. Dois atletas faziam regata tranqüilamente em meio às águas podres. Pensei com meus botões: esta gente se acostuma a tudo, até mesmo ao fedor de um rio poluído. Jamais me acostumarei a isto. Jamais viverei em São Paulo.

O Brasil não tem respeito algum por suas águas. Enquanto na Europa os rios são componentes do lazer urbano, para nós constituem depósitos de lixo. Em Paris, o Sena faz a alegria da cidade. Em Londres, este papel é desempenhado pelo Tamisa. Já foram rios poluídas, mas tanto britânicos como franceses tiveram o bom senso de recuperá-los. Há nove anos, passei um sábado delicioso às margens do Limmat, em Zurique. O bar se chamava Panta Rei, o que me evocou Heráclito. Me lembrei muito de São Paulo naquele sábado. O rio, que atravessava a cidade, era cristalino, podia-se ver uma moedinha jogada em seu leito. Lá pelas tantas, alguém desceu a rampa e passou uma boa hora nadando. Nadar em um rio que atravessa o centro de uma cidade, para mim, egresso de Porto Alegre e São Paulo, pareceu-me utopia. Não era.

Estou aqui há praticamente vinte anos. E daqui não sairei nem de pés juntos, já que determinei que meus restos serão cremados no cemitério da Vila Alpina. É a cidade onde vivi mais tempo em minha vida. Abstraí o Tietê. Só o vejo quando vou ou volto de viagem. Durante muitos anos, assim assinei minha coluna: Janer é jornalista e sofre São Paulo. Foi quando um leitor chamou-me a atenção. “Escuta, pelo que conheço de teu perfil, São Paulo é a cidade que melhor se adapta a ti no Brasil”. O leitor tinha razão. Eliminei o bordão de minhas colunas.

É que eu via São Paulo como um todo. Em sua totalidade, a cidade é monstruosa, um emaranhado de favelas e bairros pobres, com algumas ilhas viáveis. Tomei então uma decisão intelectual: eu não vivo em São Paulo. Eu vivo em Higienópolis. Aí minha vida se tornou mais amena. O bairro não é nenhum Saint-Germain-de-Prés, mais on peut survivre, como me dizia um amigo francês. Meus dias, eu os vivo nesta pequena geografia, muito menor que a geografia de Dom Pedrito. Não gosto de cidades verticais. Mas, enfim, tudo bem. É aqui onde está a maior parte de meus amigos e isto vale muito. Quando sinto necessidade de cafés mais sofisticados, comida diferente, outras arquiteturas, tiro o pó do passaporte e parto.

O espaço que utilizo nesta megalópole é bastante curto, não passa de uns seis quilômetros. É a distância que me separa de Vila Madalena, onde às vezes vou almoçar. No meio do caminho estão Pinheiros e Jardins, que também visito, impelido pelo desejo de bons vinhos e boa comida. Acho que só uma vez em meus dias de Paulicéia fui mais longe. Foi quando fui ao Itaim Bibi em busca de um smörgåsbord em um restaurante escandinavo. Fora isto, nada mais conheço de São Paulo. Conheço melhor Paris e Madri, onde vivi muito menos tempo. Há outros bairros interessantes. Mas ficam muito longe de meu chão. Se é para ir longe, prefiro começar por Cumbica.

São Paulo tem suas vantagens. Estando aqui, você não precisa fazer escala para ir a Paris. Como disse alguém, fica pertinho do Brasil, não é preciso visto de entrada e todo mundo fala português. Voltando às regatas: os paulistanos continuam remando em meio ao pútrido. Eu, como não remo, não tenho maiores dificuldades em assumir a cidade.

 
APOLOGISTA DA DROGA
QUER IMPOR DIETA DE
CARNE A BRASILEIROS



Quando vejo autoridades tentando proteger a saúde de pessoas adultas com a proibição do fumo, me fica a pergunta: para quando será a proibição do álcool? E do açúcar? Ou da picanha? Porque álcool, açúcar e picanha gorda também matam. (Voltarei ao assunto do açúcar). No que diz respeito ao álcool, já andam jornalistas católicos se entusiasmando. Que o álcool só não é proibido para que se sejam evitados os efeitos funestos da clandestinidade. Não fosse isto, deveria ser proibido. Quanto à carne, desde há muito ONGs do Primeiro Mundo tentam proibi-la. No Terceiro Mundo, é claro.

Que tem a ver o hambúrguer com o meio ambiente? Leio esta pergunta no site ecológico Tuverde, provavelmente financiado por alguma ONG, já que não traz a assinatura de ninguém. Segundo um estudo da FAO – prossegue o texto – a indústria da carne representa 18% do total das emissões mundiais de gases. Graças à superpopulação de animais gerada artificialmente pelo homem (bilhões de cabeça e contando), a indústria da carne teria o triste recorde de ser a maior produtora mundial de gás metano e óxido nitroso, cada um 20 e 300 vezes mais poderosos que o dióxido de carbono como gases causadores do efeito estufa. O gás metano é produzido pelos animais durante a digestão e o óxido nitroso é emanado por seus excrementos.

A indústria da carne, segundo a FAO, é a principal responsável pelo desmatamento de bosques e selvas em nível mundial. Estima a entidade que 70% da superfície desmatada da Amazônia é dedicada a pastagens. Conclusão: se você quiser salvar o planeta, seja vegetariano.

Esta filosofia safada foi assumida pelo ex-beatle Paul McCartney, que se associou a uma campanha internacional que recomenda às pessoas renunciarem a comer carne em algum dia da semana para combater as mudanças climáticas. Segunda-feira sem carne. É o que propõe um dos maiores apologistas internacionais das drogas. “Deveríamos nos preocupar com a mudança climática porque, se não o fazemos, vamos deixar como herança para nossos filhos e aos filhos destes um problema gravíssimo” – disse McCartney ao The Independent. O apologista das drogas e suas filhas, Stella e Mary, tentam persuadir os consumidores para que adotem uma dieta vegetariana ao menos um dia por semana, com o objetivo de reduzir as emissões de gases-estufa da cabanha mundial, que contribuiriam de modo significativo para o aquecimento global.

LSD, canabis, cocaína pode. Carne é que não pode. Os vegetarianos têm nomes ilustres em suas hostes. Schickelgruber foi um deles. Antes que me esqueça: Schickelgruber era o sobrenome daquele austríaco que foi amado por multidões, Adolf Hitler. É claro que o Brasil não perderia esta oportunidade de ouro de adotar uma estupidez do Primeiro Mundo. A Prefeitura de São Paulo vai apoiar o boicote à carne para “salvar o planeta”. É o que leio na Folha de São Paulo. A campanha "Segunda Sem Carne" será lançada no próximo dia 3 no Estado. Para os organizadores, dieta carnívora é "insustentável". A campanha é parte do lobby de ONGs e liderada no Brasil pela Sociedade Vegetariana Brasileira, que pretende tornar o movimento nacional. E tem o apoio da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo.

Não sei se ongueiros e lobistas sabem, mas esta moda tem suas origens na Espanha de Franco. Durante a Guerra Civil, para financiar a luta, Franco instituiu o chamado "lunes sin postre". Às segundas-feiras, os espanhóis dispensavam a sobremesa, para colaborar com o esforço de guerra. Com um detalhe: a sobremesa era paga, mas não consumida. O objetivo não era a salvação do planeta, mas da Espanha. Lá por 2001, o PT – sabe-se lá para salvar o quê – pensou em proposta semelhante. Pretendeu taxar as refeições em restaurantes de luxo. Era quando o PT ainda não estava no poder e seus próceres ainda não podiam comer nos Fasanos da vida às custas do contribuinte. Hoje não se fala mais no assunto.

Voltando à carne: desde há muito avança uma conspiração internacional contra a carne, particularmente a carne vermelha, conspiração oriunda de países ricos. Por um desses paradoxos da economia, nos países ricos a carne é cara e nos países pobres continua sendo relativamente barata. Proíba-se então aos pobres um dos poucos prazeres que lhes restam.

Não tenho nada contra vegetarianos, que cada um coma o que julgue ser melhor comer. Quem gosta de pastar, que paste a gosto e bom proveito. Daí a uma prefeitura assumir campanhas malucas de ONGs internacionais vai uma longa distância. Era só o que faltava, um dos grandes difusores das drogas no mundo pretender impor uma dieta a brasileiros.

Há algo de podre, não no reino da Dinamarca. Mas na Prefeitura de São Paulo.

Domingo, Setembro 20, 2009
 
CARPIDEIRA DA GUERRA
FRIA CONDENA EUROPA



Conheci Gilles Lapouge, o correspondente do Estadão na França, no final dos anos 70, em um debate em uma livraria em Paris. Conheci e não gostei. Era jornalista de evidente desonestidade intelectual. Na ocasião, coordenava um debate com Hélio Bicudo, que proferia suas bobagens costumeiras sobre o Brasil. Em dado momento, Lapouge, que por ofício devia conhecer muito bem o país, pergunta, já inserindo na pergunta a resposta que queria ouvir:

- É verdade que os esquadrões da morte existem em todas as capitais do Brasil?

Bicudo, participando da mesma desonestidade intelectual, não hesita em confirmar a pergunta cretina:

- Sim, os esquadrões da morte existem em todas as capitais do Brasil.

Ora, os ditos Homens de Ouro, policiais que compunham o esquadrão da morte, só existiam no Rio de Janeiro, e talvez no Espírito Santo. Não havia esquadrão em São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, muito menos em Salvador, Recife, Manaus ou Belém. Em suma, não existia esquadrão em nenhuma outra capital do Brasil. Mas o objetivo, tanto de Lapouge como de Bicudo, apparatchiks a serviço da União Soviética, era condenar o regime militar. Estenderam então o esquadrão para o país todo.

Há muitos anos leio os artigos de Lapouge. Pior ainda: em meus dias de Estadão, tive de traduzi-lo. Pois o correspondente em Paris se dá ao luxo de enviar seus artigos em francês. Na edição de hoje do jornal, Lapouge acusa de perseguir imigrantes uma Europa que busca se proteger ante a imigração ilegal. Seu artigo é de evidente má-fé. Senão, vejamos:

“A França de Sarkozy exibe um comportamento repugnante. Utiliza vôos charter para levar os imigrantes de volta, sem considerar os perigos (econômicos ou mesmo políticos) que os aguardam no país de origem. O ministro da Integração se vangloriou de ter expulsado 30 mil clandestinos este ano”.

Ora, clandestinos têm mesmo é de serem mandados de volta a seus países. Ao defendê-los, Lapouge advoga a desintegração da Europa. Sem falar que Lapouge não pode ignorar que os ditos “vols de la honte” (vôos da vergonha) datam do governo Giscard d’Estaing. Giscard oferecia dez mil francos na época a todo imigrante que quisesse voltar a seu país. Mas, como me dizia Slimane Zéghidour, jornalista e escritor argelino: “Podem me dar a França inteira, não aceito. Não posso levá-la no bolso”. Os chamados vôos da vergonha prosseguiram durante o governo Mitterrand e, desta vez, sem um vintém sequer para voltar. Mas Lapouge jamais diria uma palavrinha contra o sedizente socialista François Mitterrand. Debita hoje a Sarkozy o que foi prática rotineira em governos passados. É que Sarkozy não é de esquerda.

“Além dessas baixezas, Sarkozy vem se batendo pelo que chama de “imigração selecionada”. A França necessita de cérebros, pessoas inteligentes, instruídas, se possível limpas. Assim, um africano que saiu da Escola Politécnica, um argelino licenciado em Direito, essa Paris apresentada como humanitária adora. É uma tese traiçoeira. De um lado rejeita nas trevas exteriores os mais desesperados; e de outro priva a África do pequeno número de pessoas de alto nível, técnicos, diplomados, que esses países conseguiram formar com muito sacrifício. Um enorme egoísmo!”

Ou seja: Lapouge defende que a França – e por extensão, a Europa – acolha a escória do Terceiro Mundo e rejeite o que de melhor o Terceiro Mundo oferece. Como se a França – ou a Europa – tivesse como obrigação receber os detritos humanos decorrentes das ditaduras do mundo árabe e africano. O que um dia Stalin e Hitler sonharam – destruir a Europa livre e democrática – os muçulmanos já estão perto de conseguir. Lapouge toma o partido da barbárie.

Prossegue o correspondente: “Proliferam ideologias fascistas por toda a Europa, o partido de Jörg Haider na Áustria, os neonazistas flamencos, dinamarqueses, alemães orientais e, na França, o perverso partido da Frente Nacional de Le Pen”. Lapouge omite safadamente apenas um detalhe. Nem Haider nem Le Pen militaram em partidos nazistas. Mitterrand não só foi colaborador nazista, como também foi condecorado com o galardão máximo da República de Vichy, a Francisque, por seus bons serviços prestados ao Reich. Lapouge, que não nasceu ontem, sabe muito bem que Mitterrand virou a casaca e passou a militar nas esquerdas. Está portanto acima do bem e do mal.

É deplorável que essas carpideiras da finada União Soviética ainda tenham espaço, num jornal que se pretende liberal como o Estadão, para caluniar uma Europa que tenta se proteger – tardiamente – da invasão árabe e africana. Que Lapouge tenha sua opinião pessoal sobre a política de imigração da França é uma coisa. Que falseie a realidade omitindo fatos que não desconhece, é outra e bem mais grave.

Sábado, Setembro 19, 2009
 
COPISTAS, TRADUTTORI E TRADITORI


Pois, Quaglio, as diferentes traduções do versículo de Samuel sobre a serra é talvez a demonstração mais contundente de que não se pode confiar em tradução alguma da Bíblia. Houve um grande esforço em amenizar os métodos do sábio rei Davi. De nada te adiantaria ser capaz de ler o texto em hebraico. Pois não existe mais texto original algum da Bíblia. Nem mesmo cópias em primeira mão. Sequer cópias de cópias de cópias. O que hoje temos são cópias de muitas outras cópias anteriores.

O que me remete ao livro citado de Bart Ehrman, O que Jesus disse? O que Jesus não disse? – Quem mudou a Bíblia e por quê, que me foi recomendado pelo leitor Ricardo Donizetti. O autor tem uma trajetória igual à minha. Lendo a Bíblia, perdeu a fé. Só que foi bem mais longe do que eu. Estudou grego e hebraico para conseguir ler o Livro no original. Mais ainda: foi atrás de cada fragmento das cópias que ainda restam da Bíblia, em diferentes bibliotecas, para cotejá-las. Meu caminho foi bem mais singelo.

Inicialmente, li a Bíblia apenas em português. De alguma forma, nela algo há de restar do livro original. O que restou foi suficiente para convencer-me que o tal de deus é uma criação da mente humana. Desde muito jovem, tornei-me ateu. Ehrman, na verdade, não ousou tanto. Tornou-se agnóstico. O que, a meu ver, é ficar em cima do muro. Mas sua reflexão sobre as modificações – involuntárias ou propositais – dos textos originais é fundamental para todo estudioso da Bíblia.

Segundo Ehrman, um estudioso da Bíblia, John Mill, membro do Queens College, Oxford, examinou cerca de cem manuscritos gregos e neles encontrou trinta mil variantes. Outros pesquisadores fazem estimativas bem mais discordantes. “Alguns falam de duzentas mil variantes conhecidas, outros de trezentas mil, alguns falam de quatrocentas mil ou mais! Mas não se tem certeza, porque, apesar dos impressionantes avanços da informática, ainda não houve quem fosse capaz de contar todas. Talvez, como eu já disse, seja melhor falar em termos comparativos. Há mais variações entre os nossos manuscritos que palavras no Novo Testamento”.

Os copistas que reproduziram os textos originais, ao longo dos séculos, foram influenciados por controvérsias políticas, teológicas ou culturais de suas épocas. Sem falar que muito copistas sequer conheciam a língua da qual copiavam. Apenas reproduziam as formas das letras que viam. Um escorregão da pena e o sentido de uma palavra podia mudar muito.

“Com isto se quer dizer que, uma vez que um copista muda um texto – acidental ou intencionalmente -, essas mudanças se tornam permanentes em seu manuscrito (a menos, é claro, que outro copista venha a corrigir o erro). O próximo copista que copia aquele manuscrito copia os erros (pensando serem eles a genuína expressão do texto) e ainda pode acrescentar erros de sua própria lavra. Depois disso, o próximo copista que copia aquele manuscrito copia os erros de todos os seus predecessores e acrescenta erros de sua própria lavra, e assim vai. A única forma de os erros serem corrigidos é quando um copista reconhece que um predecessor cometeu um erro e tenta consertá-lo. Mas não há garantia, porém, de que um copista que tenta corrigir um erro corrija-o corretamente. Isto é, ao mudar o que lhe parece um erro, ele pode, de fato, mudá-lo incorretamente, de modo que se passa a ter três formas de texto: o original, a versão errada e a tentativa incorreta de resolver o erro. Os erros se multiplicam e se repetem; algumas vezes são corrigidos, outras são ampliados. E assim por diante, durante séculos”.

Ou seja: lasciate ogni speranza, voi ch'entrate na leitura dos textos bíblicos. Não existe livro no mundo que tenha sido mais deturpado ao longo dos séculos. Cada época, cada copista, cada tradutor puxa brasa para seu assado. A meu ver, o caminho mais curto para se tornar ateu é ler atentamente a Bíblia. Ehrman, homem de fé, não conseguiu chegar lá. Mas pelo menos colocou sua fé entre parênteses.

Recomendo vivamente, a todo estudioso de assuntos bíblicos, a leitura de seu ensaio. Para aproveitar o azo, recomendo mais um, O Problema com Deus, no qual o autor analisa as respostas que a Bíblia não dá ao sofrimento no mundo.

E boas leituras, leitor!

 
REI DAVI E TRADUÇÕES


Olá Janer,

Saudações!

Lendo seu texto recente sobre o Hildebrando, o Luiz Francisco e o Rei Davi, comparei a redação dada ao versículo 31 de II Samuel 12 por diferentes tradutores da Bíblia. Você mencionou em outro artigo que tradução é impossível, mas necessário. Alguns traduttori, no entanto, são mais traditori que outros. Infelizmente não sou capaz de ler o texto em hebraico, e estou muito curioso para saber como o mencionado versículo é redigido nos textos mais antigos. Na vulgata, o texto dá a impressão que Davi serrou, esmagou e mandou para o forno os corpos dos habitantes de Rabá (...populum quoque eius adducens serravit et circumegit super eos ferrata carpenta divisitque cultris et transduxit in typo laterum...). As diferentes edições da tradução de Almeida (lembre-se de que existem várias edições modificadas da Bíblia de Almeida, e algumas diferem entre si como se fossem traduções diferentes) sugerem claramente o mesmo (...fê-lo passar a serras, e a picaretas, e a machados de ferro e em fornos de tijolos..., na edição revista e atualizada, e ...pôs [o povo] às serras, e às talhadeiras de ferro e aos machados de ferro, e os fez passar por forno de tijolos... na edição revista e corrigida). A King James Version, mais célebre tradução da Bíblia para a língua inglesa, também é clara em seu texto (...put them under saws, and under harrows of iron, and under axes of iron, and made them pas through the brickkiln...).Tenho uma tradução protestante italiana da Bíblia (isso mesmo, italiana e protestante, valdese). Lá também se lê sobre a matança, com um texto ainda mais explícito, sem ambigüidades (...mise i loro corpi sotto dele seghe, degli erpici di ferro e delle scurri di ferro, e li fe' gettare in fornaci da mattoni...).

Algumas traduções, porém, mudam completamente o sentido do texto. Tenho comigo aqui três Bíblias cujos textos sugerem que Davi não fez picadinho e assado dos amonitas de Rabá, mas apenas os fez trabalhar com as ferramentas e os fornos aludidos. Uma versão revisada da tradução de Almeida, publicada pela Imprensa Bíblica Brasileira (ligada à Igreja Batista), traz em seu texto esta narrativa mais branda (... os pôs a trabalhar com serras, trilhos de ferro machados de ferro e em fornos de tijolos...). Uma Bíblia que possuo, publicada pela Editora Vozes, cuja tradução foi feita por diversas pessoas (os dois livros de Samuel foram traduzidos por um certo João Kipper) também abranda a conquista de Rabá (...ele os deportou, pondo-os a manejar serras, picaretas e machados de ferro e a trabalhar no fabrico de tijolos...). A última tradução que tenho, para a língua espanhola, é a de Casiodoro de Reina, de 1569, porém revisada em 1960, e publicada por protestantes. Não sei como estaria a redação do versículo na edição de 1569, mas esta revisão de 1960 também abranda a conquista (...y los puso a trabajar con sierras, con trillos de hierro y hachas de hierro, y además los hizo trabajar en los hornos de ladrillos...).

Quais traduções estão corretas? Provavelmente nenhuma. Há pouquíssimas fontes históricas confiáveis sobre Davi. O "Davi histórico", em comparação com o Davi da Bíblia, é tão nebuloso quanto o "Jesus histórico". Há até quem tenha dúvidas sobre a existência do famoso rei. Hoje já se sabe, com bastante segurança, que os relatos bíblicos sobre Davi e Salomão são exagerados, fruto de ufanismo do Reino de Judá, sulista, que pretendia afirmar sua superioridade em face do Reino de Israel, ao norte. Davi, cuja existência é bem possível, provavelmente era um simples chefe tribal de Judá, e jamais um conquistador e mantenedor do um império. O grande reino unificado do povo hebreu, fundado por Saul, expandido por Davi e que atingiu o auge com Salomão, provavelmente nunca existiu.

Aproveito para agradecer a recomendação do livro de Bart D. Ehrman, que eu não conhecia. Vou ler assim que puder.

Um grande abraço,

Humberto Quaglio

Sexta-feira, Setembro 18, 2009
 
PROCURADOR EX-SEMINARISTA
ACUSA DISCÍPULO DO REI DAVI



Nesta segunda-feira que vem, deverá sentar no banco dos réus para ser julgado pelo “crime da motosserra”, o ex-deputado Hildebrando Pascoal. Afirma o folclórico procurador da República, Luiz Francisco Fernandes de Souza, ex-seminarista, 47 anos, principal responsável por desarticular a organização criminosa da qual o deputado era o líder e que submeteu o Acre ao terror e barbárie nas décadas dos 1980 e 1990:

“Espero também que ele, na prisão, pegue a Bíblia, leia, se acerte com Deus direitinho e possa até cuidar melhor da esposa e dos filhos dele. Ele e eu, quando morrermos, vamos nos encontrar com Deus. É bom que a gente tenha coisas boas para poder mostrar a Deus. O “diacho” é que foram muitos crimes que ele praticou. Claro que não tenho a menor raiva de ninguém, graças a Deus, e torço para que não aconteça nada de mal com ele. Eu só não gosto da impunidade. Quando uma pessoa é serrada viva, neste caso não pode ter impunidade”.

Pelo jeito, o ex-seminarista sempre manteve uma distância respeitosa da Bíblia. Se tivesse uma relação mais íntima com o Livro, teria de condenar um dos mais relevantes personagens bíblicos. Se o deputado ler atentamente atentamente a Bíblia, encontrará precedente para seus crimes. Se Davi pode, porque Pascoal não pode?

A serra, muito usada no século XVIII, é tida como criação espanhola. A não ser pelos dentes mais espaçados, em nada difere de uma prosaica serra de madeira. Pelo que vi em uma xilogravura que explica a utilização do instrumento, pareceu-me que naquele século faltou imaginação ao verdugo: pendurava-se a vítima pelos pés em uma vara, e dois homens passavam a serrá-la, a partir do cóccix. Tortura idiota, pensei, o homem deve morrer já no início do suplício. Santa ingenuidade minha! Devido à posição invertida do corpo, que garante suficiente oxigenação ao cérebro e impede a perda geral de sangue, a vítima só perdia a consciência quando a serra alcançava o umbigo e, às vezes, o peito.

Embora se associe este suplício à Espanha, sua origem vem de época em que nem se pensava em Espanha. Os leitores atentos da Bíblia devem lembrar que o rei Davi (II Samuel 12:31) exterminou os habitantes de Rabbah e de todas as outras cidades amonitas submetendo homens, mulheres e crianças ao suplício da serra e sofisticações outras da época. Era aplicada preferentemente a homossexuais de ambos os sexos. Na Espanha foi utilizada como método de execução militar, na Alemanha luterana era destinada aos líderes camponeses rebeldes e, na França, fazia justiça às mulheres emprenhadas por Satanás.

Se procedem as acusações feitas ao deputado Hildebrando Pascoal, diga-se em sua defesa que ele apenas recorreu a milenares métodos bíblicos de execução. Foi discípulo do sábio rei de Israel.

 
CONGRESSO AMNÉSICO APROVA
LEI QUE JÁ FORA APROVADA



Quando vivi na Escandinávia – e já lá vão quase quarenta anos - para o Estado sueco eu era o cidadão nº 4707029917. As seis primeiras cifras indicam a data de nascimento. O número pertence a um homem, pois as três cifras seguintes são ímpares. Para uma mulher, teríamos, por exemplo, 864. A última cifra é dada por um computador e estabelece a univocidade do número pessoal. Para conferir-se se o número está correto, dobra-se alternadamente suas cifras, começando pela primeira, o que dá 08 7 00 7 00 2 18 9 02 7.

Somadas estas cifras uma a uma, temos 60, o que indica estar correto o número, pois a soma é divisível por 10. Relatei estes fatos em meu primeiro livro, O Paraíso Sexual Democrata, publicado em 1973. Até aí, tudo muito prático. Ocorre que o cidadão é interrogado sobre seu número pessoal, em quase todas as circunstâncias de sua vida. Ao se matricular na universidade, comprar a crédito, solicitar auxílios sociais, internar-se em hospital, pagar multas de trânsito, casar ou divorciar-se, está alimentando um banco de dados. Não existem limitações para o tipo de dados que podem ser registrados num computador, sejam verdadeiros ou falsos.

A Suécia, na época, era um dos países mais informatizados do mundo e o problema começava a causar inquietações. O alerta foi dado por Harry Björk, na antologia Kontrol av Individen (Controle do Indivíduo), publicada em Lund, 72. "A limitação prática dos dias atuais - dizia o autor na época - é que as informações devem ser expressas em letras e cifras". Hoje, nem esta limitação existe.

Björk sugeria um exemplo no qual dados inocentes, uma vez combinados, produziriam novos efeitos: a compra de um casaco de pele para senhora, nº 42. Ora, A é casado com a senhora A, que veste 38. "Os que dispõem destes dados combinados, dando apenas asas à fantasia e talvez se informando um pouco sobre a vida da família, têm elementos para tudo, entre a difamação, calúnia e chantagem". Se considerarmos que nos bancos de dados das associações estudantis suecas constavam desde os certificados obtidos até eventuais contribuições para movimentos guerrilheiros no Exterior, temos uma pálida idéia do que o Estado sabia a respeito do cidadão. Na época, lei nenhuma regulava o comércio de informações.

Número pessoal mais informática mais bancos de dados, além de prevenir e permitir a punição de não poucas falcatruas, tornam mais clara a administração pública. Mas invadem inexoravelmente a vida de cada um. É comum citar-se George Orwell e 1984 quando pairam ameaças à privacidade do cidadão. Isso porque tiveram pouca fortuna em língua portuguesa livros anteriores, como o magnífico Kalocain, de Karin Boye (que tive a honra de traduzir do sueco e talvez possa ser encontrado em algum sebo) e o menos conhecido Nós, de Evguéni Zamiatine. Na distopia do autor russo, as paredes dos edifícios são de vidro, pois afinal cada cidadão nada tem - ou não deve ter - a esconder do Estado.

No livro da autora sueca, mediante a injeção da droga kalocain, todo cidadão confessa alegremente qualquer pensamento ou ação contra o Estado. O desejo kantiano de transparência, por parte dos ideólogos destas sociedades, torna-se hoje cada vez mais factível graças ao computador. Não por acaso, um dos movimentos que contribuiu para a derrocada do comunismo chamava-se glasnost. Em russo, transparência.

Cá no Brasil, onde ninguém tem interesse algum em transparência, haja memória para carregarmos vida afora os números que nos identificam. Eu resolvi o problema de maneira simples. Só sei de cor meu CPF e meu código postal. Não penso sobrecarregar meu modesto HD com dados inúteis. Os outros números ficam na memória RAM. Mal desconecto o cérebro – e sempre o desligo quando vou dormir - eles se volatilizam.

Leio nos jornais que a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) aprovou, quarta-feira passada, parecer do senador Almeida Lima (PMDB-SE) favorável a projeto do deputado Celso Russomano (PP-SP) que altera a Lei 9.454/97 para definir que, à medida que forem sendo adquiridos, o Cadastro de Pessoa Física (CPF), a Carteira de Trabalho e Previdência Social, a Carteira Nacional de Habilitação, o passaporte e quaisquer outros documentos necessários ao cidadão terão o mesmo número do Registro de Identidade Civil.

O oportuníssimo projeto aprovado na CCJ segue agora para o Plenário. É possível que haja resistência à nova lei. O Congresso desde há muito trabalha no sentido de proteger interesses escusos e um número pessoal é um breve contra a criminalidade. Com distintos números identificativos, nada impede que alguém cometa fraudes em diferentes Estados sem ser identificado como o mesmo criminoso. Com o número pessoal, isto se torna mais complicado. Até aí, palmas ao projeto do deputado Russomano.

Só há um porém. O Senado Federal aprovou, em 1996, lei de autoria do senador Pedro Simon, que instituía um número único para cada cidadão brasileiro, composto de letras e algarismos. Com a nova regra, seriam extintos todos os atuais cartórios de registro civil. Tudo seria centralizado num único cartório, responsável pelo Cadastro Nacional de Registro Civil. Em abril de 97, o presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou o projeto. Esta lei, que de certa forma regulamenta o imperativo categórico kantiano, devia entrar em vigor cinco anos depois, ou seja, em 2002. No Brasil, as leis pegam... ou não pegam. Pelo jeito, esta não pegou.

Em um Congresso cujos parlamentares renovam seus mandatos por décadas, bem que poderia existir pelo menos alguma alma com um mínimo de memória capaz de lembrar que, há pouco mais de dez anos, a lei que agora está sendo discutida já havia sido aprovada.

Quinta-feira, Setembro 17, 2009
 
COMENTÁRIO DO CATELLI


Grande Janer,

“Para começar eu diria que o normal seria as pessoas gostarem de música erudita.”

Não gosto muito do termo “erudita”, tampouco do “clássica”, que se refere a um período precedido pelo barroco e sucedido pelo romântico. Música clássica é Mozart, Haydn, Glück, Salieri, etc. Música romântica é Beethoven, Brahms, Berlioz, etc.

Eu e um amigo nos referimos a ela como “A Música”, afinal foi, com suas inúmeras variantes, a música por séculos, e incorporava elementos folclóricos, marciais, exóticos. Os estilos atuais são variações de música dançante, com harmonia pobre e sem muita inventividade, notórios pelo autoditatismo, que impede a evolução e torna tudo mais do mesmo, pelo caráter de artesanato e não de arte. Apesar de eu gostar de rock, a harmonia do 1-4-5-1 e quase tudo o que se faz é anjinho de pedra sabão vendido na saída de Ouro Preto. É artesanato.


“Não considero que se precise conhecer música a fundo para gostar de ópera.”

Acho que devemos conhecer o “idioma” para entender o que o compositor pretende dizer. Só captei o idioma de Richard Strauss, seus termos, suas alusões, após ouvi-lo algumas vezes. Incrível como hoje sua Elektra, moderna, sangrenta, me parece mais grega do que qualquer música pueril, que a mim chegasse, da época de Agamenon. Já Verdi, por exemplo, é de um idioma muito conhecido. Se nunca escutamos determinada ópera sua e, pelo libretto, vemos que um confronto é iminente entre rivais, esperaremos um (belíssimo, provavelmente) umpá-umpá marcial com o tenor e o barítono sobressaindo do coro e um gran finale com mudança de Ato.

“Quando me perguntam se uma ópera foi bem executada, minha resposta é: ‘não sei’”

Alguém pergunta, depois de uma Tosca com aquele ceguinho:

- O que você acha da execução do Andrea Bocelli?

- Acho demais... Prisão perpétua já está bom!

“Não conheço música a ponto de saber se os cantores foram sublimes em suas interpretações. Fico apenas no adorei, gostei ou não gostei.”

Faltou o “detestei”, para o caso do Bocelli cantar. Aliás, qual o desafio em cantar sendo cego? Ouve-se gente dizendo: “nossa, ele canta tão bem e é cego...” Beethoven compor surdo é outra coisa....


“Uma mulher gorda ou velha pode cantar muito bem Carmen. Daí a representá-la, em carne e osso, vai uma longa distância.”

Desde que cante bem, não me importa a sua aparência.


“Sou capaz de rever e rever a versão filmada de Francesco Rosi, com Julia Migenes.”

Só não gosto de ver ópera dublada, que é este caso. Às vezes abrem pouco a boca e sai aquele vozeirão... Incomoda-me sobremaneira


“Vou mais longe: Carmen, se não tiver cara de puta, não convence.”

E Micaela deve ser aquele anjo... Aliás, aquela sua ária (Je dis que rien ne m'épouvante) antes de encontrar o José decadente vivendo com contrabandistas é de cortar o coração...


“Música erudita é como literatura. Você começa lendo autores como Machado e passa a detestar toda a literatura.”

Não adianta, nada escrito hoje se compara aos grandes do passado. Acho que porque havia escolas, mestres, dedicação, ócio. Hoje impera o autodidatismo e o maldito improviso. Sem falar que para existir um Mozart deve-se ter mil compositores bons em um universo fervilhante como a Viena do século XVIII. É preciso uma imensa base de pirâmide para existir um ápice.

Estive lendo alguns contos que não conhecia de Maupassant, e relendo outros, como Bola de Sebo (que o Chico plagiou na sua Geni e o Zepelim) e Yvonne, e fiquei abobado... Garcia Márquez, Saramago e qualquer outro Nobel atual passa a ser emético quando lido após os clássicos (usei o termo errado, eu sei).


“A ópera foi um gênero popular entre os séculos XVII e XIX. Era o cinema da época...”

O povão levava comida gordurosa e fazia a maior farofa, cantava junto, interrompia uma ária, vaiava, pedia para repetir quando cantava o tenor famoso (a ária do Arlecchino, no Pagliacci, foi repetida incontáveis vezes na estréia). Fãs de um compositor usavam matraca para atrapalhar a ópera do compositor rival, etc. Hoje há uma certa empáfia entre os que gostam de ópera. Têm-se em alta conta apenas por conhecer ou gostar, quando o mérito há em compor, não em gostar. Se algum desavisado aplaude entre movimentos, logo os "conhecedores" fazem "shhhhhht" e meneiam a cabeça, como se estivessem de fato injuriados com a grosseria... Parvoíce!


“Uma das poucas coisas que gostei em Nova York foi a nonchalance dos freqüentadores do Metropolitan ou da City Opera. Não lembro de ter visto ninguém emperiquitado.”

Estive lá em janeiro deste ano e assisti a uma montagem minimalista do Orpheo Ed Euridice (versão italiana; prefiro a francesa) de Glück e constatei exatamente isso. Ponto a favor dos americanos. Gostei também da legenda opcional sobre a cadeira da frente, em alemão, inglês ou espanhol.


“Ópera é o espetáculo multimídia por excelência...”

Wagner que o diga. Foi o arquiteto do teatro, inventou o fosso da orquestra, inventou a poderosa tuba de Bayreuth, desenhou os cenários, o figurino, escreveu o libretto – excelente, aliás -, e a maravilhosa música, claro.


“O libreto de Don Giovanni é de uma poesia extraordinária.”

Sou fã do Lorenzo da Ponte!


“Uma missa cantada sempre tem um pouco de ópera.”

Principalmente as missas mais recentes, de Beethoven (solemnis), Cherubini (réquiem), Rossini (stabat mater) e de Verdi – o seu mais-do-que-operístico réquiem. E Dvorak (requiem), Fauré (requiem), etc.


“Nós, ateus, não somos hostis à grande arte. Ainda que religiosa.”

Eu escrevi, recentemente: Muitos consideram o Vaticano um bom exemplo de inspiração divina, do quão alto o homem pode ir motivado pela fé no verdadeiro deus. Ora, na Renascença, o mesmo artista que pintava uma madona ou um menino Jesus poderia pintar, enquanto a outra obra secava, uma Afrodite e um menino Hércules lutando contra serpentes. Para ambos temas às vezes eram os próprios papas os clientes, que encomendavam obras sacras para as igrejas e profanas para seus palácios. Tudo que um artista precisa é de técnica, demanda, competição, remuneração e até mesmo de um pouco de inspiração e talento.

Os devotos veem mais santidade em um lugar como a Basílica de São Pedro do que em uma capelinha miserável no interior do Piauí com rachaduras nas paredes e ar cheirando a ricota velha, ainda que para eles o pão transubstanciado em carne no interior do Piauí não deveria ser menos Cristo do que aquele transubstanciado perante o Papa B16. Mas o que a presença física do próprio Cristo pode contra Bernini, Bramante e Michelangelo? Nada! A aura "santa" que se sente no Vaticano sente-se também no Louvre, embora no primeiro caso a fé potencialize a sensação e crie aquela estupefação pretendida por Leão X.

Um abraço!

André Catelli

 
TÁ TUDO DOMINADO


As viúvas do Kremlin estão monopolizando as eleições de 2010. Mês passado ainda, eu afirmava que todos os eventuais candidatos à Presidência da República são de extração marxista. José Serra, que hoje posa de tucano liberal, foi um dos fundadores da Ação Popular (AP), um dos braços marxistas da Igreja Católica. Dilma Roussef, hoje petista, foi terrorista dos quadros do COLINA e da VAR-Palmares. Já Ciro Gomes, que declarava em meados de agosto estar pessoalmente decidido – “eu já escolhi. Sou candidato à Presidência” – fez percurso inverso. Iniciou sua carreira na Aliança Renovadora Nacional, a famigerada Arena que deu sustentação à ditadura militar, girou bolsinha no PPS, atual nome de guerra do antigo Partido Comunista Brasileiro e hoje faz ponto no PSB, também de origens marxistas.

O Supremo Apedeuta certamente não lê blogs, mas até parece ter lido. “Pela primeira vez, não vamos ter um candidato de direita na campanha. Não é fantástico isso? Vocês querem conquista melhor do que, numa campanha, neste país, a gente não ter nenhum candidato de direita? Uns podem não ser mais tão esquerda quanto eram. Não tem problema. A história e a origem dão credibilidade para o presente das pessoas. Era inimaginável até outro dia que chegássemos a esse momento no Brasil. Não tem um candidato que represente a direita. É fantástico”.

É uma maneira de ver a coisa. O que Lula omite é que todos são, de uma forma ou outra, ligados à filosofia que afundou no final do século passado. Só neste Brasil que sempre vai a reboque da História o eleitor não terá, ano que vem, opção: ou vota em velhos comunistas ou vota em um comunista novo. Ao afirmar que é fantástico não ter nenhum candidato de direita, Lula está assumindo seu viés totalitário. É o antigo braço do Dr. Strangelove, que se ergue em movimento involuntário, na saudação nazista. Em uma democracia, o normal é que haja candidatos de todas as ideologias. Nas eleições de 2010, teremos representantes de uma ideologia só. Tá tudo dominado. Blanc bonnet, bonnet blanc - como dizem os franceses. O eleitor terá de optar entre seis e meia dúzia.

“Antigamente – prossegue o êmulo de Castro e Hugo Chávez - a campanha era o candidato de centro-esquerda ou de esquerda contra os trogloditas de direita. Começou a melhorar já comigo e com o Fernando Henrique Cardoso, já foi um nível elevado. Depois, eu e o Serra também. Depois veio o Alckmin e baixou o nível, por conta dele, não por minha conta”.

Fernando Henrique ou Serra, em suas campanhas, jamais ousaram dizer uma palavrinha contra Lula. Como Alckmin fez algumas críticas a Lula, logo é jogado no rol dos trogloditas de direita. Neste sentido, Lula demonstra sua profundidade identidade com o senador corrupto. Para Sarney, se a imprensa o critica, é inimiga das instituições. Tanto um como o outro sonham com o paraíso de todos os tiranos: um país onde não haja oposição nem dissidência alguma. O pior é que, ao que tudo indica, acabamos de chegar lá.

Que Ciro, Dilma ou Marina não façam oposição a Lula até que se entende. São gatos do mesmo saco. Mas Serra, que se apresenta como o mais viável candidato à sucessão, bem que poderia ousar criticar os desmandos e abusos do poder do PT. Mas Serra não ousa. Nenhum candidato ousaria. Ou seja, oposição no Brasil é conversa pra boi dormir.

É a mexicanização da política no Brasil. Após a Revolução de 1910, o México foi governado durante sete décadas por um único partido, o Partido Revolucionário Institucional, o PRI. Sob a aparência de democracia, durante sete décadas o México viveu uma ditadura. Este é o sonho de todo marxista. Tanto que as ditaduras do mundo soviética adoravam apresentar-se como “democracias populares”. Filhos espirituais de Marx, os petistas não pensariam diferente.

Os intelectuais que assinaram manifesto contra a Folha de São Paulo por ter definido o regime militar como uma ditabranda, ainda não perceberam o que seja uma ditabranda. É o que estamos vivendo. Anátema seja toda crítica ao Grande Guia. O Judiciário e o Legislativo já foram domesticados. Só resta a imprensa para denunciar os desmandos e a corrupção. Mas tanto faz como tanto fez que jornais denunciem corruptos. O Judiciário e o Legislativo os absolvem.

E ainda há quem me reprove por ter deixado de votar há mais de duas décadas.

Quarta-feira, Setembro 16, 2009
 
TRADUÇÃO TEM VALOR LITERÁRIO?


De Thiago Peixoto, recebo:

Gostaria de saber sua opinião sobre traduções de romances. Ouvi uma professora universitária dizer que é impossível compreender uma obra fora de sua língua original. Não concordei e citei como exemplo o fato de que quase ninguém leria Dostoievski em russo e nem por isso perderia a oportunidade de ler uma obra profunda. Ela disse que quem lê Dostoievski fora do russo é um leitor simplório.
Eu acredito que uma tradução deveria carregar todo o sentido da obra, mesmo que se percam alguns detalhes estéticos, pois isto não seria prejudicial ao leitor. Na sua opinião, uma tradução é algo sem valor literário?



Traduzir é impossível, Thiago. Mas é necessário. Ninguém fala todas as línguas do mundo. Mas é claro que se perde algo do texto original. O ideal é ler Dostoievski em russo. Mas nem todos o conseguem. Por outro lado, há livros intraduzíveis.

O Tratado Geral dos Chatos, de Guilherme de Figueiredo, é um deles. Contou-me Figueiredo que recebeu propostas de tradução, mas teve de recusá-las. Sugeriu aos editores que pegassem sua idéia central e construíssem um outro texto. O livro se apóia em uma série de trocadilhos e nas diversas acepções da palavra, que vão desde o chato, como o entendemos, até o Phtirius púbis, aquele piolhinho pubiano que nos chateia terrivelmente. Figueiredo propõe até mesmo um aparelho para medir o nível de chatice de um chato, que batizou de chateômetro de Figueiredo. Elabora inclusive as leis da chateação. Uma delas é brilhante: dois chatos entre si não se chateiam. Ora, estes jogos verbais são de impossível tradução.

Eu mesmo me deparei com esse problema. Pensei certa vez em traduzir um poema relativamente curto, o Fausto, do argentino Estanislao del Campo. É um dos grandes momentos da gauchesca, anterior ao Martín Fierro. O entrecho é singelo. Um gaúcho vê o Fausto, de Goethe, “en el tiatro de Colón”, em Buenos Aires. Pega seu pingo e, ao voltar a seus pagos, encontra um outro gaúcho na estrada. Conta então, a seu modo, o que viu no palco. Dá para traduzir? Claro que dá. Mas o poema perderá muito. Melhor construir uma outra história.

O Martín Fierro, por exemplo. Há muitas traduções da obra, mas sempre se distanciam do original. Tenho quatro traduções, em francês, inglês, italiano e português. A inglesa é um asco. Curiosamente, a que mais se aproxima do original é a italiana. Há duas traduções no Brasil, uma do Nogueira Leiria e outra do Walmir Ayala. O Leiria, homem conhecedor do campo, fez o que pode. A do Ayala, poetinha urbano, é bichesca. Fierro mais parece um gaúcho dançando chula de leque em punho.

Ainda há pouco, li o excelente O Cântico dos Cânticos – Um ensaio de interpretação através de suas traduções, de Geraldo Holanda Cavalcanti, presente da Primeira-Namorada. É um belo estudo das diferentes traduções do poema, um dos mais complexos e mais curtos livros da Bíblia, terá apenas umas dez páginas. Sem conhecer as inúmeras traduções do texto, a de Fray Luis de León pareceu-me melhor que as traduções bíblicas que já li. Não direi melhor que o texto original, já que deste não temos mais notícias. Tampouco eu teria condições de lê-lo. O frei traduz o poema em versos rimados, o que já é um grande feito intelectual.

Mas traduzir pode ser perigoso. Por ter traduzido este poema e mais alguns textos bíblicos, Fray Luis foi perseguido pela Inquisição. Teve sorte, foi condenado a apenas quatro anos de prisão. Na universidade de Salamanca, estive na sala onde dava aula, preservada ainda hoje como era no século XVI. Consta que, ao voltar à universidade, em 1576, continuou a aula que havia sido interrompida pelos inquisidores em 1572: “Como decíamos ayer...”

Pode ocorrer que a tradução seja até melhor que o original. Por exemplo, O Corvo, do Poe. Acho a tradução do Fernando Pessoa muito melhor que o texto do poeta americano. Pessoa encontrou uma solução de gênio para a rima Lenore e nothing more. (Há uma tradução do Machado de Assis que é um desastre. Ovelha não nasceu para mato). Muitos outros casos semelhantes existirão na história da literatura. As traduções são como as mulheres – diz-se entre tradutores -. Quanto mais belas, mais infiéis.

O leitor devia perguntar a essa professora se ela consegue ler a Bíblia no original. Raríssimas pessoas no mundo são capazes disso. Para começar, os originais não mais existem. Nem por isso vamos deixar de ler a Bíblia. A propósito, recomendo vivamente a leitura de O que Jesus disse? O que Jesus não disse? – Quem mudou a Bíblia e por quê, de Bart D. Ehrman. É um ensaio brilhante sobre as modificações dos textos bíblicos durante os séculos, seja por obra de copistas ou de tradutores. O autor tem uma trajetória curiosa. Estudou grego e hebraico para ter acesso aos originais. Descobriu então que de original nada mais existe da Bíblia. Foi atrás dos fragmentos de cópias de cópias de cópias e cotejou as traduções. Acabou perdendo a fé.

A professora que afirmou que quem lê Dostoievski fora do russo é um leitor simplório é uma esnobe que deve ter estudado russo. Se Dostoievski tivesse de ser lido apenas em russo, não teria os milhões de leitores que hoje tem no mundo. Por outro lado, quem quer que não conheça russo, estaria teoricamente impedido de lê-lo.

 
O CORVO, DE POE,
TRADUZIDO POR
FERNANDO PESSOA



Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigos, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
E a minhalma dessa sombra que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

Terça-feira, Setembro 15, 2009
 
MINISTRA ARRISCA
CRIAR MÁRTIRES



Já falei da cientologia. É uma religião criada por um escritor de ficção científica. Lafayette Ron Hubbard (1911-1986), vendo que sua literatura estava rendendo pouco para seus parâmetros, decidiu investir em mercado mais lucrativo, o das angústias humanas. Há 75 milhões de anos, dezenas de planetas eram governados por um líder maligno, Xenu. Para sanar um problema de superpovoamento, Xenu teria segregado bilhões de seus habitantes na Terra. Eles foram mortos com bombas de hidrogênio, e seus espíritos - os thetans - passaram a vagar pelo planeta. Os thetans foram ainda submetidos a um processo que os tornou inaptos a tomar decisões. Cada habitante da Terra atual seria uma reencarnação desses espíritos.

Que tal? Parece história em quadrinhos. No entanto, são os fundamentos da nova crença, que está em franca expansão em países ricos, como os Estados Unidos e a Europa. Entre seus crentes e financiadores estão estrelas como Tom Cruise, John Travolta e Lisa Marie Presley. A religião foi criada nos anos 50 e já tem quase 10 milhões de fiéis. Tribunais da Alemanha, Áustria e Holanda definiram a cientologia como seita gananciosa, filosofia inescrupulosa, lavagem cerebral.

Leio no Estadão que a seita é suspeita de obrigar seus adeptos a comprar apostilhas, livros, vitaminas e equipamentos como o "electrômetro", que custa 5 mil euros (cerca de R$ 14 mil), apresentado como "um instrumento importante para os cursos". A seita está sendo julgada na França por estelionato e formação de quadrilha. Segundo o juiz que instruiu o processo, o "electrômetro" só visa "dar uma aparência científica aos testes". Já as vitaminas, diz o juiz, têm efeitos nocivos e teriam o objetivo de "deixar as pessoas em um estado de cansaço profundo, que levam a uma exclusão progressiva do círculo social".

Toda a religião é ficção, é claro. Hubbard adaptou a sua à chamada era espacial. Enquanto os teólogos católicos recém começam a admitir a vida em outras galáxias, Hubbard situa seu gênesis em um conglomerado de planetas. Terá tido influências de paladinos célebres das histórias em quadrinhos: Flash Gordon, Superman, capitão Marvel. Numa época em que até marmanjos lêem histórias em quadrinhos e críticos literários as levam a sério, sua religião tinha tudo para prosperar.

Michèle Alliot-Marie, ministra da Justiça na França, anunciou hoje no canal Europe 1 que depositará junto às Cortes uma medida que restabelecerá a possibilidade de dissolver as seitas por estelionato. Ontem ainda, a Milivudes (Missão Inter-ministerial de Luta contra os Desvios Sectários) afirmava que uma modificação da lei, ocorrida em 12 de maio passado, não permite mais a um magistrado de fazê-lo, o que suspenderia o risco de dissolução da Cientologia, perseguida por fraude em Paris.

A lei votada na França em maio passado suprime a pena de dissolução de uma pessoa moral por estelionato, o que só favorece a religião criada por Hubbard. "Quando passou a lei de simplificação e de abrandamento dos procedimentos, não nos damos conta que ao mesmo tempo ficava proibida de certa maneira que grupos tais como estas seitas pudessem ser dissolvidos - disse a ministra -. Vou apresentar por ocasião do próximo texto penal uma medida que permitirá dissolver principalmente os grupos ou seitas que pratiquem fraudes; será uma peça complementar como já foi antes".

Não me parece brilhante a idéia da ministra. Há uns vinte séculos, judeus e romanos tentaram dissolver uma seita de malucos, que falavam de um deus três-em-um, de uma mãe virgem, de um judeu que ressuscitou dos mortos e vigarices outras. Os judeus até conseguiram mandar o líder para a cruz, o que foi feito pelos ocupantes romanos da Galiléia. De nada adiantou. O império romano morreu e Israel permaneceu em pé, mas tornou-se minoritário diante da horda de fanáticos que aderiram à nova seita. A Igreja de Roma, durante séculos, mandou judeus para a fogueira e hoje impera, triunfante, no Ocidente. Dissolver seitas de pouco adianta. Nunca faltam malucos que adoram o martírio.

Já mandar estelionatários para a cadeia, não é apenas uma boa idéia, mas dever de todo Estado organizado. A França já pensa no assunto. No Brasil, ni pensar. Afinal os grandes vigaristas neopentecostais significam um alto percentual de votos, votos dos quais precisa o presidente da República. Longa vida a Edir Macedo, R. R. Soares, Silas Malafaia, bispa Sonia e apóstolo Hernandes.

Em todo caso, já é um passo pretender mandar para a cadeia estelionatários que se travestem de pastores. Claro que isto é utópico no Brasil, onde vigaristas religiosos dominam jornais e cadeias de televisão.

O fato é que não são apenas as novas seitas que fazem fortuna enganando pobres de espírito. Foi assim que a antiga seita venceu e se impôs ao Ocidente.

Segunda-feira, Setembro 14, 2009
 
SE CORRER O BICHO PEGA,
SE FICAR O BICHO COME



Os ativistas semeadores do ódio racial não descansam. Encontram racismo em frases ou incidentes onde não há racismo algum. Está dando volta ao mundo um vídeo onde o ministro do Interior francês, Brice Hortefeux, ao falar com um rapaz meio árabe - e meio português, a bem da verdade - disse: «Il en faut toujours un. Quand il y en a un ça va. C’est quand il y en a beaucoup qu’il y a des problèmes».

Traduzindo: "É preciso sempre um. Quando há um, tudo bem. É quando há muitos que há problemas". As esquerdas franceses imediatamente acusaram Hortefeux de racismo e estão pedindo sua cabeça.

Paremos e reflitemos, como diria Lula. Em primeiro lugar, o ministro nada disse além do óbvio. Desde há muito a sociologia vem afirmando que quando uma comunidade estrangeira cresce além do razoável dentro da comunidade que a acolhe, começam os conflitos. Será a sociologia racista? Que mais não seja, os fatos estão aí para confirmar a assertiva do ministro. Quando havia alguns árabes ou africanos na França, não havia badernas ou atos de vandalismo como agora ocorrem em Paris e outras cidades. Agora, árabes e negros são legião. A cada revéillon, matematicamente, mais de mil carros são queimados na França. Mais ainda, não precisa ser réveillon. Basta a polícia perseguir um delinqüente árabe ou africano, a baderna recomeça.

Em segundo lugar, Hortefeux disse: “quando há um”. Não especificou este um. Estava falando com um imigrante de origem árabe. Mas poderia estar se referindo tanto à condição árabe quanto à condição de imigrante de seu interlocutor. Em ambos os casos, estava cheio de razão. Desde há muito as viúvas do Krenlim interpretam qualquer menção restritiva a imigrantes como sendo ofensa racial. Ora, há uma grande distância entre imigração e raça.

Derrapagem, dizem os jornais franceses. Tempos antes, Brice Hortefeux teria cometido outra derrapagem. Ao falar durante a posse da secretária de Estados para as Cidades, Fadela Amara, ele disse: "É uma patrícia, apesar de não ser muito evidente...". Como Amara é de origem argelina, a reação das viúvas foi rápida: racismo. Ora, que há de racista na constatação de que uma mulher de origem argelina aparenta ser... argelina?

Costumo afirmar que, depois da queda do Muro de Berlim e do desmoronamento da URSS, tornou-se ridículo falar em luta de classes. Luta de classes morta, luta racial posta. As autoridades que se cuidem, até mesmo quando querem facilitar a vida dos imigrantes. Pois mesmo medidas de auxílio a imigrantes podem ser vistas como racismo.

Leio hoje manchete no Estadão:

ÔNIBUS ITALIANO EVOCA APARTHEID

Ocorreu que na cidade de Foggia, na Puglia italiana, a Prefeitura instituiu uma linha de ônibus exclusiva para transportar imigrantes africanos, a linha 24/1. O repórter não deixa por menos: “A sombra do apartheid, o regime segregacionista que isolou brancos e negros na África do Sul entre 1948 em 1990, paira desde março no sul da Itália”. É o que diz o jornal. A realidade é um pouco distinta.

Estão os imigrantes proibidos de apanhar outro ônibus? Não estão. Estão os italianos proibidos de tomar o ônibus dos imigrantes? Muito menos. A intenção de Orazio Ciliberti, o prefeito de Fogia, foi melhorar o atendimento aos imigrantes. "Não se trata de racismo, mas da possibilidade de criarmos um serviço melhor. Ninguém impede os imigrantes de caminhar dois quilômetros a mais e pegar um outro ônibus até o centro", disse o prefeito.

Se racismo há, é um racismo às avessas. Pois nos veículos identificados com o número 24/1, os imigrantes não pagam passagem, enquanto pagariam nos ônibus para brancos. Já os brancos de boa cepa européia – que pagam impostos, é bom lembrar - têm de pagar passagem. Se alguém quiser encontrar racismo na medida de Ciliberti, terá de convir que se trata de um racismo antibranco. Ou antieuropeu, como quisermos.

Por um lado, é óbvio que os imigrantes preferirão uma linha gratuita. Por outro lado, é também óbvio que italianos preferirão pagar a entrar em um ônibus lotado por uma comunidade hostial a italianos. Segundo a Prefeitura, parte dos 154 mil moradores da capital da região de Puglia estaria em atrito com os cerca de 800 imigrantes que residem no centro, situado a 15 quilômetros da cidade.

Estes conflitos estão ocorrendo em boa parte das cidades européias. Em Paris, por exemplo, uma mancha árabe com epicentro no bairro La Goutte d’Or – logo abaixo de Montmartre - não cessa de expandir-se. À medida em que se expande, vai desvalorizando os imóveis vizinhos. Não é nada saudável, hoje, para um cidadão francês ou turista, perambular pelo território árabe, encravado no centro de Paris. Isso sem falar na arabada que habita a periferia.

No sul da Suécia, cinco mil suecos já abandonaram Malmö, para fugir dos árabes que infestaram a cidade. Da mesma forma, em Nova York, não é nada confortável para um branco perambular pelo Harlem. A menos que sejam grupos de turistas convidados para as cerimônias gospel. Sem ir muito longe: ousaria um carioca, sozinho, visitar uma favela? Não ousa. Brancos lá só podem entrar em grupos organizados por agências de turismo e com a permissão do tráfico. Permissão que é dada tendo em vista principalmente os turistas europeus, que adoram visitar favelas.

Mas se imigrantes árabes ou negros, romenos, albaneses ou ciganos, se dedicam a assaltar italianos e turistas, nisto não se vê racismo algum. Racista será o branco se reagir com violência ao assalto. E nisto estamos: se as autoridades mandam os imigrantes ilegais de volta a seus países, são racistas. Se tentam ajudá-los, continuam sendo racistas. Ou seja: todo europeu passa a ser racista por definição.

Já não são racistas os contingentes de imigrantes que odeiam e hostilizam os habitantes dos países que os recebem.

 
A INSCIÊNCIA DO BUGRE


"Cuando los españoles y los europeos llegaban a América, nuestros abuelos nunca dijeron que eran ilegales", disse ontem em Madri o presidente boliviano, Evo Morales. A notícia está no El País.

É espantoso constatar como certos mimados pela mídia proferem bobagens que são tidas, pelos jornais, como supremos momentos de inteligência. É claro que os “bolivianos" de então não consideraram ilegais os espanhóis. Ocorre que os bugres não tinham controle de fronteiras nem sabiam o que era passaporte ou visto de entrada. Em outras palavras: a Bolívia ainda não existia. Curiosamente, a jornalista algum ocorreu perguntar se, hoje, Morales consideraria legal quem entrasse sem passaporte em seu país.

A insciência do bugre vai mais longe. "Todos tienen derecho a habitar en cualquier parte del mundo, respetando las normas de cada país", disse, após assegurar que declarar ilegal um imigrante "es un gran error". Para quem preside uma Bolívia é muito fácil fazer tal afirmação. Afinal, não existe no continente país tão pobre a ponto de que seus nacionais queiram migrar para Bolívia. Talvez, no Caribe, haitianos ou cubanos. Mas se é para abandonar a miséria, migrante algum pensará em ir para um país miserável. Imigrante não se engana. Ele busca sempre o melhor.

No dia em que a Europa decidir que declarar ilegal um imigrante é um grande erro, na manhã seguinte a África inteira se muda para o norte. Os movimentos ditos indígenas aqui no Brasil – não confundir com os indígenas, que sequer sabem o que querem – reclamam da invasão da geografia dos bugres pelos portugueses. Mas... por acaso pediram aos lusos visto de entrada? Tinham por acaso um país organizado, com aduanas e fronteiras delimitadas?

Não tinham. Se queixam então de quê? Não existe espaço, no mundo contemporâneo, para culturas ágrafas e sem noção do que seja Estado. Evo Morales fez a nós, brasileiros, um grande favor. Suas declarações nos consolam. O Brasil não é o único país do continente que tem como dirigente um analfabeto.

Domingo, Setembro 13, 2009
 
SOBRE ÓPERAS, VELHOS E GORDOS


Uma outra boa amiga, que me proporcionou belos dias em Estocolmo, me escreve:

Querido Cristaldo,

desejo que estejas bem. Eu estou bem tanto quanto possível estar bem em Belém. Fiquei surpresa com teu artigo sobre ópera onde falas de gordos e velhos cantando ópera. Sinceramente, fiquei até confusa.

Que valorizes e aprecies tanto a beleza física e a juventude, entendo, ainda que eu não dê nem um miserável pontinho a tais atributos. Mas desvalorizar, menosprezar e até não tolerar a encenação de uma pessoa porque ela não tem uma aparência magra, alta e jovem, ainda que tenha uma bela voz e cante ópera maravilhosamente, surpreendeu-me... Será que não convence ou não convence a ti porque acreditas que puta tem que ser jovem, bonita e sensual?

Não entendo nada de ópera, só vi em tv e filme, e o que me faz gostar ou não é que a voz, o canto, a encenação transmitam emoção, consigam envolver de tal forma profunda que eu me sinta vivendo o personagem, como em qualquer encenação, não apenas em ópera, gosto quando sinto vontade de viver o que estou vendo e ouvindo.

Bom, não te critico, não é isto, apenas me surpreendi porque pensava que vias a vida, o mundo, as pessoas muito além da matéria, parece-me que cometi um erro costumeiro de projetar nas pessoas como eu penso, sinto e percebo. Contigo, já que costumo concordar com quase tudo que escreves, na verdade, desde que encontrei teus artigos, passei a me sentir acompanhada nos meus pensamentos 'anormais' como tantos dizem e eu gosto pois os 'normais' costumam ser entediantes e até idiotizados que me cansam e irritam.



Min kära Verena,

ouvir é uma coisa. Ver é outra. O problema está no ver. Há uma grande diferença entre uma Netrebko ou uma Migenes e uma Montserrat Caballé interpretando a Carmen. Essas divas, afinal, ganham fortunas. Se trabalham também com o corpo, podiam ter certo pudor e mais cuidados com o corpo. Um Pavarotti com 175 quilos é um absurdo. Há tratamentos médicos para isso. Ele acabou perdendo 30, mas devido a um câncer. Eu, que não sou cantor nem ator, acho que começaria a esconder-me em casa se chegasse a 130.

Claro que, apenas ouvindo uma ópera, os quilos ou a idade não importam. O problema é assistir uma encenação. Nada tenho contra velhos ou gordos. Eu conheci e conheço pessoas obesas pelas quais tive e tenho muito apreço. O caso mais surpreendente ocorreu nas Canárias, não lembro agora se em Santa Cruz de Tenerife ou Las Palmas de Gran Canaria. O personagem estaria um pouco além dos 130 quilos. Sua barriga lembrava o Teide, o vulcão de Tenerife. Era um arabista de renome e sua pedra de toque era - pasma! - o Martín Fierro. Quando vi quatro jovens universitárias com as cabeças recostadas naquele Teide proeminente, percebi que o homem não é carne, mas espírito. Mas ele não se apresentava em cena como um Don Giovanni, é claro. Extrapolando um pouco: não se concebe um 007 velho e gordo. Certos papéis exigem um certo physique du rôle.

Outro gordo pelo qual nutro enorme admiração é Ernest Renan. Era mais um desses pesos-pesado. Percorreu em lombo de mula todas as trilhas pelas quais teria andado o Cristo, para escrever sua Vida de Cristo. Quem não deve ter gostado foi a mula. Mas vá lá. Se a função de um homem é pensar, mulas existem para carregar quem pensa, não importa quanto pese. Renan escreveu uma história do cristianismo em sete volumes e uma outra história do judaísmo em outros tantos, que me fazem inveja. Não tenho nada contra seus quilos.

Nos anos 70, conheci um escritor mineiro que me fascinou. Estaria nos seus 150 quilos, precisava de auxílio até para colocar as meias. Entrevistei-o em minha coluna. Ele me ditou um texto belíssimo, sem revisar nenhuma palavra ou vírgula. Lá pelas tantas, me perguntou: quantas linhas ainda tenho? Cinco, respondi. Ele fechou o texto com fecho de ouro. Há quem considere serem os gordos seres materialistas, mais preocupados com o comer e beber do que com o espírito. Pelo que vi em minha vida, há os que são pessoas extremamente espiritualizadas, tanto que nem se preocupam com o corpo.

Quanto aos velhos, mais que apreço, tenho respeito. Em meus 28 ou 29 anos, convivi com Mário Quintana, que já teria seus setenta. Na mesma época, tive o prazer de tomar vinho noites adentro com o Dyonélio Machado. Pas de vin sans biscuit, ele costumava dizer. Eu o conheci quando teria seus oitenta anos. Foi ele - ateu e comunista - quem me introduziu nos estudos mais aprofundados da Bíblia. Tinha sempre uma Bíblia aberta em um atril ao pé da biblioteca. Escolhia um capítulo, em geral do Novo Testamento e, coincidentemente com o Renan em punho, saímos a viajar pela Galiléia.

Es de la boca del viejo, de ande salen las verdades – dizia Hernández no Martín Fierro. Outra pessoa de idade por quem tive muito apreço foi Ernesto Sábato. Devo tê-lo conhecido quando estava em seus setenta. Foi pessoa com quem tive imenso prazer em conversar. Confraternizamos junto a um bom vinho em Santos Lugares, Buenos Aires, Paris e São Paulo e sempre o vi como um jovem.

Tomei um vinho em Paris com Milan Kundera, já entrado nos cinqüenta. No café em que bebíamos, várias meninas da universidade ao lado esperavam um olhar dele. Na época, estava em meus trinta. Quando tiver cinqüenta, pensei, quero ser como Kundera. Em Porto Alegre, conheci Camilo José Cela, já quase nos oitenta, que então convivia com a bela e jovem Marina Castaño. Quando tiver oitenta, pensei, quero ser como Cela.

Ainda há pouco, um leitor remeteu-me a um vídeo, com Chavela Vargas, em seus gloriosos noventa anos, cantando "Macorina". Soberba. Mas, como disse, uma coisa é cantar. Outra é representar.

Quer dizer, não precisas te preocupar com minha suposta falta de consideração por pessoas que não sejam lindas e esbeltas. Sempre prezei mais a inteligência e a cultura do que a forma física. Mas uma Carmen gorda ou velha ou feia não dá pé numa encenação de ópera. Numa récita, até que passa. Beijo.

Sábado, Setembro 12, 2009
 
PARA UMA AMIGA MUITO QUERIDA,
QUE PASSOU A GOSTAR DE ÓPERAS



Uma amiga muito querida – que tive a honra de introduzir no mundo da ópera - me pergunta se é possível a qualquer pessoa gostar de ópera ou é um gênero musical exclusivo aos apreciadores de música erudita. Qual o motivo de a ópera ser tão pouco divulgada no Brasil, a ponto de praticamente não existirem CDs e DVDs produzidos aqui? Quais minhas óperas diletas em termos de enredo e música?

Para começar eu diria que o normal seria as pessoas gostarem de música erudita. Anormal, a meu ver, é gostar de bate-estaca. Não considero que se precise conhecer música a fundo para gostar de ópera. Claro que quem conhece música terá melhores condições de curtir o gênero. Eu, para não ir mais longe, aprendi a ler partituras no ginásio. Hoje, não consigo mais lê-las. Nem por isso deixo de me comover até as lágrimas com certas árias. Quando me perguntam se uma ópera foi bem executada, minha resposta é: “não sei”. Não conheço música a ponto de saber se os cantores foram sublimes em suas interpretações. Fico apenas no adorei, gostei ou não gostei. Isso vai depender de outros elementos que não apenas a música, como o libreto, a encenação e inclusive le physique du rôle dos personagens. Uma mulher gorda ou velha pode cantar muito bem Carmen. Daí a representá-la, em carne e osso, vai uma longa distância.

Já contei, mas conto de novo. Foi por aí que adquiri ojeriza à ópera, quando jovem. A soprano pra toda obra, em Porto Alegre, era uma rotunda senhora, a Eny Camargo. Até poderia ser uma aventura intelectual ouvi-la cantar, já não lembro. E não lembro porque havia uma barreira, aquela mulher baixinha, velha e quadrada representando uma cigana jovem, sedutora e sensual. Assim, não há quem possa gostar do gênero. Há alguns anos, comprei uma Carmen com a mezzo-soprano grega Agnes Baltsa. Não dá. Passou da idade. Em compensação, sou capaz de rever e rever a versão filmada de Francesco Rosi, com Julia Migenes. Vou mais longe: Carmen, se não tiver cara de puta, não convence.

Só fui me reconciliar com o gênero aos trinta anos, em Paris, quando vi uma Carmen divina, toda meneios, dançando chez Lillas Pastia. Ópera podia ser algo lindo, não aquele espetáculo grotesco que eu via na Reitoria da UFRGS, em Porto Alegre. Música erudita é como literatura. Você começa lendo autores como Machado e passa a detestar toda a literatura.

Da mesma forma, um Pavarotti ainda jovem representando Don Giovanni, tudo bem. Seria ridículo se o representasse no final de sua vida, quando chegou a carregar 175 quilos. Me consta que em uma de suas últimas apresentações, teve de ser posto no palco com um guindaste. Suas pernas não agüentavam a subida. Nessas circunstâncias, creio que eu não iria nem ao bar da esquina.

A ópera foi um gênero popular entre os séculos XVII e XIX. Era o cinema da época, onde se encontravam nobres, burgueses e povão. Tanto que os teatros, se tinham camarotes de luxo, também previam coxias populares, para estudantes e gente do povo, que levavam banquinhos ou assistiam o espetáculo em pé. Como ainda hoje. Aliás, participei disto em Viena. Estávamos, eu e a Baixinha, em um café em Viena, justo face a Wiener Staatsoper. Foi quando ela inventou: e se fôssemos à ópera? É só atravessar a rua. A idéia me pareceu utópica. Como conseguir uma entrada na hora numa ópera em Viena? Tentar não custa nada – insistiu a Baixinha. Atravessamos a rua. A obra era O Rapto no Serralho, de Mozart. Ainda havia ingressos. Mas só os reservados para estudantes, no último poleiro e em pé. Preço equivalente a dois dólares, na época. O café que eu acabara de tomar custou-me cinco.

Passei maus bocados na Staatsoper. Todo mundo em smoking e black tie. Eu, com meu humilde parka, fiel companheiro de todas minhas viagens. Pior ainda: fui despido na chapelaria. Meu parka foi intimado a ficar na entrada. Me senti nu. Enfrentei a multidão de pingüins em manga de camisa. Enfim, não iria alugar um smoking para assistir um espetáculo pelo qual paguei dois dólares. Mas que é desconfortável, é.

Na Europa, as casas de ópera ainda insistem no traje a rigor. É hoje um espetáculo para elites. Mas você não será barrado se entrar com jeans e parka. Uma das poucas coisas que gostei em Nova York foi a nonchalance dos freqüentadores do Metropolitan ou da City Opera. Não lembro de ter visto ninguém emperiquitado. De modo geral, traje esportivo e mesmo jeans e tênis.

Ópera é o espetáculo multimídia por excelência, concebido séculos antes mesmo de que se pensasse não digo em multimídia, mas em mídia. Tem tudo: som, imagem, movimento, canto e música, pintura, teatro, literatura e poesia. O libreto de Don Giovanni é de uma poesia extraordinária. O mesmo diga-se de Carmen. A origem do gênero retrocede aos anos 600, quando surge o cantochão da liturgia cristã-católica ocidental. Uma missa cantada sempre tem um pouco de ópera. Eu, ateu, já me comovi com missas na Stephansdom, em Viena, na Notre Dame e na Madeleine em Paris. E já assisti inclusive uma missa gregoriana no mosteiro São Bento, aqui em São Paulo. Nós, ateus, não somos hostis à grande arte. Ainda que religiosa.

Quanto ao fato de ser pouco divulgada no Brasil, isto se deve em parte que estamos irremediavelmente contaminados pelos bárbaros ruídos ianques. Não é que apenas a ópera não seja divulgada no Brasil. A boa música popular européia também não o é. Quem conhece aqui cantores como Evert Taube, Sven-Bertil Taube, Mikis Theodorakis? Ou mesmo este monumento da canção francesa – que em verdade é belga – Jacques Brel? As letras de Brel me enlevam quase tanto quanto os libretos de Da Ponte. Mas se vou procurar em uma loja os CDs de Brel, aqui em São Paulo, só por milagre vou encontrá-los.

Um outro problema no Brasil é que ópera é uma produção cara. É preciso corpos de ópera em constante treinamento e isto não custa pouco. Justo quando se necessitaria de um auxílio estatal, o Estado está ausente. O Estado só se faz presente para financiar mediocridades, tipo os caetanos e gils da vida, a Máfia do Dendê. Na Europa, dado o grande público, a ópera é bem mais difundida.

Mesmo assim, há um certo público no Brasil para a ópera, um tanto restrito mas não muito pequeno. Quando fui ver a Cavalleria Rusticana, no Theatro São Pedro, quase não havia lugares vagos. E isso que foi encenada por uma orquestra, não de Nova York ou Viena, mas de Guarulhos. (Tive a honra, no dia seguinte, de almoçar com Santuzza, isto é, com a soprano Laura de Souza, que conheci em Santa Maria quando ela, menininha, ainda nem sonhava com a brilhante carreira que faria na Europa).

Aqui, quando surge uma ópera de prestígio, o Teatro Municipal lota. Claro que na Europa há um público bem mais amplo. Viena, Salzburg, Paris, Roma, Berlim, Madri são grandes centros operísticos. Nova York também. Daí uma produção maior e mais caprichada. O advento do DVD estimulou muito a produção de óperas. Agora posso ver, no conforto de meu apartamento, óperas de Mozart mais vezes – dezenas, centenas, milhares de vezes mais, se quiser – do que o próprio Mozart conseguiu ver. Em versões que ele nem sonhou.

Minhas óperas prediletas? Já devo ter contado. São três. Carmen, Don Giovanni e A Flauta Mágica. Tenho várias versões destas três. Cada uma é cada uma. A Carmen mais linda que conheço é a de Francesco Rosi. É filme, não ópera filmada. Isto é, a história não se desenrola em um palco, mas em cidades como Sevilha e Ronda, e na montanha. A dança que Carmen dança para seduzir Don José é um dos mais sublimes - e sensuais - momentos da ópera.

Depois, posso pensar em Nabuco (o "Va pensiero" sempre me faz chorar), Aida, Rigoletto, Cosi fan Tutte, Le Nozze di Figaro, La Traviata, L'Elisir d'Amore, Il Barbiere di Siviglia, Il Trovatore, L'Italiana in Algeri. Dica ao leitor: para guiar-se no mundo da ópera, há um dicionário soberbo, o Kobbé. Já está traduzido no Brasil e foi publicado pela Jorge Zahar.

Falar nisso, em novembro próximo, estarei em La Favorita, em Madri. Com a Primeira-Namorada a tiracolo. É um restaurante onde os garçons são estudantes de música e cantam árias durante a ceia. Caso o leitor queira visitá-lo, ainda que virtualmente, le voilà: http://www.youtube.com/watch?v=Ql-o8KRPOSM. Vale a viagem.

Sexta-feira, Setembro 11, 2009
 
IL VECCHIO SATIRO
E LE SUE DONNE



Tanto a imprensa nossa como a internacional têm dedicado páginas e mais ao que chamam de escândalos sexuais do primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi. Escândalo onde? O homem é divorciado e, pelo jeito, gosta de mulheres. Tem 73 anos e se ainda pode, que aproveite enquanto pode. São prostitutas? Berlusconi afirma que "nunca pagou para dormir com mulher". Pode ser. De qualquer forma, mulheres que dormem com chefes de Estado de alguma maneira são sempre recompensadas. E se forem profissionais, que sejam. Pelo que me consta prostituição não é crime na Itália.

Ocorre que il Cavaliere, como é chamado, não é de esquerda. Pelo contrário, pertence à direita italiana. Já François Mitterrand – que apesar de um passado nazista passou a militar no Partido Socialista francês - entronizou tanto a mulher como a amante e a filha da amante em suas pompas fúnebres e a imprensa não disse um pio desabonador. Na Casa Branca de John Kennedy havia um fluxo constante de mulheres, cujos nomes não eram registrados na lista de presenças. Além do mais, quem era Marylin Monroe senão uma vulgar vedetinha de Hollywood? Nem por isso John Kennedy foi estigmatizado pela imprensa.

Ao contrário, ser piranha de alto bordo parece conferir prestígio e há quem se disponha a pagar alto por uma vizinhança póstuma. O túmulo localizado logo acima do túmulo de Marylin Monroe no cemitério de Westwood Village Memorial Park, em Los Angeles foi colocado à venda em agosto passado por 500 mil dólares no site de leilões Ebay. "Esta é uma oportunidade única em uma vida, de poder passar a eternidade justo acima de Marylin Monroe", proclama o anúncio do leilão. Um túmulo próximo ao da atriz foi comprado por 75 mil dólares por Hugh Hefner, o fundador da revista Playboy.

Por que il Cavaliere não pode? É multimilionário e pode comprar quantas mulheres quiser. Que certamente lhe custarão menos caro do que lhe custou sua ex. Escândalo seria se pagasse com dinheiro do contribuinte. Mas, a bem da verdade, esta acusação jamais lhe foi feita.

Já abaixo da linha do Equador não existe pecado algum em financiar turismo sexual com dinheiro público. A Câmara Federal – isto é, o contribuinte – financiou sete viagens, sendo uma delas a Miami, para a namoradinha de um deputado potiguar e sua mãe. Turismo sexual só é criminalizado quando estrangeiros o fazem no Brasil. Quando um brasileiro faz turismo sexual no Exterior – às custas dos cofres públicos, é louvável, digno e justo e conta com o beneplácito dos demais colegas de Congresso. Recentemente, uma senadora catarinense viajou com um assessor por três países, ao módico custo de 70 mil reais, pagos sem tugir nem mugir por quem paga impostos no Brasil. E a oposição nem pode chiar, afinal um de seus senadores - antigo comunista, diga-se de passagem - mantinha um efebo estudando teatro em Barcelona. Às nossas custas, é claro.

Já il Cavaliere, para quem mais mulheres menos mulheres não devem fazer nem mossa em seu patrimônio, é um sátiro degenerado.

Quinta-feira, Setembro 10, 2009
 
RÁBULA INOVA:
TEMOS AGORA
O CRIMINOSO
DE CIDADANIA



Leio hoje no Painel, da Folha de São Paulo:

Depois que o relator Cezar Peluso leu as preliminares do voto, o advogado Luís Roberto Barroso disse que havia 30 anos Battisti não se envolvia em ações "anti-sociais". Quando lhe perguntaram se haveria tal prescrição para ex-ditadores, gaguejou.

Em seguida, formulou: "Defendo que criminosos de Estado, que usaram a tortura como instrumento de perseguição, tenham regime diferente dos criminosos de cidadania".


Deve ser influência da concepção de Direito do capitão-de-mato e ministro da Justiça Tarso Genro, que defende o asilo no Brasil a um terrorista italiano condenado em seu país à prisão perpétua. Pior: metade do Supremo Tribunal Federal já se manifestou a favor desta curiosa tipificação jurídica, o criminoso cidadão.

 
HÁ 33 ANOS, MORRIA MAO,
POETA, GUERREIRO E LÍDER



Quem tem a minha idade, deve lembrar do sufoco que era não ser marxista nos anos 70. Intelectuais do mundo inteiro criam, unânimes, que o mundo rumava ao socialismo. Os brasileiros, sempre na rabeira da História, não poderiam pensar diferente. Eu, que havia lido e me formado em filosofia, não conseguia ver Marx como filósofo. Muito menos via qualquer consistência em seu pensamento. Por não participar do Zeitgeist da época, fui considerado agente do DOPS. A coisa era simples assim: se você não era comunista, só podia ser agente da ditadura. Mais tarde, fui promovido a agente do SNI. Quando comecei a viajar, atingi o ápice de minha carreira. Fui elevado a agente da CIA. Assim fosse. Agente da CIA devia ganhar bem. Em Estolcomo, eu tinha de espichar minhas kronor para poder tomar um vinhozinho em fim de semana.

A pressão era tão violenta que chegava a impedir os relacionamentos pessoais. Já devo ter contado: certa vez, nos dias de Porto Alegre, eu estava debaixo de uma ducha com uma jornalista gaúcha, naquele estado em que Adão e Eva viviam antes de comer a frutinha aquela. Ela afastou-me delicadamente com as mãos. “Tu me excitas. Mas infelizmente nossas posições ideológicas não combinam”. Nada feito. Então tá!

Na época, me disse um bom amigo, o Aníbal Damasceno Ferreira: “tu estás contra toda tua geração”. Só anos mais tarde fui entender a frase do Damasceno: eu não era marxista. O curioso é que, enquanto era visto na universidade como agente da ditadura – ou do imperialismo, como também se dizia naqueles dias –, em Dom Pedrito fui preso como perigoso agitador comunista. Em Porto Alegre, para obter passaporte, tive de explicar junto a funcionários do DOPS, que não era comunista. O interrogatório foi ardiloso. Não me fizeram pergunta alguma. Eu é que tinha de confessar-me.

Le fonds de l’air est rouge, diziam na época os filhinhos de papai franceses que bagunçaram Paris em 68. O fundo do ar é vermelho. A mídia toda celebrou a Revolução de Maio de 68. Pas de sang, trop de sperme, como a definiu alguém. Sangue nenhum, esperma demais. Entre nós, paradoxalmente, a Idéia – como se dizia então – foi levada um pouco mais a sério. Se esperma houve, sangue também. Jovens fanatizados e sem maiores leituras, conduzidos por velhas raposas a soldo de Moscou, Pequim, Tirana e Havana, foram levados a uma aventura que resultou em centenas de mortes. O fundo do ar era de fato vermelho. O pior é que, cá no Brasil, continua vermelho. As raposas continuam pontificando na política e na história nacional. Os mortos, estes pelo menos descansam em paz.

Há 33 anos, morria Mao Tse Tung, o mais operoso assassino do século passado. Seu regime foi responsável pelo assassinato de 65 milhões de chineses. Matou mais do que Hitler e Stalin juntos. Levou a China à miséria e mesmo ao canibalismo. Um leitor com memória me envia uma terna lembrança daqueles dias. No dia 09 de setembro de 1976, o Jornal do Brasil saudava em garrafais, na primeira página do Caderno B, a morte do assassino:

MAO, POETA, GUERREIRO E LÍDER

Quarta-feira, Setembro 09, 2009
 
STF QUASE LAMBENDO


Leio no noticiário on line que, após mais de onze horas de julgamento do processo de extradição à Itália de Cesare Battisti, o ministro Marco Aurélio Mello pediu vistas do processo e paralisou o processo do Supremo Tribunal Federal (STF). Ou seja: embora a maioria dos magistrados, seguindo o entendimento do relator do caso, Cesar Peluso, tenha entendido que o terrorista italiano deve ser enviado a seu país de origem, Marco Aurélio Mello parece ter outro entendimento. Ou então não teria razão alguma para impedir o andamento normal do julgamento. Ministro do Supremo, quando quer opor-se à tendência da Corte, pede vistas do processo. Quer tempo para sofismar.

Mais ainda: os ministros que se pronunciaram a favor da extradição exigem que o terrorista tenha sua pena reduzida. A maior parte dos ministros opinou ser obrigatória a redução do cárcere de prisão perpétua para até três décadas de detenção. É a mesma exigência que fazem para que o terrorista Mauricio Hernández Norambuena seja extraditado ao Chile. Ora, Battisti foi condenado à prisão perpétua na Itália. Norambuena foi condenado a duas penas de prisão perpétua no Chile. A Suprema Corte deste país incrível quer passar por cima das decisões do Judiciário de outros países. O Brasil pode não valer nada no concerto internacional, mas arrogância é o que não falta a seus magistrados.

Tarso Genro, capitão-de-mato e ministro da Justiça, concedeu em janeiro passado a condição de refugiado político a Battisti, sob o argumento de "fundado temor de perseguição”. Ora, Battisti não será perseguido se voltar à Itália. Será imediatamente conduzido à prisão, que é para onde foi condenado. Alega o capitão-de-mato que o terrorista foi condenado à revelia pelo governo italiano por participação em quatro assassinatos na década de 1970, sendo as vítimas um joalheiro, um açougueiro, um agente carcerário e um policial. Se Battisti foi condenado à revelia é porque havia fugido à Justiça italiana. Não fosse foragido, seria condenado de corpo presente.

Enquanto o governo lança um programa para barrar o refúgio de criminosos internacionais no Brasil, sua Suprema Corte tende a proteger um terrorista comunista. Em sua retórica desengonçada, Tarso Genro afirma que o pedido da Itália deve ser respeitado. "Mas o Brasil não precisa se curvar a isso", diz o capitão-de-mato.

Tarso Genro, se alguém ainda não lembra, foi quem dobrou-se às exigências de Fidel Castro e Hugo Chávez, para mandar de volta à Cuba dois pobres coitados que pediam asilo ao Brasil. Para Tarso, o Brasil só precisa curvar-se a Castro.

Terça-feira, Setembro 08, 2009
 
STF LAMBERÁ OU
NÃO LAMBERÁ
BOTAS DO PT?



O leitor já deve ter visto inúmeros filmes em que bandidos internacionais, após realizar um bem sucedido golpe ou assalto, pegam mala, cuia e passaporte e tomam um vôo para o Brasil. Sempre junto com uma loura sexy, é claro, que sem loura sexy não tem graça. Leio hoje no Estadão que este estereótipo – que não é exatamente um estereótipo, mas realidade – já gerou inclusive um livro, O Brasil dos Gringos: Imagens no Cinema (2000), do professor Tunico Amâncio. Baseado nele, a diretora Lucia Murat realizou, em 2005, o documentário Olhar Estrangeiro, no qual, entre outros tópicos, apontou mais de 40 filmes em que criminosos de toda espécie fogem para o Brasil.

O Brasil sempre foi generoso com terroristas, mafiosos, assaltantes de bancos e narcotraficantes, desde Ronald Biggs – o celebrado assaltante do trem pagador na Inglaterra, que virou personagem da crônica social no país – até um terrorista das FARC, o padre colombiano Francisco Antonio Cadena Collazos, mais conhecido como Padre Medina. Apesar de preso no Brasil e de ter sua extradição pedida pela Colômbia, sob os auspícios do PT e do STF, Padre Medina foi colocado em liberdade em março de 2007 e até hoje vive livre como um passarinho neste Brasil hospitaleiro.

Também vivia tranquilamente aqui o terrorista chileno Mauricio Hernández Norambuena, militante da Frente Patriótica Manoel Rodrigues (FPMR), como se os sedizentes serviços de inteligência do País não soubessem de quem se tratava. Acabou sendo condenado a 30 anos de prisão pelo desastrado seqüestro do publicitário Washington Olivetto, em 2002, em São Paulo.

O governo brasileiro teve de acatar, constrangido, a condenação do companheiro do mesmo terrorismo que praticaram nos anos 70 boa parte dos seus ministros. Norambuena está condenado no Chile a duas penas de prisão perpétua. O Chile pede sua extradição e o governo petista até cogita em concedê-la, desde que suas condenações sejam diminuídas para o máximo de trinta anos, descontados os cinco anos de prisão já cumpridos na penitenciária federal de Catanduvas (PR). O que é uma grossa bobagem, pois mais 25 anos de prisão para um bandido que não nasceu ontem em nada difere de prisão perpétua.

Na tarde de hoje, leio ainda no mesmo jornal, que o governo lançou um programa, o Fim de Linha, para combater essa preferência de nove entre dez bandidos internacionais, que usará tecnologia especial para ampliação de cadastros nacionais da Polícia Federal e o cruzamento dessas informações com os bancos de dados da Interpol. Todos os aeroportos, portos e postos de fronteira também terão à disposição o cadastro duplo Mind & Find da Interpol, que é o registro mundial, por número e nome, dos titulares de passaportes roubados e perdidos. O acesso às duas informações permite barrar com segurança um passageiro com passaporte suspeito.

A Polícia Federal também montou para o programa Fim de Linha uma Lista Vermelha de Criminosos Sexuais. Os agentes terão acesso ao cadastro Child Pornography Database, que ajuda a identificar os criminosos que fogem do Judiciário por delitos como pedofilia, turismo sexual e tráfico de pessoas. Pedofilia e tráfico de pessoas, até que entendo. O que não entendo é a inclusão do dito turismo sexual na tal de Lista Vermelha. Desde quando fazer turismo em busca de sexo é crime? Pecado talvez seja, mas pecado é outro departamento.

Há milhões de pessoas no mundo fazendo turismo em busca de sexo, assim como outros viajam em busca de cidades, paisagens ou gastronomia. A inclusão de turismo sexual na lista de crimes sexuais é um viés moralizante do governo, certamente sob influência dos aiatolás da Igreja Católica, essa velharada misógina que sempre detestou o melhor da vida. Pergunta que se impõe: pretenderá alguma autoridade proibir que um turista estrangeiro tenha relações com uma cidadã brasileira? Ou cidadão, afinal também as mulheres viajam em busca de sexo.

Mas volto ao tema inicial. Amanhã, o Supremo Tribunal Federal julga o recurso contra o pedido de extradição do terrorista e assassino italiano Cesare Battisti, que goza da simpatia pessoal do PT, de Lula e do ministro da Justiça, Tarso Genro. O presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, afirmou hoje que o julgamento deve ser longo. Não deveria ser longo. Membro do grupo terrorista Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), Battisti foi condenado à prisão perpétua em 1987 pela justiça italiana, como autor direto ou indireto de quatro homicídios, além de assaltos e outros delitos menores, todos atribuídos aos PAC. Gilmar Mendes está apontando para mais uma maracutaia jurídica, semelhante à que absolveu Antônio Palloci, por pressão do governo, pelo crime de violação de sigilo bancário de um porteiro em Brasília.

Por um lado, o governo lança um programa para coibir a presença de bandidos internacionais no País. Por outro, lhes dá guarida, conforto e carinho, desde que sejam cúmplices do mesmo terrorismo do qual participaram, em décadas passadas, vários dos atuais próceres do PT. Amanhã, veremos se o STF, instância máxima do Judiciário no Brasil, mais uma vez lamberá as botas do Executivo.

Quem viver, verá. Como não pretendo morrer hoje, eu também verei.

 
REMEMBER PARACUELLOS DEL JARAMA


Ao longo destas crônicas, toda vez que alguém escreve que o quadro Guernica, de Pablo Picasso, é uma homenagem os mortos durante o bombardeio da cidade basca de Guernica, procuro desmascarar o embuste. Picasso havia pintado uma tela de oito metros de largura por três e meio de altura, intitulada La Muerte del Torero Joselito, plena de cores fúnebres, que iam do preto ao branco, em homenagem a um amigo seu, o toureiro Joselito, morto em uma lídia. O quadro ficara esquecido em algum canto de seu ateliê. Ao receber uma encomenda para o pavilhão republicano da Exposição Universal de Paris de 1937, Picasso lembrou do quadro. Foi quando, para fortuna do malaguenho, em 26 de abril daquele ano, a cidade de Guernica foi bombardeada pela aviação alemã. Ali estava o título e a glória, urbi et orbi.

Uns retoques daqui e dali, e Picasso deu nova função ao quadro. No entanto, multidões hipnotizadas pela propaganda comunista, vêem em uma cena de arena, com cavalo, touro e picador, uma homenagem aos mortos de Guernica. De um só golpe de pincel, o vigarista malaguenho traiu a memória do amigo e mentiu para a História.

Mas não era disto que queria falar. E sim de Paracuellos del Jarama. Que poderia ter sido melhor homenagem de Picasso aos assassinados na Guerra Civil Espanhola. Pois em 1936, em Paracuellos del Jarama, sítio que ninguém gosta de lembrar, foram fuzilados pelo Partido Comunista nada menos que dois mil e quatrocentos espanhóis que se opunham à Frente Popular. Há quem fale em cinco mil. Outros em oito mil. À frente do PC espanhol estava Santiago Carrillo.

Em seu ensaio La Guerra Civil Española, o historiador Hugh Thomas fala em 1654 mortos em Guernica. Na segunda edição do livro, teria reduzido a 200 este número. Mas há quem negue a ocorrência do bombardeio. Por exemplo, o professor americano Jeffrey Hart, que publicou em janeiro de 1973, no National Review, o estudo intitulado The Great Guernica Fraud, onde sustenta a tese de que bombardeio de Guernica não ocorreu. O artigo foi reimpresso nos jornais Die Welt e Il Tempo.

Em Paracuellos a matança é plenamente confirmada por historiadores e foi bem mais feia que o suposto bombardeio de Guernica. Entre 7 de novembro e 4 de dezembro de 1936, militares que haviam participado do levante franquista ou que não haviam se incorporado aos comunistas, falangistas, religiosos, militantes de direita, cidadãos comuns e outras pessoas que haviam sido detidas por serem consideradas partidárias da sublevação, foram retiradas das prisões, atadas pelos punhos e conduzidas em ônibus e caminhões e conduzidas às margens do Jarama, onde foram sumariamente fuziladas.

Claro que Picasso não poderia batizar seu embuste como Paracuellos del Jarama. Seria expulso da História e permaneceria desconhecido como pintor. Enfim, retomo esta história toda em função de notícia que leio no El País. O juiz espanhol Baltasar Garzón foi citado hoje ante o Supremo Tribunal, na qualidade de acusado de delito de prevaricação na causa sobre os crimes do franquismo. Seu delito seria ter tomado resoluções injustas tendo plena consciência de que eram injustas.

A decisão de citar Garzón ocorreu um dia depois de a Comissão Internacional de Juristas – formada por 59 presidentes e ex-presidentes de Cortes Supremas, magistrados e advogados de Estados membros da ONU – advertir o juiz de que a causa aberta contra o franquismo “não justifica ações penais nem disciplinares”.

A denúncia contra o juiz foi interposta pelo movimento Manos Limpias, que censura Garzón por não instruir um processo contra Santiago Carrillo pelos fuzilamentos em Paracuellos del Jarama.

Pelo jeito, almas não contaminadas pela amnésia finalmente retomaram o episódio da matança executada pelos comunistas.

Segunda-feira, Setembro 07, 2009
 
SARKOZY CUMPRIMENTA
CACIQUE E DOUTOR
ASSASSINO CAIAPÓ




Em 1980 foram massacrados pelo menos trinta peões pelos índios, em duas chacinas distintas, uma delas no Parque Nacional do Xingu, liderada pelo cacique txucarramãe Raoni. Na ocasião, Raoni exibiu nos jornais a borduna que "ajudou a matar 11 peões de uma fazenda". Não só permaneceu impune, totalmente alheio à legislação brasileira, como foi recebido com honras de chefe de Estado na Europa. O papa João Paulo II, François Mitterrand e os reis da Espanha, entre outros, o receberam como líder indígena. Raoni, com seus belfos, se deu inclusive ao luxo de expor sua pintura em Paris. Um dos quadros do assassino atingiu US$ 1.600 em uma lista de preços que começava a partir de mil dólares. No final do ano passado, Raoni recebeu o título de Dr. Honoris Causa pela UFMT (Universidade Federal do Mato Grosso). Enfim, isso de universidades homenagear assassinos está virando praxe acadêmica. Fidel Ruz Castro é Dr. Honoris Causa pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

O patrono de Raoni neste périplo pelo Ocidente foi o roqueiro inglês Sting, que criou em 1989 a Rainforest Foundation e levantou 1,5 milhão de dólares para a demarcação da tribo dos caiapós, no sul do Pará. Raoni, que era txucarramãe, de repente virou caiapó. Em maior de 92, o cacique Paulinho Paiakan – como são simpáticos os diminutivos! –, também da tribo dos caiapós, estuprou brutalmente a estudante Sílvia Ferreira. O cacique, que foi capa de uma revista americana, na qual era considerado a solução para os problemas da humanidade, foi condenado a seis anos de prisão.

Mas os caiapós da aldeia Aukre, no sul do Pará, decidiram não entregar à Justiça o cacique Paulinho Paiakan, condenado a seis anos de prisão. Segundo os líderes caiapós, embora Paiakan tenha cometido crime sexual contra uma mulher branca, sua prisão dentro da aldeia representaria uma desmoralização para a tribo. Além disso, colocaria em risco toda a comunidade indígena, "que ficaria sujeita às leis da cidade". Onde se viu um bugre submeter-se às leis do país em que vive? Paiakan julgado e condenado pelo Tribunal de Justiça do Estado e com sentença ratificada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), permaneceu livre como um passarinho em sua reserva. Assim como José Sarney e seus filhos continuam livres no Distrito Federal e no Maranhão.

Raoni, o ex-txucarramãe hoje caiapó – vá lá se saber por quê! - pelo que me consta, nem julgado foi. Hoje, foi a vez de o presidente Nikolas Sarkozy cumprimentar, na embaixada da França em Brasília, o assassino txucarramãe. Quantos seres humanos precisa matar alguém para receber um doutorado Honoris Causa, ser recebido pelo papa, por Mitterrand, pelos reis da Espanha e por Sarkozy?

Pelo jeito, onze cadáveres é suficiente.

Sábado, Setembro 05, 2009
 
RESTAURANTES PARA
PESSOAS JURÍDICAS



Certa vez eu conversava com a mulher do proprietário do mais antigo restaurante de São Paulo, o Carlino. Mulher jovem, linda e pura simpatia, ela me confessava sua perplexidade. Como é que pode? Há restaurantes onde a conta para cinco ou seis pessoas é sessenta mil e eles ainda brigam para saber quem paga a conta.

É simples, respondi. Eles não pagam a conta. Quem a paga somos nós, os contribuintes. Costumo afirmar que há restaurantes para pessoas físicas e restaurantes para pessoas jurídicas. Estes são os mais conceituados. Já estive em dois ou três deles, sempre como convidado. Jamais iria por minha vontade. Mais ainda: em um deles, um dos templos das pessoas jurídicas, o Massimo, fui a convite de um amigo que naquele dia tivera grandes lucros na Bovespa. É um dos restaurantes diletos dessas flores como Delfim Netto, José Dirceu, José Sarney. Bueno, foi o único restaurante em São Paulo em que tive de devolver um prato. Pedi um coelho. Veio uma carne mal cozida e roxa, mandei de volta. O garçom me ofereceu uma outra opção. Não aceitei. Considero ofensivo, em restaurante com tais preços, receber um prato intragável. Saí sem comer.

Leio hoje no Estadão a confirmação de minha tese, a dos restaurantes para pessoas jurídicas. Consta que esta figura impoluta, o senador Fernando Collor, usa a dita verba indenizatória em restaurantes como o Porcão, em Brasília - onde o rodízio da churrascaria custa R$ 72 por pessoa. Uma das notas do Porcão, apresentada por Collor, é de R$ 841.

Durante o recesso parlamentar de julho, o senador usou R$ 518 da verba em visita à churrascaria Fogo de Chão, cujo preço por pessoa - sem bebida e sobremesa - é de R$ 79. Pelo mesmo restaurante passou o tucano Eduardo Azeredo (MG), mas na unidade de Belo Horizonte. Gastou R$ 763,60.

Já o presidente do Conselho de Ética, Paulo Duque (PMDB-RJ), senador sem voto que engavetou todos os os processos desta outra figura impoluta, o senador José Sarney, gastou R$ 600 no restaurante Lake’s. Ex-primeiro-secretário, Efraim Morais (DEM-PB), assim como Collor, também passou pelo Porcão, onde deixou R$ 560 pagos pela verba indenizatória do Senado. Esteve também no tradicional ponto político Piantella, famoso pelos vinhos e receitas clássicas, onde pagou uma conta de R$ 596.

No dia 30 de julho, uma outra figura impoluta, o corregedor do Senado, Romeu Tuma (PTB-SP), gastou R$ 1,4 mil da verba indenizatória na churrascaria Park Grill, na zona leste de São Paulo. Candidato em 2010, ele bancou toda a conta de um encontro com delegados do PTB do bairro paulistano. Já Valter Pereira (PMDB-MS) apresentou uma nota do Buffet Campo Grande, referente a junho, no valor de R$ 2,2 mil.

E por aí vai. Em uma de suas visitas a São Paulo, o desempregado ex-ministro José Dirceu abriu uma garrafa de vinho a 16 mil reais no Fasano. Quem paga todas essas contas? Quem as paga somos nós, que jamais comemos por 600 reais nem bebemos por 16 mil reais.

Tudo bem. Isto faz parte da vida nacional. O que me espanta é ver jornais denunciando a gastança e ao mesmo tempo louvando a excelência de tais restaurantes. Como se seus proprietários ou chefs não fossem cúmplices de grossa corrupção.

 
EUA TAMBÉM
TÊM SUPLICY



Michael Moore apresentou hoje em Veneza o filme Capitalism: A Love Story, no qual faz uma profissão de fé contra o regime que o nutre e sustenta. Segundo Moore, o capitalismo "não pode ser regulado, tem de ser simplesmente eliminado e substituído por um sistema mais justo”.

No final do século XIX, se bem me lembro, um outro iluminado já disse isto. Aliás, foi quem cunhou a expressão capitalismo. Vinte milhões de pessoas morreram na URSS em nome desta bandeira. Sessenta e cinco milhões na China. Dois milhões na Coréia do Norte. Dois milhões no Camboja. Um milhão no Vietnã. Um milhão e setecentos mil na África. Um milhão e quinhentos mil no Afeganistão. Mais um milhão na Europa do Leste. Cento e cinqüenta mil mortos na América Latina. Pelo jeito, Michael Moore ainda não ouviu falar disto.

O filme de Moore pretende retratar a ganância dos bancos e o resultado trágico, segundo ele, de uma desregulamentação do sistema financeiro. Além de acompanhar o despejo de alguns inadimplentes com as hipotecas, Moore denuncia verdadeiros crimes, como empresas que fazem apólices de seguro em favor de seus empregados e beneficiam-se delas, no caso de sua morte, em prejuízo das famílias dos mortos. O filme não se furta a indicar mesmo os nomes de diversas grandes empresas norte-americanas que usaram ou ainda usam este expediente.

Segundo os jornais, uma das seqüências mais provocadoras de Capitalism: A Love Story está em seu final - quando o próprio cineasta percorre diversos bancos em Nova York com um saco de pano na mão, com a intenção declarada de "recuperar" dinheiro subtraído aos contribuintes. Impedido de fazer esta coleta, Moore arranja então um rolo da fita normalmente usada pela policia norte-americana para isolar cenários de crimes, passando-a pela porta dessas instituições.

Seria interessante sabermos se Moore isolou os cenários dos bancos nos quais move o dinheiro que financia seus filmes e onde mantém suas contas. Pelo que li na imprensa, isto o filme não mostra. Michael Moore denunciando o capitalismo em nada difere de Eduardo Suplicy pedindo a renúncia de Sarney.

Os Estados Unidos também têm seu Suplicy.

Sexta-feira, Setembro 04, 2009
 
ATRÁS O MUNDO,
A DILMA À FRENTE



Estou seguindo a Dilma Rousseff
Desse caminho, eu não desisto
Estou seguindo a Dilma Rousseff
Atrás não volto, não volto não

Atrás o mundo, a Dilma à frente
Dilma é o Guia Onipotente
Atrás o mundo, a Dilma à frente
Atrás não volto, não volto não

Se me deixarem os pais e amigos
Se me cercarem muitos perigos
Se me deixarem os pais e amigos
Atrás não volto, não volto não.

Depois da luta, vem a coroa
E a recompensa é certa e boa
Depois da luta, vem a coroa
Atrás não volto, não volto não

(apud R. R. Soares)

 
SOBRE COLLOR E GETÚLIO,
PAULO COELHO E ADELITA



Há um certo escândalo na imprensa motivado pela eleição do ex-presidente e senador Fernando Collor de Mello para a Academia Alagoana de Letras. Sem ter livros comercializados em livrarias – escreve a Folha de São Paulo - ele vai freqüentar o local que já recebeu nomes como Aurélio Buarque de Holanda e Jorge de Lima. “Pelo edital da AAL, a apresentação de ao menos um livro era um requisito para a candidatura. Collor apresentou sete coletâneas de artigos, discursos e planos de governo publicados por gráficas oficiais, que foram aprovadas pela comissão julgadora da academia alagoana”.

Pelo jeito, nossos jornalistas foram acometidos de amnésia. Até hoje, pelo menos, ninguém lembrou que Getúlio Vargas, sem ter livro algum escrito, vestiu o fardão da Academia Brasileira de Letras. Como livro, apresentou os discursos reunidos em A Nova Política do Brasil, a maioria de autoria desconhecida.

Isso sem falar na Adelita, como se assinava o general Aurelio de Lyra Tavares, outro imortal de escol. Verdade que publicou vários títulos, particularmente sobre engenharia e vida na caserna, mas sem relação alguma com o que costumamos chamar de literatura. O momento alto do currículo de Adelita é sua participação na famosa Junta dos Três Patetas, que governou o país durante sessenta dias, de agosto a outubro de 1969. Foi o que bastou para baixassem o famigerado decreto que exigia diploma para o exercício do jornalismo, só agora revogado pelo STF.

Isso sem falar em Paulo Coelho. Melhor ter como luminar das Letras quem não escreveu nada do que quem escreveu o que escreve Paulo Coelho. Há momentos em que não escrever deve ser visto como respeito à literatura. Collor, pelo menos, teve esse pudor.

Quinta-feira, Setembro 03, 2009
 
SUPREMO APEDEUTA
ABRAÇA VIGARISTAS



Se alguém um dia me vir numa mesa de bar, ou estarei sozinho lendo meus livros ou jornais, ou acompanhado de pessoas inteligentes e honestas. Se há algo que não admito é gente desonesta perto de mim. Medíocres, muito menos. Dessa gente, evito até apertar a mão. Certa vez, em Porto Alegre, um governador gaúcho estendeu-me a mão na saída de um cinema. Permaneci impassível, de braços cruzados. Não tinha respeito algum por ele, não via porque cumprimentá-lo. Muito sem graça, ele desviou o cumprimento e pôs a mão em meu ombro. Meu ombro também permaneceu impassível. Deve ter dormido mal aquela noite, o governador. Provavelmente, foi a primeira vez em sua trajetória que alguém lhe recusou um aperto de mão.

Certa vez, um bom amigo me confessou que se sentiria muito honrado em um dia apertar a mão de Fidel Castro. Para mim, que o estimava, ele caiu dezenas de pontos com aquela confidência. Não por acaso, cortou relações comigo mais tarde. “Numa época que não poupa nada nem ninguém, vou poupar pelo menos a mim mesmo”, dizia Beethoven. Não devo nada ao poder, não tenho razões para genuflectir-me. Tampouco tenho paciência para suportar chatos.

Por estas e outras razões, abomino políticos. Políticos não podem recusar a mão a canalha algum. Uma mão, um voto. Conforme a mão, milhões de votos. Político não pode ser seletivo em suas relações. Se pretender relacionar-se apenas com pessoas honestas, jamais será eleito. Todo político sabe disto. E Lula mais que todos.

Há dois anos, o incorruptível líder sindical andava abraçado com Edir Macedo, este santo homem que em apenas 30 anos de apostolado ergueu templos de sua igreja em 172 países, vendendo esperanças no Além e no Aquém para os pobres de espírito que nele acreditam e contribuem generosamente com dízimos. Na ocasião, Edir Macedo inaugurava o seu novo canal de TV, o Record News, protestando contra o que chamou de "monopólio da informação" no País.

Ao lado de Lula e de José Serra, Macedo iniciou seu discurso com um ataque velado à concorrente TV Globo - dizendo que sua empresa "por anos foi injustiçada por um grupo que tinha e mantém o monopólio da informação no Brasil". Ressaltando que o canal de notícias será gratuito - os da Rede Globo são exclusivos para assinantes da TV paga - Macedo disse então que o novo canal pretendia levar informação de qualidade aos brasileiros.

Edir Macedo é o sumo sacerdote da Igreja Universal do Reino de Deus, que recentemente impetrou mais de cem processos, em distintos pontos do país, contra a Folha de São Paulo e contra a repórter Elvira Lobato, que denunciava suas falcatruas. Os processos, todos contra a jornalista, visavam tornar impossível sua defesa, já que teria de deslocar-se a todas as cidades onde era processada, algumas no Amazonas e onde se pode chegar só de barco. Foi evidente litigância de má-fé, que não foi aceita por juiz algum. Assim procede o pastor que protestava, abraçado a Lula, contra o monopólio da informação.

Lula, cinicamente, disse na ocasião que "o maior desafio do jornalismo continua sendo a missão de informar com independência, imparcialidade e a livre atuação dos meios de comunicação". Disse ainda que toda vez que participa da inauguração de uma rádio, TV ou jornal, tem a vontade de dizer: "Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós". Junto de Edir Macedo, Lula acionou o botão que colocou oficialmente no ar a nova emissora de TV.

Edir Macedo e mais nove cúmplices são hoje réus em processo por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Dados do Coaf apontam que as transferências atípicas e os depósitos bancários em espécie da igreja somaram R$ 8 bilhões de 2001 a 2008. A denúncia, aceita pelo juiz Glaucio Roberto Brittes, da 9ª Vara Criminal de São Paulo, resulta da mais ampla apuração sobre a movimentação financeira da igreja já feita em seus 32 anos de existência.

Não bastasse o presidente da República esfregar-se em um notório vigarista para garantir votos, esfregou-se também nestes personagens impolutos – José Sarney e Fernando Collor – para garantir apoio à sua candidata à sucessão. Não bastasse esfregar-se junto à escória da política nacional, hoje se esfrega em mais dois vigaristas, os bispos Estevam e Sonia Hernandes, da Igreja Renascer, que acabam de cumprir alguns meses de sol quadrado nos Estados Unidos, por entrarem no país com dólares não declarados escondidos numa Bíblia.

O público evangélico, segundo estimativas, representa 15% do eleitorado. Lula sancionou hoje projeto de lei que institui o Dia Nacional da Marcha para Jesus. Participaram da cerimônia, o presidente da Câmara, Michel Temer, o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, a delfina para 2010. De acordo com o texto sancionado por Lula, a Marcha para Jesus ocorrerá 60 dias após o domingo da Páscoa.

Mas que Jesus? O da Igreja Católica certamente não é. Os padres, bispos, arcebispos e cardeais católicos que ajudaram a criar o Supremo Apedeuta, hoje estariam se arrancando os cabelos, se carecas já não fossem. Os ditos neopentescostais, graças a suas promessas de riqueza aqui na terra mesmo, estão comendo pelas bordas a Igreja de Roma, que continua insistindo em sua opção pelos pobres.

Triste ver um presidente da República abraçado publicamente aos grandes vigaristas do país. Este é nosso carma. Enfim, ele precisa eleger-se e eleger os seus. Eu, que não sou candidato a coisa alguma, prefiro curtir meus poucos e bons. É hora de lembrar Guerra Junqueiro.

 
PARASITAS

Guerra Junqueiro


No meio duma feira, uns poucos de palhaços
andavam a mostrar, em cima dum jumento
um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magros histriôes, hipócritas, devassos,
exploravam assim a flor do sentimento,
e o monstro arregalava os grandes olhos baços,
uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos:
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,

eu lembrei-me de vós, funâmbulos da cruz,
que andais pelo universo, há mil e tantos anos,
exibindo, explorando o corpo de Jesus.

Quarta-feira, Setembro 02, 2009
 
DIVÓRCIO ON LINE,
POR QUE NÃO?



A possibilidade de pedir a separação ou o divórcio por meio da Internet foi aprovada hoje por unanimidade pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado. A idéia não é má. Se as pessoas são adultas – e é de supor-se que pessoas casadas o sejam – e não há filhos nem bens em litígio, não vejo porque recorrer à Justiça. Quem não vai gostar da idéia são os picapleitos, que perderão um próspero mercado de trabalho. Para Adriano Ferriani, professor de direito civil e especialista em família da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a medida facilitará o divórcio. “Vai haver economia de tempo e de dinheiro, além de representar uma desoneração do Estado", afirmou.

A autora do projeto é a senadora Patrícia Saboya (PDT-CE), que se preocupa a redução de custos, em especial quando os casais estiverem residindo em cidades, Estados ou países diferentes, pois poderão cumprir os procedimentos necessários sem ter de arcar com as despesas de viagens. "A separação de um casal é sempre um processo traumático, causador de muito sofrimento, e os procedimentos judiciais, na forma tradicional, muitas vezes, acabam por expor o casal e os filhos a discussões e constrangimentos desnecessários". Até aí, tudo bem. Imagine alguém ter de atravessar um oceano para tratar de uma separação, como acontece hoje. Isso sem falar que com a tal de crise - a propósito, para onde ela foi? -, muitos casais que gostariam de separar-se foram deixando a coisa para depois, afinal sustentar duas casas é bem mais caro do que uma.

São as facilidades destes dias de Internet que se impõem inclusive ao mundo jurídico. Mas fica a pergunta: se é possível fazer o distrato via Internet, por que não o contrato? Os muçulmanos parecem ter resolvido pragmaticamente o problema. No Estado do indiano de Uttar, desde 2007 os casamentos pela internet e os divórcios por mensagens de texto via celular são permitidos. O que despertou o alarme em ativistas que lutam pelos direitos da mulher. Se se pode divorciar-se pela Internet, por que não por torpedos? O problema residual é que o homem pode divorciar-se por celular. A mulher, não.

Já comentei, em crônicas passadas, a lei muçulmana dos três talaks (repúdio). Pronunciado três vezes o talak pelo marido, a mulher está divorciada. Claro que o inverso é inimaginável. Mulher vale sempre metade no Islã. Se o Corão reconhece às mulheres o direito à herança, os doutores da lei decidiram que a mulher só pode receber metade da parte devida ao homem. O testemunho de um homem vale pelo testemunho de duas mulheres. Um homem pode ter quatro mulheres. A mulher, um homem só.

A idéia de divórcio por celular não me parece de todo descabida. Se os ulemás aceitam o divórcio por "triplo talak", desde que pronunciado na presença de testemunhas, por que não um só talak por celular? Mas seria necessário existir consenso entre ambas as partes, consenso que os muçulmanos dispensam tranqüilamente. Se a idéia é interessante para o Ocidente, onde homem e mulher gozam da mesma condição legal, no universo islâmico é injusta em relação à parte mais fraca do contrato.

Pensando um pouco mais adiante: para que contrato? Casar-me foi algo que jamais me ocorreu. Vivi doze anos com minha Baixinha e casamento estava fora de cogitação para nós. Acabamos casando em função de minha bolsa na França. Era a maneira mais confortável de levá-la e isso me renderia uma aide familiale que pagaria metade de meu aluguel. Então tá! Se nunca tive respeito pela instituição do casamento, tanto fazia casar como não casar. Casar, no caso, nos garantia uma grana extra em Paris, muito oportuna para curtir vinhos e queijos. Alors, pourquoi pas? Ela costumava dizer: “casei por dinheiro com um homem que não tinha um vintém”. Não tinha mesmo. Mas aconteceu e foi muito bom.

De acordo com assessoria de imprensa da senadora Patrícia Saboya, a forma como será feita a petição ainda será regulamentada. Uma das possibilidades é a senha online para cada uma das partes acompanhar o processo. A petição online só servirá para os casos de divórcio e separação amigáveis, para casais sem filhos menores de idade ou dependentes incapazes.

O projeto ainda não foi aprovado pela Câmara. Se conheço os bois com que lavro, não o será. A OAB e os rábulas do país todo serão certamente contra. E o leite das criancinhas dos senhores advogados, como é que fica? Em todo caso, se o projeto for aprovado, só deixo uma recomendação aos cônjuges: se estiver bebendo frente ao computador, espere mais algumas horas para pedir divórcio. Álcool mais Internet podem levar a transportes dos quais talvez você se arrependa no dia seguinte.

Se for divorciar-se, não beba.

Terça-feira, Setembro 01, 2009
 
TARDE PIOU PUTIN


Vladimir Putin, o primeiro-ministro da Rússia – em verdade o ditador escondido sob capa parlamentar - manifestou ontem seu reconhecimento "aos milhões de soldados da coalizão anti-Hitler, à resistência e aos civis que morreram nas mãos dos carrascos" nazistas. Num ato em Gdansk para lembrar o início da Segunda Guerra Mundial, Putin reconheceu que o pacto Ribbentrop-Molotov "não foi moral".

O primeiro-ministro russo também condenou o acordo a partir do qual, em 1939, a extinta União Soviética e a Alemanha nazista dividiram entre si suas zonas de influência na Polônia e o resto da Europa. "Nosso país reconhece seus erros e confia em sua participação no novo mundo", destacou o ditador russo, chamado gentilmente pelos jornais de chefe do Executivo da Rússia. Tarde piou Putin. Setenta anos se passaram desde então. Comunistas da Alemanha toda, em cega obediência ao Paizinho dos Povos, passaram a entregar seus companheiros de partido às autoridades nazistas. A aliança teve reflexos no mundo todo.

Aqui no Brasil, Jorge Amado, a celebrada vestal das letras nacionais, passou a editar uma página cultural no jornal nazista Meio-Dia, e tentou inclusive cooptar Oswald de Andrade como colaborador. Acenou com trinta contos ao escritor paulista, caso este se dispusesse a escrever um livro em defesa da Alemanha de Hitler. Oswald se recusou, exigiu que o baiano se retirasse de São Paulo e o denunciou como espião barato do nazismo. Antes de morrer, Amado dizia não lembrar mais de ter colaborado com o Meio-Dia. Maravilha perder a memória. Fica a lembrança de Oswald, registrada no livro que reúne suas entrevistas, Os Dentes do Dragão.

Falta ainda Putin reconhecer que não foram morais as purgas de 35, os gulags, as deportações para a Sibéria, os assassinatos de dissidentes e não só de dissidentes, mas de quem quer que Stalin, em sua paranóia, desconfiasse ser dissidente. Falta também dizer que não foi moral o massacre do tsar e sua família, o massacre de Katyn, o assassinato de Trotsky e as calúnias contra Kravchenko. Y otras cositas más.

Quem matou mais comunistas no mundo? Stalin, o líder comunista. Matou 20 milhões de pessoas, e a maioria destas vítimas eram russos. Só Mao conseguiu matar mais que Stalin: 65 milhões. Os dois maiores matadores de comunistas da História foram... os líderes comunistas Mao e Stalin. Nem Hitler conseguiu matar tantos.

Em 2007, sob a batuta de Putin, foi publicada em Moscou uma História Contemporânea da Rússia, 1945-2006, que diz ser a União Soviética “não uma democracia, mas um exemplo de sociedade justa”. Que Stalin foi o dirigente soviético cuja obra foi “a mais bem-sucedida”, por ter transformado a URSS em uma potência industrial e tê-la conduzido à vitória de 1945. Quanto à repressão política que fez milhões de vítimas, ela teria sido utilizada com o único objetivo de “mobilizar não só somente a base, mas a elite dirigente”.

Em 2006, um museu Stalin abriu suas portas em meio ao complexo oficial que comemora a batalha de Stalingrado. Sem que o Kremlin dissesse qualquer coisa contra. Tampouco disse nada contra a reaparição de bustos e estátuas de Stalin em diversas regiões do país. A rede televisão NTV difundiu naquele ano uma série em 40 episódios, intitulada Stalin Live, mostrando o tirano em vias de arrepender-se nos últimos meses de sua vida. “Há uma demanda que vem de baixo, endereçada ao poder em favor de uma revisão da História” – disse na ocasião Alexandr Daniel, filho do antigo dissidente Youli Daniel -. “O poder responde na medida em que isto serve seus próprios propósitos. Não sei onde isto vai parar”.

Putin condenando o pacto Stalin-von Ribbentrop lembra um pouco Eduardo Suplicy pedindo a renúncia de José Sarney. Assim como Kadafi, o ditador líbio, se redimiu ante o Ocidente após ter derrubado um avião sobre Lockerbie, matando 270 pessoas, o ex-agente da KGB está passando por liberal para uma imprensa que parece não ter memória.

Santa amnésia.

 
MARXISMO E CARÊNCIA
DE PAPEL HIGIÊNICO
NO MUNDO SOCIALISTA



Escrevi há dois dias sobre a carência de papel higiênico em Cuba. Afirmei não acreditar que esta falta tenha se manifestado apenas agora. Num país onde as pessoas vivem em nível de fome, desde há muito os cubanos devem estar conferindo ao Granma a única utilidade que o jornal tem.

O polêmico Cabo Anselmo me confirma. De uma terna amiga do sul, recebo esta mensagem:

Eu estive ouvindo a rádio Bandeirantes (SP) na madrugada de ontem. Eles entrevistaram o Cabo Anselmo, envolvido durante a chamada revolução de 64. Em determinado momento da entrevista, falavam sobre Cuba. (Ele teria estado por lá, naquele tempo). Então ele falou, "Pois é, andei lendo num blog, sobre falta de papel higiênico em Cuba. Está certo. Mas esse problema sempre existiu, lá..."

Claro que sempre existiu. Algum jornalista mais arguto só agora a descobriu. A carência de papel higiênico nos países comunistas, repito, já está nas primeiras páginas de O Capital. Cabo Anselmo que o diga.